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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

Faculdade Mineira de Direito

Lísia Caldeira Bahia Lima

TRIBUNAL DO JÚRI: entre a democracia e a ausência


de fundamentação das decisões

Contagem
2019
Lísia Caldeira Bahia Lima

TRIBUNAL DO JÚRI: entre a democracia e a ausência


de fundamentação das decisões

Monografia apresentada ao curso de Direito da


Faculdade Mineira de Direito da Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais, como
requisito parcial para obtenção do título de Bacharel
em Direito.

Orientador: Prof. Juracy Amaral

Contagem
2019
Lísia Caldeira Bahia Lima

TRIBUNAL DO JÚRI: entre a democracia e a ausência


de fundamentação das decisões

Monografia apresentada ao curso de Direito da


Faculdade Mineira de Direito da Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais, como
requisito parcial para obtenção do título de Bacharel
em Direito.

Prof. Juracy Amaral – PUC Minas (Orientador)

Contagem, junho de 2019.


À Deus pelo dom da vida e por sempre me guiar.
Aos meus pais, fonte de grande amor e por sempre
acreditarem em meus sonhos, sempre me apoiando
e incentivando o meu crescimento pessoal e
profissional.
AGRADECIMENTOS

Àqueles que contribuíram para a realização deste trabalho, fica expressa aqui
a minha gratidão, especialmente:

Ao Professor Juracy Amaral, pela orientação, pelo aprendizado e apoio em


todos os momentos necessários.

Aos meus pais, Maria Emília e Odelino, pelo amor incondicional e por sempre
confiarem em mim e me apoiarem em todas as minhas decisões e etapas da minha
vida.

Ao meu irmão Sávio, por todo companheirismo e torcida.

Ao meu namorado Ícaro, meu companheiro diário, por todo amor,


compreensão, motivação e por sempre me manter calma diante as turbulências do
dia a dia.

À Madrinha Edna, por toda preocupação e ajuda durante o desenvolvimento


do trabalho.

A todos que, de alguma forma, contribuíram para a construção desse estudo.


“Lembre-se que as pessoas podem tirar tudo de você,
menos o seu conhecimento.”
Albert Einstein
RESUMO

O Tribunal do Júri é de suma importância para a democracia, pois através dele o


cidadão tem voz ativa nos julgamentos dos crimes dolosos contra a vida, sendo um
paradigma de participação do povo na construção democrática na edificação da
justiça. Acredita-se assim, que a instituição do júri é vista além do que uma tradição,
sendo uma necessidade, pois é uma instituição democrática, e o judiciário carece da
participação do cidadão. Dessa maneira, o presente trabalho apresentará em
primeiro plano o estudo e análise do instituto do Tribunal do Júri no que tange à sua
origem e evolução histórica, em contexto mundial geral e especificamente no
ordenamento jurídico brasileiro, destacando como é realizado atualmente o
procedimento da instituição, bem como o papel dos jurados. Adiante realizar-se-á
uma análise dos princípios que o compõem o Tribunal do Júri, inserido como
cláusula pétrea e garantia fundamental frente à Constituição Federal de 1988. Em
seguida, busca-se ponderar sobre a democracia e como ela pode estar inserida no
procedimento do Tribunal do Júri, perante o Estado Democrático de Direito e dos
seus fundamentos primordiais. Ulteriormente, trata-se da problemática do Tribunal
do Júri diante a falta de fundamentação das decisões perante a Constituição de
1988, expondo assim posições doutrinárias acerca do assunto.

Palavras-chave: Tribunal do júri. Democracia. Fundamentação das decisões.


ABSTRACT

The Jury's Court is extremely important for a democracy, through which the country
has an active voice in the trials of intentional crimes against life, being a paradigm of
participation of the people in the democratic construction in the construction of
justice. It is believed, therefore, an institution of law and a government authority,
being a democratic institution, and the judiciary lacks the participation of the citizen.
Thus, the present work will present the first plan of the study and the analysis of the
Institute of the Court of the Jury with respect to its origin and its history, as well as the
current process of the institution, as well as the role of jurors. An analysis of the
principles that governs the Jury's Court, based on the decision on the Federal
Constitution of 1988, will be carried out. Next, a search for a democracy and how it
can be inserted in the procedure of the Court of the Jury, before the Democratic
State of Law and its fundamental foundations. Subsequently, it is the problem of the
Jury's Court with the lack of reasoning of the decisions on the Constitution of 1988,
setting out its own bases on the subject.

Keywords: Jury court. Democracy. Rationale for decisions


LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

Art. Artigo
CF/88 Constituição Federal de 1988
CPC Código de Processo Civil
CPP Código Processo Penal
STF Supremo Tribunal Federal
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 19

2 TRIBUNAL DO JÚRI: HISTÓRIA E EVOLUÇÃO .................................................. 21


2.1 Aspectos gerais sobre a história e evolução do tribunal do júri no
mundo ...................................................................................................................... 23
2.1.1 O início do tribunal no Brasil......................................................................... 26
2.1.2 O tribunal do júri do Brasil e seu atual procedimento ................................ 29
2.1.2.1 Da instrução preliminar .................................................................................. 30
2.1.2.2 Da fase de julgamento................................................................................... 33
2.2 Os jurados e a forma de seleção...................................................................... 39
2.3 Formação do conselho de sentença ................................................................ 43

3 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL E O TRIBUNAL DO JÚRI ..................................... 47


3.1 Plenitude da defesa ........................................................................................... 47
3.2 Sigilo das votações ........................................................................................... 49
3.3 Soberania dos veredictos ................................................................................. 51
3.4 Competência do tribunal do júri....................................................................... 53

4 ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO ............................................................... 57


4.1 Fundamentos primordiais do estado democrático de direito elencados
ao tribunal do júri .................................................................................................... 58
4.1.1 A soberania ..................................................................................................... 59
4.1.2 A cidadania ..................................................................................................... 60
4.1.3 A dignidade da pessoa humana .................................................................... 61
4.2 A democracia ..................................................................................................... 62
4.2.1 A democracia e os sistemas de participação popular ................................ 63

5 O TRIBUNAL DO JÚRI DIANTE A FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO DAS


DECISÕES PERANTE A CONSTITUIÇÃO DE 1988 ............................................... 67
5.1 A fundamentação das decisões como direito fundamental .......................... 67
5.2 A problemática referente à decisão tomada pelo Conselho de
Sentença frente ao dever de fundamentação das decisões judiciais e
algumas críticas sobre a instituição ...................................................................... 69

6 CONCLUSÃO ........................................................................................................ 77

REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 79
19

1 INTRODUÇÃO

O presente estudo tem como objetivo discorrer sobre o atual procedimento do


Tribunal do Júri, previsto no Código de Processo Penal brasileiro, frente à
democracia e a ausência de fundamentação das decisões proferidas, sob o aspecto
do sistema da íntima convicção. O Tribunal do Júri é entendido como uma instituição
na qual os cidadãos comuns da sociedade e que preencham os requisitos previstos
na legislação julgam os crimes dolosos contra a vida cometidos contra os seus,
emergindo com a própria organização social e com a necessidade de punir os
crimes mais graves da forma mais justa possível. Os crimes de competência do
Tribunal do Júri trazem consigo valores morais e éticos, que são os motivos pelos
quais geram grande comoção por parte da população quando acontecem.
A instituição do Tribunal do Júri sempre rendeu muitas abordagens e foi
objeto de muita polêmica e atualmente no Brasil, com a Constituição Federal de
1988, o júri está inscrito dentre os direitos e garantias fundamentais, com o caráter
de cláusula pétrea. Desta forma, este estudo pretende compreender, explicar e
discutir o Tribunal do Júri, bem como a ausência de fundamentação das decisões
frente à democracia.
Assim, o presente trabalho será desenvolvido através da luz dos preceitos
trazidos pela Constituição Federal de 1988, sabendo que as decisões são
desprovidas de qualquer fundamentação e levando em consideração os princípios
que dela se originaram e que regem em especial a instituição do Tribunal do Júri.
Tendo em vista os diversos aspectos que permeiam o debate sobre o Tribunal do
Júri, desde a sua origem até a inserção na legislação brasileira, até sua atual
previsão legal no sistema vigente.
Entretanto, o trabalho se desenvolverá em seu capítulo inicial por meio de
uma abordagem doutrinária dos aspectos gerais sobre a história e evolução da
instituição em caráter geral mundial e caráter específico no Brasil, bem como a seu
atual procedimento.
Conseguinte, nos capítulos posteriores, haverá uma abordagem sobre o
Tribunal do Júri frente à Constituição de 1988, ante os princípios basilares e sobre o
Estado Democrático de Direito de acordo a Carta Magna, além de uma breve
explanação sobre a democracia e os sistemas de participação popular.
20

Adiante, será demonstrada a problemática referente à falta de fundamentação


das decisões tomadas pelo Conselho de Sentença frente ao dever de
fundamentação das decisões judiciais como direito fundamental, por meio do
embasamento teórico doutrinário, seguindo os preceitos do Estado Democrático de
Direito, como estabelecido em nosso ordenamento jurídico desde a promulgação da
Constituição Cidadã de 1988, além de apresentar algumas problemáticas
encontradas no instituto na visão doutrinária de alguns autores.
21

2 TRIBUNAL DO JÚRI: HISTÓRIA E EVOLUÇÃO

A instituição do Tribunal do Júri sempre motivou muitas abordagens e foi


objeto de muita controvérsia. Afirma-se assim que o Tribunal Popular do Júri surgiu
com a própria organização social, como uma necessidade de punir os crimes mais
graves da forma mais justa possível. Embora muito criticado, o Tribunal do Júri é um
instituto renomado na Constituição Federal de 1988 e repleto de garantias
constitucionais que o torna de grande importância para o sistema processual penal
brasileiro (GOÉS; ALENCAR, 2017).
O ritual do Tribunal do Júri é considerado como uma cerimônia solene,
qualificando-se como um procedimento especialíssimo. Dessa maneira, o
procedimento do Tribunal do Júri exibe uma dinâmica processual tão cerimoniosa
que chega a lembrar de rituais litúrgicos, comparando assim o júri às solenidades
tipicamente sacras (MACHADO, 2014).
Acredita-se que a participação popular nos julgamentos criminais foi indicada
como uma das melhores formas de estruturação da justiça penal. De início, razões
de ordem política serviam de base aos argumentos de seus precursores e com o
passar do tempo, motivos sentimentais, fantasiados com a indumentária da política
criminal, foram desenvolvidos e expostos para justificar a magistratura popular
(MARQUES, 1955 apud SOUZA, 2013).
Em uma definição sobre a dinâmica do julgamento, Firmino Whitacker (1904)
apud Souza (2013, p. 17) refere ao Tribunal do Júri como “um tribunal em que
cidadãos previamente alistados, sorteados e afinal escolhidos, em sua consciência e
sob a fé de um solene juramento, decidem, de fato, sobre a culpabilidade ou não
culpabilidade de um acusado, na generalidade das infrações penais”.
Dessa maneira, Souza (2013) entende sobre o Tribunal do Júri:

Trata-se de um órgão judiciário com vestes especiais, tendo em vista vários


fatores envolvidos: a convocação de pessoas leigas para julgar fatos e a
dinâmica diferenciada na sessão plenária (o sorteio, juramento, exposições
argumentativas das partes adversas, entre outros) conferem a este órgão
ares de um verdadeiro ritual jurídico. (SOUZA, 2013, p. 17).

Diz-se que pela própria composição do júri, cujo Conselho de Sentença é


integrado pelos juízes leigos e presidido por um juiz de direito, é conferido ao
Tribunal do Júri uma dinâmica inteiramente diferente daquela que se vê̂ nos modelos
22

burocráticos dos processos judiciais em geral. A solenidade do júri começa aí, com a
participação popular e toda a mística que essa participação envolve (MACHADO,
2014).
Aos juízes leigos incumbe decidir acerca das questões fáticas, enquanto que
ao juiz togado, presidente do Conselho de Sentença, compete aplicar o direito.
Dessa maneira, diversos autores acreditam que tal separação de atribuições, no
entanto, parece não ter uma base lógica ou científica muito sólida, pois jamais
poderá se dizer que o direito se separa do fato (MACHADO, 2014).
Destarte, reconhece que não é correta essa afirmação de que os jurados
julgam o fato e o juiz-presidente aplica a lei de acordo com essa decisão
(MACHADO, 2014).
Ressaltando que os jurados também se pronunciam sobre conceitos
normativos e propõe que o melhor seria dizer, segundo Greco Filho (1997) apud
Machado (2014, p. 282) que “os jurados decidem sobre a existência do crime e a
autoria, e o juiz-presidente aplica a pena ou medida de segurança ou proclama
absolvição”. Nestes termos, acredita Machado (2014), que o melhor seria dizer que:

os juízes leigos decidem sobre a ocorrência do crime com as suas


circunstâncias atenuantes, agravantes, qualificadoras e eventuais
descriminantes, nos termos da lei; e que o juiz-presidente do Conselho de
Sentença aplica a pena ou absolve, de acordo com essa decisão e com a
lei. (MACHADO, 2014, p. 282).

Supõe-se que o júri é uma instituição bastante polêmica e talvez seja o órgão
judicial que desperte as maiores. Assim, são numerosos seus defensores e
adversários, ambos os lados com argumentos respeitáveis, porém, nenhum deles
com a intenção de triunfar sobre o outro. Aparenta de tal maneira que a discussão e
a polêmica compõem a própria essência do júri, já́ que a finalidade dessa instituição
destacada pontualmente com a realização do direito por meio do debate e do
confronto dialético das ideias (MACHADO, 2014).
Mesmo considerado polêmico, defendido e detratado, Machado (2014)
defende que algo é nítido a certa do Tribunal do Júri:

Embora polêmico, defendido e detratado, uma coisa é certa: parece não


haver nenhuma perspectiva, pelo menos em curto prazo, de se abolir a
instituição do Júri. Nos países de tradição democrática, algumas garantias
constitucionais são mesmo intocáveis, como são os casos do habeas
corpus e do Tribunal do Júri. (MACHADO, 2014, p. 285).
23

Assim, o Tribunal do Júri é de suma importância para a democracia, pois este


dá voz ativa do cidadão nos julgamentos dos crimes dolosos contra a vida, sendo
um elogiável exemplo de participação do povo na edificação da justiça. Assim,
acredita-se que a instituição do júri é vista além do que uma tradição, sendo assim
uma necessidade, pois é uma instituição democrática, e o judiciário carece da
participação do cidadão, focando assim num direito penal e processual do “fato” e
não do “autor” (BERCLAZ, 2015).

2.1 Aspectos gerais sobre a história e evolução do tribunal do júri no mundo

Para maior elucidação acerca da instituição Tribunal do Júri, tal como é


conhecida atualmente, se faz necessário apresentar uma breve explanação de sua
origem e evolução histórica.
Segundo Gonçalves (2011, p. 56) “o vocábulo júri origina-se do latim jurare,
que significa fazer juramento. Esse juramento refere-se à promessa de seguir
determinados ditames legais e morais durante a sessão de júri”.
Apesar de acreditar que a origem do júri ocorreu na antiguidade, não há muita
certeza sobre em qual modelo de instituição se deu o seu nascedouro. Assim,
segundo Machado (2014, p. 285) “ora indicam-se os centeni comites ou judices jurati
em Roma, ora o heliastas na Grécia, que eram tribunais integrados por juízes leigos
e togados”.
Diante da vasta imprecisão doutrinária a respeito do surgimento do Tribunal
do Júri, Maximiliano (1954) apud Nucci (2016a, p. 42) afirma que “as origens do
instituto, vagas e indefinidas, perdem-se na noite dos tempos”.
Em consonância, Goés e Alencar (2017) acreditam que:

O surgimento do Tribunal do Júri é bem incerto; verifica-se por meio da


evolução da sociedade que sua intenção é penalizar os crimes de natureza
grave da maneira mais justa possível. Historicamente, a competência de
julgamento cabia às comunidades patriarcais, quais eram administradas
pelos homens mais velhos. Estes, além de deter a administração da
comunidade, aplicavam regras que deveriam ser respeitadas por todos.
(GOÉS; ALENCAR, 2017, p. 701).

Távora e Alencar (2017) também demonstram que a origem da instituição é


visualizada de forma bastante controversa:
24

A origem do Tribunal do Júri é visualizada tanto na Grécia como em Roma,


havendo quem veja um fundamento divino para a legitimidade desse órgão.
Sob essa inspiração, o julgamento de Jesus Cristo, malgrado desprovido
das garantias mínimas de defesa, é lembrado como um processo com
características que se assemelham ao júri. De lado as controvérsias sobre a
origem, a maior parte da doutrina indica como raiz do Tribunal do Júri a
Magna Carta da Inglaterra, de 1215, bem como seu antecedente mais
recente, a Revolução Francesa de 1789. (TÁVORA; ALENCAR, 2017, p.
1231).

Dessa forma, é importante salientar que existem várias correntes que versam
sobre o surgimento do instituto. Sendo assim, Rangel (2018) acredita sobre o
nascimento do Tribunal do Júri:

O tribunal popular, diferente do que muitos pensam, não nasce,


propriamente dito, na Inglaterra, pois já existiam, no mundo, outros tribunais
com as suas características. Alguns buscam sua origem nos heliastas
gregos, nas quaestiones perpetuae romanas, no tribunal de assises de Luís,
o Gordo, na França (ano de 1137). Porém, não há nenhuma hereditariedade
histórica do júri a essas organizações. (RANGEL, 2018, p. 38).

Tucci (1992) apud Rangel (2018) corrobora dizendo que:

há quem afirme, com respeitáveis argumentos, que os mais remotos


antecedentes do Tribunal do Júri se encontram na lei mosaica, nos dikastas,
na Hilieia (Tribunal dito popular) ou no Areópago gregos; nos centeni
comitês, dos primitivos germanos; ou, ainda, em solo britânico, de onde
passou para os Estados Unidos e, depois, de ambos para os continentes
europeus e americanos. (TUCCI, 1992 apud RANGEL, 2018, p. 38).

Não obstante, os autores foram em busca da origem do júri em matéria


judiciária, o que aparece no direito dos primeiros reis anglo-normandos, com
Henrique II, no século XII, à mesma época do surgimento do Common Law. Por sua
vez, o júri em matéria criminal surgiu muito após o júri civil. Assim, Rangel (2018)
aduz sobre:

O júri em matéria criminal só se consolidou muito depois do júri civil, pois,


inicialmente, os jurados julgavam apenas as causas cíveis, surgindo depois
a necessidade de submetê-los também às matérias criminais, envolvendo,
agora, a liberdade individual e, em alguns países, até a vida, pois a pena de
morte foi e é conhecida de alguns países, inclusive o Brasil, retirando das
mãos do soberano o poder de decidir, sozinho, a vida dos seus
súditos.(RANGEL, 2018, p. 38).

Dessa maneira, diante de tão imprecisão doutrinária ao tema, Machado


(2014, p. 286) entende que “os autores são mais ou menos unânimes em apontar a
25

origem do Tribunal do Júri na Magna Carta de 1215”. Dessa maneira, a cláusula de


número 21 da Constituição de João Sem-Terra dispunha que Condes e Barões só
podiam ser punidos pelos seus pares e apenas em proporção à gravidade do delito
cometido.
Assim, Machado (2014) argumenta que nessa época, a instituição do Tribunal
do Júri estava bastante ligada a superstições e crenças populares:

Outros lembram ainda que essa época se caracterizava por uma forte
influência religiosa e que o Concilio de Latrão, também em 1215, teria por
um lado abolido as ordálias de Deus e, por outro, inspirado a instituição do
júri como expressão de ritos e dogmas religiosos aplicados aos julgamentos
como meio de se alcançar a graça divina da verdade. A criação do Tribunal
do Júri com o número de 12 jurados, representados pelos homens de
consciência pura, não seria outra coisa senão a crença de que essa pureza
pudesse propiciar a visita do Espirito Santo, a exemplo do que ocorreu com
a reunião dos 12 apóstolos na célebre passagem bíblica. (MACHADO,
2014, p. 286).

A instituição ainda foi vinculada à ideia de vocação divina para o julgamento,


trazendo dessa vinculação o significado do termo “júri”:

é exatamente daí́ que advém o termo júri, com o significado de juramento


tendo Deus por testemunha. Essa origem confessional da instituição, com
toda a sua aura sagrada, sobrevive ainda hoje em muitos de seus aspectos,
como, por exemplo, nos atos processuais excessivamente solenes que
lembram as práticas litúrgicas, bem como no aspecto de templo religioso
que quase sempre caracteriza os salões do Tribunal do Júri, com a sua
arquitetura neoclássica, seus parquets, seus tapetes, seus lustres e o
indefectível crucifixo logo acima da cabeça do presidente. (NORONHA apud
MAGALHÃES, 2014, p. 286).

Afirma-se também, que em seus primórdios, o júri era o tribunal em que


cidadãos, previamente alistados, sorteados e afinal escolhidos, em sua consciência
e sob juramento, decidiam, de fato, sobre a culpabilidade dos acusados na
generalidade das infrações penais (ACQUAVIVA, 1991).
Diante tal perspectiva, Rangel (2018) acredita não haver quaisquer dúvidas
sobre o caráter democrático da instituição do Tribunal do Júri, exatamente por
nascerem das decisões emanadas da vontade do povo, retirando das mãos dos
magistrados a soberania sobre a decisão.
26

2.1.1 O início do tribunal no Brasil

Como citado anteriormente, Rangel (2018) entende que o Tribunal do Júri em


matéria criminal, como se verifica nos dias atuais, só se consolidou muito depois do
júri civil, pois, inicialmente, os jurados julgavam apenas as causas cíveis e só após
surgiu a necessidade de submetê-los também às matérias criminais.
No direito brasileiro, o júri surge em meados de 1822 com uma lei de 18 de
junho, na qual delimitava a sua competência para julgar exclusivamente os crimes
de imprensa. (MACHADO, 2014).
Segundo Rangel (2018) foi num momento político conturbado e de liberdade
da metrópole que nasceu o júri, antes, portanto, da independência do Brasil, que
ocorreu em 7 de setembro de 1822 e da primeira Constituição brasileira. Dessa
forma, o júri nasce no Brasil ainda quando se encontrava sob o domínio de Portugal.
Destarte, Nucci (2016a) leciona:

Assim, em 18 de junho de 1822, por decreto do Príncipe Regente, instalou-


se o Tribunal do Júri no País, atendendo-se ao fenômeno de propagação da
instituição corrente em toda a Europa. Era inicialmente um tribunal
composto por 24 cidadãos “bons, honrados, inteligentes e patriotas”,
prontos a julgar os delitos de abuso da liberdade de imprensa, sendo suas
decisões passíveis de revisão somente pelo Regente. (NUCCI, 2016, p.
437).

Com o passar dos anos, em 1824 houve a promulgação da Constituição


Imperial, onde o Tribunal do Júri teve a sua competência ampliada. Fernando Capez
(2018) entende que o instituto passou a integrar o Poder Judiciário como um de seus
órgãos, tendo sua competência ampliada para julgar causas cíveis e criminais.
Completando o entendimento, Nucci (2016a) leciona que:

Em 1824, a Constituição do Império colocou-o no capítulo pertinente ao


Poder Judiciário (art. 151, do Capítulo Único, do Título 6.º). Os jurados, à
época, poderiam julgar causas cíveis e criminais, conforme determinassem
as leis, que, aliás, incluíram e excluíram delitos e causas do júri, várias
vezes. (NUCCI, 2016, p. 437).

Assim, Machado (2014, p. 287) afirma que o artigo (art.) 152 da Constituição
Imperial ainda trazia determinada previsão: “os jurados pronunciam sobre o fato e os
juízes aplicam a lei”.
27

Alguns anos depois, em 29 de novembro de 1832, a instituição do Tribunal do


Júri foi disciplinada no Código de Processo Criminal brasileiro, o qual lhe conferiu
ampla competência, só restringida em 1842, com a entrada em vigor da Lei nº 261
(CAPEZ, 2018).
Dessa maneira, Fausto (1999) apud Rangel (2018) indica que com a entrada
em vigor do Código de Processo Criminal, os juízes poderiam prender e julgar
pessoas acusadas de cometer pequenas infrações.
Assim, também seguindo o modelo americano e inglês, o Código de Processo
instituiu o júri para julgar a grande maioria dos crimes e o habeas corpus, a ser
concedido a pessoas presas ilegalmente ou cuja liberdade fosse ameaçada. Nestes
moldes, só podiam ser jurados os cidadãos que fossem eleitores, condensando
assim somente os que tinham uma boa situação econômica, já que eram estes
quem podiam votar à época, nascendo aqui, a distância entre os jurados e o réu
(RANGEL, 2018).
Rangel (2018, p. 58) afirma que “integrar o júri era algo possível apenas para
determinada classe social, fazendo falecer de legitimidade a formação do Conselho
de Sentença”.
Passando-se alguns anos, houve a Proclamação da República brasileira,
onde a nova Constituição manteve o Júri como instituição soberana. Nucci (2016a)
pontifica que esta nova constituição manteve o júri no Brasil e ainda criou o júri
federal por meio do Decreto nº 848 de 1890. Sob a influência da Constituição
americana, por ocasião da inclusão do júri na Constituição Republicana, transferiu-
se a instituição para o contexto dos direitos e garantias individuais.
Por sua vez, com o passar dos anos, Capez (2018) informa que houve a
criação da Constituição de 1934, na qual acredita-se que veio com a intenção de
acalmar os ânimos dos anos anteriores. Houve um grande avanço no sistema
eleitoral, com a introdução do voto secreto e no setor social, com garantias
trabalhistas. Dessa maneira Nucci (2016a) leciona sobre o júri que:

a Constituição de 1934 voltou a inserir o júri no capítulo referente ao Poder


Judiciário (art. 72), para, depois, ser totalmente retirado do texto
constitucional, em 1937. Por conta disso, iniciaram-se os debates acerca da
manutenção ou não da instituição no Brasil, até que 2. o Decreto-lei 167, de
1938, confirmou a existência do júri, embora sem soberania (art. 96).
(NUCCI, 2016a, p. 627).
28

Machado (2014) pensa que a Carta de 1934 e de 1937 foram editadas em um


contexto político nitidamente autoritário. Apesar de manter a instituição do júri na
disposição da Constituição, retirou-a do capítulo das declarações de direitos e
garantias individuais.
A Constituição de 1937, por sua vez, sequer fez menção ao júri, com o que
teria abolido a instituição se não fosse promulgado (MACHADO, 2014).
Dessa forma, Nucci (2016a) afirma que somente com Constituição de 1946 foi
ressuscitado o Tribunal Popular no seu texto, com a reinserção no capítulo dos
direitos e garantias individuais.
Assim, Machado (2014) lecionou sobre a Carta Magna de 1946:

a Constituição de 1946, reconhecidamente uma das mais democráticas que


o país já́ editou, manteve a instituição e proclamou-lhe a soberania dos
veredictos, definindo a sua competência ratione materiae para o julgamento
dos crimes dolosos contra a vida; competência essa que se mantém até́
hoje. Assim, vencido o período autoritário do Estado Novo, o júri ganha
novamente a antiga dignidade constitucional com que tão cedo ingressou no
direito brasileiro. (MACHADO, 2014, p. 288).

Com a implementação da Ditatura Militar no Brasil, com a outorga da


Constituição de 1967 também se manteve o Júri no capítulo dos direitos e garantias
individuais e a Emenda Constitucional nº. 1 de 17 de outubro de 1969, manteve a
instituição no mesmo capítulo, mas restrita ao julgamento dos crimes dolosos contra
a vida (CAPEZ, 2018).
Nucci (2016a) destaca sobre essa constituição:

Ocorre que, por esta última redação, mencionou-se somente que “é mantida
a instituição do júri, que terá competência no julgamento dos crimes dolosos
contra a vida”. Não se falou em soberania, sigilo das votações ou plenitude
de defesa, fixando-se, claramente, a sua competência somente para os
crimes dolosos contra a vida. (NUCCI, 2016a, p. 438).

Posteriormente, passando-se 21 anos de ditadura militar, houve o que foi


chamado de redemocratização do Brasil, com a promulgação da Carta Magna, que
ainda é a atual e soberana do sistema brasileiro.
Capez (2018) pontifica dizendo que nela houve o reconhecimento da
instituição do Júri, assegurados como princípios básicos: a plenitude do direito de
defesa, o sigilo nas votações, a soberania dos veredictos e a competência mínima
para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida.
29

2.1.2 O tribunal do júri do Brasil e seu atual procedimento

Como analisado anteriormente, o Tribunal do Júri no Brasil teve início em


1922 e passou por diversas mudanças ao longo dos anos até chegar ao modelo
conhecido hoje por meio da promulgação da Carta Magna em 1988.
Lima (2016) define o Tribunal do Júri atual como:

O Tribunal do Júri é um órgão especial do Poder Judiciário de primeira


instância, pertencente à Justiça Comum Estadual ou Federal, colegiado e
heterogêneo, formado por um juiz togado, que é seu presidente, e por 25
(vinte e cinco) jurados, 7 (sete) dos quais compõem o Conselho de
Sentença , que tem competência mínima para o processo e julgamento dos
crimes dolosos contra a vida, temporário, porquanto constituído para
sessões periódicas, sendo depois dissolvido, dotado de soberania quanto
às decisões, tomadas de maneira sigilosa e com base no sistema da íntima
convicção, sem fundamentação, de seus integrantes leigos. (LIMA, 2016, p.
1847).

Como todo e qualquer órgão do Poder Judiciário, o Tribunal do Júri está


previsto na Constituição Federal. Todavia, diversamente dos demais órgãos do
Poder Judiciário, o Júri é colocado no rol dos Direitos e Garantias Individuais e
Coletivos, o que não afasta sua verdadeira natureza jurídica de órgão especial da
Justiça Comum (Estadual ou Federal) (LIMA, 2016).
Dessa forma, Lima (2016) ainda afirmar acreditar que:

Na verdade, a justificativa para a colocação do Júri no art. 5º da


Constituição Federal guarda relação com a ideia de funcionar o Tribunal
Leigo como uma garantia de defesa do cidadão contra as
arbitrariedades dos representantes do poder, ao permitir a ele ser
julgado por seus pares. Além disso, não se pode perder de vista o cunho
democrático inerente ao Júri, que funciona como importante
instrumento de participação direta do povo na administração da
Justiça. Afinal, se o cidadão participa do Poder Legislativo e do Poder
Executivo, escolhendo seus representantes, a Constituição também haveria
de assegurar mecanismo de participação popular junto ao Poder Judiciário.
(LIMA, 2016, p. 1847, grifo nosso).

Távora e Alencar (2017) definem o rito processual do Tribunal do Júri como


escalonado, ou seja, bifásico, com duas etapas bem distintas.

(1) a primeira fase (semelhante ao procedimento comum ordinário, porém


com algumas diferenças)): chama-se juízo da instrução preliminar, também
conhecido como juízo de admissibilidade, sumário da culpa, juízo de
30

acusação ou judicium accusationis, sendo uma verdadeira fase de filtro, a


propiciar a remessa do réu à segunda etapa do julgamento, que conta com
a colaboração do corpo de jurados, somente quando o feito estiver
suficientemente maduro; e (2) a segunda fase, que só ocorrerá se
pronunciado o acusado, ou seja, se admitida a acusação, com a prolação
de um juízo de admissibilidade positivo pelo juiz sumariante (juiz singular):
denomina-se preparação para julgamento, judicíum causae ou juízo de
mérito, onde os fatos serão apreciados pelos jurados., sob a presidência do
juiz-presidente do Tribunal do Júri. (TÁVORA; ALENCAR, 2017, p. 1234).

O rito procedimental para os processos de competência do Júri é entendido


como escalonado, iniciando a primeira fase com o oferecimento da denúncia e se
encerrando com a decisão de pronúncia. A segunda tem início com o recebimento
dos autos pelo juiz-presidente do Tribunal do Júri e termina com o julgamento pelo
Tribunal do Júri (CAPEZ, 2017). Dessa forma, demanda-se para a melhor
compreensão do rito que se estude separadamente cada uma dessas fases.

2.1.2.1 Da instrução preliminar

Távora e Alencar (2017) eludem que a primeira fase do rito, denominada


como juízo da instrução preliminar, será inaugurada com a denúncia ou queixa
subsidiária, podendo ser recebida ou rejeitada, discordando ainda sobre parte da
doutrina que titula a fase como a de “sumário de culpa”:

Atualmente, não faz mais sentido chamar a primeira fase de sumário de


“culpa”, eis que a culpa só se forma após o trânsito em julgado de sentença
penal condenatória, não sendo mais autorizado incluir o nome do réu no rol
dos culpados antes daquele momento, como acontecia, na sistemática
anterior, quando da prolação de pronúncia. (TÁVORA; ALENCAR, 2017, p.
1235).

Segundo Pacelli e Fischer (2017, p. 328), “a fase então denominada de


acusação e de instrução preliminar, ou do judicium accusationis é reservada para a
decisão acerca da possível existência de um crime da competência do Tribunal do
Júri”. Dessa forma, o autor afirma que a nossa legislação, para evitar que todos os
processos penais que tivessem por objeto a morte fossem encaminhados, desde
logo, ao Tribunal do Júri, preferiu reservar ao Judiciário um juízo prévio acerca da
natureza dos fatos em apuração, para a definição da competência jurisdicional a ser
exercida.
Assim, Aury Lopes Júnior (2018) pontifica sobre a instrução preliminar:
31

A instrução preliminar não se confunde com a investigação preliminar, que é


a fase pré‐processual da qual o inquérito policial é a principal espécie. A
instrução preliminar pressupõe o recebimento da denúncia ou queixa e,
portanto, o nascimento do processo. Feita essa ressalva, compreende‐se
que a instrução preliminar é a fase compreendida entre o recebimento da
denúncia ou queixa e a decisão de pronúncia (irrecorrível). (LOPES
JÚNIOR, 2018, p. 792).

Dessa forma, no Código de Processo Penal, a fase do sumário de culpa


segue o rito que se encontra determinado nos artigos 406 a 412.
Sobre essa fase Nucci (2016a) ensina que é a que se colhem as provas,
sobre o crivo do contraditório e da ampla defesa, que são garantias do devido
processo legal. Finalizada a instrução, a qual se assemelha ao procedimento
comum, o juiz avaliará a admissibilidade da acusação, ou seja, se é viável ou não
enviar o caso à apreciação dos jurados, no Tribunal do Júri, como forma cautelar,
uma vez que declara a competência ao júri, este não dará voto fundamentado,
podendo condenar, assim querendo, qualquer um.
Nucci (2016a) continua sua elucidação dizendo que:

Por isso, antes que um processo seja oferecido à avaliação dos juízes
leigos, há o crivo do magistrado togado. Este, por sua vez, tem a importante
missão de filtrar os casos onde existem provas mínimas para que o Júri se
reúna decidindo a sorte do acusado, separando os outros, em que fica
evidente a carência de provas, devendo ser encerrada a instrução, até que
novas provas surjam, se for o caso. (NUCCI, 2016a, p. 440).

Após essa fase instrumental, atinge a fase peculiar prevista nos artigos. 413 a
419 do Código de Processo Penal (CPP). Encerrada a fase instrutória e as
alegações finais, o juiz proferirá decisão de pronúncia, impronúncia, desclassificação
ou sentença absolvendo sumariamente o réu, como previsto nos artigos.
A decisão de pronúncia, conforme elucida Nucci (2016, p. 442) “é a decisão
interlocutória mista, que julga admissível a acusação, remetendo o caso à
apreciação do Tribunal do Júri”. Dessa maneira, entende a doutrina majoritária que
esta decisão é de natureza mista, pois com essa decisão se encerra a fase de
formação de culpa com a instauração da fase de preparação do plenário do júri.
Sobre a impronúncia, por sua vez, Nucci (2016a) define:

É a decisão interlocutória mista de conteúdo terminativo, visto encerrar a


primeira fase do processo (judicium accusationis), deixando de inaugurar a
32

segunda, sem haver juízo de mérito (art. 414, CPP). Assim, inexistindo
prova da materialidade do crime ou não havendo indícios suficientes de
autoria, deve o magistrado impronunciar o réu, significando julgar
improcedente a denúncia ou queixa e não a pretensão punitiva do Estado.
Desse modo, se, porventura, novas provas advierem, outro processo pode
instalar-se. (NUCCI, 2016a, p. 446).

Nucci (2016, p. 447) define a decisão de desclassificação da infração penal


como “a decisão interlocutória simples, modificadora da competência do juízo, não
adentrando o mérito, nem tampouco fazendo cessar o processo”. Dessa forma o
Código de Processo Penal dispõe:

Art. 419. Quando o juiz se convencer, em discordância com a acusação, da


existência de crime diverso dos referidos no § 1º do art. 74 deste Código e
não for competente para o julgamento, remeterá os autos ao juiz que o seja.
(BRASIL, 1941).

É importante salientar que o juiz somente poderá desclassificar a infração


penal, em caso de certeza quanto à ocorrência de crime diverso daqueles previstos
no art. 74, § 1.º1, do Código de Processo Penal (NUCCI, 2016).
Poderá ainda o juiz decidir por absolvição sumária, que por sua vez, Nucci
(2016) classifica como:

É a decisão de mérito, que coloca fim ao processo, julgando improcedente a


pretensão punitiva do Estado. A Lei 11.689/2008 ampliou o rol das
hipóteses em que se admite essa espécie de decisão. O art. 415 do CPP
prevê as seguintes: a) estar provada a inexistência do fato; b) estar provado
não ter sido o réu o autor ou partícipe do fato; c) estar demonstrado que o
fato não constitui infração penal; d) estar demonstrada causa de isenção de
pena (excludentes de culpabilidade) ou de exclusão do crime (excludentes
de ilicitude). (NUCCI, 2016, p. 448).

Sendo assim, depois de findada a fase de instrução preliminar com a decisão


do magistrado, havendo pronúncia e preclusa a decisão, os autos serão
encaminhados ao juiz presidente do Tribunal do Júri, como disposto no art. 4212 do
CPP.

1
Art. 74. A competência pela natureza da infração será regulada pelas leis de organização
judiciária, salvo a competência privativa do Tribunal do Júri. § 1º Compete ao Tribunal do Júri o
julgamento dos crimes previstos nos arts. 121, §§ 1º e 2º, 122, parágrafo único, 123, 124, 125, 126
e 127 do Código Penal, consumados ou tentados. (Redação dada pela Lei nº 263, de 23.2.1948)
(BRASIL, 1941).
2
Art. 421. Preclusa a decisão de pronúncia, os autos serão ncaminhados ao juiz presidente do
Tribunal do Júri. (Redação dada pela Lei nº 11.689, de 2008). § 1o Ainda que preclusa a decisão de
pronúncia, havendo circunstância superveniente que altere a classificação do crime, o juiz
ordenará a remessa dos autos ao Ministério Público. (Incluído pela Lei nº 11.689, de 2008) .§ 2o
33

2.1.2.2 Da fase de julgamento

Após a preclusão da decisão de pronúncia inicia-se a fase de preparação do


plenário, prevista nos artigos 422 a 424 do CPP:

Art. 422. Ao receber os autos, o presidente do Tribunal do Júri determinará


a intimação do órgão do Ministério Público ou do querelante, no caso de
queixa, e do defensor, para, no prazo de 5 (cinco) dias, apresentarem rol de
testemunhas que irão depor em plenário, até o máximo de 5 (cinco),
oportunidade em que poderão juntar documentos e requerer diligência.
Art. 423. Deliberando sobre os requerimentos de provas a serem produzidas
ou exibidas no plenário do júri, e adotadas as providências devidas, o juiz
presidente:
I – ordenará as diligências necessárias para sanar qualquer nulidade ou
esclarecer fato que interesse ao julgamento da causa;
II – fará relatório sucinto do processo, determinando sua inclusão em
pauta da reunião do Tribunal do Júri.
Art. 424. Quando a lei local de organização judiciária não atribuir ao
presidente do Tribunal do Júri o preparo para julgamento, o juiz competente
remeter-lhe-á os autos do processo preparado até 5 (cinco) dias antes do
sorteio a que se refere o art. 433 deste Código.
Parágrafo único. Deverão ser remetidos, também, os processos preparados
até o encerramento da reunião, para a realização de julgamento. (BRASIL,
194, grifo nosso).

Nucci (2016a) pontifica que com o advento da Lei nº 11.689/2008 houve uma
inovação recursal, onde obriga o magistrado elaborar relatório do processo, que será
entregue em cópia a cada um dos jurados componentes do Conselho de Sentença.
Dessa forma, esclarece:

Sem manifestar qualquer opinião sobre o processo, o relatório deve conter,


dentre outros pontos, conforme o prudente critério do juiz, o seguinte: a)
resumo do conteúdo da denúncia ou queixa; b) resumo do conteúdo da
defesa prévia do réu, com suas alegações preliminares e/ou exceções; c)
elenco das provas (basta enumerar e não detalhar uma por uma) colhidas
ao longo do inquérito, em especial as periciais, que não são refeitas; d)
elenco das provas (basta enumerar e não detalhar uma por uma) colhidas
na fase de formação da culpa; e) resumo do conteúdo do interrogatório do
réu, em especial, se levantou e qual foi a sua tese de autodefesa (se
preferiu valer-se do direito ao silêncio, basta mencionar o fato, sem
valoração alguma); f) resumo do conteúdo das alegações finais das partes;
g) resumo do conteúdo da pronúncia, acolhendo e/ou rejeitando as teses
das partes (se houve impronúncia, desclassificação ou absolvição sumária,
expor o resumo do seu conteúdo, fazendo menção à reforma pelo Tribunal);
h) exposição de pontos excepcionais, como, por exemplo, se houve
decretação da prisão preventiva ou prisão em flagrante, concessão ou
negativa de liberdade provisória, recurso contra a pronúncia e resultado do

Em seguida, os autos serão conclusos ao juiz para decisão. (Incluído pela Lei nº 11.689, de 2008)
(BRASIL, 1941).
34

acórdão; i) se houve aditamento à denúncia e alteração da pronúncia, após


a preclusão; j) quais as provas requeridas e, eventualmente, realizadas na
fase de preparação do plenário. (NUCCI, 2016a, p. 451).

Nucci (2016a) ainda doutrina sobre a possibilidade que a lei de organização


judiciária não atribua ao juiz presidente do Tribunal do Júri, o preparo do processo
para o plenário. E caso isso ocorra, o juiz competente remeterá ao presidente do júri,
os autos preparados até cinco dias antes do sorteio dos vinte e cinco jurados da
sessão, como disposto no art. 424 do CPP.
Antes do julgamento ainda pode ocorrer o desaforamento, que segundo
Greco Filho (2012, p. 602) “é a deslocação da competência, previsto exclusivamente
no caso do julgamento em plenário do júri, se ocorre um dos motivos do art. 427,
para outra comarca da mesma região”.
Aury Lopes Júnior (2018) classifica em quatro as hipóteses de
desaforamento, encontradas nos artigos 427 e 428 do CPP, sendo estas: interesse
de ordem pública; dúvida sobre a imparcialidade do júri; quando a segurança do réu
exigir; comprovado excesso de serviço. Vale ressaltar que Lima (2016) diz que o
desaforamento tem aplicação restrita à segunda fase do procedimento do júri.
Após a fase de preparação do julgamento acontecerá a organização da pauta,
nos termos dos artigos 429 a 431 do Código de Processo Penal e estando o
processo em ordem, o juiz presidente mandará intimar as partes, o ofendido, se for
possível, as testemunhas e os peritos, quando houver requerimento, para a sessão
de instrução e julgamento, como disposto no artigo 431 CPP3.
Conseguinte a organização de pautas, o artigo 432 do CPP dispõe que o juiz
presidente determinará a intimação do Ministério Público, da Ordem dos Advogados
do Brasil e da Defensoria Pública para acompanharem, em dia e hora designados, o
sorteio dos jurados que atuarão na reunião periódica. Haverá dessa forma, a
afixação na porta do edifício do Tribunal do Júri a relação dos jurados convocados, o
nome do acusado e dos procuradores das partes, além do dia, hora e local das
sessões de instrução e julgamento, conforme o artigo 4354 do CPP.

3
Art. 431. Estando o processo em ordem, o juiz presidente mandará intimar as partes, o ofendido,
se for possível, as testemunhas e os peritos, quando houver requerimento, para a sessão de
instrução e julgamento, observando, no que couber, o disposto no art. 420 deste Código. (Redação
dada pela Lei nº 11.689, de 2008). (BRASIL, 1941).
4
Art. 435. Serão afixados na porta do edifício do Tribunal do Júri a relação dos jurados convocados,
os nomes do acusado e dos procuradores das partes, além do dia, hora e local das sessões de
instrução e julgamento. (Redação dada pela Lei nº 11.689, de 2008). (BRASIL, 1941).
35

Superada tal fase, se dará a composição do Tribunal do Júri e a formação do


Conselho de Sentença, nos termos do artigo 447 do CPP. Lima (2016) ensina que:

De acordo com o art. 447 do CPP, o Tribunal do Júri é composto por 1 (um)
juiz togado, seu presidente, e por 25 (vinte e cinco) jurados que serão
sorteados dentre os alistados, 7 (sete) dos quais constituirão o Conselho de
Sentença em cada sessão de julgamento. Apesar de tomarem parte nos
trabalhos, o Ministério Público e o defensor não compõem o Tribunal do
Júri. (LIMA, 2016, p. 1386).

Greco Filho (2012) esclarece em sua doutrina que desde o início e até seu fim
regem a sessão do Tribunal do Júri, os princípios da concentração e da
incomunicabilidade:

Concentração significa que a sessão é una e única. Somente pode ser


suspensa pelo tempo necessário à alimentação e ao repouso dos
participantes. Diligências eventualmente necessárias devem ser feitas
imediatamente. Se houver interrupção da sessão, ainda que por motivo de
força maior, como o mal súbito de um dos participantes, o adiamento
implicará nova sessão completa no outro dia, nada se aproveitando da
sessão anterior, que será totalmente desconsiderada. Durante toda a
sessão – e por essa razão é que não pode haver interrupção –, os jurados
devem manter-se incomunicáveis. A incomunicabilidade se aplica aos
jurados entre si e em face de terceiros. Não pode haver manifestação de
opinião de qualquer jurado sobre o julgamento da causa, nem de terceiros
para eles, salvo os debates das partes. (GRECO FILHO, 2012, p. 611).

Após a formação do Conselho de Sentença, o presidente da sessão, que em


regra será um magistrado, fará com os jurados selecionados o juramento nos termos
do artigo 472 do CPP e ao final receberão cópias da decisão de pronúncia, ou, se for
o caso, das decisões posteriores que julgaram admissível a acusação e do relatório
do processo.
Prestado o compromisso pelos jurados, será iniciada a instrução plenária
quando o juiz presidente, o Ministério Público, o assistente, o querelante e o
defensor do acusado tomarão, sucessiva e diretamente, as declarações do ofendido,
se possível e inquirirão as testemunhas arroladas pela acusação (artigo 473 CPP).
Aury Lopes Júnior (2018) ensina sobre o papel do juiz e dos jurados na
segunda fase do procedimento do Tribunal do Júri:

O papel do juiz presidente é completamente secundário, não tendo ele o


protagonismo inquisitório do sistema anterior, no qual o juiz fazia a
inquir(s)ição e, após, deixava “o que sobrasse” para as partes. Nessa linha,
deve‐se ter presente (ainda) o disposto no art. 212 do CPP, norma geral a
orientar a produção da prova testemunhal. Então o papel do juiz, mais do
36

que nunca, é subsidiário. Sua principal missão é evitar a indução e


eventuais constrangimentos que promotor e advogado de defesa venham a
praticar em relação à testemunha. Já os jurados, verdadeiros juízes do caso
penal, poderão formular perguntas, através do juiz presidente, que exercerá
o papel de mediador, para evitar que o jurado acabe deixando transparecer
algum juízo de valor, externando sua posição sobre a responsabilidade
penal do réu. Se isso acontecer, nada mais restará ao juiz do que dissolver
o Conselho de Sentença e marcar novo júri (estando esse jurado impedido
de atuar, por evidente). (LOPES JÚNIOR, 2018, p. 828).

A seguir da inquirição das testemunhas e do depoimento pessoal, será o


acusado interrogado, se estiver presente, nos termos do artigo 474 do CPP.
Nucci (2016a) ensina que findada a inquirição das testemunhas, o juiz
presidente passará a palavra ao órgão acusatório, que terá uma hora e meia para
sustentar a acusação, que terminada, terá a defesa o mesmo prazo regulamentar
para sua manifestação, nos termos do artigo 477 CPP. Dessa forma, Nucci (2016a)
ainda dispõe:

Quando a defesa termina sua manifestação, o juiz presidente consulta o


órgão acusatório se deseja replicar. Se a resposta for positiva, passa-lhe a
palavra por uma hora (art. 477, caput, CPP). Se não desejar, cessam os
debates. Após a réplica, cabe ao defensor manifestar-se em tréplica, por
uma hora. Admite-se a reinquirição de qualquer das testemunhas já ouvidas
em plenário (art. 476, § 4.º, CPP). Para isso, no entanto, é fundamental que
elas estejam aguardando e não tenham sido dispensadas. Aliás, é esse o
motivo pelo qual, quando cada testemunha termina seu depoimento, o juiz
consulta as partes e os jurados se dispensam a pessoa, para que possa ir
embora do fórum. (NUCCI, 2016a, p. 469).

Encerrada a fase dos debates, sem os jurados desejarem mais algum


esclarecimento, conforme previsto do artigo 480, § 1º CPP, haverá inicio o
procedimento de julgamento. Nucci (2016a) leciona sobre esse momento.

Se os jurados estiverem habilitados a julgar, após a leitura e explicação dos


quesitos em plenário, serão convidados a acompanhar o juiz e as partes
(exceto o réu) à Sala Especial (denominada também de “Sala Secreta”),
longe do público, para que, respeitado o sigilo do processo de votação,
possam decidir tranquilamente sobre a imputação. Não havendo sala
especial, o público deverá se retirar do plenário. Na sala privativa, os
jurados têm acesso aos autos e podem rever os instrumentos do crime,
sempre mantendo-se a incomunicabilidade. Embora o art. 480, § 3.º, do
CPP, mencione que o acesso aos autos e aos instrumentos do crime se
darão na fase de conclusão dos debates, é óbvio não se poder impedir o
juiz natural da causa de ter acesso, a qualquer instante, aos elementos
desejados, para auxiliar na formação do seu convencimento. (NUCCI,
2016a, p. 472).
37

Como quesitos, Nucci (2016a) define como perguntas ou indagações, que


demandam respostas, a emissão de uma opinião ou um juízo.
Greco Filho (2012) explica:

O Conselho de Sentença será questionado sobre matéria de fato e se o


acusado deve ser absolvido. Os quesitos serão redigidos em proposições
afirmativas, simples e distintas, de modo que cada um deles possa ser
respondido com suficiente clareza e necessária precisão. Na sua
elaboração, o presidente levará em conta os termos da pronúncia ou das
decisões posteriores que julgaram admissível a acusação, do interrogatório
e das alegações das partes. (GRECO FILHO, 2012, p. 617).

Assim, nos termos do artigo 483 do CPP, os quesitos serão formulados


indagando sobre: I – a materialidade do fato; II – a autoria ou participação; III – se o
acusado deve ser absolvido; IV – se existe causa de diminuição de pena alegada
pela defesa; V – se existe circunstância qualificadora ou causa de aumento de pena
reconhecidas na pronúncia ou em decisões posteriores que julgaram admissível a
acusação.
De acordo os parágrafos §§ 1º e 2º do artigo 483 do CPP, a resposta
negativa, de mais de 3 jurados, a qualquer dos quesitos referidos nos incisos I e II
acima encerra a votação e implica a absolvição do acusado, e caso respondidos
afirmativamente por mais de 3 jurados os quesitos relativos aos incisos I e II do
caput do art. 483 será formulado quesito com a seguinte redação: “O jurado absolve
o acusado?”. Decidindo os jurados pela condenação, o julgamento prossegue,
devendo ser formulados quesitos sobre: I – causa de diminuição de pena alegada
pela defesa; II – circunstância qualificadora ou causa de aumento de pena,
reconhecidas na pronúncia ou em decisões posteriores que julgaram admissível a
acusação.
Sustentada a desclassificação da infração para outra de competência do juiz
singular, será formulado quesito a respeito, para ser respondido após o 2º (segundo)
ou 3º (terceiro) quesito, conforme o caso, conforme §5º5 do artigo 483 CPP.
A votação dos quesitos será sigilosa e conforme o artigo 489 do CPP, as
decisões do Tribunal do Júri serão tomadas por maioria de votos. E se caso a
resposta a qualquer dos quesitos estiver em contradição com outra ou outras já

5
§ 5o Sustentada a tese de ocorrência do crime na sua forma tentada ou havendo divergência sobre
a tipificação do delito, sendo este da competência do Tribunal do Júri, o juiz formulará quesito
acerca destas questões, para ser respondido após o segundo quesito. (Incluído pela Lei nº 11.689,
de 2008) . (BRASIL, 1941).
38

dadas, o presidente, explicando aos jurados em que consiste a contradição,


submeterá novamente à votação os quesitos a que se referirem tais respostas, nos
termos artigo 490 do CPP. Dessa forma, encerrada a votação, será o termo
descritivo dos votos, previsto no artigo 488 do CPP, assinado pelo presidente, pelos
jurados e pelas partes, como previsto no artigo 491 CPP.
Vencida a fase de votação, o juiz proferirá sentença em conformidade com o
Código de Processo Penal:

Art. 492. Em seguida, o presidente proferirá sentença que:


I – no caso de condenação:
a) fixará a pena-base;
b) considerará as circunstâncias agravantes ou atenuantes alegadas nos
debates;
c) imporá os aumentos ou diminuições da pena, em atenção às causas
admitidas pelo júri;
d) observará as demais disposições do art. 387 deste Código;
e) mandará o acusado recolher-se ou recomendá-lo-á à prisão em que se
encontra, se presentes os requisitos da prisão preventiva;
f) estabelecerá os efeitos genéricos e específicos da condenação;
II – no caso de absolvição:
a) mandará colocar em liberdade o acusado se por outro motivo não estiver
preso;
b) revogará as medidas restritivas provisoriamente decretadas;
c) imporá, se for o caso, a medida de segurança cabível.
§ 1o Se houver desclassificação da infração para outra, de competência do
juiz singular, ao presidente do Tribunal do Júri caberá proferir sentença em
seguida, aplicando-se, quando o delito resultante da nova tipificação for
considerado pela lei como infração penal de menor potencial ofensivo, o
disposto nos arts. 69 e seguintes da Lei no9.099, de 26 de setembro de
1995.
§ 2o Em caso de desclassificação, o crime conexo que não seja doloso
contra a vida será julgado pelo juiz presidente do Tribunal do Júri,
aplicando-se, no que couber, o disposto no § 1o deste artigo. (BRASIL,
1941).

A sentença será lida em plenário pelo presidente antes de encerrada a


sessão de instrução e julgamento, conforme o artigo 493 do CPP e após, o escrivão
lavrará a ata dos trabalhos realizados, que descreverá fielmente, mencionando
obrigatoriamente: I – a data e a hora da instalação dos trabalhos; II – o magistrado
que presidiu a sessão e os jurados presentes; III – os jurados que deixaram de
comparecer, com escusa ou sem ela, e as sanções aplicadas; IV – o ofício ou
requerimento de isenção ou dispensa; V – o sorteio dos jurados suplentes; VI – o
adiamento da sessão, se houver ocorrido, com a indicação do motivo; VII – a
abertura da sessão e a presença do Ministério Público, do querelante e do
assistente, se houver, e a do defensor do acusado; VIII – o pregão e a sanção
39

imposta, no caso de não comparecimento; IX – as testemunhas dispensadas de


depor; X – o recolhimento das testemunhas a lugar de onde umas não pudessem
ouvir o depoimento das outras; XI – a verificação das cédulas pelo juiz presidente;
XII – a formação do Conselho de Sentença , com o registro dos nomes dos jurados
sorteados e recusas; XIII – o compromisso e o interrogatório, com simples referência
ao termo; XIV – os debates e as alegações das partes com os respectivos
fundamentos; XV – os incidentes; XVI – o julgamento da causa; XVII – a publicidade
dos atos da instrução plenária, das diligências e da sentença. A falta da ata sujeitará
o responsável a sanções administrativa e penal, nos termos do artigo 496, CPP.

2.2 Os jurados e a forma de seleção

Figueiras (2008) apud Souza (2013) discorre que a atual forma de seleção
dos jurados tem como fonte o Código de Processo Penal de 1941, no qual traz a
marca da ditadura da Era Vargas. Desde então, consta apenas um registro de
mudança, trazido pela Lei nº 11.689/08, a qual representou tímidos avanços no que
diz respeito ao assunto. Dessa forma, ensina sobre o significado da participação
popular na produção das decisões judiciais.

Nota-se que a entrada dos juízes leigos no campo jurídico significou – e


ainda significa – o ingresso dos profanos no sagrado templo da justiça, onde
o domínio da competência jurídica consubstancia-se num elemento central
de reconhecimento daqueles que podem legitimamente falar e julgar dentro
do processo. (FIGUEIRAS, 2008 apud SOUZA, 2013, p. 73).

Souza (2013) informa que pode-se sistematizar a lógica do ritual da seleção


dos jurados em três etapas:

1) A escolha pelos órgãos públicos requisitados/ Alistamento voluntário: O


Cartório da Vara do Júri envia ofícios para órgãos públicos, instituições
privadas e associações requisitando nomes de cidadãos idôneos para
compor a lista de jurados. As varas do Júri também divulgam informações
sobre as inscrições para jurados voluntários, ou seja, qualquer cidadão que
preencha os critérios estabelecidos pela lei pode se inscrever diretamente
no Fórum local para o exercício da função.
2) Escolha pelo Juiz – resultado dos ofícios dos órgãos e dos voluntários:
Com as respostas dos ofícios e as fichas com os nomes dos voluntários em
mãos, o Juiz e os funcionários da Vara do Júri começam a verificar a
compatibilidade dos nomes disponíveis com o possível trabalho. A medida
básica reside na observância da certidão de antecedentes criminais dos
candidatos a jurados.
40

3) Escolha pelas partes – Acusação e Defesa: As partes interferem em dois


momentos distintos na seleção dos jurados: primeiro, antes da formação da
lista anual, é dada a oportunidade para que a Acusação e Defesa possam
opinar acerca dos nomes. Segundo, no momento do sorteio dos cidadãos
na audiência, através das recusas fundamentadas ou, ainda, sem
motivação – o que a doutrina denomina de “recusas peremptórias. (SOUZA,
2013, p. 75).

Como visto anteriormente, os jurados são membros da sociedade que


participam no Tribunal do Júri, dos julgamentos dos crimes dolosos contra a vida,
decidindo se o réu é culpado ou inocente, com base nas respostas aos quesitos
formulados pelo juiz presidente que, então, proferirá a sentença. Como previsto no
artigo 447 do CPP, “o Tribunal do Júri é composto por 1 (um) juiz togado, seu
presidente e por 25 (vinte e cinco) jurados que serão sorteados dentre os alistados,
7 (sete) dos quais constituirão o Conselho de Sentença em cada sessão de
julgamento”.
Sobre o mecanismo de seleção Álvaro Fernandes apud Souza, entende:

não se pode deixar de examinar a forma de escolha dos jurados, algo que,
por si só, consiste em um ritual rigoroso. Entre nós, anualmente serão
alistados pelo juiz-presidente do Tribunal do Júri, sob sua responsabilidade
e mediante escolha por conhecimento pessoal e informação fidedigna.
(FERNANDES, 2007 apud SOUZA, 2012, p. 75).

O Código de Processo Penal estabelece que serão anualmente alistados pelo


presidente do Tribunal do Júri de 800 (oitocentos) a 1.500 (um mil e quinhentos)
jurados nas comarcas de mais de 1.000.000 (um milhão) de habitantes; de 300
(trezentos) a 700 (setecentos) nas comarcas de mais de 100.000 (cem mil)
habitantes e de 80 (oitenta) a 400 (quatrocentos) nas comarcas de menor
população. O Código ainda sistematiza as regras dispondo que esses números
poderão sofrer aumento e ainda será organizada, a lista de suplentes.
Dessa forma, o juiz presidente requisitará às autoridades locais, associações
de classe e de bairro, entidades associativas e culturais, instituições de ensino em
geral, universidades, sindicatos, repartições públicas e outros núcleos comunitários,
a indicação de pessoas que reúnam as condições para exercer a função de jurado, o
que se pode notar a efetiva participação popular nessa parte, que segundo Souza
(2012, p. 87) “as requisições de nomes para as mais diversas entidades e órgãos
têm por objetivo formar uma lista de pessoas com diferentes formações e visões de
mundo”.
41

O Código de Processo Penal sistematiza ainda que a lista geral dos jurados,
com indicação das respectivas profissões, será publicada pela imprensa até o dia 10
de outubro de cada ano e divulgada em editais afixados à porta do Tribunal do Júri e
poderão sofrer alterações de ofício ou mediante reclamação de qualquer do povo ao
juiz presidente até o dia 10 de novembro, data de sua publicação definitiva. Os
nomes e endereços dos alistados, em cartões iguais, após serem verificados na
presença do Ministério Público, de advogado indicado pela Seção local da Ordem
dos Advogados do Brasil e de defensor indicado pelas Defensorias Públicas
competentes, permanecerão guardados e fechados a chave, sob a responsabilidade
do juiz presidente.
Segundo o § 4º do artigo 426 do CPP, o jurado que tiver integrado o Conselho
de Sentença nos 12 (doze) meses que antecederem à publicação da lista geral fica
dela excluído. Vale salientar que anualmente a lista geral dos jurados será,
obrigatoriamente, completada.
O artigo 439 do Código de Processo Penal explicita que o exercício efetivo da
função de jurado constituirá serviço público relevante e estabelecerá presunção de
idoneidade moral. Nucci (2016a) acredita que além de serviço público relevante, o
júri é essencial para a formação do devido processo legal daqueles que são
acusados da prática de crimes dolosos contra a vida, sendo natural a
obrigatoriedade da participação de qualquer brasileiro, respeitados alguns requisitos.
Segundo Souza (2013) “a nossa legislação ordinária estabelece apenas três
critérios para seleção dos jurados: idade acima de 18 anos, condição de cidadão e
notória idoneidade”. Dessa maneira, se faz de grande relevância salientar que o
serviço do júri é obrigatório e o alistamento compreenderá os cidadãos maiores de
18 (dezoito) anos de notória idoneidade.
Nenhum cidadão pode ser excluso dos trabalhos do júri ou deixar de ser
alistado em razão de cor, etnia, raça, credo, sexo, profissão, classe social ou
econômica, origem ou grau de instrução, por base no caput do artigo 436 e do seu
§1º. Dessa forma, acentua-se o artigo 439 c/c com o § 2º do artigo 436, que
determina a obrigatoriedade do serviço de jurado, no qual a recusa injustificada ao
serviço poderá acarretar multa entre 1 (um) e 10 (dez) salários mínimos, sendo
determinados a critério do juiz e observada a condição econômica do recusando.
Após a organização da pauta de julgamento nos moldes dos artigos 429 a
431 do CPP, haverá o sorteio e a convocação dos jurados pelo juiz presidente (art.
42

432, CPP) que determinará a intimação do Ministério Público, da Ordem dos


Advogados do Brasil e da Defensoria Pública para acompanharem, em dia e hora
designados, o sorteio dos jurados que atuarão na reunião periódica.
O Código ainda dispõe que o sorteio presidido pelo juiz, far-se-á a portas
abertas, cabendo-lhe retirar as cédulas até completar o número de 25 (vinte e cinco)
jurados para a reunião periódica ou extraordinária. O sorteio será realizado entre o
15º (décimo quinto) e o 10º (décimo) dia útil antecedente à instalação da reunião e a
audiência de sorteio não será adiada pelo não comparecimento das partes. Destaca-
se que o jurado não sorteado poderá ter o seu nome novamente incluído para as
reuniões futuras.
Segundo o §2º do artigo 448 do CPP, aplicar-se-á aos jurados o disposto
sobre os impedimentos, a suspeição e as incompatibilidades dos juízes togados.
Dessa forma, estão impedidos de participar do mesmo Conselho de Sentença,
marido e mulher, ascendente e descendente, sogro e genro ou nora, irmãos e
cunhados, tio e sobrinho, padrasto e madrasta ou enteado e pessoas que
mantenham união estável reconhecida como entidade familiar. Idem, não poderá
participar do Conselho de Sentença aquele que tiver funcionado em julgamento
anterior do mesmo processo, independentemente da causa determinante do
julgamento posterior, no caso do concurso de pessoas, houver integrado o Conselho
de Sentença que julgou o outro acusado e caso tenha manifestado prévia disposição
para condenar ou absolver o acusado.
Destarte, se houver reconhecimento de algum impedimento por parentesco
ou relação de convivência, servirá o que houver sido sorteado em primeiro lugar. O
artigo 451 dispõe que os jurados excluídos por impedimento, suspeição ou
incompatibilidade serão considerados para a constituição do número legal exigível
para a realização da sessão.
Após os jurados sorteados serão convocados pelo correio ou por qualquer
outro meio hábil para comparecer no dia e hora designados para a reunião, sob as
penas da lei.
Compreende-se segundo o Código de Processo Penal que estão isentos de
participar do Tribunal do Júri: Presidente da República e os ministros de Estado;
Governadores e seus respectivos secretários; membros do Congresso Nacional, das
Assembleias Legislativas e das Câmaras Distrital e Municipais; Prefeitos municipais;
magistrados e membros do Ministério Público e da Defensoria Pública; servidores do
43

Poder Judiciário, do Ministério Público e da Defensoria Pública; autoridades e os


servidores da polícia e da segurança pública; militares em serviço ativo; cidadãos
maiores de 70 (setenta) anos que requeiram sua dispensa; aqueles que o
requererem, demonstrando justo impedimento.

2.3 Formação do conselho de sentença

Segundo ensino de Nucci (2016a), o Conselho de Sentença é o órgão


deliberativo do Tribunal do Júri, sendo composto por um juiz presidente e 25 jurados,
mas, dentre os convocados para a sessão, extraem-se sete para julgar o caso.
Assim, ensina de forma deliberativa que o júri é um colegiado formado por sete
magistrados leigos e um togado.
De acordo o ensinamento do artigo 466 do CPP, antes do sorteio, o juiz
esclarecerá aos jurados presentes dos impedimentos e das suspeições, para que,
se for o caso, quando chamado, o sorteado decline afirmando a sua situação de
incompatibilidades constantes dos artigos 448 e 449 do mesmo código. Dessa
forma, Nucci (2016a) destaca o seu entendimento de impedimentos como:

a) ter o jurado funcionado em julgamento anterior do mesmo processo,


independentemente da causa determinante do julgamento posterior;
b) no caso de concurso de pessoas, ter integrado o Conselho de Sentença
que julgou o outro acusado; c) ter manifestado prévia disposição para
condenar ou absolver o acusado (art. 449, CPP). (NUCCI, 2016a, p. 463).

Importante destacar que conforme o §1º do artigo 466 que o juiz presidente
também advertirá os jurados de que, uma vez sorteados, não poderão comunicar-se
entre si e com outrem, nem manifestar sua opinião sobre o processo, sob pena de
exclusão do Conselho e multa. Dessa forma, Nucci (2016) ensina que logicamente,
sobre fatos desvinculados do feito podem os jurados conversar, desde que não seja
durante a sessão, pois neste momento não se busca a mudez dos juízes leigos, mas
a preservação da sua íntima convicção. A troca de ideias sobre os fatos
relacionados ao processo poderia influenciar o julgamento, fazendo com que o
jurado pendesse para um ou outro lado, sendo assim:

Cabe ao juiz presidente, com muito tato e prudência, controlar o que o


jurado expressa, durante a sessão de julgamento. Não deve coibir os
integrantes do Conselho de Sentença de buscar esclarecimentos, através
44

de perguntas feitas a testemunhas, pedidos de exibição de documentos ou


leituras de peças, bem como acesso aos autos, ou indagações formuladas
diretamente ao magistrado, a respeito de qualquer assunto ligado ao
processo (valor e legalidade de prova, procedimento etc.), mas necessita
estar atento para que eles não manifestem, por intermédio de suas dúvidas,
a opinião em formação quanto ao deslinde do processo. Vale explicar aos
jurados, logo no início dos trabalhos, que eles podem agir com ampla
liberdade para formar o seu convencimento, devendo, no entanto, evitar a
todo custo a exposição do seu pensamento. (NUCCI, 2016a, p. 464).

Salienta-se que o código prevê que quando a incomunicabilidade for rompida,


a penalidade é a dissolução do Conselho e a exclusão do corpo de jurados do
tribunal, pois terá ocorrida a nulidade prevista no artigo 564, III, alínea “J”, podendo,
se houver má-fé contatada implicar na configuração do crime de prevaricação (art.
319 do CP), podendo aplicar multa de um a dez salários mínimos, a critério do juiz,
conforme a condição econômica do jurado (art. 466, § 1º, CPP). Assim, Nucci
(2016a) ensina quanto a incomunicabilidade durante a sessão de julgamento:

Enquanto a sessão não terminar, ficam os jurados incomunicáveis,


significando que não podem voltar para casa, nem falar ao telefone ou
mesmo ler mensagens em pagers, celulares ou aparelhos semelhantes.
Qualquer contato com o mundo exterior, estranho às partes, aos
funcionários da Vara e aos outros jurados, serve para quebrar a
incomunicabilidade, uma vez que ninguém poderá garantir não ter havido
qualquer tipo de pressão ou sugestão para o voto. Recados urgentes
podem ser transmitidos por intermédio do oficial de justiça, que os receberá,
passando ao jurado, bem como deste será transmitido ao destinatário.
Quando recolhidos à sala secreta, haverá, sempre, com eles um oficial de
justiça para garantir a incomunicabilidade. Podem conversar entre si, com
as partes (promotor e defensor), com funcionários e com o juiz, desde que a
respeito de fatos alheios ao processo. (NUCCI, 2016a, p. 464).

Segundo Nucci (2016a) a abertura dos trabalhos se dará comparecendo ao


menos 15 jurados, instalando assim a sessão que será dada por aberta pelo juiz
presidente. O próprio magistrado anuncia o processo a ser julgado (número do
processo, nomes do autor e do réu, classificação do crime) e pede ao oficial que
faça o pregão (anúncio na porta do plenário para que todos tomem ciência, vez que
o julgamento é público).
Verificando que se encontram na urna, as cédulas relativas aos jurados
convocados presentes, o juiz presidente sorteará 7 (sete) dentre eles para a
formação do Conselho de Sentença, segundo o artigo 467 do CPP.
Assim, para chegar-se aos sete jurados necessários, passa-se por um
sistema de recusas públicas onde as partes poderão recusar, imotivadamente, três
45

jurados cada uma e motivadamente, quantas vezes o fundamento ser acolhido pelo
juiz presidente.
Segundo o artigo 468 do CPP, à medida que as cédulas forem sendo
retiradas da urna, o juiz presidente as lerá, em seguida a defesa e depois dela, o
Ministério Público poderão recusar os jurados sorteados, até 3 (três) cada parte,
sem motivar a recusa. Assim o jurado recusado imotivadamente por qualquer das
partes será excluído daquela sessão de instrução e julgamento, prosseguindo-se o
sorteio para a composição do Conselho de Sentença com os jurados
remanescentes.
Dessa forma, Nucci (2016b) leciona que para a formação do Conselho de
Sentença, haverá duas possibilidades de recusa do jurado, formuladas por qualquer
das partes.

A recusa motivada baseia-se em circunstâncias legais de impedimento ou


suspeição (arts. 448 e 449, CPP). Logo, não pode ser jurado, por exemplo,
aquele que for filho do réu, nem tampouco o seu inimigo capital. A recusa
imotivada – também chamada peremptória – fundamenta-se em
sentimentos de ordem pessoal do réu, de seu defensor ou do órgão da
acusação. (NUCCI, 2016b, p. 773).

Nucci (2016b) informa ainda que como regra, assim se procede por acreditar
que determinado jurado pode julgar de forma equivocada, permitindo emergir seus
preconceitos e sua visão pessoal a respeito dos fatos, mas nada existe de científico
comprovando que este ou aquele jurado, por sua profissão, qualidade de vida ou
formação intelectual ou moral, possa dar veredicto incorreto, em desacordo com a
prova dos autos. Assim, Nucci acredita sobre a recusa imotivada que:

Entretanto, sustentamos ser viável a manutenção da recusa imotivada,


porque, no Brasil, ao contrário de outros países, onde há a instituição do
júri, não pode a parte dirigir qualquer tipo de pergunta ao jurado, antes da
formação do Conselho Julgador, justamente para tentar saber se há ou não
preconceito ou inclinação ao prejulgamento no caso concreto. Poder-se-ia
aperfeiçoar a instituição, permitindo que acusador e defensor fizessem
algumas perguntas não relacionadas ao processo aos jurados presentes,
antes do sorteio. (NUCCI, 2016b, p. 773).

Dessa forma, o autor ainda toma como exemplos:

Exemplo disso poderia ser, num julgamento de aborto, a pergunta dirigida a


extrair do jurado a sua posição a respeito do assunto, em tese. Se ele for
contundentemente contra o aborto, poderá ser levado a condenar a ré que o
46

praticou, independentemente das provas apresentadas. Por outro lado, se


for francamente a favor, terá a inclinação de votar pela absolvição. Haverá
sempre aquele que ficará no meio-termo, dizendo que prefere cumprir a lei
ou que não tem posição firme sobre o assunto. É o jurado mais indicado
para esse julgamento. (NUCCI, 2016b, p. 773).

Sendo assim, Nucci (2016b) completa o seu raciocínio explanando que não
existe possibilidade de se questionar os membros do Tribunal do Júri antes do
sorteio, sendo o melhor a se fazer, dar às partes a possibilidade da recusa
imotivada, um mal menor, que permite o juízo de valor a respeito de pessoa leiga,
sem as garantias e deveres do magistrado togado, por isso mesmo livre para tomar
qualquer posição. Pois, por vezes, a parte rejeita o jurado porque percebeu que, em
outro julgamento, ele não teve comportamento adequado, fazendo perguntas
impertinentes ou deixando de prestar a devida atenção aos debates, tornando assim
um instrumento de proteção dos interesses tanto da acusação quanto da defesa.
Vencida a parte do sorteio dos sete jurados componentes do Conselho de
Sentença, passar-se-á para fase do juramento solene, onde em pé no Tribunal do
Júri ouvirão a exortação feita pelo juiz, nos termos do artigo 472 do CPP: “Em nome
da lei, concito-vos a examinar esta causa com imparcialidade e a proferir a vossa
decisão, de acordo com a vossa consciência e os ditames da justiça”. Respondendo,
cada jurado nominalmente chamados pelo juiz presidente: “Assim o prometo”.
Findada mais uma etapa, iniciará a instrução em plenário, nos moldes do CPP.
47

3 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL E O TRIBUNAL DO JÚRI

Como visto anteriormente, a instituição do Tribunal do Júri atual se encontra


na Constituição Federal de 1988 no artigo 5º, onde se trata dos direitos e das
garantias fundamentais, em seu inciso XXXVIII onde trouxe a fixação dos princípios
basilares da instituição:

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes:
[...]
XXXVIII - é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der
a lei, assegurados:
a) a plenitude de defesa;
b) o sigilo das votações;
c) a soberania dos veredictos;
d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida;
[...] (BRASIL, 1988, grifo nosso).

Sublinha-se a importância de tratar cada um de forma singular para maiores


esclarecimentos. Destaca-se, que alguns autores classificam a competência para o
julgamento dos crimes dolosos contra vida disposto na alínea “d” do inciso XXXVIII,
no artigo 5º da Constituição Federal 1988 (CF/1988) como um princípio regente do
Tribunal do Júri, assunto que já foi abordado no capítulo anterior, desse modo,
tratar-se-á separadamente sobre os demais princípios.

3.1 Plenitude da defesa

Entendido como um princípio concernente ao indivíduo, segundo Távora e


Alencar (2017), a “ampla defesa” não pode ser confundida com a "plenitude de
defesa”, estabelecida como garantia própria do Tribunal do Júri no art. 5°, XXXVIII,
"a", da Carta Magna.
Távora e Alencar (2017) distinguem uma da outra ensinando que o exercício
da ampla defesa está adstrito aos argumentos jurídicos (normativos) a serem
invocados pela parte no intuito de rebater as imputações formuladas, enquanto que
a plenitude da defesa autoriza a utilização não só de argumentos técnicos, mas
também de natureza sentimental, social e até mesmo de política criminal, no intuito
de convencer os jurados que compunham o Conselho de Sentença.
48

Dessa maneira, Albuquerque (2010) ensina sobre as diferenças desses dois


princípios:

Já foi apontado que a ampla defesa, princípio constitucional, e a plenitude


de defesa no júri, também constante do art. 5º, da Lei Maior, coexistem, são
semelhantes, se completam, mas, para o júri, a plenitude é maior, a sua
valoração é diferenciada e mais bem aplicada. Quando se recorre à
plenitude da defesa, recorre-se a uma argumentação extrajurídica, apela-se
para as questões de ordem moral, social, filosófica, recorre-se à retórica, ao
convencimento pela emoção, sim, às razões de ordem emocional. É o júri.
Tão democrático. (ALBUQUERQUE, 2010, p. 81).

No Tribunal do Júri, busca-se garantir ao réu não somente uma defesa ampla,
mas plena, completa, a mais próxima possível do perfeito (art. 5.º, XXXVIII, alínea
“a”, CF/88).
Segundo Nucci (2016a), cada um desses princípios destina-se a uma
finalidade específica, explicando que enquanto aos réus em processos criminais
comuns assegura-se a ampla defesa, e em oposição os acusados e julgados pelo
Tribunal do Júri garante-se a plenitude de defesa. Destacando os vocábulos
diversos e os seus sentidos, que enquanto o amplo quer dizer abundante; pleno
significa perfeito, onde o segundo é incontestavelmente mais forte que o primeiro:

O segundo é, evidentemente, mais forte que o primeiro. Assim, no processo


criminal, perante o juiz togado, tem o acusado assegurada a ampla defesa,
isto é, vasta possibilidade de se defender, propondo provas, questionando
dados, contestando alegações, enfim, oferecendo os dados técnicos
suficientes para que o magistrado possa considerar equilibrada a demanda,
estando de um lado o órgão acusador e de outro uma defesa eficiente.
Por outro lado, no Tribunal do Júri, onde as decisões são tomadas pela
íntima convicção dos jurados, sem qualquer fundamentação, onde
prevalece a oralidade dos atos e a concentração da produção de provas,
bem como a identidade física do juiz, torna-se indispensável que a defesa
atue de modo completo e perfeito – logicamente dentro das limitações
impostas pela natureza humana. A intenção do constituinte foi aplicar ao
Tribunal Popular um método que privilegie a defesa, em caso de confronto
inafastável com a acusação, homenageando a sua plenitude. Como já
tivemos ocasião de expor e tratar com maiores detalhes, “júri sem defesa
plena não é um tribunal justo e, assim não sendo, jamais será uma garantia
ao homem (Júri – Princípios constitucionais, p. 140). (NUCCI, 2016a, p. 55).

Dessa forma, Távora (2017) ensinam que a plenitude de defesa revela uma
dupla faceta, afinal, a defesa está dividida em técnica e autodefesa:

A primeira, de natureza obrigatória, é exercida por profissional habilitado, ao


passo que a última é uma faculdade do imputado, que pode efetivamente
trazer a sua versão dos fatos, ou valer-se do direito ao silêncio. Prevalece
49

no júri a possibilidade não só da utilização de argumentos técnicos, mas


também de natureza sentimental, social e até mesmo de política criminal, no
intuito de convencer o corpo de jurados. E se o réu, no interrogatório em
plenário, apresenta tese defensiva distinta do seu advogado? Entendemos
que as duas devem ser levadas ao conhecimento dos jurados, apesar do
STF já ter se manifestado que devem ser quesitadas apenas as teses
sustentadas pela defesa técnica, dando evidente prevalência a esta última.
(TÁVORA, 2017, p. 1231).

Contudo, parafraseando Lopes Filho (2004), no Tribunal no Júri, tido com o


tribunal popular, a plenitude de defesa é característica expressiva e essencial da
própria instituição, pois o Júri sem a defesa plena, não é um tribunal justo e assim
não sendo, jamais será uma garantia do homem. Essa plenitude de defesa é tida
como característica base da instituição do júri, qual clama por uma defesa
irretocável, seja porque o defensor técnico tem preparo suficiente para estar na
tribuna do júri, ou seja, porque o réu pôde utilizar o seu direito à autodefesa, ouvido
em interrogatório e tendo sua tese devidamente levada em conta pelo presidente do
Conselho de Sentença, em ocasião da elaboração do questionário.

3.2 Sigilo das votações

De acordo o magistério de Albuquerque (2010) o princípio do sigilo das


votações tem por finalidade proporcionar aos jurados, tranquilidade e isenção no
momento de decidir. Dessa forma a finalidade do sigilo especificamente é garantir a
liberdade na votação, impedindo o jurado de sofrer pressões e resguardando a
votação de maneira em que não ocorra nenhuma conturbação.
O que está previsto no artigo. 5.º, XXXVIII, b, da Constituição Federal,
significa que os jurados devem proferir o veredicto em votação situada em sala
especial, o que assegurará aos jurados maior tranquilidade, além da possibilidade
de reflexão, com eventuais consultas ao processo e perguntas ao magistrado.
Estarão presentes apenas as partes (no caso do réu, representado por seu
defensor) e os funcionários da Justiça, sob a presidência do magistrado (NUCCI,
2016a).
Dessa maneira, Távora e Alencar (2017) informam que para assegurar o
sigilo das votações e haver o justo cumprimento da Constituição é necessário:

que o juiz se acautele para suspender a divulgação dos demais votos assim
que se definir a votação de cada quesito, evitando que seja o sigilo violado
50

por uma eventual votação unânime. Nesse sentido, os parágrafos lo e 2°, do


art. 483, CPP, estabelecem que: (1) a resposta negativa, de mais de 3 (três)
jurados, a qualquer dos quesitos relativos à autoria e à materialidade delitiva
encerra a votação e implica a absolvição do acusado; e, (2) respondidos
afirmativamente por mais de 3 (três) jurados tais quesitos, será formulado
quesito com a seguinte redação: "O jurado absolve o acusado?': Em
síntese, é vedada a revelação da unanimidade, com o fito de que,
indiretamente, o sigilo não seja quebrado. Ao cabo, visa-se evitar qualquer
tipo de pressão ou ingerência na atividade dos juízes do povo. (TAVORA,
2017, p. 1232).

Assim, a votação secreta, segundo Amaral (2006) apud Albuquerque (2010),


seguirá o caminho seguinte:

inicialmente há a distribuição das cédulas aos jurados, que são dobráveis,


contendo as palavras “sim” ou “não”. Em seguida os votos são recolhidos
secretamente e, distribuídas as cédulas, o juiz lerá os quesitos que devem
ser respondidos. Há o recolhimento das cédulas com os votos pelo oficial de
justiça, as quais serão depositadas em urna lacrada. Contados os votos, o
resultado é registrado em ato, com a declaração do número de votos
negativos e positivos. A decisão é tomada por maioria e lida em voz alta por
um dos jurados. (AMARAL, 2006, p. 315 apud ALBUQUERQUE, 2010, p.
105).

Albuquerque (2010), a título de ilustração, exemplifica que os jurados


responderão secretamente aos quesitos apresentados pelo magistrado e serão
indagados sobre a materialidade do fato; a autoria ou participação; se o acusado
deve ser absolvido; se existe causa de diminuição de pena alegada pela defesa; se
existe circunstância qualificadora ou causa de aumento de pena reconhecida na
pronúncia ou em decisões posteriores que julgaram admissível a acusação, como
disposto no artigo 482 do CPP. Dessa maneira, ressalte-se que o sigilo é
caracterizado também porque se houver resposta negativa de mais de 3 (três)
jurados, a qualquer dos quesitos relativos à materialidade e à autoria, a votação será
encerrada e a absolvição é manifesta.
O Código de Processo Penal prevê que essa votação ocorra em sala especial
(art. 485), mas em sua falta, o juiz presidente determinará que o público se retire,
permanecendo no plenário apenas as partes e serventuários envolvidos no
julgamento.
Nucci (2009) esclarece que a primeira urna que passa, no sentido anti-
horário, conduzida pelo oficial de justiça, começa a recolher os votos válidos, a partir
do primeiro jurado (levando-se em conta o que foi sorteado e aceito em primeiro
51

lugar e assim sucessivamente), passando após, ao segundo, terceiro, quarto, quinto,


sexto e sétimo.
Momentos quais Albuquerque (2010) acredita ser tão angustiantes tanto para
o defensor como para a acusação. Enquanto os jurados decidem, as partes ainda
têm os debates em suas mentes e como eles poderão influenciar na decisão de
cada qual.
Todavia, é importante ressaltar nos moldes de Albuquerque (2010, p. 99) que
“o sigilo das votações, em nenhum momento, colide com a publicidade dos
julgamentos, que tem plataforma constitucional também”. Pois, esse julgamento
sempre é público, sendo mantida como secreta somente a votação para fins de
resguardar a liberdade do povo.

3.3 Soberania dos veredictos

É importante destacar que o Tribunal do Júri, como instrumento de julgamento


pelo povo, esteve presente em quase todas as constituições brasileiras. O princípio
da soberania dos veredictos tem previsão na Constituição Federal, em seu art. 5º,
XXXVIII, alínea “c” e far-se-á importante evidenciar do que se trata essa soberania.
O que Lopes Filho (2004), trata como significado primário “poder supremo” ou
“ordem suprema”, acima da qual não existe ou ainda poder preponderante do
Estado.
Dessa forma, Lopes Filho (2004) destaca sobre a soberania:

Assim, soberania, como historicamente a concebera Jean Bodin, é uma e


indivisível constituindo, em última alçada, o poder de dar ou revogar o
direito ou ainda como afirma Reale Jr., desde a revolução francesa, o
Estado tem procurado afirmar cada vez mais a prevalência da lei emanada
por ele sobre as demais fontes, que nem por isso deixam de existir. (LOPES
FILHO, 2004, p. 10).

Nassif (2002) apud Albuquerque (2010) destaca sobre a forma de tratar da


soberania do júri:

No caso do Júri, a soberania é a do povo e só pode ser vencida pelo direito


porque, com diz Mirabeau, este é o ‘soberano do Mundo’. Aliás, tratando do
tema, Brugger (1987, p. 383) destaca que ‘é soberano quem não tem acima
outra autoridade, que não seja o direito’. Mas o Júri tem a responsabilidade
pelo julgamento do fato, e aí esgota sua instância. As questões de direito
são de responsabilidade do agente do Poder Judiciário – o juiz togado – no
52

segmento imprescindível da jurisdição. Assim, resta excluída da


abrangência do conceito constitucional quanto à soberania, é óbvio, a
violação do direito, única força jurídica para gerar a ineficácia do
julgamento. A decisão sobre o fato é irrecorrível. (NASSIF, 2002, p. 140
apud ALBUQUERQUE, 2010, p. 92).

Contudo, sobre o princípio da soberania dos veredictos Capez (2018) ensina:

Trata-se de princípio relativo, logo não exclui a recorribilidade de suas


decisões, limitando-se, contudo, a esfera recursal ao juízo rescindente
(judicium rescindem), ou seja, à anulação da decisão pelo mérito e a
consequente devolução para novo julgamento (art. 593, III, d). Do mesmo
modo, em obediência ao princípio maior da verdade e em atenção ao
princípio da plenitude da defesa, admite-se alteração do meritum causae,
em virtude de revisão criminal. (CAPEZ, 2018, p. 654).

Dessarte, a soberania dos veredictos alcança o julgamento dos fatos,


conforme Távora e Alencar (2017), pois os jurados julgam os fatos. Tal julgamento,
por conseguinte, não pode ser modificado pelo juiz togado ou pelo tribunal que
venha a apreciar um recurso.
Lopes Filho (2004) acredita que:

De fato, os veredictos do tribunal popular podem ser revistos, pois acreditar


que o ser humano é perfeito, ou seja, que não pode errar, somente por estar
num colegiado, é manifesta inverdade. Os juízes equivocam-se e podem
cometer erros graves, independentemente de a decisão vir a ser
condenatória ou absolutória. (LOPES FILHO, 2004, p. 13).

Dessa forma, Nucci a (2016a) ensina que:

Conforme disposto no art. 5.º, XXXVIII, c, da Constituição Federal, proferida


a decisão final pelo Tribunal do Júri, não há possibilidade de ser alterada
pelo tribunal togado, quanto ao mérito. No máximo, compatibilizando-se os
princípios regentes do processo penal, admite-se o duplo grau de jurisdição.
Ainda assim, havendo apelação, se provida, o tribunal determina novo
julgamento, porém, o órgão julgador, quanto ao mérito da imputação, será,
novamente, o Tribunal Popular. (NUCCI, 2016a, p. 63).

Contudo, o artigo 593 do CPP dispõe em seu inciso III, alínea “d” e §3º que
quando a apelação se fundar na decisão de jurados manifestamente contrária à
prova dos autos e o tribunal ad quem se convencer de que a decisão dos jurados é
manifestamente contrária à prova dos autos, dar-lhe-á provimento para sujeitar o réu
a novo julgamento; não se admitindo, pelo mesmo motivo, segunda apelação.
53

3.4 Competência do tribunal do júri

Como exposto anteriormente, Rangel (2018) leciona dizendo que o júri


criminal só se consolidou após o júri civil. É fato que o Poder Judiciário é quem
exerce com exclusividade a função estatal objetiva de aplicar o direito aos casos
concretos, o que podemos entender por jurisdição. Faz-se importante compreender
qual é a competência do Tribunal do Júri brasileiro, mas preliminarmente, requer que
se delimite o que se entende por competência e fazendo a devida distinção com
jurisdição:

Por jurisdição compreende-se o poder atribuído com exclusividade ao


Judiciário (em razão da independência e da imparcialidade de seus
membros) para decidir um determinado litígio segundo as regras legais
existentes. Ao instituir a jurisdição, objetivou o Estado assegurar que as
normas de direito substancial incorporadas ao ordenamento jurídico
efetivamente conduzam aos resultados nelas previstos. Em outras palavras,
pode-se dizer que a finalidade da jurisdição não é outra senão a realização
das normas de direito objetivo, ou seja, a sua correta aplicação e, a partir
daí a solução justa da lide. O conceito de jurisdição não se confunde com o
de competência. Jurisdição é o poder conferido pela Constituição Federal a
todo qualquer Juiz para declarar o direito, sendo abstrata e subjetiva. Já a
competência é o conjunto de regras que vai definir qual é o juiz que poderá
examinar determinado litígio, sendo concreta e objetiva. Logo, apresenta-se
a competência como uma limitação ao exercício da jurisdição. (AVENA,
2018, p. 989).

Bonfim (2016), por sua vez ensina que

Todo juiz é investido, pela Constituição Federal, do poder jurisdicional.


Entretanto, nem todos os juízes podem julgar todas as causas. A extensão
do poder jurisdicional que cabe a cada juiz é limitada, segundo uma série de
critérios que a lei elege, estabelecendo-se, dessa forma, a competência de
cada julgador. A competência é, assim, a medida ou limite em que poderá́ o
julgador exercer o poder de jurisdição. Representa a porção do poder
jurisdicional que é conferido a cada órgão investido de jurisdição. Dessarte,
não obstante todo magistrado seja dotado de poder jurisdicional, somente
poderá́ exercê-lo dentro de certos limites fixados em lei, é dizer, dentro de
sua esfera de competência. (BONFIM, 2016, p. 303).

Bonfim (2016) acredita ainda que o Tribunal do Júri é ainda mais que um
simples órgão do Judiciário, pois o Júri apresenta-se como o direito fundamental do
indivíduo de ser julgado por seus pares.
Assim, a Constituição Federal de 1988 legitimou em seu título II, onde trata
dos direitos e garantias fundamentais, trazendo no esboço do rol do artigo 5º,
disposição mínima sobre a competência do instituto do Tribunal do Júri:
54

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes:
[...]
XXXVIII - é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der
a lei, assegurados:
a) a plenitude de defesa;
b) o sigilo das votações;
c) a soberania dos veredictos;
d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida;
[...] (BRASIL, 1988, grifo nosso).

Conseguinte, é preciso entender que a instituição do Tribunal do Júri é uma


garantia cláusula pétrea, como tal garantida pelo art. 60, § 4º da Carta Magna, ao
dispor que “não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:
IV - os direitos e garantias individuais” (BRASIL, 1988).
O Tribunal do Júri é um órgão especial do Poder Judiciário de primeira
instância, pertencente à Justiça comum, composto por membros da sociedade que
participam dos julgamentos realizados no Tribunal do Júri, os quais serão
responsáveis por julgar os crimes dolosos contra vida, consumados ou tentados ou
qualquer outro crime que tenha conexão com um crime doloso contra a vida.
O Código de Processo Penal brasileiro, subsidiariamente a Constituição
Federal, no §1º do artigo 74 dispõe sobre a competência do Tribunal do Júri:

Art. 74. A competência pela natureza da infração será regulada pelas leis de
organização judiciária, salvo a competência privativa do Tribunal do Júri.
§ 1º Compete ao Tribunal do Júri o julgamento dos crimes previstos nos
arts. 121, §§ 1º e 2º, 122, parágrafo único, 123, 124, 125, 126 e 127 do
Código Penal, consumados ou tentados. (BRASIL, 1941).

Pode-se afirmar dessa maneira que o Tribunal do Júri terá competência para
julgamento dos crimes, sendo estes consumados ou tentados, de: homicídio,
podendo ser estes na forma simples, qualificada ou com causa de diminuição de
pena; feminicídio; induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio; infanticídio e aborto
simples ou qualificado, podendo ser este provocado pela gestante ou com o seu
consentimento ou provocado por terceiro.
O Supremo Tribunal Federal, julgando habeas corpus (HC 78.1681, 1999), no
qual teve como relator o ministro Néri da Silveira, decidiu que a prerrogativa de foro
conferida a determinados agentes públicos não elide a competência do Tribunal do
55

Júri para julgá-los quando denunciados por crimes dolosos contra a vida. Desta
forma, ainda versando sobre a competência do Tribunal do Júri, concebeu-se a
Súmula de nº 721 do Supremo Tribunal Federal (STF), aprovada em seção plenária
em 2003, na qual posteriormente veio se torna a Súmula Vinculante de nº 45 do
STF, que preceitua: “A competência constitucional do Tribunal do Júri prevalece
sobre o foro por prerrogativa de função estabelecido exclusivamente pela
Constituição Estadual.” (BRASIL, 2015).
Távora e Alencar (2017) destacam que o genocídio, por ser crime contra a
humanidade, não irá a júri, da mesma forma que o latrocínio, que é crime contra o
patrimônio (Súmula nº 603, STF).
57

4 ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

Machado (2014) explana que a instituição do Júri, historicamente, sempre


esteve vinculada aos contextos políticos de inspiração liberal e democrática, sendo
um dos primeiros instrumentos de reivindicação política e de defesa da liberdade do
indivíduo no contexto de uma longa trajetória de luta pela afirmação desse direito
fundamental. Dessa forma, entende ser inegável a vinculação do júri aos valores
políticos do liberalismo e à consolidação das instituições democráticas no mundo
ocidental.
Como visto anteriormente, na atual Carta Magna, é reconhecida a instituição
do Júri, que está disciplinada no artigo 5º, XXXVIII, da Constituição Federal. Sendo
assim, Alencar e Góes (2017, p. 705) afirmam que:

Esse reconhecimento afirma a “ideologia” do Brasil como um Estado


Democrático de Direito, por se tratar de um Tribunal Popular que considera
a pessoa humana, ou seja, todos os atores sociais para uma efetiva
democracia participativa; uma vez que aqueles que fazem parte do Poder
Judiciário não foram eleitos pelo povo, por isso, e acima disso, a
participação popular é primordial para a garantia dos direitos
constitucionais, que, da mesma forma, foram “criados” pelo povo. O art. 60,
§4º, da CF/1988, ao tratar das cláusulas pétreas, elenca a sua extensão,
determinando que não será objeto de deliberação a proposta de emenda
tendente a abolir a forma federativa de Estado, o voto direto, secreto,
universal e periódico, a separação dos Poderes, os direitos e garantias
individuais. Nesse diapasão, podemos considerar o relevante valor do
Instituto para o sistema jurídico brasileiro. (ALENCAR; GÓES, 2017, p. 705).

Conforme disposto por Kneipp (2013) o Estado Democrático de Direito tem


origem na crise de identidade cidadão-Estado, que surgiu em 1976 em Portugal com
a Revolução dos Cravos. Na Espanha, com a queda do ditador Franco e
teoricamente no Brasil com o fim da ditadura militar e consequente Constituição da
República de 1988.

Surge aqui os Direitos Difusos: Todos são potenciais pertencedores destes


direitos que foram consagrados pelo Estado Democrático de Direito. É a
primeira constituição que contém este quesito, de se reconhecer um direito
no texto constitucional. (KNEIPP, 2013, p. 7).

Dessarte, Motta (2018) leciona que:

Interesses difusos, mais amplos constituem os interesses fragmentados,


tais como o direito ao ambiente saudável, ou a proteção ao consumidor,
58

configurando-se, na lição de Mauro Cappelletti, em interesses


metaindividuais que, não tendo atingido o grau de agregação e de
organização necessários à sua afetação institucional a certa entidade ou
órgãos representativos, restam fluidos, dispersos pela sociedade. Atingem,
portanto, um número indeterminado ou indeterminável de pessoas.
(MOTTA, 2018, p. 332).

Consoante, Kneipp (2013) afirma que no paradigma do Estado Democrático


de Direito, tem-se a busca por uma maior participação da população, sendo dessa
forma, a peça chave e questão fundamental desse modelo de Estado, devendo o
cidadão cotidianamente participar das atividades do Estado. Esse modelo chama os
cidadãos a participarem, sendo assim possível o seu funcionamento. Ensina ainda
que na organização do Estado Democrático de Direito sempre há presença da
sociedade na gestão do Estado e é nesse modelo de Estado que os direitos difusos
são consagrados.

4.1 Fundamentos primordiais do estado democrático de direito elencados ao


tribunal do júri

Carvalho (2002) pontifica que após mais de um ano de trabalho da


Constituinte na redação da Constituição, finalmente em 1988 foi promulgado a
Constituição, um longo e minucioso documento em que a garantia dos direitos do
cidadão era a preocupação central.
Zanetti (2013) por sua vez, explicita que amparando este processo de
universalização da democracia, o regime político traçado na Constituição brasileira
de 1988 funda-se no princípio democrático, assistindo como suporte para
manutenção e o desenvolvimento do Estado Democrático de Direito.
A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 05 de
outubro de 1988, elevou o Brasil a Estado Democrático de Direito em seu artigo 1º,
em seu primeiro título, nomeando este para tratar dos princípios fundamentais, além
de declamar sobre o poder do povo na nossa república:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel


dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.
59

Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
[...] (BRASIL, 1988).

Dessa maneira, Lenza (2018) ensina sobre a República Federativa do Brasil


que se constitui o Estado Democrático de Direito.

A previsão desse regime jurídico é reforçada pelo princípio democrático que


marcou o texto de 1988 e pela cláusula contida no parágrafo único do art.
1.º, ao dispor que todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
(LENZA, 2018, p. 1441).

Por meio dessa garantia apresentada pela Carta Magna, se faz importante
salientar que tais fundamentos elencados em rol taxativo dos seus incisos, podem
ser considerados como fundamentos básicos que devem ser integralmente elevados
a nível nacional, destacando assim os fundamentos que se relacionam com o
Tribunal do Júri.

4.1.1 A soberania

Como já citado anteriormente, Lopes Filho (2004) trata como significado


primário de soberania “poder supremo” ou “ordem suprema”, acima da qual não
existe ou ainda, poder preponderante do Estado.
Silveira Neto (1991) ensina sobre a soberania no Estado moderno:

A soberania do Estado moderno, segundo o consenso dos autores, surgiu,


historicamente, quando o poder, antes fragmentado e disperso em várias
entidades (Igreja, feudalismo, reis, cidades livres, etc.) se centralizou na
pessoa do Rei. Este se tornou absoluto, graças à Teoria do Direito Divino
dos Reis, e depois de enfraquecer os senhores feudais e a influência da
Igreja. Começou, pois, a soberania, por ser um apanágio dos monarcas;
estes eram a encarnação do Estado. “L’ Etat c’est moi” (eu sou o Estado),
teria dito Luís XIV, o mais poderoso dos reis de França. E esse fato coincide
com um novo tipo de sociedade, fundada numa identidade cultural, que se
denominou Nação. Mas esse poder do Rei se transferiu, com as doutrinas
liberais, para essa nova entidade, a Nação. O Poder passou do Rei para a
Lei, a Constituição. Isso resultou de muitos fatores, bastante analisados: a
Reforma Protestante, oue * quebrou a unidade medieval do poder da Igreja;
a formação do capitalismo e a ascensão da nova classe, a burguesia; e,
certamente mais importantes, as doutrinas jusnaturalistas e liberais, que
liquidaram com a desigualdade das classes (Nobreza, Clero e Povo) e
estabeleceram o princípio da isonomia ou igualdade perante a lei.
(SILVEIRA NETO, 1991, p. 30).
60

Motta (2018, p. 155) ensina que “soberania é um poder político que se


depreende, inicialmente, por uma relação de reciprocidade”. Dessa forma, afirma
que o Estado soberano é aquele que respeita a integridade do território, do governo
e da população dos demais Estados da comunidade internacional, desde que estes
respeitem, reciprocamente, a integridade de seu território, povo e governo, sendo
dividido em duas suas aplicações:

Esse poder político tem duas aplicações: dentro do território nacional é


superior a qualquer outra vontade e, ao mesmo tempo, no plano
internacional, coloca o Estado em questão, pelo menos idealmente, em pé
de igualdade com os demais Estados. (MOTTA, 2018, p. 155).

Nas palavras abalizadas de André Ramos Tavares (2002) apud Motta (2018),
soberania é um poder político supremo e independente, entendendo-se por poder
supremo aquele que não está limitado por nenhum outro na ordem interna e por
poder independente aquele que, na sociedade internacional, não tem que acatar
regras que não sejam voluntariamente aceitas e está em equilíbrio de igualdade com
os poderes supremos de outros povos.
Contudo, Lenza (2018) informa que na atualidade discute-se a amplitude da
soberania de determinado Estado, especialmente diante da ideia de um poder
constituinte transnacional ou supranacional, sendo esse um grande desafio para
encontrar um equilíbrio entre a soberania do Estado e a necessidade de adequação
ao conjunto dentro da ideia de um constitucionalismo globalizado.

4.1.2 A cidadania

Kammer (2003) elucida que o povo titular do poder qual é referido na


constituição da república é o “poder ativo”, sendo esse “aquele que além de ser
nacional, em razão de nascimento ou da adoção da nacionalidade brasileira, possui
a cidadania, da qual deriva a legitimidade para o exercício do poder que lhe foi
atribuído”. Assim, entende-se que apesar da população de um país ser composta
por nacionais ou estrangeiros, somente os cidadãos, entendidos como os nacionais
poderão interferir na situação do Estado.
Dessa maneira destaca que:
61

A cidadania é um vínculo que liga o indivíduo ao Estado e que lhe atribui


direitos e deveres de natureza política. No Estado Democrático de Direito a
efetivação da cidadania oferece aos seus titulares o gozo de direitos e a
existência de mecanismos que garantem sua eficácia, mas exige, em
contrapartida, o cumprimento de deveres ligados ao exercício responsável e
consciente do poder que lhe foi atribuído. (KAMMER, 2003, p. 3).

Segundo Duarte (2016) obstante a definição estrita de cidadania, adquirida


pelo direito de sufrágio (votar e ser votado), há que se considerar o termo numa
consecução ampla, englobando além dos direitos políticos, os direitos individuais, os
sociais e os econômicos, podendo se afirmar que o conceito de cidadania está
ligado à efetividade dos direitos fundamentais, conhecidos como direitos individuais,
sociais, políticos e econômicos.
Lenza (2018) entende a cidadania:

materializada tanto na ideia de capacidade eleitoral ativa (ser eleitor) e


passiva (ser eleito) como na previsão de instrumentos de participação do
indivíduo nos negócios do Estado. Assim, o conceito de cidadania não se
restringe a direitos políticos, mas nessa visão muito mais abrangente e que
engloba, também, os direitos e deveres fundamentais; (LENZA, 2018, p.
1444).

Assim, Leite (2018, p. 2) determina que para a melhor compreensão do que é


cidadania, far-se-á necessário diferenciar os conceitos de povo e população. “A
população compreende todos os que vivem em uma determinada nação. O povo,
por sua vez, são os brasileiros natos e naturalizados. Essa distinção é importante
porque, em regra, só quem pode exercer cidadania no Brasil é o povo”.
Entretanto, a cidadania compreende todos os direitos e obrigações de
natureza política e ressalta-se que não necessariamente todo integrante do povo irá
exercer a cidadania, mas para a exercer a cidadania, o indivíduo deve fazer parte do
povo.

4.1.3 A dignidade da pessoa humana

Como lúcido na Constituição Federal de 1988, o Estado Democrático de


Direito tem como fundamento básico a dignidade da pessoa humana.
Moraes (2002) apud Awad (2006) entende que:

A dignidade é um valor espiritual e moral inerente à pessoa, que se


manifesta singularmente na autodeterminação consciente e responsável da
62

própria vida e que traz consigo a pretensão ao respeito por parte das
demais pessoas, constituindo-se em um mínimo invulnerável que todo
estatuto jurídico deve assegurar, de modo que, somente excepcionalmente,
possam ser feitas limitações ao exercício dos direitos fundamentais, mas
sempre sem menosprezar a necessária estima que merecem todas as
pessoas enquanto seres humanos. (MORAES, 2002 apud AWAD, 2006, p.
113).

Lenza (2018, p. 1444) diz que a dignidade da pessoa humana “pode ser bem
definido como o núcleo essencial do constitucionalismo moderno”. Dessa maneira,
diante de colisões, a dignidade sempre deverá ser observada, servindo para orientar
as necessárias soluções de conflitos.
Silva (2009) apud Duarte (2016) fundamenta que

Dignidade da pessoa humana é um valor supremo que atrai o conteúdo de


todos os direitos fundamentais do homem, desde o direito à vida.
‘Concebido como referência constitucional unificadora de todos os direitos
fundamentais [observam Gomes Canotilho e Vital de Moreira], o conceito de
dignidade da pessoa humana obriga a uma densificação valorativa que
tenha em canta o seu amplo sentido normativo-constitucional e não uma
qualquer ideia apriorística do homem, não podendo reduzir-se o sentido da
dignidade humana à defesa dos direito pessoais tradicionais, esquecendo-a
nos casos de direitos sociais, ou invocá-la para construir ‘teoria núcleo da
personalidade’ individual, ignorando-a quando se trate de garantir as bases
da existência humana’. Daí decorre que a ordem econômica há de ter por
fim assegurar a todos a existência digna (art. 170), a ordem social visará a
realização da justiça social (art. 193), a educação, o desenvolvimento da
pessoa e seu preparo para o exercício da cidadania (art. 205) etc., não
como meros enunciados formais, mas como indicadores do conteúdo
normativo eficaz da pessoa humana (SILVA, 2009, p. 105 apud DUARTE,
2016, p. 2).

Segundo Leite (2018, p. 3) “o interessante é que, apesar de a dignidade ser


difícil de definir, é muito fácil identificar sua violação. É algo de difícil definição, mas
de fácil visualização”.

4.2 A democracia

Nucci (2016a) versa que democracia é

é o modelo de governo, que estabelece a separação e a divisão dos


poderes, bem como os direitos e garantias humanas fundamentais,
considerando-se os governados como autênticos titulares do Poder político,
exercendo-o direta ou indiretamente. (NUCCI, 2016, p. 43).
63

Para Albuquerque (2010, p. 20) a democracia “é formada por virtude, por
civismo, senso do plural, respeito à legalidade, uma política de liberdade aliada ao
desejo do bem comum”. E com o equilíbrio desses elementos, segundo
entendimento do autor, é que se chega a democracia verdadeira, onde de maneira
jurídica, há controle de poder e respeito às garantias do cidadão.
Contudo, entende-se que é um conceito de difícil elucidação, mas aclarado
por Abensour (1998) apud Albuquerque (2010, p. 20), afirmando que “a democracia
se caracteriza por uma relação inédita entre o Estado político, ou a constituição, e o
conjunto das outras esferas materiais ou espirituais, o que Marx designa, às vezes,
como ‘o Estado não político’”. Caracterizando assim a democracia como existência
de um povo, o qual nunca é organizado em função de uma parte, mas sempre do
todo.
Observa-se, conforme Albuquerque (2010), que a democracia é um
instrumento de realização dos valores fundamentais de relacionamento humano, não
sendo um conceito estático, mas em processo de perene reafirmação das
liberdades, dos direitos fundamentais, da ideia de povo. Esclarecendo que em
conformidade com Bobbio (1997), a democracia significa o “governo do poder
visível”. Bobbio (1997) aponta que a publicidade é marcante no regime e que o
mistério, o privado, o secreto são termos antagônicos aos objetivos da democracia.

4.2.1 A democracia e os sistemas de participação popular

Como demonstrado, o instituto do Tribunal do Júri é considerado uma das


instituições mais democráticas no Estado Democrático de Direito. Esta instituição
atribui aos cidadãos, em seus atributos de pessoas comuns e membros da
sociedade, o condão de julgar indivíduos que cometeram crimes dolosos contra a
vida.
Dessa forma e nessa linha de pensamento, Ezilda Melo (2016) apud
Taporosky Filho (2017) declara que:

O Tribunal do Júri é considerado a instituição jurídica mais democrática do


Judiciário Brasileiro, pois, ao invés de apenas um sujeito decidir, quem
decide são sete pessoas distintas, portanto sete votos nascidos
espontaneamente na emotividade dos participantes da audiência de
julgamento. (MELO, 2016, p. 97 apud TAPOROSKY FILHO, 2017, p. 201).
64

Apesar de muitas consideráveis posições doutrinárias sobre o conceito de


democracia, é possível elencar como um consenso que, significa governo do povo,
para o povo e pelo o povo, como Bonavides (2002) apud Carneiro (2007) afirma de
forma substancial.
Ainda, encontram-se posições doutrinárias que classifica e subdivide a
democracia em: Democracia direta; Democracia indireta ou representativa; e
Democracia semidireta ou participativa.
Na visão de Zanetti (2013, p. 5) “o surgimento da democracia está
umbilicalmente ligado ao modelo de exercício direto pelos cidadãos, que
participavam pessoalmente das decisões fundamentais da sociedade”. Assim, como
Democracia direta, o autor, entende que é aquela democracia derivada da Grécia
Antiga, onde o cidadão ateniense era quem podia exercer poderes políticos. Nessa
época, a qualidade de cidadão era hereditária:

A qualidade de cidadão era hereditária, atribuída unicamente aos filhos de


atenienses com raízes genealógicas ao tempo de Sólon, bem como aos
estrangeiros que recebessem esta qualidade por decisão da assembleia. Os
demais populares, inclusive mulheres, eram tolhidos de participar naquele
regime político. (ZANETTI, 2013, p. 6).

Destaca-se que nesta época, apenas os homens livres e com posses


poderiam se reunir em praça pública para decidir sobre a sociedade. Assim, para
Zanetti (2013) a democracia direta, pode ser conceituada como aquela democracia
em que se traz a possibilidade do povo exercer a poder sem intermédio de qualquer
representante.
Prosseguindo, Zanetti (2013) diz que a democracia indireta ou representativa
foi criada com a finalidade de combater os problemas verificados na democracia
direta. Nessa subdivisão, o poder do povo continua sendo princípio fundamental,
mas com a vontade da sociedade, a qual elegeria periodicamente os seus
representantes.
O autor acaba por apontar um dos grandes problemas apresentados por essa
espécie de democracia. É que apesar de eleitos pelo povo, os representantes
sempre apresentavam interesses não consonantes com a dos seus representados
que os elegeram. Dessa forma, surge o problema, o qual Temer (1994) apud Zanetti
(2013) destacou dizendo que quando poucos decidem por muitos, a democracia
acaba se tornando frágil, não alcançando toda a legitimidade que seria necessária.
65

Sobre a democracia semidireta ou participativa, por sua vez, Zanetti (2013)


diz que é aquela que nasce na intenção de que se aproximem os cidadãos das
decisões política, sem intermédio de outra parte, ou seja, esse modelo de
democracia buscava a entrega do poder diretamente a população, colocando em
suas mãos uma maior responsabilidade com o Estado, entregando as possibilidades
de propostas e aprovações legislativas. Ou seja, o povo governava e decidia para o
povo.
67

5 O TRIBUNAL DO JÚRI DIANTE A FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO DAS


DECISÕES PERANTE A CONSTITUIÇÃO DE 1988

Como demonstrado anteriormente, o Tribunal do Júri retrata uma das


instituições que representam a democracia, pois este atribui competência a pessoas
leigas para julgarem seus semelhantes como se fossem juízes togados. Assim, os
jurados possuem o papel de decidirem o futuro do acusado, para absolvê-lo ou
condená-lo, não tendo a necessidade de fundamentar tal decisão e sendo a mesma
protegida pelo princípio da soberania da decisão dos jurados (ALENCAR; GÓES,
2017).
Neste capítulo será trabalhada a falta de fundamentação dos votos dos
jurados bem como a sua problemática, juntamente com a interpretação da
Constituição Federal de 1988, buscando-se dessa forma apresentar as posições
doutrinárias contrárias e favoráveis quanto à ausência de fundamentação na
instituição do Tribunal do Júri.

5.1 A fundamentação das decisões como direito fundamental

O princípio da motivação das decisões judiciais está previsto no artigo 93,


inciso IX da CF/88 que dispõe, in verbis:

Art. 93. Lei complementar, de iniciativa do Supremo Tribunal Federal,


disporá sobre o Estatuto da Magistratura, observados os seguintes
princípios:
[...]
IX todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão
públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade,
podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes
e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a
preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique
o interesse público à informação; [...] (BRASIL, 1988, grifo nosso).

Surge assim o princípio da motivação das decisões judiciais, que vem com o
intuito de impor limites aos julgadores, que deverão sempre fundamentar as suas
decisões, expondo a motivação de toda decisão, banindo e afastando toda e
qualquer decisão arbitrária por meio da moderação do poder jurisdicional.
68

O Código de Processo Civil (CPC) é utilizado de forma subsidiária do Código


de Processo Penal. Dessa forma, o CPC instaura em forma de reprodução da
Constituição dizendo que:

Art. 11. Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão


públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade.
Parágrafo único. Nos casos de segredo de justiça, pode ser autorizada a
presença somente das partes, de seus advogados, de defensores públicos
ou do Ministério Público. (BRASIL, 2015, grifo nosso).

Nesse sentido, se destaca que as decisões que não sejam devidamente


fundamentadas poderão sofrer penalidade, anulando todos os efeitos jurídicos da
decisão.
Fredie Didier Júnior, Paula Sarno Braga e Rafael Oliveira (2010) apud Krieger
(2012) ensinam sobre a exigência da motivação das decisões judiciais:

A exigência da motivação das decisões judiciais tem dupla função.


Primeiramente, fala-se numa função endoprocessual, segundo a qual a
fundamentação permite, que as partes, conhecendo as razões que
formaram o convencimento do magistrado, possam saber se foi feita uma
análise apurada da causa, a fim de controlar a decisão por meio dos
recursos cabíveis, bem como para que os juízes de hierarquia superior
tenham subsídios para reformar ou manter essa decisão. (...) Fala-se ainda
numa função exoprocessual ou extraprocessual, pela qual a fundamentação
viabiliza o controle da decisão do magistrado pela via difusa da democracia
participativa, exercida pelo povo em cujo o nome a sentença é pronunciada.
Não se pode esquecer que o magistrado exerce parcela de poder que lhe é
atribuído (o poder jurisdicional), mas que pertence, por força do parágrafo
único do artigo 1º da Constituição Federal, ao povo. (DIDIER JÚNIOR,
BRAGA; OLIVEIRA, 2010, p. 290 apud KRIEGER, 2012, p. 3).

Oliveira (2018) salienta que a fundamentação das decisões tem dupla função
no processo. A primeira função permite a fiscalização da qualidade da decisão
proferida, permitindo a avaliação da coerência desta decisão ao direito vigente. E a
segunda função, por sua vez, é a admissão de que os interessados manifestem
inconformismo com a decisão que lhe for desfavorável, viabilizando a elaboração
dialética do recurso, usando as específicas razões de decidir que as partes
entenderem equivocadas.
Destaca-se que o Tribunal do Júri, é a única exceção inserida na
Constituição. Conforme ensinamento de Souza (2013) os julgamentos proferidos
pelos juízes leigos que constituem o Conselho de Sentença, são baseados na sua
69

íntima convicção, não precisando fundamentar o posicionamento tomado na


decisão.
Nucci (2015) destaca entender haver uma grande relevância jurídica os
princípios constitucionais, pois segundo ele um ordenamento jurídico coerente parte
dos princípios constitucionais para interpretar e aplicar as normas
infraconstitucionais, e não o oposto. Dessa forma, entende que infelizmente no
Brasil, já existe um péssimo hábitos dos aplicadores do direito darem aplicabilidade
quase absoluta ao que dispõe o Código de Processo Penal e as demais legislações
infraconstitucionais correlatas, acabando por desprezar o disposto na Carta Maior e
agindo como se a lei ordinária fosse hierarquicamente superior a norma
constitucional e aos seus princípios.
Dessa forma, acredita que para estarmos no caminho do Estado Democrático
de Direito, depende do esforço de todos os operadores de direito, precisando ocorrer
uma autêntica mudança de mentalidade, adaptando-se o texto da lei ordinária ao
que consta na Constituição Federal. (NUCCI, 2015)

5.2 A problemática referente à decisão tomada pelo Conselho de Sentença


frente ao dever de fundamentação das decisões judiciais e algumas
críticas sobre a instituição

Sabe-se que o Tribunal do Júri encontra-se disciplinado no art. 5º, inciso


XXXVIII, da Constituição Federal de 1988, inserido no Capítulo dos Direitos e
Garantias Fundamentais. É tido como uma garantia constitucional da própria
soberania popular, visando ampliar o direito de defesa dos réus, oportunizando que
estes sejam julgados pelos seus pares, operando como garantia individual dos
acusados da prática de crimes dolosos contra a vida (FERREIRA, 2018).
Lins (2008) aponta que o Tribunal do Júri, é um ponto de partida, escola de
democracia, o povo na Justiça, onde ele aprendeu que o Direito deve servir à vida.
Como mencionado anteriormente, o Tribunal do Júri é a única exceção
inserida na Constituição, sendo os julgamentos proferidos por juízes leigos que
constituem o Conselho de Sentença, baseando-se na sua íntima convicção e não
havendo necessidade de fundamentar o posicionamento tomado na decisão
(SOUZA, 2013).
70

Não muito raro, o Tribunal do Júri encontra diversas críticas. De tal modo
frequente também são as defesas da instituição, o que Machado entende que:

Aliás, já faz tempo que não se vê̂ uma acusação mais veemente ao Tribunal
do Júri. Ao contrário, o que se tem visto mais amiúde são as defesas dessa
instituição, a proliferação de obras e manuais que lhe dispensam grande
consideração e tratamento jurídico detalhado, a realização de seminários e
até congressos a respeito do tema etc. De mais a mais, as apontadas
deficiências dos juízes leigos, a falta de especialização, a suscetibilidade a
pressões dos poderosos e a morosidade, além de não serem uma
exclusividade do Tribunal do Júri, são problemas que hoje já́ não têm mais
aquela mesma dimensão de outros tempos; a evolução cultural, política,
social e econômica de amplas camadas da sociedade tem permitido a
composição do Tribunal do Júri com jurados altamente qualificados.
Observe-se que mesmo a alegada falta de especialização no que se refere
ao conhecimento do direito já não é tão saliente, e nem a especialização
tecnicista dos juízes togados, sem formação humanística e geral, pode ser
tida como uma virtude inquestionável. Até mesmo a leniência que
antigamente se atribuía aos jurados não é mais uma acusação procedente;
o tribunal leigo, sobretudo em face da criminalidade crescente nas grandes
cidades, tem decidido muitas vezes com acentuado rigor, sem qualquer tipo
de receio ou subserviência. (MACHADO, 2014, p. 285).

De modo que, se o Tribunal do Júri está ainda a merecer algumas críticas,


que segundo Machado (2014) são inteiramente procedentes. O autor apresenta,
como exemplo, uma crítica a respeito da possibilidade de os jurados serem
confundidos e incorrerem em erro no caso de obscura ou ambígua redação dos
quesitos. Assim acredita que é preciso renovar o discurso para dar alguma
contribuição crítica ao aperfeiçoamento da instituição do júri, ou até mesmo para
propor a sua substituição por algum outro mecanismo mais eficiente e mais
adequado aos tempos atuais.
Para Machado (2014) os partidários do Tribunal do Júri sempre destacaram a
essência democrática da instituição, já que se trata de um órgão integrado pelas
pessoas do povo, por meio do qual a população pode efetivamente participar do
processo de distribuição da justiça.
Assim, diz que os simpatizantes do tribunal popular dizem que é mesmo muito
saudável essa participação do povo no poder jurisdicional, pois permite um
pluralismo jurídico, uma diversificação das decisões, a adoção de critérios decisórios
alternativos, como é próprio das democracias (MACHADO, 2014).
Guimarães (2018) ensina que a ausência de motivação no Tribunal do Júri
está implícita no Código de Processo Penal nos artigos 482 e 483, onde dispõe que
71

o Conselho de Sentença será questionado sobre matéria de fato e se o acusado


deve ser absolvido. Dessa forma, completa sobre tais quesitos:

Além disso, também deixa evidente que os quesitos serão redigidos em


proposições afirmativas, simples e distintas, de modo que cada um deles
possa ser respondido com clareza e precisão. Assim sendo, serão
elaborados os referidos quesitos sobre a materialidade do fato, a autoria ou
participação, se o acusado deve ser absolvido, se há causa de diminuição
ou de aumento de pena.
Havendo três respostas negativas sobre a materialidade e autoria, o
acusado será absolvido, mas, se ao invés disso, houver três respostas
positivas sobre os referidos quesitos, os jurados serão questionados se
deve o acusado ser absolvido. Caso não seja, seguirá para as questões
referentes à causa de diminuição ou aumento de pena. Todavia, a sentença
será proferida pelo juiz presidente, que fixará a pena com base no
julgamento do Conselho de Sentença.
Como se pode perceber, não há no ordenamento jurídico qualquer menção
à fundamentação das decisões no âmbito do Tribunal do Júri, até porque o
fundamento dessa instituição, como visto, é justamente um julgamento mais
humano e menos técnico, o que também está relacionado ao grau de
reprovabilidade social frente à conduta do acusado. (GUIMARÃES, 2018, p.
64).

Fernando da Costa Tourinho Filho (2012) apud Oliveira (2018) nesta


perspectiva de julgamento por juízes leigos, doutrina sobre a forma, na qual, o
Conselho de Sentença profere sua decisão.

Conhecendo os costumes do povo, o que ele sente em determinadas


situações de valoração cultural, o fato de muitas vezes a lei estar dissociada
do pensamento da sociedade, as conversas de rua, que nem sempre ou
quase nunca chegam aos autos, o conhecimento que as pessoas têm das
circunstâncias que antecederam o fato delituoso, a vida pregressa do
cidadão, a natureza do crime [...] os jurados, mais soltos, mais libertos, sem
a obrigação de dizerem como e por que votaram desta ou daquela maneira,
estando assim mais à vontade, justificam a conduta do (a) acusado (a),
dando asas ao seu coração, aos seus sentimentos. (TOURINHO FILHO,
2012, p. 146 apud OLIVEIRA, 2018, p. 52).

Guimarães (2018) acredita que o Direito não se resume somente às Leis e


Códigos, devendo ser pensado para resolver conflitos reais e buscar a garantia da
efetiva justiça, o que nem sempre se versa sobre o cumprimento das normas
escritas. Dessa forma a autora aborda que:

Por essa razão, o Tribunal do Júri pode ser visto como uma garantia da
liberdade, como também pode causar danos irreversíveis ao acusado, tendo
em vista a obrigatoriedade do procedimento para os crimes dolosos contra a
vida e a soberania dada aos veredictos pela Constituição brasileira. O que
vai determinar o resultado é justamente o grau de reprovabilidade da
72

conduta pela sociedade ali representada, considerando as circunstâncias de


cada caso. (GUIMARÃES, 2018, p. 65).

Destaca-se assim, uma importante ressalva, pois muitas vezes a valoração


sobre a conduta do acusado não demonstra o verdadeiro sentimento da sociedade,
pois são apenas sete pessoas que em regra, não conhecem nada sobre Direito
Penal e Direito Processual Penal, tampouco sobre princípios determinantes do
Direito (GUIMARÃES, 2018). Assim, como ensina Temer (1994) apud Zanetti (2013),
quando poucos decidem por muitos, a democracia acaba se tornando frágil, não
alcançando toda a legitimidade que seria necessária.
Contudo, Guimarães (2018, p. 66) entende que “urge refletir se realmente a
instituição do júri deve ser entendida como um direito fundamental, vez que está
prevista no art. 5º da Constituição Federal”.
Muniz (2016) por sua vez, ensina que no Brasil, para o exercício da soberania
popular além dos três instrumentos previstos na Constituição da República –
plebiscito, referendo e iniciativa legislativa popular – e fazendo referência a Aramis
(2008) acrescenta à tríade o Tribunal do Júri, como uma das mais legítimas
manifestações da soberania popular.
De acordo Ferreira (2018, 36) “o Tribunal do Júri causa polêmicas e
incontáveis discussões no que se refere à sua representatividade, bem como quanto
à capacidade dos jurados para decidir questões consideradas pelos juristas como de
alta capacidade técnica”.
Dessa forma, Oliveira (2017) ensina:

Costuma-se afirmar que o Tribunal do Júri seria uma das mais democráticas
instituições do Poder Judiciário, sobretudo pelo fato de submeter o homem
ao julgamento de seus pares e não ao da Justiça togada. É dizer: aplicar-
se-ia o Direito segundo a sua compreensão popular e não segundo a
técnica dos tribunais. (OLIVEIRA, 2017, p. 328).

Oliveira (2017) entende sobre essa criação de justiça fora dos limites do
Direito Positivo.

Nesse sentido, de criação de justiça fora dos limites do Direito positivo, o


Tribunal do Júri é mesmo democrático. Mas não se pode perder de vista
que nem sempre a democracia esteve e estará a serviço do bem comum,
ao menos quando aferida simplesmente pelo critério da maioria. A história
está repleta de exemplo de eleições (legítimas) de ditadores inteiramente
descompromissados com a causa dos direitos humanos. E o Tribunal do
73

Júri, no que tem, então, de democrático, tem também, ou melhor, pode ter
também, de arbitrário. E isso ocorre em razão da inexistência do dever de
motivação dos julgados. (OLIVEIRA, 2017, p. 328).

Completando a argumentação,

A resposta à quesitação pelo Conselho não exige qualquer fundamentação


acerca da opção, permitindo que o jurado firme seu convencimento segundo
lhe pareça comprovada ou revelada (aqui, no sentido metafísico) a verdade.
E, convenhamos, esse é realmente um risco de grandes proporções.
Preconceitos, ideias preconcebidas e toda sorte de intolerância podem
emergir no julgamento em Plenário, tudo a depender da eficiência retórica
dos falantes (Ministério Público, assistente de acusação e defesa). Enfim,
bom ou ruim, o Júri tem previsão constitucional. (OLIVEIRA, 2017, p. 328).

Vale (2014) apud Muniz (2016) elucida

O Júri coloca-se, ao lado do plebiscito e do referendo, como instrumento de


participação direta do povo nas decisões políticas, a caracterizar, em
conjunto com tais instrumentos participativos, nossa democracia como
semidireta (que, em regra, é exercida por meio de representantes eleitos e,
por exceção, sem intermediários, pelo próprio povo), despertando o
amadurecimento da consciência cívica do povo não apenas para criticar,
mas para assumir a responsabilidade pela decisão. (MUNIZ, 2016, p. 322).

Muniz (2016) proclama o seu entendimento sobre dizendo que:

A aproximação do cidadão com o poder dá mais legitimidade às decisões


tomadas, e consegue equacionar melhor os desvios que a democracia
representativa possa eventualmente criar. São decisões que melhor
espelham aquilo que a sociedade anseia. O Tribunal do Júri representa o
ápice da democracia no Poder Judiciário, pois qualquer pessoa, não importa
sua formação, basta que preencha requisitos mínimos, pode exercer a
função de magistrado, decidindo em colegiado com outros cidadãos. As
decisões do Poder Judiciário, quando tomadas pelo Tribunal do Júri, são
tomadas pela sociedade, que passa a exercer o poder e assumir a
responsabilidade pelo veredito prolatado, inclusive quanto às suas
consequências. (MUNIZ, 2016, p. 327).

Muniz (2016) disserta que em não raras vezes, o instituto do Tribunal do Júri
recebe as mais diversas críticas. Sendo estas feitas por operadores do direito,
quanto àquelas que não trabalham com o direito. A maioria das críticas, são aquelas
que afirmam que os jurados não possuem condições técnicas para realizar o
julgamento, ou que tomam decisões irracionais ou extrajudiciais, ou são
influenciados por vários fatores como a opinião pública, mídia ou fatores
socioculturais. Entretanto, Muniz (2016, p. 327) conclui afirmando “que tais vícios
74

não são exclusivos dos magistrados leigos, sendo inerente ao ser humano, seja lá
qual função exerça, sujeitar-se a tais erros ou (más) influências”.
Contudo, Rangel (2018) acredita que na sociedade atual não mais há espaço
para uma decisão sem arrimo e justificativa em qualquer meio idôneo de prova,
razão pela qual se deve refutar o sistema da íntima convicção.
Oliveira (2017) por sua vez também em posicionamento contrário a instituição
do Tribunal do Júri, diz que:

percebe-se, que embora os fundamentos de instituição do Tribunal do Júri


tenham estreita relação com a ideia de democracia, nos moldes adotados
pela nossa legislação pátria, apresenta-se marcado por intenso
subjetivismo, possuindo traços inquisitórios que devem ser superados.
(OLIVEIRA, 2017, p. 251).

Destarte, a autora entende que as diversas tendências de julgamento


verificadas no júri, de acordo com critérios subjetivos, fazem com que a justiça da
decisão seja comprometida, carecendo de uma análise que se atenha aos fatos
praticados, não se considerando características pessoais do infrator, ideias
preconcebidas ou influências externas, que acabam dando margem ao arbítrio
judiciário (OLIVEIRA, 2017).
Salienta-se que apesar da falta de conhecimento técnico-jurídica, certamente
conheceram a opinião midiática.

Significa dizer que ao acusado não é dado o direito de ser julgado por um
juiz natural, imparcial, que cumpra as determinações legais e respeite os
princípios vetores do ordenamento jurídico pátrio. Ao contrário disso, será
julgado por pessoas que certamente irão decidir pelo que os vizinhos
andam dizendo, pela influência da mídia e por qualquer coisa que esteja ou
não nos autos, afinal não precisa de qualquer justificativa para sua decisão.
Isso agride o sistema processual penal e fere gravemente outras garantias
constitucionais. (GUIMARAES, 2018, p. 66).

Muniz (2016) também critica a instituição do Tribunal do Júri reconhecendo os


seus os custos para realização de uma sessão, bem como de toda a etapa anterior
do procedimento, nas quais são grandes e acabam por muitas das vezes
ocasionando atrasos nas pautas e interferindo no cotidiano das pessoas nele
envolvidas, em especial os próprios jurados, que não fazem dessa função seu
trabalho. Contudo, o autor acredita que em tudo há um custo, não sendo diferente a
situação onerosa para a democracia:
75

Mas a democracia tem um custo, e não é barato. Basta vermos o que é


mais caro (financeiramente), o exercício do sufrágio universal ou a
manutenção de um ditador. No entanto, parece-nos óbvia a conclusão sobre
a escolha entre um ou outro, opta-se pela manutenção da democracia.
Assim é que os custos econômicos podem e devem ser levados em conta,
mas não como um simples raciocínio utilitarista. Portanto, a participação do
cidadão no Tribunal do Júri permite que a sociedade possa fazer parte do
Poder Judiciário, e suas consultas, por meio dos vereditos lançados após a
pretensão do Estado acusador, permitem um fiel reflexo do pensamento
popular. (MUNIZ, 2016, p. 328).

Alguns autores denotam que “a falta de conhecimento técnico-jurídico por


parte dos juízes de fato do Tribunal do Júri resulta na falibilidade dos jurados, que,
por meio de erros ou enganos, colocam em perigo a credibilidade e garantia dessa
instituição.” (ALENCAR, GÓES, 2017, p. 718).
Aury Lopes Júnior (2004) apud Alencar e Góes (2017) comenta sobre a falta
da técnica dos jurados para o julgamento:

A falta de profissionalismo, de estrutura psicológica, aliados ao mais


completo desconhecimento do processo e de processo, são graves
inconvenientes do Tribunal do Júri. Não se trata de idolatrar o juiz togado,
muito longe disso, senão de compreender a questão a partir de um mínimo
de seriedade científica, imprescindível para o desempenho do ato de julgar.
(LOPES JÚNIOR, 2004, p. 171 apud ALENCAR, GÓES, 2017, p. 718).

Contudo, ainda denota o autor Aury Lopes Júnior (2014) apud Oliveira (2018)
que os jurados carecem de conhecimento legal e dogmático mínimo para a
avaliação dos diversos juízos axiológicos que envolvem a análise da norma penal e
processual aplicável no caso, bem como uma razoável valoração da prova.
Por outras vezes, encontra-se facilmente demonstrado o entusiasmo com as
virtudes da instituição do júri. Percebe-se assim que alguns adeptos do júri têm
defendido a ampliação da sua competência, pois acredita que os jurados têm
decidido acertadamente, com toda justeza que se é esperada na justiça criminal
(MACHADO, 2014).
77

6 CONCLUSÃO

O presente estudo teve como objeto, a análise do Tribunal do Júri perante a


democracia e a falta de fundamentação das decisões. A proposta baseou-se na
análise da instituição do Tribunal do Júri frente aos princípios do Estado
Democrático de Direito, bem como o dever fundamental de motivação das decisões
judiciais.
Entretanto, destaca-se importante a devida atenção à origem e ao
desenvolvimento histórico da instituição, o que requer a devida atenção aos detalhes
que a permeiam, quais foram expostos no desenvolvimento do texto. Como
manifesto, a origem do Tribunal do Júri é demasiadamente controversa, mas pode-
se afirmar diante o estudo que os Tribunais Populares sempre existiram, mesmo que
em caráter inicial totalmente distinto do que conhecemos hoje.
Em virtude disso, nota-se que o Tribunal do Júri, como é mostrado no seu
plano histórico, busca a real efetivação da democracia participativa, com a inserção
dos cidadãos no judiciário por meio dos julgamentos dos crimes dolosos contra a
vida. Entretanto, analisou-se que o intuito da participação popular culmina
ocasionando em diversas questões controvertidas, levando em consideração que,
nas decisões proferidas pelo Tribunal do Júri não há a exceção à regra encontrada
no inciso IX, do artigo 93 da Constituição Federal de 1988, na qual se baseia o dever
de motivar todas as decisões proferidas pelo judiciário.
Através de tais observações o trabalho gravitou em torno da efetivação da
democracia com a participação da sociedade no judiciário frente a falta de
fundamentação nas decisões emitidas pelos o Conselho de Sentença, além de ser
assistido pelo princípio basilar do sigilo das votações, sendo o julgamento
assegurado pelo subjetivismo da íntima convicção.
Portanto, não pode ser considerada decisão como soberana quando não
abrigar fundamentação, bem como assentir como argumento democrático apenas o
julgamento por seus pares, devendo as decisões serem abrigadas e guardadas nos
debates realizados, com a busca da afastabilidade da subjetividade da íntima
convicção.
Nesse sentido, destaca a importância dos princípios constitucionais no
ordenamento jurídico, pois somente com a aplicação de tais regras e princípios
constitucionais frente a aplicação das normas infraconstitucionais estaremos
78

verdadeiramente inteirados no Estado Democrático de Direito, devendo sempre


realizar adaptações nas leis infraconstitucionais que divergirem da Carta Maior.
Logo, a fundamentação das decisões é entendida como um rito vital e
imprescritível no desenvolvimento processual, pois é necessário para que se faça
possível a fiscalização e verificação da coerência da decisão proferida, além de
permitir aos interessados que se manifestem por inconformismo com a decisão
desfavorável.
Pela observação dos aspectos apontados no desenvolver do trabalho,
destaca-se que não houve a pretensão de que se desvaneça o tema ou a instituição,
mas apenas uma análise para que com pontuais mudanças e reformas, busque o
aperfeiçoamento do Tribunal Popular para que se tenha como resultante da
superação dos vícios apontados, a efetividade da instituição de caráter democrático
e de justeza que se almeja.
79

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