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JE MANGE PARIS À PAUL ELUARD

A Terra é minha Mãe e para ela, silenciosamente,


grito seu nome.
A resposta não chega aos meus lábios sequiosos
do leite daquelas entranhas, do fel dos seus interiores

Necessito, Mãe, do teu ódio e do teu amor,


do teu carinho e da tua dor,
Necessito, ó Mãe, que me enterres viva,
até que eu sufoque
na tua impiedade.

II

O retrato em sangue.
vermelho intenso, recém pincelado nas minhas artérias e veias,
ainda pulsantes, ainda vivas.
A alma vendida ao Demônio?
Não, este não é Dorian Gray.
Sou eu dessangrada, desmembrada, despedaçada. Sou eu sem mim.
Apenas o som do meu último grito.

III

A Morte atrai irresistivelmente todas as pessoas com alma,


essas pagam o tributo à Caronte.
O Barqueiro do Inferno necessita sobreviver.

IV

Encontrei objetos estranhos na Ile de la Cité.


Olhos de gato feitos de vidro amarelo,
Bailarinas clássicas vestindo Chanel.
Estranhos objetos ou estranha eu?
Gatos poderiam vestir Chanel e bailarinas ter olhos de vidro amarelo?
Yes or No?
Penso em Alice in the Wonderland, porém esqueço que não conheço o
Chapeleiro Maluco.
Mas eu sempre gostei de cortar cabeças
V

A noite de Montmartre envolve meus pesadelos,


mas eu não sonho com monstros.
Eu sonho com minhas entranhas abertas, violadas, desvisceradas,
misturadas num vermelho tão vivo, que desperta todos os anseios
de violar meu próprio cadáver.

VI

Houve um tempo de milagres, onde as mulheres eram belas


e os homens viris.
Não era o Paraíso Perdido de Adam e Eve,
era o primeiro prêt-a-porter da temporada.

VII

Meu barco é folha que passa, pequenina,


no oceano das minhas ilusões.
Abriu-se o Mar Vermelho

VIII

Será que tudo se perde no horizonte dos lugares e tempos?


Ou apenas e tão somente se transforma?
O que se perde é uma imagem, fotografada dos nossos próprios anseios,
Imagem em sépia, desaparece quando, por descuido, uma boca é pintada de
rosa-carmim..

IX

Meu coração perdeu sua música suave. Era terno o pequenino, mas um dia
amanheceu sem os acordes da “ Appassionata”.
Porque os homens seguem olhando sem ver.

Existe a Poesia? Ou ela é apenas o desabafo de todos os silêncios? O


desabafo de todos os meus silêncios?
Existe a Poesia?
Ulisses perguntou à Circe. Sua resposta o transformou num porco.

XI

Você sabe o que é um amigo?


Na velha fotografia é o único que ainda te sorri. Os outros foram cuidar dos
seus interesses.

XII
Adeus pode ser a mais bela palavra, ou a mais terrível sentença.
Qual é a verdade?
Não sei, falta coragem tanto para belas palavras,como para terríveis
sentenças.
Saudades de ti, Florbela, que sabia pronunciar ambas. E morreu por isso.

XIII

Tudo se perde ou tudo se deforma?


Não.
O que é a deformação, senão minha outra face?
O que é a perda, senão um encontro?
Se eu falasse a língua dos anjos, pediria piedade para todos nós,
Como falo apenas a língua dos homens, pedirei o fim para todos nós.

XIV

Uma imagem congelada pelos desejos que não tem cura.


Como boneca de louça pintada, você me emoldura num quadro dourado, onde
baila um sorriso eterno,
rabiscado em pincel número 05.
Tal boca de polichinelo
não posso cerrar,
assim seguindo em careta divina,
a gargalhar dos meus
próprios demônios.

XV

A estátua dança nua no jardim daquela casa. Sinuosa e branca, espera teu
abraço furioso, para juntos ficarem imóveis na primeira valsa de Strauss.
Tempos depois, dois jovens amantes não compreendem tal dança de horror,
onde duas figuras esgazeadas choram lágrimas de cimento e cal.

Ao compasso de Bach e Beethoven,


e acordes de Mozart.
Não saberiam eles ainda, repletos de inocência absoluta,
manchada de beijos normais,
que
C’est la vie en rose

XVI

O cão passeava Martine, sua mascote preferida, pelos Jardins de Versailles.


Ela de quatro, com seu rabo artificial, resfolegava na coleira de rubis, cristalina
e pesada.
Enquanto procurava ossos na lixeira cor de sangue.
O mundo ao contrário?
Talvez, porém Martine nunca fora tão feliz.
XVII

Da teta grande e leitosa


escorrem rios intermináveis
dela bebem todas as criaturas infernais,
enquanto dançam sobre o último cadáver.
Van Gogh representando a morte, na tela sem orelhas?
Não, apenas a natureza humana. A verdadeira.

XVIII

Ela é a sombra do meu Ser


antes somente adivinhada
no escuro breu de dois olhos condenados
A não ver.

Agora caminha só
pelas noites, alucinada
E planeja meu assassinato.

XIX

O vento calmo anuncia tempestades.


O mar sempre andou ao contrário dos relógios, mesmo que fossem suíços.

Você arrisca o contrário do contrário, daquele contrário que nunca foi?

Não acreditei na resposta.


Haviam demasiadas vírgulas e entrelinhas,
nenhuma exclamação.

XX

Na feira semanal das quartas , se vendem hábitos e rotinas.


Obrigada vale 20 euros e sentimentos estão fora de estação.
Se eu quisesse comprar ternura em Paris, nem saberia onde procurar.
Há tantos museus, catacumbas e lugares, que mais fácil seria mergulhar no
Sena. Lá vende ternura?
Não sei, ainda não entendo francês.

XXI

A terra é a mais clara das criaturas imóveis. É possível ver o brilho dos seus
torrões até mesmo no meio das tempestades. Você queria ser como ela, um
farol quase vivo, por toda a existência?
Não, prefiro as sombras, elas protegem meus olhos daquilo que temo enxergar.

XXII

Claire e Martine dançam nuas nos salões de Montparnasse.


Corpo contra corpo, boca contra boca, estão sôfregas de si e da outra.
A caixa de música flutua Pour Elise e o mundo termina num orgasmo.

Viajante que passa


trôpego e apressado,
você quer aquelas fêmeas?
Então esqueça outros caminhos e a velha Torre Eiffel.
Hoje você é Natalie e usa calcinhas de seda;

XXIII

A quem você defende?


A velha mendiga aleijada ou àquela nobre dama altaneira?
A quem você prefere?
A mais puta de todas as senhoras ou a mais senhora de todas as putas?
A quem você mais teme? A você perdido em outro, ou a outro perdido em
você?
Acredite, “chevallier”, as respostas chegarão no próximo século.

XXIV

Um nome de mulher.
Julia
Cheiro de flores invadindo meus livros. Todos eles.
Porque eles sempre cheiram a flores? Não tenho certeza.
Talvez porque houvesse outro nome de mulher. Caroline.
Era minha mãe e me embalava diariamente
No peito macio
Ela sempre cheirava a flores?
Não, nesse caso as flores é que cheiravam a ela.

XXV

Próxima parada: Metro Station, um trem para o infinito, apenas 3 euros


e uma pitada de ilusão
Passou o tempo em que eu voava feito Sininho, na antiga Terra do Nunca,
ou viajava com o terrível Barba-Negra, cruzando tantos mares eternos.
Agora só restaram 3 euros.
Moço, me empresta uma pitada de ilusão?

XXVI

A vida e a morte são como sonhos que me atravessam todas as noites.


Elas querem minha escolha
Se escolho a vida, morrerei.Se escolho a morte, viverei
O segredo é um paradoxo
daquilo que nunca aconteceu.
XXVII

Para Luiza

A força brilha nos olhos inocentes,


de uma menina-mulher, mulher-menina,
que a vida atingiu cedo demais
por ela viverei, esperando o próximo trem para as estrelas,
por ela fugirei, esperando o próximo desespero calado,
eu sou ela, ela sou eu
e nossas mãos se necessitam..

XXVIII

A beleza contrapõe anjos e demônios.


Os demônios sempre foram mais belos.
Rezemos pelos anjos.

Ajoelho-me calada diante da derrota,


não sei destilar crueldades.
Se para viver devo matar,
prefiro morrer, renascendo como a fênix em cada nova derrota.

Mademoiselle Marie de Lieux ainda era inocente, help me, Monsieur!


Apenas o silêncio, e o som de uma porta fechando.

XXIX

Você tem medo da luz?


Eu sim
Ela ilumina os monstros que não quero ver,
Os laços que não consigo romper,
As vidas que não posso matar.
A escuridão é sábia, apenas rompe meus pedaços.

XXX

Morgana et Lancelot, avec les temps

1) O que você faria se ela fosse embora, levando os últimos segredos?


Arriscaria dizer, numa voz tremida e baixa, não me deixe?
Ou morderia os lábios, até que os mesmos sangrassem Au Revoir?

2) Ela tem medos mortais, de que você a deixaria ir, mesmo chorando no
peito lágrimas perdidas nos olhos castanhos.Talvez você até falasse boa
sorte, ma petite, sem notar o tremor das próprias mãos, escondidas nos
bolsos de outro terno formal.
Escuro e negro como tuas inabaláveis certezas.
3) O que você faria ao vê-la de costas, caminhando devagar para o fim,
desalinhando os negros cabelos? Gritaria forte seu nome, tão forte que
até ouvissem os anjos, ou calaria todas as dores e todos os gritos?

4) Ela não sabe as respostas e teme teu silêncio, teu controle. Ela não tem
armas fatais , nem poções envenenadas. Apenas duendes que
encontram amigos e bruxas que realizam desejos.Não tem cauda de
pavão ou estolas de raposa prateada, não nasceu em Londres ou Roma,
nem sabe comer sushi de palitinho, Mas escreve alguns versos e sabe
o caminho para outros planetas e outras histórias. Talvez até para outras
galáxias.

5) Mylord Lancelot du Lac, o mais valente dos cavaleiros , eu vos peço com
ternura,
não deixai-me tornar somente uma lembrança
nos céus de Stonehenge.
Que vossas mãos não abandonem as minhas, embora eu não seja a
doce Guinevere,
Que vossos lábios não deixem de abrir os meus, embora eu seja a
tempestuosa Morgana,
Pois eu vos amo eternamente, como apenas as bruxas podem amar,
porque nunca tiveram medo de uma entrega apaixonada.
Afinal, sempre souberam que seu destino seria o Inferno.

XXXI

As vezes eu sou outra. As vezes eu poderia ser outra. Naquela noite ela veio,
perigosamente perto, fascinantemente perto. Esperava cada golpe do chicote
com sofreguidão exata, ânsia ferina, cheiro de sangue. A dor invadiu tudo,
latejando de medo nas sombras. Cada músculo estremecia no sibilar das
cordas, precisas e sem piedade. Mas ela? Ela apenas olhava e sorria,
escorrendo líquidos e não lágrimas, impedindo que eu falasse chega.
Tenho medo dela e esse medo a impede de me tomar por completo.
Se me deixo ir, a entrega é total, completa, profunda. Ela é Lilith e não tem
medos. Nem limites.
Você a deseja?

XXXII

Ela gosta de aventuras ousadas, onde amar seja o mais simples dos gestos,
e odiar o mais normal dos sentimentos.
Seria ela anjo ou demônio?
No mundo dos homens classificar é fundamental, afinal se assim não fosse,
o que seriam dos dicionários?
Assim sendo, nem anjo, nem demônio, apenas uma interrogação.
Por enquanto.

XXXIII
Gatos e Ratos

Existem ratos inteligentes. Eles adoram queijo, mas percebem armadilhas na


ratoeira. Mordem devagar, aos pedaços, para sobreviver até o próximo
episódio. Mas chegará o dia da última mordida.
E então?
O que fará nosso exótico gato ? Finalmente irá comer o rato ou surpreenderá
sua persistente platéia?
Gatos podem poupar ratos? O que podem pedir em troca da vida dos inocentes
bichinhos?
Estas e outras perguntas no próximo capítulo de:
O GATO FRANCÊS X A RATA BRASILEIRA

XXXIV

Nunca vi alguém mais selvagem que Heathcliff e sua natureza primitiva


por trás dos olhos escuros,
Morreria mil vezes por Catherine, até debaixo das patas de um cavalo,
se assim ela pedisse, alma infantil e demoníaca.
Acostumada a rir das suas vítimas até tornar-se uma delas,
perdida na boca do demônio.
Seria o vento capaz de abraçar uma tempestade?
Apenas se fosse o último abraço
Antes da queda no abismo.

XXXV

Dentro de mim mora um anjo, de lábios pintados em rouge-carmim.


Uma vez era um anjo louro, de cabelos claro-transparentes. Queria ser Brigitte,
Catherine ou Marilyn, bela como as rosas, mortal feito beijo envenenado.
Sonho inusitado,

XXXVI

Estou fria como a neve que cobre meu corpo inteiro.


Mesmo assim, não suporto o calor de um cigarro aceso.

XXXVII

A LOJA
Na loja meu corpo foi exposto, desnudo aos olhares no espelho. Você escolheu
uma peça de classe, rosa como todos os tons do meu rosto. As miradas
famintas iam chegando perto, cada vez mais perto, mas não foi dessa vez o
castigo.
O BAR
Na rua meu corpo se ofereceu, caminhando nú debaixo do casaco, longo e
negro como as sombras da minha vergonha. Os loucos olhares nas pernas
enrubesceram todas as minhas, recortadas ao fundo da cidade-luz.
Qual delas gozou no teu carro? Não sei, afinal perdi as calcinhas.

A MATA
Uma viagem para outro planeta, surrealista e divina. Quem sabe cruel.
Você era outro, estranho e assustador, fazendo meu corpo arrepiar inteiro.
O estalo chegou depressa e bateu forte nas pernas, uma, duas três, quatro
vezes. O chicote queimou na palavra dor, enquanto mãos desconhecidas
tocavam meus seios. Grossas e ásperas, apertando, gemendo, resfolegando
como um bicho no cio. Não pude chorar, então quis me deixar escorregar para
uma escuridão abençoada, mas os golpes na vagina não deixaram, forçando
sempre a consciência total e trêmula. Agora era apenas dor, muita dor, cada
vez mais dor. De repente, acabou. Acabou mas não voltei, na ida para o hotel
não era eu. Silenciosa , não sei quem eu era. A caronista falava e falava, eu
nem sequer ouvia, apenas desejando o refúgio seguro do meu quarto e a
distância de ti, o estranho da mata. Olhei as marcas no banheiro, eram de outra
pessoa. Ainda não era eu, pensei fugir dessa outra e do estranho da mata.
Olhei lentamente para a mala no armário. Mas não sou especialista em fugas.

XXXVIII

A casa chora por ela, sua dona. Das paredes nascem humidades novas, do
chão brotam repentinos espaços. Há quadros que devem ser retirados em sinal
do fim, há cores que devem ser perdidas em sinal de luto, há espelhos que
devem ser cobertos, em sinal de respeito.
Por quem chora essa casa? Por àquela que a pariu, pedaço a pedaço, enfeite
a enfeite. Por àquela que fez dela sua extensão, quase alma gêmea de tijolo e
argamassa, de luz e de sombras.
A casa chora por ela, sabe que não está mais presente, talvez caminhe muito
longe daqui, procurando sua Terra do Nunca.

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