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Questão IV: "Na verdade, conscientemente ou não, é sempre a nossas experiências cotidianas que, para

nuançá-las onde se deve, atribuímos matizes novos, em última análise os elementos, que nos servem para
reconstituir o passado: os próprios nomes que usamos a fim de caracterizar os estados de alma desaparecidos,
as formas sociais evanescidas, que sentido teriam para nós se não houvéssemos antes visto homens viverem?
Vale mais [cem vezes] substituir essa impregnação instintiva por uma observação voluntária e controlada. Um
grande matemático não será menos grande, suponho, por haver atravessado de olhos fechados o mundo onde
vive. Mas o erudito que não tem o gosto de olhar a seu redor nem os homens, nem as coisas, nem os
acontecimentos, [ele] merecerá talvez, como dizia Pirenne, o título de um útil antiquário. E agirá sensatamente
renunciando ao de historiador. "

Marc Bloch é, juntamente com Lucien Febvre, um dos fundadores da chamada 1º Geração da Escola dos
Annales. Discorra sobre as críticas elaboradas por essa primeira geração à Escola Metódica, comparando suas
abordagens no que diz respeito às fontes, métodos e áreas de interesse de pesquisa.

Conforme a busca por uma suposta neutralidade ideológica é cotidianamente trazida à tona ao discutir o
ensino e o estudo da história, pensamentos e visões há muito superados academicamente são novamente adotados. A
noção de uma história neutra, livre de ideologias, objetiva, apolítica e responsável por estudar “o” passado, provou-se
ainda na primeira metade do século XX, devido às críticas realizadas pela primeira geração dos Annales, equivocada.
A imposição de tal visão na França pela Escola Metódica serviu como uma excelente ferramenta partidária e
ideológica, mantendo uma base fiel ao regime republicano vigente no país e contradizendo a própria premissa de
neutralidade e objetividade defendida por tais indivíduos.

Surgida durante a Terceira República Francesa com a publicação da Revue Historique, a Escola Metódica
expôs sua vontade de afastar a subjetividade do estudo da história, apresentando uma abordagem objetiva e científica
como uma alternativa confiável às filosofias da história. As análises deterministas e teleológicas da história seriam
substituídas por investigações científicas e técnicas rigorosas, sempre visando a objetividade e resultados precisos. Se
opondo aos ideais católicos e monarquistas defendidos pela Revista das Questões históricas, a Escola Metódica propôs
uma análise neutra e apartidária da história.

No entanto, o suposto apartidarismo serviu como uma forma de expressar oficialmente os ideais republicanos
e protestantes defendidos pela própria Escola Metódica. A busca pela objetividade, as técnicas rigorosas de análise e a
intenção de impor convicções nacionalistas e interessantes ao regime republicano vigente, determinaram as áreas de
interesse, os métodos e as fontes utilizadas pela Escola Metódica.

A defesa do estudo da historia nacional francesa apresentada no Manifesto de 1876 escrito por Monot,
demonstra a preocupação da Escola Metódica em buscar as origens do país. Interessando-se pelos gauleses, pela idade
média e principalmente pela Revolução Francesa, a historiografia passa a dar ênfase ao estudo de grandes nomes e
grandes figuras, ícones heroicos de um glorioso e romantizado passado francês. Os grandes feitos eram analisados
episódica e isoladamente, focando-se apenas em estudar a história política e militar de tais acontecimentos. Tais temas
seriam de fundamental importância à construção de uma identidade nacional francesa, estando presentes nos manuais
escolares do país. Para Lavisse, o ensino da história nacional instruiria as novas gerações a amar a pátria e a república,
assim consolidando as bases sociais do regime.

A busca pela objetividade científica no estudo de tais temas se deu por meio do uso de métodos rigorosos. As
regras e normas determinadas pela “Introdução aos Estudos Históricos” são pautadas puramente na análise e crítica de
documentos escritos. Ao analisar um documento, o historiador deveria efetuar uma crítica externa (determinando a
autenticidade da fonte, os sujeitos responsáveis por sua produção além das datas e locais envolvidos) seguida por uma
crítica interna (determinando e interpretando os conteúdos do documento) e por fim realizar operações sintéticas
(comparando e traçando paralelos entre documentos, assim obtendo fatos concretos).

Considerados como sendo vestígios autênticos do passado, os documentos escritos seriam as únicas fontes
utilizadas pela Escola Metódica. Vestígios arqueológicos, produções artísticas além de inúmeros outros “vestígios” do
passado, seriam deixados de lado pela Escola Metódica.

A Primeira Geração da Escola dos Annales criticará duramente os métodos adotados pela Escola Metódica,
defendendo a união das ciências humanas, a história de longa duração (não mais retratando acontecimentos isolados e
quase atemporais), a utilização de uma vasta gama de fontes históricas (não mais limitadas a documentos escritos), o
uso do conceito de “história problema”, a interdisciplinaridade (uso da psicologia, geografia, antropologia, dentre
outras), e o diálogo internacional (não se limitando ao estudo da história nacional).

A história, não mais “historicizante”, torna-se uma questão, cabendo ao historiador não registrar os fatos com
objetividade, mas encontrar uma de suas muitas respostas. Enfatizando a história econômica e política e tratando dos
mais variados temas para localizar a análise dos fatos (a geografia do local, suas práticas econômicas, seus costumes,
suas produções artísticas, etc) os Annales consultarão diferentes fontes com o auxílio de diversas disciplinas
complementares.

Utilizando-se dessas fontes, disciplinas complementares, do método regressivo e da história problema, os


Annales traçarão em suas análises, histórias de longa duração. O que seria definida como História Total, abrangeria
todos os tópicos (não apenas históricos) envolvidos na análise de uma questão proposta, apresentando uma
interpretação ampla e vasta de fatos, períodos históricos, etc.