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RESENHA

FOUCAULT, M. História da sexualidade: I: a vontade de saber. 13. ed. Rio de Janeiro: Graal,
1988. (capítulos III – Scientia Sexualis e IV - O dispositivo de sexualidade).

No terceiro capitulo da História da sexualidade: I: a vontade de saber de Foucault


denomina-se Scientia Sexualis. Neste capítulo, percebo uma análise da forma como a ciência, de
um modo geral, era organizada em comparação com a ciência envolta da sexualidade, no século
XIX. Foucault enxergava um movimento de busca da “verdade do sexo” e para explicar isso, ele
observou que os mecanismos vigentes produziam pelo menos duas formas distintas em diferentes
partes do mundo.

Nas sociedades chinesas, japonesas, romanas, indianas e arábicas, havia um esforço


para entender o sexo a partir do próprio indivíduo e de seu prazer, estudando a prática de maneira
empírica e desenvolvendo através do conhecimento a ars erótica (Arte erótica). Desta maneira, o
reconhecimento do sexo como mecanismo de prazer saí da esfera de proibição legal ou de
utilidade cientifica, se colocando numa esfera muitas vezes espiritualizada do sujeito. No sexo,
existe uma atmosfera do segredo onde os ensinamentos deveriam ser repassados apenas pelo
mestre, assim creio, que o sexo nestas culturas seria tratado como à meditação ao permitir que o
indivíduo se separasse temporariamente da percepção de tempo e entrasse em um estado de transe.

Em nossa sociedade ocidental, foi introduzido o discurso da “verdade do sexo” a


partir da Scientia Sexualis. O ato de se confessar, torna-se um dos mais importantes mecanismos
que se imprimiu na sociedade ocidental. A partir disso, a confissão começou a se desenvolver
junto com mecanismos legais e religiosos atualizados que criaram uma atmosfera propicia ao ato
de confessar, tanto que o termo confissão é também utilizado no meio jurídico até os dias de hoje,
pois marca constantemente a necessidade da verdade.

“A obrigação da confissão nos é, agora, imposta a partir de tantos pontos diferentes,


já está tão profundamente incorporada a nós que não a percebemos mais como efeito
de um poder que nos coage; parece-nos, ao contrário, que a verdade, na região mais
secreta de nós próprios, não demanda nada mais que revelar-se; e que, se não chega a
isso, é porque é contida à força, porque a violência de um poder pesa sobre ela e,
finalmente, só se poderá articular à custa de uma espécie de liberação” (FOUCAULT,
pág. 59, 1988).
Assim, o tratamento ocidental soa o oposto da ars erótica. Somos movidos pelos
discursos de séculos onde muitas vezes soa como libertador e de nivelamento, mas que na verdade
exibe poder e dominação que cala quem escuta e dá ainda mais autonomia ao emissor. Estes
mesmos atos discursivos, estão pautados na ciência que foi fundada a partir do confessionário
religioso. Quando um paciente está em tratamento por exemplo, é comum que o médico peça para
que o ele “confesse” ou “admita” os sintomas e erros de sua automedicação.

Se pensarmos na forma como a psicanálise é estruturada por exemplo, podemos


perceber que se trata de uma reprodução do confessionário aliada à interpretação médica e de
quadros de patologias sexuais nomeadas ao longo dos anos e, que contribuem fortemente para
estigmatização da sexualidade e do inconsciente, perpetuando o ciclo da necessidade de agir
sobre: primeiro desvendando e posteriormente medicando.

Parece que, enquanto a arte erótica buscava engrandecer à sexualidade como um


fenômeno sensório de extravasamento, conexão e compreensão maior, a ciência sexual colocava
grande importância dela no desenvolvimento humano não para enaltecê-la, mas para mostrar que
deveria controla-la. Nesse sentido, a sexualidade como conhecemos, não é um fenômeno que foi
confundido pela ideologia ou pouco conhecido devido a interdições históricas, mas conceituado
a partir do discurso de produção de sua verdade; e a sexualidade foi definida como um “domínio
penetrável por processos patológicos, solicitando, portanto, intervenções terapêuticas ou de
normalização”. E a necessidade cada vez maior de produção da verdade tornou o sexo matéria de
suspeita constante, independente do indivíduo, algo que percorre as condutas e existências
humanas; um ponto frágil de onde nos chegam ameaças do mal.

Claro que não se deve excluir a arte erótica da sociedade ocidental, existem alguns
pontos como a procura do amor de Deus, da união espiritual, a procura pelo mestre religioso, a
via de iniciação, intensificação do fenômeno religioso até sua manifestação física, possessão entre
outros domínios frequentes no catolicismo da Contrarreforma que exibem a contribuição das
culturas que estudavam a arte erótica ao ocidente. Tendo então aceito que os mecanismos
repressivos não constituem verdadeiro motivo da sexualidade atual, devemos prestar olhar mais
atento aos mecanismos positivos e proliferativos.

IV.O dispositivo da Sexualidade


A ideia de que o sexo não seria reprimido não foi original de Foucault, ele mesmo
explicita como isso era discursado por diversos psicanalistas que tiveram olhar mais profundo que
o usual e perceberam que a simples maquinaria de repressão não elucidava a maneira como desejo
e poder se articulavam. Afinal, essa mecânica repressiva do poder é estranhamente limitativa,
incapaz de invenções e condenada a dizer “não”, sem ser capaz de produzir. Uma instância
necessariamente antienergética que se desgastaria proporcionalmente a quão maior fosse a
energia daquilo que deseja negar – matéria e antimatéria que ao se unir não criam, mas destroem
energia.

Quando se define os efeitos do poder pela repressão, tem-se uma concepção


puramente jurídica deste mesmo poder; identifica-se o poder a uma lei que diz não. O fundamental
seria a força da proibição. Ora, creio ser esta uma noção negativa, estreita e esquelética do poder
que curiosamente todo mundo aceitou. Se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse outra
coisa a não ser dizer não você acredita que seria obedecido? O que faz com que o poder se
mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas
que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discursos.
(FOUCAULT, 1988, p. 8).

Porque então, na nossa sociedade tão rica em dispositivos de poder, continuamos a


crer que o sexo esteja subjugado à essa lógica reduzida de interdição?

Parece que, ao esconder parte de sua engrenagem, o poder torna-se aceitável


socialmente. Se houvesse pura transparência o indivíduo não se sentiria compelido, de forma que
o sucesso de um poder está na proporção daquilo que consegue ocultar de seus mecanismos.
Foucault, a partir de uma caracterização histórica da ascensão do Direito como unidade
fundamental do poder moderno, demonstra que entendemos o sexo na lógica da interdição porque
o analisamos sempre em relação a um poder jurídico-discursivo. “Permanecemos presos a uma
certa imagem do poder-lei, do poder-soberania que os teóricos do direito e a instituição
monárquica tão bem traçaram. E é dessa imagem que precisamos liberar-nos, isto é, do privilégio
teórico da lei e da soberania, se quisermos fazer uma análise do poder nos meandros concretos e
históricos de seus procedimentos. É preciso construir uma analítica do poder que não tome mais
o direito como modelo e código”.
Desse modo, tentando elucidar como a história do poder e a sexualidade é um
somatório de diversas forças infinitesimais e não um grande poder, Foucault discursa alguns
pontos que devem ficar claros sobre este:

-“que o poder não é algo que se adquira, arrebate ou compartilhe, algo que se
guarde ou deixe escapar; o poder se exerce a partir de inúmeros pontos e em meio a relações
desiguais e móveis”;

-“que as relações de poder não se encontram em posição de exterioridade com


respeito a outros tipos de relações (processos econômicos, relações de conhecimento, relações
sexuais), mas lhes são imanente; são efeitos imediatos das partilhas, desigualdade e desequilíbrios
que se produzem nas mesmas e, reciprocamente, são as condições internas dessas diferenciações;
as relações de poder não estão em posição de superestrutura”;

-“que o poder vem de baixo; isto é, não há, no princípio das relações de poder, e
como matriz geral, uma oposição binária e global entre os dominadores e os dominados, dualidade
que repercuta alto a baixo e sobre grupos cada vez mais restritos até as profundezas do corpo
social. Deve-se, ao contrário, supor que as correlações de forças múltiplas que se formam e atuam
nos aparelhos de produção, nas famílias, nos grupos restritos e nas instituições servem de suporte
a amplos efeitos de clivagem que atravessam o conjunto do corpo social. Estes formam, então,
uma linha de força geral que atravessa os afrontamentos locais e os liga entre si; evidentemente,
em troca, procedem a redistribuições, alinhamentos, homogeneizações, arranjos em série,
convergências desses afrontamentos locais. As grandes dominações são efeitos hegemônicos
continuamente sustentados pela intensidade de todos esses pequenos afrontamentos”.

Foucault deixa claro que o desenrolar da sexualidade é resultado de um complexo


mecanismo de poder o que leva em conta seu atores, suas cenas, suas relações e como cada um
altera o outro ao longo do tempo. Fica prático para a analise sobre a sexualidade postular quatro
regras, ou melhor, noções que devem se ter em mente ao analisar essa questão:

imanência: Não devemos considerar que a sexualidade pertence a um conhecimento


específico, mas que foi proibida por exigências do poder. Se a sexualidade foi/é, em algum
momento, um domínio a se conhecer, é porque relações de poder a instituíram-na
temporariamente como objeto passível a se conhecer. Da mesma forma, se ela passou a ser alvo
do poder, foi porque se tornou possível investir nela a partir de técnicas de saber e procedimentos
discursivos. Podemos ver, então, as relações sociais como penitente e confessor ou fiel e diretor
como “focos locais”, espaços virtuais de troca (em ambos os sentidos) de conhecimento.

Variações contínuas: não devemos focar simplesmente em quem tem o poder


(homens, adultos, pais, médicos..) e quem é privado do poder (mulheres, adolescentes, crianças,
doentes..); nem quem tem o direito de saber ou quem é mantido na ignorância. Devemos nos
atentar é para como essas relações de poder se moldam, porque elas são “matrizes de
transformação”. Os exemplos citados acima (homens, adultos..) passou por modificações e
deslocamentos contínuos.

Duplo condicionamento: Nenhuma estrutura ou ser que resguarda poder consegue


exercer essa relação se a instância dominada por esse poder for contrária. As relações sociais são
uma via de mão dupla e, portanto, deve-se pensar sempre em como o local sobre o qual é exercido
poder deixa-o se exercer.

Polivalência tática dos discursos: o discurso deve ser considerado uma via múltipla
no campo das forças. Não cabe entender de onde derivam ou que ideologia representam, mas que
efeitos proporcionam e qual seu papel numa estratégia maior pela sociedade.

Todas essas regras tratam-se de entender que por mais intencional que seja um
mecanismo ele nunca é totalmente estável, nem na esfera da dominação, visto que as forças que
confluíram para sua formação se utilizam dos mesmos mecanismos daquelas que se opõe.

E vale entender a sexualidade como uma via muito densa em relações de poder, ela
pode não ser um elemento rígido, mas pode ser usado em um grande número de estratégias como
propulsor ou apoio, exatamente por ser algo inerente a todo ser humano. Foucault cita quatro
“conjuntos estratégicos” relacionados à sexualidade que são conhecidos do século XVII: a
histerização do corpo da mulher, a pedagogização do sexo da criança, a socialização das condutas
de procriação e a psiquiatrização do prazer perverso, mas, que fique claro, nenhum deles surgiu
em bloco e/ou necessariamente naquele século.

Reforcemos que a sexualidade não é um fenômeno da natureza que o poder quer


abafar, ou que, por ser obscuro, deve ser estudado e descoberto. A sexualidade é um dispositivo
histórico: deu origem a uma rede de conexões que conecta diversas relações de poder. E, enquanto
isso, o sexo e suas relações deram origem a um dispositivo de aliança: matrimônio, fixação,
parentescos, transmissão de sobrenomes e de bens. Mas esse dispositivo de aliança teve sua
eficácia reduzida no ocidente conforme adentramos no século XVII visto as maiores importâncias
das relações político-econômicas independentes. Para esses aparatos políticos e econômicos
passou a ser mais interessante a adoção do dispositivo de sexualidade em detrimento do de
alianças (alias foi a partir do de alianças que o de sexualidade se instalou). Mas o que seria este
dispositivo? Se pensarmos nas alianças como uniões estáveis, o dispositivo da sexualidade pode
ser entendido como relações mais fluidas. O primeiro visa perpetuar as relações e manter a lei que
as rege, o segundo dá valor às sensações, qualidade dos prazeres e naturezas da impressões para
tornar as formas de controle mais relativas. Faz sentido essa troca de mecanismo ao entender a
fluidez cada vez maior do movimento econômico para a circulação de riquezas, de certa forma
esse dispositivo novo tenta, em diversos pontos, mimetizar o comportamento do capital por entre
os indivíduos conforme a sociedade passa a ser cada vez mais focada na produção e consumo de
bens.

“Numa palavra, o dispositivo de aliança está ordenado para uma homeostase do


corpo social, a qual é a sua função manter; daí seu vínculo privilegiado com o direito; daí, também,
o fato de o momento decisivo para ele, ser a “reprodução”. O dispositivo de sexualidade tem,
como razão de ser, não o reproduzir, mas o proliferar, inovar, anexar, inventar, penetrar nos corpos
de maneira cada vez mais detalhada e controlar as populações de modo cada vez mais global.”

Um resumo desse diálogo de dispositivos poderia ser: A partir do século XVII teve-
se o desenvolvimento do dispositivo de sexualidade pelas instituições que cresceram na prática
da confissão e essas instituições, muito pelo cunho pedagógico, influenciaram a estrutura familiar
da burguesia. Se por um lado houve um desenvolvimento de pluralidade no tópico sexual
exatamente pelo “querer saber” que a prática confessionária incitou, por outro essa chama do
dispositivo da sexualidade gerou uma resposta de defesa do dispositivo de aliança pelo
fortalecimento da estrutura familiar e sua maior centralização no pai e no marido. Mas esse
fortalecimento também serviu ao dispositivo da sexualidade, pois centrou figuras para o
normativo sexual. Essas figuras surgiram tanto como uma resposta do dispositivo de aliança
(tentando adequar a sexualidade maior dentro de uma lei) como do movimento médico e
psiquiátrico que começou a analisar a biologia da sexualidade: a confusão de fatores não permite
definir o que trabalhou a favor de qual dispositivo, mas fato é que daí foram criadas ou reforçadas
as figuras sexuais marginalizadas: a mulher nervosa, a esposa frígida, o marido impotente, o
sádico, o perverso, a jovem histérica, a criança precoce e o jovem homossexual que menospreza
sua mulher. Estes exemplos, sem dúvidas deram força ao sistema de alianças em seu projeto de
autoproteção, mas por outro lado concomitantemente deixavam claro que existiam outras formas
sexuais em pauta na natureza humana, mesmo que nesse momento elas só pudessem ser vistas
como avessas ou passíveis à correção – ponto para o dispositivo da sexualidade.
A interação cada vez maior das classes religiosas, médicas e pedagógicas no assunto
reforçou estereótipos ao mesmo tempo que sensibilizou e proliferou discursos sobre tais, abrindo
caminho para práticas que visavam livrar o indivíduo com sofrimento sexual das relações sociais
que criaram esse sofrimento em primeiro lugar. Ainda que baseada na lógica da confissão
religiosa, podemos citar a psicanálise como grande exemplo, mas também podemos falar de
Charcot que tentou, através do isolamento do paciente e sua família, curar suas dores, percebendo
como a família era propulsora das mesmas – talvez ele estivesse perto de separar um dispositivo
do outro. Porém, toda essa aventura interventiva tinha o objetivo de tornar o indivíduo
sexualmente integrável ao sistema da família; e essa intervenção, embora manipulasse o corpo
sexual, não o autorizava a formular-se em discurso explícito. A psicanálise, através da crença de
que os problemas sexuais eram advindos das relações com os entes mais próximos, reforçou a
segurança de que o dispositivo da sexualidade estaria nos conformes da lei da aliança:

“Pais, não receeis levar vossos filhos à análise: ela lhes ensinará que, de toda
maneira, é a vós que eles amam. Filhos, não vos queixeis demais de não serdes órfãos e de sempre
encontrardes no fundo de vós mesmos vossa Mãe-Objeto ou o signo soberano do Pai: é através
deles que tendes acesso ao desejo.”

No século XIX podemos ver duas tecnologias adicionais empregadas no sexo que
irão nos direcionar para a tese final do livro. De um lado, a descoberta da hereditariedade e suas
doenças fundaram um mecanismo médico capaz de dar suporte lógico às práticas eugênicas dos
estados. Agora se tinham registros de casamentos, nascimentos e mortes, era o estado e a medicina
intervindo em quem deveria procriar ou não. Muitas das doenças genéticas foram, nesse ponto,
fortemente associadas à perversões, que poderiam levar ao raquitismo dos filhos ou à esterilidade
da próxima geração. Novamente, era a psicanálise a única a nadar contra a corrente e desligar o
sexo de sua vertente hereditária-perversa, a confissão para si mesmo poderia mostrar ao indivíduo
sua individualidade sexual e não uma moratória político-médica.

É aqui que peço exímia atenção: se entrarmos no raciocínio de que as perversões (e


até a falta de condições sanitárias) levariam, através do sexo, à infertilidade e outras mazelas,
seria um tanto justo supor que a maquinaria médico-estatal focaria suas práticas nas classes mais
sujeitas ao perverso, ao sujo, ao menos educado ou menos assiduamente religioso. Afinal era a
força de trabalho, a classe baixa, que deveria estar mais sujeita aos fatores que propiciam mazelas
sexuais e, como parte importante da maquinaria produtora, seria do interesse do estado manter
sua fertilidade. Mas, ao analisar a situação no século XIX percebemos que a aplicação mais
rigorosa dessas tecnologias do sexo foi feita nas classes economicamente privilegiadas e
politicamente dirigentes. A direção espiritual, o exame de si mesmo, os empregados de vigia nos
filhos do patrão, os pecados da carne e a detecção escrupulosa de qualquer um deles, a família
mais unida e preocupada com o desenvolvimento da sexualidade e até a própria psicanálise eram
técnicas caras que somente poderiam ser pagas pela burguesia. É justo dizer que alguns
mecanismo como o método confessional e as regras metodistas se aplicavam às classes baixas
também, mas sua difusão foi maior (e em primeiro lugar) na burguesia. “A burguesia começou
considerando que o seu próprio sexo era coisa importante, frágil tesouro, segredo de
conhecimento indispensável”. Tanto é que uma das primeiras personagens a surgir na
psicopatologia do sexo foi a mulher ociosa que se tornava “nervosa”, da mesma forma, o
adolescente promíscuo ou a criança masturbadora só eram percebidas através da escola e dos
serviçais que a cercavam. A posterior difusão desses conceitos nas classes básicas veio, também,
dessa vivência que elas tiveram em sua função serviçal na família burguesa.

Foi dessa forma que, por muito tempo, as camadas populares ficaram isentas do
dispositivo da sexualidade, sendo subjugados apenas pelo de alianças: valorização do matrimônio
e da fecundidade, exclusão das uniões consanguíneas. O dispositivo da sexualidade adentrou as
classes baixas em 3 etapas. Primeiro, através dos mecanismo anticoncepcionais visto alguns
problemas da natalidade. Em seguida, quando o estado percebeu que poderia começar a exercer
controle político e econômico sobre a força de trabalho teria sido iniciada uma campanha pela
“moralização das classes pobres”. E por fim, através do controle das perversões em nome de uma
hereditariedade e fecundidade plena para a sociedade e raça. Podemos afirmar agora que o
dispositivo da sexualidade foi elaborado pela e para a classe privilegiada e somente então
progrediu para as inferiores, a partir de mecanismos ligeiramente diferentes e muitas vezes sob o
formato de políticas públicas. Isso destrói para Foucault a teoria da repressão, pois em nenhum
momento houve uma política sexual unitária que permitisse tal.

Mas porque a burguesia havia testado em si mesma um mecanismo que de várias


formas desqualificava a carne? Muito pelo contrário, não se desqualificava a carne, mas
intensificava-se o corpo, se problematizou seu funcionamento e saúde; tratavam-se de novas
técnicas para maximizar a vida. Ao invés de uma repressão do sexo das classes a serem
exploradas, tratou-se, primeiro, de enaltecer o corpo, o vigor, a longevidade, a fertilidade e
descendência das classes que dominavam. “Deve-se suspeitar, nesse caso, de uma autoafirmação
de classe e não de uma sujeição de outra: uma defesa, uma proteção, um reforço, uma exaltação,
que mais tarde foram estendidos – à custa de diferentes transformações – aos outros, como meio
de controle econômico e de sujeição política”.

Por mais divergentes ou excêntricos que tenham sidos os mecanismos que se


gradativamente se instauraram na burguesia, todos serviram a um maior cuidado do sexo burguês
para torná-lo diferenciado; o sangue azul da aristocracia se tornou seu sexo. “Muitos dos temas
particulares aos costumes da casta da nobreza se encontram de novo na burguesia do século XIX,
mas sob as espécies de preceitos biológicos, médicos ou eugênicos; a preocupação genealógica
se tornou a preocupação dom o legado; nos casamentos, levaram-se em conta não somente os
imperativos econômicos e regras de homogeneidade social, não somente as promessas de herança,
como também as ameaças de hereditariedade; as famílias agora portavam um brasão invertido e
sombrio, cujos quartéis infamantes eram as doenças ou as taras da parentela, a paralisia geral do
avô, a neurastenia da mãe, a tísica da caçula, as tias histéricas ou os primos de maus costumes”.
Sem dúvidas uma das formas mais primordiais de consciência de classe é a afirmação do corpo;
as condições de vida impostas ao proletariado mostram claramente que estava-se longe de levar
seu corpo em consideração.

Para que o proletariado fosse dotado de um corpo e de uma sexualidade, para que se
preocupasse com sua saúde e sua reprodução foram necessários conflitos relativos ao espaço
urbano: coabitação, proximidade, contaminação, epidemias, prostituição e doenças venéreas.
Foram necessárias urgências de âmbito econômico: desenvolvimento de indústria pesada, mão de
obra estável e competente, controle do fluxo de população e regulações demográficas. Só assim
surgiu todo o aparelho técnico-administrativo necessário para a higienização, medicalização e
educação do proletariado. Dessa forma o dispositivo da sexualidade foi importado da classe
exploradora para a classe explorar sem constituir um risco de autoafirmação da última; continuava
instrumento da hegemonia burguesa.

A noção contemporânea de que a sexualidade for reprimida surge, então, de dois


fatores. Primeiro, conforme o dispositivo da sexualidade se difunde pelas classes, a burguesia
tenta tornar o seu sexo um tanto diferenciado pela aplicação de interdições na maneira como ele
se manifesta. De outro lado, como a difusão do dispositivo surge a partir de políticas públicas ela
surge sob a égide da lei e a sexualidade aparece como se estivesse subjugada à lei e, por isso,
reprimida de sua manifestação inteiriça. A sexualidade foi considerada reprimida por causa da
repressão generalizada da classe; ao vincular tal repressão aos mecanismos gerais de dominação
e de exploração se formou a crítica histórico-política da repressão sexual.

“Não acreditar que dizendo-se sim ao sexo se está dizendo não ao poder; ao
contrário, se está seguindo a linha do dispositivo de sexualidade, quisermos opor os corpos, os
prazeres, os saberes, em sua multiplicidade e sua possibilidade de resistência às captações do
poder, será com relação à instância do sexo que devemos liberar-nos. Contra o dispositivo de
sexualidade, o ponto de apoio do contra-ataque não deve ser o sexo-desejo, mas os corpos e os
prazeres.”