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Como trabalhar com pessoas que ouvem vozes

Paul Baker (INTERVOICE – Manchester)

Por que nós escrevemos este guia

Este guia foi escrito como introdução a uma nova maneira de se pensar sobre a
experiência de ouvir vozes. O ouvir de vozes pode se tornar algo a trazer
preocupações, tanto para a pessoa que as ouve quanto para seus familiares e
amigos. É importante conscientizar as pessoas a esse respeito.

Ao longo dos anos, muito pouco foi escrito sobre esta experiência e seu
significado, algo que normalmente e infelizmente é considerado apenas como
sintoma de um transtorno mental, sem debates ou troca de ideias em decorrência
de todo o estigma que ainda cerceia o tema.

Porém, neste guia vamos pensar juntos sobre qual a sensação de ouvir vozes,
sobre os porquês de começar a ouvi-las e sobre como as pessoas podem
aprender a lidar bem com elas para viverem tranquilas.

As informações contidas neste guia são baseadas em pesquisas e trabalhos


práticos, realizados na Holanda e no Reino Unido, durante 17 anos, e que pela
primeira vez surgem de estudos conduzidos junto com os verdadeiros
especialistas: os próprios ouvidores.

Mas, para quem é esse guia?

Este guia é destinado aos ouvintes de vozes, seus familiares, seus amigos e
profissionais interessados em conhecer mais sobre a temática e/ou trabalhar
com ouvidores de vozes.

Agradecimentos

Este guia foi baseado na publicação “Ouvindo Vozes”, escrita por Sarah Sino da
Oxford, e inclui informações que podem ser encontradas no livro “Living with
Voices” (1993) escrito pelos professores holandeses, Marius Romme e Sandra
Escher.

Nossos agradecimentos especiais vão para todos os membros da rede


internacional de ouvidores de vozes, sem os quais este guia não poderia ter sido
escrito.
1) Introdução
A primeira reunião organizada por um grupo de ouvinte de vozes na Inglaterra
ocorreu em 1988, na cidade de Manchester.

A comunidade de ouvidores começou como um grupo pequeno, originário da


famosa cidade industrial, inspirado no trabalho pioneiro do Prof. Marius Romme,
um psiquiatra de Maastricht, na Holanda, e do grupo de autoajuda da
INTERVOICE, atualmente a maior rede de ouvidores de vozes do mundo.

Os membros do grupo britânico já visitaram Maastricht muitas vezes. Em 1989,


foi organizada por eles uma turnê de palestras no norte da Inglaterra, contando
com a participação do próprio Prof. Marius Romme, da pesquisadora, Sandra
Escher, e de Anse Streefland, uma ouvidora de vozes não-paciente.

As reuniões dessa experiência foram muito bem aceitas pelos ouvintes, seus
familiares e profissionais interessados. A organização e a comunhão entre os
participantes tiveram êxitos e frutos excepcionais.

Desde então, o conhecimento de todo trabalho realizado pela comunidade


internacional de ouvidores tem sido espalhado pela publicação de artigos em
revistas e jornais especializados, jornais locais e pela própria mídia nacional,
principalmente no Reino Unido.

Dentre os frutos dessa história, tem-se em agosto de 1995 a primeira conferência


internacional de ouvidores de vozes realizada na Holanda, evento que contou
com a participação de ouvintes, familiares, profissionais e interessados do
mundo todo.

Qual é a crença tradicional acerca do ouvir de vozes?

Historicamente, ouvir vozes tem sido considerada pela psiquiatria clínica uma
experiência relacionada a alucinações auditivas ou algo vinculado a um sintoma
de condições correlatas as enfrentadas em quadros de transtornos
esquizofrênicos, de depressão aguda e/ou de psicose maníaca.

O tratamento usual tem sido a prescrição de medicações psicotrópicas


tranquilizantes acreditando na redução de delírios e alucinações, causas da
experiência na visão dessa vertente de conhecimento, mesmo que nem todo
mundo reaja bem a este tipo de tratamento.

Um ponto importante a ser destacado é o fato de haverem muitas pessoas


ouvindo vozes no Reino Unido, mas conseguindo lidar bem com suas vozes,
mesmo sem intervenção psiquiátrica. No entanto, este fato tem sido
negligenciado pela psiquiatria clínica.
Este guia busca responder a seguinte pergunta: existe outra maneira de se
pensar sobre a experiência de se ouvir vozes?

Entendendo o ouvir de vozes sob outra visão

Marius Romme, professor de psiquiatria social na Universidade de Limburg,


localizada na cidade de Maastricht, em associação com a comunidade de
ouvidores de vozes do Reino Unido, realizou uma pesquisa de nove anos entre
Holanda e Inglaterra, chegando na seguinte conclusão:

"O que esta pesquisa mostra é que temos de aceitar que as vozes existem.
Temos também de aceitar que não podemos mudar as vozes. Elas não são
curáveis, assim como você não pode curar canhotos. Variações normais
humanas não são curáveis - apenas enfrentáveis.

Portanto, para ajudar as pessoas a lidar com as suas vozes, não se deve dar-
lhes terapias não funcionais. Devemos deixar que as pessoas decidam por si
mesmas o que as ajuda ou não. Leva tempo para que as pessoas aceitem que
ouvir vozes é algo que pertence a elas." (Marius Romme).
2) O que significa ouvir vozes?

Em algumas palavras

Ainda existem muitos preconceitos e dificuldades a serem superadas em relação


ao ouvir de vozes e isso é bem nítido. No entanto, a experiência de se ouvir
vozes não é algo extraordinário como geralmente pensam.

As vozes, diferente daquilo que se escuta por meio dos ouvidos, apenas não
surgem por causas físicas, e sim por causas psicológicas. Mas como os sons
naturais, existem diferenças entre cada experiência ouvindo vozes e entre cada
voz ouvida.

Quantas vezes você já pensou ter ouvido alguém chamar seu nome para depois
descobrir que não havia ninguém lá, por exemplo?

Bem como ouvir os sons através dos ouvidos, as pessoas também ouvem vozes
como se elas fossem pensamentos internos a elas. No entanto, existem diversas
diferenças entre uma ideia vinda de si mesmo e algo intrusivo como podem ser
as vozes.

Um bom exemplo disso acontece com os nossos pensamentos ou com musicas


que surgem na cabeça sem o nosso consentimento. A diferença em relação as
vozes, além de seu formato, pode ser suas causas e o contato frequente que
essas estabelecem com quem as está ouvindo.

Existem muitas maneiras diferentes de se ouvir vozes. Você pode ouvi-las dentro
da própria mente ou fora dela. Pode ser uma só voz ou muitas vozes. A voz pode
falar com você ou sobre você. Podem ser vozes representando figuras com
idades diferentes, ou mesmo vozes com conteúdos diferentes.

Nunca é a mesma sensação para todos. Algumas pessoas, por exemplo,


experimentam pensamentos não-verbais, imagens e visões, gostos, cheiros e
toques. Todas sem nenhuma causa física.

Vozes podem ser como sonhos. Quando sonhamos todos os tipos de coisas
estranhas podem acontecer, mas nós ainda acreditamos que elas realmente
estejam acontecendo conosco. Ouvir vozes pode ser assim, como um sonho
acordado, mas experimentado na realidade.

Alguns fatos positivos sobre as vozes


Estar ouvindo vozes não precisa ser considerada uma experiência incomum.
Muitas pessoas ouvem vozes e nunca foram pacientes psiquiátricas, e este é um
fato já bem conhecido, mas negligenciado.

Uma investigação epidemiológica realizada em Baltimore, nos Estados Unidos,


em um grupo amostral de 15.000 pessoas, constatou que de 10% a 15% dos
entrevistados relataram ter ouvido vozes durante um longo período de tempo,
mas que apenas um terço deles teriam relatado efeitos negativos (Tien, 1991).

Outra pesquisa, realizada na mesma época, revelou que muitos dos casos de
pessoas que ouvem vozes não satisfaziam os critérios específicos de um
diagnóstico psiquiátrico (Eaton, 1991).

Em pesquisa realizada por Marius Romme com não-pacientes e pacientes


psiquiátricos e ouvidores de vozes, demonstrou-se que ambos os grupos
estariam em contato com vozes positivas e negativas sob a mesmo quantidade
de tempo. A diferença na pesquisa deu-se principalmente sobre como os dois
grupos reagiam as suas vozes.

Enquanto os não-pacientes não tinham medo da experiência e sentiam poucos


incômodos quanto a ela, foi constatado o contrário entre os pacientes - pessoas
pouco instigadas a olharem para suas vozes de forma diferente e distante dos
discursos de patologia.

Pessoas famosas que abertamente declararam ouvir vozes

Sócrates, Mohammed Ali, Joana d´Arc, Carl Jung, Anthony Hopkins, Zoe
Wannamaker, Zinedine Zidane e Mahatma Gandhi..

Alguns fatos negativos sobre as vozes

Para muitos ouvidores, as vozes podem se fazer presentes durante o dia todo,
tendo a capacidade de impedi-los a realizar vontades e necessidades de suas
vidas, dando o exemplo de uma voz negativa nesse caso.

As vozes também podem punir o ouvinte caso ele não faça aquilo que elas
querem, aumentando a perturbação e os conteúdos negativos exibidos ao
indivíduo.

Seus conteúdos podem diversificar e trazer elementos entristecedores,


traumáticos, da infância, do dia-a-dia ou de outros momentos da vida da pessoa.
Acredita-se que esses elementos surgiriam como mensagens a serem
entendidas, decifradas, pelo bem estar do indivíduo ouvinte.
3) O dizem as vozes?
Normalmente não existe apenas uma "voz" que diz o mesmo tipo de coisas o
tempo todo. Pode existir uma série de vozes diferentes umas das outras. Uma
voz pode dizer coisas agradáveis e estar ao seu lado, enquanto outra não.

As vozes podem ter uma personalidade completa e serem instantaneamente


reconhecidas pela pessoa que as ouve. Outras vozes podem não ter uma
personalidade específica e não estabelecem uma relação muito profunda com
quem as ouve.

Algumas vozes são mais agradáveis que outras. As vozes menos agradáveis
podem ferir as pessoas ouvindo-as, dizendo-as xingamentos e ofensas, por
exemplo. São episódios que podem acontecer tanto momentaneamente quanto
em certa continuidade.

Frases como “isso não é uma boa ideia”, “isso não vai funcionar”, “você não vai
conseguir”, “você é incapaz”, entre outras coisas mais degradantes e violentas,
são constatadas nas experiências relatadas por ouvidores.

Por outro lado, pode haver também um lado agradável em ouvir vozes. Por
vezes, as vozes - que são vozes positivas - surgem como conselheiras e/ou
amigas das pessoas ouvintes; dão suporte e as apoiam em seus momentos.

Para algumas pessoas, entende-se esta experiência como um dom, algo como
uma percepção valiosa ou mesmo extra-sensorial. Sob esse prisma, as vozes
podem ser confiáveis.

Elas podem ser inteligentes, espirituosas, engraçadas, perspicazes e etc. Elas


podem, por si só, serem um mecanismo de enfrentamento.

O que as vozes dizem corresponde aos efeitos que o social, o emocional e o


psicológico têm sobre o ouvidor. Elas podem guiar quem as ouvem.

O conteúdo das vozes, suas características e afins, recorrentemente estão


relacionados com a história de vida do ouvinte. Episódios tais como traumas
recentes, de infância, impotências e pendências emocionais surgem em suas
aparições.

Nesse sentido, as vozes podem ser positivas, ajudando de forma amena o


indivíduo a lidar com suas próprias emoções, fobias e medos. A pessoa ganha
a oportunidade de crescer com tudo isso.

As três fases do ouvir de vozes

1) Descobrindo as vozes
• A maioria dos ouvintes descreve o início da experiência como algo bastante
súbito e surpreendente, podendo facilmente lembrar o momento exato em que
foi ouvida a primeira voz.

• A idade início da primeira vivência com as vozes varia, assim como a


intensidade dessa fase, que parece ser mais grave quando ocorre durante a
adolescência. A confusão parece ser menor quando as vozes são ouvidas na
terceira idade ou na infância.

• As vozes são, na maioria das vezes, desencadeadas por eventos traumáticos


ou emocionalmente intensos, tais como acidentes, um divórcio, maus tratos,
abusos sexuais, bullying, falecimento e doenças.

• O impacto das vozes se divide em dois tipos como foi dito acima: podem ser
vozes positivas, de apoio, ou vozes negativas, de menosprezo. Uma mesma
pessoa pode lidar com vozes de tipos diferentes.

2) Lidando com as vozes

• De início, os ouvintes geralmente ficam confusos com suas vozes e querem


escapar delas. Para alguns, essa vontade dura apenas um curto período de
tempo (semanas ou meses), mas para outros pode durar anos.

• Para que se consiga entende-las e organizá-las com sucesso, alguma forma


de aceitação é requerida. Negar as vozes somente não funcionou ao longo dos
anos.

• Durante esta fase, compreensivelmente, procuram-se formas de controlar ou


de lidar com as vozes. Algumas estratégias utilizadas recorrentemente pelos
ouvintes são:

Ignorar as vozes Ouvi-las seletivamente Entrar em diálogo com elas


Nomear as vozes

• A estratégia mais útil descrita por ouvintes seria o ato de selecionar as vozes
positivas, ouvi-las e responder somente a elas, tentando compreendê-las.

• Aceitar as vozes torna-se o elemento importante para que se tenha sucesso


lidando com elas. Isto parece estar relacionado com um processo de crescimento
pessoal, no sentido aprender a lidar com as nuances da própria vida.

3) Estabelecendo um relacionamento com elas

As pessoas podem aprender a lidar com suas vozes e encontrar um tipo de


equilíbrio. Neste estado de equilíbrio, as pessoas passam a considerar as vozes
como partes de si mesmas e de suas vidas, pensam nelas como uma influência
positiva.

Durante esta fase, o indivíduo tornou-se capaz de escolher entre seguir o


conselho das vozes ou suas próprias ideias e ideais.

4) Existe uma forma de esquecer as vozes? Não exatamente


O que fazer com as vozes negativas que constantemente surgem
denegrindo e ofendendo quem as ouvem?

A primeira coisa a entender nesses casos é que, embora a voz possa estar
surgindo de maneira intrusiva em sua consciência, isso não significa que você
deve cegamente fazer aquilo que ela diz.

Você cometeria um assassinato se alguém lhe disse para o fazer?


Absolutamente não. Pessoas que ouvem vozes têm o mesmo direito à
autodeterminação que qualquer outra pessoa e você pode dizer as vozes esse
mesmo tipo de discurso.

Se encontra-las não te faz bem, você deve então dizer isso a elas, apontando
que não existe nenhuma razão para tolerar essa forma de comportamento.
Estabelecer esse relacionamento com as vozes, criar o seu tipo de
relacionamento com elas, pode ser extremamente proveitoso.

E quanto às vozes malévolas, que podem causar danos graves as pessoas, por
exemplo, pedindo-lhes para fazer coisas como se matar, uma solução pode ser
remover o máximo de estresse da sua vida, um dos principais gatilhos desse tipo
de vivência ruim.

Ignorar as vozes não ajuda, assim como ignorar alguém que não para de se
comportar hostilmente com você. Conversar, tomar uma atitude imperativa e
arrumar meios produtivos de acabar com a situação pode ajudar tanto em
relação as pessoas quanto em relação as próprias vozes.
5) Um pouco sobre a história do Movimento Internacional de
Ouvidores de Vozes (HVM e a INTERVOICE)

Atualmente, a Intervoice é uma das maiores instituições e responsáveis por


cuidar de pessoas ouvidoras de vozes no mundo hoje.

Desenvolveu-se na Europa no fim da década de 80, sob a experiência do


psiquiatra Marius Romme, que se baseando em uma nova metodologia de
cuidado com o indivíduo ouvidor, fundou a instituição.

Tudo começou em 1987, quando Marius passou a conviver com a frequentadora


de seu consultório psiquiátrico, Patsy Hage. Um dia, em uma conversa entre os
dois, Patsy lhe fez uma pergunta que o faria pensar e teria como desfecho a
mudança de toda sua concepção do que exatamente era a experiência de se
ouvir vozes.

A pergunta consistia na ideia de que se Marius acreditava em um Deus que


nunca teria visto ou ouvido, porque este não poderia acreditar nas vozes que ela,
Patsy, realmente ouvia e que faziam morada em sua cabeça.

Esse teria sido o fator inicial de uma abordagem que vem dando resultados até
hoje, a saber, a de se ouvir o que o indivíduo tem a dizer sobre suas vozes, e
percebe-las como uma experiência a ser entendida pelo médico e o próprio
indivíduo, ao invés de taxa-la diretamente como parte de um distúrbio grave
como é a esquizofrenia.

Em entrevista, Marius ressaltou que:

“Foi Patsy Hage quem deixou claro para mim que a abordagem psiquiátrica não
tinha sido muito útil. Porque, como um clínico tradicionalmente treinado, eu só
estava interessado em sua experiência de audição de voz, na medida em que
diz respeito às características de uma alucinação, a fim de construir um
diagnóstico em combinação com outros sintomas. Mas ela estava interessada
nas vozes e no poder que exerciam sobre ela; no estresse que ela
experimentava; naquilo que lhe diziam”.

Foi então que, a fim de romper as barreiras sociais existentes entre os próprios
ouvidores, Marius resolveu organizar reuniões entre os ouvidores de vozes
frequentadores de seu consultório, com o objetivo de deixar com que eles
trocassem experiências sobre ouvir vozes, como lidavam com elas, dentre outras
coisas. Marius conta que todos ficaram extremamente entusiasmados.

Dali em diante, o pesquisador holandês percebeu que esse movimento apenas


tenderia a crescer, e com a ajuda de Patsy e outros pesquisadores, fundou-se a
Intervoice; instituição que até hoje tem como objetivo principal incentivar uma
discussão mais ampla, com o intuito de mudar a atitude da sociedade frente a
vivencia de se ouvir vozes e a maneira como os ouvintes são tratados pela
medicina e, especialmente, pelos psiquiatras.

Hoje, a principal cede da instituição se localiza na Inglaterra, e tem em sua


história a participação direta de Marius, que entrando em contato com seu amigo
e então co-fundador da instituição em território britânico, Paul Baker, levou sua
ideia de mudar a forma como a sociedade e a psiquiatria olham para os
indivíduos ouvidores de vozes para além das fronteiras de seu país.

Paul, em texto de sua autoria, ressalta a trajetória do movimento até aqui e sua
importância para o reconhecimento da autonomia dos indivíduos ouvidores
diante de sua própria experiência:

“Talvez estejamos chegando lá. Uma maneira diferente de pensar sobre as


vozes e uma nova forma de ajudar as pessoas que lidam com elas está sendo
desenvolvida. Uma jornada que continua até hoje. Tudo isso faz parte de uma
mudança que reconhece que as pessoas que ouvem vozes são os peritos da
sua própria experiência, que estão em melhor posição para entender o que esta
experiência significa e o que realmente tem o poder de ajudar.”

Com o apoio dessa rede em todo o mundo e, especialmente, dos ouvintes,


alguns dos quais passaram longos períodos de tempo em atendimentos
psiquiátricos, hoje, recuperam-se vidas, fazendo com que pessoas que antes
sofriam com suas vozes, agora sejam capazes de dizer que as ouvem, que assim
mesmo vivem tranquilos e que as aceitam como parte de si mesmos.

(texto incluído pelo CENAT com autorização de Paul Baker)


6) O que significa esta pesquisa para o ouvinte de vozes?
Sob o ponto de vista psiquiátrico tradicional, as vozes tem sido consideradas
recorrentemente como alucinações auditivas, geralmente pensadas como parte
dos sintomas que compõem transtornos como a esquizofrenia.

O tratamento para pessoas que ouvem vozes, de acordo com essa vertente, tem
sido indicar medicamentos neurolépticos que podem, em alguns casos, reduzir
a ansiedade causada pelas vozes, mas por outro, fazer com que as pessoas
tratadas se sintam fracas ou dependentes mentalmente, como se nunca fossem
sair desse ciclo.

Dentre diferentes teorias definidas pela psiquiatria sobre o que são de fato as
vozes, muitas presumem que façam parte apenas de algum tipo de psicose ou
que são causadas por algum tipo de falha genética.

Geralmente, presume-se com isso que os indivíduos não conseguem sozinhos


lidar com suas vozes. Nesse contexto, diversos profissionais são ensinados a
não se envolverem com os ouvintes ou falarem diretamente sobre o conteúdo
expresso pelas próprias vozes.

Como se percebeu ao longo dos anos, esta não é uma abordagem útil. Informa-
se ao ouvinte que as vozes são apenas sintomas de uma patologia, quando as
vozes são tão reais para ouvinte quanto qualquer elemento incapacitante do
mundo físico.

Um exemplo

George ouve vozes continuamente. Suas vozes são, por vezes, agradáveis, mas
em outras, nem tanto. Dizem para ele coisas desagradáveis e o interrompem
quando ele precisa se concentrar em algo, como uma reunião importante.

Diversas são as vezes em que ele tenta discutir sobre essas vozes com seu
médico. Ele quer discutir o que as vozes dizem e seus significados, mas seu
médico diz para ele que as vozes são apenas sintomas de sua doença, que
ignora-las é a melhor solução.

George, no entanto, ouve as vozes lhe falando sobre coisas profundamente


relevantes e significativas. Nesse contexto, como ele pode acreditar que essas
vozes são parte de uma doença e não possuem nenhum significado outro?

O que Marius Romme nos apresentou em comparação com essa visão


A pesquisa realizada por Marius, por exemplo, surgiu com uma resposta muito
diferente á visão tradicional de diversos psiquiatras, como descrito na
exemplificação acima. Mas por que?

A razão para isto seria a de que Marius teria desenvolvido sua compreensão da
experiência de ouvir vozes dialogando com os próprios ouvidores, pedindo-lhes
que respondessem perguntas básicas, tais como: Quando as vozes
começaram? Quantas vozes você ouve? Quantas vezes você ouve? O que você
acha que a voz representa? O que elas dizem? O que te ajuda? etc.

Surpreendentemente, estas perguntas nunca tinham sido solicitadas antes, de


uma forma sistemática, e a experiência subjetiva direta dos ouvintes teria sido
largamente ignorada.

Romme, mesmo sendo um psiquiatra, chegou à conclusão de que, na realidade,


enxergar o ouvir de vozes como parte de uma doença e ignorar os conteúdos
expressados por elas era, explicitamente, algo inútil e contraproducente.

Nesse contexto, Marius apontou que o real problema não estava no fato de se
ouvir vozes, mas sim na maneira como se lida com elas e com aquilo que elas
estão dizendo.

Romme percebeu a importante ligação entra o aparecimento das vozes e a


história de vida da pessoa as ouvindo.

Implicações para os profissionais da área da saúde mental

Seria extremamente útil para pessoas que trabalham na área da saúde mental e
do serviço social analisarem em maior detalhe novos quadros de estratégias de
enfrentamento em relação a experiência de ouvir vozes.

Este movimento parece ser o mais útil para usuários da rede que ouvem vozes;
poderíamos ser muito mais capazes de apoiar e ajudar os ouvintes se isso fosse
levado a sério.

As principais etapas deste processo são as seguintes:

 Aceitar a experiência do ouvinte junto com ele


 Tentar compreender as diferentes linguagens utilizadas pelas vozes
 Tentar entender a mensagem por trás do que elas dizem
 Considere ajudar o indivíduo a se comunicar com as vozes.

Para os profissionais da saúde mental essas etapas podem exigir um


considerável ampliação da perspectiva clínica, ampliando também geralmente
teorias aceitas dentro da profissão.
7) Conhecendo a INTERVOICE e seus princípios

A rede INTERVOICE foi criada em conjunto com o Movimento Internacional dos


Ouvidores de Vozes para ajudar ouvintes a encontrar suas próprias formas de
lidarem com suas vozes, demonstrando que:

• Existem várias explicações para a experiência de se ouvir vozes, explicações


que permitem vive-la de forma positiva.

• Diversas pessoas encontram formas de lidar com suas vozes fora do modelo
psiquiátrico. O conhecimento adquirido por elas pode beneficia-las nesse
processo

• As pessoas ouvidoras de vozes possuem apoio, como por exemplo, por meio
da participação em grupos de autoajuda compartilhando experiências,
explicações e métodos de enfrentamento e apoio mútuo.

Construindo a mudança

As pessoas que ouvem vozes, suas famílias e amigos podem ter grandes
benefícios ao não estigmatizar essa experiência. Isto pode levar a uma maior
tolerância e compreensão em relação as vozes.

Normalmente isto pode ser conseguido através da promoção de explicações


positivas e do fornecimento de estruturas para que esses indivíduos possam se
desenvolver em suas próprias formas de enfrentamento, levantando
conscientizações e enriquecendo a sociedade como um todo.

A rede tem como objetivos

 Dar apoio às pessoas que ouvem vozes para que construam uma melhor
compreensão de suas experiências ao lado de profissionais, familiares e
amigos.
 Fornecer ajuda terapêutica e informações que irão ajudar as pessoas a
lidarem mais eficazmente com suas vozes.
 Estabelecer grupos de autoajuda entre ouvintes para que possam
compartilhar experiências e discutir estratégias sobre como lidar com
vozes.
 Mostrar que o verdadeiro problema não é tanto o ouvir de vozes, mas sim
a incapacidade em lidar com essas experiências da melhor maneira
 Educar a sociedade sobre o significado das vozes e reduzir o estigma
 Demonstrar a vasta variedade de experiências e suas origens, assim
como possíveis abordagens de enfrentamento.
 Reunir ouvintes que não tenham estado em contato com serviços
psiquiátricos com aqueles tenham para a troca de ideias.

8) Falando sobre a experiência de se ouvir vozes


Falar sobre as vozes pode realmente ajudar. Os pontos a seguir funcionam como
princípios fundamentais para a abertura de discussões, conversas e afins, sobre
vivências com elas.

1. Abrir um espaço para discussão

As pessoas que ouvem vozes geralmente encontram-se em contato com


sociedades que podem oprimi-los por suas crenças e jeitos de pensar ou agir.

Como resultado, a potência da razão pode ser virtualmente extinta, pelo menos
inicialmente, o que torna praticamente impossível para estas pessoas falarem
sobre suas vivências diárias sem serem afetadas após isso.

A discussão aberta com outras pessoas oferece meios importantes para a


criação de algum tipo de rede colaborativa, buscando alcançar uma tentativa de
acordo para com as vozes da experiência.

Em particular, a comunicação ajuda as pessoas a aceitarem suas vozes. Nesse


processo, aumenta-se a autoconfiança e liberta-se do isolamento por meio do
envolvimento com aqueles ao seu redor.

2. Reconhecer padrões

As pessoas que ouvem vozes normalmente dizem que suas vozes seguem
padrões de conteúdo ou fala.

No processo, é possível aprender a reconhecer esse padrões, bem como seus


aspectos mais agradáveis e/ou desagradáveis em determinadas situações.

Tal conhecimento pode ajudar o ouvinte a se preparar para possíveis


reaparecimentos dessas vozes

3. Aliviar a ansiedade
A maioria das pessoas que ouvem vozes se encontram sozinhas inicialmente.
Isso pode fazer da experiência um criador de ansiedade, além de produzir
sentimentos de vergonha ou medo de enlouquecer.

Permitir o alívio da ansiedade por meio da conscientização, da conversa e do


frequentar de outros espaços além dos rotineiros se faz algo muito importante
dentro do processo.

4. Encontrar uma perspectiva teórica

Como profissionais da área, os ouvintes também procuram uma explicação


teórica para explicar a existência de suas vozes.

Uma abordagem pessoal para a compreensão ou um quadro específico de


referência pode ser útil e realmente existem muitas perspectivas diferentes
nesse sentido.

Estas incluem psicodinâmica, mística, parapsicologia e modelos psicossociais


distintos. Seja qual for à perspectiva adotada, algum tipo de teoria explicativa
parece ser essencial para o desenvolvimento de uma estratégia de
enfrentamento.

A menos que se conceda algum significado as vozes, é muito difícil começar a


organização de uma relação para com elas. De um modo geral, as perspectivas
que desencorajam o indivíduo a buscar o entendimento sobre as vozes tendem
a produzir menos resultados positivos.

5. Aceitar as vozes

No processo de construção do seu próprio ponto de vista e de responsabilidade


em relação as suas experiências, o primeiro passo essencial é a aceitação das
vozes como algo pertencente a si mesmo. Isto é da maior importância, mas
também um dos passos mais difíceis de se tomar.

6. Reconhecer seus significados

As mensagens contidas nas vozes podem ter significados distintos para a


pessoa que as está escutando. Faz parte do processo reconhecer esses
significados.

Cumprir esse objetivo dá margem para interpretações acerca dos porquês das
vozes, tornando mais fácil a compreensão delas para o ouvinte.
Tanto conteúdos ruins quanto conteúdos bons podem ter significados
específicos e podem, de alguma maneira, ajudar quem as ouve com questões
vividas no dia-a-dia ou em momentos mais antigos da vida.

7. Estruturar uma relação

A construção de uma estrutura em relação ao relacionamento com as vozes


pode ajudar a minimizar os sentimentos comuns de impotência.

Realizar isso pode ser extremamente valioso para ajudar pessoas a verem que
elas também podem estabelecer seus próprios limites e conter a intromissão de
determinadas vozes por meio dessa relação.

8. Utilizar eficazmente a medicação

A partilha de experiências também permite com que as pessoas conheçam


melhor quais medicamentos podem ser utilizados, como eles podem ser úteis e
quais são seus possíveis efeitos colaterais.

Tudo isso é importante, por exemplo, para saber se um determinado


medicamento foi útil, caso a pessoa queira seguir essa linha de tratamento, na
redução das vozes ou da ansiedade.

9. A compreensão familiar

Para além de compartilhar conhecimentos sobre as vozes com seus pares,


compartilha-los com familiares e amigos próximos pode ser algo muito positivo
se realizado da maneira certa.

Se a família e os amigos de uma pessoa ouvinte puderem aceitar seus vozes ao


lado dela, sua relação com a experiência pode se tornar mais amena, algo que
consequentemente pode melhorar seu senso de confiança e autoestima.

10. O crescimento pessoal

Quase todos os ouvintes que aprenderam a adaptar-se a suas experiências


relatam em retrospectiva que o processo tem contribuído para o seu crescimento
pessoal.

O crescimento pessoal pode ser definido como o reconhecimento daquilo que se


precisa para viver uma vida plena e como atingir estes objetivos. É um verdadeiro
processo de libertação.
11. Olhar para fora

Comunicar para outras pessoas sobre as vozes que ouve pode ter suas
desvantagens, como por exemplo, expor a si mesmo. Algumas pessoas, por
conta disso, sente-se acuadas e indispostas a dar esse passo. Em particular, os
ouvintes pacientes psiquiátricos.

Porém, as vantagens definitivamente superam as desvantagens. Entender a si


mesmo, a suas experiências e ter infinitas possibilidades para construir uma vida
saudável, ultrapassam a maior parte das expectativas.

O ouvir de vozes não precisa ser um estigma na vida de ninguém. Pessoas


ouvem vozes, lidam bem com elas e vivem felizes ao lado dos seus familiares e
amigos.

O objetivo deste e-book é mostrar justamente isso para as pessoas. Dar


fundamentos para que elas possam trilhar o caminho que quiserem, mas de
forma conscientizada e saudável, livre de preconceitos.

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Um pouco sobre Paul Baker, autor do E-book:

Graduado em sociologia e assistência social pela Universidade de Manchester,


Paul é secretário da International Mental Health Collaborating Network (IMHCN),
coordenador de mídias sociais da INTERVOICE e um dos fundadores da
INTERVOICE no Reino Unido. Paul presta consultoria em projetos na área da
saúde mental atualmente em Trieste (Itália), na Servia, na Croácia e no Brasil.

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