Você está na página 1de 19

Aula 23/04/2018 Profa.

Maria Alejandra Nicolás


Maquiavel “O Príncipe”;

Renascimento (final do século XIV - início do século XVII)


 Ruptura com os tempos medievais, transição do feudalismo - modo de
organização social e econômica que se baseou nas relações servo (dono da
terra) para o capitalismo (sistemas econômicos entrincheirados com as
revoluções liberais do século XVIII)
Valores:
 Antropocentrismo: o homem é a medida de todas as coisas, o mundo é o
resultado da ação humana, contrária ao pensamento do teocentrismo;

 Individualismo: a capacidade do homem de levar sua vida e fazer escolhas;

 Realismo: aplicado aos Estados que atuam pela manutenção do poder e pela
segurança do território;
 Racionalismo: a explicação é buscada na razão humana;

Panorama político da Itália

A tirania prevalece na maioria dos principados (governos despóticos sem tradição


dinástica)
Eixos da administração: a prática política é baseada em atos de força para esmagar a
oposição, para amedrontar os sujeitos e alianças com outros principados;
Ausência de um estado central cria um vácuo de poder;
Exércitos: os pequenos estados não tinham recursos para a manutenção de exércitos
estáveis. Condottieri: eram mercenários que vendiam serviços de segurança para os
príncipes de pequenos estados;
Cinco grandes estados dominaram a Itália, com níveis variados de desenvolvimento
econômico, cultural e político: mosaico, conflitos e invasões
 Sul: Reino de Nápoles (Aragão)
 Centro: os Estados Pontifícios (Igreja) - Florença (Médicis)
 Norte: Ducado de Milão - Veneza
A maioria dos historiadores atribui o surgimento dos estados modernos na Itália. Os reis
governaram com o apoio e resistência das camadas sociais do reino (Corte em Portugal,
Parlamento na Inglaterra). Estado e Governo: não há distinção: O Estado deixou de ser
um poder feudal para ser uma máquina estado: inovações na arte da guerra, em
procedimentos burocráticos e em atividades diplomáticas.
 Diplomacia: manter funcionários por um tempo específico em uma região.
Maquiavel e sua trajetória

Comece na vida pública em uma posição de pouca importância (chancelarias) em


Florença; Com mudanças de titulares de poder é indicado para o cargo de Segundo
Chanceler da República (funcionário permanente); A questão "Vitelli" gera um dos temas
de seu trabalho: a necessidade de uma milícia nacional, formada por militares nacionais
locais. A soberania política depende de um exército que seja fiel ao reino e convencido
da luta pela causa do país.

Os constantes conflitos com a França levam-no a refletir sobre: o pequeno peso que
um pequeno Estado tem em qualquer conflito e que pouco deve ser confiado em aliados
muito poderosos.

Como chanceler das milícias locais, resgata dois elementos: Os Estados e Governantes
dependem de dois fatores: 1- Justiça; 2- Armas; Ele termina sua carreira pública
confinada à sua propriedade privada (ele escreve "O Príncipe", 1512-1513).

A nova ciência política


A teoria do Estado até então não excedeu os limites da especulação filosófica (Platão,
Aristóteles, Tomás de Aquino) - O estudo foi orientado para a moralidade, construir
modelos ideais de boa governança e uma sociedade justa, deveria ser; defenda o
método de pesquisa empírica. Estudar a sociedade para eventos humanos. Objeto é a
realidade política - estudo do poder formalizado na instituição do Estado, ao contrário
do escolasticismo medieval. (Verdade efetiva das coisas).
Estado Independente da Igreja. Separação de moral individual/ moral pública; O espaço
da política é governado por diferentes mecanismos que movem a vida privada;
A regra metodológica: observe a realidade como ela é apresentada. Como estabelecer
um governo estável? Ele precisa de teoria: uma filosofia da história e da psicologia
humana.
O problema central é "Construir uma ordem estável capaz de estabelecer um Estado
estável". Diferente de uma ordem eterna e natural; A política é o resultado de forças
provenientes das ações concretas dos homens que vivem na sociedade;
Obra que pretende ser um tratado sobre as condições de aquisição e manutenção do
poder em um principado. Texto de natureza teórica, quando se fala dos príncipes
também trabalha com uma tipologia de governantes que de alguma forma está
relacionada a um tipo de Estado (KRITSCH, 2001).
Primeiro grande tema: Campo de ação política, implementação de poder a partir da
conquista e manutenção que ocorre pela eliminação dos bolsões de resistência e pela
sujeição dos aliados. Cap. 1 a 12
Todas as formas políticas: Principados e repúblicas;
De acordo com a forma de acesso ao poder: Hereditária, Nova e Mista (Estados
anexados a um antigo);
Novos Principados podem ser adquiridos (formas de conquista e estabilidade):
 para o Virtú: difícil conquistar, porém mais fácil de manter.
 Fortuna: a manutenção depende pouco das qualidades do príncipe e, portanto,
é instável. (Capítulo 7)
 por violência: risco de rebelião permanente, a menos que o príncipe saiba usar
bem a crueldade.
A fortuna é assimilada ao pensamento grego: Deusa da fertilidade que possuía todos
os bens que os homens desejavam, a glória, riqueza, poder e honra. Para atraí-la, um
homem de coragem era necessário, aquele homem que tinha virtu era capaz de
sedução. O uso virtuoso da força;
Segundo grande tema: Meios materiais da ação do príncipe, parte técnica do livro.
Exame do uso da força e como manter a energia - Cap. 12 a 14.
Quais são os instrumentos de comando que asseguram a estabilidade do poder e a
estabilidade do Estado?
Boas leis e boas armas! O foco será armas. Estas são as primeiras condições de
qualquer boa lei, garantem a eficácia!
Próprio: subordinado ao comando do príncipe, sendo o capitão do exército (institucional
nas repúblicas).
Mercenários: inútil e perigoso, você nunca terá certeza. Não há fidelidade ao Estado,
exceto pelo fato de um pequeno pagamento.
Terceiro grande tema: o comportamento dos príncipes com seus súditos e amigos. A
preocupação é o que fazer. A preocupação é com as qualidades que um príncipe deve
ter, ser respeitado ou desprezado. O príncipe não pode ter posse de todas as qualidades
vistas como boas pela condição humana. No entanto, deve ser prudente e saber como
evitar os defeitos que extinguiriam o estado. E, no entanto, que os defeitos que levam à
sua manutenção são aceitos.
Para Maquiavel, a complexidade da política não pode ser reduzida ao bom uso de
armas. Por um lado, a natureza humana é imutável, existem vestígios que se repetem
nos homens "covardes, ingratos, simuladores, ávidos por ganhos", pois permanecem
em todos os tempos e as sociedades transformam a história em uma fonte de
ensinamentos:

A política e a moral pertencem a diferentes sistemas éticos: uma ética individual pode
produzir santos, mas não produz política. Nova perspectiva da ética do pensamento, é
necessário pensar sobre os resultados dos comportamentos dos outros, toda ação
social é uma relação social.
O príncipe pode usar (quando a necessidade exige) o que é convencionalmente
chamado de "razão de Estado": essa razão pela qual o governante pode ser levado a
violar tanto os padrões legais morais quanto os atuais, em nome da manutenção da
ordem interna. E segurança externa, como o príncipe deve ser o proprietário exclusivo
do uso da força "(Kritsch, 2001)
Os propósitos do estado são supremos. O comportamento violento dos fundadores do
Estado, objetivamente justificado: a criação de uma autoridade do Estado é essencial
para que o Estado exerça sua ordem e função civilizadora. Esta condição indispensável
para o Estado.

Política de Maquiavel:

1. A recusa a qualquer ética individual absoluta: especialmente o cristão como


princípio orientador da ação política, uma vez que tem suas próprias
necessidades;

2. Instrumentalização do poder moral: o príncipe deve ser capaz de fingir ou ter


certos atributos morais, ele deve ser capaz de simular e esconder;

3. Reintegração dos fins morais na ação política: o caso da reconciliação entre os


valores atuais (o bem comum da grandeza nacional, a generosidade etc.) e as
condições de efetividade da ação política.
Construir o estado envolve ordenar a vida das pessoas e das pessoas ou grupos,
organizando interesses potencialmente conflitantes. Seja para o controle do conflito ou
para o seu regulamento! Requer um poder baseado na força, capaz de gerar instituições
(exército, leis, normas, religião). Então a noção do bem comum surge. Para Maquiavel
será o príncipe capaz de unificar o território e fundar o Estado.
Aula 23/04/2018
Para isso, aponto pelo menos um aspecto importante de ruptura entre as doutrinas
parlamentaristas e radicais: a defesa da soberania fundada no poder da multidão.
Em face desse fato novo, Hobbes procurou, num só golpe, demolir as bem-
sucedidas doutrinas parlamentaristas, que haviam se contraposto às pretensões
absolutistas de Carlos I, e algumas doutrinas radicais, cujo propósito era pôr fim às
pretensões absolutistas dos próprios parlamentaristas, principalmente os
presbiterianos.

Instituída a representação por meio de eleições – a maior das virtudes que se pode
conceder a um homem –, o Parlamento passa a ser, finalmente, “o verdadeiro corpo do
povo”. (Parker, 1642, p. 15)

Nesse sentido, se o próprio Parlamento viesse a praticar abusos e usurpações, para os


quais não recebeu, nem poderia, autoridade, então estaria sujeito a sofrer resistência
legítima por parte do povo. (Escritor anônimo)
Quanto aos parlamentares, eles estão obrigados, por dever de consciência, a resistir à
vontade arbitrária do rei. De fato, eles não apenas receberam, em confiança, a
autoridade e o cargo para concentrar a autoridade universal e popular, como ainda, na
qualidade de “atores representantes” (Anônimo, 1999 [1643], p. 279), supõe-se que
atuem visando à ordem, ao bem público e à conservação.
Se nos voltarmos para o principal argumento contra a soberania do Parlamento,
veremos que se fundamentava no direito do povo ao autogoverno, de acordo com o qual
nenhum homem jamais poderia consentir em alienar inteiramente seu poder a quem
quer que fosse não importa se rei ou Parlamento. A razão é simples: seria insensato um
contrato por meio do qual o detentor original do poder se comprometesse a sofrer danos
quando o suposto fideicomissário julgasse conveniente. Um ser racional, portanto, não
concede poderes ilimitados e arbitrários às instituições criadas para lhe proporcionar o
bem.
Todo pacto de alienação de poder, com compromisso de não resistência, é ipso facto
nulo; só tem vigência o pacto de delegação de poder e apenas enquanto se mantiver a
relação de confiança entre as partes contratantes.
“O povo nunca seria tão tonto a ponto de conceder tamanho poder àqueles a quem
escolhe como seus servidores” (Lilburne, 1998a [1645], p. 6)4.
Segundo uma visão tradicional, o povo que participa do Parlamento é o conjunto dos
ingleses livres, isto é, homens cujos rendimentos atinjam 40 libras anuais (R$192,00).
Esse é o pré-requisito básico para o exercício mais elementar e reduzido da cidadania.
Na reforma social arquitetada pelos levellers, a redefinição dos critérios de
representação permitiria substituir, como base de direitos políticos, o direito de
propriedade pelo direito inato (Crawford, 2001, p. 200). A partir disso, a condição
universal de ter nascido livre se converteria em critério de cidadania: o povo deixaria de
ser constituído unicamente por aqueles que possuem, segundo Ireton, “um interesse
permanente no país” (apud Sharp, 1998, p. 114) e passaria a incluir todos os indivíduos
racionais que vivessem no país. A esse fenômeno de inclusão poderíamos chamar,
retrospectivamente, de “processo de democratização do povo”. Seu pressuposto, como
parece claro, é a defesa do igualitarismo que tanto assustava os críticos dos levellers
na década de 1640.
“Todo governo reside no livre consentimento do povo” (apud Sharp, 1998, p. 116).
Para os parlamentaristas, o contrato que confere autoridade ao rei não o torna superior
ao corpo do povo (em sentido estrito), o que deixa espaço para resistência quando o rei
abusa de sua autoridade.
Agora Hobbes desejava contribuir para o debate constitucional do país, posicionando-
se a favor das novas autoridades e contra os revoltosos da nova ordem – os radicais.
“ Hobbes afirma que seu discurso sobre a república se coloca entre dois extremos, entre
os que “se batem, de um lado, por excessiva liberdade” e, de outro, “por excessiva
autoridade” (Hobbes, 2003 [1651], p. 5). ”
O Leviatã trata da soberania, do Estado, e não da pessoa que representa a
soberania – seja Carlos, Oliver ou John.
Para ele, quando estão em questão as pessoas artificiais, o “autor” é a pessoa a quem
pertencem algumas palavras e ações, as quais são representadas, em certos casos,
por um “ator” ou “representante”. Nesse sentido, agir por autoridade – representar – é
ter recebido um mandato ou licença para realizar uma ação da pessoa ou das pessoas
que antes necessariamente possuíam o direito de praticar as ações elas mesmas.
Hobbes concorda que a via da democracia direta reserva inúmeros obstáculos, a
verdadeira finalidade de Hobbes é mostrar que a representação converte a multidão
numa pessoa artificial, sim, mas numa pessoa artificial ao mesmo tempo independente
das pessoas representadas e das pessoas representantes, distinta dos governantes e
dos governados.
Não é o povo a origem do poder político, nem o detentor da soberania. É a multidão,
conjunto desorganizado e heterogêneo de vontades, a origem desse poder, Hobbes
sustenta que a multidão é capaz de ação somente como unidade e, principalmente, que
essa unidade mantém uma dependência visceral em relação ao poder coercitivo.
O primeiro erro Hobbes atribui, não sem maldade, à falta de estudo e entendimento
dos parlamentaristas. Por precipitação, eles tomam o significado de “povo” por
“multidão”, ignorando que o primeiro termo indica a ação de muitos homens e o
segundo, muitas ações de uma multidão. Daí a diferença de se dizer, por exemplo, que
o senado romano matou Catilina e que muitos senadores mataram César (Hobbes, 2003
[1651], p. 89). Por conta dessa confusão inicial, incorre-se num segundo equívoco,
ainda mais grave, o qual consiste em tomar o efeito pela causa, ignorando-se que a
instituição do poder soberano exige a realização de 168 Soberania e representação:
Hobbes, parlamentaristas e levellers Lua Nova, São Paulo, 80: 151-179, 2010 um pacto
entre indivíduos dispersos, e não entre o soberano representante e as partes (Hobbes,
2003 [1651], p. 150).
Disso necessariamente resulta que apenas existe um povo depois, não antes, de
instituída a soberania e criado o Estado.
Revelados os erros sobre os quais se erige a (pseudo) categoria política conhecida
como povo, cai por terra a base ideológica do pensamento parlamentarista, arrastando
consigo duas importantes implicações constitucionais que se erguiam sobre essa base:
a afirmação da soberania popular e a teoria do Parlamento como representante do povo.
Se não existe povo antes do contrato, ou seja, um corpo unificado capaz de agir como
vontade única, então é obviamente falsa a afirmação de que o povo impõe restrições à
autoridade política do governante.
Na hipótese de rompimento do contrato, que constitui injustiça praticada pelos súditos,
nunca pelo soberano (Hobbes, 2003 [1651], p. 152), o poder retorna à multidão e a
soberania chega ao fim. Portanto, a expressão “povo soberano” é absurda, não quer
dizer nada.
O Parlamento é portador da soberania absoluta na medida em que unifica, como
representante, todas vontades múltiplas e dispersas da multidão (Hobbes, 2003 [1651],
p. 160)
O absurdo da teoria constitucional parlamentarista reside então na afirmação de que o
povo pode ser representado, seja lá por quem for.
O verdadeiro detentor da soberania não é nem o povo, como comunidade organizada,
nem o rei (pessoa natural), mas uma pessoa jurídica e abstrata, conhecida como
Estado, que, para agir, deve ser representado pelo soberano (Skinner, 2003, p. 66;
2002b, p. 394).
“Pessoa de cujos atos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com os
outros, foi instituída por todas como autora” (Hobbes, 2003 [1651], p. 148).
Essa pessoa, por sua vez, sendo fictícia ou artificial, deve ter como portador o soberano
(Hobbes, 2003 [1651], p. 148).
Não existe o corpo político do povo (Hobbes).
Quem concede autoridade ao representante deve ser considerado autor de suas ações
e assumir a responsabilidade por suas consequências (Hobbes, 2003 [1651], p. 138).
Todos os atos e decisões do soberano representante pertencem aos representados e
devem ser reconhecidos como atos e decisões deles (Hobbes, 2003 [1651], p. 149).
“Aquele que se queixa de dano causado por seu soberano estará se queixando daquilo
de que ele próprio é autor, portanto não deve acusar ninguém a não ser a si próprio”
(Hobbes, 2003 [1651], p. 152).
Empenho de Hobbes em convencer seus leitores de que o Leviatã é a multidão
irremediavelmente unida num só corpo.
Hobbes sustentava – no plano dos argumentos e das imagens – que, uma vez criada a
república, já não era mais possível retirar o consentimento ou a procuração conferida
ao soberano, mesmo nas inevitáveis situações de descontentamento. Isso porque, com
a autorização, o consentimento inicial, o pacto fundador, se converteria em
consentimento contínuo, em pacto incessante e tacitamente celebrado. Incorporando a
multidão.

E a arte vai mais longe ainda, imitando aquela criatura racional, a mais excelente obra
da natureza, o Homem. Porque pela arte é criado aquele grande leviatã a que se chama
Estado, ou Cidade (em latim Civitas), que não é senão um homem artificial, embora de
maior estatura e força do que o homem natural, para cuja proteção e defesa foi
projetado. (Hobbes, [1651], P.15).
O contratualismo hobbesiano; 07/05/2018
Definição de Thomas Hobbes, para o "Estado de Natureza" é qualquer situação em
que não há um governo que estabeleça a ordem. O fato de todos os seres humanos
serem iguais no seu egoísmo faz com que a ação de um só seja limitada pela força do
outro. "O homem é o lobo do homem". O ser humano, sendo dotado de razão torna-se
livre. Para que todos não acabem se matando e tenham segurança, é necessário um
Estado, uma instituição de poder comum. Aqui o "direito natural" é o direito de cada um
usar o seu poder para se auto preservar e satisfazer os seus desejos.

É possível, como pretende Hobbes, deduzir o Estado do estado de natureza?

No final do capítulo XIII, nosso autor explica de que modo seria possível sair daquele
deplorável estado no qual, não havendo propriedade, nem noções partilhadas do bem,
do mal, da justiça e da injustiça, nem oportunidade para a indústria, as artes e as
ciências, “e a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta” (Hobbes,
1983: 76).

A solução de Hobbes é extremamente simples: seriam certas paixões (basicamente,


o medo da morte violenta nas mãos de outro homem, junto com o desejo de uma
vida confortável) de mãos dadas com a razão (a partir da qual poderiam ser conhecidas
as normas de paz, isto é, as leis da natureza que fazem possível a convivência) as que
permitiriam pôr fim à guerra.

RAZÕES E PAIXÕES:

O homem é uma espécie de máquina de desejar, e o objeto do seu desejo constitui


o bem, enquanto o objeto da sua antipatia recebe o nome de mal. As paixões são os
movimentos que impulsionam os homens e, por sua vez, decorrem de outros
movimentos. Mas há também uma paixão que os homens possuem e os animais não,
ou possuem-na num grau ínfimo, enquanto que nos homens é primordial: a
curiosidade, o “desejo de saber o porquê e o como” (Hobbes, 1983: 35). Graças a
ela, a existência humana não se desenvolve num espaço de desejos e satisfações
imediatos, mas sim num mundo condicionado pela muito humana ansiedade diante da
garantia de futuras satisfações. Daí a constante busca de meios que conduzam a essas
satisfações e de meios que sirvam para garantir esses meios, ou, em outras palavras,
“um perpétuo e irrequieto desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte”
(Hobbes, 1983: 60).

Definição de poder segundo Hobbes: é poder tudo aquilo que pode ser utilizado como
meio para conseguir um fim: dotes naturais, habilidades adquiridas com o tempo e a
experiência, bens externos de todo tipo: “qualquer qualidade que torna um homem
amado, ou temido por muitos, é poder; porque constitui um meio para adquirir a ajuda e
o serviço de muitos” (Hobbes, 1983: 53).

Três causas de discórdia ativas no estado de natureza;

1. Competição (pelo benefício)


2. Desconfiança (pela segurança)
3. Glória (pela reputação)

Assim, enquanto não houver um poder comum que atemorize os homens, o estado de
natureza será um estado de guerra, real ou potencial.
Sobre o direito de propriedade, Hobbes afirma que no estado de natureza é substituído
por apropriação aonde a força e a fraude se constituem nas duas virtudes cardeais. Ou
seja, o estado de natureza é, antes de tudo, um caos de subjetividade. Nele, cada um
pode utilizar livremente a sua razão para procurar seus próprios fins; cada um é juiz
sobre o que é ou não é racional.

Sobre o direito da Natureza e a lei da natureza;


O direito de natureza tem para Hobbes caráter facultativo (não obrigatório),
diferentemente da lei da natureza, que é “obrigatória”, está ligada diretamente com a
liberdade, que deixa o homem usar o poder que possui como bem entende, afim de
conservar a sua vida.

Já a lei fundamental da natureza, pelo contrário, é uma norma que proíbe um homem
de fazer o que pode destruir a sua vida ou privá-lo dos meios para conservá-la, ou omitir
aquilo mediante o qual acredita que a sua vida pode ficar mais bem protegida.

Pois bem, dessa lei fundamental derivam-se outras sendo elas:

1. Primeira das quais estabelece a obrigação de “buscar a paz e segui-la”,


mas esclarecendo que caso seja impossível obtê-la, devem ser utilizados
todos os meios de guerra.

2. A segunda lei natural proporciona os meios para consegui-lo: “renunciar


ao direito a todas as coisas e nos satisfazermos com a mesma liberdade
que concedamos aos demais em relação a nós”.

E a partir dessas leis foi surgindo mais, sempre com o intuito de controlar o poder de
cada indivíduo. Mas todas estas, “na ausência do temor de algum poder capaz de levá-
las a ser respeitadas” são, de acordo com o que afirma Hobbes, “contrárias a nossas
paixões naturais” (Hobbes, 1983: 103), isto é, só podem ser efetivas quando o ator
se sente seguro de segui-las sem que isso redunde em seu próprio prejuízo.

Para John Locke, o Estado de Natureza não é apenas uma construção teórica, ele
sempre existiu. Locke entendia que no Estado de Natureza as pessoas eram
submetidas à Lei da Natureza o que era possível porque elas eram dotadas de razão.
Nesta Lei da Natureza cada indivíduo poderia fazer o papel de juiz e aplicar a pena que
considerasse justa ao infrator. Para Locke, "não é toda convenção que põe fim ao estado
de natureza entre os homens, mas apenas aquela pela qual todos se obrigam juntos e
mutuamente a formar uma comunidade única e constituir um único corpo político; quanto
às outras promessas e convenções, os homens podem fazê-las entre eles sem sair do
estado de natureza".

O "estado de natureza" é sempre um estado de Guerra: mesmo que não haja


batalha, ela está latente, podendo ocorrer a qualquer momento e sem causa
aparente. Preocupados em se defender ou atacar, todos os seres humanos se tornam
incapazes de gerar riquezas. De acordo com Hobbes, “a origem das sociedades amplas
e duradouras não foi a boa vontade de uns para com os outros, mas o medo recíproco”.

Diferentemente de Locke e Hobbes, Rousseau não acreditava que o estado de


natureza seria uma etapa da história humana caracterizada por inconveniências que
deveriam ser substituídas pela sociedade civil. Na verdade, Rousseau é conhecido por
ser o filósofo do bom selvagem por atribuir características positivas ao estado de
natureza. Na concepção de Rousseau, o ambiente natural seria como se fosse criado
para servir as necessidades do homem. Por isso ele havia de ter poucas preocupações,
tais como preservação, reprodução e alimentação. Outro ponto importante é o fato de
que em estado de natureza, o homem primitivo vive em isolamento. A ausência de
comunidades era consequência da falta de necessidade que um tinha do outro. A
propriedade privada de qualquer espécie não existia, esporadicamente os machos e as
fêmeas se encontrariam com fins reprodutivos e os filhos deixariam suas mães assim
que estivessem aptos a se alimentarem por conta própria. Esse isolamento teria
favorecido o surgimento de qualidades positivas ao homem natural, como a bondade,
que é relacionada ao amor de si mesmo e a piedade. Da mesma forma, o isolamento
teria inibido aspectos negativos como a ânsia de poder e gloria, uma vez que estes
dependem das opiniões alheias. Rousseau adiciona que essas características apenas
fazem sentido para os que estabelecem algum tipo de relação social, logo elas não são
uma realidade aos selvagens justamente pela falta de uma relação moral entre eles.

A instituição da propriedade privada seria o marco do fim da liberdade natural


encontrada no estado de natureza. Quando o homem cercou um terreno e definiu o
que seria somente seu, ele é coibido a pensar em necessidades que não possuía. A
coletividade sufocaria as qualidades naturais e despertaria paixões e vícios, que
empobreciam e infelicitavam a vida em sociedade. Seria então um estado de guerra
generalizada.

A Guerra Civil

Antecedentes
As causas da Guerra Civil Inglesa podem ser traçadas desde 1625 quando o Rei
Carlos I casa-se com uma francesa católica, e isso irá contrariar os puritanos que
correspondiam a um terço do Parlamento. Em 1626, Carlos I nomeia o Duque de
Buckingham (um parente seu) para ministrar a guerra contra a Escócia, o que contraria
o parlamento. O rei então acusa o parlamento de incompetente e o desfaz. Em março
de 1628, o rei convoca um novo parlamento que tem como líder Oliver Cromwell e em
junho do mesmo ano o parlamento elabora a Petição de Direitos que procura aumentar
a importância do Parlamento frente ao rei e em uma das questões da Petição alegava
o consentimento do parlamento para o aumento dos impostos, ou mesmo a criação de
um novo. Carlos tenta então aprovar um imposto sobre mercadorias importadas, porém
o Parlamento veta a criação do novo imposto e é fechado pelo rei. Durante 11 anos
Carlos I reina sem um parlamento e esse período fica conhecido como os “Onze anos
de Tirania”.

Buscando aumentar sua influência religiosa na Escócia, Carlos envia bispos


anglicanos para lá, mas eles são rejeitados e isso faz com que o monarca inglês declare
guerra à Escócia em 1639 – essa guerra ficou conhecida como Guerra dos Bispos e
durará até 1640 com a derrota de Carlos I. Procurando aumentar os impostos para cobrir
os custos de guerra, o rei convoca um novo parlamento que recusa aumentar os
subsídios e portanto é fechado em poucas semanas; essa convocação fica conhecida
como “Curto parlamento” (Short Parliament). Ainda em 1640 um novo Parlamento é
convocado (o Longo Parlamento), mas dessa vez os parlamentares bastantes
insatisfeitos com a conduta do rei já demonstram a vontade de derrubá-lo e de fato
declaram guerra a ele quando se sentiram insultados vendo o rei enviar um exército
irlandês católico lutar na guerra contra a Escócia.
1ª Guerra Civil (1642 – 1645)

Em julho de 1642, as forças parlamentares com apoio dos centros urbanos ingleses
- e liderados por Oliver Cromwell que elabora o New Model Army (Novo Modelo de
Exército) -derrotam o monarca inglês que possuía apoio das áreas rurais do país. O rei
então é preso mas foge e fica escondido por 2 anos.

2ª Guerra Civil (1647-1648)

Prometendo benefícios e terra aos escoceses, Carlos I consegue formar um


exército escocês que invade a Inglaterra pelo Norte, no entanto, mais uma vez é
derrotado pelas forças parlamentares. Pela aliança feita com os escoceses Carlos I é
condenado traidor e executado no palácio de Whitehall em 1649.

3ª Guerra Civil (1650-1651)

Carlos II se vendo insultado com a morte do pai, sai do exílio na França, forma um
exército que consegue entrar bastante dentro do território inglês, mas ainda assim perde
para as forças parlamentares e é obrigado a fugir de volta à França.

Conseqüências

Vitorioso em praticamente todas as batalhas, Oliver Cromwell instala a


Comunidade da Inglaterra (Commonwealth of England) em 1649 que mais tarde
converte em O Protetorado ou Comunidade da Inglaterra, Escócia e Irlanda
(Commonwealth of England, Scotland and Ireland) até 1660. Durante esse período
Oliver Cromwell governou com mão de ferro e muitas vezes esse período é chamado
de “Ditadura de Cromwell”. Oliver morre em 1659 e seu filho, Ricardo Cromwell assume
como Lorde Protetor. Ricardo convoca um novo Parlamento, mas este o derruba e
chama Carlos II para assumir o poder em 1660, contanto que o novo monarca
respeitasse as vontades do Parlamento.

Guerra e paz na teoria política de Thomas Hobbes

Ligia Pavan Baptista

RESUMO

Inconformado com as desordens sociais que prenunciavam o advento da Guerra Civil


Inglesa, que testemunhava na Inglaterra por volta da metade do século XVII, o autor
contratualista inglês Thomas Hobbes, pressionado pelos fatos históricos, abandona
seus estudos na área de filosofia natural que, em sua própria avaliação teria como único
fim o prazer, para se dedicar ao estudo das causas dos conflitos e das guerras, assim
como dos meios necessários para evitá-los. Em sua trilogia política, Os Elementos do
Direito, Do Cidadão e Leviatã, descreve a violência generalizada que caracteriza o
Estado de Natureza como um estado de guerra. Buscando o pragmatismo e a utilidade
que a filosofia natural dispensa, propõe o contrato mútuo, como única origem legítima
para a criação do Estado Político, condição única e essencial para o bem estar e o
almejado progresso da humanidade com o estabelecimento da paz. Ciente que a guerra
é fruto da ignorância e a paz consequência direta do conhecimento dos conceitos
políticos, o autor manifesta a esperança de que suas obras na área, sejam lidas e bem
divulgadas, principalmente nas universidades.

Palavras-Chave: Hobbes, Guerra, Paz


GUERRA E PAZ NA TEORIA POLÍTICA DE THOMAS HOBBES

A natureza e a causa dos conflitos, tanto entre seres humanos, quanto entre Estados, é
um tema presente na filosofia política desde o século IV a. C, com a obra que funda o
pensamento político, a República de Platão. A ação humana e os conflitos dela
derivados, estão no fundamento da origem das guerras e sua compreensão é a base
para que se possa encontrar os meios necessários à paz. Ambos são objetos de estudo
da filosofia política, classificada por Aristóteles como filosofia prática. Em oposição à
metafísica, ou filosofia teórica, a filosofia prática, dividida entre ética e política, tem um
fim bem definido: a busca da felicidade e do bem comum, respectivamente na esfera
privada e na esfera pública. A história do pensamento político comprova que o impulso
necessário para a criação de uma área de estudo independente de outras áreas já
exploradas pela filosofia foram os conflitos e guerras civis.

Autodefinindo-se como o fundador da ciência política, inaugurando a modernidade no


pensamento político e, fortemente influenciado pela revolução científica do século XVII,
que tem em Galileu e Descartes dois de seus mais influentes pensadores, Thomas
Hobbes, autor contratualista inglês, nascido em Westport em 1588, apresenta uma visão
mais pessimista em relação à natureza humana que seu contemporâneo John Locke.

Autor do Segundo Tratado do Governo Civil, o filósofo contratualista inglês John Locke
afirma que o direito natural, ou seja, a lei da natureza, que é a lei da razão ou ainda, o
que dita o bom senso de cada indivíduo, seria instrumento plenamente eficaz para
manter a paz, caso não houvesse, dentre os seres humanos, aqueles, que o ignoram,
agindo como se fossem animais.

Locke não perdoa aqueles que violam as regras mínimas do bom senso, agindo, não
segundo a reta razão, mas segundo suas paixões individuais. Como tal, tais indivíduos
promovem um estado de guerra generalizado. Segundo a ótica do autor, ao violarem o
direito natural, perdem a condição de humanidade, ou seja, são excluidos da categoria
de seres humanos e por essa razão, podem ser justamente considerados animais.
Surpreendetemente para um representante e fundador do pensamento liberal, o direito
natural em Locke permite que tais infratores sejam punidos com a pena máxima, ou
seja, a pena de morte. Não fosse a ocorrência de tais atitudes, consideradas excessões
e não regra geral, provenientes das ações irracionais de homens degenerados, que
podem ser equiparados a animais, o Estado Político, segundo Locke, não seria nem
mesmo necessário. Afirma o autor:

"Se não houvesse a corrupção e o vício de homens degenerados, não seria preciso
outras leis, nem a necessidade de formar, no lugar de grande e natural comunidade,
sociedades separadas, fundadas sobre contratos positivos." (Locke, 1978, p. 5)

Hobbes considera o Estado de Natureza o próprio Estado de Guerra de todos contra


todos. O autor atribui ao conceito de guerra um significado metafórico. Guerra é uma
disposição, uma tensão permanente, uma preocupação constante com a sobrevivência
diante da ameça de morte violenta que caracteriza a vida de maneira "sórdida, pobre,
embrutecida e curta", nos termos por ele expostos no capítulo XIII do Leviatã. Guerra
seria simplesmente uma sensação permanente de medo o que implica uma
preocupação constante com a autoproteção. .

Se nesse estado permanessesse, sem noção de justo e injusto, sem definição da


propriedade e sem a força da espada do soberano, ou seja, a força da lei, para obrigar
o cumprimento da lei civil estabelecida pelo poder político, diz Hobbes, todo o gênero
humano em pouco tempo seria extinto.
Temendo que suas especulações sobre política, principalmente expressas na trilogia
Os Elementos do Direito, de 1632, Do Cidadão, de 1642 e Leviatã, de 1651, sejam
consideradas tão utópicas quanto a República de Platão, Hobbes, ainda que compartilhe
com este a tese do filósofo-fei, não chega a propor um modelo de cidade perfeita onde
o governante deveria ser filósofo. Entre a ideologia platônica e o modelo maquiaveliano
da Realpoliitk, a anãlise política hobbesiana, sem dúvida, procura se manter fiel ao
renascentista florentino Maquiavel, ex- chanceler da província de Florença, autor da
mais famosa obra de conselhos para os governantes já escrita, O Príncipe.

Talvez influenciado pelo conselho que Machiavel oferece a Lorenzo de Medici de jamais
imaginar Repúblicas que nunca existiram e jamais existirão, como ponto de partida da
análise política, e buscando uma solução mais realista do a proposta por Platão ao
imaginar sua Calipolis, Hobbes afirma que os filósofos, ou na sua própria denominação,
os cientistas políticos devem influenciar o soberano, seja ele uma só pessoa ou uma
assembléia, em sua tarefa de bem governar, assim como os cidadãos em seu dever de
obedecer.

Nesse sentido, o soberano hobbesiano, metaforicamente chamado de Leviatã, um


monstro na tradição bíblica, um Deus Mortal, não necessariamente deve ser filósofo ou
cientista político, como diria Platão em defesa de seu mestre Sócrates, condenado
injustamente pela democracia ateniense. Porém, necessariamente, o soberano deve
ser guiado pelas investigações que Hobbes apresenta sobre política.

A soberania, que, na visão hobbeseana é uma pessoa artificial, produto da arte humana,
pode se concentrar indiferentemente em uma ou mais pessoas físicas. Ou seja, desde
que sua origem seja contratual, não importa, para os contratualistas, a forma de
governo. A legitimidade do poder político se encontra em sua origem e não em sua
forma.

Hobbes entretando defende a monarquia, ou seja, a forma de governo onde a soberania


estaria concentrada em uma só pessoa física, com o argumento de que a fiscalização
das ações de um só por parte dos cidadãos, principalmente em relação ao controle do
nepotismo, uma tendência natural segundo o autor, seria mais eficiente, do que no caso
de uma soberania composta por mais pessoas. Relativizando a questão de sua
preferência pelo regime monárquico em relação as demais - aristocracia e democracia
- Hobbes enfatiza que, tratando-se apenas de gosto pessoal, está seria a única
afirmação exposta em seus tratados políticos sem fundamento científico.

Considerando que a busca da paz é o fim último do Estado Político hobbesiano e,


considerando ainda que, grande parte das controvérsias entre os indivíduos, tanto no
estado de natureza, quanto no estado civil, provém de diferentes opiniões sobre a
terminologia da moral, seria necessário, para o alcance da paz, que a definição dos
conceitos morais seja feita de forma tão precisa quanto um geômetra define uma figura
geométrica, seja, um triângulo, um círculo, um quadrado ou um retângulo. Enquanto
houver disputa principalmente sobre o que pode ser considerado justo ou injusto, não
haverá paz. Quem tem competência para definir a justiça é o soberano, que na teoria
contratualista é o legislador. Somente no século XVIII com Montesquieu surge os
demais poderes.

Antes do Estado Político ser instituído, afirma Hobbes, nada pode ser considerado justo
ou injusto, moral ou imoral, legal ou ilegal, certo ou errado. Somente no Estado Político
o direito civil pode ser instituído e, a partir de então, o conceito de justiça significa o
cumprimento da lei, de injustiça, sua violação. Entre a corrente jusnaturalista, que
Hobbes desenvolve estabelecendo vinte Leis de Natureza, e a corrente juspositivista, o
autor opta pela última.
Mesmo que se considere a possibilidade de um direito inscrito na natureza este seria,
na visão do autor totalmente ineficaz para garantir a ausência de sensação de medo, ou
seja, a ausência de guerra generalizada. O fato é constatado pela análise empírica que
o autor desenvolve sobre a natureza humana. A razão da falência de um suposto direito
natural se deve ao fato, que pode ser comprovado pela observação empírica, de que
os seres humanos, sem nenhum tipo de poder coercitivo, não agem segundo as regras
da razão e do bom senso, mas sim segundo suas próprias paixões, atuando como juizes
em causa própria em caso de conflitos. .

Precursor dos ideários da revolução francesa inspirados na teoria


contratualista/iluminista de Jean Jacques Rousseau no século XVIII, Hobbes é o autor
que introduz no pensamento político os princípios da igualdade e da liberdade.
Considerando os seres humanos iguais por natureza, afirma que eles teriam os
mesmos interesses o que não significa necessariamente que teriam uma natureza
bélica. A partir da constatação de que todos os seres humanos são iguais por natureza,
seriam os mesmos igualmente livres. Partindo-se dessa premissa, a origem do poder
político não poderia estar fundada na vontade divina, nem na natureza por Ele, o
Criador, criada. Não haveria poder, nem hierarquia fundada na natureza, nem mesmo
o patriopoder dispensaria o consentimento do filho como seu fundamento.

Além do vínculo com o Estado Político e sua consequência mais significativa, a origem
do Direito, a busca pela paz em Hobbes está intrinsecamente ligada ao bom uso da
linguagem. Desfazer os equívocos, ou seja, em suas próprias palavras "dissipar as
nuvens" deixadas pelos filósofos morais e mostrar o melhor caminho para a paz através
do exercício racional, é a tarefa que Hobbes se propõe.

A teoria política em Hobbes está intrinsecamente vinculada ao uso apropriado da


linguagem. A linguagem, na visão de Hobbes, é a mais útil de todas as invenções
humanas e ao mesmo tempo é também uma faca de dois gumes. Seu uso de modo
impróprio gera necessariamente, conflitos, guerra e destruição: " ... a língua do homem
é trombeta de guerra e sedição", afirma o autor no capítulo V do Do Cidadão. No sentido
oposto, ou seja, a utilização correta e precisa da linguagem, como um instrumento que
permite efetuar o ato de raciocínio, sugere adequadas normas de paz, em torno das
quais os indivíduos podem chegar a um acordo. No caso específico em questão, o que
se busca é o acordo necessário que funda o Estado Político por meio de um contrato
mútuo. Sobre o vínculo entre linguagem e a fundação do poder político, Hobbes afirma.

"Mas a mais nobre e útil de todas as invenções foi a da linguagem, que consiste em
nomes ou apelações e em suas conexões, pelas quais os homens registram seus
pensamentos, os recordam depois de passarem, e também os usam entre si para a
utilidade de conversas recíprocas, sem o que não haveria entre os homens nem Estado,
nem sociedade, nem contrato, nem paz, tal como não existem entre os leões, os ursos
e os lobos."(Hobbes, 1988, p. 20)

O próprio contrato político em Hobbes, condição essencial para a criação do Estado


Político e este, por sua vez, condição essencial para a realização da paz, exige o
domínio adequado do uso da linguagem, na visão de Hobbes um artefacto, ou seja, um
produto da arte humana, e não um atributo originário da natureza.

A artificialidade é condição essencial para a criação da ciência política. É pelo fato do


poder político ser uma obra humana, que o mesmo pode ser objeto do conhecimento
científico, pois podemos conhecer sua causa última, o ser humano. Fosse o poder
político obra divina, não teríamos acesso ao conhecimento de seu Criador, Deus e, por
essa razão, o tema não poderia ser analisado do ponto de vista científico. Estão
excluídos do conhecimento científico, o que é divino, natural ou sobrenatural. .

Além da premissa da artificialidade, o estatuto científico da política em Hobbes, fundado


claramente em premissas cartesianas, pressupõe ainda dois alicerces importantes. Em
primeiro lugar, o fato de seu conhecimento estar baseado em um método, e, em
segundo o fato de que suas premissas terem a clareza, a precisão e a pretensão de
universalidade da matemática e da geometria. Esta última, na visão de Hobbes, a
ciência por excelência e modelo para todas as demais.

Se a filosofia natural desenvolvida pelo autor não tinha outra função a não ser o puro
prazer intelectual, a filosofia política tinha um fim específico: a busca da paz. Dessa
forma, surge mais uma premissa da ciência política: seu caráter utilitalista. Sendo mais
útil que a filosofia natural, a filosofia politica deveria ser considerada superior em relação
à primeira e desse modo, prioritária. Segundo Hobbes, seguindo os preceitos de Platão,
posteriormente encontradas em Wittgenstein, a linguagem deve ser utilizada de forma
precisa, fundada na lógica e não na retórica. É pelo fato do ser humano ser capaz de
desenvolver a linguagem que ele é capaz de desenvolver a razão. Portanto, seria
somente o ser humano, dentre todos os animais, o único capaz de encontrar os
caminhos para a paz.

Criticando duramente os filósofos morais, Hobbes afirma:

"... aquilo que foi escrito, até hoje, pelos filósofos morais em nada avançou no
conhecimento da verdade." (Hobbes, 1992, p. 7)

' Criticando os filósofos em geral, complementa:

" .... eles engendraram aquelas opiniões hermafroditas dos filósofos morais, em parte
corretas e belas, em outra parte brutais e selvagens, que são causa de tudo o que é
conflito e derramamento de sangue." (Hobbes, 1992, p. 14)

A paz originária de um contrato mútuo que estabelece o Estado Político, segundo


Hobbes seria o único meio possível para garantir, não somente a sobrevivência da
espécie humana, mas também sua condição de desenvolvimento. A possibilidade do
desenvolvimento científico, do conhecimento, do progresso, do conforto, do transporte
marítimo de mercadorias, das grandes obras de engenharia, diz Hobbes, só podem
surgir em decorrência de uma sensação de segurança, da certeza de que a própria vida
não está sendo ameaçada. Em outras palavras, seriam impossíveis no Estado de
Natureza.

Ainda que conflitos e desavenças continuem ocorrendo, mesmo depois de instituído o


poder político, a sensação de segurança em relação à vida, ainda que não de forma
plena, é consequência de sua criação, e este uma consequência do contrato mútuo
entre indivíduos pelo livre consentimento dos próprios, única forma legítima de origem
de qualquer poder, segundo o autor.

Introduzindo o conceito moderno de representatividade na política, com base na


analogia teatral entre autor e ator, Hobbes define o Estado Político como uma pessoa
artificial, visto como um ator, que representa a vontade e as ações de pessoas naturais,
vistas como autoras. O autor define o Estado Político como:

"Uma pessoa de cujos atos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com
os outros foi instituída por cada um como autor, de modo a ela poder usar a força e os
recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a
defesa comum." (Hobbes, 1988, XVII)

A cláusula única do contrato que funda o Estado Político, é caracterizado por uma
transferência mútua de direitos, fundada na livre vontade do sujeito da ação, a um
representante comum. Está se expressa nos seguintes termos:

"Cedo e transfiro meu direito de governar a mim mesmo a este homem, ou a esta
assembléia de homens, com a condição de transferires a ele teu direito, autorizando de
maneira semelhante todas as suas açóes. Feito isso, a multidão assim unida numa só
pessoa se chama Estado, em latim civitas. É esta a geração daquele grande Leviatã".
(Hobbes, 1988, XVII)

A condição essencial para o alcance da paz na teoria política hobbeseana está fundada
na educação política. Não basta que os conceitos sejam definidos de forma precisa pelo
cientista político, não basta fundar a política em bases científicas. É preciso ainda que
tal conhecimento seja bem difundido, principalmente nas universidades, formadoras do
caráter moral dos indivíduos.

Ou seja, é imprescindível para a realização da paz, que não somente o soberano, mas
igualmente todos aqueles que estarão submetidos ao seu poder por livre consentimento,
os chamados cidadãos, tenham igual acesso ao conhecimento que Hobbes investiga.
Por essa razão, torna-se precursor ao redigir o Leviatá, originalmente em língua inglesa
e não em latim, até então a língua utilizada pelos filósofos.

Se, na visão de Hobbes a guerra e os conflitos em geral estão fundados na ignorância,


tanto por parte dos cidadãos quanto dos soberanos em relação aos seus direitos e
deveres e sobretudo em relação a única origem legítima do poder político, o
conhecimento produzido pelo cientista político e sua transmissão pela educação,
seriam, tanto quanto a própria criação fictícia do Estado Político, os alicerces
fundamentais para a construção da paz no plano doméstico.

Inconformado, diante das atrocidades que prenunciavam a Guerra Civil Inglesa, como
descreve em sua obra Behemoth, o autor testemunha um período histórico que ameaça
por um fim em todo o progresso científico que o mundo atingiu no século XVII, até
nossos dias, o século onde a ciência mais se desenvolveu em sua história. Diante dos
fatos históricos que presencia, é natural que a preocupação do autor seria
principalmente em estabelecer as condições para a construção da paz no plano interno.
Entretanto, sendo o Leviatã um Deus Mortal, e considerando que a causa da morte do
Estado Político pode surgir, tanto por sedições internas, quanto por inimigos externos,
Hobbes não deixa de considerar as possibilidades da paz no plano das relações entre
os Estados, tema que será desenvolvido somente no século XIX com a obra A Paz
Perpétua de Immanuel Kant.

Assim como o francês Jean Bodin, em sua obra Os Seis Livros da República, Hobbes
define o conceito de soberania, até nossos dias, um dos mais importantes conceitos das
relações internacionais. Ao definir a soberania, o autor inglês será pioneiro em definir
um dos mais intrigantes paradoxos contemporâneos. Visto, por um lado, como condição
essencial para a própria subsitência do Estado e da harmonia no plano interno, o
conceito de soberania, segundo Hobbes, representaria, por outro lado, uma ameaça à
paz, se considerada no plano internacional.

Cético em relação à possibilidade da paz, entendida como ausência da sensação de


ameaças, no plano da relação entre Estados soberanos, o autor afirma:
"... em todos os tempos reis, e as pessoas dotadas de autoridade soberana, por causa
da independência, vivem em constante rivalidade, e na situação e atitude dos
gladiadores, com as armas assestadas, cada um de olhos fixos no outro: isto é, seus
fortes, guarnições e canhões guardando as fronteiras de seus reinos, e constantemente
com espiões no território de seus vizinhos, o que constitui uma atitude de guerra.
(Hobbes, 1988, p. 77)

É devido à condição de igualdade soberana que os Estados entre si, na visão de


Hobbes, não teriam a mesma possibilidade de transferir o direito que os indivíduos
teriam de governar a si mesmos a um representante comum, por meio de um contrato
mútuo. A ordem internacional seria, portanto, na vistão do autor, um eterno Estado de
Natureza. Em outras palavras, como diria Kant dois séculos mais tarde, a paz perpétua
só seria possível no grande cemitério do gênero humano. A solução apresentada por
Hobbes seria um estudo detalhado sobre o poder e os interesses dos países vizinhos:

"...devemos saber qual é o poder de cada país vizinho, e em que consiste; que vantagem
e desvantagem podemos receber de cada um deles; quais são suas disposições para
conosco, e como se sente cada um deles em relação aos demais; e que desígnios
diariamente circulam entre eles. " (Hobbes, 1992, p. 1888-9)

Para viabilizar esse estudo é necessário o envio de representantes ao país vizinho, os


chamados mediadores da paz, que, segundo o direito natural hobbesiano, devem ter
salvo conduto, ou seja, liberdade para a locomoção e imunidades em relação às leis do
outros países, para que possam exercer a função adequadamente.