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ENTREVISTA (/ENTREVISTA/)

Qual o peso do colonialismo para o


presente e o futuro da África
João Paulo Charleaux 16 de dez de 2017 (atualizado 07/05/2018 às 14h54)

Acadêmico queniano Samson Opondo fala ao ‘Nexo’ sobre a ‘artificialidade das


fronteiras’ e a afirmação da identidade no mundo atual

FOTO: PHILIPPE WOJAZER/REUTERS - 13.12.2017

 PRESIDENTE FRANCÊS, EMMANUEL MACRON,


RECEBE PRESIDENTE DO MALI, IBRAHIM BOUBACAR
KEITA

 
O primeiro erro de quem tenta entender o peso do
colonialismo na política contemporânea da África é achar
que só a África teve seu passado, presente e futuro
marcado pelo colonialismo. Ou que essa marca foi
impressa de maneira inigualável sobre os africanos.

O segundo é achar que só a África teve suas fronteiras


desenhadas de maneira artificial por potências coloniais
que, nos séculos 19 e 20, não se importaram com as
idiossincrasias de povos diferentes que acabaram
confinados no interior de um mesmo país inventado.

Nesta entrevista ao Nexo, o cientista político queniano


Samson Okoth Opondo
(https://politicalscience.vassar.edu/bios/saopondo.html)
, do Vassar College, de Nova York, diz que o colonialismo
não é apenas “determinante para os destinos da África”.
Ele, “sem dúvida alguma, foi e continua sendo uma força
central na construção e na desconstrução do mundo
como um todo”.

Opondo diz que “fronteiras – ou limites, para ser mais


preciso – são tão artificialmente desenhadas na África
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quanto em qualquer outro lugar do mundo” e “a lição da
África seria menos sobre a artificialidade de suas
fronteiras do que sobre como desnaturalizar, negociar,
contestar ou reinventar essas fronteiras.”

O cientista político é um dos organizadores da coletânea


de ensaios “A Nova Violência Cartográfica
(https://www.amazon.ca/New-Violent-Cartography-
Geo-Analysis-Interventions-
ebook/dp/B008FZ0R5K/ref=sr_1_1/143-0902384-
0631312?s=books&ie=UTF8&qid=1513189063&sr=1-1) ”,
na qual diversos autores tratam da tensão entre o
conceito de Estado-nação e outras variáveis identitárias e
aspirações políticas das pessoas que vivem dentro dos
limites do que ele define nesta entrevista como “a
artificialidade das fronteiras”.

Ele pesquisa “a violência, a etnicidade e a diplomacia do


cotidiano”, na “cultura popular da África urbana” e esteve
na PUC do Rio de Janeiro em outubro de 2017 discutindo
“Racismo, razão humanitária e intervencionismo pós-
colonial”, num seminário que reuniu outros cinco
especialistas nos estudos de pós-colonialismo. Leia
abaixo a entrevista que o cientista político concedeu ao
Nexo por e-mail.

Quanto o colonialismo foi ou é


determinante para o presente e para o
destino da África?
SAMSON OKOTH OPONDO Eu não apresentaria o
colonialismo como determinante para os destinos da
África. Essa é uma posição derrotista. Mas, sem dúvida
alguma, o colonialismo foi e continua sendo uma força
central na construção e na desconstrução do mundo
como um todo.

Trata-se de um fenômeno planetário, como demonstrado


pela expropriação das terras e pela eliminação ou pelo
contínuo saque aos povos indígenas, e pela consequente
reorganização das políticas de maneira a fazer com que
elas sirvam de base para a vida moderna e para o
imaginário nacional das sociedades coloniais e pós-
coloniais.

Porém, o colonialismo não é imutável. Essa é a grande


lição das múltiplas resistências ao colonialismo na África
e suas diásporas. Por exemplo, a Revolução Haitiana
(/entrevista/2016/10/13/O-que-faz-do-Haiti-um-país-
de-crises-ininterruptas) [1804], este espaço da diáspora
africana, do colonialismo e da escravidão, nos oferece
uma expressão mais plena da busca pela dignidade
humana do que a Revolução Francesa [1789], que, apesar
de suas pretensões universalistas, foi essencialmente
uma revolução burguesa e racializada, baseada em uma
idéia muito limitada do humano/homem.

Nós vimos recentemente uma enorme


convulsão política na Espanha,
provocada pelas demandas
separatistas da Catalunha. Como
demandas separatistas funcionam no
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contexto africano, onde muitas das
fronteiras foram desenhadas de
maneira artificial pelas potências
colonizadoras?
SAMSON OKOTH OPONDO Fronteiras – ou limites, para ser
mais preciso – são tão artificialmente desenhadas na
África quanto em qualquer outro lugar do mundo. Então,
a lição da África seria menos sobre a artificialidade de
suas fronteiras do que sobre como desnaturalizar,
negociar, contestar ou reinventar essas fronteiras.

Assim
sendo, nós
podemos
olhar para
‘O Ocidente,
a demanda como diz
simultânea Edouard
por Glissant:
liberdade e “não está no
igualdade, Ocidente.
Isso é um
projeto, não
um lugar’

característica do referendo catalão


(/grafico/2017/10/04/O-que-move-o-separatismo-da-
Catalunha) por independência [2017], assim como para
as várias partes da África, como tendo [ambas] a ver com
visões prevalecentes de política, do povo e dos ideais de
Estado soberano, além das especificidades regionais.

As fronteiras reconhecidas do Estado-nação na Espanha


são tão construídas quanto as da África. O que os catalães
demandam, ou o que os envolvidos no debate sobre
“autodeterminação nacional” em territórios em disputa
na África revelam, é a violência fundacional que
estabeleceu o sistema do Estado moderno e os
mecanismos estruturais e as reivindicações de identidade
que os perpetuam.

Sendo menos contemporâneos e olhando para trás na


história da Catalunha, sob a coroa de Aragão, no século
12, ou antes da assinatura do Tratado de Westphalia [que
pôs fim a uma sequência de guerras na Europa,
estabelecendo as bases do moderno sistema
internacional, com o reconhecimento do Estado-nação
(/expresso/2017/09/28/Como-catalães-e-curdos-
reabilitam-o-debate-sobre-Estado-nação) e da
soberania], no século 17, quando a Catalunha estava sob
proteção da França, nós percebemos rapidamente as
mudanças fronteiriças e as reivindicações da Espanha e
do resto da Europa. Afinal, o Ocidente, como diz [o
escritor, filósofo e poeta] Edouard Glissant: “não está no
Ocidente. Isso [o Ocidente] é um projeto, não um lugar.”

Muitos dos europeus que erguem a voz


agora contra imigrantes africanos
descendem de colonizadores europeus
que em algum momento também
foram à África. O sr. vê conexões entre
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esses dois momentos e contextos?
SAMSON OKOTH OPONDO Para termos alguma
perspectiva, podemos olhar para o livro de António Lobo
Antunes [escritor e psiquiatra português que atuou como
militar em Angola, quando o país africano era colônia
portuguesa, até 1974] Regresso das Caravelas, no qual [o
navegador português] Vasco da Gama [1469-1524] e
outros navegadores e exploradores portugueses retornam
a Portugal após o colapso do império [português],
centenas de anos depois.

A
narrativa
de
Antunes ‘Parte da
faz um presença dos
imigrantes
africanos na
Europa pode
ser explicada
por meio do
mapeamento
do fluxo
reverso entre
colônias e
metrópoles.
Mas também
há algo novo
aqui. Tem
muito a ver
com as
desigualdades
criadas pelo
neoliberalismo’

emaranhado, colocando lado a lado práticas dos dias


atuais com as caravelas para mostrar como a escravidão e
as práticas coloniais moldaram o mundo moderno.

Sim, parte da presença dos imigrantes africanos na


Europa pode ser explicada por meio do mapeamento do
fluxo reverso entre colônias e metrópoles. Mas também
há algo novo aqui. Tem muito a ver com as desigualdades
criadas pelo neoliberalismo. Tem muito a ver também
com as guerras das quais a Europa é cúmplice, e que
deslocam milhões (/expresso/2017/06/19/Por-que-o-
número-de-refugiados-no-mundo-não-para-de-crescer) .
A hostilidade da Europa em relação aos imigrantes tem
muito de racismo e da recusa europeia de conviver com
os que ela considera terem práticas incomensuráveis [de
afirmação] de identidade.

Em todo caso, a Europa não é o único destino ou o


destino preferido de muitos imigrantes africanos. É
apenas um dos menos hospitaleiros com um controle
migratório por vezes letal, em alguns casos delegado a
países como a Líbia [situada no norte da África, de onde
muitos imigrantes indocumentados partem na tentativa
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temcruzar o mar
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Quão importante é a presença chinesa


na África hoje, em termos diplomático,
político, econômico e militar? Trata-se
de uma nova forma de colonização?
SAMSON OKOTH OPONDO O uso do termo “colonialismo”
para se referir a toda relação assimétrica com a África
impede que nos coloquemos novos questionamentos ou
que venhamos com novos termos para perceber o que
está ocorrendo no continente. Além disso, apresenta a
África como um sujeito passivo, não como agente.

Há uma longa história das relações sino-africanas que


não é necessariamente colonial. Vai dos engajamentos
mais recentes, durante a Conferência de Bandung, em
1955 [encontro de 29 países africanos e asiáticos, na
Indonésia, ocorrido há 62 anos], a encontros muito mais
antigos. Poderíamos retornar à mesma costa swahili
[leste da África], no Oceano Índico, que foi brutalizada
por Vasco da Gama nos séculos 15 e 16, e descobrir as
atividades de Zheng He [1371-1433], o navegador
diplomata eunuco chinês da Dinastia Ming [1368-1644]
que teve engajamentos mais afirmativos com os africanos
no mesmo período.

Hoje, o Consenso de Beijing [nome dado à visão chinesa


para as relações atuais com o mundo exterior] parece dar
margem de manobra para os Estados africanos presos
nas garras do Consenso de Washington [nome dado a
partir de 1989 ao receituário neoliberal americano que
pautou as relações internacionais dos EUA, sobretudo
com os países em desenvolvimento]. No entanto, [o
Consenso de Beijing] também amplia e aprofunda
algumas das ideias consensuais mais problemáticas, tais
como o capitalismo neoliberal, os projetos
desenvolvimentistas, os regimes cleptocráticos e a
dimensão militarista das políticas africanas. A alternativa
ao Ocidente não parece ser uma alternativa para todos.
Talvez um relacionamento mais duradouro entre a China
e a África seja mais promissor para o futuro.

NEXOEDU (/EDU) Em dois momentos diferentes, o Brasil


se propôs a desenvolver uma relação
TEMAS sul-sul com os países africanos –
primeiro, durante a ditadura militar
INTERNACIONAL
(1964-1985) e, mais recentemente,
(/TEMA/INTERNACIONAL)
durante o governo do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (2003-2010).
Como esses movimentos foram
percebidos na África? Tiveram impacto
real?
SAMSON OKOTH OPONDO Vou levar sua pergunta para
outra direção e apresentar uma resposta breve e talvez
até evasiva. Antes de pensar nas relações África-Brasil ou
sul-sul dentro da linguagem diplomática de Estado, é
importante olhar mais criticamente para a história e para
os futuros possíveis das relações afro-brasileiras como
um todo.

Se focarmos na ideia de Lula, sobre a existência de um


débito histórico do Brasil e de uma obrigação moral dos
brasileiros em relação à África, com base no
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reconhecimento de que milhões de africanos foram
enviados como escravos ao Brasil, então fica claro que a
história das relações África-Brasil é uma história de
desaprovação em relação a uma história mais íntima e
assombrosa. Sendo esse o caso, repensar, revigorar e
renegociar as relações afro-brasileiras não significa
apenas fazer crescer as relações econômicas com os
Estados africanos, sob os Brics [grupo formado por
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul], mas
significará também repensar políticas de reparação e de
pertencimento, [em relação aos descendentes de
africanos] no Brasil, tomando a sério reivindicações das
comunidades quilombolas e de outros grupos
subalternos. Em resumo, vamos colocar a questão da
África, do Brasil e das relações afro-brasileiras de
maneira mais crítica.

VEJA TAMBÉM
EXPRESSO (/EXPRESSO/) Como
funciona o ‘G5 do Sahel’, a aposta
africana para combater o terror
(/expresso/2017/12/15/Como-funciona-
o-‘G5-do-Sahel’-a-aposta-africana-para-
combater-o-terror)

SAIBA
(https://thetrustproject.org/) MAIS

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