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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ

ESCOLA DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES


CURSO DE LETRAS PORTUGUÊS/INGLÊS

DÉLRICK DOS ANJOS RAMOS


LETÍCIA FERNANDA CHAGAS DE OLIVEIRA

A DOMINAÇÃO MASCULINA EM DOM CASMURRO

CURITIBA
2019
DÉLRICK DOS ANJOS RAMOS
LETÍCIA FERNANDA CHAGAS DE OLIVEIRA

A DOMINAÇÃO MASCULINA EM DOM CASMURRO

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado ao Curso de Graduação em
Letras português-inglês da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná, como
requisito parcial à obtenção do título de
Licenciado em Letras Português- Inglês.

Orientadora: Prof. Dra. Tallyssa Sirino

CURITIBA
2019
DÉLRICK DOS ANJOS RAMOS
LETÍCIA FERNANDA CHAGAS DE OLIVEIRA

A DOMINAÇÃO MASCULINA EM DOM CASMURRO

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado ao Curso de Graduação em
Letras Português-Inglês da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná, como
requisito parcial à obtenção do título de
Licenciado em Letras Português-Inglês.

COMISSÃO EXAMINADORA

_____________________________________
Prof. Dr. Otto Leopoldo Winck
Pontíficia Universidade Católica do Paraná

_____________________________________
Profa. Dra. Tallyssa Izabella Manchado Sirino
Pontíficia Universidade Católica do Paraná

Curitiba, 28 de novembro de 2019.


página e alinhada á direita.À todas as
mulheres – com olhos de cigana,
oblíquas e dissimuladas – que
vivenciam na pele a dominação patriarcal.
AGRADECIMENTOS

Meu agradecimento especial a Xxxxxxxxxx.Eu, Letícia, agradeço aà Deus por ter me


mantido forte em meio a tantos acontecimentos que rodearam minha vida durante a
escrita do presente trabalho. AÀ Ele toda honra e glória;

Agradeço ao meu marido, Marcos de Castro Leal Junior, pelo amor, paciência e
prestatividade durante esse processo. Você é o melhor revisor que nosso trabalho
poderia ter, e o melhor marido do mundo. Te amo, para sempre!

Agradeço ao meu sogro e sogra, Marcos e Cristiane, pelo acolhimento e suporte que
viabilizaram o presente trabalho, e também a conclusão da minha graduação. Não
sou capaz de expressar minha gratidão, que é imensa e eterna.

Eu, Délrick, agradeço ao apoio de meus pais José Rubens Ramos e Roseli dos
Anjos Ramos por sempre fazerem o melhor que puderam para me dar- me um bom
estudo e me orientar -me durante minha infância e adolescência.

Sou muito grato também a minha companheira Fernanda Inglat que sempre se
mostrou muito engajada e interessada com o assunto, me ajudando- me com
discussões acerca do assunto e também com muito amor. Foi preciso ter muita
paciência para lidar com um formando escrevendo seu projeto de conclusão de
curso, te amo- te por isso.

(INSERIR AQUI OS AGRADECIMENTOS DO DELRICK)

Nós, Delrick e Letícia, agradecemos àa Natália Closs pela ideia inicial que deu
formato ao nosso trabalho. Sem você, esse trabalho não existiria.

Aos nossos amigos, em especial a Kelly Schuebel, Dayane Fracaro, Barbara


Palomares e Mariana Siburski, que nos acompanharam e tornaram todo o processo
da graduação o mais acolhedor possível.

Agradecemos ao pProfessor Otto por ter direcionado a temática de nosso TCC para
Dom Casmurro. É um livro que nos marcou e nos acompanhou a vida inteira, e não
poderíamos ter tido uma indicação melhor.

Àa Pprofessora e oOrientadora Tallyssa Sirino, agradecemos pelo acolhimento e


pela grande ajuda na construção e fundamentação desse trabalho. É a professora
que ensinou a valorizar a identidade da mulher e de não ficar calado em situações
difíceis. Você nos inspira! .

Eu, Letícia, agradeço a meu amigo Delrick pela parceria um tanto única, desde o
primeiro dia em que entrei na PUCPR. Sem você, eu não teria chegado tão longe.
Não tinha outro jeito de terminar a faculdade a não ser escrevendo o trabalho mais
importante da graduação, com você. Obrigada por mais essa conquista. Te amo!

E eu, Délrick, fico feliz de ter conhecido a minha amiga e parceira Letícia pois sei
que posso contar com ela para tudo; seja conversar e se divertir ou realizar
atividades acadêmicas tão importantes quanto o trabalho final. A realização deste
mostrou que amigos podem trabalhar em equipe sem brigas ou desentendimentos.
Sem ela, esses anos letivos não teriam sido tão incríveis, é uma amizade que
certamente quero levar para a vida. Amo-te.
“É que tudo se acha fora de um livro falho,
leitor amigo. Assim preencho as lacunas
alheias... assim também podes preencher
as minhas”
(Dom CasmurroASSIS, capítulo 591981, p.75).
RESUMO

EsteO presente estudo teve como objetivo principal compreender como, através da
obra Dom Casmurro, as relações de gêneros enraizadas no sistema patriarcal a
dominação masculina está representada e se legitima na obra “Dom Casmurro” de
Machado de Assis. A narrativa se passa no final do século XIX, e o romance é
narrado em primeira pessoa por Bento Santiago. Desta forma, fez-se necessário
analisarpara viabilizar a análise, foi investigado o papel da mulher emdesse
narrador-personagem dentro da sociedadeobra, tomando como base osverificando
como indícios que representavam a dominação masculina se legitima na narrativa
apresentada por Bentinhoem sua narrativa, inserindo o contexto social patriarcal no
qual a obra se encontra. Indícios estes que definem palavras pejorativas como
oblíqua e dissimulada dita por Bento, para construir a Capitu esperta e curiosa, que
perturba a ordem patriarcal. Portanto, foi verificado na análise que lugar esse
narrador ocupa como homem socialmente e familiarmente na obra e de que modo é
feita a construção da figura mulher e a sua percepção a respeito de Capitu. O
discurso do narrador parte de um lugar que o evidencia como um cultuador do modo
patriarcal, que silencia as mulheres, assim como é o caso da personagem Capitu.
Além disso, foi possível identificar as relações entre o discurso constituinte da
literatura, o poder e o patriarcalismo, formando uma ligação que subalterniza as
figuras femininas, tendo em vista que, na obra em questão, elas estão sob a
perspectiva única do dono e senhor da narrativa. A pesquisa é de cunho qualitativo e
bibliográfico e, para alcançar o objetivo, buscamosbuscou-se estudos basilares
como os de Pierre Bourdieu (2019), Elisabeth Badinter (1993), Mário de Alencar
(1959), Sonia Guarita do Amaral (2009), John Gledson (1991), Ruth Silviano
Brandão (2006), Robert Schwarz Pierre Bourdieu (1998), Elisabeth Badinter, Mário
de Alencar, Sonia Guarita do Amaral, John Gledson (1991), John Kenneth Galbraith
(1999), Ruth Silviano Brandão (2006), Robert Schwarz (1991), entre outros. A partir
das análises, foi possível observar conceitos e conexões sobre o patriarcalismo e as
estratégias discursivas de Bentinho, como e com quais objetivos e intenções o
narrador se coloca. O estudo está divido em duas partes: , primeiro, referente aa
análise daos personagens masculinos e suas respectivas relações com o
patriarcadoconstrução e validação da masculinidade das personagens homens da
obra, bem como a presença da masculinidade tóxica nas ações do narrador-
personagem; Em seguida, quanto a Capitu e como essa personagem é exposta à
dominação masculina em questão. e por segundo as consequências das atitudes
deles em Capitu. Finalizando o trabalho, procuramos entender como se revela o
discurso literário e como Bentinho constrói esse discurso a respeito de Capitu. Ao
longo da pesquisa, pudemos perceberfoi possível verificar que a masculinidade de
José Dias, Tio Cosme, Pádua e Escobar são testadas e desqualificadas pelo
narrador e também pela sociedade patriarcal; Bentinho é a voz unilateral da
narrativa e, em sua posição de dominador social, utiliza de atitudes aqui
classificadas como tóxicas, para se relacionar com as outras personagens na obra;
E Capitolina é a representação central da mulher fora dos padrões esperados para a
época, sofrendo os efeitos de uma sociedade patriarcal que legitima a dominação
masculina.
a figura dela é subalternizada por esse discurso de Bento, que a coloca como uma
mulher fora dos padrões julgando-a por não ser a mulher dona de casa que a
sociedade idealiza.O presente trabalho tem como objetivo analisar como a
dominação masculina se apresenta na obra de Machado de Assis, “Dom Casmurro”,
considerando o contexto social e histórico em que a obra está inserida.
se as escolas da rede estadual de São Paulo que oferecem o ciclo único, possuem
melhores resultados no IDESP que as escolas que oferecem o ciclo misto. Já que
esse é um dos motivos alegados pela secretaria de Educação de São Paulo para a
proposta de reorganização escolar em 2015, busca-se nessa análise a veracidade
dessa afirmação feita pela Secretaria. Será que realmente as escolas exclusivas
possuem melhores indicadores de qualidade que as escoas não exclusivas? Será
que o IDESP é um indicador de qualidade suficiente para classificar a qualidade do
ensino de uma instituição escolar? A partir desse pressuposto, foram analisados
resultados do IDESP de 43 escolas da rede estadual do município de Guarulhos do
ano de 2008 até o ano de 2015. Entre elas estão escolas que oferecem ciclo único e
ciclo misto, oportunizando assim a possibilidade de uma comparação. De acordo
com a análise dos dados, não foi identificada tal discrepância entre os resultados do
IDESP obtidos pelas escolas, não podendo ser um argumento decisivo para ser
usado pela Secretaria como motivo para reorganização.

O texto do resumo deve ter entre 150 e 500 palavras. O texto do resumo deve conter
a apresentação do tema, o problema ou objetivo geral da pesquisa, a metodologia, e
os principais resultados. Deve ser redigido em parágrafo único, mesma fonte do
trabalho, e espaçejamento linhas simples. Resumo resumo rsumo resumo resumo
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resumo resumo resumo resumo resumo resumo resumo resumo resumo resumo
resumo.

Palavras-chave: Palavra 1Dominação Masculina. Palavra 2Dom Casmurro. Palavra


3Machado de Assis.
ABSTRACT

This study aimed to understand how male domination is represented and legitimated
in the work "Dom Casmurro" by Machado de Assis. The narrative takes place in the
late nineteenth century, and the novel is narrated in the first person by Bento
Santiago. Thus, to enable the analysis, the role of this narrator-character within the
work was investigated, verifying how male domination is legitimized in his narrative,
inserting the patriarchal social context in which the work is placed. The research is of
a qualitative and bibliographical nature and to reach the objective we sought basic
studies such as Pierre Bourdieu (2019), Elisabeth Badinter (1993), Mario Alencar
(1959), Sonia Guarita do Amaral (2009), John Gledson (1991), Ruth Silviano
Brandão (2006), Robert Schwarz (1991), among others. The study is divided into two
parts: first, referring to the analysis of the construction and validation of the
masculinity of male characters in the work, as well as the presence of toxic
masculinity in the actions of the narrator-character; Then, about Capitu and how this
character is exposed to the male domination in question. Throughout the research, it
was possible to verify that the manhood of José Dias, Uncle Cosme, Padua and
Escobar are tested and disqualified by the narrator and also by the patriarchal
society; Bentinho is the unilateral voice of the narrative and, in his position as social
dominator, uses attitudes classified here as toxic to relate to the other characters in
the work; And Capitolina is the central representation of women outside the expected
standards of the time, suffering the effects of a patriarchal society that legitimizes
male domination.

Key-words: Male Domination. Dom Casmurro. Machado De Assis.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...............................................................................................10
2 MASCULINIDADE E SUA CARACTERIZAÇÃO HISTÓRICA.....................13
2.1 VISÃO DETERMINISTA E CONSTRUTIVISTA DOS GÊNEROS.................15
2.2 DOMINAÇÃO MASCULINA E SUAS ORIGENS...........................................16
3 A CONTRIBUIÇÃO DO PATRIARCADO PARA A FORMAÇÃO DA FIGURA
MASCULINA NA SOCIEDADE..................................................................................24
3.1 O PATRIARCADO..........................................................................................24
3.2 O PATRIARCADO NA SOCIEDADE BRASILEIRA........................................26
4 CONSTRUÇÃO DA MASCULINIDADE COMO TÓXICA.............................28
5 CONTEXTUALIZAÇÃO DO AUTOR E OBRA..............................................30
5.1 O CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL DA OBRA...........................................33
6 ANÁLISE DA OBRA......................................................................................36
6.1 A DOMINAÇÃO MASCULINA NAS PERSONAGENS HOMENS DA OBRA 36
6.1.1 José Dias: O agregado Bajulador...............................................................38
6.1.2 Tio Cosme e a Masculinidade Sexual Corrompida...................................41
6.1.3 Pádua e o rompimento com a Dominação Masculina..............................42
6.1.4 Escobar: o preço social da demonstração afetiva...................................44
6.1.5 Bentinho: a análise de uma Masculinidade Tóxica..................................45
6.2 CAPITU: O RETRATO DA MULHER EXPOSTA A DOMINAÇÃO
MASCULINA................................................................................................................49
6.3 CAPITU COMO UMA MULHER A FRENTE DE SEU TEMPO......................54
7 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES....................................................................57
REFERÊNCIAS...........................................................................................................59
11

1 INTRODUÇÃO

Conforme define o dicionário Webster’s Dictionary (1987, p. 64), a palavra


“clássico” se refere a tudo que “serve a um padrão de excelência”1. Portanto, a obra
Dom Casmurro, de Machado de Assis (1839-1908), é certamente um clássico da
literatura brasileira nos últimos dois séculos, ultrapassando sua época e gerando
discussões acerca de seu conteúdo até os dias atuais.
A obra Dom Casmurro, de Machado de Assis (1839 - 1908), é certamente
uma das obras mais lidas e analisadas na literatura brasileira nos últimos dois
séculos, fazendo parte do aprendizado da língua desde a infância até o início da
vida adulta.
Uma construção literária tão rica no aspecto cultural da época em que foi
publicada (1899) que é celebrada como uma das maiores contribuições que
Machado de Assis nos deixou. Afinal, Capitu traiu ou não Bentinho? Uma pergunta
que conviveu com muitos dos adolescentes prestes a realizar o exame do vestibular
em muitas universidades e será, nesse trabalho, expandida para uma discussão
mais abrangente: O que faz com que Dom Casmurro tente convencer o leitor de
que seu relato é verídico?
A família de Bentinho é um extrato da família tradicional da época – final do
século XIX, com um pouco mais de uma década depois do Regime Imperial e o fim
da Escravidão – período em que a sociedade brasileira estava sofrendo profundas
transformações. Apesar de a obra iniciar-se em uma época distante da qual ela foi
escrita (1859), mistura-se, nos personagens, as transformações propiciadas pelo
momento histórico vivido.
É costumeiro para o senso-comum a discussão acerca da relação de
Bentinho e Capitu, no aspecto de verificar as condutas da protagonista e a partir de
tal análise verificar, se, por exemplo, houve ou não a traição de Capitu e Escobar.
Porém, é necessário abordar os elementos externos da sociedade em que o livro se
passa, bem como a sociedade real do escritor Machado de Assis, questionando
possíveis comportamentos abusivos e tóxicos por parte de Bento Santiago, até
mesmo utilizando-os por parte de Machado como uma crítica à sociedade da época.
Usualmente, as análises realizadas sobre a obra tendem a guardar maior
atenção para a relação de Bentinho e Capitu, no aspecto de verificar as condutas

1
Tradução dos autores. .
12

da protagonista e a partir de tal análise verificar, se, por exemplo, houve ou não a
traição de Capitu e Escobar. Porém, é necessário abordar os elementos externos
da sociedade em que o livro se passa, bem como a sociedade real do escritor
Machado de Assis, questionando possíveis comportamentos abusivos e tóxicos por
parte de Bento Santiago, até mesmo utilizando-os por parte de Machado como uma
crítica à sociedade da época.
Mesmo que seja necessária certa cautela em se estudar uma relação literária
esculpida em uma sociedade totalmente patriarcal, tradicional, conservadora,
perpassando por momentos políticos turbulentos nos últimos dez anos antes da
conclusão de Dom Casmurro, a masculinidade tóxica (termo bastante recente para
definir o comportamento prejudicial de um homem na sociedade em que o mesmo
está inserido) em Bentinho pode ter sido um dos fatores fundamentais na
construção de um dos textos literários mais célebres da literatura nacional.
Ao questionarmos apenas a personagem feminina Capitu acerca do
adultério, tendemos a não realizar uma reflexão profunda dos elementos que
constroem a personagem de Bento Santiago, ignorando-se, portanto, o momento
em que o aludido personagem conduz a narrativa permeado de uma masculinidade
e virilidade imposta diante do contexto social do período histórico.
Em muitas análises realizadas sobre a obra “Dom Casmurro” não há uma
reflexão profunda dos elementos que constroem a personagem de Bento Santiago,
ignorando-se, portanto, o momento em que o aludido personagem conduz a
narrativa permeado de uma masculinidade e virilidade imposta diante do contexto
social do período histórico.
Neste sentido, qual seria a real contribuição das condutas de Bentinho na
construção de Dom Casmurro? Teria a personagem, a partir de uma masculinidade
tóxica, contaminado o relacionamento com a outra protagonista e transferido esse
cenário para o relato de sua história?
O presente trabalho se dedicará a visualizar, diante do contexto do momento
histórico, como a mencionada masculinidade de Bentinho, seus comportamentos,
condutas e atitudes direcionaram a trama e contribuíram robustamente para o
desenvolvimento de toda a história do livro. Podemos confiar no relato de Bentinho
ao inseri-lo em uma sociedade patriarcal, bem como sua própria estrutura familiar
que também apresenta sua formação pautada nesse regime, aliado à unilateralidade
de relato de um personagem masculino? A masculinidade tóxica inserida a este
13

cenário será analisada como princípio fundamental de construção dessa


personagem, com o objetivo de desconstruir a veracidade inquestionável do relato
feito na obra em questão, analisando a influência da masculinidade tóxica da
personagem Bento Santiago na obra “Dom Casmurro”, de Machado de Assis.
Dentro dessa análise, os objetivos específicos são: analisar o contexto
histórico e social do autor da obra; apontar a influência desse contexto na
construção de personagens da obra e destacar o impacto que a masculinidade
tóxica em Bento teve nas outras personagens ao seu redor.
Quanto aos procedimentos metodológicos utilizados para a realização dessa
análise, conforme define TRIVINOS (1987), a tipologia de analise dita “‘’descritiva”’’
tem por objetivo que o pesquisador detenha de inúmeras informações sobre o que
se deseja pesquisar. Esse tipo de estudo demanda descrição dos fatos e fenômenos
que determinam a realidade.
Quanto a pesquisa dita “‘’qualitativa”’’, segundo Denzin e Lincoln (2006), a
abordagem é a interpretação do mundo, ou seja, o pesquisador utiliza o cenário
natural para embasar seu trabalho, tentando entender os fenômenos em termos dos
significados que as pessoas a eles conferem.
O presente trabalho utilizou-se de uma pesquisa descritiva e qualitativa com a
finalidade de analisar a obra “‘’Dom Casmurro”’’, considerando-a em seu contexto
sócio-histórico-econômico, por meio do questionamento do comportamento do
narrador-personagem Bento Santiago e sua unilateralidade de relato quanto à
suposta traição da personagem Capitu.
Ao, verificarndo a presença de um comportamento masculino tóxico,
resultante da sociedade patriarcal da época nessa personagem central. Além disso,
a presença da dominação masculina entre as personagens masculinas, bem como a
maneira em que esse aspecto se legitima na obra será analisado. Para isso, a
pesquisa será baseada em estudos de autores, como BADINTER (1993),
BOURDIEU (2019), TOLSON (1983), ARDENGHI e ORELLANA (2017) e AGUIAR
(1997) para definir o conceito de masculinidade tóxica e analisar a aplicação da
dominação masculina na obra, bem como a contribuição do patriarcado nesse
cenário, e também autores como COSTA, ALENCAR (1959), LIMA, VERÍSSIMO,
AMARAL (2009), FISCHER E GLEDSON (1991) para investigar o contexto em que a
obra está inserida, e também acerca do autor e sua irreverência ao tratar de
assuntos muito à frente de seu tempo em suas obras.
14

2 MASCULINIDADE E SUA CARACTERIZAÇÃO HISTÓRICA

Em paralelo à celebre frase da francesa Simone de Beauvoir, em seu livro “O


Segundo Sexo”, onde em que a mesma afirma que “Ninguém nasce mulher: torna-
se.” (1980, v.2, p.9), a autora Elisabeth Badinter afirma em sua obra “‘’XY – sobre a
identidade masculina” em’’ que o tornar-se masculino envolve fatores psicológicos,
sociais e culturais de que nada tem a ver com a genética, mas desempenha papel
não menos determinante, talvez mais do que ela. (1993, p. 1). PortantoAssim, o
“‘’ser homem”’’ se ressignifica- se desde as primeiras lutas feministas dos anos 60,
quando a posição inabalável do gênero masculino bem como sua hegemônica
significação é posta à prova, fator que se desenvolve até os dias presentes, com
reflexões acerca de gênero e sexo, representatividade, e muitos outros
questionamentos modernos necessários para uma sociedade conectada e
globalizada. Portanto, o termo ‘’tóxico’’ está relacionado à masculinidade que
interfere de alguma maneira na construção do homem como gênero em diversos
estudos recentes sobre a temática.
Sobre o surgimento da análise do gênero masculino, conforme teoriza
Badinter, entre o final do séc. XIX e o início do séc. XX –, simultaneamente nos
países Europeus e nos Estados Unidos da América –, o posicionamento do homem
devido às crises econômicas e sociais semelhantes nesses lugares começa a ser
questionado e movimentado através de movimentos feministas. Mulheres passam a
ingressar no mercado de trabalho e em posições sociais em que, anteriormente,
eram excluídas. Sobre esse contexto, a autora cita Annelise Maugue como a
primeira mulher a questionar a crise de identidade para os franceses e discorre
acerca daquele cenário:

[...] reclamam seus direitos de cidadãs por inteiro, pretendem ganhar a vida
fora do lar e já anunciam: ‘’Para trabalho igual, salariosalário igual’’. A
maioria dos homens reage com hostilidade ao movimento de emancipação
das mulheres. [...] Ccomo observa Annelise Maugue com exatidão, os
homens temos homens têm medo (MAUGUE apud BADINTER, 1993, pg.
15).

A autora segue caminhando historicamente dentro do cenário Francês até se


deparar com uma grande onda quantidade de ódio alastrado através por de todas as
áreas de conhecimento, e instaurando uma enorme onda indignaçãorevolta de
15

misoginia e tentativa da afirmação da masculinidade através do repúdio ao gênero


feminino:

depois dos filósofos, os psicólogos e os biólogos, assim como os


historiadores e os antropólogos, dão provas de um antifeminismo
extremamente violento. Todos se dedicam a demonstrar, com sucesso, a
inferioridade antológica da mulher. A mulher está próxima do animal e do
negro, sendo dominada por instintos primitivos – ciúme, vaidade, crueldade
(BADINTER, 1993, p. 18).

Aqui, se faz- se necessário para o presente contextualizar a história literária e


cultural brasileira onde, segundo escreve Alfredo Bosi em sua obra “História Concisa
da Literatura Brasileira”, origina-se sua produção literária e a própria história cultural
nos mesmos moldes que ocorrem as literaturas americanas, através do que o autor
denomina de “complexo colonial”. Ele explica:

O problema das origens da nossa literatura não pode formular-se em termos


de Europa, onde foi a maturação das grandes nações modernas que
condicionou toda a história cultural, mas nos mesmos termos das outras
literaturas americanas, isto é, a partir da afirmação de um complexo colonial
de vida e de pensamento. (BOSI, 1994, p. 11).

O autor segue contextualizandocom contextualizações, ao demonstrar as


razões pelas quais esse complexo colonial se instalou no paispaís, explicando que o
processo de libertação do colonizador deu-se em termos lentos.

A Colônia é, de início, o objeto de uma cultura, o “outro” em relação à


metrópole: em nosso caso, foi a terra a ser ocupada, o pau-brasil a ser
explorado, a cana-de-açucarcana-de-açúcar a ser cultivada, o ouro a ser
extraído; numa palavra, a matéria-prima a ser carreada para o mercado
externo. A colônia só deixa de o ser quando passa a sujeito da sua história.
Mas essa passagem fez-se no Brasil por um lento processo de aculturação
do português e do negro à terra e às raças nativas; e fez-se com naturais
crises e desequilíbrios. Acompanhar este processo na esfera de nossa
consciência história é pontilhar o direito e o avesso do fenômeno nativista,
complemento necessário de todo complexo colonial. (BOSI, 1994, p. 11).

Portanto, ao visualizar a produção literária e tambéme cultural brasileira, é


possível estabelecer um paralrelismo dos movimentos feministas e suas reações na
Europa apresentados por Badinter em sua obra, com a sociedade brasileira da
época. Após constatar essa relação, é preciso acompanhar as demais anaálises
sobre outras partes da Europa e até Estados Unidos feitas pela autora.
Ao propor sua reflexão pela Alemanha, seguindo pelos Estados Unidos, e
retornando àa Europa, Elisabeth Badinter conclui que, apesar do aparente alívio
quanto aos questionamentos do homem em relação à sua própria identidade
16

masculina, o tema fora apenas mascarado e ressurgiu com maior voracidade,


assombrando a figura masculina dali em diante (BADINTER, 1993, p. 22).
É importante salientar as discussões acerca do gênero masculino e também
do feminino, que surgiram desde o início da caracterização de ambos, bem como o
movimento de cada um, conforme descrito no início deste capítulo. Essas visões
deram sequência ao movimento inicial sobre o assunto no sec. XIX, adentrando na
contemporaneidade do que se entende por esses dois gêneros, partindo de diversas
teorias acerca do tema, conforme exposto a seguir.

2.1 VISÃO DETERMINISTA E CONSTRUTIVISTA DOS GÊNEROS

Chamada também de “‘’visão do eterno masculino’”’, a primeira discussão


sobre a divisão dos gêneros, conforme caracteriza BADINTER (1993), se dá- se ao
que a mesmapela autora chama comode visão diferencialista acerca do homem e da
mulher, onde em que há uma essência sexual imutável (p. 24). Dentro da corrente
soóciobiológica dentro dessa visão determinista, o homem é visto da mesma
maneira com que se apresenta no reino animal: são mais fortes, agressivos e
dominantes. A autora assim explica:

Este ponto de vista encontrou novo vigor na sociobiologia, fundada em 1975


por E. O. Wilson. Especializado no estudo acerca do comportamento de
insetos, Wilson e seus discípulos estão convencidos de que todos os
comportamentos humanos se explicam em termos de hereditariedade
genética e de funcionamento neurônico. [...] As teorias sócio-biologicas,
nitidamente mais populares nos países anglófonos do que na França,
estabelecem em princípio que o sexo é ‘’uma força anti-social’’. Os dois
sexos não são feitos para se entender, mas para se reproduzir (BADINTER,
1993, p.23).

Há, ainda, outra linha de pensamento descrita pela autora, reservada à visão
feminista sobre o diferencialismo de gênero que tem ênfase no papel e na
caracterização da mulher. A autora cita algumas correntes dessa visão, mas para o
presente trabalho é necessário o enfoque em como o masculino é visto percebido e
se constrói dentro dessa corrente, de um âmbito geral; já as correntes feministas se
preocupam, por lógica, com a mulher e suas considerações. PConclui-se, portanto,
segundo a pela autora que a base da visão diferencialista culmina em um gênero
sendo valorizado acima do outro. BADINTER (1993, p. 27) instrui que:

Fundamentando-se ambos no princípio do determinismo biológico,


sociobiologia e feminismo diferencialista chegam a um resultado similar: um
17

é sempre valorizado à custa do outro. Sobre essa óptica, homens e


mulheres só se encontram no momento da inseminação... O essencialismo
desemboca, necessariamente, na separação e, pior ainda, na opressão. [...]
Prisioneiros de um esquema predeterminado e mesmo supra determinado,
homem e mulher estão condenados a desempenhar sempre os mesmos
papeis. A recomeçar eternamente a mesma guerra. BADINTER (1993, p.
27)

Acerca dessa explicação de Badinter (1993), podemospode-se verificar os


papeis sociais de Capitu e Bento Santiago na obra, ondecujo gênero de cada um
determina a maneira como essas personagens devem se comportar.
AnalisaremosAnalisa-se, na pesquisa, a quebra de padrão de comportamento de
Capitu, esperado para uma mulher na época, bem como as tentativas de validação
de Bento a cercaresultantes de sua própria masculinidade, resultando em um
comportamento tóxico que será explorado no presente trabalho.
Quanto aà outra visão analisada exposta na obra “‘’XY – sobre a identidade
masculina”’’, chamada de construtivista, ou masculinidade estilhaçada, a mesma
recebe essa nomenclatura por assumir que não há uma masculinidade hegemônica.
Essa A visão tem seus estudos estendidos à atualidade, pois se aprofunda na
construção da masculinidade em diferentes partes do mundo. Badinter cita exemplos
de estudos feitos em diversas tribos por diversos autores, para concluir:

Não há necessidade de correr o mundo para constatar a multiplicidade de


modelos masculinos. Nossa sociedade é um bom observatório para essa
diversidade. A masculinidade difere segundo a época, mas também
segundo a classe social, a raça, e a idade do homem (BADINTER, 1993, p.
28).

As teorias acerca da formação da masculinidade são fundamentais para


analisar como esse processo pode ser prejudicial para a sociedade em que se
aplicaA multiplicidade de teorias acerca da formação da masculinidade é
fundamental para analisar como ela pode ser prejudicial para a sociedade em que se
aplica, incluindo para o indivíduo homem que sofre diretamente suas influências.
Analisar o homem atual, à luz das teorias que se sustentam na contemporaneidade
se faztorna-se necessário para compreender a obra “‘’Dom Casmurro”’’, na medida
em que essas pesquisas, bem como os exemplos e aplicações estudados por
Badinter acerca, por exemplo, da relação do homem e sua mãe, serão utilizadas
para analisar o comportamento de Bento Santiago dentro da sociedade e a época na
qual a obra estava inserida.
18

2.2 DOMINAÇÃO MASCULINA E SUAS ORIGENS

A célebre frase de Virginia Woolf, “uma mulher precisa ter dinheiro e um


quarto próprio se quiser escrever ficção” (achar referencial)(WOOLF, 2014, p.12)
denuncia a necessidade da libertação da mulher frente a dominação masculina, que
se aplica em cada uma das inúmeras divisões dentro de uma sociedade. Quando se
trata da própria literatura brasileira, visualizamosvisualiza-se autores homens
retratando mulheres em suas obras, mesmo quando em papéis centrais, como
adúlteras, fúteis, e predestinadas ao sofrimento em seus trágicos finais. Teria
Lucíola, de José de Alencar (1988), a chance de um final feliz se essa obra tivesse
sido escrita por uma mulher? E Rita, do famoso conto de Machado “A Cartomante”
(1984), seria capaz de terminar sua história com vida? Até mesmo Capitu, se tivesse
a oportunidade de escrever seu relato, ainda discutiríamosdiscutir-se-ia o livro sobre
a perspectiva de sua suposta traição? O apagamento da mulher quanto a autoria de
livros considerados “clássicos” ou canônicos confirma a denúncia de Woolf e resulta
na necessidade de olhar para o comportamento do homem em meio a essa
realidade.

Acerca dessa temática, enquanto a obra de Elisabeth Badinter se preocupa


em descrever a construção da masculinidade ao longo do tempo, a obra de Pierre
Bourdieu que leva, justamente, o título de “A dominação masculina” (2019), visa
mapear os mecanismos de dominação do homem dentro da sociedade, suas causas
e aplicações e, citando diversas vezes a própria Woolf em sua obra, interliga as
origens da segregação feminina à sociedades arcaicas e essencialmente
androcêntricas, que tornaram a dominação masculina um conceito enraizado e de
difícil identificação quanto a origem.
Acerca Sobre dos conceitos utilizados pelo autor, os mesmos se fazem
fundamentais neste trabalho para a posterior análise da obraque se fazem
fundamentais para entender como a dominação masculina se aplica em “Dom
Casmurro”, iniciando comé preciso identificar a identificação da origem da
dominação masculinadesse sistema. Para o autor, esse a dominação masculina
fenômeno acontece por meio da naturalização de pensamentos e costumes que, de
tão enraizados, não buscamos questioná-los dentro da sociedade. Sobre essa
19

naturalização dos instrumentos que culminam na dominação masculina, o autor


escreve:

[...] o fato de que a ordem do mundo, tal como está, [...] ou, o que é ainda
mais surpreendente, que a ordem estabelecida, com suas relações de
dominação, seus direitos e suas imunidades, seus privilégios e suas
injustiças, salvos um poucos acidentes históricos, perpetue-se apesar de
tudo então facilmente, e que condições de existência dais mais intoleráveis
possam permanentemente serem vistas como aceitáveis ou até mesmo
como naturais (BOURDIEU, 2019, p.11).

Para o teórico, essa dominação se dá através da violência simbólica, tipo de


violência também enraizada em nossos costumes, tão sutis que se tornam
imperceptíveis. A violência simbólica, caracteriza-se como uma “violência suave,
insensível, invisível por suas próprias vítimas” (BOURDIEU, 2019, p. 12) e é o que
legitima a violência prática, trabalhada pelo autor e exemplificada através de
diversos símbolos ao decorrer da obra. A literatura irá representar os discursos
sociais que operam essa violência simbólica, tal como comentários e expectativas
sociais retratados na obra “Dom Casmurro” em questão.
É necessário enfatizar que, segundo Bourdieu, as estruturas de pensamento
que legitimam e naturalizam a violência simbólica, que posteriormente se torna
prática, são estruturas inconscientes. Ele explica:

Como estamos incluídos como homem ou mulher, no próprio objeto que nos
esforçamos por aprender, incorporamos, sobre a forma de esquemas
inconscientes de percepção e de apreciação, as estruturas históricas da
ordem masculina; arriscamo-nos, pois, a recorrer, para pensar a dominação
masculina, a modos de pensamento que são eles próprios produtos da
dominação”. (BOURDIEU, 2019, p.17)

Ele busca historicizar esses pensamentos que parecem ser naturais, tanto no
campo simbólico quando nas práticas, contestando assim essa dominação
masculina mesmo quando esta se configura de forma a parecer legítima, até mesmo
para mulheres. Para realizar tal feito, o autor classifica como “arbitrária em estado
isolado, a divisão das coisas e das atividades” (BOURDIEU, 2019, p. 21) que se
relacionam ao sexo feminino e ao masculino dentro de uma sociedade. E acerca
dessa arbitrariedade que parece não ter uma origem histórica, remetendo o
20

pensamento comum à uma estrutura que seria naturalmente daquela maneira, o


autor comenta:

Lembrar que aquilo que, na história, aparece como eterno não é mais que
um produto do trabalho de eternização que compete a instituições
interligadas tais como a família, a igreja, a escola, e também, em uma outra
ordem, o esporte e o jornalismo [...], é reinserir na história e, portanto,
devolver à ação histórica, a relação entre os sexos que a visão naturalista e
essencialista dela arranca [...]. (BOURDIEU, 2019, p.8).

Segundo Bordieu, a própria divisão dos sexos se dá de maneira arbitrária,


utilizando-se das estruturas de pensamentos já enraizadas para adquirirem
legitimação, se apresentando- se como estruturas dentro da “ordem das coisas”
(BOURDIEU, 2019, p. 22), dispensando, portanto, comprovação e análise. A própria
“força da ordem masculina se evidencia no fato de que ela dispensa justificação”
(BOURDIEU, 2019, p. 24).
Esse fenômeno pode ser observado durante a obra, quando, por exemplo, o
Padre está casando Bento Santiago e Capitu. Ele escolhe uma passagem bíblica
que, justamente, enfatiza essa suposta ordem natural do papel de homem e da
mulher, inclusive em um casamento.

As mulheres sejam sujeitas a seus maridos... Não seja o adorno delas o


endeite dos cabelos riçados ou as rendas de ouro, mas o homem que está
escondido no coração... Do mesmo modo, vós, maridos, coabitai com elas,
tratando-as com honra, como a vasos mais fracos, e herdeiras convosco da
graça da vida... (Primeira epístola bíblica, Novo Testamento, APUD, Assis,
Machado, 1981, p. 114)

Para estudar como esses conceitos se aplicam na prática, o autor se fixa no


estudo de uma organização social androcêntrica, que se constitui como a
perspectiva masculina sobre uma sociedade, na região da Argélia, para exemplificar
como se constroem os símbolos sociais que definem a mulher e o homem e seus
respectivos papeis. Conforme explica:

[...] na qual a divisão entre os sexos, tal como a conhecemos, se produz; ou,
em outros termos, de tratar a análise objetiva de uma sociedade organizada
de cima a baixo segundo o princípio androcêntrico (a tradição cabila), como
uma arqueologia objetiva de nosso inconsciente, isto é, como instrumento
de uma verdadeira socioanálise. (BOURDIEU, 2019, p.14).
21

Sobre a importância da visão androcêntrica para a organização de uma


sociedade que impõe a dominação masculina dentre seus membros, Pierre Bourdieu
assume que “impõe-se como neutra, e não tem necessidade de se enunciar em
discursos que visem a legitimá-la”. (BOURDIEU, 2019, p. 24).
O estudo dessa sociedade específica é justificado e, novamente, se faz- se
necessário para o presente trabalho, pois, conforme explica o autor, “toda a área
cultural europeia partilha, indiscutivelmente, dessa tradição” (BOURDIEU, 2019, p.
19) ou seja, a sociedade europeia e mais especificamente a francesa do séc. XX
mantém as mesmas características androcêntricas e naturalizam pensamentos
arbitrários acerca dentro da dominação masculina em questão e que, e conforme já
citado anteriormente na obra de Bosi (1994), tem relações na maneira como a
sociedade brasileira se configura. .
Quanto a aplicação e reprodução prática da violência simbólica dentro da
dominação masculina, exemplos quanto a organização social de todas as esferas
são amplamente explorados e atribui-se a essa ordem social a legitimação simbólica
a qual se fixa a dominação masculina:

A ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica que tende a
ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça: é a divisão social
do trabalho, distribuição bastante restrita das atividades atribuídas a cada
um dos dois sexos, de seu local, de seu momento, seus instrumentos; é a
estrutura do espaço, opondo o lugar de assembleia ou de mercado,
reservado aos homens, e a casa, reservada às mulheres; ou, no interior
desta, entre a parte masculina, com o salão, e a parte feminina, com o
estábulo, a agua e os vegetais; é a estrutura do tempo, a jornada, o ano
agrário, ou o ciclo de vida, com momentos de ruptura, masculinos, e longos
períodos de gestação, femininos. (BOURDIEU, 2019, p.24)

À luz da ideia de uma sociedade dicotômica, dividida em homem e mulher e


conceitos opostos que se atribuiriam a cada um, Bourdieu analisa a sociedade da
Cabila e mapeia como se aplica na prática essas estruturas de dominação, citando
símbolos que legitimam as diferenças aos papeis dos homens e das mulheres. Para
o autor, primeiramente, atribui-se características biológicas para naturalizar essas
diferenças:

“A diferença biológica entre os sexos, isto é, entre o corpo masculino e o


corpo feminino, e, especificamente, a diferença anatômica entre os órgãos
sexuais, pode assim ser vista como justificativa natural da diferença
socialmente construída entre os gêneros e, principalmente, da divisão social
do trabalho”. (BOURDIEU, 2019, p.26)
22

Aqui, é possível fazer uma relação teórica quanto a explicação biológica para
a dominação masculina, com as ideias expostas por Elisabeth Badinter acerca da
explicação sociobiológica dentro da visão determinista sobre a caracterização da
masculinidade, onde em que a biologia humana também é levada em consideração
para explicar a construção do ser humano homem e suas características
masculinas.
Outros signos corporais também são símbolos da divisão imposta para cada
um dos sexos, como a cintura feminina para o teórico. A cintura é símbolo de
“fechamento do corpo feminino, braços cruzados sobre o peito, pernas unidas,
vestes amarradas, que, como inúmeros analistas apontaram, ainda hoje se impõem
às mulheres nas sociedades euro-americanas atuais.” (BOURDIEU, 2019, p.33). O
próprio ato sexual, segundo Bourdieu, se aplica- se como uma “relação social de
dominação” (BOURDIEU, 2019, p.42) onde em que o masculino possui o papel
ativo e de dominação, e a mulher se ocupa da passividade e “do reconhecimento
erotizado dessa dominação” . (BOURDIEU, 2019, p.42)..
Na obra, podemospode-se visualizar a descrição erotizada da mulher,
inclusive com atribuição à culpa pela vontade de Bento em praticar relações sexuais,
mesmo estando em um seminário. A cena é ilustrada no trecho em que, após
presenciar uma mulher caindo na rua e, acidentalmente, ver a cinta-liga que ela
utilizava, Bento descreve o despertar de seus desejos sexuais: “Dali em diante, até o
seminário, não vi mulher na rua, a quem não desejasse uma queda.” (ASSIS, 1981,
p.73). O trecho é complementado, logo em seguida, com o pensamento:

“As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples


encarnações dos vícios, e por isso mesmo comtempláveis, como o melhor
modo de temperar o caráter e aguerri-lo para os combater ásperos da vida”.
(Assis, 1981, p.74)

Além do corpo, atitudes simbólicas marcam os papeis de cada gênero dentro


de uma sociedade androcêntrica, tais como a virilidade que se espera de um homem
nesse tipo de sociedade. Explica o teórico:

A virilidade, em seu aspecto ético mesmo, isto é, enquanto quididade do vir,


virtus, questão de honra (nif) , princípio da conservação e do aumento da
honra, mantem-se indissociável, pelo menos tacitamente, da virilidade física,
através, sobretudo, das provas de potência sexual – defloração da noiva,
progenitura masculina ambundante etc – que são esperadas de um homem
que seja realmente um homem (BOURDIEU, 2019, p.27)
23

Quanto àas mulheres, imposições de ordem físicas e sociais visam delimitar


seu espaço dentro da sociedade androcêntrica:

As regularidades da ordem física e da ordem social impõem e inculcam as


medidas que excluem as mulheres das tarefas mais nobres (conduzir a
charrua, por exemplo), assinalando-lhes lugares inferiores (a parte baixa da
estrada ou do talude), ensinando-lhes a postura correta do corpo (por
exemplo, curvadas, com os braços fechados sobre o peito, diante de
homens respeitáveis), atribuindo-lhes tarefas penosas, baixas e mesquinhas
[...] enfim, em geral tirando partido, no sentindo dos pressupostos
fundamentais, das diferenças biológicas que parecem assim estar à base
das diferenças sociais. (BOURDIEU, 2019, p.46)

Com fins posteriores de análise das personagens masculinas na obra, a


personagem de Bentinho e a relação com sua mãe, faz-se necessário destacar um
trecho da obra “Dominação Masculina” onde cujo o autor se atem no que ele chama
de ritos de separação do homem com sua mãe, caracterizando-se por rituais que
objetivam desfeminilizar o homem, ou seja, romper com qualquer característica
típica feminina, pois as mesmasessas estão sempre associadas com inferioridade e
incapacidade. Por outro lado, as mulheres são poupadas desse tipo de afastamento
materno.

[...] É, por exemplo, o caso dos ritos ditos de separação, que tem por função
emancipar o menino em relação a sua mãe e garantir sua progressiva
masculinização, incitando-o e preparando-o para enfrentar o mundo exterior.
(BOURDIEU, 2019, p.48)

Em relação as mulheres, ao analisar os rituais aplicados na Cabilia para


demarcar sua posição social de inferioridade, Bourdieu relaciona o comportamento
submisso como vigente nas presentes sociedades da Europa e dos Estados Unidos,
“revelando-se em alguns imperativos: sorrir, abaixar os olhos, aceitar interrupções
etc.”. Um exemplo disso na obra encontra-se no capítulo “Rasgos da infância”,
ondeem que Bentinho parou a música que Capitu tocava para que ela tocasse a
toada que ele desejava. A personagem feminina aceita sem questionamentos:

[...] Daí a pouco interrompi um romance que ela tocava, com o pedacinho
de papel na mão. Expliquei-lho; ela teclou as dezesseis notas. Capitu achou
à toada um sabor particular, quase delicioso; contou ao filho a história do
pregão... (ASSIS, 1981, p. 121)

Por sequência, o teórico descreve o comportamento da mulher:

[...] Como se a feminilidade se medisse pela “arte de se fazer pequena” (o


feminino em berbere vem sempre em diminutivo), mantendo as mulheres
24

encerradas em uma espécie de cerco invisível (do qual o véul não é mais do
que a manifestação visível), limitando o território deixado aos movimentos e
aos deslocamentos de seu corpo – enquanto os homens tomam maior lugar
com seu corpo, sobretudo em lugares públicos” (BOURDIEU, 2019,p.53)

Fazendo uma conexão com as sociedades europeias, esse tipo de


comportamento que visa limitar a mulher em todos os aspectos se dá, conforme
teoriza Bourdieu, através de roupas e calçados que limitam a movimentação e a
realização de diversas atividades da mulher (saias e calçados de salto, por
exemplo), deixando para movimentos espaçosos e que, por consequência
demonstram poder e dominação, restringidos apenas aos homens. (BOURDIEU,
2019, p.54).
O enraizamento desses símbolos na sociedade faz com que as próprias
mulheres legitimem e reproduzam a dominação masculina. Por conta disso,
Bourdieu responde a sua própria pergunta acerca da falta de revoluções femininas
quanto a situações de violência masculina atribuindo a naturalização da dominação
masculina, como se as mulheres reconhecessem essa própria submissão. Conforme
explica:

A visão androcêntrica é assim continuamente legitimada pelas próprias


práticas que ela determina: pelo fato de suas disposições resultarem da
incorporação do preconceito desfavorável contra o feminino, instituído na
ordem das coisas, as mulheres não podem se não confirmar seguidamente
tal preconceito. (BOURDIEU, 2019, p.60)

Com relação a temática, dentro da obra, a mãe de Bentinho aparece como


uma mulher que é a figura central de sua casa, porém acaba por repetir e reproduzir
conceitos que reproduzem a dominação masculina. Por exemplo, quanto a
eternização do luto após a morte de seu marido, marcado em suas vestimentas e
que, segundo o narrador, culminavam em tentar esconder “os saldos da juventude”.
(Assis, 1981, p.18)
Dentro da obra existem inúmeras outros exemplos práticos da dominação
masculina, utilizando-se da violência simbólica para se materializar e que,
eventualmente, serão utilizados como embasamento teórico durante a análise da
obra de Machado de Assis.
25

3 A CONTRIBUIÇÃO DO PATRIARCADO PARA A FORMAÇÃO DA FIGURA


MASCULINA NA SOCIEDADE

Ao pensarmos na sociedade do século XX onde a obra está inserida, admite-


se que a constituição social onde o homem era a figura central e a mulher sua
submissa, configuração chamada de ‘’Patriarcado’’, regia inclusive a sociedade
brasileira. Então, se faz primordial questionar a influência desse sistema para a
constituição da obra ‘’Dom Casmurro’’ onde Bento Santiago é o homem com lugar
de fala e sua companheira Capitolina é apenas representada através de sua voz.
Para que a análise da obra se já possível, foi preciso pesquisar e conceituar
o que é esse sistema patriarcal e como ele agia se estruturana época. Para isso,
autores como Neuma Aguiar e, Max Weber foram citados e pesquisados. Quanto à
análise da personagem em questão, o conceito de ‘’masculinidade tóxica’’ foi
explorado para que, posteriormente, seja verificada a presença dessa conduta na
personagem Bento Santiago.

3.1 O PATRIARCADO

Para entendermos como a dominação masculina se legitima dentro de uma


sociedade, precisamos entender a maneira como a mesma está organizada. A partir
disso, é preciso verificar o sistema patriarcal em que a obra está inserido. O
patriarcado se caracteriza por um sistema social de dominação masculina, conforme
conceitua o sociólogo Max Weber, onde a dominação é um caso especial de forma
de poder, e nela se faz possível a “possibilidade de impor ao comportamento de
terceiros a vontade própria”, (WEBER, 1999 p. 188) em que ao último é empregada
a função de obediência e aceitação da ordem proferida, em questão. Conforme
explica:

Por ‘dominação’ compreenderemos então, aqui, uma situação de fato, em


que uma vontade manifesta (‘mandado’) do ‘dominador’ ou dos
‘dominadores’ quer influenciar as ações de outras pessoas (do ‘dominado’
ou dos ‘dominados’) e de fato as influenciainfluência de tal modo que estas
ações, num grau socialmente relevante, se realizam como se os dominados
tivessem feito do próprio conteúdo do mandado a máxima de suas ações
(obediência) (WEBER, 1999, p. 191, destaques do autor do texto).

O sociólogo segue delimitando as relações dentro desse sistema, afirmando


que a tradição é vista como fundamental para que o senhor possa legitimar seu
26

poder em seus submetidos. Porém, o que faz com que a dominação do senhor
persista é a submissão pessoal dos subordinados em relação à ordem imposta, que
excede a tradição e passam a ser ilimitadas e arbitrárias. Ele explica:

Na dominação patriarcal é a submissão pessoal ao senhor que garante a


legitimidade das regras por este estatuídas, e somente o fato e os limites de
seu poder de mando têm, por sua vez, sua origem em "normas", mas em
normas não-estatuídas, sagradas pela tradição. Mas sempre prevalece na
consciência dos submetidos, sobre todas as demais ideias, o fato de que
este potentado concreto é o "senhor"; e na medida em que seu poder não
está limitado pela tradição ou por poderes concorrentes, ele o exerce de
forma ilimitada e arbitrária, e sobretudo: sem compromisso com regras
(WEBER, 19991, p. 234).

Por se tratar de um sistema social, a corrente feminista compreende o


patriarcado como um sistema que reforça a posição desigual entre homens e
mulheres. Conforme teoriza Aguiar (1997), é desse sistema que resultam situações
de desequilíbrio de poder em relações domésticas e também privadas, se
legitimando como um sistema de opressão à mulher em todas as esferas da
sociedade em que é aplicado, configurando-se como "liberalismo patriarcal",
“capitalismo patriarcal” ou como um “patriarcalismo do Estado de bem-estar”
(AGUIAR, 1997, p. 177), acentuando “o processo de dominação masculina nas
instituições sociais” (AGUIAR, 1997, p. 178). Sobre esses espaços, a autora Bell
Hooks chama a atenção sobre a luta das mulheres para conquistar o direito de
ocupar esses locais de fala:

As esquinas sempre foram um espaço pertencente aos homens – território


patriarcal. O movimento feminista não mudou isso. Apenas não teve poder
suficiente para tomar a noite de volta e fazer da escuridão um lugar para as
mulheres espreitarem e vaguearem com segurança, à vontade; não foi
capaz de mudar o ethos da igualdade de gênero das esquinas no local de
trabalho, sim, mas as esquinas tornam toda mulher que ousa espreitar em
um corpo que busca um corpo que se retrai. (HOOKS, 2009, p. 143).

Para Badinter, o homem, por ser parido por uma mulher, é sempre mais difícil
e mais demorado de ser criado. Ela compara a situação inversa, se a mulher fosse
parida por um homem para exemplificar sua visão, concluindo que o patriarcado é
uma criação masculina para equiparar essa notória desvantagem.

Enquanto as mulheres parirem homens e XY se desenvolver no seio de XX,


sempre será um pouco mais demorado e um pouco mais difícil fazer um
homem do que fazer uma mulher. [...]. Quando os homens tomaram
consciência dessa desvantagem, criaram um paliativo cultural de grande
envergadura: o sistema patriarcal (BADINTER, 1993, p.189).
27

Por fim, conforme reitera e desenvolve essa autora, o homem tenta se


desvencilhar da visão masculina deixada pelo patriarcado, “‘’reinventando o pai e a
virilidade que vem dele”’’ (p. 189), o que não implica em afirmar que esse sistema é
inexistente na sociedade atual, nem a visão acerca da masculinidade por ele
empregada.

3.2 O PATRIARCADO NA SOCIEDADE BRASILEIRA

Machado de Assis viveu em uma época em que o sistema patriarcal era


vigente no Brasil, e isso reflete diretamente na forma com que o autor escrevia suas
histórias. Maria do Socorro Pereira de Almeida define um exemplo disso em:

A história é narrada, em primeira pessoa, por Bento Santiago que encontra,


na estratégia narrativa, uma das formas de exercer seu poder e, assim,
acaba por revelar aspectos de uma sociedade patriarcal. Ele usa o discurso
como instrumento de persuasão para convencer o leitor da suposta traição
da esposa (ALMEIDA, 2018, p. 10).

A autora leva em consideração que o narrador de Dom Casmurro é o próprio


Bento Santiago e, portanto, Machado consegue utilizar a narrativa para contribuir
sob o exercício de poder que a personagem tem no enredo apresentado, ocultando
assim a versão da Capitu diante dos fatos (ALMEIDA, 2018, p.12).
O teórico Gilberto Freyre definiu a entrada do patriarcalismo no Brasil como
uma tática da colonização dos portugueses. O principal objetivo dessa tática era
dominar todas as classes, raças e consequentemente os gêneros para estabelecer
uma hierarquia (FREYRE, 2003, Casa-grande & senzala, p. 326). Nessa hierarquia,
a mulher não tinha voz e permanecia submissa sem poder de decisão, este
exclusivo ao homem. O autor complementa que a relação entre os dois gêneros
estava restrita apenas ao sexo já que o homem apenas utilizava as mulheres como
um objetos sexuaisl e nada mais. Freyre relata que o senhor considerava suas
mulheres “bonecas para reprodução e sexo unilateral”, expondo quão sádica era à
relação do homem português com as mulheres índias e negras (FREYRE, 2003, p.
332). Com a leitura da obra Casa-Grande e Senzala, é possível perceber o nível de
sofrimento das mulheres negras naquela época. O autor afirma que elas sofriam
muita violência praticada pelos senhores rurais ou seus filhos: “Senhores mandando
queimar vivas, em fornalhas de engenho, escravas prenhes, as crianças estourando
ao calor das chamas” (FREYRE, 2006, p. 46). Segundo Freyre:
28

[...] Qquanto à maior crueldade das senhoras que dos senhores no


tratamento dos escravos é fato geralmente observado nas sociedades
escravocratas [...] Sinhás-moças que mandavam arrancar os olhos de
mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa,
dentro da compoteira de doce e boiando em sangue ainda fresco.
Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender
mulatinhas de quinze a velhos libertinos. Outras que espatifavam a salto de
botina dentaduras de escravas; ou mandavam-lhe cortar os peitos, arrancar
as unhas, queimar a cara ou as orelhas. Toda uma série de judiarias.
(FREYRE, 2006, p. 420-421).

O autor discorre acerca de situações onde as mulheres brancas dos senhores


rurais cometiam crueldades contra as mulheres negras e a justificativa para todo
esse abuso de brancos sobre os negros deveria ser pesquisada:

[...] Nas condições econômicas e sociais favoráveis ao masoquismo e ao


sadismo criadas pela colonização portuguesa – colonização, a princípio, de
homens quase sem mulher – e no sistema escravocrata de organização
agrária do Brasil; na divisão da sociedade em senhores todo-poderosos e
em escravos passivos” (FREYRE, 2006, p. 321).

Além dessas características, a família patriarcal do século XIX é marcada


também por uma sociedade que estava sempre buscando crescer economicamente
e que, muitas vezes, os casamentos eram ocorridosocorriam por conveniência
(FREYRE, 2006, p. 120). Levando esses fatos históricos em consideração
juntamente com as reflexões dos autores citados acima, é possível fazer uma
relação muito íntima do patriarcado do país com a história de Bentinho.
29

4 CONSTRUÇÃO DA MASCULINIDADE COMO TÓXICA

Para que seja possível analisar a masculinidade como tóxica, se faz


necessário o embasamento teórico do autor Andrew Tolson (1983), que discorre
acerca do resultado da expectativa criada quanto à figura do homem e suas
consequências modernas. Para ele, o resultado de uma sociedade sexista é a
mutilação de imagem tanto para a mulher, quanto para o homem. E é através dessa
posição de desconforto que acontece o que o autor chama de ‘’libertação dos
homens’’ utilizando esse despertar de consciência para atingíi-la (p.11).
Como consequênciaEntão, a figura do homem que insiste em manter-se em
uma visão determinista de gênero, onde é colocado como superior e mais capaz em
qualquer esfera social é considerado ‘’machista’’ e é, a partir dessa nomenclatura,
que se desenvolvem estudos bastante recentes que citam o termo ‘’masculinidade
tóxica’’ para definir o comportamento desses homens dentro da sociedade.
Conforme definem Ardenghi Dutra e Orellana (2017, p.152):

Aa toxic masculinity se baseia em competir com os outros homens e outras


mulheres e dominá-los, sendo uma tendência problemática dos homens.
Essas tendências masculinas promovem a resistência à dor, à sensibilidade
e à psicoterapia e se apresentam geralmente sob a forma de estresse e
complexidades da vida do homem moderno.

Sculos (2017) define detalhadamente onde a masculinidade tóxica se aplica,


explicitando que esse comportamento é nocivo para toda a sociedade que está em
contato com aquele individuoindivíduo que o apresenta.

Geralmente, a "masculinidade tóxica" é usada para se referir a uma coleção


vagamente inter-relacionada de normas, crenças e comportamentos
associados à masculinidade, que são prejudiciais para mulheres, homens,
crianças e sociedade em geral. [...] A implantação do primeiro termo “tóxico”
expressa a nocividade das práticas e discursos que compõem essa noção
de masculinidade. Normas, crenças e comportamentos frequentemente
associados à masculinidade tóxica incluem: hiper-competitividade, auto-
suficiência individualista, [...] tendência ou glorificação da violência (real ou
digital, direcionada a pessoas ou quaisquer objetos vivos ou não-vivos),
chauvinismo (paternalismo em relação às mulheres), sexismo
(superioridade masculina), misoginia (ódio às mulheres), concepções rígidas
de identidade e papéis sexuais / gênero, heteronormatividade (crença na
naturalidade e superioridade da heterossexualidade e cisternidade), direito à
atenção (sexual) de mulheres, objetivação (sexual) das mulheres e
infantilização das mulheres (tratando as mulheres como imaturas e sem
30

consciência ou agência e desejando mansidão e aparência "jovem"). [...]


generally “toxic masculinity” is used to refer to a loosely interrelated
collection of norms, beliefs, and behaviors associated with masculinity, which
are harmful to women, men, children, and society more broadly. [...] The
deployment of the first term “toxic” expresses the harmfulness of the
practices and discourses that comprise this notion of masculinity. Norms,
beliefs, and behaviors often associated with toxic masculinity include: hyper-
competitiveness, individualistic selfsufficiency [...], tendency towards or
glorification of violence (real or digital, directed at people or any living or non-
living things), chauvinism (paternalism towards women), sexism (male
superiority), misogyny (hatred of women), rigid conceptions of sexual/gender
identity and roles, heteronormativity (belief in the naturalness and superiority
of heterosexuality and cisgenderness), entitlement to (sexual) attention from
women, (sexual) objectification of women, and the infantilization of women
(treating women as immature and lacking awareness or agency and desiring
meekness and “youthful” appearance). ( Tradução de Sculos, 2017 realizada
pelos autoresTRADUÇÃO FEIT não tem pagina no artigo, o q eu faço pra
citar?)).2

À luz das definições teoricasteóricas dos capítulos acima, é possível analisar


o comportamento das personagens masculinas criadas por Machado de Assis na
obra ‘’Dom Casmurro’’, conforme a sociedade em que a mesma estava inserida,
teoricamente embasado nos tópicos a seguir. especialmente quanto a personagem
central da obra, Bento Santiago, que ao decorrer da narrativa apresenta
comportamentos que se encaixam com as definições acima e que serão aqui
analisados.

2
Generally “toxic masculinity” is used to refer to a loosely interrelated collection of norms, beliefs,
and behaviors associated with masculinity, which are harmful to women, men, children, and society
more broadly. [...] The deployment of the first term “toxic” expresses the harmfulness of the practices
and discourses that comprise this notion of masculinity. Norms, beliefs, and behaviors often
associated with toxic masculinity include: hyper-competitiveness, individualistic selfsufficiency [...],
tendency towards or glorification of violence (real or digital, directed at people or any living or non-
living things), chauvinism (paternalism towards women), sexism (male superiority), misogyny (hatred
of women), rigid conceptions of sexual/gender identity and roles, heteronormativity (belief in the
naturalness and superiority of heterosexuality and cisgenderness), entitlement to (sexual) attention
from women, (sexual) objectification of women, and the infantilization of women (treating women as
immature and lacking awareness or agency and desiring meekness and “youthful” appearance).
31

5 CONTEXTUALIZAÇÃO DO AUTOR E OBRA

Para estudiosos como Schwarz e Bourdieu (2019), o realismo machadiano é


marcado por diversas caraterísticas: a ironia, o humor, o pessimismo, a
metalinguagem, a paródia, a busca pelo universalismo, a ruptura da narrativa linear
e principalmente, a demonstração do olhar crítico que Machado tinha sobre a
sociedade na época.
O realismo machadiano é marcado por diversas caraterísticas: a ironia, o
humor, o pessimismo, a metalinguagem, a paródia, a busca pelo universalismo, a
ruptura da narrativa linear e principalmente, a demonstração do olhar crítico que
Machado tinha sobre a sociedade na época.
De acordo com Pedro Pereira da Silva Costa, em sua obra “A vida dos
grandes brasileiros - Machado de Assis”, apenas com dezenove anos Machado já
iniciava a escrita de textos marcados por suas críticas, mas foi em abril de 1858 que
publicou sua primeira obra de crítica madura (COSTA, 2001). Nesta obra intitulada
“O presente, o passado e o futuro da literatura”, Machado conseguiu definir em
poucas linhas sua percepção de papel do escritor somada a uma síntese sobre a
história da literatura e crítica direta ao indianismo de Alencar e Gonçalves Dias,
argumentando que o teatro era o meio literário de comunicação mais efetivo e
significativo para interagir com o povo. (COSTA; FRANCO, 1981, p. 64.) “Passando
ao drama, ao teatro, é palpável que a esse respeito somos o povo mais parvo e
pobretão entre as nações cultas. Dizer que temos teatro é negar um fato; dizer que
não o temos, é publicar uma vergonha” (ASSIS, 2008c, p. 112).
De acordo com Pedro Pereira da Silva Costa, em sua obra “Machado de
Assis”, apenas com dezenove anos Machado já iniciava a escrita de textos
marcados por suas críticas, mas foi em abril de 1858 que publicou sua primeira obra
de crítica madura. Nesta obra intitulada “O presente, o passado e o futuro da
literatura”, Machado conseguiu definir em poucas linhas sua percepção de papel do
escritor somada a uma síntese sobre a história da literatura e critica direta ao
indianismo de Alencar e Gonçalves Dias, argumentando que o teatro era o meio
literário de comunicação mais efetivo e significativo para interagir com o povo.
(COSTA; FRANCO, 1981, p. 64.) “Passando ao drama, ao teatro, é palpável que a
esse respeito somos o povo mais parvo e pobretão entre as nações cultas. Dizer
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que temos teatro é negar um fato; dizer que não o temos, é publicar uma vergonha”
(ASSIS, 2008c, p. 112).
Para Mário de Alencar, Machado de Assis “recuou” da profissão de
criticocrítico quando percebeu a responsabilidade que tinha nas costas. O autor
ainda cita que Machado como crítico não tinha espírito de luta e muito menos
coragem, escolhendo assim outra profissão. Declara Alencar (1959, p.9):

Suscetível, suspicaz, delicado em extremo, receava magoar ainda que


dizendo a verdade; e quando sentiu os riscos da profissão, já meio
dissuadido da utilidade do trabalho pela escassez da matéria, deixou a
crítica individualizada dos autores pela crítica geral dos homens e das
coisas, mais serena, mais eficaz, e ao gosto do seu espírito.

Enquanto Mário o autorvisualizava a migração de profissão como uma forma


de fugir, há escritores que consideraram a atitude muito inteligente, Segundo Luis
Costa Lima:

[a...] a genialidade machadiana teria sofrido o mesmo ostracismo que


enterrou um Joaquim de Sousândrade se o romancista não tivesse
aprendido a usar a tática de capoeira nas relações sociais [...] Primeiro sinal
de sua esperteza: não insistiu no exercício da crítica. Se houvesse
perseverado em artigos como seu “Instinto de nacionalidade” (1873),
provavelmente teria multiplicado inimigos ferozes. Em troca, a criação da
Academia Brasileira de Letras lhe punha em relações cordiais com os
letrados e com os compadres dos “donos do poder” [...] Sua salvação
intelectual, no entanto, foi paga pela estabilização das linhas fixadas desde
a Independência. Desse modo, não medrou entre nós nem o veio
especulativo que tornou a Alemanha um centro de referência [...] nem a
linha ético-pragmática que distinguiria a Inglaterra (LIMA, 2006, p. 6).

O autor discorre acerca de sua hipótese, considerando que Machado de Assis


tivesse seguido carreira como crítico e, em uma realidade onde concepções como o
evolucionismo, o naturalismo, o determinismo e o sociologismo são predominantes,
que ele teria passado por muitas dificuldades de produção literária e de circulação
das suas obras (LIMA, 2006, p. 7).
Saber que Machado de Assis foi um crítico antes de tornar-se um romancista
e acompanhar sua evolução de pensamento crítico é imprescindível importante para
compreender as ações que foram tomadas em frente às diversas opções que o
escritor teve ao construir a obra e suas respectivas influências para criar o Bento
Santiago.
Segundo José Veríssimo, Machado de Assis como crítico foi um
impressionista com muita habilidade psicológica e de sensibilidade estética, somado
33

ao seu excelente gosto literário desenvolvido instintivamente (VERÍSSIMO, 1977, p.


173.) O professor José Luís Jobim afirma que Machado em sua fase de crítico
estava sempre criando literatura enquanto criticava outros escritores, ou seja, tudo
que ele elogiava acabava adotando para suas próprias obras, e tudo que condenava
acabava por evitar (JOBIM, 2010, p. 75). Enquanto analisava obras, também tinha o
interesse de alertar o dever do crítico, esclarecendo que este não deve ser visto
como um conselheiro, um guia ou qualquer coisa do tipo para o autor da obra
analisada (JOBIM, 2010, p. 77). Para Machado, as críticas deveriam ser honestas,
perseverantes, elevadas e, principalmente, imparciais: "uma crítica que, para a
expressão das suas ideias, só encontra fórmulas ásperas, pode perder a esperança
de influir e dirigir." (ASSIS, 1865, p. 2 - 3). Portanto, seu papel como crítico contribuiu
para as características do autor em sua escrita.

Foi no realismo onde Machado de Assis tornou-se o maior escritor brasileiro


de todos os tempos. Segundo o professor de literatura da USP Alfredo Bosi “O ponto
mais alto e mais equilibrado da prosa realista brasileira acha-se na ficção de
Machado de Assis” (BOSI, 2002, p. 174). Para o autor, esse equilíbrio aconteceu
porque Machado exibiu a miserabilidade do ser humano burguês e de sua
sociedade, ao contrário de obras já existentes que focavam apenas em compor
canções de exaltação à natureza e ao tempo, sem se importar com a realidade
cotidiana das pessoas. Assim como é considerado uma grande característica da
escola literária em que se encontra, Machado recusava-se a voltar ao convencional
e revelava os problemas de classe assim como as condições sociais e culturais em
que vivia por meio de seus personagens, criando assim uma oposição ao
romantismo (BOSI, 2002, p. 176). A obra que Bosi considera o “divisor de águas”,
como ele mesmo fala, e que determinou não só a passagem de uma fase a outra,
mas também um salto qualitativo das escritas de Machado foi “Memórias Póstumas
de Brás Cubas”:

Quando o romancista assumiu, naquele livro capital, o foco narrativo, na


verdade passou ao defunto autor Machado-Brás Cubas delegação para exibir, com o
despejo dos que já nada mais temem, as peças de cinismo e indiferença com que
34

via montada a história dos homens. A revolução dessa obra, que parece cavar um
fosso entre dois mundos, foi uma revolução ideológica e formal: aprofundando o
desprezo às idealizações românticas e ferindo no cerne o mito do narrador
onisciente, que tudo vê e tudo julga, deixou emergir a consciência nua do indivíduo,
fraco e incoerente. O que restou foram as memórias de um homem igual a tantos
outros, o cauto e desfrutador Brás Cubas. (BOSI, 2002, p. 177).

Isso demonstra a preocupação de Machado ao demonstrar a


contemporaneidade e os aspectos reais de seus personagens, incluindo os
sentimentos obscuros como a capacidade de traição. Outra informação importante
que Bosi alerta é sobre a intenção do texto de Machado: Seus romances não foram
feitos para serem resumidos em seus fatos, mas sim nas intenções e ressonâncias
submersas escondidas dentro de suas obras (BOSI, 2002, p. 181).

Portanto, fica explicita a influência e contribuição das obras ficcionais de


Machado, que constituíram caminhos únicos da prosa brasileira com grande
profundidade e universalidade. Sua ironia, seu humor, seu pessimismo, pela
conversa com o leitor, pela sua linguagem, pela intertextualidade, pela paródia, pela
busca do universalismo e sua representatividade da mente das pessoas de sua
época dentro de seus personagens, somado a todos os outros fatores presentes em
suas obras, fazem com que Machado seja estudado na área da Literatura.

5.1 O CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL DA OBRA

Para analisar a obra de Machado de Assis (mais especificamente o narrador


Bento Santiago e seu comportamento) intitulada “Dom Casmurro” é necessário
contextualizar o que estava acontecendo no Brasil particularmente no ano de 1899,
ano em que o terceiro romance da fase realista do autor foi publicado. De acordo
com a autora do livro “O Brasil como Império”, Sonia Guarita Amaral, o Brasil em
1899 estava passando pela fase do segundo reinado, marcado pelo golpe da
maioridade, em 1840, realizado por Dom Pedro ll. O princípepríncipe herdeiro foi
declarado como Imperador do Brasil a partir de uma decisão tomada pelo
parlamento brasileiro, coroando-o com quatro anos de antecedência. (AMARAL,
35

2009). Em 1831 o país estava muito conturbado por conta da rivalidade entre os
conservadores e os liberais, portanto Dom Pedro I foi pressionado pela população e
obrigado a abdicar ao trono, deixando no Brasil apenas seu filho de cinco anos de
idade, Dom Pedro ll. O menino iria ser coroado apenas com dezoito anos, em 1840,
sendo orientado pelo ex-ministro de negócios estrangeiros de seu pai, José
Bonifácio até o dia em que recebesse a coroa. José criou a Regência Trina para
comandar o Império em espera à maioridade do princípepríncipe. Porém, o período
regional (nomeado assim o período em que se esperava Dom Pedro ll atingir a idade
para tornar-se imperador) acabou atingindo uma das maiores crises durante o
Império e, utilizando isso mais a polarização partidária como argumento, o
parlamento decidiu coroar o princípepríncipe antecipadamente com o objetivo de
pacificar a nação.
Todos esses detalhes são essenciais em “Dom Casmurro” e em outras obras
de Machado de Assis, pois o autor em seus romances faz constantemente
referências e/ou alegorias ao império. Segundo John Gledson, a obra é inserida no
gênero realismo, pois é entendido como “a intenção do romancista de revelar,
através da ficção, a verdadeira natureza da sociedade que está retratando"
(GLEDSON, 1991, p. 13).
Gledson ainda comenta sobre os rótulos precipitados que a população
colocava em Machado de Assis, sendo acusado de alienado e sem preocupação
social (considerando que o realismo deve ter uma denúncia social). O tradutor inglês
mostrou em sua obra “Ficção e história” que Machado faz sim suas denúncias,
porém de forma minuciosa e em detalhes despercebidos. O crítico complementa
afirmando que o autor possui uma intimidade incrível com a história do Brasil,
enchendo seus romances com referências a história local (GLEDSON, 1991, p. 13).
Com Dom Casmurro, isso não é diferente: Gledson faz uma análise precisa
da família do Bentinho, tornando possível reconhecer muitos aspectos semelhantes
com a família do Dom Pedro ll. Por exemplo, os pais de ambos possuem o mesmo
nome (Pedro) e “saem” da vida dos filhos enquanto as crianças estão com cinco
anos de idade: O pai de Bentinho morre e o pai de Dom Pedro ll vai embora do
Brasil para Portugal; Assim como o príncipe teve um conselheiro, (José Bonifácio)
Bentinho também tem (José Dias); A regência trina criada por José Bonifácio tinha
três integrantes, e na casa de Bentinho há três integrantes igualmente: A mãe (Dona
Glória), o tio (Tio Cosme) e a prima (Prima Justina). Outra coincidência ocorre na
36

relação de idade pois, com quinze anos, Dom Pedro ll torna-se Imperador e, com a
mesma idade, Bentinho dá seu primeiro beijo. O ato ocorre no capítulo do livro
intitulado “O penteado”:

Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro,
até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e... Grande foi a
sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à parede com
uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. (ASSIS, 1981, p. 48)

Todos esses detalhes são essenciais em “Dom Casmurro” e em outras obras


de Machado de Assis, pois o autor em seus romances faz constantemente
referências e/ou alegorias ao império. Segundo John Gledson, a obra é inserida no
gênero realismo, pois é entendido como “a intenção do romancista de revelar,
através da ficção, a verdadeira natureza da sociedade que está retratando"
(GLEDSON, 1991, p. 13). Gledson ainda comenta sobre os rótulos precipitados que
a população colocava em Machado de Assis, sendo acusado de alienado e sem
preocupação social (considerando que o realismo deve ter uma denúncia social). O
tradutor inglês mostrou em sua obra “Ficção e história” que Machado faz sim suas
denúncias, porém de forma minusciosaminuciosa e em detalhes muito insuspeitos e
que o autor possui uma intimidade incrível com a história do Brasil, enchendo seus
romances com referências a história local (GLEDSON, 1991, p. 13). E com Dom
Casmurro, isso não é diferente: Gledson faz uma análise precisa da família do
Bentinho, tornando possível reconhecer muitos aspectos semelhantes com a família
do Dom Pedro ll, por exemplo, o fato de que os pais dos dois possuem o mesmo
nome (Pedro) e ambos “saem” da vida dos filhos enquanto as crianças estão com
cinco anos de idade: O pai de Bentinho morre e o pai de Dom Pedro ll vai embora do
Brasil para Portugal; Assim como o príncipe teve um conselheiro, (José Bonifácio)
Bentinho também tem (José Dias); A regência trina criada por José Bonifácio tinha
três integrantes, e na casa de Bentinho há três integrantes igualmente: A mãe (Dona
Glória), o tio (Tio Cosme) e a prima (Prima Justina); No capitulocapítulo do livro
intitulado “Sou Homem”, Bentinho dá seu primeiro beijo com quinze anos e com
quinze anos, Dom Pedro ll torna-se Imperador (GLEDSON, 1991).
Com essas semelhanças que o crítico esclareceu, é possível analisar que
dentro do enredo de Dom Casmurro com enfoque em um suposto adultério, há uma
relação com o jogo de poder do segundo reinado brasileiro. Todas essas referências
e outras são exploradas por Gledson em sua obra “Impostura e Realismo”,
37

explicitando que “Dom Casmurro” foi feito para ser desvendado e tentar ser
explicado em uma época em que o cientificismo estava ainda em desenvolvimento,
tornando ainda mais desafiador o desdobramento para explicá-lo com métodos
científicos (GLEDSON, 2005). Segundo Luís Augusto Fischer, Machado de Assis
escreveu sabendo exatamente o tamanho desse desafio e com a noção dessa
mudança:

Machado escreveu sua obra, principalmente (mas não exclusivamente)


depois de Memórias póstumas de Brás Cubas e de Papéis avulsos, com a
consciência de que não havia mais qualquer segurança em relação ao
método de composição literária (FISCHER, 1998, p. 160-161).

Com essas semelhanças que o crítico esclareceu, é possível analisar que


dentro do enredo de Dom Casmurro com enfoque em um suposto adultério, há uma
relação com o jogo de poder do segundo reinado brasileiro. Todas essas referências
e outras são exploradas por Gledson em sua obra “Impostura e Realismo”,
explicitando que Dom Casmurro foi feito para ser desvendado e tentar ser explicado
em uma época em que o cientificismo estava ainda em desenvolvimento, tornando
ainda mais desafiador o desdobramento para explicá-lo com métodos científicos
(GLEDSON, 2005). Segundo Luís Augusto Fischer, Machado de Assis escreveu
sabendo exatamente o tamanho desse desafio e com a noção dessa mudança:

Machado escreveu sua obra, principalmente (mas não exclusivamente)


depois de Memórias póstumas de Brás Cubas e de Papéis avulsos, com a
consciência de que não havia mais qualquer segurança em relação ao
método de composição literária (FISCHER, 1998, p. 160-161).

Sendo assim, é importante considerar que a segunda metade do século XIX,


teve um contexto histórico envolvendo muita inovação e aceitação de novas ideias
como a abolição da escravatura (1888), a Proclamação da República (1889), o início
da entrada de imigrantes no Brasil, a modernização do país dentre a diversidade da
vida social e cultural, tudo isso confirmando que a época era propicia para a
literatura absorver novas ideias e novos desafios, além de mostrar que as pessoas
com grande poder eram, em sua maioria, homens. Isso pode ser visto como uma
influência na escrita de Machado e, mais tarde, visto também dentro dos
personagens do livro.
38

6 ANÁLISE DA OBRA

Para identificar trechos do livro onde Bento Santiago insere em seu relato
parcial e unilateral a visão dos fatos através de uma perspectiva masculina tóxica,
será analisada a retórica que constrói e legitima a dominação masculina dentro da
sociedade representada no livro. Para isso, a descrição das personagens
masculinas pelo narrador será investigada, bem como a relação dos homens
presentes na obra com a principal personagem feminina do livro, a amiga de infância
de Bentinho, Capitolina.
Ao decorrer da análise à luz dos teóricos que embasam o presente trabalho,
possíveis contradições que resultariam em falácias nos relatos do narrador-
personagem da história serão exploradas, e conexões quanto ao comportamento
masculino da época e do contexto histórico serão fundamentais para entender a
possível deturpação de visão de tais relatos.

6.1 A DOMINAÇÃO MASCULINA NAS PERSONAGENS HOMENS DA OBRA

Ao analisar a obra, é preciso contextualizá-la dentro de uma sociedade


patriarcal, onde o homem é validado através de comportamentos que o enquadrem
dentro dos padrões acerca de sua masculinidade previamente esperados por esse
sistema, bem como instrumentos de dominação das mulheres, conforme os teóricos
acima citados.
Portanto, se faz necessário identificar os instrumentos de dominação sobre as
mulheres utilizados pelas personagens masculinas dentro da obra, passando pela
construção acerca de suas respectivas masculinidades, que os validam ou não
como homens durante a narração de Dom Casmurro.
Esse cenário pode ser visualizado a partir da perspectiva de que, conforme
Elisabeth Badinter escreve, utilizando as palavras de Stoller: “ O primeiro dever de
um homem é não ser uma mulher” (STOLLER apud BADINTER, 1993), assim, aAo
analisarmos as atitudes da primeira personagem masculina descrita detalhadamente
do livro, o agregado da família José Dias, é possível identificar ações associadas
pela sociedade patriarcal da época às mulheres: o habito de fofocar, a vaidade, e a
subordinação à uma mulher (a mãe de Bentinho) por exemplo, são marcas textuais
que dão início ao processo de desqualificação da masculinidade de José Dias, ou
39

seja, aproximando-o de características típicas femininas dentro daquele contexto


social, e que podem ser tidas como um padrão para legitimar essa desqualificação
nas outras personagens homens da obra como Tio Cosme, Pádua e até mesmo o
colega de seminário de Bentinho, Escobar.
De forma semelhante, Ssegundo Bourdieu, dentro de uma sociedade
androcentrica, a mulher é vista como “uma entidade negativa, definida apenas por
falta” (BOURDIEU, sei la que ano2019, p.51) e, portanto, os símbolos sociais
associados à mulher remetem a negatividade. Ao utilizar o termo “confinamento
simbólico”, o autor exemplifica com situações práticas de como a sociedade
androcentrica patriarcal limita e define a mulher, citando vestuário e atitudes morais
(BOURDIEU, sei la que ano2019, p.51). A restrição de gestos e movimentos, bem
como a futilidade estão associadas a características essencialmente femininas, e
que corroboram para a legitimação da mulher como negativa e, ao mesmo tempo,
naturalizam essas simbologias.

Pelo fato de o mundo limitado em que elas estão confinadas, o espaço do


vilarejo, a casa, a linguagem, os utensílios, guardarem os mesmos apelos à
ordem silenciosa, as mulheres não podem se não tornar-se o que elas são
segundo a razão mítica, confirmando assim, e antes de mais nada a seus
próprios olhos, que elas estão naturalmente destinadas ao baixo, ao torto,
ao pequeno, ao mesquinho, ao fútil, etc. (BOURDIEU, sei la que ano2019,
p.561).

Durante a obra, podemos observar José Dias, por exemplo, descrevendo


Capitu como uma boa esposa ao classificá-la como “ Boa, discreta, prendada, amiga
da gente... e uma dona de casa, que não lhe digo nada”. (ASSIS, 1981, p.113). O
confinamento simbólico sofrido por Capitu enquanto mulher, será explorado nos
capítulos abaixo e tratará, justamente, de diversas vezes onde ela é caracterizada
como menos ou mais mulher por seguir o padrão esperado para o gênero da época.
A escritora Badinter é precisa ao ressaltar que a identidade masculina está
associada, necessariamente, a se opor a identidade feminina. Conforme escreve:

[...] Ser homem significa não ser feminino; não ser homossexual, não ser
dócil, dependente ou submisso; não ser afeminado na aparência física ou
nos gestos; não ter relações sexuais nem relações muito intimas com outros
homens; não ser impotente com as mulheres. (BADINTER, 1993, p.117)

Ao pensar na descaracterização da masculinidade, feita pelo narrador com as


personagens acima citadas, é possível notar essa associação com a negatividade
de tudo que é associado da as meresas mulheres propostaidentificada por Bourdieu,
40

e a tentativa de se afastar do que é considerado feminino, conforme descreveu


Badinter. Portanto, serão analisados no presente trabalho, tais tentativas de
descaracterização das personagens masculinas bem como a legitimação da
dominação masculina na obra.

6.1.1 José Dias: O agregado Bajulador

José Dias recebe dois capítulos para explicar sua história e relação com a
família Santiago. No primeiro deles, chamado de ‘’Um dever Amaríssimo’’ (ASSIS,
1981, p. 15), o narrador se preocupa em ironizar o uso dos superlativos que a
personagem costumava empregar em suas falas, fazendo um gancho com o
capítulo anterior ‘’A denúncia’’ (ASSIS, 1981, p. 13.) que, apesar de não ser sobre o
agregado, trata de uma fofoca feita pelo mesmo acerca da relação de Bentinho e
Capitu.
Segundo o dicionário Soares Amora, o superlativo é usado para demonstrar
uma característica num grau muito excessivo (SOARES, 2009, p. 700). É possível
notar ironia por parte do narrador quanto ao uso excessivo dos superlativos por José
Dias, podendo estar associado ao hábito de aumentar histórias, conforme o trecho
abaixo:

Enxuguei os olhos, posto que de todas as palavras de José Dias uma só me


ficasse no coração; foi aquele gravíssimo. Vi depois que ele só queria dizer
grave, mas o uso do superlativo faz a boca longa, e, por amor do período,
José Dias fez crescer a minha tristeza se achares neste livro algum caso da
mesma família, avisa me, leitor para que o emende na segunda edição;
nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a ideéias brevíssimas.
(ASSIS, 1981, p. 84.)

Ao empregar o superlativa nas palavras “longa” e “breve”, o narrador marca


sua desaprovação quanto ao uso desse recurso gramatical por parte de José Dias,
atestando assim, sua ironia ao expressar essa opinião.
Já o segundo capítulo, é dedicado exclusivamente a essa personagem,
intitulado ‘’O agregado’’, trata-se da história de José Dias com a família, mostrando
sua possível ardilosidade. Primeiro, ele se faz necessário e útil sem cobrar
remuneração ao curar o feitor e uma escrava (ASSIS, 1981, pg. 154), para só em
seguida contar que nunca foi médico com formação. No trecho “Não foi despedido,
41

como pedia então, meu pai já não podia dispensáa-lo. Tinha o dom de se fazer
aceito e necessário” (ASSIS, 1981, pg. 16), marca-se pelo narrador, através de
insinuações, da visão que Dom Casmurro tinha, agora na velhice, acerca da
masculinidade de José Dias.
A partir do teórico Pierre Bourdieu, é possível classificarmos o comportamento
de José Dias como associações ao comportamento esperado por mulheres naquela
sociedade. Conforme exemplifica Bourdieu (2019, p.97), sobre símbolos sociais que
definem cada um dos gêneros, onde eleele define que esses signos designam as
coisas a serem feitas, a manipulação que o personagem utiliza pode ser vista como
subjetiva e característica possivelmente associada às mulheres.
Durante o capítulo IV, Dom Casmurro se preocupa em descrever a aparência
de José Dias detalhadamente:

[...] e vi-o passar com sas suas calças brancas engomadas, presilhas,
rodaque e gravata de mola. Foi um dos últimos que usaram presilhas no Rio
de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lhe
ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um aro de aço por
dentro, imobilizava-lhe o pescoço; então então da moda. (ASSIS, 1981, pg
157).

Acerca dessa descrição, uma primeira observação é de que essa


personagem é demasiadamente vaidosa. Para um homem, a vaidade não era
apropriada e, portanto, símbolo de feminilidade. Conforme afirma Pierre Bourdieu, a
aplicação e reprodução prática da violência simbólica dentro da dominação
masculina acontece através de diversos símbolos (BOURDIEU, 20022019, verificar
a página- a construção sociais dos corposp.62) , sendo estes associados coma
padrões de aparência, e com uma simbologia que ése aplicada para as mulheres,
mas também, aos homens, resultando em definições diretas sobre cada um dos
gêneros. O teórico escreve:

[os signos] se apresentam como coisas a serem feitas, ou que não podem
ser feitas, naturais ou impensáveis, normais ou extraordinárias, para tal ou
qual categoria, isto é, particularmente para um homem ou para uma mulher
(e de tal ou qual condição). (BOURDIEU, 2002, verificar a página2019, p.
97)
42

Em seguidaPodemos aplicar essa definição de Bourdieu à José Dias, que é


ironicamente caracterizado na obra., Ssegundo notas de rodapé da própria edição, o
narrador associa a aparência de José Dias a um típico empregado subordinado da
época, utilizando da posição social para desqualificáa-lo como homem, bem como o
emprego do próprio termo “agregado” em si: “[...] O “agregado” José Dias representa
um tipo da sociedade brasileira escravocrata do século XIX: o “homem livre”, sem
posses, que vive a sombra da camada proprietária, através de relações de favor.”
(ASSIS, 1981, p. 17).
Ainda sobre a desqualificação de José Dias quanto a sua masculinidade, Dom
Casmurro utiliza de um mecanismo de aproximação direta da figura da mãe, ou seja,
de um papel social que deveria ser ocupado pela mulher, ao aproximar os cuidados
de José Dias com relação a Bentinho, como características de “extremos de mãe”
(ASSIS, 1981, p. 37) no capítulo “De mãe e de Servo”. Ainda nesse capítulo, o
narrador deixa claro, novamente, a posição social inferior de José Dias ao colocá-lo
como seu servo, citando que o homem tratava-oo tratava com “atenções de servo”,
(ASSIS, 1981, P.37) aproximando-o de um escravo e distanciando a personagem de
seu núcleo familiar.

É interessante verificar que, mesmo ao desdenhar da masculinidade


apresentada por José Dias, Dom Casmurro o coloca em posição de dominador
social, validando as opiniões de José Dias sobre as mulheres, em especial acerca
de Capitu, sendo dele a famosa descrição da personagem como tendo olhos de
“cigana oblíqua e dissimulada”. (ASSIS, 1981, p. g 38). Essa descrição vai de
encontro direto aos hábitos de Capitu, descritos por José Dias, diversas vezes, como
inadequados, mesmo quando implicitamente, como no trecho: “[...] - tem andado
alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo, enquanto não pegar algum peralta da
vizinhança, que case com ela...” (ASSIS, 1981, p.g 78). É importante perceber a
conotação dos adjetivos empregados para caracterizar Capitu como fútil e
inapropriada, culminando com a única solução para que ela se porte
adequadamente naquela sociedade patriarcal: casar-se com um homem.
Na posição de dominador social instituída pela sociedade da época, José
Dias, em diversos trechos, descreve comportamentos adequados para cada um dos
gêneros como em: “Enxugue os olhos, que é feio um mocinho da sua idade andar
chorando na rua.” (ASSIS, 1981, p,g 84).; ou em: “[...] As nossas moças devem
43

andar como sempre andaram, com seu vagar e paciência, e não com este tique-
taque afrancesado” (ASSIS, 1981, p.g 73). Sobre este último trecho, retomando as
ideias de Alfredo Bosi sobre o complexo colonial (BOSI, 1994, p.g 11), é possível
estabelecer um paralelo que aproxime a sociedade brasileira com os padrões sociais
franceses o que, novamente, se conecta com os teóricos franceses Pierre Bourdieu
e Elisabeth Badinter citados neste trabalho. .
Foi possível, então, perceber que o narrador desqualifica a masculinidade de
José Dias. Esse processo é iniciado quando Dom Casmurro ironiza a fala dessa
personagem por utilizar demasiadamente de superlativos. Em seguida, o narrador
cita características que assemelhariam José Dias das mulheres, como a
ardilosidade, a preocupação excessiva com sua aparência, e com relação ao zelo
deste para com o narrador. Além disso, podemos observar que o narrador afasta o
agregado de seu núcleo familiar, equalizando sua posição social a de um escravo.
Porém, ainda que sua masculinidade seja descreditada, José Dias é visto
como dominador social por ser homem dentro de uma sociedade patriarcal, então
ele é capaz de qualificar mulheres dentro da obra, e é dele a principal visão que
Bentinho tem de Capitu.

6.1.2 Tio Cosme e a Masculinidade Sexual Corrompida

A segunda personagem masculina descrita é Tio Cosme, no capítulo VI que


leva o nome da personagem em questão (ASSIS, 1981, p.g 17). Acerca dele, o
narrador também desqualifica a masculinidade da personagem, porém, utilizando de
uma característica física, o sobrepeso, para justificar o baixo desempenho
profissional e sexual.

[Tio Cosme] já não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi aceito de
muitas damas, além de partidário exaltado; mas os anos levaram-lhe o mais
do ardor político e sexual, e a gordura acabou com o resto de ideias
públicas e específicas.”(. (ASSIS, 1981, p.g 17).

É de maneira irônica e cruel que o narrador personagem dedica a maior parte


do capítulo para zombar dessa condição física, descrevendo uma cena onde o Tio
Cosme tentava subir em um cavalocavalo, mas, devido ao sobrepeso, não era capaz
44

de realizar tal feito. (ASSIS, 1981, p.g 17). Conseguimos visualizar que o narrador
zomba da virilidade de Cosme, que é questionada por conta dae sua aparência.
Retomando as ideias de Pierre Bourdieu, o desempenho sexual e a ação
sexual em questão se configuram como uma “relação social de dominação”
(BOURDIEU, 2002, verificar a página-construção social dos corpos2019, p.42), onde
o masculino possui o papel ativo e de dominação, e a mulher se ocupa da
passividade e “do reconhecimento erotizado dessa dominação” . (BOURDIEU, 2019,
p.42). (BOURDIEU, 2002, verificar a página-construção social dos corpos). Além
disso, acerca da virilidade masculina, o autor afirma que é:

Qquestão de honra (nif) [...] mantem-se indissociavelindissociável, pelo


menos tacitamente, da virilidade física, através, sobretudo, das provas de
potência sexual – defloração da noiva, progenitura masculina
ambundanteabundante etc – que são esperadas de um homem que seja
realmente um homem” (BOURDIEU, 2002, verificar a página-construção
social dos corpos).2019, p.27)

Dessa forma, ao não ser capaz de realizar um bom desempenho sexual, Tio
Cosme é colocado como menos homem e tem sua masculinidade
estilhaçadaquestionada através da perspectiva desse narrador.
ContudoPorém, assim como acontece com José Dias, Tio Cosme é imerso na
cultura patriarcal da época que dita regras de comportamento e postura para que um
homem seja masculinamente caracterizado como tal, e é, portanto, uma
personagem reprodutora dessa postura de dominação e imposição social. Bourdieu
escreve sobre o privilégio de ser homem como uma cilada, onde a virilidade deve
ser afirmada em toda e qualquer circunstância possível. (BOURDIEU, SLA Q
ANO2019, p.g 88). É por essa razão que, ainda no capítulo VI, Tio Cosme força
Bentinho a subir em um cavalo, afirmando que é saber executar tal atividade é
característica fundamental de um homem:

“[...] - Deve acostumar-se. Padre que seja, se for vigário na roça, é preciso
que monte a cavalo; em aqui mesmo, ainda não sendo padre, se quiser
florear com os outros rapazes, e não souber, há de queixar-se de você,
mana Glória. (ASSIS, 1981, p.g 17).

Tio Cosme representa, paradoxalmente, um homem com a masculinidade


sexual desfeita. Porém, em sua posição social de dominador masculino, podemos
observar ao longo da obra e através dos exemplos acima retratados que ele exerce,
45

até mesmo em Bentinho, a imposição social do modelo de masculinidade para


aquela sociedade.

6.1.3 Pádua e o rompimento com a Dominação Masculina

Outra personagem masculina com características essencialmente associadas


às mulheres é Pádua, o pai de Capitu. A análise dessa personagem começa a partir
do capítulo “O administrador interino” dedicado a descrever Pádua e sua história,
apesar de ele já estar inserido na história nos capítulos anteriores. O título do
capítulo refere-se a única posição social louvável que, provisoriamente, Pádua
conseguiu em sua carreira profissional, ironizando o feito e reforçando a
característica principal que sustenta a narrativa do capítulo e constrói essa
personagem: o fracasso. Essa característica é plano de fundo de todas as ações
narradas acerca da vida do pai de Capitu, desde a compra da casa onde ele morava
com sua família, “compro-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de
loteria” (ASSIS, 1981, pg. 28) , até mesmo para o exercício da promoção provisória
que teve em seu emprego, “ a administração ficou sendo a héjira, donde ele contava
para diante e para trás”. (ASSIS, 1981, pg. 298).
A masculinidade de Pádua é descaracterizada ao ser descrito pelo narrador
como um homem sem juízo e sonhador, precisando da mulher e, até mesmo, da
mãe de Bentinho para saber o que fazer com seu próprio dinheiro. Sobre o prêmio
que Pádua conseguiu na loteria, Dom Casmurro descreve:

“A primeira ideia de Pádua, quando lhe saiu o prêmio, foi comprar um cavalo
do Cabo, um adereço de brilhantes para a mulher, uma sepultura perpétua
de família, mandar vir da Europa alguns pássaros, etc.; mas a mulher [...] a
mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa, e guardar o que
sobrasse para acudir às molestias grandes. Pádua exitou muito; afinal, teve
de ceder aos conselhos de minha mãe, a quem D. Fortunata pediu auxílio.”
(ASSIS, 1981, pg.28).

Porém, ainda no capítulo XVI, a maior marca textual explícita quanto a


descaracterização da masculinidade de Pádua dá-se quando a personagem perde
seu emprego de administrador interino na repartição dependente do ministério da
guerra, e pensa em suicidar-se. À luz de Pierre Bourdieu, acerca da violência
simbólica e como ela se legitimalegitima na prática (BOURDIEU, 2002, p. verificar
preâmbulo),2019, p.63) o papel social do homem viril e masculino de sustentar sua
casa pode ser considerado um símbolo dessa violência e, caso esse indivíduo falhe,
46

perde sua condição esseêencial de homem dentro daquela sociedade em que está
inserido.
A resposta da mãe de Bentinho quanto à confissão acerca do suicídio que
pretendia cometer marca a visão da masculinidade estilhaçada que esse narrador
descreve da personagem ao leitor, quando Dona Gloria, a mãe de Bentinho,
responde, dentre outras coisas, “Seja homem.” (ASSISssis, 1981, p. 28). A
afirmação categórica de Dona Glória remete a visão daquela sociedade quanto ao
ser masculino, que deve provar coragem para se afirmar homem. Acerca da
temática, Bourdieu escreve:

Certas formas de “coragem” (...) – encontram em seu princípio,


paradoxalmente, no medo de perder a estima ou a consideração do grupo,
de “quebrar a cara” diante dos companheiros e de se ver remetido à
categoria, tipicamente feminina, dos “fracos”, dos delicados”, dos
“mulherzinhas”, dos “veados”. (BOURDIEU, 2019, pP. 91).

Por fim, no trecho “Pádua começou a se interessar pelos negócios


domésticos, a cuidar dos passarinhos, a dormir tranquilo as noites e as tardes, a
conversar e dar notícias da rua” (ASSISssis, 1981, p. 29). Observamos que, após
passar pela humilhação social de perca de emprego, Dom Casmurro começa a
narrar a nova trajetória de Pádua, aproximando-o de tarefas essencialmente
femininas dentro de uma sociedade patriarcal, como os afazeres domésticos e a
dedicação àa fofocas da vizinhança.
Ao escrever que “É característico dos dominantes estarem prontos a fazer
reconhecer sua maneira de ser particular como universal” (BOURDIEU, 2019, p.
105) Pierre Bourdieu chama atenção para implicações masculinas de excelência que
excluem homens que não as seguem. No caso de Pádua, abrindo margem para que
o narrador desfaça sua masculinidade e ironize essa personagem ao longo de toda
a obra.

6.1.4 Escobar: o preço social da demonstração afetiva

Quanto ao colega de seminário de Bento Santigo chamado Escobar, nos


atentaremos a relação afetiva dessas duas personagens que, ao implicarem
intimidade, violam regras de conduta masculinas patriarcais em relação à expressão
sentimental, outro símbolo social onde se manifesta a dominação masculina e o
47

homem como o oposto da mulher, ou seja, impossibilitado de expressar esses


sentimentos, em especial, publicamente. A relação dessas duas personagens é
complexa e, conforme diversos estudos, dá margem para inúmeras interpretações.
Porém, ao presente trabalho, é valido analisar a maneira como ambas as
personagens são expostas as regras sociais que limitam essa relação de afeto. Por
conta desse cenário social, é possível observar a repreensão de um Padre ao flagrar
os amigos em demonstração pública de carinho:

Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não
pude deixar de abraça-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa
efusão; um padre que estava com ele não gostou. - A modéstia, disse-nos,
não consente esses gestos excessivos; podem estimar-se com moderação”
(ASSISssis, 1981, p. 107).

Sobre a identidade masculina, Badinter escreve que “Ser homem significa


não ser homossexual” . (BADINTERadinter, 1993, p. 117). Pensando na relação de
afeto demonstrada no trecho acima, a hipótese de aproximação afetiva entre dois
homens, mesmo que em uma relação de amizade, remeteria a uma relação
homoafetiva e, portanto, descaracterizaria os dois rapazes como seres masculinos.

Portanto, Escobar pode ser visto na obra como uma figura que
descaracterizaria o homem masculino desde o momento em que é descrito
detalhadamente pelo narrador, inclusive características físicas, atitude incomum com
relação aos demais personagens homens da obra. Dom Casmurro escreve: “Os
olhos de Escobar eram dulcíssimos [(…].) Realmente era interessante de rosto, a
boca fina e chocarreira, o nariz fino e delgado” (ASSIS, 1981ssis, 1993, p. 87117).
Em outro trecho, a intimidade, tida como incomum para dois homens na
época, é detalhada e confirmada: “Escobar também se fez mais pegado ao coração.
As nossas visitas foram se tornando mais próximas, e nossas conversações mais
íntimas”. (ASSIS, 1981, p. 119). (Assis, 1993, p. 117). É interessante notar que até
Capitu percebe a aproximação não ordinária dos rapazes: “ “ [Capitu] viu as nossas
despedidas tão rasgadas e afetuosas, e quis saber quem era que me merecia tanto
Capitu viu na janela as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas e quis saber
quem era que merecia tanto”. (ASSIS, 1981, p. 88). (Assis, 1993, p. 117).
É possível estabelecer que a relação de Escobar e Bento Santiago é
incomum para dois homens à luz da perspectiva heteronormativa, para a época na
48

qual está inserida. Conforme teoriza Badinter, para a sociedade patriarcal ser
homem significa “não ter relações muito intimas com outros homens” (BADINTER,
1993, p. 117). Essa condição, automaticamente, reflete na sociedade da obra a
preocupação com a quebra de masculinidade das duas personagens, inclusive pelo
narrador, que descreve de forma discreta a afetividade entre Bento e Escobar. Essa
cautela pode ser vista em:

— Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui no


seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração, e lá fora, a
não ser a gente da família, não tenho propriamente um amigo. — Se eu
disser a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perde a graça; parece que
estou repetindo. Mas a verdade é que não tenho aqui relações com
ninguém, você é o primeiro e creio que já notaram; mas eu não me importo
com isso. (ASSIS, 1981, p. 92)

É possível notar que Escobar é a personagem chave para descaracterização


da masculinidade do próprio Bentinho, que ao corresponder a intimidade e
afetividade de seu colega de seminário, é visto como “menos homem” para a
sociedade patriarcal do século XIX. As tentativas de se reafirmar como homem
originam um comportamento social tóxico no narrador-personagem, o que será
explorado a partir do próximo tópico.

6.1.5 Bentinho: a análise de uma Masculinidade Tóxica

A personagem central do conto, Bento Santiago é parte privilegiada da


representação da dominação masculina dentro da obra. Esse fenômeno pode ser
observado com maior intensidade nele pois além de personagem, ao adentrar em
sua última fase como Dom Casmurro, ele também se torna narrador. Portanto, é
dele a voz que descreve as demais personagens, bem como a unilateralidade de
relato de toda a obra em si.
Bento Santiago, Dom Casmurro, o menino inocente e ingênuo, o advogado. A
multiplicidade de características assumidas por essa personagem reforça sua
posição social de homem dominador dentro da obra. Ao iniciarmos com a
unilateralidade de relato, o poder instituído a essa personagem masculina pode ser
tido como o início do processo da dominação masculina, pois ele é capaz de omitir
informações ao longo da obra de maneira a manipular o leitor, se necessário.
Bentinho é descrito pelo narrador, sendo este ele mesmo em sua fase mais
velha, como um menino ingênuo e desprovido de malicias. No Capítulo “Na
49

Varanda”, ao ouvir a conversa de José Dias com sua família sobre seu possível
romance com sua vizinha Capitu, o menino é tomado por um despertar de
consciência ao, só a partir desse momento, perceber seu sentimento amoroso por
Capitu: “Só agora entendia a emoção que me davam essas e outras confidências”.
(ASSIS, 19819, p. 24). É possível notar durante todo o capítulo que Bentinho se
apresenta como ingênuo ao não conseguir sozinho identificar seu sentimento de
amor por Capitolina. Durante o capítulo XIV, novamente, o narrador afirma:
“Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar”. (ASSIS, 19819, p. 24).

Porém, para que a visão de Bentinho como um menino ingênuo e obediente


seja explicitada, comparações com a maneira como o narrador descreve Capitu são
necessárias, pois todo o tempo a diferença entre a malícia e maturidade das duas
personagens é exacerbado. Como no trecho “Capitu era Capitu, isto é, uma criatura
mui particular, mais mulher do que eu era homem””. (ASSIS, 19819, p. 44). Apenas
no capítulo XXXIV, podemos perceber a marca textual que concretiza a personagem
de Bentinho, segundo seu próprio relato, como homem. Ao beijar Capitu e possuir
sua primeira experiência relacionada a sexualidade, ele afirma: “Sou homem!”.
(ASSIS, 19819, p. 49). Retomando o trecho anterior onde o narrador afirma a
feminilidade de Capitu ao defini-la como mulher, é possível estabelecer um paralelo
com a sexualidade dessa menina, que a define como mulher antes de Bentinho se
descobrir e se afirmar como homem.
Bourdieu (2019, p. 98) discorre acerca do que ele chama de “expectativas
objetivas” sobre o papel social de cada um dos gêneros. É esperado, segundo o
autor, que o homem ocupe determinados papeis que reforcem sua virilidade,
enquanto a mulher se coloque em posições que reforcem sua feminilidade. É
possível verificar que Bentinho ao fazer referência sobre si mesmo por meio de um
comparativo com Capitu discorre, segundo sua visão, que essa provavelmente já
teria desvelado da sexualidade para os padrões empregados na época. Pelo viés
dele, o fato de Capitu já ser uma mulher tangia um afastamento ainda maior entre
eles, pois o enunciador tratava-se apenas de um jovem e ainda ingênuo rapaz
É possível verificar em várias outras passagens da obra a afirmação da
sexualização precoce e inadequada de Capitu, em contraste com a ingenuidade de
Bentinho. Como em:
50

Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me


nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outro
gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos
cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos
dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus”. (ASSIS,
19819, p. 23).

Quanto ao comportamento de Bento Santiago ao decorrer da narrativa, pode


ser verificada a masculinidade tóxica quando, por exemplo, ele se equivale de
atitudes violentas contra Capitu. No trecho:

Penso que ameacei puxá-la a mim. Não juro, começava a estar tão
alvoroçado, que não pude ter toda a consciência dos meus atos: mas
concluo que sim, porque ela recuou e quis tirar as mãos das minhas; depois,
talvez por não poder recuar mais, colocou um dos pés adiante e outro atrás,
e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a reter-lhe as mãos com
força. O busto afinal cansou e cedeuy, mas a cabeça não quis ceder
também e, caidacaída para tráztrás, inutilizada todos os meus esforços,
porque eu já fazia esforços leitor amigo. Não conhecendo a lição do
Cântico, não me acudiu estender a mão esquerda por baixo da cabeça dela;
demais, este gesto supsupõeõe um acordo de vontades, e Capitu, que me
resistia agora, aproveitaria o gesto para arrancar-se à outra mão e fugir-me
interiamenteinteiramente. Ficamos naquela luta, sem estrépito, porque
apesar do taque e da defesa, não perdiamosperdíamos a cautela
necessarianecessária para não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia
de mistérios. Agora sei que a puxava; a cabeça continuou a recuar, ateaté
que cansou; mas então foi a vez da boca. A boca de Capitu iniciou um
movimento inverso, relativamente à minha, indo pra um lado, quando eu a
buscava do lado oposto. Naquele desencontro estivemos, sem que ousasse
um pouco mais, e bastaria um pouco mais… (ASSIS, 1981, p.53).

Sculos (2017) afirma que a tendência ou glorificação da violência é uma das


inúmeras características que classificam o comportamento masculino tóxico. À luz
desse conceito, ao classificar a cena descrita no trecho acima como uma luta, onde
o narrador tinha a consciência da recusa da personagem feminina quando ao beijo,
é possível classificar o comportamento de bentinho imerso em uma masculinidade
tóxica, legitimada pela dominação masculina em que a sociedade da época estava
imersa.
Considerando a definição de Bourdieu acerca da honra masculina,
assumindo-a como uma lei social incorporada (BOURDIEU, 2019, p.88),
conseguimos visualizar o motivo de, mesmo estando ciente da recusa de Capitu,
Bentinho não parar sua tentativa de beijá-la. Acerca da definição do termo, ele
escreve:

[ A honra] dirige ( no duplo sentido do termo) seus pensamentos e suas


práticas, tal como uma força (“é mais forte que ele”) mas sem obrigar
automaticamente […]; ela guia sua ação tal qual uma necessidade lógica
51

(“ele não pode agir de outro modo” sob pena de renegar-se), mas sem se
impor a ele como uma regra ou como o implacável veredicto lógico de uma
espécie de cálculo racional. Essa força superior, que pode fazê-lo aceitar
como inevitáveis, ou ouvidos, isto é, sem deliberação nem exame, atos que
seriam vistos pelos outros como impossíveis ou impensáveis, é a
transcendência social que nele tomou corpo e que funciona como amor fati,
amor do destino, inclinação corporal a realizar uma identidade constituída
em essencial social e assim transformada em destino. (BOURDIEU, 2019,
P.87)

O mesmo conceito de honra definido por Bourdieu, bem como a violência


típica de um comportamento masculino tóxico também podem ser observados no
comportamento de Bento Santiago ao pensar em envenenar o próprio filho, por
acreditar que a criança não era sua filha legítima. No capítulo chamado “Segundo
impulso”, o narrador, após breve hesitação, confessa: “Chamem-me embora
assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi
criminoso”. (ASSIS, 19819, p.144). Mesmo ao não concluir o ato, o pensamento em
concretizá-lofaze-lo remete intrinsicamente ao período de ciúme extremo em que a
personagem estava inserida naquele momento, podendo estar associado com o
medo de ver sua virilidade estraçalhada posta aà prova com a possível traição de
sua mulher. Além disso, conforme definição de Dutra e Orellana (2017, p.157) sobre
a masculinidade tóxica, ela se baseia na competição com outros homens e
mulheres, o que também pode ser assumido como justificativa para o
comportamento de Bento Santiago em relação a seu próprio filho.
A masculinidade tóxica abrange, conforme define Sculos (2017) - tradução
dos autores - 3, o sexismo (superioridade masculina), a misoginia (ódio à mulher) e
concepções rígidas acerca da identidade e papeis sexuais e de gênero.. Durante a
obra, podemos visualizar que o narrador culpa as mulheres por seus desejos
sexuais, bem como as define de maneira pejorativa e associadas com o mal. No
trecho “As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples
encarnações dos vícios” (ASSIS, 19819, p.74), observamos a associação pejorativa
da figura da mulher com os vícios, visão reforçada e complementada no trecho:
“Tudo isso é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do vosso sexo, que perturbava
assim a adolescência de um pobre seminarista. Não fosse ele, esse livro seria talvez
apenas uma prática paroquial”, quando Bento faz referência aos desejos sexuais
constantes que tem durante sua estadia no seminário.

3
sexism (male superiority), misogyny (hatred of women), rigid conceptions of sexual/gender identity
and roles. (Sculos, 2017)
52

Em todas as personagens masculinas analisadas, a construção da


masculinidade como tóxica, não apenas para a sociedade na qual está inserida, mas
para os próprios homens que são atravessados por essa construção social, advinda
da sociedade patriarcal com seus sistemas de dominação masculina, influencia
diretamente em sua construção como homem e na maneira como essa personagem
masculina se relaciona dentro daquele contexto.
A partir disso, é possível perceber como os homens da obra, imersos em uma
sociedade que legitima a dominação masculina e providos de atitudes
masculinamente tóxicas, se relacionam com as mulheres a sua volta, descrevendo-
as e limitando-as de acordo com os conceitos patriarcais da sociedade brasileira na
época em que a obra está inserida.

6.2 CAPITU: O RETRATO DA MULHER EXPOSTA A DOMINAÇÃO MASCULINA

A partir da constatação da dominação masculina no livro e, acerca de


comportamentos considerados masculinamente tóxicos da personagem principal da
obra, Bento Santiago, ése faz necessário analisar aa maneira como a mulher está
imersa nesse contexto, identificando como a dominação masculina se relaciona com
elas.
Para realizar tal análise, foi selecionada a personagem feminina principal da
obra, a vizinha de Bento Santiago, Capitolina. Á luz dos teóricos que embasam o
presente trabalho, Capitu, como é chamada no livro, será analisada quanto a sua
descrição através do narrador-personagem, além de considerar os relatos de José
Dias sobre a moça, que é porta-voz para a visão que Bentinho cria de sua
companheira de infância na obra.
Ao tratarmos de “Dom Casmurro”, a principal discussão sobre a obra costuma
ser quanto a pergunta: Capitu traiu ou não Bentinho? Porém, neste para o presente
trabalho, a pergunta foiserá adaptada para: Como o narrador constrói a retórica que
convence o leitor de que Capitu cometeu o adultério? A resposta está na
unilateralidade do relato que silencia a personagem feminina, e é legitimada através
da dominação masculina presente na sociedade em que a obra está inserida.
O autor Leite define a maneira unilateral de como a história é narrada como
limitador, escrevendo que o narrador “limita-se às suas percepções, pensamentos e
sentimentos” (LEITE, 1985, p. 44) o que deve ser considerado quando esse
53

narrador, que também é a personagem principal da obra, faz uso da dominação


masculina para descrever e analisar Capitu. Essa dominação, conforme já exposto
pelo presente trabalho, é legitimada pela sociedade da obra. Sendo assimEntão, é
possível afirmar que o próprio narrador é o primeiro homem na obra a utilizar de seu
privilégio de dominador para definir e estereotipar a personagem feminina. Portanto,
essa análise buscoua compreender como a utilização de exercer o poder da
narrativa por Bento Santiago afeta a personagem feminina Capitu e seu espaço
como mulher.
A visão única de Bento Santiago é vista pela escritora Ruth Brandão, em seu
livro “Mulher ao pé da letra: a personagem feminina na literatura” como um desejo
de conduzir a personalidade da personagem:

Bentinho [...] registra e repete o enunciado – oblíqua e dissimulada – sobre


Capitu. Enunciado que acaba, para ele, sendo a garantia de uma verdade
[...] oblíqua e dissimulada é o discurso de um desejo que se faz passar com
o desejo de um outro. O outro no caso é a personagem feminina.
(BRANDÃO, 2006, p. 157)

Acerca da narração parcial e unilateral proposta pelo livro, John Gledson


(1991) discorre sobre a estratégia de Dom Casmurro para criar a retórica de
convencimento do leitor quanto a traição de Capitu com Escobar, onde esse
narrador busca momentos da sua história que pudessem ser utilizados para
convencer o leitor a confiar e acreditar de que realmente ela era capaz de traí-lo:

Quando atingimos o período de matrimônio de Bento, sua prerrogativa de


escolher os acontecimentos que lhe agradam está mais ou menos
estabelecida definitivamente. Em consequência, cada um desses eventos
contém uma mensagem ou uma moral, e é evidente que muitos desses
ensinamentos morais acabam justificando as dúvidas de Bento acerca da
ligação de Capitu e Escobar. (GLEDSON, 1991, p. 30-32).

Essas insinuações de que Capitu era uma mulher traidora estão de forma
implícita no texto. Como álibi para reforçar a posição de Capitu como adúltera e,
atingir o efeito de surpresa para Bentinho, até então visto como ingênuo, o narrador
atesta que não suspeitava de sua esposa até a morte de Escobar. Um exemplo
encontra-se no capítulo “Eembargos de terceiro” que relata sobre a chegada de
Bentinho em casa após ter ido sozinho a um concerto de ópera, já que sua esposa
54

alegou estar com dor de cabeça e mal do estomago. Quando ele chega em casa,
encontra Escobar no corredor e Capitu bem de saúde, como relata a seguir:

Capitu estava melhor e até boa. Confessou-me que apenas tivera uma dor
de cabeça de nada, mas agravara o padecimento para que eu fosse divertir-
me. Não falava alegre, o que me fez desconfiar que mentia, para me não
meter medo, mas jurou que era a verdade pura. (ASSIS, 1981, p. 125).

Para complementar, no capítulo seguinte “Eem que se explica o explicado” o


caso dos embargos de terceiro é interrompido para que Bentinho, relembre sobre a
canção do vendedor de cocadas do início do livro, cujo qual, já foi revelado que
Capitu havia esquecido muitomuitos capítulos antes. , no capítulo 110. Eis o trecho:

Capitu e eu tínhamos jurado não esquecer mais aquele pregão; foi em


momento de grande ternura, e o tabelião divino sabe as coisas que se juram
em tais momentos, ele que registra nos livros eternos. – Você jura? – Juro,
disse ela estendendo tragicamente o braço. (...) Faltar ao compromisso é
sempre infidelidade, mas a alguém que tenha mais temor a Deus que aos
homens não lhe importará mentir... (ASSIS, 1981, p. 126).

Como explicitado nos exemplos acima, é possível perceber os argumentos


para que fique intrínseco no leitor a má conduta de Capitu. Em um, ela poderia estar
mentindo e no outro, ela havia faltado ao compromisso de nunca esquecer a canção,
ato esse que é considerado pelo narrador prova de sua infidelidade. Gledson (1991)
argumenta sobre essa “súbita lembrança”, considerando uma insinuação para o
interlocutor ser manipulado a acreditar que:

Capitu é facilmente perjura, visto que ela acabara de jurar que havia
exagerado uma dor de cabeça que sentia, para que pudesse sair e
espairecer. O resultado foi que ela se achava sozinha quando bento voltou
pra casa e encontrou Escobar na soleira da porta. (GLEDSON, 1991, p. 34).

Portanto, a imagem de Capitu como uma pessoa adúltera é construída


mesmo antes da morte de Escobar, sendo embasada desde a infância da
personagem, cujo quais são vistas pelo narrador como “espertezas” mas que
também podem ser visualizadas como uma tentativa da personagem de ser
independente, (tendo em vista que Capitu participava ativamente das decisões de
sua casa, por exemplo) fugindo assim do padrão esperado dela pela sociedade
patriarcal.
55

A outra personagem da obra que utiliza seu poder social como homem para
rotular a menina de “desmiolada” enquanto tenta romper a relação de Bentinho e
Capitu, é José Dias:

- Dona Glória, a senhora persiste na ideia de meter o nosso Bentinho do


seminário? É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade. –
Dificuldade? - Uma grande dificuldade. [...] Há muito tempo estou para lhe
dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho
ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é dificuldade,
porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para
separá-lo. [...] Bentinho quase não sai de lá. A pequena é uma desmiolada...
(ASSIS, 1981, p. 13-14).

Como afirma Gledson, Bentinho considerava José Dias, em uma fase da


obra, como a melhor pessoa para testemunhar sobre a verdadeira natureza de
Capitu, já que este não estava apaixonado por ela (GLEDSON, 1991, p. 57). É
usado esse argumento para que o narrador se utilize do personagem de José Dias
mais uma vez para descrever Capitu a partir do seu olhar de homem dentro de uma
sociedade patriarcal: “A gente Pádua não é de toda má. Capitu, apesar daqueles
olhos que o diabo lhe deu... Você á reparou nos olhos dela? São assim de cigana
oblíqua e dissimulada” (ASSIS, 1981, p. 38). É interessante perceber o que legitima
essa descrição de Capitu aos olhos de Bentinho, embora pareça inadequada por se
tratar de uma criança, é a força de José Dias como figura masculina e mais velha,
traços associados a visão de masculinidade, conforme explanado por teoriza
Badinter: “A masculinidade difere segundo a época, mas também segundo a classe
social, a raça, e a idade do homem” (BADINTER, 1993, p.28).
É a partir dessa definição de José Dias que o narrador irá montar sua
narrativa buscando apresentar situações onde ocorre a dissimulação da
personagem feminina Capitu. Essa narrativa é tecida com momentos da vida de
Bentinho que possam caracterizar as atitudes de Capitolina como dissimuladas,
utilizando isso como uma possível prova para a acusação de adultério. Uma das
iniciais dissimulações de Capitu na obra acontece no capítulo intitulado “Ooutra voz
repentina”, cujo qual Bentinho encontra seu nome escrito no muro juntamente com o
dela vivendo assim um momento íntimo, que é interrompido pela aproximação do pai
de Capitu. Ao contrário de Bento que demonstrou em sua narrativa estar espantado
com a presença de Pádua, CapitolinaCapitolina mostrou-se muito inteligente para
lidar com a situação:
56

Capitu riscava sobre o riscado, para apagar bem o escrito. Pádua saiu ao
quintal, a ver o que era, mas a filha á tinha começado outra cousa, um perfil,
que disse ser o retrato dele, e tanto podia ser dele como da mãe; fê-lo rir,
era o essencial.[...] - Vocês estavam jogando o siso? Perguntou. Olhei para
o pé de sabugueiro que ficava perto; Capitu respondeu por ambos. –
Estávamos, sim, senhor, mas Bentinho ri logo, não aguenta. – Quando eu
cheguei à porta, não ria. –Já tinha rido das outras vezes, não pode. Papai
quer ver? (ASSIS, 1981, p.27).

Considerando a definição que José Dias deu para a menina de “olhos


oblíquos e dissimulados”, é possível interpretar que o narrador deseja que o seu
interlocutor relacione as atitudes de Capitu com a afirmação do agregado. Para o
crítico literário Roberto Schwarz em seu livro “A poesia envenenada de Dom
Casmurro”, o próprio Dom Casmurro cria a narrativa para manipular o leitor a fazer
essa relação, mesmo que inconscientemente: “Induzido a recapitular, o fino leitor
prontamente lembrará os indícios do calculismo e da dissimulação da menina”
(SCHWARZ, 1991, p. 85). Uma exemplificação dessa intenção de manipular a
imagem de Capitu para que o leitor a julgue é encontrada no fim do livro,
especificamente no último capitulocapítulo “É é bem, e o resto?” onde o narrador
está refletindo sobre a traição de seu melhor amigo com sua esposa:

Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te
com a malícia que aprender de ti”. Mas, eu creio que não, e tu concordarás
comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que
estava uma dentro da outra, como a fruta dentro da casca. (ASSIS, 1981, p.
152)

Ao levarmos em consideração a posição de dominador social masculino em


que o narrador-personagem está inserido, podemos visualizar mecanismos que
calam a voz de Capitu na narrativa, sendo silenciada quanto às verdadeiras
intenções de seus atos. O agregado José Dias serve de porta-voz inicial para
caracterizar essa mulher pejorativamente, pois apesar de o presente trabalho ter
analisado que o próprio narrador desqualifica a masculinidade de José, ele ainda é
visto como dominador social e, portanto, é apto a qualificar Capitolina. Pode ser
considerado que, durante o livro, a narrativa exibe atitudes talvez consideradas de
má-conduta por parte da personagem feminina para que o leitor conclua que a
Capitu adulta (considerada falsa, mentirosa e capaz de trair pelo narrador) já estava
na imagem da menina criança mais inteligente que ele e capaz, inclusive, de mentir
para seu próprio pai, como na cena descrita acima.
57

Fazendo essa análise, é possível interpretar e reconhecer que a narrativa


configura a imagem da personagem Capitu com duas faces: Uma face como uma
mulher infiel e dissimulada, e a outra como uma menina além de seu tempo.

6.3 CAPITU COMO UMA MULHER A FRENTE DE SEU TEMPO

Ao analisarmos Pierre Bourdieu acerca de sua teoria sobre a maneira como a


dominação masculina se apresenta em uma sociedade, torna-se possível visualizar
a quebra de padrões com relação a personagem Capitu, onde a é descrita, ao longo
de todo o romance, como uma mulher esperta, curiosa e, como o próprio Bento
Santiago afirma, reflexiva: “Capitu refletia. A reflexão não era cousa rara nela, e
conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos.” (ASSIS, 1981, p. 31). Por isso
ela era vista como uma mulher à frente de seu tempo e, principalmente, causava um
desconforto ao narrador ao sair dos estereótipos de mulher intrínsecos na
dominação masculina.
Logo no início da obra, quando as personagens Bento Santiago e Capitolina ainda
eram adolescentes, já é possível notar a influência do patriarcado na sociedade em
que viviam, que, conforme conceitua Max Weber, se constitui como um sistema
social de dominação masculina (WEBER, 1999 p. 188). No trecho a seguir, o
narrador mostra que, para as pessoas era comum ver meninos mais velhos andarem
com meninas mais novas:

“Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou de cima


de si que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos
com as meninas de quatorze, ao contrário, os adolescentes daquela idade
não tinham outro ofício, nem os cantos outra utilidade. Era um coqueiro
velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda que nos velhos livros.
Pássaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o estilo, toda a gente viva
do ar era da mesma opinião.” (ASSIS, 1981, p. 23).

Mesmo vivendo em uma sociedade patriarcal, Capitu não seguia os padrões


esperados pela Dominação masculina. Sobre às expectativas sobre a mulher dentro
de uma sociedade patriarcal que legitima a dominação masculina, Bourdieu
considera que elas são vistas como objeto simbólicos. Ele explica:

A dominação masculina que constitui as mulheres como objetos simbólicos,


cujo ser (esse) é um ser- percebido (percipi), tem por efeito coloca-las em
permanente estado de insegurança corporal, ou melhor, de dependência
simbólica: elas existem primeiro pelo, e para, o olhar dos outros, ou seja,
enquanto objetos receptivos, atraentes, disponíveis. Delas se espera que
58

sejam “femininas”, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas,


discretas, contidas ou até mesmo apagadas. E a pretensa “feminilidade”
muitas vezes não é mais que uma forma de aquiescência em relação às
expectativas masculinas, reais ou supostas, principalmente em termos de
engrandecimento do ego. Em consequência, a dependência em relação aos
outros ( e não só aos homens) tende a se tornar constitutiva de seu ser.
(BOURDIEU, 2019, p.112).

Portanto como foi visto, fica entendido que Capitu não foi uma mulher que
representava a expectativa da sociedade patriarcal. Outro exemplo disso é que para
as meninas dentro da obra, apenas eram consideradas “boas moças” aquela que
possuíam maestria na arte da costura ou nas habilidades de casa sem espaço para
aprender ler e escrever. Isso é observando durante o capítulo intitulado “Aas
curiosidades de Ccapitu”, onde a personagem feminina não pôde estudar Llatim
porque, segundo o Padre Cabral, “Llatim não era língua de meninas” (ASSIS, 1981,
p. 44). Essa situação pode exibir um paralelo entre a posição do homem e da mulher
e a grande diferença entre os dois gêneros no sistema patriarcal, tendo em vista que
enquanto Bentinho aprendia latim, Capitu bordava na sala de casa.
É importante considerar que toda a história é escrita do ponto de vista de
alguém que acredita ter sido traído: um homem que se sente ameaçado e traído por
uma mulher fora dos padrões muitas vezes considerada esperta, atraente e forte.
Sobre a honra masculina ameaçada e o papel da mulher como oposto ao esperado
dentro da sociedade patriarcal, Bourdieu comenta:

A exaltação dos valores masculinos tem sua contrapartida tenebrosa nos


medos e nas angústias que a feminilidade suscita: fracas e princípios de
fraqueza enquanto encarnações da vulnerabilidade da honra, da h’urma (o
sagrado esquerdo feminino, oposto ao sagrado direito, masculino) sempre
expostas à ofensa, as mulheres são também fortes em tudo que representa
as armas da fraqueza, como a astúcia diabólica. (BORDIEU, 2012, p. 64-65)

Ou seja, o termo “astúcia diabólica” se refere nessa análise para a ideia de


dissimulação quando a personagem de Capitu, estando sempre ligada à sua
condição de mulher.
Pode-se concluir que, assim como Capitu em Dom Casmurro, a mulher no
sistema patriarcal é definida pela percepção masculina. A personagem está
silenciada pelo discurso de Bento Santiago que ocupa o local de fala, cujo qual
Bourdieu afirma que é restrito somente para os homens dentro da dominação
masculina (BOURDIEU, 2019, p. 67). Além das estratégias da narrativa que o
protagonista utiliza, ele também usa sua posição na sociedade como dominador
59

para que o interlocutor acredite que, de fato, Capitu cometeu adultério. E como
essas relações de poder na sociedade estão ligadas com a fala do narrador, Capitu
é influenciada a se comportar de acordo com os interesses da classe dominante que
nesse caso, é o Bentinho. Portanto, é assim que suas atitudes quando criança são
usadas contra ela, sempre voltando ao fator do homem ser o centro e o poder dentro
da obra.
Análise da obr
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7 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Este trabalho possibilitou entender como a dominação masculina está se faz


presente na obra de Machado de Assis “Dom Casmurro”, analisando de que
maneiras a violência simbólicaprática se legitima na obra, considerando a
masculinidade tóxica apresentada pelo personagem principal, Bento Santiago,
durante a análise, bem como e. Ala sociedade patriarcal em que a obra está
inserida.
Para possibilitar a análise, dois objetivos específicos foram definidos: o
primeiro, quanto a identificação da dominação masculina nas personagens homens
da obra; o segundo, quanto a análise do reflexo dessa dominação na personagem
feminina principal da obra, Capitu. Para atingirmos esses objetivos, utilizamos a
análise descritiva e a pesquisa qualitativa como metodologia, à luz dos principais
teóricos explorados pelo presente trabalho : Pierre Bourdieu (2019), Elisabeth
Badinter, Mário de Alencar, Sonia Guarita do Amaral, John Gledson (1991), Ruth
Silviano Brandão (2006), Robert Schwarz (1991).,
Foi possível perceber que as personagens masculinas da obra utilizam-sese
utilizam da dominação masculina em suas relações com as mulheres e usufruem de
seu papel de dominador social para, através da violência prática, caracterizarem e
se relacionarem com os homens do livro em questão. Quanto a masculinidade
tóxica, o termo foi empregado na análise de Bento Santiago como narrador-
personagem, com a finalidade de contemplar com totalidade suas ações em posição
de dominador social, percebendo conceitos como violência, misoginia, sexismo e
concepções rígidas acerca da identidade e papeis sexuais e de gênero, no
comportamento dessa personagem.
Por fim, como maneira de analisar como as mulheres eram expostas a esse
cenário social de dominação masculina, a personagem mulher principal, Capitu, foi
analisada. Foi possível visualizar o narrador em seu papel de narrador-personagem
desqualificando a feminilidade de Capitu e restringido seu lugar naquela sociedade.
O agregado José Dias também é figura ativa no reflexo da dominação masculina
para Capitolina, agindo como porta-voz central na visão que o próprio Bentinho tem
61

de sua companheira de infância, sendo do agregado a célebre frase que a


caracteriza como “oblíqua e dissimulada” (ASSIS, 1981, p.38).
Em consonância com os exemplos retratados na análise do trabalho, foi
possível verificar de que maneiras a dominação masculina se aplica dentro de uma
sociedade patriarcal, culminando em comportamentos masculinos tóxicos que
atingem não apenas a sociedade, mas o próprio homem que apresenta esse
comportamento. A partir disso, em trabalhos futuros, tendo a mulher como ponto
central de análise, será possível visualizar e prevenir em uma sociedade não-literária
a legitimação dessa dominação.

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