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Nº 543 | Ano XIX | 21/10/2019

Ontologias
Anarquistas
Um pensamento
para além do cânone
Raul Antelo
Alexandre Nodari
Eduardo Sterzi
Veronica Stigger
Luís Augusto Fischer
Flávia Cêra
Éder Silveira
Fernando Silva e Silva

Leia também
Carlos Gadea ■
Paulo Suess e Carlos Nobre ■
João Ladeira ■
EDITORIAL

Ontologias Anarquistas. Um pensamento


para além do cânone

R
etomar o pensamento dos povos nativos A psicanalista Flávia Cêra retoma o pensa-
do Brasil em uma perspectiva de reflexão mento de Oswald de Andrade para pensar vieses
teórica profunda exige desestabilizar o do matriarcado em perspectiva com os desafios
cânone de uma forma de estar no mundo basea- políticos contemporâneos.
da exclusivamente na lógica predicativa. Pensar Éder Silveira, professor na Universidade
para além da obsessão do ente foi um exercício, Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre -
em alguma medida, tentado por uma verten- UFCSPA, discute a obra de Mário de Andrade,
te do Modernismo Brasileiro, que encontrou ressaltando as intuições do movimento moder-
nas cosmologias ameríndias a inspiração para nista no Brasil e resgata conceitos importantes
um movimento ético, estético e teórico que dá para pensarmos a contemporaneidade.
tintas tropicais a um pensamento tipicamente
brasileiro. Dentro desta perspectiva, a presen- Fernando Silva e Silva, doutorando em Fi-
te edição da revista IHU On-Line reúne uma losofia na Pontifícia Universidade Católica - PU-
série de entrevistas que tratam de literatura a CRS, analisa como a ficção científica, com seus
política, de arte a filosofia, para pensar a con- limites e possibilidades, nos instiga a pensar os
desafios do tempo presente e nutre nossa imagi-
2 temporaneidade.
nação política.
Raul Antelo, professor titular de literatura
brasileira na Universidade Federal de Santa Ca- A edição ainda traz uma entrevista com o cien-
tarina - UFSC, analisa como a contemporanei- tista Carlos Nobre e o teólogo Paulo Suess,
dade engendra uma ontologia em que o ser-com que analisam os primeiros dias de debates do
passa a habitar o lugar do ser. Sínodo Pan-Amazônico, em Roma; o artigo A
ideologização da Sociologia (além de uma sim-
Alexandre Nodari, professor de Literatura
ples distração), do professor doutor e pesqui-
Brasileira e Teoria Literária da Universidade
sador do PPG em Ciências Sociais da Unisinos
Federal do Paraná - UFPR, retomando as inspi-
Carlos Gadea; e ainda a crítica de cinema de
rações do Manifesto Antropófago, provoca-nos
João Ladeira sobre o filme Midsommar: O
a pensar a possibilidade de uma ontologia da
Mal Não Espera a Noite (2019).
predação em lugar da predicação.
A todas e a todos uma boa leitura e uma exce-
Eduardo Sterzi, professor de Teoria Lite-
lente semana!
rária no Instituto de Estudos da Linguagem da
Unicamp, sustenta que o movimento estético
levado a cabo pelo Modernismo Brasileiro é,
antes de tudo, um movimento político de viés
anarquista, mas sem vínculos com a tradição
anarquista.
Veronica Stigger, doutora em Teoria e Crí-
tica de Arte pela Universidade de São Paulo -
USP, retoma a obra de Oswald de Andrade em
perspectiva com a arte para pensar saídas a um
tipo de moralidade violenta que mobiliza pesso-
as em torno de afetos negativos.
Luís Augusto Fischer, doutor, mestre e gra-
duado em Letras pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul - UFRGS, traça um panora-
ma das vertentes históricas que marcaram a li- Arte sobre conceito da
teratura produzida no país. Agexcom/Unisinos.

21 DE OUTUBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Sumário
4 ■ Temas em destaque
6 ■ Agenda
9 ■ Carlos Nobre e Paulo Suess | Sínodo Pan-Amazônico: “Assim como na Encíclica Laudato Si’,
é muito importante perceber que a Igreja ouve a ciência”
16 ■ Carlos A. Gadea | A ideologização da Sociologia (além de uma simples distração)
19 ■ Tema de capa | Raul Antelo: O Outro de si próprio
23 ■ Tema de capa | Alexandre Nodari: Transformar-se em nós-outros
31 ■ Tema de capa | Eduardo Sterzi: Uma ontologia política chamada Antropofagia
36 ■ Tema de capa | Veronica Stigger: O homem nu nos redimirá
40 ■ Tema de capa | Luís Augusto Fischer: A realidade multifacetada dos Brasis na Literatura
44 ■ Tema de capa | Flávia Cêra: Viver a ciência do vestígio errático, mas sobretudo viver
47 ■ Tema de capa | Éder da Silveira: O bárbaro tecnizado é a possibilidade humana de olhar
para um futuro próspero
50 ■ Tema de capa | Fernando Silva e Silva: Uma vida no Chthuluceno
55 ■ Cinema | João Martins Ladeira: O horror às claras
58 ■ Publicações | Marilinda Marques Fernandes: A Nova Previdência via de transformação
estrutural da seguridade social brasileira
59 ■ Outras edições
3

Diretor de Redação Patrícia Fachin, Cristina Guerini,


Inácio Neutzling Evlyn Zilch, Stefany de Jesus Rocha,
(inacio@unisinos.br) Wagner Fernandes de Azevedo, Aman-
da Bier e Fred Wichrowski.
Coordenador de Comunicação - IHU
Ricardo Machado – MTB 15.598/RS
(ricardom@unisinos.br)
Redação
João Vitor Santos – MTB 13.051/RS
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Patricia Fachin – MTB 13.062/RS
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Wagner Fernandes de Azevedo
(wfazevedo@unisinos.br)
A IHU On-Line é a revista do Institu-
to Humanitas Unisinos - IHU. Esta Revisão Instituto Humanitas Unisinos - IHU
publicação pode ser acessada às segun- Carla Bigliardi
das-feiras no sítio www.ihu.unisinos.br e Av. Unisinos, 950 | São Leopoldo / RS
no endereço www.ihuonline.unisinos.br. Projeto Gráfico CEP: 93022-000
Ricardo Machado Telefone: 51 3591 1122 | Ramal 4128
e-mail: humanitas@unisinos.br
Editoração
A versão impressa circula às terças-fei- Gustavo Guedes Weber
ras, a partir das 8 horas, na Unisinos. O Diretor: Inácio Neutzling
conteúdo da IHU On-Line é copyleft. Atualização diária do sítio Gerente Administrativo: Nestor Pilz
Inácio Neutzling, César Sanson, (nestor@unisinos.br)

EDIÇÃO 543
TEMAS EM DESTAQUE

Entrevistas completas em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias


Confira algumas entrevistas publicadas no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU na última semana.

“O governo está entregando o pré-sal sem


compreender a sua dimensão”
“Não há razão nenhuma para concluir Angra III” e “neste momento, na
minha opinião e de vários que estudam alternativas energéticas, a energia
nuclear está no fim da lista de prioridades como opção energética”.
Ildo Sauer foi diretor executivo da Área de Negócios de Gás e Energia da Petrobras de 2003 a 2007.
Desde 1991, é professor na Universidade de São Paulo.

Mineração e a morte que corre nos rios da


Amazônia
“As falas do presidente da República sobre a exploração mineral e a ga-
rimpagem e suas restrições às terras indígenas têm efeito imediato e em-
polgam seus seguidores e eleitores na região”
Gerôncio Rocha é geólogo, funcionário aposentado do Departamento de Águas e Energia Elétrica
de São Paulo.

4 O socialismo de mercado chinês: economia


monetária, keynesianismo e a planificação
“O que ocorre na Ásia é um reencontro de determinadas sociedades com
suas profundas origens estatizantes e mercantis gerando formações eco-
nômico-sociais capitalistas e socialistas dinâmicas”
Elias Marco Khalil Jabbour é professor adjunto da Faculdade de Ciências Econômicas da Universida-
de do Estado do Rio de Janeiro - UERJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas.

A repolitização do uso de dados depois de 15


anos de tecnotopia
“O Brasil tem um sistema processual de tutela coletiva mais avançado do
que a Europa e não um sistema de proteção de dados pessoais mais avan-
çado do que a Europa”
Rafael A. F. Zanatta é pesquisador em Direito e Sociedades Digitais, mestre em Direito e Economia
Política pela International University College of Turin.

Proposta de verticalização da orla de Natal


atende aos interesses do mercado imobiliário
“O Brasil está longe de ser um país onde essas coisas acontecem de forma
transparente: muitas vezes a pressão para que as pessoas vendam suas
casas ultrapassa a legalidade; há muitos exemplos nesse sentido”.
Ion de Andrade, pesquisador e professor do Curso de Medicina da Universidade Potiguar e médico/
pesquisador ligado à Escola Técnica do SUS RN/CEFOPE da Secretaria de Estado da Saúde Pública.

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Textos na íntegra em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias


Confira algumas notícias públicas recentemente no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

Desigualdade entre Nobel de Economia Renda do trabalho do


ricos e pobres é a mais vai para três estudiosos 1% mais rico é 34 vezes
alta registrada no Brasil “comprometidos com a luta maior que da metade
contra as desigualdades” mais pobre

Em 2018, rendimento da “A atribuição do Prêmio O rendimento médio men-


fatia mais rica da popula- Nobel de Economia deste sal de trabalho da popula-
ção subiu 8,4%, enquanto os ano tem um valor simbó- ção 1% mais rica foi quase
mais pobres sofreram uma lico: a Academia quis pre- 34 vezes maior que da me-
redução de 3,2%. Brasileiros miar três pessoas pelas suas tade mais pobre em 2018.
que estão no 1% mais rico ga- contribuições desenvolvidas Isso significa que a parcela
nharam 33,8 vezes mais que ao longo dos anos a partir de maior renda arrecadou
o total dos 50% mais pobres. de ângulos diferentes, mas R$ 27.744 por mês, em mé-
convergentes sobre o mesmo dia, enquanto os 50% me-
Disponível em http://bit.
tema, isto é, a luta contra as nos favorecidos ganharam
ly/31nu38p
pobrezas e as desigualdades R$ 820.
sociais. É a primeira vez que
Disponível em http://bit.
isso acontece.”
ly/31sym2q
Disponível em http://bit.
ly/2J1FkoM
5

O maior projeto de Sigilo em torno do Sínodo “A Terra é um presente


extração de carvão da Amazônia mostra para descobrir que
mineral do Brasil não viu tensão entre transparência somos amados. É preciso
o Bioma Mata Atlântica e discernimento pedir perdão à Terra”

”O empreendimento Mina O Sínodo dos Bispos para Justamente porque tudo


Guaíba, de responsabilidade a região amazônica, que está conectado (cf. Laudato
da empresa Copelmi Mine- está sendo realizado no Va- si ‘42; 56) no bem, no amor,
ração, pretende ser a maior ticano de 6 a 27 de outubro, justamente por essa razão,
mina de carvão do Brasil começou bem antes de sua toda falta de amor repercu-
instalada na Região Metro- abertura oficial, com um te em tudo. A crise ecológica
politana de Porto Alegre”, dos períodos de preparação que estamos vivenciando é,
escreve John Wurdig, enge- mais exaustivos, inclusivos e acima de tudo, um dos efei-
nheiro ambiental e mestre transparentes já realizados tos desse olhar doente sobre
em Planejamento Urbano e nos 50 anos de história dos nós, sobre os outros, sobre
Ambiental pela UFGRS. sínodos católicos. o mundo, sobre o tempo que
passa; um olhar doente que
Disponível em http://bit. Disponível em http://bit.
não nos faz perceber tudo
ly/2BrIdL6. ly/2VRw3Vx
como um presente oferecido
para descobrir que somos
amados.
Disponível em http://bit.
ly/2P2HF6z.

EDIÇÃO 543
AGENDA

Programação completa em ihu.unisinos.br/eventos

II Ciclo de Palestras Ciclo de estudos: EcoFeira Unisinos


Ontologias Anarquistas preparando o Pacto
Global para uma outra
Conferência: Mário de Andrade: a Economia
vanguarda de Macunaíma, o primeiro
bárbaro tecnicizado

22/Out. 23/Out. 23/Out.


Horário Horário Horário
19h30min às 22h 12h às 14h 9h às 18h
Palestrante Conferência Local
Prof. Dr. Éder da Silveira – Desigualdades, análises corredor central do
UFCSPA e perspectivas a partir de Campus São Leopoldo
Alessandra Smerilli e Wal- da Unisinos, em frente
Local dir Quadros ao IHU
Sala Ignacio Ellacuría e
Companheiros – IHU Local
Campus Unisinos Andar B | Instituto Humani-
São Leopoldo tas Unisinos – IHU | Cam-
pus Unisinos Porto Alegre

6
EcoFeira Unisinos Mostra de Filmes II Ciclo de Palestras
sobre Trabalho Digital Ontologias Anarquistas
Atividade: Exibição e debate
do filme The Cleaners
Atividade: Conferência: Guimarães Rosa
(The cleaners / Im Schatten der Netzwelt,
Oficina Certificação Orgânica entre os indígenas
Documentário, 90 min., Direção: Moritz Rie-
sewieck, Hans Block. Alemanha/Brasil, 2018)

23/Out. 23/Out. 24/Out.


Horário Horário Horário
13h às 14h 16h30min às 19h 19h30min às 22h
Realização Debatedor Palestrante
ASCAR/EMATER Prof. Dr. Rafael do Prof. Dr. Eduardo Sterzi –
Nascimento Grohmann – Unicamp
Local Unisinos
corredor central do Local
Campus São Leopoldo Local Torre Educacional
da Unisinos, em frente Sala Ignacio Ellacuría e Campus Unisinos
ao IHU Companheiros – IHU Porto Alegre
Campus Unisinos
São Leopoldo

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2° Ciclo de Estudos 2° Ciclo de Estudos 2° Ciclo de Estudos


A China e o mundo. A China e o mundo. A China e o mundo.
A (re)configuração A (re)configuração A (re)configuração
geopolítica global geopolítica global geopolítica global
Conferência: Investimento direto e Conferência: Mudanças nas estratégias
Conferência: A Geopolítica Sinocêntrica
comércio exterior. A abordagem da de desenvolvimento chinês após a crise
e a sua Dimensão Securitária
China para o Brasil e a América Latina global. Impactos na América Latina

29/Out. 29/Out. 29/Out.


Horário Horário Horário
9h às 11h 14h às 16h 16h às 17h30min
Palestrante Palestrante Palestrante
Prof. Dr. Bruno Hendler – Prof. Dr. Celio Hiratuka – Prof. Dr. Marcos Reis –
UFSM Unicamp Unisinos
Local Local Local
Sala TEDU 603 Sala TEDU 603 Sala TEDU 603
Campus Unisinos Campus Unisinos Campus Unisinos
Porto Alegre Porto Alegre Porto Alegre

7
2° Ciclo de Estudos EcoFeira Unisinos EcoFeira Unisinos
A China e o mundo.
A (re)configuração
geopolítica global
Conferência: A ascensão chinesa e o Atividade: Oficina:
declínio norte-americano: caos sistêmi- Construindo sua horta
co ou um possível G-2 sino-americano?

29/Out. 30/Out. 30/Out.


Horário Horário Horário
19h30min às 22h das 9h às 18h 14h às 16h
Palestrante Local Ministrantes
Prof. Dr. Bruno Hendler – corredor central do Daiani Fraporti dos Santos,
UFSM Campus São Leopoldo Denise Maria Schnorr e
da Unisinos, em frente Gelson Luiz Fiorentin –
Local ao IHU PASEC – Unisinos
Sala Ignacio Ellacuría e
Companheiros – IHU Local
Campus Unisinos Horta da Gastronomia –
São Leopoldo Campus Unisinos
São Leopoldo

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AGENDA

Programação completa em ihu.unisinos.br/eventos

IHU ideias 5º Ciclo de Estudos O “Mundo Novo” dos


Revolução 4.0. planos de saúde
Impactos nos modos
de produzir e viver
Conferência: O “Mundo Novo” Conferência: Tecnologias 4.0:
dos planos de saúde Possibilidades e limites em Saúde

31/Out. 31/Out. 31/Out.


Horário Horário Horário
17h30min às 19h 19h30min às 22h 17h30min às 19h
Palestrante Palestrante Palestrante
Prof. Dr. Alcides Silva de Profa. Dra. Maria Gabriela Prof. Dr. Alcides Silva de
Miranda – UFRGS Guimarães – USP Miranda – UFRGS
Local Local Local
Sala Ignacio Ellacuría e Sala Ignacio Ellacuría e Sala Ignácio Ellacuría e
Companheiros – IHU Companheiros – IHU Companheiros - IHU
Campus Unisinos Campus Unisinos
São Leopoldo São Leopoldo

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Sínodo Pan-Amazônico: “Assim como na


Encíclica Laudato Si’, é muito importante
perceber que a Igreja ouve a ciência”
O cientista Carlos Nobre e o teólogo Paulo Suess analisam
os primeiros dias de debates do encontro em Roma
Luis Miguel Modino | Edição: João Vitor Santos

E
m linhas gerais, o Sínodo Pan IHU publica notícias e textos que reper-
-Amazônico quer discutir a im- cutem as reuniões sinodais.
portância da floresta para todas Nobre está entre o grupo que entregou
as formas de vida e como a Igreja Ca- aos padres sinodais, na semana passa-
tólica pode se inserir nesse contexto de da, um documento em que alerta que a
preservação. Mas, é mais do que isso. devastação da Amazônia está próxima
De um lado, é a possibilidade da Igre- de um ponto irreversível. Se isso ocor-
ja de se colocar em saída, se fazer pre- rer, a floresta irá desaparecer e trará
sente no mundo, sentindo o mundo e problemas para o mundo inteiro. “Em
abraçando tanto seus problemas como 30 ou 50 anos, entre 50 e 70% da flores-
também se envolvendo na busca por ta amazônica dará lugar a uma savana
um planeta melhor. De outro, a possibi- bem empobrecida, muito seca”, aponta.
lidade de fazer com que a fé e a ciência 9
As consequências são inúmeras. “A pri-
somem esforços – e superem disputas meira e mais óbvia é que a floresta é um
milenares – na busca por um ideal. grande reservatório de carbono. O de-
Assim, tanto para o teólogo Paulo saparecimento da floresta e a substitui-
Suess, que vive a realidade amazônica, ção por uma savana ou pela agricultura
como para o cientista Carlos Nobre, que e pela pecuária joga esse carbono todo
acompanha de perto as discussões e es- na atmosfera, na forma de gás carbô-
tudos sobre o desequilíbrio climático, o nico, o mais importante gás do aqueci-
Sínodo se configura um momento ím- mento global”, completa.
par. “É muito importante perceber que
Paulo Suess considera fundamental
o Sínodo ouve a ciência. A ciência que
que essas questões, e outras demandas
é um elemento que apoia a expansão e
específicas de povos amazônicos, este-
a implementação do conceito de ecolo- jam na pauta da Igreja. Do contrário,
gia integral”, pontua Nobre, lembrando estaria indo de encontro aos princípios
os conceitos já presentes na Encíclica defendidos por Francisco já desde a sua
Laudato Si’, a primeira de Francisco. “A Encíclica Laudato Si’ e do próprio pon-
questão do rosto amazônico é bálsamo tificado. “A partir de uma igreja com
para minha alma. Bálsamo no sentido rosto amazônico, vai ser missionária
de que vai ao encontro do que nós sem- não alienante, não colonizadora, uma
pre defendemos”, completa Suess. igreja mesmo segundo o espírito de
Ambos participam dos encontros Jesus que se encarnou nesse mundo”,
sinodais na Cidade do Vaticano, em observa. Para ele, outro aspecto posi-
Roma, e, depois de cerca de cinco dias tivo do encontro é a demonstração de
do Sínodo, os dois conversaram com que a estrutura vaticana está se abrindo
Luis Miguel Modino sobre essa primei- para ouvir e compreender que a Igreja
ra semana. Modino é um parceiro do é muito mais do que os ritos romanos.
Instituto Humanitas Unisinos – IHU “Não há proibições estruturais. Um ou
que acompanhou toda a preparação do outro cardeal quer proibir alguns te-
Sínodo e agora está em Roma acompa- mas, acha inconveniente falar de algu-
nhando atentamente os debates. Dia- mas coisas e gostaria de fechar algumas
riamente, e em uma página especial, o questões. Mas, a partir da presença do

EDIÇÃO 543
ENTREVISTA

papa Francisco, tudo está aberto, tudo Tecnológico de Aeronáutica e dou-


está interligado e com isso apareceram torado em Meteorologia pelo Mas-
todos esses temas”, comemora. sachusetts Institute of Technology.
Paulo Suess é doutor em Teologia Foi pesquisador no Instituto Nacio-
Fundamental, fundador do curso de nal de Pesquisas da Amazônia - Inpa
Pós-Graduação em Missiologia, na en- e no Instituto Nacional de Pesquisas
tão Pontifícia Faculdade Nossa Senho- Espaciais - Inpe. Atualmente é mem-
ra da Assunção, em São Paulo, asses- bro do Joint Steering Committee do
sor teológico do Conselho Indigenista World Climate Research Programme -
Missionário - Cimi e professor em vá- WCRP, preside os Conselhos Diretores
rias Faculdades de Teologia no ciclo de da Rede Brasileira de Pesquisas sobre
Pós-Graduação em Missiologia. Entre Mudanças Climáticas – Rede Clima e
suas últimas publicações, estão Missão do Painel Brasileiro de Mudanças Cli-
e misericórdia - A transformação mis- máticas - PBMC.
sionária da Igreja segundo a Evangelii As entrevistas foram originalmente
gaudium (São Paulo: Paulinas, 2017); e publicadas nas Notícias do Dia de 14-
Dicionário da Laudato si’ – Sobriedade 10-2019, no sítio do Instituto Huma-
feliz (São Paulo: Paulus, 2017). nitas Unisinos – IHU. Disponível em
Carlos Nobre possui graduação em http://bit.ly/2oE2PgJ.
Engenharia Eletrônica pelo Instituto Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a impor- mudança, o câmbio de uma igreja de uma igreja mesmo segundo o espí-
10 tância da promoção de uma visita para uma igreja de presença. E rito de Jesus que se encarnou nesse
discussão como essa do Sínodo tal só pode ser feito estando presen- mundo.
Pan-Amazônico, de uma Igreja te. Então, essa outra perna, essa ou-
com rosto indígena, com rosto tra parte da identidade católica que
IHU On-Line – Como avalia as
amazônico? é o sacramento, ao lado da palavra, primeiras movimentações do
exige uma igreja descentralizada, Sínodo? O que o senhor desta-
Paulo Suess – Vai ser muito im-
uma igreja que passa a ser presente. caria dos debates nesses pri-
portante, pois nós criaremos raízes
como Igreja. E, nas igrejas locais, E, uma vez já sendo presente, vai meiros dias?
passaremos de uma Igreja de visita ser mais barato, porque se queixam Paulo Suess – É um grande ba-
para uma igreja de presença. Isso vai que na Amazônia é tudo muito caro, laio, uma cesta em que apareceu
tocar todo nosso esquema, inclusive precisa de muito dinheiro para gaso- tudo. E apareceu tudo com uma
a nossa identidade católica. Se falou, lina, para chegar nos locais, viajar. grande liberdade. Eu estive aqui,
hoje mesmo num grupo, dessa iden- Então, se é assim, que fiquemos lá. certa vez, participando do Sínodo
tidade católica. Precisamos aprofun- Assim, não se precisa mais pagar a para as Américas e na ocasião havia
dar os estudos bíblicos, estudos ca- gasolina porque você é da comuni- temas proibidos. Não se poderia fa-
tequéticos, mas, às vezes, se esquece dade. Ou seja, é fazer ser da comu- lar porque o Papa não queria. Agora
o essencial dessa identidade, pois ela nidade esses ministérios. Só quando não, não há proibições estruturais.
anda com duas pernas: com a pala- esses ministérios são da comunidade Um ou outro cardeal quer proibir
vra e com o sacramento. haverá também uma presença sacra- alguns temas, acha inconveniente
mental e uma presença da palavra. falar de algumas coisas e gostaria
No que diz respeito à palavra, é
relativamente fácil, pois basta apro- Creio que o novo caminho poderia de fechar algumas questões. Mas, a
fundar o que já fizemos, o que as ser este: o que fizemos com visitas, o partir da presença do Papa Francis-
igrejas pentecostais fazem, e ampliar que fizemos com gente de fora pode co, tudo está aberto, tudo está inter-
a palavra. Mas, com a palavra so- passar a ser feito com gente do lo- ligado e com isso apareceram todos
mente, podemos tirar os altares das cal. Isso não quer dizer que vamos esses temas.
nossas comunidades. Então, a pa- substituir a missionalidade, pois Agora, vai depender muito da re-
lavra pode ser feita pela visita, pela essa igreja local também vai ser mis- dação, dos primeiros esquemas, ca-
internet, por um curso em que apro- sionária. A partir de uma igreja com pítulos, o que se aproveita a partir
fundamos e mandamos literatura rosto amazônico, vai ser missioná- também dos grupos, porque atual-
depois. Agora, o sacramento exige a ria não alienante, não colonizadora, mente estamos todos com um leque

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REVISTA IHU ON-LINE

de temas. Já iniciamos o segundo so histórico em que se desenvolve a rosto e sua diversidade e depois va-
passo essa semana, a construção do evangelização. mos falar em redenção.
documento final. É nesse momento
que vai depender muito das escolhas
IHU On-Line – O papa Fran-
desse balaio, o que tiramos e real-
cisco, inclusive, tenta trazer
mente achamos como um novo ca-
minho que estamos procurando. “O sacramento imagens para mostrar que está
muito perto do povo. Tem uma
exige a imagem, que até apareceu como
IHU On-Line – E nos cafés, capa do L’Osservatore Romano,
nas residências e em outros en- mudança, o em que ele abraça uma mulher
contros que vão ocorrendo, nos
bastidores, o que está sendo co- câmbio de uma negra brasileira que está par-
ticipando da assembleia. Tam-
mentado?
Paulo Suess – Eu estou sentindo
igreja de visita bém apareceu tomando chi-
marrão e em fotos com todas as
que estamos com certo otimismo. Se
conhece a máquina e como ela fun-
para uma igreja pessoas. Como isso influencia
aqueles que estão participando
ciona, se conhecem as forças pre- de presença” da assembleia?
sentes, porém, numericamente, ao Paulo Suess – O chimarrão, pro-
menos, há muitos que querem andar vavelmente, já tomava na Argentina.
nesses novos caminhos. Nesses 500 Não precisava muito de inculturação
anos aqui, nos tornamos de uma IHU On-Line – Esse Sínodo é (risos). Mas os outros são grandes
igreja majoritária em uma igreja mi- o que conta com mais presença elementos. O Papa é bom em dar si-
noritária, porque ocuparam os espa- feminina. Até agora, nesses pri- nais, que vão mais longe do que as
ços que deixamos abertos por causa meiros dias, como estão se po- palavras. Porém, nós sabemos que
da centralização dos ministérios. Por sicionando as mulheres dentro ele está numa estrutura ainda mui-
isso, creio que a maioria vai compre- da Assembleia Sinodal? to cristalizada e, para aquecer um
ender que descentralizando os mi- pouco esses cristais, ainda não con- 11
nistérios vamos marcar presença e Paulo Suess – O Sínodo é um seguiu tudo. E não pode fazer tudo
vamos poder retomar, de uma certa sínodo de bispos e não de leigos, de como nós pensamos, como falamos
maneira, essa Amazônia com espíri- padres nem de mulheres. Porém, nos corredores porque, se ele fizer
to do Evangelho que luta por justi- sempre que são mencionados temas isso, amanhã outro papa iria desfa-
ça e liberdade e contra a violência e candentes para as mulheres se per- zer. Então, ele precisa também em
tudo que observamos na análise da cebem os aplausos, as interrupções, tudo lutar internamente por um
realidade. as satisfações e se vê em todos os ca- grande consenso para poder dar du-
sos a presença das mulheres. Assim, rabilidade para novos caminhos e
embora não tenham a presença, a para que não possam dizer que esse
IHU On-Line – O Sínodo tem força pelo voto se introduz mais pela não é o caminho e parar tudo, levan-
sido um momento muito elo-
força do argumento. do para outra direção.
giado, mas também muito cri-
ticado, inclusive dentro da pró-
pria Igreja. Essas críticas estão IHU On-Line – E, pessoalmente, IHU On-Line – Qual é sua ex-
incidindo de alguma maneira o que mais o marcou até agora? pectativa para o “pós-sínodo”,
dentro da assembleia sinodal? o que espera que pode nascer
Paulo Suess – Essa abertura, em
dessa experiência sinodal?
Paulo Suess – Creio que não que se pode falar de tudo, em que há
tenha um impacto. Porém, é bom um grande consenso sobre os novos Paulo Suess – Eu creio que o pós-
observar as vozes contrárias, ana- caminhos, sobre a descentraliza- sínodo vai ser como o [Concílio] Vati-
lisar seus motivos, que às vezes são ção, sobre a ministerialidade, sobre cano II. Vai haver momentos em que
pessoais, sentir como pode ser uma o rosto amazônico. Eu cheguei na se esquece, momentos em que nos
quebra na sua trajetória profissio- Amazônia em 1966, trabalhei dez lembramos e vai haver, sobretudo,
nal aqui em Roma, porque agora a anos em diferentes regiões, depois horizontes e processos iniciados e,
linha é outra e eles ainda não se de- trabalhei com a questão indígena. mesmo se não der para concluir tudo
ram conta do espírito da época em Por isso, a questão do rosto ama- no Sínodo, na admoestação apostólica
que vivemos. Então, a gente escuta e zônico é bálsamo para minha alma. que o Papa vai fazer no documento,
procura esvaziar os argumentos que Bálsamo no sentido de que vai ao marcará que os caminhos são aber-
muitas vezes não são argumentos, encontro do que nós sempre defen- tos. E são abertos para, na região, nos
são apenas autodefesas apenas para demos. Assumir para redimir, isso sentarmos e pensarmos como vamos
continuar assim como sempre se fez está em Puebla N. 400. É preciso aplicar essa parte do Sínodo em nossa
e com isso estamos fora do proces- assumir essas culturas, assumir o região, em nossa diocese.

EDIÇÃO 543
ENTREVISTA

Esse é o caminho sinodal, ele é e as gerações futuras. Como atmosfera receber de gás carbônico
mais complicado do que o caminho fazer as pessoas, de forma con- para a temperatura não exceder um
ditatorial ou imperial em que se de- creta, compreenderem em que grau e meio, que seria o limite me-
cide. No Sínodo, se quer trabalhar na consiste esse perigo? nos perigoso para o planeta.
base do consenso. E consenso não
Carlos Nobre – A Amazônia, di-
da unanimidade, porém num grande Perda de biodiversidade
ferente de outras florestas de latitu-
consenso, o que leva tempo, tempo
des médias e até altas, desenvolveu Outro elemento é que, desaparecen-
de conscientização da própria Igre-
em milhões de anos uma capacida- do 50, 70% da floresta, perderíamos,
ja, dos nossos irmãos. E, ainda, vai
de de também modificar o clima a certamente, centenas de milhares de
depender da nomeação de bispos,
seu favor. Quer dizer, a Amazônia espécies. Seria uma extinção global
da escolha de padres, vai depender
cria uma condição em que ela ajuda de espécies da floresta tropical. E a
muito da formação de padres, que
a produzir a chuva que a ajuda a se Amazônia é também um estabiliza-
se falou que não se faça em redomas,
manter. Ela aumenta as chuvas que dor, ajuda a estabilizar o clima sobre
mas com processos participativos,
ocorrem sobre a bacia amazônica e, ela, mas também o clima em regiões
com o povo, com a comunidade.
se não tivesse floresta, a chuva seria da América do Sul. Por exemplo, sem
Tudo isso leva tempo porque implica
de 20 a 30% menor. Esse aumento a floresta, o vento que passa pela
em mudanças culturais.
de volume de chuva é justamente o Amazônia e chega no Cerrado che-
que mantém a floresta. Essa intera- garia entre um grau e meio ou dois
ção, que é muito única de florestas graus mais quentes. O Cerrado, que
“A partir de uma tropicais, e é muito marcante na
Amazônia, até mesmo mais marcan-
já é uma região mais quente que a
Amazônia, ficaria ainda mais quente,
igreja com rosto te do que nas florestas tropicais da
África e do sudeste asiático, signifi-
com uma série de impactos na saúde
humana, nos ecossistemas e também
amazônico, ca que, por outro lado, se aumentar
o desaparecimento da floresta ou o
nos sistemas de produção agrícola.

12
vai ser planeta continuar aquecendo, esse
mecanismo é colocado em risco.
Influência nas chuvas da

missionária não Isso significa que se esse mecanis-


Bacia do Prata
Há estudos também que indicam
alienante, não mo, que ajuda a manter a floresta,
enfraquecer ou desaparecer, nós que as chuvas na Amazônia criam

colonizadora, atingiremos o que os cientistas têm


chamado de ponto de não retorno.
uma situação em que o vapor da
água que passa por ela acaba che-

uma igreja A floresta irá começar a desapare-


cer em poucas décadas. Em 30 ou
gando até o sul da Bacia do Rio da
Prata. Então, isso influencia muito
mesmo 50 anos, entre 50 e 70% da floresta
amazônica dará lugar a uma sava-
as chuvas do sul da Bacia do Prata,
Brasil, Paraguai e centro-leste da
segundo o na bem empobrecida, muito seca.
E, com isso, teremos consequências
Argentina. O desparecimento de boa
parte da Amazônia afetaria as chu-
espírito de globais. A primeira e mais óbvia é vas e essas regiões passariam a ter
menos chuva principalmente duran-
que a floresta é um grande reserva-
Jesus que tório de carbono. O desaparecimen- te o inverno.

se encarnou to da floresta e a substituição por


uma savana ou pela agricultura e Incapacidade de reversão

nesse mundo” pela pecuária joga esse carbono todo


na atmosfera, na forma de gás carbô-
Esses são muitos dos impactos que
a ciência mostra sobre o risco de ul-
nico, o mais importante gás do aque-
trapassarmos esse ponto de não re-
cimento global.
torno. E nós estamos, infelizmente,
IHU On-Line – A comunidade E essa quantidade enorme – se nós muito próximos. Os estudos científi-
científica apresentou um docu- colocarmos em números, são cerca cos indicam que se o desmatamento
mento no Sínodo sobre a rea- de 200 bilhões de toneladas de gás da Amazônia ultrapassar 20 a 25%,
lidade da Amazônia, no qual o carbônico que iriam parar na at- nós corremos o risco de ultrapassar
senhor é um dos autores. No mosfera – já tornaria muito difícil esse ponto ou se o aquecimento glo-
início do documento, diz que a atingir as metas do Acordo de Paris bal aumentar as temperaturas entre
Amazônia, a maior floresta tro- para não deixar o planeta supera- três e quatro graus nós temos um
pical do mundo, está em grande quecer. Se esse gás carbônico chegar total desmatamento entre 15 e 17%
risco de destruição e com isso na atmosfera, nós já teríamos engo- na Amazônia como um todo. Então,
também está em risco a nossa lido 50% do que é possível ainda a estamos muito próximos.

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Ao ritmo atual dos desmatamentos, a Bolívia, o Peru, a Colômbia e a Ve- Criminalidade


que cresceram muito nos últimos nezuela. Felizmente o norte da Ama-
anos, diríamos que temos não muito zônia é mais preservado: Guiana, E, logicamente, também há muitos
mais do que 30 anos, qualquer coisa Suriname e Guiana Francesa, assim elementos de crime. Para isso preci-
entre 15 e 30 anos, e teríamos ultra- como o norte do Brasil — ao norte do samos contar com uma ação muito
passado esse ponto. Essa mudança, rio Amazonas. eficiente de governo, com políticas
se ultrapassarmos esse ponto, é ir- públicas que reduzam — eliminar
É o desafio de vencer um discurso é muito difícil — fortemente a cri-
reversível: a vegetação vai mudando
político que é assentado em bases minalidade. Quase toda a madeira
para uma savana seca e essa savana
falsas, que diz que esse modelo de tirada da Amazônia é ilegal, 90%
estará em equilíbrio com esse novo
desenvolvimento da Amazônia, ini- dos desmatamentos são ilegais, são
clima da Amazônia e, portanto, a flo-
ciado nos anos 1970 do século passa- áreas de grilagem, roubo de terras.
resta não volta mais. Seriam neces-
do, é o único modelo que pode trazer O garimpo, por exemplo, quase todo
sários, talvez, milhares de anos para
bem-estar às populações amazôni- é ilegal. Então, é preciso fazer valer,
a floresta voltar.
cas. Isso é facilmente desmentido não só na Amazônia brasileira, mas
porque cerca de 60% da população em quase toda a Amazônia, uma de-
Zerar o desmatamento e amazônica é pobre, classes D e E, de
restaurar a floresta mocracia. Um Estado Democrático
acordo com o Censo do IBGE. Por- de Direito é uma questão muito im-
Então, nós temos este enorme de- tanto, esse modelo não é um modelo portante.
safio, que é zerar o desmatamento — que tem trazido bem-estar social ou
econômico para as populações ama- Nós temos um excelente exemplo
esse é o primeiro desafio. O segundo
zônicas, pois tem um impacto ma- de redução do desmatamento no
desafio é buscar restaurar a floresta
croeconômico, mas não traz desen- Brasil, entre 2005 e 2012, permane-
Amazônica, principalmente nessas
volvimento real para todos os países cendo baixo até 2014, simplesmente
áreas de máximo desmatamento no
amazônicos. com políticas que fizeram o cumpri-
chamado Arco do Desflorestamento,
mento da lei e políticas que desenha-
que vem desde a Bolívia, passando O maior vetor de desmatamento ram um futuro mais sustentável para
por Rondônia, norte do Mato Gros- é a agropecuária, ainda que a infra- a Amazônia. Durante esse período
so e do Tocantins e o centro-sul e o estrutura e a mineração respondam — 2005 a 2014 — a produção agro-
13
leste do Pará. Nós temos essa imensa por cerca de 10% dos desmatamen- pecuária da Amazônia mais que do-
área e temos realmente que fazer um tos. A agropecuária na Amazônia é brou, portanto não existe nenhuma
grande esforço de restaurar a floresta muito ineficiente, principalmente relação entre a produção total – que
para que possamos evitar esse risco, a pecuária. Existem, sim, maneiras tem a ver com a segurança alimen-
que será um prejuízo para sempre de mudar essa realidade, se de fato tar — e desmatamento. O desmata-
para o planeta Terra e para as futu- houver o desejo dos governos; da mento é um fenômeno ainda muito
ras gerações. Não parece moralmen- sociedade existe, sim, porque a so- relacionado com o crime e com o de-
te correto aceitarmos ou corrermos ciedade brasileira e de outros países sejo cultural de posse de terra, de ter
esse risco, quando temos alternati- amazônicos, mas principalmente a a posse de uma grande propriedade
vas, pois não precisamos desmatar a brasileira, é radicalmente contra o pecuária. Esses são os valores cultu-
Amazônia para atingir qualquer meta desmatamento da Amazônia. Em rais de quem chegou na Amazônia,
de desenvolvimento econômico. todas as pesquisas de opinião dos úl- não das populações tradicionais, e
timos 20 anos, sempre mais de 90% que não são valores totalmente legí-
da população brasileira é contra o timos e são muito associados com o
IHU On-Line — O documen-
desmatamento da Amazônia. En- crime organizado. Afinal, como falei,
to denuncia os grandes violões
tão, se não tivéssemos uma tão im- praticamente todo o desmatamento
do desmatamento — pecuária
perfeita democracia, não estaríamos é ilegal.
ineficiente, agricultura de bai-
vivendo essa crise, porque a classe
xa produtividade e mineração.
política e os governos tomariam a Emergência de uma nova
Como ajudar a sociedade, in-
vontade da maioria da população e economia
clusive o atual governo brasi-
já teriam modificado suas políticas
leiro, a entender que existem
para a Amazônia. Mas, infelizmente, Precisamos mudar também a per-
alternativas e que o modelo
na imperfeita democracia dos países cepção cultural, que é possível, sim,
econômico poderia ser outro a
amazônicos — em quase todos os pa- reduzir o desmatamento — temos
partir da sustentabilidade?
íses amazônicos —, os interesses eco- que zerar de fato se quisermos pre-
Carlos Nobre — Existe o desafio nômicos de curto prazo direcionam servar a Amazônia —, criar progra-
de convencer os governos dos países sempre as ações políticas. Portanto, mas de restauração florestal e desen-
amazônicos, principalmente onde nós realmente temos que atuar para volver o que nós chamamos de uma
essas taxas de desmatamento têm mostrar que uma agropecuária um nova economia, uma bioeconomia,
sido historicamente mais altas, em pouco mais eficiente é essencial para uma economia da biodiversidade,
primeiro lugar o Brasil, mas também reduzir o desmatamento. uma economia com os valores eco-

EDIÇÃO 543
ENTREVISTA

nômicos da biologia amazônica. de mil espécies — e essa antropização Amazônia — é que esse cultivo de
Os valores econômicos escondidos manteve plenamente a floresta, man- cogumelo já se tornou um produto
nessa enorme diversidade de espé- teve toda a sua biodiversidade. disponível em alguns mercados. Isso
cies da Amazônia são infinitamente mostra que é possível unir o conheci-
Nos jardins e roças indígenas, esse
superiores a tirar toda a floresta e mento tradicional com os mecanismos
é um trabalho que foi feito principal-
substituir por pecuária ou por agri- mais modernos de distribuição e de
mente pelas mulheres indígenas, onde
cultura. Os poucos exemplos que já uso daquele recurso. Esse é um pouco
foram derivados milhares e milhares
temos de sistemas agroflorestais e o exemplo e o potencial é muito maior,
de variedades das espécies, como,
até mesmo de extrativismo de alguns pois esse potencial de unir o conheci-
por exemplo, a mandioca – que tem
produtos, como açaí, castanha, ba- mento tradicional com o conhecimen-
mais de 600 variedades –, o cacau –
baçu e cacau, já dão uma rentabili- to científico está apenas começando a
com centenas de variedades –, o açaí
dade para os agricultores familiares ser explorado. Mas, reitero: é preciso
e a castanha. Essas variedades todas
que o praticam muito maior do que unir e beneficiar principalmente as co-
foram desenvolvidas nesses jardins,
a pecuária, para citar um exemplo. E munidades indígenas.
o que é uma antropização que man-
nós temos esse modelo.
teve a floresta em pé, que a manteve
Temos, ainda, que pensar nos pa- funcionando perfeitamente, que não IHU On-Line — Como o Síno-
íses amazônicos, pois se algum dia significou a extinção de uma única do para a Amazônia pode aju-
quisermos atingir classe média, pre- espécie. Esse é um conhecimento que dar a refletir sobre a realidade
cisamos pensar um modelo de indus- nós temos que aprender: como a ciên- amazônica?
trialização, porque país desenvolvido cia moderna pode vir e ter a mesma Carlos Nobre — Em primeiro lu-
é país industrial. Então, é preciso visão que os indígenas tiveram em mi- gar, assim como na Encíclica Lauda-
industrializar essa riqueza biológica lhares de anos? Um aproveitamento to Si’, é muito importante perceber
na própria Amazônia, que não pode da imensa biodiversidade para os fins que o Sínodo ouve a ciência. A ciên-
ser apenas um produtor de produtos humanos, mas mantendo a floresta, cia que é um elemento que apoia a
primários. É vital pensar numa revo- mantendo a biodiversidade e os rios. expansão e a implementação do con-
lução científica e tecnológica para a
A ciência moderna tem muito a ceito de ecologia integral. É muito
14 Amazônia, uma revolução que cha-
contribuir e ela pode de fato apren- importante que haja e que tenha ha-
mamos de “Revolução Bioindustrial”:
der com esse saber tradicional e de- vido esse reconhecimento do Sínodo
criar dezenas de milhares de bioin-
senvolver uma economia de floresta de que a voz da ciência precisa ser
dústrias disseminadas nas mais de 5
em pé. Essa é uma meta muito im- ouvida. A voz da ciência não é a voz
mil comunidades da Amazônia para
portante para os países amazônicos, final, a voz final é o que as socieda-
que se gere valor econômico que tra-
para a comunidade científica e para des definirem. Mas a voz da ciência
ga bem-estar e qualidade de vida para
os governos. E que os governos pos- precisa ser ouvida e ela pode, sim,
as populações amazônicas.
sam apoiar o desenvolvimento dessa ser a mensageira de soluções susten-
nova economia de floresta em pé. táveis para toda a Amazônia.
IHU On-Line — Dentro dessa
Então, já é um fator muito impor-
problemática, como a socie- Ciência moderna e ciência tante o Sínodo reconhecer que a ci-
dade poderia aprender com os milenar ência pode contribuir. E, claro, um
povos originários técnicas mi-
Sínodo que também abarque solu-
lenares, nessa ideia de “econo- No desenvolvimento dessa nova
ções, e não só diagnósticos do pro-
mia sustentável”? economia é muito importante tam-
blema, é um Sínodo com o potencial
bém a ciência aprender bastante
Carlos Nobre — Um desafio que de ter uma enorme longevidade. Um
com os conhecimentos tradicionais
a ciência deve enfrentar — e começa Sínodo que marque um momento
dos povos indígenas; esse aprendi-
cada vez mais a enfrentar — é como histórico de uma enorme percepção
zado é essencial, mas também tem
unir essas duas formas de sabedoria: de risco para a Amazônia e para as
que ser um aprendizado que bene-
sabedoria tradicional, principalmen- suas populações, para o ambiente e
ficie as comunidades indígenas. Há
te dos povos indígenas, e a sabedo- para a sociedade amazônica e que, ao
vários bons exemplos, mas eu cito
ria que vem do mundo científico. mesmo tempo, se ampare na ciência
um: o conhecimento tradicional de
Se olharmos os 11 mil anos de seres e também mostre que há caminhos.
várias etnias no território Yanoma-
humanos na Amazônia, veremos que E a ciência pode muito apoiar um
mi fez com que alguns grupos indí-
os inúmeros grupos — etnias indíge- caminho sustentável, um caminho
genas daquele território já comercia-
nas — antropizaram a floresta, pois a em que a floresta e as populações
lizem cogumelos. Eles milenarmente
floresta hoje não é igual a quando os tradicionais continuem a existir, se-
aprenderam a cultivar cogumelos,
seres humanos chegaram na floresta jam respeitadas e valorizadas e que
prática que é muito difícil.
há 11 mil anos. Eles foram desenvol- tenham condições de adquirir uma
vendo uma distribuição de espécies, Uma coisa que evoluiu com etnias melhor qualidade de vida e justiça
das espécies de uso humano — mais Yanomami — isso existe em toda a social.■

21 DE OUTUBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Leia mais
- Sínodo Pan-Amazônico. O Documento Preparatório e o Questionário - início de um
diálogo para buscar novos caminhos. Entrevista especial com Paulo Suess, publicada
nas Notícias do Dia de 22-06-2018, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível
http://bit.ly/31jTasJ.
- Por “uma Igreja com rosto amazônico e com rosto indígena”. O Sínodo Pan-Amazôni-
co e a busca de um novo paradigma de evangelização. Entrevista especial com Paulo
Suess, publicada nas Notícias do Dia de 11-05-2018, no sítio do Instituto Humanitas Unisi-
nos – IHU, disponível http://bit.ly/2VReu7Z.
- 70% das comunidades são privadas da Eucaristia dominical. “A Igreja é a responsável
por esta situação”. Entrevista especial com Paulo Suess, publicada nas Notícias do Dia de
16-04-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível http://bit.ly/2VPXVZU.
- Amazônia e a bioeconomia: um modelo de desenvolvimento para o Brasil. Entrevista
especial com Carlos Nobre, publicada nas Notícias do Dia de 09-05-2019, no sítio do Insti-
tuto Humanitas Unisinos – IHU, disponível http://bit.ly/35M0SzA.
- Amazônia 4.0. A criação de ecossistemas de inovação e o enraizamento de uma nova
bioeconomia. Entrevista especial com Carlos Nobre, publicada nas Notícias do Dia de 09-
08-2018, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível http://bit.ly/2VUbo2X.
- A Amazônia está aquecendo. Entrevista especial com Carlos Nobre. publicada nas Notí-
cias do Dia de 17-11-2010, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível http://
bit.ly/2Bl8tHm.

15

EDIÇÃO 543
ARTIGO

A ideologização da Sociologia (além


de uma simples distração)
Veliquis ea faccinit amet, quis nos
Carlos A. Gadea

“ M
artins foi bastante generoso com o ambiente aca-
dêmico e a Sociologia, em particular. Chama de
‘distração’ (ou de desatenção) o produto de uma
atitude acadêmica e intelectual que, na realidade, não
emergiu da falta ou ausência de ‘prontidão’, por exemplo,
por parte dos pesquisadores nativos, mas sim de um agir
acadêmico convencido de que não existiria divórcio possí-
vel entre as ideologias (valores subjetivos, de grupo, inte-
resses) que o pesquisador carrega e a produção de conhe-
cimento capaz de elaborar acerca da sociedade”, afirma o
sociólogo Carlos A. Gadea, ao comentar a ideologização das
Ciências Sociais, tema da entrevista concedida por José de
Souza Martins à IHU On-Line1.
Carlos A. Gadea é graduado em História pelo Instituto
de Professores Artigas - IPA, no Uruguai, mestre e doutor
em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa
16 Catarina – UFSC. Realizou pós-doutorado na Universidade
de Miami, nos EUA, e foi professor visitante na Universi-
dade de Leipzig, na Alemanha e na Faculdade de Ciências
Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autônoma do
México - UNAM, no México. Atualmente leciona no Progra-
ma de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade
do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos.
Eis o artigo.

O sociólogo José de Souza Martins, em entrevista publicada pelo Instituto Humanitas Unisi-
nos - IHU no mês de setembro de 2019, foi contundente acerca do ambiente acadêmico domi-
nante nos últimos 20 anos nas Ciências Sociais no país. Afirma que “houve uma ideologização
da produção do conhecimento sociológico, aquela coisa do politicamente correto, a coisa do
engajamento”. Também afirma que “o Brasil não foi na direção suposta pelos governos e muito
menos pelos sociólogos e, de repente, há uma mudança brutal na sociedade brasileira e fica todo
mundo surpreso. Surpreso com o quê? Não há que ficar surpreso; significa que o pessoal estava
distraído. Então, faço a crítica da distração e da falta de prontidão dos sociólogos brasileiros, de
uma certa vulnerabilidade ao que parece, mais do que aquilo que é. Isso não é bom para um so-
ciólogo”. Estas palavras de Martins, no alto da sua experiência acadêmica e intelectual, soaram
fatais para muitos. Em mim, uma manifesta cumplicidade. 1
Seu diagnóstico acerca de que “as ideologias (...) que têm invadido a sociologia são as ideolo-
gias de esquerda, de um marxismo mal digerido, desvinculado do método dialético”, vincula-
se a uma preocupação que muitos outros sociólogos compartilham há bastante tempo, motivo
de conversações, por exemplo, nos intervalos dos eventos científicos da área. Também como
certo “conformismo dos intelectuais” (M. Maffesoli)2 se revestiu de uma poderosa camada de

1 A entrevista está disponível em http://bit.ly/35TL79y. (Nota da IHU On-Line)


2 Em referência ao próprio título do excelente livro de Michel Maffesoli e Héléne Strohl, “O conformismo dos intelectuais”, 2015, Ed. Sulina, Porto Alegre.
(Nota do autor)

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ideologias que acompanharam os destinos de um ciclo político recente, diagnóstico que muitos
guardaram na intimidade dos seus pensamentos com certos receios e temores. Mas, oportuno é
dizer, que Martins foi bastante generoso com o ambiente acadêmico e a Sociologia, em particu-
lar. Chama de “distração” (ou de desatenção) o produto de uma atitude acadêmica e intelectual
que, na realidade, não emergiu da falta ou ausência de “prontidão”, por exemplo, por parte dos
pesquisadores nativos, mas sim de um agir acadêmico convencido de que não existiria divórcio
possível entre as ideologias (valores subjetivos, de grupo, interesses) que o pesquisador carrega
e a produção de conhecimento capaz de elaborar acerca da sociedade.
Neste sentido, tem que ficar evidente que a motivação desta atitude tem sido, como bem sus-
tenta o próprio Martins, a de confirmar as convicções extracientíficas destes pesquisadores e “in-
telectuais” (políticas, de valores culturais, morais, estilos de vida), enganando-se ao supor que
a “sua verdade” (surgida do seu condicionamento ideológico) revelaria aquilo que foi realmente
observado e pesquisado. Como resultado tivemos uma Sociologia limitada ao jogo dos embates
ideológicos e os sutis posicionamentos políticos, aos a prioris do mundo, e que, evidentemente,
levou a um autoengano: à produção de conhecimento ao serviço de uma “causa maior”, ou me-
lhor, como inserido numa cadeia de significados que adquire sentido em um relato previamente
concebido acerca da sociedade e o indivíduo. Ao que Martins chama de uma sociologia cujo pres-
suposto é o de uma evolução linear da sociedade, permito-me descrever como uma sociologia
excessivamente carregada de metarrelatos e certezas, produtora de discursos e narrativas sobre
a sociedade e os indivíduos.
Como correlato surgiria a cultura do engajamento e da militância política, e entre ambas a pro-
messa da emancipação. Não se trata de algo novo, certamente. Esta categoria surge do espírito
do iluminismo do século XVIII, e ganharia força em intelectuais forjados nas tensões políticas e
culturais do século XX. A geração de intelectuais da redemocratização política, e dentre eles, os
que, inclusive, estiveram participando na luta contra os regimes autoritários dos anos de 1960
e de 1970, tiveram, justamente, muito protagonismo nesta cultura acadêmica. A militância po-
lítica tinha subjetivamente impactado o agir acadêmico de muitos intelectuais, encontrando-se 17
com novas gerações ávidas por debates e discussões que dessem conta do espírito crítico do seu
presente. Assim, os objetos da pesquisa passaram a adquirir status de sujeito da emancipação.
Por exemplo, a figura do “outro” (o trabalhador, o pobre, o negro, a mulher, o camponês, etc.)
emergiria em sintonia com a tentativa de torná-lo uma voz passível de um conhecimento úni-
co e próprio, e cuja experiência incomensurável dever-se-ia “libertar” das amarras estruturais
da vida social. Diante disso, apareceria uma Sociologia com pressupostos claros, e de tradição
crítica forte: de contribuir (e conduzir) a dilucidar o conteúdo oculto das estruturas opressoras
da sociedade para emancipar aqueles que estariam na condição social de eventual sofrimen-
to. Assistir-se-ia à passagem de uma Sociologia que diagnosticava, debatia teorias e procurava
compreender a dinâmica do mundo social para uma que se constituía em âmbito das lutas polí-
ticas que se suscitavam na vida em sociedade, lutas que, evidentemente, correspondiam-se com
determinadas agendas aprioristicamente consideradas válidas pelos pesquisadores que tinham
previamente concebido seu objeto de análise como um sujeito da emancipação.
Fora o papel histórico que certo ambiente acadêmico se atribuiu tal qual herdeiro de uma mis-
são política importante no contexto da redemocratização política no país, da eventual ampliação
dos direitos políticos e sociais e os debates acadêmicos considerados necessários para emancipar
a sociedade, o problema fundamental desta Sociologia foi ter passado a considerar o produto das
suas alucinações ideológicas a realidade concreta tal qual se estaria apresentando. Quer dizer,
quando passou a acoplar aquilo que previamente considerava que a realidade e os indivíduos
era (e/ou deveria ser) e o que a realidade pragmaticamente oferecia perante seus olhos. Neste
exercício complexo, a crise desta Sociologia se tornaria iminente, e a perplexidade com o real
não conseguiria o necessário revisionismo sobre os pressupostos ideológicos existentes. Longe
disso, a realidade era entendida como uma distorção ou uma miragem cacofônica. Assistia-se a
uma Sociologia que praticamente negava a realidade ou, simplesmente, a tratava com desprezo.
Esta sorte de esquizofrenia traria como substituição uma espécie de “energia moral” que, de
partida, terminaria ferindo seriamente a própria legitimidade desta Sociologia como campo de
conhecimento científico. Por “energia moral” se entende, aqui, em certo sentido, o que Martins
chama como o “politicamente correto”, mas que, em termos gerais, entender-se-ia como aquilo
que, finalmente, dotaria a Sociologia de uma função social particular em um contexto histórico
e político. Esta Sociologia entraria, então, a fazer parte de um discurso ou relato a mais no car-

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ARTIGO

dápio de alternativas sobre como construir uma sociedade mais justa, sobre como emancipar
sujeitos; função que, diga-se de passagem, não necessariamente foi constitutiva na sua con-
solidação como área de conhecimento científico. Por momentos, parece estarmos assistindo a
uma Sociologia que está atravessando uma “face mística” ou new age fora de tempo, com suas
mirabolantes análises sobre a sociedade.
Por outra parte, quem poderia se opor a que aqueles que sofrem deixem de fazê-lo pelas injus-
tiças da vida social? Certamente, o conhecimento deve estar em sintonia com as necessidades da
vida social e moral dos indivíduos e grupos, e deve servir para que, com base nele, se possam as-
sumir compromissos para o bem comum. No entanto, o que está em questão é se determinadas
visões de mundo com uma típica nomenclatura, se um marco ideológico, o engajamento e a mi-
litância que o acompanham são condizentes com a produção do conhecimento sociológico que
necessitamos. Qual a garantia que o engajamento é tal por parte daquele que se define engajado,
e que tal posicionamento é um “lugar de enunciação” legítimo para a produção do conhecimento
sociológico? Engajado em quê? Para quê? Qual o a priori do mundo que levou a tal ação de estar
engajado por parte de um tal pesquisador? Esta Sociologia pouco nos oferece além de deixar em
evidência qual ideologia está representando.
Como bem afirma Mark Lilla3, vivenciamos uma “era ideológica”, e é sob este guarda-chuva
que se deve compreender, também, esta ideologização da Sociologia que tanto vem preocupan-
do a muitos. Esta era ideológica se caracteriza, em parte, por um ambiente acadêmico do “quem-
dá-mais” na elaboração de narrativas - oriundas de pesquisas (!) - que procuram a emancipa-
ção, a liberação, daqueles que podem definir-se como sujeitos da opressão. À falta de critérios
e aproximação adequada ao campo sociológico, mede-se o valor do conhecimento produzido
pelo reconhecimento intelectual entre os iguais da capacidade de ter achado um “novo sujeito” a
libertar, uma nova relação social de opressão ou um mecanismo oculto de poderes em disputa.
Nada contra tal importante lavor investigativo. O problema está na constituição de um ambiente
acadêmico que termina sendo, praticamente, um terreno de especulação acerca de quem seria
18 o próximo a “libertar”: os catadores de lixo?, os portadores de uma nova identidade sexual?, o
coletivo dos ofendidos por uma palavra que os ofendeu? Quem-dá-mais?
Com que legitimação se conta para continuar tal empreendimento? Lyotard4 muito bem nos lem-
bra de que as ideias de progresso e desenvolvimento supunham, para as sociedades modernas, saber,
a cada instante, quem era o sujeito que, em verdade, era vítima da falta de desenvolvimento, o pobre,
o excluído, o analfabeto, preocupação que atravessou os séculos XIX e XX. Não obstante as contro-
vérsias surgidas, todas as tendências coincidiam em um ponto: que as iniciativas, os conhecimentos
e as instituições só gozavam de certa legitimidade na medida em que contribuiriam à emancipação
da humanidade. Nos termos que interessam aqui, isto significa considerar que a produção do conhe-
cimento sociológico estaria assentada na sua capacidade de, igualmente, emancipar sujeitos. Mas,
como também lembra Lyotard, a emancipação é uma Ideia, e se define de distintos modos segundo
as filosofias da história, os metarrelatos sob os quais tentamos ordenar a série de acontecimentos.
Parece obviedade afirmar que se o valor da emancipação e a liberação de sujeitos passíveis de
tal ação por parte de um pesquisador é dependente da própria forma de definir tal Ideia, ao que
se assiste é a uma predisposição da ideologia política e à atitude estética da militância para a
final produção do conhecimento sociológico. Por isso, não haveria nada de distração, e sim explí-
cita predisposição. Volta-se, assim, ao problema de origem: em tempos de grandes e aceleradas
mudanças sociais e culturais, continuarão as ideologias disciplinando as realidades sociais que
vivenciamos? Poderemos ter, no horizonte, um ambiente acadêmico amadurecido na tentativa
de separar o ideológico da produção de conhecimento sociológico? Haverá espaço para uma
Sociologia mais performática (Lyotard), sem os excessos das certezas sobre como o mundo deve
ser? E uma Sociologia que não se distancie da realidade tal qual se apresenta?
Muito resta por discutir a respeito. Muitos episódios fazem parte deste capítulo da Sociologia
no país, exigindo mais reflexões. Pelo momento, desideologizar o ambiente acadêmico, e socio-
logizar a sociologia, eis a mensagem final que gostaria de dar.
Assista a à aula magna do PPG em Ciências Sociais da Unisinos, com a palestra de José de
Souza Martins, na Unisinos, em http://bit.ly/35Su33I.

3 O artigo “O fim do liberalismo identitário” está disponível em http://bit.ly/2VYDwCh. (Nota do autor)


4 Lyotard, J. F, (2008), La Posmodernidad (Explicada a los niños), Gedisa, Barcelona, p. 91. (Nota do autor)

21 DE OUTUBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

O Outro de si próprio
Raul Antelo analisa, em chave de leitura antropofágica oswaldiana,
como a contemporaneidade engendra uma ontologia em que
o ser-com passa a habitar o lugar do ser
Ricardo Machado

A
Antropofagia não é, propriamen- ad hominem) vai se tornando, na so-
te, o inverso das ontologias he- ciedade de controle, uma vingança que
gemônicas, em que o ser ocupa a encarna o divino (o capital) como con-
centralidade do mecanismo que coloca tracara do iluminismo e, portanto, pas-
em marcha o pensamento Ocidental, sa a ser difusa e disseminada”, descreve
tampouco sua negação. “A antropofagia Antelo. “A cidade é alfa e ômega, vítima
admite então que a tradição ocidental e algoz dessa liquidação da subjetivi-
existe, e assim a metafísica do ser tenta dade. Se os modernos queriam ser (ser
reivindicá-la como própria, como seu autônomos, ser livres), os contemporâ-
limite esgarçado ou como um entre-lu- neos, gradativamente compreendemos,
gar que conserva a memória do dilace- não sem violência, querem ser-com,
ramento originário. Quer reapropriar- uma vez que essa preposição indica a
se do melhor dessa cultura para usá-lo pré-posição de toda posição, que assim
como arma contra o pior dela mesma, prepara sua disposição não à forma
mas sempre a partir de uma inscrição mas à metamorfose”, complementa. 19
ambivalente, em que o Ocidente se con-
templasse a si mesmo como Outro de Raul Antelo é professor titular de
si próprio. Daí o arco hermenêutico ser literatura brasileira na Universidade
incompleto: ele está sempre aberto”, Federal de Santa Catarina - UFSC. Foi
explica Raul Antelo, em entrevista por pesquisador do CNPq, Guggenheim
e-mail à IHU On-Line. Fellow e professor visitante nas Univer-
sidades de Yale, Duke, Texas at Austin,
Nas sociedades patriarcais, e em cer-
Maryland e Leiden, na Holanda. Pre-
to sentido edipianas por princípio, nas
sidiu a Associação Brasileira de Lite-
quais o Estado e o soberano são o cen-
ratura Comparada - Abralic e recebeu
tro do poder, a vingança foi substituída
o doutorado honoris causa pela Uni-
pelos mal-estares modernos e pós-mo-
versidad Nacional de Cuyo. É autor de
dernos, primeiro com Freud e depois
vários livros, dentre os quais Potências
com Bauman. Contudo, na perspectiva
da imagem (Chapecó: Argos, 2004) e
antropofágica, a vingança é capaz de
Crítica acéfala (Buenos Aires: Editora
assumir um outro estatuto ontológico,
tensionando as estruturas de exclusão Grumo, 2008), e editou A alma encan-
social. “A vingança, uma das alegorias, tadora das ruas de João do Rio (São
de resto, de Benjamin, está além do Paulo: Companhia das Letras, 2008),
mais, associada ao crédito. Mas aí a vin- entre outros.
gança modernista (material e concreta, Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a impor- pria? Qual o papel da literatura -americana, que podemos reconhe-
tância de pensar a América La- nesse processo? cer através das signaturas literárias,
tina a partir de suas próprias Raul Antelo – Uma das primeiras é forçosamente paradoxal porque
categorias, ultrapassando uma questões que saltam à vista é a de ela nunca é idêntica a si, não apenas
visão colonizada sobre si pró- que essa hipotética identidade latino no sentido de não ser um idiotismo,

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

“Mas aí a vingança modernista vai se


tornando, na sociedade de controle,
uma vingança que encarna o divino
como contracara do iluminismo”

um indigenismo ou uma autoctonia. demandas incondicionais: de um fato de a tolerância e a fraternidade


Ela não é portadora de autotelismo lado, a procura do conhecimento decorrentes da celebração da liber-
ou autenticidade, mas não oferece científico, entendido como a única dade e da autonomia carregarem
nem mesmo um universalismo (seja forma verdadeira de conhecimento e consigo a fatal incapacidade de dis-
o catolicismo de Amoroso Lima1 ou o única fonte, aliás, de racionalidade; tinguir coerção de servidão. Avalia-
cosmopolitismo letrado de Borges2), e, de outro, o empenho por derro- das como contrárias à liberdade e à
e nesse sentido é incapaz de relacio- tar o obscuro e enigmático, sempre própria autonomia, e tratadas, por-
nar-se coerentemente com o todo do julgado não-científico ou mesmo ir- tanto, com impiedosa intolerância
universo restante. A América Latina racional. O caráter absoluto destas e violência, tais forças são avaliadas
suporta a identidade an-europeia de duas demandas obedece assim à in- pelo iluminismo sacrificial europeu
muitas Europas singulares, que nela condicionalidade das causas que as sem qualquer racionalidade como
habitam. suscitam, que, por lógica, nos con- simples danos colaterais incontor-
duzem a consequências incondicio- náveis. Traça-se assim a linha abis-
20 Defrontamo-nos, portanto, com
nalmente positivas. sal entre, de um lado, a luz das cau-
uma América Latina intempestiva:
sas nobres e das formas iluminadas
uma entidade que cintila, aparece Surge então o caráter sacrificial
de organização social e, de outro, as
e desaparece, conforme os tempos. deste pensamento dos abismos que
profundas sombras das alternativas
Boaventura de Sousa Santos3 propôs elimina, como sagrado, tudo quanto
silenciadas e das consequências des-
recentemente, em “Stay Baroque4”, não lhe é conforme. A natureza sa-
trutivas. Pensar, pelo contrário, uma
um pensamento pós-abissal capaz crificial dessa aposta, que não ignora
epistemologia a partir das consequ-
de transcender completamente a a ideia do capitalismo como religião
oposição binária metropolitano/ (Benjamin5, Agamben6), reside no
colonial, Europa/América Latina, – A palavra e o fantasma na cultura ocidental (Belo Ho-
rizonte: Ed. UFMG, 2007) e Profanações (São Paulo: Boi-
argumentando que a força do Ilu- 5 Walter Benjamin (1892-1940): filósofo alemão. Foi re- tempo Editorial, 2007). Em 4-9-2007, o sítio do Instituto
minismo europeu descansa em duas fugiado judeu e, diante da perspectiva de ser capturado Humanitas Unisinos - IHU publicou a entrevista Estado
pelos nazistas, preferiu o suicídio. Associado à Escola de de exceção e biopolítica segundo Giorgio Agamben, com
Frankfurt e à Teoria Crítica, foi fortemente inspirado tan- o filósofo Jasson da Silva Martins, disponível em http://
to por autores marxistas, como Bertolt Brecht, como pelo bit.ly/jasson040907. A edição 236 da IHU On-Line, de
1 Alceu Amoroso Lima (1893-1983): nascido no Rio de místico judaico Gershom Scholem. Conhecedor profun- 17-9-2007, publicou a entrevista Agamben e Heidegger: o
Janeiro, crítico literário, professor, pensador, escritor e lí- do da língua e cultura francesas, traduziu para o alemão âmbito originário de uma nova experiência, ética, política
der católico. Adotou o pseudônimo de Tristão de Ataíde. importantes obras como Quadros parisienses, de Char- e direito, com o filósofo Fabrício Carlos Zanin, disponível
(Nota da IHU On-Line) les Baudelaire, e Em busca do tempo perdido, de Marcel em https://goo.gl/zZRChp. A edição 81 da publicação, de
2 Jorge Luiz Borges (1899-1986): escritor, poeta e ensa- Proust. O seu trabalho, combinando ideias aparentemente 27-10-2003, teve como tema de capa O Estado de exceção
ísta argentino, mundialmente conhecido por seus contos. antagônicas do idealismo alemão, do materialismo dialé- e a vida nua: a lei política moderna, disponível para aces-
Sua obra se destaca por abordar temáticas como filosofia tico e do misticismo judaico, constitui um contributo origi- so em http://bit.ly/ihuon81. Em 30-6-2016, o professor
(e seus desdobramentos matemáticos), metafísica, mito- nal para a teoria estética. Entre as suas obras mais conhe- Castor Bartolomé Ruiz proferiu a conferência Foucault e
logia e teologia. Sobre Borges, confira a edição 193 da cidas, estão A obra de arte na era da sua reprodutibilidade Agamben. Implicações Ético Políticas do Cristianismo, que
IHU On-Line, de 28-8-2006, intitulada Jorge Luiz Borges. técnica (1936), Teses sobre o conceito de história (1940) e pode ser assistida em http://bit.ly/29j12pl. De 16-3-2016 a
A virtude da ironia na sala de espera do mistério, dispo- a monumental e inacabada Paris, capital do século XIX, 22-6-2016, Ruiz ministrou a disciplina de Pós-Graduação
nível para download em http://bit.ly/ihuon193. (Nota da enquanto A tarefa do tradutor constitui referência incon- em Filosofia e também validada como curso de exten-
IHU On-Line) tornável dos estudos literários. Sobre Benjamin, confira a são através do IHU intitulada Implicações ético-políticas
3 Boaventura de Sousa Santos (1940): doutor em Socio- entrevista Walter Benjamin e o império do instante, conce- do cristianismo na filosofia de M. Foucault e G. Agamben.
logia do Direito pela Universidade de Yale, Estados Uni- dida pelo filósofo espanhol José Antonio Zamora à IHU Governamentalidade, economia política, messianismo
dos, e professor catedrático da Faculdade de Economia On-Line nº 313, disponível em http://bit.ly/zamora313. e democracia de massas, que resultou na publicação da
da Universidade de Coimbra, Portugal. É um dos princi- (Nota da IHU On-Line) edição 241 dos Cadernos IHU ideias, intitulado O poder
pais intelectuais da área de ciências sociais, com mérito 6 Giorgio Agamben (1942): filósofo italiano. É professor pastoral, as artes de governo e o estado moderno, que pode
internacionalmente reconhecido, tendo ganho especial da Facolta di Design e arti della IUAV (Veneza), onde ensi- ser acessada em http://bit.ly/1Yy07S7. Em 23 e 24-5-2017,
popularidade no Brasil, principalmente depois de ter par- na Estética, e do College International de Philosophie de o IHU realizou o VI Colóquio Internacional IHU – Políti-
ticipado nas três edições do Fórum Social Mundial, em Paris. Formado em Direito, foi professor da Universitá di ca, Economia, Teologia. Contribuições da obra de Giorgio
Porto Alegre. Já concedeu uma série de entrevistas ao Macerata, Universitá di Verona e da New York University, Agamben, com base sobretudo na obra O reino e a glória.
IHU, dentre as mais recentes A difícil reinvenção da de- cargo ao qual renunciou em protesto à política do gover- Uma genealogia teológica da economia e do governo (São
mocracia frente ao fascismo social, publicada nas Notícias no estadunidense. Sua produção centra-se nas relações Paulo: Boitempo, 2011. Tradução de: Il regno e la gloria.
do Dia, disponível em http://bit.ly/2LXKOCP; e O lucrativo entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente, Per una genealogia teológica dell’ecconomia e del gover-
mercado da educação e da ciência que extermina a univer- política. Entre suas principais obras estão Homo Sacer: o no. Publicado originalmente por Neri Pozza, 2007). Saiba
sidade pública e democrática, publicada na IHU On-Line poder soberano e a vida nua (Belo Horizonte: Ed. UFMG, mais em http://bit.ly/2hCAore. Em 2017 a revista IHU On
nº 539, disponível em http://bit.ly/322KM2e. (Nota da IHU 2002), A linguagem e a morte (Belo Horizonte: Ed. UFMG, -Line publicou a edição Giorgio Agamben e a impossibili-
On-Line) 2005), Infância e história: destruição da experiência e ori- dade de salvação da modernidade e da política moderna,
4 O artigo pode ser acessado em http://bit.ly/324vBp6. gem da história (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006); Estado nº 505, disponível em http://bit.ly/2NXjQwT. (Nota da IHU
(Nota da IHU On-Line) de exceção (São Paulo: Boitempo Editorial, 2007), Estâncias On-Line)

21 DE OUTUBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

ências tornaria legível a experiência em Cecília Meirelles11. Mas, de outro Raul Antelo – A antropofagia
e possível a justiça. É o caminho, lado, se posso resgatar precursores persegue uma ontologia nacional di-
segundo Sousa Santos, de transfor- ou anômalos, é porque houve uma ferencial. Buscam a antropogênese
mar as ruínas em sementes. Talvez lei, um centro, chame-se ele Macuna- do próprio, resgatando a contribui-
esse raciocínio nos permita concluir íma (Porto Alegre: LP&M, 2019) ou ção intelectual da América, prévio
que a América Latina tem sido basi- Serafim Ponte Grande (Rio de Janei- corte do cordão umbilical à metró-
camente isso, um ente de existência ro: Editora Globo, 1990). É sabido: pole. Querem sentir-se eles mes-
precária ou ambígua, suspenso entre cada texto cria seus precursores. mos, plena e integralmente, em toda
o antes e o depois, subordinada a um parte. Apropriam-se para tanto da
roteiro (roteiros, roteiros, roteiros, metafísica, porque ela oferece uma
pedia, antropofagicamente, Oswald IHU On-Line – Como a Antro- ponte, esse meta-, para além, do
de Andrade7), que oculta como um pofagia ritual, nos termos de animal, em direção inequívoca à his-
segredo sua beleza e seu encanto. Oswald de Andrade, configura- tória humana, isto é, ocidental. Tra-
se também como a expressão ta-se portanto de um processo muito
de uma forma outra de pensa- complexo que a todo momento pre-
IHU On-Line – No caso do mento? cisa discriminar o humano e o não
Brasil, o Modernismo, que tem humano, a vida e a morte, a natureza
Raul Antelo – A Antropofagia
seu mais notório evento na Se- e a cultura. A antropofagia admite
corresponde a um momento entre in-
mana de 1922, trouxe à baila então que a tradição ocidental exis-
gênuo e auspicioso de incorporar as
outras formas de pensar nossa te, e assim a metafísica do ser tenta
diferenças. Hoje a autêntica antropo-
realidade? reivindicá-la como própria, como
fagia consistiria menos na devoração
Raul Antelo – Trouxe e não trou- ritualista, do que na análise da atitu- seu limite esgarçado ou como um
xe. Se escolho e congelo a contribui- de complementar, antropoemética. A entre-lugar que conserva a memória
ção de 22, corro o risco de não ver ou- sociedade de controle vomita indiví- do dilaceramento originário. Quer
tros artistas e pensadores, anteriores duos e problemas. São muito pesados reapropriar-se do melhor dessa cul-
ou não aderentes, que fizeram enor- para seu fraco organismo. Nenhum tura para usá-lo como arma contra o
me contribuição. Penso em Araripe omeprazol dá conta disso. pior dela mesma, mas sempre a par-
Jr.8 mais do que em José Veríssimo9. tir de uma inscrição ambivalente, em 21
Penso em Lima Barreto10 mais do que que o Ocidente se contemplasse a si
IHU On-Line – Em seu livro mesmo como Outro de si próprio. É
Transgressão e Modernidade a construção de uma diferença que
7 Oswald de Andrade (1890-1954): poeta, romancista e
dramaturgo. Nasceu em São Paulo e estudou na Faculda-
o senhor coloca a antropofagia coincide, paradoxalmente, com a
de de Direito do Largo São Francisco. Oswald, Mário de como um “arco hermenêutico busca, em seu próprio interior, de
Andrade, Tarsila do Amaral e Raul Bopp foram os idea-
lizadores do Modernismo no Brasil, na década de 1920, incompleto (...) onde se inscre- um modo de formar específico, não
uma visão da país radicalmente vanguardista que rompia,
pela primeira vez em termos culturais, com o colonialis-
vem as diferenças enfrenta- herdado ou transplantado. Daí o
mo cultural vigente à época. É autor de uma vasta obra, das”. Do que se trata esse arco arco hermenêutico ser incompleto:
passando por críticas literárias, autoria de peças teatrais,
romances e textos teóricos. Dentre sua obra, vale destacar hermenêutico incompleto? ele está sempre aberto.
o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Manifesto Antropófago e
Crise da Filosofia Messiânica, textos importantes no que
concerne à originalidade do pensamento nativo brasileiro privilegiou os pobres, os boêmios e os arruinados, assim
e que se colocam na crítica profunda à razão ocidental como a sátira que criticava de maneira sagaz e bem-hu- IHU On-Line – Relacionan-
hegemonizada. Após a virada antropológica, em 1979, o morada os vícios e corrupções da sociedade e da política.
autor passou ocupar um papel de destaque na Antropolo- Foi severamente criticado por alguns escritores de seu do dois autores importantes
gia brasileira. (Nota da IHU On-Line) tempo por seu estilo despojado e coloquial. Seu projeto
8 Alencar Araripe ou Tristão Gonçalves de Alencar literário era escrever uma “literatura militante”, aproprian- no contexto latino-americano,
(1789-1825): filho da heroína Bárbara de Alencar, foi um do-se da expressão de Eça de Queirós. Para Lima Barreto, Antonio Candido e Jorge Luis
revolucionário que participou da Revolução Pernambuca- escrever tinha finalidade de criticar o mundo circundante
na em 1817 e da Confederação do Equador em 1824. Foi para despertar alternativas renovadoras dos costumes e Borges, do que se trata a “vin-
brutalmente assassinado pelas forças imperiais no interior de práticas que, na sociedade, privilegiavam certas classes
do Ceará. (Nota da IHU On-Line) sociais, indivíduos e grupos. Entre suas principais obras,
gança modernista” manifesta
9 José Veríssimo Dias de Matos (1857-1916): nascido destaca-se Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), em obras dos autores?
em Óbidos, no Pará, foi um escritor, educador, jornalista e Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911), Vida e Morte de
estudioso da literatura brasileira, membro e principal ide- M. J. Gonzaga de Sá (1919) e, postumamente, Clara dos
alizador da Academia Brasileira de Letras. Ao lado de Síl- Anjos (1948). (Nota da IHU On-Line) Raul Antelo – Candido12 chegou
vio Romero e Araripe Júnior, seus contemporâneos, foi um 11 Cecília Meirelles (1901-1964): foi uma jornalista, a dizer, apoiado em Literatura12e
dos primeiros historiadores da literatura brasileira. Em sua pintora, poeta e professora brasileira. Com dezoito anos
obra História da Literatura Brasileira (1916), há uma cons- de idade, em 1919, Cecília publicou seu primeiro livro
tante preocupação em se definir um caráter tipicamente de poemas, Espectros. A partir daí, Cecília começou a se
nacional dos escritores do país. (Nota da IHU On-Line) aproximar de escritores como Tasso da Silveira, Andrade 12 Antonio Candido de Mello e Souza (1918-2017): nas-
10 Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922): mais Muricy e, entre fevereiro e março de 1922, escreveu novos cido no Rio de Janeiro, na infância sua família mudou-se
conhecido como Lima Barreto, nasceu no Rio de Janeiro. poemas para compor um novo livro. Nessa época, acon- para Poços de Caldas, em Minas Gerais. Escritor, ensaísta,
Foi jornalista e escritor, publicou romances, sátiras, contos, teceu a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, liderada sociólogo e professor universitário, era expoente da crítica
crônicas e uma vasta obra em periódicos, principalmente por Oswald de Andrade, com o qual Cecília teve pouco literária brasileira e um dos maiores intelectuais da história
em revistas populares ilustradas e periódicos anarquis- contato. No ano seguinte, publicou Nunca Mais... e Poema do Brasil. Professor emérito da Universidade de São Paulo
tas do início do século 20. A maior parte de sua obra foi dos Poemas, pela editora Leite Ribeiro, contendo vinte e - USP e da Universidade Estadual Paulista - Unesp. Lecio-
redescoberta e publicada em livro após sua morte, por um poemas e seis sonetos de caráter simbolista e com nou na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
meio do esforço de Francisco de Assis Barbosa e outros ilustrações de seu marido, Correia Dias. Posteriormente, - FFLCH da USP por 50 anos (1942 a 1992). Candido foi
pesquisadores, levando-o a ser considerado um dos mais Cecília pediu que esse livro fosse removido de sua biblio- um dos principais pensadores ligados aos estudos sobre a
importantes escritores brasileiros. Foi o crítico mais agu- grafia. Publicou em 1924 Criança, Meu Amor, seu primeiro formação do Brasil, inaugurados nos anos 1930 e 1940 por
do da época da Primeira República no Brasil, rompendo livro infantil, com crônicas em prosa poética para o ensino Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado
com o nacionalismo ufanista e pondo a nu a roupagem fundamental, nas quais a escritora abordou realidades que Júnior. Ingressou na Faculdade de Direito e na Faculdade
republicana que manteve os privilégios de famílias aris- as crianças gostam, como “o imaginário, o bom conselho, de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em 1939,
tocráticas e dos militares. Em sua obra, de temática social, o humor e a fantasia”. (Nota da IHU On-Line) tendo abandonado a primeira no quinto ano e se formado

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

vida nacional (Rio de Janeiro: Civi- ón de la cabala” de Discusión, 1932). Raul Antelo – Não é uma re-
lização Brasileira, 1978), de Grams- Quem aplica a vingança é o vindex, fundação do tempo, o que suporia
ci13, que a vingança acarretava forte que no direito contemporâneo do um pai fundador, um centro, uma
confiança em si mesmo, como lógi- lawfare fica assimilado ao iudex, lei. Mas sim uma refutação dele.
ca do super-homem nietzschiano, quando o vindex é quem diz ao juiz O tempo declina porque desapare-
em que a vingança pessoal funciona a violência que foi praticada a seu ce o centro. O incêndio de Notre
como quinta-essência do individua- cliente: vim dicere. Dame é sintomático. Não é que se
lismo, pauta inapelável de conduta queimou um edifício que fazia par-
Nessa reconfiguração da vingan-
burguesa. A vingança, uma das ale- te da cidade. Queimou-se o marco
ça, o vindex, como já esclareciam
gorias, de resto, de Benjamin, está inaugural da urbs. Andar pela ca-
os velhos filólogos como Ernout15
além do mais, associada ao crédito. tedral era, em algum lugar, pisar o
e Meillet16, se torna um defensor
Mas aí a vingança modernista (ma- vidro que, por transparência, nos
da grande família (o fine irlandês
terial e concreta, ad hominem) vai se permitia ver as relíquias, as ruí-
aponta à grande família, e nesse
tornando, na sociedade de controle, nas de Lutécia, a cidade romana.
sentido o Finnegans Wake (São
uma vingança que encarna o divi- Foi a partir da igreja que cresceu a
Paulo: Iluminuras, 2018) configura
no (o capital) como contracara do cidade. Esta frase, “o tempo é um
a vingança colonial do subalterno
iluminismo e, portanto, passa a ser rio que me arrebata, mas eu sou o
irlandês). Já no lawfare, a vingan-
difusa e disseminada. O lawfare14 é rio; é um tigre que me destroça,
ça desativa a máquina do direito
talvez seu melhor exemplo contem- mas eu sou o tigre; é um fogo que
romano (a presunção de inocência,
porâneo. A vingança dos dias de hoje me consome, mas eu sou o fogo”,
a documentação por meio de pro-
ativa os dois sentidos de vindicare, vamos ouvi-la novamente no final
vas factuais) para substituí-la por
tanto proteger como punir. Ou antes, de Alphaville (1965) de Godard 18.
um conjunto de imagens e firmes
ela é mais punitiva do que protetora. A cidade é alfa e ômega, vítima e
convicções meramente ficcionais.
Borges costuma usá-la no primeiro algoz dessa liquidação da subjeti-
A lei volta a seu desenho mais ar-
sentido (como em “Una vindicación vidade. Se os modernos queriam
caico, a lex talionis, a lei dos talis,
del falso Basílides” e “Una vindicaci- ser (ser autônomos, ser livres), os
a lei do mesmo. A violência entra
contemporâneos, gradativamente
22 em Ciências Sociais em 1942. Em 1945, obteve o título de assim na esfera do jurídico captu-
compreendemos, não sem violên-
livre-docente com a tese Introdução ao Método Crítico de rando a potentia que fica englo-
Sílvio Romero e, em 1954, o grau de doutor em Ciências
bada como potestas. E isso serve cia, querem ser-com, uma vez que
Sociais com a tese Parceiros do Rio Bonito. Na Universida-
de Estadual de Campinas - Unicamp, recebeu o título de
para os populismos latino-ameri- essa preposição indica a pré-po-
doutor honoris causa. Aposentou-se na USP em 1978, mas
manteve-se como professor do curso de pós-graduação canos ou o republicanismo catalão. sição de toda posição, que assim
até 1992, ano em que orientou a última tese. Foi crítico da
Goya17 sempre visionário toca nes- prepara sua disposição não à for-
revista Clima (1941-4), juntamente com intelectuais como
o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, a ensaísta
sas questões em duas gravuras de ma mas à metamorfose. ■
Gilda de Mello e Souza e o neurocientista Antonio Branco
Lefévre. Acadêmica, a revista estabeleceu novos caminhos Los desastres de la guerra: “Tan
para a crítica paulistana. Candido também trabalhou como 18 Jean-Luc Godard (1930): cineasta franco-suíço, nas-
crítico dos jornais Folha da Manhã (1943-5) e Diário de São bárbara la seguridad como el deli- cido em Paris. Reconhecido por um cinema vanguardista
Paulo (1945-7). Em 1956, idealizou o Suplemento Literário, e polêmico, que tomou como temas e assumiu como
caderno de crítica que circulava no jornal O Estado de S.
to” (1815) e “La seguridad de un reo forma, de maneira ágil, original e quase sempre provoca-
Paulo até 1966. Na vida política, participou da luta contra no exige tormento” (1859). dora, os dilemas e perplexidades do século 20. Um dos
a ditadura do Estado Novo no grupo clandestino Frente principais nomes da Nouvelle Vague, assim como Truf-
de Resistência. Em 1980, participou da fundação do Parti- faut. A partir de 1952, colaborou na revista Cahiers du
do dos Trabalhadores - PT. Em 1959, lançou sua obra mais Cinéma e, depois de vários curta-metragens, fez em 1959
influente, Formação da Literatura Brasileira. Outros títulos seu primeiro filme longo, À bout de souffle (Acossado),
importantes que lançou são Literatura e sociedade (1965), IHU On-Line – Ainda sobre em que adotou inovações narrativas e filmou com a câ-
Educação pela noite e outros ensaios (1987) e O roman-
tismo no Brasil (2002). Sobre Candido, conferir as entre-
Borges, no texto Uma nova mera na mão, rompendo uma regra até então inviolável.
Esse filme foi um dos primeiros da Nouvelle Vague, mo-
vistas “A literatura é um direito do cidadão, um usufruto refundação do tempo, ele diz: vimento que se propunha renovar a cinematografia fran-
peculiar”, concedida por Flávio Aguiar à IHU On-Line nº cesa e revalorizava a direção, reabilitando o filme dito de
278, de 20-10-2008, disponível em https://goo.gl/qa95Jy, “O tempo é um rio que me ar- autor. Os filmes seguintes confirmaram Godard como um
e “Antonio Candido e a crítica cultural contemporânea”,
concedida por Célia Pedrosa à IHU On-Line nº 283, de
rebata, mas eu sou o rio; é um dos mais inventivos diretores da Nouvelle Vague: Vivre sa
vie (1962; Viver a vida), O Desprezo (1963), Bande à part
24-11-2008, disponível em https://goo.gl/92rizw. (Nota da tigre que me destroça, mas eu (1964), Alphaville (1965), Pierrot le fou (1965; O demônio
IHU On-Line) das 11 horas), Deux ou trois choses que je sais d’elle (1966;
13 Antonio Gramsci (1891-1937): filósofo marxista, jor- sou o tigre; é um fogo que me Duas ou três coisas que eu sei dela), La Chinoise (1967;
nalista, crítico literário e político italiano. Escreveu sobre
teoria política, sociologia, antropologia e linguística. Com
consome, mas eu sou o fogo”. A chinesa) e Week-end (1968; Week-end à francesa). O
cinema de Godard nessa fase caracteriza-se pela mobi-
Togliatti, criou o jornal L’Ordine Nuovo, em 1919. Secre- É possível pensarmos o deba- lidade da câmera, pelos demorados planos-sequências,
tário do Partido Comunista Italiano (1924), foi preso em pela montagem descontínua, pela improvisação e pela
1926 e libertado em 1937, dias antes de falecer. Nos seus te que o autor traz nesse texto tentativa de carregar cada imagem com valores e infor-
Cadernos do cárcere, substituiu o conceito da ditadura do como uma espécie de perspec- mações contraditórios. Após o movimento de Maio de
proletariado pela “hegemonia” do proletariado, dando 1968, Godard criou o grupo de cinema Dziga Vertov –
ênfase à direção intelectual e moral em detrimento do tivismo? assim chamado em homenagem a um cineasta russo de
domínio do Estado. Sobre esse pensador, confira a edição vanguarda – e voltou-se para o cinema político. Pravda
231 da IHU On-Line, de 13-8-2007, intitulada Gramsci, 70 (1969) trata da invasão soviética da Tchecoslováquia; Le
anos depois, disponível em http://www.ihuonline.unisinos. 15 Alfred Ernout (1879–1973): foi um filólogo francês, vent d’Est (1969; Vento do Oriente), com roteiro do líder
br/edicao/231. (Nota da IHU On-Line) especializado em línguas latinas. (Nota da IHU On-Line) estudantil Daniel Cohn-Bendit, desmistifica o western, e
14 Lawfare: é uma palavra-valise (formada por law, ‘lei’, e 16 Paul Jules Antoine Meillet (1866–1936): foi um dos Jusqu’à la victoire (1970; Até a vitória) enfatiza a guerrilha
warfare, ‘guerra’; em português, ‘guerra jurídica’) introdu- mais importantes linguistas franceses do século 20. Iniciou palestina. Mais uma vez, Godard procurou inovar a esté-
zida nos anos 1970 e que originalmente se refere a uma seus estudos na Sorbonne onde foi influenciado por Mi- tica cinematográfica com Passion (1982), reflexão sobre
forma de guerra na qual a lei é usada como arma. Ba- chel Bréal, Ferdinand de Saussure e membros do Anuários a pintura. Os filmes seguintes, como Prénom: Carmen
sicamente, seria o emprego de manobras jurídico-legais de Sociologia. (Nota IHU On-Line) (1983) e Je vous salue Marie (1984), provocaram polêmica
como substituto de força armada, visando alcançar de- 17 Franciscos José Goya y Lucientes (1746-1828): pintor e o último deles, irreverente em relação aos valores cris-
terminados objetivos de política externa ou de segurança espanhol cuja obra marca a transição do neoclassicismo tãos, esteve proibido no Brasil e em outros países. (Nota
nacional. (Nota da IHU On-Line) ao romantismo. (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line)

21 DE OUTUBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Transformar-se em nós-outros
Alexandre Nodari, retomando as inspirações do Manifesto
Antropófago, provoca-nos a pensar a possibilidade de uma
ontologia da predação em lugar da predicação
Ricardo Machado

P
redicação é o nome dado a uma na mesmidade, o alheio na identidade,
forma de compreender o mundo mas outrar-se, ver a si mesmo sob a
baseada numa lógica em que o perspectiva do outro”, propõe. “O ‘nós’
ser, no sentido dado pelo verbo, é o ele- do Manifesto, assim, não remeteria a
mento da relação absolutamente cen- uma identidade estável, sejam os ‘bra-
tral e necessário. Mas se pensássemos sileiros’, sejam os índios (tupi), mas à
desde outro esquema mental, o que po- transformação daquele a partir desse,
deria acontecer às ontologias? Debru- do próprio a partir do outro (e da nossa
çado sobre as provocações de Oswald noção de identidade), ou seja, àqueles
de Andrade, Alexandre Nodari nos que, diante da situação colonial ainda
convida a pensar o mundo desde a An- persistente, de colonização e uniformi-
tropofagia. zação do mundo, baseada na expropria-
“Como ficou claro recentemente na ção de toda alteridade, resistem tentan-
do construir outras relações entre o 23
antropologia, Oswald tinha razão ao
apontar que a Antropofagia, ou mais próprio e o outro”, complementa.
abstratamente, a relação de devoração, Alexandre Nodari é professor de
não é apenas uma prática cultural es- Literatura Brasileira e Teoria Literária
pecífica, mas informa de modo geral a da Universidade Federal do Paraná -
cosmologia (a Weltanschauung, como UFPR; colaborador dos Programas de
diria Oswald fazendo uso do vocabu- Pós-Graduação em Letras e Filosofia
lário da época) de muitos povos ame- da mesma instituição. Editor da revis-
ríndios. Uma outra lógica, a lógica da ta Letras e coordenador do SPECIES
predação em oposição à nossa lógica da – Núcleo de antropologia especulativa.
predicação, para usar uma formulação Fez o doutorado sobre o conceito de
genial de Viveiros de Castro, que ecoa censura e o mestrado sobre a Antropo-
outra do próprio Oswald: o problema fagia, ambos no PPGL/UFSC sob orien-
não é ontológico, mas odontológico”, tação de Raúl Antelo. Coministrou, com
provoca Nodari, em entrevista por Eduardo Viveiros de Castro, o seminá-
e-mail à IHU On-Line. rio de pós-graduação “Do matriarcado
“O canibalismo ritual é toda uma ou- primitivo à sociedade contra o Estado:
tra relação entre o próprio e o outro, na cartografia da hipótese antropofágica”
qual, ao contrário da visão comum, o no Museu Nacional/UFRJ.
objetivo não é incorporar a alteridade Confira a entrevista.

IHU On-Line – Oswald de An- nativos. O que significa esse Alexandre Nodari – Ao final
drade se vale de sua erudição gesto? Como seus escritos, em da vida, Oswald de Andrade1 redige
para colocar em causa a pró- especial o Manifesto Antropó-
pria razão ocidental em favor fago, colocam em marcha essas 1 Oswald de Andrade (1890-1954): poeta, romancista e
dramaturgo. Nasceu em São Paulo e estudou na Faculda-
das cosmovisões dos povos outras formas de pensamento? de de Direito do Largo São Francisco. Oswald, Mário de

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

“Uma outra lógica, a lógica da predação em


oposição à nossa lógica da predicação, para
usar uma formulação genial de Viveiros de
Castro, que ecoa outra do próprio Oswald: o
problema não é ontológico, mas odontológico”

uma espécie de testamento intelec- quase cem anos, seu valor e alcance, tual), ele torciona a esta: e a razão,
tual que seria lido por Di Cavalcanti2 no cenário mais geral da cultura e do o logos, a filosofia se tornam outra
no Encontro de Intelectuais no Rio pensamento, continuam a ser enca- coisa – a outra filosofia torna a nossa
de Janeiro, em 1954. Nele, conclama radas de forma redutora, seja pela filosofia outra.
que se faça “uma revisão de concei- excessiva ênfase no humor oswal-
Como exatamente ele a interpreta-
tos sobre o homem da América” e se diano, como se suas blagues e tro-
va passa, a meu ver, pela leitura que
leve “avante toda uma filosofia que cadilhos não tivessem um sentido e
faz de Lévy-Bruhl3, pois a razão ca-
está para ser feita” a partir do “só- uma incisividade, seja pela negação
nibal é descrita no Manifesto como
lido conceito da vida como devora- explícita de qualquer profundidade
uma “consciência participante”,
ção” dos povos ameríndios. Pode-se filosófica, seja, por fim, por uma lei-
numa óbvia alusão à noção de par-
dizer que o Manifesto Antropófago tura nacionalista e identitária sobre
ticipação que caracterizaria o “pen-
é a primeira tentativa, o primeiro es- a qual conversaremos adiante.
samento selvagem” segundo o autor
boço nesse sentido, de formular em
24 É evidente que o empreendimento francês, que é mencionado, de forma
chave filosófica, ou seja, em nossa
oswaldiano esbarrava em uma série polêmica, logo a seguir. O problema
(ocidental) linguagem conceitual, o
de dificuldades da época (especial- é que também Lévy-Bruhl sofreu
pensamento nativo, o pensamento
mente, a orientação da etnologia e uma leitura por demais redutora,
dos nativos. Tratava-se, portanto, de
a escassez de material etnográfico, que enfatiza seu evolucionismo,
um esforço de tradução (e de uma
mas não menos o etnocentrismo do embora, como mostra Márcio Gold-
práxis e teoria tradutória) da pers-
pensamento ocidental), a ponto de, man4 no refinadíssimo e essencial
pectiva e do mundo do outro para
mesmo tendo se dedicado a ele trinta Razão e diferença (Rio de Janeiro:
nosso pensamento. A grandeza (e
anos, vê-lo ainda como tarefa por fa- Editora UFRJ, 1994), o que estava
ousadia) desse gesto não pode ser
zer. Todavia, por outro lado, como fi- em jogo no seu tratamento dos po-
menosprezada, embora, infelizmen-
cou claro recentemente na antropo- vos ditos à época primitivos era uma
te, tenha sido. Pois, apesar das múl-
logia, Oswald tinha razão ao apontar tentativa de bolar uma metodologia
tiplas e incessantes retomadas da
que a Antropofagia, ou mais abstra- e epistemologia capazes de tratar o
Antropofagia ao longo desses seus
tamente, a relação de devoração, não outro enquanto outro, tensionando
é apenas uma prática cultural espe- e equivocando o vocabulário do pen-
Andrade, Tarsila do Amaral e Raul Bopp foram os idea- cífica, mas informa de modo geral samento ocidental. E me parece ser
lizadores do Modernismo no Brasil, na década de 1920,
uma visão da país radicalmente vanguardista que rompia, a cosmologia (a Weltanschauung, esse também o esforço de Oswald e
pela primeira vez em termos culturais, com o colonialis- como diria Oswald fazendo uso do outra das raízes da sua incompreen-
mo cultural vigente à época. É autor de uma vasta obra,
passando por críticas literárias, autoria de peças teatrais, vocabulário da época) de muitos po- são: se Lévy-Bruhl era acusado de
romances e textos teóricos. Dentre sua obra, vale destacar
o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Manifesto Antropófago e
vos ameríndios. Uma outra lógica, falta de trabalho de campo, Oswald
Crise da Filosofia Messiânica, textos importantes no que a lógica da predação em oposição
concerne à originalidade do pensamento nativo brasileiro
e que se colocam na crítica profunda à razão ocidental à nossa lógica da predicação, para
hegemonizada. Após a virada antropológica, em 1979, o 3 Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939): foi um filósofo e soció-
autor passou ocupar um papel de destaque na Antropolo-
usar uma formulação genial de Vi- logo francês. De 1879 a 1882 lecionou filosofia no liceu de
gia brasileira. (Nota da IHU On-Line) veiros de Castro, que ecoa outra do Poitiers e depois, entre 1882 e 1885 no liceu de Amiens.
2 Di Cavalcanti ou Emiliano Augusto Cavalcanti de Albu- Doutorou-se em filosofia em 1884 com a tese A ideia de
querque Melo (1897-1976): foi um pintor modernista, de- próprio Oswald: o problema não é responsabilidade. No ano seguinte passou a lecionar no
senhista, ilustrador, muralista e caricaturista brasileiro. Sua ontológico, mas odontológico. Outra liceu Louis le Grand, de onde saiu em 1895. Foi nomeado
arte contribuiu significativamente para distinguir a arte diretor de estudos na Sorbonne em 1900. Dois anos de-
brasileira de outros movimentos artísticos de sua épo- lógica e também outro logos, outra pois, substituiu Émile Boutroux na cadeira de história da
ca, através de suas reconhecidas cores vibrantes, formas filosofia. (Nota da IHU On-Line)
sinuosas e temas tipicamente brasileiros como carnaval, discursividade, o que é mais um mo- 4 Marcio Goldman: professor associado do Programa de
mulatas e tropicalismos em geral. Di Cavalcanti é, junta-
mente com outros grandes nomes da pintura como Anita
tivo da incompreensão do pensa- Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), Depar-
tamento de Antropologia, Museu Nacional, UFRJ (desde
Malfatti e Tarsila do Amaral, um dos mais ilustres repre- mento de Oswald, pois, ao traduzir o 1993). Foi Professor da PUC-RJ e da Universidade Federal
sentantes do modernismo brasileiro. Suas principais obras Fluminense, além de professor visitante na Universidade
são: Samba, 1925; Cinco moças de Guaratinguetá, 1930; Os pensamento do Outro para a (nossa) Federal de Minas Gerais, na Universidade de São Paulo, na
Músicos, 1923; Mangue, 1929; Pierrete, 1924; Pierrot, 1924, própria linguagem (sintaxe concei- Universidade de Cabo Verde e na Universidade de Chica-
entre outras. (Nota da IHU On-Line) go. (Nota da IHU On-Line)

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REVISTA IHU ON-LINE

foi visto como alguém que, em con- que o conhecimento e o sujeito que mentação), que nos ensina não só
traposição à pulsão etnográfica de conhece não são separados do mun- que somos o que comemos (no du-
Mário de Andrade5, desconhecia os do, mas participam dele, não só de plo sentido de que transformamos
índios de carne e osso do presente, forma gnoseológica (a “telepatia”, o o que comemos em nós mesmos e
e deles só conhecia o que os relatos sentir à distância, de que fala Oswald de que nos transformamos no que
coloniais diziam dos seus antepas- remete a isso), mas igualmente on- comemos), como também que os
sados, o que está muito longe de ser tológica. Ou seja, essa outra pers- organismos não constituem totali-
verdade (basta ver, nas suas colunas pectiva parece invocar outro mun- dades autóctones, mas estão cons-
de jornal, como estava antenado na do, outra organização cosmológica. tantemente se compondo de partes
bibliografia etnográfica contempo- Por isso os antropófagos dirão que heterogêneas e heteróclitas, provin-
rânea, nos debates sobre questões “a descida antropofágica não é uma dos de outros organismos de quem
indígenas do dia e nas discussões da revolução literária. Nem social. Nem dependem. A participação, assim,
antropologia – possivelmente, como política. Nem religiosa. Ela é tudo me parece demandar interesse, no
me alertou Viveiros de Castro, é de isso ao mesmo tempo”, ou então que sentido da constituição de uma rela-
Oswald a primeira citação no Brasil “A Antropofagia é uma revolução ção entre seres (inter-esse) distintos,
de As estruturas elementares do pa- de princípios, de roteiro, de identi- de um engajamento na diferença,
rentesco [Petrópolis: Editora Vozes, ficação”. Oswald extraiu inúmeras que, ademais, é recíproca, ligando o
2012], de Lévi-Strauss). O significa- consequências políticas deriváveis eu ao outro e vice-versa, fazendo de
do do gesto oswaldiano (e o de Lévy dessa tradução de outra cosmologia um o particípio do outro, e portan-
-Bruhl) não deve ser analisado pelas à nossa, a partir de um duplo mo- to constituindo a ambos: antes de
suas faltas, mas a partir da especifi- vimento. Primeiro, positivou, num falarmos que X participa de/em Y,
cidade da posição que adota, que é gesto que prenuncia Clastres6, a sé- deveríamos dizer que participam-se
paralela à da antropologia: a de fazer rie de ausências que os brancos viam um no outro. Por extensão, a par-
uso de sua formação erudita e elitis- nos povos ameríndios (de Estado, ticipação não consiste em passiva-
ta para de-formá-la e transformá-la de religião etc.), encarando-a como mente fazer parte de (pertencer a)
a partir da contaminação de outros o que “Tínhamos” e que ativamente uma totalidade dada na qual haveria
modos de pensar, uma tradução se colocava “Contra” as instituições uma identificação ou subsunção ple-
conceitual e pragmática do pensa- ocidentais. A partir disso, no segun- na das diferenças na identidade, do 25
mento nativo que visa transformar o do movimento, buscou identificar outro no mesmo, mas sim em ativa-
nosso pensamento (e a nossa políti- nela possíveis fontes de modificação mente tomar parte, de modo que o
ca) a partir daí. E nisso, até hoje, ele da nossa organização política-social, que chamamos de mundo seria um
continua, a meu ver, inigualável, seja chegando a propor, junto com seus arranjo ativo, cambiante e precário,
pelo seu exemplo, seja pelos cami- colegas de Antropofagia, mudanças resultante de participações recípro-
nhos que abriu e que ainda precisam legislativas que seriam endereça- cas, “partes sem um todo”, que é
ser trilhados. das ao Congresso, e entre as quais como Caeiro7 define a Natureza.
encontramos (em 1929!) a reforma
E um desses caminhos é justamente As implicações disso diante da ca-
agrária, a legalização do aborto e da
a ideia de participação (e de interes- tástrofe ambiental das mudanças
eutanásia, educação sexual etc.
se, conceito coligado), e que compõe climáticas me parecem importantes.
todo um capítulo da Antropofagia Mas, além disso, acho que o modo Assim, para tomar um belo mote de
que ainda está para ser escrito. Se- como Oswald concebe a participa- Eduardo Viveiros de Castro, se “A ter-
guindo Goldman, me parece que, ao ção (e o interesse, conceito coligado) ra é o corpo dos índios, [se] os índios
invocar Lévy-Bruhl na ideia de uma traz consigo também consequências são parte do corpo da Terra”, a recí-
consciência participante, Oswald cosmopolíticas, talvez implícitas, proca também é verdadeira: a terra/
postula uma certa consciência ani- mas que hoje são urgentes. Em pri- Terra (é) parte dos povos indígenas,
mista, em que o conhecimento não meiro lugar, a participação é lida a que, junto com os demais povos ori-
é uma relação entre sujeito e objeto partir da relação de devoração (ali- ginários e seus aliados, constituem a
(a “consciência enlatada” de que fala última trincheira contra a desertifi-
o Manifesto), mas entre sujeitos, em 6 Pierre Clastres (1934-1977): foi um antropólogo e etnó- cação global (algo alertado por Davi
grafo francês da segunda metade do século XX. Clastres é
conhecido sobretudo por seus trabalhos de antropologia
Kopenawa8 ao insistir que, assim que
política, por sua suposta vinculação ao anarquismo e por
5 Mário de Andrade (1893-1945): nascido em São Paulo, sua pesquisa sobre os índios Guayaki do Paraguai. Filósofo
poeta, romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte de formação, interessou-se pela antropologia e especifica- 7 A referência é a Fernando Pessoa, particularmente ao
e fotógrafo brasileiro. Um dos fundadores do modernis- mente pela América do Sul sob a influência de Claude Lé- poema Natureza, assinado por Alberto Caeiro, heterô-
mo brasileiro, praticamente criou a poesia moderna bra- vi-Strauss e de Alfred Métraux. Foi diretor de pesquisa no nimo do poeta português, considerado um dos maiores
sileira com a publicação de seu livro Paulicéia desvairada, Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS, Paris) poetas de língua portuguesa. Atuou no jornalismo, na
em 1922. Foi a força motriz por trás da Semana de Arte e membro do Laboratoire d´Anthropologie Sociale do publicidade, no comércio e, principalmente, na literatura,
Moderna, evento ocorrido em 1922 que reformulou a lite- Collège de France. Realizou pesquisas de campo na Amé- onde desdobrou-se em várias outras personalidades co-
ratura e as artes visuais no Brasil. Exerceu uma influência rica do Sul entre os índios Guayaki, Guarani e Yanomami. nhecidas como heterônimos. A figura enigmática em que
enorme na literatura moderna brasileira e, como ensaísta Publicou Crônica dos índios Guayaki, A sociedade contra o se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua
e estudioso (foi um pioneiro do campo da etnomusicolo- Estado, A fala sagrada - mitos e cantos sagrados dos índios vida e obra, além do fato de ser o maior autor da hetero-
gia), sua notoriedade transcendeu as fronteiras do Brasil. Guarani. Sua morte prematura, em um acidente de car- nímia. (Nota da IHU On-Line)
Andrade foi a figura central do movimento de vanguarda ro em 1977, interrompeu a conclusão de textos que mais 8 Davi Kopenawa Yanomami (1956): escritor e líder in-
de São Paulo por vinte anos. Seu romance Macunaíma foi tarde seriam reunidos no livro Arqueologia da violência - dígena brasileiro. Ainda criança, viu a população de sua
publicado em 1928. (Nota da IHU On-Line) ensaios de antropologia política. (Nota da IHU On-Line) terra natal ser dizimada por duas epidemias, ambas tra-

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

cair o último xamã, o céu cairá sobre A meu ver, na base de tal inter- Resumidamente, o debate que
as nossas cabeças). Nesse cenário, pretação está o gesto de traçar uma Oswald converte na questão do Ma-
participar significa tomar parte, no continuidade sem rupturas entre o nifesto era: os povos que “domina-
sentido de tornar-se “partisan”, par- Manifesto da Poesia Pau-Brasil, vam” a região de São Paulo quando
tir uma totalidade dada (partir a pró- esse sim de viés mais nacionalis- da invasão portuguesa, e dos quais
pria unidade fechada que seríamos) ta e identitário, e o Manifesto An- descendiam biológica e simbolica-
e tomar partido do mundo, tornando tropófago, lendo este pelos termos mente a elite paulista, eram tupi
possível outro mundo (a) partir de daquele. É no Manifesto da Poesia ou não, eram povos tupi ou povos
nossa participação. Pau-Brasil que encontramos o vo- tapuia? A querela estava sobrede-
cabulário da “balança comercial” terminada pelos relatos e políticas
(“poesia de importação”, “poesia coloniais que construíram uma dico-
IHU On-Line – Como a pro-
de exportação”), ou, se preferirem, tomia entre povos tupi, supostamen-
vocação, posta logo no início
do “comércio das Nações” (“Acertar te afeitos e aliados aos portugueses
do Manifesto Antropófago,
o relógio império da literatura na- e à catequese, em suma, os “bons
“Tupy, or not tupy that is the
cional”). É nele também que encon- selvagens”, e os povos tapuia (grosso
question”, opera como dilema
tramos afirmações decididamente modo, uma maneira tupi de designar
e não como lema identitário?
identitárias e nacionalistas, como os não-tupi, ou alguns deles), “bár-
Quais as consequências de se
“Apenas brasileiros de nossa épo- baros”, inimigos, “maus selvagens”
tomar um pelo outro?
ca”. Todavia, nada disso aparece – substancializando e estabilizando,
Alexandre Nodari – Antes de na Antropofagia. O Manifesto An- num gesto que contaminou os ro-
mais nada, vou cometer uma inde- tropófago não opõe o brasileiro ao mânticos, uma distinção que não ti-
licadeza e me permitir remeter a estrangeiro, não fala em importação nha esse caráter para os povos indí-
um artigo que publiquei recente- ou exportação (a não ser, de forma genas: os povos tupi não formavam
mente com Maria Carolina Almeida irônica, ao episódio envolvendo nem formam um bloco unitário (o
de Amaral e que se debruça mais Vieira e o açúcar, numa alusão à que não quer dizer que não houvesse
detidamente sobre isso, “A questão desigualdade colonialista nas trocas e haja vizinhanças culturais maiores
(indígena) do Manifesto Antropófa- comerciais). O canibalismo ritual é ou menores), e menos ainda aqueles
26 go”, já que aqui só poderei resumir que eram ditos “tapuia” por aque-
toda uma outra relação entre o pró-
o argumento sem as minúcias ne- prio e o outro, na qual, ao contrário les se consideravam uma unidade.
cessárias. Ali, tentamos apontar que da visão comum, o objetivo não é Admitir, como as evidências etno-
tomar a questão como lema identi- incorporar a alteridade na mesmi- gráficas do debate demonstravam,
tário é tomá-la como resolvida de dade, o alheio na identidade, mas e ao contrário do que até então se
antemão, é partir de uma pretensa outrar-se, ver a si mesmo sob a pers- tinha como certeza ideológica, que
solução que elide o problema, ao in- pectiva do outro. Ao ignorar isso, a “origem” paulista era tapuia, não
vés de aprofundá-lo. Ainda está para a leitura identitária do Manifesto significava pouco para a imagem
ser escrita uma história que explique toma o Tupi do dilema de modo se- que a elite do estado fazia de si. O
como e quando a Antropofagia pas- melhante ao indianismo romântico, Manifesto, desse modo, ironiza essa
sou a ser interpretada como um pro- como lema ou emblema nacional, questão (e as elites), mas também a
grama nacionalista, portanto, identi- como origem, já (ultra-)passada do complexifica, a aprofunda, trazendo
tário, no qual se trataria de “devorar” Brasil, num gesto que unifica em à tona quem coloca a questão, quais
e internalizar aquilo de “bom” que as uma figura, ou um figurino, a multi- seus pressupostos, como ela se põe,
outras nações possuem, ou seja, de plicidade de povos indígenas. Nada quais seus termos, a que finalidade
tornar próprio o alheio, de fortalecer mais equivocado. Afinal, deve-se ter ela serve, onde e quando ela se situa.
(e enriquecer) o próprio... O proble- em mente, como me alertou André Assim, ao embasar a Antropofagia
ma, como apontou recentemente Vallias9, que a questão (tupi ou não no canibalismo ritual praticado por
Eduardo Sterzi, é que essa visão não tupi) remete a uma querela etnoló- povos tupi, Oswald acentua o seu
resiste a uma análise textual básica caráter bélico, de resistência à cate-
gica contemporânea ao Manifesto,
do Manifesto, ou seja, que nenhuma quese e à colonização, borrando as
que dizia respeito aos habitantes
leitura atenta do texto vai encontrar fronteiras entre o “bom” e o “mau”
“originários” de São Paulo.
subsídios que a corrobore. selvagem, o tupi e o tapuia, revelan-
9 André Vallias (1963): é um poeta visual, designer grá-
do a falácia de se aplicar aos povos
zidas pelo contato com o homem branco. Trabalhou na fico, produtor de mídia interativa e tradutor brasileiro. É indígenas a nossa lógica substancia-
Fundação Nacional do Índio como intérprete. Mudou-se formado na Faculdade de Direito da Universidade de São
para a aldeia Watorik+ na década de 1980. Casou-se com Paulo e, nos anos 1980, começou seu trabalho com poesia lista e estabilizadora da identidade e
a filha do pajé e se tornou chefe do posto indígena Demi- visual, tendo como orientadores Augusto de Campos e
ni. Foi um dos responsáveis pela demarcação do território Omar Guedes. Residiu na Alemanha e foi curador da ex-
de subsumi-los a ela.
Yanomami em 1992. Recebeu o prêmio ambiental Global posição Transfutur - poesia visual da União Soviética, Brasil
500 da ONU. Em 2010, sua autobiografia La chute du ciel, e Países de língua alemã, em Kassel, e da mostra de po- O indianismo clássico aqui se colo-
escrita em parceria com o antropólogo francês Bruce Al- esia digital p0es1e-digitale dichtkunst, em Annaberg-Bu-
bert, foi lançada na França. O livro teve tradução para o chholz. É considerado um expoente da literatura digital. ca em questão, e, no mesmo gesto, a
inglês, francês e italiano e sua edição em português saiu
em 2015, A queda do céu. Palavras de um xamã yanomami
Participou da edição 462 da revista IHU On-Line, sob o
título Creio... disponível em http://bit.ly/2Ioad6j. (Nota
questão indígena (a resistência dos
(São Paulo: Companhia das Letras). (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line) povos indígenas) é trazida ao presen-

21 DE OUTUBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

te, mostra-se presente, até porque a colonial ainda persistente, de colo- povos tupi (e também entre outros
querela tinha consequências políti- nização e uniformização do mundo, povos indígenas), e talvez o Mani-
cas, na medida em que determinar baseada na expropriação de toda festo formalize essa tensão. Um afo-
a origem dos índios “paulistas” era alteridade, resistem tentando cons- rismo em específico deve ser desta-
um elemento chave na justificação truir outras relações entre o pró- cado devido à sua atualidade: “Não
da política indigenista ligada ao seu prio e o outro, tentando conceber de tivemos especulação. Mas tínhamos
futuro, no cenário de violência físi- outro modo o próprio e o outro, ou adivinhação. Tínhamos Política que
ca fundiária da expansão da “fron- seja, aqueles que assumem esse ou- é a ciência da distribuição. E um
teira agrícola” para o oeste. Mais: a tro ponto de vista sobre nós mesmos sistema social-planetário”. Aqui, o
própria lógica binária da identidade que o “nós” do Manifesto enuncia. O privilégio do pensamento xamânico
ocidental e seu papel na formação da “nós” do Manifesto Antropófago é já (“adivinhação”) sobre o filosófico
Nação é questionada – não é a iden- um nós-outros. (“especulação”) se conecta a uma
tidade indígena que é reivindicada, organização social igualitária que se
mas a(s) noção(ções) indígena(s) de estende do campo humano (“Políti-
identidade, o que é toda uma outra
coisa, pois que implica uma relação
“O ‘nós’ do ca”) ao cósmico. Pois me parece que
o que Oswald tinha em mente com
imanente com a exterioridade, com
um fora que constitui, de modo va-
Manifesto o “sistema social-planetário” era o
que hoje em dia se chama de cosmo-
riável e relativa a própria interiori-
dade. Isso é visível não só no ritual
Antropófago política dos povos nativos, a saber,
a ideia de que o cosmos é povoado
canibal, como também naqueles
muitos auto-etnônimos indígenas
é já um nós- ou composto de agentes, de que tudo

outros”
é (potencialmente) vivo, e pode se
que significam gente, homens, pes- subjetivar, seja propriamente, seja
soas, possuindo uma função dêitica, na forma de personificações de co-
pronominal, antes que substancial, letividades, com os quais se deve
circunstancial e relativa antes que IHU On-Line – De que maneira negociar, transigir, confrontar, em
estável e dada: não se é algo a não outros aforismas do Manifesto suma, fazer política (que deixa de
ser em relação a outro, relação sem- Antropófago colocam em pauta 27
ser algo restrito a interações entre
pre polêmica, variável. Desse ponto questões indígenas importantes humanos), atividade que geralmente
de vista, distinguir entre o próprio e à época e atualmente? se dá pelo xamanismo.
o outro, nós e eles, tupi e não tupi é
Alexandre Nodari – De várias, O Manifesto apresenta evidências
uma operação pragmática – e, por-
embora ainda não se tenha mapea- dessa postulação do cosmos como
tanto, relativa, perspectiva –, vari-
do plenamente as referências diretas uma sociedade ao invocar as “divin-
ável de acordo com a situação (his-
ou indiretas a questões indígenas dades” tupi Guaracy e Jacy, a Sol e
tórica) discursiva – logo, política e
presentes no Manifesto (trabalho a Lua. Não é o caso aqui de discutir
cosmológica.
que só agora, com as pesquisas de a precisão etnográfica (no mínimo,
Por isso, tendo a achar que o “nós” Beatriz Azevedo10 e Maria Carolina discutível) de Couto de Magalhães12,
oculto que enuncia o Manifesto deve de Almeida Amaral11, vem sendo fei- de quem Oswald toma a referência,
ser lido não em chave substancia- to com o rigor necessário). Gostaria mas sim o modo como a mobiliza,
lista e de uma identidade pré-dada de ressaltar especialmente o modo acentuando o caráter feminino e a
e estável (ao modo nacionalista, in- como preceitos cosmológicos nati- posição materna (que seria desig-
dianista), mas como aquilo que ele é, vos são invocados. O xamanismo, nada pelo sufixo -cy) desses agentes
um dêitico (indexador do discurso, especialmente na figura do “caraí- (sujeitos) cósmicos. O resultado é o
que remete o enunciado à enuncia- ba”, aparece seguidamente no texto, “Matriarcado de Pindorama”, que
ção, o dito ao dizer, que torna toda formando um par com a do guerreiro sobrepõe (equivoca, no sentido dado
locução relativa ao locutor, ao inter- – Oswald devia estar ciente do equi- por Viveiros de Castro) essa leitura de
locutor e ao contexto), no que seria líbrio tenso entre o chefe político e Couto de Magalhães com o “direito
uma formalização poética de Oswald o especialista ritual, Antropofagia e materno” de Bachofen tal como lido
dos auto-etnônimos indígenas e da xamanismo, presente entre muitos por Freud. Desse modo, o “direito
lógica outra das identidades e iden- materno” proposto por Oswald não
tificações indígenas. O “nós” do Ma- 10 Beatriz Azevedo: poeta, cantora, compositora, perfor-
mer e diretora, multiartista brasileira. Mestra em Literatu- é um simples transplante da noção
nifesto, assim, não remeteria a uma ra Comparada pela USP (FFLCH) e doutora em Artes da
bahofeniana, mas a sua reconside-
Cena pela Unicamp (Instituto de Artes). Estudou música
identidade estável, sejam os “brasi- no Mannes College of Music / Jazz Contemporary Music ração à luz da juridicidade nativa,
leiros”, sejam os índios (tupi), mas Program em Nova York e dramaturgia na Sala Beckett em
Barcelona. Recebeu a bolsa Virtuose para Artistas, do Mi- da juridicidade dos povos indígenas.
à transformação daquele a partir nistério da Cultura. (Nota da IHU On-Line)
11 Maria Carolina de Almeida Amaral: estudante de
desse, do próprio a partir do outro Licenciatura em Letras Inglês/Português pela Universida- 12 José Vieira Couto de Magalhães (1837-1898): foi um
(e da nossa noção de identidade), ou de Federal do Paraná. Atualmente é bolsista de Iniciação
Científica - UFPR/TN na área de Literatura Brasileira. (Nota
político, militar, etnólogo, escritor e folclorista brasileiro.
Nasceu no Estado de Minas Gerais na fazenda Gavião, na
seja, àqueles que, diante da situação da IHU On-Line) cidade de Diamantina. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

À ideia de um Deus transcendente, que você menciona na pergunta, que ensaio sobre o saber anedotal: “Uma
modelo do que Oswald chamará de junta “texto”, no sentido amplo de porção de buracos, amarrados com
Patriarcado, e que traz consigo a pro- tessitura, e “exterioridade”. Há, evi- barbantes”. Uma rede, portanto, não
priedade, a herança, a concentração dentemente, uma questão de gosto, pode ser definida apenas como uma
de poder, a Pátria, se oporá, assim, de prazer quase infantil envolvido trama de fios que conecta seus nós.
outro gênero cosmopolítico, em que no gesto de brincar com as palavras. Uma rede é algo que se arma por (ou
as coisas (viventes ou não) do mundo Mas, todo jogo com a linguagem, ao redor de) contornos de abismos
são sujeitos, ou cuidados por sujeitos, inclusive ou especialmente o das (por infinitesimais que sejam). Os
por “mães” (sempre no plural), ima- crianças, e igualmente os trocadilhos fios ligam apenas e na medida em
nentes e não transcendentes ao mun- mais infames, é uma prática meta- que os abismos separam: constroem
do e às criaturas, com os/as quais se linguística, ou seja, que produz certo pontes e ao mesmo tempo buracos.
deve negociar e também tomar cuida- saber prático (imanentemente prá- Em certo sentido, embora essa ana-
do, já que podem se vingar: “Se Deus tico) sobre a linguagem. E tal saber logia tivesse de ser refinada de modo
é a consciência do Universo Incriado, também pode ser capaz de fornecer a pensar os próprios fios como ima-
Guaracy é a mãe dos viventes. Jacy é outra perspectiva, ângulo, visada so- teriais, a rede opera como um teci-
a mãe dos vegetais”. bre o mundo, ou ainda, apontar para do neuronal, sinapticamente, por
um aspecto, uma relação, uma coisa, sinapses, impulsos “elétricos” que
Portanto, Patriarcado e Matriar- que antes não era visível enquanto atravessam e se encontram no vazio.
cado não são apenas dois regimes tal. Ver de outra maneira ou ver ou-
sócio-políticos distintos, mas gêne- tras coisas – estranhar a percepção Poderíamos, assim, numa espe-
ros sócio-cosmológicos diferentes, jogando com a linguagem. culação que eu cunharia de “realis-
e seu contraponto (a “luta entre o mo místico”, inspirada menos em
que se chamaria Incriado e a Cria- No caso da texterioridade, tratava- Oswald e mais em Clarice Lispec-
tura”) estabelecido pelo Manifesto se de pensar, a partir de certas refe- tor16, afirmar que o que entendemos
se dá entre uma relação de sujeito rências dos antropófagos a Dacqué13 como mundo sócio-natural pode
e objeto, ancorada na propriedade, e Uexkull14, uma noção de tecido vi- ser visto como um tecido neuronal,
herança e concentração (o Estado, o tal-semiótico que traz consigo neces- e que o desenvolvimentismo, com-
28 sujeito de direito, o poder), e outra, sariamente sua abertura a um fora, preendido como a submissão de
entre sujeitos, amparada no princí- que é constituído por essa exteriori- tudo ao Homem, consiste em seu
pio da reciprocidade, essencialmen- dade mesma, ou seja, de pensar uma desfazimento, em des-envolver os
te transitiva, sem unificar em uma ideia de rede que desse tanta proe- vazios (no duplo sentido de ocupar
só figura (Deus, o Estado, o humano minência aos fios ou linhas do tecido todo o “espaço” com o projeto Hu-
enquanto espécie) o poder de agên- quanto aos seus furos, aos vazios que mano, e de fazer com que a tessitura
cia, afirmando, ao contrário, a sua eles contornam ou que os formam, prescinda de buracos, deixe de ser
multiplicidade e difusão centrífugas, para fazer menção à definição da propriamente tecido). Todavia, ao
seja na atribuição da subjetividade rede do “ponto de vista do peixe” que contrário do que parece à primeira
a viventes e não-viventes, seja na Rosa15 nos legou em seu magnânimo vista devido aos processos de exclu-
personificação dessa subjetividade são (de inumanos, de subumanos
13 Edgar Dacqué (1878-1945): foi um paleontólogo ale-
na formas de “mães”, “espíritos” etc. mão, geólogo e filósofo natural. Ele é considerado o ino- etc.) que promove, a supressão da
vador da morfologia idealista e representou uma teoria
Parece-me evidente a diferença en- teleológica da evolução. (Nota da IHU On-Line) rede não se dá pela separação de
tre os efeitos ambientais entre uma 14 Jacob Johann von Uexküll (1864—1944): foi um bi- seus nós, mas pela sua aglutinação,
ólogo e filósofo estoniano de origem alemã. Foi um dos
e outra cosmopráxis, e também qual pioneiros da etologia antes de Konrad Lorenz. Foi um bi- ou seja, pela anulação das distân-
ólogo com grandes realizações nos campos da fisiologia
delas nos trouxe as mudanças climá- muscular e cibernética da vida. Porém, sua realização mais
ticas, e qual pode apresentar “Rotei- notável foi a noção de Umwelt, o mundo subjetivo da per- 2017, a entrevista com Kathrin Rosenfield intitulada Leitura
cepção dos organismos vivos, dos animais e do homem de Guimarães Rosa ensina a viver sentindo e dando senti-
ros” diante desse cenário. em relação ao seu meio ambiente e de como eles o com- do à vida, disponível em https://bit.ly/2wRB1WQ. A IHU
preendiam. (Nota da IHU On-Line) On-Line número538, intitulada Grande Sertão: Veredas.
15 João Guimarães Rosa (1908-1967): escritor, médico e Travessias, também tratou da produção do autor. Acesse
diplomata nascido em Cordisburgo, Minas Gerais. Como em http://www.ihuonline.unisinos.br/edicao/538. (Nota
IHU On-Line – De que ordem é escritor, criou uma técnica de linguagem narrativa e des- da IHU On-Line)
critiva pessoal. Sempre considerou as fontes vivas do falar 16 Clarice Lispector (1920-1977): escritora nascida na
a “texterioridade”, nos teus pró- erudito ou sertanejo, mas, sem reproduzi-las em um rea- Ucrânia. De família judaica, emigrou para o Brasil quando
prios termos, produzida pelo lismo documental, reutilizou suas estruturas e vocábulos, tinha apenas dois meses de idade. Em 1944, publicou seu
estilizando-os e reinventando-os em um discurso musical primeiro romance, Perto do coração selvagem. A literatura
gesto antropófago em seu sen- e eficaz de grande beleza plástica. Sua obra parte do re- brasileira era nesta altura dominada por uma tendência
gionalismo mineiro para o universalismo, oscilando entre essencialmente regionalista, com personagens contando a
tido social? Qual a importância o realismo épico e o mágico, integrando o natural, o mís- difícil realidade social do país na época. Lispector surpre-
disso em um mundo obcecado tico, o fantástico e o infantil. Entre suas obras, destacam- endeu a crítica com seu romance, quer pela problemática
se Sagarana (1946), Corpo de baile (1956), Grande sertão: de caráter existencial, completamente inovadora, quer
pelo desenvolvimentismo? veredas (1956) – considerada uma das principais obras pelo estilo solto, elíptico e fragmentário, reminiscente de
da literatura brasileira –, Primeiras estórias (1962) e Tuta- James Joyce e Virginia Woolf. Seu romance mais famoso
Alexandre Nodari – Em pri- meia (1967). A edição 178 da IHU On-Line, de 2-5-2006,
dedicou ao autor a matéria de capa, sob o título Sertão
é A hora da estrela, o último publicado antes de sua mor-
te. Neste livro, a vida de Macabéa, uma nordestina criada
meiro lugar, uma palavra ou duas é do tamanho do mundo. 50 anos da obra de João Gui- no estado Alagoas que vai morar em uma pensão no Rio
marães Rosa, disponível em disponível em https://goo.gl/ de Janeiro, tendo sua vida descrita por um escritor fictício
sobre a importância conceitual dos LXRCAU. Confira ainda a edição 275 da IHU On-Line, de chamado Rodrigo S.M. Sobre a autora, confira a edição
neologismos, entre os quais aqueles 29-9-2008, intitulada Machado de Assis e Guimarães Rosa:
intérpretes do Brasil, disponível em http://bit.ly/mBZOCe.
228 da IHU On-Line, de 16-7-2008, intitulada Clarice Lis-
pector. Uma pomba na busca eterna pelo ninho, disponível
formados por aglutinação, como o A revista publicou também em sua edição 503, de 24-4- em https://bit.ly/2PEIJKS. (Nota da IHU On-Line)

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REVISTA IHU ON-LINE

cias, dos intervalos abissais ainda ser sintomático o contraste entre formulação sobre a experiência lite-
que infinitesimais, pela conversão uma experiência anterior da web, rária que eu gosto muito: um “modo
do tecido em uma camisa de força. em que a prática de fazer furos na de adentrar a existência de um ser
Pois a exclusão implica e está sub- Unidade prevalecia, e a atual, com que nunca existiu”. Creio que pos-
metida a subsunção na Unidade. O sua concentração em uns poucos samos expandir isso para a arte de
ponto de chegada desse processo sites e em uma mesma formatação um modo geral, pensando-a como
não pode ser senão o fascismo cós- linguístico-subjetiva: a ordem, o uma experiência que permite variar
mico, hipóstase do Estado político, comando, a regra. Seja como for, a de modo de existência, experimen-
a redução ao Um: fusão cósmica. supressão desenvolvimentista do tar outros modos de existência que
fora tem seu preço: a emergência do não o nosso (adentrando outras
Foi Clarice quem mais claramen- Fora absoluto, a catástrofe ambien- subjetividades, perspectivas, lin-
te demonstrou que o desejo de fu- tal, o desastramento da Terra, com guagens, mundos). Isso por si só já
são é o que há de mais destrutivo, o desejo de fusão produzindo um tem um valor político considerável,
e quem mais tentou investigar e buraco negro que ameaça tragar o pois que aduba nosso subsolo exis-
positivar os intervalos, os interstí- próprio Humano que o criou. O de- tencial com outros modos possíveis
cios, as entrelinhas. Pois são jus- safio, para continuar na linguagem de existência, além de revelar a con-
tamente os vazios que, ao mesmo astronômica (ou astrológica), se- tingência dos nossos modos atuais.
tempo, impedem a fusão mas pos- ria: como, diante disso, catalisar o Agora, além disso, toda lida com a
sibilitam a única forma de contato processo inverso, de fissão cósmica, arte acarreta também uma transfor-
possível: como se sabe, o toque, aquela que produz outros mundos, mação, por imperceptível e infinite-
fisicamente falando, é impossível que cria distâncias? E, novamente, simal que seja, na medida em que,
(ou melhor, quase, pois há a fusão a lição dos povos indígenas, esses quando adentramos outro modo de
nuclear – que envolve a libera- mestres da fissão, tecelões cósmicos existência, invariavelmente (embora
ção de uma grande quantidade de e multiplicadores de mundos por não conscientemente) encaramos a
energia, sendo, portanto, de altís- excelência, viria a calhar. Se houver nós mesmos a partir dele, pois nun-
simo potencial destrutivo...). Nun- tempo. ca abandonamos plenamente nossa
ca de fato tocamos nas coisas, mas existência na experiência artística
(não se trata de identificação total) 29
somente esse espaço vazio entre
nós e elas, pois elas nos repelem – “Os fios ligam – antes, estamos ao mesmo tempo
dentro e fora do livro, por exemplo,
e nós a elas –, ou melhor dizendo,
partículas de mesma carga elétrica apenas e na olhando de fora para dentro mas
também de dentro para fora. Pode-
medida em que
se repelem umas às outras. Se as-
sim não fosse, os átomos, cujos in- ríamos dizer o mesmo a partir de
outro vocabulário: a arte é um ponto
teriores são quase completamen-
te vazios, se atravessariam (todo os abismos de contato, um encontro entre dois

separam:
átomo é ele mesmo uma rede...). mundos, operador transmundo que
O que chamamos de toque é, para ao mesmo tempo oferece uma pers-
usar as palavras de A paixão se-
gundo G.H. (Rio de Janeiro: Edi- constroem pectiva de nosso mundo sobre outro
(possível, virtual, como quer que o
tora Rocco, 2009), “a irradiação
opaca, simultaneamente da coisa
pontes e ao vejamos), e uma desse outro mun-
do sobre o nosso. E nesse encontro,
e de mim”, a vibração recíproca
do tocante e do tocado (mas como
mesmo tempo invariavelmente há contaminação.
Pensemos, por exemplo, em certos
diferenciar?), essa repulsão que
ao mesmo tempo conecta e separa,
buracos” termos que remetem a personagens
ficcionais e que utilizamos para des-
conduz, traduz – sinapse. crever eventos ou situações reais, ou
melhor, que redefinem e permitem
O toque é pensamento, e é assim ver de outro modo tais eventos ou si-
que o mundo, a rede, pensa, ou me- IHU On-Line – Como a arte
pode nos inspirar a pensar no- tuações: quixotesco, bovarismo etc.
lhor, é esse pensamento, espírito.
Nesse sentido, seria perguntar: e se vos caminhos políticos e novas De um ponto de vista ontológico,
a rede virtual (a internet) que cons- formas de vida, enfim, outras é interessante tentar compreender
truímos para suplementar o “neutro ontologias? como a arte faz isso. Estou cada vez
artesanato da vida”, ou seja, que Alexandre Nodari – Elizabeth
de Literatura em 2003, sendo o quarto escritor africano
surge quando já (nos) des-envolve- Costello (São Paulo: Companhia das a receber esta honraria e o segundo no seu país (depois
mos, não servir para formar laços, Letras, 2004), essa espécie de alter de Nadine Gordimer, em 1991). A sua carreira literária no
campo da ficção começou em 1969, mas o seu primeiro
mas para acabar definitivamente ego, outro eu, de Coetzee17 tem uma livro, Dusklands, só foi publicado na África do Sul em 1974.
com eles? É claro que não cabe ser Coetzee recebeu vários prêmios antes do Nobel e foi o
primeiro a receber o Booker Prize por duas vezes. (Nota
tão maniqueísta. Mas não deixa de 17 John Maxwell Coetzee: escritor sul-africano Nobel da IHU On-Line)

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

mais convencido de que o que cha- chamou de “preconceito a favor contínuo de variações, modalizações
mamos hoje de arte não propõe pro- do ser”, adotando uma perspectiva mais do que modos. O procedimen-
priamente outras ontologias, mas substancialista. Dessa maneira, por to básico da arte, a meu ver, é o de,
uma ontologia outra, uma outra on- exemplo, a relação entre ser e modo modalizando a ontologia, tomando
tologia da ontologia. Grosso modo tende a ser encarada de modo subs- a relação entre ser e modo de modo
(embora com inúmeras exceções), a tancial, portanto, não reversível – e modal, converter o ser em modo, vi-
ontologia ainda se rege, num plano das em modos de vida, tornando-os
mesmo os modos de ser costumam
meta-ontológico, pelo que Meinong18 experienciáveis por outros, transfor-
ser vistos de uma perspectiva subs-
18 Alexius Meinong (1853-1920): foi um filósofo aus- tancialista, como rigidamente sepa- mando a vivência (o que inclui pen-
tríaco cuja notoriedade se deve, em grande parte, à for- rados ou separáveis uns dos outros, samentos, sonhos, devaneios) parti-
mulação de uma teoria de objetos não existentes, dura-
mente atacada por Bertrand Russell (não obstante o seu como se fossem substâncias distin- cular e intransferível em experiência
profundo respeito pela obra de Meinong). A maior parte
da carreira de Meinong concentrou-se na Universidade de tas e discretas, e não formassem um da qual os outros podem tomar par-
Graz (1882-1920), onde ajudou a estabelecer um impor- te, participar ativamente, partindo
tante centro de pesquisa em psicologia e filosofia — em
particular, lógica e metafísica — conhecido como Escola de Graz. (Nota da IHU On-Line) dela. ■

30

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REVISTA IHU ON-LINE

Uma ontologia política


chamada Antropofagia
Eduardo Sterzi sustenta que o movimento estético levado a cabo
pelo Modernismo Brasileiro é, antes de tudo, um movimento político
de viés anarquista, mas sem vínculos com a tradição anarquista
Ricardo Machado

E
mbora a Antropofagia seja com- até onde recordo, com a tradição anar-
preendida mais como um acon- quista. Espécie de prenúncio da propo-
tecimento estético, sobretudo sição de uma anarquia ontológica tal
após o Modernismo, ela é, antes de como a encontramos hoje na obra de
tudo, uma ontologia política. Quando Eduardo Viveiros de Castro”, propõe.
Oswald de Andrade concebe a Antro- Pensar a arte como uma dimensão mais
pofagia, ele acaba colocando em causa densa da política implica considerar a
toda a estruturação política, jurídica e possibilidade de constituição de novas
econômica do Ocidente. “[A Antropo- formas de vida. “Por meio da ‘nova poe-
fagia] é um projeto político-poético de sia’ – isto é, por meio da aliança promo-
autonomia radical que, não por acaso, vida pela nova poesia entre os poetas e
depois de um momento inicial que po- todos os ‘marginais’ da civilização oci-
demos identificar ainda como, em algu- dental –, abre-se a possibilidade para a
ma medida, ‘nacionalista’ (o momento superação da política do presente, que
31
de Pau-Brasil, se é preciso indicar um é sempre uma forma de miséria, e o ad-
livro), passa justamente à invocação do vento de um reino inédito. A Antropo-
modo de vida ameríndio, isto é, da in- fagia, não esqueçamos, é um programa
vocação de um tempo em que o Brasil político, mais do que um programa ar-
ainda não era Brasil – e foi precisamen- tístico”, complementa.
te como ainda-não-Brasil, isto é, como
realidade sociopolítica à margem da Eduardo Sterzi possui graduação em
arquitetura política, jurídica, religio- Comunicação Social - Jornalismo pela
sa e econômica do Ocidente, que pôde Universidade Federal do Rio Grande do
fornecer mesmo à Europa ideias funda- Sul - UFRGS, mestrado em Teoria da
mentais, na vanguarda com relação às Literatura pela Pontifícia Universidade
suas supostas (ou efetivas, mas incom- Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS
pletas) vanguardas”, explica o professor e doutorado em Teoria e História Literá-
doutor Eduardo Sterzi, em entrevista ria pela Universidade Estadual de Cam-
por e-mail à IHU On-Line. pinas - Unicamp. Desde 2012, é profes-
sor de Teoria Literária no Instituto de
Sterzi ressalta que, sendo a Antropo-
Estudos da Linguagem da Unicamp e,
fagia uma ontologia política, ela traz
elementos anárquicos, mas não revi- desde 2016, coordenador do Programa
sita a tradição europeia. “Sim, esta [a de Pós-Graduação em Teoria e História
Antropofagia] é uma ontologia política Literária da mesma universidade.
anárquica, mas sem vínculos diretos, Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual o teor po- ências políticas de sua poética? Oswald1 – e sobretudo da sua ideia
lítico da poesia de Oswald de Eduardo Sterzi – Busquei exa-
Andrade? Quais são as consequ- minar o teor político da poesia de 1 Oswald de Andrade (1890-1954): poeta, romancista e

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

“Oswald concebe a Antropofagia


como uma ontologia política capaz
de pôr em xeque toda a arquitetura
político-jurídico-econômica do
Ocidente e seus efeitos na sociedade”

de poesia – num ensaio relativa- que sua poesia se constituísse, a um de uma nova lei –, Oswald opta por
mente recente, “Diante da lei – da só tempo, como poesia e como algo se situar fora da lei, isto é, idealmen-
gramática – da história (Oswald de mais que poesia (“uma literatura te fora da gramática. Toma partido,
Andrade, poeta das exceções)”, pu- e uma arte e mesmo uma política e abertamente, pelo erro – por exem-
blicado na Luso-Brazilian Review. uma educação”, como diz numa res- plo, num poema como “Erro de por-
Peço licença para retomar alguns posta a Tristão de Athayde3 por oca- tuguês” ou numa fórmula como “A
termos daquele ensaio. Eu recupera- sião da publicação de Pau-Brasil), contribuição milionária de todos os
va ali as considerações de Alexandre era necessário, antes de tudo, negar erros”. De fato, há sempre algo, nos
Nodari, num ensaio incontornável a própria ideia de poesia tal como seus poemas, que parece nos con-
intitulado A única lei do mundo2, esta se deixava formular nas primei- vidar a os encararmos como menos
sobre a centralidade da Lei no pen- ras décadas do século XX. Negação que poemas. Há neles uma oscilação
samento de Oswald – e sobre sua que, decerto, era também uma afir- entre o ready made e o do it yourself
busca constante de uma espécie de mação, a afirmação de um abalo e, – para retomar duas fórmulas cen-
32 contra-legislação que aparecia a um mais que isso, de um deslocamento, trais das poéticas contemporâneas,
só tempo como revelação da estru- que punha em questão o lugar que isto é, já situadas no deslizamento
tura originária da lei vigente, que é a poesia ocupava, naquele momen- do moderno em direção a suas pos-
a exceção, mas também como irrup- to, na organização da cultura e na síveis superações – que mina quais-
ção de uma outra lei, que não apenas hierarquia do pensamento – não só quer exigências rasteiras de “origi-
abole a exceção, mas, na verdade, no Brasil, mas no Ocidente. Daí que nalidade” ou “seriedade”. Afinal, as
joga exceção contra exceção. tenha tão intensamente posto em duas atitudes pressupõem um ques-
questão não só as leis da poesia (es- tionamento não menos que revolu-
Acredito que essa visão da centrali-
carneceu muitas vezes daqueles que cionário seja dos próprios materiais
dade da Lei em estado de, digamos,
não conseguiam reconhecer poesia que serão transformados em poesia
exceção excessiva (a posse contra
nos seus poemas), mas até mesmo (ready made), seja dos mecanismos
a propriedade etc.) – que permite
as leis da linguagem – a gramática, de formalização, isto é, transforma-
a Oswald conceber a Antropofagia
que ele via como o princípio de toda ção, destes materiais (do it yourself).
como uma ontologia política capaz
a metafísica, e portanto também de
de pôr em xeque toda a arquitetu- Mas o que emerge daí é, antes de
todo o Direito vigente.
ra político-jurídico-econômica do tudo, a consciência de que tanto a se-
Ocidente e seus efeitos na socieda- Se Mário de Andrade4, com sua pro- leção dos materiais quanto a forma-
de – também está presente na ma- posta de uma Gramatiquinha, aspi- lização destes são dois procedimen-
neira como Oswald pensa e pratica ra uma gramaticalização da fala – e, tos regidos por leis não escritas (mas
a poesia. Oswald percebeu que, para portanto, à descoberta e instauração por vezes escritas – por exemplo,
nos tratados de versificação). O que
dramaturgo. Nasceu em São Paulo e estudou na Faculda- 3 Alceu Amoroso Lima ou Tristão de Athayde (1893- chamamos de “vanguardas” artísti-
de de Direito do Largo São Francisco. Oswald, Mário de 1983): nascido no Rio de Janeiro, crítico literário, professor,
Andrade, Tarsila do Amaral e Raul Bopp foram os idea- pensador, escritor e líder católico. Adotou o pseudônimo cas do século XX são sobretudo mo-
lizadores do Modernismo no Brasil, na década de 1920, de Tristão de Athayde. (Nota da IHU On-Line)
uma visão da país radicalmente vanguardista que rompia, 4 Mário de Andrade (1893-1945): nascido em São Paulo, vimentos de contestação a essas leis
pela primeira vez em termos culturais, com o colonialis-
mo cultural vigente à época. É autor de uma vasta obra,
poeta, romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte
e fotógrafo brasileiro. Um dos fundadores do modernis-
– por mais que sua ação, suposta-
passando por críticas literárias, autoria de peças teatrais, mo brasileiro, praticamente criou a poesia moderna bra- mente em nome da vida contra a lei
romances e textos teóricos. Dentre sua obra, vale destacar sileira com a publicação de seu livro Paulicéia desvairada,
o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Manifesto Antropófago e em 1922. Foi a força motriz por trás da Semana de Arte e que, portanto, poderia se resumir a
Crise da Filosofia Messiânica, textos importantes no que
concerne à originalidade do pensamento nativo brasileiro
Moderna, evento ocorrido em 1922 que reformulou a lite-
ratura e as artes visuais no Brasil. Exerceu uma influência
uma pura explosão de selvageria vi-
e que se colocam na crítica profunda à razão ocidental enorme na literatura moderna brasileira e, como ensaísta tal, gesto de insubmissão sem resti-
hegemonizada. Após a virada antropológica, em 1979, o e estudioso (foi um pioneiro do campo da etnomusicolo-
autor passou ocupar um papel de destaque na Antropolo- gia), sua notoriedade transcendeu as fronteiras do Brasil. tuição de qualquer legalidade à vista,
gia brasileira. (Nota da IHU On-Line) Andrade foi a figura central do movimento de vanguarda logo, e mesmo antes da construção e
2 O texto pode ser acessado em http://bit.ly/2IDVxjG. de São Paulo por vinte anos. Seu romance Macunaíma foi
(Nota da IHU On-Line) publicado em 1928. (Nota da IHU On-Line) apresentação de qualquer “obra”,

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acabe por propor novas leis. O que nha nascida / Nas costas / E se ati- IHU On-Line – Que projeto de
são os manifestos senão cartas rou no Paraíba / Para que a criança Brasil foi postulado na obra de
constitucionais, por vezes algo pa- não fosse judiada”). Ou ainda o meu Oswald de Andrade?
ródicas, a coligir as leis fundamen- preferido, “Levante”: “Contam que
Eduardo Sterzi – A meu ver, não
tais de uma nova realidade poética? houve uma porção de enforcados /
há propriamente um “projeto de Bra-
Daí que, em tantos casos, e é muitas E as caveiras espetadas nos postes /
sil” na obra de Oswald de Andrade,
vezes o que ocorre com Oswald, seja Da fazenda desabitada / Miavam de
mas, sim, um projeto político-poéti-
tão difícil e sobretudo infrutífero noite / No vento do mato”. É óbvio
co de autonomia radical que, não por
buscar descolar a leitura das obras que esses não são poemas a serem
acaso, depois de um momento ini-
“propriamente literárias” da leitura lidos às gargalhadas – pelo contrá-
dos manifestos a partir dos quais cial que podemos identificar ainda
rio, sempre me pareceu uma seção
foram escritos. É certo que a leitu- como, em alguma medida, “nacio-
que exige um silêncio imprevisto, se
ra dos poemas de Pau-Brasil não se nalista” (o momento de Pau-Brasil,
temos em mente a percepção-clichê
esgota numa redução dos seus ver- se é preciso indicar um livro), passa
sobre Oswald (bufão etc.). Porém,
sos às premissas expostas no Mani- justamente à invocação do modo de
desse silêncio pode nascer a melan-
festo da poesia pau-brasil, porém vida ameríndio, isto é, da invocação
colia, que leva ao pensamento, mas
é no jogo dialético entre a ação po- de um tempo em que o Brasil ainda
também à paralisia – ou, como mo-
ética “propriamente literária” dos não era Brasil – e foi precisamente
mento posterior, a alegria, que con-
poemas e a nova legalidade reivin- como ainda-não-Brasil, isto é, como
duz à ação, portanto único afeto ver-
dicada no manifesto que emerge a realidade sociopolítica à margem
dadeiramente revolucionário.
singularidade e o significado mais da arquitetura política, jurídica, re-
amplo daqueles poemas, assim ligiosa e econômica do Ocidente,
como também a função e o sentido que pôde fornecer mesmo à Europa
do manifesto se altera com a leitura
conjunta com os poemas.
“Sim, esta é ideias fundamentais, na vanguarda
com relação às suas supostas (ou
uma ontologia efetivas, mas incompletas) vanguar-
das: “Já tínhamos o comunismo. Já
política
IHU On-Line – É correto pen- tínhamos a língua surrealista. [...] 33
sar em Oswald, rememoran- Sem nós a Europa não teria sequer
do seu aforismo “A alegria é a
prova dos nove”, uma alegria anárquica, mas a sua pobre declaração dos direitos
do homem”. O que a obra de Oswald
trágica em sua poesia?
Eduardo Sterzi – Encontro na
sem vínculos propõe, com radicalidade incomum
entre nossos escritores e artistas, é
obra de Oswald de Andrade um diretos, até que vivamos de outro modo, que se-
jamos de outro modo.
grande exemplo de poesia marcada
por uma alegria trágica – talvez o onde recordo A Antropofagia é, a meu ver, uma
com a tradição
principal exemplo desse sentimento
ontologia política, e não um mero
complexo e quase paradoxal, que é
programa artístico, que dá sua car-
também uma fórmula ético-poética
que envolve vida e linguagem num anarquista” tada decisiva no abalo da noção de
propriedade, confundindo proposi-
compromisso comum, na poesia bra-
talmente a propriedade em sentido
sileira. A alegria, que é a prova dos
econômico-jurídico (o bem que defi-
nove, não é a alegria que nasce do
IHU On-Line – Se tomásse- ne um proprietário) com a proprie-
simples esquecimento dos males do
mos a indagação da peça A dade em sentido existencial (o que
mundo, mas, sim, do seu enfrenta-
morta, de Oswald, como alego- é próprio de cada um, o que define
mento, da sua nítida visão e da opo-
ria do Brasil atual, que respos- cada um como “sujeito” ou “indi-
sição que só pode nascer dessa niti-
ta se pode dar à pergunta “o víduo” – noções que também vão
dez. Para que não reste dúvida, basta
que haverá atrás da porta”? sendo abaladas, aliás, quando se põe
reler aquela seção de Pau-Brasil que
Um asno, uma metralhadora por terra a propriedade).
se intitula “Poemas da colonização”
ou a poesia?
para se verificar como Oswald tinha
perfeita consciência dos horrores da Eduardo Sterzi – O asno de me- IHU On-Line – Seria uma es-
colonização, que era outro nome, no tralhadora na mão provavelmente pécie de “ontologia anárquica”,
Brasil, para a economia baseada na está diante da porta – talvez com a que não entende bem a noção
escravidão, o maior dos horrores que faixa presidencial atravessando-lhe de ser pois não tem gramática
um grupo humano pode infligir a ou- o peito. A poesia, atrás da porta – e, portanto, não conjuga o ver-
tro. Vejam-se especialmente poemas talvez nas catacumbas, a morta-viva, bo ontológico, nosso devir po-
como “Negro fugido” ou “Medo da viva-morta: noiva-cadáver ou mu- lítico mais original? Ou seria
senhora” (“A escrava pegou a filhi- lher-fantasma que sempre volta. melhor dizer originário?

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

Eduardo Sterzi – Sim, esta é resto, as questões do originário e lei, como nota Nodari, se reduz a um
uma ontologia política anárquica, do original parecem fora de lugar único preceito – “Só me interessa o
mas sem vínculos diretos, até onde quando tratamos de Oswald. Como que não é meu” – que parece existir
recordo (para além de uma ou outra costuma ocorrer nos pensadores sobretudo na indefinição entre uni-
menção a Proudhon5 – que ele, ali- mais interessantes, aqueles capazes versal (“Lei do homem”) e particular
ás, considerava “teólogo”, ao lado de iluminar o presente e o amanhã (“Lei do antropófago”) e que parece
de Kierkegaard6), com a tradição mesmo quando estão a ler o passa- ter a forma, ainda segundo o mesmo
anarquista. Espécie de prenúncio da do, é sempre no futuro do pretérito crítico, de uma “sanção legal do ile-
proposição de uma anarquia onto- que sua obra se conjuga: como hipó- gal” ou ainda de “uma lei que abole
lógica tal como a encontramos hoje tese e desafio, como possibilidade e a lei”. Porém, a partir do Manifesto
na obra de Eduardo Viveiros de Cas- instigação. Daí que diga que lhe in- antropófago, Nodari mostra como o
tro, talvez o primeiro antropólogo teressa o “bárbaro tecnizado” mais “Direito Antropofágico” (expressão
a levar a sério, como merecem, as do que qualquer tentativa de acesso ausente no Manifesto, mas recorren-
proposições oswaldianas, nas quais à humanidade das origens. te na Revista de Antropofagia) atra-
descobriu antevisões de sua própria vessa a obra de Oswald e transforma
tese do perspectivismo ameríndio – muito dela – a começar pelo próprio
Manifesto – numa espécie de “lon-
num movimento semelhante ao que
Benedito Nunes7 cumpriu, antes, no “Daí que go comentário ao Direito que pre-

diga que lhe


campo da filosofia, infelizmente, até ceitua”. Estamos, ao mesmo tempo,
onde sei, de modo quase isolado. diante de uma lei – a lei da Antropo-
Mas eu não diria que Oswald não
entende bem a noção de ser – pelo
interessa fagia – que “já” estaria “em vigor” e
que “rege[ria] a história humana” e
contrário, ele entende perfeitamente
o que está implicado nesta noção, e
o ‘bárbaro de “uma norma programática, uma
utopia a ser realizada contra o sta-
por isso constrói toda uma alterna- tecnizado’ tus quo”; estamos diante de “uma
lei primitiva que cabe resgatar”, mas
tiva na forma da Antropofagia. De
34 mais do que também de uma lei ainda vindou-
ra, que se deixará comunicar pelos
qualquer
5 Pierre Joseph Proudhon (1809-1865): socialista e refor-
mador francês. Publicou Ensaio de gramática geral (1837), meios e artes então mais modernos
trabalho que lhe valeu uma pensão de três anos da Acade-
(o cinema, sobretudo). Para Noda-
tentativa de
mia de Besançon. Três anos depois, porém, seu livro Que
é a propriedade? fê-lo perder a aprovação da academia. ri, a melhor solução diante desses
Essa obra revelava suas ideias socialistas e afirmava que “a
propriedade é um roubo”. Suas atividades literárias e po- aparentes dilemas propiciados pela
líticas o levaram, muitas vezes, a entrar em conflito com o
governo francês. Passou vários anos na prisão e no exílio.
Em 15-3-2006 o Prof. Dr. Aloísio Teixeira (UFRJ) palestrou
acesso à enunciação antropófaga é não ver
aí nem “uma estrutura paradoxal”
no II Ciclo de Estudos Repensando os Clássicos da Econo-
mia, com o título “Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) e
o Socialismo utópico”. (Nota da IHU On-Line)
humanidade (por mais que a Antropofagia esteja
repleta de paradoxos), nem “a neces-
6 Soren Kierkegaard (1813-1855): filósofo existencialista
dinamarquês. Alguns de seus livros foram publicados sob
pseudônimos: Víctor Eremita, Johannes de Silentio, Cons-
das origens” sidade de uma opção binária”. Nesta
tantín Constantius, Johannes Climacus, Vigilius Haufnien- obra, “o recurso ao passado é sempre
sis, Nicolás Notabene, Hilarius Bogbinder, Frater Tacitur-
nus e Anticlimacus. Filosoficamente, faz uma ponte entre também uma redefinição do presen-
a filosofia de Hegel e o que viria a ser posteriormente o
existencialismo. Boa parte de sua obra dedica-se à dis-
te” e, “na definição do que seja um
cussão de questões religiosas como a natureza da fé, a IHU On-Line – Considerando particular (o “antropófago”), está em
instituição da igreja cristã, a ética cristã e a teologia. Autor
de O Conceito de Ironia (1841), Temor e Tremor (1843) e O
a relação interna da obra oswal- jogo o universal” (o “homem”).
Desespero Humano (1849). A respeito de Kierkegaard, con- diana – seus manifestos e textos
fira a entrevista Paulo e Kierkegaard, realizada com Álvaro
teóricos em perspectiva com Não por acaso, diz ainda Nodari, o
Valls, da Unisinos, na edição 175, de 10-4-2006, da IHU On
-Line, disponível em http://bit.ly/ihuon175. A edição 314 seus textos “ficcionais” (não “Direito Antropofágico” é definido
da IHU On-Line, de 9-11-2009, tem como tema de capa
A atualidade de Soren Kierkeggard, disponível em https:// achei palavra melhor) –, que por Oswald como um “direito so-
goo.gl/kZW87Z. Leia, também, uma entrevista da edição nâmbulo”: “[...] aquilo que Oswald
339 da IHU On-Line, de 16-8-2010, intitulada Kierkegaard tipo de lei o autor reivindica?
e Dogville: a desumanização do humano, concedida pelo vê no passado – e advoga para o pre-
filósofo Fransmar Barreira Costa Lima, disponível em ht- Eduardo Sterzi – Quem dá a sente – não são outros preceitos, não
tps://goo.gl/cr4qoE. (Nota da IHU On-Line)
7 Benedito Nunes: é autor de estudos sobre Mario Faus- melhor resposta a essa questão é o é uma lei com outros conteúdos, mas
tino e Clarice Lispector e de uma vasta obra. Estudioso
dos pensadores alemães, sobretudo de Kant, Heidegger e Alexandre Nodari, num ensaio a que uma lei com outra aplicabilidade, ou
Nietzsche, suas análises procuram transitar nas fronteiras já aludi aqui – e cujo resumo, que já melhor, ausente de aplicação: um di-
entre o devaneio criador e a análise conceitual. É nesse
sentido que a recepção de Benedito Nunes propõe uma fiz num ensaio meu, tomo a liber- reito diferente daquele que está sem-
dimensão lírica-existencial-crítica, única no ensaísmo bra-
sileiro. Discute a tradição clássica em que a literatura e a dade de rememorar mais ou menos pre em estado de vigília e que precisa
filosofia estão interligadas, ora de maneira litigiosa, ora naqueles exatos termos. O ponto de ser aplicado ainda que esteja venda-
passivamente. Mostra a inseparabilidade dos princípios
metafísicos com os poéticos e explica como é legitimado partida do Nodari é o início do Ma- do”. À luz disso, Nodari propõe que
o diálogo. O filósofo, crítico e escritor foi um dos fundado-
res da Faculdade de Filosofia do Pará. Autor de O Mundo nifesto antropófago, onde a Antro- vejamos o aforismo inicial do Mani-
de Clarice Lispector (São Paulo: Ática, 1966), Oswald Cani-
bal (São Paulo: Perspectiva, 1979) e O Crivo de Papel (São
pofagia é apresentada como a “Úni- festo antropófago como “a enuncia-
Paulo: Ática,1999). (Nota do IHU On-Line). ca lei do mundo”. O conteúdo desta ção de uma lei que já rege na medi-

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da em que não é cumprida”. Neste aqueles que já viveram séculos, até paradigma político-poético, em que,
sentido, talvez possamos pensar a milênios, e que têm de criar a partir não apenas de um ponto de vista ide-
relação complexa entre os textos fic- desse acúmulo de história, que pode al, o poema talvez fosse visto como a
cionais (incluindo aí os poéticos, os ser paralisante). Em Oswald, outra forma mais concentrada, e portanto
dramáticos e os de prosa narrativa) coisa está sendo dita, outra coisa cristalina, da ação política, com seus
e os não-ficcionais de Oswald como acontece. E a palavra-chave, a meu
gestos de desativação dos códigos e
talvez uma polarização entre duas ver, é reino: levemos a sério esta
protocolos usuais e instauração de
instâncias que buscam uma na outra palavra, em sua espessura política,
algo como uma Lei oculta desse tipo, e até político-teológica, originária. novas modalidades de ser. Não po-
que no entanto nunca é achada ple- Por meio da “nova poesia” – isto é, demos esquecer que, no limite, a te-
namente em nenhum lugar – e que por meio da aliança promovida pela oria política de Giorgio Agamben8 é
portanto faz com que não exista lu- nova poesia entre os poetas e todos uma teoria do poema – e eu tendo a
gar próprio nem para a enunciação os “marginais” da civilização ociden- concordar, nesse ponto, com o filó-
ficcional, nem para a não-ficcional tal –, abre-se a possibilidade para a sofo italiano e encontrar em Oswald
(daí que a poesia de Oswald não te- superação da política do presente, algo como um precursor imprevisto
nha sido reconhecida, às vezes, como que é sempre uma forma de miséria, dessa concepção das coisas. ■
poesia, e menos ainda suas teses di- e o advento de um reino inédito. A
rigidas à universidade como teses), e Antropofagia, não esqueçamos, é um 8 Giorgio Agamben (1942): filósofo italiano. É professor
da Facolta di Design e arti della IUAV (Veneza), onde ensi-
os lugares radicalmente impróprios programa político, mais do que um na Estética, e do College International de Philosophie de
que ambas as enunciações acabam programa artístico. Paris. Formado em Direito, foi professor da Universitá di
Macerata, Universitá di Verona e da New York University,
ocupando, num exercício prático cargo ao qual renunciou em protesto à política do gover-
no estadunidense. Sua produção centra-se nas relações
de posse contra a propriedade, seja IHU On-Line – De que forma entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente,
sempre, a rigor, um espaço fora da a arte se converte em política
política. Entre suas principais obras estão Homo Sacer: o
poder soberano e a vida nua (Belo Horizonte: Ed. UFMG,
lei – mas que só existe como tal pela quando a política-política se re- 2002), A linguagem e a morte (Belo Horizonte: Ed. UFMG,
2005), Infância e história: destruição da experiência e ori-
contínua pressuposição desta como duz a sua forma mais rasteira? gem da história (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006); Estado
condição da linguagem, mas tam- de exceção (São Paulo: Boitempo Editorial, 2007), Estâncias
– A palavra e o fantasma na cultura ocidental (Belo Ho-
bém como limite a ser transposto. Eduardo Sterzi – Em alguma rizonte: Ed. UFMG, 2007) e Profanações (São Paulo: Boi-
medida, acho que já respondi a esta tempo Editorial, 2007). Em 4-9-2007, o sítio do Instituto 35
Humanitas Unisinos - IHU publicou a entrevista Estado
questão na pergunta anterior. Mas de exceção e biopolítica segundo Giorgio Agamben, com
IHU On-Line – Quando a poe- o filósofo Jasson da Silva Martins, disponível em http://
talvez seja o caso de precisar que bit.ly/jasson040907. A edição 236 da IHU On-Line, de
sia toca a política e como uma
não se trata apenas de converter a 17-9-2007, publicou a entrevista Agamben e Heidegger: o
e outra coisa se transformam? âmbito originário de uma nova experiência, ética, política
arte em política, o que poderia dar e direito, com o filósofo Fabrício Carlos Zanin, disponível
em https://goo.gl/zZRChp. A edição 81 da publicação, de
Eduardo Sterzi – Acho que a margem às formas panfletárias que 27-10-2003, teve como tema de capa O Estado de exceção
melhor resposta para essa questão apenas servem para submeter a arte e a vida nua: a lei política moderna, disponível para aces-
so em http://bit.ly/ihuon81. Em 30-6-2016, o professor
talvez seja citar uma frase do pró- à rotina dos discursos e da propa- Castor Bartolomé Ruiz proferiu a conferência Foucault e
Agamben. Implicações Ético Políticas do Cristianismo, que
prio Oswald: “A nova poesia restau- ganda; o que acontece aqui é muito pode ser assistida em http://bit.ly/29j12pl. De 16-3-2016 a
ra o reino da criança, do primitivo e mais profundo: se o que chamamos 22-6-2016, Ruiz ministrou a disciplina de Pós-Graduação
em Filosofia e também validada como curso de exten-
do louco”. Essa frase, a meu ver, vai de arte, e mais exatamente a poesia, são através do IHU intitulada Implicações ético-políticas
do cristianismo na filosofia de M. Foucault e G. Agamben.
muito além do credo primitivista tem seus momentos decisivos numa Governamentalidade, economia política, messianismo
de certas versões do modernismo – desautomatização dos hábitos (a lin- e democracia de massas, que resultou na publicação da
edição 241 dos Cadernos IHU ideias, intitulado O poder
porque nela não se trata só de confe- guagem não serve mais apenas para pastoral, as artes de governo e o estado moderno, que pode
rir aos empréstimos aos olhares e às ser acessada em http://bit.ly/1Yy07S7. Em 23 e 24-5-2017,
comunicar) e, se a minha hipótese o IHU realizou o VI Colóquio Internacional IHU – Políti-
falas de crianças, “primitivos” (isto de leitura estiver certa, num enfren- ca, Economia, Teologia. Contribuições da obra de Giorgio
Agamben, com base sobretudo na obra O reino e a glória.
é, indígenas, nas palavras da época) tamento do próprio núcleo estrutu- Uma genealogia teológica da economia e do governo (São
e loucos, a capacidade de regenerar rador da Lei, teríamos aí – isto é, se Paulo: Boitempo, 2011. Tradução de: Il regno e la gloria.
Per una genealogia teológica dell’ecconomia e del gover-
as linguagens poética, plástica, mu- um dia a arte e a poesia voltarem a no. Publicado originalmente por Neri Pozza, 2007). Saiba
mais em http://bit.ly/2hCAore. Em 2017 a revista IHU On
sical etc. dos velhos homens cansa- ocupar nas nossas sociedades o lu- -Line publicou a edição Giorgio Agamben e a impossibili-
dos do Ocidente (os modernos, como gar fundamental que um dia ocupa- dade de salvação da modernidade e da política moderna,
nº 505, disponível em http://bit.ly/2NXjQwT. (Nota da IHU
se sabe, são os verdadeiros antigos: ram – a emergência de todo um novo On-Line)

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

O homem nu nos redimirá


Veronica Stigger retoma a obra de Oswald de Andrade em perspectiva
com a arte para pensar saídas a um tipo de moralidade violenta
que mobiliza pessoas em torno de afetos negativos
Ricardo Machado

O
índio é o homem do futuro. Foi espaço de liberdade e experimenta-
Oswald de Andrade quem re- ção. Não perder essa sua vocação, não
conheceu no índio antropófago se deixar apreender pela tendência de
uma figura capaz de nos redimir das transformar tudo em discurso, é o que
moralizações religiosas, econômicas e há de mais importante nesse momen-
políticas que dão forma aos mal-esta- to”, complementa.
res das sociedades contemporâneas.
Veronica Stigger é escritora, crí-
“Segundo a lição da antropologia que
tica de arte e professora universitária.
serviu de inspiração para Oswald, não
Possui doutorado em Teoria e Crítica
é para matar sua fome que o antropófa-
de Arte pela Universidade de São Pau-
go se alimenta da carne de seus inimi-
lo - USP e realizou pesquisas de pós-
gos, mas, sim, para absorver seu valor.
doutorado na Università degli Studi di
36 Acho que ainda estamos processando
o complexo pensamento de Oswald de Roma “La Sapienza”, no Museu de Arte
Andrade”, pondera a professora douto- Contemporânea da USP e no Instituto
ra e escritora Veronica Stigger, em de Estudos da Linguagem da Unicamp.
entrevista por e-mail à IHU On-Line. É coordenadora do curso de Criação Li-
terária da Academia Internacional de
“Parece-me cada vez mais importante
Cinema e professora dos cursos de pós-
voltarmos ao homem nu, a esse homem
graduação em História da Arte e Foto-
despido dos tabus, como uma espécie
grafia da FAAP, em São Paulo. Como
de antídoto para a intolerância cada
curadora, foi responsável pelas exposi-
vez mais crescente em nossa socieda-
ções Maria Martins: metamorfoses e
de — e não estou pensando apenas na
brasileira. Uma intolerância que perse- O útero do mundo, ambas no MAM-SP
gue a tudo e a todos, desde as minorias (2013 e 2016), e, com Eduardo Sterzi,
(negros, índios, gays, lésbicas, trans, Variações do corpo selvagem: Edu-
mulheres etc.) até religiões outras que ardo Viveiros de Castro, fotógrafo,
não aquelas associadas ao Estado (e no SESC Ipiranga (2015). É autora de
essa associação entre religião e Estado dez livros de ficção, entre eles Os anões
é o que há de mais perigoso); vide os (Cosac Naify, 2010), Delírio de Damas-
inadmissíveis ataques, a cada dia mais co (Cultura e Barbárie, 2012), Opisanie
comuns, a terreiros de religiões de ma- świata (Cosac Naify, 2013) e os infantis
trizes africanas, como a umbanda e o Dora e o sol (Editora 34, 2010) e Onde
candomblé”, destaca. a onça bebe água (Cosac Naify, 2015,
em coautoria com Eduardo Viveiros
A arte continua sendo um espaço não
de Castro). Com Opisanie świata, seu
somente de contestação, mas de pro-
primeiro romance, recebeu os prêmios
dução de espaços de liberdade e con-
Machado de Assis, São Paulo (autor es-
testação. “Antes mesmo das eleições,
treante) e Açorianos (narrativa longa).
exposições foram fechadas ou sofreram
manifestações dos setores mais bárba- Seu último livro é Sombrio Ermo Turvo
ros da sociedade”, descreve Veronica. (Todavia, 2018).
“A arte é, acima e antes de tudo, um Confira a entrevista.

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IHU On-Line – Qual a atuali- se alimenta da carne de seus ini- alegria, já que, para o destruidor,
dade do pensamento antropó- migos, mas, sim, para absorver seu toda remoção significa uma perfeita
fago, nos termos de Oswald de valor. Acho que ainda estamos pro- subtração ou mesmo uma radicia-
Andrade, no século XXI? cessando o complexo pensamento de ção de seu próprio estado. O que,
Oswald de Andrade. com maior razão, nos conduz a essa
Veronica Stigger – Creio que
imagem apolínea do destruidor é o
quem melhor descreveu a impor-
reconhecimento de como o mundo
tância e a atualidade do pensamento
antropófago de Oswald de Andrade
para os dias de hoje foi o antropó-
“Nada me se simplifica enormemente quando
posto à prova segundo mereça ser
logo Eduardo Viveiros de Castro1
numa de suas entrevistas compi-
parece ser mais destruído ou não”.

rebelde, mais
 
ladas por Renato Sztutman2 para IHU On-Line – O que o “ho-
a série Encontros (Rio de Janeiro:
Azougue, 2007), quando afirma que: revolucionário mem nu” (compreendido como
aquele livre dos tabus) tem a
“A antropofagia foi a única contri-
buição realmente anticolonialista e mais livre nos ensinar nos dias de hoje?
Veronica Stigger – Parece-me
que a alegria”
que geramos”. E acrescenta: “Ela jo-
gava os índios para o futuro e para cada vez mais importante voltar-
o ecúmeno; não era uma teoria do mos ao homem nu, a esse homem
nacionalismo, da volta às raízes,   despido dos tabus, como uma espé-
do indianismo. Era e é uma teoria IHU On-Line – Qual a impor- cie de antídoto para a intolerância
realmente revolucionária...”. Na fi- tância, nos dias como os que cada vez mais crescente em nossa
gura do índio antropófago, Oswald vivemos, de recuperar a alegria sociedade – e não estou pensando
encontrou uma espécie de imagem desobediente da Antropofagia? apenas na brasileira. Uma intole-
prenunciadora do ser humano fu- rância que persegue a tudo e a todos,
Veronica Stigger – É fundamen- desde as minorias (negros, índios,
turo, desde que este conseguisse se tal que não deixemos nunca a alegria
libertar das amarras morais, religio- gays, lésbicas, trans, mulheres etc.)
de lado. Nosso lema deveria ser, para até religiões outras que não aquelas 37
sas, políticas e econômicas das socie- todo o sempre, independentemente
dades patriarcais. associadas ao Estado (e essa associa-
da situação política em que nos en- ção entre religião e Estado é o que
Mas não foram apenas a liberdade contramos (ou justamente em fun- há de mais perigoso); vide os inad-
e a alegria primitivas que interessa- ção dela), uma das fantásticas frases missíveis ataques, a cada dia mais
vam a Oswald na figura do antro- de Oswald de Andrade no Manifesto comuns, a terreiros de religiões de
pófago. Interessava-lhe sobretudo antropófago: “A alegria é a prova matrizes africanas, como a umbanda
a noção de uma identidade que não dos nove”. Nada me parece ser mais e o candomblé.
se constitui somente a partir daqui- rebelde, mais revolucionário e mais
lo que é próprio de um indivíduo ou livre que a alegria. Costumo sempre
de uma comunidade, mas que, pelo pensar essa alegria desobediente de IHU On-Line – Em um exercí-
contrário, se constitui a partir da- Oswald como próxima à alegria que cio de comparação especulativa,
quilo que é alheio a este indivíduo Walter Benjamin3 encontra no cará- como poderíamos imaginar uma
ou comunidade. Afinal, segundo a ter destrutivo. Para este, “O caráter possível procissão antropofági-
lição da antropologia que serviu de destrutivo é jovial e alegre. Pois des- ca de Flávio de Carvalho, descri-
inspiração para Oswald, não é para truir remoça, já que remove os ves- ta em sua Experiência nº 2, se
matar sua fome que o antropófago tígios de nossa própria idade; traz fosse realizada nos dias de hoje?
Veronica Stigger – A São Paulo
1 Eduardo Viveiros de Castro (1951): antropólogo brasi-
leiro, professor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, na
3 Walter Benjamin (1892-1940): filósofo alemão. Foi
refugiado judeu e, diante da perspectiva de ser captura-
de 1931 era completamente diferen-
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Concedeu a do pelos nazistas, preferiu o suicídio. Associado à Escola te da São Paulo de hoje. A começar
entrevista O conceito vira grife, e o pensador vira proprietá- de Frankfurt e à Teoria Crítica, foi fortemente inspirado
rio de grife à edição 161 da IHU On-Line, de 24-10-2005, tanto por autores marxistas, como Bertolt Brecht, como que, mesmo que já fosse uma cidade
disponível em http://bit.ly/33NxRBr. Entre outras publi- pelo místico judaico Gershom Scholem. Conhecedor em crescimento vertiginoso, supe-
cações, escreveu Arawete: O Povo do Ipixuna (São Paulo: profundo da língua e cultura francesas, traduziu para o
CEDI), A inconstância da alma selvagem (e outros ensaios alemão importantes obras como Quadros parisienses, de rando o Rio de Janeiro em número
de antropologia) (São Paulo: Cosac & Naify) e Metafísicas Charles Baudelaire, e Em busca do tempo perdido, de Mar-
canibais (São Paulo: Cosac & Naify). Também é autor do cel Proust. O seu trabalho, combinando ideias aparente-
de indústrias, ainda estava longe da
prefácio do livro A queda do céu – Palavras de um xamã mente antagônicas do idealismo alemão, do materialismo metrópole de 20 milhões de habi-
yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert (São Paulo: dialético e do misticismo judaico, constitui um contributo
Companhia das Letras). (Nota da IHU On-Line) original para a teoria estética. Entre as suas obras mais tantes de agora, em que qualquer
2 Renato Sztutman: mestre e doutor em Antropologia conhecidas, estão A obra de arte na era da sua reprodu-
Social pela USP, área de etnologia indígena. É pesquisador tibilidade técnica (1936), Teses sobre o conceito de história
grupo é sempre multidão. Tendo
do Centro de Estudos Ameríndios (CEstA) e do Labora- (1940) e a monumental e inacabada Paris, capital do século isso em vista, gosto de imaginar o
tório de Imagem e Som em Antropologia (LISA). Foi um XIX, enquanto A tarefa do tradutor constitui referência in-
dos fundadores e coeditou, entre 1997 e 2007, a revista contornável dos estudos literários. Sobre Benjamin, confi- Flávio de Carvalho4 colocando sua
Sexta-Feira. Suas áreas de atuação são etnologia e história ra a entrevista Walter Benjamin e o império do instante,
indígena (com foco no problema das cosmopolíticas ame- concedida pelo filósofo espanhol José Antonio Zamora
ríndias), teoria antropológica e antropologia & cinema. à IHU On-Line nº 313, disponível em http://bit.ly/zamo- 4 Flávio de Carvalho, nome artístico de Flavio Rezende
(Nota da IHU On-Line) ra313. (Nota da IHU On-Line) de Carvalho (1899-1973): foi um dos grandes nomes da

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TEMA DE CAPA

boina na cabeça e andando no sen- Hoje, parece-me, não é preciso ha- da casa e mandou lacrar a porta com
tido contrário à Marcha para Jesus, ver mais polícia de costumes, porque tijolo e cimento para que ele pudes-
que acontece todo ano, no Corpus ela se acha disseminada pela socie- se transmigrar em paz. Claro que ele
Christi, e chega a reunir dois mi- dade, em suas várias instâncias, das não transmigrou e parece que ele,
lhões de evangélicos (eis aqui outra redes sociais à mídia. Antes mesmo depois de chorar feito um bebê, teve
diferença: em 1931, eram católicos). das eleições, exposições foram fe- que ser tirado de lá para não morrer.
A experiência que ele realizou em chadas ou sofreram manifestações Acho que diz muito sobre o que está
1931 continuaria a ser desafiadora, dos setores mais bárbaros da socie- aí: a população brasileira também
continuaria a ser vista como de- dade (setores que buscavam, a qual- decidiu se trancar num cubículo de
sestabilizadora da ordem. A única quer custo, chamar a atenção sobre ignorância e agora está morrendo.
diferença é que hoje ele talvez não si e sobre suas estúpidas convicções
saísse vivo do experimento já que — e, assim, acabaram conseguindo
estamos agora num tempo em que
o neopentecostalismo não apenas
chegar ao poder). E as tentativas de
censura continuaram desde então e
“Na figura
encontrou a milícia como estão jun-
tos no governo federal, ou seja, todo
se acirram agora com o governo Bol-
sonaro. O bom — e sempre há um
do índio
o ódio que daí se dissemina, toda a
violência que propaga, toda a into-
lado bom — é que Bolsonaro (e sua
caterva) é tão incompetente, mas tão
antropófago,
lerância com o outro que incentiva,
tem o respaldo do Estado. Flávio de
incompetente que mal consegue se
manter sentado na cadeira da presi-
Oswald
Carvalho certamente seria linchado. dência. A questão agora não é resis- encontrou
tir, mas reagir e contra-atacar. É só

IHU On-Line – Parece haver,


empurrar que eles caem. uma espécie
no seio da sociedade contem-
porânea, um espírito do tempo
 
IHU On-Line – Há declarada-
de imagem
tão ou mais conservador que mente em opiniões expressas prenunciadora
38 o registrado no início do sécu- por figuras públicas brasileiras
lo passado, contexto em que ligadas ao atual governo, minis- do ser humano
futuro”
Oswald denunciava o que ele tros inclusive, uma retomada
chamou de “moral enlatada”. de figuras retóricas beletristas
Como tal característica se ma- para dizer o indizível, defender
nifesta na atualidade? o indefensável. O que isso reve-
la sobre o paradigma intelectual IHU On-Line – Do que se tra-
Veronica Stigger – No final do
(sic) que orienta o pensamento ta a “vacina antropofágica”,
Manifesto antropófago, Oswald de
de nossos governantes? descrita por Raul Bopp, sobre
Andrade não chega a falar em “mo-
ral enlatada”, mas em “consciência Veronica Stigger – Não há nada a Experiência nº 2 de Flávio de
enlatada”. Ele escreve: “Contra to- de intelectual nesse governo. Há a Carvalho? Como ela manifesta
dos os importadores da consciência reunião de um bando de lunáticos, uma disposição ética?
enlatada. A existência palpável da comandados por figuras como a do Veronica Stigger – Raul Bopp6,
vida”. Hoje, estamos vivendo um psicopata da Virgínia, que alguns es- em Vida e morte da antropofagia,
momento completamente absurdo túpidos têm o desplante de chamar texto em que faz um apanhado do
no Brasil. Há um retrocesso talvez de “filósofo”. Falando nele, adoro que foi e do que pretendeu o movi-
nunca antes visto. Arriscaria dizer aquela história de que Olavo de Car- mento, ao fazer uma rápida alusão
que, com essa onda não apenas re- valho5 construiu uma barca no porão a esta experiência de Flávio de Car-
trógrada e fascista, mas fundamen- valho observa: “A vacina antropo-
talmente burra, vivemos um mo- 5 Olavo de Carvalho (1947): não tem nenhum título aca- fágica imunizava algumas atitudes
mento pior do que aquele em que dêmico formal. Costuma ser apresentado como escritor,
destemidas. Flávio de Carvalho, por
conferencista, ensaísta, jornalista, filósofo e ex-astrólogo
viviam Oswald de Andrade e Flávio nascido em Campinas (SP). É um dos principais nomes no exemplo, realizou a sua Experiência
discurso do conservadorismo brasileiro. Militou no PCB de
de Carvalho, quando existia, por 1966 a 1968, mas posteriormente decepcionou-se com a
exemplo, uma polícia de costumes, ideologia e tornou-se anticomunista convicto. Trabalhou
em revistas e periódicos, passando por veículos como Fo- Jardim das Aflições, que aborda a vida doméstica, biogra-
que mandou fechar o Teatro da Ex- lha de S.Paulo, Planeta, Bravo!, Primeira Leitura, Jornal do fia e filosofia de Olavo de Carvalho, rodado na residência
Brasil, Jornal da Tarde, O Globo, Época e Zero Hora. Atual- dele nos EUA. O filme foi realizado com recursos captados
periência do Flávio e sua primeira mente escreve para o Diário do Comércio. Seu primeiro através de financiamento coletivo e lançado em 2017. Ao
exposição individual. livro, A imagem do homem na astrologia, foi lançado em todo foram quase 3 mil doadores e arrecadação de R$ 320
1980. O mínimo que você precisa saber para não ser um mil. No festival Cine PE, realizado de 27 de junho a 3 de
idiota é de 2013 e vendeu algo próximo de 320 mil exem- julho de 2017, O Jardim das Aflições foi premiado em três
plares. Também escreveu O Jardim das Aflições (1995) e O categorias: melhor montagem, júri popular e melhor filme.
Imbecil Coletivo (1996). Mora atualmente em Richmond, (Nota da IHU On-Line)
geração modernista brasileira, atuando como arquiteto, no estado norte-americano de Virgínia. Segundo ele, um 6 Raul Bopp (1898-1984): poeta modernista e diplomata
engenheiro, cenógrafo, teatrólogo, pintor, desenhista, dos motivos para sua mudança do Brasil para os Estados brasileiro. Com Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade,
escritor, filósofo, músico e outros rótulos. (Nota da IHU Unidos, em 2005, foi a chegada do PT ao poder. O cineas- amigos pessoais, participou da Semana de Arte Moderna.
On-Line) ta pernambucano Josias Teófilo, dirigiu o documentário O (Nota da IHU On-Line)

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REVISTA IHU ON-LINE

Número 2, em sondagem psicológi- que se combater a “peste dos chama- Cultura e Barbárie, 2017), uma ideia
ca da multidão, numa procissão de dos povos cultos e cristianizados”. Não soa como uma espécie de baixo contí-
Corpus Christi. Quase foi linchado”. por acaso, no ano em que enfrenta a nuo, a de que os índios são especialis-
A expressão “vacina antropofágica”, procissão, Flávio de Carvalho pinta A tas em sobrevivência, já que eles vêm
com que Bopp descreve a disposição inferioridade de Deus, um quadro em vivendo, há mais de 500 anos, depois
ética que está na origem da Expe- que desmoraliza (e o verbo aqui é usa- do fim do mundo (deles). Por isso que,
riência n° 2, não era invenção sua: do de propósito) a figura de deus. retomando em certa medida Oswald
tratava-se de uma citação. Oswald de de Andrade, Viveiros de Castro disse
Andrade, no Manifesto Antropófago, numa entrevista: “A indianidade não
IHU On-Line – Como a chama-
já decretava: “Necessidade da vaci- é uma sobrevivência do passado, mas
da “incivilização” pode inspirar
na antropofágica”. Para quê? “Para o um projeto de futuro”.
novas formas de vida e de relação
equilíbrio contra as religiões de me-
com o mundo diante de uma “ci-  
ridiano. E as inquisições exteriores”.
vilização” pródiga em produzir IHU On-Line – De que manei-
Vacina, portanto, contra as “religiões
genocídio, fome, refugiados, au- ra a arte pode nos inspirar a
de salvação”, tomando aqui empresta- toritarismo e crises ambientais?
da uma expressão usada por Benedito pensar novos caminhos políti-
Nunes7. Afinal, afirmava Oswald, há Veronica Stigger – De novo, é cos e novas formas de vida, en-
Eduardo Viveiros de Castro que nos fim, outras ontologias?
7 Benedito Nunes: é autor de estudos sobre Mario Faus- dá a chave. Mas, desta vez, a partir de
tino e Clarice Lispector e de uma vasta obra. Estudioso Veronica Stigger – A arte é, acima
dos pensadores alemães, sobretudo de Kant, Heidegger e um livro que ele escreveu em parceria
e antes de tudo, um espaço de liberda-
Nietzsche, suas análises procuram transitar nas fronteiras com Déborah Danowski. Em Há mun-
entre o devaneio criador e a análise conceitual. É nesse de e experimentação. Não perder essa
sentido que a recepção de Benedito Nunes propõe uma do por vir? (Desterro [Florianópolis]:
dimensão lírica-existencial-crítica, única no ensaísmo bra- sua vocação, não se deixar apreender
sileiro. Discute a tradição clássica em que a literatura e a
filosofia estão interligadas, ora de maneira litigiosa, ora res da Faculdade de Filosofia do Pará. Autor de O Mundo pela tendência de transformar tudo
passivamente. Mostra a inseparabilidade dos princípios de Clarice Lispector (São Paulo: Ática, 1966), Oswald Cani- em discurso, é o que há de mais im-
metafísicos com os poéticos e explica como é legitimado bal (São Paulo: Perspectiva, 1979) e O Crivo de Papel (São
o diálogo. O filósofo, crítico e escritor foi um dos fundado- Paulo: Ática, 1999). (Nota da IHU On-Line) portante nesse momento. ■

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TEMA DE CAPA

A realidade multifacetada
dos Brasis na Literatura
Luís Augusto Fischer traça um panorama das vertentes
históricas que marcaram a literatura produzida no país
Ricardo Machado

P
ensar as formações literárias te literário, que seria a da Amazônia.
em nosso país em perspectiva Imaginação e palavra não faltam a esse
histórica implica considerar, ao mundo, há muitíssimas gerações, na
menos, duas grandes vertentes, aque- forma de histórias, de sonhos, de rela-
la produzida no litoral, mais ligada ao tos”, argumenta. Há ainda um outro re-
regime da plantation, e aquela produ- corte possível. “E nem falamos de outro
zida no Brasil profundo. Enquanto a recorte possível, o de gênero — mulhe-
literatura mais litorânea expressa, “nas res passaram a reivindicar a singulari-
letras impressas, basicamente o ponto dade de sua dicção há duas gerações, e
de vista dos luso-brasileiros e (...) nas agora essa outra família de textos é re-
letras cantadas, na canção, o ponto de conhecível. Fica entre parênteses essa
vista dos afro-brasileiros”, a outra, a lembrança”, complementa.
produzida no Brasil profundo “tem a Luís Augusto Fischer é doutor,
40
ver com o mundo interior, o mundo do mestre e graduado em Letras pela Uni-
sertão”, em que “se criou uma literatura versidade Federal do Rio Grande do
excepcionalmente interessante, deriva- Sul - UFRGS, onde leciona. É autor de
da em maior ou menor grau da expe- vários livros, entre eles Inteligência
riência ameríndia, dos caboclos, dos com dor – Nelson Rodrigues ensaísta
caipiras, dos gaúchos, dos sertanejos (Porto Alegre: Arquipélago Editorial,
nordestinos”. As definições entre aspas 2009), Machado e Borges – e outros
são do professor doutor e escritor Luís ensaios sobre Machado de Assis (Por-
Augusto Fischer, em entrevista por to Alegre: Arquipélago Editorial, 2008)
e-mail à IHU On-Line. e Dicionário de porto-alegrês (Porto
Mas pensar esses dois grandes eixos, Alegre: L&PM Editores, 2000). Fez a
nem de longe significa reduzir a mul- edição anotada de Contos gauchescos
tiplicidade que caracteriza a produção e Lendas do Sul (Porto Alegre: L&PM
literária no Brasil. Fischer destaca um Editores, 2012), de Simões Lopes Neto,
movimento literário mais recente que e de Antônio Chimango (Caxias do Sul:
está ligado ao norte do país. “Talvez Editora Belas Letras, 2016), de Amaro
haja uma terceira formação, ainda se Juvenal.
preparando para alçar voo propriamen- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Ao observar a o que evidencia uma tensão que tem muitas formações culturais, tanto al-
literatura brasileira em pers- tudo a ver com o teor da pergun- gumas de recorte geográfico, quanto
pectiva histórica, que brasis ta — afinal, teríamos uma coisa una outras de recorte étnico, cada uma
podem ser encontrados? chamada “literatura brasileira” ou das quais pode ser lida segundo certa
teríamos, quase ao contrário, várias homogeneidade interna. Por um lado
Luís Augusto Fischer – A per- literaturas correspondentes a vários e por outro, se evidencia a artificiali-
gunta tem um pressuposto meio cap- “brasis”? Mas respondendo de san- dade da concepção unitarista, linear,
cioso, talvez contraditório, porque gue doce, sem intenção polêmica, exclusivista de uma hipotética “litera-
opõe “literatura brasileira” a “brasis”, é claro que se pode afirmar que há tura brasileira” homogênea, que não

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existe, salvo nas descrições historio- A outra grande formação literária mente derivada da tradição oral, dos
gráficas triviais, como aquelas dos brasileira tem a ver com o mundo causos, das lendas, que nascem e flo-
programas de ensino e dos vestibula- interior, o mundo do sertão — não rescem na fronteira entre a visão de
res das gerações passadas e que ainda só o sertão seco do Nordeste, mas mundo ameríndia e a visão de mun-
hoje mantêm certa força de perma- de todo o território que não esteve do dos luso-brasileiros pobres que
nência. De fato, se há mesmo algo diretamente ocupado por alguma inventaram o mundo interior, com
que seja comum a toda a produção das culturas da plantation (cana de uma porção menor de herança poé-
literária feita no território brasilei- açúcar e café, basicamente), portan- tica e narrativa dos afro-brasileiros.
ro, esse ponto em comum é a língua to toda a parte do território brasi- Talvez haja uma terceira formação,
portuguesa — e mesmo assim ela não leiro excetuado o litoral e a floresta ainda se preparando para alçar voo
é exatamente uma coisa só, e nem é amazônica. Neste mundo também propriamente literário, que seria a
verdade que apenas em português se se criou uma literatura excepcio- da Amazônia. Imaginação e palavra
pode produzir literatura no território nalmente interessante, derivada em não faltam a esse mundo, há muitís-
do Brasil, bastando reconhecer o plu- maior ou menor grau da experiência simas gerações, na forma de histó-
rilinguismo efetivamente existente, ameríndia, dos caboclos, dos caipi- rias, de sonhos, de relatos.
se prestarmos atenção às várias lín- ras, dos gaúchos, dos sertanejos nor-
guas indígenas ainda vivas. destinos. É a literatura cujo ponto (E nem falamos de outro recorte
mais alto está em Guimarães Rosa1 possível, o de gênero — mulheres
Entre parênteses: a pergunta e esta
ou em certo Graciliano Ramos2, mas passaram a reivindicar a singulari-
resposta giram em torno de um eixo
também, antes, nos contistas “regio- dade de sua dicção há duas gerações,
cada dia menos firme, que é o eixo que
nais”, como Afonso Arinos3 e Simões e agora essa outra família de textos
estruturou o nacionalismo moderno,
Lopes Neto4. É uma literatura forte- é reconhecível. Fica entre parênteses
que tem uns 250 anos de vida, no má-
essa lembrança.)
ximo. Para a constituição, validação e
1 João Guimarães Rosa (1908-1967): escritor, médico e
consolidação da identidade nacional é diplomata nascido em Cordisburgo, Minas Gerais. Como
que se inventou esse eixo, que por vá- escritor, criou uma técnica de linguagem narrativa e des-
IHU On-Line – Como o ser-
critiva pessoal. Sempre considerou as fontes vivas do falar
rios motivos está girando em falso, ou erudito ou sertanejo, mas, sem reproduzi-las em um rea-
tanejo, compreendido como
lismo documental, reutilizou suas estruturas e vocábulos,
girando com folgas, neste nosso tem- estilizando-os e reinventando-os em um discurso musical aqueles sujeitos que vivem fora 41
po. Matéria para outra conversa. e eficaz de grande beleza plástica. Sua obra parte do re-
da faixa litorânea, recontam a
gionalismo mineiro para o universalismo, oscilando entre
o realismo épico e o mágico, integrando o natural, o mís-
Voltando ao ponto: não vamos aqui tico, o fantástico e o infantil. Entre suas obras, destacam-
história do Brasil por meio da
falar das literaturas ou das formações se Sagarana (1946), Corpo de baile (1956), Grande sertão: literatura de ficção?
veredas (1956) – considerada uma das principais obras da
regionais no Brasil, porque isso pare- literatura brasileira –, Primeiras estórias (1962) e Tutameia
Luís Augusto Fischer – Essa
(1967). A edição 178 da IHU On-Line, de 2-5-2006, dedi-
ce polêmica velha (embora não seja); cou ao autor a matéria de capa, sob o título Sertão é do gente viveu sem letras escritas até
falemos do que se poderia chamar de tamanho do mundo. 50 anos da obra de João Guimarães
Rosa, disponível em https://goo.gl/LXRCAU. Confira ainda poucas gerações atrás, mas viveu
diferentes formações étnico-históri- a edição 275 da IHU On-Line, de 29-9-2008, intitulada
como vivem os seres humanos em
Machado de Assis e Guimarães Rosa: intérpretes do Brasil,
cas, algo assim, existentes no territó- disponível em http://bit.ly/mBZOCe. A revista publicou geral — se contando histórias para
rio brasileiro, que se expressam em também em sua edição 503, de 24-4-2017, a entrevista
com Kathrin Rosenfield intitulada Leitura de Guimarães melhor entender o mundo, para su-
português, ou em alguma das varian- Rosa ensina a viver sentindo e dando sentido à vida, dispo-
portarem-se uns aos outros, para
nível em https://bit.ly/2wRB1WQ. A IHU On-Line número
tes do português brasileiro. 538, intitulada Grande Sertão: Veredas. Travessias, tam- sonharem. Já no século XIX, com
bém tratou da produção do autor. Acesse em http://www.
Pensando por aí, temos ao menos ihuonline.unisinos.br/edicao/538. (Nota da IHU On-Line) Alencar5, Taunay6 e outros, ficou
2 Graciliano Ramos (1892-1953): escritor alagoano, nas-
duas grandes formações literárias cido em Quebrângulo. Autor de numerosas obras, vá-
rias delas adaptadas para o cinema, como Vidas secas e mero 73, de 1-9-2003. Entre as principais obras do escritor,
no Brasil — uma, a mais evidente e Memórias do cárcere, em 1963 e 1983, respectivamente, destacamos Cancioneiro Guasca (1910), Contos Gauches-
conhecida, é a literatura produzida por Nelson Pereira dos Santos. Vidas secas foi o objeto cos (1912), Lendas do Sul (1913), Casos do Romualdo e o
de estudo do Ciclo de Estudos sobre o Brasil, de 17-6- primeiro volume de Terra Gaúcha, estes dois últimos sur-
no âmbito do litoral, quer dizer, das 2004, no IHU. Quem conduziu o debate foi a professora gidos muito tempo após sua morte, em 1950. (Nota da
Célia Dóris Becker. Confira uma entrevista que a professo- IHU On-Line)
cidades de algum modo ligadas ao ra concedeu sobre o tema na 105ª edição da IHU On-Li- 5 José de Alencar (1829-1877): jornalista, político, ad-
regime da “plantation”, que expres- ne, de 14-6-2005, disponível em https://goo.gl/bHDxB0. vogado, orador, crítico, cronista, polemista, romancista
Confira, também, a edição 274, de 22-9-2008, intitulada e dramaturgo nascido no Ceará. Formou-se em Direito,
sam, nas letras impressas, basica- Josué de Castro e Graciliano Ramos. A desnaturalização iniciando-se na atividade literária no Correio Mercantil e
mente o ponto de vista dos luso-bra- da fome, disponível em http://www.ihuonline.unisinos.br/ Diário do Rio de Janeiro. Foi o fundador do romance de
edicao/274. (Nota da IHU On-Line) temática nacional. Escreveu diversas obras, entre elas O
sileiros (de Salvador, de Ouro Preto, 3 Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990): foi um guarani (1857), Iracema (1865) e Senhora (1875). Na car-
jurista, político, historiador, professor, ensaísta e crítico reira política, defendeu tenazmente a escravidão no Brasil,
do Rio, do Recife, um pouco de Porto brasileiro. Destaca-se pela autoria da Lei Afonso Arinos quando ministro da Justiça do segundo reinado. (Nota da
Alegre ou Curitiba e outras cidades contra a discriminação racial em 1951. Ocupou a Cadeira IHU On-Line)
25 da Academia Brasileira de Letras, onde foi eleito em 23 6 Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay ou Vis-
semelhantes etc.), e que também de janeiro de 1958. (Nota da IHU On-Line) conde de Taunay (1843-1899): foi um escritor, músico,
4 João Simões Lopes Neto (1865-1916): escritor gaúcho. professor, engenheiro militar, político, historiador e so-
expressam, nas letras cantadas, na A ele a revista IHU On-Line dedicou a edição 73, chamada ciólogo brasileiro. Foi um dos fundadores da Academia
canção (que evidentemente é uma João Simões Lopes Neto: força da literatura brasileira e lati- Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira n.° 13. Também
no-americana. O oitavo número dos Cadernos IHU Ideias é o patrono da Cadeira n.° 17 da Academia Brasileira de
forma literária, ou ao menos tam- é intitulado Simões Lopes Neto e a Invenção do Gaúcho, de Música. Alfredo Taunay nasceu no Rio de Janeiro, em
autoria da Profª Drª Márcia Lopes Duarte, professora do uma família aristocrática de origem francesa. Inconfor-
bém literária), o ponto de vista dos Centro de Ciências da Comunicação da Unisinos. A publi- mado com a queda do Partido Conservador, Taunay re-
afro-brasileiros (nas mesmas cida- cação tem como base a apresentação da professora no
IHU Ideias de 4-9-2003. É possível conferir sobre o autor
tirou-se da vida política em 1878, deixando o país para
estudar, durante dois anos, na Europa. Recebeu o título
des e regiões). uma entrevista concedida por Márcia à IHU On-Line nú- nobiliárquico de visconde de Taunay de D. Pedro II em 6

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

claro que esse mundo interior ti- que dali também brotaria literatura, Brasil para além da experiência
nha matéria-prima relevante para arte, de grande valor. Nesse proces- urbana focada nas classes mé-
saber como era o país e a nação, as- so se pode ver, com o curso dos anos, dias e nas regiões centralizadas?
sim como tinha palavra oral. O que que “Brasil” deixou de ser o que era
Luís Augusto Fischer – Para
os letrados urbanos fizeram, de lá e passou a ser, nas melhores inter-
dar apenas uma razão: porque esse
para cá, foi escrever essa tradição, pretações (ainda meio raras), uma
mundo interior, o mundo do sertão,
recriando-a, com maior ou menor realidade multifacetada.
o mundo que era o do fio do bigode,
qualidade e amplitude. Dá para di-
o mundo da palavra falada e sem es-
zer, acompanhando muitos antro- crita, o mundo a cavalo ou a barco,
pólogos, que para esse povo a ideia
de “Brasil” era, em grande parte das “Se há mesmo é de uma imensa riqueza, capaz de
transformar para melhor nossa vida,
vezes, uma mera abstração, uma pa-
lavra desencarnada, e que portan- algo que seja pelos ensinamentos que oferece e
que podem nos livrar de uns quantos
to não existe para eles um proble-
ma chamado “Brasil”, quer dizer, o comum a toda impasses civilizatórios.

“Brasil” não era nem de longe uma


preocupação para eles, ao contrário a produção IHU On-Line – Há, desde a
do que ocorria nas cidades, especial-
mente no Rio de Janeiro do século
literária feita década de 1990, uma série de
produções textuais, de ficção
XIX, capital do novo país, que por
isso mesmo se sentia no compromis-
no território e não-ficção, de autores indí-
genas. Como o senhor percebe
so de enunciar, também na literatu-
ra, os contornos dessa experiência
brasileiro, esse movimento de crescimen-
to da literatura ameríndia no
nova de independência. Quer dizer, esse ponto contexto nacional? Quais seus
o tema da busca da identidade nacio- significados culturais e políti-
nal, a busca por definir “Brasil”, foi em comum cos?

é a língua
42 uma verdadeira luta explícita entre
Luís Augusto Fischer – Creio
os letrados do Rio (e de algumas ou-
que em pouco tempo, uma geração
tras cidades), mas não uma questão
de vida para os homens e mulheres portuguesa” a mais talvez, teremos coisa nova
em qualidade superior. O que temos
do grande sertão brasileiro, de sul a agora, se não me falha a percepção,
norte, de leste a oeste. Eles simples- é ótima literatura mas ainda focada,
mente viviam e sonhavam e conta- basicamente, aos públicos infantis
vam histórias — mas com o tempo IHU On-Line – De que forma (mais) e adolescentes (menos). Não
essa matéria toda vai alcançar a letra a literatura, por exemplo, de é pouco, mas ainda não é tudo. Pre-
escrita (e a letra gravada da canção, Guimarães Rosa, especialmen- cisamos deixar o tempo fazer seu
também), de forma que a ideia de te Grande Sertão: Veredas, serviço, oferecendo aos escritores
“Brasil”, antes desenhada apenas traz à baila um Brasil que tende as condições para que na literatura,
nas cidades litorâneas, passou a a ser sistematicamente esque- em suas várias formas, apareça algo
ganhar também o enunciado des- cido pelo Estado e mesmo pela tão sublime quanto, por exemplo, o
sa outra gente. Quando os letrados literatura? extraordinário caso de A queda do
citadinos olharam com preconceito Luís Augusto Fischer – Basica- céu. Palavras de um xamã yano-
urbanocêntrico para essa realidade, mente dando a palavra a um homem mami (São Paulo: Companhia das
a chamaram (e ainda a chamam), (imaginado) daquele mundo, e encon- Letras, 2015), esse monumento que
ou a condenaram, de “regionalista”, trando uma forma narrativa potente é antropológico mas também me-
termo que rebaixa o objeto a que se (mescla de contador de causo, me- morialístico e algo literário também
refere por sugerir que ela se opõe a morialista e pecador se confessando) (tomando esta última adjetivação
outra coisa, a outra dimensão, que e uma linguagem adequada (fala de em seu sentido clássico ocidental,
se chama talvez “universal”, ou “cos- sertanejo transfigurada artisticamen- quer dizer, literário como ficcio-
mopolita”, ou “nacional”. Mas quan- te). Guimarães Rosa nos dá a ver, e a nal e poético). Ao mesmo tempo, é
do outros letrados, tanto nascidos na sentir, o ponto de vista de quem é de preciso mudar nosso ponto de vista
região da “plantation” quanto oriun- lá de dentro, que vem de lá de onde o sobre o que já existe em matéria de
dos do mesmo sertão, se puseram a Estado quase não chega, nem mesmo literatura feita sobre o mundo indí-
dar a palavra para este mundo inte- para fazer valer a lei elementar. gena, o mundo ameríndio. Para isso,
riorano adequadamente, ficou claro há uma lição magnífica do livro da
Lúcia Sá7 intitulado Literaturas da
de setembro de 1889. Com a proclamação da República
naquele mesmo ano, Taunay deixou a política para sem-
IHU On-Line – Qual a impor-
pre. (Nota da IHU On-Line) tância de se pensar e escrever o 7 Lucia Sá: é professora de Estudos Brasileiros na Univer-

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REVISTA IHU ON-LINE

floresta - Textos amazônicos e cul- Andrade9, Darcy Ribeiro10) devem ser lidos como tendo produzido lite-
tura latino-americana (Rio de Ja- ratura escrita em diálogo com a lite-
neiro: EDUERJ, 2012), que resolve da crônica no país. Fundador da Academia Brasileira de ratura oral, e portanto como tendo
Letras. Sobre o escritor, há duas edições da IHU On-Li-
um problema antigo — ela mostra ne: 262, de 16-6-2008, intitulada Machado de Assis: um feito literatura que de algum modo
que escritores não-índios que escre- conhecedor da alma humana, disponível em http://bit.ly/ pertence também aos ameríndios.
ihuon262, e 275, de 29-9-2008, intitulada Machado de As-
veram sobre o mundo indígena (de sis e Guimarães Rosa: intérpretes do Brasil, disponível em Com o livro da Lúcia Sá, creio que
https://bit.ly/2oHHiQt. (Nota da IHU On-Line)
Alencar em diante no Brasil, passan- 9 Mário de Andrade (1893-1945): nascido em São Paulo, ingressamos em outro momento da
poeta, romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte compreensão do fenômeno literário
do por Machado de Assis8, Mário de e fotógrafo brasileiro. Um dos fundadores do modernis-
mo brasileiro, praticamente criou a poesia moderna bra- no que se refere a essa relação entre
sileira com a publicação de seu livro Paulicéia desvairada,
sity of Manchester (Inglaterra). Após concluir a graduação em 1922. Foi a força motriz por trás da Semana de Arte ocidente e mundo ameríndio, entre
e o mestrado na Universidade de São Paulo (USP), obteve Moderna, evento ocorrido em 1922 que reformulou a lite- literatura ocidental e a tradição poé-
o título de Ph.D. pela Indiana University (Departamentos ratura e as artes visuais no Brasil. Exerceu uma influência
de Comparative Literature e Spanish and Portuguese). Foi enorme na literatura moderna brasileira e, como ensaísta tica oral dos nativos.■
também professora associada do Departamento de Spa- e estudioso (foi um pioneiro do campo da etnomusicolo-
nish and Portuguese no Center for Latin American Studies gia), sua notoriedade transcendeu as fronteiras do Brasil.
and Program on Urban Studies da Stanford University (Es- Andrade foi a figura central do movimento de vanguarda o Museu do Índio. Foi professor de etnologia e linguística
tados Unidos). (Nota da IHU On-Line) de São Paulo por vinte anos. Seu romance Macunaíma foi tupi na Faculdade Nacional de Filosofia e dirigiu setores de
8 Machado de Assis [Joaquim Maria Machado de Assis] publicado em 1928. (Nota da IHU On-Line) pesquisas sociais do Centro de Pesquisas Educacionais e
(1839-1908): escritor brasileiro, considerado o pai do re- 10 Darcy Ribeiro (1922-1977): etnólogo, antropólogo, da Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo,
alismo no Brasil, escreveu obras importantes como Me- professor, educador, ensaísta, romancista e político minei- além de ocupar, no biênio 1959-1961, o cargo de presi-
mórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Quincas ro. Completou o curso superior na Escola de Sociologia e dente da Associação Brasileira de Antropologia. Foi eleito
Borba e vários livros de contos. Também escreveu poesia e Política de São Paulo, em 1946. Trabalhou como etnólo- em 8 de outubro de 1992 para a Cadeira nº. 11 da Acade-
foi um ativo crítico literário, além de ser um dos criadores go no Serviço de Proteção ao Índio e, em 1953, fundou mia Brasileira de Letras. (Nota da IHU On-Line)

Leia mais
- Antonio Candido foi o intelectual mais destacado de sua geração. Entrevista especial
com Luís Augusto Fischer, publicada na revista IHU On-Line nº 528, de 17-9-2018, disponível 43
em http://bit.ly/2MMs0Wt;
- A polêmica tentativa de embranquecer Machado de Assis. Entrevista especial com Luís
Augusto Fischer, publicada na revista IHU On-Line nº 517, de 18-12-2017, disponível em
https://bit.ly/2x1M8fn.
- Crise do Rio Grande do Sul também é fruto do desprezo dos governantes pela cultura
letrada. Entrevista especial com Luís Augusto Fischer, publicada na revista IHU On-Line nº
510, de 4-9-2017, disponível em https://bit.ly/2wYu7iu.
- Bravata é a mais legítima expressão do gaúcho. Entrevista especial com Luís Augusto
Fischer, publicada na revista IHU On-Line nº 493, de 19-9-2016, disponível em https://bit.
ly/2N04ZCa.
- Machado “nunca foi um lutador de praça pública”. Entrevista especial com Luís Augusto
Fischer, publicada na revista IHU On-Line nº 275, de 29-9-2008, disponível em https://bit.
ly/2N6sIko.
- “Cem anos de solidão foi uma revelação”. Entrevista especial com Luís Augusto Fischer,
publicada na revista IHU On-Line nº 221, de 28-5-2007, disponível em https://bit.ly/2O5fKj9.

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

Viver a ciência do vestígio errático,


mas sobretudo viver
Flávia Cêra retoma o pensamento de Oswald de Andrade
para pensar vieses do matriarcado em perspectiva com
os desafios políticos contemporâneos
Ricardo Machado

N
ão há possibilidade da políti- a utopia e muito mais o método que ele
ca sem o encontro dos corpos, nos deixou, a saber, ‘a ciência do vestí-
sem a ocupação dos espaços gio errático’ que retira o patriarcado de
onde a vida acontece. Não por acaso, é um horizonte estável e estanque e tam-
próprio de um tipo de política patriar- bém nos tira de uma espera paralisante
cal a tentativa de estabelecer limites, os de um ‘outro mundo possível’”, aponta.
mais variados, como tentativa de con- É o movimento que mobiliza a trans-
trole e disciplinamento, que são as ba- formação e de onde a democracia se
ses que dão sustentação ao patriarcado. converte em algo, no fundo, real. “Tal-
Enriquecer as formas de vida pode ser o vez tenhamos que abrir mão de saber
antídoto contra os males da repressão. ‘como’ fazer, no sentido prescritivo,
“O matriarcado poderia ser retomado para ir fazendo, para sair um pouco da
no avesso da proposição dominante que imobilidade das estratégias bem defi-
44 é a extrema precarização dos modos. nidas, dos horizontes bem marcados,
Sempre me lembro do Eduardo Vivei- dos ideais muito puros e mergulhar
ros de Castro dizendo da transformação nas contingências. A imaginação polí-
do índio em pobre. O que implica, para tica que governa o país tem cheiro de
além das relações materiais, uma perda morte: das instituições, da educação,
de contato com o mundo e com a vida. da população. Por isso, aproveitar toda
É por aí”, pondera a psicanalista Flá- e qualquer manifestação na política que
via Cêra, em entrevista por e-mail à seja capaz de transmitir um desejo que
IHU On-Line. se enlace com a democracia é vital”,
complementa.
A inspiração antropofágica, nos ter-
mos de Oswald de Andrade, se orienta Flávia Cêra é psicanalista, membro
por um desejo de conexão com os cor- da Escola Brasileira de Psicanálise e
pos e com a vida. “A antropofagia é um da Associação Mundial de Psicanálise.
modo de manter pulsante o apetite pela Doutora em Literatura pela Universi-
vida, uma relação de interesse pela di- dade Federal de Santa Catarina - UFSC.
ferença que faz valer a lei do antropófa- Coordenadora do Núcleo de Pesquisa
go: ‘só me interessa o que não é meu’. E sobre Psicanálise e Cultura na Escola
nesse sentido, acho que o mais interes- Brasileira de Psicanálise - EBP-PR.
sante da proposta oswaldiana é menos Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os li- do todo com suas leis e ordens, mas esforços para disciplinar e contro-
mites das políticas oriundas do sempre existiram seus excessos, o lar. Por outro lado, ele também se
patriarcado e como elas se ma- que ele não pode comportar: seja o deparou com os limites do mundo,
nifestam na atualidade? louco, a mulher, o índio, a criança. do planeta. Sua fúria de dominação
Flávia Cêra – Esse é o princípio O limite do patriarcado, para dar teima em alcançar pontos irreversí-
da sua fundação: estabelecer limi- uma “forma”, é o ingovernável dos veis para a existência da vida huma-
tes. O patriarcado tenta dar conta corpos contra o qual ele não medirá na e não-humana.

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REVISTA IHU ON-LINE

Hoje, me parece, o patriarcado se passagem que ele assinala da biopo- IHU On-Line – De que forma
manifesta, paradoxalmente, contra lítica para a necropolítica marca um Oswald de Andrade se coloca
o fracasso dele mesmo, por isso, tal- ponto de virada na lógica patriarcal em oposição a Freud e sua psi-
vez, o emprego de tanta violência e (para pior, é claro). O que não quer canálise no Manifesto Antro-
ódio a céu aberto. Poderíamos pen- dizer que tenhamos que voltar a ela. pófago?
sar que se trata da tentativa da ma-
Nesse sentido, o matriarcado pode- Flávia Cêra – Oswald leu, muito
nutenção de uma ordem que quer
ria ser retomado no avesso da pro- cedo (o manifesto é de 1924, mas
prescindir do discurso. Daí toda sor-
posição dominante que é a extrema antes ele já falava de Freud3), o
te de absurdos naturais, biológicos,
precarização dos modos. Sempre fracasso da centralidade do pai na
religiosos que, regados com uma boa
me lembro do Eduardo Viveiros de teoria freudiana e fez uma crítica
dose de fake news, vêm fazer uma
Castro dizendo da transformação tão interessante quanto inteligen-
suplência de sentido para tentar fa-
do índio em pobre. O que implica, te apontando para o que ficava fora
zer coincidir, corpo e organismo,
para além das relações materiais, dessa lógica. E, ao mesmo tempo,
sexo e gênero, e coisas do tipo. Não
uma perda de contato com o mun- bebeu muito dessa fonte. Mas ainda
parece mero acaso, portanto, que o
do e com a vida. É por aí. Como fa- penso que é mais interessante, senão
golpe fatal que pretende a política
zer de outro jeito? Me parece que o urgente, ler Oswald com Freud em
do patriarcado seja o da abolição da
matriarcado de Oswald vem ajudar vez de Oswald contra Freud (ou, pior
política numa vã, mas não menos
aí num ponto fundamental, sobre- ainda, Freud contra Oswald).
violenta, tentativa de eliminar os es-
tudo, em relação à antropofagia que
paços onde a vida acontece, onde se
entende a vida como “devoração IHU On-Line – Os mal-estares
travam as batalhas.
pura”. Ou seja, a antropofagia é um moderno, nos termos de Freud,
modo de manter pulsante o apetite e pós-moderno, nos termos de
IHU On-Line – Como se ca- pela vida, uma relação de interesse Bauman4, possuem raízes psi-
racterizam as políticas da exis- pela diferença que faz valer a lei do canalíticas que se convertem
tência de viés patriarcal e a ma- antropófago: “só me interessa o que em dilemas sobre nossas for-
triarcal? Quem mundos cada não é meu”. E nesse sentido, acho mas de vida. Diante de tal con-
uma delas produz? que o mais interessante da proposta texto, como irrigar nossa ima- 45
Flávia Cêra – Não sei se vou res- oswaldiana é menos a utopia e muito ginação política?
ponder exatamente essa pergunta, mais o método que ele nos deixou, a
saber, “a ciência do vestígio errático” Flávia Cêra – São dois regimes
mas ela me levou a outra. Quanto
que retira o patriarcado de um hori- distintos: o primeiro proíbe de fazer, o
ao mundo patriarcal, como eu disse
zonte estável e estanque e também segundo manda fazer. É uma mudan-
acima, me parece que ele topou com
nos tira de uma espera paralisante ça que incide nas modalidades discur-
alguns limites ou que seus limites
de um “outro mundo possível”. Cabe sivas que daria para situar em Lacan5
se romperam. Embora exista a pro-
priedade privada, o Estado etc., as a nós encontrarmos esses vestígios,
coisas mudaram. Será que podemos que são também, ao modo de Clari- 3 Sigmund Freud (1856-1939): neurologista nascido em
Freiberg, Tchecoslováquia. É o fundador da psicanálise. In-
pensar, por exemplo, essa genera- ce2, os “sopros de vida”, fazer alguma teressou-se, inicialmente, pela histeria e, tendo como mé-
coisa com eles, abrir algumas bre- todo a hipnose, estudou pessoas que apresentavam esse
lização do empreendedorismo de quadro. Mais tarde, interessado pelo inconsciente e pelas
chas porque o ar está irrespirável. pulsões, foi influenciado por Charcot e Leibniz, abando-
si mesmo dentro de uma lógica pa- nando a hipnose em favor da associação livre. Estes ele-
triarcal ou teríamos que dar algum mentos tornaram-se bases da psicanálise. Desenvolveu a
ideia de que as pessoas são movidas pelo inconsciente.
outro nome? Ultimamente eu tenho Freud, suas teorias e o tratamento com seus pacientes
foram controversos na Viena do século 19 e continuam
pensado sobre isso lendo Achille Crítica da razão negra (Lisboa: Antígona, 2014), o autor ainda muito debatidos. A edição 179 da IHU On-Line, de
Mbembe1. Tenho a impressão que a elabora sobre o conceito de “Negro”, sobre a evolução 8-5-2006, dedicou-lhe o tema de capa sob o título Sig-
do pensamento racial europeu que o origina e sobre as mund Freud. Mestre da suspeita, disponível em http://bit.
máscaras usadas para o cobrir com um manto de invisi- ly/ihuon179. A edição 207, de 4-12-2006, tem como tema
bilidade. O texto é profundamente teórico, permeado por de capa Freud e a religião, disponível em https://goo.gl/
1 Joseph-Achille Mbembe, conhecido como Achille uma filosofia política latente: além de ser um acadêmico wL1FIU. A edição 16 dos Cadernos IHU em formação
Mbembe (1957): é um filósofo e cientista político. Natural de referência, Mbembe é também um acadêmico compro- tem como título Quer entender a modernidade? Freud ex-
de Otélé, em Camarões Franceses, obteve seu Ph.D. em metido com o tema. (Nota da IHU On-Line) plica, disponível em http://bit.ly/ihuem16. (Nota da IHU
História na Universidade de Sorbonne, em Paris, França, 2 Clarice Lispector (1920-1977): escritora nascida na On-Line)
em 1989. Referência acadêmica no estudo do pós-colo- Ucrânia. De família judaica, emigrou para o Brasil quando 4 Zygmunt Bauman (1925-2017): sociólogo polonês, pro-
nialismo e pensador das grandes questões da história e tinha apenas dois meses de idade. Em 1944, publicou seu fessor emérito nas Universidades de Varsóvia, na Polônia
da política africana – apesar de, ele próprio, não se definir primeiro romance, Perto do coração selvagem. A literatura e de Leeds, na Inglaterra. Publicamos uma resenha do seu
como “teórico do pós-colonialismo”. É professor de Histó- brasileira era nesta altura dominada por uma tendência livro Amor Líquido (São Paulo: Jorge Zahar Editores, 2004),
ria e Ciência Política na Universidade Duke (Virgínia, Esta- essencialmente regionalista, com personagens contando a na 113ª edição da revista IHU On-Line, de 30-8-2004,
dos Unidos) e na Universidade Witswatervand (Joanesbur- difícil realidade social do país na época. Lispector surpre- disponível em http://bit.ly/ihuon113. Publicamos uma
go, África do Sul), além de pesquisador no Wits Institute endeu a crítica com seu romance, quer pela problemática entrevista exclusiva com Bauman na IHU On-Line edição
for Social and Economic Research (WISER) dessa mesma de caráter existencial, completamente inovadora, quer 181 de 22-5-2006, disponível para download em http://
universidade. É um autor conhecido, tanto pelos seus arti- pelo estilo solto, elíptico e fragmentário, reminiscente de bit.ly/ihuon181. Por ocasião de sua morte, o IHU, na seção
gos nas versões em espanhol do Le Monde Diplomatique James Joyce e Virginia Woolf. Seu romance mais famoso Notícias do Dia de seu sítio, publicou diversos textos so-
como pelas suas contribuições para os livros coordena- é A hora da estrela, o último publicado antes de sua mor- bre a importância de Bauman para compreender o nosso
dos por Gilles Kepel, As políticas de Deus (A proliferação te. Neste livro, a vida de Macabéa, uma nordestina criada tempo. Entre eles, Zygmunt Bauman representava algum
do divino na África subsaariana); Jérôme Bindé, Para onde no estado Alagoas que vai morar em uma pensão no Rio conforto em um mundo cada vez mais cinzento, artigo de
vão os valores?: colóquios do século XXI (Do racismo como de Janeiro, tendo sua vida descrita por um escritor fictício Ricardo Lísias, reproduzido em 10-1-2017, disponível em
prática da imaginação); Fernando López Castellano, De- chamado Rodrigo S.M. Sobre a autora, confira a edição http://bit.ly/2mUoJFm. Leia mais em ihu.unisinos.br/mais-
senvolvimento: Crónica de um desafio permanente (Poder, 228 da IHU On-Line, de 16-7-2008, intitulada Clarice Lis- noticias/noticias. (Nota da IHU On-Line)
violência e acumulação) e Okwui Enwezor, O desacolhedor. pector. Uma pomba na busca eterna pelo ninho, disponível 5 Jacques Lacan (1901-1981): psicanalista francês. Re-
Cenas fantasma na sociedade global (Necropolítica). Em em https://bit.ly/2PEIJKS. (Nota da IHU On-Line) alizou uma releitura do trabalho de Freud, mas acabou

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

entre o discurso do mestre e o discurso cada vez maior das mulheres na políti- po democrático tem a ver com isso,
capitalista. Este último, na verdade, é ca, seja ela institucional ou não, em um uma batalha pelos usos da língua, seu
um falso discurso porque não faz laço país como o Brasil é, ela mesma, uma jogo se dá nas tensões da língua. Ou
ou porque não serve de borda para o pergunta sobre o seu papel. E quanto ao menos é o que se espera dele. Uma
gozo, mas, ao contrário, manda gozar. mais aberto à diferença são os movi- das coisas mais espantosas desse mo-
Bem, isso somado ao ódio inflama- mentos que se reúnem em torno das mento é, para usar o termo da moda,
do que é suscitado por toda parte só pautas das mulheres, mais interessan- a corrupção da palavra, quando não a
pode dar muito errado como política te eles se tornam porque mostram que supressão da mesma. A reinvenção da
porque rompe com qualquer pacto de os direitos reprodutivos, o feminicídio, política precisa, necessariamente, pas-
civilidade. Como irrigar a imaginação o racismo etc., não são “problemas” das sar por uma reinvenção do discurso
política? Difícil saber de antemão. Tal- mulheres ou “questões” de gênero, mas sobre a democracia incluindo aí a “con-
vez tenhamos que abrir mão de saber sintomas de uma sociedade, de como tribuição milionária de todos os erros”.
“como” fazer, no sentido prescritivo, ela se estrutura e não cessa de se repro-
para ir fazendo, para sair um pouco da duzir sobre um sexismo violento que já
IHU On-Line – Como a arte
imobilidade das estratégias bem defi- não pode mais caber.
pode nos inspirar a pensar no-
nidas, dos horizontes bem marcados, vos caminhos políticos e novas
dos ideais muito puros e mergulhar formas de vida, enfim, outras
nas contingências. A imaginação po-
lítica que governa o país tem cheiro
“A imaginação ontologias?
de morte: das instituições, da educa-
ção, da população. Por isso, aprovei-
política que Flávia Cêra – Tem uma frase do
Hélio Oiticica6 que eu gosto muito:
tar toda e qualquer manifestação na governa o país a arte não é a produção infinita do
objeto, é a criação de uma possibili-
política que seja capaz de transmitir
um desejo que se enlace com a demo- tem cheiro dade de vida. A arte é um dos instru-
mentos essenciais para nosso tempo,
cracia é vital.
de morte: das sempre é, mas nesse, especialmente,
46 IHU On-Line – Como você vê o
papel das mulheres na reinven-
instituições, da ela figura como uma máquina de
guerra. E é nesse sentido que ela tem
ção política do Brasil? educação, da muito a ver com a psicanálise: tan-
to uma quanto a outra não são dis-
Flávia Cêra – Como múltiplo, vivo
e corajoso. Acho que o movimento que
população” cursos de poder. No entanto, ques-
tionam a língua do poder e, assim,
criou o #ELENÃO passa por isso que inventam a vida, inventam línguas,
eu falava acima: de não recuar diante se enlaçam com o mundo e são, fun-
do pior, mas colocando em cena o de- IHU On-Line – Se estamos (e damentalmente, subversivas. ■
sejo de democracia. Pudemos ver como parece que estamos) diante de
mulheres desejantes desconcertam o um cenário precário de imagi-
6 Hélio Oiticica (1937-1980): pintor, escultor, artista plás-
tico e performático de aspirações anarquistas. É conside-
coro dos contentes. Por isso, a presença nação política, como os erros, rado por muitos um dos artistas mais revolucionários de
seu tempo e sua obra experimental e inovadora é reco-
“a contribuição milionária de nhecida internacionalmente. Em 1959, fundou o Grupo
por eliminar vários elementos deste autor. Para Lacan, o Neoconcreto, ao lado de artistas como Amilcar de Castro,
inconsciente determina a consciência, mas ainda assim todos os erros”, dirá Oswald no Lygia Clark, Lygia Pape e Franz Weissmann. Na década de
constitui apenas uma estrutura vazia e sem conteúdo. 1960, Hélio Oiticica criou o Parangolé, que ele chamava de
Confira a edição 267 da revista IHU On-Line, de 4-8-2008,
Manifesto Poesia Pau-Brasil, “antiarte por excelência” e uma pintura viva e ambulante.
intitulada A função do pai, hoje. Uma leitura de Lacan, podem nos inspirar de reinven- O Parangolé é uma espécie de capa (ou bandeira, estan-
disponível em http://bit.ly/ihuon267. Sobre Lacan, confira darte ou tenda) que só mostra plenamente seus tons, co-
as seguintes edições da revista IHU On-Line, produzidas ção política? res, formas, texturas, grafismos e textos (mensagens como
tendo em vista o Colóquio Internacional A ética da psica- “Incorporo a Revolta” e “Estou Possuído”), e os materiais
nálise: Lacan estaria justificado em dizer “não cedas de teu
desejo”? [ne cède pas sur ton désir]?, realizado em 14 e 15
Flávia Cêra – Vou retomar o con- com que é executado (tecido, borracha, tinta, papel, vidro,
cola, plástico, corda, palha) a partir dos movimentos de
de agosto de 2009: edição 298, de 22-6-2009, intitulada texto da frase de Oswald: ele estava se alguém que o vista. Por isso, é considerado uma escultura
Desejo e violência, disponível em https://bit.ly/2HMLQAW, móvel. Em 1965, foi expulso de uma mostra no Museu de
e edição 303, de 10-8-2009, intitulada A ética da psicaná- referindo ao uso da língua. E é, sem Arte Moderna do Rio de Janeiro por levar ao evento inte-
lise. Lacan estaria justificado em dizer “não cedas de teu
desejo”?, disponível em https://bit.ly/2KApKzk. (Nota da
dúvida, uma das frases mais bonitas grantes da Mangueira vestidos com parangolés. A experi-
ência dos morros cariocas fazia parte da dimensão da sua
IHU On-Line) da língua portuguesa. Porque o cam- obra. (Nota da IHU On-Line)

Leia mais
- A lógica de extermínio perde o véu, está em praça pública. Entrevista especial com
Flávia Cêra, publicada na Revista IHU On-Line, nº 523, de 4-6-2018, disponível em http://bit.
ly/31uFVp7.

21 DE OUTUBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

O bárbaro tecnizado é a possibilidade


humana de olhar para um futuro próspero
Éder Silveira discute a obra de Mário de Andrade, ressaltando as
intuições do movimento modernista no Brasil e resgata conceitos
importantes para pensarmos a contemporaneidade
Ricardo Machado

P
ensar o Modernismo Brasilei- baro, no entanto com viés passadista.
ro como um movimento line- Bárbaros do passado que teima em per-
ar, pacífico e homogêneo é um manecer. Oswald afirmava que somos
equívoco enorme. Em entrevista por os bárbaros tecnizados, dominamos
e-mail à IHU On-Line, o professor a técnica do ocidente mas nos assu-
doutor Éder Silveira salienta que “coe- mimos como o novo, que aponta para
xistiram, no seio do que convenciona- o futuro”, ressalta o entrevistado. “A
mos chamar de modernismo brasilei- queda do Céu. Palavras de um xamã
ro, fortes tendências nacionalistas, de yanomami está entre os livros mais
pendor bastante romântico até, além importantes que foram publicados no
de profundamente reacionário e uma Brasil, em décadas. Sim, não é um exa-
compreensão mais cosmopolita, mais gero dizer que Kopenawa é nosso bár-
atenta ao que acontecia na literatura baro tecnizado, uma vez que no livro
europeia e latino-americana”, esclare- ele aponta soluções para problemas que 47
ce Silveira. “Na, por assim dizer, ‘fase são problemas de toda a humanidade,
heroica’ do modernismo, que vai até o desde uma cosmovisão, a um só tempo,
final da década de 1920, Mário de An- ameríndia e ocidental. Kopenawa nos
drade estava mais próximo da segunda oferece um caminho para sairmos da
tendência, ainda que fosse evidente em armadilha que criamos para nós mes-
seus trabalhos um interesse de pesqui- mos. Um projeto político e civilizatório.
sa etnográfica. Se Macunaíma conse- Oxalá A Queda do Céu seja a obra mes-
guiu fundir o interesse no folclore bra- tra da Revolução Caraíba e que se ouça
sileiro com um rigor formal que lembra a voz do homem equatorial”, sustenta.
em muito os esforços das vanguardas,
depois de Macunaíma Mário passa a se Éder da Silveira é doutor em His-
afastar deste registro vanguardista e se tória pela Universidade Federal do Rio
aproximar mais e mais da pesquisa et- Grande do Sul – UFRGS, com estágio
nográfica. Não seria exagero dizer que de Pós-doutorado realizado junto ao
Macunaíma foi o ápice e a despedida Departamento de História da Universi-
de um certo conjunto de preocupações, dade de São Paulo – USP. É autor de A
especialmente formais”, complementa. cura da raça: eugenia e higienismo no
pensamento médico sul-riograndense
Um longo, complexo e tecnológico fio
nas primeiras décadas do século XX
conecta Oswald de Andrade, Mário de
UPF, 2005, de Tupi or not tupi. Nação
Andrade e Davi Kopenawa, o líder ya-
e nacionalidade em José de Alencar e
nomami autor de uma das principais
Oswald de Andrade (Edipucrs, 2010)
obras de etnologia na contemporanei-
dade. “Oswald de Andrade, no Mani- e “Oswald ponta de lança e outros en-
festo Antropófago, fala do ‘bárbaro saios” (Bestiário, 2016). É professor na
tecnizado’, em parte respondendo ao Universidade Federal de Ciências da
pretenso líder do modernismo, Graça Saúde de Porto Alegre – UFCSPA.
Aranha, que defende nosso caráter bár- Confira a entrevista.

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

“Oswald afirmava que somos os


bárbaros tecnizados, dominamos
a técnica do ocidente mas
nos assumimos como o novo,
que aponta para o futuro”

IHU On-Line – O que significou autores que vendiam muito, como por nismo brasileiro, fortes tendências
a publicação de Macunaíma em exemplo Monteiro Lobato3, teremos a nacionalistas, de pendor bastante ro-
termos políticos e culturais na dimensão do que procuro destacar. Há mântico até, além de profundamente
ocasião de seu lançamento? um visível descompasso entre o im- reacionário (os movimentos Anta e
pacto que a obra teve entre a, digamos, Verdeamarelo) e uma compreensão
Éder Silveira – Macunaíma (São
elite letrada e o universo de leitores. O mais cosmopolita, mais atenta ao que
Paulo: Ubu Editora, 2017) teve a mes-
verdadeiro reconhecimento crítico de acontecia na literatura europeia e la-
ma sorte de muitas das grandes obras
Macunaíma, aliado à atração de um tino-americana. Na, por assim dizer,
do modernismo brasileiro: uma re-
maior público leitor da obra, viria so- “fase heroica” do modernismo, que vai
cepção crítica que podemos até consi-
mente cerca de uma década depois da até o final da década de 1920, Mário
derar numerosa frente ao número de
morte do autor, com a publicação de de Andrade estava mais próximo da
leitores que a obra conseguiu atrair.
Foram cerca de 13 resenhas desde a Roteiro de Macunaíma (Rio de Janei- segunda tendência, ainda que fosse
sua publicação, em julho de 1928, até ro: Civilização Brasileira, 1979), de M. evidente em seus trabalhos um inte-
48 dezembro do mesmo ano. Os grandes Cavalcanti Proença4 e das obras com- resse de pesquisa etnográfica. Se Ma-
nomes do modernismo na literatura, pletas de Mário de Andrade. Ou seja, cunaíma conseguiu fundir o interesse
como Mário de Andrade1, Oswald de uma canonização um tanto tardia de no folclore brasileiro com um rigor
Andrade2 e outros tantos, estavam ha- uma obra clássica. formal que lembra em muito os esfor-
bituados a números bastante modes- ços das vanguardas, depois de Macu-
tos. Macunaíma teve uma tiragem de naíma Mário passa a se afastar deste
IHU On-Line – Em linhas ge- registro vanguardista e se aproximar
apenas 800 exemplares, em brochura
rais, quais são as compreensões mais e mais da pesquisa etnográfica.
simples. Só veio a ser republicado em
1937, em uma edição bastante altera- de Mário de Andrade a respeito Não seria exagero dizer que Macuna-
da pelo autor, com apenas 1 mil exem- das noções de estética e cultura íma foi o ápice e a despedida de um
plares impressos. Se compararmos brasileira e como se configura certo conjunto de preocupações, espe-
com os números impressionantes de seu vanguardismo? cialmente formais.
Éder Silveira – Há uma transição
1 Mário de Andrade (1893-1945): nascido em São Paulo,
poeta, romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte no pensamento de Mário de Andrade IHU On-Line – O que o distan-
e fotógrafo brasileiro. Um dos fundadores do modernis- que é bastante importante para com- ciamento de Mário de Andrade
mo brasileiro, praticamente criou a poesia moderna bra-
sileira com a publicação de seu livro Paulicéia desvairada, preendermos o seu entendimento de em relação ao núcleo do Moder-
em 1922. Foi a força motriz por trás da Semana de Arte
Moderna, evento ocorrido em 1922 que reformulou a lite- alguns conceitos centrais do moder- nismo Brasileiro, em especial a
ratura e as artes visuais no Brasil. Exerceu uma influência nismo. Coexistiram, no seio do que Oswald, que passa a atacá-lo na
enorme na literatura moderna brasileira e, como ensaísta
e estudioso (foi um pioneiro do campo da etnomusicolo- convencionamos chamar de moder- Revista de Antropofagia, impac-
gia), sua notoriedade transcendeu as fronteiras do Brasil.
Andrade foi a figura central do movimento de vanguarda tou em sua literatura? Por que
de São Paulo por vinte anos. Seu romance Macunaíma foi 3 Monteiro Lobato [José Bento Monteiro Lobato)
publicado em 1928. (Nota da IHU On-Line) (1882-1948): escritor brasileiro popularmente conhecido houve esse desentendimento?
2 Oswald de Andrade (1890-1954): poeta, romancista e pelo tom educativo, bem como divertido de sua obra de
dramaturgo. Nasceu em São Paulo e estudou na Faculda- livros infantis, o que seria, aproximadamente, metade de Éder Silveira – A relação entre os
de de Direito do Largo São Francisco. Oswald, Mário de sua produção literária. A outra metade, composta de ro-
Andrade, Tarsila do Amaral e Raul Bopp foram os idea- mances e contos para adultos, foi menos popular, mas um Andrades, duplos complementares do
lizadores do Modernismo no Brasil, na década de 1920, divisor de águas na literatura brasileira. Confira a edição modernismo brasileiro, pode ser lida
uma visão da país radicalmente vanguardista que rompia, 284 da IHU On-Line, de 1-12-2008, intitulada Monteiro
pela primeira vez em termos culturais, com o colonialis- Lobato: interlocutor do mundo, disponível em http://bit.ly/ de inúmeras maneiras, ainda que cos-
mo cultural vigente à época. É autor de uma vasta obra, ihuon284. Mais recentemente há todo um debate sobre
passando por críticas literárias, autoria de peças teatrais, a existência de elementos racistas em sua obra. (Nota da tume se sobressair uma tentativa de
romances e textos teóricos. Dentre sua obra, vale destacar IHU On-Line) transformar o embate dos autores em
o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Manifesto Antropófago e 4 Manuel Cavalcanti Proença (1905-1966): foi um ro-
Crise da Filosofia Messiânica, textos importantes no que mancista e crítico de literatura brasileira. Escreveu ensaios um roteiro de melodrama. Havia, desde
concerne à originalidade do pensamento nativo brasileiro ou livros sobre, entre outros, Augusto dos Anjos, Mário de
e que se colocam na crítica profunda à razão ocidental Andrade e Guimarães Rosa. Em seu romance Manuscrito o início da aventura modernista, uma
hegemonizada. Após a virada antropológica, em 1979, o
autor passou ocupar um papel de destaque na Antropolo-
holandês ou a peleja do caboclo Mitavaí com o monstro
Macobeba, revela grande influência destes dois últimos.
tensão entre vários dos autores que es-
gia brasileira. (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line) tavam reunidos em torno deste esfor-

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REVISTA IHU ON-LINE

ço de renovação estética. No final dos obra O mundo que nasce, de 1927, in- humanidade, como a relação do ho-
anos 1920, os interesses de Oswald de fluenciou tanto a Oswald quanto a Má- mem com a natureza, com a tecno-
Andrade se voltavam, cada vez mais, rio. Ambos partilhavam, nesta época, logia e com a ciência. Kopenawa nos
para a política e para a radicalização inúmeras leituras, como Keyserling, oferece um caminho para sairmos da
estética em sua obra. Ele acreditava Freud7 e James Frazer8, portanto há armadilha que criamos para nós mes-
que o esforço de Mário de Andrade em inúmeros diálogos possíveis entre Ma- mos. Um projeto político e civilizató-
mergulhar no folclore brasileiro aca- cunaíma e o Manifesto Antropófago. rio. Oxalá A Queda do Céu seja a obra
bava resvalando em certo passadismo. mestra da Revolução Caraíba e que se
Mário, que no final das contas deseja- ouça a voz do homem equatorial.
va ser um maître à penser (o número IHU On-Line – Fazendo um sal-
de cartas e de comentários aos jovens to enorme, em que sentido pode-
autores que buscavam seus conselhos ríamos compreender Davi Kope- IHU On-Line – Retomando Má-
é um bom indicativo disto), sentia- nawa, autor de A queda do céu, rio de Andrade, qual a importân-
se acuado pelas críticas de Oswald e como nosso bárbaro tecnizado? cia do autor na construção de uma
pela posição que ele buscava assumir. outra noção de nacionalidade,
Éder Silveira – A queda do Céu.
Macunaíma, obra composta com zelo fora do esquema patriótico, via de
Palavras de um xamã yanomami
por Mário, foi a gota d’água. A recep- regra conservador e elitista?
(São Paulo: Companhia das Letras,
ção amarga da obra pela Revista de 2015) está entre os livros mais impor- Éder Silveira – Desde a década
Antropofagia, cujo tom foi dado por tantes que foram publicados no Brasil, de 1920, a obra de Mário de Andrade
Oswald, sepultou a amizade de ambos em décadas. Sim, não é um exagero se consolida sobre um tripé, qual seja,
e, com isso, o seu diálogo. dizer que Kopenawa9 é nosso bárba- o popular, o internacional e o folcló-
ro tecnizado, uma vez que no livro ele rico-nacional. No seu tempo, muitos
aponta soluções para problemas que autores tiveram a preocupação com o
IHU On-Line – Como podemos
são problemas de toda a humanidade, estudo do folclore e da cultura popular,
entender o sentido da expressão
desde uma cosmovisão, a um só tem- sendo inclusive mais profundos do que
bárbaro tecnizado, formulada
po, ameríndia e ocidental. Não se trata Mário neste tema, tomo como exemplo
por Oswald de Andrade, outro
de um “índio” falando de problemas maior Câmara Cascudo10. Agora, o que
autor do Modernismo Brasilei-
de “índio”, por assim dizer. As respos- é diferente e, portanto, marcante na 49
ro? Como essa ideia se expressa
tas que ele oferece em sua obra tratam interpretação do autor de Macunaíma
na literatura de Mário de Andra-
de problemas que são problemas da é essa tentativa constante de elabo-
de, em especial em Macunaíma?
rar uma síntese, uma mediação entre
Éder Silveira – Oswald de Andra- Heidelberga e Viena. Viajou pelo mundo, em 1911. Resul- aquilo que de mais novo e por vezes
tou desta viagem um de seus livros mais conhecidos: Diário
de, no Manifesto Antropófago, fala do de Viagem de um Filósofo. É considerado um dos principais dissonante se produzia fora do país (a
“bárbaro tecnizado”, em parte respon- representantes da filosofia alemã não acadêmica e carac- correspondência e as redes de amigos
teriza-se por uma filosofia idealista imbuída de elementos
dendo ao pretenso líder do modernis- kantianos. Seu conceito de sabedoria aproxima-o do pen- que mantinham a biblioteca de Mário
samento oriental tradicional e, sobretudo indiano. Obras:
mo, Graça Aranha5, que defende nosso O Livro do Casamento, O Mundo em Formação, Europa, Do
de Andrade sempre atualizada são um
caráter bárbaro, no entanto com viés Sofrimento a Realidade e outras. (Nota da IHU On-Line) capítulo a parte em sua biografia), com
7 Sigmund Freud (1856-1939): neurologista nascido em
passadista. Bárbaros do passado que Freiberg, Tchecoslováquia. É o fundador da psicanálise. Inte- o mergulho no Brasil e na brasilidade.
ressou-se, inicialmente, pela histeria e, tendo como método
teima em permanecer. Oswald afir- a hipnose, estudou pessoas que apresentavam esse quadro.
Além das bastante lembradas viagens a
mava que somos os bárbaros tecniza- Mais tarde, interessado pelo inconsciente e pelas pulsões, foi Minas Gerais e da descoberta do Bar-
influenciado por Charcot e Leibniz, abandonando a hipnose
dos, dominamos a técnica do ocidente em favor da associação livre. Estes elementos tornaram-se ba- roco Mineiro, precisamos ter em vista
mas nos assumimos como o novo, que ses da psicanálise. Desenvolveu a ideia de que as pessoas são
movidas pelo inconsciente. Freud, suas teorias e o tratamento
a “Missão de pesquisas folclóricas”,
aponta para o futuro. Era dada a hora com seus pacientes foram controversos na Viena do século empreendida por Mário na década de
19 e continuam ainda muito debatidos. A edição 179 da IHU
do homem equatorial falar, como teria On-Line, de 8-5-2006, dedicou-lhe o tema de capa sob o títu- 1930. Acompanhado de uma equipe, os
dito Oswald em outro texto. Com esse lo Sigmund Freud. Mestre da suspeita, disponível em http://bit. registros musicais, poéticos e em vídeo
ly/ihuon179. A edição 207, de 4-12-2006, tem como tema de
movimento, o autor está afirmando capa Freud e a religião, disponível em https://goo.gl/wL1FIU. A trazidos por ele, por si só, deveriam ga-
edição 16 dos Cadernos IHU em formação tem como título
que não devemos nada ao ocidente, Quer entender a modernidade? Freud explica, disponível em rantir um lugar no panteão dos nossos
somos a matriz cultural do novo. Este http://bit.ly/ihuem16. (Nota da IHU On-Line) maiores pesquisadores. E isso foi ape-
8 James George Frazer (1854-1941): foi um influente an-
aforisma remete a autores como Ke- tropólogo nos primeiros estágios dos estudos modernos nas uma parte do esforço ciclópico de
de mitologia e religião comparada. (Nota da IHU On-Line)
yserling6, que esteve no Brasil e cuja 9 Davi Kopenawa Yanomami (1956): escritor e líder indí-
Mário em abarcar a brasilidade. ■
gena brasileiro. Ainda criança, viu a população de sua terra
natal ser dizimada por duas epidemias, ambas trazidas pelo
5 José Pereira da Graça Aranha ou Graça Aranaha (1868- contato com o homem branco. Trabalhou na Fundação Na-
1931): foi um escritor e diplomata brasileiro, e um imortal cional do Índio como intérprete. Mudou-se para a aldeia
da Academia Brasileira de Letras, considerado um autor Watorik+ na década de 1980. Casou-se com a filha do pajé 10 Luís da Câmara Cascudo (1898–1986): historiador, fol-
pré-modernista no Brasil, sendo um dos organizadores da e se tornou chefe do posto indígena Demini. Foi um dos clorista, antropólogo, advogado e jornalista brasileiro. Pas-
Semana de Arte Moderna de 1922. Devido aos cargos que responsáveis pela demarcação do território Yanomami em sou toda a sua vida em Natal e dedicou-se ao estudo da
ocupou na diplomacia brasileira em países europeus, ele 1992. Recebeu o prêmio ambiental Global 500 da ONU. cultura brasileira. Foi professor da Universidade Federal do
esteve a par dos movimentos vanguardistas que surgiam Em 2010, viu sua autobiografia La chute du ciel, escrita em Rio Grande do Norte - UFRN. Pesquisador das manifesta-
na Europa, tendo tentado introduzi-los, à sua maneira, na parceria com o antropólogo francês Bruce Albert, foi lança- ções culturais brasileiras, deixou uma extensa obra, inclu-
literatura brasileira, rompendo com a Academia Brasileira da na França. O livro teve tradução para o inglês, francês e sive o Dicionário do Folclore Brasileiro. A edição 126 dos
de Letras por isso em 1924. (Nota da IHU On-Line) italiano e sua edição em português saiu em 2015 A queda Cadernos IHU Ideias é intitulada Câmara Cascudo: um his-
6 Hermann Graf Keyserling (1880-1946): foi um escritor e do céu. Palavras de um xamã yanomami (São Paulo: Com- toriador católico, e pode ser lida em https://goo.gl/ouiL34.
filósofo alemão. Cursou as Universidades de Genebra, Tartu, panhia das Letras). (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 543
TEMA 08
TEMA DE CAPA

Uma vida no Chthuluceno


Fernando Silva e Silva analisa como a ficção científica, com
seus limites e possibilidades, nos instiga a pensar os desafios
do tempo presente e nutre nossa imaginação política
Ricardo Machado

N
ão é possível haver uma litera- Nesse trânsito entre literatura e filoso-
tura fora de uma dimensão po- fia, arte e ciência, a ficção científica tem
lítica. A questão não se reduz, o poder de jogar outras luzes sobre aqui-
de forma alguma, a espectros políticos, lo que parece ser insolúvel. “Precisamos,
mas, sim, a sua expressão em determi- portanto, elaborar um pensamento que
nadas condições de produção e circula- leve em conta a Terra, seus habitantes e
ção. Na ficção científica não é diferente. seu estado crítico de transição climáti-
“A ficção científica tem se tornado cada ca e, ao mesmo tempo, fundamente um
vez mais um gênero que abriga expe- projeto político consistente para a possi-
rimentações de todo tipo que alimen- bilidade de vida humana e não-humana
tam nossa imaginação política”, aponta no futuro”, propõe o entrevistado. “Ape-
Fernando Silva e Silva, em entrevis- sar de seu tom um pouco sombrio, por-
ta por e-mail à IHU On-Line. tanto, sobreviver no e pelo Chthuluceno
50 O termo Chthuluceno aparece, pela tem a ver com cultivar afetos alegres que
primeira vez, em um conto de H.P. criem conexões e aumentem nossa ha-
Lovecraft e descreve um ser monstru- bilidade coletiva de agir e de responder
oso com muitos tentáculos que vem do aos desafios atuais”, frisa.
subterrâneo e que é capaz, com seus
Fernando Silva e Silva possui gradu-
tentáculos, de se apropriar de tudo.
ação em Licenciatura em Letras Francês
Contemporaneamente, a antropolo-
pela Universidade Federal do Rio Grande
gia e a filosofia também se valeram do
do Sul - UFRGS e mestrado em Estudos
conceito para pensar os atuais desafios
da Linguagem pela mesma universida-
ambientais. “Chthuluceno é um termo
de. Atualmente é graduando (UFRGS) e
proposto, meio a sério, meio de brinca-
doutorando (PUCRS) em Filosofia. Seus
deira, pela filósofa estadunidense Don-
principais temas de pesquisa hoje são a
na Haraway. Ela emprega esse termo
filosofia ambiental, a história das ciências
como uma maneira de complementar e
e da filosofia e as obras de Alfred N. Whi-
desafiar o que está se tornando a narra-
tiva vigente das mudanças climáticas: o tehead e Isabelle Stengers.
Antropoceno”, explica Silva. Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que pode a também suas condições, sempre ralmente privilegiados e a conexão
literatura em termos de imagi- em transformação, de produção, dessas obras com outras institui-
nação política? circulação e leitura. Também de- ções coletivas. Dito isso, a litera-
Fernando Silva e Silva – A li- vemos levar em conta, em cada tura é sempre produto e produtora
teratura é sempre, de saída, políti- recorte histórico, as linhagens for- de imaginações e imaginários polí-
ca. Não apenas no que diz respei- mais e temáticas que os textos se ticos em disputa e os efeitos de sua
to àquilo que poderíamos chamar reinvindicam, sua distribuição em circulação são difíceis de prever de
de seu “conteúdo” narrativo, mas gêneros mais ou menos sociocultu- antemão.

21 DE OUTUBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

“A ficção científica tem se tornado


cada vez mais um gênero que abriga
experimentações de todo tipo que
alimentam nossa imaginação política”

Ultimamente, o conceito de crono- e elementos no mundo. Deleuze2 e ou imagem do pensamento – predo-


topo bakhtiniano1, parte importante Guattari3 dão frequentemente, entre minante sobre toda outra forma de
de sua poética histórica, tem me aju- outros, o exemplo do romance de ficção a partir do século XIX. Dando
dado a cultivar outra forma de aten- cavalaria como um gênero em que preferência à narração em terceira
ção e acredito que ele é bastante elu- se consolida o agenciamento de uma pessoa, à linearidade, à língua pa-
cidativo neste caso. Um cronotopo é certa subjetividade, a do cavaleiro, drão e a situações próximas ao sen-
a cristalização de uma combinação marcada por sua relação com seu so comum do leitor, o realismo tem
específica de tempo, espaço e sub- cavalo, o amor cortês e seus deveres a pretensão de retratar o mundo tal
jetividade que podemos encontrar vassalais com seu senhor e com deus, qual ele se apresenta. Mesmo com a
tanto na literatura quanto no mun- uma certa espacialidade, a ausência retomada e a multiplicação da expe-
do. Nele, essas três categorias condi- de lar senão a longuíssima estrada rimentação formal e temática no iní-
com paradas passageiras de respiro, cio do século XX e a análise e crítica
cionam-se mutuamente e a transfor-
amor ou aventura, e a temporalidade profundas do gênero e seus pressu-
mação em uma delas engendra uma 51
da conjunção amorosa e da salva- postos, o realismo segue sendo am-
transformação generalizada. Dessa
ção constantemente adiadas. Essas plamente considerado sinônimo de
forma, o que o conceito nos sugere
características são indissociáveis da “literatura séria”, enquanto outras
é que há conexões – visíveis e invi-
configuração do feudalismo, mas ao formas literárias são desdenhadas
síveis, conscientes e inconscientes mesmo tempo apontam para traços por serem “comerciais”, “escapistas”
– entre certas espacialidades, tem- de sua dissolução. Devemos encarar ou “de entretenimento”.
poralidades e subjetividades e que com o mesmo olhar analítico os gran-
essas configurações são situadas e Retomando o que eu disse antes
des gêneros ficcionais contemporâ-
contingentes. Assim, diante de um sobre o cronotopo, o realismo fre-
neos, sobretudo com atenção ao que
certo espaço, como uma universida- quentemente limita sua criação às
eles perpetuam e o que buscam criar.
de, um parque, um subúrbio, o cro- situações já dadas pelos cronotopos
notopo nos convida sempre a colocar IHU On-Line – Nesse sentido, hegemônicos, isto é, os espaços,
como a ficção científica nos aju- tempos e subjetividades situados no
a questão de que temporalidades es-
da a superar o deserto da ima- capitalismo, o patriarcado, o racismo
tão sugeridas naquela espacialida-
ginação, ultrapassando a ideia e que favorecem sua manutenção.
de, para que subjetividades ela está
de que “não há alternativas” e É evidente que mesmo a ficção não
aberta. Isso nos permite ver com
propondo respostas possíveis realista quase sempre toma para si
mais clareza os desdobramentos tais limitações e as reproduz em suas
às crises de nosso tempo?
concretos de imaginações políticas, páginas, ainda que em uma galáxia
seja para defendê-las ou criticá-las. Fernando Silva e Silva – O rea-
distante ou em uma terra mágica.
lismo se tornou o gênero – talvez fos-
A literatura, enquanto abertura es- No entanto, a ficção científica tem
se mais adequado falar em estrutura
peculativa, permite explicitar, con- se tornado cada vez mais um gênero
solidar, e o que é mais importante, 2 Gilles Deleuze (1925-1995): filósofo francês. Assim
que abriga experimentações de todo
inventar e jogar com tais cronotopos como Foucault, foi um dos estudiosos de Kant, mas tem tipo que alimentam nossa imagina-
em Bergson, Nietzsche e Espinosa poderosas interseções.
e seus elementos o que, em seguida, Professor da Universidade de Paris VIII, Vincennes, Deleu- ção política.
ze atualizou ideias como as de devir, acontecimentos e
pode reorganizar esses cronotopos singularidades. (Nota da IHU On-Line) Desde seus primórdios nas páginas
3 Pierre-Félix Guattari (1930-1992): filósofo e militante
revolucionário francês. Colaborou durante muitos anos baratas de revistas e livros populares
1 Mikhail Bakhtin (1895-1975): filósofo e pensador russo, com Gilles Deleuze, escrevendo com este, entre outros, de aventura – deixando de lado aqui
teórico da cultura europeia e das artes. Bakhtin foi um ver- os livros O Anti-Édipo, Capitalismo e Esquizofrenia e O
dadeiro pesquisador da linguagem humana. Seus escritos, que é Filosofia?. Guattari, dotado de um estilo literário a relação com gêneros clássicos an-
em uma variedade de assuntos, inspiraram trabalhos de incomparável, é, de longe, um dos maiores inventores
estudiosos em um número de diferentes tradições (mar- conceituais do final do século XX. Esquizoanálise, trans- teriores –, a ficção científica possui
xismo, semiótica, estruturalismo, crítica religiosa) e em
disciplinas tão diversas como crítica literária, história, fi-
versalidade, ecosofia, caosmose, entre outros, são alguns
dos conceitos criados e desenvolvidos pelo autor. (Nota
um potencial de através da arte fic-
losofia, antropologia e psicologia. (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line) cional fazer emergir futuros latentes,

EDIÇÃO 543
TEMA DE CAPA

sejam eles desejados ou temidos. No de subjetivação atuam ininterrupta- como uma maneira de complemen-
entanto, no mais das vezes o que se mente sobre – e especialmente atra- tar e desafiar o que está se tornando
encontra são obras que reproduzem vés – os indivíduos sob o capital in- a narrativa vigente das mudanças
tropos da conquista do oeste e do dependente da influência direta das climáticas: o Antropoceno. O Antro-
colonialismo, mas agora no espaço. instituições conhecidas como apa- poceno – ou o Capitaloceno, nomen-
Mesmo textos que se mostram mais relhos ideológicos do Estado. Sendo clatura que explicitaria com mais
críticos, geralmente empregam uma assim, a ação efetiva da ficção ocor- clareza os responsáveis pela des-
alegoria para articular uma denún- rerá também infraestruturalmente. truição em curso – se situaria após
cia ao estado das coisas – podemos o Holoceno, época que teria iniciado
Isto é, essa sabotagem se realizará
pensar em narrativas de H.G. Wells4, mais ou menos 12 mil anos atrás, ao
através da disseminação de ficções
por exemplo – mas não oferecem al- fim da última era do gelo. O Chthu-
que desloquem as perspectivas do-
ternativas à imaginação. Desde os luceno, por outro lado, está relacio-
minantes da propriedade privada,
anos 1960 e 1970, todavia, em es- nado ao longo e ininterrupto traba-
do heteropatriarcado, da suprema-
pecial pela pena de mulheres, vêm lho das agências tentaculares que
cia branca e da relação dos humanos
surgindo narrativas que não apenas constituem a Terra material e ima-
com não-humanos, a terra e o pla-
denunciam injustiças históricas, geticamente. Isto é, trata-se dos fun-
neta. Podemos pensar, por exemplo,
mas que tecem novas formas de gos fixando nitrogênio ao solo, dos
em Os despossuídos (São Paulo: Edi-
produzir e combinar espaços, tem- fitoplânctons produzindo oxigênio,
tora Aleph, 2017) de Ursula Le Guin5
pos e subjetividades, em especial, das bactérias que abundam em todo
que narra em capítulos alternados
neste último, refazendo o que pode ser multicelular, desempenhando
as experiências de seu protagonista
significar o gênero, a raça e mesmo as mais diversas funções; também
anarquista, Shevek, em sua lua na-
a espécie humana. se trata de deusas e criaturas anciãs
tal, uma sociedade anarquista, e no
como a Cobra Grande dos amerín-
planeta natal de sua espécie, uma
dios do Norte e Nordeste do Brasil,
IHU On-Line – Como pode a sociedade com desigualdades de
a Pachamama andina e a Gaia grega.
escrita sabotar as máquinas de classe e gênero. Shevek opera com
O que está em jogo no Chthuluceno,
subjetivação capitalista? uma espécie de prisma, que cons-
em seu mais profundo passado, em
52 tantemente altera nossos modos de
Fernando Silva e Silva – Sa- nosso presente e em um futuro por
interpretar as sociedades postas em
botar uma maquinaria de maneira construir, é a capacidade de prestar
relação, fazendo saltar aos olhos as
efetiva presume um conhecimento atenção e dar significado a esses pro-
arbitrariedades da riqueza, da pro-
mínimo do encaixe e funcionamento cessos ctônicos (do grego khthónios,
priedade privada e do gênero sem
de suas peças. Nesse entendimento, subterrâneo).
representar, no entanto, Anarres,
a literatura tem um poder duplo. a sociedade anarquista, como uma A relação do termo com a obra de
Como descrevi em um trabalho re- utopia finalizada, estática e perfeita. H. P. Lovecraft7 e sua mitologia, en-
cente com André Araujo, em uma O que o romance nos mostra, ati- cabeçada por seu próprio deus an-
primeira dimensão, ela pode nos vando outras maneiras de pensar, cião, Cthulhu, é inevitável, ainda que
revelar – a despeito de qualquer in- é que não há nada de evidente nas a própria Haraway tente desfazer
tenção do autor ou autora – esses posições de classe ou nos papéis de essa associação. Não só pela similari-
encaixes fundamentais da máquina gênero sem, porém, autodeclarar-se dade dos termos (temos apenas uma
capitalista e suas vulnerabilidades. detentor da resposta aos desloca- pequena diferença quanto à posição
Em uma segunda dimensão, a pró- mentos provocados. de um H), mas também pela ênfase
pria maquinaria da ficção pode se nos tempos e espaços profundos, a
acoplar, intervir, parasitar a maqui- imagem da tentacularidade etc. O
naria do capital, fazendo circular có- IHU On-Line – De onde vem desejo da filósofa de não ser vincu-
digo infectado. esse termo, Chthuluceno? lada a Lovecraft é perfeitamente ra-
Concordo com os vários autores e Fernando Silva e Silva – Ch- zoável, considerando que o racismo
autoras contemporâneos que apon- thuluceno é um termo proposto, e a misoginia são facilmente identifi-
tam que o poder do capitalismo e do meio a sério, meio de brincadeira, cáveis em seus contos e eram traços
Estado (já quase indiferenciáveis) pela filósofa estadunidense Donna do caráter do próprio autor. Tenho
residem hoje antes de tudo nas in- Haraway6. Ela emprega esse termo trabalhado, porém, junto com André
fraestruturas. Portanto, as máquinas
5 Ursula Kroeber Le Guin (1929-2018): mais conhecida professora nascida nos Estados Unidos. Escreveu diversos
como Ursula K. Le Guin ou Ursula Le Guin, foi uma escri- livros e artigos sobre ciência e feminismo. Entre seus tex-
4 H.G. Wells [Herbert George Wells] (1866-1946): escri- tora, ficcionista, tradutora, poetisa, ensaísta e editora lite- tos mais destacados está o ensaio Manifesto ciborgue. Ci-
tor britânico. Nascido em Londres, Wells foi professor na rária estadunidense. Em seus mais de cinquenta anos de ência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século
Midhurst Grammar School até ganhar uma bolsa na Esco- carreira profissional, Le Guin publicou mais de cem obras, XX, publicado originalmente no periódico Socialist Review,
la Normal de Ciências, em Londres, para estudar biologia. entre mais de cinquenta romances e dezenas de contos, em 1985. (Nota da IHU On-Line)
Nos seus primeiros romances, descritos como “romances ensaios e poemas. Seus trabalhos constantemente orbi- 7 Howard Phillips Lovecraft (1890-1937): mais conheci-
científicos”, inventou uma série de temas que foram apro- tam o gênero da ficção em seus mais diversos contextos e do por H. P. Lovecraft, foi um escritor estadunidense que
fundados por outros escritores de ficção científica, e que nuances, incluindo obras renomadas de ficção científica e revolucionou o gênero de terror, atribuindo-lhe elementos
entraram na cultura popular em trabalhos como A máqui- de fantasia. (Nota da IHU On-Line) fantásticos típicos dos gêneros de fantasia e ficção cientí-
na do tempo e O homem invisível. (Nota da IHU On-Line) 6 Donna Haraway (1944): bióloga, filósofa, escritora e fica. (Nota da IHU On-Line)

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Araujo, com a tese de que a ficção IHU On-Line – Logo no início funcionamento da supremacia bran-
lovecraftiana nos oferece um mapa do conto, O chamado de Cthu- ca (ainda que haja também o inver-
da retorcida geografia imaginária da lhu, o narrador descreve: “As so, a tecnofilia do transumanismo
supremacia branca e que, nesse sen- ciências, cada uma vagando versão Vale do Silício) é importante
tido, há algo ali que podemos voltar em sua própria direção, até para que estejamos atentos ao tipo
contra ela. hoje não nos causaram muito de crítica que fazemos à ciência e à
mal, mas algum dia a junção tecnologia e que tipos de aliança es-
dos conhecimentos dissociados sas críticas suscitam. No contexto do
IHU On-Line – Como o con- vai descortinar panoramas tão Antropoceno, há todo um complexo
to de Lovecraft, O chamado de assustadores da realidade...”. tecnocientífico(militar) que precisa
Cthulhu, engendra um debate Associando a narrativa às so- ser colocado em questão desde seus
que ressoa na realidade con- ciedades tecnocientíficas, que pressupostos coloniais e frequen-
temporânea? aproximações podemos fazer temente teológicos, mas ao mesmo
Fernando Silva e Silva – O com relação às consequências tempo devemos estar atentos às ar-
chamado de Cthulhu (Porto Alegre: do Antropoceno? madilhas da tecnofobia que assom-
L&PM, 2017) é um ótimo exemplo bra o discurso e a prática ecológica.
Fernando Silva e Silva – Essa
do que apontei na resposta ante- passagem, e o conto como um todo,
rior. Considerado um dos melhores sintetizam uma aguda característica
e mais importantes contos de Lo- do imaginário lovecraftiano: a fasci-
vecraft, o texto está repleto de ra- nação e o horror causado pelas pro- IHU On-Line – Em um exer-
cismo. Nessa narrativa, diferentes fundezas. O desejo de penetrá-las e cício de filosofia especulativa,
pessoas relatam eventos estranhos o pavor da certeza da incapacidade como poderíamos imaginar as
e aterradores que aconteceram em de viver com as consequências. Esse Ontologias do Chthuluceno?
diferentes lugares, mas que pos- imaginário, portanto, quando dian-
suem em comum a imagem de um Fernando Silva e Silva – O Ch-
te das ciências, expressa a mesma
ser tentacular e o nome Cthulhu. thuluceno, como eu disse antes, tem
ambiguidade. Em vários contos de
Pelo que o texto deixa transparecer, a ver com a sobreposição e a copro-
os mais vulneráveis ao chamado
Lovecraft, encontramos o percurso
dução de corpos, espaços, tempos 53
de um homem em busca de conheci-
desse deus ancião maligno são os de e modos de vida. Com inspiração
mento, seja profissional ou diletan-
“sangue ruim e misturado”, os “pra- na autopoiese (do grego auto, pró-
te, que, em seu anseio de conhecer
ticantes de vudu”, os “esquimós”, prio, e poiesis, criação ou produ-
mais, cruza uma fronteira invisível e
enfim, não-brancos que o autor vê ção) dos pensadores dos sistemas,
se vê frente a frente com um horror
como inferiores. Ao final do conto, fala-se aqui em simpoiese (do gre-
inominável.
marinheiros libertam desavisada- go syn, junto) de modo a sublinhar
mente Cthulhu na cidade pesadelo Apesar dessa estrutura parecer re- o caráter coletivo de toda criação
R’lyeh, cuja arquitetura incompre- meter a outras narrativas da hybris e organização e o fato de que não
ensível de geometria não-euclidea- tecnológica do Homem – e podería- há sistemas, de fato, fechados em
na desafia suas cognições. Os pou- mos sem muitas dificuldades imagi- si. Falamos em uma sincronia, um
cos marinheiros que sobrevivem ao nar as mudanças climáticas como o compartilhamento da terra. Pode-
encontro enlouquecem. rompimento de um limite invisível mos pensar na elegante máxima de
proibido e o acordar de um monstro Haraway: “tudo está conectado a
O que se revela para nós, em uma
incontrolável –, o que está em jogo algo, nada está conectado a tudo”.
leitura pelo avesso, é a alterofo-
para Lovecraft é uma certeza sobre Isto é, diferente do discurso ecoló-
bia inerente à supremacia branca
o lugar cósmico de todas as coisas. gico do senso comum e do neolibe-
e sua capacidade de agregar tudo
O horror e o desprezo que pululam ralismo globalizado, não se trata de
aquilo que ameaça sua consti-
em seus contos e encontram perigos mostrar que “tudo está conectado”,
tuição, em nível social, político e
em todos os lugares indicam que a pois isso oculta a intrínseca locali-
cósmico. Sem dúvida, nos é hoje
única existência segura e adequada dade das conexões e seus diferentes
fácil reconhecer esse pavor difuso
é a de um homem branco na Nova graus de importância.
direcionado tanto aos sujeitos não
Inglaterra que ignora qualquer
-brancos, quanto às práticas espi- O discurso clássico da ontologia,
chamado do Outro. Isto é, aqui, a
rituais de matriz africana e aos po- que sobrevive até hoje, de que se-
tecnofobia torna-se também uma
vos originários. O horror diante da ria possível repertoriar os tipos e
forma de proteção contra a alteri-
possibilidade desse encontro não categorias de seres e seus modos
dade (novamente, não precisamos
poder mais ser adiado, devido a de vir a ser ou mesmo de que seria
ir muito longe para identificar essa
esse chamado vindo das entranhas possível desenhar um limite claro
atitude hoje).
da terra que já não é possível igno- entre características ou zonas on-
rar, é capaz de distorcer o próprio Perceber esse componente tecno- tológicas tais como substância e
espaçotempo. fóbico que pode estar presente no acidente, natureza e cultura, fatos

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TEMA DE CAPA

e valores etc. é inadequado para o flutuando no espaço aterrissassem capitalista. Isso pode ocorrer atra-
projeto metafísico, social, político na Terra e lembrassem que habitam vés da repetição das formas de ex-
e cósmico do Chthuluceno. O que num planeta com propriedades e pressão majoritárias que atrofiam
está em questão é a processuali- limites materiais. Precisamos, por- as capacidades de nossa atenção
dade e a composição e recomposi- tanto, elaborar um pensamento que para outras expressividades, ou
ção de entidades que nunca estão leve em conta a Terra, seus habitan- ainda, de maneira mais vil, através
fechadas em si, mas sempre en- tes e seu estado crítico de transição da captura e diluição de expressivi-
contrando novos companheiros de climática e, ao mesmo tempo, fun- dades minoritárias e/ou radicais em
vida, livrando-se de antigos, conci- damente um projeto político con- produtos dóceis e inócuos.
liando corporalidades, espacialida- sistente para a possibilidade de vida
E isso certamente não se trata ape-
des e temporalidades estrangeiras humana e não-humana no futuro. nas de, individualmente, ter “o gosto
umas às outras.
certo”. A questão não é rejeitar os
grandes produtos comerciais e apre-
IHU On-Line – A propósito, é “Chthuluceno ciar os produtos mais refinados ou
as expressões que pareçam ser mais
possível haver filosofia em um
mundo ferido? é um termo “autênticas”. Se trata antes disso da
arte, da ficção, como um caminho
Fernando Silva e Silva – Usei
esta expressão “fazer filosofia em
proposto, meio de relacionalidade, como algo que
funda subjetividades e une pessoas
um planeta ferido” em alguns dos
meus últimos trabalhos inspirado na
a sério, meio através de percepções e afetividades
outras sem, no entanto, criar um ni-
coletânea Arts of living on a dama- de brincadeira, cho de mercado ou um público-alvo.
ged planet (2017), organizada pela
pela filósofa
Trata-se também de apoiar ou divul-
antropóloga Anna Tsing8 e outros gar artistas que te digam algo hoje

estadunidense
pesquisadores. Penso não só que sobre hoje e sobre o futuro.
é possível, mas que é, na verdade,
54 necessário. As mudanças climáticas
são um fenômeno excessivamente Donna IHU On-Line – Deseja acres-
grande para que sejam ignorados
pelo pensamento filosófico, até mes- Haraway” centar algo?
Fernando Silva e Silva – Queria
mo porque vemos em todos os luga- apontar uma última questão sobre o
res seus efeitos ecológicos, econômi- Chthuluceno. Essa época, em sua for-
cos, políticos e sociais. IHU On-Line – Como a arte ma presente, também é a percepção
O que se coloca como um desafio pode nos inspirar a pensar no- da escassez atual de refúgios tanto
para essa reflexão urgente, no en- vos caminhos políticos e novas para humanos quanto não-humanos
tanto, é o fato de que a filosofia Oci- formas de vida, enfim, outras e da necessidade de cultivar novas
dental, desde certas linhagens gre- ontologias? relações, através de novas formas
gas, nutre um pensamento centrado Fernando Silva e Silva – Enten- de atenção, de modo que possamos
sobre a essência, a permanência e a do a arte como ainda outra forma da coletivamente viver e morrer bem
identidade. Na modernidade, essa ficção. Seu poder de invenção, estou em tempos difíceis. Há um compro-
perspectiva se consolida com a fun- pensando, por exemplo, na música misso ético com o florescimento e
dação do próprio conceito de Natu- ou nas artes visuais, e manipulação proteção de alianças estranhas e iné-
reza como algo inerte, imutável e ditas. Esse compromisso é assumido
dos elementos do cronotopo vai além
alheio ao humano. A tarefa que se diante da realidade da dificuldade de
do conceitual e adentra no sensível.
impõe, então, é enorme. Como diz nossa sobrevivência em nosso plane-
Isso porque sua busca criadora tam-
Bruno Latour9, as mudanças climá- ta em suas condições atuais. Ao mes-
bém passa por novas visualidades,
ticas fizeram com que, de repente, mo tempo, é um compromisso que
audibilidades, tatilidades etc. Além
bilhões de pessoas que andavam chama à responsabilidade aqueles
disso, a arte como um todo, como
que destruíram e destroem refúgios
nos ensinam Deleuze e Guattari, faz
8 Anna Lowenhaupt Tsing (1952): é uma professora (ambientais, sociais, afetivos) e pro-
americana de antropologia na Universidade da Califórnia,
pensar os perceptos e afetos e, as-
vocam a vida e a morte indignas de
Santa Cruz. Tsing realizou mestrado e doutorado na Uni- sim, abrem a subjetividade a outras
versidade de Stanford. (Nota da IHU On-Line) incontáveis seres. Apesar de seu tom
9 Bruno Latour (1947): filósofo francês, é um dos funda- percepções e afetividades possíveis.
dores dos chamados Estudos Sociais da Ciência e Tecno- um pouco sombrio, portanto, sobre-
logia (ESCT). É reconhecido, entre outros trabalhos, por
sua contribuição teórica - ao lado de outros autores como
Como disse antes sobre a ficção, viver no e pelo Chthuluceno tem a
Michel Callon e John Law - no desenvolvimento da ANT - no campo das artes também preci- ver com cultivar afetos alegres que
Actor Network Theory (Teoria ator-rede) que, ao analisar
a atividade científica, considera tanto os atores humanos samos estar atentos às correntes e criem conexões e aumentem nossa
como os não humanos, estes últimos devido à sua vincu- tendências que reiteram as condi- habilidade coletiva de agir e de res-
lação ao princípio de simetria generalizada. (Nota da IHU
On-Line) ções fundamentais da dominação ponder aos desafios atuais. ■

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Cena do filme Midsommar

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O horror às claras
João Ladeira

“No cinema contemporâneo, há alegorias contundentes sobre o poder – e há Midsommar.


Midsommar é uma alegoria sobre a justiça – ou a falta dela”, escreve João Ladeira1.
Eis o artigo.

À primeira vista, não haveria nada de surpreendente em Midsommar: O Mal Não Espera a
Noite (Midsommar, 2019, de Ari Aster). Quatro amigos vão a uma viagem idílica até a Suécia
natal de um deles. Levam a contragosto Dani (Florence Pugh), namorada de Christian (Jack
Reynor), e, na bagagem, também um relacionamento em crise. E, rapidamente, uma utopia co-
munal se torna palco de uma celebração destrutiva, mas não exatamente desagradável.
É um roteiro conhecido esse do falso paraíso, mas o gênio de Aster reside em colocar tudo ao
avesso. O terror após a revolução de Psicose (Psycho, 1960, de Alfred Hitchcock) teve como
cenário o interior lúgubre de uma casa aterrorizante. Em alguns momentos, esse local se torna
o labirinto de uma caverna subterrânea, como o lar dos açougueiros de O Massacre da Serra
Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 1974, de Tobe Hooper).

Luz, mais luz?


Mas Midsommar se passa quase todo ao longo do solstício de verão em que a luz nunca se
esgota. Tal cenário não é um detalhe. Pois os esforços para escapar de um buraco apavorante

1 João Martins Ladeira é professor na Universidade Federal do Paraná, possui doutorado em Sociologia pelo Iuperj, mestrado e graduação em Comu-
nicação pela UFF. (Nota da IHU On-Line)

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CINEMA

punham à prova a engenhosidade das vítimas. Contrapor-se ao mal demandava inteligência, ha-
bilidade e também um tanto de sorte. Eram esforços bem-aventurados devido à estrutura desse
drama, concentrado na reabilitação dos justos.
A vitória contra tais monstros envolvia a Graça, mas isso passa longe das criaturas desse fil-
me. A personagem-chave é, ela própria, a mais perigosa, sem os demais serem nem justos nem
culpados. Ao invés de escapar do labirinto, Dani se joga em direção a ele. Emblemático desse
sentimento é seu sorriso discreto encerrando o filme.
Na mística de Midsommar, uma comunidade orgânica é aquela onde seus integrantes compar-
tilham tudo. A vila cuida de todas as crianças. Preparam-se as refeições numa única cozinha. O
sono transcorre num só quarto. E o sacrifício a cada 90 anos não poupa ninguém. Essa unidade
repercute também na comunhão com a natureza: aquilo que se toma é aquilo que se recebe.
Todos sofrem com os homens que queimam vivos na igreja onde até então ninguém podia
entrar. A dor de um é a dor de todos, mas Dani é uma exceção. E ela parece muito satisfeita com
sua vitória pessoal, o desenlace contra o homem que não lhe dava a atenção merecida. O horror
pós-Psicose se concentrou no lar. Sua versão recente se foca em relações de outro tipo.

Sorte ou azar
Há um caráter arbitrário no justiçamento de Dani sobre seu namorado ingrato. A moça age
como um tirano, guiada pelo desígnio arbitrário. O drama psicológico da irmã parricida-suici-
da rimando com o casal de anciões em morte ritual apenas nos distrai do essencial. Pois Mid-
sommar é uma alegoria sobre a justiça – ou a falta dela.
O poder é consequência do acaso. Vem quando Dani vence uma competição em que se dança
até a exaustão. Mas sua vitória nem ao menos foi consequência da resiliência física. Um dos
concorrentes tropeça e surge a Rainha de Maio, com seu poder de vida e morte.
56
Esse ímpeto aleatório os monstros do horror jamais tiveram. E, se há argúcia, não é a do herói
abençoado. Mas não apenas: o mando de Dani se distingue do autoritarismo utópico da vila, e
esse cinismo nem precisa ser disfarçado. Como outros filmes recentes, Midsommar parece inte-
ressado em pequenos exercícios de autoritarismo.
A soberania injustificável tem pautado o horror. Era o tema de Corra! (Get Out, 2017, de Jor-
dan Peele): não havia razão para os Armitage reencarnarem no corpo de negros. Para uma per-
gunta categórica, uma resposta precisa: “vocês estão na mora, querido!”. Claro, há a astúcia de
Chris (Daniel Kaluuya). Porém, o dilema está naquilo que a torna necessária, pois o martírio
imposto pelos Armitage é absurdo.
Em Nós (Us, 2019), a sósia de Adelaide (Lupita Nyong’o e
Madison Curry) toma o lugar da menina, tornando-se quem
é (e não é) por puro acidente. Decerto, em qualquer uma de
suas duas encarnações a personagem central é mais hábil
que os demais. Mas aquilo que a faz triunfar de início de-
pende de um acaso outrora incomum nesses filmes.

Tiranos e mártires
Existe uma dimensão política nesse horror. Pois tais
dramas lidam com um universo de soberania ilegítima.
Não se trata da Graça que toca alguns homens no lugar de
outros. Talento, habilidade ou inteligência pouco impor-
tam para salvar quem quer que seja. Os frutos colhidos
são aqueles em que se conta com o destino, e não com a
luz da libertação.
Bem e mal mais parecem valores arbitrários, e a ordem
doméstica prejudicada pela presença dos monstros, recon-
ciliada ao final no horror pós-Psicose, contém uma solução
tão arbitrária a ponto de nos perguntarmos se a conclusão Cartaz do Filme Midsommar
não poderia ter sido qualquer outra.

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Tudo mais parece um jogo. Seu universo é não o da Paixão, mas o do Velho Testamento, quan-
do os homens vagavam na incerteza de uma aliança então desconhecida. O palco é ocupado por
príncipes, seres que congregam livremente mártires e tiranos.
Um tentará construir um reino de ordem, sacrificando, quem sabe, seu próprio corpo. O outro
dispõe-se a qualquer perversão para realizar seus sonhos idiossincráticos. Dani alegoriza ambos.
Talvez Midsommar nos coloque às portas de outra revolução no gênero, buscando modos para
lidarmos com a arbitrariedade que espreita à soleira de nossas portas.

Ficha técnica
Título original: O MAL NÃO ESPERA A NOITE - MIDSOMMAR
Ano: 2019
Direção: Ari Aster
Gênero: Terror
Nacionalidade: EUA
Assista o trailer em: http://bit.ly/2BknWHx

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PUBLICAÇÕES

A Nova Previdência via de transformação


estrutural da seguridade social brasileira
L landi.

E
m sua edição de número 289, o Cadernos IHU Ideias traz o artigo de
Marilinda Marques Fernandes, intitulado “A Nova Previdência via de
transformação estrutural da seguridade social brasileira”. No texto,
a autora debate a articulação de duas grandes mudanças, previstas na PEC
06/2019, nos princípios gerais sobre os quais foi organizado o sistema de
proteção social inscrito na Constituição Federal de 1988 (CF-88): a redefini-
ção do conceito de Seguridade Social
e a ampliação do espaço de participa-
ção da iniciativa privada na Previdên-
cia Social. “Além disso, discutiremos
como os trabalhadores brasileiros
ativos, inativos e futuros serão afeta-
dos pelas medidas previstas na PEC
06/2019, caso esta seja implementa-
58 da”, acrescenta.
Marilinda Marques Fernandes
é graduada em Ciências Jurídicas
Clássicas pela Faculdade de Direito
da Universidade Coimbra, foi asses-
sora jurídica do Ministério da Se-
gurança Social de Portugal de 1978-
1980, assessora jurídica do Ministério
do Planejamento da Guiné Bissau na
área da Seguridade Social de 1980-
1984, sócia fundadora do escritório
Marilinda Marques Fernandes – Ad-
vogados Associados especializado em
Direito da Seguridade Social na cida-
de de Porto Alegre desde 1984, asses-
sora jurídica para área de Seguridade
Social do Sindisprev-RS desde 1991,
professora, palestrante, conferencista
e debatedora internacional na área de
Direito da Seguridade Social.
A versão completa deste Cadernos
IHU Ideias está disponível em http://
bit.ly/2IYOrX3.
Estas e outras edições dos Cadernos
IHU Ideias também podem ser ob-
tidas diretamente no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, no campus São
Leopoldo da Unisinos (Av. Unisinos, 950), ou solicitadas pelo endereço hu-
manitas@unisinos.br. Informações pelo telefone (51) 3590-8213.

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Outras edições em www.ihuonline.unisinos.br/edicoes-anteriores

Semana de Arte Moderna. Revolução ou


mito?
Edição 395 – Ano XII – 4-6-2012

Em 2012, a Semana de Arte Moderna completava 90 anos. Para lem-


brar a data e retomar os debates que se deram à época, a revista IHU
On-Line dessa semana de junho abordou o espírito da Semana de 22 ao
entrevistar um conjunto de pesquisadores e pesquisadoras.

Tropicalismo. O desejo de uma modernidade


amorosa para o Brasil 59

Edição 411 – Ano XII – 10-12-2012

Um modo de ser nos trópicos, uma postura de vida, uma antropofagia


que deglutiu a jovem-guarda, a bossa nova e influências além-mar e re-
gurgitou uma cultura nova e inquietante, embalada por guitarras elétri-
cas e dissonâncias as mais diversas. Tudo isso e mais um pouco ajuda a
compreendermos o que foi o movimento tropicalista, surgido em 1967
como expressão máxima de uma arte que não podia e nem queria mais
ser a mesma. Os tempos eram outros, urgia o novo.

Ore Ywy – A necessidade de construir uma


outra relação com a nossa terra

Edição 527 – Ano XVIII – 27-8-2018

A expressão Guarani “Ore Ywy”, que dá nome a essa edição, de acordo


com a tradução da professora Sandra Benitez, significa “nossa terra”.
Esse é o mote que costura as entrevistas do tema de capa da presente
edição da revista IHU On-Line, que reúne entrevistados indígenas de
várias etnias. Eles compõem, apesar da riqueza de perspectivas, apenas
uma parcela do universo de mais de 300 comunidades indígenas no Bra-
sil, com cerca de 180 idiomas.

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