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PROMOTORIA DE JUSTIÇA DA COMARCA DE XAMBIOÁ-TO

GABINETE DO PROMOTOR DE JUSTIÇA

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA


ÚNICA DA COMARCA DE XAMBIOÁ/TO

O Ministério Público do Estado do Tocantins, por meio do Promotor


de Justiça Substituto que a esta subscreve, no uso de suas atribuições legais
conferidas pelo art. 127 e 129 da Constituição Federal de 1988, artigos 49 e 50 da
Constituição Estadual, artigos 60 e SS da Lei Complementar Estadual 51/2008,
Leis Federais nº 8.625/93, 8.078/90 e por fim, na Lei 7.347/85, vem, à ínclita
presença de Vossa Excelência, ajuizar AÇÃO CIVIL PÚBLICA DE OBRIGAÇÃO
DE FAZER com pedido de ANTECIPAÇÃO DE TUTELA em face do MUNICÍPIO
DE XAMBIOÁ, pessoa jurídica de direito público, representada pelo atual Prefeito
Municipal Richard Santiago Pereira, encontradiço na sede do Paço Municipal,
nesta urbe, pelos fatos e fundamentos jurídicos abaixo delineados:

1 - DOS FATOS
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Todo o relato merece um intróito, o qual, quase sempre, chega a ser


por demais longos ou às vezes, nada indica a respeito do que se deve tratar.

Costuma-se realizar uma digressão ampla e de difícil amarração, ante


a complexidade das situações que podem ser tratadas. No entanto, é
imprescindível iniciar com um resgate, para que o leitor atento entenda a origem
do assunto que se busca esclarecer.

Pois bem. Quando falamos no início da sociedade organizada, dirigida


pelos entes públicos que arrecada recursos dos contribuintes para o cumprimento
das obrigações que são previstos nos textos constitucionais, impossível se afastar
da noção do Contrato Social defendida por J.J. Rosseau.

É curial reafirmar que a liberdade dos cidadãos e da própria sociedade


gera impactos de todas as ordens, encontrando como justificativas: a falta de
empenho e participação consciente desta sociedade na escolha de seus
dirigentes; incoerência na definição das metas que as instituições dirigidas por
estes devam buscar; na fiscalização do cumprimento destas metas e na
reavaliação do direcionamento, a fim de redefinir as prioridades em prol comum, o
qual é bem distinto do bem coletivo.

Nota-se que as Instituições necessariamente dirigidas por seres


humanos suscetíveis a infinitas situações, não soam infalíveis, muito pelo
contrario, justificam o seu grau de ineficiência ao ponto do princípio da eficiência

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ter que ser positivado pela Emenda Constitucional 45, objetivando, com isto, fazer
com que os direitos dos cidadãos sejam respeitados e aplicados corretamente.

Importante afirmar que, de forma ampla, os objetivos constitucionais do


art. 3º da CF, na utilização de verbos no infinito (construir, erradicar,...) indicam
proposições futuras, as quais estão em planos difíceis de serem alcançadas,
justamente pela estrutura que é montada e de contornos extremamente
complexos.

Até o momento, o nobre julgador pode estar se questionando e


confirmando a informação inicial quanto à “chatice” dos dizeres intróitos, que além
de longos, mostram-se desconexos.

Mas, não é este o intuito, ao contrário, quando se busca a defesa de


direitos sociais indisponíveis, é extremamente importante, dentro da teoria
sustentável por Jurger Habermas, denominada teoria do discurso, entender as
proposições criadas pelos dirigentes, fazendo com que, entre o que se encontra
positivado no texto da lei e o que é efetivamente aplicado, existe uma gritante
distância, forçando uma contínua e angustiante busca pela solução do problema,
o qual é propositadamente criado para justificar as estruturas governamentais.

Feita esta digressão, volta-se a situação fática que justifica o interesse


na prestação da tutela jurisdicional final, alternativamente, específica e
antecipada, a fim de que o direito do cidadão possa ganhar ares de respeito,
situação distinta de efetividade e concretividade, conforme cita Bruno Galindo
( GALINDO, Bruno. Direitos Fundamentais. Análise de sua concretização
constitucional. Curitiba: Juruá, 2003).
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O Estado, direitamente, ou por suas autarquias e secretarias, assume


obrigações quanto à correta manutenção de sua estrutura de funcionamento, a
qual só se justifica para atender ao cidadão, ou seja, o Estado só existe por que o
cidadão existe. O Estado não é e nem pode ser um fim em si mesmo, tornando-se
extremamente voraz na arrecadação de tributos e da mesma forma extremamente
mínimo na prestação de serviços sociais, denominados direitos de segunda
dimensão.

Ao realizar diretamente os serviços públicos e/ou descentralizar a sua


estrutura de prestação de serviços para as autarquias, secretarias, cabem a
estas, com base no planejamento de suas atribuições, conhecimento prévio da
realidade que procura interferir e dar correta atenção na administração destes
recursos, fazer cumprir os direitos dos cidadãos quanto à segurança, transporte,
vida e outros, garantindo-lhes dignidade e atento aos princípios da continuidade,
moralidade, eficiência e outros mais.

Neste contexto social, desde que este subscritor iniciou as suas


atribuições nesta municipalidade, chocou-se com a situação de abandono da
malha asfáltica das ruas e avenidas desta famosa e histórica cidade.

“Assevera-se que não se sabe se andamos em


vias urbanas ou verdadeiras crateras abertas a céu
aberto” (g.n)

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Após diversos contatos telefônicos e reivindicações da comunidade e


do parquet, a malha viária da cidade continua abandonada, como se demonstra
nas fotografias anexadas nesta petição.

Neste diapasão, a recuperação da malha asfática


e sinalização das ruas, avenidas e logradouros de
Xambioá/TO é o objeto desta demanda.

Frisa-se que com o período de chuvas, mostra-se cada vez mais


destruídas as poucas e esburacadas ruas e avenidas pavimentadas de
Xambioá, salienta-se o que se tem visto são parcas operações denominadas
“TAPA BURACOS”, as quais custam caro aos bolsos dos contribuintes, tanto pelo
péssimo serviço prestado, haja vista a constante necessidade de sua repetição,
posto que não resolva os problemas dos buracos, ao contrário, ampliam e
impossibilita um controle correto da qualidade do asfalto utilizado para sua
realização, quanto pela qualidade do serviço.

É importante salientar que Xambioá é área de Fronteira com o Estado


do Pará, onde há intenso tráfego de cargas e pessoas, dinamizado com a
instalação na cidade, de grandes empresas como Votorantim e Mineradora
Vale do Araguaia, construção da Ponte sobre o Rio Araguaia que liga o Estado
do Tocantins ao Estado do Pará, possível construção da Usina Hidrelétrica no Rio
Araguaia.

Como se não bastasse, é nesta histórica e famosa cidade, que se situa


um dos maiores pontos turísticos do Tocantins, as famosas praias sob o Rio
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Araguaia, como a Praia de Murici e tantas outras apreciadas pelos turistas. Com a
chegada do mês de fevereiro e o festivo carnaval e bem como nos meses de julho
a agosto, o intenso tráfego de cargas e pessoas intensifica-se e contribui para a
degradação das vias urbanas.

Com base nisto, e diante de uma simples verificação in loco, pode-se


constatar que a vida de uma quantidade enorme de pessoas entre crianças,
velhos, trabalhadores, estudantes e outros, encontra-se diariamente com o risco.
Basta a existência de um impacto num “simples buraco” para que inúmeras
pessoas tenham suas vidas ceifadas, contando, para isto, com a constante inércia
do Estado-Administração, que por sua vez, descentraliza o serviço para suas
Agências e/ou órgãos governamentais.

O Cidadão que esperava com a Constituição ter vez encontra-se a


cada dia mais bombardeado de problemas e vem perdendo a noção de que ele é
o titular do Direito e o Estado tem por dever atendê-lo, não em condições
mínimas, as quais dentre as últimas exposições doutrinárias e jurisprudenciais na
área de pavimentação e urbanismo, devem se atrelar à noção da reserva do
possível. Entretanto esta teoria não serve de salvaguarda ao descaso,
inoperância e omissão do Poder Público em conservar suas vias e logradouros.

Ao contrário, o cidadão tem direito a fazer com que o planejamento


previsto na lei (Plano Plurianual),os recursos destinados para fazer frente a este
planejamento (Lei de Diretrizes Orçamentárias) e efetivamente arrecadados (Lei
Orçamentárias), os milhões de reais arrecadados anualmente em tributos como
ICMS, IPVA, ISS, e muitos outros sejam aplicados em condições probas,
eficientes e transparentes, não se prestando as escusas de amplas dificuldades

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estratégicas, documentais e outros, como justificativas para o não cumprimento


de suas obrigações.

Conforme exposto, basta fazer uma simples vistoria nos


seguintes logradouros: Rua Bernardo Sayão, Rua São José, Rua
Benjamim de Azevedo, Avenida Presidente Vargas, atrás da
Igreja Católica; Avenida Araguaia; Rua 1º de maio, e Rua José
Bonifácio (fotos em anexo) para se constatar que o risco de
acidentes na via urbana permanentemente manutenida por conta
das operações “TAPA BURACOS”, de custos extremamentes
elevados, vem aumentado, haja vista a quantidade de buracos e
deformações que a pista asfáltica apresenta (g.n).

A obrigação de manutenção e da conservação da malha asfaltica das


ruas e avenidas de Xambioá é da Prefeitura Municipal. É axiológico afirmar que
quase não existe sinalização vertical ou horizontal, e as poucas placas que
existem estão completamente destruídas, o que per si aumenta a possibilidade de
acidentes com vítimas.

Cumpre salientar que as obras de restauração e sinalização cumprem


um papel preventivo de acidentes na cidade, além de contribuir para o
crescimento econômico e social do Município.

Ante o exposto, o Poder Público não pode se eximir de seu dever, com
a simples afirmativa que a programação de manutenção não é justificativa para

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que o direito à vida e segurança de todas as pessoas que se utilizam das públicas
e/ou turistas, investidores que venham a se utilizar possam ser desprotegidas.

Neste aspecto, não está nenhuma das funções do Poder, conforme


Monstequieu, ausente de controle. Cabe ao Estado-Juiz, com base na necessária
efetivação dos direitos fundamentais de primeira, segunda e terceiras dimensões
substituir a inércia dos demais titulares das outras funções que compõem o Poder
Estatal, de modo que o cidadão não seja prejudicado, nem tampouco relegado a
mera condição de litigante, aguardando a solução de demandas judiciais, as quais
podem demorar mais de uma vida.

Assim, o que se busca, não de forma inédita, posto que em outras


oportunidades acredita-se que o Ministério Público do Estado do Tocantins, tenha
proposto ações exigindo dos órgãos da administração pública, o dever de
manutenir as vias e logradouros públicos, tanto pela conservação do patrimônio
público, quanto pelo direito de garantir vida, segurança e dignidade aos cidadãos.

As diversas fotografias colacionadas por esta Promotoria de Justiça


confirmam as alegações e evidenciam que os usuários da vias públicas de
Xambioá sofrem sérios riscos de danificação de seus automóveis, motocicletas,
além de acidentes, violando-se ainda o direito do trânsito seguro (art. 1º, § 3º, do
CTB).

2 – DO DIREITO

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O sistema viário, seja o urbano, seja o extra-urbano, constitui condição


obrigatória ao exercício da função urbana de circular – inclusive, segundo José
Afonso da Silva, de circulação econômica, sem deixar de ser meio de
comunicação. Acerca do assunto, aduz o respeitável jurista:

“O sistema viário é o meio pelo qual se realiza o direito à circulação, que é a


manifestação mais característica do direito de locomoção, direito de ir e vir e
também de ficar (estacionar, parar), assegurado na Constituição Federal.”4
Ordenando o sistema viário nacional, encerra o Código de Trânsito Brasileiro
(Lei nº 9.503/97), em seu art. 2º: “Art. 2º. São vias terrestres urbanas e rurais
as ruas, as avenidas, os logradouros, os caminhos, as passagens, as
estradas e as rodovias, que terão seu uso regulamentado pelo órgão ou
entidade com circunscrição sobre elas, de acordo com as peculiaridades
locais e as circunstâncias especiais.” (destacamos) 4 SILVA, José Afonso da.
DIREITO URBANÍSTICO BRASILEIRO. 4ª ed. São Paulo: Malheiros Editores.
p. 183.

Na realidade, as vias públicas são bens públicos de uso comum do


povo, segundo inteligência do art. 99, inciso I, do Código Civil. Assim, as ruas e
avenidas desta urbe são bens pertencentes às pessoas jurídicas de direito público
interno (art. 98, CC), mesmo quando sejam construídas pela administração
central ou descentralizada, porque estas são simples executoras do plano urbano
e das diretrizes traçadas no Estatuto das Cidades.

Ao tratar dos elementos que compõem as vias públicas, ensina de


novo Silva:

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“As mais simples compreendem, no mínimo, pista de rolamento, que é o leito


carroçável da estrada, com duas faixas de trânsito e, ainda, faixa de
acostamento de cada lado da pista de rolamento. As mais complexas,
especialmente as auto-estradas, compõem-se de duas pistas de rolamento,
com duas ou mais faixas de trânsito cada uma, e faixa de acostamento do
lado externo;[...]”

No caso em tela, ao tratarmos da inércia estatal, obrigatoriamente


adentramos na esfera ligada ao poder-dever de administrar. Os poderes e
deveres do administrador público são os expressos em lei, os impostos pela moral
administrativa e exigidos pelos interesses da coletividade. O poder administrativo,
portanto, é atribuído à autoridade para remover os interesses particulares que se
opõem ao interesse público. Nessas condições, o poder de agir se converte no
dever de agir. Assim, se no direito privado o poder de agir é uma faculdade, no
direito público é imposição, um dever para o agente que o detém, pois não se
admite a omissão da autoridade diante de situações que exijam a sua atenção.
Eis porque a Administração responde civilmente pelas omissões lesivas de seus
agentes.

Sobre o tema, o saudoso professor Hely Lopes Meirelles já ensinava:

“Pouca ou nenhuma liberdade sobra ao administrador público para deixar de


praticar atos de sua competência legal. Daí porque a omissão da autoridade
ou o silêncio da Administração, quando deva agir ou manifestar-se, gera
responsabilidade para o agente omisso e autoriza a obtenção do ato omitido,
por via judicial...” (in Direito Administrativo Brasileiro, Ed. RT, 11º edição, pg.
67”

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Ao poder-dever de administrar alinha-se o dever de eficiência,


impondo-se a todo agente público realizar suas atribuições com presteza e
rendimento funcional. É o mais moderno princípio da função administrativa, que já
não se contenta em ser desempenhada apenas com legalidade, exigindo
resultados positivos para o serviço público e satisfatório atendimento das
necessidades da comunidade e de seus membros.

Vale destacar que a omissão na manutenção da malha asfáltica da


cidade de Xambioá caracteriza desvio do poder, passível de correção judicial. A
responsabilidade do requerido é cristalina, na medida em que cabe ao Poder
Público Municipal realizar a adequada conservação da via em testilha.

As péssimas condições da malha asfáltica e os pontos acima


destacados ferem o nosso preceito maior que é a Dignidade da Pessoa Humana.

O diploma constitucional garante a cidadania e a dignidade da


pessoa humana.

A dignidade é um dos principais fundamentos dos direitos individuais


de todo o sistema constitucional.

Como é explícito no texto constitucional, art. 1º, verbis:

“Art. 1º. A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos
Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito e tem como fundamentos:

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I – a soberania;

II – a cidadania;

III – a dignidade da pessoa humana’

O texto Magno estabelece ainda:

“Art. 6º. são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a


segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a
assistência aos desamparados, na forma desta construção”.

De fato, não há como se falar em dignidade na vida das pessoas, se


sua Lei Maior não lhe dá guarida. Por isso é de se acreditar que a péssima
execução de uma obra de bem comum de suma importância ao cotidiano das
pessoas, afeta a dignidade, saúde e segurança dos munícipes.

Para sedimentar a nossa fundamentação, há nesta relação jurídica


uma verdadeira relação consumeirista. Para tanto são necessários a configuração
dos elementos da relação jurídica de consumo: o consumidor de um lado; o
fornecedor de outro e o objeto que pode ser um produto ou serviço.

O artigo 2º, do CDC, estabelece que “consumidor é toda pessoa


física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final”,
ao mesmo tempo que equipara a consumidor, a coletividade de pessoas, ainda
que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo”.

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O artigo 3º do CDC define o fornecedor, como sendo toda pessoa


física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes
despersonalizados, que desenvolvem atividade de prestação de serviços.

Também são direitos básicos do consumidor a proteção contra as


práticas abusivas impostas no fornecimento de produtos e serviços, bem como a
efetiva prevenção contra os danos materiais que estejam na iminência de
acontecer e a reparação aos danos morais e patrimoniais sofridos, sejam
individuais, coletivos ou difusos, in verbis:

“Art. 6º. São direitos básicos do consumidor:

(...)

VI – a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais,


individuais, coletivos e difusos”

(...)

X – a adequada e eficaz prestação dos serviço públicos em geral”.

O Município de Xambioá, por seu órgão de execução é comparado ao


"construtor" de que fala o artigo 12 da Lei nº 8.078/90. Deve, portanto, responder
pelos defeitos ocorridos, reparando os danos causados aos consumidores, uma
vez, que ficou com o encargo de executar e fiscalizar a obra.

3 – DA LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO PÚBLICO

A Constituição da República Federativa do Brasil/88, em seu artigo


127, ao estabelecer que ao Ministério Público incumbe a defesa da ordem
jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais
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indisponíveis, deixou bem clara a legitimidade para defender, também, direitos


individuais e sociais indisponíveis.

In casu, o principal direito que temos é justamente o direito à vida, o


qual, na precisa redação do artigo 5º, do magna carta, encontramos, in litteris:“

“Art. 5º - Todos são iguais perante à lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e a propriedade, nos seguintes termos.” (Negritei).

Aclarando, ainda mais a legitimidade do Ministério Público, o artigo


129, da Magna Carta, em seus incisos II e III, dispôs:

“Art. 129 – São funções institucionais do Ministério Público:

I – omissis;

II – zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços de


relevância pública aos direitos assegurados nesta constituição,
promovendo as medidas necessários à sua garantia”;

III - promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do


patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses
difusos e coletivos;” ( negritei ).

A legitimidade ad causam do Ministério Público para autuar na


presente ação tem também fundamento nos artigos 81 e 82 do Código de Defesa

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do Consumidor, já que sem sombra de dúvida a situação fática se materializa em


plena relação de consumo, verbis:

“Art. 81. Na defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas
poderá ser exercida em juízo individualmente ou a título coletivo.

‘Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de:

I – interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste


Código, os transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares
pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato;

II – interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste


código, os transindividuais, de natureza indivisível, de que seja titular grupo,
categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por
uma relação jurídica base;

III – interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os


decorrentes de origem comum’.

Art. 82. Para os fins do art. 81, parágrafo único, são legitimados
concorrentemente:

I – o Ministério Público;

(...)

Ainda com relação a legitimidade, não será demais dizer, que quando
se tratar da defesa de interesses individuais homogêneos, o Ministério Público
terá legitimação extraordinária e se investirá da condição de substituto

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processual. Isto porque a lei legitimou outrem para a defesa em juízo, em nome
próprio, de direito alheio cujo titular é identificável e individualizável. Trata-se,
portanto, de substituição processual.

Sem prejuízo da legitimidade do parquet para a propositura de Ação


Civil Pública com intuito de inibir os prejuízos, danos e incômodos causados aos
moradores, pelos defeitos constatados na prestação do serviço público de
pavimentação do asfalto de ruas e avenidas, em sede de direitos do consumidor
(interesses individuais homogêneos), a legitimidade também é conferida ao
Ministério Público nos termos da Lei nº 7.347/85, para coibir os danos causados
ao meio ambiente e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e
paisagístico.

Neste caso, a ação civil pública visa à proteção de todas as pessoas


indiscriminadamente (interesse difuso), não só aquelas que residem nas áreas
próximas ao fato relatado, mas também todas as pessoas que por lá transitam, já
que as ruas são bens de uso comum do povo. Há no caso afetação a uma grande
e inominada camada de pessoas, impossíveis de serem nominadas e
individualizadas, tomando uma dimensão social difusa, com “impacto de massa”.

Segundo o magistério de Nelson Nery Jr., quando se tratar de


interesses difusos ou coletivos (strictu sensu) a legitimidade conferida ao
Ministério Público não é extraordinária (substituição processual), mas sim
legitimação autônoma para a condução do processo (de origem constitucional,
nos termos do artigo 129 da CF). A lei elegeu alguém para a defesa de direitos

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porque seus titulares não podem fazê-lo, visto que o direito não é
individualizável.1

A requerida, em conseqüência da não observância das normas


técnicas exigíveis na manutenção das vias públicas municipais, provocou uma
situação de imenso incômodo, insegurança, constrangimento e prejuízo, tanto aos
munícipes como ao erário público. Deve, portanto a requerida responder pelos
danos correspondentes, sob pena de não respondendo, violar direitos
substantivos, conforme enumerados em seguida.

O Tribunal de Justiça de São Paulo (acórdão na íntegra em anexo) já


concedeu legitimidade ao Ministério Público nos exatos termos que ora se
postula, verbis:

“AÇÃO CIVIL PÚBLICA E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS.


PREJUÍZOS, DANOS E INCÔMODOS CAUSADOS AOS MORADORES, COM
DEFEITO CONSTATADO NA CONSTRUÇÃO DOS ASFALTOS, TRATANDO-
SE DE DIREITOS DIFUSOS, ADEMAIS. Pode o Ministério Público atuar como
parte nas ações civis públicas (Lei 7.347/85), por danos causados ao meio
ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético,
histórico, turístico e paisagístico – Visa a ação civil pública a proteção de
todas as pessoas que não só residem naquela área onde os moradores
apresentaram a reclamação, como também todas as pessoas que por lá
transitam, sendo as ruas de bem de uso comum do povo – Há afetação a
uma grande e inominada camada de pessoas, impossível de nominação,

1
Nelson Nery Jr. e Rosa Maria Andrade Nery. Código de Processo Civil Comentado e legislação processual
civil extravagante em vigor. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997, p. 1395

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formada uma dimensão social, ‘impacto de massa” – (AC Nº 024.273-4/5-000


– MARÍLIA)”.

Outrossim, a Lei nº 7347/85, que disciplina a ação civil pública,


estabelece em seu artigo 5º, o seguintes:

“ Art. 5º - A ação principal e a cautelar poderão ser propostas pelo


Ministério Público, pela União, pelos Estados e Municípios.

I a II – omissis

§ 1º - O Ministério Público, se não intervir como parte, atuará


obrigatoriamente como fiscal da Lei.

§§ 2º a 4º – omissis;

§ 5º - Admitir-se-á o litisconsórcio facultativo entre os Ministérios


Públicos da União, do Distrito Federal e dos Estados na defesa dos
interesses e direitos de que cuida esta Lei.

4. DA COMPETÊNCIA

O artigo 2º, da Lei nº 7347/85, dispõe:

“Art. 2º – As ações previstas nesta lei serão propostas no foro do local


onde ocorrer o dano, cujo juízo terá competência funcional para
processar e julgar a causa.

Parágrafo único – A propositura da ação prevenirá a jurisdição do juízo


para todas as ações posteriores intentadas que possuam a mesma
causa de pedir ou o mesmo objeto”.( Negritei)

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É imprescindível asseverar que o escopo da Lei da Ação Civil Pública


em concretizar a jurisdição no foro do local do dano, determinando a competência
funcional do juízo, estava atrelado em permitir ao destinatário das provas, a
concretização, com maior clareza possível, sobre a extensão dos fatos e de suas
conseqüências.

A sistemática processual e a prerrogativa de foro de determinados


entes públicos, sofreram mudanças com a identificação de que o órgão
jurisdicional competente é aquele correspondente ao local do dano, prorrogando-
se a competência em sede de prevenção. Cite-se, por oportuno, magistério, do
Prof. Sérgio Ferraz, in Ação Civil Publica - Comentários 15 anos da ACP- , Ed.
Revista dos Tribunais, in litteris:

5. DA ANTECIPAÇÃO DA TUTELA

A Lei nº 8437/92, que dispõe quanto à concessão de medidas


cautelares contra atos do poder público, estabelece em seu artigo 2º , in litteris:

“Art. 2º - No mandado de segurança coletivo e na ação civil


pública, a liminar será concedida, quando cabível, após a
audiência do representante judicial da pessoa jurídica de direito
público, que deverá pronunciar no prazo de 72 (setenta e duas)
horas”.

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Por sua vez, a lei nº 9494/97, que disciplinou a aplicação da tutela


antecipada, contra a Fazenda Pública, estabelece em seu artigo 1º, in litteris:

“Art. 1º - Aplica-se à tutela antecipada prevista nos artigos 273 e


461 do Código de Processo Civil o disposto nos artigos 5º e seu
parágrafo único e 7º da Lei nº 9348, de 26 de junho de 1964, no
artigo 1º e seu § 4º, da Lei nº 5021, de 9 de junho de 1966 e no
artigo 1º, 3º e 4º, da Lei nº 8437, de 30 de junho de 1992”.
(Negritei).

Neste aspecto, é imprescindível afirmar que a vontade do legislador foi


esvaziar, quase que por completa, a concessão antecipada do pedido deduzido
em ação civil pública ou em mandado de segurança, quando o objeto da lide
versa a respeito de questão patrimonial, envolvendo remuneração.

É de se ver que, sentido outro não teria, justamente por conta dos
incontáveis efeitos deletérios aos cofres públicos, face à possibilidade de não se
obter a recomposição do dano, caso a demanda proposta tenha julgamento
desfavorável.

No entanto, versando a respeito de obrigação de fazer, em que o


objeto da lide seja outro que não remuneração de servidor, concessão de
vantagens pecuniárias, não há como se limitar a antecipação da tutela, quando
verificados os requisitos necessários à identificação desta.

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A situação é de fácil constatação quando se aborda a questão


ambiental, onde se adota o princípio da prevenção.

Nestes casos, há posição inconteste da necessidade de se evitar que o


dano atinja condições impossíveis de recuperação, servindo de fundamento para
o manejo, a pedido do autor ou de ofício, da tutela antecipada, com aplicação de
multa diária, em sede de obrigações de fazer ou não fazer.

Portanto, se no âmbito do meio ambiente temos a clara noção de se


prevenir, o que se dirá então do direito à vida?

A plausibilidade do direito é mais do que contundente, ante os fatos


descritos e provados nas peças de informação, bem como a não prestação
jurisdicional em tempo célere repercute, a cada segundo que passa, em riscos de
danos irreversíveis.

A tutela antecipada, in casu, está atrelada ao pedido de obrigar a ré a


fazer a imediata substituição do pavimento asfáltico e sinalização horizontal e
vertical de todas ruas e logradouros públicos danificados no Município de
Xambioá, adotando-se, outrossim, posição negativa no sentido de não fazer
operações do tipo “tapa buraco” nos trechos que já se encontram totalmente
destruídos, justamente por conta da total impossibilidade da manutenção do
quadro paliativo, já realizado em diversas épocas e de custos elevados, conforme
provado pela própria ré nas fotografias acostadas nos presentes autos.

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O que se objetiva, é obrigar a ré a cumprir com as suas funções


institucionais, guarnecendo o cidadão com a segurança necessária, permitindo-
lhe o direito à vida, através de ações concretas.

É evidente que, o citado trecho, não mais comporta operações do tipo


“tapa buraco”, as quais vêm sendo feitas, de forma atécnica, gerando mais riscos
de acidentes, do que propriamente manutenção das vias públicas municipais.

A verossimilhança das alegações para concessão da antecipação da


tutela, bem como a prova inequívoca são contundentes, servindo a prova material
das fotos acostadas e como a eventual prova pericial e inspeção judicial a serem
realizadas e a própria irresignação de dezenas de populares que comparecem
diariamente a esta Promotoria se queixando da péssima conservação das vias
urbanas desta cidade.

Nos termos do § 7º do Artigo 273, corroborando a fungibilidade


permitida pela Antecipação de Tutela e pleito cautelar, denotamos que:

O fumus boni iuris encontra-se sedimentado nas teses mestras que


dão escora ao pedido liminar, com fundamento no direito material contido em
todos os artigos e princípios referidos anteriormente, bem como nas provas
demonstradas nos autos.

O perigo da demora da decisão pode acarretar graves danos a todos


os cidadãos que por aquelas vias trafegarem, mas em especial aos morados do
local, que, em geral, são pessoas de baixo poder aquisitivo, o prejuízo a ser
proporcionado ao comércio local, em face de ser região turística (Rio Araguaia) e

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famoso Carnaval, além do prejuízo a economia do Município e do Estado, por ser


região de constante transporte de Pessoas e Cargas direcionadas ao Estado do
Pará e demais Estados do Norte.

Portanto, resta apenas o cumprimento do prazo de 72 horas, previsto


pela Lei nº 8.437/92, para que a ré seja obrigada, através de tutela jurisdicional
antecipada, a arcar com o dever de manutenção das vias públicas danificadas,
através de nova estruturação do pavimento asfáltico, não o fazendo através de
operações arcaicas, do tipo “tapa buraco”, que na verdade correspondem apenas
a jogar o asfalto nas ruas, e esperar que algum motorista passe por cima
compactando-o.

Infelizmente, este tem sido o comportamento adotado, servindo as


dezenas de fotos acostadas a esta exordial que servem para demonstrar ser este
um dos motivos do péssimo estado de conservação das Ruas e Avenidas do
Município de Xambioá/TO.

Frise-se, por oportuno, posicionamento doutrinário, firmado pelo Douto


Prof. Humberto Theodoro Jr. , a respeito, in litteris:

“Com relação à tutela antecipada, a Lei nº 9494, de 10.09.1997, mandou


aplicar-lhe as restrições da Lei nº 8437/92, sujeitando, destarte, sua
aplicação liminar ao mesmo regime restritivo traçado para o mandado
de segurança e as medidas cautelares. Isto, porém, não representa uma
vedação completa e irrestrita ao cabimento de medidas antecipatórias
contra o Poder Público. Ao contrário, o que se deduz da Lei nº 9494 é
justamente a admissibilidade de semelhantes medidas, as quais apenas

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nas hipóteses excepcionais renumeradas pelo legislador sofreriam


restrições ou impedimentos. Logo, fora das limitações ao aludido
diploma legal, as medias de antecipação de tutela são normalmente
aplicáveis também em face da Administração Pública.

É importante ressaltar que o direito à antecipação de tutela, tal como o


direito às medidas cautelares, integra o direito à efetividade e
tempestividade da tutela jurisdicional, constitucionalmente garantido.

O Direito de acesso à Justiça, albergado no art. 5º, XXXV, da


Constituição Federal, não quer dizer apenas que todos têm direito a
recorrer ao Poder Judiciário, mas também quer significar que todos têm
direito à tutela jurisdicional efetiva, adequada e tempestiva” (grifamos).

Quer isto dizer que, “se o legislador infraconstitucional está obrigado,


em nome do direito constitucional à adequada tutela jurisdicional, a
prever tutelas que, atuando internamente no procedimento, permitam
uma efetiva e tempestiva tutela jurisdicional, ele não pode decidir, em
contradição com o próprio princípio da efetividade, que o cidadão
somente tem direito à tutela efetiva e tempestiva contra o particular.
Dizer que não há direito à tutela antecipatória contra a fazenda Pública
em caso de ‘fundado receio de dano’ é o mesmo que afirmar que o
direito do cidadão pode ser lesado quando a Fazenda Pública é ré.”

Outrossim, busca-se em antecipação de tutela específica e de forma


alternativa, haja vista a relevância social dos fatos expostos, a fazer com que
todas as ruas e avenidas danificadas da Cidade de Xambioá, sejam corretamente
manutenidas pelo Poder Público Municipal em prazo máximo de 30 (trinta) dias

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fixados por Vossa Excelência, quanto pelo bloqueio de recursos e substituição do


sujeito constitucionalmente atribuído, determinando-lhe, também, prazo para que
cumpra a obrigação.

Nota-se, incontestavelmente que, com o período de chuva, os estragos


nas vias públicas estão aumentando e, com isso, maiores riscos estão sendo
impostos a todos os que venham a se utilizar das ‘esburacadas’ ruas e avenidas
deste Município.

É imprescindível afirmar que o Poder Público Municipal tem


conhecimento desta situação e nada fez para solucionar o problema. Ao contrário,
a provocação judicial confirma a ausência de dinamismo, embora os tributos
arrecadados pelos cofres públicos sejam devidamente cobrados e repassados ao
Governo Municipal, ora pela arrecadação direta, ora pelo repasse do Fundo de
Participação dos Municípios.

Conforme dito, a relevância social e a definição da tutela jurisdicional


devem ser, no atual modelo de processo civil coletivo, maximizadas, evitando-se
a utilização comum das formas de execução de sentença.

A obtenção do resultado prático equivalente corresponde, no presente


caso, à manutenção e recuperação da camada asfáltica das ruas e avenidas
desta urbe. Não há outro desiderato a que se busca com a presente ação. Porém,
para que seu alcance ocorra, há vias alternativas, as quais se buscam em
antecipação de tutela para que seja o Município de Xambioá, após o prazo de 72
horas, instada imediatamente a realizar a substituição do asfalto, totalmente

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destruído de forma direta ou através dos procedimentos emergenciais previstos


na Lei nº 8666/93, concluindo-a no prazo máximo de 30 (trinta) dias.

Vencido o prazo da liminar, necessário que os recursos previstos na


Lei Orçamentária, Fundo de Participação dos Municípios e em especial os
elencados no artigo 156 da CF sejam bloqueados e depositados em conta judicial,
determinando-se, ainda, que se realizem as obras, respeitando-se o prazo de 60
(sessenta) dias, valendo-se para sua realização, dos recursos que se encontram
bloqueados, respeitando-se, contudo, as determinações para a realização de
obras emergências com base na Lei 8.666/93.

Para tanto, surge à necessidade de se levantar os custos da


manutenção emergencial das ruas e avenidas do Município de Xambioá, a fim de
que caso ultrapasse os valores orçados, sejam efetuadas projetos de emendas
emergências na Câmara dos Vereadores desta urbe, a fim de possibilitar a efetiva
concretização deste peticionário.

Afirma-se, outrossim, a possibilidade de obtenção de resultado prático


equivalente, qual seja a realização do bloqueio das vias públicas danificadas,
imputando ao Município de Xambioá o ônus quanto à indenização dos prejuízos
que os cidadãos vierem a ter, como também, as diversas pessoas jurídicas, em
decorrência da impossibilidade de trânsito, tendo como justificativa a salvaguarda
da vida das pessoas.

Assim, com supedâneo no artigo 12, § 2.º, da Lei 7.347/85, requer o


Ministério Público, vencido o prazo de 72h00min horas, seja determinado ao
Município de Xambioá que inicie as obras de recuperação asfáltica em todas as
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ruas, avenidas e logradouros públicos danificados, sob pena de cominação de


multa liminar diária no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais), quantia mínima
necessária para que a ré seja compelida a cumprir a liminar, abstendo-se,
outrossim, de apenas “jogar” asfalto nas ruas e avenidas.

6 – DOS PEDIDOS

Posto isto, requer o Ministério Público:

1) a concessão da medida liminar, correspondente a tutela


antecipada, para que a ré seja obrigada a iniciar a manutenção de todas as
ruas, avenidas e logradouros públicos danificados, em face da destruição
da pavimentação, adotando-se, outrossim, a regra do artigo 2º, da Lei nº
8437/92, especificamente quanto ao prazo de 72 (setenta e duas) horas para
resposta preliminar na pessoa do representante legal do Município (Prefeito
Municipal);

2) que seja condenado o Município de Xambioá a realizar a


manutenção definitiva de todas ruas, avenidas e logradouros públicos
danificados, no prazo de 30 (trinta) dias, condenando-a a não - fazer a
manutenção das vias publicas através das atuais operações “ tapa buracos”
da forma com que são realizadas, qual seja, jogando-se o asfalto nos
buracos, sem compactação e nivelamento, ficando a compactação
condicionada aos motoristas que passam pelos buracos, provocando
desnivelamento na pista de rolamento;

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3) que da ausência de início das obras no prazo estabelecido na


concessão da liminar, sejam os recursos públicos previstos no orçamento
da ré bloqueados e mantida a sua movimentação mediante autorização
judicial, intimando-se a Câmara dos Vereadores do Município de Xambioá na
pessoa de seu Vereador Presidente para que assuma a condição de gestor
da manutenção das vias e logradouros públicos, nos exatos termos
requeridos nesta ação, adotando os procedimentos previstos na Lei nº
8.666/93 para a execução da obra, caso não o faça de forma direta,
concluindo-a no prazo de 30 (trinta) dias. Requer, também, que seja vedada
a possibilidade da realização de operações “ Tapa buracos”;

4) que da não realização da obra diretamente pela ré ou através de


terceiros, mediante contrato, como também da não execução imediata nos
termos determinados na ACP, requer o Ministério Público como medida
extrema e excepcional o bloqueio das ruas e avenidas totalmente
intransitáveis como ora demonstradas nas fotos acostadas nos autos, haja
vista os riscos incontestes que os cidadãos estão tendo, indicando-se,
outrossim, na referida decisão a responsabilidade do Município de Xambioá
quanto aos prejuízos materiais e morais de todos aqueles que ficarem
impedidos de se utilizar as vias públicas danificadas no período que a
mesma esteja bloqueada ao trânsito regular de veículos;

5) a procedência dos pedidos supra descritos, com a cominação


de multa diária no quantum correspondente a R$ 10.000,00 (dez mil reais),
após concessão da liminar requerida nos itens 1,2 e 4, sendo este de forma
alternativa;

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6) a citação da ré, para, querendo, responderem a presente ação,


com as advertências do artigo 282, do CPC;

7) protesta provar o alegado, por todos os meios de prova em


direito admitidos, requerendo desde já, a realização de inspeção judicial,
objetivando-se com isto a melhor visualização de todo o quadro fático
exposto, realizando-se esta de forma antecipada, a realização de perícia, nos
termos supra descritos, a oitiva de testemunhas e o depoimento pessoal
dos representantes legais da ré.

Embora haja determinação para identificação do valor da causa, vê-se


que o objeto da lide, por estar atrelado à obrigação de fazer, comporta parâmetros
certos, porém o direito que se busca tutelar, qual seja a vida, tem valor
inestimável.

Portanto, para fins apenas de atendimento ao artigo 259, do CPC, dá-


se à causa o valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais).

Termos em que pede deferimento.

Xambioá, 08 de fevereiro de 2009.

PAULO ALEXANDRE RODRIGUES DE SIQUEIRA

Promotor de Justiça Substituto

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