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Artigo

Transexualidade infantil na Psicologia:


uma revisão bibliográfca

Felipe Sávio Cardoso Teles Monteiro


Universidade Federal do Maranhão
felipesctm@hotmail.com

Andréia Marcia Moreira de Araújo


Universidade Federal do Maranhão

Carlos José Lima Guedelho


Universidade Federal do Maranhão

Calos Vitor Esmeraldo Albuquerque Beserra


Universidade Federal do Maranhão

Camila de Souza Machado


Universidade Federal do Maranhão

Resumo
Objetivo: O presente estudo teve como escopo as discussões a respeito da transexualidade no mundo
infantil e suas respectivas características abordadas nos contextos atuais. Método: O presente estudo
desenvolveu uma revisão bibliográfcaa utilizando-se das bases de dadosa tais como: Literatura Latino-
Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientifc Electronic Library Online (SCIELO) e
sites de interesses; dispondo de artigos publicados na íntegra entre os últimos anosa em que foram
empregados os descritores pautados na transexualidade infantil no âmbito da educação e na
sociedadea uma breve visão da psicanálise e por fm o cinema como perspectiva para melhor
compreensão do tema. Resultados: Foram estabelecidos 10 artigosa os quais fazem referência a
transexualidade como relações de gênero que se diferem do nascimento ao sexo biológico. Neste
sentidoa surgem diversos debates a caracterizar a transexualidade. E é perceptivo o número mínimo e
restrito do tema a tratar no contexto infantil. Conclusão: Os estudos frmam-se em ideias de que ainda
há muito o que se falar em transexualidade infantila pois em decorrência é considerável os errôneos
conceitos obscuros e longínquos da realidade que a sociedade se detém.
Palavras-chave: Transexualidade infantil. Educação. Sociedade. Psicanálise. Cinema.

Transsexuality child in psychology: a literature review


Abstract
Objective: This study has the scopea discussions of transsexualism in the world of children and their
characteristics addressed in the current context. Methods: This study developed a literature reviewa
using databases such as: Latin American and Caribbean Health Sciences (LILACS) and Scientifc
Electronic Library Online (SciELO) and interest sites; featuring articles published in full from the last
few yearsa which will be used the following descriptors guided in child transsexuality in education and
in societya a brief view of psychoanalysis and fnally the flm as a perspective to better understand the
topic. Results: There were restored 10 articlesa to which reference transsexuality as gender relations
that difer from birth to biological sex. In this sensea there are many debates to characterize

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transsexuality. And it is the least perceptive restricted number to treat the child context. Conclusion:
The studies discussed here are ideas steadies that there is still a lot to talk about transsexuality child as
a result is considerable erroneous obscure and distant concepts of reality that society holds.
Keywords: Transsexuality child. Education. Society. Psychoanalysis. Movies.

1 Introdução Neste sentidoa essa defnição para o


Muito se tem discutidoa recentementea mundo infantil não se faz alteradaa por
acerca da diversidade sexual. Esta diversidade se conseguintea o objetivo de estudar e discutir esse
refere às múltiplas formas de relações entre a importante temaa trás consigo suas respectivas
raça humana. Hojea há uma grande consistência peculiaridades e revela conceitos e informações
do movimento LGBT (lésbicasa gaysa bissexuaisa imprescindíveis para o conhecimento. Para issoa
travestisa transexuais e transgêneros) em o estudo ressalta inicialmente as disposições da
decorrência do reconhecimento como educaçãoa tal como as ideias da sociedadea a fm
diversidade. É de suma importância entender o de mostrar a realidade de casos e em sequência
quão grande é a luta dos que protestam cujo pontuar a posição da psicologiaa envolvendo a
propósito é conquistar seus respectivos direitos visão da psicanálise e sobretudo o cinema como
mediante reivindicações para melhor aceitação uma ferramenta de intervenção para melhor
na sociedade. reverberar a discussão do assunto em destaque.
No que concerne a transexualidadea de
acordo com a 4ª edição do Manual Diagnóstico e 2 Método
Estatístico de Transtornos Mentais (DSM IV)a o A metodologia utilizada no artigo foi de
transexualismo está atualmente caracterizado cunho qualitativoa sendo eminentemente
como Transtorno da Identidade de Gênero (TIG) bibliográfcaa por viabilizar uma pesquisa mais
e pode ser defnidoa de forma bastante breve e célere e efetiva teoricamentea embasando-se de
simplesa como o sentimento de infelicidade ou forma substancial em artigosa salientando
depressão quanto ao próprio corpo (ÁRANa veementemente trabalhos como o de Anacleto
2009). (2009)a Cruz (2008) e o pesquisador Da Silva
É preciso levar em consideração que a (2013). Contudo nosso trabalho mira a posteriori
transexualidade não é um ato de vontade vislumbrar alternativas que alonguem esse
pessoal e sima segundo o manuala uma patologia artigoa que de forma sucinta e em
como qualquer outra e quea portantoa ninguém a amadurecimento tratou sobre o tema de gênero
escolhe ter. A troca do nome e do sexo no e sexualidade infantila polêmico e extasiante
registro civil é apenas uma das várias etapas do motea que nos satisfará transcender a um viés
processo de readequação de gênero (BORDAS; quantitativoa concernente a uma pesquisa de
MÁRCIA; GOLDIMa 2000). campo num futuro próximo.
No entantoa quando se aborda a A partir da análise feita em discussões no
transexualidade no mundo infantila é necessário entornoa geradas por interesses mútuos do
destacar que é um tema polêmicoa todaviaa grupoa percebemos que não era o bastante fcar
muito pouco ou difcilmente discutido. Em estagnado na esfera verborrágica plantada em
outros aspectosa é por tal motivo que existem discussões informais e sim aprofundar mesmo
inúmeros preconceitos. Porquantoa a quea de forma bastante incipiente o conteúdo
compreensão que se esclarece no termo da aqui trazido e refutadoa decerto as matizes que
transexualidade no presente artigo denota: permeiam a pesquisa são válidasa porém
Siqueira (apud BENTOa 2006)a em seu apostam no porvir respondente que nos cerca.
prefácio ao livro Reinvenção do Corpoa revela Sabe-se das difculdades enfrentadas para se
que a autora discute a transexualidade como reverberar um temaa ainda mais quando
conflito idenitário e não como enfermidadea posicionados e defendidos por dogmas culturaisa
na perspectiva de que o processo de
religiosos e científcos.
organização social das identidades é o
mesmo tanto para transexuais quanto para Por issoa passamos a encarar o fato como
não transexuais. Nessa direçãoa a norma de conflitos de várias instânciasa direcionando
gênero postula que somos o que nossas objetivosa mas não se fndando na proposta de
genitálias informama de modo a haver uma trazer superfcialmente uma luz acerca da
concordância entre gêneroa sexualidade e sexualidade infantil e seus enfrentamentos
corpo. maturacionais. É assima que esperamos construir
e facilitar percepçõesa dando voo a discussões e

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debates que traduzam o sentimento de quem usar? Diante deste assunto muitos foram os
sofre e passa por momentos de adversidade questionamentosa usar o banheiro dos meninos
enfrentados no cerne da questão tratada. por que tem pênis ou o das meninas por que se
vestem de mulher? Colocar horário diferente
3 O contexto da transexualidade infantil no para os transexuaisa ou usar o banheiro da
âmbito da educação e na sociedade diretora? Uma aluna ainda disse: faça xixi em casa
O decorrente assunto vem sendo uma e as crianças da escola perguntaram “e isso não é
problemática na educação infantil. O número de preconceito?” Essa problemática deu o que falara
evasão tem aumentado signifcativamente de modo gerala em questão foi percebido que o
devido ao preconceito de educadores e alunos. banheiro se tornou um marcador de identidadea
Elizabeth Zambrano (2011) destaca como as ou melhor o RG do aluno. Diante de tal
escolas vêm sendo um espaço institucional de atrocidade incompreensivaa voltou-se ao
exclusão dos transexuais e travestisa agredidos entendimento menino/pênis e menina/vaginaa
pelos colegas e educadores diante da “aparência preconizado no contexto escolar gerando
monstruosa”a sendo forçados a deixarem o confusão sexuala quando destacado um tema
ambiente escolar pela frequência de insultos e fora dos padrões heteronormativos.
agressões que são vítimas. Isso porquea ainda é É Interessante enfatizar a expressão que
preconizado pela sociedade o que sejam surgiu depois de toda essa temática em
características masculinas e femininasa trazendo questionamento que foi “Abafa o caso”a por issoa
esta diferença entre sexosa o que torna os professores pensaram como estratégia
impossível explicar a natureza não heterossexista atenuadora da lidea tentar amenizar as diferenças
para a criança. de gênero e deixar tolerantemente o anormal a
Desde os primeiros anos de vida a conviver em meio ao “normal”a provendo assima
criança diverte-se com brinquedos escolhidos um distanciamento ao banheiro da diretora. Será
pelos pais que acham ser adequados para o a melhor solução para o dito “anormais”? o
gênero. Não sendo um instinto materno e sim banheiro dos professores e diretora seria
uma construção e representação social. Mas assexuado? Segundo Teixeira e Raposo (2007) o
embora haja essa construção social na banheiro surge como um espaço emblemático
humanidadea podemos reconhecer a diversidade da constituição das diferenças de gêneroa um
de gênero em respeito às particularidades do espaço marcado por jogos sexuaisa descobertasa
sujeito e sua história de vida. Na escola brasileira ameaças e potencialidades. Nas palavras das
os professores ainda constituem uma imagem autoras:
heteronormativa na construção de uma família Os banheiros são espaços de alta densidade
onde homem e mulher sexualmente acasalam-se simbólica para a investigação das relações de
e reproduzem a espéciea para dar continuidade a gênero e sexualidade no contexto público e
escolar. Materializam e expressam
humanidade culturalmente exigida pela a
concepções e práticas de cuidado do corpo e
sociedade.
do meio ambiente já que são locais de
Afrma Louro (1997a p. 21): depósito das excreções –marcadas por
É necessário demonstrar que não são signifcados de sexo e gênero: como são
propriamente as características sexuaisa mas arquitetados e organizados? Como são
é a forma como essas características são usados? Quem os mantêm limpos? Tais
representadas ou valorizadasa aquilo que se questões sugerem reflexões que articula
diz ou se pensa sobre elas que vai constituira gêneroa sexualidadea corpo e educação.
efetivamentea o que é feminino ou masculino (TEIXEIRA; RAPOSOa 2007. p. 1).
em uma dada sociedade em um dado
momento histórico. Para que se compreenda
Em análise dos presentes artigosa
o lugar e as relações entre homens e
mulheres numa sociedadea importa observar ressalta-se que referente à problemática dos
não exatamente seus sexosa mas sim tudo o banheiros na rede estadual da educação infantil
que socialmente se construiu sobre os sexos. do estado do Paranáa fcou estabelecida a
O debate vai se constituir entãoa através de orientação pedagógica 001/2010 do
uma nova linguagema na qual gênero será departamento de diversidade da secretaria de
um conceito fundamental. educação que orienta os estabelecimentos da
rede de educação pública estadual quanto ao
No presente artigo avaliado para este uso do banheiro:
trabalho foi identifcado um problema a partir de Quanto ao uso do banheiroa orienta-se que
uma pergunta feita por um professora se a pessoa os/as transexuais e travestis utilizem o
for um transexual qual o banheiro ele/ela vai banheiro das/dos alunas/os de acordo com a

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identidade de gênero que apresentam. de cuidar da casa e dos flhosa imposição
Ressalta-se que a arquitetura da escola não intolerante e acima de tudo machista.
precisará sofrer qualquer alteraçãoa ou sejaa Quando os pais de uma criança que não
não é preciso construir um terceiro banheiroa a aceitam com o sexo biológicoa dita
bem comoa também não se orienta que os/as
transgêneroa se deparam com essa problemáticaa
alunos/as travestis e/ou transexuais utilizem
o banheiro das/os professoras/es ou logo vem a perguntaa onde erramos? “Pois a
defcientes. (DEDI-SEEDa 2010). criança nada mais é do que o desejo do desejo
do outro” (LACANa 1901) e aos olhos de nossa
Neste contexto educacional destaca-se a sociedadea uma criança que nasceu com um sexo
relevância das políticas públicas na educação biológico e não se reconhece com elea não pode
infantila com a abordagem de diversos temas ser vista como normala pois foge aos padrões de
relacionada a gênero e diversidadea visando normalidade pré-estabelecidos. E como lidar com
diminuir a homofobia e a violências entres isso? Na tentativa de respostasa muitas vezes
alunos não heterossexistas. estes pais acabam buscando na religião a solução
Luiz Ramires (2011) em sua pesquisa para essa perguntaa pois algum erro aconteceu
destaca que uma das primeiras áreas que o na concepção desse novo ser e a culpa deve
governo teria que atuar no combate ao estar em algum erro cometido pelos pais contra
preconceito em relação a sua orientação sexual e Deusa que os puniu com esse flho (a) diferente.
identidade de gênero seria na escolaa tendo a Concepções culturalmente formadas são
percepção deste ambiente lotado de difíceis de serem mudadasa pois perpassam por
desigualdades sociaisa bem comoa um espaço de gerações e geraçõesa o que torna ainda mais
construção de respeito à diversidade e difícil a aceitação do que é visto como diferente.
transformação social. Logoa numa sociedade com
valores patriarcaisa preconceituosos e Nesse contextoa o processo que deve ser
iniciado começa por mudanças de valores
presumidamente determinados pela força
sociais que se mostrem conservadoresa com a
religiosaa aceitar as diferenças não é uma das
"quebra" de paradigmas que reproduzam
tarefas mais fáceis. Nos últimos anosa diversas preconceitos e que devem ser conquistados
ações têm sido tomadas na tentativa de diminuir através de modifcações profundas das
o sofrimento das classes minoritáriasa no cunho estruturas estruturantesa como diria Bourdieu
da valorização e respeito às diferenças étnicasa de (2003).
cora de diversidade sexual e de gênero.
No tocante à diversidade sexual e de Essa criança dita diferente vive uma luta
gêneroa principalmente na transexualidade diária em busca da sensação de pertencimento a
infantila temos uma árdua tarefa de quebra de um determinado grupo social masculino ou
paradigmas sociais e reestruturação dos espaços feminino. Algumas mudanças já foram tomadas
públicos e privadosa pensando em uma na tentativa de melhoramento de políticas
resignifcação dos conceitos socialmente aceitos públicas direcionadas a essas pessoas no Brasil.
como padrões de masculino e femininoa algo “Desde 1997 foi autorizada a cirurgia de
ainda meio utópico se partirmos de um Redesignação Sexual em Hospitais públicosa
pensamento heteronormativo. “Quando uma porém com idade mínima de 21 anos e o
mulher engravida e vai ao médico para saber o acompanhamento psicológico de duração de
sexo do bebêa logo os pais começam a pensar dois anos com intervenções multidisciplinares”.
como será essa criança e nas cores do quarto e (DE MELOa 2013).
brinquedos a serem comprados para montar o São ações mais voltadas para solução de
enxoval do flho”. (SILVAa 2013a p. 12-25). adultos que passam por esse sofrimento
É quase improvável comprar roupas psicológicoa mas por outro ladoa as crianças que
róseas para o “menininho” que está por vir ou vivem sofrendo com o preconceito na escola e
azuis para pequena “menininha” que está com a não aceitação sociala ainda vivem a mercê
chegando. Em seus primeiros anos de vida como de políticas públicas muito conservadoras e nada
continuidade de ações socialmente aceitas lhe ou pouco preocupadas com esse problema. Em
será apresentado os brinquedos e as brincadeiras janeiro de 2016 aconteceu a primeira decisão
de cunho valorativo cultural que lhe impõem o judicial de mudança de nome e gênero de uma
seu papel na sociedadea enquanto os meninos criança de 9 anos no Brasil o que nos mostra uma
jogam futebol e brincam de carrinho as meninas certa evolução na tentativa de minimizar a dor
brincam de casinha e boneca como se numa psicológica sofrida pela criança e pelos pais.
extensão do papel desempenhado pela mulher

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4 Transexualidade infantil: uma breve visão sofriam e sofrem as mulheres. Em se tratando da
da psicanálise psicologiaa menciona-se a identidade de gênero
Na psicologiaa a ideia do que seja e de papel de gênero para designar o modo que
sexualidade vai depender da escola consideradaa a pessoa vive o gênero ao qual se identifca em
trataremos aqui da visão psicanalítica freudianaa resposta à sociedade e/ou a fatores
visto que a história da sexualidade e sua historicamente construídos e conferidos ao
evolução confunde-se com a própria psicanálisea gênero em questão.
pois sempre estiveram juntas até a Sobre o quesito do gênero em
contemporaneidade. A teoria de Freud em boa psicanálise fcam claras duas concepções: a
parte fundamenta-se sobre a sexualidadea um confluência do individual - do EU; ou do sujeito -
conceito que ajuda identifcar a influência da e as edifcações sociais como afluentes históricos.
mesma sobre o psiquismoa ampliando o Sendo para o séquito de psicanalistas esses
conhecimento sobre o desenvolvimento da conflitos em sua maioria individualmente
libido na criançaa por exemplo. Para Freuda a relacionados ao inconscientea sendo raramente
sexualidade da criança que é um ser em causado por questões sociais. Os trabalhos de
desenvolvimentoa manifesta-se ainda na primeira Freud sobre a sexualidadea principalmente a
infânciaa mais cedo do que se acreditava num infantila trazem em seu dogmaa avançadas e
determinado nível de sua maturação através das genuínas ideias alterosas e originais para a época
estruturas físicas. sobre a questão de gênero. Partindo da famosa
Podemos relacionar aquia por exemploa a observação freudiana segundo entende-se que
boca relacionada na fase oral que Freud “toda psicologia individual éa ao mesmo tempoa
considerou como sendo a primeira na ordenação psicologia social” (FREUDa 1921)a a chave para
da libido infantil. Concebeu as fases pré-genitais certos conflitos. Robert Stollera psicanalista norte-
das expressões da libido: a orala a anala a fálica e a americanoa segrega para melhor descrever os
de latência. Na infância o instinto sexual é aspectos da psicossexualidade quea em sua visão
friccionadoa isto éa composto por parcelasa vindo particulara são "independentes" do biológico:
das zonas erógenas; só mais tarde ocorrerá a gênero. Para tantoa ele parte do que Sigmund
junção dos vários componentes. Cada parcela chama de "caracteres sexuais mentais” (atitude
busca obter prazer por seus próprios caminhos. masculina e feminina) até certo pontoa
O objeto do instinto sexual na infância é o independentes das características físicas sexuais
próprio corpo da criançaa ou sejaa é autoerotismo. que o sujeito apresenta. Para Lacana o acolhedor
A priori a sexualidade na infância apresenta-se do recém-nascido na função fálica transformará a
em forma de questionamentosa ocorre quea criança em ser falantea homem ou mulhera ou
quando a criança percebe que seu corpo é sejaa é aprendido. Nadaa no psiquismoa permite
diferente do outro presume que houve o que o sujeito se situe como macho ou fêmea. Em
processo de castração já que o órgão genital da Freuda existe uma seriação quanto ao gênero;
menina é interno e o do menino externo. uma diferença que se inicia numa etapa anterior
A psicanálise tem como um de seus à castraçãoa sem considerar a anatomiaa cuja base
fundamentos o Complexo de Édipoa que poderia é a distinção pai/mãe.
abrir caminhos para uma premissa sobre a O apresamento dos gêneros faz-se sem
criança transgênero; contudoa outras visões são levar em conta o órgão sexual. A presença ou a
pontuadas. O desejo de ter o amor do progenitor ausência do órgão sexual masculino ou feminino
do sexo oposto gera a disputa pela atenção e não constituem garantia que o sujeito se coloque
que não for bem trabalhada trará sérios do lado dos homens ou do das mulheres: o
problemas na vida adulta. Freud teorizou sobre a transexualismo é o maior exemplo disso. A
fase fálica no desenvolvimento das meninas e a distinção de gênero é dada à criança desde cedoa
inveja que as mesmas sentiam do pênisa quando se diz que menina pode chorara pois é
encontrando então importantes opositores frágil e menino nãoa pois tem sempre que ser
como: Melanie Klaina que acreditava que a forte. O que leva uma criança a crer ser menino
meninaa desde pequenaa possuía o ou menina é a consolidação que começa após o
conhecimento da vaginaa embora fosse nascimento – com a ecografaa a partir da
reprimido em função do clitóris. A posição descoberta do sexo/gênero do bebê e mais
falocêntricaa defendida ferrenhamente por Freuda tardea pela inscrição no cartório civil
foi contestada até por feministas. Freud salientou tradicionalmente. Eis então a razão pela quala em
as injustiças sociais e das classes oprimidasa Freuda não há uma " teoria de gênero".
mesmo evitando falar da opressão social que Ao aceitarmos que as castrações iniciadas

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logo nos primeiros anos de nossa existênciaa probabilidades para sera viver e agir como uma
quando aprendemos que algumas coisas garotaa afnal está sentindo-se uma. Os pais de
cabem apenas aos meninosa outras às Ludovica são compreensivos no começoa por
meninas desviaremos a rota de nossos acharem uma brincadeira de criançaa logo
desejos inconscientesa afetando a
percebe que os ensejos de seu flho são
sexualidade e mais que isso; dando ênfase
negativo ao sexo/gênero e determinado privilegiados pelo gênero feminino. A gota
ainda mais as diferenças sexuais e isso pode d’água acontece quando Ludovic se apaixona
ser feito de forma involuntária. (ARÁNa 2009) pelo flho do patrão de seu paia logo o
enquadramento do cinema traz na cenaa com
Disfarçados com seus discursos pseudo extrema delicadeza a descoberta natural das
moralistasa a sociedade tenta a todo custo crianças pelo corpo do outro avistado e
impor seus mandamentosa pregando a desconhecidoa contudo diante desse momento
procriação e o casamento entre héteros. são interrompidos pelos paisa quando que se
Longe dissoa na visão psicanalíticaa está a
acariciandoa nada demais visto por uma ótica da
libido que se desenvolve em proporções
diferentes em ambos os sexos; e projetamos fase apregoada pelo desenvolvimento humanoa
no outroa que é o nosso objeto de desejoa mas para os pais dos garotos aquilo é uma
sempre.(MARQUESa 2010) humilhação e uma alavanca para a
homossexualidade latente nos flhos.
5 A sexualidade infantil versus gênero no Em consequência o pai de Ludovic
flme minha vida em cor de rosa perde o empregoa o garoto cria para si uma
É sabido que o cinema é uma ferramenta imagem de culpadoa pois a situação envolve para
que dispensa comentários e preceitosa devido isso. O flme desvela inúmeros pontos
seu caráter ambíguo de ser democrático e por importantes e interessantes para o debate acerca
muitas vezes complexo em divagaçõesa do tema proposto pelo artigoa no plano das
norteando o expectador a reflexões que não se objetivas o diretor representa a escola da criança
concluem nunca. Porém quando defnido títulos e a família através de cenasa traz então a falta de
a se pautara surpreende em utilidade meditativaa compreensões pelos educadoresa que diante dos
desdenha de parâmetros que venham a fatosa se engessam em relação ao que acontece
incomodar os mais ortodoxos e avista um com o garotoa não conduz explicações que
horizonte de possibilidades. possam acolher Ludovic diante das outras
Partindo da premissa sexualidadea há criançasa dos seus paisa perdurando a diferença
vários flmes que abordam a temáticaa contudo entre menino e menina como algo taxadoa
escolheu-se um único para exemplifcara trata-se explícito e incontestea portanto alguns resultados
do flme Minha vida em cor de rosaa flme constam como propícios a uma turva concepção
sensível e instigantea poético em nuancesa sexual de Ludovic.
dramático em temasa o flme perdura na mente É válido salientar que apesar das
de quem o assiste por anosa pode ser tratado adversidades na recepçãoa Ludovic era
como cinema ou como vidaa é transcendente em encontrado afetivamente pela a avóa pelos
diversas opiniõesa tendo como maioria pautada irmãos e pelos pais no fndar do flmea
sobre discussão de gênero na infância. denotando o aspecto de entendimento das
Sobre tal flme recaem elucubrações escolhasa ressaltando aqui que nessa idade a
difusasa porém impossíveis de trazer ao artigo criança busca o prazera o jogoa o brincara mesmo
pela extensão que tomaria. Destarte o flme com autenticidade nas vontades de se tornar
apresenta a história de Ludovic um menino de uma meninaa Ludovic não nutre máculas a
sete anos que possui uma família respeito do assunto tampouco sabe o que é ser
tradicionalmente nucleara dois irmãosa pais um meninoa por simplesmente desde que se
estabilizados no relacionamento que adoram percebe como criança é no gênero feminino que
cultivar e apreciar a opinião dos vizinhosa se faz desejoso. Como ainda é uma criança
representados aqui como primeira camada do Ludovic não entende o que se passa até a
chamado desejo social. Ligado a issoa a cena que metade do flmea quando percebe os fatos
introduz o flme remete a Ludovic que aparece preconceituosos da sociedade rodeando a sua
rutilante em seu vestido rosaa cabelos bem família.
escovados e brincos puerisa mas lisonjeiros. Os autores Anacleto e Maia (2009)
Logoa quem assiste ao flme encanta-se trazem em seu artigo um excerto esclarecedor
pelo menino que se veste de meninaa sente-se “As simbolizações que Ludovic faz dos
como uma e luta até exaurir-se de comportamentos que observa remetem para a

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satisfação de seus desejosa de modo quea importância do assunto e do cinema como arte
somente depois que é levado à psicóloga e ouve tenaz e didáticaa porém o que se reverbera é a
seus pais dizendo que é um menino é que toma premente necessidade de diálogo sobre esse
consciência de que faz parte desse gênero”. contexto atual que ainda assusta muitas pessoasa
Referente citação orienta o expectadora trazemos nesse tópico à luz do cinema e sua
contribuindo com afrmações contemporâneas capacidade em transmitir as emoções do
de nosso viver que são deletériasa expondo a humano para quem os assiste humanizando-os.
falta de diálogo dos paisa do colégio e muito mais Assim precisamos afrmar que com uma vida em
da sociedade que cerca por todos os ladosa cor de rosaa pintamos um belo quadro.
diante das situações como a de Ludovica a
discriminaçãoa exclusão consolidam intolerânciaa 6 Considerações Finais
e explicita nossa educação ocidentala como Em virtude dos fatos mencionados e os
cultura falocêntrica e machista. Outro tema que o estudos a respeito da transexualidade infantil
flme apresenta para os que assistem é a ótica de apuradaa frma-se a concepção de que é
que o garoto pelo fato primevo até a idade de necessário muito mais diálogo para produçõesa
sete anos considerar-se uma meninaa pois a decorrência de errôneos conceitosa de
tangenciando a classifcação (De forma alguma materiais consideravelmente ininteligíveis e
uma decepção existencial e conceitual) de longínquos da realidade subjetiva de nossa
Transexuala convergindo ao caráter de única e sociedade é nítida nos materiais de pesquisa.
notoriamente não se perceber e se ajustar ao Conclui-se ainda quea os primeiros
sexo que nasceu e convive. Sustentando-se na parâmetros para mobilização consciente é tentar
referência (2003a p.6 apud RINALDI; conhecer o vasto campo da transexualidade
BITTENCOURTa ano) contribuem “a problemática infantila diminuindo o preconceito presente em
transexual se dirige para a relação que o sujeito nosso meio que por si só é absurdo.
estabelece com o seu sexo anatômico e com sua Considerando no maisa as diversas perspectivas
identidade de gêneroa já que a integração de sua para abordar o presente tema. Logoa quanto
sexualidade se dá pelo reconhecimento maior for à difusão do assuntoa mais extensa será
simbólico que este faz”. a capacidade para compreender o ser humano
Seria um crime de redução temática como um ser holístico e não como ser
querer expor de forma científcaa psicológica e patológicoa oportunizando a convivência
existencial nesse artigo de poucas páginas a inteligente e ética entre os seres humanos.

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