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Volume
REVISTA LETRONICA DO PROCURADOR FEDERAL
‘ORGÃO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PROCURADORES FEDERAIS –RS´

Apresentação

O aperfeiçoamento jurídico-cultural é uma das metas da


Associação Nacional dos Procuradores Federais/RS. Nessa
senda, nasceu a idéia de se fazer uma revista, para não só
cumprir a meta desejada, como também divulgar a pesquisa
jurídica dos Procuradores. Por isso, entregamos à comunidade
jurídica o volume inaugural da Revista, que nesse primeiro
momento, será eletrônica, com um conteúdo que segue as
veredas do direito público, pois instrumento de trabalho
primordial dos articuladores dessa edição.

Felipe Camilo Dall Alba


Se você quiser publicar seu artigo na Revista Eletrônica do
Procurador Federal, envie seu material via E-mail para a
ANPAF/RS
Anpaf-rs@anpaf-rs.org.br

Revisão
Felipe Camilo Dall’Alba

Diagramação / Arte Final


Cláudia Reina

Redação / ANPAF RS

Endereço
Rua: Dos Andradas, 1137 Sala 2104 – Centro -
Porto Alegre – RS CEP.: 90020-007
Telefone: (51) 3211-6511, 3026-6067

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www.anpaf-rs.org.br
Índice analítico

Documento Página

Alan pereira de Araujo


Breves Anotações sobre o Consórcio Simplificado de produtores Rurais. ......................1

Arodi de Lima Gomes


Sistema Nacional de defesa do Consumidor ......................................................................10

Eugenio Battesini
”A racionalidade formal na aplicação do Direito: Limites e Possibilidades” ................19

Guilherme Beaux Nassif Azem


Da Assistência no Código de Processo Civil Brasileiro.....................................................28

Gustavo Pedrassani
Incostitucionalidade da coisa Julgada administrativa......................................................38

Rui Magalhães Piscitelli


Dos Honorários Advocatícios em Prol da Fazenda Pública Federal...............................40

ATENÇÃO
Os textos reproduzidos nesta publicação,
embora copiados dos arquivos originais,
podem conter imprecisões decorrentes da
nova formatação em PDF.
R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

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Artigo

BREVES ANOTAÇÕES SOBRE O CONSÓRCIO


SIMPLIFICADO DE PRODUTORES RURAIS

Alan Pereira de Araújo


Procurador Federal do INSS -MG

1. Objetivo - 2. A Lei nº. 8.212/91 e o Decreto


nº. 3.048/99 - 3. Noção sobre consórcio - 4.
Conceito de consórcio simplificado de
produtores rurais - 5. Capacidade tributária do
consórcio simplificado de produtores rurais - 6.
Características - 7. Algumas observações de
ordem prática - 8. Conclusão

1 – Objetivo
Nosso objetivo com o presente trabalho é o de oferecer alguns subsídios
aos colegas que se depararem com a questão. Sem qualquer pretensão de esgotar o
tema, como veremos, far-se-á um apanhado da legislação que versa sobre a matéria,
fazendo-a acompanhar de alguns comentários.

2 – A Lei nº. 8.212/91 e o Decreto nº. 3.048/99


Na Lei nº. 8.212/91 e no Decreto nº. 3.048/99 encontramos, por assim dizer, as
disposições normativas básicas sobre o tema.

Assim, o art. 25-A da Lei nº 8.212/91, introduzido pela Lei nº. 10.256, de 9 de julho de 2001,
verbis:

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“Art. 25A. Equipara-se ao empregador rural pessoa física o consórcio simplificado de produtores rurais, formado pela

união de produtores rurais pessoas físicas, que outorgar a um deles poderes para contratar, gerir e demitir trabalhadores

para prestação de serviços, exclusivamente, aos seus integrantes, mediante documento registrado em cartório de títulos e

documentos.

o
§ 1 O documento de que trata o caput deverá conter a identificação de
cada produtor, seu endereço pessoal e o de sua propriedade rural, bem
como o respectivo registro no Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária - INCRA ou informações relativas a parceria, arrendamento ou
equivalente e a matrícula no Instituto Nacional do Seguro Social – INSS de
cada um dos produtores rurais.
o
§ 2 O consórcio deverá ser matriculado no INSS em nome do empregador
a quem hajam sido outorgados os poderes, na forma do regulamento.
§ 3o Os produtores rurais integrantes do consórcio de que trata o caput
serão responsáveis solidários em relação às obrigações previdenciárias.
o
§ 4 (VETADO)"

Vale lembrar que as contribuições de que tratam os incisos I e II do art. 22


da Lei nº. 8.212/91 são substituídas, em relação à remuneração paga, devida ou
creditada ao trabalhador rural contratado pelo consórcio simplificado de produtores
rurais de que trata o art. 25A, pela contribuição dos respectivos produtores rurais,
calculada na forma do art. 25 da Lei nº. 8.212/91 . Assim dispôs o art. 22B da Lei nº.
8.212/91, também introduzido pela Lei nº. 10.256, de 9 de julho de 2001.

O art. 25 da Lei nº. 8.212/91, que trata da contribuição previdenciária a


cargo do empregador rural pessoa física, via de conseqüência e por força da
apontada equiparação, também devida pelo consórcio simplificado de produtores
rurais, é (inc. I) de 2,0% da receita bruta proveniente da comercialização da sua
produção + (inc. II) 0,1% desta mesma receita bruta para o financiamento das
prestações por acidente de trabalho.

Por outro lado, o art. 200-A do Decreto nº. 3.048/99, acrescentado pelo
Decreto nº. 4.032, de 26 de novembro de 2001 se limitou a repetir as disposições
legais. Nada mais natural, haja vista que a função do decreto é a de explicitar a lei,
densificá-la sem, entretanto, ultrapassar seus limites.

Já o art. 200-B do Decreto nº. 3.048/99, acrescentado pelo Decreto nº.


4.032, de 26 de novembro de 2001, trouxe o seguinte esclarecimento:

“Art. 200-B. As contribuições de que tratam o inciso I do art. 201 e o art.


202, bem como a devida ao Serviço Nacional Rural, são substituídas, em

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relação à remuneração paga, devida ou creditada ao trabalhador rural


contratado pelo consórcio simplificado de produtores rurais de que trata o
art. 200-A, pela contribuição dos respectivos produtores rurais.”

Em outras palavras, as contribuições devidas pelo consórcio, relativas à parte patronal serão
substituídas pelas contribuições incidentes sobre a comercialização da produção dos respectivos
integrantes.

É de se ver, porém, que a substituição de contribuições acima referida, ocorre em relação ao


consórcio simplificado de produtores rurais, apenas quanto à remuneração de segurados
empregado e trabalhador avulso contratados para prestarem serviços, exclusivamente, aos seus
integrantes.

A contratação pelo consórcio simplificado de produtores rurais, de outras categorias de


segurados não especificados acima, na lei, acarretará o recolhimento das contribuições incidentes sobre
a folha de pagamentos.

Desta feita, a parcela a cargo dos segurados seria variável de acordo com a faixa salarial de
cada qual, ao passo que o montante devido a terceiros seria de 2,7%, dos quais 2,5% são a título de
salário-educação (art. 15 da Lei nº. 9.424/96) e 0,2% para o INCRA (art. 1º, inc. I, item 2 c/c os arts. 3º e
4º do Decreto-lei nº. 1.146, de 31.12.70).

3 – Noção sobre consórcio

É curial que o consórcio não tem personalidade jurídica, constituindo-se em mera associação
de empresas ou pessoas a fim de somar conhecimento técnico, capital e trabalho mas nem por isso
deixa de ter “personalidade judiciária”.

Nesta ordem de idéias, a ciência processual, em face dos fenômenos contemporâneos que a
cercam, tem evoluído a fim de considerar como legitimados para estar em juízo e, portanto, com
capacidade de ser parte, entes sem personalidade jurídica, quer dizer, possuidores, apenas, de
personalidade judiciária.

Vejamos, a respeito, um julgado do Egrégio Superior Tribunal de Justiça:

“PROCESSUAL CIVIL. CAPACIDADE DE SER PARTE. ENTES SEM


PERSONALIDADE JURÍDICA. POSSIBILIDADE (CPC, ART. 12, INC. VII)
2. DIREITO CIVIL. CONTRATO. NATUREZA JURÍDICA.
ARRENDAMENTO E LOCAÇÃO. INTERPRETAÇÃO DE CONTRATO E
REEXAME DE PROVA. IMPOSSIBILIDADE.
1. Os entes sem personalidade jurídica de direito material podem ser parte
no processo para demandar e serem demandados, a teor do CPC, art. 12,
inc. VII, pois tal dispositivo trata do instituto da personalidade judiciária.
2. Para se descobrir a natureza jurídica do contrato, é necessário
interpretar cláusulas do contrato e reexaminar provas, o que não é cabível
nesta Corte, Súmulas 05 e 07.
3. Recurso não conhecido.”
(REsp nº. 147997 – processo nº. 199700645029 – RJ – 5ª Turma – Rel. Min. Edson Vidigal – Data
da decisão: 15.04.1999)

O consórcio de empresas, apesar de não possuir personalidade jurídica, é


dotado de capacidade tributária, ficando obrigado a promover sua inscrição no
cadastro de contribuintes e ao cumprimento de todas as obrigações inerentes aos
mesmos. Assim entendeu a Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais na
consulta de nº. 055/2002, datada de 15 de junho daquele ano.

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Vale, aqui, transcrever alguns trechos da referida consulta, posto que


substanciosos para o nosso estudo. Senão, vejamos:

“Traduz-se, assim, o consórcio como uma entidade despersonificada


formada da reunião de empresas para o alcance de um objetivo específico,
por tempo determinado.
É inovação que se criou no mundo empresarial como forma de se
acompanhar os novos rumos e desafios da atual realidade econômica e se
possibilitar, principalmente, a execução de obras e serviços vultosos e
complexos dos quais seria, individualmente, extremamente difícil dar cabo.
Adequando-se ao fenômeno cada vez mais presente no mundo
empresarial, a legislação comercial atual traz normas gerais sobre a
matéria nos artigos 278 e 279 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976
(Lei das Sociedades Anônimas), dispondo o primeiro dispositivo, que
abaixo transcrevemos, sobre o conceito do "instituto", enquanto o segundo
traz os elementos essenciais ao contrato necessário à formação do
consórcio.
"Art. 278. As companhias e quaisquer outras sociedades, sob o mesmo
controle ou não, podem constituir consórcio para executar determinado
empreendimento, observado o disposto neste capítulo.
§ 1º. O consórcio não tem personalidade jurídica e as consorciadas
somente se obrigam nas condições previstas no respectivo contrato,
respondendo cada uma por suas obrigações, sem presunção de
solidariedade.
§ 2º. A falência de uma consorciada não se estende às demais,
subsistindo o consórcio com as outras contratantes; os créditos que
porventura tiver a falida serão apurados com as outras contratantes e
pagos na forma prevista no contrato de consórcio." (grifamos)
Como se pode notar, a inexistência de personalidade jurídica por parte do
consórcio lhe é traço essencial.
Entretanto, conforme já lecionava Paulo Barros de Carvalho (Revista dos
Tribunais. 5, páginas 225 a 231), antes mesmo do regramento jurídico
acima: "...A capacidade para participar dos fatos tributários ou de
concretizá-los, na consonância das previsões normativas, não é privilégio
das pessoas físicas ou jurídicas, espécies de entidades personalizadas
pelo direito privado ...a capacidade de realizar o fato jurídico-tributário ou
dele participar, prescinde de qualquer atinência às construções do Direito
Civil...O grupo de sociedades (empregado em sentido lato, o que inclui o
consórcio)...está perfeitamente legitimado a realizar fatos jurídicos-
tributários, posto que consubstancia inequívoca unidade econômica ou
profissional, como preceitua o inciso III, do art. 126, do CTN."
Tratava então o prestigiado autor da possibilidade de ente
despersonificado ter capacidade de realizar fatos jurídico-tributários
considerados geradores de obrigações tributárias.
A já citada Lei 6.404/76, em especial a norma inserta no § 1º de seu art.
278, veio confirmar o entendimento do Professor Paulo Barros, na medida
em que ao normatizar a existência de consórcios, a eles não concedeu
personalidade jurídica, ainda que tenha reconhecido às consorciadas a
possibilidade de através de tais consórcios, realizar fatos econômicos-
jurídicos de conseqüências, inclusive, tributárias.
(...)
Na verdade, ao se reunirem em consórcio, mantêm as consorciadas não
só sua própria personalidade jurídica, como também, regra geral,
continuam a responder, isoladamente, pelos atos que lhes couber praticar,
salvo quando houver previsão contratual em contrário, conforme dispõe o
já citado art. 278, da Lei nº 6.404/76.
(...)

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Aqui, como já dito, vale a regra geral, cada consorciada responde pelos
próprios atos, ainda que praticados em favor do consórcio, havendo
solidariedade entre elas tão-somente quando o contrato do qual se
originou o consórcio expressamente a determine.
Em razão do exposto, entendemos que apesar de não possuir
personalidade jurídica, o consórcio de empresas é dotado de capacidade
tributária, isto é, pode realizar fatos jurídicos-tributários considerados
geradores de obrigações tributárias, inclusive acessórias, ele e não a
Consulente ou sua sócia no empreendimento, é quem deverá cumprir
todas as obrigações fiscal-tributárias relativas à atividade desempenhada
pelo consórcio, tais como o pagamento do imposto, a inscrição no
Cadastro de Contribuintes, a escrituração e emissão de documentos
fiscais, dentre outras.”

Alguns aspectos importantes podem ser observados a partir da citação


supra: (1) o consórcio resulta de um contrato celebrado por aqueles que lhe dão
corpo, (2) constituindo uma unidade econômica ou profissional (art. 126, III do
CTN) e, (3) mesmo não tendo personalidade jurídica, (4) é dotado de
personalidade judiciária e (5) capacidade tributária, ou seja, pode praticar atos
jurídico-tributários .

Nos referimos, por óbvio, ao instituto do consórcio, próprio do direito


privado, que se consubstancia em reunião de interessados que conservam suas
próprias personalidades e, nesta condição, terão que responder, individualmente,
por seus atos - e não o conjunto deles reunido em consórcio - embora tenhamos
visto que o consórcio detém personalidade judiciária e capacidade tributária.

Já o consórcio simplificado de produtores rurais, afeito ao direito


previdenciário – que é direito público – guarda, naturalmente, suas peculiaridades.

Observe-se, por exemplo, que o documento comprobatório da existência do


consórcio simplificado de produtores rurais, e que faz as vezes de um ato
constitutivo, embora não o seja, deve ser levado a registro no cartório de títulos e
documentos.

4 - Conceito de consórcio simplificado de produtores rurais


O art. 5º da Instrução Normativa nº. 68 do INSS, de 10 de maio de 2002, nos oferta um
conceito sintético e legalista do consórcio simplificado de produtores rurais.

Contudo, vamos ousar um conceito próprio.

Temos, pois, que o consórcio simplificado de produtores rurais é, em si, um ente


despersonalizado, formado pela união de produtores rurais pessoas físicas por meio de um documento
levado a registro no órgão competente e equiparado, para fins previdenciários, ao empregador rural
pessoa física. Tem por finalidade permitir a contratação de trabalhadores para prestação de serviços,
exclusivamente aos seus integrantes, sendo outorgados a um dos produtores poderes (mandato) para
contratar e gerir a mão-de-obra a ser utilizada em suas propriedades.

Acredita-se que o objetivo desta união está em fazer com que os produtores
rurais regularizarem a contratação da mão-de-obra e racionalizem custos no
cumprimento da legislação trabalhista e previdenciária. Buscou-se, ao que parece,
uma otimização das relações estabelecidas entre o Ministério do Trabalho e os

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trabalhadores rurais, facilitando também o trato das relações de natureza


previdenciária fixadas entre o conjunto dos produtores rurais reunidos em consórcio
e autarquia previdenciária. Isto porque o consórcio simplificado de produtores rurais
se consubstancia numa técnica que viabiliza a atividade produtiva de todos os
consorciados, mercê da regularização das carteiras de trabalho dos obreiros.

Por outro lado, acreditamos que a representação em juízo e fora dele ficaria a cargo daquele
produtor rural em cujo nome foi registrado o consórcio, a despeito da solidariedade – de natureza legal -
existente entre todos os seus membros no que tange às obrigações de natureza previdenciária.

5 – Capacidade tributária do consórcio simplificado de


produtores rurais
Vimos que o consórcio tem capacidade tributária. Como era de se esperar, também o
consórcio simplificado de produtores rurais goza de capacidade tributária. Assim entendeu, em recente
decisão publicada no dia 19.12.02, a 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, através do voto do Min.
LUIZ FUX no julgamento do Recurso Especial nº. 413865 - PR:

“PROCESSO CIVIL E TRIBUTÁRIO - ANTECIPAÇÃO DA TUTELA -


PROGRAMA DE RECUPERAÇÃO FISCAL - REFIS - CONSÓRCIO DE
EMPREGADORES RURAIS - ADESÃO - POSSIBILIDADE - CARÁTER
SOCIAL DÚPLICE DO PROGRAMA - IMPOSSIBILIDADE DE LACUNAS
NO ORDENAMENTO JURÍDICO - INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO
DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA - CTN, ART. 108.
1. Consórcio de Produtores Rurais criado e reconhecido pelo Ministério do
Trabalho como instrumento de otimização das relações com os
trabalhadores rurais. Técnica que viabiliza a atividade para todos os
consorciados, mercê da regularização das carteiras de trabalho dos
trabalhadores. Obtenção de CEI junto ao INSS como grupo de produtores
rurais pessoas físicas. A Responsabilidade do Consórcio para com as
contribuições previdenciárias, implica em reconhecer-lhe aptidão para
beneficiar-se do programa REFIS, muito embora não seja pessoa jurídica.
Na era da "desconsideração da pessoa jurídica" e do reconhecimento da
legitimatio ad causam às entidades representativas de interesses
difusos, representaria excesso de formalismo negar ao Consórcio
reconhecido pelo Ministério do Trabalho a assemelhação às pessoas
jurídicas para fins de admissão no REFIS, maxime porque, essa opção
encerra promessa de cumprimento das obrigações tributárias.
2. Acórdão recorrido que, confirmando decisão singular, concedeu a
antecipação da tutela e determinou a inclusão junto ao denominado
"Programa de Recuperação Fiscal - REFIS" de consórcio de
empregadores rurais, equiparando-o in casu a pessoa jurídica.
3. Possibilidade de interpretação extensiva da legislação que dispõe sobre
o ingresso junto ao REFIS, permitindo aos consórcios equiparação às
pessoas jurídicas.
4. Natureza dúplice das disposições que disciplinam o REFIS que
fomentam o adimplemento das obrigações tributárias e permitem ao
Estado o recebimento, mesmo que parcelado, de seus créditos fiscais.
5. Recurso Especial conhecido e improvido.”

O acórdão em questão é de extrema importância, pois admite que um ente despersonalizado


ingresse no REFIS e goze de seus benefícios, graças a uma interpretação atual e equilibrada da
legislação tributária.

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Do voto do festejado Ministro, é possível, ainda, extrair substanciosos trechos:

“O aresto recorrido destacou o seguinte, in verbis:


‘Andou bem o ilustre Juiz Federal Luiz Carlos Canalli, pois, com bom
senso e sem apego ao raciocínio puramente lógico-formal, emitiu
provimento justo. Consignou, com percunciência, que "O Instituto Nacional
do Seguro Social aceita a existência jurídica do Consórcio para efeito de
atribuir-lhe legitimação passiva como responsável pelo recolhimento das
contribuições sociais, apesar da ausência de personalidade jurídica nos
termos das regras de direito privado." Diante disso, entendeu "razoável a
equiparação do consórcio requerente à pessoa jurídica, para efeito de
propiciar a sua inclusão no Programa de Recuperação Fiscal - REFIS.’ (fl.
159)
(...)
In casu, observa-se que o Ilustre Juiz singular, dada a situação concreta
apresentada pelo ora recorrido, concedeu os efeitos antecipados da tutela
pretendida e determinou a inclusão de um consórcio de empregadores
rurais junto ao denominado "Programa de Recuperação Fiscal - REFIS".
(...)
É que o Consórcio de Produtores Rurais criado e reconhecido pelo
Ministério do Trabalho como instrumento de otimização das relações com
os trabalhadores rurais, em última análise, traduz-se em técnica que
viabiliza a atividade para todos os consorciados, mercê da regularização
das carteiras de trabalho.
Nesse sentido, a responsabilidade do consórcio para com as contribuições
previdenciárias, implica em reconhecer-lhe aptidão para beneficiar-se do
programa REFIS, muito embora não seja pessoa jurídica.
Com efeito, a hipótese resume-se à integração da legislação que dispõe
sobre o ingresso junto ao REFIS, dada a lacuna acerca da possibilidade
dos consórcios serem equiparados à pessoa jurídica para este fim.
(...)
In casu, o v. Acórdão a quo, referendando posição assumida pela r.
sentença singular, empregou para solucionar a lide tanto a analogia como
a equidade. Nesse sentido, percebe-se que o uso da analogia não criou
tributo não previsto pela legislação, pelo contrário, fomentou o
adimplemento das obrigações tributárias em atraso; e não resultou na
dispensa do tributo devido, uma vez que, novamente, permitiu que o
consórcio procedesse ao pagamento parcelado de seu débito fiscal.
Deveras, não se pode olvidar da intenção do referido "Programa de
Recuperação Fiscal", cuja finalidade é, sem dúvidas, dúplice, porquanto
proporciona ao contribuinte a possibilidade de saldar os seus débitos,
mesmo que de forma parcelada, e, ao Estado, de receber seus créditos.
Andou bem, portanto, o aresto recorrido ao equiparar, in casu, consórcio
de empregadores rurais à pessoa jurídica para fins de adesão ao REFIS,
uma vez que nada mais fez do que preencher uma lacuna que o legislador
não preencheu, notadamente em face da dinâmica das situações
concretas.
Na era da "desconsideração da pessoa jurídica" e do reconhecimento da
legitimatio ad causam às entidades representativas de interesses
difusos, representaria excesso de formalismo negar ao Consórcio
reconhecido pelo Ministério do Trabalho a assemelhação às pessoas
jurídicas para fins de ingresso junto ao REFIS, maxime porque essa opção
encerra promessa de cumprimento da obrigação tributária.
Destarte, merece registro, como bem o fez o Egrégio Tribunal a quo, que o
Recorrente não faz distinção no momento de cobrar seus débitos
previdenciários, tributando o consórcio como se pessoa jurídica fosse.
Por esses fundamentos, conheço do Recurso e nego-lhe provimento.”

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Tendo em vista que o uso da analogia, no caso sob exame, não “criou”
tributo ao largo da lei nem implicou na dispensa de tributo devido mas, ao contrário,
fomentou o adimplemento das obrigações tributárias em atraso, ainda que de forma
parcelada, é de se reconhecer como válida a inclusão de um consórcio simplificado
de produtores rurais no REFIS.

Assim, não estranhem os colegas caso se deparem com a questão.

6 – Características
Isto posto, poderíamos vislumbrar no consórcio simplificado de produtores
rurais as seguintes características:

• a formalização do consórcio será feita através de documento registrado


em cartório de títulos e documentos;

• o documento conterá a identificação de cada produtor, seu endereço


pessoal e o de sua propriedade bem como o respectivo registro no INCRA
ou informações relativas à parceria, arredamento e a matrícula CEI de cada
um dos produtores rurais;

• cada integrante do consórcio terá uma matrícula específica no


Cadastro Específico do INSS - CEI;

• o consórcio será matriculado no Cadastro Específico do INSS - CEI em


nome do empregador a quem hajam sido outorgados os poderes para
contratar e gerir a mão de obra;

• os produtores rurais integrantes do consórcio serão solidariamente


responsáveis em relação às obrigações previdenciárias;

7 – Algumas observações de ordem prática

Cada produtor terá duas matrículas CEI, uma individual – por meio da
qual serão recolhidas as contribuições de seus empregados permanentes e sobre a
comercialização de sua produção rural, outra coletiva na qual serão recolhidas as
contribuições dos empregados comuns;

O consórcio deverá preencher e recolher a Guia de Recolhimento do FGTS


e Informações à Previdência Social – GFIP por meio magnético, através do SEFIP,
em relação aos empregados comuns ao condomínio;

Cada produtor deverá preencher e recolher a GFIP por meio magnético,


através do SEFIP, em relação aos seus empregados permanentes, informando o
valor da comercialização da produção rural, relacionando os contribuintes
individuais que lhe prestem serviços.

Maiores detalhes, inclusive no que diz respeito ao preenchimento da guia


de arrecadação (GPS), podem ser obtidos no site do SENAR, qual seja:
http://www.senar.org.br/contribuir/arrecada/manual/Rural_05.htm

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8 – Conclusão

Esperamos que o Judiciário vá, aos poucos, delineando o alcance do ente


despersonalizado objeto de nosso estudo, de modo a incentivar o adimplemento de
obrigações trabalhistas e previdenciárias, ao mesmo tempo em que se enriquece o
direito com o aperfeiçoamento do novel instituto do consórcio simplificado de
produtores rurais.

Obviamente, a participação dos advogados, inclusive dos advogados


públicos, nesta tarefa é fundamental. Contudo, caberá ao julgador equacionar
devidamente a questão, para que a criatividade e a funcionalidade observadas no
referido consórcio não se convertam em abuso e evasão fiscal.

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Artigo

SISTEMA NACIONAL DE DEFESA DO CONSUMIDOR

ARODI DE LIMA GOMES


PROCURADOR FEDERAL/PFE-ANATEL/RS

- Organização, Estrutura e Instrumentalização:

Por ocasião do nascimento do Código de Defesa do


Consumidor – Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990
-, surgiu para a sociedade brasileira as normas de proteção e defesa
do consumidor, visando basicamente o fortalecimento da ordem
pública e o interesse social. Para tanto, o Diploma Legal criou a
Política Nacional de Relação de Consumo e previu a implantação da
Comissão Nacional Permanente de Defesa do Consumidor, unindo os
organismos federais, estaduais, do Distrito Federal e municipais ,
“com objetivo de atender as necessidades dos consumidores, o respeito a sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a
melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transferência e harmonia das
relações de consumo, ...” – Art. 4º -.

Essa disposição legal trouxe parâmetros que devem nortear


todo e qualquer ato dos poderes da República – executivo, legislativo e judiciário
-, no tratamento adequado das relações de consumo, cumprindo um
mandamento contido no Art. 5º, inciso XXXII; 170, inciso V da Carta
Magna; e 48 das Disposições Transitórias.

O artigo 4º do Código de Proteção e Defesa do Consumidor determinou os princípios para que seja

implantada na sociedade brasileira a Política Nacional das Relações de Consumo, assim especificados: o reconhecimento

de sua vulnerabilidade( inciso I ); a efetiva ação governamental para proteger o consumidor( inc. II ); a harmonia dos

interesses dos integrantes das relações de consumo( inc. III ); a educação e a informação( inc. IV ); o incentivo a meios

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de controle de qualidade e segurança e a meios alternativos de solução de conflitos( inc. V ); a coibição e a repressão a

abusos, concorrência desleal, propriedade industrial, marcas, etc.( inc. VI ); melhoria do serviço público( inc. VII ); o

estudo das modificações do mercado de consumo( inc. VIII ); e um último aderido no Art. 5º , que é o acesso livre à

justiça.

Está previsto também no CPDC, um instrumento protetivo da relação de consumo que é inédito no

ordenamento jurídico pátrio, denominado de Sistema Nacional de Defesa do Consumidor - Título IV,

especificamente nos Artigos 105 e 106 -, que serve para integrar órgãos dos poderes públicos – União, Estados,

Distrito Federal, e municípios -, e entidades privadas dispostas a agirem na defesa do consumidor, observando

as respectivas esferas de competência constitucional, sob a orientação e coordenação política da Secretaria de Direito

Econômico do Ministério da Justiça, através do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor – DPDC - .

Essa é mais uma medida prefigurada na Lei com escopo de garantir o equilíbrio na relação de consumo, dando ao

consumidor e ao fornecedor balizadores equânimes para melhor alcançar a satisfação de suas reais expectativas no

oferecimento e aquisição de produto ou contratação de serviço.

– Organograma Administrativo:

SECRETARIA DE DIREITO
ECONÔMICO/MINISTÉRIO DA JUSTIÇA

DPDE DPDC

-Atribuições:

SECRETARIA DE DIREITO ECONÔMICO :


Criada para exercer as competências estabelecidas nas Leis nºs
8.884/94; 8.078/90; 9.008/95; 9.021/95, e na Medida Provisória nº
1.549-28, de 14.03.97., e especificamente:
I. formular, promover, supervisionar e coordenar a política de
proteção da ordem econômica, nas áreas de concorrência e
defesa do consumidor;

11
R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

II. examinar os atos de concentração e apurar, prevenir e reprimir


os abusos do poder econômico;
III. zelar pelos direitos e interesses dos consumidores,
promovendo as medidas necessárias para assegurá-los;
IV. aplicar a legislação de sua competência para assegurar a livre
concorrência, a livre iniciativa e a livre distribuição de bens e
serviços;
V. desenvolver e coordenar as práticas resultantes da aplicação da
Lei nº 5.768/71, do art. 14 da Lei nº 7.291/84 e dos Decretos-
leis nos. 6.259/44, e 204/67;
VI. fixar diretrizes de ação às entidades e órgãos vinculados ao Sistema Nacional
de Defesa do Consumidor;

VII. orientar, coordenar e articular-se com os órgãos da


administração pública, quanto à efetivação de medidas de
proteção e defesa da ordem econômica;
VIII. realizar ou promover convênios com órgãos e entidades
públicas ou instituições privadas, que exercerem a execução de
planos, programas e fiscalização do cumprimento das normas
e medidas federais;
IX. promover, desenvolver, coordenar e supervisionar atividades
de divulgação e de formação de consciência coletiva do
consumidor;
X. expedir atos administrativos de sua competência, visando ao fiel cumprimento da legislação;

XI. acompanhar, permanentemente, as atividades e práticas


comerciais de pessoas físicas ou jurídicas que detiverem
posição dominante no mercado relevante de bens e serviços,
para prevenir infrações de ordem econômica.

- Organização:
A organização administrativa da SDE/MJ, tem :

– Departamento de Proteção e Defesa Econômica

-- Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor

- Competências:
Dentro da organização acima descrita, cada Unidade tem sua
função e competência delimitada pelo Regimento Interno aprovado
na Portaria Ministerial nº 144, de 03 de abril de 1997, ratificada pelo

12
R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

Decreto nº 2181, de 21.03.97. No entanto, como integrante do SNDC


estão diretamente ligados a relação de consumo e ordem econômica
nacional dentro da ótica coletiva e difusa. Os órgãos denominados
DPDE e DPDC estão administrativamente interligados
administrativamente, muito embora o Decreto somente tenha
elencado o segundo como integrante e coordenador da política do
Sistema – Art. 2º -, devido às peculiaridades da matéria que o mesmo
trata .

Todavia faz-se necessário tomarmos conhecimento das


competências dos mesmos, para melhor compreensão da engrenagem
administrativa estatal disponível na proteção e defesa da ordem
econômica e do consumidor.
São:

a. DEPARTAMENTO DE PROTEÇÃO E DEFESA ECONÔMICA:


Cabe-lhe:
I. planejar, coordenar e supervisionar a adoção de medidas que
possam coibir atos e práticas contrárias à livre iniciativa e
concorrência;
II. planejar, coordenar, supervisionar, organizar e promover a
formação de consciência dos mecanismos de mercado;
III. propor o constante aperfeiçoamento e a adequação da
legislação pertinente a abuso do poder econômico e da defesa
da concorrência;
IV. planejar, coordenar e supervisionar a adoção de medidas, com
objetivo de evitar a elevação dos preços, no caso de condições
monopolísticas ou especulações abusivas;
V. planejar, coordenar, supervisionar e orientar a instrução de
averiguações preliminares dos processos administrativos e das
consultas, bem como dos feitos relativos a atos de concentração
econômica;
VI. propor a instauração de averiguação preliminar e processos
administrativos relativos ao abuso do poder econômico e a
defesa da concorrência;
VII. representar ao Ministério Público para fins de adoção de
medidas no âmbito de suas competências;
VIII. solicitar o concurso de órgãos e entidades de notória
especialização técnico-científica, para consecução de seus
objetivos;

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R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

b. DEPARTAMENTO DE PROTEÇÃO E DEFESA DO


CONSUMIDOR
O Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, da
Secretaria de Direito Econômico (MJ), ou órgão federal que venha
substituí-lo, é organismo de coordenação da política do Sistema
Nacional de Defesa do Consumidor, cabendo-lhe:

I. planejar, coordenar, elaborar, propor e executar a política


nacional de proteção e defesa do consumidor;
II. receber, analisar, avaliar e encaminhar consultas, denúncias ou
sugestões apresentadas por consumidores, entidades
representativas ou pessoas jurídicas de direito público ou
privado;
III. prestar aos consumidores orientação permanente sobre seus
direitos e garantias;
IV. informar, conscientizar e motivar o consumidor, por
intermédio dos diferentes meios de comunicação;
V. instaurar procedimento administrativos e se for o caso decidir
pelo arquivamento;
VI. solicitar a polícia judiciária a instauração de inquérito para
apuração de delito contra os consumidores, nos termos da
legislação vigente;
VII. representar ao Ministério Público para fins de adoção de
medidas processuais no âmbito de sua competência;
VIII. levar ao conhecimento dos órgãos competentes as infrações de
ordem administrativa contrárias aos interesses difusos,
coletivos ou individuais dos consumidores;
IX. solicitar o concurso de órgãos e entidades da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, bem como
auxiliar a fiscalização de preços, abastecimento, quantidade e
segurança de bens e serviço;
X. solicitar o concurso de órgãos e entidades de notória
especialização técnico-científica , para a consecução de seus
objetivos;
XI. fiscalizar e aplicar as sanções administrativas previstas no
Código de Defesa do Consumidor;
XII. funcionar, no processo administrativo, como instância recursal
nos casos determinados pela norma regulamentadora da Lei nº
8.078/90;
XIII. propor o aperfeiçoamento da legislação sobre o direito do
consumidor;

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R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

XIV. propor e manter articulação dos órgãos da Administração


Federal com os órgãos afins dos Estados, do Distrito Federal e
dos Municípios, e com as instituições privadas ligadas à
proteção e defesa do consumidor;
XV. elaborar e promover programas educativos e informativos
para os consumidores e fornecedores, quanto aos seus direitos
e deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo;
XVI. incentivar a criação e desenvolvimento de sociedades civis e
associações constituídas para a defesa do consumidor;
XVII. promover estudos constantes das modificações do mercado de
consumo;
XVIII. conceder autorizações de pedidos para distribuição de
prêmios, a título de propaganda, mediante vale-brinde, sorteio,
concurso ou congêneres;
XIX. promover e desenvolver ações de fiscalização da distribuição
de prêmios, a título de propaganda, mediante vale-brinde,
sorteio, concurso ou congêneres;
XX. propor a celebração de convênios de cooperação técnica
nacional e internacional, visando aperfeiçoar os procedimentos
no âmbito do Departamento e a melhoria da implementação
da política nacional de relações de consumo;
XXI. participar de comissões e comitês nacionais e internacionais,
que tratem da defesa e proteção do consumidor, bem como
daqueles que visem à celebração de acordos.

c. Demais Órgãos Públicos e Entidades Civis:


O Código de Defesa do Consumidor - CDC prevê a participação de
diversos órgãos públicos e entidades privadas, bem como o incremento de vários
institutos como instrumentos para a realização da Política de Consumo. Quis o
Código que o esforço fosse nacional, integrando os mais diversos segmentos que
têm contribuído para a evolução da defesa do consumidor no Brasil. O Sistema
Nacional de Defesa do Consumidor - SNDC é a conjugação de esforços do estado,
nas diversas unidades da Federação e da sociedade civil, para a implementação
efetiva dos direitos do consumidor e para o respeito da pessoa humana na relação
de consumo.

Conforme o CDC, integram o SNDC a Secretaria de Direito Econômico –


SDE, do Ministério da Justiça, por meio do seu Departamento de Proteção e
Defesa do Consumidor - DPDC, e os demais órgãos federais, estaduais, do Distrito
Federal, municipais e entidades civis de defesa do consumidor. O DPDC é o
organismo de coordenação da política do SNDC e deve atuar concretamente
naqueles casos de relevância nacional para a classe consumidora, além de

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R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

desenvolver ações voltadas ao aperfeiçoamento do sistema, à educação para o


consumo e para melhor informação e orientação dos consumidores.

Integrando o Sistema estão os PROCONs que são órgãos estaduais e


municipais de defesa do consumidor, criados com competências, no âmbito de sua
jurisdição, para exercitar as atividades contidas no CPDC e no Decreto nº 2.181/97.
Verifica-se, dessa forma, que as competências são concorrentes entre União,
Estados e Municípios no que se refere aos direitos dos consumidores, não havendo,
portanto, relação hierárquica entre o DPDC e PROCONs ou entre os PROCONs.
Tais órgãos atuam junto a comunidade, tendo papel fundamental no SNDC. Outro
importante aspecto na atuação dos PROCONs diz respeito ao papel de elaborador,
coordenador e executor da política local de proteção e defesa do consumidor,
contribuindo para diminuir a dificuldades na solução dos problemas na relação de
consumo.

Primeiramente foram instalados 27 PROCONs, sendo um para cada


Unidade da Federação e em muitos municípios atualmente já estão em pleno
funcionamento tais órgãos. Conforme mencionado, os PROCONs têm no âmbito
de sua jurisdição, competência para planejar, coordenar e executar a política estadual
de proteção e defesa do consumidor. Mas para o melhor funcionamento do SNDC
faz-se necessário que exista um estreito relacionamento entre esses órgãos para troca
de informações e implementação de ações, visando aclarar para o consumidor e
fornecedor quais são os seus direitos e deveres na relação de consumo.

Outros atores merecem destaque pela sua importante atuação na defesa dos
direitos dos consumidores são os Ministérios Públicos e as entidades organizadas da
sociedade civil.

Cabe aos órgãos públicos e entidades civis de proteção e defesa


do consumidor que integram o SNDC, exercerem fiscalização das
relações de consumo, no âmbito de sua competência, utilizando,
inclusive o seu poder de polícia administrativa – art. 4º, 7º e 8º do Decreto
2.181/97 -, para a solução dos mesmos.

d. Conselho Federal Gestor do Fundo dos Direitos Difusos


( CFDD ):
O CFDD é um conselho formado por órgãos governamentais,
Ministério Público e entidades civis responsável por gerir um fundo
formado por multas aplicadas pela Justiça e pelo Conselho
Administrativo de Defesa Econômica (CADE) decorrentes da violação
a direitos difusos. Direitos Difusos são todos aqueles que não podem
ser atribuídos a um grupo específico de pessoas, pois dizem respeito
à sociedade. Quando uma pessoa danifica o meio ambiente, por

16
R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

exemplo, este dano traz reflexos para toda a população, pois afeta
direta ou indiretamente a todos.
O mesmo acontece com a violação à ordem econômica, aos
direitos do consumidor, ao patrimônio histórico-cultural e a bens de
valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico. O dinheiro
do Fundo é usado para apoiar projetos educativos e de reparação de
danos causados a direitos difusos. Os projetos podem ser propostos
por órgãos governamentais e entidades da sociedade civil.

- Acionamento dos Órgãos:

Como sabido em Direito Administrativo e Constitucional, o


órgão público deve agir de duas formas para averiguação de uma
irregularidade dentro de sua jurisdição e competência: de ofício ou
estímulo de terceiro. No tema epigrafado não foge a regra. Porém, os
artigos 5º e 34 do Decreto nº 2181/97 foram mais além, quando
determinaram que todas as reclamações fundamentadas contra
fornecedores feitas nos ou pelos órgãos integrantes do Sistema, serão
cadastradas e divulgadas anualmente pela Imprensa Oficial. Caso
haja a necessidade de maior aprofundamento na obtenção das
informações divulgadas, poderá tanto o consumidor quanto o
fornecedor consultar os arquivos do órgão fonte da notícia,
gratuitamente, cabendo a retificação ou inclusão de informações
complementares, no prazo máximo de 10 dias.

- Conclusão:
O Código de Defesa do Consumidor (CDC) foi publicado no
dia 11 de setembro de 1990, depois de discussões que envolveram o
setor produtivo, órgãos públicos e o movimento de defesa do
consumidor, além da classe política. Tal lei consumerista trouxe
grandes avanços, principalmente em relação ao patrimônio moral e
ético que se construiu ao longo destes 15 anos de vigência, mostrando
para toda a sociedade que é importante informar, ter transparência e,
sobretudo, preservar a boa fé e a confiança dos consumidores. Cabe a
todo envolvido na relação de consumo realizar atitude positiva no
dia-a-dia, para solidificar aquilo que o legislador pátrio regrou
competentemente, não esquecendo que “a vereda dos justos é como a luz
da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.” Provérbios de
Salomão 4:18

17
R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

Bibliografia:

- Constituição Federal do Brasil;


- Código de Defesa do Consumidor;
- Comentários ao Código do Consumidor – Tupinambá Miguel
Castro do Nascimento – Ed. AIDE;
- Código do Consumidor Comentado – Arruda Alvim – Tereza
Alvim – Ed. RT;
- Código do Consumidor Comentado – Formulários e
Jurisprudência – Paulo Brasil Dill Soares – Ed. Destaque;
- Direitos do Consumidor – Carlos Alberto Bittar – Ed. Forense
Universitária.

- /// -

18
3
Artigo

“A racionalidade formal na aplicação do direito:


limites e possibilidades”

Eugênio Battesini

Procurador Federal-INSS/RS

INTRODUÇÃO

A sociedade ocidental moderna, segundo Weber, caracteriza-se

pelo dissenso em relação aos valores, politeísmo de valores, tendo seu ideal de racionalidade fundado

na atuação do Estado moderno, no sistema econômico capitalista e na justiça formal.

Em tal contexto, o direito é concebido como

um sistema normativo fechado e completo, autônomo em relação à

moral (valores) e à política (poder), cujo propósito é a promoção do ideal

de segurança, objetividade e previsibilidade nas relações sociais.


R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

Conforme destaca Barzotto, como resposta teórica a uma

necessidade prática de segurança, coloca-se o positivismo jurídico, que procura fornecer um conceito

autônomo de direito, independente da moral e da política, assumindo como categoria central a noção de

validade, qualidade jurídica determinada pelo próprio direito positivo.

Característica do positivismo jurídico é o que Weber identifica

como racionalidade formal. Sob tal perspectiva, o direito é um instrumento, um meio para a realização

de certos fins considerados dignos de promoção pela sociedade. Contudo, uma vez que o direito tenha

obtido uma forma regular, torna-se um sistema normativo fechado e completo que independe de outros

sistemas normativos da sociedade. Nesse contexto, os significados do direito são produzidos por meio

de raciocínio lógico, sendo que questionamentos substantivos constituem distorção da realidade

jurídica, violando a natureza sistemática e a racionalidade formal.

Fortemente enraizadas no universo jurídico contemporâneo, as

idéias positivistas tem demonstrado eficácia na promoção do valor social segurança jurídica,

apresentando, contudo, sensíveis limitações na promoção de outros valores sociais relevantes

vinculados à moral e à política.

Identificam-se no projeto positivista ao menos duas grandes

carências: a explicação da normatividade do direito, ou seja, a justificativa de porque as pessoas devem

agir de acordo com o direito, e; a definição de como agir na zona de penumbra do direito, ou seja, de

como resolver racionalmente os casos difíceis, os casos nos quais a textura aberta das normas permite

mais de uma interpretação aceitável.

No que tange à explicação da normatividade do direito

expressiva contribuição é feita por Raz na obra “Razão prática e normas”. Quanto à atuação na zona de

penumbra do direito relevante é a contribuição de Aarnio na obra “O racional como razoável”. Nos

tópicos seguintes será efetivada a análise das principais idéias de tais autores, vislumbrando-se as

possibilidades e limitações do que pode ser considerado desmembramento da proposta racionalista

formal na aplicação do direito, originalmente suscitada por Weber.

1. A TEORIA DA NORMATIVIDADE DO DIREITO EM JOSEPH RAZ

20
R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

Na obra “Razão prática e normas”, em essência, Raz se propõe

a desenvolver um estudo sobre teoria das normas, ou seja, propõe-se a elaborar uma teoria que

explique satisfatoriamente a normatividade do direito, porque o direito deve ser observado nas relações

sociais. A tese central do livro é de que as normas se relacionam com razões para a ação; as normas,

enquanto razões excludentes cuja validade se vincula a autoridade de quem as faz e ao fato de que as

pessoas reconhecem a legitimidade de quem as faz, constituem-se propriamente em razões para a

ação. O objetivo declarado do autor é mostrar que o direito é uma atividade racional, podendo ser

explicado de maneira lógica.

A construção doutrinária desenvolvida por Raz tem início com a

análise das características gerais das razões para a ação (estrutura da razão) e as características

específicas de uma determinada classe de razão para a ação, as normas, razão excludente que

simplifica o processo de “razoneamento” prático, ou seja, atribui racionalidade ao processo de tomada

de decisão. Na seqüência é efetivada a análise dos diferentes tipos de norma; normas de mandato,

normas permissivas e normas que conferem poderes. Na etapa seguinte, o autor analisa os diferentes

sistemas normativos, institucionalizados e não-institucionalizados (autônomos, entrelaçados e de validez

conjunta), concluindo o livro com a análise do sistema jurídico, considerado o mais importante sistema

institucionalizado do mundo moderno.

Os sistemas jurídicos, segundo Raz, são sistemas

institucionalizados singularizados pela combinação de três características: compreensividade,

pretendem ter autoridade para regular todo tipo de conduta; pretensão de supremacia, pretendem ter

autoridade para regular o estabelecimento e a aplicação de outros sistemas institucionalizados em uma

comunidade, e; abertura a outros sistemas normativos, de forma a estimular e apoiar outras formas de

organização social. De acordo com o autor, a importância do sistema jurídico em uma sociedade reside

no fato de que ele proporciona o marco geral para a condução de todos os aspectos da vida social,

constituindo-se no guardião supremo da sociedade.

Ao centrar o foco na explicação da normatividade do direito Raz

descarta tanto os enfoques jusnaturalistas, orientados por considerações de natureza moral, como

alguns enfoques positivistas, orientados pelo uso da força e das sanções, recorrendo a um terceiro

enfoque analítico calcado na crença das pessoas de que as normas são razões válidas para a ação. A

chave para a explicação da normatividade do direito, segundo o autor, reside no fato de que um grupo

21
R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

relevante de pessoas, os juízes, acredita na validade das normas jurídicas e as segue, sendo

desnecessário cogitar dos fundamentos que embasam tal crença, dada a adoção do pressuposto de

que o direito é válido, constituindo-se em uma razão para a ação.

A idéia básica desenvolvida por Raz em 1975, livro “Razão

prática e normas”, e em grande parte mantida em 2004, artigo “Incorporation by law”, no sentido de que

é possível e necessário desenvolver uma lógica unificada de todos os conceitos que pertencem a uma

teoria normativa, e que a parte fundamental dessa lógica não é valorativa, mas sim prática, razões para

a ação, representa um avanço no pensamento positivista, permitindo explicar razoavelmente bem a

dinâmica de funcionamento dos sistemas jurídicos na sociedade contemporânea.

Externa-se o entendimento de que relevante é a concepção de

Raz do direito como instituição política de grande importância no meio social. Ousada no meio jurídico é

a conexão entre normatividade do direito e sua atuação como guia, como marco geral que pauta a

conduta das pessoas, indicando a forma menos arriscada de atuar e simplificando o processo de

tomada de decisões, “balanceamento de razões”. As noções de regra como melhor informação

disponível para a tomada de decisão, como recurso para economizar trabalho, reduzir custos inerentes

ao processo de tomada de decisão, propostas por Raz, guardam forte analogia com as idéias de dois

reconhecidos autores da corrente neoinstitucionalista em economia, Douglas North (prêmio Nobel em

1993) e Ronald Coase (prêmio Nobel em 1991). Autores, esses, que enfatizam a correlação entre

custos de transação e estrutura/mudança institucional e desenvolvimento econômico.

Por outro lado, a proposta de Raz no sentido de que o direito

pode ser explicado de maneira lógica, calcada fortemente em uma racionalidade formal apresenta

significativa limitação em face de não consideração de aspectos substantivos. No artigo “Justification of

authority and the insulation of formal reasons”, Michelon, após estabelecer a diferença entre razões para

a ação e razões para decidir, suscita o fato de que o modelo de justificação proposto por Raz é

tautológico por não conduzir a conclusões sobre se as razões jurídicas são excludentes. O professor da

UFRGS advoga a necessidade de uma concepção substantiva das razões formais, destacando ser

necessária a interação entre considerações de ordem substantiva e formal, a construção de uma nova

formulação na qual as razões formais sejam derivadas das razões substantivas.

22
R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

Avançando na linha de aproximação forma e conteúdo,

conciliação de segurança jurídica e justiça, encontra-se o modelo proposto por Aarnio, a seguir

analisado.

2. A TEORIA DA INTERPRETAÇÃO JURÍDICA DE AULIS AARNIO

No livro “O racional como razoável”, em essência, Aarnio se

propõe a estabelecer princípios regulativos da interpretação jurídica, ou seja, propõe-se a elaborar uma

teoria da interpretação do direito que concilie o racional, noção de segurança jurídica, com o razoável,

noção de justiça. A tese central do livro é de que é possível estabelecer critérios de interpretação que

permitam clarear a zona de penumbra do direito, resolver racionalmente os casos difíceis sem ser

necessário recorrer ao arbítrio. O objetivo declarado do autor é desenvolver uma teoria de interpretação

do direito que propicie a justificação material, teleológica e valorativa das decisões judiciais.

O ponto de partida da construção doutrinária desenvolvida por

Aarnio é a distinção entre casos fáceis (rotineiros) e difíceis (discricionários), sendo enfatizada a

responsabilidade dos juízes na resolução dos casos difíceis, eis que devem fundamentar racionalmente

suas decisões em decorrência de um imperativo social, qual seja, o de que os cidadãos devem poder

planejar suas atividades em bases racionais, como requisito de coesão, preservação da sociedade. Na

seqüência o autor se dedica à análise da ontologia do direito, centrando o foco no conceito de validade

das normas jurídicas; validade sistêmica ou eficácia formal, validade fática ou eficácia real e validade

axiológica ou valorativa. Na etapa seguinte é efetivada a análise da metodologia de interpretação na

dogmática jurídica, com ênfase no processo hermeneutico, no estudo das fontes do direito e na

estrutura de justificação. Encerando o livro, o jurista finlandês desenvolve o conceito de aceitabilidade

racional e das condições de aceitabilidade racional dos enunciados interpretativos.

O modelo de interpretação proposto por Aarnio está baseado

em dois pontos centrais; a exigência de racionalidade e a exigência de aceitabilidade dos conteúdos.

Necessário, como tal, que se suponha dois tipos de teoria; uma teoria procedimental voltada à

explicação das condições de racionalidade e uma teoria substancial voltada à explicação das condições

de aceitabilidade.

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R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

Além do que, para que se leve a termo o processo de

interpretação, faz-se necessário recorrer a regras de “razoneamento”, as quais constituem o núcleo

metodológico da justificação jurídica. Adotando-se as fontes do direito, a evidencia empírica e as razões

morais como substrato, o discurso de aceitabilidade racional é implementado considerando princípios e

regras básicas de consistência, eficiência, sinceridade, generalização, apoio e relativas à carga

probatória.

Ocorre, contudo, que dado o relativismo axiológico que pauta a

sociedade moderna (segundo Aarnio a relatividade dos valores é tão grande como a pluralidade de

jogos de linguagem e formas de vida), vislumbra-se a existência de uma rede de interpretações válidas

ao mesmo tempo, ou seja, pode haver mais de uma interpretação igualmente aceitável para os casos

difíceis. Em tal contexto, segundo o autor, as valorações podem ser justificadas até certo limite, porém

não é possível determinar a justificação última.

Não obstante tal fato, é possível resolver atuar na zona de

penumbra do direito sem ser necessário recorrer ao arbítrio. É possível chegar a resposta mais

adequada, a melhor interpretação (o que não equivale à adoção da teoria da única resposta correta, que

é rejeitada pelo jurista finlandês), que seria resultado de um consenso racional obtido através de um

processo argumentativo quando a audiência ideal e particular de um grupo segue os princípios do

discurso racional. É possível encontrar um consenso que corresponda à posição de valores da maioria

da comunidade jurídica.

Em suma, na ótica de Aarnio o objetivo da dogmática jurídica é

a maximização da aceitação racional, o que é obtido através de um processo argumentativo que atribui

caráter de complementaridade aos conceitos de legalidade (dimensão formal) e razoabilidade

(dimensão material).

Manifesta-se o entendimento de que a noção de aceitabilidade

racional como guia para quem decide, permitindo encontrar a interpretação mais adequada, consoante

proposto por Aarnio, reflete fortemente a prática jurídica contemporânea (por exemplo justifica que os

juizes do Supremo Tribunal Federal ao julgarem desenvolvam mais de uma tese igualmente aceitável e

optem por uma delas).

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R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

O esforço na construção de um referencial teórico que concilie

segurança jurídica com justiça no direito, adotando a noção de aceitabilidade como conceito-chave,

representa uma evolução em relação ao pensamento positivista clássico que privilegia a racionalidade

formal das decisões judiciais.

A formulação de Aarnio no sentido de que é possível chegar a

resposta mais adequada nos casos difíceis com base na força racional da justificação, pela observância

pelos membros da comunidade jurídica de critérios de aceitação racional, evidencia-se, contudo, por

demais ampla e até certo ponto vaga. A ausência de uma diretriz objetiva de interpretação no âmbito da

zona de penumbra do direito propicia uma certa dose de arbitrariedade na eleição entre duas

alternativas igualmente válidas do ponto de vista valorativo, o que constitui sensível limitação do modelo

proposto.

Perspectivas de aproximação da forma ao conteúdo no direito

como a proposta por Aarnio tem permeado o atual debate no âmbito da filosofia do direito que, conforme

destaca Teixeira, parece se voltar definitivamente para o problema. Tal nos remete a conclusão do

presente estudo, onde será vislumbrado o emergente horizonte pós-positivista.

CONCLUSÃO

A concepção de direito racional e formal que gera previsibilidade

ao ordenar a conduta mediante normas gerais e abstratas por órgãos preestabelecidos pelo próprio

direito, tal como concebido por Weber, tem se mostrado insuficiente para explicar a realidade

contemporânea.

O positivismo jurídico, conforme destaca Michelon, está em

crise, tem se mostrado deficitário no contexto social pós-industrial. Crise que, segundo Aarnio,

manifesta-se em aspectos como; o crescente incrementalismo do poder executivo, o distanciamento dos

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R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

cidadãos comuns da gestão pública e do processo legislativo, o crescimento do corporativismo, e a

tomada de decisões públicas com base não em critérios de bem comum mas em cálculos de poder.

Crise que envolve a legitimidade das instituições e do direito mas não se restringe a eles. Constitui-se,

de acordo com Peces-Barba, em uma crise de modernidade, com profundo questionamento de idéias e

valores que pautam a cultura moderna.

Configurado tal contexto, consoante destaca Barzotto, o desafio

do pensamento jurídico atual consiste em incorporar a reflexão positivista sobre a validade, articulando-

a com as categorias de justiça e eficácia, para obter um conceito de direito positivo que dê conta das

dimensões políticas e morais do seu objeto.

A necessidade de conciliação entre segurança e justiça, de


reaproximação do direito e da moral constituem a tônica do pensamento pós-
positivista. Tal proposta se justifica plenamente pois, conforme reiteradamente
destacou Miguel Reale, a normatividade jurídica não acontece em um vácuo, mas só
pode existir conectada com fatos e valores.

BIBLIOGRAFIA

AARNIO, Aulis. Lo racional como razonable. Madrid: Centro de Estudos Constitucionales, 1991.

BARZOTTO, Luis Fernando. O positivismo jurídico contemporâneo. São Leopoldo: Editora Unisinos,

2004.

COASE, Ronald. The firm, the market and the law. Chicago: University of Chicago Press, 1988.

MICHELON, Cláudio Fortunatto. The justification of authority and the insulation of formal reasons.

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Mestrando: Eugênio Battesini


Área de concentração: Direitos Especiais
Disciplina: DIRP 14 – Teoria Geral do Direito
Professores: Cláudio Fortunatto Michelon Júnior e Luis Fernando Barzotto
Ano/semestre cursado: 2004/01
Área de conhecimento: 6010101-6 – Teoria Geral do Direito
Linha de pesquisa: Pensamento Jurídico e Pós-modernidade
Data da entrega: 22/07/2004

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R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

4
Artigo

DA ASSISTÊNCIA NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL BRASILEIRO

Guilherme Beux Nassif Azem


Procurador Federal-AGU/RS
Mestrando em Direito pela PUCRS

1. Noções preliminares sobre a intervenção de terceiros

Atingida a autonomia do direito processual em relação ao


direito material, podemos afirmar que o conceito de parte liga-se,
atualmente, aos sujeitos que integram a relação jurídica processual
(conceito processual). Segundo o clássico entendimento de Chiovenda,
parte é “aquele que demanda em seu próprio nome a atuação de uma
1
vontade da lei, e aquele em face de quem essa atuação é demandada.”
Athos Gusmão Carneiro colhe excelente lição de José Francisco Lopes de
Miranda Leão, segundo o qual “não se trata de perquirir a relação de
direito material, nem mesmo de analisar a legitimidade ou ilegitimidade
do interessado em razão desta; o autor é parte, neste sentido, desde o
momento em que ajuíza sua demanda, e parte será até o final, mesmo
que a sentença venha a declará-lo ‘parte ilegítima’. Ilegítima, mas parte.”
2

1 Instituições de direito processual civil, v. 2. São Paulo: Saraiva, n. 214.

2 Intervenção de Terceiros. 11ª edição. São Paulo: Saraiva, p. 5.

28
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A relação jurídica processual é composta por autor, réu e juiz. Para Ovídio
A. Baptista da Silva, “há intervenção de terceiros no processo, quando alguém
dele participa sem ser parte na causa, com o fim de auxiliar ou excluir os
litigantes, para defender algum direito ou interesse próprio que possam ser
prejudicados pela sentença.” 3

Podemos definir a intervenção de terceiros, sinteticamente, como o


ingresso de alguém, juridicamente interessado, como parte ou como
coadjuvante de parte em um processo pendente entre outros. Assim, busca o
interveniente proteger direito ou interesse próprio, ainda que de forma
indireta.

São cinco as formas de intervenção de terceiros: assistência, oposição,


chamamento ao processo, denunciação da lide e nomeação à autoria.

Nos termos do art. 280, I, do Código de Processo Civil, no rito sumário


somente tem cabimento a assistência, o recurso de terceiro prejudicado e a
intervenção fundada em contrato de seguro. Nos Juizados Especiais Cíveis (rito
sumaríssimo), é incabível qualquer modalidade de intervenção de terceiros,
inclusive assistência (Lei n° 9099/95, art. 10).4

A intervenção de um terceiro pode-se dar a partir de duas formas:


provocada ou espontânea. São provocados o chamamento ao processo, a

3 Curso de Processo Civil, v. I. 3ª edição. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, p. 227.

4 O mesmo se pode dizer em relação aos Juizados Especiais Federais.

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denunciação da lide e a nomeação à autoria, pois a iniciativa cabe a alguém


que não o próprio interveniente. São espontâneas a assistência e a oposição,
na medida em que o pedido de ingresso é formulado pelo sujeito que no
processo deseja intervir.

A intervenção poderá criar uma nova relação jurídica ou simplesmente


limitar-se à inserção do terceiro em um dos pólos da relação processual. Há
uma nova relação jurídica nos casos de oposição e denunciação da lide; há
apenas a inserção em um dos pólos na assistência, no chamamento ao
processo e na nomeação à autoria.

2. Assistência

Em que pese não ter sido enquadrada no capítulo atinente à intervenção


de terceiros, é, conforme maciça doutrina, uma de suas modalidades.

A assistência é uma forma espontânea de intervenção, pois o terceiro vem


ao processo por sua vontade própria. Somente o interesse jurídico autoriza a
assistência, que não cabe por mero interesse econômico ou emocional.
Deverá, pois, ter o terceiro interesse jurídico no sentido de que uma das
partes saia vitoriosa da demanda. Neste sentido, o art. 50 do CPC: pendendo
uma causa entre duas ou mais pessoas, o terceiro, que tiver interesse jurídico
em que a sentença seja favorável a uma delas, poderá intervir no processo

30
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para assisti-la.5 São exemplos de interesse jurídico: o sublocatário na ação de


despejo; o adquirente de objeto litigioso; o servidor público em ação
indenizatória movida contra a Fazenda Pública em razão de ato por ele
cometido.

A assistência tem cabimento em todos os tipos de processo


(conhecimento, cautelar e execução, o último se fundado em título
extrajudicial ou nos processos incidentais – embargos e liquidação). É
permitida a qualquer tempo e em todos os graus de jurisdição. O assistente
recebe o processo no estado em que este se encontra (CPC, art. 50, parágrafo
único). Nos procedimentos de jurisdição voluntária, por não haver lide, não
cabe assistência.

O procedimento de impugnação ao pedido de assistência encontra-se no


art. 51 do CPC. Destacamos que não haverá a suspensão do processo,
autuando-se em apenso o incidente (inciso I). A decisão se sujeita a agravo.

Existem, no direito pátrio, duas modalidades de assistência, quais sejam, a


assistência simples e a assistência litisconsorcial. Vejamos, a respeito, a lição
de Daniel Ustárroz:

No direito brasileiro, costuma-se dividir a assistência


sob duas modalidades: simples e litisconsorcial.
Distinguem-se essas em razão do interesse a ser
protegido pelo assistente. Na primeira, é apenas
mediato, pois a relação de direito material discutida
no processo entre assistido e seu adversário não faz
parte da esfera jurídica do assistente, o qual
somente será atingido reflexamente por seus efeitos.
Na segunda espécie, a litisconsorcial, o liame é mais

5
Processo Civil. 1. Assistência. A assistência supõe interesse jurídico (CPC, art. 50), não
podendo ser admitido como assistente quem revele unicamente interesse moral e econômico.
2. Sessão de julgamento. Publicação tardia da pauta. O julgamento de ação ou recurso que
autorize sustentação oral não pode ser realizado sem inclusão em pauta e prévia intimação
das partes. (STJ, 2ª Turma, RESP 23358/RO, Rel. Min. Ari Pargendler, DJ 22.04.1996 p.
12557).

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intenso, tendo em vista que o próprio assistente


entretém relação de direito material com o
adversário do assistido, sendo em tese legitimado
para demandá-lo ou responder demanda desse.6

Vejamos, sinteticamente, as principais características de cada


modalidade. Cabe salientar, desde já, que as mais notórias divergências
doutrinárias centram-se em dois pontos básicos: a condição de parte e os
efeitos da coisa julgada sobre o assistente.

2.1. Assistência simples ou adesiva

Ocorre quando o assistente defende interesse jurídico indireto. Possui ele


relação com o assistido, e não com a outra parte. Celso Agrícola Barbi afirma
que “não está em litígio um direito do terceiro, mas ele tem interesse na
vitória do assistido, porque ela pode beneficiar outro direito do assistente.
7
Esse outro direito do assistente, porém, não está em discussão na causa.”
Conforme o art. 52 do CPC, o assistente atuará como auxiliar da parte
principal, exercerá os mesmos poderes e sujeitar-se-á aos mesmos ônus
processuais que o assistido.

Nelson Nery Junior e Rosa Maria Andrade Nery ensinam que o assistente
simples “tem os mesmo poderes e os mesmo ônus da parte assistida. Todavia,

6 A Intervenção de Terceiros no Processo Civil Brasileiro. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2004, p. 36.

7 Comentários ao Código de Processo Civil, vol. I. 9ª edição. Rio de Janeiro: Forense, p. 172.

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sua atividade processual é subordinada à do assistido, não podendo praticar


atos contrários à vontade do assistido. Havendo omissão do assistido, pode o
assistente simples supri-la, desde que não aja em desconformidade com a
vontade do assistido. Por exemplo, pode recorrer, se o assistido não o fez;
mas não pode recorrer se o assistido renunciou ao poder de recorrer ou se
desistiu de recurso por ele interposto (Nery, Recursos, 255). Pode o assistente
simples: a) argüir qualquer matéria de ordem pública, a cujo respeito a lei
impõe ao juiz o conhecimento de ofício (v.g., CPC 267 § 3° e 301, § 4°); b)
contestar a ação; c) alegar prescrição e decadência do direito do autor, ainda
que não o tenha feito o réu assistido; d) argüir o impedimento do juiz; e)
argüir a suspeição do juiz relativamente a ele assistente; f) argüir a
inconstitucionalidade de lei ou ato normativo; g) praticar atos de andamento
do processo; h) argüir a falsidade de documento (CPC 390); i) requerer e
produzir provas em benefício da parte assistida; j) requerer diligências; l)
participar ativamente da audiência de instrução e julgamento; m) interpor
recursos, desde que o assistido não tenha renunciado ao poder de recorrer ou
desistido de recurso já interposto; n) interpor recurso adesivo, pois o termo
‘parte’ do CPC 500, significa parte recorrida (Maurício, Assistência simples,
120; Arruda Alvim, CPCC, III, 60; Nery, Recursos, 256).” 8

Destarte, aplica-se à assistência adesiva o disposto no art. 53 do CPC. A


atividade “acessória” do assistente adesivo só ocorrerá se o réu não for revel.
Caso o seja, o interveniente atuará como seu gestor de negócios (CPC, art. 52,
parágrafo único). A gestão de negócios está prevista no Código Civil, a partir
de seu art. 861.

A doutrina majoritária assevera que o assistente simples não se transforma


em parte.9 Ademais, não será atingido pelos efeitos diretos da coisa julgada,

8 Código de Processo Civil Comentado. 3ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 335.

9Apenas para demonstrar a existência de divergência a respeito, lembramos que Athos Gusmão Carneiro
entende que o assistente simples torna-se sujeito do processo, mas não parte. Ponto de vista contrário é

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mas não poderá discutir a justiça da decisão em processo posterior – o que


Ovídio Baptista da Silva denomina efeito de intervenção -, com as ressalvas
feitas nos incisos do art. 55 do CPC.10 Segundo o eminente processualista
gaúcho, “isso corresponde a afirmar que a sentença proferida na causa de que
o assistente participou, embora não produza efeito de coisa julgada contra
ele, mesmo assim o alcança, tornando indiscutíveis os fatos e fundamentos
jurídicos com base nos quais o juiz tenha decidido a demanda contra o
assistido.” 11

2.2. Assistência litisconsorcial ou qualificada

Pelo art. 54 do CPC, considera-se litisconsorte da parte principal o


assistente, toda vez que a sentença houver de influir na relação jurídica entre
ele e o adversário do assistido.12 Ao contrário do que ocorre na assistência
simples, a relação, para que seja caracterizada a assistência litisconsorcial,
deve-se dar entre o assistente e o adversário do assistido. O assistente
poderia, hipoteticamente, ser parte na demanda (litisconsórcio facultativo
unitário), pois o interesse discutido em juízo também lhe pertence. Exemplos:
intervenção da mulher na demanda sempre que a execução possa recair sobre

sustentado por Cândido Dinamarco, para o qual o terceiro, ao intervir no processo, adquire a qualidade de
parte.

10 “Sobre a distinção entre coisa julgada e efeito da intervenção, Marinoni e Arenhart salientam que: o

efeito da intervenção não se confunde com a coisa julgada, sendo ao mesmo tempo mais restrito e mais
abrangente que ela. Abrangente, porquanto não se resume ao dispositivo da sentença, invadindo sua
motivação. Mais restrito, na medida em que o assistente conserva a possibilidade de afastá-los,
demonstrando que ‘pelo estado em que recebera o processo, ou pelas declarações e atos do assistido, fora
impedido de produzir provas suscetíveis de influir na sentença’ ou que ‘desconhecia a existência de
alegações ou de provas, de que o assistido, por dolo ou culpa, não se valeu.” (Ustárroz, ob. cit., p. 55). Para
Celso Agrícola Barbi (ob. cit., p. 183), o art. 55 do CPC somente se aplica à assistência simples, vez que
regula a eficácia da sentença entre o assistente e a parte assistida. Na forma litisconsorcial, não haveria
direito a ser discutido futuramente entre assistente e assistido.

11 Ob. cit., p. 234.

12 Trata-se de dispositivo legal duramente criticado por renomados doutrinadores, como Dinamarco e

Marinoni.

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os bens comuns do casal; ingresso de devedor solidário; herdeiro em ação


movida pelo espólio.

O assistente litisconsorcial, a exemplo do simples, não é parte13 (e nisso se


diferencia do litisconsorte, que é parte). Entretanto, atua como se fosse um
litisconsorte do assistido. Diante do fato de estar em discussão direito que
também é seu, poderá o assistente litisconsorcial agir no processo, sem se
subordinar ao assistido. Nelson Nery Junior e Rosa Maria Andrade Nery
salientam que “como a lide discutida em juízo também é do assistente
litisconsorcial, seus poderes são de verdadeiro litisconsorte, podendo agir com
total independência e autonomia relativamente à parte assistida. Sua
atividade não está subordinada à do assistido. Ainda que o assistido renuncie,
confesse, transija, reconheça o pedido, desista de recurso, pode o assistente
litisconsorcial discordar dessas atitudes e defender outros pontos de vista no
processo, agindo de forma contrária.”14

A propósito, colhemos a observação de Milton Flaks sobre a


condição jurídica do assistente litisconsorcial: “alguns autores, como
Barbosa Moreira, Hélio Tornaghi e Amaral Santos, entendem que, em
realidade, (o assistente litisconsorcial) é um litisconsorte superveniente,
equiparado não só sob o aspecto formal, mas também sob o aspecto
material, à parte que se pretende assistida; outros, a exemplo de Arruda
Alvim e Sérgio Ferraz, o consideram um terceiro genus, situado entre o
assistente simples e o litisconsorte, ao qual se equipara apenas para efeito
de atuação processual.”15

13 Nunca é demais referir que se trata de questão de alta indagação, divergindo nossa doutrina.

14 Ob. cit., p. 337.

15 Denunciação da lide. Rio de Janeiro: Forense, 1984, p. 202.

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Discute-se, na doutrina, se a coisa julgada atinge ou não o assistente


litisconsorcial. Para Barbosa Moreira, Nelson Nery Junior e Rosa Maria Andrade
Nery, haverá a incidência dos efeitos da sentença, tenha ou não ele ingressado
na demanda, devido à unitariedade do possível litisconsórcio (o que seria uma
exceção ao art. 472 do CPC). Ovídio Baptista da Silva, Ada Pellegrini Grinover
e Athos Gusmão Carneiro não compartilham da mesma opinião, entendendo
que a coisa julgada limita-se às partes.

3. Assistência anômala – Lei nº 9.469/97

Importante referir a regra especial prevista no art. 5º e seu parágrafo


único da Lei nº 9.469/97, cuja dicção é a seguinte:

Art. 5º A União poderá intervir nas causas em que


figurarem, como autoras ou rés, autarquias,
fundações públicas, sociedades de economia mista
e empresas públicas federais.
Parágrafo único. As pessoas jurídicas de direito
público poderão, nas causas cuja decisão possa
ter reflexos, ainda que indiretos, de natureza
econômica, intervir, independentemente da
demonstração de interesse jurídico, para
esclarecer questões de fato e de direito, podendo
juntar documentos e memoriais reputados úteis
ao exame da matéria e, se for o caso, recorrer,
hipótese em que, para fins de deslocamento de
competência, serão consideradas partes.

Percebe-se, pois, as nuances da intervenção da União e das pessoas de


direito público, quando realizadas com supedâneo na regra em comento. Não

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há, no caso, a exigência de demonstração de interesse jurídico, tal como


ocorre no modo clássico de assistência. A respeito da intervenção anômala,
anota Leonardo José Carneiro da Cunha que “a nova forma de intervenção de
terceiros não depende da presença de interesse jurídico, satisfazendo-se com
a simples potencialidade de a decisão gerar, eventualmente, efeitos reflexos,
mesmo que indiretos, de natureza econômica; a intervenção funda-se, em
verdade, num interesse econômico, e não jurídico.”16

4. Amicus curiae

A Lei nº 9.868/99, que regula o processo e o julgamento da ação direta de


inconstitucionalidade e da ação direta de constitucionalidade junto ao
Supremo Tribunal Federal, estabeleceu relevante inovação no nosso
ordenamento jurídico. Embora vede a intervenção de terceiros no seu art. 7º,
permitiu, no § 2º do referido dispositivo, que o relator, considerando a
relevância da matéria e a representatividade dos postulantes, admita a
manifestação de outros órgãos ou entidades nos autos da ação direta de
inconstitucionalidade.

Trata-se da positivação da figura do amicus curiae no


processo de controle concentrado de constitucionalidade. A participação
formal de entidades e de instituições nos processos de controle
concentrado pluraliza o debate constitucional, conferindo-lhe contorno
mais democrático.

16 A Fazenda Pública em Juízo, 2ª edição. São Paulo: Dialética, p. 125.

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R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

5
Artigo

INCONSTITUCIONALIDADE DA COISA
JULGADA ADMINISTRATIVA

GUSTAVO PEDRASSANI
Procurador Federal INSS- RS

É princípio implícito do Estado Democrático de Direito, o princípio da


legalidade administrativa, fruto da estrita subservência do Estado à lei (art. 1º da CF). Tal mandamento faz
parte da própria estrutura do Estado de Direito, razão pela qual dispensa norma expressa nesse sentido.

A despeito disso, o constituinte originário, no intuito de dar maior segurança


ao tema, bem como a fim de afastar qualquer dúvida razoável, trouxe para o seio constitucional o princípio da
legalidade administrativa, in verbis:

“A administração pública direita, indireta e fundacional, de quaisquer dos


poderes da união, dos estados, do distrito federal e dos municípios, obedecerá aos princípios da legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade” (art. 37 da CF, redação original).

Estatui o referido texto constitucional que a Administração tem o dever de


agir secundum legis, isto é, na mais estreita subordinação à lei, dela não podendo se afastar, seja contra
legem ou praeter legem, nem mesmo a pretexto da prática de ato discricionário, também adstrito à
legalidade.

É certo que a Administração só pode fazer o que a lei autoriza, ao contrário


dos particulares que podem fazer tudo o que a lei não veda. Dessa forma, a eficácia do ato administrativo está
condicionada ao absoluto cumprimento da lei.

Por todo o exposto, o Administrador está obrigado a pautar sua conduta


conforme os ditames legais, sob pena de imediata invalidação do ato e mediata inconstitucionalidade.

Daí resta concluir que o poder administrativo de autotutela está legitimado


pelo princípio da legalidade administrativa. Em outras palavras, o dever do administrador de invalidar ato
ilegal nada mais é do que a fiel aplicação do princípio da legalidade administrativa.

Indiferente a isso, o legislador infraconstitucional, por meio da Lei n°


9784/99, que regula o processo administrativo no âmbito da administração pública federal, entendeu por bem
estabelecer o limite decadencial de 5 anos para a invalidação do ato administrativo, salvo comprovada má-fé.

De clareza solar a inconstitucionalidade do supracitado diploma legal.

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É bem sabido que princípios são mandados de otimização prima facie,


dotados de conteúdo axiológico, verdadeiros vetores do sistema jurídico, visando, sobretudo, à preservação
de valores e à manutenção de determinados bens jurídicos essenciais, notadamente o princípio da legalidade.

A par disso, não há falar em decadência contra princípio constitucional.


Havendo antinomia entre princípio e regra, deve prevalecer o princípio. A contrario sensu, a Administração
restaria censurada pela perda do direito à legalidade, ainda que diante de fato teratológico. Ou, então, haveria
decadência do direito à dignidade da pessoa humana ou à isonomia, entre outros mandamentos
constitucionais.

Princípio da legalidade administrativa é dever do Administrador de agir


conforme a lei, e não dever do Administrador de agir conforme a lei, dentro de determinado prazo. Se assim
fosse, restringir-se-ia a aplicação do princípio da legalidade, em afronta ao que preconizou o povo brasileiro,
por meio do constituinte originário, afinal todo poder emana do povo e em seu nome é exercido (art. 1º, par.
único, da CF).

O que o legislador constituinte pretendeu foi deixar claro que a sociedade brasileira, o

interesse comum, não tolerará qualquer ato administrativo fora dos limites legais, seja a que tempo for, e, justamente

por isso, não fixou qualquer prazo para a invalidação do ato ilegal. Ademais, norma constitucional de eficácia plena não

concede espaço para atuação infraconstitucional.

A própria indisponibilidade do interesse público, aliada à supremacia do bem


comum sobre o privado; à moralidade administrativa e eficiência, impõem ao Administrador o munus de
curador da coisa pública, de forma a repudiar a ilegalidade administrativa, ainda que esta tenha se
prolongado no tempo.

Nem se diga, de outro lado, que após o lustro legal opera-se a aquisição do
direito, pois é bem sabido que de ato ilegal não se origina direito (Súmula 473 do STF) e, muito menos,
contra norma oriunda do poder constituinte originário: não há direito adquirido contra a Constituição.

Da mesma forma, não se diga que a estabilidade das relações jurídicas há de


preservada, em respeito ao princípio da segurança jurídica, já que flagrada a incompatibilidade entre os
princípios da segurança jurídica e da legalidade, tal impasse deve ser superado pelo metacritério da
hierarquização axiológica, preponderando, ipso fato, o princípio da legalidade, não apenas por se tratar de
ordem expressa no texto constitucional, mas, sobretudo, por ser ínsito ao Estado de Direito, cuja nota
característica revela estrita submissão ao império das leis.

Assim sendo, o Administrador, a qualquer tempo, está obrigado a anular o ato


eivado de ilegalidade, sob pena de descumprimento de mandado constitucional, notadamente o princípio da
legalidade administrativa.

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6
Artigo

DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS EM PROL DA FAZENDA


PÚBLICA FEDERAL

*Rui Magalhães Piscitelli

OBJETIVO
O presente estudo objetiva, primeiramente, traçar o conceito
de Advogado e o de Procurador de entes públicos, estes exclusivamente na
esfera federal.

Prima facie, pode parecer estranho, mas o Procurador de


Órgãos (na esfera federal: Advogados da União e Procuradores da Fazenda
Nacional) ou de Entidades Públicas (na União: Procuradores do Banco
Central e Procuradores Federais) não são advogados, SÃO
PROCURADORES PÚBLICOS. Já veremos o tema, é muito interessante.

Após, traçaremos a estrutura legislativa sobre os honorários


advocatícios, forte no Código de Processo Civil.
Também, veremos que a União (e, aqui, União é somente a
pessoa jurídica de direito interno, e não suas autarquias ou fundações) tem
uma honorária de natureza um pouco distinta.

Veremos o posicionamento da jurisprudência sobre essa


verba especial deferida à União, e, por fim, apresentamos nossas conclusões
e bibliografia de suporte.

Queremos, por oportuno, anotar que o presente artigo tem o


fito acadêmico, e, não obstante o seu Autor ser Membro da Advocacia-Geral
da União, no Cargo de Procurador da Fazenda Nacional, de forma alguma o
seu posicionamento tem pretensão de ser o do Governo Federal sobre a
matéria.

Desejo dedicar o presente à minha Querida Mãe, para dizer-


lhe que os momentos que não posso desfrutar de sua presença são,

40
R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

certamente, para fincar o seu nome, Maria Helena Magalhães Piscitelli, na


eternidade. Te amo muito, Mãe.

Boa leitura !

DOS PROCURADORES PÚBLICOS FEDERAIS

A Advocacia-Geral da União, com assento constitucional, é composta por 5


Cargos, quais sejam, Procurador da Fazenda Nacional, Procurador Federal,
Procurador do Banco Central do Brasil, Advogado da União e Defensor
Público da União.

"DA ADVOCACIA PÚBLICA\". "Art. 131. A


Advocacia-Geral da União é a instituição que,
diretamente ou através de órgão vinculado,
representa a União, judicial e extrajudicialmente,
cabendo-lhe, nos termos da lei complementar que
dispuser sobre sua organização e funcionamento, as
atividades de consultoria e assessoramento jurídico
do Poder Executivo.

§ 1º - A Advocacia-Geral da União tem por chefe o


Advogado-Geral da União, de livre nomeação pelo
Presidente da República dentre cidadãos maiores de
trinta e cinco anos, de notável saber jurídico e
reputação ilibada.

§ 2º - O ingresso nas classes iniciais das carreiras da


instituição de que trata este artigo far-se-á mediante
concurso público de provas e títulos.

§ 3º - Na execução da dívida ativa de natureza


tributária, a representação da União cabe à
Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, observado
o disposto em lei".

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R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

A Lei complementar 73/93 trata dos Cargos de Procurador da Fazenda


Nacional e de Advogado da União.
No seu art. 21 da referida Lei assim consta sobre os requisitos para o
ingresso nos seus 2 Cargos:

"Art. 21. O ingresso nas carreiras da Advocacia-


Geral da União ocorre nas categorias iniciais,
mediante nomeação, em caráter efetivo, de
candidatos habilitados em concursos públicos, de
provas e títulos, obedecida a ordem de classificação.

§ 1º - Os concursos públicos devem ser realizados na


hipótese em que o número de vagas da carreira
exceda a dez por cento dos respectivos cargos, ou,
com menor número, observado o interesse da
Administração e a critério do Advogado-Geral da
União.
§ 2º O candidato, no momento da inscrição, há de
comprovar um mínimo de dois anos de prática
forense.
§ 3º Considera-se título, para o fim previsto neste
artigo, além de outros regularmente admitidos em
direito, o exercício profissional de consultoria,
assessoria e diretoria, bem como o desempenho de
cargo, emprego ou função de nível superior, com
atividades eminentemente jurídicas.

§ 4º A Ordem dos Advogados do Brasil é


representada na banca examinadora dos concursos de
ingresso nas carreiras da Advocacia-Geral da União.
§ 5º Nos dez dias seguintes à nomeação, o Conselho
Superior da Advocacia-Geral da União deve
convocar os nomeados para escolha de vagas,
fixando-lhes prazo improrrogável.

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§ 6º Perde o direito à escolha de vaga o nomeado que


não atender à convocação a que se refere o parágrafo
anterior"

Logo, da combinação do artigo constitucional e da lei complementar supra,


concluímos que os Advogados da União e os Procuradores da Fazenda
Nacional NÃO PRECISAM SER ADVOGADOS REGISTRADOS NA
OAB.
Já, com os Defensores Públicos da União, a situação é diferente.
Sua Lei Complementar 80/94 assim estabelece para o ingresso no Cargo:

"Art. 24. O ingresso na Carreira da Defensoria


Pública da União far-se-á mediante aprovação prévia
em concurso público, de âmbito nacional, de provas e
títulos, com a participação da Ordem dos Advogados
do Brasil, no cargo inicial de Defensor Público da
União de 2ª Categoria.

§ 1º Do regulamento do concurso constarão os


programas das disciplinas sobre as quais versarão as
provas, bem como outras disposições pertinentes à
sua organização e realização.

§ 2º O edital de abertura de inscrições no concurso


indicará, obrigatoriamente, o número de cargos vagos
na categoria inicial da carreira.

Art. 25. O concurso de ingresso realizar-se-á,


obrigatoriamente, quando o número de vagas exceder
a um quinto dos cargos iniciais da carreira e,
facultativamente, quando o exigir o interesse da
administração.

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Art. 26. O candidato, no momento da inscrição, deve


possuir registro na Ordem dos Advogados do Brasil,
ressalvada a situação dos proibidos de obtê-la, e
comprovar, no mínimo, dois anos de prática forense,
devendo indicar sua opção por uma das unidades da
Federação onde houver vaga.

§ 1º Considera-se como prática forense o exercício


profissional de consultoria, assessoria, o
cumprimento de estágio nas Defensorias Públicas e o
desempenho de cargo, emprego ou função, de nível
superior, de atividades eminentemente jurídicas.

§ 2º Os candidatos proibidos de inscrição na Ordem


dos Advogados do Brasil comprovarão o registro até
a posse no cargo de Defensor Público.

Art. 27. O concurso será realizado perante bancas


examinadoras constituídas pelo Conselho Superior."

Já os Procuradores do Banco Central do Brasil não possuem lei orgânica, lei


complementar, sendo regidos pela Lei 9.650/98, que nada fala sobre a
inscrição na OAB, com os seguintes requisitos para ingresso:

"Art. 1o O quadro de pessoal do Banco Central do


Brasil é formado pela Carreira de Especialista do
Banco Central do Brasil, composta por cargos de
Analista do Banco Central do Brasil, de nível
superior, e de Técnico do Banco Central do Brasil, de
nível médio, e pela Carreira de Procurador do Banco
Central do Brasil, composta por cargos de Procurador
do Banco Central do Brasil, de nível superior.
(Redação dada pela Lei nº 10.769, de 19.11.2003)

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Art. 6o O ingresso no quadro de pessoal do Banco


Central do Brasil far-se-á mediante concurso público
específico, de provas ou de provas e títulos, no
padrão inicial da classe inicial do respectivo cargo.

§ 1o O concurso público a que se refere este artigo


realizar-se-á em duas etapas, ambas de caráter
eliminatório, compreendendo a primeira o exame de
conhecimentos específicos, e a segunda programa de
capacitação.
§ 2o Para os cargos de nível superior, além do exame
de conhecimentos específicos, será obrigatória a
realização de prova de títulos.

§ 3o O Banco Central do Brasil manterá políticas


próprias de recrutamento, seleção e treinamento de
pessoal, cabendo à sua Diretoria definir normas
específicas e os pré-requisitos de formação e
titulação especializada a serem exigidos nos
concursos de ingresso, observadas as diretrizes do
Ministério da Administração Federal e Reforma do
Estado"

Por fim, os Procuradores Federais, responsáveis pela defesa e execuções


fiscais das Autarquias e Fundações Públicas, também não têm lei
complementar, sendo regidos pela MP nº 2.229-43 , que exige para o
ingresso no Cargo:

"Art. 1o Esta Medida Provisória dispõe sobre a


criação das Carreiras de Procurador Federal e de
Fiscal Federal Agropecuário, reestrutura e organiza
as seguintes carreiras e cargos

Art. 36. O ingresso nos cargos de que trata o art. 35

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far-se-á mediante concurso público, exigindo-se


diploma de Bacharel em Direito, observados os
requisitos fixados na legislação pertinente. Parágrafo
único. Os concursos serão disciplinados pelo
Advogado-Geral da União, presente, nas bancas
examinadoras respectivas, a Ordem dos Advogados
do Brasil."

Quanto aos Procuradores Federais, o Egrégio Supremo Tribunal Federal


editou a Súmula nº 644 , na qual fica patente que o Procurador Federal, não
necessitando de mandato para procurar em Juízo, não é Advogado, e, sim,
um Órgão.

"Ao titular do cargo de procurador de autarquia não


se exige a apresentação de instrumento de mandato
para representá-la em juízo."

Recordando lições de Direito Administrativo, no caso da Súmula, somos


forçados a equiparar as fundações às autarquias.
Por fim, registramos o art. 2º da recentíssima Lei 10.909/04 unificou, ao
menos sob o ponto de vista remuneratório, as 5 Carreiras da Advocacia
Pública da União, senão vejamos:

"Art. 2o As Carreiras de Procurador da Fazenda


Nacional, de Advogado da União, de Procurador
Federal, de Procurador do Banco Central do Brasil e
de Defensor Público da União e os quadros
suplementares de que trata o art. 46 da Medida
Provisória no 2.229-43, de 6 de setembro de 2001,
compõem-se de cargos efetivos, divididos em
categorias, na forma do Anexo I desta Lei"

Em tempo, sobre o Grupo de Trabalho recentemente constituído no âmbito


da Advocacia-Geral da União, anunciamos a Portaria nº 386, de 16/07/2.004.
DA PROFISSÃO DE ADVOGADO
Os arts.133 e 134 da Carta Maior, em outra Seção que não a Advocacia
Pública, assim expressa sobre os Advogados e os Defensores Públicos:

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"DA ADVOCACIA E DA DEFENSORIA


PÚBLICA

Art. 133. O advogado é indispensável à


administração da justiça, sendo inviolável por seus
atos e manifestações no exercício da profissão, nos
limites da lei.

Art. 134. A Defensoria Pública é instituição essencial


à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a
orientação jurídica e a defesa, em todos os graus, dos
necessitados, na forma do art. 5º, LXXIV.)
Parágrafo único. Lei complementar organizará a
Defensoria Pública da União e do Distrito Federal e
dos Territórios e prescreverá normas gerais para sua
organização nos Estados, em cargos de carreira,
providos, na classe inicial, mediante concurso
público de provas e títulos, assegurada a seus
integrantes a garantia da inamovibilidade e vedado o
exercício da advocacia fora das atribuições
institucionais."

A Lei 8.906/94, lei ordinária, rege a Advocacia.


Contudo, em seu art. 3º, a Lei supra, que deveria tratar somente da
Advocacia, Seção III do Capítulo IV da Carta Maior, acabou usurpando
competência e legislou sobre a Seção II, a Advocacia Pública, senão
vejamos:

"Art. 3º O exercício da atividade de advocacia no


território brasileiro e a denominação de advogado são
privativos dos inscritos na Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB).

§ 1º Exercem atividade de advocacia, sujeitando-se

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R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

ao regime desta lei, além do regime próprio a que se


subordinem, os integrantes da Advocacia-Geral da
União, da Procuradoria da Fazenda Nacional, da
Defensoria Pública e das Procuradorias e
Consultorias Jurídicas dos Estados, do Distrito
Federal, dos Municípios e das respectivas entidades
de administração indireta e fundacional."

Assim o fazendo, entendemos, s.m.j., que o § 1º do art. 3º da Lei 8906/94 é


inconstitucional, pois adentra na competência de lei complementar, as únicas
que deveriam tratar sobre a Advocacia Pública.
Aliás, o Egrégio Supremo Tribunal Federal já o decidiu no RE nº 250461-
AgR - ED, ou seja, nos embargos de declaração ao agravo regimental no
recurso extraordinário, a publicado no DJU de 07/04/2.000, senão vejamos:

"Esse, entretanto, não é o caso daqueles integrantes


do conjunto de instituições da Advocacia do Estado
referidos no evocado art. 3º do Estatuto ...: são todos
eles ocupantes de cargos públicos, em cujo âmbito de
atribuições se insere a sua representação- rectius,
presentação em juízo. Desse modo, não são
mandatários - os que atuam como pessoas diversas
do respectivo mandante, ainda que em nome deles,
na medida das forças do mandato - mas órgãos que -
em razão unicamente da investidura no cargo e na
medida das atribuições dele - manifestam em juízo a
vontade da entidade pública. Não sendo, pois, de
mandato o regime de sua relação com o Estado ou a
Autarquia ... NÃO HÁ COMO EXIGIR-LHES A
PROVA DA QUALIDADE QUE NÃO TÊM , MAS
SIM - SE ACASO POSTA EM DÚVIDA - A DE
PROCURADOR DO ENTE ESTATAL EM CUJO
NOME COMPARECEM EM JUÍZO".

DAS REGRAS DE SUCUMBÊNCIA NO CÓDIGO DE PROCESSO


CIVIL
O que trata sobre a matéria são os seguintes:

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"Art. 20. A sentença condenará o vencido a pagar ao


vencedor as despesas que antecipou e os honorários
advocatícios. Essa verba honorária será devida,
também, nos casos em que o advogado funcionar em
causa própria. (Redação dada pela Lei nº 6.355, de
8.9.1976)
§ 1o O juiz, ao decidir qualquer incidente ou recurso,
condenará nas despesas o vencido. (Redação dada
pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)

§ 2o As despesas abrangem não só as custas dos atos


do processo, como também a indenização de viagem,
diária de testemunha e remuneração do assistente
técnico. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de
1º.10.1973)
§ 3o Os honorários serão fixados entre o mínimo de
dez por cento (10%) e o máximo de vinte por cento
(20%) sobre o valor da condenação, atendidos:
(Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)

a) o grau de zelo do profissional;

b) o lugar de prestação do serviço;

c) a natureza e importância da causa, o trabalho


realizado pelo advogado e o tempo exigido para o seu
serviço.

§ 4o Nas causas de pequeno valor, nas de valor


inestimável, naquelas em que não houver condenação
ou for vencida a Fazenda Pública, e nas execuções,
embargadas ou não, os honorários serão fixados

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consoante apreciação eqüitativa do juiz, atendidas as


normas das alíneas a, b e c do parágrafo anterior.
(Redação dada pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)
§ 5o Nas ações de indenização por ato ilícito contra
pessoa, o valor da condenação será a soma das
prestações vencidas com o capital necessário a
produzir a renda correspondente às prestações
vincendas (art. 602), podendo estas ser pagas,
também mensalmente, na forma do § 2o do referido
art. 602, inclusive em consignação na folha de
pagamentos do devedor. (Parágrafo acrescentado
pela Lei nº 6.745, de 5.12.1979)
Art. 21. Se cada litigante for em parte vencedor e
vencido, serão recíproca e proporcionalmente
distribuídos e compensados entre eles os honorários e
as despesas.

Parágrafo único. Se um litigante decair de parte


mínima do pedido, o outro responderá, por inteiro,
pelas despesas e honorários.

Art. 22. O réu que, por não argüir na sua resposta


fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito
do autor, dilatar o julgamento da lide, será condenado
nas custas a partir do saneamento do processo e
perderá, ainda que vencedor na causa, o direito a
haver do vencido honorários advocatícios. (Redação
dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)

Art. 23. Concorrendo diversos autores ou diversos


réus, os vencidos respondem pelas despesas e
honorários em proporção.

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Art. 24. Nos procedimentos de jurisdição voluntária,


as despesas serão adiantadas pelo requerente, mas
rateadas entre os interessados.

Art. 25. Nos juízos divisórios, não havendo litígio, os


interessados pagarão as despesas proporcionalmente
aos seus quinhões.

Art. 26. Se o processo terminar por desistência ou


reconhecimento do pedido, as despesas e os
honorários serão pagos pela parte que desistiu ou
reconheceu.
§ 1o Sendo parcial a desistência ou o
reconhecimento, a responsabilidade pelas despesas e
honorários será proporcional à parte de que se
desistiu ou que se reconheceu.

§ 2o Havendo transação e nada tendo as partes


disposto quanto às despesas, estas serão divididas
igualmente.

Art. 27. As despesas dos atos processuais, efetuados


a requerimento do Ministério Público ou da Fazenda
Pública, serão pagas a final pelo vencido.

Art. 28. Quando, a requerimento do réu, o juiz


declarar extinto o processo sem julgar o mérito (art.
267, § 2o), o autor não poderá intentar de novo a
ação, sem pagar ou depositar em cartório as despesas
e os honorários, em que foi condenado.

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Art. 29. As despesas dos atos, que forem adiados ou


tiverem de repetir-se, ficarão a cargo da parte, do
serventuário, do órgão do Ministério Público ou do
juiz que, sem justo motivo, houver dado causa ao
adiamento ou à repetição.

Art. 30. Quem receber custas indevidas ou excessivas


é obrigado a restituí-las, incorrendo em multa
equivalente ao dobro de seu valor.

Art. 31. As despesas dos atos manifestamente


protelatórios, impertinentes ou supérfluos serão
pagas pela parte que os tiver promovido ou praticado,
quando impugnados pela outra.

Art. 32. Se o assistido ficar vencido, o assistente será


condenado nas custas em proporção à atividade que
houver exercido no processo.

Art. 33. Cada parte pagará a remuneração do


assistente técnico que houver indicado; a do perito
será paga pela parte que houver requerido o exame,
ou pelo autor, quando requerido por ambas as partes
ou determinado de ofício pelo juiz. Parágrafo único.
O juiz poderá determinar que a parte responsável
pelo pagamento dos honorários do perito deposite em
juízo o valor correspondente a essa remuneração. O
numerário, recolhido em depósito bancário à ordem
do juízo e com correção monetária, será entregue ao
perito após a apresentação do laudo, facultada a sua

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liberação parcial, quando necessária. (Parágrafo


acrescentado pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994)

Art. 34. Aplicam-se à reconvenção, à oposição, à


ação declaratória incidental e aos procedimentos de
jurisdição voluntária, no que couber, as disposições
constantes desta seção. (Redação dada pela Lei nº
5.925, de 1º.10.1973)

Art. 35. As sanções impostas às partes em


conseqüência de má-fé serão contadas como custas e
reverterão em benefício da parte contrária; as
impostas aos serventuários pertencerão ao Estado"

Veja-se que a Fazenda Pública terá tratamento diferenciado, legalmente


admitido.
DO DL 1.025/69
O Decreto-lei nº 1.025, de 1969, em seu art. 1º, estabeleceu o acréscimo de
20% (vinte por cento) sobre o valor do débito fiscal, a título de encargo legal,
e que, no dizer da súmula 168 do TFR, é sempre devido nas execuções
fiscais da União (os quais são ajuizadas pela Procuradoria da Fazenda
Nacional) e substitui, nos embargos, a condenação do devedor em honorários
advocatícios, senão vejamos:

Art. 1º D.L. 1.025/69: " É declarada extinta a


participação de servidores públicos na cobrança da
Dívida da União, a que se referem os artigos 21 da
Lei nº 4.439, de 27 de outubro de 1964, e 1º, inciso
II, da Lei nº 5.421, de 25 de abril de 1968, passando a
taxa, no total de 20% (vinte por cento), paga pelo
executado, a ser recolhida aos cofres públicos, como
renda da União"

Súmula 168-TFR:"O encargo de 20% (vinte por


cento) do Decreto-Lei 1.025, de 1969, é sempre
devido nas execuções fiscais da União e substitui,

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R E V I S T A E L E T R O N I C A D O P R O C U R A D O R F E D E R A L - R S

nos embargos, a condenação do devedor em


honorários advocatícios"

Sobre a Súmula 168, a Jurisprudência tem entendido que, caso o executado


oponha embargos, nos moldes da Lei nº 6.830/80- Lei de Execuções fiscais,
e seja julgado improcedente, não haverá novos honorários para a Fazenda
Pública, pois estes já estão na verba de 20% do D. 1.025/69.
A Jurisprudência sobre a matéria é pacífica no Egrégio Superior Tribunal de
Justiça, o Tribunal responsável pela guarda da legislação federal, senão
vejamos pelas ementas de acórdãos recentíssimos (veja-se que não é
aplicável às execuções movidas pelo INSS, ou outras Autarquias/Fundações
- as quais ajuízam seus próprios executivos fiscais, através de Procuradores
Federais - MP , somente pela União/Fazenda Nacional, a qual é integrada por
Procuradores da Fazenda Nacional - LC 75/93):

"PROCESSO CIVIL - EXECUÇÃO FISCAL -


VERBA HONORÁRIA - DECRETO-LEI 1.025/69 -
EXECUÇÃO DO INSS. 1. A verba de 20% de que
fala o DL 1.025/69 só é devida nas execuções da
União, não se aplicando às execuções movidas pelo
INSS. 2. Não se aplicando a Súmula 168/TFR, deve-
se impor a condenação em honorários, nos termos do
art. 20 do CPC. 3. Recurso especial provido". (Resp
nº 420080, DJU de 28/06/2.004)

"PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO. EMBARGOS À


EXECUÇÃO. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.
DECRETO-LEI Nº 1.025/69. 1. \"O encargo de 20%
previsto no art. 1º do D.L. 1.025/69, além de atender
a despesas com a cobrança de tributos não recolhidos
substitui, inclusive, os honorários advocatícios sendo
inadmissível a condenação de verba sob esse mesmo
título\" REsp. 181.747/RN 1998/0050746-9, STJ,
Rel. Min. Francisco Peçanha Martins, julg,
20.05.1999, DJ 10.04.2000, pág. 00077. (AGA nº
472775, DJU de 25/02/2.004)

CONCLUSÕES

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Noticiamos que, recentemente, foi constituído um Grupo de Trabalho, no


âmbito da Advocacia-Geral da União, com o fito de editar anteprojeto de sua
Lei complementar.
Nela, cremos, as 5 Carreiras (Procurador da Fazenda Nacional, Procurador
Federal, Procurador do Banco Central do Brasil, Advogado da União e
Defensor Público da União) serão unificadas, haja vista que, conforme neste
artigo já noticiado, sob o ponto de vista remuneratório já as foram.
Nessa Lei Complementar, nova Lei Orgânica da AGU, então, poderão ser
estabelecidos requisitos para o ingresso na Carreira, dentre eles a
necessidade da OAB.
Contudo, pensamos que pode não ter sido esta a vontade do constituinte
originário, que separou em seções próprias, a Advocacia Pública, regida por
lei complementar, e a Advocacia , regida por Lei ordinária. Verdade é que
incluiu a Defensoria Pública, a ser regida por lei complementar, na Seção da
Advocacia.
Quiçá possa isso demonstrar falta de sistematização na hora da realização do
texto constitucional no atinente à matéria.
Contudo, não pode a Lei 8.906/94 exigir o que, até o momento, não é
exigido pelas leis complementares já existentes da Advocacia Pública: a
inscrição na OAB.
Quanto à verba honorária estabelecida no DL 1.025/69, pela sua presunção
de constitucionalidade (até hoje não houve Adins alegando sua
inconstitucionalidade), e pelos julgados acima, entendemos viger
perfeitamente.

Veja que o próprio Código de Processo Civil estabelece, nas condenações em


honorários, critérios diferentes quando a sucumbente é a Fazenda Pública.
Mutatis Mutandis não há incongruência em estabelecer o DL 1.025/69
critérios diferentes quando a Fazenda Pública é a autora.
Contudo, os Tribunais têm entendido que a UNIÃO, e não suas Autarquias e
Fundações, é que podem se valor do DL 1.025/69.
Esperamos ter contribuído para a discussão, alertando a Ordem dos
Advogados do Brasil daquele Grupo de Trabalho no âmbito da Advocacia-
Geral da União, no qual será elaborada lei orgânica com os requisitos para o
ingresso nas Carreiras Jurídicas da União.

BIBLIOGRAFIA

-Constituição Federal;

-DL. 1.025/69;

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-Código de Processo Civil;

-site do Egrégio Superior Tribunal de Justiça na


Internet, www.stj.gov.br;

-Código Tributário Nacional;

-Lei nº 6.830/80 - Lei de Execuções fiscais;

-LC 73/93;

-LC 80/94;

-MP 2.229/43;

-Lei 8.906/94;

-Lei 9.650/98;

-site da Advocacia-Geral da União na Internet,


www.agu.gov.br

*O Autor é Contador, Advogado, Pós-graduado em Finanças, ex-Especialista


do Banco Central do Brasil, Procurador da Fazenda Nacional. Artigo publicado
no www.sinprofaz.org.br e no www.jusnavegandi.com.br em 20/11/2.004.

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