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•• COMUNICAÇÃO E PESQUISA
PROJETOS.,.PARA MESTRADO E DO'UTORADO

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à memória de Philadelpho Menezes.,
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for the sake of
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knowledg~.

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CONSELHO EDITORIAL

Antonio Albino Canelas Rubim, Antonio Fausto Neto,


Ciro Marcondes Filho, José Luiz Braga, José Salvador Faro,

•• Lucia Santaella, Luiz Martins, Muniz Sodré,


Nilda Jacks, Paulo Cunha, Sérgio Cappar elii, Vera França
SUMÁRIO

•• EDITOR DA COLEÇÃO
José Luiz Aidar Prado Nota de apresentação 11

•• © 2001 by Lucia Santaella

•• Introdução 13

Criação Fotoqráfica da Capa 16


. Roberto Temin 1. Definição de comunicação

•• Capa
AREA Comunicação Visual
2. Emergência e desenvolvimento da área de comunicação 23

•• Revisão de Texto
Lucila Lombardi Capítulo 1
Histórico das teorias, modelos e âmbitos de
27

•• 1a edição: 2001
1a reimpressão: 2002
2<1 reimpressão: 2006
pesquisa na comunicação

31

•• Catalogaç ão na fonte - Biblioteca Central PUC-SP

Santaella , Lucia
1. A mass communication research e seus desdobramentos
2 . As teorias críticas
3 . Os modelos do processo comunicativo
38
44

•• Comunica ção e pesquisa: projetos para mestrado e doutorado';


Lucia Santaella - São Paulo: Hacker Editores, 2001,
216 p.
3.1 Modelos lineares
3.2 Modelos circulares
52
53

'•.
Bibliografia. 3.3 Modelos in te ra t iv o s 54
ISBN: 85-86199-29·9 55
3.4 O modelo lingüístico-funcional
3.5 O modelo semiótico-informacional 56

•• 1. Comunicação - Pesquisa. 2. Comunicação e semiótica


3. Pesquisa - metodologia 4. Pesquisa - projetos
I. Título 2. Série
CDD 302.2072
3.6 O modelo semiótico-textual
3.7 Os modelos cognitivos
4. As tendências culturológicas e midiáticas
57
59
"62

•• 2006
Hacker Editores
5 . Conceitos de comunicação nas ciências vizinhas 70

•• Fonefax: (Oxx11) 3733 7912


www.hacker-editores.com.br

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114
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••
75 4 . A lógica no coração da metodologia
Capítulo 2 5. Abdução, indução e dedução 117
Mapeamento da área de comunicação 122
6. O método das ciências
127

.'
7. As metodologias específicas das ciências
I. A onipresença da comunicação 75 8 . Tipos de métodos 133
78

.:•
2 . Digitalização e cibe respaço 139
9. Tipos de pesquisa
3 . A teia inter-multi e transdisciplinar da comunicação 80
10. Procedimentos, técn icas e instrumentos 148
4. Traçado geral do mapeamento 84
5. Os territórios da comunicação
5.1 O território da mensagem e dos códigos
5.2 O território dos meios e modos de produção das mensagens
5.3 O território do contexto comunicacional das mensagens
86
86
87
8a
Capítulo 4
O projeto de pesquisa e seus passos
151

.'
••
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1. Questões de um projeto 153
5.4 O território do emissor ou fonte da comunicação 88 157
2. A escolha do tema
5 .5 O território do destino ou recepção da mensagem 89 159
3. Estudos preliminares
6. As in ter fac es dos territórios da comun lcaçáo 90 3 .1 O pré-projeto 161
6.1 As me.nsagens e suas marcas 91 4. Â elaboração do projeto 162
6.2 Interfaces das mensagens com seu modo de produção
6 .3 Interfaces das mensagens com o contexto
92
92
4.1. Os antecedentes
4.2. A definição do problema
163
164 •
.1
.;.'.'
6.4 Interfaces dos meios como contexto 93 4.3 O estado da questão 167
6 .5 Interfaces das mensagens com o sujeito produtor. .: 94 4.4 A . apresentação das justificativas 172
6.6 Interfaces dos me ios com o sujeito produtor . 94 4 .5 A explicitação dos objetivos 174
6.7 Interfaces do conte xto com o sujeito produto r 95 4.6 A formulação das h ípóteses : 176
6.. 8 Interfaces da mensagem com sua recepção 95


4.7 O quadro teórico· de referência 182
6.9 Interfaces dos meios com a recepção das mensagens 96 4.8 A seleção· do método 185
6.] O Interfaces do contexto com a recepção
6.11 Interfaces do sujeito produtor com a recepção
7. Inserção das teorias e ciências da comunicação no mapa
96
96
98
4.9 A equipe de pesquisa
4.10 O cronograma
187
188 ••
7.1 Teorias da mensagem, códigos e suas
7 .2 Teorias dos me ios e suas interfaces
interf~ces 98
99
4.11 Os recursos necessários
4 .12 A bibliografia
4 .13 Nota final
188
188
189
••
7.3 Teorias do contexto e sua sjn terfa ce s
7.4 Teorias do sujeito e suas interfaces
7.5 Teorias da recepção e suas interfaces
99
100
100
Roteiro de leituras 190 •.1
Bibliografia 195
••
••
Capítulo 3 103 216
Sobre a autora
A pesquisa, seus métodos e seus tipos

1. A ciên~ia como coisa viva


2. O valor das teorias
3. A pesquisa como alimento da ciência
103
109 '
112
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.".
••
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••
•• NOTA DE APRESENTAÇÃO

••
••
•• A quantidade de literatura sobre metodologia c ientíficaç .
metodologia da pesquisa científica, metodologia do trabalho cie~~· .

•• tífico , projeto de pesquisa etc., publicada no Brasil ou traduz.idà.


. para o português, é surpreendentemente grande . Há um título , illf"::-.: . . .

•• clusive, que j á passou da 20 a edição (SEVERINO, 2000). Uma>


boaparte dessa literatura está indicada na bibliografia ao firi-ãl~ ': '
.. ":

• deste volume . Tendo em vista a e xistência prévia dessa literatura;


para evitar redundâncias desnecessárias , decidi dedicar grand:~:-­
•• parte deste livro à contextualização da área de comunicação, com

•• atenção voltada para a sua história, o histórico de suas teorias e o


mapeamento de sua conjuntura atual. Tal decisão também foi de-
vida ao fato de quejulgo ser essa uma informação imprescindível

•• para que o pesquisador, especialmente .aquele que es tá s~'inic ian-


do na área, possa nela se localizar, .algo que não é nada fácil de se

•• conseguir sem ajuda, dada a complexidade crescente da cornuni-


cação no mundo contemporâneo .

•• A. maior parte d-a bibliografia publicada sobre metodologia está


voltada para as ciências sociais, para a psicologia e a educação.

•• De que tenho notícia, só existe um livro dedicado especificarnen-


te à reflexão sobre pesquisa e projetos de pesquisa em comunica-

.•)

12
Comunicação & Pesquisa
.'•
ção (LOPES, 1990), além de alguns balanços e inventários da
pesquisa nessa área no Brasil (por exenlplo MELO, 1983 , 1984;
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••
MELO, org. 1983). Urna vez que, em nenhum nlonlento, ,na
idealização e feitura deste livro , acalentei qualquer pretensão de •
.~

.'•
que as informações nele contidas possam substituir a excelência
da reflexão realizada por Lopes, e tamb ém para evitar U1l1a certa
angústia da influência, busquei" dar ao texto que se segue, tanto,
quanto possível, urna versão complel11entar ao texto de Lopes, de
1110do que ambos possam dialogar. Afinal, quando escrevenlOS, .'•
'e speci alnl ente Ul11livro COl110 este, conlinclinações didáticas, nosso
movimento se dirige na direção do leitor. É o leitor que desejamos .•1
possi vel mente beneficiar. U ma vez que a complenlentaridade é
, sempre um benefício, está lançado o diálogo. A qualquer observador·do mundo contemporân~o, atémesmo


entre os mais leigos, o termo "comunicação" e as noções que ele . \
carrega se impõem masslvamente. É voz corrente a afirmaçãode . '
que estamos inseridos em uma civilização da comunicação. Ora, . :
Lucia Santaella o ser humano sempre foi por natureza um ser simb ólico , ser de
Kassel, janeiro 2001 linguagem e de comunicação. Comunicar-se, portanto, não é no- \.
vidade para o humano. Então onde está a novidade? Ela só pode •
estar na mul!iJ2.!icação crescente e acelel:ada 'dos meios de' ql~e o . '
ser huma~dlspõepara criar, registrar, transmitir e arm~zenar lin- •
guagens e informações (BAYLON e MIGNOT, 19?9: 3). . •
De fato, desde a-revol uçào eletro-mecânica, 'com suas máqui- •
nas capazes de produzi;" e reproduzir linguagens - especialmente •
as máqui nas de impressão , a fotografia e o cinema - a cornplexi- •
dade do campo da cOl11unicação cO~l1eçou ' a crescer exponencial- . :
mente. Tal exponenciaçã~ :fica'y isível quando se comparam as
má~uihas :le.tro-m,e~ânicas C~I~ as máquinas-aparelhos da rev~- :
1uçao eletrônica, r ádioe televisão, estas cap~zes de urna potência
. de difusão que as anterioresnão podiam sonhar alcançar. Na pas- •
sagern que estamos vivenciando da revolução , ~ letrôni ca 'i)ar a a •
revolução digitalcom sl~as máquinas-dispositivos
. .
computacionais •
, ', .•

• 14
Comunicação [, Pesquisa Lucia Sentaeüe

••aliadas às telecomunicações em dimensão planetária, a exponen-


ciação da complexidade do campo da comunicação começa a atin-
Durante três anos, de 1992 a 1995, fui consultora ela área ele
c?l11unicação no CNPq. A Iistagern de disciplinas e campos de

••gir proporções gigantescas.


A entrada do século XXI deverá ser lembrada no futuro COl110
que ,o CNPq dispunha corno componentes ela área de comunica-
ção mais se parecia a Ul11a enumeração caótica que, como recurso,

• a entrada dos meios de comunicaç.ão em urna nova era: a da trans- pode ser muito bom para dilatar a arnbiguidade dos sentidos na

'.• formação de todas as mídias em transmissão digi tal, como se o


mundo inteiro estivesse, de repente, virando digital. Transmissão
poesia, ITIaS se presta bem mal corno auxílio à compreensão I:acio-
nal e objetiva dos estados de coisas que a . realidade apresenta.
~~t~.~yezes, tínhamos de julgar projetos, nitidalTIente interdis-
•• digital quer dizer a conversão de sons de todas as espécies, iI11a-
gens de todos os tipos, gráficas ou videográficas, e textos escritos ciplinares, que suscitaval11 fortes dÚvidas gUalito à sua inserº-ªo

•• em formatos legíveis pelo computador. Isso é conseguido porque ou não na área de comunicação. Ora, o conhecimento poele não'
as informações contidas nessas linguagens podem ser quebradas ter fronteiras, quando o tomamos em se~tido lato, mas pesq'UTSãs (
e~pecíficas devem necessariamente estar enquadradas em árec:..s

••
em tiras de 1 e O que são processadas no computador e transmiti- <-

das via telefone, cabo ou fibra ótica para qualquer outro computa- de conhecimento definidas, inclusive nas suas interfaces. . z

dor, através de redes que hoje circundam e cobrem o globo corno Desde essa época, senti a necessidade e fiz in úrneras premes- .

•• unia teiasem 'ce ntro nem periferia, ligando cornunicacionalrnente, sas a mim mesma de que um dia pensaria com calma na elabora-

~
em tél~lpO quase real, milhões e milhões de pessoas, estejam elas ção de um mapa geral dos campos recobertos pelaárea de cornu-

•• onde estiverem, em um mundo virtual no qual a distância deixou


de existi r.
~icação que, pelo menos, fosse capaz de avançar uns passos eIll
relação à enumeração caótica _d~ que o CNPq dispunha. A pro-

•• Vem daí o papel central que os fenômenos da comunicação


passaram adesempenhar eITI todos ossetores 'da vida social e in-
Dlessa ficou guardada em uma gaveta da memória . . . ' .
Há pouco mais de um ano, fui convidada pelo edi tor da Hacker,

•• ,di~idtial eo papel fundamental que a comunicação COI110 área de


conhecimento está fadada a desempenhar em muitas outras áreas,
José Luiz Aidar Prado, para escrever este livro sobre Comunica-
ção & Pesquisa, para fazer parte da coleção Comunicação &, fun-

•• e não apenas naquelas que lhe são vizinhas: da biologia à econo-


mia, da inteligência e vida artificiais à antropologia, da filosofia à
dada pela editora. Ao dar início aos trabalhos para a escritura do
livro, voltou imediatamente a necessidade de que as reflexões e
mesmo indicações sobre os caminhos da pesquisa em comunica-

•• etnologia etc.
Uni crescimento tão acelerado das bases reais.de lL111a área de
conhecimento só pode produzir confusões e dificuldades de COITI-
ção fossem antecedidas por um mapeamento da área e dos carn-
pos que ela cobre. Foi então que minha promessa teve de ser tira-


.'•
preensão, inclusive naqueJ~s que trabalham na área e nela pesqui- da da gaveta .
sam. As afirmações de qu~ a complexidade da comunicação advérn Muito rapidamente me dei conta de que não poderia elaborar
esse mapa apenas conl o repertório dos conheci mentes sobre a

.'..1
da sua natureza inter, multi e mesmo transdisciplinar já se torna-
ram um truisrno. Em.função disso, parece urgente dar um passo à área de comunicação que estavam arquivados em minha rnernó-

.;.) frente e tentar divisar quais são os fios e os desenhos que essa ria, assim como não poderia me valer apenas elos livros panorârni-
,' multidisciplinaridade está criando . cos sobre os campos e teorias da comunicação que circulam no
16 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 17

contexto brasileiro. Para dar início ao trabalho, portanto, fiz um multifacetado quanto a comunicação humana, concluindo pela
primeiro levantamento dos livros-textos de comunicação de publi- natureza multidisciplinar da comunicação e definindo-a como "in-
cação ou re-edição recentes em várias línguas. Para esse levantamen-
to, utilizei não apenas os meios de busca que se tornaram atual-
teração social através de mensagens". Batendo na mesma tecla,
Baylon e Mignot (1999: 9-10) acabaram por concluir que a comu- . ••
mente muito facilitados graças à internet, mas fiz também entre- nicação "é uma relação dos espíritos humanos, ou melhor, dos
vistas on line com vários pesquisadores de minhas relações que cérebros humanos".
trabalham na área de comunicação no Brasil e em outros países.
Com o estudo dessa bibliografia, pude elaborar uma primeira
versão de um mapa da área de comunicação. Tendo essa primeira
Segundo Nôth (1990: 169-170), para se começar a definir co-
municação, deve-se tentar separar a esfera dos fenômenos .comu-
nicativos da esfera dos eventos não comunicativos. Entretanto, ao
••
versão em mãos, passei para uma segunda fase de pesquisa biblio- invés de postular uma clara ruptura entre os fenômenos comuni-
gráfica em um número bem maior de títulos de livros na área de cativos e não comunicativos, pode-se conceber uma transição gra-
comunicação. A leitura dessa bibliografia adicional permitiu que dual que vai dos modos de interação proto-comunicativa mais ru-
a primeira versão do mapa fosse sendo gradativamente testada, dimentares até os mais complexos. Dessa maneira, sem pretender
burilada, autocriticada e aprofundada. Dessa pesquisa, resultou o uma unificação dos diversos conceitos, o .autor toma como ponto •
mapeamento que será apresentado no capítulo dois. Esse mapea- de partida os fenômenos unilaterais, continuando com as interações •
mento tem a finalidade de servir como uma orientação preliminar, simples, para as bilaterais, então as intencionais, as lingüísticas,
um reconhecimento do território, para todos aqueles que se en- para terminar com a metacomunicação. Nõth comentou que as •
contram diante da necessidade de elaborar um projeto de pesqui- teorias dos níveis biológicos de interação também sugerem uma •
sa na área de comunicação. Antes do mapeamento, entretanto, e transição gradual dos modos de interação não comunicativos para
para lhe dar fundamento, é necessário, em primeiro lugar, nos en- os comunicativos. De uma perspectiva diferente, Kelkar (1984:
tendermos sobre o sentido que estamos ~andC? para "comunica- 112-14) também distinguiu vários graus de "primitivismo" dos •
ção". Em segundo lugar, é preciso esboçar o panorama do desen- eventos comunicativos
volvimento histórico das teorias, modelos e tendências das pes- Defensor de uma visão generalizada da comunicação, fenômeno
quisas em comunicação. É o que será feito, respectivamente, nes- que teria início já em situações muito rudimentarmente comunica- •
ta introdução e no próximo capítulo. cionais, foi Meyer-Eppler. Em sua definição, comunicação é a "re- •
cepção e o processamento de sinais detectáveis física, química ou

••
..-....

1. DEFINIÇÃO DE COMUNICAÇÃO biologicamente por um ser vivente" (1959: 1). De acordo com esta
teoria, qualquer processamento de informação por organismos in-
Não são poucos os autores que têm colocado ênfase na plura-
lidade dos fenômenos que podem ser chamados de comunicacio-
dividuais (que não sejam máquinas) constituem uma instância de
comunicação. A cooperação ativa da fonte do sinal no processo ••
nais ena conseqüente polissemia do termo "comunicação". Ten-
do isso em vista, Fiske (1990: 1), por exemplo, perguntou se po-
não é necessária. A fonte pode inclusive ser um objeto inanimado.
A maioria dos estudiosos rejeitaria aplicar o termo "comuni- ••
demos considerar como UIn campo de estudo algo tão diverso e cação" a uma tal situação, pois, sem algum tipo de atividade da

- - - -- ~ _. - - . - - -I - -- - --
LUCia senteene

•• parte da fonte do sinal, tem-se um domínio muito baixo do campo portamento humano" (1949: 3). Qualquer forma de comportamento

•• comunicacional. Entretanto, Meyer-Eppler definiu essa situação


sob o nome de "comunicação unilateral" por prever o papel que
um observador desempenha nesse tipo de processo, o que já o
não-verbal pode, desta maneira, tornar-se comunicativo. Ainda
segundo Nõth (ibid.: 171), Ruesch (1972: 82-83) descreveu o pro-

•• caracterizaria como comunicativo com dois subtipos: observação


e diagnóstico. Na comunicação observacional, um observador
cesso de transformação do comportamento em comunicação da
seguinte forma:

•• percebe e processa sinais de uma fonte inanimada. Esta situação


comunicativa é típica da física e química. Na comunicação diagnós-
"Uma ação torna-se uma mensagem quando é percebida tanto pelo
próprio ser quanto por outras pessoas. Em outras palavras: os sinais

•• tica, os sinais originam-se em um emissor vivo. Esta forma de


prato-comunicação unidirecional de um organismo a outro é caracte-
de trânsito se tornam mensagens quando há um receptor que, no
lugar de destino, pode avaliar o significado destes sinais. Tal defini-

•• rística das observações na biologia, medicina e psicologia.


Entre aqueles que reservaram o sentido de "comunicação" para
ção inclui a comunicação entre seres humanos e animais, assim como
entre os próprios animais. De fato, todos os organismos biológicos,

•• a interação mútua entre duas entidades, há alguns pesquisadores


que incluíram nessa interação tanto máquinas quanto células bioló-
incluindo as plantas, recebem, avaliam e enviam mensagens. Resu-
mindo: a comunicação é um princípio de organização da natureza".

•• gicas. No terreno das máquinas, para a cibernética e a teoria de siste-


mas, há comunicação onde houver interação entre quaisquer dois
sistemas. Assim, Klaus(l969) em seu dicionário de cibernética
Nõth chamou atenção para o fato de que a interação semiótica,

•• definiu comunicação como "a troca de informação entre sistemas


dinâmicos capazes de receber, estocar ou transformar informação".
como definida por Shannon & Weaver, ainda não implica qual-
quer congruência entre a mensagem do emissor e a interpretação do .
receptor. Porém essa característica de congruência é um critério adi-

•• Para outros teóricos de sistemas, a comunicação só começaria na


esfera biológica da vida. Desse modo, Rosnay (1975: 135) descreveu
cional de distinção estabelecido em algumas definições de comu-
nicação. É uma característica que já é sugerida pela etimologia da

•• as moléculas da vida como "indivíduos informacionais" com memó-


ria e capacidade de reconhecimento. A troca de informação, nesse
palavra, que implica "um repartir comum de informação". Uma
formulação clara do critério de congruência é dada por Richards,

•• processo químico de comunicação, acontece tendo como base o có-


digo genético. Para Rosnay, a "história da comunicação" se estende
quando diz que "a comunicação [...] acontece quando uma mente ao
agir sobre seu meio ambiente influencia outra mente, e, nesta outra

•• desde a comunicação entre moléculas e células biológicas até as


interações entre organismos e, finalmente, entre seres humanos.
mente, ocorre uma experiência que é semelhante à experiência na
primeira mente e que é causada, em parte, por aquela" (1928: 177).

••
Também baseado no critério de interação mútua entre organis- Subindo mais um degrau, o critério adicional para se definir
mos encontra-se o conceito bastante amplo de comunicação de comunicação é o de intencionalidade. Intenção é atividade dire-
Shannon & Weaver. Estes definem comunicação como "todos os cionada a um objetivo, envolvendo, portanto, a volição. Na co-
•• procedimentos pelos quais uma mente pode afetar outra. Isto, ob-
viamente, envolve não apenas o discurso oral e escrito, como tam-
municação, intenção é a tentativa consciente do emissor de influen-
: ciar o receptor através de uma mensagem, sendo a resposta do

•• bém música, artes visuais, teatro, balé, e, certamente, todo com- receptor uma reação baseada na hipótese das intenções da parte


20 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 21

do emissor. Assim sendo, a maioria das expressões corporais visí- .ção social. Com seu axioma metacomunicativo, Watzlawick et aI.
veis de emoções não são intencionais. postularam a tese da impossibilidade de não se comunicar (1967: 48-
Numa tradição lingüístico-serniótica que vai de Buyssens 51). Depois de enfatizar que a comunicação pode ocorrer tanto
(1943) até Prieto (1966, 1975) e Mounin (1970, 1981), .a intencio- verbalmente como em muitas modalidades não-verbais, os cria-
) nalidadetem sido discutida como um traço distintivo de comuni- dores deste axioma argumentaram: "O comportamento não tem
} . ~ação. P~ra Prieto (1966: 20; cf. HERVEY, 1982), todo ato co~u­ oposição. Não há algo como o não comportamento. Ninguém pode
l n~ativo pressupõe uma intenção da parte do emissor, que tem que não se comportar" (ibid.: 48). Assim, também "ninguém pode não
?
ser identificável por parte do receptor. .
se comunicar" (ibid.: 49). Mesmo o silêncio e o "não comporta-
Em seguida, Nõth (ibid.: 172) esclareceu que qualquer uso da mento" têm o caráter de uma mensagem.
linguagem se caracteriza, evidentemente, sempre como umyro-
cesso de comunicação. No entanto, quando os lingüistas discutem --
l)evjto (1997: 20-31) definiu os princípios da comunicação
humanacorno se segue: a comunicação é um pacote de signos; a
a função comunicativa da linguagem, nisso fica implicado que a comunicação é um processo de ajustamento; a comunicação en-
linguagem pode também ser usada com funções não comunicati- volve conteúdo e dimensõ~s relacionais; as seqüências comunica-
vas. Para alguns lingüistas, interação verbalé comunicação e "co- tivas são pontuadas; a comunicação envolve transações simétri-
municação" é o termo genérico que cobre todas as funções da cas e complementares; a comunicação é transacional; a comuni-
linguagem. É neste sentido que Jakobson fala de seis funções da cação é inevitável, irreversível e irrepetível.
comunicação verbal. Pacotes de signos dizem respeito aos diferentes tipos de sig-
Outros lingüistas restringiram o termo "comunicação" para ape- nos que concorrem para compor uma mensagem. Esses pacotes
nas uma das várias funções da linguagem, geralmente aquela mais em geral nos passam despercebidos, mas quando há uma contra-
importante. Nesse sentido, Martinet definiu comunicação como a dição na relação de um pacote com outro, por exemplo, quando.
função central da linguagem que se refere à "necessidade que alguém expressamos medo com as palavras e o resto do corpo se mantém
tem de ser entendido" (1960: 18): Para François (1969: 75), outras relaxado, tomamos consciência desse princípio dá comunicação.
funções como a expressiva e a apelativa não são comunicativas. Embora duas pessoas possam estar utilizando os mesmos sis-
Por fim, definido como "a habilidade de se comunicar sobre temas de linguagem, a comunicação só ocorre através de um pro-
comunicação, de se comentar sobre as ações de significação de cesso de acomodação ou ajustamento contínuos para permitir que
alguém e de outros", o conceito de metacornunicação foi primei- a comunicação ocorra. Esses ajustamentos são tanto mais neces-
ramente desenvolvido no contexto d;Psicopatologi;-(BATESON sários nos casos de comunicação entre pessoas de gerações, cul- •
et al., 1956: 208). Assim, metacomunicação não se restringe a turas e classes sociais diferentes. •
uma metalinguagem científica (cf. SCHLIEBEN-LANGE, 1975), A comunicação se refere, ao mesmo tempo, a algo que está
mas é um princípio da interação social cotidiana. Por isso mesmo, fora do intercâmbio entre emissor e receptor e à própria relação
sua perda pode ser a causa da esquizofrenia. entre esses dois parceiros. Esses dois aspectos se reportam à di-
Watzlawick et al. (1967) foram mais longe ao afirmar que a mensão do conteúdo e da relação comunicati va.
rnetacornunicação está onipresente em qualquer instância da intera-
'-VIIIUIII~Q'TQV v r


C;:'L!UJ;:'Q

• Embora os eventos comunicativos sejam transações contínuas, nentes, tais como unidades subcelulares (por exemplo, as mitocôn-
• como participantes ou observadores, segmentamos o fluxo con- drias), células, orgúnculos, órgãos e aSSilTI por diante" (SEBEOK,
• tínuo da comunicação em pequenos pedaços. Costumamos cha- 1991: 22-23). Bem antes de operar no mundo macroscópico das
mar alguns desses pedaços de causas ou estímulos e outros de relações sociais humanas, a comunicação já opera na microscopia
• respostas ou efeitos. dos corpos vivos (ver JOHNSTON et aI, 1970; TOMKINS , 1975 ;
As relações comunicativas podem ser tanto simétricas quanto NEHER, 1992; SONEA, 1995).
Transportada inicialmente pelo código molecular primordial ,
••
complementares. Nas simétricas, os indivíduos envolvidos espe-
lham o comportamento um do outro. Nas complementares, o com- sujeita a uma contínua mudança qualitativa e quantitativa dos seg-
portamento cie um serve como estímulo para o comportamen- mentos genéticos e, posteriormente, transportada pela rede imuno-

•• to complementar do outro.
Quando a comunicação é vista como um processo transacional,
lógica de células que operam através de substâncias mediadoras
ati vas, a comunicação é, necessariamente, uma propriedade de toda

•• cada pessoa é, ao mesmo tempo, emissor e receptor, simultanea-


mente enviando erecebendo mensagens.
e qualquer forma de vida (SEBEOK, 1993: 3).
Além de sua presença nos sistemas vivos , são nada menos do

•• A comunicação é inevitável porque, mesmo quando não que-


remos, estamos o tempo todo emitindo mensagens para o outro.
que processos de comunicação que fazem as máquinas e os gran -
des sistemas cibernéticos funcionarem , conforme Wiener (1961)

•• Ela é irreversível porque não podemos voltar atrás naquilo que já


foi comunicado. Por fim, a comunicação é irrepetível porque to-
já demonstrou (ver também ECO, 1971).
Uma tal ampliação do sentido de comunicação não é mera so-

•• dos e tudo estão continuamente mudando. Em razão disso,mes-


mo quando lemos o mesmo livro , ou assistimos a um mesmo filme
fisticação inconseqüente. Ela se tornou hoje imperativa, pois, já
nos fenômenos de massa e, muito mais hoje, no fenômeno explo-
sivo das redes planetárias, a dinâmica da comunicação se faz mui-
••
pela segunda ou quarta vez, esse filme não será para nós o mesmo
filme. to mais entender à luz dos modelos do funcionamento dos siste-
Tendo esse panorama como pano de fundo, tomando-se agora mas vivos em nível microscópico, e mesmo à luz das leis que a

••
z

as constantes, isto é, os traços comuns a todas as definições que psicanálise extrai dos mecanismos do inconsciente, do que dos

'.

foram enunciadas acima, pode-se extrair uma definição ampla e
geral de comunicação que assim se expressa: a transmissão de
qualquer influência de uma parte de um sistema vivo ou maquinal
para uma outra parte, de modo a produzir mudança. O que é trans-
mitido para produzir influência são mensagens, de modo que a
processos conscientes de comunicação humana em nível social. É
por isso que estes têm muito a aprender com aqueles.

2. EMERGÊNCIA E DESENVOLVIMENTO DA ÁREA


. ' comunicação está basicamente na capacidade para gerar e consu- DE COMUNICAÇÃO
mir mensagens. Assim definida, a comunicação, algo que muitos
comunicólogos atribuem só aos humanos, já "está presente nas Na longa história da cultura humana, a preocupação com os
formas mais 'humildes de existência, sejam elas bactérias, plantas, fenômenos da comunicação é uma preocupação recente. Ela data
animais ou fungos, além de aparecerem nas suas partes subcornpo- de meados do século XX, tendo coincidido com a explosão do s
24 Comunicação (;. Pesquisa Lucia Santaella ,. 25 •

.'

meios de comunicação de massa e a consequente emergência da (STRAUBHAA,R e LAROS:g, ~997: ,~7). J:- rigor, e~t~et~nto, o
cultura de massas. Desde então, a comunicação e as questões que ,pri meiro meio de comunicação de massa foi o livro in:pres90qL~e, •
ela traz consigo foram se tornando cada vez mais sensi vel mente a partir da prensa mecânica, 'no século XIX, foi atingindo tiragens •
presentes até sua inegável onipresença resultante da recente proli- cada vez mais numerosas (MCQUAÍL, 198.3: 19 apud ·S ~~- . '
feração das redes planetárias de telecomunicação.
Embora os fenômenos da comunicação certamente já existis-
, TAELLA 2000: 34; CROWLEY e HEYER 1999 : 81-130) . Entre- .J
tanto , o fato de que o livro seja lido por um indivíduo no recesso . '
sem antes da cultura de massas, esses fenômenos não eram 'tão de sua solidão meditativa, mesmo quando a tiragem do livro alcan- •
abundantes nem tão diversificados corno passaram a ser. No mun- ça números significativos, o processo comunicativo que o livro •
do grego, dominado pela cultura da oralidade, a comunicação era instaura, especialmente quando comparado COIn meios quantita- •
estudada sob o nome de retórica, arte, especial mente oratória, de tivarnente poderosos corno o rádio e a TV, não costuma ser enqua- •
persuadir (ver BARTHES , 1970) . A invenção de Gutenberg, no drado no perfil de comunicação de massas.
século XV, que trouxe consigo a cultura do livro, foi revolucioná-
ria e inaugural de Lllll novo tipo de cult~lra, a cultura do livro, das
Do livro para o jornal, ocorreu um salto no caminho para a
comunicação massiva, visto que a tiragem diária do jornal alcan- ~

a
belles l~ttres. Entretanto, não chegou produzir um pensamento ça números com os quais poucos livros podem sonhar. Além dis- •
especulativo, teórico ou reflexivo sobre a comunicação. Enfim, so, a natureza descartável do jornal já começa a acomodá-lo dentro •
não produziu moditlcações substanciais nos modos de sentir os do requisito da provisoriedade que é básico na cultura de massas. De ' •
fenômenos comunicacionais , com exceção feita ao fato de que fato,- novos método'sd~ produção, acasalados COIU a explosão .,
d ata dessa época o surgimento das metáforas, do universo impreg- demogr áfica e a emerg ência-de novas audiências nos grandes centros •
nadas da imagem do livro: o "universo corno livro", "o livro da urbanos, levaram ao advento da imprensa e prepararam o terreno para •
~ natureza" etc. (ver ROTHAKER ) 1979) , os meios de massa (CROWLEY e HEYER, ibid .: 135-213). •
Isso se deu muito provavelmente porq.ue a linguagem verbal, , A grande explosão da comunicação massiva, entretanto, viria •
oral ou escrita, é sentida como algo tão natural quanto é natural a com seus do~s gigantes,. o. rádio e. a TV que, tendo seus alimentos . •
comunicação que ela permite. Esse senso de naturalidade não pro- fundamentais na publicidade, Instauraram a cultura popular '
picia que questionamentos e problemas sejam levantados. massiva, Foi só então que a comunicação se instituiu como área •
Na invenção da fotografia e do telégrafo, que se tornaram alia- de conhecimento reclamando para si urna certa autonomia , 'p or •
cios diretos do jornal, no século XIX, encontram-se os gérrnens da
revol ução comunicacional que, tendo emergido na revel ução i n-
dustri al , cresceu exponencialmente com os meios eletrônicos
exemplo, nos estudos da publicidade, nas análises de conteúdo
das mensagens veiculadas pelos meiose na pesquisa de opinião: •

Segundo nos informa Noth (1990: 169), técnicas de persuasão, •
de 'com unica ção massiva, rádio e TV, em meados do século XX, transferência de informação e liderança de opinião enquadraram- •
para alcançar surpreendentes dimensões planetárias COll1 a revo- se como tópicos desse novo campo de pesquisa (cf. SCHRAMM, •
lução ci berespaci al , na virada do século XX para o XXI. 1963; CORNER & I-IAWTHORN, 1980), campo que foi se de- •
AI osuns defendem
" a idéia de que a comunicação de massa teve senvolvendo até chegar à proposta de uma ciência da comunica- •
seus precursores já ern sociedades agr ícol as e pré-agrícolas ção COI11 a pretensão de "entender a produção, processamento e •


•. ) 26 Comunicação fI Pesquisa

•• efeitos dos sistemas de símbolos e sinais através do. desenvolvi-

•.•; mento de. teorias testáveis que contenham leis gerais" (BERGER
& CHAFFEE, 1987: 17) . Mas isso já nos leva aos interiores das

I., teorias da comunicação, assunto que reservei para ser tratado no


próx imo capítulo.

.•; HISTÓR'ICO DAS TEORIAS, MODELOS


E ÂMBITOS DE PESQUISA

•• NA COMUNICAÇAO

•• .'

Este 'c ap ítulo tem por função apresentar ~lm breve panorama
•• do desenvolvimento histórico das teorias , modelos e te~dências
da pesquisa em comunicação, Un1 tal panorama parece fundamental

••."
corno port~. de entrada para aqueles que pretendem elaborar um
projeto de pesquisa na área . Por isso mesmo , conforme deve ser
cabível a urna mera portade entrada , limito-me a indicar os carn-

'.•e\ pos de pesquisa acerca dos quais existe urn certo consenso corno
sendo definidores da área de comunicação no seu todo .
O panoramanão incluirá as teorias mais específicas e setoriais

.,.1 dos veículos de comunicação (imprensa, fotografia, cinema, rá-


dio, TV etc.). Tamb ém não i nc l uir á teorias híbridas que se desen-

•• volvem no cruzamento de áreas, tais COll10 antropologia da comuni-


cação, comunicação política, etc. Nemincluirá as variadas e possí-

•• .veis conexões dacomunicação, COl110, por exemplo, com as tecno-


logias ou com as instituições, etc.., pois tudo isso nos levaria a ca-

•• minhos sern fim de ramificações e especializações. Se não são


aqui consideradas no seu aspecto de teorias, essas ramificações
serão, entretanto, levadas em conta quando ela construção elo nos-

•• so mapeamento da área ele comunicação a serrealizada no capítulo 2.


Há duas obras bastante relevantes que trataram elo desenvolvi-

•• rnento histórico das teorias c1~ comunicação: Teorias da Comuni-


28
Comunicação [; Pesquisa
-: -- ., .

Lucia Santaella 29 .'


cação, de Mauro Wolf (1987) e História das Teorias da Comuni- Tornando como referência o contexto bt:asiLeiro, Lopes (1990 :
43-59) apresentou Uj11 panorama da periodização da pesquisa em
••
cação, de A . e M. Mattelard (1999) . Wolf desenvolveu uma cui-
dadosa história das teorias da cOlllunicação de massa , desde os ~onlunicação social. Essa pericdização encontra sua correspon-
, dênci a na noção de paradigmas científicos qu~, à luz do conceito
••
.'••
seus primórdios, entre as duas guerras mundiais do século XX,
até as tendências que estavam surgindo pouco antes da escritura de Kuhn (1'976), foram tornados pela ~Lltora co~o :"I~'atri ~es clis-
de sua obra , publicada originalmente em italiano, en11985 . Antes ciplinares de determinadas construções teóricas sobre o objeto da
da emergência daquilo que o autor chamou de "novas tendências", , comunicação comumente adotadas nas 'p esq uis as de Comunica-

•.'
foram oito os momentos através dos' quais os estudos sobre os ção Social" (LOPES, ibid.: 32).
meios de comunicação de massa se desenvolveralll: a teoria hipo- Fora,m 'o s seguintes os períodos levantados: dé~ada de 50, ca-

.•1
dérmica, a teoria ligada à abordagem empírico experimental, a racterizada por pesquisas funcionalistas baseadas em métodos
teoria que deriva ~a pesqu~sa ernpfrica de campo, a teoria de base quantitativos: de conteúdo, de audiência e de efeitos. Década de
~9, caracterizada por pesquisas furicionalistas baseadas em méto-
estrutural-funcion~1ista, a teoria crítica dos mass media, a teoria
culturológica, os cultural studies e as teorias comunicativas . .
,~ '
~ .
dos comparativos e de estudos 'de comunidades, na linha da co-
municação ~ desenvolvimento. Nessa época, começaram a surgir
.;.). J
.)
," , " , ,

No decorrer de sete capítulos, A. eM. Mattelard apresentaram


os primeiros estudos sobre indústria cultural 'b as e' a d o~ na E~cola
Ul11 amplo panorama do desenvolvimento das teorias.da cornuni-
cação e de sua inserção no contexto histórico e soci ~l"~:.~m que se de Frankfurt. D écada de 70,quan~0 se deu o apogeu' da influ~~cia
dessa Escola sobre os estudos da comunicação no B'~-asi~, ao mes- .)
originaram. Dada a -impossibilidade de colocar as teorits em uma i '
seqüência linear, visto que tendências distintas de investigação
foram se desenvolvendo paralelamente, os capítulos se distribuem
mo tempo que as pesquisas funcionalistas encontravam sua conti-
.nu id ade ern estudos descritivos
.. ..
d,e comunicação nacion~l'e i~;t~~:~ .•)
••.)
~

'nac ion al. Por fim, ~ década de 80, que se' caracterizou pelas pes-
em grandes ternas: o organismo social, os empirismos do n6va....
quisas funcionalistas sobre aspectos da produção e circulação da
.mundo , a teoria da informação, ~ iJ1.ç1ps.t1~i'a cultural, ideologia e
poder, a.economia .polftica da 'c ~ll1 ú ni~Tação , o retorno .q q~ c o ti dl a-
no 'e , por fim, o domínio da comunicação .
. ... ;. .A'h.
~G?w u n i cação , por estudos crfticos de modelos t~óri~~s"~ busca de
u~a teoriae metodologia latino-americanas; caracterizou~seain-
da pela politização das P.e. squisas sob infiuên~ia' ~eGra1?ls'ci, pe-
.)
. , Outra obra que desenvolve'u LlI11a aproximação histórica das
origens.,lilétodos e usos da comunicação n?s meios de rnassas'é a
de Severin e Tankard (1992). A introdução aos estudos de mass
}as metodologias qualitativas e por temáticas como novas tecno-
) 9,?.l.as , transnacionalização da .c u lt ur é}. e comunicação' popular
•.•)
(i,Qid.: 43-44). '
media da primeira parte é seguida pela apresentação dos modelos
••
~. ~ ; ... o.

Também no Brasil , mais recentemente, Rüdiger (2,000) publi-


de comunicação de massa na segunda parte, enquanto a t.erceira
cou um artigo no qual traçou, em passos largosvuma trajetória
parte está voltada para os estudos de percepção e linguagem. A
quarta parte é dedicada às pesquisas sócio-psicológicas, a quinta
parte aos efei tos: e usos dos mei os de massa e a sexta 'e' últi 111a'
hi~tó:··ica do campo da comunicação nos seguintes períodos: (a) o
per iodo clássico da Escola de Columbia, de 194Q. a 1960; (b) a
contribuição do funcionalismo e a ascensão da serniótica de 1960
•.•)
parte, à questão das instituições midiáticas, o. , • .- -.' . • .

•.)
_ 'I: _ , . . ...

e
a 1980; (c) o retorno à hipótese da mídia forte a retornada do

.)
•• jU x.omurucaçao CJ r esqursu Lucia Santaella 31

•• legado crítico, de 1970 a 1990, e (d) a emergência dos estudos


cultu-rais, desde 1980.
A mensagem, por sua vez, é a construção de signos que, na
interação com os receptores, produzem significados. Toda a ênfa-

•• Para finalizar esse tópico dos panoramas históricos das teorias


da comunicação, vale a pena mencionar o 'livro de Fiske (1990).
se aqui recai sobre o texto e o modo como é lido, sobre o proces-
so de descoberta de significados que ocorre quando o receptor

•• Realizando uma síntese radical, esse autor estruturou o seu livro


tomando como base a redução de todas as teorias da comunicação
a apenas duas escolas fundamentais: preocupada com o modo corno
interage e negocia COlll o texto. Essa negociação implica a expe-
riência cultural baseada em códigos e signos compartilhados em

•• emissores e receptores codificam e decodificam, COIno transmis-


sores usam canais e meios de comunicação, a primeira escola vê a
maior ou menor medida. Assim sendo, a mensagem não é algo
enviado de A para B, mas um elemento de uma relação estrutura-

•• comunicação como transmissão.de.mensagens. Daí se preocupar


com assuntos· como eficiência e exatidão, pois a comunicação é
da que inclui o emissor/receptor e a realidade externa (ibid.: 2-3).
Embora tenha me valido das obras apresentadas aci ma, são
distintos dela~.os agrupamentos e a seqüência que escolhi dar à
e' vista corno um processo que afeta o comportamento ou estado de
apresentação ?O desenvolvimento histórico das teorias da comu-
e espírito dos receptores. Fiske chama essa escola de processual.
nicação. A meu ver, as teorias, 1l10d~I.()s e âmbitos da pesquisa ern

•• Sua tendência é basear-se nas ciências sociais e psicologia, d-irí-


gindo-se para atos de comunicação. Nessa escola, a interação so-
comunicação se agl:ljpalll em quatro grandes tradições: (1) á mass
COI11771.Unicatiqn research. e seus desdobramentos, (2) as teorias

•• cial é vista como um processo através do qual pessoas se relacio-.


nam umas COlll as outras ou afetam o comportamento e respost~
críticas, (31:.:~,s modelos do processo comunicativo e (4) as corren-
tes culturolôgicas e midiáticas

••
emocional das outras. Por acreditar na intenção do emitente corno
...... '.:~ . . ~'l...,

fator crucial, a mensagem, por sua vez, é vista COlllO aquilo que é

.'.J
1. A MASS COMMUr:IICATION RESEARCH E
transmitido no processo comunicacional. A intenção do emis's'6i~
SEUS DESDOBRAMENTOS
pode ser explícita ou implícita, consciente ou inconsciente, mas
deve ser recuperável através da análise. ..... ':i>~. /'''2..:',; ;';", .
Ullla C!~J:fllhada história dà'coinl1UÚ1icClÚon research, nos Esta-
• i
. Para a segunda escola, a comunicação é produção e tro'ch'a'~
dos Unidos, desde suas origens até ~'segllnc(a Il~~t~d~dos'anos 80,
•• significados. Por isso, preocupa-se com o modo COl1l0 as mensa-
gens ali textos interagem com as pessoas a fim de produzir signifi-
pode ser encontrada ern Delia (1987: 21-98). Seu texto está divi-'"
didoern três partes. A primeira vai de 1900 até 1940. Centrada es-
•• cados, preocupa-se, portanto, com o papel que os textos desernpe-
nham em urna cultura. Por isso mesmo, a eficiência comunicattva
não é um problema para essa escola. Mal entendidos são evidêl~­
pecialrnente na figura do cientista político Lasswell, nela é apre-
sentado o nascimento das pesquisas subseqüentemente na análise

•• cias de diferenças culturais. O principal método dessa escola en-


contra-se na serniótica, ~ Ciência dos signos e significados. Para
de ternas políticos e sociais da comunicação pública, na análise de
contcüoo, l:a análise quantitativa elas mensagens e na pesquisa"

•• ela; estudar comunicação é estudar textos e cultura. Nesse contex-


to; a interação social é concebida corno aquilo que cóns'titui o
cornunicacional focada comercialmente. A segunda parte' vai de
1940 a 1965. 19~0 trouxe consigo, segundo o autor, a consolida-

•• indivíduo COl1l0 membro de uma determinada cultura ou sociedade'. çã~ ~a ciência da comunicação através das tradições fundadas
pnncipatmente pelo psicólogo Hovlanel, de um lado, e o sociólo-

( .)

• •1

32 Comunicação fI Pesquisa Lucia Santaella 33


••
.•:
' g o Lazarsfeld, de outro. Na terceira parte, para o autor, odesenvol- "um agregado que nasce e vive para além dos laços comunitários e
vimento da área de comunicação foi grandemente devid~ à sua in- ,c o ntra esses mesmos laços, que resulta da desintegração das culturas
serção nas escolas de jornalismo. Nos anos 80, a característica I?cais e no qual as funções comunicativas são necessariamente im-
primordial da área estava no alargado espectro de suas perspectivas.

.'.•1
pessoais e anônimas. A frag il idade de uma audiência indefesa e pas-
Para Del ia, houve três fontes recorrentes de influência para a siva provém precisamente dessa dissolução e dessa fragmentação"
pesquisa em comunicação nos Estados Unidos, no século XX: em (WOLF, ibid.: 26)., .
. p r ime ir o lugar, a identificação dessa pesquisa com o estudo dos
meios de comunicação de massa. Em segundo lugar, a preocu-
pação corn o papel dos meios de comunicação pública na vida so-
I

r,
O segundo pilar encontrava-se nos modelos teóricos da cornu-
nicação, que davam sustento a esse tipo de pesquisa, a saber, a ••
I.•;
" cial e política. Em terceiro lugar, no desenvolvimento das práticas teoria da ação elaborada pela psicologia behaviorista de Watson,
profissionais .de ntro e através das disciplinas das ciências sociais. pelas teorias do r~lsso Pavlov sobre reflexo condicionado e a psico-
O panorama que será apresentado abaixo dessa tradição de
pesquisa não tem nenhuma intenção de ,ser exaustivo, mas apenas
marcar aslinhas de força de sua constituição e desenvolvimento ..
. log ia das massas de Le Bon. Essas teorias se adaptavam perfei-
tarnente às teorizações mecanicistas sobre a sociedade de massa, •••
A origem mais palpável da mass cornmunication research. re-
monta à obra de H. D. Lasswel1, publicada em 1927, com o título
fornecendo-lhes "o suporte enl que se apoiavam as convicções
acerca dainstantaneidade e da inevitabilidade dos efeitos:' dos .
mass media sobre as massas (WOLF, ibid.:'27).
•.•;
de Propaganda techniques in the world war. Esse tipo de pesqui- " ;._ A abordagem ernpfrico experi men tal ou "da persuasão", que
. sa foi fruto da difusão ern larga escala das comunicações de massa , levou, mais tarde, à.superação da abordagem' hipodérmica" apre-

e representou a primeira reação que essaexplosão da comunica-
ção massiva viria provocar em estudiosos de proveniências diver-
sentou .d.~las.fa.cetas: (a) empírica de tipo psícologico-expenrncn-
t~1 ou de tiposociológico e (b) funcional, representada pela abor- .''.'
sas. Trata-se de urna abordagem global dosn~a~s media, indife-
rente à diversidade existente entre os vários meios de comunica-
dagem funcionalista dos meiosde massa.
Severin e Tankard (ibid.: 131-203) apresentaram as pesquisas ••
ção . Essa abordagem visava, sobretudo, respond,er à.. seguinte in-
terrogação: que ~feito têm ~s mass media ern ~~nla sociedade de
massa? Calcada ern Ullla visão da audiênci~~, .~OlllO urna massa
~.~ócio-psicológic~sern suas várias tendências. Dentre elas, as prin-
cipais ~s.tão, de um lado, nas teorias de consistência cognitiva que
.s ~ desenvolveram na teoria do equiiíbrio de Heider, na teoria si-
••

.'•••
amorfa, que responde cegamente aos estímulos dos meios, essas métrica de Newcornb, na teoria da congruência de Osgood e na
pesquisas ficaram conhecidas como hipodérmicas devido à expli- teoria ela dissonância cognitiva de Festinger. De outro lado, estão
cação dada por Lasswel [ de que a mídia age segundo o modelo da
" ,
nas teorias da persuasão que se desenvolveram a partir do concei-
"agulha hipodérmica", que provoca um efeito direto e indiferen- I to de atitude de Hovland. Essas duas téndências teóricas maiores
ciado sobre indivíduos isolados. Por isso 111eSlllO, essa teoria
.
se sobre mudança de atitude, a da consistência, de Festinger e ou-
••
••
.. .:

sustentou sobre dois pilares. O primeiro deles estava no conceito tros, e a da aprendizagem, de Hovland, existiram lado a lado por
de sociedade de massa, concebida corno algum tempo, com pou,ca relação aparente entre si. Foram Daniel
Katz e seus colegas Sarnoff e McClintock que, desenvolvendo a
••
.L
•• 34 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 35

•• teoria funcionalista, reconciliaram esses dois modos distintos de'


lidar CO~l a mudança deatitude
mea ção de massa chegaram, assim, ao estudo das funções, que
obtinha seu suporte na teoria sociológica estrutural-funcional ista

•• Pa;-a \Volf (ibid.: , 3'4) ~ a "teoria dos meios de comunicação que


resultou dos estudos psicológicos 'experimentais levou à supera-
cujo grande ideal izador foi Talcott Parsons. .autor da obra The
structure ofsocial action (1937). À luz dessa teoria sociológica, a

•• ç ã o do entendimento do processo cornunicati vo corno U111a rela-

ção mecanicista e imediata entre estímulo e resposta, o que tornou


pesquisa ern comunicação, que se tornou dominante nos Estados
Unidos, visava definir

•• evidente, pela primeira vez, na pesquisa sob re comunicação de


massa, a complexidade dos elementos que entram em jogo na re- "a problemática dos mass media a partir do ponto de vista da socie-
edo seu equilíbrio, da
•• lação entre emissor, mensagem 'e destinatário.
A faceta empírica de tipo sociológico, por seu turno, r~!eria­
dade perspectiva do funcionamento do siste-
'ma social no seu conjunto e do contributo que as suas componentes

.\ se a todos os mass media sob o ponto de vista de sua capacidade


de influenciar o público , com atenção , entretanto, à capacidade
(mass media incluídos) dão a esse funcionamento. O que importa aí,
portanto , é "a,dinâmica do sistema social e o papel que nela desem-

•• ' difere~ c i acia de cada mass media para e xercer influências distin -
tas. O 'pro ble ln a continuou aí a ser o dos efeitos , mas colocado de
penham as comunicações de massa" (W OL F ibid .: 63) .


.' modo menos simplista do que na te ori a hipodérmica. O coração r .

da pesquisa sociológica de campo consistiu na associação de "pro- Algum tempo depois, um desdobramento da teoria funcio-

•• cessos de comunicação de massa às características do 'c o n te x to


, social em 'q ue esses 'p rocessos se realizam " (ibid. : 47 ). Fundarnen-
- n a lis ta que' alcançou notoriedade foi a hipótese dos " us os e satis-
fações" (uses and gratificdtionsv . Ainda enraizados nas ciências

•• talmente presente 'n os' influentes trabalhos' de P. Lazarsfeld e R.


Merton, dentro desse tipo depesquisa distinguiam-se duas corren-
tes: (a) Oestudo da composição difel:~nciadados públicos ~ dos seus
sociais, os estudos dos efeitos passaram dos usos corno funções
para as funçõesdos 'usos , saltando. iportanto, da pergunta "o que

•• modelos de consumo de comunicação de massas e (b) as pesqui-


sas 'so bre as mediações sociais que caracterizam esse consumo.
os mass media fazem com as pessoas'?" para a pergunta "o que é
'que 'ás pessoas fazem com 'os mass media'l" Assumindo que a
audi'êncÜi é tão ativa quanto os emissores das mensagens , esses
•• Bastante conhecida se tornou a pesquisa baseada no tw?, step
fl ow co mmunication, desenvolv ida por E . Katz e P. Lazarsfeld
estudostomaram como base a crença de que a audiência apresen-
ta um complexo conjunto de necessidades que ela busca satisfa-

•• Ci95S; ver também KATZ, 1957). Sob essa ótica, os meios de


comunicação não influenciam diretamente o público iorie step flow ,
zer com os mass media. Assim, o traço característico da hipótese
"dos usos e satisfações" foi considerar o conjunto das necessida-

•• " fl uxo unidirecional"), mas o influenciam pela mediação de gru-


pos o'u'de'Jfdei-es que retornam ounão a mensagem da inídia , ,h a-
des do destinatário COlno urna variável independen te para o estu-
do dos efeitos. Sob esse ponto de vista, a influência das comuni-

•• vendo um fluxo de influência da mídia sobre os líderes e destes


sobre aopinião (SFÉZ ; 1994: 83). .
cações de massa permanece incompreensfvel se não se considerar
a sua importância relativamente aos critérios de experiência e aos

•• Tendo começado com os problemas da manipulação, para pas-


sar aos ' da persuasão, depois à influência, ás pesquisas em cornu-
contextos situacionais do público, pois "os sistemas de expectati-
vas do destinatário não só intervêm nos efeitos provocados pelos

,e\ •
36 Comunicação 0- Pesquisa '
......- ..

Lucia Santaella 37 ••
rnass media como também regulam as próprias modalidades de soas têm de grande parte'da realidade sociallhes ~ fornecida, por •••
exposição" (WOLF, ibid.: 78; FISKE, ibid .: 151).
Nos anos 80, essa corrente dos "usos e satisfações" aprofundou-
. se no papel assumido pelas audiências e pelo seu envolvimento,
empréstimo, pelos mass media" (SHAW, 1979: 96). Para Bougnoux,

"Antes de chegar até nós como sendo o próprio fumar do mundo ,


•1
..;
este dependente da maneira como as diferentes culturas constróem
o papel do receptor, isto é , como grupos particulares no seio de
diferentes culturas realizam leituras singulares, por exemplo, de
. todo acontecimento já foi selecionado pelos desks de agência, pro-
movido, envolvido e aromatizado pelas salas de redação .. . O grande
relato de nossa época, nosso espelho e nossa auto-referência perten-
.;
.'
um mesmo seriado de TV (A. eM. MATTELART 1999: 151).
Em 'f ra nca oposição aos métodos quantitativos e à análise do
cem, doravante, aos meios decomunicação de massa ; presentemente
é a imprensa que faz a história e detém a 'função de agenda" (= o que ••
e•\
conteúdo manifesto da mass comrnunication research, desenvol- se deve pensar em cada manhã)" (1994: 161-162)
ver arn-se, também nos Estados Unidos, pesquisas etnorneto-
dológicas tendo como tarefa dar co~ta da dimensão subjetiva dos Segundo Sfez (1994: 87), com o agenda-setting , seus autores, •
processos de comunicação . Com isso , buscou-se resgatar' ao re- Mac Comb e Shaw (1972) ,. buscaram evitar os inconvenientes, de •
ceptor a capacidade de produzir sentido e de desenvolver proce- um lado, dasteorias .d os efeitos diretos da mídia, de outro, da •
dimentos de interpretação. Vendo a comunicação como uma prá- teoria psicológica t? cognitiva dos "usos e gratificações" . Para eles, •
tica social e textual, os trabalhos etnográfJéq?buscaramr '~c'uperar há efeitos da mídia, mas esses efeitos são indiretos : Usos e gratifi-
a dimensão social não em uma teoria sócio-politica de larga-esca- cações são buscados, mas "a necessidade de orientação é bem . ;
ra mas nas circunstânciasconcretas da vida cotidiana. Isso envol- mais flexível, menos racional, menos cognitiva do que se acredi- •
v~ a observação daspessoas nop~·ocesso·c.oTn~inicativo, ·fazendo­ ta". Por isso mesmo, o agenda-setting produz influência a longo . ;
os faiar sobre seu papel (FISKE··ibid.: 161). .t.J?razo, ao contrário das concepções cognitivas da "necessidade de •
Conforme Wolf, o início dos anos 80, foi marcado por uma orientação" (ver também SEVERlN e TANKA}~.D, 199.2: 297-229). •
situação de transição nos estudos de comunicação de massa. Nes- A segunda tendência apontada por Wolf, onewsmaking, ba- •
sa fase transicional, sob seu ponto ' de vista, duas t~n~êfências de ~...s ei a-se em técnicas de pesquisa participativa, pois °
qu.e importa •
pesquisa se destacaram. A elas Wolf deu grande atenção em seu nesse tipo de investigação é a prysença do investigador no local. •
livro·:.-'~ hipótese do ag enda-setting e o newsmaking . À luz do agen- A abordagem articula-se sempre dentro de doislirnites: a prC?du- •
da setting, dada sua responsabilidade na.seleção e classificação ção de informações ..d e massa depende, <!e Y~ll lado , 9.~ cultura .'
das informações, os edi tores e programadores desempenham Ul11 profissional dos jornalistas e a organização do tra~al.ho e, de OLl- •
papel importante na formação da realidade social. , - ': ~ tro, dos processos produtivos . As conexões entre esses dois lados
A hipótese do ag enda-setting não defende que os mass-media se constitui no ponto central desse tipo de pesquisa. . •
pretendam persuadir. Quando descrevem e precisam a realidade Depois de quinze anos desde a publicação de seu livro, atual- •
exterior, os mass media apresentam ao público urna lista daquilo 111ente se pode ver queWolf deu mais valor a essas duas tel~dên- •
sobre que é necessário ter urna opinião e discutir. O pressuposto das do que elas mei.. eciam, visto. q.L;e:.n~_o chegaram a.se ~OI1st.~tuir,.)
fundamental do ag enda-setting é que a compreensão que aspes- de modo algurn, em teorias da comunicação com a generalidade.'


':>0 ~omunlcaçao b l-"esqUlsa

••
LUCia oantaeua

que estas exigem. Trata-se muito mais "de teorias setoriais, pró- são da sociedade como um todo, essas disciplinas acabam por

•• prias do campo específico da imprensa, que só de maneira muito


forçada podem se prestar a uma generalização para todos os cam-
funcionar como mantenedoras da ordem social existente.
Enquanto a sociologia funcionalista concebia as mídias como

•• pos da comunicação.
Embora tenha sido correto o diagnóstico feito por Wolf de que
o início dos anos 80 surgia como um momento de transição, esse
"novas ferramentas das democracias modernas, como mecanis-
mos decisivos de regulação da sociedade" (A. eM. MATTELART,
1999: 73), os filósofos da escola de Frankfurt, especialmente Hor-


diagnóstico errou de alvo em relação aos rumos dessa transição, kheimer e Adorno, que durante o nazismo se exilaram nos Esta-
rumos que Wolf não foi capaz de pressentir. Por estar excessiva- dos Unidos, criaram, em meados dos anos 40, o conceito de indús-
mente preso à idéia dos mass media, Wolf deixou de ver que a tria cultural através do qual desmistificavam as ilusões acalenta-
•• hegemonia dos meios de massa e a idéia mesma de comunicação
de massa começaria a ser posta em crise a partir dos anos 80,
das pelo funcionalismo. À luz desse conceito, a produção dos bens
culturais está inserida no movimento global de produção da cultu-

•• quando vários fatores vieram precipitar a entrada dos fenômenos


comunicacionais em um universo extenso e diversificado de no-
ra como mercadoria, selando a degradação do papel filosófico-
existencial da cultura. Portanto, através desse conceito de indús-

•• vas questões. Mas esse é um assunto que será considerado oportu-


namente. Por enquanto, passemos para a segunda tradição dos
tria cultural, a teoria crítica se aproximou da questão dos mass
media. De fato, foi sobre a indústria cultural que a teoria crítica

•• estudos de comunicação. incidiu mais contundentemente a sua crítica.


Segundo a lógica da indústria cultural, todo e qualquer produ-

•• 2. As TEORIAS CRÍTICAS
to cultural ~" u m filme , um programa de rádio ou de televisão , um
artigo em uma revista etc. - não passa de uma mercadoria subme-

•• Na contracorrente da mass communication research qu e ' se


desenvolveu nos Estados Unidos, surgiu na Alemanha, por volta
tida às mesmás leis de produção capitalista que incidem sobre
quaisquer outros produtos industrializados: UIn sabonete , um sa-
pato ou quaisquer outros objetos de uso. Diferentemente destes,
•• da segunda guerra mundial, na chamada Escola de' Frankfurt , um
movimento intelectual que passou a ser conhecido sob a rubrica
os produtos da indústria cultural são simbólicos, produzindo nos
indivíduos efeitos psíquicos de que os objetos utilitários estão isen-

•• de teoria crítica. O ponto de partida da teoria crítica foi a dialética


da economia política fundada no materialismo marxista, ou seja, a
tos. Entretanto, todos ilustram igualmente a mesma racionalidade
técnica, o mesmo esquema de organização e de planejamento ad-
crítica à sociedade de mercado na qual se dá a alienação dos indi- ministrativo que levam à uniformização e padronização. Em fun-
víduos em relação à sociedade como resultante histórica da divi- ção disso, a ubiqüidade, a repetitividade e a estandardização da

•• são de classes.
A teoria crítica se propôs como uma teoria da sociedade no
indústria cultural fazem da moderna cultura de massa um meio de
controle psicológico inaudito. Em uma sociedade como tal,

•• seu todo, insurgindo-se contra as disciplinas setoriais, especia-


lizadas em diferentes campos de competência e subordinadas à "divertir-se significa estar de acordo [...]; significa sempre: não de-

•• razão instrumental. Desviando-se, em função disso, da compreen- ver pensar, esquecer a dor mesmo onde essa dor é exibida. Na sua

.. - "- - - - - _.__
.. - - - - -
40 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 41

base está a impotência. É efetivamente fuga; não como se pretende, que se desenvolvera com a constituição de uma "opinião públi-
fuga da feia realidade, mas da última idéia de resistência que a reali- ca" em fins do século XVII na Inglaterra e no século seguinte na
dade pode ainda ter deixado. A libertação prometida pelo amusement França. Esse espaço público caracterizava-se como mediador en-
é a do pensamento como negação" (HORKHEIMER e ADORNO tre Estado e sociedade, permitindo a discussão pública, a troca de
1947: 156 apud WOLF 1987: 87). argumentos entre indivíduos e o confronto de idéias e opiniões
esclarecidas. Na sociedade de mercado, esse espaço público pas-
Da di versidade radical da teoria crítica em relação a outras saa ser substituído por formas de comunicação cada vez mais
teorias dos mass media, resultou uma concepção diferente por ela inspiradas em modelos comerciais de fabricação de opiniões. Ao
professada acerca dos próprios mass media, visto que, segundo defender essa tese, Habermas, assumiu posições similares às de
sua ótica, trata-se aí de instrumentos de reprodução demassa que, Adorno e Horkheimer sobre
na liberdade aparente dos indivíduos, reproduzem as relações de
força do aparelho econômico e social (WOLF, ibid.: 94). "a manipulação da opinião, a padronização, a massificação e a ato-
Também alinhadas às linhas de força da teoria crítica estive- mização do público. O cidadão tende a se tornar um consumidor de
ram as idéias de Herbert Marcuse. Enquanto Horkheimer e Ador- comportamento emocional e acIamatório, e a comunicação pública
no retornaram a Frankfurt depois da guerra, Marcuse permaneceu dissolve-se em atitudes como sempre estereotipadas, de recepção
nos Estados Unidos, na Universidade da Califórnia. Sua obra so- isolada" (A. eM. MATTELART, 1999: 82-83).
bre O homem unidimensional (1964) tornou-se uma verdadeira
bíblia da juventude contestatória do final dos anos 60. Com sua Dando continuidade a essa crítica, as posições defendidas pos-
crítica, Marcuse buscava desmascarar a irracionalidade de um teriormente por Habermas no que diz respeito à racionalidade téc-
modelo de organização social crescentemente conduzido pelas nica funcionaram como uma resposta a Marcuse. Enquanto este
determinações da ciência e da técnica, que mais subjugam do que não via outro caminho para a libertação do homem unidimensional
libertam o indivíduo. Nessa sociedade unidimensional, na qual só a não ser sob a condição de uma revolução completa da ciência e
circulam "linguagens unidimensionais", não há mais espaço para datécnica, Habermas buscou uma alternativa para a degenerescên-
o pensamento crítico. cia política do Estado na restauração das formas de comunicação
Herdeira dessa corrente de pensamento e alinhada, portanto, à num espaço público estendido ao conjunto da sociedade. A ênfa-
tradição da teoria crítica, encontra-se a extensa obra do filósofo se na comunicação viria a ser, daí para a frente, uma tônica da
alemão Jürgen Habermas. Em 1962, publicou O espaço público. obra de Habermas.
A rqueologia da publicidade co/no dimensão constitutiva da socie- De acordo com A. e M. Mattelart, as reviravoltas lingüísticas
dade burguesa, onde lançava as bases para suas teses posteriores nos anos 60, da lingüística pragmático-enunciativa, que incorpo-
sobre a racionalidade técnica, estas publicadas em 1968, no seu rou contribuições como as da teoria dos atos de fala (AUSTIN,
livro sobre A técnica e a ciência co/no ideologia. 1962; SEARLE, 1970), da nova retórica belga (PERELMAN e
Com o desenvolvimento das leis de mercado e com sua intrusão OLBRECHTS-TYTECA, 1958) e da pragmática alemã (WUNDER-
na esfera da produção cultural, dá-se o declínio do espaço público LICH, 1972), afetaram as sociologias interpretativas, os teóricos
•• 42 Comunicação [, Pesquisa

da sociologia da ação , especialmente Parsons, repercutindo tam-


Lucia Santaeua

querdas políticas de liberação do potencial emancipador dos meios


4j

•• bém em Habermas . A partir disso, e tomando como base Weber e


Marx, Lukács e Adorno, Mead e Durkheim, Habermas foi levado
de comunicaçao se tornou mais conhecido depois de ter sido du-
ramente criticado por Jean Baudrillard em um dos capítulos de
a elaborar sua teoria do agir comunicativo, tendo em vista estabele- seu livro Por uma crítica da economia política do signo (1972),
cer os fundamentos conceituais de uma nova razão crítica, autôno- no qual BaudrilIard nega aos meios qualquer possibilidade de eman-
ma , adaptada ao nosso tempo (1981). À razão e ação utilitárias e cipação, pois eles são o que proíbe para sempre a resposta.
instrumentais, que encontram nos meios de comunicação de mas- No contexto da cultura intelectual brasileira, Lopes (1990: 52)
sa seus dispositivos de transmissão privilegiados, Habermas con- inseriu muito oportunamente a influência de Gramsci, nos anos

•• trapôs outros modos de ação e de relações com o mundo, quais se-


jam, "a ação objetiva e cognitiva que se impõe dizer a verdade, a
ação intersubjetiva que visa à correção moral da ação, a ação expres-
80 , como constitutiva do paradigma da teoria crítica de extração
marxista nos estudos da comunicação.
Oriunda de uma outra cultura, a francesa, mas perfeitamente
siva que supõe a sinceridade", em suma, "atividades de interpretação sintonizada com os princípios da teoria crítica, encontra-se a obra
dos indivíduos e grupos sociais" (A. eM. MATIELART ibid.: 143).
•• Essa proposta de Habermas foi discutida pelos quatro cantos
do mundo, mas não tardou muito a ser questionada, visto que as
La société du spetacle, de Guy Debord (1967). Tanto se alinha
coma teoria crítica, que suas teses chegaram aos Estados Unidos
no auge do movimento contestatório do final dos anos 60, trazen-
expectativas de compreensão que ela pressupõe parecem tomar do mais munição para os argumentos de Marcuse. Por espetáculo,

•• como base o diálogo entre filósofos, além de que não prevêem as


sobredeterminações incontroláveis do inconsciente que interferem
Debord não quis significar exposição de imagens, mas as relações
degradadas entre pessoas, relações estas mediatizadas pelos meios

•• nas ações humanas (ver PRADO, 1996).


Embora também tenha pertencido à escola de Frankfurt, Walter
de comunicação. Trata-se, portanto, de uma visão de mundo que se
objetivou e da qual não escapa nem mesmo o inconformismo, este

•• . Benjamin desenvolveu formas de pensamento bastante autôno-


mas que só vieram a ser mais plenamente recuperadas e inteligidas
também convertido em mercadoria em cada um dos pontos em que o
consumo invadiu espetacularmente a superfície de todos os continentes.

•• a partir dos anos 80. Dada sua autonomia, essas idéias não se enqua-
dram fielmente na tradição da teoria crítica, mas se espraiam por
todas as quatro tradições de estudos da comunicação que aqui deli-
Também oriunda da cultura francesa, encontra-se a obra re-
cente de L. Sfez (1994) . Embora não esteja diretamente filiada à
escola frankfurtiana, pela autonomia de pensamento reivindicada
mitei, produzindo seus efeitos mais especialmente em algumas por seu autor, não só o título da obra, Crítica à comunicaçãn,
das correntes culturológicas e midiáticas, além da grande influên- quanto todo o seu conteúdo localizam-na dentro da moldura de
cia que a obra benjaminiana (ver especialmente 1975) tem exerci- uma teoria crítica à moda contemporânea. Sem desmerecer o am-

•• do sobre o pensamento da arte nas suas interfaces com a tecnologia.


Posição também independente, mas mais alinhada com aquilo
plo e admirável panorama de tendências e correntes da comunica-
ção e suas vizinhanças que o autor apresentou , o modo de proce-

•• que poderíamos continuar chamando de uma teoria crítica, en-


.contra-se na obra do poeta e crítico dos meios de comunicação,
der de sua crítica convida a um breve comentário.
Toda a tradição da teoria crítica sustentou sua crítica ao tomar

•• Hans Magnus Enzensberger (1970). Seu desafio lançado às es- como base uma teoria geral da sociedade, a saber, a dialética da


44 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 45

economia política fundada no materialismo marxista. Trata-se, por- algunsaspectos, os conceitos de teoria e modelo se sobrepõem,
tanto, de uma crítica ontológica e epistemologicamente fundamen- mas isso não significa ausência de diferença.
tada, não importando aqui a que discussões essa onto-epistemologia Segundo LavilIe e Dionne (1999: 93), teorias são generali-
pode ser submetida. Sfez, por outro lado, erigiu sua crítica não zações de grande envergadura da ordem das conclusões ou inter-
mais do que sobre as bases de uma convicção nas iluminações de pretações. O valor de uma teoria é, sobretudo, explicativo; trat a-
seu próprio espírito crítico. Sobre o álibi de dicotomias fracamen- se de uma generalização de explicações concordantes tiradas dos
te definidas entre forma simbólica e núcleo epistêmico, represen- fatos que foram estudados para sua construção. Do ponto de vista
tação e expressão, o autor alçou seu pensamento ao panteão de do pesquisador, o valor de uma teoria é analítico, pois ela lhe
um demiurgo, capaz de enxergar quaisquer outras teorias sob o servirá para o estudo e análise de outros fatos do mesmo tipo.
ponto de vista de uru olhar de cima. Isso acabou por dar à sua Por teoria entende-se assim um corpo de generalizações e prin-
crítica uma dicção arrogante e mesmo pedante, ao mesmo t~mpo cípios desenvolvidos em associação com a prática em um campo
que, por baixo dela, oculta-se um mal disfarçado desejo de com- de atividade (medicina, sociologia, economia etc.), que forma seu
partilhar da intimidade dos grandes intelectuais, intimidade a que, conteúdo como uma disciplina intelectual. Outra definição simi-
de certa forma, através de sua crítica, Sfez julga aceder. lar nos diz que teoria é um conjunto coerente de princípios que
Também sintonizada com uma postura crítica, situa-se a obra configura uma moldura geral de referência para um campo de in-
de Rodrigues (1990) sobre as Estratégias da comunicação. Em- vestigação e que serve para deduzir princípios, formular hipóte-
bora não tenha se prendido estritamente à tradição frankfurtiana, s,es para serem testadas, executar ações, etc.
visto que seus apoios conceituais se ampliaram especialmente com O que essas duas definições deixam evidente é tanto o caráter
Heidegger, Foucault, Deleuze etc., seu desencantamento com a disciplinar da teoria na constituição de uma área do saber, quanto
técnica e com a instrumentalização do campo da comunicação a ligação da teoria com a realidade empírica, a prática, a expe-
localizam seu pensamento na tradição das teorias críticas. riên-Cia e os fatos. Este último aspecto fica mais claro na definição
No horizonte da teoria como crítica também tem despontado de teoria como uma hipótese de trabalho à qual é dada probabili-
recentemente a obra do esloveno S. Zizek (1991, 1992, 2000). dade por evidência experimental ou por análise fatual ou concei-
Mesmo sem trabalhar diretamente com a teoria da comunicação, tual, mas não estabelecida ou aceita conclusivamente como lei.
sua prática de uma sociologia interpretativa de fenômenos estéti- Em síntese, toda teoria é uma entidade hipotética ou estrutura que
cos, culturais e midiáticos, que toma como base a psicanálise expl ica ou relaciona um conjunto observável de fatos. Mas aqui •
lacaniana, tem fornecido elementos para aqueles que desejam pros- surge uma nova dificuldade: a distinção entre hipótese e teoria. •
seguir nos caminhos de uma teoria crítica. Sobre isso, Newton da Costa (1977: 160) nos diz que •

3. Os MODELOS DO PROCESSO COMUNICATIVO " entende-se por hipótese uma suposição que se faz, mas qu~ ainda
não foi testada de modo intensivo e conclusivo; ela é aceita apenas

A distinção entre teoria e modelo não é completamente nítida, provisoriamente, sem status científico definitivo, dependendo, para •
por isso mesmo ambos são muitas vezes confundidos. De fato, em tanto, de futuras verificações e análises críticas. As teorias, ao con-
•• 46 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 47

•• trário, são suposições já estabelecidas, tidas como verdadeiras ou


aproximadamente verdadeiras".
As definições acima ajustam-se às teorias que são desenvolvi-
das no campo das ciências empíricas. Entretanto, há também teo-

• Por isso mesrrio, não há verificação cabal da verdade de teo-


rias não-científicas, quer dizer, teorias que não têm o sentido empí-
rico e indutivo em que a qualificação de "científico" costum,a apa-
rias. Elas são apenas quase-verdadeiras ou aproximadamente ver- recer. A filosofia, a estética, as metateorias, ou quaisquer outros
dadeiras, o que não significa que a verificação parcial ou confir- tipos de especulações reflexivas, por exemplo, não são científi-
mação da quase-verdade deixe de ter importância. Daí ser lícito cas, visto que não se prestam às confirmações empíricas que as

•• afirmar que as teorias são pragmaticamente verdadeiras. Vem daí


também que não existe falsificação de uma teoria, pelo simples
ciências buscam. Isso não significa que essas teorias não devam
se prestar aos testes do rigor, do poder explicativo, da consistên-

•• fato de que "uma boa teoria não se falsifica propriamente, mas


apenas se restringe, quando necessário, o seu domínio de aplica-
cia interna, do insight e do valor heurístico de que as mais varia-
das disciplinas podem se beneficiar.

•• ção" (DA COSTA, ibid.: 161).


Enfim, as teorias formam conjuntos de sistemas cognitivos que
dão conta de domínios variados, segundo critérios mais ou menos
Especulações reflexivas e questões metateoréticas são impor-
tantes porque elas nos ajudam a ver o que se ganha e o que se
perde na busca de suporte empírico. Ainda são importantes por-
•• claros. Assim, "as teorias devem sua aceitação à quase-verdade que
contêm. Uma boa teoria em D, devidamente corroborada e resistente
que influenciam, até certo ponto, as direções que as pesquisas to-
mam, o que também não significa que questões metateoréticas

•• à quase-falsificação é, foi e será eternamente quase-verdadeira em


D" (ibid.: 161). Na sua versão proposicional das teorias, Newton da
devam ser demasiadamente enfatizadas, pois, quando isso suce-
de, os pesquisadores podem ser desencorajados a dar prossegui-

•• Costa (ibid.: 163) acrescenta que, encaradas local ou globalmente, mento às teorias substantivas e suas aplicações empíricas.
Assim, por exemplo, enquanto toda a tradição da mass commu-

•• "as teorias são sistemas de proposições que, em linguagem convenien-


te, pelo menos em tese, constituem coleções de sentenças. Natural-
nication research sempre se caracterizou dentro de uma vocação
empírica, a tradição da teoria crítica, por outro lado, sempre foi

•• mente é preciso que, na linguagem, haja símbolos que, de algum


modo, tenham conexão com a realidade, com a experiência. Sem o
nitidamente reflexiva e metateorética, especialmente na crítica que
desenvolveu, muito justamente contra grande parte da pesquisa

• preenchimento desta condição, não se tem uma teoria da ciência em-


pírica. Às vezes, tal conexão se faz com o auxílio de outras teorias",
empírica, em especial contra os aspectos instrumentalistas que esta
apresenta. Quanto à tradição dos modelos comunicativos, surge
com ela um outro foco de tensão. Antes de discuti-lo, que seja
Ainda conforme Newton da Costa (ibid.: 54-55), toda teoria deve explicitado o que se entende por modelo.

•• encerrar uma estrutura conceitual a ela subjacente que se constitui na


alma da teoria. Em razão disso, as teorias empíricas podem também
As ciências da computação definem modelo como um sistema
matemático que procura colocar em operação propriedades de um

•• ser axiomatizadas, o que significa buscar, com maior ou menor rigor,


sua versão global, local ou estrutural. Neste último caso, trata-se de
sistema representado. Trata-se de uma abstração formal e, como
tal, passível de ser manipulada, transformada e recomposta em

• • caracterizar a estrutura matemática subjacente à teoria. combinações infinitas. O modelo visa assim funcionar como uma
48 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 49

réplica computacional da estrutura, do comportamento e das pro- nenhum mapa ou modelo pode ser completo. Mesmo assim, seu
priedades de um fenômeno real ou imaginário (MACHADO 1993 valor está em sistematicamente colocar em relevo esses traços
apud SANTAELLA e NOTH 1999: 167). selecionados, apontar para relações também selecionadas entre
Diferentemente de uma teoria, um modelo não é um recurso esses traços e fornecer um delineamento do território que está sendo
explanatório em si mesmo, mas, na sua capacidade de sugerir re- modelado.
lações, ele ajuda a formular teorias. Deutsch (1952) afirmou que Assim sendo, o conceito de modelo é muito mais específico
um modelo é "uma estrutura de símbolos e regras operacionais do que o de teoria, de modo que modelos podem fazer parte de
que supõe-se corresponder a um conjunto de pontos relevantes teorias, assim como, na maior parte das vezes, pressupõem teori-
em uma estrutura existente ou processo". Por isso, os modelos são , as, dado o poder explicativo que estas possuem. De fato, enquan~
indispensáveis para o entendimento de fenômenos complexos. Por to o traço definidor de teoria está em seu poder explicativo, o de
ser uma forma de abstração e seleção de pontos a serem incluídos, modelo está em sua abstração imitativa, isto é, na sua capacidade
o modelo implica julgamentos de relevância. Esses julgamentos, para abstrair caracteres relevantes de dados fenômenos ou pro-
por sua vez, implicam uma teoria sobre aquilo que está sendo cessos, funcionando como IJm simulacro abstrato e permitindo,
modelado. O modelo nos fornece assim uma moldura dentro da desse modo, a experimentação simulada do fenômeno ou proces-
'qual consideramos um problema, ele também aponta para lacunas so com o qual o modelo tem uma relação de similaridade.
não aparentes em nosso conhecimento de algo, sugerindo áreas Na área de comunicação, ambas as tradições de estudos de
em que a pesquisa é requisitada. teor sociológico, tanto a tradição da communication research quan-
Segundo Deutsch (ibid.: 360-361) são quatro as funções de to a da teoria crítica, sempre se desenvolveram em franca oposi-
um modelo: organizadora, heurística, preditiva e .a função de ção a um outro grupo de teorias ou, mais propriamente, modelos
mensuração. A função organizadora aparece na habilidade do voltados para a especificidade dos fenômenos comunicativos. Nos
modelo para ordenar, relacionar dados e mostrar similaridades e anos 70, por exemplo, os estudos sobre mass media foram marca-
conexões anteriormente não percebidas entre eles. Quando expli- dos pela polêmica entre sociologia e semi ótica. A 'tendênci a para
ca algo ainda não sabido, o modelo adquire habilidades preditivas. se questionar a pertinência e a legitimidade dos modelos mais pro-
Quando é operacional, implica em predições que podem ser priamente comunicativos para o estudo da comunicação extraiu
verificadas através de testes físicos. As predições podem funcio- muitos de seus argumentos da multiplicidade de saberes e compe-
nar como recursos heurísticos que levam a novos fatos e métodos. .tências (profissionais, institucionais, políticas, científicas etc.) que
Quando permite predições quantitativas, o modelo se relaciona com
a medição de um fenômeno. Se são bem entendidos os processos
estão implicadas nos processos de comunicação e que, segundo
os oponentes, os modelos comunicacionais tendem a ignorar.
Entretanto, as oposições, o mais das vezes, provinham e conti-

que ligam o modelo àquilo que é modelado, os dados obtidos com
a ajuda do modelo constituem-se em uma medida, com maior ou
menor complexidade (SEVERIN e TANKARD, 1992: 36-37).
nuam a provir de uma visão hipersimplificada que se costuma ter
dos modelos comunicacionais, ignorando as evoluções por que,

Para Fiske (1990: 37), UlTI modelo é como um mapa. Ele re-
presenta traços selecionados do seu território. Por isso mesmo,
através dos anos, foi passando o modelo original dos processos de
comunicação. •
•• 50 Comunicação (, Pesquisa Lucia Santaella 51

•• Esse primeiro modelo dos processos comunicativos teve iní-


c~o. na teoria ?a il:fonllação e da comunicação (ver BORMANN,
e de processos psicolingüísticos em ,g e ra l. Na mesma época,
Schramm (1954, 1955) afirmou que as f órmulas matem áticas da


''..
1980) . A teoria da informação ou ' teoria maternáticada informa- teoria da ínt or ma çãob aset am-se em probabilidades. Unl51 vez que
ção (SHANNC?N e WEAVER, 1949) originou-se nos trabalhos de o aprendizado altera essas probabilidades, o modelo da teoria
engenharia das telecomunicações e teve seu esboço, de autoria de matemática de Shannon não poderia ser .ap lic ado diretamente à

•".•
Shannon, publicado em 1948; A teoria matemática da comunica- comunicação humana. A partir disso, Schrarnm desenvolveu unia
' ção
.
é urna .teoria
. ' . .
sobre
.
a transmissão otimizada das mensagens série de três modelos , o primeiro ainda similar ao de Shannon, o

•• cujo esquema resu~e-se ao seguinte: hásempre

"urna fonte ou nasc.ente da informação a partir da qual é emitido um


segundo introduzindo a noção de que apenas o que é compartilha-
do no campo da experiência tanto da fonte quanto do destino pode
ser real mente comunicado, pois apenas essa porção do sinal é co-
•• , , si,nal, através d.e um aparelho transmissor; esse sinal viaja através de
um canal , ao longo do qual pode ser perturbado por um ruído. Quan-
nlUI11 a ambos. No terceiro modelo, a comunicação foi concebida
em termos de interação através do feedback e fluxo contínuo de

•• . ' . . . .

" d? s.a} do canal , o sinal é captado por um receptor que o converte em


. , mensagem qu~, como tal, é compreendida pelo destinatário" (ECO,
informação cornparti lhada-Tamb érn interacion ista já era o rnode-
lo sim étrico de Newcombf lS'ó S) 'nas formula ções que introduziu

•• 1972 : 19 apud WOLF, 1987: 114) . sobrea teoria da consistência cognitiva. Esse modelo foi expandi-
do no complexo modelodeWestley-McLean (1957) que tinha em

•• . ~s?e modelo foi muito imitado, questionado e transformado,


dando origem a uma série de modelos subseqüentes. Antes dl~SSO,
vist:~ 'i nc lu ir fenômenos de comunica ção de massa. Ampliando ,
por sua vez, o modelo verbal de Laswell, Gerbner (1956) previ u

•• 110 mesmo ano ern que Shannon publicou o esboço de seu modelo,
Lassw'~11 (1948) também elaborou UI11 modelo muito simples de
~o'm,unicação verbal que haveria de ser influente justamente por sua
dez áreas 'básic as para a pesquisa em comunicação, corno se se-
gue(S·EVERÜ'~·e'TANKARD, '1992 : 38-56)':

•• sÍ1~'plicidqde. Seu modelo se restringia aos seguintes ter1110S:


quem
Modelo ' verbal = Área de estudo

•• . diz o que
ern que canal
Alguém = pesquisa de audiência
percebe um evento == pesquisa de percep~ão
•• para quel11
conl que efeito?
e reage ~ medida de eficácia
em unia situação = estudo do cenário físico e social

•• ~p~sar. de influente, esse modelo de Laswell não chegou a


ganhar a mesma notoriedade do modelo de Shannon, que sempre
através de alguns meios = investigação de canais ,
para disponibilizar algo ~ adrninistraçao , distribuição

•• se: fez presente, inclusive para ser questionado. Foi assim que, por
considerar
. ,
inadequada atransposição de problemas de engenha-
,
, de alguma forma = estrutu ra , organização, padrão
' e contexto = estudo do cenário comunicativo

•• ria para a comunicação humana, Osgood desenvolveu, ern 1954,


1I~1 'modelo cornunicacional deri vado' d~ ~ua teoria do significado
transmitindo conteúdo = análise de contexto, significado
com .a lg u ma conseq üência ., estudo' demudanças


52 Comunicação f., Pesquisa Lucia Santaella 53 .'••
Essa proliferação dernodelos, já presente na década de 50, ' . Uma importante expansão da 'c'a d e ja de comunicação linear

não foi menor nos anos .subseqüentes . Para colocar alguma ordem
nessa profusão, Nõth (1990: 174-180) classificou todos o? mode-
los comunicacionais er» três grupos: (3.1) o modelo tradicional
surgiu com a noçãode..repertório
. de' slgnos.jambérn
. ' ... . . . _ .
código. ,Os primeiros modelos contendo este elemento foram
~h~má.do
.

apresentados POl~ Moles (19.58: ;163) e Meyer-Eppler (1959: '2).


de
.

.'••
••.'
linear, (3.2) modelos circulares e (3.3) modelos que rejeitam, o Abraham Moles, engenheiro e matemático, desenvolveu mais tar-
conceito de fluxo de informação, enfatizando a autonomia dos de (1975) seu projeto.de um.a "ecologia dacomunicação" sob a
organismos em interação. ' influência da matemática de Sh'anno~'e da cib~rnética d~ N~rbert
Wiener (1948). Ce~tra1izado 'no concei'to de informação corno
3.1 MODELOS LINEARES matéria prima, Wiener expandiu ess~ conceito par~ o cat:lPo so-
.'•
.'.)
cial, entrevendo a possibilidade utópica de uma organização so-
o modelo tradicional linear dos elementos básicos que e~ltr~nl cial em luta contra a ameaça da entropia, tendência para desor- a
na composição de todos os processos de comunicação corresponde dem de um sistema, e em defesa da homeostase ou equilíbrio. Essa
e
.'•
J

àquele que foi formulado pela primeira vez por Shannon & Weaver homeostase só poderia ser promovida pela informação, 'as .máqui-
(1949) . As críticas que insidiram sobre esse modelo, chamaram , nas que a tratam e as redes que ela tece. .
atenção principalmente para o seu caráter I inear (ver, por e~em­ De certo modo influenciada por essas idéias, a ecologia cornu-
plo, THAYER, 1972; KOCK, 1980). Se o problema da comunica- nicacional de Moles é a ciência da inter~ção entre diferent~s esp é-
ção consiste em "reproduzir em urn ponto dado, de maneira exata
ou aproximativa, urna mensagem selecionada em um outro pon-
cies no interior de um dado campo, no qual espécies reagem urnas
às outras. Essa ecologia teria dois ramos: de um lado, a con~i 'd'e~a­ ..)•1
to" (A. e M. MATTELART, 1999: 58) ,a linearidade está aí ex-
pressa nos dois pólos do processo que definem urna origem e um
fim. Ora, segundo os críticos, uma tal linearidade se revela como
ção do ser individual e a interação dOe suas l1lodaÍidades'de cornu-
nicação na sua esfera de tempo e espaço . De outro lado,' a organi-
zação dos sisten~~s de transação entl~e os seres (A'. e M .'MATTE-
.1
.:•
LART ibid.: 65). '.

.'
urna representação inadequada do processo de comunicação, pois
linearidade sugere causalidade simples, A atividade do remetente
aparece corno urna causa que tem UI1l efeito calculado
.
na mente
.
do destinatário. Isto leva à idéia de urna interação de um partici-
pante ativo com um passivo. De urna perspectiva ideológica, ess~
é um modelo que sugere um po tencial quase total de manipulação
3.2 MODELOS CIRCULARES

Quanto ao? modelos circulares de comunicação, o primeiro


delesjá haviasido esboçado por Saussure (1916: 28) quando des-
.••:
do destinatário. O único fator que parece ameaçar este processo é
o elemento de ruído. Evidentemente, a comunicação é um proces-
creveu o caminho dos sinais' acústicos (ondas' sonoras) CO'I~l'o um
-riuxo de informação ern duas dit~eções: de um. e~1lissS)J' a um bu-
••

so mais complexo do que 6 de uma causalidade linear. O remeteu-
te não deixa de ser afetado pelo processamento de informação do
vinte e de volta ao emissor. Este é o modelo dó diálogo.
, Com a 'c i ben~ é ti c a e a teoria de sistemas :f~raJll' introduzidos
.'

.'
destinatário. Desta forma, a linearidade torna-se necessariamente novos conceitos, de circularidade 1;0 'lll·odelo ·de 'cOlnúnlcáção . À
circularidade. teoria d'os sistemas, fundada jã ~n~ i933 pelo biólogo Lud'wig'von


•• 54 Comunicação [; Pesquisa Lucia Santaella

•• Bertalanffy, teve por objetivo fundamental pensar "a globalidade,


a
as interações dos elementos, maisdo que causalidade, apreen-
microorganismos biológicos. Graças à forma geral do esquema e
graças à sua essencialidade e à sua .simplicidade, ele se fixou corno

•• der a complexidade dos sistemascorno conjuntos dinâmicos de


relações múltiplas e cambiantes" (A. e M. MATTELART, .ibid.:
um sistema comunicativo geral.
Não resta dúvida de que, para urna tal fixação , foram impor-

•• 62). O modelo sistêmico permitiu tornar menos linear o modelo


de Shannon aoincorporar o papel que o conceito defeedback (re-
tantes as contribuições dalingüfsticajakobsoniana e da s:enl iót!ca
de Umberto Eco e Paolo Fabbri, de modo .q ue , aos três tipos de

•• troalirnentação) pode desempenhar no processo comunicativo.


Feedback, o monitoramento e a adaptação que' o emissor faz de
modelos que foram agrupados por Nõth, e apresentado_s .acirna ,
acrescentam-se mais três tipos: (3.4) o modelo ling üístico-funcio- .

•• sua própria mensagem, através da observação do efei to desta no


receptor, t01110U-Se um termo chave da teoria dos sistemas de cornu-
- n i c ~ç ã o (ver WATZLAWICK et aI., 1967; NOTH, 1975 , 1989).
nal, (3.5) o modelo semiótico-informacional e (3 .6) o modelo
senliótico-textual.

•• 3.3 MODELOS INTERATIVOS


3.4 O MODELO LINGüíSTICO-FUNCIONAL

•• No ~ntanto, os avanços introduzidos pela cibernétic a e pela


Sem reduzir a ling üística à teoria da informação, Jakobson
(1962, 1971) criou UH1a rota intermediária entre ambas na. .sua

•• teoria de sistemas também foram alvos de novas críticas. A pri-


meira delas tema ver com o conceito decontrole, que está impli-
amplamente conhecida teoria. das funçõesda linguagem.: Sem pl~O~
duzir modificações substanciais no .esquerna analítico 40 nlqd~l~

•• cado no modelo da teoria de sistemas, e que sugere um processo


de otimização, eficiência e de congruência de objetivos entre o
original, paraJakobson, a informação,com ênfase no seu estatuts
de mensagem, parte de um emissor. para um receptor, através. de

•• emissor e o receptor (ver LASZL\\ 1972: 251). Bastante serne-


lhanteé a segunda objeção, que critica a representação ainda ina-
um canal, tendo por base um código comum. A novidade do es-
querna está no foco de referencial idade da mensagem , de onde

••
dequada do papel do receptor. Para superar essas objeções , al- são extraídas as funções da linguagem: Esse foco pode estar vol-
guns modelos que enfatizam a autonomia do receptor nos proces- tado para fora da mensagem, para aquilo a que ela se refere, para
sos de comunicação têm sido desenvolvidos. um terceiro elemento entre o emissor e receptor. Nesse caso, a

•• Não obstante as críticas e as modificações que foram econti-


nuam sendo inseridas no modelo original de Shannon, o que não
função será referencial ou cognitiva . Mas o foco pode estar tarn-
bérn voltado para qualquer um dos outros elementos cornponen-

•• se pode negar é que o esquema analítico por ele proposto, ou seja,


a essência do modelo tern continuado cOln.o urna presença cons-
tes do processo comunicativo: o emissor, quando se tem a função
emotiva, o receptor, quando se tern a função apelativa, o canal,

•• tante desde os anos 50 ..E m diversas versões e com mais ou menos


ligeiras transformações, o modelo tem se preservado 1l1UÜO pro-
quando se tem a função fática , o código , quando se tem a função
rnetalingüística e, por fim, a própria mensagem, quando se tem a

•• vavelmente graças a sua aplicabilidade a fenômenos bem hetero-


. gêneos, quer o processo comunicativo se verifique entre máqui-
função poética. A legitimação e difusão alcançadas por esse es-
querna jakobsoniano foram , sem dúvida, llnl dos motivos do ê xito

•• nas, entre humanos, entre humanos e máquinas, assim COIllO entre que levou à permanência do modelo cornun icacional original.

.>
56 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella ' 57 .'.'•

.'•
3.5 O MODELO SEMIÓTICO-INFORMACIONAL . que es tabeleçam várias regras, de correlação entre determinados
. .- .-. significantes e determinados significados. E, no caso de existirem
o caminho percorrido pelo modelo serni ótico-informacional

.'••
códigos de base aceitos por todos, há diferenças nos subcódigos"
foi diferente. Longe de ter nascido do assentimento ern relação ao (ECO e FABBRI, 1978 : 561 apud WOLF, ibid .: 124).
modelo original, ele nasceu da crítica à sua inoperância em pro-
cessos de comunicação humanos. Ao pôr ênfase na necessidade Não obstante o relevo teórico desse modelo , não obstante ain-
de tratamento da questão da significação ou produção de sentido, da a grande di vulgação obtida pela obra semi ótica de Eco ern vá-
Urnberto Eco (1972: 26) propôs' que urna teoria da comunicação
mais abrangente só poderia ser encontrada em urna teoria semiótica
rios países do mundo, antes meSl110 da explosão editorial de seu
romance O n071~e da rosa (ver no Brasil, por exemplo, ECO 1971),
•••
geral. Para Eco, só a serniótica poderia ser capaz de explicitar a
significação inerente ao processo comunicativo através da variá-
a infl uência desse modelo sobre a pesquisa em comunicação ern
geral foi limitada. Segundo Wol:f (ibid. : 125), essa limitação se ••
vel da decodificação e dos sistemas de conhecimento e cornpetên-
cias que a orientam . Disso se originou o que veio a se afirmar
CO'IllO um modelo serniótico-inforrnacional para o estudo da co-
explica pela falta de elaboração das conseqüências das hipóteses
da compreensão e decodificação das mensagens sobre os efeitos
sociais dos mass media. Embora o aperfeiçoamento desse modelo
•.•:
municação, modelo este que salientava que "os efeitos ,e as fun-
ções sociais dos mass media não podem prescindir do modo como
se.mi ótico-i nformacirmal em um modelo posterior, serniótico-tex-
••
.'••
tual, tenha tomado as relações entre compreensão de mensagens e
se articula, dentro da relação comunicativa, o mecanismo de reco- efeitos sociais um pouco mais claras, este outro modelo também não
nhecirnento e de atribuição de sentido , que é parte essencial dessa alcançou uma repercussão maior do que o primeiro,
relação" (WOLF ibid.: 123). . ~ ..

.•:
A novidade introduzida por esse modelo situava-se no concei- 3.6 O MODELO SEM/ÓTICO-TEXTUAL
to de código que, entendido semioticarnente, responsabiliza-se pelo
funcionamento dos fatores semânticos. Passou-se, assim, da no- Não foram necessários mais do que alguns passos teóricos para
ção de comunicação como transferência de informação para a de
transformação de Ul11 sistema em outro, transformação esta garan-
que o modelo sellliótico-informacional se desdobrasse e 111 li 111
modelo mais complexo serniótico-textual. Esses passos fO~'alll ••
tida pelo código. Com isso, o modelo serniótico-inforrnacional dados graças à evolucão interna da própria teoria serniótica . O
••
introduziu, C01110 elemento constitutivo da comunicação , o seu
caráter in trfnseco ele processo de negoci ação en tre emissor e re-
modelo serniótico-inforrnacional salientava do processo cornuni-
catí vo, sobretudo , ••
ceptor, para o qual concorrem di versas ordens de fatores.
"o elemento da ação interpretativa operada sobre as mensagens, atra- ••
••
(IDe acordo COlll as diversas situações socioculturais, existe uma di- vés dos códigos: assim a dissimetria dos papéis de emissor e de re-
versidade de códigos, ou de regras de competência e de interpreta- ceptor não era tida suficientemente em 'co ns ide ração (a não ser na
ção. E a mensagem tem uma forma significante que pode .ser preen- forma de feedback, que é, contudo, um aspecto referenteà direção
chida com vários significados, contanto que existam vários códigos da transrnissibilidade das mensagens). No modelo serniótico-texni-j ,
••
•• 58 Comunicação & Pesqu isa Lucia Santaella 59

•• esse limite é superado: na troca comunicativa, não são já as 'rnensa-


.gens" que são veiculadas, o que pressuporia urna posição paritária
Passados quinze anos, hoje se pode constatar que faltou ao
diagnóstico de Wolf um fator que estaria fadado a desempenhar

•• entre emissores e receptorestéa relação cornu úicativaque secons-


trói em torno de 'conjuntos de práticas textuais't'(WOl.F ibid.: 126-"127).
um grande papel na crise dos modelos de comunicação: a expan-
são da presença e da i rnportância da di mensão da cultura e das

•• mídias nas sociedades pós-modernas, conforme será discutido no

'. ••
o que merece ser salientado agor.a é que os destinat ários não
recebem simples mensagens reconhecíveis a partir de códigos
compartilhados, Recebem, isto sim ; conjuntos de práticas te xtuais
próxi 1110 tópico.
. Faltou também ao diagnóstico de Wolf perceber para onde a
tradição teórica dos modelos cornunicacionais já estava nitida-
mente migrando em meados dos anos 80, a saber) para as ciências

•• oriundas da cultura. Corn isso, a tra vé s da incorporação de contri-


buições advindas da serni ótica da cultura, o modelo serniótico-
cognitivas, nas quais os tradicionais modelos inforrnacionais e
cornunicacionais ficam .subs umidos a modelos cognitivos mais

•• te xtual veio possibilitar a apreensão do modo corno , pela media-


ção da cultura, os dados sociológicos dos aparelhos dos mass media
(flu xo unidirecional, centralização, formatos rígidos etc.) se trans-
amplos , aptos a estudar as interfaces contemporâneas entre seres
humanos e máquinas inteligentes (ver NÓTH) 1989). Embora o
campo das ciências cognitivas seja altamente híbrido, pode-se afir-

•• formam ernmecanisrnos comunicativos que incidem sobre pro-


cessos de interpretação, aquisição de conhecimentos e sobre os
mar que um sétimo tipo de modelo do processo comunicaciorial já
surg!u ·nele. Do mesmo modo , pode-se levantar a hipótese de que,
--':-.' .

•• efeitos dos' niass media.


Com isso , foram realçados não só os papéis desempenhados
na sopa bi ótica das ciências cognitivas , outros modelos podem
ai nda emergir. "

•• pelas mediações culturais que permitem a circulação das práticas


te xtuais , como também o papel do..destinatário na construção e 3.7 Os MODELOS COGNITIVOS

•• funcionamento comunicativo, funcionamento este que, com ênfa-


se na dinâmica existente .e n tre destinador e destinatário, ligada à As ciências cognitivas já começaram a se formar nos Estados

•• estrutura textual e nela incluída, é estudado pela serniótica e aná-


1ise do discurso.
acrise em
Unidos desde os anos 40 a partir da ci bern ética, da teoria da i nfor-
mação, do progresso da lógica matemática. Depois. dos anos 50,

•• Eill meados dos anos 8q, Wolf (ibid.: 131) detectou


queo modelo comunicativo inforrnacional e todos os seus desdo-
elas foram recebendo um impulso cada vez maior com o desen-
volvimento dos computadores, das pequisas em inteligência arti-
ficial e com a sofisticação dos experimentos neuro-fisiológicos é

•• brarnen tos esta varn imersos. Em seu cI i agnós tico, as razões para
uma tal cri se encon tra varn-se nos segu in tes fatores: a presença de
quadros de, referência mais gerais para os estudos elos mass me-
neuro-psicológicos, Não se trata, portanto, de um campo unifica-
do de pesquisas, mas de uma vasta encruzilhada de disciplinas e

••
, !

dia, a !lllt.d.ança de problemáticas consideradas principais , a pro- \ tendências de pesquisa que tern se expandido continuamente nas
gres~i ~a esteri I idade da l~esqll~sa ernpfrica de baixo perfi I e, por últimas décadas . Por isso mesmo, trata-se de UIll campo tortuoso e

•• fim, a e xistência de abordagens ~is,cip.lin~rtllente diferenciadas


sobre o concei to de comunicação.
complexo cuja síntese já apresentei em outra ocasião (SANTA-
ELLA, no prelo, b). Dados 0'8 objetivos destetópico, limito-me a


60 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella

Na vasta encruzilhada de disciplinas que compõem o tecido


61
••
-
indicar abaixo um brevíssimo roteiro para que possamos chegar a
uma linha alemã recente de estudos da comunicação cujo ponto das ciências cognitivas , no campo mais específico da psicologia -I
de partida se situa em um dos ramos das ciências cognitivas. cognitiva, originou-se a abordagem denominada construtivista com
Para os cognitivistas, a mente é um sistema que recebe, arqui-
va, recupera, transforma, transmite e comunica informação. Inte-
desdobramentos na psicolingüística (BRANSFORD, BARCLAY
e FRANKS, 1972; ANDERSON e BOWER, 1973; BOWER e

ressam a eles, portanto, os aspectos universais dos processos de COHEN, 1982). Tomando como base fundaçõesmais propriamen-
informação, buscando descobrir princípios fundamentais altamente te sociocognitivas, uma extensão dessa abordagem ao campo da
gerais e explanatórios do processamento de informação. Devido a .comunicação deu origem a uma corrente de pesquisa denominada
esse alto grau de generalidade, a visão da mente como um sistema . construtivista (ver H. e B. SYPHER, 1988). Tais pesquisas evi-
processador de informação se tornou dominante, naquilo que fi- denciaram a relação entre estruturas cognitivas e geração de men-
cou conhecido como o modelo computacional da mente. Esse sagens, ligando a diferenciação cognitiva com uma variedade de
modelo se apoiou epistemologicamente no funcionalismo, para o habilidades comunicacionais ou relacionadas com a comunicação
qual a essência da natureza psicológica do estado ou processo que documentam a conexão entre estrutura cognitiva e desempe-
mental não está na sua realização física particular, mas sim no seu nho comunicati vo. .
papel computacional no sistema processador de informação. Antagônica aos modelos dominantes das ciências cognitivas,
Entretanto, com o passar do tempo, o campo conceitual das tanto os cognitivistas quanto os conexionistas, dentro do mosaico
ciências cognitivas ficou povoado de controvérsias e posições complexo de que as ciências cognitivas se compõem, nasceu uma
antagônicas ao modelo computacional da mente, assim como o abordagem minoritária, nem por isso menos influente, a partir das
próprio modelo computacional foi se transformando na mesma pesquisas de dois biólogos chilenos, A. Maturana e F. Varela so-
medida em que as ciências da computação e da informação, junta- bre sistemas autopoiéticos (ver, por exemplo, 1980). Tais siste-
mente com as pesquisas em inteligência artificial, iam se desen- mas se organizam de acordo com a autonomia, a circulação e a
volvendo. auto-referência que constituem sua homeostase e sua auto-organi-
Um dos desdobramentos mais complexos da chamada teoria zação. Opondo-se aos cognitivistas representacionalistas, para os
computacional da mente encontra-se na teoria representacional quais uma entidade cognitiva sempre se refere a um mundo
da mente de J. Fadar, enquanto, no extremo oposto do modelo da preexistente, na perspectiva autopoiética, que veio a ser também
.'•
-
mente em analogia com o computador, situam-se as neurociências chamada de construtivistaradical , a informação não é preestabele-
que estudam a realização física dos processos de informação nos cida como ordem intrínseca ao sistema, mas emerge das próprias
sistemas nervosos humanos e dos animais. atividades cognitivas.
Entre outras oposições, ficaram também famosos os debates
entre o cognitivismo e o conexionismo. Os conexionistas tentam
Sob a influência dessa teoria autopoiética, amalgamada com
uma versão personalíssima da teoria dos sistemas e com a ciber-
••
reproduzir o comportamento humano usando redes de elementos
processadores simples, redes neurais, cujas propriedades se asse-
melham às das células cerebrais ou de conjuntos delas.
nética de segunda ordem de von Foerster, o sociólogo alemão
Niklas Luhmann desenvolveu uma intrincada teoria social que
inclui as questões da comunicação e ação, comunicação e percep-
••
62 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 63


I

ção (1984, 1995, 1970-1995). Ficou famoso o debate entre Haber- maior, a dimensão da cultura, na qual os meios encontram uma
mas e Luhmann, publicado em livro (1971), em que Luhmann se lógica de desenvolvimento que lhes é própria, mas ao mesmo tempo
contrapôs à teoria de Habermas ao afirmar sua teoria da auto- inseparável das injunções culturais . .
referencialidade dos sistemas sociais que tem seu eixo na questão Entre as tendências volt1adas para a comunicação, estudada sob
e,: da complexidade de suas relações com seu meio e consigo mesmo. um ponto de vista que se pode chamar de culturalista, encontra-se
. 1: Tomando como base a teoria de Luhrnann, desenvol veu-se, na
Alemanha, uma teoria da comunicação no cruzamento da teoria
aquela que, sob o nome de, cultural studies, se esboçou na Ingla-

••
•• dos sistemas, cibernética de segunda ordem e construtivismo
terra, entre meados dos anos 50 e primeiros anos da década de 60,
em tomo do Centerfor Contemporary Studies, de Birmingham. O

..- "
,'
(KOCK, 1980, 1981; FUCHS, 1993; SCHMIDT, 1994, 1995,2000;
DE BERG, 1997), com repercussões para além da Alemanha (ver,
por exemplo, STEIER, 1989, 1995). No centro desse cruzamento,
de um lado, a cibernética de segunda ordem deve ser entendida
objetivo dos assim chamados cultural studies era definir o estudo
da cultura que englobasse "quer os significados e os valores que
surgem e se difundem nas classes e nos grupos sociais, quer as
práticas efetivas através das quais esses valores e esses significa-

.;. ~ ' como uma realidade objetiva que não mais se apresenta como um dos se exprimem e nas quais estão contidos" (WOLF 1987: 108).

.•
objeto, mas como uma realidade de segunda ordem, construída Em relação a tais definições e modos de vida - entendidos
relativamente a nossas posições, na qual o observador tem uma como estruturas coletivas - "os mass media desempenham urna
".':." influência determinante no que pretende observar. Trata-se aí da função importante, na medida em que agem como elementos ati-
-
subjetividade relativa de um pragmatismo do conhecimento que vos dessas mesmas estruturas" (ibid.: 108). São duas as aplica-
.~>
•_ _i
desemboca na constatação de uma realidade de segunda ordem ções em que os cultural studies se especificaram: de um lado, os
que 'inclui o seu próprio movimento em um desenrolar sem fim. trabalhos sobre a produção dos mass media enquanto sistema com-

•ej---
De outro lado, a teoria dos sistemas não deve ser compreendi- plexo de práticas determinantes para a elaboração da cultura e da
•• ••
"
da com uma teoria das estruturas, mas dos processos, não de hetero- imagem da realidade social; por outro lado, os estudos sobreo consu-
nomias, mas de autonomias, não do determinismo, mas da liber- mo da comunicação de massa enquanto espaço de negociação entre

... ">
.~>
..
' ~'
,

.....
..
:.
dade. A teoria dos sistemas é a teoria da contingência. Ela assume
que toda ação social ou evento é sempre uma seleção de um cam-
po de possibilidades, de modo que a realidade poderia ter sido e
deve ser diferente (DE BERG, ibid.: 141). "A contingência diz
que algo diferente também é possível" (Luhmann) .
práticas comunicativas extremamente diferenciadas (ibid.: 109).
Embora reunidos em torno de diferentes temas de trabalho,
tais como etnografia, media studies, teorias da linguagem e subje-
tividade, literatura e sociedade, todos esses estudos encontravam
e continuam encontrando uma linha comum de atuação tanto na
concepção da cultura como conjurito de todas as práticas sociais e
_L
. :~
4. As TENDÊNCIAS CULTUROLÓGICAS E MIDIÁTICAS como soma de suas interações, quanto na vinculação de seus tra-
balhos a questões suscitadas por movimentos sociais, o feminis- ,
• •s:

e,) Por tendências culturológicas estou aqui compreendendo os . mo, por exemplo. Por isso mesmo, atualmente, em universidades
estudos que abordam os meios de comunicação e suas implica- espalhadas pelo mundo inteiro, há departamentos voltados para
• .:,}I
ções como componentes de uma dimensão sócio-antropológica os cultural studies, muitos deles quase inteiramente dominados
.~~~;

.i :
' ~'
64 Comunicação [; Pesquisa Lucia Santaella 65 •
por mulheres intelectuais dedicadas à defesa das temáticas das mas, tem estado mais interessada "e m questões como: quais os tra-
minorias,
Em uma corrente híbrida, tecno-culturalista, pode ser enqua-
drada a obra do canadense McLuhan (ver especialmente 1962,
ços que caracterizam cada mídia e como esses traços tornam cada
mídia física, psicológica e socialmente diferente de qualquer ou- ••
1964). Concebendo os mass media dentro de uma perspectiva
muito ampla, McLuhan ligou-os essencialmente às transformações
tra? Como o advento de uma nova mídia, em uma matriz existente
de mídias, pode alterar as interações sociais e a estrutura social
em geral? Nessa medida; esses teóricos acabaram por convergir

antropológicas, perceptivo-simbólicas, introduzidas por cada ino-
vação tecnológica e comunicati va. Para McLuhan, os meios de
comunicação moldam a organização social porque são estrutu-
na concepção de três estágios civilizatórios básicos, produzidos
pela interação entre mídia e cultura: as sociedades orais , as mo-

dernas sociedades da escrita e a cultura eletrônica global (MEYRO-
radores das relações espaço temporais às quais o pensamento e WITZ, 1993, 1994).
sensibilidade do ser humano se conformam. Ficou famosa a sua Com caracteres próprios, principalmente mais politizados, mas
metáfora da aldeia global em que o planeta estava se convertendo alinhado a uma tradição que se pode considerar como originária
em função do meio televisivo, segundo McLuhan, o mais frio e primeiramente do canadenseJ:larold Innis (1950, 1951) e, depois,
participativo de todos os meios. Sua visão apoIítica da comunica- de McLuhan, enquadra-se ainda o projeto de Regis Débray, ini-
ção foi muito criticada nos anos 70, mas recentemente, com o ciado em 1979 e publicado em 1991, visando à fundação de uma
advento das redes de comunicação planetárias, a iluminação de midialogia geral. Centrada na análise do intelectual na sua função
muitas de suas idéias, especialmente daquela que está contida na
metáfora da aldeia global, tem sido amplamente reconhecida.
de oficiante dos aparelhos de transmissão, essa abordagem bus-
cou estabelecer uma correlação entre, de um lado, as atividades

McLuhan foi inspirador de toda uma geração de teóricos da simbólicas - ideologia, política, cultura - e, de outro, as formas
mídia, principalmente de origem canadense, que tomaram a si a de organização e os sistemas de autoridade que os modos de pro-
ambiciosa tarefa de construir uma história da civilização de uma dução, arquivamento e transmissão da informação induzem. Ins-
perspectiva midiática (HAVELOCK, 1963, 1982; EISENSTEIN, 1979; pirado na idéia de McLuhan de que o próprio meio determina o
ONO, 1982; MEYROWITZ, 1985). A maioria das pesquisas em caráter do que é comunicado, conduzindo a um tipo próprio de
mídia tende a focalizar apenas uma dimensão do ambiente civilização, Débray se defendeu da acusação de exaltar um determi-
midiático, a saber, o conteúdo das mensagens e suas implicações,
tais como a maneira das pessoas reagirem às mídias; a influência
nismo técnico ao colocar ênfase na necessidade de se descobrir as
determinações objetivas dos aparelhos do pensamento (A . e M. ••
dos fatores econômicos, políticos e institucionais naquilo que é
transmitido pelas mídias; se as mensagens midiáticas refletem ou
não as variadas dimensões da realidade; como audiências diversas
MATTELART, 1999: 179).
Na mesma linhagem, mas utilizando suportes interpretativos
das mídias emprestados da semiótica, situa-se a obra de Bougnoux
••
interpretam de modo distinto o mesmo conteúdo, e assim por diante.
A geração inspirada por MacLuhan, entretanto, por conside-
(1994). Estruturadas como uma teia de relações dos meios de massa
com a cultura, literatura e arte, suas interpretações, muitas vezes
••
rar que as mídias não são simples canais para transmitir informa- o, agudas e criativas, se sustentam também em alusões à psicanálise
ção , mas conformadoras de novos ambientes sociais nelas mes- e ciências cognitivas.
• Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 67
66
a expansão do papel desempenhado pelas mídias no seio da vida

•.:
••.
Distinta das teorias críticas de origem alemã, mas também an-
tagônica aos direcionamentos das pesquisas norte-americanas dos
mass media, surgiu a teoria culturológica de extração francesa que
social, essa tradição passou a adquirir feições culturalistas-midiáticas.
A partir do final dos anos 70, os estudos da comunicação fo-
ram absorvidos em um ambiente geral de debates inteiramente
teve seu ponto de partida na obra inaugural L 'Esprit du temps, de
•• Edgar Morin (1962, ver ainda 1973, 1986). Esta teoria não se
novos que veio a ser chamado de pós-modernidade. Entretanto,

•• voltou diretamente aos mass media nem aos seus efeitos sobre os
destinatários, mas para a definição da nova forma de cultura da socie-
foram ainda as feições de uma tradição culturalista-midiática aque-
las que mais fielmente caracterizaram essa absorção.

••
••••
dade contemporânea que os mass media inauguraram.
Embora seja a cultura realmente nova do século XX, para
Desde os anos 70, os satélites de comunicação colocavam, nas
telas de televisão de quaisquer partes do mundo, eventos de quais-
quer outras partes. Essa composição de um panorama internacio-
Morin, a cultura de massas não é autônoma, mas pode embeber-se
nal pluricultural foi intensificando, especialmente nos países cen-
••• de outras culturas - nacional, religiosa ou humanística - nelas se

•.• ;
interpenetrando e, quase sempre, corrompendo-as. Embora tenha
uma natureza que lhe é própria, constituindo-se como um conjun-
trais, a consciência das alteridades culturais, da existência do ou-
tro na sua outridade. Graças a bancos de dados cada vez mais
potentes, a memória culturalda humanidade começou a se acu-

.'.••
to de símbolos, valores, mitos e imagens, a cultura de massas se
~.

mular e se tornar cada vez mais acessível. Nas máquinas de xerox


insere na complexa realidade poli cultural das sociedades contem-
em cada canto e cada esquina, desmembrando os livros em infini-
a ::: porâneas. dades de pedaços para atender necessidades personalizadas, nos
Tomando a estrutura do imaginário como mediadora entre os

.
jogos eletrônicos e no vídeo cassete, transformando os usos até
pólos opostos dos processos de estandardização e exigências de
. ..; ;: então hegemônicos do aparelho de televisão, enfim, na multipli-
-,.• individuação que são próprios da cultura de massas, Morin en-
~.
cação crescente dos canais de TV a cabo, a cultura do disponível .
controu no sincretismo o traço "mais adequado para traduzir a
tendência para homogeneizar a diversidade dos conteúdos sob um começou a contaminar a cultura de massas com o virus da perso-
•e>•• nalização comunicativa do qual esta jamais se livraria.
_ .. "
denominador comum" (MORIN, 1962: 29 apud WOLF 1987: 102).
Sob a a'legação da ausência de sistematicidade e do teor vago Em suma, as novas tecnologias começaram a descentralizar a
comunicação massiva, afetando a recepção de massa ao permitir
e, e generalizante dessa teoria culturológica desenvolvida por Morin,
ao usuário maior controle sobre o processo de comunicação, atra-
• os sociólogos Bourdieu e Passeron (1963) não tardaram a rei vin-
dicar um comportamento mais empírico e mais específico para o vés de canais de televisão a cabo e videotapes que davam à audiên-

•.
cia acesso a programas especializados. Com a emergente fragmen-
tratamento dos meios de comunicação.
Embora não se possa dizer que Morin tenha criado uma escola tação e segmentação da audiência, a televisão não podia mais ser

.,• ••
:, pensada como um sistema monolítico. O fenômeno do zapping, a
de estudos culturalistas no sentido de deixar seguidores, pode-se;
.~.' . ., no entanto, afirmar que os estudiosos franceses dos meios de co-
mudança de canais através do controle remoto executada pelo
... .telespectador para ficar livre dos comerciais, tornou-se uma preo-
municação, que foram contemporâneos ou vieram depois de Morin,
cupação central na indústria da publicidade. O emergente Compu-
não obstante a inconfundível marca individual de cada um, en-
e,:,' Serve, serviço de in,formação através do computador, que podia
.,.
i
.:;
quadram-se todos em uma tradição de estudos culturológicos. Com
Comunicação 5- Pesquisa Lucia Santaella 69
r
68

ser ac essado através de terminais domésticos, deslocava a ênfase


nos efeitos dos meios de comunicação de massa para a questão da
da inteligência, memória, sensibilidade e afetos. Militava, em fun-
ção disso, pela reapropriação das máquinas de .comunicar numa
••
interatividade que se insinuava nas novas mídias (SEVERIN e perspectiva de experimentação social.
TANKARD, 1992: 12-13). Todas essas mudanças no universo da
comunicação iam brotando no solo mais amplo da irrupção de um
Distinta dessa posição é aquela defendida por Paul Virilio
(1993, 1996a, b), na sua desconfiança quanto à própria possibili-
••
intenso debate cultural que viria tomar conta do mundo na segun- dade de uma teoria da tecnologia, dada a aceleração de suas mu-
da metade dos anos 80, o debate sobre a pós-modernidade
(HARVEY, 1993; SANTAELLA 2000: 85-134; MENEZES 2001).
Conforme já discuti em outra ocasião (SANTAELLA, ibid.:
danças que motiva um pensamento sob o signo da velocidade.
Quanto mais as transformações tecnológicas aceleram seu ritmo,
mais as atividades humanas se reduzem à inércia, substituídas que
••
118-119), quando Jean-François Lyotard publicou seu livro La
condition postmoderne (1979), mal podia supor que essa obra
são pelos aparelhos que levam à perda da sensação da duração, da
vida corporal e social.
Ainda mais radical é o negativismo de Jean BaudrilIard (ver,
••
funcionaria, de um lado, como força aglutinadora de manifesta-
ções intelectuais e artísticas que vinham dispersivamente se mani-
festando e, de outro, como um estopim daquilo que viria a se cons-
por exemplo, 1974, 1976, 1981, 1983aeb).Emcompletoantago-
nismo a quaisquer crenças iluministas, para ele, a comunicação"
••
tituir em um dos assuntos mais candentes do final do século XX. virou uma vítima do excesso de comunicação, excesso que levou
A tese central do livro denunciava a perda de legitimidade das
metanarrativas, especialmente políticas e filosóficas que, desde a
à implosão dos sentidos, à perda do real em um mundo fantas-
magórico povoado de simulacros. Sob esse ponto de vista, a rea- ••
Revolução Francesa, regulavam os discursos e procedimentos
considerados científicos. Com o abandono dessas narrativas cen-
lidade está cada vez mais sendo convertida em signos vazios, anu-
lando-se dramaticamente a nossa capacidade de resistência a esse ••
tralizadoras, a ciência passou a ser paradoxalmente regida pelas
figuras do dissenso e da invenção, do que resultou a pulverização
esvaziamento. Todos os rincões da vida contemporânea estão sendo
invadidos por objetos e experiências artificialmente produzidos ••
dos discursos na rede flexível dos jogos de linguagem que encon-
tram sua forma otimizada de produção e difusão nas novas
(signos) que não têm mais relação nenhuma com a realidade. Eles
são seus próprios simulacros puros, tentando ser mais reais do ••
tecnologias de comunicação.
O fervilhamento do debate pós-moderno e a profusão de posi-
que a realidade (hiper-reais). Sob esse regime, entram em colapso
todos os antagonismos políticos. Os opostos se dissolvem uns nos
outros, e todos os atos acabam por beneficiar a todos, disseminan-
••
ções diante dele que se seguiram a essa publicação de Lyotard
extrapolam os limites estipulados pelas finalidades do tópico des-
te capítulo. Para reatar a tradição culturalista-midiática dos estu-
do-se em todas as direções (SANTAELLA ibid.: 120). Outras
posições menos apocalípticas do que a de BaudrilIard podem ser
••
dos da comunicação no centro do debate pós-moderno, cumpre
chamar atenção para a posição personalíssima defendida por Felix
encontradas, por exemplo, em F. Jameson (1~84), em G. Vattimo
(1991), Maffesoli (1996) e Lipovetsky (1997).
••
.• ~ '. Guattari (1993). Rejeitando a ideologia da pós-modernidade, pro-
punha que as tecnologias da informação e comunicaç~o ope~am ,
Embora se situe muito longe das origens das teorias crfticas, o
negativismo baudrillardiano tem um certo sabor atraente', sedu- ••
no centro da subjetividade humana em todas as suas dimensões: zindo aqueles que se filiam às idéias defendidas por aquelas teo-
••
.,
~ 70 Comunicação' S Pesquisa ' Lucia Santaella 71
4t
tt, rias. Porém um tal nível de óatasrrofisrno certamente não é com-
_. partilhado por muitos. Se ele faz algum sentido à intelectuais blasés,
1977), levantam o problema da origem filogenética e dos traços
distintivos da comunicação. Tembrock (1971) define este campo
situados em sociedades de primeiro mundo, às' sociedades perifé- usando o termo "biocornunicação".
--_.,
_.
ricas devem caber outras estratégias de pensamento e ação que
não caiam, pelo menos, no conformismo catatônico de que nada '
Numa tradição iniciada por antropólogos e lingüistas antropo-
lógicos, tais como Sapir, Whorf, Malinowski, Firth , Leach (1976)
resta a fazer, e Lévi-Strauss (ver SCHMITZ, 1975), a comunicação tornou-se
_:
_.' De fato, as teorias ou reflexões sobre a comunicação que sur-
giram , por exemplo, na América Latina, estão bem longe do ca-
um termo chave para a análise das sociedades e das culturas. A

•• •• tastrofismo conformista. 'A maior palie dessas teorias, com as pecu-


liaridades que lhes são próprias, enquadram-se em UlTIa tradição
tese proposta por G ..Bateson (ver LA BARRE, 1964: 191) de que
"toda cultura é comunicação" condensa o amplo escopo do con-
ceito na antropologia cultural. Essa tradição foi particularmente
-~ culturológica e também midiática. Mantendo como constantes os influente para o desenvolvimento da serniótica especialmente !lOS
.',: .'

ternas das apropriações, expropriações, mimetismos , identidade,

I---
Estados Unidos. Significativamente, foi a antropóloga Margaret
resistência e, mais recentemente, expropriação e exclusão, essas Mead que, na Conferência -da Universidade de Indiana de 1962
teorias têm interferido no' debate contemporâneo, nele introd.uzin- sobre Paralirigüfsticae Cinésica, introduziu "semi ótica" como um
tI.. do conceitos originais, tais como: hibridização, mestiçagem, mo - novo termo para o estudo de "comunicações padronizadas em todas
e..;
.•
dernidade alternativa, rnediações midiáticas (ver especialmente as modalidades" (ver SEBEüK et al., 1964: 5).

CANCLINI, 1990; BARBERO, 1987; SODRÉ, 1991, 1996, 2000a; Ainda segundo Nôth (1990: 169), um ramo da lingüística an-
-~

;~; PINHEIRO 1994) . tropol ógica que influenciou a sociolingüística foi a etnografia da
._ .. tI

-cornunicação de Hymes (ver SCHMITZ, 1975). Seus objetos de


e-.3 5. CONCEITOS DE COMUNICAÇÃO NAS CIÊNCIAS VIZINHAS estudo são as situações de comunicação e as funções do discurso.
--::
.~,:,
Numa extensão crítica do conceito chomskyniano de competência,
Além das quatro tradições de estudos específicos de comuni- Hymes (1972) desenvolveu uma teoria da competência comunicati-

.-.;
. ;.:. cação , acima esboçadas, em várias ciências vizinhas , conceitos e
teorias híbridas da comunicação tamb ém construiram seus ninhos.
va para estudar as variedades dos códigos lingüísticos em grupos so-
ciológicos eo domínio destes códigos por falantes individuais .

.
')
O contorno abaixo, baseado em Noth (1990 e 2000) , de áreas Nas áreas da psicoterapia, psiquiatria e psicanálise, Bateson et
-y ';.
correlatas à comunicação não é exaustivo, mas ilustrativo de al-
guns terrenos em que a comunicação COITIpareCe muitas vezes COITIO
~I. (1956), Ruesch (1972), Watzlawick et al. (1967) e outros desen-
~ .•
volv.eram urna teoria geral do C~ITIportalnento humano baseada na
eJ" concei to chave. teoria da comunicação. Nesta abordagem, psicopatologias, espe-
e:
.:.,.'"
Assim, o CalTIpO da comunicação não-verbal é um ramo da
psicologia social. A delimitação ~as for,mas 'c om unicativas 'e não .
comunicativas do comportamento cotidiano é L1m .~e seus proble- "
cialmente a esquizofrenia, são definidas corno um distúrbio da
comunicação , e sua análise e terapia são vistas como urna situa-
. ção particular de comunicação .
e...}
ITIaS mais fundal~entais. 'A zoosserniótica, institucionalmente L~m

. Na sociologia filosófica de Habermas, a teoria da competên-


' 0

• ~~t

• ~:
••

'.
.
ramo da biologia e, mais particularmente. ia etologia (ver SMITH, cia comunicativa foi ampliada para cobrir todas as "estruturas ge-
ir
72 Comunicação [; Pesquisa
Lucia Santaella 73
••
rais de possíveis situações de discurso" (1971: 102). Nessa pes-
quisa , Habermas dedicou-se ao sistema de regras "de acordo com
semi ótica, tornam-se tão difusos a ponto de reclamarem por urn
estudo à parte (SANTAELLA e NOTH, em progresso). ••
••
Realmente, as relações da serniótica com a comunicação nun-
o qual geramos situações de discurso possível em geral". Para
ca for.am vistas com muita clareza e o fato de a semiótica empre-
Haberrnas, a comunicação não se restringe ao " d isc urso" verbal.e
gar termos como "serniose" e "significação" em vez de "cornuni-
não-verbal, mas também inclui atos comunicativos sem troca real
de informação (ibid.: 114~15) ..Embora a teoria de Habermas te-
cação" , e "signos" em lugar de "mensagem" contribui muito para .
essa falta de clareza. De todo modo, não é por acaso que ambas,
••
nha, de fato, nascido dentro da sociologia filosófica, é inegável a

.'••
lingüística e serniótica, comparecem em muitos volumes sobre
sua contribuição específica para os estudos da comunicação. Tan-
teorias de comunicação, assim como não é por acaso que algumas
to é que Habermas se insere em uma das tradições dos estudos de
...... dentre as correntes sernióticas fazem parte de uma das tradições
comunicação, a tradição das teorias críticas.
de estudos de comunicação, a tradição dos modelos do processo
Sobre as bases do legado pragrnatista norte-americano, nas fi-

••
comunicativo, como já foi visto.
guras de Peirce, Jarnes, Dewey e estendendo-se para o neo-pragma-
Todas as misturas entre tradições diversas e muitas vezes an-
tismo de Rorty, vários autores buscaram avaliar o papel desse le-
gado , nos seus aspectos lógicos, processuais e retóricos, dentro
do quadro de urna 'filosofia da comunicação (LANGSDORF e
SMITH, 1995).
tagônicas, assim .como seu aparecimento em ciências vizinhas
foram fazendo da área de comunicação um campo híbrido e pou~
co nítido nos seus limites internos e fronteiras. Essa falta de niti-
dez só vem aumentando nos últimos anos em função da emergên-
.'.'•
Tanto a Iingüística e a análise do discurso quanto a semiótica,
cia .recente de novos fatores que, no dizer de A e M. Mattelart ••
esta última concebida COIllO teoria dos signos e também como teo-
ria da significação, comparecem como teorias da comunicação
(1999: 9), estão situando a comunicação cornot'figura emble-
mática das sociedades do Terceiro Milênio", assunto este reserva-
••
••
.'
ern muitos volumes dedicados a esse tema (ver, por ,exemplo,
.;;
do para o início do próximo capítulo.
PIGNATARI, 1969; TEIXEIRA COELHO 1978; INGLIS, 1990;


FISIZE, 1990 ; BAYLON e MIGNOT, 1994). Em seu livro sobre
Leituras em teo ria da comunicação (The communicaüon theory
reader, 1996) Cobley chegou ao extremo de limitar essas leituras
às teorias do signo, significação, usos do signo, atos de fala, discur- .'••
t,
so e interpretação.
Não resta dúvida .de que ambas, lingüística e serniótica, têm
um estatuto que lhes é próprio como ciências, estatuto este que as .
leva além do limite de serem consideradas exclusivanlente corno
.'
••
•e'
"-.-
teorias da comunicação. Entretanto, as questões de que tratam têm
"".,"
tamanha relevância para os estudos da comunicação, são tantas as ....

'''-.,.'
sobreposições e intersecções que apresentam COIll a comunicação
que os limites entre elas, especialmente entre a comunicação e ••
..
41,
•-;
.:
é :·

.•-;.;:
.~:
~
MAPEAMENTO DA ÁREA
DE COMUNICAÇAO
e;
e>
ti,

.:•.
I

ê: I
I

..• I o mapeamento a seguir da área da comunicação,


' ; seus territó-
e: I rios e suas interfaces não levará em conta apenas as tradições de
..:' pesquisa em comunicação, mas também as linhas de força com
• ••

....
I que 'a' 'comunicação nos aparece hoje . Por isso mesmo, antes de
.. . . I passarmos à elaboração do mapa, trata-se de discutir a complexi-
. '
j
i

.•••.~
i dade das novas inserções e ramificações C0l11 que a comunicação
se apresenta no momento atual.
" :.
-' 1. A ONIPRESENÇA DA COMUNICAÇÃO
••
,;}:

• •• Háhoje UI11 cpnsenso quase incontestável so.bre o caráter hí-

.', e:· brido da comunicação, de UI1l lado, enquanto fenômenocornuni-


cacional em si, que se faz presente e interfere em vários setores da

.'"
..
.~:
vida .privada e social e em várias áreas do conhecimento; de outro
lado, enquanto área de conheci mento ela mesma que, cada vez

...:;
;;
..
· rJ
:.
'..;;/
~
"

-'~ I
I
mais, parece situar-se na encruzilhada de várias diséiplinas e ciên-
cias já consensuais OLI emergen tes .
As comunicações constituem, ao mesmo tempo, um importan-
tíssimo setor industrial, um universo simbólico que é objeto de

.~:' I
~" .
Lucia Santaella . 77 --•
76
••
co nsu rno maciço, um investimento tecnológico· e 111 expansão
ininterrupta, uma experiência individual diária, LlI11 terreno de con-
fronto político, um sistema de intervenção cultural e de agregação
Na época em que Sfez escreveu sua Crítica da comunicação,
a~ redes teleinfcrrnáticas ~ão haviam a(nda explodido e abraçado
o glo~o com um~ teia deconexões, nem as questões da globaliza-
.:
e!
social, urna l11aneira de informar-se, de entreter-se, de passar o i' ç.ã~i ,Q~0Iític9-'econônlica .e da mundializaçãoda cultura 'hav ia m
••
tempo etc. (WOLF, 1987 : 13). ,
Sfez ( 199 4 : 25) também nos alertou para o fato de que a -comu-
entrado na ordem do dia, de modo que, ao acrescentarmos esses
novos fenômenos à lista de Sfez, a imagem proliferante da cornu-
nicação se torna ainda mais tentacular.
••
nicação invadiu todos os domfn ios: a empresa e seu proeminente
••
':...::'

setor de "relações humanas"; o marketing. antes restrito ao produ- De fato, no início dos ~nos quando ainda estávamos"im~rsos
9'0,
nos debates sobre pós-modernidade, começou aentrar el~ cena,

••
to, hoje recobrindo a imagem da própria empresa; os meios polí-
ticos inteiramente entregues ao marketing político e à imagem de sob a égide da ec;oromia neo-liberal, aquele que seria o. grande
marca; a il11prensa, o audio visual e a edição nos quais a 'r ubr ic a da tema dos anos 90, o terna da globalização (ver TANI:TI, 1992, 19.95
comunicação floresce; as psicoterapias que se pretendem comu-
nicativas, e até as ciências exatas -fís~ca e biologia-estão conta-.
e ORTIZ, 1994). Nesse contexto, o p apel desempenhado pelos
a
meios de comunicação passou a ser de U111a, tal ordem ponto' de ••
1111 nadas pelo vocábu lo "cornun icação".
Além de a oornunlcação ter invadido metáforicamente o con-
se poder afirmar que, sem os meios de comunicação teleinforrnã-
ticos, o complexo fenômeno da globalização, tanto nos seus as- ••

.'••
junto das ciências humanas e das práticas políticas, sociais, cultu- pectos econômicos e políticos quanto certamente culturais. , não

rais e econômicas, recordemos ainda, dizia Sfez (ibid.: 28-29), teria sido possível.
que a biologia genética origina-se no modelo de trasrnissão codifi- Os sistemas tecnológicos complexos de comunicação e infor-
. : ...
cada de uma mensagem (ADN); que a ~iên(?ia~Gológica ou etoló- mação C?ertamen te passaram a exercer um papel estruturan te na
~

gica nutre-se de imagens oomunicacionais; que as neu~o-ciências organização da sociedade e da nova ordem mundial. D~í a socie-
tornam seu conteúdo de referência de empréstimo à conexão (es- dade ser definida em termos de comunicação que é definida em
termos de redes. Tendo isso em vista, Mattelart (1997a, -l997b)
••
ses permutadores cerebrais de 111ensagens invisíveis). Enfim,·-
criou o conceito de "comunicação-mundo", inspirado node "eco- ••
"todas as tecnologias de vanguarda, das biotecnologias à inteligên- nomia-mundo". Para o autor, esse conceito permite continuar a
-~
cia ahifícial, do audiovisual ao rnarketing e à publicidade, enraizarn-
se num princípio único: a comunicação. Comunicação entre ° ho-
análise desse novo espaço transnacional hierarquizado: ? lógica
pesada das redes imprime sua dinâmica integradora, ao mesmo ••
mem e a natureza (biotecnologia), entre os homens na sociedade tempo em que produz novas segregações, novas exclusões, novas
.',
,', -'
(audiovisual e publicidade), entre o homem e seu duplo (a inteligên-
cia artificial); cOI~unicação que enaltece o convívio, a proximidade
disparidades. .
••
t'.(k"'
ou mesmo a relação de amizade (friendship) com o computador"
(SFEZ, 1994: 21) . "
I
"~i
. I
IIS e a internacionalização nãoé mais o que .er a na época em que os
conceitos de dependênciae imperialismo cultural ainda
apreender
p~rl11itiam
° desequilíbrio do fluxo mundial de informação e cornu-
nicação, é p~rque novos atores apareceram num cenário doravante
.'•
e\

."".. . ' •
._~

~.
78 Comunicação 5- Pesquisa Lucia ' S a n ~a e l l a
4t~! 79

_.
~. transnacional . Os Estados e as relações interestatais não são mais o
. único pivô de ordenamento do mundo . As grandes redes de info rma-
'Cérebros humanos , computadores e redes interconectadas de
comunicação ampliam, a cada dia, um ciberespaço 111~ndial no

_.
~­ ção e comunicação, com seus fluxos 'invisíveis', 'imater~~.\ais l ;.f~I~lTÜ~~,. .
'terri tórios abstratos', que escapam às an tigas ter ri tori aI i~J~tfreS'~"
qual todo elemento de informação encontra-se ern contato vil-tual
com todos e com cada um, tudo isso convergindo para "a consti-
(MATTELART, 1999 : 166). . ~ tuição de um novo meio de comunicação, de pensamen to e de

-"••
.;
~.' . -;~ trabalho para as sociedades humanas", enfim, de urna nova antro.
No contexto dessas transformações . vale notar que, crescen- pologia própria do ciberespaço (LÉVY, 1998: 12,2000).
temente aurnenraqa pelas comuni~ades ciberespaciais que se for- Segundo Lévy (ibid .: 13), a fusão das telecomunicações, da

'.:, marn ao sabor da espontaneidade desregrada que ~ própria das informática, da imprensa, da edição, da telev isão, do cinema, dos

• ..
redes.jrsociedade informacional e comunicativa na qual estamos

•..-_.
,. jogos eletrônicos em uma indústria unificada da mu ltimídia é o
I - inserid.os nãose deixa explicar à margem do substrato infraes- aspecto da revolução digital que tem sido mais enfatizado. En'tre-
1- ) trutural que lhedá suporte, a revolução digital. tanto, esse não é o aspecto mais importante. A.par dos aspectos
:
civilizat órios, tais como nQ.vas..estruturas de comunicação, d~ regu-
2. DIGITALIZAÇÃO E Cn3ERESPAÇO lação e de cooperação, linguagens .
e técnicas
'
intelectuais
.
inéd itas ,
. modificação dasrel ações de' espaço e. tempo etc., .~ mais impor-
~, Segundo Joel de Rosnay (1997 : 29), estamos vivendo um ver- tante está no fato de.que a forma e o ponteúdn do ciberespaço
~. dadeiro choque do futuro resultante sobretudo dos avanços das ainda es~ão especlalmenre indeterminados. Diante dis~o ~ãó · s ~
~ . . . '
ciências físicas e biológicas . Enquanto a f ísica e a eletrônica leva-
_.
~.
ram ao desenvolvimento da informática e das técnicas de comuni-
trata mats de raciocinar em termos de impacto (qual o impacto
. das infovias na v tg~ ..e conômica, política, cultural, cie~t{fica ?), J11aS
cação, a biologia levou ã biotecnologia e à bioindústri~. Estamos, em termos de projetos. .,. . ' .
~.
~.
seI11' dúvida, entrando numa revolução da informação e da 'comu- Do ponto. de vista do conhe~im~nt;, MatteJ'lart (1999: 165)
_I. nicação sem precedentes que está desafiando nossos métodos tra- nos diz que, para melhor considerar, na era das redes transfron-
dicionais de análise e de ação. teiriças, a complexidade dos vínculosque unem territórios parti-

•-~. No cerne dessas transformações, os computadores e as redes
de comunicação passam por uma evolução acelerada, catalisada
pela digitalização, a compressão dos dados, a multimídia , a hiper-
culares, tanto físicos quanto virtuais, novas configuracões transdis-
ciplinares se formam, é delas participam a história, a geografia , a
ge~polltica, a ciência política, ~ economia indus trial e a <'~ntropo ­
«1 m ídia. Alimentada COI11 tais progressos, a in ternet, rede mundial logia , Cada uma dessas especialidades contribui para isso ern graus

I."
_l~
das redes interconectadas, explode de maneira espontânea, caóti-.
ca, superabundante, tendência que só parece aumentar com a re-
bastante variados , à medida que não experimentam do meSJ110
modo a necessidade de estabelecer alia.nças para apreender a nova

-3: cente imigração massiva do e-comércio para o universo das redes , importância das redes de comunicação. . .

'._J";
~
Nesse mesmo ambiente, nos setores técnicos e científicos, erner- .
gern tendências inquietantes, tais como a realidade virtual e a vida
,\
.... ~
. Tendo isso em vista , sou levada à hipótese de que, dada a
onipresença dos fenômenos comunicacionais, a comunicação como

•. ej
-:.
artificial. área de conhecimento está cada vez mais tornando o lugar de UI11a

- I
..•
80
Comunicação & Pesquisa

ciência piloto para cujas questões acabam convergindo muitas


Lúcia Santaella

especializado dentro de U111a disciplina, Na verdade, no decorrer


81
••
outras ' ciências, Nó centro dessas questões; reside a noção das do século, a comunicação se fraturou em uma miríade de frag- ei

redes de comunicação, uma noção que não se deixa entender à luz


de uma visão estritamente tecnológica , pois o funcionmnento das
men~os conceituais e práticas de pesquisa (publicidade , símbolos
significantes, pesquisa de rádio, rituais interativos, levantamento •eJ
redes de cOlllunicação apresenta selnelhanças com o comporta- de efeitos, inteligibilidade, análise cultural etc.) . Segundo Delia,

••.'
mente do sistema nervoso , do sistema imunológico, podendo ser essa fragmentação tem sido, mesmo que de modo implícito, arn-
simulado através de programas computacionais que estão no foco pIamente reconhecida, mas suas implicações profundas para o
das preocupações dos cientistas de inteligência artificial. desenvolvimento da pesquisa em comunicação não recebeu a devi-
da ênfase.
Não deve ser por mera casual idade que se acentuam cada vez
e
mais as interfaces e cooperação das pesquisas em comunicação
com algumas disciplinas, tais como as ciências cognitivas, as ciên-
Também na segunda metade dos anos 80, no contexto hege-
mônico das pesquisas empíricas de comunicação com teor socio-
psicológico, nos Estados Unidos, FarreIl (1987: 123-124) lança-
••
cias da info rmação, inteligência artificial e a biologia que, a des-

.'.'
peito da especificidade de cada uma, estão lidando com questões va o desafio da incorporação aos estudos cornunicacionais das
que' são, antes de tudo, questões comunicacionais . As ciências da competências próprias da especulação reflexiva. Para ele', pelo
comunicação têm, portanto, muito para dar e receber nessa con- menos três grandes feixes de tipos de pesquisa oferecem alternati-
t-
, "

vergência .
Assim sendo, a comunicação como área de conhecimento .in-
vas importantes às ci ências sociais para a pesquisa em comunica-
ção: abordagens filosóficas da comunicação, que permitem o en- •. .
clui, mas está longe de se limitar à visão restrita da comunicação
como fenômeno exclusivamente humano e social que imperou até
tendimento de algumas questões críticas da comunicação, abor-
dagens estético-alegóricas , que podem nos fornecer os mais finos .".'
finais dos anos 70.
ajustamentos sobre COlno o processo comunicativo funciona, e
abordagens interpretativas e críticas, nas quais a experiência da ••

3. A TEIA INTER-MULTI E TRANSDISCIPLlNAR
comunicação como discurso e texto tende a ser emoldurada , recriada
.

.'.'
e qualificada à luz de certas normas derivadas ou inventadas.
DA COMUNICAÇÃO
Dedicando o seu artigo mais di retamente às abordagens filo-
sóficas, Farrell discutiu quatro grandes domínios reflexivos: a her-


N a segunda metade dos anos 80, Del ia (1987: 20-22) lembra-

.'•
va que, antes mesmo da coa1escência da comunicação corno urna menêutica e fenomenologia, a serniótica e o estruturalismo, o
, áreade co'nhecilnento que se deu, nos Estados Unidos , na década marxismo e a teoria social e a filosofia não racional ou desconstru-
de 40, e continuando depois disso, um traço significante da pes- . tivismo. Nesta última, foi posto em relevo o questionamento que
i o antilogocentrismo de Derrida e FoucauJt trouxeram.para os pres-

'..'
quisa em comunicação sempre foi sua fraglnentação como urna r
preocupação tópica que cruza virtualmente todas as áreas das ciên -, supostos básicos da comunicação de um emissor que sabe o que
cias sociais e das humanidades. Corno um tópico de pesquisa, a " diz e .de um receptor para o qual o significado aparece . Contra
COlllunicação nunca se limitou a qualquer domínio social (Estado,
sociedade civil, educação etc), a qualquer disciplina ou campo
isso, Derrida (1973) removeu o sujeito do discurso, substituindo a
primazia da fala pela escritura ou texto e substituindo a busca da •
••
82 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 83

verdade pela interpretação(ou "desleitura") do,significado. M.a~s

.:
mas de um cruzamento de múltiplas problemáticas corresponden-
abertamente político, Foucault (1972, .1973) pôs em evidência as tes a disciplinas tradicionalmente diferenciadas. As ciências da
franjas do poder que se ocultam nas regras de formação discursiva. comunicação constituem hoje em dia um nó transdisciplinar, no
Para Farrell (ibid.: 137-138), não há contradição em se pensar campo das ciências brandas, comparável ao nó das ciências cogni-
como um herrneneuta, 'um semioticista, um teórico social, ou mes- tivas, no terri tório das ciências duras".
mo um desconstrucionista, e-continuar pensando como um cien-

•.
t t)
tista da comunicação. Isso 'certamente traz consigo uma tensão
extraordinária, mas só através dessa tensão as possibilidades ex-
Em função disso, Verón justificou a presença na coleção de
uma ótica antropológica aplicada às sociedades urbanas, de uma
ótica epistemológica, semiótica, sociológica, histórica, cognitiva,

I1..-•••
-.
traordinárias da comunicação como ciência podem persistir. política, todos esses modos pertinentes de acesso aos fenômenos
Cada vez mais, desde o início dos anos 90, a ilusão acalentada da comunicação, em particular aqueles associados à emergência e
i
de uma teoria unificada ou de uma metodologia privilegiada para funcionamento de tecnologias midiáticas.
os estudos de comunicação parece ter sido relegada ao passado. Sem dúvida, só esse último item, o das tecnologias midiáticas,

• De fato, muitos estudiosos têm sido enfáticos sobre a inserção da


comunicação, principalmente na parte de seus fundamentos, na-
com a tendência contemporânea que apresentam para se integra-
rem em um único sistema de comunicação cada vez mais comple-

.'•_.
•• quilo 'q ue Lucien Sfez (1992: 11) caracterizou como o núcleo epis- xo, está exigindo uma abordagem multidisciplinar para dar conta
temológico da comunicação de seus variados aspectos.científicos, institucionais, tecnológicos,
políticos, culturais, profissionais etc .
" q ue reúne em torno de pontos comuns grande diversidade de sabe- Na mesma linha de pensamento, em prol de uma perspectiva

-.-: res: biologia, psicanálise, mass media studies, instituições, direito ,


ciência das organizações, inteligência artificial, filosofia analítica etc.
Esses conceitos comuns às ciências da comunicação parecem dever
constituir pouco a pouco os elementos de uma forma simbólica em
multidisciplinar para a comunicação, Bougnoux (1994: 14-16)
defende que o telescópio da comunicação há de favorecer a con-
vergência entre ciências e artes, e permitir religar vários pensa-
mentos errantes ou dispersos. Para ele, há, pelo menos, cinco co-

•• gestação".

Essa mesma linha de argumentação foi utilizada por Eliseo II


lunas ou sólidos domínios de estudo sobre os quais se podem
edificar as ciências da informação e comunicação: a semiologia, a
i
pragmática, a midialogia, a cibernética e a psicanálise.
Verón na apresentação da coleção de publicações na área de comu- I Tendo como pano de fundo não apenas as concepções mais
I
nicação sob o título de El mamifero parlante da editora Gedisa tradicionais de comunicação, mas também a complexidade das
e_ (Buenos Aires, Barcelona, México), por ele dirigida. Ao consa- I sobreposições e ramificações, acima delineada, com que o dese-

.:
'••_:- grar o Mamífero'parlante à difusão de teorias e investigações no
campo 'das ciências da comunicação, Verón explicou que "o plu-
ral ciências, frequentemente utilizado, expressa indiretamente a
I
~

I
I!
nho do campo da comunicação hoje se apresenta, buscarei cons-
truir, a seguir, o mapeamento da área da comunicação e de suas
interfaces.

-;, complexidade de tai campo. Não dizemos ciência da comunica-


ção nem comunicologia, porque não se trata de uma disciplina,
l-
I
.)
-> I
I
I
----------------------------------------..
84
Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 85

4. TRAÇADO GERAL DO MAPEAMENTO


processo comunicativo, que tomarei como ponto de partida para o
mapeamento da área de comunicação, apresenta-se do seguinte
Sob o título de "universais da comunicação", DeVito (1997: 7), modo: todo processo comunicacional parte de uma fonte que emi-
apresentou uma versão sintética dos elementos presentes em toda te uma mensagem ~través de um canal para um destino ou recep-
comunicação humana, seja ela intrapessoal, interpessoal, grupal, tor da mensagem. E nesse receptor ou destino que a transmissão
pública ou de massa, como se segue: "a comunicação se refere a surte seu efeito precípuo, quer dizer, produzir nele alguma influên-
um ato, realizado por uma ou mais pessoas, de enviar e receber cia, influência esta que pode retornar modificada ao próprio emis-
mensagens que são distorcidas pelo ruído, ocorrem dentro de um sor. A mensagem, que sofre, até certo ponto, a interferência de
contexto, produzem algum efeito e dão oportunidade à retroali- várias ordens de ruído, está sempre inserida em um contexto comu-
nicacional, assim como se refere ou designa algo que está fora da
mentação" .
O contexto tem, pelo menos, quatro dimensões: física, cultu- . própria mensagem. Para se estruturar como tal, a mensagem de-
ral, sócio-psicológica e temporal. A dimensão física refere-se ao pende de um código multiplamente determinado que está nela pres-
ambiente tangível e concreto no qual a comunicação ocorre, exer- suposto e que, pelo menos em' algumas de suas determinações,
cendo alguma influência sobre o conteúdo do que é comunicado. deve ser compartilhado pelo emissor e receptor da mensagem.
A cultural se refere às regras e normas dos comunicadores, cren- Não resta dúvida de que essa definição não passa de um mero
ças e atitudes que são transmitidas de uma geração a outra. A só- esqueleto formal ao qual falta carnadura concreta. Para preencher
cio-psicológica inclui os papéis sociais desempenhados pelas pes- 1 essa falta, alguns estudiosos incorporaram, aos ingredientes comu-
soas, a formalidade ou informalidade, seriedade ou humor da si- \ nicacionais, fatores neurológicos, psicológicos, sociológicos, re-
i
tuação etc. A temporal inclui desde o momento do dia em que a I
I
ferenciais e muitos outros (ver, por exemplo, MEIER, 1969 e
1
DINGWALL, 1980).
comunicação se dá até o modo como ela se insere na seqüência I
temporal de eventos comunicativos (ibid.: 8). j Tanto quanto posso ver, para recuperar a carnadura que falta
O ruído é algum tipo de perturbação que distorce a mensagem. ao esqueleto, não é preciso se livrar dele, visto que ele pode fun-
Em casos extremos, o ruído pode impedir que a mensagem envia- cionar como um primeiro traçado sobre o 9ual desenhar o mapa
J
da área da comunicação. Desse modo, considero esse esqueleto
da pela fonte chegue até o receptor. Em casos normais, algum
nível de ruído é inevitável pelo simples fato de que a mensagem
como um núcleo constante da comunicação que deve funcionar
apenas como urna espécie de roteiro básico dos territórios, que
••
emitida .sempre difere da mensagem recebida. Há três tipos de
ruídos: físico (tudo que interfere fisicamente na transmissão da aqui estarei também chamando de "campos'.' da comunicação.
Dentro de cada campo, deve-se então proceder à incorporação
••
mensagem), psicológico (idéias preconcebidas) e semântico (signi-
ficados mal-entendidos).
Considerando os elementos do processo comunicativo tam-
dos recheios, desdobramentos, ramificações e implicações que
sejam capazes de configurar o conteúdo interno desses territórios
delimitados. Portanto, a tarefa que se apresenta agora é a de preen-
••
bém como "universais da comunicação", mas generalizando ain-
da mais esses "universais" para recobrir um campo que vai além cher os campos com os recheios necessários, ponderando sobre
da comunicação estritamente humana, a versão dos elementos do suas implicações, como se verá a seguir. Antes disso, resta notar
~
~ 86 Comunicação [, Pesquisa Lucla Santaella 87
~
~, que o mapa é suficientemente flexível para ir incorporando não 5.2 O TERRITÓRIO DOS MEIOS E MODOS DE
~, apenas possíveis noyos territórios, quanto novos conteúdos den- PRODUÇÃO DAS MENSAGENS
n<?~as
~. tro de cada território e relações entre os territórios.

.:
t!.'
" .~


5. Os TERRITÓRIOS DA COMUNICAÇÃO
Subsidiário ao campo da mensagem em si, tem-se ocampo do
modo como as mensagens são produzidas. Com que meios elas '
são produzidas? Entram aqui todos os suportes artesanais da es-

•• A grande área da comunicação é composta por alguns territó- crita, pintura, gravura, instrumentos musicais, todos os meios téc-

.:•
....... '
' --'

~:
rios que foram delimitados de acordo com os elementos do pro-
cesso comunicativo, conforme está discriminado abaixo.

5.1 O TERRITÓRIO DA MENSAGEM E DOS CÓDIGOS


nicos eletro-eletrônicos de produção de imagem, som e escrita
(jornal, foto, cinema, televisão, vídeo etc.), assim corno as atuais
mídias digitais,
Trata-se aqui de focalizar as caracterfsticas de cada suporte,
~. ; canal ou mídia particular. Quais são os traços definidores de cada .
~. Embora seja algumas vezes esquecida pelos comunicólogos, meio? Como esses traços se constituem na impressão digital de

,.:
\~ ~ uma espécie de ponto cego da retina, a mensagem em si é o dado cada meio, diferenciando uns dos outros?

,.:-
mais palpável em todo processo comunicativo, aquele a que sem- Para pesquisar sobre essas questões relativas ao modo de pro-
~: pre se tem acesso objetivo (ver VOLOSINOV, 1973). Nesse cam- dução das mensagens, é necessário levar em consideração o de-
po da mensagem ern si, cabem todas as pesquisas referentes às senvolvimento das forças produtivas sociais, pois é de sua histo-
linguagens, discursos, sistemas e processos sígnicos das mais diver- ricidade que advêm os suportes, canais, meios físicos e tecnológi-
"-.- .

sas ordens: biológicos , corporais, lingüísticos, gestuais, visuais, cos para a produção das mensagens. As linguagens, sejam elas

'"
•.:
• _••
."
'-
.... ...

;
sonoros, audiovisuais, hiperrnidiáticos com todas as suas mistu-
ras, além dos processos contracornunicativos, poéticos, artísticos,
quer dizer,' pt~ocessos rebeldes em relação aos sentidos institufdos.>-
quais forem, são materialmente produzidas de acordo com supor-
tes, instrumentos, meios e técnicas que são tão históricas quanto
as próprias linguagens e as instituições que as abrigam (BENJA-
' ... " Também pertencem a esse território as indagações sobre os MIN 1972, apud SANTAELLA 2000 : 159). A fotografia, por
•• ... :,....' modos através dos quais as mensagens, concebidas como constru- exemplo, é uma invenção no século XIX, produto da revolução

.':. ;";
~.
ções designos ou processos de significação, são capazes de defla-
gar possíveis efeitos de sentido ou, ao contrário, os questionamen-
industrial, assim como a internet é uma invenção do final do sécu-
lo XX, fruto da revolução cibernética, digital e teleinfornlática.

-~
~:-;
tos sobre essa possibilidade, tendo em vista o deslocamento in-
cessante do sentido. Cabem ainda nesse campo os estudos dos có-
Também deve sel'o considerada, nesse campo, a publicidade
corno meio de sustento dos meios, quer dizer, a vicariedade dos

-3-) digos ou sistemas nos quais os signos e linguagens se organizam,


deten~inandosua grarnaticalidade, ou seja, como os signos se rela- : ,
meios em relação à publicidade, tal como ocorre especialmente
n~ televisão e mesmo no j0111al e como já está ocorrendo com o e-
cionam uns com outros. É nesse campo, portant~, que são estuda- comércio na internet.
~
dos os processos de hipocodificação ou. hipercodificação, assim
'.jJ
C0J110 as regras de produção textuais e. as .técnicas de persuasão.
~)
e'j
----------------------------e'
88 Comunicação & Pesquisa

•• Lucia Santaella 89
5.3 O
MENSAGENS. .:
TERRITÓRIO DO CONTEXTO COMUNICACIONAL DAS
ideológicos, mercadológicos, políticos, culturais, psíquicos lhe são
impostos por essas instituições ou organizações? Como essas ins-

•.t
Neste território, cabem pesquisas sobre a situação comunica-
tiv a e m geral, a situação em que a comunicação se dá. Essa situa-
ção apresenta vários níveis, de~de o nfvel meramente f'ísico , rela-
tivo ao local em que a comunicação se dá, passando pelo cultural,
tituições ou organizações estão socialmente inseridas? De onde
vem sua sobrevi vência? Qual é o sistema político e legal de cons-
t ítuiçãodessas instituições e organizações? Quais são os tipos de
marketing institucional e empresarial dessas organizações?
-.i.'
.'••
Nesse campo se enquadram as considerações sobre as redes e
psico-social até o nível temporal. Por isso mesmo, neste camp~,
fluxos de informação do ponto de vista do produtor da mensa-
entram em cena as formas de cultura a que os processos comum-
gem. Enquadram-se ainda os questionamentos desconstrutores do
cativos dão origem e nas quais germinam, por exemplo, cultura
sujei to falante como senhor do seu discurso .
oral , cultura da escrita, cultura de massas , cultura das mídias,
cibercu'ltura . Aqui tamb ém se enquadram os estudos sobre inter e
multiculturalisrno , assim como as questões sobre mundialização
5.5 O TERRITÓRIO DO DESTINO OU RECEPÇÃO DA MENSAGEJv\ .•)
da comunicação e cultura e os intercâmbios do regional e local '
com o global.
Aqui cabem pesquisas sobre os modos, como as mensagens
•.'
Ainda cabem nesse campo as pesquisas sobre aquilo a que as
mensagens se referem, o que elas indic am, designam e represen-
tarn, corno representam, a que interesses ideológicos e poderes
são transmi tidas e difundidas. Quais os ti pos de mediações ,s o-
ciais, culturais, psíquicas e sígnicas existentes até e no ato de re -
cepção? Quem é o receptor? Um indivíduo , um cliente, um grupo,
um público, uma audiência ou um receptor virtual? Quais são as
.'• .',

sociais atendem, enfim, cabem aqui os variados tipos de relações
estratificações do público Ou audiência? Quais são ,os efei tos ou
da mensagem com seu contexto representativo, isto é, os graus de
impactos (psicomotores, afetivos ou cognitivos) sofridos pelo re-
referencialidade das mensagens ou aquilo que, de maneira menos
técnica, costuma ser chamado de conteúdo.
ceptor? Qual a eficácia persuasiva da mensagem? Que influências
'.•'
5.4 O TERRITÓRIO DO EMJSSOR OU FONTE .DA COMUNICAÇÃO
o receptor recebe das mídias e até que ponto ele pode exercer
influência sobre elas? Como o receptor interfere e transforma ou
.•:
'. •
não a mensagem que recebe?
Por isso mesmo, enquadram-se nesse território os estudos so-
Este território tem como referência as seguintes questões : por
bre mecanismos de decodificação e leitura, esta cOlllpreendiçia,
quem a mensagem é produzida? Qual o enunciador ou sujeito da
mensagem? Esse enunciador é hum ano ou não? É U111 sujeito sim-
de um lado, como processo de descoberta de significados que acon-
tece quando o receptor entra em negociação e interage com a mensa-
••
\......
ples , um indivíduo, ou é um sujeito complexo, coletivo, ou é hf-
brido? Quais as injunções físicas, psíquicas e sociais sofridas .por :
esse sujeito? Quais são as escolhas éticas desse sujeito? O sujeito '"
gem, do que decorre o paralelismo e complemen taridade entre codi-
ficar e decodificar e, conseqüentemente, a contraparte ética da leitu- ••
I ra. D~ outro lado, a leitura pode também ser compreendida C0J110 .~
'..... . .. .....

••
está inserido em organismos, máquinas, sistemas, instituições,'
processo perceptivo, para o qual concorrem os órgãos sensoriais hu-
organizações, corporações? Que constrangimentos econômicos,
manos e, nas máquinas, os sensores (ver BARKER, 1990: 44-63).

~.
~., Lucia Santaelle 91
•• 90
Comunicação [, Pesquisa

,•
' -'
"'_ .,

..
Esse campo da recepção é bastante co~pl~Xb na medida em
que diz respeito ao intercurso social das mensagens o qual, nas
Tanto as forças sintéticas, .centrfpe tas, que preservam um certo
grau de integração e identidade da área de comunicação, quanto

'.'
~;.
sociedades cornplex as contemporâneas, inclui urna multlpücida-
de de meandros típicos da moderna antropologia urbana, dos gra.n-
as forças expansivas, centrífugas, que trazem para a área incorpo-
rações de fora.

."
~...: '

~:
~.
des deslocamentos e itinerários humanos, da onipresença das má-
quinas de comunicar, das influências do inter e multiculturalismo
sobre os processos de recepção etc. Aqui também entram em cena
6.1 As MENSAGENS E SUAS MARCAS

.0;
.;'- o .
as instituições, organizações e corporações responsáveis pela cir-
culação 'das mensagens. Observe-se que o território (5.4) também
Para quem . .
sabe ler mensagens, para quem sabe ler os si banos
de que ~s mensagens são compostas , mensagens f~ncionam sern-
"-..:..'" pre como centros irradiadores para múltiplas direções na ~edida '·
está voltado para as organizações, mas sob o ponto de vista da
.'0 ..w ~ . em gu~ nelas ,ficam marcas, índices que apontam para todos os .

.
produção das mensagens. Neste território (5 .5), entretanto, as or-
~~ ..
ganizações aparecem tanto sob o ponto de vista do modo como as
outros componentes do processo comunicativo, ou seja:
.~. (6.1.1) Marcas do suporte,"c'anal ou meio que veicula a mensa-
...~ .
mensagens circulam até atingirem os seus destinos, quanto do ponto
:. gem . Assim, alinguagem visual na fotografia é distinta da lingu~-'
, ~~
de vista da natureza do receptor que também pode ter o caráter de

.~.:
~
.,:~
:

-..: ..,J'
uma organização ou algo similar.

6. ' As INTERFACES DOS TERRITÓRIOS DA COMUNICAÇÃO


gem visual no cinema qu.e é, por sua ve~ distinta da linguagem
Yis~lal no vídeo, e assim por diante.
(6.1".2) H'á também marcas do contexto na mensagem. Tod'a
. .

mensagem, ern quaisquer tipos de signos, verbais, visuais 'ou mes-


mo sonoros, está sempre prenhe de índices contextuais si tuacio- .
••• Os territórios ou campos assinalados nos tópicos do item (5)
nais, históricos, culturais, ideológicos, políticos qu'e ap~ntam,qe

..•••
funcionam como pontos de ancoragem da área de comunicação.
'~:.o modo mais ou menos explícito, para o contexto representado na
Conforme já foi visto, cada um desses campos está repleto de ques-
'-oi- nlensag.em.
tões que nele especificamente se enquadram. Entretanto, cada carn-
' (6.1.3) Há ainda marcas indicadoras do sujeito, simples ou
po ou território mantém interfaces com os demais, o que gera con-
- .::0 complexo, ' individual ou coletivo, humano ou não, que emite a

.'•
juntos de novas questões', como se poderá ver abaixo. Cumpre
, mensagem e indicadoras também das relações que o sujeito emis-
assinalar que essa relação proposta entre a ancoragem e as
sor mantém com o receptor, Estas marcas costumam ser muito
~.J interfaces cumpre dois papéis: de um lado, garantir, através da "
•• •
abunda.ntes. Nas teorias do discurso têm recebido o nome d~

......., .1
ancoragem, que as pesquisas em comunicação, sob o álibi da inter-
.~ji dêiticos, shifters (J akobson) e embrayeurs (Ruwet) . Trata-se de
multi e transdisciplinaridade, não se dispersem em terras de nin-
expressões 'cujos referentes não podem ser dete;minad'~s a não ser

.
·3
•....J• •
o
.(~,
gu érn. De outro lado, garantir, através das interfaces, que essas
ancoragens se abram para as possíveis interações e cruzarnen tos
C0l11 áreas, campos ou territórios vizinhos, evitando, assim, que a >
p.eJa . r~ l aç ã o dos interlocutores. Benveniste (1966) mostrou que
~s dêiticos se c.oI?stit~eJll em um.a irrupção do discurso, pois s~us
sentidos, n,ão obstar:t,e rel~vem da lingua, não podem ser defini-

.
.~\ comunicação autocentrada se imobilize em uma camisa-de-força.
~
dos senão por alusão ao seu emprego, ' até o ponto de se po'der''''
eJ) Trata-se de garantir, enfim, o equilíbrio instável entre duas forças .
':~
Comunicação [; Pesquisa Lucia Santàella 93 --•
••
92

questionar se a referência é possível sem o emprego, ex pl íci to ou ordem legal, ordem religiosa etc. e , à microffsica do poder que
não, de dêiticos.
(6.1.4) Ta"r~6ém marcas, mas relativamente distintas das ante-
nelas se desenvolvem. Situam-se ainda as pesquisas sobre o' con-
texto histórico, sócio-cultural; e mesmocivilizacional, engendra- ••
ri ores, na' medld-a em que não precisam estar necessariamente ex-
plícitas, são aquelas que dizem respeito ao receptor a que a men-
do pelas diferentes formas de comunicação: oral, escrita, imagética,
audiovisual, midiática, hiper':'midiática. - - .
Nessa interface, coloca-se ainda em questão se as, mensagens
•.-
sagem se destina, receptor este que pode estar previamente mar-
cado na própria mensagem. Isso é típico, porexemplo, de mensa- podem representar acuradamente as várias dimensões da realida-
de ou não.
••
.'•
gens publicitárias ou ainda de mensagens que nivelam seu reper-
tório para atingir um público médio, como é o caso de muitas das
programações dos grandes canais de televisão.' 6.4 INTERFACES DOS MEIOS COM O CONTEXTO

6 .2 INTERFACES DAS MENSAGENS COM SEU MODO DE PRO- As interfaces do território (5 .2), dos suportes, canais e meios ••
DUÇÃO que veiculam as mensagens, _ç.om o território (5 .3), do contexto
das mensagens, geram pesquisas sobre os tipos de meios de que ••
Interfaces qu~ se estabelecem entre o território (5.1), das men-
sagens em si , com o território (5.2), do modo como as mensagens
as diferentes ordens das linguagens dispõem para veicular suas
mensagens. Assim, por exemplo, tem-se a migração do discurso •.'
são produzidas, levam-nos a inquirir sobre as sutis diferenças que
devem ser estabelecidas entre, por exemplo, a linguagem do cine-
religioso para o meio televisivo com os conseqüentes estratos sociais
a que esse discurso serve. Outro exemplo está no descompasso ou
não da educação escolar em relação aos meios de comunicação etc. .'.'
•e/
ma (campo 5'.1) e o cinema como mídia (campo 5.2), a linguagem
dojornal (campo 5.1) e o jornalisrno como mídia (campo 5.2) ou, Também se situam nessa interface, as pesquisas sobre como
ainda como exemplo, entre as linguagens da arte (campoSi l ) e as os fatores econômicos, políticos, culturais, ideológicos, jurídicos
e institucionais influenciam o que é ou pode ser e o que não é ou
•.;
.'
exposições de arte ou os livros de arte (campo 5.2) etc. O modo
COIllO os meios determinam a constituição das linguagens por eles não pode ser transmitido pelas mídias, questões essas que são.tí-
veiculadas, "as possibilidades que abrem e os limites que impõem picas das relações- da agenda das mídias com a realidade. Conse-

•.'
sobreelas ("o meio é a mensagem") , a especificidade dos proces- qüentemente, aqui se colocam as questões sobre as mídias noti-
sos de comunicação que cada meio constitui , os gêneros que cada ciosas como agentes de poder.
um desenvolve são todos tópicos a serem estudados nessa interface. Aqui ainda se localizam os estudos sobre os modos pelos quais
o advento de uma nova mídia em L1I11a matriz previamente exis-
'.•
6.3 INTERFACES DAS MEN'SAGENS COM O CONTEXTO tente de mídias pode alterar as interações sociais e a estrutura so-
cial ern geral. Em um nível ainda mais macro, as mídias são tarn-
bém estudadas não COIllO simples canais para transmitir informa-
••
Entre o territ ório (5.1)" das mensagens ern si, e o território
(5.3), do contexto das mensagens, situam-se as pesquisas sobre as
diferentes ordens das linguagens, tais como ordem educacional,
, "

ções, mas como conforrnadóras de novos ambientes sociais , corno


é o caso atual das' comunidades virtuais no ciberespaço.
••

.._:
~-. 94 Comunicação ~ Pesquise Lucia Santaella 95

Além disso, nessa interface, situam-se as questões sobre os 6.7


~ INTERFACES DO .CONT EXT O COM O SUJEITO PRODUTOR
sistemas de concessão e propriedade das mídias e, em nível mais
~.


--
amplo, a formação dos conglomerados de mídias. ' Nas interfaces do território (5.3), do contexto, com o território
(5.4), do sujeito, pesquisam-se os medos como o sujeito da Il:e.n-
6.5 INTERFACES DAS MENSAGENS sagem está inserido no contexto, sob os vários aspectos ernque o·
COM O SUJEITO PRODUTOR contexto se apresenta: físico, psico-social, culturàl· e temporal.
e:. Situam-se aqui especialmente os estudos sobre a inserção social

.:.-':
~.:.

,.
Nas interfaces do território (5.1) das mensagens, com o terri-
' ~ .: . tório (5.4), do sujeito da mensagem, situam-se as pesquisas sobre
autonomia ou não do sujeito sobre sua mensagem, sobre a institu-
cionalização do sujeito na linguagem etc.
Pertencem também a esse campo as indagações sobre o papel do
do sujeito na esfera produtiva da cultura e das comunicações. Quer
dizer, em que esfera da cultura o sujeito se insere, na da arte,.da
ciência ou da técnica? E, dentro destas, em que subesfera se inse-
re, na da produção, da troca, conservação, distribuição ou difu-
são? (ver SRüUR, 1987) .
~:~.
emissor como codificador, sobre sua competência comunicativa, seu
.. . .
conhecimento dos elementos e regras da comunicação, sobre a 6.8
.~' : pessoalidade ou neutralidade do ato enunciativo e as questões da
INTERFACES DA MENSAGEM COM SUA RECEPÇÃO
.~~
ética daação comunicativa. Uma vez que a comunicação tem conse- Na interface do território (5.1), da mensagem, com o (5.5), da
-~'
.'-.::
.~ .
qüências, ela necessariamente envolve questões éticas, fundamenta-
das na noção de escolha, o mais das vezes política, e filosofia de vida.
Por isso, a ética está diretamente ligada ao sujeito da comunicação.
recepção das mensagens, situam-se as pesquisas referentes.a per-
fil de públ ico, faixas repertoriais, nível de audiência, eficáci~ co-
municativa e persuasiva, formação de opinião, manipulação ideo-
._. 6.6 INTERFACES DOS MEIOS COM O SUJEITO PRODUTOR
lógica, mudanças de atitude e opinião do público frente às mensa-
;_.:. gens recebidas, os mecanismos de condicionamento que as men-
sagens produzem no receptor etc. É nessa interface que se situam
_!>
.•. Nas interfaces do território (5.2) dos meios, com o (5.4), do tanto os estudos sobre o modo como diferentes audiências inter-

.'
_.;
:; sujeito da mensagem, inserem-se as pesquisas sobre o domínio ou
não do sujeito sobre os suportes, canais, 'meios ou mídias de que
dispõe, domínio este entendido desde o nível das habilidades téc-
pretam a mesma mensagem de maneira diferenciada, quanto os
estudos sobre os efeitos afetivos, psicomotores, cognitivos das
mensagens sobre os receptores .

-)
e';
e.1.0
_:... .
nicas e' criativas do sujeito até sua propriedade econômica dos
tn~ios' ou não. Quer dizer, esse sujeito é proprietário dos meios de
produção de um dado sistema de linguagem ou serve a ele como
empregado? Sob que condições os meios estão disponívies ao
Aqui são também estudadas as interferências que diferentes
tipos de ruídos (físicos, psicológicos ali semânticos) podem pro-
vocar na recepção das mensagens, assim como são estudados os
.j modos como os processos de hipercodificação ou hipocodificação
sujeito? Que conseqüências econômicas e especialmente políti- afetam ou não a recepção de urna mensagem .
• ~~·i
"':";1
cas e ideológicas, isso traz para a maneira com que esse sujeito
.2; trabalha com o meio?
leJj
'ir
96 Comunicação & pesquisa Lucia Santaella 97
••
;: j l
6.9 INTERFACES DOS MEIOS COM A RECEPÇÃO DAS MENSAGENS interativos, etc. que o emissor configura pata a sua relação 'co m o
recep.tor. ••
Na interface do território (5.2), dos meios, com o (5.5), da re- Também pertencem a essa interface indagações referentes ao
proe:e?so de colocar o receptor em uma perspectiva particular, ou ••
-
cepção, inserem-se as pesquisas sobre as reações que os diferen-
tes suportes, meios e mídias provocam no receptor. pesquisas fre- seja, 'n o desempenho de um determinado papel, requerendo dele
qüentes, nessa interface, por exemplo, são aquelas que se voltam uma resposta em termos desse papel. Esse processo é chamado de
para as maneiras como as crianças reagem ao serem expostas às
várias mídias, quase sempre à televisão. São aqui também exami-
feedforward (DEVITO, 1997: 12).
Essa interface é bastante complexa, especialmente quando os
••
nadas as variáveis perceptivas e sensórias do receptor que são processos comunicativos são considerados à luz dos modelos cir-
culares da comunicação, segundo os quais, através de processos ••
I•.
requeridas por cada diferente mídia, assim como é examinado o
modo como a escolha de um meio sobre o outro pode afetar urna de feedback e feedforward, os papéis do emissor e receptor não
rleterrninada situação ou interação . Pertencem ainda a essa interface são fixos, mas intercambiáveis. Ainda mais complexa essa interface
se torna quando são examinadasas profundas transformações, até .

(..'.'
as questões sobre a bidirecionalidade ,o u unidirecional idade das
mídias, assim cor-no'as hipóteses dos usos e gratificações. o ponto da dissolvência, que se operam nas tradicionais figuras do
emissor e receptor nos processos de navegação no ciberespaço.

.''.'
, . .:
Além disso, nessa interface, devem ser pesquisadas as injunções
sócio-econômicas, políticas, legais e mesmo éticas por que passam Evidentemente, o mapeamento acima exposto figura apenas
os meiosde comunicação para atingirem seus receptores. como sinalização das linhas de um território complexo. Os preen-

6.10 INTERFACES DO CONTEXTO COM A RECEPÇÃO

Er1tre os territórios (5.3), do contexto, com o (5.5), da recep-


chimentos que foram realizados no interior dos campos e de suas
interfaces têm, de urn lado, um caráter indicativo, podendo servir
corno urnaespécie de cartografia que sinaliza para o pesquisador
o terri tório .ou interfaces em que se situa a sua própria pesquisa.'
.'.'•

ção, situam-se as pesquisas sobre questões relativas à inserção ~o
receptor. no contexto comunicativo sob os vários aspectos ern que
Por outro lado, tem um caráter sugestivo, convidando o pesquisa-o
dor a interferir no mapa, completando lacunas, mudando seu tra-
.'•
.'••
o contexto se apresenta: físico, cultural, psico-social e ternporal. çado, acrescentando novos dados.
Que papel o receptor desempenha em cada um desses aspectos? Não obstante seu caráter meramente sinalizador, tal como apa-
Pertencem também a essa interface as pesquisas etnográficas dos rece acima , o mapeamento permite que as ciências e teorias da

.'••
processos de recepção. comunicação, tanto quanto as teorias que têm surgido para estu-
dar os fenômenos cornunicacionais e suas interfaces, já possam
6.11 INTERFACES DO SUJEITO PRODUTOR COM A .RECEPÇÃ O ser inseridas no mapa da comunicação.
.'
\ .
Entre ,?S territórios (5.4), do emissor ou sujeito da mensagem, .
e o (5.5), da recepção, surgem questões relativas aos modos de '.\
COlllunicação, tais COlllO autoritários, democráticos, passivos,
·,1 ~ . ••

•• 98 Comunicação' [, Pesquisa Lucia Santaella 99

•• 7. INSERÇÃO
COMUNICAÇÃO
6AS TEORIAS
... ' ... . ,' NO ,MAPA
E CIÊ'NCIAS DA s ignos,: se mióticas concebidas como teorias da significação,
serniótica discursiva, teorias do discurso, teorias literárias, retóri-
•• Assim sendo,
.. .. ..

a pergunta .crucial que buscarei responder neste


ca, teorias do jorrialismo, teorias do não-verbal, teorias da gestua-
[idade, teorias das artes, teorias da imagem, teorias da fotografia,

••
.. .~'. ..

ponto é a seguinte: ,co mo se inserem as teorias e ciências da comu- cinemà, vídeo, televisão, holografia, nos seus estatutos de lingua-
nicação no mapa aci ma esboçado? Alerto novamente para o fato gem e dos processos comunicativos que engendram, teorias do

•• de que as sugestões de inserção que serão discriminadas abaixo


também 'têm' u~ caráter e~tritamente sinalizador, sem pretensão
som, do rádio, teorias do audiovisual, da hiperrnídia, realidade
virtual, telepresença etc ., também nos seus estatutos de lingua-

•• de exaustividade.
. . ,

Concebida a. comunicação como ~ma área inevitavelmente


gem e dos processos comunicativos que engendram. .

•• inter, multi e transdisciplinar, as teorias e ciências para a pesquisa'


e estudo da comunicação em todos os seus níveis, desde o nível da
7.2 TEORIAS DOS MEIOS E SUAS INTERFACES

.'•• pesquisa básica, conceitual, passando pelos vários níveis das pes-
quisas aplicadas até as,pesquisas empíricas, exploratórias e de
cal"!1p<?, insereIl}-se.no J1!apa como se segue.
Em primeiro lugar, com um caráte~ muito geral, devem ser
No campotó.Z) dos meios esuas interfaces, inserem-se as his-
tórias, as técnicas e teorias 'dos suportes, canais, meios ou mídias,
tais como história, técnica e teoria da pintura, do livro, do jornal,
da fotografia, cinema, rádio, TV, do computador e suas extensões
•• consideradas as teorias geraisda comunicação que lidam corri os
conceitos mais abstratos definidores da área como tal. Teorias dessa
nas redes, na hipermídia e seus programas etc., todos eles agora
considerados nos seus estatutos de suportes e meios.

•• ordem não se i'ns'erem ern campos específicos nem em suas


interfaces, visto que lidam com conceitos gerais, fundadores da
Inserem-se também neste campo as teorias e métodos para o
estudo de fatores econômicos, políticos, éticos, jurídicos, merca-

•• área. Aqui se enquadram as teorias que elaboram definições e


modelos abstratos de comunicação.
dológicós, ideológicos, culturais e psfquicos das mídias, visto que
esses fatores se caracterizam como aspectos das mídias, Em razão

'.•• 7.1 TEORIAS DA MENSAGEM, CÓDIGOS E SU'AS INTERFACES

No campo (5.1), da mensagem em si, inserem-se todas as teo-


disso, é nesse território que brotam as teorias híbridas tais como
mídia e política, ética das mídias , mídias e mercado etc. ,

•• rias e ciências que estudam as


linguagens, os diferenciados tipos
de signos, os discursos, as mensagens, a significação, os códigos,
7.3 TEORIAS DO CONTEXTO E SUAS INTERFACES

•• a informação e os sistemas. Essas ciências são: filosofia da lin-


guagem, filosofia analítica, biologia, teoria dos sistemas, ciências :
No campo (5.3) do contexto comunicacionaJ e suas interfaces,
localizam-se os diálogos da comunicação com a história, sociolo-
•• cognitivas, nos seus aspectos voltados para a questão da represen- "
tação, inteligência artificial, teorias da informação, ciências da
gia e política, geopolítica, antropologia cultural, etnologia, histó-
ria e semiótíca da cultura, visto que o campo do contexto comuni-
• computação, lingüística, semióticas concebidas como teorias dos cacional implica sempre en: situar os processos comunicativos ern


w
100 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 101
••
perspectivas e conjunturas históricas, ~ociais e culturais, como,
por exemplo, ocorre na atualidade com as teorias da globalização,
cação e decodificação em um meio é simples ou complexa ; a in-
fluência de todas essas variáveis no impacto político, social e •••
do multicultural isrno etc. Por isso mesmo, esse território é fértil
em teorias híbridas, tais como comunicação e política, comunica-
psicológico das mídias; como a escolha de um meio em detrimen-
to de outro pode afetar a situação comunicativa; as alterações' ••
••
ção e cultura, sOc1ocomunicação, histórias da comunicação etc. provocadas pela mídias na interação e estrutura social; as mídias
como conformadoras do ambiente social etc. (MEYROWITZ,
7.4 TEORIAS DO SUJEITO E: SUAS INTERFACES 1994: 50-51).
Também não se pode descartar o fato de que a escolha de um ••
N o campo (5.4) do sujeito ou emissor da mensagem e suas
interfaces, situam-se a psicologia, a psicanálise, a antropologia,
tema de pesquisa, o mais das vezes, leva à sua exploração em vá-
rios níveis e estratos que .r ec lam am pela convivência de diversas ••
as ciências cognitivas nos seus aspectos voltados especificamente
para a mente e cognição. Nas interfaces, situam-se as teorias das
teorias ao mesmo tempo. Assim, por exemplo, o tema da sociali-
zação pode ser visto nos níveis dos processos individuais (apren- ••
organizações e as teorias do marketing aplicado à comunicação . ~izagem), interpessoais (interação entre pais e filhos etc.), influên-
cias deredes ou organizações (escolas, igrejas, instituições), fato- ••
7.5 TEORIAS DA RECEPÇÃO E SUAS INTERFACES res macroestruturais (influências culturais dos meios de massa).
Como outro exemplo; na comunicação política, os estudos podem •
.'
No campo (5.S) da recepção da mensagem e suas interfaces,
inserem-se . as ciências sociais e as teorias das mediações, com
se desenvolver nos níveis intraindividuais (formação de opinião) ,
.interpessoal (influência da família), organizacional (grupos de re-
ferência ou grupos étnicos), macrossistêmicos (políticas de difu-
••
ênfase nos aspectos políticos, ideológicos e culturais da comuni-
cação sob o ponto de vista do receptor, as teorias da recepção, as são das campanhas) (BERGER e CHAFFEE, 1987; 108).
••
teorias das relações públicas, a antropologia urbana etc:
As teorias foram localizadas em territórios específicos para
servirem como pontos de referência ordenadores da área de co-
municação e.suas .interf aces . Isso não.significa que não haja teo-
rias constelativas e interdisciplinares elas mesmas, teorias que bus-
Enfim, conforme espero ter demonstrado, a comunicação se
caracteriza como uma rede de múltiplas interfaces que não podem
ser ignoradas sob pena dese perder aquilo que a área apresenta de
mais desafiador e que, por isso mesmo, mais merece ser investi-
gado.
.'.'..'•
,
CaITI colocar em interação uma série dos territórios que foram aci-
ma discriminados. Assim, por exemplo, as modernas teorias .das ••
mídias têm apresentado um elenco multifacetado de propostas de
pesquisa, tais como: as características de cada mídia individual ••
ou de cada tipode mídia; os sentidos perceptivos que são requeri- o.
dos para a recepção de cada meio; os tipos existentes de proces- . ,\
••
sos comunicativos, uni ou bidirecionais; quão rapidamente as
mensagens podem ser transmitidas; se a aprendizagem da codifi- ••

••
••
••
•• A PESQUISA, SEUS MÉTODOS
•• E SEUS TIPOS

••
'•.
•• Com os capítulos anteriores, que apresentaram respectivamente
um panorama das teorias da comunicação e UlTI mapeamento da

•• área, julgo ter fornecido ao leitor os antecedentes necessários,


mesmo que não exaustivos, para a discussão sobre pesquisa e pro-

•• jeto de pesquisa em comunicação que se seguirá neste e no próxi-


mo capítulo.

•• 1. A CIÊNCIA COMO COISA VIVA·

•• o século XIX nos legou a idéia de que ciênciaé corpo siste-

'•.
matizado e organizado de conhecimento. Frontalmente contra essa
idéia e contra qualquer outra definição formal e abstrata, C. S.
Peirce defendeu a visão da ciência como aquilo que é levado a

•• efeito P?r pesquisadores vivos, a ciência como fruto da busca concre-


ta de um grupo real de pessoas vivas, caracterizando-se, desse modo,

•• como algo em permanente metabolismo e crescimento (SANTAELLA,


1.992: 108). Para Peirce, há três espécies de seres humanos:

•• . ((A primeira consiste naqueles para quem a primeira coisa está na


de
• qualidade sentimentos. Esses homens criam a arte. A segunda
-------------------------------------~"
Comunicação & Pesquisa
104 . Lucia Santaella 105

consiste nos homens práticos, que levam à frente os negócios do


mundo. Estes não respeitam outra coisa senão o poder, e o respeitam
Newton da Costa (1997: 31) afirmou que "uma das coisas a se
fazer para entendermos bem o espírito que norteia a ciência é pro- •
na medida em que ele pode ser exercido. A terceira espécie consiste
nos homens para quem nada parece grande a não ser a razão . Se a
força lhes interessa, não é sob o aspecto do seu exercício, mas por-
curar uma classificação razoável das numerosas disciplinas cien-
tíficas". Para Peirce, o conhecimento abraça substancialmente tudo
o que pensamos ou dizemos, por isso os arranjos das ciências são
••
que ela tem uma razão e uma lei. Para os homens da primeira espé-
cie, a natureza é uma pintura; para os homens da segunda, ela é uma
oportunidade; para os homens da terceira, ela é um cosmos, tão ad-
muitos. Entre eles, os que lhe pareciam mais úteis são aqueles que
buscam arranjá-las na ordem de dependência lógica de umas so-
bre as outras e no seu grau de especialização (MS 1335: 2~3).

mirável que penetrar nos seus caminhos lhes parece a única coisa Desse modo, desenvolveu uma gigantesca e instigante classifica-
que faz a vida valer a pena. Esses são os homens que vemos estarem ção das ciências que nos permite visualizar os grandes troncos
possuídos pela paixão por aprender, do mesmo modo que outros e
das ciências, seus diferentes ramos, as interrelações distintas
homens têm paixão por ensinar e disseminar sua influência. Se não formas de ajuda entre elas, assim como as tarefas que potencialmen-
se entregam totalmente à paixão por aprender é porque exercitam o
autocontrole. Estes são os homens científicos; e eles são os únicos
te a cada uma cabe realizar (ver-KENT, 1987).
Por ser uma classificação natural, funcionando como um diagra- •
homens que têm qualquer sucesso real na pesquisa científica" (CP 1.43).

Porque se concretiza através da busca de conhecimento reali-


ma móvel e dinâmico, flexível às readaptações que a passagem do
tempo exige, em um outro trabalho (SANTAELLA, 1992), busquei
atualizar essa classificação, utilizando como exemplo a área da
••
zada por pesquisadores vivos, a ciência, ela mesma, é coisa viva, literatura na qual transito com alguma intimidade. Algosimilarpode-
não se referindo àquilo que já se sabe, mas àquilo que se está lu- ria ser realizado para a área da comunicação. Como isso não vem ao
tando por obter através da pesquisa em ato. Isso não significa que
a sistematização do conhecimento não faça parte da ciênciae não te-
caso no momento e dado que, para os propósitos deste capítulo, esta
introdução à ciência deve ser simplificada, podemos nos restrin-
••
nha nela importância. Significa, isto sim, que o mais relevante gir a uma divisão básica das ciências em puras e aplicadas. Nas pri-
está naquilo que ainda não se conhece e se está lutando por descobrir.
Concepções similares foram apresentadas por Demo (1985:
meiras, o conhecimento é buscado pelo conhecimento, sem interesse
na obtenção de resultados por mais proveitosos que esses ·possam ser. •
29, 38, 76) quando afirmou que a ciência é um processo, "uma
realidade sempre volúvel, mutável, contraditória, nunca acabada,
As ciências aplicadas diferem das puras apenas nos seus objetivos,
pois, nas aplicadas, são estudados métodos e teorias que têm relevân- ••
em vir-a-ser". Entretanto, o fato de que nenhuma teoria possa es-
gotar a realidade, "não pode produzir o conformismo, mas preci-
cia para determinadas aplicações (DA COSTA, ibid.:30).
Outra divisão importante é aquela que se dá entre as ciências ••
••
samente o contrário: o compromisso de aproximações sucessivas formais, nas quais o conhecimento é intuitivo, racional e formal,
crescentes", pois "a ciência não é a acumulação de resultados de- obtido através do raciocínio dedutivo, e as ciências empíricas, nas
finitivos", mas principalmente "o questionamento inesgotável de
uma realidade reconhecida também como inesgotável".
quais, além do conhecimento discursivo, obtido peja dedução e.
indução, há também aquele que é obtido através da observação e
experimentação que se fundam na percepção sensorial.
••
Comunicação (, Pesquisa Lucia Santaella 107
106

Se aquilo que a ciência busca é o conhecimento, resta definir o ela tratados, alicerçam-se em fundamentos filosóficos desenvol-
que se entende por conhecimento. A própria palavra ciência vem vidos especialmente a partir do século XVII, quando se deu o
do latim scire (saber) e significa conhecimento ou sabedoria. Co- nascimento da ciência moderna. É nesse ambiente que surgiram
nhecer é deter alguma informação ou saber a respeito de algo. as primeiras formulações sobre o fundamento do conhecimento,
Mas a ciência não é a única forma de conhecimento. Há também o na oposição entre o racionalismo, associado principalmente aos
conhecimento filosófico, o artístico, o teológico e o de senso co- nomes de Descartes e Leibniz, de um lado, e o empiricismo, de
outro, ligado aos nomes de F. Bacon e dos ingleses Locke e Hobbes,
•• mum (CARVALHO et al., 2000: 11-12). Costuma-se dizer que a
ciência existe, entre outras coisas, para nos tirar do senso-comum.
Sobre este último, Demo (1985: 30-31) nos fornece uma excelen-
culminando no empiricismo radical de Hume. No século XVIII, à
filosofia kantiana como síntese conciliatória entre o racionalismo

•• te explanação. Senso comum é conhecimento acrítico, imediatista,


e
crédulo sem sofisticação. Não problematiza a relação sujeito e
e empiricismo seguiu-se a razão histórica de Hegel. A complexida-
de que esses nomes encerram é evidentemente imensa, não haven -
do aqui condições para entrarmos em qualquer detalhe dessa com-
objeto. Acredita no que vê e assume informações de terceiros sem

•e as criticar. Como não é possível se saber tudo, mesmo o cientista


pratica senso-comum nas áreas que fogem de sua especialidade,
plexidade. O leitor que queira se iniciar no assunto, pode encontrar
em Carvalho et aI. (2000) uma apresentação breve e acessível.

•• de modo que o senso comum é uma dose de conhecimento co-


mum de que dispomos para dar conta das necessidades rotineiras.
Há uma faceta muito positiva do senso-comum que é o bom
O impulso no desenvolvimento da ciência a partir do século
XIX veio trazer como uma de suas conseqüências o surgimento
de .filosofiasespecificamente voltadas para a ciência e, com elas,
e
•• senso ou capacidade para encontrar soluções adequadas em situa-
ções inesperadas, quando não dispomos de informação especia-
a consolidação dessa área da filosofia dedicada especificamente
às questões do conhecimento, a epistemologia.
Temas fundamentais da epistemologia são: (a) a natureza do

•• lizada. Portanto, além de ser forma válida de conhecimento, o senso


comum também possui um lado criativo. Entretanto, tão logo ne-
cessitamos de informação especializada, comprovada, confiável,
conhecimento, questão esta ligada às escolas filosóficas idealista
e realista, (b) a origem do conhecimento e sua localização na ra-

•• esta só pode provir da ciência.


Para Newton da Costa (ibid.: 40), "conhecimento científico é
zão ou na experiência, conforme se apresenta na controvérsia do
racionalismo versus empiricismo, (c) os tipos de conhecimento

•• crença verdadeira e justificada". Falar em verdade e justificação,


contudo, é tocar nas questões mais discutidas por um dos ramos
(proposicional, não proposicional, isto é, conhecimento por fami-
liaridade, proposicional empírico a posteriori, proposicional não-
e da filosofia, mais especificamente pela filosofia da ciência: a episte- empírico a priori), (d) as formas do conhecimento (demonstrati-

•• mologia. Do grego episteme, conhecimento, e logos, explicação,


a epistemologia é o estudo da natureza do conhecimento e dajustifi-
vas, discursivas, intuitivas, perceptivas), (e) as condiçõesdas cren-
ças, (f) as condições da verdade, (g) as condições da justificação,

•• cação, especificamente, o estudo dos traços definidores, das condi-


ções substantivas e dos limites do conhecimento e dajustificação.
(f} fundacionalismo, (g) ceticismo etc. (ver ANDERSON 1996;
AUDI, ed., 1995).

•• Antes da indicação das questões centrais da epistemologia,


cumpre notar que a maioria dos problemas do conhecimento por
Certamente também não posso me deter nas explicações des-
sas questões bastante complicadas, em especial porque a episte-
Comunicação & Pesquisa Lucia Santael!a 109
108

mologia, tanto quanto a ciência, se transforma historicamente. Com Assim, para Newton da Costa, a experiência é fundamental
o prodigioso desenvolvimento das ciências no século XX, o nas ciências empíricas, pois elas são sínteses de criação racional,
positivismo de Comte, que marcou a filosofia da ciência do sécu-
lo XIX, foi seguido por uma série de epistemologias científicas,
de observação e de experimentação, nas quais razão e experiência
se fundem. Nas ciências empíricas •
entre as quais se destacam o neopositivismo ou positivismo lógi- .
co, com sua teoria verificacionista dajustificação (ver AYER 1975) "as explicações são edifícios racionais arquitetados pelo homem,
e as amplamente discutidas posições epistemológicas e teorias da baseados na observação e na experimentação, qu.e impõem certa or-
ciência expressas no falsificacionismo de Popper (1975), no histo- dem cognitiva em situações problemáticas. [...] Como se sabe que
ricismo de Kuhn (1976), no anarquismo de Feyerabend (1977), qualquer concepção teórica acaba sendo apenas aproximadamente
no refutacionismo de Lakatos (1976,1998) (ver sobre isso OLIVA, verdadeira, vê-se que a explicação científica é, por sua própria natu-
org., 1990) de cujos confrontos originaram-se os debates sobre reza, aproximada..." (ibid.: 44,46).
objetivismo versus relativismo (ver, p.e., RORTY, 1997).
De acordo com Peirce, à cada descoberta científica, que Kuhn Enfim, os princípios epistemológicos ou postulados que o men-
chamaria de revolução científica, segue-se a criação-de uma nova cionado autor (ibid.: 51-52) nos apresenta como definidores da
filosofia da ciência. De fato, foram tantas as descobertas científi- ciência empírica são resumidamente os seguintes: (a) princípio da
cas no século XX que se tornaram constantes as discussões sobre possibilidade (o conhecimento científico é possível); (b) princí-
novos paradigmas das ciências, sobre a metamorfose da ciência pio da origem (o conhecimento nasce do intercâmbio entre expe-
(PRIGOGINE e STENGERS, 1984), assim como as reflexões fi- riência e pensamento, sendo simultaneamente reflexo do real e
losóficas sobre as ciências da complexidade (MORIN, 1996a, construção racional); (c) princípio da natureza (o conhecimento
1996b, ver BASTOS, 1999). das disciplinas empíricas refere-se a um universo de coisas e fatos
As breves indicações acima aí comparecem a título de sinal de que existem independentemente de nós); (d) princípio do critério
alerta ao pesquisador que não deve ignorá-las completamente sob (os critérios de justificação referentes ao conhecimento perten-
pena de, muitas vezes, ao acreditar que está carregando a bandei- cem à lógica dedutiva, indutiva e à metodologia das ciências ex-
ra da verdade, incorrer em ingenuidades elementares. Por isso perimentais); (e) princípio das categorias (a ciência se talha atra-
vés de sistemas de categorias que se modificam historicamente).

•e
mesmo , remeto o leitor ao livro de Newton da Costa (ibid.) onde
posições extraordinariamente lúcidas sobre o conhecimento cien-
tífico poderão ser encontradas. Entre elas, vale a pena apontar 2. O VALOR DAS TEORIAS
brevemente para suas colocações acerca das ciências empíricas
isto é, ciências não-formais, especialmente para a noção de qua- Uma vez que a ciência busca, mais do que a mera descrição
se-verdade ou verdade pragmática no tocante ao conhecimento d~s fenômenos, estabelecer, através de leis e teorias, os princípios

empírico, noção esta que se aproxima sobremaneira da concep- gerais capazes de explicar os fatos, estabelecendo relações e pre-
ção peirceana da verdade (ver SANTAELLA, no prelo, a). dizendo a ocorrência de relações e acontecimentos ainda não ob-
servados, o conhecimento científico não pode ser alcançado atra-

110 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella
111

•• vés da inocência. Por isso, a ciência desenvolve meios que lhe são
próprios para chegar àquilo que busca. Esses meios se constituem
nos conceitos e redes conceituais que os pesquisadores edificam.
mam indutivamente pela generalização de particulares. Os cons-
tructos apresentam vários graus de abstração. Quanto mais abs-
tratos, mais áreas são capazes de abranger. Em função disso, as
Assim são obtidas leis, hipóteses e teorias que nos permitem com- teorias têm fronteiras que especificam o domínio de fenômenos
preender e ordenar o universo por meio de explicações, previsões que elas explicam e aquilo que elas deixam de fora. As teorias são
e sistematizações. Conceitos mais gerais quepertencem a todas as úteis na medida em que podem ser testadas experimentalmente.
•• ciências, como o conceito de objeto, compõem as categorias cien-
tíficas fundamentais. As disciplinas particulares se distinguem
pelos sistemas de categorias específicas que as regem (DA COS-
Elas podem ser validadas através da avaliação de suas relações
teóricas ou através da aplicação empírica. Mover-se do nível teó-
rico para o nível da pesquisa empírica implica na redefinição ope-

•• TA, ibid.: 49).


Vem daí o valor das teorias. No primeiro capítulo já foi dado
racional dos conceitos. Nenhuma definição operacional é capaz
de capturar o significado completo do constructo teórico. Há sem-

•e início a uma discussão sobre teoria para distingui-la de modelo.


Em razão disso, só serão aqui apresentadas algumas informações
pre uma defasagem entre o conceito teórico e sua redefinição ope-
racional. Quanto mais uma teoria contiver constructos que não

•• adicionais relativas às ciências empíricas. Definida de maneira


simples, uma teoria é uma generalização para explicar como algo
funciona. Ela nos fornece princípios gerais que nos ajudam a com-
são passíveis de operacionalização, menos ela será passível de teste.
A seguir, Bergere Chaffee (ibid.: 104) apresentaram a seguin-
te lista de atributos de uma boa teoria: (a) poder explanatório (a
e preender um número enorme de fenômenos específicos, porque e

••
habilidade da teoria para fornecer explanações plausíveis para o
como ~les ocorrem e como estão relacionados entre si, pois a teo- fenômeno que ela pretende explicar); (b) poder preditivo (capaci-
ria fa'z a síntese dos dados, ajudando a prever eventos futuros, dade de prever eventos); (c) parsimônia (teorias mais simples são

•• eventos que ainda não vivenciamos. As teorias também têm um valor


heurístico ou função geradora de pesquisa, pois criam necessidades
preferidas às mais complexas, quando ambas cumprem a mesma
função); (d) falsificabilidade (bastante discutível, este atributo,

•• de investigação que, sem elas, não poderíamos pressentir.


Contudo, as teorias, como já foi visto, são limitadas e não po-
originário de Popper (ver 1975), diz que uma teoria deve ser ca-
paz de ser provada falsa); (e) consistência interna (a lógica inter-

•• dem revelar a verdade em um sentido absoluto. De uma ciência


para a outra, o grau de precisão e a conseqüente possibilidade de
formalização da teoria varia. Nas ciências naturais, há precisão
na de uma: teoria pode ser conferida independentemente de testes
empíricos); (f) desafio heurístico (capacidade de gerar novas hi-
e póteses, expandindo o espectro do conhecimento potencial); (g)

•• muito mais alta do que nas ciências sociais e psicológicas, dimi-


nuindo ainda mais nas humanidades até atingir o limite máximo
poder organizacional (capacidade de organizar o conhecimento
existente). '

••
da imprecisão nas artes. Além da necessidade das construções teóricas, se a ciência busca
Na definição operacional de Bergere Chaffee (1987: 101-105)" o ,conhecimento, cumpre perguntar como essa busca se realiza. A
a teoria consiste de um conjunto de constructos unidos por afir-

••
resposta é consensual: conhecimento se adquire através de pesquisa.
mações relacionais que são internamente consistentes umas com
as outras. Os constructos, por sua' v-ez, são conceitos que se for-


Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 113
112

3. A PESQUISA COMO ALIMENTO DA CIÊNCIA Antes de tudo, a pesquisa científica exige, pelo menos como
pano de fundo, um certo estado de alerta do pesquisador para as
À luz de Peirce, uma definição muito geral e sintética de pes- questões filosóficas, especialmente epistemológicas, sobre as leis
quisa seria a seguinte: toda investigação de qualquer espécie que
seja, nasce da observação de algum fenômeno surpreendente, de
alguma experiência que frustra uma expectativa ou rompe com
que regem o conhecimento, sua busca, aquisição, validade etc.
Lopes (1990: 88), por exemplo, considera a epistemologia um pólo
intrínseco à pesquisa científica e uma das instâncias da prática

um hábito de expectativa (CP 6.469). Quando um hábito de pen- metodológica. Assentada sobre essas bases, a pesquisa deve se
samento ou crença é rompido, o objetivo é se chegar a um outro conduzir dentro de um determinado campo da ciência a que o
hábito ou crença que se prove estável, quer dizer, que evite a sur- objeto ou assunto da pergunta pertence e à luz de algum quadro
presa e que estabeleça um novo hábito. Essa atividade da passa- teórico de referência e de suas predições, quadro teórico este que
gem da dúvida à crença, de resolução de uma dúvida genuína e deve ser selecionado em função de sua adequação para responder
conseqüente estabelecimento de um hábito estável é o que Peirce
chamou de investigação (SANTAELLA, no prelo, a).
a pergunta que se tem.
Além disso, para resolver a dificuldade, formulada no problema,
o pesquisador não pode "apenas adivinhar, fazer suposições gratui-

Da generalidade dessa definição decorre que ela pode se refe-
rir a qualquer tipo de investigação e não apenas à científica. En-
tretanto, ela contém aquilo que se constitui no núcleo de qualquer
pesquisa: livrar-se de uma dúvida, buscar uma resposta já é um
tas ou emitir opiniões superficiais e inconsistentes", mas deve reali-
zar sua busca através de levantamento de dados, através de um
método coletâneo ao quadro teórico de referência e também adequa-
••
processo investigativo, "mesmo que seja imediato, assistemático do à dificuldade a ser resolvida, método este com suas técnicas espe-
e definido por traços puramente ligados ao senso-comum" (BAR- cíficas. Tudo isso se constitui em "um processo pelo qual, ao mesmo
ROS e LEHFELD, 1988: 13). Toda pesquisa nasce, portanto, do tempo, se busca, examina e prova a solução" (RUDIO, 1992: 9,71).
desejo de encontrar resposta para uma questão. Aliás, um tal de- Só isso pode ser chamado de pesquisa científica porque só
isso pode resultar em conhecimento com as características que a


sejo se constitui sempre na mola central de uma pesquisa, princi-
palmente da científica, pois, sem esse desejo, o pesquisador fene- ciência exige, isto é, conhecimento verdadeiro e justificado, no
sentido em que "verdadeiro e justificado" foi discutido mais aci-
ce tragado nos desencantos das obrigações.
Por vezes, a pergunta que se busca responder é abstrata. Ou- ma. Tem-se aí por que a pesquisa é o alimento da ciência. Pesqui-
tras vezes, é prática e, até mesmo, urgente. De todo modo, só a sa é o modo próprio que a ciência tem para adquirir conhecimen-
pesquisa nos permitirá respondê-las. Nesse sentido, o esforço diri- to. No seu aspecto gerativo, o conhecimento só pode continuar
gido e o conjunto de atividades orientadas para a solução da ques- crescendo na medida em que as pesquisas são incessantemente
tão abstrata ou prática ou operativa que se apresenta, resultará na realizadas. Caso contrário, o conhecimento se cristalizaria em fór-
aquisição de conhecimento, mesmo quando o esforço, as atividades mulas fixas, nos axiomas das crenças estabilizadas ou em meras
e o resultante conhecimento se situam no contexto não especiali- imposições burocráticas do fazer científico que Peirce chamaria
zado do nosso cotidiano. Se tem todos esses pontos em comum com de excremento da ciência. Em suma, a pesquisa científica é uma
a pesquisa em geral, o que faz, então, uma pesquisa ser científica? atividade específica e especializada. Demanda de quem se propõe
114 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 115

• a desenvolvê-la uma certa vocação, um certo grau de renúncia às


agitações da vida mundana e insubmissão às tiranias da vida prá-
tica, demanda a curiosidade sincera pelo legado do passado e a
cimento que se tem de sua semiótica costuma ser truncado e redu-
cionista. A maior parte das pessoas acredita que a semiótica
peirceana se limita a umas classificações de signos para serem
vontade irrefreável de prosseguir; exige isolamento disciplinado aplicadas a processos ou sistemas de signos concretos, tais como
e conseqüente capacidade para a solidão reflexiva, hábitos de vida fotográficos, cinematográficos, literários etc. Embora uma tal apli-
muito específicos, ao mesmo tempo que abertura para a escuta cação seja residualmente até possível, nada poderia estar mais
cuidadosa e sempre difícil da alteridade, junto com a capacidade
•• renovada de se despojar do conforto das crenças, quando isso se mostra
necessário. Exige, ao fim e ao cabo, amor pelo conhecimento. Só
longe do que isso da verdadeira natureza de sua semi ótica. Para
começar, ela é uma disciplina filosófica e científica, que compõe

••
a tríade das ciências normativas - estética, ética e lógica ou semió-
esse amor pode explicar a docilidade do pesquisador aos rigores da tica -, estas antecedidas pela quase-ciência da fenomenologia.
ciência, especialmente aos rigores do método. Além disso, a semiótica, um outro nome para a lógica, conce-

•• O conhecimento científico, portanto, não pode ser alcançado


de maneira dispersiva e errante, pois a errância é, via de regra,
bida em um sentido muito lato, tem três ramos. O primeiro ramo,
chamado de gramática especulativa, é aquele do qual mais se sabe,

•• não apenas custosa em termos de perda de energia e recursos mas


é, sobretudo, sem garantias. Por isso mesmo, junto com as ques-
pois é nele que são estudados os variados tipos de signos. O segun-
do ramo, chamado de lógica crítica, tomando como base os diver-

•e tões epistemológicas, a teoria dos sistemas cognitivos ou concei-


tuais engloba questões lógicas e metodológicas.
sos tipos de signos ou modos de condução do pensamento, estuda
os tipos de inferências, raciocínios ou argumentos: a abdução,
e 4. A
indução e dedução. O terceiro e mais vivo ramo da 'semi ótica,

••
LÓGICA NO CORAÇÃO DA METODOLOGIA chamado de retórica especulati va ou metodêutica, tem por função
analisar·os métodos a que cada um dos tipos de raciocínio dá origem.
Segundo Newton da Costa (ibid.: 1), com o desenvolvimento

•• prodigioso das ciências no século XX e com o avanço recente da


lógica e da metodologia, "ninguém mais domina estas duas disci-
Na realidade, Peirce dedicou toda a sua vida ao desenvolvi-
mento da lógica entendida como teoria geral, formal e abstrata

••
dos métodos de investigação utilizados nas mais diversas ciênci-
plinas completamente". 'Assim, um conhecedor da metodologia as. Ora, os métodos são muitos, evoluem no tempo dentro de uma
das ciências humanas encontrará obstáculos quase intransponíveis mesma ciência e mudam de uma ciência para a outra. Será que

•e no tocante à metodologia da física e vice versa. Sem negar essas


dificuldades, proponho que a concepção peirceana da metodêutica,
não existem princípios gerais, universais, subjacentes a esses mé-
todos? Essa foi a questão que Peirce perseguiu por toda a sua

•• ou teoria geral do método científico, pode nos ajudar a compreen-


der o que está subjacente à enorme profusão atual de métodos,
existência. A teoria dos signos foi desenvolvida como um dos meios
para responder, sobretudo, a essa questão, conforme será explici-

•• profusão que s6 tende a aumentar, visto que os métodos são tão .


históricos quanto as ciências nas quais eles são gerados.
tado a seguir.
De início, Peirce definiu que o principal prop6sito da lógica

•• Devido à falta ainda hoje de edições mais completas e autori-


zadas dos manuscritos deixados por Peirce, infelizmente o conhe-
estava em aprender os modos de conduzir qualquer investigação
ou pesquisa. Bem depressa descobriu que, preliminarmente a isso,
••
116 Comunicação & Pesquisa

era requisito classificar os raciocínios, determinando as proprie-


dades' re la tivas eovalor de qualquer raciccínio . Vale a pena co-
Lucia Santaelle

são, ness~ medida, o esqueleto da vida do pensarnen to, forma des-


provida de seus conteúdos específicos, contextos, texturas e qua-
117

.'••

nhecer essa classificação dos raciocfnios por si mesma, quer seja
atingido ou, não 0 - propósito de chegar ao conhecimento de-como
conduzir a pesquisa, pensava Peir~e. Mas antes de ter dado três
passos nessa direção, descobriu que nada poderia ser feito antes
lidades sentidas. Vem daí a distinção entre cognição e raciocínio,
pois a 'p rim eira envolve todos esses aspectos .
Quando os elementos psicológicos do pensamento são excluí-
dos, sua estrutura é mais ou menos similar para todas as mentes,
.'•••
de estu-dar à anatomia dos raciocínios e ter descoberto de que eles
são compostos (MS 452: 4-10; 449: 24-30), Foi nesse ponto que
representando, de oerto modo, seu aspecto universal. Nos ~eus
estudos, Peirce chegou à conclusão de que há três classes univer- ••
Peirce se -deparou com os signos. Como se pode ver, sua indaga-
ção veio de trás 'para diante. Queria descobrir os método~ de con-
a
sais de inferências ou raciocínios que se constituem também nos
três tipos de argumento; abdução, indução e dedução. ••
duzir pesquisa, percebeu que deveria an ~es estudar os raciocí-
nios.' Mas para estudá-los, precisava estudar como eles se corpori-
ficam'Logo se deu conta de que raciocínios, e mais do que os ra-
Há certamente outras formas de raciocínio, corno o analógico ,
o metafórico, e muitas outras operações de raciocínio que inclu-
em a restrição, a determinação.ia extensão, a abstração etc. e q~e
••
ciocínios, quaisquer pensamentos se corporificam em signos, não
apenas emsímbolos, mas-em variadas espécies de signos. Tem-se
podem caracterizar as espécies de raciocínio envolvidas na obser-
vação (CP 2.422, 2430, ver também LIZSKA, 1996:68-71). En-
••
- aí os três ramos da serniótica : dos signos para os raciocfnios e
destes para Os métodos de pesquisa, Nessa medida, a serniótica ou
tretanto , essas outras formas ou são misturas dos três tipos univer-
••
.'
sais ou ingredientes deles.
lógica peirceana é, sobretudo, uma teoria sígnica do conhecimen-
to, a epistemologia peirceana (nom-e, aliás, que ele detestava) pos- 5. ABDUÇÃO, INDUÇÃO E DED-UÇÃO
.(
tula que C? conhecimento só pode se dar pela mediação dos signos,
pelosimples fato de que todo pensamento só se realiza em signos. Embora com peculiaridades próprias, a visão peirceanada ••
Alem disso, sua serniótica é Ul11a lógica crítica dos tipos de racio-
cínio e uma teoria do método científico, como se verá.
indução .e, especialmente, da dedução não se diferencia radical-
mente das definições encontradas em livros de lógica e metodo- ••
Tendo seu ponto de partida ou propedêutica no estudo dos sig-
nos, a 'l ó g ica crítica, segundo ramo da semiótica, lida com a estru-
tura do racioc ínio, -não lida com a textura do pensamento, nem
logia, com a exceção de que, para Peirce; não 'se trata apenas de
tipos de métodos, mas de métodos que estão enraizados em nossa ••
••
mente, pois se constituem nos tipos de raciocínio que dão forma
lida C0l11 os sentimentos que o acompanham, nern com os avanços aos noss.os pensamentos e inferências, Por isso mesmo, não são
e recuos, vicissitudes e percalços que são próprios do ato de pen- métodos utilizados apenas pela ciência, mas fazem parte de nossa
sar, mas Sil11 C0111 os processos conscientes do pensamento, aque-
les que se submetem ao autocontrole. Excluindo-se assim o psico-
vida cotidiana, C0111 a única diferença de que, na ciê-ncia, esses
raciocínios são burilados através da lógica. Mas a verdadeira novi-
••
lógico , as estruturas do raciocínio ficam reduzidas, portanto, a
inferências abstraídas das esperanças, medos,' alegrias, dores e '
dade está na sua introdução do raciocínio abdutivo, uma criação
inteiramente sua, não obstante tenha se inspirado em Aristóteles. ••
angústias que se enroscam em nossos pensamentos, Raciocínios

118 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 119

A tarefa da lógica crítica, portanto, é a de determinar a valida- de indução. A indução é tida como um processo lógico no qual
de ou grau de força de cada tipo de raciocínio. Falar em validade uma conclusão proposta contém mais informação do que as ob-
de um argumento é tocar no problema da verdade. Por isso, a lógi- servações ou experiências nas quais ela se baseia. A verdade da
ca crítica, segundo ramo da semi ótica, é também a teoria das con- conclusão é verificável apenas em termos de experiência futura e
dições de verdade das representações. Enquanto o primeiro ramo certamente é atingível apenas se todos os exemplares possíveis
da serniótica tem por tarefa estudar os diferenciados tipos de re- forem examinados (BAVELAS, 1995: 54).
presentações ou signos, o segundo ramo, lógica crítica, deve res- Peirce dizia que costuma-se ensinar que a conclusão da indu-

•• ponder pela validade de um dos tipos dessas representações, os


argumentos. Qual é a validade da dedução, indução e abdução?
ção aproxima-se da verdade devido à uniformidade da natureza.
Só são contemplados como casos de raciocínio indutivo aqueles


Suas condições de verdade diferem, como se verá. em que, ao descobrir que certos indivíduos de uma classe têm
Na dedução partimos de um estado de coisas hipotético, defi- certos caracteres, o raciocinador conclui que todos os indivíduos
nido abstratamente por certas características. Entre as caracterís- dessa classe têm esse caráter. Para Peirce, essa definição indica

•• ticas a que não se dá atenção neste tipo de raciocínio está a con-


formidade com o mundo exterior do estado de coisas que o racio-
que essa inferência não é indutiva, mas uma mistura de dedução e
presunção ou abdução (CP 2.775).

•• cínio hipotético levanta, pois, na dedução, uma inferência é válida


se e somente se existe uma relação entre o estado de coisas supos-
Frente a isso, o ajustamento que ele realizou no conceito de
indução diz que esse raciocínio ocorre quando aquele que racioci-

•• to nas premissas e o da conclusão. O objetivo de tal raciocínio é


determinar a aceitação da conclusão. É, portanto, o caso típico do
na já está de posse de uma teoria mais ou menos problemática
(variando de uma apreensão puramente interrogativa até uma for-

•• raciocínio matemático que parte de uma hipótese cuja verdade ou


falsidade nada tem a ver com o raciocínio, e cujas conclusões são
te inclinação com poucas dúvidas). Tendo refletido que, se essa
teoria é verdadeira, então, sob certas condições, certos fenôme-

•• igualmente ideais.
Desse modo, a dedução tem por finalidade provar que algo
nos deveriam aparecer (e quanto mais estranhos eles forem e me-
nos antecedentemente críveis, tanto melhor), o raciocinador proce-

•• deve ser, definindo-se, pois, como um método de predição dos


fenômenos. A maneira como a predição se processa pode ser resu-
de ao experimento, isto é, ele preenche essas condições e presta
atenção aos fenômenos preditos. "Quando esses fenômenos apa-
recem, ele aceita essa teoria com uma modalidade que a reconhe-
•e
mida nas operações do raciocínio dedutivo que consiste em se
construir um diagrama de acordo com um preceito geral, em ob- ce apenas como provisória e aproximadamente verdadeira". Ajus-
servar certas relações entre as partes daquele diagrama não expli- tificativa lógica para isso é que, se esse método for persistentemen-

ti • citamente requeridas pelo preceito, mostrando que essas relações


se mantêm verdadeiras para todos os diagramas desse tipo, e em
te aplicado ao problema, ele deve, com o tempo, produzir uma
convergência, embora irregular, para a verdade, pois a verdade de

•• formular essa conclusão de modo geral (CP 8.209). É por isso que
a dedução só trabalha com dados de certeza.
uma teoria largamente consiste em que toda dedução perceptiva
dela seja verificada (CP 2.775). A conclusão que Peirce deu a

•• Uma vez que o conceito peirceano da indução difere um pou-


co do sentido que lhe é dado, começo pela definição costumeira
essas postulações, como se segue abaixo, elucida mais perfeita-
mente os aspectos de originalidade da sua concepção de indução.
120 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 121

Faz parte da essência da indução que a conseqüência de uma po. Com a palavra "instinto", Peirce quis significar a capacidade
teoria seja extraída primeiramente em relação ao resultado desco- de adivinhar corretamente as leis da natureza.
nhecido ou quase desconhecido do experimento; e que isso só Desse .modo, o novo é apreendido por nós através de nada
seja virtualmente apurado mais tarde, pois, se olharmos os fenôme- mais nada menos do que a adivinhação. Entretanto, não é a adivi-
nos para encontrar concordâncias com a teoria, é uma mera ques- nhação em si mesma, nem a hipótese que ela engendra que são
tão de engenhosidade e labor quantas poderemos encontrar. A instintivas, mas a capacidade humana de adivinhar a hipótese cor-
indução (pelo menos nas suas formas típicas) não contribui em reta, justamente aquela que é capaz de explicar o fato surpreen-
nada para o nosso conhecimento, exceto para nos dizer aproxima- dente. Peirce chamou essa capacidade de il lume J1aturale, indi-
damente com que freqüência, lio curso de tal experiência, a qual cando com isso que o ser humano tem um insight natural das leis
nossos experimentos caminham para constituir, uma dada espécie da natureza.
de evento ocorre. Portanto, ela simplesmente avalia uma probabi- Além de ser instintiva e evolucionária.a abdução é, ao mesmo
lidade objetiva. Sua validade não depende da uniformidade da tempo, uma inferência lógica. Esse é certamente o aspecto da
natureza, ou de qualquer coisa desse tipo. A uniformidade da na- abdução que tem despertado maispolêmica entre os comentadores
tureza pode tender a dar à probabilidade avaliada um valor extre- de Peirce. Se a abdução nasce de um instinto para a adivinhação,
mamente alto ou baixo; mas, mesmo que a natureza não fosse uni- como ela pode ter uma forma lógica? Para' responder a esta apa-
forme, a indução certamente descobriria isso, na medida em que rente ambivalência, Fann (1970: 112) afirmou que o momento do
um raciocínio indutivo pudesse ser desempenhado. Certamente, insight e a adoção da hipótese são instantâneos. Mas o processo
um certo grau de uniformidade especial é um requisito para isso de construção e seleção da hipótese é consciente, deliberado e
(CP 2.775). Peirce ainda estudou detalhadamente os tipos de controlado, estando aberto à crítica e autocrítica.
indução e também de dedução os quais, por questão de espaço, a
Assim sendo, a abdução segue alguns passos: (1) observa-
não serão trabalhados aqui (ver SANTAELLA, no prelo, a). J ção criativa de um fato; (2) uma inferência que tem a natureza de
,i
Quanto à abdução, o mais original dos tipos de ra?iocínio?u I
uma adivinhação; (3) a avaliação da inferência reconstruída. Em
argumento, ela se refere ao ato criativo de se levantar uma hipóte- síntese, trata-se de um tipo de raciocínio que, sem deixar de ter
se explicativa para um fato surpreendente. É o tipo de raciocínio forma lógica, tem um caráter instintivo e é, antes de tudo, um pro-
através do qual a criatividade se manifesta não apenas na ciência cesso vivo de pensamento.
e na arte, mas também na vida cotidiana. Quando nos confronta- Embora seja responsável por todas as' nossas descobertas, a
mos com algo que nos surpreende, para o qual não temos resposta abdução é o mais frágil dentre os argumentos, fonte de todas as
ou explicação, a abdução é o processo através do qual uma hipótese verdades e de todas as mentiras. A dedução é o argumento mais
ou conjectura aparece como uma possível resposta ao fato surpreen- forte, mas não assume nenhuma responsabilidade em relação ao
dente. De onde vem esse poder de levantar hipóteses? mundo que nos circunda. A indução é o argumento que confronta
De acordo com Peirce, a abdução é um instinto racional (ver a realidade, mas suas conclusões são apenas provisórias. Tendo as
,I
SANTAELLA, 1991). É o resultado das conjecturas produzidas l- propriedades e o valor de cada um dos argumentos assim definidos,
por nossa razão criativa. Ela é instintiva e racional ao mesmo tem- I sobre essa teoria da lógica crítica, Peirce edificou o terceiro ramo da

l

••
122 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 123

•• serniótica, a metodêutica que, do meSl110 modo COJllO são gerais e completo de uma pesquisa, e aquelas que determinam em que pro-

.'.1
••
formais os outros dois ramos da serniótica, ela também é uma ciência
formal egeral, neste caso, do método da ciência. Por isso mesmo, foi
chamada de metodêutica, para evitar que, com o nome de metodologia,
fosse confundida com uma ciência prática.
blemas devemos engajar nossas energias".

Estando seguro quanto à validade de sua classificação dos argu-


mentes e em meio à consideração dos métodos que essa classifi-

.'••
cação originava, Peirce veio a se dar conta de que, longe de serem
6. O MÉTODO DAS CIÊNCIAS processos separados, os métodos abduti vo, deduti vo e induti vo se
integram em um todo coeso corno estágios do processo investigati-
Se as ciências especiais estão preocupadas com a obtenção de vo. Nessa conce.pção dos três tipos de inferência, raciocínios ou

•• resultados válidos, e a lógica crítica com a análise dos argumentos


ou raciocínios que são utilizados por qualquer inteligência cientí-
argumentos como três estágios interdependentes e entrelaçados
da pesquisa científica, nascia a concepção madura de Peirce do


.'
fica, a metodêutica tem por tarefa descobrir como analisar as hi- método das ciências, conforme está expressa na síntese abaixo
póteses de modo a encontrar procedimentos que conduzam aos que nos é fornecida por Fann (1-970: 31-32).
resultados desejados. Sua função, portanto, é analisar os méto- Quando fatos surpreendentes emergem, uma explicação é reque-


i

.'.' dos a que cada um dos tipos de raciocínio dá origem, incluindo o


método da descoberta, de resolução de problemas e especialmen-
te os procedimentos apropriados a qualquer pesquisa.

•• Trata-se pois de analisar os passos teóricos do método deduti-


d

I
~
,;
rida. A explicação deve ser uma proposição tal que levaria à predi-
ção dos fatos observados, quer como conseqüências necessárias,
quer, pelo menos, como muito prováveis sob certas circunstân-
cias. Uma hipótese, então, tem de ser adotada como plausível nela

I
vo e, no caso da indução, comprovar a validade de seu método. mesma e tomando os fatos plausíveis. 'Este passo de se adotar uma


.'••
Conforme veremos mais abaixo, a validade da indução só se resol- hipótese como sugerida pelos fatos, é o que chamo de abdução (CP
ve no momento em que Peirce chega à formulação do método da 7.202), afirmou Peirce, equalizando-a com o primeiro estágio da in-

II
ciência. Por ora, fiquemos no tratamento da abdução. Ora, o gran- vestigação. "A primeira coisa que deve ser feita, assim que uma
de interesse da metodêutica está justamente na abdução ou infe- hipótese for adotada, é traçar suas consequências experimentais ne-

•• rência que inicia uma hipótese científica . Pois não é suficiente


que uma hipótese seja justificável, dizia Peirce (NEM 4: 62).
cessárias e prováveis. Esse passo é a dedução" (CP 7.203). O passo
seguinte é testar a hipótese através de experimentos e comparações

••
das predições deduzidas da hipótese com os resultados reais do
"Qualquer hipótese que explica os fatos é criticamente justificável. experim~nto. Quando predições após predições s~o verificadas pelo
Mas entre as hipóteses justificáveis, devemos escolher aquelas que experimento, começamos a nos dar contar de que a hipótese se sus-

•• podem ser testadas por experimentação. Não há mais necessidade de


escolhas subseq üentes, depois que conclusões indutivas e dedutivas :
tenta entre os resultados científicos. "É esta espécie de inferência,
d~ experimentos, testando predições baseadas numa hipótese, a

•• foram extraídas. Embora a metodêutica não tenha a mesma preocu-


pação com estas últimas, ela deve desenvolver os princípios que
única que está habilitada a ser chamada de indução" (CP 7.206) .
Essa versão corresponde à delimitação dos tipos de inferência

• guiarão a invenção das provas, aquelas que deverão guiar o curso a que Peirce chegou na maturidade , quando as distinções entre
--<<4fh:,.!
124 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 12:> --.

abdução e indução tornaram-se nítidas e precisas. A indução não Ao integrar os três tipos de raciocínio e os métodos que lhes ••
adiciona nada. No máximo, corrige o valor de uma razão ou mo-
difica levemente uma hipótese de um modo que já havia sido con-
são próprios como estágios interdependentes do método científi-
co, Peirce acabou também por fornecer um instrumental analítico ••
ternplado como possível. A abdução, por sua vez , é meramente afiado para avaliaroutras propostas lógicas do método científico,

'.••'
preparatória. É o primeiro passo do raciocício científico, enquan- tais como o indu tivisrno característico dos métodos ernpiricis-tas,
to a indução é o passo conclusivo. Estão nos polos opostos da o método hipotético-dedutivo de Popper, o,anti-método de Feyera-
razão. A primei .~a, abdução, é o polo menos efeti VO , a segunda, o bend etc. Sob o ponto de vista que Peirce nos fornece, o ernpiri-
tipo de argumento mais efetivo. O método de um é o reverso do
outro ..A abdução busca uma teoria, a indução busca fatos (CP
7.217 -218, apud FANN, ibid.: 35, 43).
A indução se toma, assim, o único processo comprobatório e a
cismo parece sempre incorrer em uma espécie de hipertrofia da
indução, do mesmo modo que o anarquismo de Feyerabend incor-'
re em urna hipertrofia da abdução. Já ao método hipotético-dedu-
tivo parece faltar uma perna. De fato, foi talo antagonismo de
.'••
abdução, aquele processo que leva não à adoção de hipóteses corno
opiniões finais, mas às hipóteses elas mesmas - à sua adoção corno
Popper ao verificacionisrno ernpiricista do positivismo lógico que,
o papel da indução c?mo teste -da realidade empírica acabou por
••
puro "poder-ser". Assim a probabilidade, que é um traço da indução
só pode afetar a abdução indiretamente, depois que algum proces-
ser minimizado no seu sistema.
Deve-se assinalar ainda que a interdependência dos três está- ••
so dedutivo foi executado sobre a abdução para se estabelecer um
teste indutivo. Sendo colocada no papel de primeira forma de
gios da metodêutica peirceana não pode ser vista como uma lógi-
ca fixa, presente do mesmo modo em todas as ciências . Embora os ••
inferência lógica na pesquisa científica, a abdução evoluiu de sim-
ples subsidiária da indução, papel. em que foi inicialrnenteconsi-
três estágios, abdutivo, dedutivo e indutivo, de que o-método científi-
co se constitui, devam sempre estar subjacentes a todos os proces- ••

.'
derada por Peirce, para ocupar o lugar privilegiado no qual a sos investigativos, pode haver a predominâ-ncia de um desses mé-
criatividade ocorre na ciência. ,E la realiza, por isso mesmo, a f Li- todos sobre os outros em cada ciência. Assim, a matemática é,
são perfeita entre os aspectos lógicos e psicológicos do pr?cesso,
engendrando as fundações hipotéticas sobre as quais a dedução e '
a indução devem então se construir.
sem dúvida, dominantemente dedutiva, enquanto nas ciências
empíricas domina o método indutivo.- Evidentemente, nas artes,
assim como na interpretação psicanal ítica, no diagnóstico médi-:
••
Uma teoria da' ciência era, para Peirce, a maior conquista prá-
tica que a lógica poderia almejar. Nessa medida, a metodêutica é
co, na inspeção de crimes etc (ver SEBEOK'et al., 1993) o rnéto-
do abdutivo reina soberano: Peirce estava ciente disso e chegou' á
••
a análise lógica do que deve acontecer na pesquisa concebida como
práticada ciência. No exame do nascimento das' hipóteses , de sua
afirmar que as variadas ciências (e até mesmo os seres humanos)
podem ser diferenciadas umas das outras também pelo tipo de ••
seleção, nas considerações da economia da pesquisa, nos méto-
dos de construção teórica e·de ,teste comprobatório das hipóteses,
raciocínio e método que nelas predomina. Há assim ciências mais
p~oeminentementeindutivas, como as ciências classificatórias da ••
a metodêutica se delineia como um mapa a ser seguido como guia zoologia, da botânica, por exemplo, enquanto outras ciências são

para o trajeto sempre em curso da pesquisa.
....
mais abdutivas. Quando distinguiu entre a abdução teórica e 'a
abdução hipotética, Peirce localizou a astronomia e física pura no .'
.~
126 Comunicação ~ ·Pesquisa Lucia Santaella 127

primeiro caso e a biologia e geologia no segundo, visto que nestas contemporânea. A atividade racional, no domínio da ciência, con-
não se pode agir voluntariamente sobre os objetos de observação. j siste em nos conformarmos plenamente com nossas evidências e li-
:1
No Brasil, Sodré (2000b) está desenvolvendo a hipótese de que a 1 mitações, sempre seguindo os princípios metodológicos apropria-
comunicação deve ser urna ciência dominantemente abdutiva. . 1 dos. A justificação de índole probabilística não nos assegura a ver-
De todo modo, nq método científico tout court, para Peirce, 1j dade; porém se esta for alcançável, o único caminho para tanto é a
domina o método indutivo, não no sentido estreito e empiricista I
! ciência, desde que assumamos atitude completamente racional".
j
em que esse método costuma ser compreendido, mas no sentido I
aberto que Peirce lhe deu, sentido que foi emprestado pelo desen-

• volvimento do seu pragmatismo evolucionista à luz do qual a


indução é aquele método que,no longo curso do tempo, tende a se
I
1
I
No pragmatismo evolucionista, de que o método peirceano da
ciência decorre, encontra-se a fundamentação para sua noção da
ciência como corpo vivo em incessante crescimento, do que se
autocorrigir. Isso quer dizer que, quando levadas suficientemente 'II conclui que, para continuar viva, a ciência não pode ser identi-
longe, incorporando a autocrítica que, aliás, depende da hetero- 1
ficada senão com pesquisa.
~

•• crítica, as pesquisas tendem a se autocorrigir. Essa é a única certe-


za que se pode acalentar em relação ao método indutivo e, conse-
·ij
\

I 7. As METODOLOGIAS ESPECÍFICAS DAS CIÊNCIAS

••
1;
qüentemente, em relação à. ciência e à pesquisa: insistir, não de-
1j
sistir, abrir-se para o crítica que vem do outro, perseguir a verda- Peirce pretendeu que as etapas do método científico fossem
de, embora se saiba que verdade é aquilo que continuamente re- -I
e i
procedimentos apropriados a toda e qualquer pesquisa. Tanto quan-

•• cuará. Daí que nossos esforços, mesmo sabendo que eles não
serão jamais satisfeitos, têm de ser redobrados. Por isso, segundo
J
i
J
to posso ver, isso não significa que, em função desse método ge-
ral, as ciências deixem de dispor de metodologias específicas,

•• Peirce, a .ciên.cia consiste em distender o arco da verdade, com :!


j decorrentes de técnicas particulares, criadas e manipuladas pelos
atenção no olhar e energia no braço. Em suma, sem paixão, não há I
j especialistas em cada área da ciência. O método científico, que
ciência, ela não vinga, do mesmo modo que, sem esse mistério, o .I,

•• da paixão, que é sempre uma força estranha, não vingam muitas


outras coisas na vida.
I
~l
1
J
nasce da interrelação da abdução, dedução e indução, advém de
uma lógica universal que habita o coração das metodologias. Um
coração historicamente e localmente mutável. Trata-se de uma
A coincidência entre a concepção peirceana do método indutivo 'i lógica, portanto, que não anula, apenas subjaz, aos métodos e téc-
-j

como método tout court da ciência e as concepções de Newton da nicas específicas que cada ciência tem por função desenvolver e
Costa (ibid.: 30, 184) são remarcáveis, quando este afirma, por I
j
transformar.
e exemplo, que "a metodologia geral da ciência empírica confunde- Vê-se, com isso, o quanto é equivocado se impor um modelo
e se com os órgãos indutivos basilares, correlacionados às várias 1 metodológico que é próprio de uma ciência sobre outra ou outras.

•• disciplinas fatuais", ou quando afirma que ]


I
J
J
,. ....
i
Gerais são os procedimentos básicos que se fundamentam nos três
tipos universais de raciocínio. Entretanto, cada ciência configura

•e "a lógica indutiva evolui como a própria ciência. Daí o conhecimen-


to científico se caracterizar sempre módulo a metodologia que lhe é
~
!
1
1
!
esses procedimentos de uma maneira que lhe é própria, desenvol-
vendo metodologias específicas e relevantes para determinadas
128 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 129

aplicações de acordo com necessidades que brotam dentro dela e


que não podem ser impostas de fora . Quanto mais a prática cien-
causalidade, dos princípios formais da identidade, da dedução e
da indução, da objetividade etc.". De outro lado, tem-se a verten- ••
tífica se aproxima desse ideal, mais científica ela é, não se con-
fundindo com meras encomendas burocráticas, administrativas,
te voltada para a sociologia do conhecimento, que se refere aos
condicionamentos sociais e "que acentua o débito social da ciência". •e
comerciais ou ideológicas que são muitas vezes equivocadamente
chamadas de pesquisa científica.
A relação inseparável de uma base lógica universal para todas
Embora de uma perspectiva um pouco diferente, Lopes (1990:
81) também propôs uma divisão da metodologia em dois níveis,
quando empregou o termo metodologia da pesquisa "para indicar

as ciências, com as variações históricas e particulares de cada ciên- a investigação ou teorização da prática da pesquisa, e metodologia
cia, explica porque, apesar da diversidade nos métodos das ciên- na pesquisa para indicar o trabalho com os métodos empregados".
cias, há sempre constantes, regularidades, possibilidades de adap- Kaplan (1975: 21), Citado por Lopes, também usou a palavra "me-
tações criativas do método de uma ciência para outra. Enfim, ciên- todologia", no sentido de uma metaciência, para indicar o estudo
cia é aquilo que os cientistas fazem e métodos nascem das teorias - descrição, explicação e justificação - dos métodos e não os pró-
que criam e de suas práticas. Isso não anula, ao contrário, só in- prios métodos. Entretanto, quando Lopes (ibid.: 81) definiu a
tensifica as exigências que essa prática lhes impõe, tais como as metodologia .na pesquisa como "os métodos efetivamente usados
do rigor, da coerência, da consistência, da ética, especialmente a numa pesquisa", isto é, "como um conjunto de decisões e opções
ética do intelecto, da profundidade, da responsabilidade na obten- particulares que são feitas ao longo de um processo de investiga-
ção dos resultados que prometem, e mais outros critérios formais ção", é preciso notar aqui que o conteúdo dos dois níveis que
internos e critérios externos da ciência que foram muito lucida- propus não coincidem exatamente com o conteúdo dos dois níveis
mente explicitados por Demo (1985: 30-42). propostos por Lopes, diferença esta que passo a explicitar.
Distinção até certo ponto similar à que está acima exposta, À luz da metodêutica de Peirce, o nível metodológico funda-
entre dois níveis metodológicos - o nível lógico geral e o nível mental estaria na interrelação da abdução, dedução e indução como
das variações particulares no seio das ciências específicas - foi estágios do método científico, método este que é apropriado a
real izada por Lakatos e Marconi (1992: 106). As autoras chama- toda e qualquer ciência. Ora, o desenvolvimento da ciência e a
rarn de método de abordagem o nível de abstração mais elevada, multiplicação quase assombrosa dos campos científicos e das teo-
dando como exemplos desses níveis o método indutivo, o deduti- rias e métodos que foram criados neste século só vêm compro- e

•--
vo, o hipotético-dedutivo e o método dialético. Chamaram, então, vando que sobre esse nível subjacente, fundamental, erigem-se
de métodos de procedimento os métodos menos abstratos, tais como métodos e técnicas particulares no interior não apenas de cada:
o histórico, comparativo, funcionalista, estruturalista etc. ciência, mas das estratificações da pesquisa dentro de uma mesma
Também relativamente similar é a divisão apresentada por ciência.
Demo (1985: 21-22, 52) da metodologia em duas vertentes mais
típicas : de um lado, aquela que é derivada da teoria do conheci-
Para Peirce, cada ciência também se define pelo tipo de co-
nhecimento que desenvolve. Assim, há ciências mais teoréticas, •
mento que tem uma característica lógica e centra-se nos procedi-
mentos lógicos do saber, "geralmente voltada para a questão da
outras mais classificatórias, outras mais descritivas, enquanto ou-
tras são mais dominantemente aplicadas. Tendo em vista o desdo- •
•• 130 Comunicação & Pesquisa
1
"'
"I
Lucia Santaella 131

•• bramento de áreas e sub-áreas científicas no desenrolar deste sé-


culo, trabalhei, há alguns anos (SANTAELLA, 1992), na hipótese
I mento são as mesmas" para todas as ciências, o que é uma outra
maneira de afirmar a existência de um nível metodológico geral

•• de que todas as "ciências tendem a se desenvol ver internamente


nesses quatro tipos de estra'tos: "(a) nomológico, relativo a suas
I
I
I
tal como enunciei acima. Erigindo-se sobre esse nível subjacente,
surgem variados tipos de metodologias que dependem tanto do

•• leis e conceitos; (b) classificatório, o estrato dos sistemas de elas-


sifi~axão dos objetos que estuda ;(c) o seu estrato descritivo do
I
estrato da ciência no qual se inserem, quanto das teorias, méto-
dos, procedimentos e técnicas que são relevantes às finalidades a

•• objeto e (d) seu estrato aplicado ao objeto. Ora, cada um desses


estratos gera tipos de pesquisa e metodologias próprias . Essa hi- I
que as pesquisas se destinam.
Assim sendo, o que Lopes chamou de metodologia da pesqui-

•• pótese deve, com muita probabilidade, se aplicar à área da comu-


nicação no estado da arte em que essa área se encontra hoje. As-
sa corresponderia a esse segundo nível, enquanto que a metodolo-
gia na pesquisa, isto é, "decisões e opções particulares que são

•• sim, os modelos e teorias da comunicação desenvolvem-se no es-


trato nornológico: classificações encontram-se, por exemplo, nos
feitas ao longo do processo de investigação", se incorporada à
minha proposta, teria de corresponder a um terceiro nível, especí-

••
níveis da comunicação humana estabelecidos por DeVito (1997): fico de cada pesquisa como processo singular.
intrapessoal, interpessoal, grupal, pública, de massa. Apresentam- Conclusão: na base, tem-se o nível mais abstrato do método
se, ainda como exemplo, nos níveis de análise da comunicação científico em geral, no meio, os métodos particulares dos tipos de

•• que foram estabelecidos para a organização do Manual de Comu-


nicação editado por Berger e Chaffee (1987): nível individual,
ciências e dos estr~tos das ciências. Este nível apresenta uma cer-
ta generalidade, pois métodos classificatórios, descritivos, explo-

•• interpessoal, rede/organizacional e macro-social. No estrato descriti-


vo e aplicado, os exemplos.se perdem de vista. Evidentemente, com-
ratórios, empíricos, experimentais e outros mais repetem-se de
modo relativamente similar em quaisquer ciências. Enfim, no ter-

•• provar ou não essa hipótese depende de uma pesquisa específica.


Nas agências de fomento à pesquisa no Brasil, a comunicação
ceiro nível, tem-se a interferência do pesquisador e de suas esco-
lhas frente às metodologias que sua área científica lhe apresenta e

•• está situada estritamente na área das ciências sociais aplicadas.


Tendo em vista o levantamento das tradições de teorias e modelos
às exigências que lhe faz o tipo específico de pesquisa que realiza.
Frente a isso, só se pode concluir que metodologias não são e

•• da comunicação, realizado no primeiro capítulo, e a tentativa de


mapeamento da área, realizada no segundo capítulo, somos leva-
nem podem ser receituários ou instrumentações que se oferecem
para serem aplicados a todos os campos, todos os assuntos e a

•• dos à conclusão de que uma tal situação é redutora e está defasada


em relação ao dese~volvimento da área e das perspectivas que ela
apresenta.
todos os problemas de pesquisa. Pesquisas e suas metodologias
exigem intimidade com a área na qual se pesquisa. Para realizar
uma pesquisa em comunicação, por exemplo, é necessário estu-
•• Vem do que foi acima exposto a diferença dos níveis metodoló-
gicos que proponho em relação aos que foram propostos por Lopes . .
dar minimamente o desenvolvimento histórico da área, conhecer
o que os comunicólogos estão fazendo, inteirar-se de suas teorias,

•• O nível fundamental é geral ; universal, sustentado nas principais


classes de raciocínios ou argumentos. Demo (1985: 13) iniciou
familiarizar-se com os métodos que empregam e das diferentes situ-
ações em que os empregam, contribuir, através da competência que o

•• seu livro com a constatação de que "regras lógicas do conheci- tempo e a dedicação trazem, com a transformação e o aperfeiçoa-
------------------------------~r
133
1
132 Comunicação [,. Pesquisa Lucia Santaella

mento desses métodos através de pesquisas próprias, enfim, tomar-se


I
i 8. TIPOS DE MÉTODOS
o membro de uma comunidade de pessoas que idealmente deveriam
unir-se em tomo de um interesse comum: promover o crescimento e
I Sendo a metodologia o estudo dos métodos, cumpre definir o
I
a excelência das pesquisas na área em que atuam.
Da multiplicidade potencial de metodologias resulta que, com
exceção feita às pesquisas puramente dedutivas, das ciências for-
1
i
i
!
que é método. Rudio (1992: 15) nos fornece uma definição ampla
e justa, como se segue: •
mais, cujas regras são estritas, e as pesquisas quantitativas, esta- "Embora enfatizando o valor da criatividade, convém lembrar que a
tísticas, cujos protocolos são precisos, não há um consenso na pesquisa científica não pode ser fruto apenas da espontaneidade e
consideração que os metodólogos fazem acerca da questão do I intuição do indivíduo, mas exige submissão tanto aos procedimen-
método, particularmente nas ciências sociais e humanidades. Mas I tos do método quanto aos recursos da técnica. O método é o cami-
há consenso, e muito grande, nos procedimentos gerais que de-
vem ser adotados para a realização de um projeto de pesquisa, II nho a ser percorrido, demarcado, do começo ao fim, por fases ou
etapas. E como a pesquisa tem por objetivo um problema a ser resol-
conforme será explicitado no próximo capítulo. vido, o método serve de guia para o estudo sistemático do enuncia-
No momento, e antes de entrarmos na floresta dos métodos, do, compreensão e busca de solução do referido problema. Exami-
1
que será o assunto do próximo tópico, vale a pena recordar breve- I nando mais atentamente, o método da pesquisa científica não é outra
mente, em um diagrama mental, o modo como sistematizei as ques- 1 coisa do que a elaboração, consciente e organizada, d~s diversos
tões vistas até agora. A teoria dos sistemas cognitivos e conceituais, i procedimentos que nos orientam para realizar o ato reflexivo, isto é, '
}
1
as teorias e filosofias da ciência consideram três esferas para os 1 a operação discursiva de nossa mente",
~
seus estudos: a esfera epistemológica, relativa às teorias do co- , I
I
nhecimento, a esfera lógica, da qual decorre, à luz de Peirce, um 1
j o exame de uma pequena amostra de livros sobre metodologia
método geral, subjacente à diversidade das metodologias, e a es- J científica, só nas áreas das ciências sociais e psicologia, social ou
fera metodológica. Esta última esfera, por 'sua vez, de acordo com i educacional, sem nem tocarmos nas áreas das ciências formais ou
o que foi proposto, divide-se em três níveis: o nível lógico, geral e I naturais, já é suficiente para nos levar a algumas constatações. Há
fundamental, derivado da segunda esfera, nível subjacente a todas
I
1
certamente consenso metodológico nas pesquisas empíricas, nas

••
j
as metodologias específicas; o nível variável, relativo às especifi- I experimentais, estatísticas e quantitativas. A metodologia estatís-
i
~
cidades das diversas ciências e, por fim, o nível da prática metodo- tica, aliás, foi tão hegemônica durante algum tempo a ~o~to de ter
lógica, quando um método é atualizado, dentro de uma área científica
específica, em uma pesquisa particular.
se tomado sinônimo de pesquisa. Entretanto, com a exceção des-
ses tipos de métodos, não existe consenso, não obstante algumas
similaridades, sobre outras variadas espécies de métodos e de pes-
quisa. Essa ausência de consenso só vem trazer mais munição para
ás postulações enunciadas no tópico anterior de que as
'.


metodologias das ciências são específicas, variando t~nto histori-
camente quanto na passagem de uma ciência para a outra.
'.•
I.
, ~

134 Comunicação [; P~squisa Lucia Santaella 135

.'•• A tendência a urna maior variabilidade deve ser mesmo uma


marca das diferentes áreas das ciências humanas, pois, nas ciên-
cias formais, as regras de pesquisa devem ser estritas e, nas ciên-
cias da natureza, os protocolos de pesquisa são prescritivos, além
Passemos, pois, a urna breve exposição de LIm,a amostragem
da diversidade no tratamento dos métodos a partir de alguns auto-
res selecionados, para que se possa, ao final, proceder a uma ten-:
tativa de sistematização dessa diversidade, quer dizer, tentar en-

•'. de que essas ciências são menos permeáveis às mudanças de vo-


cabulário, discursos, episternes que afetam as ciências humanas
contrar alguns princípios gerais que estão por trás das repetições
que aparecem na diversidade .

•• (ver FOUCAULT, 1972, 1973), Também não há nas ciências hu-


marias um metavocabulário abrangente, capaz de absorver e orde-
Carvalho et al. (2000: 43-69), por exemplo, apresentaral~ o.que
chamaram de tendências metodológicas segundo um critériohistóri-

•• nar a variabilidade dos discursos, Essa variabilidade, de resto, acen-


tuou-se 'nas últimas décadas do século XX, COI11 a chamada crise
co, No século XIX, o positivismo de Cornte e o materialismo históri-
co-dialético de Marx coru sua concepção da realidade social a parti r

•• das gran~es narrativas legitimadoras , conforme foi sobejamente


tratada nos debates sobre pós-modernidade (ver especialmente
de uma interpretação materialista da dialética hegeliana entr~.()u­
tras influências. No século XX, o neopositivisrno ou empirismo '"

•• LYOTARD, 1979) , lógico e sua crença de que "haveria uma linguagem, a da ci ência,

.•• '
Contudo, isso não deve funcionar como álibi para a negligên-
cia o~ preguiça metodológica na pesquisa, pois, assim como não
há ciência sem pesquisa, 'não há pesquisa 'sem método, além de
capaz de exprimir universalmente o que a experiência ,n os ofere-
ce"; a fenomenologia de Husserl e sua postulação de que "o conhe-
cimento é o resultado da interação entr.e o que o sujeito observae

'. ••
que, conforme nos diz Demo (1990: 24)

"A despreocupação metodológica coincide com baixo nível acadêmi-


co, pois passa ao largo da discussão sobre modos de explicar, subs-
o sentido que ele fornece à coisa percebida"; o estruturalismo e' a
busca das leis que presidem às estruturas dasmaisdiversas ordens. '
A seguir, os autoresapresentaram as tendências metodológicas
que se notabilizaram a partir da segunda metade do sé~ulo ,X X :, a"

••.'
tituindo-a por expectativas ingênuas de evidências prévias. Nada escola de Frankfurt corn sua crítica aguda contra a razão instru- '
favorece mais o surgimento do discípulo "copiador" que a ignorân-- mental alimentada pela sociedade capitalista; o grupo d?s expoen-
cia metodológica", tes da epistemologia contemporânea COI~ os férteis de?ates",'q'ue '

•• Em razão disso, a falta de metodologias hegemônicas acaba


geraram entre si e a partir de suas obras: POPl?er, Kuhn , Fe~erabend
e Lakatos. Por fi 111 , as duas últimas tendências, levantadas'.. pelos
\ "

•• por acentuar a necessidade de orientadores competentes no acom- autores, são, de um lado, o pragmatisrno. ique começa em Pei.l:ce',
panhamento da pesquisa e o desenvolvimento da capacidade cria- passa por W. Jarnes, Dewey, estendendo-se até Rorty no presente .
tiva de escolhas e julgamentos, da ousadia na aplicação de De outro lado, o construcionismq, que, a partir de seus fundado-
•• metodologias mistas; integradas, complexas, metodologias estas
que vêm se acentuando como uma tendência especialmente na área
(
J
,
res, M. Scheler e K. Mannheim, levando em conta o papel estru-
turador operado pela linguagem , "considera que tanto o sujeito

••
;
i
de cornunlcação.vtendo em vista seu perfil interdisciplinar (ver 'como o objeto do conhecimento são construções sociais e históri-
WOLF, 1987: 132, 140). cas" (Para um panorama dos paradigmas históricos da pesquisa,

•'.
ver também CHIZZOTTI, 1991: 11-16),

J
]36 Lucia Santaella
Comunicação [, Pesquisa

Segundo Demo (1985: 21-22, 52), das duas vertentes método-


. ,.."

Acreditando na objetividade e neutralidade do conhecimento,


••
lógicas mais típicas por êle estabelecidas, aquela que é derivada
da teoria do conhecimento e aquela que se volta para a sociologia
e no estabelecimento da verdade como algo factível e definitivo, ..,
as metodofogiaspositivistas' propõem' paratodas as ciências are- ••
do conhecimento, resultam os principais métodos de pesquisa. .
Antes de tudo, o método dialético, que o autor privilegia por sero
mais correto para as ciências sociais, pois, "sem deixar de ser ló-
gico, demonstra sensibilidade pela face social dos problemas".
Mais predominante nos países do Terceiro Mundo, por "prestar-
produçãodo "modelo' das ciências exatas e naturais. Urna vez gu~
o método' das' Ciências naturais, por excelência, é o método expe-
rimental, baseado na observação, experimentação e rnensuração,
essa seqüência e suas exigências são, para o positivismo, as ú1}i-
cas cientificamente aceitáveis. Nessa medida, positivismo e ernpi-
.; ••
••
1 risrno , na maior parte das vezes, se unem sob vários aspectos;
••
se melhor a compreender suas contradições e alicerçar o desejo
de mudança histórica" (ibid .: 85), o método dialético parte dos O estruturalismo, 'po r sua vez, disseminado entre vária~ das
fundamentos propostos por Marx (1977), especialmente nas suas ciências sociais, na psicanálise e até mesmo na filosofia, nasceu'
Contribuições à Crítica da Economia Política. O pressuposto fun- das des.cobertas lingüísticas de Saussure sobre a língua c~mo.urri
••
damental desse método repousa na crença de que "toda formação
social é suficientemente contraditória para ser historicamente su- I
I
I
sistema de 'lei s estruturadas de acordo com prescrições internas.
Já o sistemismo se alimen ta dateoria dos sistemas e deconcel?- .
•.•)
perável" (ibid.: 86). j ções funcionalistas. Sob sua ótica, todo fenômeno organizativo é
Os outros métodos, para Demo, são: o empirismo, o positivismo,
I
um sistema de partes concatenadas que mantêm e recobram o equi-
.1
o estruturalismo, e o sistemismo . O empirismo originou-se da busca J

I
líbrio graças à retroalimentação e dinamismo de recomposição
e';
de superação da especulação teórica ern prol da observação em-
pírica, podendo incluir o teste experimental e a mensuração quan-.
I
dos seus elementos.
Tomando por base a divisão de.Lakatos e Marconi (1992) de •
••
titativa. Segundo Fiske (1990: 135), o método emp írico, baseado
no raciocínio indutivo, na sua versão experimental, apresenta os
i
I
1
J
dois níveis metodológicos, o dos métodos de abordagem e o dos
métodos deprocedimento, Bastos (1999: 73-83) apresentou a des- ••
••
seguintes propósitos: (a) colecionar e categorizar fatos objetivos- I
I
crição 'd os diversos ' métodos inclusos nessa divisão. Assim, .os
ou dados; (b) levantar hipóteses para explicá-los; (c) eliminar, tanto I
j
métodos de abordagem, conforme o tipo de raciocínio emprega-
I
do, são: oindutivo, dedutivo, hipotético-dedutivo e o dialético. O

••
quanto possível, qualquer interferência de elemento humano nes-
se processo; (d) construir métodos experimen tais para testar e pro-
var ou refutar a confiabi 1iade dos dados e das hipóteses. .
I
I
indutivo é aquele que pa-rte de premissas particulares ern direção
a premissas gerais e cuja aproximação dos fenômenos caminha,

••
i
j
Quando o método empírico é aplicado às ciências sociais,' bus- I assim, para planos cada vez mais gerais. O dedutivo parte de pre-
ca-se . reproduzir condições ' simi lares às do laboratório. Não I missas -gerais, teorias e leis, para predizer a ocorrência dos fenô-
. ..

••
. -

,\
obstante as críticas que podem ser feitas ao ' empirismo, Demo meno~ particulares. Iniciando-se pela percepção de uma lacuna

(ibid.: 102) alertou para o fato de que suas metodolcgias criaram · 1i nos conhecimentos, o métodohipotético-dedutivo levanta uma
inúmeras técnicas de c.oleta ede mensuração dos dados, acumula- hipótese acerca dessa lacuna e através da inferência dedutiva testa

•..'
a predição de f~nô~e!1?s abrangidos pela hipótese. O· dialético,
"
..;-... .
ram fatos e dados, trouxeram para as ciências sociais o uso da ~

computação e assim por diante". com? já visto é\cima~ penetra nos fenômenos através de sua ação.

. :'
••
•• 138 Comunicação f:, .· Pesquisa Lucia Santaella 139

•• recíproca, da contradição inerente a todo fenômeno e da mudança


dialética que ocorre na sociedade e na natureza. Nessa medida,
gráfico, por exemplo. (c) Métodos podem também surgir a partir
de teorias que têm um alto grau de generalidade, garantindo assim

•• esse método problernatiza o conhecimento ·" de n tro de um contí-


nuo em constantes mudanças" e inacabarnento "que contém um
sua aplicabilidade a uma multiplicidade de fenômenos. É o caso
do funcionalismo, do sisternisrno, como é o caso do estruturalis-

•• todo que abarca contrários em incessantes conflitos". (LAKAT.OS


e MARCONI, ibid.: 106, BASrOS, ibid.: 75-76) , 1
1110, e também da maioria das correntes da serni ótica, aquelas que
derivam do estruturalismo. (d) Há métodos que nascem a partir de

•• Os métodos de procedimento, conforme estão explicitados em


Lakatos e Marconi (1991) e em Bastos (ibid) são os seguintes: J
teorias específicas, através da redefinição operacional dos con-
ceitos teóricos tendo em vista sua aplicação a fenômenos empíricos.

•• histórico , estatístico, estruturalista, funcionalista, comparativo ,


etnográfico, tipológico, monográfico ou estudo de caso etc. Nes-
1
(e) Há ainda métodos analíticos que advêrn do exercício sistema-
tico de operações mentais como a abstração, por exemplo,
grandemente responsável pelo método classificatório, tipológico,

•.•)
se nível, a diversidade impera e as escolhas só podem ser feitas
tendo em vista a adequação do método ao tipo de problema que a
I e a analogia, responsável pelo método comparatista.
f
pesquisa visa trabalhar. Ij

.'• Apesar da diversidade dos métodos até agora apresentados, há 9. TIPOS DE PESQUISA
certas repetições . A meu ver, essas repetições se dão porque há
princípios operando nas classificações que os autores elaboram . 1 Dos tipos de métodos derivam muitos dos tipos de pesquisa.

•• Há, assim, uma quase unanimidade na consideração de dois ní-


veis metodológicos, o nível lógico e o nível das especificidades .
Para a explicitação destes últimos, antes de tudo, deve ser consi-
derado que, embora as definições de pesquisa coloquem ênfase

•• Essa divisão está perfeitamente de acordo com a hipótese desenvol-


vida nos tópicos anteriores de que a lógica, com seu estudo dos
na referência à realidade empírica do conhecimentoque a pesqui-
sa busca atingir, existem pesquisas que n.ão têm nada a ver, direta-

•• . tipos de raciocínio utilizados pelas inteligências científicas , habi-


ta o coração das metodologias. Do nível propriamente lógico, der-i-
mente, com a realidade empírica. É o caso das ciências formais, ' .
como é o caso das pesquisas teóricas que têm por função preen-

•• vam os métodos indutivo, dedutivo, hipotético-dedutivo e o dialéti-


co, embora seja discutível se a dialética é, de fato , um tipo de lógica.
As regularidades no nível das especificidades se apoiam em
cher lacunas no conhecimento, desvendar e construir quadros .
conceituais de referência . Há pesquisas cuja função poderia" estar -
exclusivamente na discussãode UITI conceito controverso dentro

•• outros tipos de princípios, entre os quais, do mais abstrato para o


mais concreto, destacam-se: (a) sistemas e correntes filosóficas
de um~ determinada área de conhecimento: o conceito de repre-
sentação ou o conceito de consciência, nas ciências cognitivas',

•• que trabalham com os fundamentos do conhecimento, mesmo sem


estarem diretamente lidando com metodologia, acabam por gerar
por exemplo, ou o próprio conceito de comunicação, na área de
comunicação, um conceito que, aliás, está longe de ser consensL~al.'

•• métodos de pesquisa. Esse é o caso, por exemplo, da fenome- ;


nologia. (b) Métodos podem também nascer dos procedimentos
Dessa distinção en.tre pesquisas teóricas e pesquisas que vi-
sarn a um conhecimento referenciado realidade elllpírica. advérn
à

•• gerais que são adotados por 11111a deter:nli nada área de saber ou
disciplina. É o caso dos métodos histórico, antropológico e etno-
a primeira grande divisão. dos tipos de pesquisa: fundamentale
aplicada. O que mobiliza a mente humana; n.os dizem , L ~ v i l1 e ' e
.

:
140 Comunicação [, Pesquisa Lucia-Santaelia 141 --.)
Diorme (1999: 85) são problemas, a busca de um maior entendi- conhecimentos rigosoramente articulados.xubmetidos ao contro- ••
ment? das questões com que a realidade nos desafia ou a busca de '
soluções para problemas nela existentes. Para chegar aí, a pesqui-
le de verificações empíricas e comprovados por meiode técnicas
precisas de controle. As certezas posi ti vistas vêm da suposição de ••
••
sa é o meio mais apropriado . Para melhor conhecer, o caminho é a quea natureza é uniforme, logicamente organizada e funcional-
pesquisa fundamental que tem por função aumentar a soma de sa- · rnentedeterrninada, Porque o mundo é regido por leis invariáveis
beres disponíveis, saberes esses que, em algum momento, nunca
se sabe quando, serão utilizados para a solução deproblemas empí-
e constantes, elas podem ser apreendidas, verificadas eprevistas
através da pesquisa metódica. '
.'•
ricos. A história da ciência está cheia de exemplos dessa espécie.
Nessa medida, a pesquisa fundamental tem por função criar qua-
dros teóricos de referência e mantê-los, tanto quanto possível, li-
vres dos malententidos e das anemias que a impaciência e negligên-
'E m termos gerais, partindo da análise de um fenômeno deii-'
mitado, a pesquisa experimental formula hipóteses prévias de ver'- '
dade e métodos explícitos de verificação, submete o 'fenômeno' à
experimentação em condições de' controle, cuidando da validade
.'
••
cia teóricas costumam.produzir. Sem bons quadros teóricos de re- interna das hipóteses para extrair leis, fazer generalizaçõeseela-

ferência, pesquisas aplicadas ficam debilitadas, de modoque, na
pesquisa, não pode haver nada mais prático do que uma boa teoria.
borar teorias explicativas do fenômeno observado . Não obstante
tenha traçoscomuns com as pesquisas empíricas, as .''.
.'•.'
experirnen-
A motivação principal das pesquisas aplicadas , por seu lado, tais não apenas pressupõem uma base empírica, fundada em ob-
está na sua contribuição para resolver um problema, Para tal, ela servações e no estudo de fatos particulares rumo à generalização,
aplicará conhecimentos já disponíveis, mas das aplicações P9d,em mas também tomam a experimentação como condição sine qua .
resultar não apenas a resolução do problema que a motivou , mas non do conhecimento. ' . ,

••
também a ampliação da compreensão que se tem do problema; 0U
ainda a sugestão de novas questões a serem investigadas: É em ra-
zão disso que os verdadei ros pesquisadores não fazem pesquisa
Não existe pesquisa experimental sem experimento, isto é, a
manipulação deliberada de um aspecto da realidade, -de n tro dê
condições anteriormente definidas, a fim de observar sé certos .'•
ad hoc, mas a faZeITI pela vida afora . O conhecimento está em um
continuum cuja origem ecujo fim serão eternamente desconhecidos .
I
I
I
I
efeitos são produzidos. Desse modo, o experimento 'n ã'o podeser
confundido com a mera observação ou com experiência. O expé- .'•
Do final do século passado até meados do século XX, privile-
a
giando medição de regularidades constantes nos fenômenos, o I
rimento é Lima situação criada ~m laboratório para observar 'sob
controle a relação entre fenômenos , Controle quer dizer esforços ••
método experimental constituiu-se no modelo oficial de pesquisa,
inclusive nas ciências humanas. Tudo que não se enquadrasse nesse
modelo era repudiado como mero balbucio especulativo . As exi- .
f
\
I
1,1
para se eliminar ou reduzir os erros de observação; Por lsso.ra
observação tem de ser isolada de -influências capazes' de nela' i"n-
tervir. 'A s situações podem também ser criadas fora de lâbo'ràtó- "
•.;
.,'
\t
gências e características desse tipo de pesquisa são defi nidas com rio, mas técnicas rigorosas têm çie ser utilizadas para exercer 60n-'

rnu ita precisão, conformenos informam Laville e Dionne (1999: :
139), Rudio (1992: 55-69) e Chizzotti (1991: 25-74). '
Os pressupostos da pesquisa experimental 'são positivistas,
segundo os quais afirmações genéricas devem ser substituídas por
l ~role sobre as variáveis que vão ser observadas. .
Para ser experimental, urna pesquisa deve visar a demonstrar .
uma relação de causa e efeito entre duas variáveis. Essa dernoris-
tração apoia-se na atuação do pesquisador sobre a variável inde-
.'•.'

~i '
•• 142 Comunicação & Pesquisa

pendente associada à causa para, em seguida, medir os efeitos


Lucia Santaella 143

a pesquisa experimental tenha perdido sua validade, pois, além de

•• engendrados no plano da variável dependente. O termo variável


tem origem na matemática, onde serve para designar uma quantida-
continuar sendo amplamente empregada, com seus rigores, ela
serve de referência para se estabelecer categorias de pesquisa e
de que pode tomar diversos valores. Na pesquisa, a variável se para julgar seus critérios. Enfim, funcionam como um modelo do
refere a alguma propriedade passível de observação e mensuração, qual as pesquisas podem se afastar através de adaptações, sem per-
de um determinado fenômenoque pode tomar diferentes valores. der, contudo, as exigências das regras do jogo (ALVES, 1988).

•• Assim, qualquer coisa que pode assumir mais do que um valor,


que pode variar, por exemplo, idade, religião, habilidade comuni-
Surgiram, a partir disso, perfeitamente legitimados, outros ti-
pos de pesquisa que Laville e Dionne (ibid.: 139) chamaram de

•• cativa, tipo de amor etc. é uma variável. As variáveis dividem-se


em independentes e dependentes. As primeiras funcionam como
quase-experimentais e não-experimentais. Apesar da tradição
empírica, na sua versão quantitativa e mesmo experimental, do-

•• causas e as segundas como efeito. Por exemplo, pode-se estruturar


uma pesquisa experimental para verificar se aluno estudioso (va-
riável independente) é aluno que sabe (variável dependente).
minante em toda a tradição da communication research, nos Esta-
dos Unidos, Bavelas (1995: 56) alertou para o fato de que grande
parte dessas pesquisas são quase-experimentais, visto que, na co-
•• Com suas variáveis mensuráveis, seu recurso à estatística em
uma experiência provocada na qual se exerce um controle cerrado
municação, as variáveis-chave, como as características pessoais
do ser humano, não são manipuláveis. Dentro das pesquisas não-

•• sobre suas condições, a pesquisa experimental é uma construção


do saber muito particular, afirmaram LavilIe e Dionne (ibid.: 139),
experimentais cabe uma grande massa de sub-categorias.
Mais comumente aceita, entretanto, tem sido a divisão das pes-

•• construção esta fortemente marcada pelas ciências naturais. Nas


ciências humanas, entretanto, são raros os trabalhos que podem
quisas em quantitativas, quando usam do recurso da estatística, e
pesquisas qualitativas. Estas últimas, segundo Chizzotti (ibid.: 9),

•• respeitar seus cânones estritos, pois seres humanos não podem ser
manipulados como partículas de matéria ou ratos de laboratório.
abrigam um grande número de divisões e subdivisões que, embo-
ra diversas, unem-se na oposição ao modelo experimental e no

•.- Além disso, sem desmerecer a riqueza dos instrumentos materná-


ticos e estatísticos, a maior parte dos fenômenos humanos não pode
pressuposto de que há uma relação dinâmica, uma interdependên-
cia entre o mundo real, o objeto da pesquisa e a subjetividade do

•• ser medida sem perder sua riqueza, nem a causalidade linear das va-
riáveis pode dar conta de sua complexidade.
Entretanto, foram descobertas que se processaram no interior
sujeito. Enquanto o objeto deixa de ser tomado como um dado inerte
e neutro, o sujeito é considerado como parte integrante do processo
de conhecimento, atribuindo significados àquilo que pesquisa.
•• das ciências ditas duras que precipitaram a crise da hegemonia
das pesquisas experimentais nas ciências humanas . O desenvolvi-
A abertura que a pesquisa qualitativa permite não pode nos
levar a supor que, com ela, deixem de existir as exigências e crité-

•• mento tanto da física quanto da matemática, no século XX, foi


cada vez mais demolindo as certezas do cientificismo e as crenças
rios que devem regular uma pesquisa. Embora com características
próprias, as pesquisas qualitativas também obedecem a certos pro-

•• na infalibilidade da ciência, evidenciando que previsões "abso lu-


tas são inviáveis. Com isso, a validade das interpretações foram
tocolos, tais como a delimitação e formulação claras de um pro-
blema, sua inserção em um quadro teórico de referência, a coleta

•• sendo recuperadas (CHIZZOTTI, ibid.: 78) ." Isso não significa que escrupulosa de dados, a observação, as entrevistas, quando neces-
144 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 145 •
sárias, a determinação de um método, a análise dos dados, o teste utiliza; a qualitativa, que ressalta as significações que estão conti-
das hipóteses, a necessidade de generalização das conclusões etc. das nos atos e práticas; a nomotética, que tem o intuito de extrair
Enfim, o recurso ao qualitativo não pode servir para o pesquisa- as leis (noinos) da regularidade e da ocorrência dos fatos observa-
dor se abrigar confortavelmente na rejeição aos métodos com a dos para generalizar, Ainda segundo Chizzotti, as pesquisas analíti-
desculpa de que estes são rígidos e castradores da inspiração cria- cas podem ser subdivididas de acordo com o método de aborda-
tiva. Na pesquisa, sem método, inspiração é mito, como o é na gem analítica que utilizam: comparativa, histórica, funcional, es-
própria arte, pois esta também se submete a métodos que lhe são trutural, sistêmica, dialética. Podem ainda ser classificadas de acor-
muito próprios. do com seus objetivos, por exemplo, a pesquisa clínica, que estu-
É preciso considerar neste ponto que não há um consenso em da determinados casos individuais, visando umjulgamento e uma
relação ao sentido que se pode dar à pesquisa qualitativa. Há um prescrição, e a pesquisa-intervenção, que se baseia na relação par-
sentido amplo, conforme foi discutido acima, e um sentido mais ticipante do processo de análise e mudança psicossociológica.
estreito. No sentido estreito, a pesquisa qualitativa é tomada ape- Para Rudio (ibid.: 56-60), as pesquisas se dividem em duas
nas como uma parte da pesquisa quantitativa, aquela relativa à grandes classes: experimentais edescritivas. Estas últimas podem,
análise de conteúdo. De acordo com Laville e Dionne (ibid.: 225), então, aparecer sob diferentes formas. Abrangendo uma faixa muito
até os anos 70, a análise do discurso manifesto, colhido através de extensa de investigação, há a pesquisa de opinião ou de atitude,
documentos, de questionários, entrevistas, etc., realizada pela pes- que visa saber que pontos de vista, atitudes e preferências as pes-
quisa quantitativa, privilegiava os cálculos de freqüência dos ter-
mos e das expressões utilizados no discurso. Uma vez que essa
soas têm a respeito de algo. A pesquisa motivacional visa saber as
razões ocultas ou inconscientes que levam as pessoas a fazer uma

abordagem não costumava render os frutos esperados, o domínio determinada coisa, por exemplo, consumir um certo produto. O
e as modalidades do que se chamava de análise de conteúdo am- estudo de caso se volta para indivíduos, grupos ou situações parti-
pliaram-se, absorvendo abordagens qualitativas, quer dizer, inter- culares para se realizar uma indagação em profundidade que pos-
pretativas, das unidades de sentido, das relações entre elas e de sa ser tomada como exemplar. A pesquisa para análise de trabalho
que delas emana. Não obstante esse sentido estrito, a pesquisa busca identificar deficiências, elaborar programas de capacitação,
qualitativa acabou por desenvolver autonomia própria, podendo distribuir tarefas, determinar normas etc. A pesquisa documental
se referir a todas as pesquisas que privilegiam a interpretação dos examina documentos a fim de poder comparar usos e costumes,
dados, em lugar de sua mensuração.
Além da pesquisa experimental, Chizzotti (ibid.: 27) apresen-
tendências, diferenças etc. A pesquisa histórica se volta para o .
passado, buscando as linhas de força que movem os acontecimentos. ••
••
tou o seguinte quadro de tipos de pesquisas: a primeira divisão, DIria outra divisão dos tipos de pesquisas e os .procedirnentos
conforme já foi discutida acima, entre pesquisa teórica ou funda- necessários para realizá-las foram apresentados por Demo (1985:
mentaI e pesquisa aplicada. Então, a pesquisa descritiva, que se 23-26): a teórica, a metodológica, a empírica e a prática. A teóri-
restringe à descrição dos fatos; a analítica, que faz análises interpre- ca coincide em alguns pontos com a que foi acima chamada de
tativas dos dados e extrai conclusões; a quantitativa, assim cha- fundamental. A metodológica se refere à reflexão sobre os méto-
mada devido ao suporte em medidas e cálculos mensuráveis que dos que direcionam a pesquisa científica, os modos de pesquisar,

Comunicação [, Pesquisa
•• 146

a problematização das vias do conhecimento, a "construção de


Lucia Santaella

Quanto à sua natureza, as pesquisas se dividem em trabalho


147


e
propedêutica da descoberta da realidade". O cultivo de uma atitu-
de típica diante da realidade, nos diz Demo, isto é, "da atitude da
dúvida, de crítica, de indagação rodeada de cuidados para não
científico original e não original. Quanto aos objetivos, a pesqui-
sa pode ser exploratória, descritiva ou explicativa. A exploratória
é uma espécie de prévia da pesquisa que tem por finalidade am- '
sermos ingênuos, crédulos, apressados" é questão fundamental- pliar as informações do pesquisador sobre o assunto de sua pes-
mente metodológica. A falta de reflexão bem informada sobre ela quisa, tendo em vista seu aprimoramento rumo à elaboração de

•• redunda em um tipo de mediocridade científica manifesta na cre-


dulidade em evidências dadas .
um projeto de pesquisa. A descritiva limita-se a descrever, anali-
sar e classificar fatos, sem que o pesquisador neles interfira. A

•• A pesquisa empírica dirige-se para "a face experimental e


observável dos fenômenos", manipulando fatos e dados e procu-
rando traduzir os resultados em dimensões mensuráveis, sendo,
explicativa busca fundamentalmente o porquê das coisas. Quanto
aos procedimentos, as pesquisas recorrem a fontes de papel ou a
fontes de pessoas. Quanto ao objeto, a pesquisa pode ser biblio-
•• por isso mesmo, na medida do possível, quantitativa. Para Demo
(ibid.: ?5), mesmo que não coincida com o mais relevante da rea-
gráfica, de laboratório ou de campo. Nesta última, a coleta de
dados é real izada em campo, quer dizer, os dados são coletados

;e • lidade, esse tipo de pesquisa trouxe para as ciências humanas a


contribuição inestimável do "compromisso com afirmações con-
no local onde se dão os fenômenos pesquisados.
Especificamente na área de comunicação, DeVito (1997: 60,

•• troláveis, contra especulações perdidas" ou divagações sem fun-


damento, .M as uma vez que aquilo que é mais relevante não se
147, 199, 228) dividiu as pesquisas em três grandes classes, das
quais forneceu exemplares como ilustração: a descritiva, ahistóri-

•• manifesta à primeira vista, havendo, além do mais, muitas dimen-


sõesdos fenômenos que são refratárias à mensuração, a dedica-
co-crítica e a experimental. A descritiva tem por propósito descre-
ver algo: comportamentos, atitudes, valores etc. Pesquisas descri-
e ção .empírica não pode se restringir ao nível superficial, sempre tivas podem se realizar em trabalhos de campo, através da obser-

•• mais fácil de ser mensurado. '


A pesquisa prática se realiza através do teste prático das idéias
vação sistemática ou por meio da construção de panoramas sobre
um certo assunto. A pesquisa histórico-crítica tenta reconstruir o

•• e reflexões teóricas. Vale aqui, portanto, a inversão do postulado


acima formulado sobre a teoria: nada melhor para a teoria do que
uma boa prática, As chamadas pesquisa-ação e pesquisa-interven-
passado para melhor compreender os fenômenos. Ela pode se reali-
zar através de vários tipos de documentos: livros, jornais, transcri-
ções, vídeos etc. A definição dada para a pesquisa experimental não

•• ção, que têm por objetivo intervir na realidade, também se enqua-


dram na categoria de pesquisa prática.
difere muito da apresentação que dela foi feita mais acima.
Até os anos 70, as pesquisas em comunicação ficaram dividi-

e•
Numa visão ampliada da pesquisa extensiva a trabalhos uni- das nos campos antagônicos da pesquisa empírica, presente nos
versit ários em geral, baseando-se em Andrade (1993, 1995), Bas- estudos de mass communication dos Estados Unidos, e da pesqui- '

•• v
tos (1999:,64,-73) apres.entou uma classificação detalhada dos ti-
posobásicos de pes9~isa. Para os autores, os tipos de pesquisa se
sa crítica, baseada especialmente nos escritos da Escola de Frankfurt.
Nos anos 70, essa oposição ficou mais tensionada pela ascenç~o

•• dividemde acordo com (a) sua natureza, (b) os seus objetivos, (c)
os seus procedimentos e (d) o seu objeto.
dos modelos de comunicação, especialmente os semióticos, como
norteadores da pesquisa. A multipli.cação de métodos e aborda-


148 Comunicação [, Pesquisa 149
Lucia Santaella

gens e a busca por metodologias mistas e integradas, a partir dos próprios de observação. Quantoà participação do observador, a
anos 80, acabaram por tornar essas oposições e tensões obsoletas. observação pode ser não participante, quando não há envolvimen-
Para finalizar este tópico, cumpre chamar atenção para o mo- to do observador, ou participante, quando o observador se incorpo-
delo de pesquisa para a comunicação que foi elaborado por Lopes ra ao grupo pesquisado. Quanto ao número de observadores, pode
(1990), modelo esse para ser aplicado tanto à leitura ou análise da haver observação individual ou em equipe. Quanto ao local da
pequisajá feita, como à pesquisa que se está fazendo. Por se tratar observação, esta pode se dar em campo ou em laboratório, En-
de um modelo aberto e indicador das fases implicadas pela pes- quanto técnica de atuação na realidade, a observação se caracteri-
quisa, ele faz uma ponte entre este capítulo sobre os tipos de pes- za como militante (BARROS e LEHFELD, 1991: 54-55). Há ain-
quisa e o próximo capítulo sobre os passos que a elaboração de da a observação documental, que se reporta ao uso de bibliotecas.
um projeto de pesquisa deve seguir. Lopes dividiu seu modelo em As técnicas envolvem também a definição da população e
quatro instâncias: (a) a instância epistemológica; (b) a instância amostragem, o controle das variáveis, o instrumento de pesquisa e
teórica, que inclui a formulação teórica do objeto e a explicitação as técnicas estatísticas. O campo de observação, as unidades de
conceitual; (c) a instância metódica, que inclui a exposição e a observação e variáveis devem ser descritas em todos os seus itens
causação e (d) a instância técnica, que se subdivide em: técnicas como se segue: população e suas características; seleção da am?s-
de observação, técnicas de seleção e técnicas de operacionalização. tra, que pode ser não-probabilística ou probabilística. A não
probabilística se subdivide em amostra acidental, por quotas e in-
10. PROCEDIMENTOS, TÉCNICAS E INSTRUMENTOS tencional. A probabilística se subdivide em causal simples, causal
estratificada e amostragem por agrupamento. Envolvem ainda a
Via de regra, os tipos de métodos são definidores dos tipos de
pesquisa. Métodos incluem procedimentos, técnicas e instrumen-
tos, mas não se confundem com eles, pois estes são partes do mé-
determinação das variáveis que serão controladas. Então, a defi-
nição dos instrumentos, das hipóteses estatísticas que serão utili-
zadas, como serão codificados os dados obtidos e como serão fei-

todo . Em cada uma das fases do método, o pesquisador deve usar tas as tabelas (ver RUDIO, 1992).
certos recursos que se constituem em procedimentos técnicos,
como seleção da amostra, construção dos instrumentos da pesqui-
sa etc. A fase da análise e interpretação dos dados também impli-
A coleta de dados também se faz a partir de uma série de prescri-
ções, cujos instrumentos mais usados são os questionários, os for-
mulários e as entrevistas que' podem ser estruturadas, padroniza-

ca técnicas próprias. das, contendo perguntas que seguem um roteiro pré-estabelecido,
Nas pesquisas experimentais, procedimentos, técnicas e ins-
trumentos são muito precisamente definidos .. Envolvem técnicas
de observação pois, quando sistematizada, planejada e submetida
ou não estruturadas, despadronizadas, consistindo de uma conver- :
sa informal, alimentada por perguntas abertas. Esses instrumentos
são usados quando informações não podem ser obtidas por outros
• I

a controles de objetividade, a observação pode ser considerada meios. A interpretação dos dados não é menos baseada em técni-
científica. Assim, quanto à sua estruturação, a observação pode 'cas do que os demais passos da pesquisa. Ela implica em classifi-
ser assistemática, sem planejamento prévio ou sistemática, que é cação e categorização dos dados, processo de codificação, repre-
planejada, estruturada, controlada, utilizando-se de instrumentos sentação numérica dos dados e técnicas de análise de conteúdo.
•• 150
Comunicação & Pesquisa

Aí estão sintetizadas as exigências técnicas que as pesquisas


quantitativas prescrevem. Quando passamos do quantitativo para
o qualitativo, isso não quer dizer que as exigências devam ser
abandonadas. Significa apenas que as prescrições passam a ad-
quirir feições mais imprecisas de modo a abraçar o universo corn-
plexo e ambíguo de tudo aquilo que não pode ser mensurado. o PROJETO DE PESQUISA
E SEUS PASSOS

••
••
• •• Este capítulo será dedicado ãs orientações para se elaborar um
projeto de pesquisa. Há uma farta bibliografia sobre isso e toda

•• ela é bastante consensual quanto aos tópicos que uma tal elabora-

-
••
ção deve considerar e aos passos que devem ser seguidos para que
ela seja bem sucedida. É nesse ponto que toda pesquisa começa:
pela elaboração de seu projeto. Sem isso, a pesquisa já estaria
comprometida de saída, pois seria o mesmo que fazer uma via-

•• gem sem conhecimento de seu caminho. Iniciar uma pesquisa sem


projeto é apostar alto demais na improvisação, além de revelar
e ignorância quanto aos limites que a improvisação apresenta. Isso,
se não forem mencionadas as confusões, inseguranças, ingenui-


t i)
dades, dispêndio temporal, esforços e recursos mal gastos em que
uma tal aventura incorreria.


Um mau projeto não é muito diferente da ausência de projeto.
Isso explica por que tantas pesquisas começam sem terminar, ou

.'••
e por que terminam mal. Sem planejamento rigoroso, mesmoquan-
do consegue realizar a etapa da coleta de dados, o investigador se
verá perdido em um cipoal, em um emaranhado de dados, sem
saber c,omo analisá-los e interpretá-los por desconhecer seu signi-

•• ficado e importância no contexto maior de um problema bem de-


------------------------------------.
152 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella
153

marcado, de hipóteses apropriadamente formuladas e dos objeti- tiva da investigaçãocientífica. No momento, ficaremos apenas na
. vos que uma pesquisa visa atingir. primeira etapa, a da elaboração do projeto.
a projeto funciona como uma visão antecipada, um planeja-
mento dos passos que serão dados pela pesquisa. Churchman 1. QUESTÕES DE UM PROJETO
(1971: 190, apud R UDIO, ibid.: 45) nos diz que "planejar signifi-
ca traçar um curso de ação que podemos seguir para que nos leve Tudo deve estar previsto em um projeto de pesquisa, desde a
às nossas finalidades desejadas". Isso não deve .ser entendido ne- escolha de um tema, a coleta de informações preliminares, a deli-
cessariamente como ausência de criatividade e fechamento para mitação de um problema, sua justificativa frente ao que já foi rea-
as surpresas do caminho, pois quanto mais o curso de uma ação lizado no assunto em que ele se insere, a fixação dos objetivos, o
estiver bem planejado, mais equipados estaremos para reconhecer levantamento das hipóteses, a determinação de um referencial te-
e lidar com o inesperado, enquanto que, sem planos, via de regra, nos órico e de uma metodologia que sejam adequados para testar as
perdemos nas brumas confusas de um jogo sem regras. hipóteses e resolver o problema colocado, a coleta dos dados, sua
Projetar significa, portanto, antevere metodizar as etapas ou

.'••
análise e interpretação e as técnicas próprias para isso, até a pre-
fases para a operacionalização de um trabalho. Qualquer trabalho visão de recursos humanos e instrumentais, do cronograma, tudo
humano é processo explícita ou implicitamente projetado. A es- isso para terminar na elaboração de um relatório final, de uma
pecialização do trabalho científico exige a construção prévia de tese ou de um livro.
um instrumento técnico que conduza a ações orientadas para um Inclusas em todos esses passos estão as perguntas clássicas
fim e sustentadas sobre uma base de recursos humanos, técnicos, que um projeto deve enfrentar: o quê?, por quê?, para quê e para ~
materiais e financeiros. Esse 'instrum ento técnico é o projeto de
pesquisa. Sua elaboração em forma acabada não deve, contudo,
ser intimidante a ponto de paralizar a flexibilidade do pesquisa-
quem?, onde?, como?, com quê? quanto e quando?, quem?, com
quanto? Traduzindo: o que será pesquisado? Por que a pesqu!sa é
necessária? Como será pesquisado? Que recursos humanos, Inte-

dor para se adaptar a possíveis mudanças que podem surgir, e quase lectuais, bibliográficos, técnicos, instrumentais e financeiros se-
sempre surgem, no decorrer da execução de uma pesquisa. Quan- rão mobilizados? Em que período?
do o projeto se coloca em ato, no processo de execução, apare- Previstas e respondidas todas essas perguntas, o projeto possi-
cem os momentos de fertilidade em que brotam eventuais desco- bilitará ao pesquisador "impor-se uma disciplina de trabalho não
bertas de dados não previstos, junto com o aprofundamento das só na ordem dos procedimentos lógicos mas também em termos
idéias iniciais. de organização do tempo, de seqüência de roteiros e cumprimento
Como tal, o projeto é apenas uma das etapas da pesquisa. Ele de prazos" (SEVERINO, 2000: 159).
serve de guia para a execução propriamente dita e esta, por sua Uma visão panorâmica do projeto de pesquisa será apresenta-
vez, deve ser seguida de sua apresentação em forma comunicável, da abaixo para ser depois seguida pela discussão detalhada de
na imensa maioria das vezes, através da escrita. Por isso mesmo, cada um dos seus passos.
Peirce colocou no terceiro ramo da serniótica, junto com a metodêu- Um projeto começa pela escolha de um tema 9U assunto sobre
tica, a retórica especulativa, isto é, o estudo da eficácia comunica- o qual a pesquisa versará. .Uma vez que nenhum projeto surge do
••
:. 154 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 155

'.• nada, ele deve ser introduzido por uma apresentação voltada para
a gênese do terna, Como o pesquisador chegou a ele? Quais os
Tudo isso é necessário porque um tema não é ainda um pro-
blerna. Este último se constitui na questão mais fundamental de

":'..
motivos relevantes que fisgaram sua curiosidade e produziram nele toda a pesquisa', por isso mesmo, deve ser precisamente reCol~ta­
dúvidas a respeito desse tema. Essas dúvidas são providenciais, do, delimitado e claramente formulado. Isso não acontece por passe

'.•• pois é delas que o problema da pesquisa irá brotar.


Ternas, entretanto, não são virgens. Por isso mesmo, qualquer
proje-to deve ser antecedido por estudos preliminares sobre o terna.
Masque estudos preliminares são esses? Sabemos que a realidade
de mágica, nernda noite para o dia. Daí a necessidade de estudos
preliminares, de momentos de concentração cuidadosa e medita-
tiva, de discernimento das fronteiras do problema sem o que não
seria possível extraí-lo do contexto de infindáveis determinações

•• é uma trama finarnente urdida dedeterminações e a ciência e, mais


ainda, ri filosofia estão longe de terem começado hoje. Felizmente
em que um tema se situa.
É claro que nos casos em que uma pesquisa se origina de outra
,

•• os temas que escolhemos, ou pelos quais somos escolhidos, não


abraçam a realidade inteira, principal mente porque nosso olhar e
pesquisa; a delimitação do problema é sempre mais simples, visto
que essa delimitação, via de regra, já brota enquanto a pesquisa

'.•• nosso pensamento já estão conformados a um certo modo de ver


,q ue depende dos referenciais teóricos que dominamos. Esses
referenciais são específicos, próprios das distintas áreas de co-
anterior está sendo realizada ;-Poucas são as pesquisas que não
funcionam como geradoras de outras pesquisas. É por isso qu.e 9.S
verdadeiros pesquisadores fazem pesquisa a vida ·inteira, pois, .

~'. nhecirnento em que a ciência se subdivide. Uma vez que nos cons-
tituímos corno pesquisadores dentro de alguma área de conheci-
rnento; os estudos preliminares já estão previamente delimitados
enquanto fazem uma, já são mordidos pela curiosidade em rela-
ção a novos problemas que vão aparecendo no meio.do caminho é
que têm de ser guardados para U111'a outra ocasião. Ao mesmo tem- '

•• pela área de inserção do pesquisador. Dentro de cada área, há ain-


da delimitações que lhe são próprias e que se constituem nas suas
po que respondem a um problema proposto, as pesquisas são fon-
tes inesgotáveis de novos problemas. Isso não se dá por acaso,

•• sub-áreas. Den tI'O das sub-áreas, encon trarn-se estratifi cações de mas é fruto do aprofundamento que as pesquisas nos obrigama

-
.•1
ternas, junto às quais o tema de nossa escolha, via de regra,
localiza.
se
Tendo assim localizado o terna , os estudos prelirninares envol-
vern desde leituras bibliográficas, visitas a locais específicos, quan-
do o terna exigir, até discussões com especialistas e colegas. Es-
ter em relação aos fenômenos.
Definido o problema, deve ser elaborada a revisão bibliográfi-
ca ou pesquisa sobre o estado da questão, quando são estudados
os trabalhos que se situam na circunvizinhança do problema, tra-
balhos que versam sobre problemas simi lares. A elaboração da
~

'•. ses estudos preliminares são substanciais para a delimitação do


problema de pesquisa. Além disso, neles tem início UI11a das exi-
revisão. bibliográfica deve ter em vista a contraposição dos traba- ,
lhos já publicados em relação ao problema que a pesquisa propõe.

.'• gências fundamentais de um projeto de pesquisa: a revisão biblio-


gr áfica, que só poderá se complementar quando o problema esti-
Vê-se aípor que a revisão bibliográfica é importante. De um lado,
ela deve comprovar que o pesquisador não está querendo realizar
algo que já foi feito, de outro lado , ela ajuda a encaminhar o passo .

••
ver pelo menos relativamente definido. De todo modo, através da ~ .......

busca' de' informação sobre o tema é que as dúvidas vão gradativa- seguinte da pesquisa, a justificativa , quer dizer, a argumentação
mente se tornando mais c1aras e o problema pode ir se delineando . sobre a relevância' do trabalho, não . apenas enfatizando que ele


156 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 157 •
ainda não foi feito por outro pesquisador, mas principalmente por para o caminho a ser percorrido. Por isso, o método deve estar
que ele deve ser realizado. sintonizado nessas sinalizações. Além disso, não pode haver con-
Justificado o problema, o projeto se encaminha para a defini- tradição entre o método e o quadro teórico de referência, também
ção dos objetivos, quer dizer, que fins a pesquisa visa atingir? chamado de fundamentação teórica, pois, muitas vezes, o método
Quais são os aspectos que o problema envolve e em que sua solu- advém diretamente do quadro teórico.
ção resultará no tocante a cada um desses aspectos? Por fim, o cronograma da pesquisa deve ser estabelecido com
Depois disso, o pesquisador passa para a formulação das hi- indicação das etapas a serem cumpridas em cada período. A ele se
póteses. Como suposições de respostas para o problema propos- segue a indicação dos recursos humanos e materiais necessários e
to, as hipóteses se responsabilizam pelo direcionamento da pes- sua justificativa, tendo em vista o que a pesquisa mobilizará. Ao
quisa, na medida em que são elas que a pesquisa terá por finalida- final de tudo, deve comparecer a lista bibliográfica preliminar,
de demonstrar ou testar e comprovar ou não. Ora, não há formula- pois a bibliografia definitiva só pode e deve ser complementada
ção de hipóteses sem um quadro teórico de referência. É por isso no decorrer da execução do projeto. Muitas vezes o pesquisador
que essa formulação já encaminha o pesquisador para a ex- divide a bibliografia em duas p~~tes. Uma parte já consultada para
plicitação do seu quadro teórico. Este se constitui em um "univer- a elaboração do projeto e outra parte a ser pesquisada no decorrer
so de princípios, categorias e conceitos, formando sistematica- da execução do trabalho.
mente um conjunto logicamente coerente, dentro do qual o traba- Tendo esse panorama geral como pano de fundo, podemos
lho do pesquisador se fundamenta e se desenvolve" (SEVERINO, passar para o detalhamento de suas partes. Inicio pelas etapas que
ibid.: 162). devem anteceder à elaboração do projeto, visto que são elas que
Tendo chegado neste ponto, o projeto pode então se debruçar tornarão essa elaboração possível.
sobre as questões metodológicas, técnicas e instrumentais. Enquan-
to o método se refere a procedimentos ele raciocínio e analíticos 2. A ESCOLHA DO TEMA
mais amplos, as técnicas são operacionalizações do método das
quais os instrumentos são suportes. . Quando uma pesquisa se desenvolve no seio de uma institui-
É no momento da indicação dos procedimentos metodológicos ção com programas de pesquisa pré-definidos nos quais o pesqui-
que o pesquisador deve 'localizar o tipo de pesquisa que está rea- sador está engajado ou quando uma pesquisa é encomendada por

-
lizando, teórica ou aplicada, histórica ou tipológica, crítica ou alguma empresa, evidentemente, seu tema não é fruto da escolha
sistêmica, empírica com trabalho de campo ou de laboratório, etc. do pesquisador. No mundo universitário, entretanto, a imensa
maioria das pesquisas nasce da livre escolha do pesquisador. Vem
A metodologia está sempre estreitamente ligada a essa tipologia.
Além disso, os métodos devem estar perfeitamente afinados com
o problema proposto e com as hipóteses. Tendo o problema em
do pesquisador a necessidade de estudar um determinado assunto.
Mas quais são as motivações que nos levam a escolher um tema?

mente, o pesquisador deve se perguntar: "como e com que meios Segundo Barros e Lehfeld (1991: 26-27), os temas podem sur-
poderei resolvê-lo?" Este "como e com que meios" entrelaça as gir da observação do cotidiano, da vida profissional, do contato e
hipóteses e o método. As hipóteses funcionam como sinalizações relacionamento com especialistas, do feedback de pesquisas já
,.. ...
•• 158 Comunicação & Pésquisa ' Lucia Santaella ' 159

•• real izadas ou do estudo de literatura especializada. Conforme


Lakatos e Marconi (1992: 45), além das possibilidadesacima, as
pesquisador iniciante não se sinta perdido em meio às incerte.zas
iniciais e cético em relação à sua capacidade de definir mais pre-

••
. .,

fontes para a escolha de um assunto podem ainda originar-se da cisamente seu tema. Quando nos propomos a realizar um trabalho
experiência pessoal, de estudos e leituras , da descoberta de 'dis- científico, diz o autor,

f:,'. crepâncias. entre trabalhos


'
ou. . da analogia C0111
.
temas de estudos
de outras disciplinas 'ou área~ científicas. Enfim, completam as
autoras (ibid.: 102), o tema pode surgir de uma dificuldade práti-
"é normal que a primeira impressão seja de perplexidade. Não s~~e­
mos por onde começar, sobretudo se nunca , nos tínhamos me tido

•• ca , de uma curiosidade científica, de desafios' encontrados na lei- '


tura de outros trabalhos o~ ?a ~rópl~ia teoria .
antes no assunto . Todavia, é' a s ituação normal .de quem se )~Iga
pesquisador e não detentor de saber ev idente e prévio . [.. .,J QU~I~

•• A despeito de t?das essas diferentes possibilidades, algo ,é parte de evidências , nada tem a pesquisar. O processo de superação
comum a elas: ~m t,en:a surge quase sempre de uma intenção ain- dessa perplexidade inicial é algo central na formação científica d~
da imprecisa. Uma impreci~ã~ que só pode ser indicadora de que LI ma pessoa. 11

•• a escolha de um tema advém muito menos de urna vontade racio-


nal do que de motivos sobre os quais temos pouco domínio éans- Enfim, a indefinição inicial de um tema é normal; pois o que
e l
ciente . De fato , um . t~m a é algo que nos fisga, para o qual "nos importa não é o seu modo de ser, mas a elaboração, que deve ser

•• sentimos atraídos seI11 saber bem por quê. Por isso mesmo, temas
de pesquisa .n.ão devem ser mudados diante da primeira dificulda-
realizada para que ele vá gradati vamen.te ganhandq concretude, ~ ,
precisão e determinação. Para isso, ~ntretanto, opesquisador deve

•• de que se apresenta ou diante de influências alheias . Um tema se entregar aos estudos preliminares, sem os quais seria impossí-

,-• nasce de um desejo, que é, por sua própria natureza, sempre obs-
curo, e não costuma adiantar muito a tentativa de lhe virar as cos-
tas. Em outras palavras, não podemos ser infiéis ao desejo que só
vel caminhar da imprecisão para a definição.

3. ESTUDOS PRELIMINARES

•e se deixa mostrar escondendo-se por trás de uma intenção irnpreci-


sa através da qual um tema -de pesquisa aparece. Por onde começar? Buscando informações sobre o terna, seja

'..' Não obstante a imprecisão, é claro que os temas têm tudo a ver de ordem factual, seja de ordem teórica. Rudio (1992: 39) muito ,
com a história de vida e, especialmente, com a história intelectual apropriadal11ente nos lembra que, para a realização dos estu~,os
do pesquisador, Em que área científica está inserido, que repertó- prelim inares, é de máxima importância sabermos ern que área, ~

''.- rio já adquiriu nessa ~rea,qual a intensidade de seus contatos com


outros pesquisadores e C0111 especialistas na área, seu noviciado
melhor ainda, ern que sub-área do conhecimento ." 110SS0 tema se
situa para que possamos deterrninar os fundamentos teóricos que

• ••
ou sua experiência em pesquisa são todos fatores determinantes
para a escolha de um tema. Entretanto, esses fatores não são capa-
lhe servem de base, isto é, estabelecer quais as ,relações entre o
assunto de nossa pesquisa e a Teoria Científica que desejamos uti-
li~ar". Foi por ter essa necessidade en: vista que, no segundo capí-.
zes de impedi;' q~e os ternas surjam, o mais das vezes', de- modo

'•.•
',\

vago, muito geral e: indefinido.A apreciação de Demo (1985: 49- tulo deste livro, busquei construir ,o mapeamento da área de co-
50) sobre isso é especialmente lúcida ~ importante pará que um ; municação para que opesquisadorpossa localizar .emqual terri-
~-------------------------------_
160 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 16 1
.•
tório seu assunto se situa e quais são as interfaces desse território vel as sugestões e críticas de um especialista com as de outros es-
com os territórios vizinhos. Tanto quanto posso ver, a visualização pecialistas. Essa multiplicidade de pontos de vista é fundamental
desses territórios nos ajuda a compreender de que teorias esses para que o.pesquisador não fique, ~e saída, fixado em um modo
territórios dependem para existir cientificamente. Justo por isso, de ver, em um único tipo de fundamentação te órica, mas que saiba
procurei também inserir no mapa as teorias que são próprias a fazer uso da riqueza dessa fase preparatória para explorar a diversi-
cada território. dade que é própria a qualquer uma das áreas das ciências humanas.
Com uma visão relativamente clara da área de inserção de seu Vale enfatizar que todo o esforço dispendidonos estudos'preli-
tema, é preciso que o pesquisador vá para a biblioteca ler sobre o minares se volta produtivamente para a clarificação gradativa do
assunto. Vale notar que biblioteca quer dizer tudo que se pode tema, rumo à definição de uma questão, de urn problema a ser
encontrar nela: enciclopédias, livros, periódicos especializados, pesquisado. Contudo, o segredo dos estudos preliminares está na
que são fundamentais sob o ponto de vista da atualização sobre o arte 'do pesquisador para saber exatamente o momento em que
tema, catálogos, teses e dissertações, jornais, vídeos, isso sem deve interrompê-los. A massa de literatura existente desdobra-se
mencionar o acesso a bancos de dados que hoje se pode ter a par- infinitamente. Dela Jorge L. Borges já nos forneceu uma versão
tir dos computadores localizados nas bibliotecas ou em nossas criadora na sua Biblioteca de Babel. Os estudos preliminares de-
próprias casas. O contato com esse acervo é fundamental não ape- vem, portanto, cercar as obras mais fundamentais, tendo em vista
nas para buscar subsídios que orientem e dêem mais segurança um panorama de fundo que habilite o pesquisador a situar sua
sobre a escolha do tema, mas que ajudem a formular o seu enun- questão para poder melhor defini-Ia. Essa arte de saber onde parar
ciado. De resto, também para saber se o assunto que se pretende é, nesse caso, auxiliada pelo fato de que a pesquisa bibliográfica
estudar já foi objeto de outras pesquisas e sob que ângulos essas não se reduz a isso, além de que essa pesquisa preliminar deverá
pesquisas o enfocaram. depois ser incorporada ao projeto junto com sua complementação
É certo que as leituras tomam muito do nosso tempo', mas, na em um tópico sob o título de "Revisão bibliográfica" ou "Estado
realidade, elas ajudam a diminuir o tempo estéril das idéias con- da questão", conforme será melhor definido no momento oportuno.
fusas e pouco definidas que são sempre motivos de angústia para
o pesquisador. 3.1 O PRÉ-PROJETO
Segundo Bastos (1999: 19-20), o levantamento bibliográfico
preliminar é imprescindível. Antes de tomarmos qualquer decisão Pouco a pouco, dos estudos preliminares um problema de pes-
sobre a nossa pesquisa, precisamos ter o maior número de infor- quisa começa a se delinear. A partir disso, o pesquisador deve
mações e de leituras que são possíveis nessa etapa de desenvolvi- criar coragem e, apesar de o momento ainda lhe parecer precoce,
mento do projeto, não só para melhor delimitar o assunto, " mas ensaiar a elaboração
!
de um pré-projeto. Embora tudo pareça ain-
também para desenvolvê-lo longe de um ponto de vista do senso da muito vago, é preciso aproveitar as incertezas iniciais para de-
comum". Juntamente-com o acesso a material bibliográfico, Bas- las extrair seu sumo. O lusco-fusco da imprecisão é propício para
tos considera a necessidade de diálogo com especialistas para dis- despertar aquilo que Peirce chamou de uberty, "uberdade", isto é,
cutir e aprimorar o tema escolhido, confrontando sempre que possí- capacidade de responder criativamente aos estím~.los que nos che-
162 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 163

gam tanto do exterior quanto, principalmente, do interior de nossa tões que dizem respeito a pesquisas não-experimentais e não-quan-
mente. Passeando vivamente pelas idéias e contemplando-as com titativas, pois para as experimentais e quantitativas já existe um
interesse desprendido, o pensamento fica entregue ao musement, abundante material bibliográfico (ver especialmente a extensa obra
estado de concentração distraída, condição para a "uberdade" (ver de Laville e Dione, 1999, as competentes obras de Lakatos e
SEBEOK et al., 1993). É em momentos como esse que, via de Marconi (1982a, 1982b e 1992) ou a mais breve, mas não menos
regra, brotam as hipóteses que irão conduzira pesquisa. Tanto excelente obra de Rudio, 1992). Uma vez que os manuais de ori-
isso é verdade que nunca somos capazes de explicar como chega- entação para as pesquisas quantitativas se detêm muito pouco nas
mos às hipóteses. Elas parecem estar simplesmente lá, à nossa questões que têm mais peso nas pesquisas qualitati vas, tais como

•• espera.:De fato, de acordo com a teoria peirceana da abdução,


hipóteses são frutos de uma espécie de adivinhação, capacidade
de que o ser humano é dotado para adivinhar os desígnios das
estado da questão, quadro teórico de referência, discussão das
estratégias metodológicas não-quantitativas e suas justificativas,
é para elas que estarei chamando mais atenção.
coisas, tanto quanto o pássaro é dotado do poder voador.
Parece evidente que a "uberdade" só premia aqueles que bus- 4.1. Os ANTECEDENTES
cam. A mente só pode passear entre idéias, quando nela as idéias
são férteis, caso contrário temos de nos contentar com idéias fi- Muitas vezes o pesquisador se sente tímido em se mostrar pre-
xas, que são o lado do avesso da "uberdade". Vem daí uma outra sente no seu discurso. Realmente, não é fácil encontrar o ponto
boa razão para justificar a necessidade dos estudos preliminares. certo e justo da enunciação de um discurso cien~ífico em que a
O anteprojeto é assim uma primeira proposta de sistematização pessoalidade não caia, de um lado, na mera confissão subjetiva
para ser testada, modificada e aperfeiçoada na medida em que a adocicada e enjoativa ou, de outro, no pedantismo de uma neutra-
delimitação da questão a ser pesquisada for amadurecendo. Trata- lidade forçada e artificial. De todo modo, buscando evitar esses

•• se de um ponto de partida que brota sob efeito do pensamento sin-


tético, onde tudo aparece ao mesmo tempo. Realmente, um proje-
to não nasce parte por parte, mas em alguns lampejos em que tudo
dois extremos, há um momento inicial na abertura de um projeto
de pesquisa em que a figura do pesquisador deve aparecer. Cha-
mo esse momento de "antecedentes" ou "histórico" para com isso
aparece junto e ainda confuso. O anteprojeto é a primeira tentati- designar o quadro de referência pessoal da proposta de pesquisa.

• va de organizar os fios dessa trama sintética. Para essa organização,


juntamente com os resultados das correções sucessivas a que o ante-
projeto vai sendo submetido, deve entrar em ação o pensamento ana-
A presença desse quadro de referência é muito comum nos
casos das pesquisas que brotam diretamente de pesquisas anterio-
res, o que pode acontecer, por exemplo, quando o pesquisador
lítico, aquele que guiará os passos da elaboração do projeto. decide continuar no doutorado com uma questão que não foi pos-
e sível desenvolver ou aprofundar no mestrado. Para introduzir um

•• 4. A ELABORAÇÃO DO PROJETO novo projeto, o pesquisado,r procede ao breve relato das conclu-
sões ou resultados alcançados na pesquisa anterior, com atenção

•• No detalhamento dos passos a serem dados para a elaboração


do projeto de pesquisa, irei me deter com mais demora em ques-
para o ponto em que sua atenção foi despertada para uma nova
questão. Nesse momento, o relato inclui obrigatoriamente o qua-
164 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella : 165

dro de referência pessoal, quer dizer, em que medida o pesquisa- "depende daquilo que dispomos no fundo de nós mesmos: conheci-
dor está implicado naquilo que deseja realizar. mentos de diversas ordens- brutos e construídos - e entre esses
Mesmo no caso de uma pesquisa não estar na linha de conti- conceitos e teorias; conhecimentos que ganham sentido em função
nuidade de uma outra já realizada pelo pesquisador, o interesse de valores ativados por outros valores: curiosidade, ceticismo, con-
por um assunto, um tema ou uma questão não surge do vácuo. Ele fiança no procedimento científico e consciência dos seus limites."
é fruto de uma história de vida, de experiências profissionais, in-
telectuais, construídas mediante caminhos próprios, dos valores e Na fase de definição do problema, entretanto, como já foi dis-
escolhas que nos definem. Tem-se aí a gênese do tema da pesqui- cutido e também querem os autores, as capacidades intuitivas ga-
sa cujas vicissitudes já foram discutidas acima. Trata-se agora, no nham importância, pois a percepção inicial de um problema é, o
momento de elaboração do projeto, de incorporar em um relato mais das vezes, pouco racional.
aquilo que, dessas vicissitudes, tem pertinência para a apresenta- Para se sair da problemática sentida, imprecisa e vaga e se
ção do tema e daquilo que conduziu à sua escolha. chegar a uma problemática consciente e objetivada, uma proble-
Embora não compareça em outros livros de metodologia como mática racional, Laville e DioneIibid.: 98) aconselham o pesqui-'
um passo necessário à elaboração de um projeto de pesquisa, consi- sador "a jogar o mais possível de Iuz sobre as origens do proble-
dero essa apresentação muito importante. Afinal, nós pesquisado-
res somos seres viventes. A pesquisa não é algo estranho, à mar-
gem de nossa história de vida, mas nela se integra de maneira in-
ma e as interrogações iniciais que concernem a ele, sobre a sua
natureza e sobre as vantagens que se teria em resolvê-lo, sobre o
que se pode prever como solução e sobre o modo de aí chegar".

dissolúvel.Quando bem dosado, evitando o mero biografismo ino- Rudio (ibid.: 72) fornece uma exemplificação muito oportuna
portuno, o relato de como o pesquisador chegou ao tema pode dar para se compreender a passagem gradativa em que um tema ainda
sabor de vida ao projeto. Além disso, ao incorporar aquilo que vago vai sendo delimitado de modo a ir se transformando em um
realmente importa, isto é, como foi se dando o estreitamente gra- problema de pesquisa. Suponhamos que alguém diga que quer fazer
dativo da amplitude do tema para a delimitação do problerna da uma pesquisa sobre delinqüência juvenil, essa afirmação apenas
pesquisa, o quadro de referência pessoal vai pouco a pouco se indica de modo muito vago e geral um dos elementos do campo
encaminhando para o tópico seguinte, o mais importante do pro- de observação: a população. Mas se acrescenta que seu interesse
jeto, ou seja, a delimitação da questão proposta pela pesquisa. está nos crimes cometidos pelos delinqüentes, passa a nos indicar,
então, uma das variáveis a serem observadas. Se complementa
que deseja saber se certos crimes que os delinqüentes cometem
4.2. A DEFINIÇÃO DO PROBLEMA são ocasionados pelo efeito do uso de tóxicos, tem-se aí a inten-
. ção de relacionar duas variáveis: se o uso de tóxicos (variável
Para Laville e Dionne (1999: 27), conscientizar-se de um pro- independente) ocasiona os crimes (variável dependente), cometi-
blema de pesquisa dos por delinqüentes juvenis. É claro que a delimitação da ques-
tão não pára aí, pois há outros elementos no campo de observação
a serem levados em consideração. De todo modo, quando apare-
166 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 167

•• cem as duas variáveis, a amplitude do tema já se especificou em


uma pergunta, que é substancial para a definição de um problema.
Enfim, como parece óbvio, para se passar do tema ao problema, o
permitir o detalhamento do projeto. Além disso, a formulação deve
ser clara e precisa. Essa clareza se constitui em passo fundamen-
tal, pois dela dependerão os passos subseqüentes do projeto, so-
tema deve ser problematizado. bretudo a formulação das hipóteses e a obtenção de parâmetros
O que é, portanto, um problema de pesquisa? Vejamos algu- para as escolhas metodológicas. A pergunta deve também ser sig-
mas das definições que já foram formuladas sobre isso. Não há nificativa, deve conter a promessa de que uma solução pode ser
problema sem uma indagação central, uma dificuldade que se quer esperada, caso contrário não haveria razão para se fazer uma pes-

•• resolver. Desse modo, o problema de pesquisa é uma interrogação


que implica em uma dificuldade não só em termos teóricos ou
práticos, mas que seja também capaz de sugerir uma discussão
quisa. O problema deve ser, além disso', viável, exequível, quer
dizer, ele pode ser objetivamente verificado. Em suma, formular

•• que pode, inclusive, em alguns casos, passar por um processo de


mensuração, para terminar em uma solução viável através de es-
um problema, segundo Rudio (ibid.: 75),

"consiste em dizer, de maneira explícita, clara, compreensível e

•_I tudo sistematizado (BASTOS, 1999: 114). Do ponto de vista for-


mal, um problema é um enunciado interrogativo. Semanticamen-
operacional, qual a dificuld~d~~om a qual nos defrontamos e
pretendemos resolver, limitando seu campo e apresentando suas ca-
~ue

•,
e
te, é uma dificuldade ainda sem solução que deve ser determinada
com precisão para que se possa realizar seu exame, avaliação,
racterísticas. Dessa forma, o objetivo da formulaç~o do problema da
pesquisa é torná-lo individualizado, específico, inconfundível".

~
• crítica, tendo em vista sua solução (ASTI VERA, 1974: 94).
Certamente nem todos os problemas que existem podem se Cumpre lembrar aqui que o pesquisador não deve passar para

•e prestar à pesquisa científica. Para ser problema de pesquisa, ele


deve ser um problema que se pode resolver, com conhecimentos e
a próxima etapa do projeto, a revisão da literatura,' antes de ter
circunscrito muito bem seu problema através da formulação de

•• dados já disponíveis, além de outros passíveis de serem produzi-


dos. Não se trata de um problema que pode ser resolvido pela
sua pergunta. Sem isso, correrá o risco de se deixar levar à deriva
nas inesgotáveis fontes de pesquisa. Para avançar com eficácia


intuição, especulação ou senso comum, pois um problema de pes- nos passos do projeto, é preciso saber bem o que se procura. Só
quisa "supõe que informações suplementares podem ser obtidas a com esse trunfo nas mãos, o pesquisador pode mergulhar nas lei-
fim de cercá-lo, compreendê-lo, resolvê-lo ou eventualmente con- turas e consultas, o que não significa que, no percurso, estas não
•• tribuir para a sua resolução". Finalmente, um verdadeiro proble-
ma de pesquisa deve ser capaz 'd e produzir compreensão que for-
possam produzir reorientações no problema.

e neça novos conhecimentos para o tratamento de questões a ele 4.3 O "ESTADO DA QUESTÃO
e relacionadas (LAVILLE e DIONNE, 1999: 87-88).

•• As conclusões pragmáticas que podem ser extraídas das defi-


nições acima indicam que um problema deve ser for~uladocomo
Também chamado de "revisão bibliográfica" ou "bibliografia
'comentada" , este passo da elaboração do projeto já teve seu iní-

•• uma pergunta. Há, no entanto, perguntas e perguntas. Indagações


gerais, tão gerais quanto o próprio tema, estão muito longe de
cio nos estudos preliminares. Neste novo momento, entretanto,
uma vez circunscrito o problema com clareza necessária para fun-


•.1
'.
168 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 169

e•\
cionar como um fio condutor e ajudar o pesquisador a dar prosse- Por isso mesmo, .a leyis~9 bibliográfica significa, muitas ve-
guimento ao seu projeto, o contorno da revisão bibliográfica tor- zes, conforme as palavras deLaville e Dionne (ibid.: 1~3) "seguir
na-se também mais nítido. a informação como um detetive procura pistas: com imaginação e
O conhecimento se dá elTI UITI continuum. As interpretações obstinação. É,aliás, esseaspecto do trabalho, agir como um dete- e~
que fazemos das coisas, fatos e pessoas estão sempre a meio ca-
minho, têm algo de provisório. Essa é a regra número um · que se
pode extrair da noção de semiose peirceana. As crenças que ad-
tive, que, com freqüência, torna prazerosa a realização da revisão
da literatura""
Alongo-me tanto - e ITIe alongarei ainda mais - nos meandros .'.•1

quirirnos através da ciência não são muito diferentes. Nada há
nelas de eternidade. Também ria pesquisa científica, estamos sem-
pre a meio caminho. E só deixamos de estar quando cessamos de
da questão bibliográfica, em primeiro lugar, porque nas pesquisas
não-experimentais e não-quantitativas, essa é a etapa que lhes dá
alma. Dela advirá a melhor escolha de urna teoria ou sínteses de .'••
.;
ter dúvidas porque perdemos a disponibilidade para ouvir o que o teorias e conceitos que nortearão a escolha .do método e, conse-
outro tem a dizer. 'E m suma, nenhuma pesquisa parte da estaca qüentemente, o teste, muitas vezes argurnentativo, de nossas hi-
zero. Mesmo e~ um tipo muito simples de pesquisá, a explorató- póteses . Se não vamos utilizar métodos e técnicas para medir um
eJ

.''.'.
ria, que visa meramente à avaliação de uma situação concreta des- certo aspecto bem recortado da realidade, devemos, em troca, en-
.~
conhecida, alguém em algum lugarjá deve ter tido uma preocupa- frentar os desafios da imprecisão qualitativa. Para isso, temos de
ção semelhante. Por isso, a procura cuidadosa e paciente, por ve- nos valer da ajuda tanto quanto possível alargada do pensamento
zes até mesmo obstinada, de fontes documentais ou bibliográficas do outro a que podemos ter acesso.
é i mprescindível. Em segundo lugar, chamo tanta atenção para a pesquisa biblio-
Raros são os problemas e as perguntas que não foram previa-
mente levantados. Mais uma vez é Borges quem nos lembra que
gráfica porque a típica indigência das. bibliotecas nas universida-
des brasileiras muitas vezes acaba por criar em nós uma espécie .J
~'

-'
os grandes problemas já foram pensados pelos gregos, ' de modo de autodefesa inconsciente que se manifesta na negl igênciae até
. ,1
.'••
que a proeza dotempo é a de levar o ser humano a incansavelmen- mesmo no desprezo pela obstinação na perseguição das fontes',
te recolocá-los .sob novas e mais alargadas entonações , Mesmo Disso decorre,via de regra, uma autocomplacência muito satis-
quando o pesquisador não vai tão longe, não se deslocando muito feita, despida de inquietação, como são satisfeitas todas as formas
na di reção do passado, a abóbada ideati va que recobre as socieda- de ignorância. Tanto se sedimentou em nosso país a cultura da


.'•
des e culturas históricas, determinando os limiares daquilo que dá negligência com as fontes que, mesmo quando têm o privil égio de
para ser pensado em cada momento histórico dado, traz corno frequentar universidades com boas biblic?tecas e com ac~sso à in-
conseqüência que, ITIeSITIO que as perspectivas possam diferir, as . formação bibliográfica, que hoje se t~rnoL1 tão facilitada pela
interrogações e questionamentos de cada historicidade acabam não internet, os estudantes continuam se contentando com bem pouco. ,~

sendo a rigor muito distintos . Há, enfim, um inegável Zeitg eist; Enfim, fazer a revisão da li teratura p~ra a consti tuição do 'es ta -
espírito de tempo, ou aquilo que, com muito mais precisão, Fou-
cault chamaria de episterne, que coloca o pesquisador ernum cfr-
culo de questões no qual muitos estão simultaneamente inseridos.
....
do da questão significa passarem revista todos os trabalhos dis-
poníveis, objetivando selecionar tudo que possa servir em urna
pesquisa. Nela, o pesquisador tenta encontraressencialmente .'.••:
e\
170 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 171

• "os saberes e as pesquisas relacionadas com a sua questão; deles se estado da arte relativo à questão que estamos pesquisando, geral-


serve para alimentar seus conhecimentos, afinarsuas perspectivas mente dispomos de um certo número de títulos colhidos durante a
teóricas, precisar e objetivar seu aparelho conceitual. Aproveita para fase de estudos preliminares. Cada um desses títulos já funciona
tornar ainda mais conscientes e articuladas suas intenções e, desse como uma fonte para novos títulos , nas citações e. referências que
modo , vendo como os outros procederam em suas pesquisas, vislum- faz, de modo que a listagem bibliográfica que consta no final de
brar sua própria maneira de fazê-lo" (LAVILLE e DIONNE, ibid.: 112). cada obra se constitui também em uma forite inestimável de pes-
quisa. Quando lemos, de fato, os livros com cuidado, essa fonte

•• Nesse ponto, as autoras acima alertam para dois fatores: em


primeiro lugar, o cuidado que o pesquisador deve ter nessa etapa
costuma ser bastante preciosa, pois é dela que começamos a des-
tacar os títulos de maior interesse para nós .

•• do trabalho para "não se deixar levar por suas leituras como um


cata-vento ao vento". A indagação que foi formulada na circuns-
Conforme vamos avançando nessas leituras e na coleta dessas
fontes, a um dado momento, sentimo-nos, de fato, perdidos em

•• crição de seu problema não pode ser perdida de vista e deve fun-
cionar como um centro de gravidade. No fundo, o que deve ser
um labirinto, sem vislumbre de qualquer fio que possa rios tirar
dele. Entretanto, se não desistirmos antes da hora, chegará um ou-

e•
feito aqui é considerar a afirmação de Borges (esse grande esteta tro momento em que nós, como leitores, começaremos a reconhe-
da arte de ler) de que somos inelutavelmente leitores distraídos cer e, inclusive saber localizar, em termos de linha de pensamento
com atenções parciais. No caso da revisão bibliográfica, aceitar

•·
e posição teórica, as citações que os autores fazem uns dos outros.
essa limitação não é tarefa fácil , especialmente quando falta ao Quando as redes de referências começam a ser reconhecidas por
e pesquisador a experiência de numerosas leituras anteriores, expe- nós, isso significa que já estamos conseguindo desenhar mental-

•e riência da qual sempre se extrai urna espécie de metodologia pró-


pria da leitura.
mente a configuração panorâmica de um tema ou problema de
pesquisa. Aí é chegado o momento de interromper o estado da ar-

•• Na ausência de um repertório já formado de leituras, o pesqui-


sador, via de regra; se vê perdido em um labirinto de idéias, ten-
dências e posições, sem conseguir, de imediato, dar a elas uma
te para dar prosseguimento às outras fases da elaboração do proje-
to, de modo que só voltamos às consultas bibliográficas, quando,
na execução da pesquisa, deparamo-nos com dúvidas não previstas e
configuração coerente. Quando isso acontece, Laville e Dionne conseqüentemente ainda não resolvidas, algo que sempre acontece.


e
(ibid.: 112) aconselham o pesquisador a usar a técnica do zoam,
partindo "de uma tomada ampla de sua pergunta, sobre um espaço
O segundo fator da revisão bibliográfica para o qual Laville e
Dione (ibid.: 112-113) chamaram atenção diz respeito à necessi-

•e documental que a ultrapasse grandemente, mas sem dela desviar dade de se evitar que essa atividade se assemelhe a "uma cami-
os olhos e, assim que possível, fechar progressivamente o ângulo nhada no campo onde se faz um buquê com todas as flores que se
da objetiva sobre ela". encontra". A revisão é, sobretudo, um percurso crítico que deve

•• De minha experiência em pesquisas que realizei, algumas de-


Ias sobre temas que me eram quase inteiramente novos, extrai um
ter em mira a pergunta que se quer responder. Por isso mesmo, em
função da contribuição que podem trazer para nosso trabalho, o

•• ensinamento que talvez possa ajudar o pesquisador iniciante nes-


sa fase de seu trabalho. Quando damos início ao levantamento do
interesse que as obras despertam em nós são desiguais. Ademais,
nem tudo que se lê é realmente bom. paí vem a outra expressão


,...-------------------------------------tr
172 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 173

sinonímica de revisão bibliográfica, "bibliografia comentada". Não quadro de referência teórico de uma pesquisa junto ou dando se-
se trata portanto de simplesmente resumir, parafraseando o que qüência à revisão bibliográfica. Prefiro colocar ajustificativa logo
está escrito nos livros, mas sim de fazer considerações, interpreta- em seguida da revisão bibliográfica. De um lado, porque julgo
ções e escolhas, explicando e justificando essas escolhas, sempre que a fundamentação teórica deve vir imediatamente antes da meto-
em função do problema posto pela pesquisa. dologia, pois, nas pesquisas qualitativas, em muitos casos, o mé-
Felizmente não há receitas a serem dadas para a bibliografia todo deriva ou de uma teoria que funciona também como um mo-
comentada, sobretudo porque se trata de uma arte ensaística que delo aplicativo ou da operacionalização dos conceitos teóricos
só pode ser dominada com a prática e com a observação interessa- tendo em vista sua aplicação.
da em como ensaistas competentes a realizam. Em segundo lugar, De outro lado, porque, no decorrer da bibliografia comentada,
porque as diretrizes de uma revisão bibliográfica dependem mui- ao citar as principais conclusões a que outros autores chegaram,
to do tipo de pesquisa que está sendo realizada. Luna destaca que ao indicar discrepâncias entre tendências ou constatar certos en-
traves teóricos ou práticos, ao constatar alguma lacuna que sua
"uma revisão bibliográfica que procure recuperar a evolução de de- pesquisa pode vir a preencher, .o pesquisador já deve ir ~onduzin­
terminados conceitos enfatizará aspectos muito diferentes daqueles do seu texto na direção da contribuição que se espera da pesquisa
contemplados em um trabalho de revisão que tenha como objetivo, a ser realizada.
por exemplo, familiarizar o pesquisador com o que já foi investiga- Essa contribuição constitui-se em uma chave que abre as por-
do sobre um determinado problema de interesse". tas de acesso à justificativa, uma vez que, frente aos estudos já
realizados sobre o problema, a justificativa visa colocar em rele-
Como resumo final, cumpre assinalar que a revisão bibliográ- vo a importância da pesquisa proposta, quer no campo da teoria
fica deve existir para que clichês sejam evitados, para que esfor- quer no da prática, para a área de conhecimento em que a pesqui-
ços não sejam duplicados, para que se possa apreender o grau de sa se desen vol ve.
originalidade de uma pesquisa. Outro aspecto de relevância de Portanto, a contribuição pode ser de 'ordem científica-teórica,
uma bibliografia comentada, muito bem lembrado por Luna (ibid.: quando o conhecimento que advirá da pesquisa proporcionar a constru-
82), reside na sua constituição - na medida em que condensa os ção de uma nova teoria, caso este evidentemente mais raro, ou auxi-
pontos importantes do problema em questão - tanto de fonte de liar na amplicação do conhecimento teórico já existente, ou preen-
consulta para futuros pesquisadores que se iniciam na área, quan- cher lacunas detectadas no conhecimento da área, ou ajudar na com-
to de fon te de atualização para pesquisadores fora da área na qual preensão de conceitos teóricos complexos. Mas a contribuição pode
. se realiza o estudo. também ser de ordem científica-prática, quando se pretende dar res-
postas a um aspecto novo que a realidade apresenta como fruto do
4.4 A APRESENTAÇÃO DAS JUSTIFICATIVAS ?esenvolvimento das forças produtivas, técnicas etc., ou quando
se busca aplicar uma teoria a um dado fenômeno julgado proble-
Nos passos para a elaboração de um projeto de pesquisa, mui- mático, ou ainda quando se tem a intenção de sugerir caminhos
tos metodólogos costumam colocar a fundamentação teórica ou para uma determinada aplicação tecnológica e assim por diante.
174 Comunicação (, Pesquisa Lucia Santaella 175

• A contribuição pode ainda ser de ordem social, por exemplo,


quando o conhecimento que resultar da pesquisa estiver voltado
tidos ou mente. O derivativo "ivo", presente em "objetivo", indi-
ca uma tendência para ter o caráter de objeto.
para a reflexão e debate em torno de problemas sociais ou quando Um sinônimo adequado para a palavra "objetivo", no contex-
um conhecimento prático é buscado como meio de intervenção na to de uma pesquisa, é a palavra "alvo" ou fim que se pretende
realidade social. atingir, um fim movido por um propósito. Quando se atira uma

•• Parece óbvio que é impossível apresentar justificativas sem


dispor de um problema de pesquisa muito bem circunscrito e de
flecha, mira-se em um alvo. Os objetivos da pesquisa se parecem,
portanto, com uma flecha na direção de um alvo. Uma vez que o

•• uma revisão bibliográfica caprichosa. Como justificar algo que


não está bem definido e bem recortado contra o pano de fundo
mirar do alvo antecede o lançamento da flecha, os objetivos tam-
bém trazem dentro de si o sentido de intenção que guia a mirada.

•• dos estudos que já foram realizados no mesmo circuito de ques-


tões no .qual uma pesquisa se insere?
Enfim, a justificativa deve apresentar os elementos que res-
O que a pesquisa visa alcançar? Esta é a questão central inclusa
nos objetivos.
Objetivos, via de regra, são hierarquicamente divididos em
•• pondem às questões: "por que a pesquisa é relevante"?, "de onde
vem sua pertinência"? "qual é o âmbito ou quais são os âmbitos
objetivos gerais e objetivos _específicos. Os gerais dizem respeito
a uma visão global e abrangente do problema, do conteúdointrín-

•e da contribuição que ela trará"? Para respondê-las, Lakatos e


Marconi (1~92: 103) fornecem o seguinte roteiro: frente ao está-
seco quer dos fenômenos e eventos, quer das idéias estudadas. Os
objetivos específicos têm uma função intermediária e instrumen-

•e gio em que a teoria se encontra, indicar as contribuições teóricas


que a pesquisa pode trazer, a saber: em termos de confirmação
tal de modo a permitir que o objetivo geral seja atingido ou que
ele seja aplicado a situações particulares (LAKATOS e MAR-

•e geral; em termos de confirmação na sociedade particular em que


se insere a pesquisa; sua especificação para casos particulares;
CONI, 1992: 103).
Por ser uma explicitação da natureza do trabalho, tendo em

•• clarificação da teoria; resolução de pontos obscuros etc. Além


disso, o roteiro inclui: importância do tema de um ponto de vista
geral; sua importância para casos particulares em questão; possi-
vista o problema que ele visa resolver, a gama dos objetivos pode
ser mais extensa do que sua divisão em objetivo geral e objetivos
específicos. Assim, os objetivos podem também ser de longo pra-
bilidades de sugerir modificações no âmbito da realidade abarcada zo ou imediatos, podem ser intrínsecos, quando se referem ao pro-
pelo tema proposto; descoberta de soluções para casos gerais e/ blema que se quer resolver, ou extrínsecos, quando chegam até a

•• ou particulares etc.
A apresentação da contribuição que a pesquisa pode trazer é uma
explicitação dos resultados esperados.
É curioso observar que a maior parte dos livros sobre metodolo-


e
excelente ponte de passagem para a explicitação de seus objetivos. gia científica não reserva muito espaço para o tratamento dos ob-
jetivos. Carvalho et aI. (2000: 107) nos explicam que essa ausên-

•• ·4.5 A EXPLICITAÇÃO DOS OBJETIVOS cia deve se dar porque se a formulação do problema for bem
estruturada, a explicitação dos objetivos é dispensável, a não ser

•• A palavra "objetivo" é um derivativo do termo latino objectus,


"objeto", que significa algo que é lançado diante dos nossos sen-
que o pesquisador queira colocar ênfase nos resultados que pre-
tende alcançar ao final de seu trabalho. De todo modo ," os autores

• ;
176 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 177

indicam que, na descrição dos objetivos, "é importante que os seu percurso, a pesquisa buscará respostas. Ora, a hipótese é uma
verbos sejam utilizados no infinitivo, por exemplo: analisar, com- resposta antecipada, suposta, provável e provisória que o pesqui-
preender, identificar e interpretar. sador lança e que funcionará como guia ,para os passos subse-
Luna (ibid.: 35) constata a confusão que costuma existir entre qüentes do projeto e do percurso da pesquisa. Se o problema tem
problema e objetivos, mas acredita que o bom-senso deva ser su- uma forma interrogativa, a hipótese tem uma forma afirmativa.
ficiente para dirimir dúvidas. Assim sendo, ou os objetivos coin- Não se trata, entretanto, de uma afirmação indubitável, mas ape-
cidem com o problema e, então, não é necessário dar entrada a nas provável. Funciona como uma aposta do pesquisador de que a
eles no projeto, ou, com a sua entrada, pretende-se chamar aten- resposta a que o desenvolvimento da pesquisa levará será a mes~
ção para a aplicabilidade dos resultados. ma ou estará muito perto da resposta enunciada na hipótese. Ela
Mesmo assim, é bom lembrar que, quando elaboramos proje- cria, por isso mesmo, uma expectativa na mente do pesquisador,
tos para agências de fomento ou para orientadores de pesquisa, expectati va esta que costuma dar ao percurso da pesquisa emo-
nesses casos somos obrigados a inserir os objetivos em nosso pro- ções similares àquelas que nos acompanham em uma situação de
jeto; muito provavelmente porque a explicitação dos objetivos nos suspense, pois como toda aposta, a hipótese pode ser confirmada
força a sintetizar, em itens muito claros, o horizonte do projeto, os ou cair no vazio, caso em quea hipótese tem de ser repensada e as
fios que ligam o problema às conseqüências que resultarão de sua estratégias reconduzidas.
possível solução, assim como as habilidades intelectuais que estão Trata-se, pois, de uma suposição objetiva "que se faz na tenta-
implicadas nos procedimentos que serão utilizados para que "os tiva de explicar o que se desconhece". Para ter bases sólidas, ela
fins pretendidos sejam alcançados. deve estar assentada e suportada por boas teorias e "por matérias
primas consistentes da realidade observável". Portanto, "não pode
4.6 A FORMULAÇÃO DAS HIPÓTESES ter fundamento incerto". Mas por ter a natureza de uma suposi-
ção, a hipótese tem por característica o fato de ser provisória, de-
A hipótese, segundo passo mais importante na hierarquia dos vendo, portanto, ser testada para se verificar sua validade"
itens do projeto, está ligada por um cordão umbilical ao problema (RUDIO, ibid.: 78).
da pesquisa. Deve, por isso mesmo, ser obrigatoriamente inserida Embora seja importante que a hipótese esteja vinculada "a uma
em um projeto de pesquisa. Não vem do acaso, mas muito justa- teoria que a sustente para ter maior poder de explicação e ter pos-
mente da importância do papel que as hipóteses desempenham sibilidade de ser comprovada ou verificada na pesquisa" (CAR-
em um projeto, o grande espaço que os livros de metodologia VALHO et al.: ibid.: 103), embora ela tenha muito a ver com a
científica dedicam a elas. Alguns epistemólogos chegam a afir- experiência e a competência do pesquisador, embora sua formula-
mar que a essência da pesquisa consiste apenas em enunciar e ção implique em uma elaboração racional, uma hipótese surge
verificar hipóteses. sempre como um lampejo cuja formação escapa completamente
O problema que o pesquisador circunscreveu, isto é, conse- " de nosso controle consciente.
guiu recortar de um fundo temático muito amplo, tem a forma de Peirce"desenvolveu sua belíssima teoria da abdução justamen-
uma indagação, uma interrogação, uma pergunta para a qual, no te para evidenciar que uma hipótese nasce como fruto de uma luz
..--- -


•• 178 Comunicação ti Pesquisa

natural que advém da capacidade humana para adivinhar, na ciên-


Lucia Santael!a 179

••
para que buscamos respostas. Entretanto, no contexto da ciência,
cia, as leis que regulam os fenômenos e, na vida cotidiana, as veias que é sempre especializado, podem surgir dificuldades para se
secretas das coisas. Nessa capacidade, residem os arcanos de nos- chegar a uma hipótese. Goode e Hatt (1968: 75) dizem que isso se
•e sa alma criativa. Por isso mesmo, nenhum pesquisador é obrigado
ajustificar por que fez a opção por uma certa hipótese e não outra
dá sobretudo quando falta ao pesquisador um quadro de referên-
cia teórico claro, quando lhe falta também habilidade para utilizar

•• qualquer. Cada um é livre para escolher a que lhe parece mais


razoável. Uma vez que a freqüência com que os pesquisadores
logicamente esse esquema teórico ou quando ele desconhece as
técnicas de pesquisa existentes.

•• atinam com a hipótese correta é muito grande comparativamente


à espontaneidade imediata e livre com que as hipóteses irrompem
Mesmo que as dificuldades acima não existam e a hipótese
emerja com certa rapidez, isso não deve nos levar a crer que a

•• em suas mentes, isso funciona como indicador de que aí se locali-


za a fonte do poder humano para a descoberta. Mesmo assim, uma
hipótese possa prescindir do crivo de nosso espírito crítico e a sua
formulação, ou seja, o enunciado das hipóteses, tenha de ser

••
hipótese é o mais frágil dos argumentos. Em razão disso, para desordenada e confusa. Para evitar que se incorra nesses defeitos,
receber seu veredito, necessita passar pelo teste da experiência. Rudio (ibid.: 80-83) elaborou alguns critérios que podem servir
Segundo Lakatos e Marconi (1992: 104), há diferentes formas

••
como "balizas demarcando um campo", sem que, com isso, a li-
de hipóteses. Em primeiro lugar, elas se dividem em hipótese bá- berdade do pesquisador na proposta de sua hipótese seja cons-
sica e hipóteses secundárias. A primeira corresponde à resposta trangida.

e• fundamental que as segundas complementam. Entre as hipóteses


básicas , há aquelas "que afirmam, em dada situação, a presença
ou ausência de certos fenômenos", ou aquelas "que se referem à
Assim sendo, cabe à hipótese ser plausível, isto é, "deve indi-
car uma situação passível de ser admitida, de ser aceita; ela deve
também ter consistência, termo este que indica que o enunciado
e natureza ou características de dados fenômenos, em uma situação da hipótese não pode estar "em contradição nem com a teoria e

•• específica". Há ainda "aquelas que apontam a existência ou não


de determinadas relações entre fenômenos" ou também aquelas
"que prevêem variação concomitante, direta ou inversa, entre cer-
nem com o conhecimento científico mais amplo", do mesmo modo
que não pode existir contradição dentro do próprio enunciado; o
enunciado da hipótese deve ainda "ser especificado, dando as ca-
tos fenômenos etc. racterísticas para identificar o que deve ser observado"; além dis-
Na sua natureza de complementos da hipótese básica, as secun- so,"a hipótese deve ser verificável pelos processos científicos"


dárias podem "abarcar em detalhes o que a hipótese básica afirma em curso; seu enunciado precisa ser claro, isto é, "constituído por
em geral", podem também "englobar aspectos não especificados termos que ajudem realmente a compreender o que se pretende
na básica", ou ainda "indicar relações ·deduzidas das primeiras", . afirmar e indiquem, de modo denotativo, os fenômenos a que se
assim como "decompor em pormenores a afirmação geral" ou

••
referem"; não basta ser claro, o enunciado precisa ser também
"apontar outras relações possíveis de serem encontradas". simples, quer dizer, "ter todos os termos e somente os termos que
O modo de aparecimento de uma hipótese em nossas mentes são necessários à compreensão"; da simplicidade decorre que o

•• é, via de regra, tão repentino quanto um relâmpago, fruto da agili-


dade natural de nossos poderes de iluminação diante de tudo aquilo
enunciado deve ser também econômico, ou seja, além de utilizar
tão somente os termos necessários à compreensão, deve fazê-lo


.-
180 Comunicação [, Pesquisa

na menor quantidade possível. Por fim, "uma das finalidades bási-


Lucia Santaella 181

causalidade ou pode ainda ter duas ou mais variáveis relacionadas



cas de uma hipótese é servir de explicação para o problema que foi por vínculo de causalidade.
enunciado". Se isso não acontece, a hipótese não tem razão de ser". Barros e Lehfeld (ibid.: 30) classificam as hipóteses de acordo
Toda e qualquer pesquisa deve contar com a formulação das com sua natureza em: hipóteses de relação causal e hipóteses nu-
hipóteses, caso contrário, estará lhe faltando um norte, pois a fun- las. As causais "demonstram que a todo valor x corresponde um •
ção da hipótese é servir como uma bússola. Ela está no cerne das valor y", apresentando assim uma relação de causa e efeito entre
pesquisas experimentais, pois nestas, a observação de um fenô- duas variáveis, quando um acontecimento ou característica se apre-
meno leva o pesquisador a supor tal ou tal causa ou conseqüência, sentam como fatores 'que determinam outra caracterfstica ou fe-
suposição esta que se constitui na hipótese que só pode ser de- nômeno. As autoras nos fornecem como exemplo a seguinte hipó-
monstrada por meio do teste dos fatos, ou seja, da experimenta- tese: "A falta de desenvolvimento de atividade de lazer conduz à
ção. Embora implique em procedimentos lineares que já foram intensificação do grau de tensão do indivíduo que vive nas cida-
sobejamente criticados, quando se trata de transpor esse modelo des". A definição da hipótese nula parece muito complicada para
para as ciências humanas, essa linearidade nos ajuda a compreen- os leigos em estatística (ver ibid.: 31 e Rudio, ibid.: 86-87). De
der o papel articulador que a hipótese deve desempenhar em qual- todo modo, ela é basicamente um resultado possível da observa-
quer processo de pesquisa, como solução possível antecipada e ção de um fenômeno que pode ser verificado estatisticamente. A
ordenadora das operações que devem resultar dessa antecipação, definição do tipo de hipótese depende dos objetivos da pesquisa e
de modo a verificar seu fundamento ou não. do nível de conhecimento que o pesquisador possui do comporta-
Nas pesquisas empíricas, que nascem da observação de fatos mento das variáveis e das possibilidades de mensuração.
concretos, as operações que resultam da hipótese consistem em No contexto das pesquisas quantitativas conduzidas segundo
levar o pesquisador a saber se a explicação antecipada e plausível preceitos estatísticos, a hipótese sempre teve significados e fun-
que. a hipótese lhe forneceu resiste à prova dos fatos. Para tal, o ções precisas. Conforme Luna (ibid.: 34), a primazia quase abso-
pesquisador deve armar as estratégias de verificação, determinan- . luta da pesquisa quantitativa, durante anos, chegou ao ponto de
do as informações que serão necessárias, as fontes às quais recor- tornar impensável que se dispensasse o uso de testes estatísticos
rer e a maneira de recolhê-las e analisá-las para tirar conclusões. para encaminhar os resultados da pequisa. Quando, nas ciências
Nas pesquisas quantitativas quê, deve-se salientar, são muito humanas, "começaram a ser introduzidos novos modelos de pes-
especializadas, visto que implicam em conhecimentos ou assesso- quisas, a estatística inferencial teve seu uso drasticamente reduzi- •
rias em estatística, deve-se distinguir a hipótese da pesquisa, aquela do, do que decorreu uma confusão entre problema e hipótese".
de que viemos tratando até agora, da hipótese da estatística, isto é, Para muitos, simplesmente porque confundem problema de pes-
aquela que vai ser utilizada para aplicação das técnicas estatísti- quisa com hipótese estatística, falar em problema parece evocar
cas e que, de modo geral, costuma ser a primeira traduzida para ecos da pesquisa estatística, de modo que lhes parece desnecessá-
uma linguagem numérica. De acordo com Rudio (ibid.: 84-85), ria a preocupação com a precisão da formulação do problema da
uma hipótese pode ser constituída de apenas uma variável; pode pesquisa.
ter duas ou mais variáveis relacionadas entre si sem vínculo de
••-
,.,
182 Lucia Santaella . 183

A meu ver, essas confusões edespreocupações que 'r es u lt a m desempenha nas pesquisas não-quantitativas. Enquanto as quanti-

r•. da fal ta de informação e do descuido, sob a' alegação confortá vel


do anti-positivismo e anti-cientificisino, ' podem chegarà disper-
tativas dispõem de um padrão de base repetívelpara ser aplicado
a quaisquer pesquisas, as não-quantitativas devem encontrar seu

•• são mais leviana e ao extremo da perversão dó espírito que deve


guiar os procedimentos da pesquisa científica. Sem problema bem
caminho em um emaranhado intrincado de teorias e métodos.
Além disso, enquanto as pesquisas quantitativas partem de

'.• definido e hipóteses bern elaboradas, não é possível haver pesqui -


sa, seja ela empírica, experimental, quantitativa ou qualitativa,
pressupostos epistemológicos tácitos e, portanto, sem exigências
de questionamentos que são próprios do ernpiricisrno, o mais das

•• teórica ou aplicada. O que difere nesses tipos não 'é a ausência ou


presença de problema e hi póteses, mas os meios, isto é, os méto-
vezes positivista, as não-quantitativas devem levar em considera-
ção a posição epistemológica que assumem, uma vez que elas se

•.•, dos, que são mais apropriados a cada uma para testar suas 'hipó te-
ses e, conseqUentemente, o modo como o processo de testagern é
diferentemente compreendido em cada urna delas. Até mesmo em
propõem não-quantitativas justamente porque colocam em ques-
tão os pressupostos das quantitativas. Corno se pode ver, tudo tem "
seu preço. E o preço das pesquisas não-quantitativas, em termos
uma pesquisa puramente teórica, há sempre urna tese que é pro-

••
de in vestimen to intelectual, . é . inel utavel mente al to.
posta para ser defendida. Essa tese é o problema em relação ao De fato, teorias não caem do céu para nos auxiliar a enfrentar
qual as idéias que se desenvolvem são hipóteses particulares "cuja as dificuldades em que a resolução de um problema de pesquisa

•• demon~tração permite alcançar as várias etapas que se deve atin-


gir para a construção total do raciocínio" (SEVERINO, ibid.: 161).
sempre acarreta . Muito menos cai do céu a familiaridade que pre- "
cisamos adquirir para lidar com seus conceitos ..Problemas espe-

•• Para isso, é preciso, em primeiro lugar, não confundir hipótese


com evidência prévia e, em segundo lugar, dom'inar com seguran-
cíficos exigem soluções específicas, do mesmo modo que solu- '
ções específicas só podem ser encontradas por meio do auxílio de

•• ça o quadro teórico em que se funda o raciocínio. teorias que se adequam às soluções buscadas. Por isso mesmo,
escolhas teóricas não podem ser feitas por impulso, ainda menos

• 4.7 O QUADRO TEÓRICO DE REFERÊNCIA por imposição, ou para estar de acordo com a especialidade do.

''.•. Não apenas ternos o direito , mas também o dever de dispen-


sar, quando isso se mostra necessário, a precisão dos cálculos mate-
orientador de uma pesquisa, ou, o que é pior, simplesmente pa!'a
agradá-lo. Opções teóricas só podem nascer das exigências inter-
nas que o problema da pesquisa cria. Para optar, precisamos co-

•• máticos que dá alicerce às pesquisas quantitativas. Essa dispensa ' nhecer as alternativas que se apresentam, Isso implica ern se de-
pode se dar por motivos vários, entre eles, para buscar o acesso à bruçar demoradamente sobre os livros com curiosidade e despren-
complexidade alinear e não mensurável, à exuberância com que dimento, com a paci ência doconceito.

•• pulsa diante de nós a realidade tanto na sua dimensão abstrata


quanto concreta. Quando essa dispensa se dá, entretanto, o que se
Infelizmente, o mercado pedagógico muitas vezes nos obriga
a dar a uma pesquisa a velocidade de urna pista de corrida. Por

•• perde do seu peso em precisão e' ccnfiabilidade, deve ser compen-


sado pela fundamentação teórica de uma pesquisa. Vem daí ti gran-'
.....
isso mesmo, os níveis de complexidade das pesquisas devem ser
dosados de acordo com a experiência prévia que o pesquisador já .

•• de importância do papel que esse passo, ou melhor, mergulho, acumulou ou não, ,e em função do tempo que-se tem para realizar

....
184 Comunicação & Pesquisa Lucia Santaella 185 •

uma pesquisa. Em suma, os meios para se evitar a leviandade de- ções gerais. Conceitos podem ter significados diferentes depen-
vem ser pensados. dendo do quadro de referência ou da ciência em que são emprega-
Também chamado de "fundamentação teórica", "embasamento dos. Além disso, formam conjuntos sistemáticos logicamente coe-
teórico" ou de "teoria de base", o quadro teórico de referência é rentes, nisso consistindo a essência de uma teoria. É com tudo
algo que brota diretamente do levantamento bibliográfico para a isso que temos de nos familiarizar para nos tornarmos capazes de
elaboração do estado da questão de um problema de pesquisa. empregar os conceitos com segurança e mesmo operacionalizá-
Tendo brotado do estado da questão, a fundamentação teórica los quando, em pesquisas aplicadas, isso se faz necessário.
implica um avanço em relação àquele, na medida em que resulta Só conseguimos fazer uso realmente eficaz dos conceitos teó-
de uma escolha consciente, crítica e avaliativa da teoria ou com- ricos quando eles como que entram em nossa corrente sangüínea
pósito teórico que está melhor equipado para fundamentar o de- com tal intimidade a ponto de não sentirmos mais sua presença
senvolvimento da pesquisa, em consonância com a metodologia como estranha. Só assim nos tornamos capazes de utilizá-los com
que designa. flexibilidade como diretrizes para os caminhos da reflexão e não
O quadro de referência teórico consiste no corpo teórico no meramente como fórmulas rígidas a serem obedientemente apli-
qual a pesquisa encontrará seus fundamentos. Ora, todo pensa- cadas. Quanto mais conhecemos uma teoria, no confronto com
mento existe em uma corrente de pensamento. Pensamentos têm outras teorias, mais nos tornamos capazes de dialogar com ela e
genealogia, situando-se, portanto, em um contexto teórico maior. menos escravizados nos tornamos à moldura referencial em que
Por isso, quando um corpo teórico é escolhido pelo pesquisador, toda teoria nos enquadra. Se as teorias são inevitáveis, para que
este precisa ter em mente o contexto mais amplo em que esse cor- não se lide com a reflexão apenas com os instrumentos mentais
po se insere. Com isso, evita-se um problema muito comum nos que o senso com.um nos fornece, que, pelo menos, elas sejam es-
trabalhos de pesquisadores iniciantes: a salada de teorias com colhidas através do filtro da qualidade.
genealogias bastante distintas e, muitas vezes, epístemologtca-
mente antagônicas e incompatíveis. 4.8A SELEÇÃO DO MÉTODO
Em suma, todo projeto deve conter os pressupostos teóricos
com os quais as interpretações irão se conformar. Eles são inevi- Com o método chegamos ao terceiro termo, completando-se o
táveis simplesmente porque não podemos descartar os pressupos- trio que dá suporte a uma pesquisa. Do problema para a hipótese
tos, sob pena de ficarmos imersos tão somente no senso comum. e desta para o método, tem-se aí a coluna dorsal que dá sustenta- •
Por essa razão não apenas temos de escolher pressupostos, mas ção a um projeto de pesquisa. Como querem Laville e Dione (ibid.:
temos de escolhê-los com carinho, pois são eles que darão forma 124), trata-se de dois movimentos que se unem na constituição de
e cores às nossas interpretações. Formas e cores devem ser esco- uma tríade coesamente configurada: quando o problema desem-
lhidas se não as queremos impostas sobre nós. boca na hipótese, tem-se o ponto de chegada do primeiro movi-
Teorias lidam com princípios, conceitos, definições e catego- mento de um itinerário de pesquisa. Este ponto de chegada, entre-
rias. Esses são os legítimos habitantes das teorias, entidades que tanto, torna-se o ponto de partida do segundo movimento, indi- .
sintetizam urna quantidade de fenômenos particulares em abstra- cando a direção a ser seguida para que se possa resolver o proble-
,.
•• 186 Comunicação (; Pesquisa Lucia Santaella
187

•e ma de partida: verificar sua solução antecipada, Para se chegar a sas não-quantitativas se ajustem, elas também dependem da obser-

•• urna confirmação, são os métodos que nos fornecem os meios.


Uma vez que todo o capítulo 3 deste livro foi dedicado à proble-
mática da metodologia e dos métodos, não é necessário repetir
vação, da coleta de dados, da análise dos dados coletados e de sua
interpretação. Sem isso, a pesquisa fica sem chão, flutuando no ar.
Até mesmo II111 a pesquisa teórica, fundamental, apresenta to-
e aqui o que já foi dito lá. Limito-me, por isso, a chamar atenção para dos esses itens, quando se sabe adaptar seus significados às novas
e
••
alguns pontos que, a meu ver, devem ser retidos e!TI nossa mente. . situações de pesquisa em que eles surgem. Assim, a palavra ob-
Na etapa da metodologia, é fundamental que o pesquisador servação não se restringe necessariamente à observação empírica,
esteja consciente do tipo de pesquisa que está realizando, pois daquilo que estreitamente costumamos chamar de realidade, mas

•• desse tipo dependerão os regramentos metodológicos a serem uti-


lizados. A melhor pesquisa não é aquela que mais se aproxima
se estende para a observação documental, estendendo-se até Ines-
mo até a observação abstrativa, quando criamos diagramas men-

•• dos métodos das ciências naturais, mas sim aquela cujo método é
o mais adaptado ao seu objeto. Antes de tudo, é preciso explicitar
tais da rede de conceitos teóricos com os quais estamos lidando,
observando suas configurações e modificando-as conforme as

•• se a pesquisa é empírica, com trabalho" de campo ou de laborató-


rio, se é teórica, histórica, tipológica ou se tem uma tipologia hí-
necessidades da condução..de uma argumentação. Tanto quanto
qualquer outra, a pesquisa teórica também depende de uma gran-
e brida, o que, na área da comunicação, pode ser bem provável.
Além do tipo de pesquisa, deve-se tentar evidenciar qual é o ân-
de coleta de dados, com a diferença de que esses dados são idéias,
e gulo de abordagem da pesquisa: econômico, político, social, cul-
conceitos, categorias que têm de ser manipuladas técnica, criati-
vamente e, sobretudo, metodologicamente. Se isso já é verdadei-
ti
•• tural, histórico, técnico etc. O mapa da área de comunicação que
foi tentativamente desenhado no capítulo 2 pode ser de utilidade
para essa tarefa.
ro para as pesquisas teóricas, não é preciso nos estendermos em
considerações sobre as pesquisas aplicadas, especialmente por-

••
que nestas a metodologia está estreitamente ligada às teorias que
Mais uma vez, nesta fase relativa ao terceiro sustentáculo do dão suporte à pesquisa.
tripé, o método, em que se erige um projeto de pesquisa, cumpre Em suma, a tarefa metodológica é uma tarefa a ser enfrentada
enfatizar que as pesquisas não-empíricas e as não-quantitativas sem escusas, pois é dela que nos vêm os meios para comprovar ou
não podem ser utilizadas como álibis para a negligência metodoló- não as hipóteses nas quais apostamos.
gica. Se não há pesquisa sem problema, se não há rota que enca-
e minhe para a resolução desse problema sem hipóteses, estas exis- 4.9 A EQUIPE DE PESQUISA .

•• tem para serem testadas. Aí está a tarefa precípua de uma pesqui-


sa, contanto que se saiba encontrar para cada tipo de pesquisa o . Neste item, cabe nomear quais são os responsáveis pela pes-

•• tipo de teste que ela permite.


Pesquisas não-quantitativas exigem que sejam seguidos os
quisa, desenhando o perfil de cada um e indicando com clareza
quais a tarefas que a cada membro da equipe cabe desenvolver.

•• mesmos passos das quantitativas, com a diferença de que a natu-


reza interna desses passos difere de um tipo de pesquisa para ou-

• tra. Embora não exista um padrão paradigmático a que as pesqui-


188 Comunicação [, Pesquisa Lucia Santaella 189 •

4.10 O CRONOGRAMA zes, esta últimajá se insinua em comentários presentes na escolha •
da fundamentação teórica, visto que esta é sempre muito mais es-
Este item diz respeito ao planejamento do tempo de desenvol-
vimento da pesquisa. Cada etapa deve ser cuidadosamente pensa-
pecífica e especializada do que havia sido a revisão bibliográfica.

4.13
°


da, inclusive prevendo o tempo que cada uma deve levar para se
desenvolver. Quanto mais bem formulado estiver o projeto, mais
clareza e segurança se terá na.previsão de sua consecução.
NOTA FINAL

Enfim, a elaboração de um projeto de pesquisa exige o cuida-




do paciente com os detalhes a que todo bom planejamento nos
4.11 Os RECURSOS NECESSÁRIOS obriga. É preciso ter amor pelas minúcias e capacidade de olhar •
de frente para as dúvidas, sem subterfúgios, sem esquivas. Saber
Embora a palavra "recursos" pareça indicar apenas os recur- lidar com elas, atendê-las com atenção e energia, conscientes de
sos materiais, infraestruturais e financeiros, eles devem ser pensa- que isso significa interromper o fluxo de nossas certezas e partir
o
dos em termos mais amplos. Parece muito bom que pesquisador para as fontes que nos vêm. do discurso do outro. •
também pense no tempo que tem para se dedicar à pesquisa, so- Em meio às muitas compensações que um bom projeto nos
bretudo na sua disponibilidade para assumir o modo de vida que a traz, entre elas especialmente uma certa garantia de que ajornada •
realização de uma pesquisa sempre exige. Enfim, olhando bem no deverá chegar com êxito ao seu destino, a compensação mais gra-
fundo de si mesmo, neste item dos recursos, o pesquisador deve tificante se encontra naqueles momentos em que a pesquisa come-
se perguntar se terá persistência, desprendimento de muitos ou- ça a adquirir força e determinações próprias, exigências internas
tros apegos ou hábitos e mesmo obstinação para efetuar seu traba- tão eloqüentes como se viessem de um corpo vivo. De agente do •
lho. Esses recursos são, às vezes, tanto ou mais fundamentais do processo, o pesquisador passa para o estatuto de interlocutor, apal- .•
que os materiais. pando e auscultando as determinações internas do ' seu trabalho. •
° Mais gratificantes ainda, como se fossem il uminações súbitas no •
4.12. A BIBLIOGRAFIA meio do caminho, sem que saibamos bem de onde elas vêm, 'são •
os momentos em que nos defrontamos com as surpresas das des-
Quando fazemos tanto a revisão bibliográfica quanto à sele- cobertas imprevistas. .
ção do quadro teórico de referência para a pesquisa proposta, ou Além de cumprir a função social de fazer avançar o conheci- •
seja, sua fundamentação teórica ou escolha de uma teoria de base, mento, tarefa precípua de toda pesquisa, pesquisas também deci-
essas atividades podem nos levar a enxergar um horizonte biblio- frarn para cada ~m de nós o mistério dos prazeres muito próprios
gráfico pertinente à pesquisa muito mais amplo do que aquele que e decididamente intransferíveis que a vida intelectual traz consigo.
podemos absorver enquanto estamos elaborando o projeto. Nesse
caso, que, aliás, seria o ideal, no final do projeto devem aparecer
duas listagens bibliográficas, aquela que já foi consultada e aque-
la que deverá ser consultada no decorrer da pesquisa. Muitas ve- •
•• Lucia Santaella

• 191

- •e
dar a este livro, é a de fornecer dados para aqueles que estão em
busca das bases e das rotas para uma tal elaboração.
Portanto, neste roteiro final, irei me limitar a renomear e fazer

•• ROTEIRO DE LEITURAS
breves comentários sobre os livros que julgo fundamentais para
que as bases e as rotas que aqui pude oferecer sejam comple-

•• mentadas ou mesmo encontradas, considerando-se as omissões


que indubitavelmente cometi, quer por falta de mais espaço, quer

•• por limitações do meu próprio conhecimento.


Assim sendo, os pesquisadores da comunicação sem familia-
ridade com a filosofia, mas que gostariam de ter acesso a um pa-

•• norama sintético ebastante acessível, podem consultar o livro


Aprendendo Metodologia Científica. Uma orientação para os alu-

•• Este livro foi pensado tendo em vista o pesquisador que se


nos de graduação, de Carvalho et aI. (2000).
Para aqueles que se interessam pela discussão mais geral dos
e inicia nas atividades da pesquisa e que se vê, pela primeira vez, problemas relativos ao conhecimento científico, do ponto de vista

t•
confrontado com a necessidade de elaborar um projeto de pesqui- de um cientista de primeira grandeza, indico o livro de Newton da
sa na área de comunicação. Por isso mesmo, o livro foi idealizado Costa (1997) sobre O conhecimento científico, um dos textos mais
a
•• tendo em mente que ele se constituísse também como um roteiro
de leituras tão longo quanto o próprio livro. Em todos os momen-
lúcidos e proveitosos que li nos últimos tempos pela segurança
serena e clareza límpida com que o autor enfrenta questões espi-

•• tos que julguei pertinente, indiquei as fontes que estavam por trás
das informações, quase sempre sintéticas, assim como indiquei 0$
títulos que julguei que devessem ser eventual ou oportunamente
nhosas da epistemologia, lógica e metodologia das ciências.
Uma discussão competente, honesta e vívida das questões
metodológicas na área das ciências humanas encontra-se nos li-
consultados pelo leitor. Essas são as razões por que o texto está vros de P. Demo,' a saber, Metodologia científica em ciências so-
todo salpicado de referências bibliográficas. ciais (1981) e Princípio científico e educativo (1990).
Em razão disso, este roteiro de leituras será muito breve. Os Quem estiver porventura interessado em uma classificação das
dois primeiros capítulos do livro tiveram a intenção de localizar o ciências bastante extensiva e complexa, indico o livro de Beverly
e leitor dentro da floresta de teorias e de um possível mapeamento Kent (1987) que explorou todos os detalhes complicados da clas-
e da área de comunicação, com indicações de suas fronteiras e suas sificação das ciências de Peirce, devolvendo-nos uma versão cui-

•• vizinhanças. A pretensão é que esses capítulos funcionem como


propedêutica para a tarefa da elaboração de um projeto de pesqui-
dadosa e detalhada. Uma tentativa de atualização dessa classifi-
cação, frente ao prodigioso desenvolvimento por que passaram as

•• sa pois é, nesta tarefa, que tive por objetivo tentar auxiliar o leitor. "
Por isso mesmo, a função primordial, que espero ter conseguido
ciências desde a morte de Peirce, e aplicada a uma área específica
das ciências humanas, a teoria literária, pode ser encontrada no

• meu livro A Assinatura das coisas. Peirce e a literatura (1992) .


Lucia Saritaella

192 Comunicação & Pesquisa .
I

morfose da ciência a que o livro se refere se dá no ambiente das


193 •
••
••
Essa aplicação poderia ser tomada como ponto de partida para se
ciências naturais. Cumpre, portanto, levar em conta os efeitos que
pensar em algo semelhante na área de comunicação.
Um born panorama com contribuições das ou sobre os movi- essas metamorfoses podem ou não trazer para as áreas de huma-
mentos e as grandes figuras da epistemologia da segunda metade
do século XX, ou pouco antes dela, tais como positi vismo lógico,
nas, para o que seria necessário conduzir as reflexões para ques-
tões epistemológicas mais complexas do que aquelas que podem ••
Popper, Kuhn, Feyerabend etc. comparece em Epistemologia: A
cientificidade e17~ questão, de Oliva (org., ~990).
ser encontradas no livro.
Se o leitor se interessar por um aprofundamento da lÓgica crí- ••
Extremamente célebre é o livro de Kuhn, Estrutura das revo-
luções científicas (1976). Por isso mesmo, costuma ser muito ado-
tica COlTI seus 'tipos de raciocínio, abdução, indução e dedução, e
da rnetodêutica, a teoria do método científico de Peirce, poderá
buscá-lo em meu livro O método anticartesiano de C. S. Peirce
••
tado em cursos de metodologia da ciência. Cumpre notar, entre-
tan to, que, descon textual izada, sol ta do pano de fundo da episte-
(no prelo).
Dicas sobre tiposde pesquisa espec ificamente na área de C.O-'
••
mologia positivista, dominante po r volta da época em que o livro
foi escrito, e q~e indiretamente as idéias defendidas por Kuhn
acabam por demolir, sua obra perde muito do seu significado, es-
municação aparecem na extensa e did ática obra Comunicação
humana. O curso básico (1997), de Devito.
••
capando, conseqüentemente, a possibilidade de se compreender Aqueles que buscam inventários da comunicação no Brasil'e
••
as razõesque fizeram desse livro urna obra tão notável.
Fenômeno até ponto similar ocorre com o livro Contra o mé-
na América Latina devem.consultar os números da Revista Brasi-
leira de Comunicação, editada pela Intercom. ••
•.'•
Quanto aos livros específicos sobre metodologia científica , essa
todo,' esboço de U177,a teoria anárquica da teoria do conhecirnento
literatura é muito farta. Apresento a seguir uma lista selecionada
(1977), de Feyerabend, esse enfant terrible da epistemologia con-
daqueles que eu mesma escolhi para' me auxiliarem na tar~fa da

.'
temporânea. O grande valor dessa obra está na defesa qu y ela en-
escritura deste livro.
cerra das forças criativas que também movem a ciência, defesa
Uma obra extensa e detalhada, muito útil para consultas ~ para
esta que se insurge contra a visão do método científico como mo-
delo rígido de regras inflexíveis. Entretanto, na"contexto da cultu- dirimir dúvidas 's o bre todas as questões, envolvidas nas pesquisas
empíricas, experimentais e quantitativas é A construção do saber:
••
ra acadêmica brasileira, nas áreas das humanidades, onde já im-
peram certas negligências COIll os rigores do método, uma tal de-
fesa não faz tantó sentido quanto ela pode fazer nos países com
Manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas, de
Laville e Dione. Editado no Canadá, o livro passou por uma com-
•• •
culturas acadêmicas mais exigentes do que a brasileira.
Também muito célebre e, por isso mesmo , fartamente adotada
pet,ente adaptação para o contexto brasileiro, realizada por Lana
Mara Siman . •e·
em cursos nas ciências humanas é a obra A nova aliança: meta-
morfose da ciência (1984), de Prigogine e Stengers. Novamente
Extremamente bem elaboradas, claras, didáticas e de grande
utilidade para todos aqueles que estão diante da necessidade de ••
aqui, quando deslocada do seu contexto nas ciências naturais e
transplantada, sern os necessários cuidados, para as ciências hu-
marias, esta obra perde muito de seu significado, pois a meta- .
t
i
...."':
elaborar um projeto de pesquisa são as obras M etodologia cientí-
fica (1982), Técnicas de pesquisa (1982) e Metodolooin do tra-
balho científico (1992), de Lakatos e Marconi. Menos extenso

.;
. •1

. '
..• 194 Comunicação, s P.esq~i~a l
•• mas não menos excelente, pela clareza de sua exposição e uti)ida-

•• de, especialmente para os que buscam orientações para a condu- '


ção de pesquisas quantitativas, é o livro Introdução ao projeto de

•• pesquisa científica (1992), de Rudio.


Obra quase única no contexto brasileiro pela excelente con-
traposição entre os princípios q~le regem o desenvolvimento das BIBLIOGRAFIA
•• pesquisas quantitativas, de um lado, e as qualitativas, de outro, é
Pesquisa em, ciências humanas esociais (1991), de A. Chizzotti.

•• As indicações bibligráficas, distribuídas por áreas.no decorrer do


livro, são também muito úteis.

•• Para aqueles que desejam conhecer os pormenores das exigên-


cias que devem ser atendidas por toda espécie de trabalho acadê- ABRANTES, P. C. C. (1998). Imagens de natureza, imagens de ciência.

•• mico e não apenas pelos projetos de pesquisa, um livro muito adota-


do é Metodologia do trabalho científico (2000), de A. J. Severino.
Campinas: Papirus. . '
ACKOFF, R. L. (1967). Planejamento de pesquisa social. trad: Leônidas

••
Hegenberger e Octanny S. da Mota. São Paulo: He·rder/EDUSP.
Resta, por fim, colocar muita ênfase na obra Pesquisa em co-
ALVES-MANZOTTI, A. J. e GEWANDSZNADJER, F. (1998). O mé-
municação. Formulação de um modelo metodológico, de Maria
todo nas ciências naturais e sociais. São Paulo: Pioneira.

•• Immaccolata V. Lopes (1990) que,' tanto quanto posso ver, com


seu panorama histórico das pesquisas em comunicação no Brasil
ALVES, R. (1988). 'Filosofia da ciência: introdução ao jogo e suas re-
gras. lia. ed. São Paulo: Brasiliense.

•• e sua esmerada construção de um modelo para a pesquisa em co-


. munieação, continua única no contexto brasileiro. Essa obra fun-
ANDERSON, J. (1996). Communic atio n theory: Epistemolo g ical
foundations. Ne'Y York: Guilford Press.

••
cionou como um ponto de referência para minha almejada busca ANDERSON, J. R. e BOvVER, G, H, (1973). Human associative memory,
de' complementaridade e para um diálogo cujas coordenadas es:- New York: Johns Wiley and Sons, .
pero ter conseguido, mesmo que imprecisamente, aqui desenhar. ANDERY, M. A. et al. (1996). Para compreender a ciência: uma pers-

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