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A Ideologia Alemã

Karl Marx e
Fr1edrich _Engels

A ideologia alemã.

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ISBN B5 -336 -0B20 -9

1 li
9 788533 608207
Martins Fontes
''As relações entre as diferentes nações
dependem do estágio de desenvolvimen-
to em que cada uma delas se encontra, no
que concerne às forças produtivas, à
divisão do trabalho e às relações internas.
Este princípio é universalmente reconhe-
cido. Entretanto, não s6 as relações entre
A IDEOLOGIAALEMÃ
uma nação e outra, mas também toda a
estrutura interna de cada nação, depen-
dem do nível de desenvolvimento de sua
produção e de seus intercâmbios internos
e externos. Reconhece-se da maneira mais
patente o grau de desenvolvimento alcan-
çado pelas forças produtivas de uma nação
pelo grau de desenvolvimento alcançado
pela divisão do trabalho."

KM eF.E.

CAPA

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~
A IDEOLOGIA ALEMA
Karl Marx e Friedrich Engels

Tradução
LUIS CLAUDIO DE CASTRO E COSTA

Martins Fontes
São Paulo 200 /
Índice
fsta obra foi publicada originalmente em alemão com o título
D/E DEUTSCHE IDEOLOGIE (ERSTER TE/l).
Copyrigh~ © 1989, Livraria Martins Fontes Editora ltda.,
São Paulo, para a presente edição.

11 edição
agosto de 1989
21 edição
abril de /998
21 tiragem
fevereiro de 2001

Tradução a partir da versão francesa


LUIS CLAUD/O DE CASTRO E COSTA

Revisão técnica
Introdução - O nascimento do Materialismo His-
Valdizar Pinto do Carmo tórico .................................................................... . VII
Mauro de Queiroz
Revisão da tradução Cronologia ................................................................ . XLI
Manica Stahel
Revisão gráfica
Nota desta edição .................................................... . XLV
Andréa Stahel M. da Silva
Produção gráfica
Geraldo Alves A IDEOLOGIA ALEMÃ
Paginação/Fotolitos Prefácio ............................................. ........................ .
Studio 3 Desenvolvimento Editorial
3

Dados lnlernaciooais de Catalogação na Publicação (CIP) FEUERBACH - OPOSIÇÃO ENTRE A CONCEPÇÃO


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) MATERIALISTA E A IDEALISTA
Marx. Karl. 1818-1883.
A ideologia alemã / Karl Marx e Friedrich Engels ; [introdução
Introdução .............................................. .................. . 5
de Jacob GorenderJ ; tradução Luis Claudio de Castro e Costa. - A. A ideologia em geral e em particular a ideolo-
São Paulo: Martins Fontes, 1998. - (Clássicos)
gia alemã ............................................................. .. 7
Título original: Die Deutsche ldeologie (Erster teil)
ISBN 85-336-0820-9 B. A base real da ideologia ...................................... . 55
1. Comunismo 2. Engels, Friedrich, 1820-1895 3. Feuerbach, C. Comunismo - Produção do próprio modo de
Ludwig, 1804-1872 4. Ideologia 5. Marx, Karl. 1818-1883 6. Ma-
terialismo histórico 1. Engels, Friedrich, 1820-1895. II. Gorender,
trocas ..................................................................... . 87
Jacob. I 923-. III. Título. IV. Série.

97-5739 CDD-193 ANEXO - TESES SOBRE FEUERBACH. ...................... .. 99


Índices para catálogo sistemático:
1. Engels : Obras filosóficas 193
2. Feuerbach : Obras filosóficas 193 Notas................................. ..................................... 105
3. Marx, Karl : Obras filosóficas 193

Todos os direitos para a lfngua portuguesa reservados à


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Introdução
O Nascimento do Materialismo Histórico

Pertence ao consenso geral dos estudiosos do mar-


xismo a tese de que A Ideologia Alemã assinalou o nas-
cimento do materialismo histórico, teoria e metodologia
da ciência social associada aos nomes de Marx e Engels.
Louis Althusser apontou nessa obra o corte epistemoló-
gico, que separa a fase pré-marxista do pensamento de
Marx e Engels da fase propriamente marxista, na qual
trabalham com sua teoria original.
O problemático na idéia do corte epistemológico, tal
como o apresenta o filósofo francês, consiste na ausên-
cia de explicação do porquê e do como se deu a passa-
gem de uma fase a outra. As duas aparecem absolutamen-
te separadas e estranhas entre si, uma vez que, em am-
bos os casos, se trata de estruturas fechadas. Não se vê
de que maneira a primeira fase preparou a seguinte, na
qual elementos precedentes se eliminam ou se conser-
vam transformados. O corte epistemológico althusseria-
no destaca acertadamente a descontinuidade, porém esta
se expõe como resultante de um ato de criação sem his-
tória, na medida em que se omite o outro lado do proces-
so, o da continuidade.
Na verdade, em 1845-1846, quando redigem em par-
ceria o manuscrito de A Ideologia Alemã, Marx e Engels

VII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A ldeok,Ria Alemá _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ f11trod11çáu _ _ _ _ _ _ _ _ __

já haviam percorrido longo caminho de elaboração teó- A primeira concepção filosófica de Marx não podia
rica e de prática política, apesar de se encontrarem ainda deixar de ser idealista. Assimilou a ética do imperativo ca-
na terceira década da existência. Ambos já eram senho- tegórico de Kant e o princípio da atividade subjetiva de
res de vasto acervo cultural submetido à reformulação Fichte. Aceitou a Idéia hegeliana na versão que lhe davam
por uma crítica poderosa e ambos se achavam imersos, os jovens hegelianos, isto é, os hegelianos de oposição.
de corpo e alma, na agitação política de um momento de Se Marx devia começar sua trajetória filosófica pela
virada na história européia do século passado. filosofia idealista dominante, não o fez sem imprimir já
neste ponto de partida características pessoais, que se
desenvolveriam através de sua vida. As características da
1. Do Hegelianismo de Oposição ao crítica sempre desperta e do impulso para a prática.
Socialismo Ut6pico O enfoque crítico era estimulado pelo próprio fato da
desagregação da escola hegeliana. Dentro dos quadros
Nos cursos de Direito, Filosofia e História, que con-
dela, as orientações divergiam e as discussões se acirra-
cluiu na Universidade de Berlim, o jovem Marx se inte-
vam, conforme se privilegiava este ou aquele aspecto do
grou na vida intelectual e política, dentro da qual se for- sistema (a Substância, a Autoconsciência etc.).
taleciam tendências de oposição à monarquia absolutis- Pela primeira vez na história da filosofia, precisa-
ta da Prússia. Já predisposto pela influência paterna, im- mente na obra hegeliana, a dialética adquiriu formulação
pregnada do iluminismo francês, o estudante Marx se fez consciente e sistemática. Marx se sentiu atraído especial-
também oposicionista e assumiu a ideologia alemã da mente pela dialética, cuja marca percorre sua tese de dou-
qual viria a ser o crítico mais radical. torado sobre a Diferença da Filosofia da Natureza em
A oposição à monarquia absolutista crescia no inte- Demócrito e Epicuro. Significativa a escolha da disserta-
rior dos quadros da filosofia idealista clássica, particular- ção acerca de dois filósofos materialistas, quando o mes-
mente da escola de Hegel, cujo estatuto era o de filoso- tre Hegel simplesmente afirmava a impossibilidade lógi-
fia oficial. Satisfazia à monarquia na medida em que exal- ca de uma filosofia materialista. Enquanto o mestre havia
tava o Estado como o reino da Razão, mas também se- sido fortemente depreciativo com relação a Epicuro, o
duzia a oposição, enquanto acenava com o ideal do cons- candidato à láurea acadêmica descobriu no materialista
titucionalismo. grego a idéia da dialética dos átomos, o que discrepava
Comprimida pela censura governamental, a oposi- da negação da dialética da natureza pelo autor da Ciên-
ção atacava o regime político de viés, visando ostensiva- cia da Lógica. Escrita em 1839, a tese conferiu ao seu au-
mente não ao Estado, mas à religião associada ao Estado. tor, dois anos depois, o título de doutorado pela Univer-
Esta linha de ataque indireto se iniciou com a Vida de sidade de lena.
Jesus, de David Friedrich Strauss, publicada em 1835 e Marx não seguiu, porém, a carreira universitária. Em
propulsara de estudos da história do cristianismo. 1841, ingressou na Gazeta Renana, da qual veio a assu-

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mir a chefia da redação. Editado em Colônia, o jornal que seria a mais dinâmica para o trabalho teórico: a idéia
exprimia a orientação da burguesia liberal no período do proletariado enquanto classe mais explorada e, por
em que se acumulavam as forças propulsaras da revolu- isso mesmo, mais revolucionária. Aquela capacidade para
ção democrático-burguesa na Alemanha. emancipar a sociedade da divisão em classes e recuperar
Em 1843, após numerosos atritos com a censura, a para os homens a verdadeira vida comunitária e a plena
Gazeta Renana teve a circulação proibida. No entretem- realização individual.
po, seu redator-chefe passou por um curso prático de Pouco mais jovem do que Marx e independente
política. Defrontou-se com o Estado no cotidiano de sua dele, Friedrich Engels havia chegado por caminho diver-
ação perante a sociedade e tomou conhecimento de fa- so à mesma conclusão sobre o caráter revolucionário do
tos demonstrativos da íntima relação entre economia, di- proletariado. Filho de um industrial têxtil que o queria
reito e política. Impressionou-o, por exemplo, que a li- comprometido com a carreira comercial, Engels ficou
vre coleta de lenha pelos camponeses nos antigos bos- impedido de seguir o curso universitário e se limitou a
ques comunais, segundo a lei consuetudinária feudal, se assistir conferências como aluno-ouvinte. Tomou partido
convertesse em crime de furto pela nova legislação ins- pela oposição à monarquia absolutista e percorreu o tra-
jeto intelectual do hegeliano de oposição. Mas suas via-
pirada no princípio burguês da propriedade privada, sob
gens à Inglaterra, a serviço da firma paterna, o puseram
a proteção dos agentes do Estado.
cedo em contato com o movimento operário e com as
A atividade jornalística também impôs a obrigação de
idéias socialistas, no que se antecipou a Marx. Travou
pronunciamento acerca das correntes socialistas. Marx se relações pessoais com os líderes do partido cartista in-
declarou adversário delas, ao mesmo tempo reconhecen- glês e passou a colaborar nos seus jornais. Também mais
do sua ignorância a respeito de tais doutrinas. Estas se cedo do que Marx, tomou conhecimento da Economia
difundiam na Alemanha, apesar do atraso industrial do Política inglesa, na qual viu a expressão dos interesses
país e do caráter pouco mais do que incipiente do seu de classe da burguesia e da qual, a princípio, recusou o
proletariado. Eram doutrinas vindas da França e associa- núcleo categorial. Ou seja, o conceito de valor-trabalho.
das aos nomes de Fourier, Proudhon, Saint-Simon e A afinidade de pensamento aproximou Marx e Engels,
outros. Variantes todas do socialismo como ideal antibur- desde seu primeiro encontro em 1844. Entre ambos,
guês desprendido das lutas econômicas e políticas das estabeleceu-se uma colaboração íntima e intensa, que se
massas trabalhadoras e caracterizadas pelo mesmo cará- prolongaria até a morte de Marx, quarenta anos depois.
ter utópico. Os próprios alemães já possuíam uma litera-
tura socialista com Weitling, Moses Hess e Karl Grün.
A partir de 1843, Marx se aproximou das seitas so- 2. A Influência de Feuerbach
cialistas e, em Paris, entrou em contato pessoal com Quando se encontraram pela primeira vez em Paris,
Proudhon. Incorpora-se, então, ao seu pensamento a idéia, Marx e Engels haviam passado pelo impacto de extraor-

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dinário acontecimento intelectual para a Alemanha da desta ilusão é necessário a fim de recuperar a essência
época. Em 1841, Ludwig Feuerbach publicava A Essência humana alienada e restabelecer a comunidade verdadei-
do Cristianismo. Em 1843, vinha à luz Fundamentos pa- ra do gênero humano. O homem é o Deus do homem.
ra a Filosofia do Futuro. No reconhecimento desta verdade estava a grande vira-
A primeira obra prosseguia na linha inaugurada por da libertadora da história.
Strauss de investir contra o regime político dominante de Feuerbach dirigiu contra Hegel a crítica acerca da
viés, através do ataque à religião cristã oficial. Mas o fa- concepção deísta, queimaginava um Deus abstrato, des-
zia com radicalismo, com a defesa aberta do ateísmo, pido de predicados antropomórficos. O panteísmo hege-
com a adoção sem subterfúgios do materialismo. Trata- liano colocava sobre a religião o disfarce especulativo. A
va-se também de ataque contundente ao sistema idealis- existência sem essência é o mesmo que inexistência. A
ta hegeliano, até então submetido a interpretações diver- essência de Deus são seus predicados, nos quais se com-
gentes, que disputavam entre si a verdade do sistema e preendia a essência humana objetivada.
não saíam dos seus limites. Agora, afinal, ele era ultra- Nos Fundamentos para a Filosofia do Futuro, Feuer-
passado e o pensamento filosófico podia se desenvolver bach desenvolveu o materialismo sob a forma de huma-
já sobre o terreno do materialismo e não do idealismo. nismo naturista. Preso à categoria de religião, que consi-
Em A Essência do Cristianismo, Feuerbach inverteu derou consubstancial à história humana, propôs substi-
o significado do que Hegel chamava de alienação, do tuir a religião cristã pela religião da humanidade. A reli-
processo pelo qual a Idéia Absoluta se fazia Ser-Outro na gião do homem recuperado enquanto gênero natural,
natureza e se realizava dialeticamente nas obras do Es- cuja manifestação suprema é o amor sexual. O materia-
pírito (religião, filosofia, moral, direito e Estado). Para lismo se apresentava como humanismo reintegrador do
Hegel, alienação significava objetivação e enriquecimen- homem à sua verdadeira natureza genérica e realizador
to. Tratando do Deus da religião cristã, Feuerbach dizia de suas potencialidades na comunidade do gênero natu-
que era uma criação do próprio homem. O homem se ral. O que implicava o desprendimento das alienações
objetiva em Deus e nele projeta suas melhores qualifica- que cindiam o homem consigo mesmo e o separavam
ções: amor, bondade, sabedoria, justiça. Tanto mais o dos demais indivíduos do seu gênero.
homem empobrecia sua essência quanto mais Deus se Marx e Engels acolheram com entusiasmo as obras
enriquecia com os atributos dela. A essência de Deus é a de Feuerbach e, por seu intermédio, fizeram a transição
essência alienada do homem. A objetivação alienada não ao materialismo. Como não podia deixar de ser naquele
é enriquecimento, mas empobrecimento. A crítica da Teo- momento, aceitaram o materialismo sob a forma que
logia se funda na Antropologia. Submetido a Deus, sua lhes apresentava Feuerbach: a do humanismo naturista.
criação, o homem se cinde, se separa dos outros homens, Contudo, assim como não foram hegelianos por in-
isola-se do seu gênero natural ( Gattung). Libertar-se teiro, Marx e Engels não aceitaram Feuerbach com espí-

XII XIII
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- - - - - - - - - A Ideologia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __

rito de ortodoxia. Conservaram elementos anteriormente operano, mas de dentro dele. Já é como intelectuais or-
adquiridos: a dimensão ética recebida de Kant e sobre- gânicos da classe operária que Marx e Engels subme-
tudo, a dialética de Hegel. Nela não enxergand~ senão tem à crítica a mais avançada cultura do seu tempo e ex-
especulação idealista, Feuerbach a deixara completamen- traem dela algo contrário a ela, ou seja, a expressão teó-
te à margem. Marx e Engels iniciaram profundo proces- rica dos interesses de classe do proletariado. Não se trata
so de reelaboração da dialética hegeliana, que resultará de acontecimento puramente intelectual, mas também de
numa revolução filosófica: a integração do princípio da acontecimento sócio-político de significação histórico-
dialética no corpo do materialismo e a reconstrução des- mundial.
te como materialismo dialético. O processo de avanço do pensamento marxiano se
dá não só na direção do rompimento com o sistema de
Hegel, porém, ao mesmo tempo, do rompimento com os
3. O Processo das Transições jovens hegelianos, uma vez que estes continuavam no
plano do idealismo filosófico e adotavam a perspectiva
De 1843 a 1846, quando se conclui a redação de A
da revolução liberal-burguesa. Dentre esses jovens hege-
Ideologia Alemã, os escritos de Marx se caracterizam
lianos, são os irmãos Bauer os mais visados, especialmen-
pela influência desses vetores de sua formação cultural,
te Bruno Bauer, que fazia da Consciência Crítica (inal-
os quais vão se depurando e amalgamando numa nova
cançável pelas massas trabalhadoras) o sujeito da revolu-
concepção.
ção. A Questão Judaica põe à luz a divergência básica de
Desta fase, são os escritos de Marx: Crítica da Filo-
Marx com os jovens hegelianos e proclama a estreiteza
sofia Hegeliana do Direito Público, A Questão Judaica,
da revolução burguesa (emancipação puramente políti-
Introdução ã Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e os
ca) em face da universalidade da revolução proletária
Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844. O primeiro
(emancipação humana total).
e o último somente seriam publicados postumamente, já
em nosso século. Quanto a Engels, publicou, em 1844, o Mas o terreno sobre o qual se assenta a crítica mar-
Esboço ã Crítica da Economia Política. xiana ainda é o do humanismo naturalista de Feuerbach
Ainda que não pertencessem a nenhuma organiza- identificado com o objetivo da revolução proletária. A~
ção revolucionária, pois somente em 1847 é que ingres- mesmo tempo, os giros expositivos são de nítida inspira-
saram na Liga dos Justos (no mesmo ano, rebatizada de ção hegeliana, o que denuncia o apego marxiano à dia-
Liga dos Comunistas), Marx e Engels já atuavam em es- lética e o esforço em progresso no sentido de sua reela-
treito contato com numerosas entidades e correntes do boração materialista. Enquanto este esforço não se ulti-
movimento operário de vários países da Europa ociden- ma, mantém-se o comunismo concebido como escatolo-
tal. Assim, o surgimento do marxismo não se dá, confor- gia e a história aparece direcionada por uma teleologia,
me tem sido costume afirmar, de fora do movimento por um finalismo redentor. Mantém-se a dimensão ética

XIV XV
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Idculof!,iü Alcmú _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ f11trod11çâo _ _ _ _ _ _ _ _ __

procedente da razão prática de Kant. Crítica do capitalis- corrência ilimitada e impiedosa entre os homens, a con-
mo e perspectiva socialista encontram sua justificação nos sagração da alienação das forças sociais no poder do
princípios éticos da emancipação da humanidade enquan- capital. O estudo continuado da Economia Política clás-
to entidade suprema para os indivíduos humanos. sica o levará à aceitação posterior da teoria do valor-tra-
Os Manuscritos Econômico-Filos~ficos de 1844 - só balho, passo decisivo para a elaboração futura de O Ca-
publicados em 1932 e aos quais Marx nunca fez referên- pital. A aceitação se torna explícita na Miséria da Filo-
cia - contêm a crítica da sociedade burguesa vista na ex- sofia, obra de 1847 de polêmica contra Proudhon.
pressão teórica da Economia Política, principalmente a O momento de transição, em que se gesta o marxis-
das obras de Adam Smith, David Ricardo e J. B. Say. À mo, foi também marcado pela leitura apaixonada das
crítica da Economia Política segue-se uma exposição do produções da Historiografia. Sob esse aspecto, a con-
.comunismo enquanto realização do humanismo naturis- quista mais avançada vinha dos historiadores franceses
ta, enquanto recuperação da natureza genérica pelo ho- da época da Restauração (Thierry, Mignet, Guizot e
mem. O homem da sociedade comunista será o homem Thiers), que descobriram na luta de classes entre a aris-
total, livre das alienações e mutilações impostas pela di- tocracia e a burguesia a chave explicativa da Revolução
visão do trabalho reinante na sociedade burguesa e apto Francesa e das lutas políticas subseqüentes.
a realizar suas múltiplas potencialidades. A parte final Em princípio de 1845, veio a público A Sagrada Fa-
dos Manuscritos é a da crítica da dialética hegeliana en- mília, primeira obra em que Marx e Engels aparecem
quanto especulação idealista. Desfeita a especulação, já como co-autores. O alvo são os irmãos Bauer (Bruno,
desponta a dialética materialista. Edgar e Egbert), mas a crítica aos jovens hegelianos nos
No rascunho inédito, o socialismo ainda não tem base deu ensejo a ampla exposição da história da filosofia ma-
na concepção científica da história. Daí a inspiração ética terialista. Os co-autores ainda se mostram adeptos do
da argumentação. Mas é evidente que Marx se encontra materialismo antropológico de Feuerbach, ao tempo em
bem próximo da concepção científica da história e, por que seus conhecimentos e seu processo discursivo já
conseguinte, da superação do socialismo utópico. lhes permitem superá-lo.
Neste momento particular, a aproximação se deveu Sem dúvida, estavam acumulados os elementos es-
a Engels. O seu Esboço à Crítica da Economia Política senciais para um salto na história do conhecimento social.
deixou Marx fascinado, a ponto de, mais tarde, qualificá- Contudo, como enfatiza justamente Joseph Fontana,
lo de genial. Tratava-se da abertura de novo campo do o materialismo histórico de Marx e Engels não é soma ou
saber social, pelo qual Marx se sentiu atraído e por den- síntese de elementos anteriores. Não surgiu, sem dúvida,
tro do qval começou a avançar impetuosamente. Assim no vazio cultural, porém trouxe uma visão profunda-
como Engels, também Marx rejeitou a teoria do valor-tra- mente nova do desenvolvimento da sociedade humana e
balho e viu na Economia Política a justificação da con- um novo projeto de lutas sociais com vistas à transforma-

,XVI XVII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Jntroduçào _ _ _ _ _ _ _ _ __

çào radical da sociedade existente. O que conta não é relatou Marx, no Prefácio à sua obra Para a Crítica da
tão-somente identificar a procedência dos ladrilhos, mas Economia Política, publicada em 1859, os co-autores fo-
ressaltar o autor do plano do edifício. ram informados da impossibilidade imediata de impres-
são. Desistiram dela, mas sem amargura:
"Abandonamos tanto mais prazerosamente o manus-
4. O Materialismo Histórico em sua crito à crítica roedora dos ratos, na medida em que ha-
Primeira Formulação víamos atingido nosso fim principal: ver claro em nós
Em meados de 1845, Engels viajou a Bruxelas, onde mesmos."
Marx residia na ocasião. Puseram-se de acordo para a Com efeito, Marx e Engels passaram a limpo sua pró- ,
feitura de uma obra de crítica às tendências ideológicas pria ideologia anterior e a superaram, quando extraíram
burguesas, que disputavam a consciência oposicionista deste balanço implacável a nova concepção do processo
germânica, bem como às concepções utópicas do socia- histórico.
lismo. A contraposição positiva da crítica seria a exposi- A Ideologia Alemã só teve publicação quase um
ção de uma teoria da história, que se apresentava como século depois, em 1933, simultaneamente em Leipzig e
científica e que seria proposta como novo fundamento Moscou.
para a luta emancipadora pelo comunismo. Tal qual chegou até nós - poupado à crítica roedora
Escrevendo mais tarde, com sua exemplar modéstia, dos ratos -, o manuscrito ainda estava na fase da primei-
Engels afirmou que o materialismo histórico era uma ra redação, com numerosos trechos riscados e anotações
descoberta de Marx. Uma das suas duas maiores desco- marginais. Deveria servir de matéria-prima para a reda-
bertas, a outra sendo a da mais-valia. Marx chegara de ção definitiva. No entanto, mesmo nesta fase de rascu-
maneira independente ao materialismo histórico e ele, nho, o manuscrito contém longas exposições coerentes
Engels, não tivera senão parte pequena nesta façanha. Se e concatenadas, que lhe conferem boa legibilidade. Com
é verdade que o mérito maior cabe a Marx, a modéstia a peculiaridade adicional de revelarem o avanço discur-
de Engels esconde a magnitude de sua contribuição. sivo em processamento anterior à fixação formal.
Como foi visto, o seu escrito Esboço à Crítica da Econo- A Ideologia Alemã se divide em três partes, respecti-
mia Política exerceu decisiva influência sobre o grande vamente dedicadas à análise do pensamento em deter-
companheiro, além do que Engels possuía a visão direta minados personagens: Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer
da sociedade inglesa e do seu movimento operário, o e Max Stirner.
que lhe permitia formar uma idéia concreta do capitalis- A primeira parte - intitulada Feuerhach- é a mais di-
mo no país mais desenvolvido daquela época. vulgada em separado, uma vez que contém o esboço do
No final de 1846, o grosso manuscrito se achava con- materialismo histórico. Assinala o rompimento de Marx e
cluído, conquanto não tivesse redação final. Conforme Engels com o materialismo antropológico daquele filóso-

XVIII XIX
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Idm/ogia Alemú _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ /11trod11çâo _ _ _ _ _ _ _ _ __

fo, sobre o qual, ao contrário do esperado, apresenta es- 5. Conceito de Ideologia


cassas páginas. Por isso mesmo, em consideração à dívi-
O significado conferido por Marx e Engels ao termo
da que tinham para com ele, Engels lhe dedicou uma
ideologia constitui questão-chave na reviravolta repre-
análise especial numa obra de 1888 - Ludwig Feuerbach
sentada pela primeira formulação do materialismo histó-
e o Fim da Filosofia Clássica Alemã. Engels aproveitou a
rico.
edição dela para dar publicação póstuma às onze Teses
A palavra ideologia remonta à corrente sensualista
Sobre Feuerbach, escritas por Marx à época em que se
do pensamento francês. De Destutt de Tracy, uma das
via às voltas com A Ideologia Alemã. Não mais do que
figur;s destacadas desta corrente, é o livro Elementos de
anotações a serem desenvolvidas, redigidas, portanto
Ideologia, publicado em 1804. A ideologia seria o estudo
somente para uso próprio, as Teses contêm síntese sober-
da origem e da formação das idéias, constituindo-se nu-
ba dos fundamentos epistemológicos do materialismo ma ciência propedêutica das demais.
histórico.
Para Marx e Engels, a questão das idéias se colocava
A presente edição reproduz a primeira parte de A
no quadro do sistema de Hegel. Aí, a Idéia é o sujeito,
Ideologia Alemã e as Teses Sobre Feuerbach. cujo predicado consistia nas suas objetivações (a nature-
As partes seguíntes encerram interesse principalmen- za e as formas históricas da realidade social). Em A Es-
te polêmico. Bruno Bauer era o representante mais des- sência do Cristianismo, Feuerbach inverteu a relação, ao
tacado da esquerda hegeliana, tendo feito contribuição fazer do homem natural o sujeito. As idéias religiosas, a
importante no âmbito da história do cristianismo. Oposi- começar pela de Deus, seriam objetivações dos predi-
tor do absolutismo prussiano, mantinha-se no terreno do cados do sujeito humano. Por conseguinte, objetivações
idealismo filosófico e da perspectiva da revolução bur- de sua essência.
guesa. Max Stirner ficou célebre por dar ao idealismo a Marx e Engels saltaram sobre as fronteiras da reli-
configuração do mais extremado individualismo, do ho- gião, dentro das quais se comprimia Feuerbach, para o
mem como Único, absoluto no seu egoísmo. Engels es- terreno da história universal. Do ponto de vista materia-
creveu que Bakunin partiu de Stirner e de Proudhon e à lista, o sistema hegeliano devia ser revirado. As idéias de
doutrina que extraiu da fusão de ambos deu o nome de toda ordem - religiosas, filosóficas, morais, jurídicas, ar-
anarquismo. tísticas e políticas - não se desenvolviam por si mesmas
Igualmente em rascunho ficou uma extensa crítica como entidades substantivas, condensadas no ápice pela
ao "verdadeiro" socialismo de Karl Grün, então prestigia- Idéia Absoluta, identidade final entre Ser e Saber. O de-
do nos círculos alemães. Tratava-se de variante emascu- senvolvimento das idéias era subordinado, dependente,
ladora do socialismo utópico francês com uma fraseolo- predicativo. As idéias se sistematizavam na ideologia -
gia abstrata e vazia, cujo anticapitalismo expressava as compêndio das ilusões através das quais os homens pen-
posições regressivas da pequena burguesia. . savam sua própria realidade de maneira enviesada, defor-

XX XXI
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ J11trod11çào _ _ _ _ _ _ _ _ __
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A JdeoloP,ia Alemà _ _ _ _ _ _ _ __

mada, fantasmagórica. A primeira e máxima ilusão, pró- dagem, por parte dele e de Marx. É desta fase a célebre
pria de toda ideologia, consistia justamente em lhe atri- afirmação engelsiana sobre a determinação econômica
buir a criação da história dos homens. Sob o prisma da em última instância. As ideologias se desenvolvem com
ideologia é que a história se desenvolve como realização algum grau de autonomia, de acordo com a matéria tra-
da Idéia Absoluta, da Consciência Crítica, dos conceitos dicional específica acumulada, exercem influência re-
de Liberdade e Justiça e assim por diante. Ora, tais idéias troativa sobre a base econômica e condicionam as formas
não possuem existência própria, mas derivada do subs- do desenvolvime nto histórico.
trato material da história. À sua própria teoria Marx e Engels nunca chamaram
Por conseguinte, a ideologia pertence ao âmbito do de ideologia. Consideravam sua teoria como reconstru-
que Marx chamou depois de superestrutura . Tanto ele ção científica da realidade social e, ao mesmo tempo, ex-
quanto Engels, em toda sua obra posterior, empregaram pressão dos interesses de classe do proletariado. Implici-
o termo sempre no sentido exposto em A Ideologia Ale- tamente, isto significava que o proletariado era a única
mã. Conquanto fizessem numerosas análises extrema- classe capaz de se libertar da ilusão ideológica em geral
mente ricas de formas e manifestações da ideologia, o e alcançar a visão objetiva correta da história humana e
sentido fundamental não mudou. Ou seja, o da ideologia da sociedade existente.
enquanto consciência falsa, equivocada, da realidade. Não obstante, o conceito de ideologia ganhou signi-
Porém consciência necessária aos homens em sua convi- ficados diferentes na história do marxismo. Lenin se refe-
vência e em sua atividade social. Consciência falsa que riu à ideologia socialista como sinônimo do marxismo
não resulta de manipulação calculista, de propagandis- ou seja, da teoria científica revolucionária. Assim, a ideo~
mo deliberado, mas da necessidade de pensar a realida- logia não era em todos os casos uma consciência falsa da
de sob o enfoque de determinada classe social, no qua- realidade. No caso da classe operária, a ideologia socia-
dro das condições de sua posição e funções, das suas lista é uma consciência verdadeira da sociedade.
relações com as demais classes etc. Manipulação e pro- O conceito de ideologia encontrou abordagens di-
pagandismo têm sua matriz na ideologia, como tradu- versificadas em Kautsky, Plekhanov, Bukharin, Gramsci e
ções a níveis culturais inferiores e para enfrentamento de Lukács. Fora do campo do marxismo, porém sob sua in-
injunções imediatistas. fluência, ganhou relevo a abordagem de Mannheim. Tra-
Uma das elaborações mais profundas do conceito de ta-se de conceito cujo significado continua em disputa e,
ideologia é a teoria marxiana do fetichismo da mercado- ~or conseqüência, toda sua aplicação discursiva e histo-
ria, do capital e de outras categorias da economia bur- nográfica. A importância de A Ideologia Alemã consiste
guesa (lucro, juros, renda da terra e salário). Na fase final em ter sido a obra germinativa desta discussão fecunda
de sua vida, Engels deu atenção especial à questão da no campo do pensamento social.
ideologia e fez autocrítica de certo unilateralismo de abor-

XXII XXIII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Idculogia Alemâ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ /11trod11çâo _ _ _ _ _ _ _ _ __

6. A História e seu Substrato Material É a partir daí que podem ser definidas as relações
entre Ser e Consciência. Não é a consciência que deter-
O ponto de partida da história não pode ser a Idéia,
mina a vida (posteriormente, Marx falará em ser), senão a
nem qualquer conceito. Não se devia fazer da história,
vida é que determina a consciência. Esta não pode ser
como ocorre com Hegel, o autodesenvolvimento do con-
outra coisa que não o ser consciente e o ser consciente
ceito.
dos homens é o processo de sua vida real. Aqui se ascen-
Sendo assim, tampouco servia o conceito de homem.
Com ele começava Feuerbach, ao configurar a essência de da terra ao céu, ao contrário da filosofia alemã, que
imutável do homem como abstração inerente ao indiví- desce do céu sobre a terra. Aqui, parte-se do homem em
duo isolado. Ao indivíduo natural, o qual unicamente carne e osso.
enquanto gênero, enquanto universalidade interna, se liga Para que os homens consigam fazer história, é abso-
de maneira também puramente natural aos demais indi- lutamente necessário, em primeiro lugar, que se encon-'
víduos humanos. Na sua sexta tese sobre Feuerbach , trem em condições de poder viver; de poder comer, be-
contrapôs Marx a esta concepção a afirmação de que a ber, vestir-se, alojar-se etc.
essência do homem é o conjunto das relações sociais. A A satisfação das necessidades elementares cria ne-
conformação corpórea natural é condição necessária do cessidades novas e a criação de necessidades novas cons-
ser homem. Não é condição suficiente. A humanização titui o primeiro ato da história.
do ser biológico específico só se dá dentro da sociedade Em cada momento dado, os homens utilizam as for-
e pela sociedade. ças produtivas de que dispõem e organizam formas de
A premissa de que parte a ciência positiva da histó- intercâmbio correspondentes. Intercâmbio ou comércio
ria são os indivíduos humanos reais, sua ação e condi- (no sentido lato de relacionamento) é a tradução da pa-
ções reais de vida. Premissa à qual se chega por via em- lavra alemã Verkehr, que Marx e Engels empregam em A
. pírica, dispensando filtragens filosofantes. A premissa de Ideologia Alemã. Mais tarde, com o refinamento da ter-
toda história humana é a existência de indivíduos huma- minologia marxiana, formas de intercâmbio ( Verkehrfor-
nos viventes. Neste fato concreto se funda o materialis- men) será substituído por relações de produção (Produk-
mo histórico. tionverhaltnisse).
O que distingue os indivíduos humanos é que pro- A conjugação da produção material com a forma
duzem seus meios de vida, condicionados por sua orga- correspondente de intercâmbio constitui o modo de pro-
nização corpórea e associados em agrupamentos. Os in- duçà~. Este se identifica com o que, na época, a literatu-
divíduos humanos são tais como manifestam sua vida. O ra polttica chamava de sociedade civil. Ou seja, a esfera
que são coincide com sua produção, tanto com o que das necessidades materiais dos indivíduos, a esfera em
produzem quanto com o modo como produzem. O que que o s m· d'1v1'duos cuidam dos interesses particulares. Por
os indivíduos são depende, portanto, das condições ma- conseguinte, o reino das relações econômicas. A socie-
teriais de sua produção. dade civil é a base de toda história.

XXIV XXV
_ _ _ _ _ _ _ _ _ Jntrod11çào _ _ _ _ _ _ _ _ __
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Jdeolof!,ia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __

Surpreende que Pierre Vilar afirme que falta em A Apesar das falhas, decorrentes de insuficiências dos
Ideologia Alemã o conceito central de modo de produ- próprios autores, a exposição é brilhante e representou
ção, donde uma visão sociológica bastante vaga e não uma revolução historiográfica. Aqui e ali, certas afirma-
suficientemente fundada. Se é verdade que o materialis- ções podem até chocar pela simplificação. Como, por
mo histórico se apresenta nesta obra em esboço, se é ver- exemplo, para validar a tese da universalização dos vín-
dade que a terminologia sofrerá posterior refinamento, culos econômicos pelo capitalismo, a afirmação de que a
só pode ser atribuído a equívoco do historiador francês luta do povo alemão por sua independência, em 1813, re-
a suposição da ausência do conceito certamente central sultou da escassez de café e açúcar provocada pelo blo-
do materialismo histórico. Em diversas passagens de A queio continental imposto por Napoleão. Em conjunto,
Ideologia Alemã, fala-se em modo de produção com o não obstante, tem-se a primeira explicação geral do de-
mesmo significado que terá nas obras marxianas poste- senvolvimento da sociedade humana à luz do materialis-
riores, conquanto sem o aprofundamento delas. mo histórico. As idéias cardeais do rascunho serão difun-
A história é, em primeiro lugar, a história da socieda- didas, de maneira depurada e concisa, no Manifesto do
de civil, não a história do Estado. As formas de intercâm- Partido Comunista, publicado no início de 1848.
bio a princípio se apresentam comó condições da produ- A história já aparece como história da luta de clas-
ção material. Mais tarde, convertem-se em travas desta ses. É verdade que, em A Ideologia ~lemã, o conceito de
produção. A forma de intercâmbio existente é substituí- classe social ainda não está deslindado do conceito de es-
da por outra nova, de acordo com as forças produtivas tamento. Daí formulações como as de que a burguesia já
desenvolvidas. Em cada fase, as condições de intercâm- era uma classe e não um simples estamento e de que, ao
bio correspondem ao desenvolvimento simultâneo das se desenvolverem, os estamentos se convertem em clas-
forças produtivas. A história se apresenta assim como ses, o que só ocorreria na sociedade burguesa. No Ma-
sucessão de formas de intercâmbio e de ~odas de pro- nifesto do Partido Comunista, a indefinição é corrigida e
dução. Estava aí delineada já a lei da correspondência o texto começa com a taxativa declaração de que a his-
necessária entre as forças produtivas e as relações de pro- tória sempre foi a história da luta de classes remontada
dução, axial na concepção do materialismo histórico. às lutas entre homens livres e escravos na Àntiguidade
Dentro desta concepção, pela primeira vez sistema- e abrangente das lutas entre as categori;s estamentais d~
sociedade feudal.
tizada, é que Marx e Engels expõem uma síntese do de-
senvolvimento histórico, valendo-se dos conhecimentos Numa passagem do manuscrito, que os autores ris-
caram, figura a tese de que "(. ..) não conhecemos senão
positivos que a Historiografia da época lhes oferecia.
uma ciência, a da história". A tese foi riscada provavel-
Dão ênfase às mudanças de formas de propriedade, em
mente por ser fortíssima. Já havia o conhecimento huma-
conformidade com as mudanças das formas sociais de
no chegado, em meados do século XIX, a um patamar
produção.

XXVII
XXVI
- - - - - - - - - A Ideologia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __ ---------------/1 1trod11çâo _ _ _ _ _ _ _ _ __

de contínua autonomização, especialização e pluraliza- certo segmento da classe dominante, o qual se dedica a
ção das ciências. Marx e Engels não pretenderiam refu- pensar. A tarefa exclusiva· de _rensar se enobrece, en-
tar este processo, o que seria reacionário. Queriam, no quanto se envilecem as tarefas exigentes de esforço físi-
entanto, proclamar a dialética (portanto, a história) em co, entregues aos indivíduos das classes dominadas e ex-
todas as regiões do real. Daí também escreverem, no tre- ploradas.
cho riscado, que a história pode ser examinada sob os Uma vez que a tarefa de pensar (isto é, de realizar
dois aspectos de história da natureza e de história dos elaborações intelectivas e de exercer a direção da socie-
homens. Aspectos que se condicionam reciprocamente, dade) se torna privilégio de estreito círculo de indiví-
desde que os homens começaram a existir e a agir sobre duos, isentos da obrigação do trabalho produtivo, a
a natureza. consciência destes indivíduos dominantes se entifica na
idéia da Consciência substantivada e colocada no reino
das abstrações imateriais. A Consciência entificada se
7. Da Divisão do Trabalho às Ilusões Ideológicas imagina ser algo mais e algo distinto da prática existen-
Sob influência da leitura dos economistas, particular- te. Imagina que representa realmente algo sem represen-
mente de Adam Smith, os autores de A Ideologia Alemã tar algo real. Desde este instante, acha-se a Consciência
enfatizam a incidência qa divisão do trabalho no desen- entificada em condições de emancipar-se (ficticiamente)
volvimento histórico. Primeiro, na comunidade tribal, a do mundo e entregar-se à criação da teoria "pura", da
divisão do trabalho se baseia na diferença dos sexos. teologia "pura", da moral e da filosofia "puras" etc. Per-
Depois, toma por base as diferenças de forças físicas en- de-se de vista o substrato material de tais criações e são
tre os indivíduos de ambos os sexos. Com o surgimento elas que parecem propulsaras do desenvolvimento ma-
da divisão entre cidade e campo, as imposições naturais terial.
se tornam secundárias e avultam as condições sociais Dentro da própria classe dominante, observa-se adi-
propriamente ditas. A formação da classe dos comercian- visão entre seus membros ativos, ocupados com a práti-
tes, separada dos produtores, faz avançar ainda mais o ca da dominação, e seus membros intelectuais, encarre-
processo da divisão social do trabalho. Deste processo gados de elaborações ideológicas. Ou seja, da criação de
se origina a propriedade nas suas diversas formas, desde ilusões sobre a dominação de classe à qual pertencem.
a propriedade comunal tribal até a propriedade privada Pode-se dar até que membros ativos e membros intelec-
burguesa. Divisão do trabalho e propriedade são termos tuais da classe dominante entrem em discordâRcias, mas
idênticos. estas se desvanescem assim que a classe em conjunto vê
A divisão do trabalho alcança um patamar superior ameaçadas as bases de sua supremacia.
quando se separam o trabalho manual do trabalho inte- Desvendadas a origem e a formação da ideologia e
lectual. Este último passa -a ser função privilegiada de do idealismo filosófico em particular, Marx e Engels po-

XXVIII XXIX
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Jdeolof!,ia Alemà _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ fntrod11çào _ _ _ _ _ _ _ _ __

dem ir muito mais longe do que Feuerbach na crítica a com a divisão do trabalho, dá-se uma separação en-
Hegel. Na filosofia da história deste último, as idéias são tre O interesse particular e. o interesse comum. Os atos
o fator dominante no devenir histórico e, por antonomá- róprios dos indivíduos se erguem diante deles como po-
sia, das idéias diversas e sucessivas se abstrai a Idéia ~er alheio e hostil, que os subjuga. O interesse comum
Absoluta. A filosofia especulativa de Hegel considera so- se erige encarnado no Estado. Autonomizado e separado
mente o autodesenvolvimento do conceito, processo que dos reais interesses particulares e coletivos, o Estado se
se realiza imune às determinações da vida material con- impõe na condição de comunidade dos homens: Mas é
creta. Na história, o que Hegel vê é a "verdadeira teo- uma comunidade ilusória, pois o Estado, por baixo das
dicéia". aparências ideológicas de que necessar~amente se rev_es~
Separadas as idéias dos indivíduos dominantes, que te, está sempre vinculado à classe dominante e const1tu1
as pensam, e estabelecidos elos místicos, os quais apare- 0 seu órgão de dominação. Por conseqüência, as lutas
cem como autodeterminações espirituais, torna-se possí- de classe, que dilaceram a sociedade civil, devem tomar
vel compor uma Historiografia idealista. Por sua vez, esta a forma de lutas políticas. De lutas travadas sobre o ter-
Historiografia nutre de ilusões os ideólogos em geral, não reno do Estado enquanto poder geral e representante
só os filósofos, mas também os juristas e políticos, inclu- superior da própria sociedade civil.
sive os estadistas práticos. As relações existentes entre os Não é o Estado que cria a sociedade civil, conforme
homens não se determinam pelo que eles são e fazem na pretendia Hegel. Ao contrário, é a sociedade civil que
vida material concreta, porém derivam do conceito de cria o Estado. A sociedade civil é o verdadeiro lar e cená-
homem, do homem imaginário, da essência imponderá- rio da história. Abarca todo o intercâmbio material entre
vel e imutável do homem, enfim, do homem por antono- os indivíduos numa determinada fase do desenvolvi-
másia, por depuração e idealização metafórica. '
mento das forças produtivas.
A fim de evitar sua dissolução pelas contradições de
classe a sociedade civil deve se condensar no Estado e
8. Estado e Classe Dominante se ap;esentar enquanto Estado. Isto é, enquanto ilusão
A partir desta análise da formação social das ideolo- de um interesse comum sobreposto às contradições de
gias, Marx e Engels revolucionaram a teoria política. Pela classe e capaz de encobrir a dominação de uma classe
primeira vez na história das idéias políticas, o Estado dei- sobre as outras.
xou de ser conceituado como entidade representativa dos A força multiplicada decorrente da cooperação entre
interesses gerais e comuns da sociedade. Marx e Engels os homens gera um poder social que adquire a forma do
indicaram a vinculação do Estado aos interesses de de- Estado e aparece a estes homens não como poder deles
terminada classe social, isto é, aos interesses da classe próprios, porém como poder alienado, à margem dos
dominante. homens e fora do alcance do seu controle.

XXX XXXI
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Idmlof!,ia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Jntroduçâo _ _ _ _ _ _ _ _ __

Somente nesta passagem de A Ideologia Alemã se uti- 9. Visão Científica do Comunismo


liza o termo alienação, tão freqüente nas obras anteriores
de Marx, principalmente nos Manuscritos Econômico-Fi- Toda classe que aspira a "implantar sua dominação
losóficos de 1844. E, mesmo nesta passagem, os autores deve começar pela conquista do poder do Estado a fim
declaram que só falam de alienação para se tornarem de apresentar seu interesse particular com o aspecto de
compreensíveis aos filósofos. Tal declaração anuncia que interesse geral. De semelhante exigência não se excetua
os autores não mais se consideram epígonos qe Hegel, o proletariado, que objetiva a abolição de todas as for-
mas fundam novo método de pensar e novo campo do mas de dominação e exploração. A classe revolucionária
saber, possuidor também de nova terminologia. demonstra seu caráter revolucionário de antemão, já
Principalmente com a aceitação da teoria do valor- pelo fato de contrapor-se a uma classe não como outra
trabalho de Ricardo, tornada explícita logo depois em classe, senão como representante de toda a massa da so-
Miséria da Filosofia, o conceito de alienação deixou de ciedade ante a classe única, a classe dominante. Aqui, já
ser o eixo do sistema categorial marxiano. Dele não de- temos a tese de tanta importância para a teoria política ·
sapareceu, contudo. Em certos casos com a denomina- do marxismo acerca da hegemonia do proletariado,
ção de fetichismo, ganhou o conteúdo materialista das acerca do seu papel de direção de todos os oprimidos e
relações concretas entre os homens. explorados contra o domínio burguês.
O proletariado conquista o Estado para libertar a so-
Assim como o Estado é o Estado da classe dominan-
ciedade da tutela do Estado. Esta tutela se torna um po-
te, as idéias da classe dominante são as idéias dominantes
der intolerável diante da massa da humanidade absoluta-
em cada época. A classe que exerce o poder material
mente despossuída e em antagonismo com o mundo das
dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, seu poder
riquezas.
espiritual dominante. Mas os enlaces das idéias domi-
Com a regulação comunista da produção e a anula-
nantes com a classe dominante se obscurecem. As idéias
ção do comportamento dos homens diante dos seus pro-
dominantes parecem ter validade para toda a sociedade,
dutos como diante de algo estranho a eles, anula-se o po-
isto é, também para as classes submetidas e dominadas.
der da concorrência mercantil. Esboçada em A Ideologia
Forja-se a ilusão histórica de que cada época da vida so-
Alemã, a tese será desenvolvida no célebre trecho do
cial resulta não de determinados interesses materiais de
primeiro capítulo de O Capital, que trata do fetichismo da
uma classe, mas de idéias abstratas como as de honra e mercadoria.
lealdade (na sociedade aristocrática) e as de liberdade e
O comunismo significará a eliminação do trabalho.
igualdade (na sociedade burguesa). ? termo é entendido por trabalho forçado, conforme o
impunha aos homens a divisão obrigatória do trabalho.
O homem da sociedade comunista - o homem total -
s ,
era capaz de transitar livremente de uma tarefa a outra.

XXXII
XXXIII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ /11/rodurâo _ _ _ _ _ _ _ _ __
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A ldeol<w,ia Ale111â _ _ _ _ _ _ _ __

1O. Do Material ismo Contemp lativo


De ser pescador, caçador, pastor e crítico. De exercer, ao Material (smo Prático
sem coaçôes, as tarefas do trabalho manual e do traba-
lho intelectual. A IdeoloP,ia Alemã assinala o nascimen to do novo
O proletaria do só pode existir num plano histórico- materialismo, associado aos nomes de Marx e Engels _
mundial. Do mesmo modo, o comunism o só ganha rea- o materialismo dialético e histórico.
lidade como existência histórico-mundial. O novo materialismo se desentran ha da crítica ao
Comunism o não é um estado a ser implantad o, um materialismo de Feuerbach , cuja influência foi decisiva
ideal a que se sujeitará a realidade , o ponto ômega de para que Marx e Engels dessem o passo da superaçã o ra-
uma teleologia. Comunism o é o movimen to real, que dical da filosofia hegeliana.
anula e supera o estado de coisas atual. Marx e Engels Como se constata mais uma vez, o processo discur-
criticam a impotênc ia do socialismo utópico, proponen - sivo conducen te ao surgimen to do materialismo marxis-
te de planos de sociedade s perfeitas, cuja realização de- ta se desenvolv e sobre uma base cultural definida. Sem
pende da boa vontade dos indivíduos, sem relação com esta base, surgiria qualquer outra coisa e não o materia-
o estado geral da sociedade existente e com as lutas polí- lismo dialético. Ao contrário do que pretende Althusser,
Marx e Engels não passaram de uma estrutura fechada (a
ticas oriundas na luta de classes.
filosofia idealista alemã numa de suas variantes) para ou-
Não se trata mais de propor, de cima para b~ixo, o
tra estrutura fechada (o materialismo dialético). O que
plano da sociedade do futuro, porém de incentivar e for-
eles fizeram foi trabalhar a matéria discursiva existente e
talecer o movimen to real do proletaria do e de todos os
P_artir dela para sucessivas transições organicam ente rela-
oprimidos. O movimento político que ganhará a força con-
cionadas. Por conseguin te, houve uma dialética de tran-
creta para abolir a dominaçã o burguesa.
si?ões intelectivas. Por sua vez, as transições intelectivas
Por conseguin te, A Ideologia Alemã é a obra que
~ao eram estranhas às lutas políticas circundan tes, mas
marca a transição do socialism o utópico para o socialis-
impu_ls~onadas por elas. Como já foi dito, o principal fa-
mo científico. Do socialismo de Saint-Simon, Fourier e
t~r dtnamico da evolução do pensamen to marxiano resi-
Owen, de Proudhon e Blanqui, para o socialismo de
?1u na idéia do papel revolucio nário do proletaria do. Por
Marx e Engels, apoiado na teoria do materialismo histó-
isso ~esmo - repito e sublinho -, Marx e Engels criaram
rico. A partir desta teoria da ciência social, será traçada
sua filosofia e sua concepçã o da história de dentro do
uma estratégia completa mente nova da luta do proleta- movimen , · Jª
to operano, · 1ectuais orgânicos
·, enquanto mte
.
riado. Desprend ida das idéias utópicas despolitizantes, a da classe operária.
luta do proletaria do deverá tornar-se primordialmente luta ., _A crítica direta a Feuerbac h está presente em poucas
política. paginas da primeira parte de A Ideologia Alemã e nas
Teses sobre Feuerhach. Ambos os escritos permanec eram

XXXV
XXXIV
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A !deolup,ia Alemâ _ _ _ _ _ _ _ __ ~ - - - - - - - - - lllfrod11çâo _ _ _ _ _ _ _ _ __

inéditos em vida de Marx, conforme já vimos. A análise social e faz história. No âmbito da vida social do homem,
sistemática veio com a obra de Engels Ludwig Feuerhach Feuerbach exibe um idealismo ingênuo e trivial. Na sua
e o Fim da Filosofia Clássica Alemã. filosofia, materialismo e história estão completamente di-
O materialismo do autor de A Essência do Cristianis- vorciados. Como Engels depois afirmou, Feuerbach era
mo padecia do mesmo defeito de todo materialismo até materialista embaixo, defrontado com a natureza, mas
então: o de só apreender o mundo sensível enquanto idealista por cima, defrontado com a sociedade humana.
objeto ou intuição e não como atividade humana con- Apesar do seu materialismo, Feuerbach faz do ho-
creta, como prática. Por isso, este materialismo contem- mem um conceito abstrato. É o homem biológico, puro
plativo se satisfazia enquanto teoria. Contentava-se em ser da natureza. As supremas relações humanas são as
ver o mundo na sua imutabilidade, sem conceber que se do amor e da amizade. Relações idealizadas, que nada
tratava de transformá-lo. têm a ver com as relações sociais históricas.
Daí que - escreveu Marx na primeira tese sobre Acontece que o homem, justamente pelo caráter de
Feuerbach, numa passagem de rara relevância -, o as- ser social, mantém uma relação ativa com a natureza (não
pecto ativo (do homem) tinha sido desenvolvido pelo uma relação meramente fisiológica). Tal como a conhe-
idealismo em oposição ao materialismo. O que o idealis- cemos hoje, a natureza já não é a original. Foi transforma-
mo só fez de maneira abstrata, uma vez que não conhe- da pelo homem. O que não exclui a prioridade da natu-
ce a atividade real, concreta. Nesta passagem há o regis- reza exterior dos pontos de vista ontológico e epistemo-
tro do mérito fundamental do idealismo clássico alemão, lógico. Só que esta prioridade não deve impedir o reco-
da corrente filosófica de Kant, Fichte e Hegel, ao tempo nhecimento do homem enquanto ser ativo. Enquanto ser
em que é apontada sua natureza puramente intelectiva. distinto da natureza da qual emerge.
Em A Ideologia Alemã, Marx e Engels se dizem mate- Na oitava tese sobre Feuerbach, escreveu Marx que
rialistas práticos no mesmo sentido em que se dizem co- a vida social é essencialmente prática. Os mistérios, que
munistas. Prático se opõe a contemplativo. Enquanto o desviam a teoria para o misticismo, encontram solução
materialista prático tem o compromisso de revolucionar racional na prática humana e na sua compreensão. Por-
o mundo existente, Feuerbach sustenta que o ser do ho- tanto, nos momentos do agire do pensar interligados. Se
mem é sua essência. Assim, o ser humano se satisfaz a prática é critério da verdade objetiva para o materialis-
com esta essência, uma vez recuperada da alienação reli- rno dialético, daí não se segue a confusão deste com al-
giosa. Em vez da dialética revolucionária, a abstração do guma espécie de pragmatismo. Trata-se de transformar o
imutável. mundo, conforme a undécima e mais célebre das teses.
O materialismo de Feuerbach se manifesta na con- ~as a transformação do mundo implica e pressupõe a
cepção do homem como ser corpóreo, ser natural. É um Interpretação correta deste mesmo mundo. A prática é
materialismo ausente no âmbito em que o homem é ser fonte, impulso e sanção epistemológica da teoria. Con-

XXXVI XXXVII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Ale111â _ _ _ _ _ _ _ _ __
_ _ _ _ _ _ _ _ t,1trod11çâo _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

densaçào e guia da prática, a teoria se converte em força


da história. _ _ "Ca11as". Ihid. (Ver ca11as aJ Bloch, K. Schmidt, F. Mehring
Até entào, o materialismo tinha sido contemplativo, e H. Starkenburg).
pura teoria. O novo materialismo de Marx e Engels é crí- Feuerhach, Ludwig. La E,:,encia d"i;l Cristimzismo. Crítica Filo-
sq/tca de la Religion. Buenos Ai~es, Ed. Claridad, 1941.
tico e revolucionário. Da filosofia de Hegel extraiu seu
Fontana, Josep. Historia: Análisis dei Pasado, y Pn~vecto So-
núcleo racional - a dialética. Nos quadros do sistema he-
cial. Barcelona, Editorial Crítica, 1982.
geliano, a dialética se submetia a mistificações especula-
Gramsci, Antonio. II Materialismo Storico e la Filosq/ia de
tivas. Na concepção materialista, identificou-se ao deve-
Be11edetto Croce. Turim, Einaudi, 1940.
nir real da natureza e da história. Perdeu o caráter espe-
- - . Gli Intelletuali e l'Organizzazione de la Cultura. Turim,
culativo, desfez-se das construções arbitrárias requeridas Einaudi, 1949.
pela cosmovisào idealista. Em vez disso, converteu-se Hegel, G. F. W. Ciencia de la Lógica. Buenos Aires, Hachette,
em método de pensar o real, pois adequado ao real. Se- 1956.
vera disciplina do pensar que objetiva reproduzir concei- - - . La Phénomenologie de l'Esprit. Paris, Auhier, 1939.
tualmente o real na totalidade inacabada dos seus ele- - - . Lineas Fundamentales de la Filosqfia de! Derecho. Bue-
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XXXVIII
XXXIX
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Alemâ _ _ _ _ _ _ _ __

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- - . "Manoscritti Economico-Filosofici de 1844". Ihtd.
- - . Miséria da Filosofia. Resposta à Filosofia da Miséria do
Sr. Proudhon. Sào Paulo, Ciências Humanas, 1982.
- - . Para a Critica da Economia Política. (Prefácio). Coleçào 1817. Agitação nacional e liberal na Alemanha.
Os Economistas. Sào Paulo, Abril Cultural, 1982. 1817. 5 de maio: Nasce Karl Marx, em Trier. Seu pai é
Marx, Karl e Engels, Friedrich. 1be Holy Family or Critique of advogado.
Criticai Critique. Moscou, Foreign Languages Publishing 1820. 28 de novembro: Nasce Friedrich Engels, em Bar-
House, 1956. men, onde seu pai é dono de uma empresa têxtil.
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1958. Carlos X. Na Polônia e na Alemanha há repressão
- - . Manifeste du Partie Comuniste. Paris, Éditions Sociales, aos movimentos.
1962.
1835. Marx inicia seus estudos superiores em Bonn e os
Vilar, Pierre. "Marx e a História". ln História do Marxismo.
Tomo I. Op. cit. prossegue em Berlim, onde freqüenta o círculo dos
Jovens hegelianos.
1836. A partir da Liga dos Banidos, a Liga dos Justos é
fundada pelos operários e artesãos alemães em
Paris.
1840. Sobe ao trono Frederico-Guilherme IV da Prússia.
1841. Marx se torna doutor em filosofia. Engels, que pres-
ta serviço militar em Berlim, liga-se aos Jovens he-
gelianos
l842. Marx inicia sua atividade jornalística, como reda-
tor-chefe do Rheinische Zeitung, jornal fundado
em Colônia pelos líderes da burguesia liberal re-
nana. Marx imprime ao jornal um tom radical de

XLI
XL
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A !deolu,~ia Ale111â _ _ _ _ _ _ _ __
_ _ _ _ _ _ _ cn,,/()/ogia _ _ _ _ _ _ _ _ __

esquerda. Em 2 de novembro, te111 um primeiro en-


contro com Engels. solve após o esmagamento da sublevaçào das pro-
1843. O Reinische Zeitung sofre interdiçào. Marx rompe víncias renanas. Marx refugia-se em Londres, onde
com os Jovens hegelianos. Casa-se com Jenny von irá viver por mais de trinta anos.
1852. O 78 Brumário de Luís-Napoleào Bonaparte.
Westphalen, amiga de infância, filha de aristocra-
1859. Contrihuiçào à crítica da economia política.
tas reacionários, e vai para Paris. Colabora com os
1864. É fundada em Londres a Primeira Internacional Co-
Anais franco-alemães, dirigidos por Ruge. Período
munista.
feuerbachiano de Marx. Contribuição à crítica da
1867. Livro I de O Capital.
filosofia do direito de Hegel; A questão judaica.
1871. A guerra civil na França.
1844. Revolta dos tecelões da Silésia. Em agosto, segun-
1875. Crítica do programa de Gotha.
do encontro com Engels, selando uma amizade e
1883. Morre Karl Marx.
colaboração duradouras. Período comunista-utópico
de Marx. "Manuscritos de 44" (inéditos até 1932).
1844-1845. Redação de A Sagrada Família, publicada
em fevereiro de 1845.
1845. Marx é expulso de Paris, refugia-se em Bmxelas,
onde se encontra com Engels. Redação das teses
sobre Feuerbach e, com Engels e Hess, de A ideo-
logia alemã. No final de maio, Engels publica na
inglaterra A situação da classe trabalhadora na In-
glaterra.
1847. Marx redige Miséria da filosofia, como réplica à
obra de Proudhon Sistema das contradições eco-
nômicas ou filosqfia da miséria. A Liga dos justos
transforma-se na Liga dos comunistas, que realiza
neste mesmo ano seus dois primeiros congressos.
Marx funda em Bmxelas a Associação operária ale-
rnà, onde faz urna conferência sobre Trabalho as-
salariado e capital.
1848. Período revolucionário generalizado na Europa.
Na França, a república é proclamada. Em Coltmia,
Marx funda a Neue Reinische Zeitung, que se dis-

XLII
XLIII
Nota Desta Edição

A presente edição baseia-se na tradução e no apare-


lho crítico de Renée Cartelle e Gilbert Badia elaborados
para Éditions Sociales, Paris. O texto da tradução brasi-
leira foi confrontado por Mauro de Queiroz com o texto
alemão de "Die deutsche Ideologie" (Erster teil) publica-
do pela mesma editora.

O Editor

XLV
A IDEOLOGIA ALEMÃ
Prefácio

Até agora, os homens sempre tiveram idéias falsas a


respeito de si mesmos, daquilo que são ou deveriam ser.
Organizaram suas relações em função das representa-
ções que faziam de Deus, do homem normal etc. Esses
produtos de seu cérebro cresceram a ponto de dominá-
los completamente. Criadores, inclinaram-se diante de
suas próprias criações. Livremo-los, pois, das quimeras,
das idéias, dos dogmas, dos seres imaginários, sob o ju~
go dos quais eles se estiolam. Revoltemo-nos contra o
domínio dessas idéias. Ensinemos os homens a trocar es-
sas ilusões por pensamentos correspondentes à essência
do homem, diz alguém; a ter para com elas uma atitude
crítica, diz outro; a tirá-las da cabeça, diz o terceiro 1 e -
a realidade atual desmoronará.
Esses sonhos inocentes e pueris formam o núcleo da
filosofia atual dos Jovens-Hegelianos, que, na Alemanha,
não somente é acolhida pelo público com um misto de
respeito e medo, mas também é apresentada pelos pró-
prios heróis filosóficos com a convicção solene de que

0
.
essas idéias, de uma virulência criminosa, constituem para
mundo um perigo revolucionário. O primeiro tomo
desta obra se propõe a desmascarar esses cordeiros que

3
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A !deolop,iu Alemã _ _ _ _ _ _ _ __

se consideram, e são considerados, como lobos; mostrar


que seus balidos só fazem repetir, em linguagem filosó- FEUERBACH
fica, as representações dos burgueses alemães, e que as
fanfarronadas de~ses comentaristas filosóficos só fazem Oposição entre a Concepção Materialista
refletir a irrisória pobreza da realidade alemã. Propõe-se e a Idealista
ridicularizar e desacreditar esse combate filosófico contra
a penumbra da realidade, propícia à sonolência habitada
por sonhos em que o povo alemão se compraz.
Há pouco tempo, um homem de bom senso imagi-
nava que as pessoas se afogavam unicamente porque
eram possuídas pela idéia da gravidade. Tão logo tiras-
sem da cabeça essa representação, declarando, por exem- INTRODUÇÃO
plo, ser uma representação religiosa, supersticiosa, esta-
riam a salvo de qualquer risco de afogamento. Durante A darmos crédito a certos teóricos alemães, a Ale-
toda a sua vida, ele lutou contra a ilusão da gravidade, manha teria sido, nestes últimos anos, o palco de uma
cujas conseqüências nocivas as estatísticas lhe mostravam, transformação sem precedente. O processo de decom-
através de numerosas e repetidas provas. Esse bom ho- posição do sistema hegeliano iniciado com Strauss 1 le-
mem era o protótipo dos modernos filósofos revolucioná- vou a uma fermentação geral, a que foram impelidas to-
das as "potências do passado". Em meio a esse caos uni-
rios alemães 2 •
versal, poderosos impérios se formaram para logo ruí-
rem; heróis efêmeros surgiram e foram, por sua vez, lan-
çados nas trevas por rivais mais audaciosos e poderosos.
Foi uma revolução diante da qual a Revolução Francesa
não passou de uma brincadeira de criança, foi uma luta
mundial que faz parecerem mesquinhos os combates
dos Diádocos 2 • Os valores foram substituídos, os heróis
do pensamento derrubaram-se uns aos outros com uma
rapidez inaudita e, em três anos, de 1842 a 1845, arrasa-
ram a Alemanha mais do que se faria em qualquer outro
lugar em três séculos.
E tudo isso teria acontecido no domínio do pensa-
mento puro.
Trata-se, na verdade, de um acontecimento interes-
sante: o processo de decomposição do espírito absolu-

4
5
- - - - - - - - ~ A Ideu/opJa Alemà _ _ _ _ _ _ _ _~

to. Ao se extinguir sua última centelha de vida, os diver-


sos elementos desse captu mortuum 5 entraram em de-
composição, formaram novas combinações e constituí-
ram novas substâncias. Os industriais da filosofia, que
tinham até então vivido da exploração do espírito abso-
luto, lançaram-se sobre essas novas combinações. E cada
um se desdobrava com um zelo nunca visto para desem-
penhar a parte recebida. Mas não podia deixar de haver
concorrência. No começo, esta concorrência foi pratica-
da de maneira bastante séria e burguesa. Mais tarde,
quando o mercado alemão ficou saturado e, apesar de A. A IDEOLOGIA EM GERAL E EM
todos os esforços, foi impossível escoar a mercadoria no PARTICULAR A IDEOLOGIA ALEMÃ
mercado mundial, o negócio foi deturpado, como é co-
mum na Alemanha, por uma falsa produção de bugigan- Mesmo em seus mais recentes esforços, a crítica ale-
gas, pela alteração da qualidade, pela adulteração da mã não deixou o terreno da filosofia. Longe de examinar
matéria-prima, pela falsificação dos rótulos, por vendas
suas bases filosóficas gerais, todas as questões, sem ex-
fictícias, pelo tráfico de influência e por um sistema de
ceção, que ela formulou para si brotaram do solo de um
crédito sem qualquer base concreta. Essa concorrência
sistema filosófico determinado, o sistema hegeliano. Não
deu origem a uma luta encarniçada que, agora, nos é
só em suas respostas, mas também nas próprias ques-
apresentada e enaltecida como uma revolução histórica,
cujos resultados e conquistas teriam sido os mais prodi- ~ões, havia uma mistificação. Essa dependência de Hegel
giosos. e a razão pela qual não encontraremos um só crítico mo-
Mas, para apreciar em seu justo valor toda essa char- derno que tenha sequer tentado fazer uma crítica de
latanice filosófica, que chega a despertar no coração do conjunto ao sistema hegeliano, embora cada um jure ter
honesto burguês alemão um agradável sentimento na- ultrapassado Hegel. A polêmica que travam contra He-
cional, para se ter uma idéia concreta da mesquinhez, gel e entre si mesmos limita-se ao seguinte: cada um iso-
do espírito provinciano e limitado de todo esse movimen- la um aspecto do sistema hegeliano e o faz voltar-se ao
to jovem-hegeliano, e especialmente do contraste tragi- mesmo tempo contra todo o sistema e contra os aspec-
cômico entre as façanhas reais desses heróis e suas ilu- tos isolados pelos outros. Começou-se por escolher ca-
sões a respeito delas, é necessário examinar até o fim tegorias hegelianas puras, não-falsificadas tais como a
todo esse estardalhaço de uma perspectiva fora da Ale- ·
Substância , a eonsc1enc1a
A • d e s1,· para mais ' d e profana-
· tar
rem-se e ssas mesmas categorias com termos mais tem-
manha'.
porais , como o GAenero, o Umco,
, . ' o Homem etc.

6 7
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Fe11erhach _ _ _ _ _ _ __
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __

Para os jovens hegelianos, as representaçôes, idéias,


Toda a crítica filosófica alemã, de Strauss a Stirner, conceitos, enfim, os produtos da consciência aos quais
limita-se à crítica das representaçôes religiosas 1 • Partiu-se eles próprios deram autonomia, eram considerados corno
da religião real e da teologia propriamente dita. O que verdadeiros grilhôes da humanidade, assim corno os ve-
se entendia por consciência religiosa, por representação lhos hegelianos proclamavam ser eles os vínculos verda-
religiosa, recebeu, posteriormente, deterrninaçôes diver- deiros da sociedade humana. Torna-se assim evidente
sas. O progresso consistia em subordinar também à esfe- que os jovens hegelianos devem lutar unicamente con-
ra das representaçôes religiosas ou teológicas as repre- tra essas ilusões da consciência. Corno, em sua imagina-
sentaçôes metafísicas, políticas, jurídicas, morais e ou- ção, as relações dos homens, todos os seus atos e ges-
tras, supostamente predominantes; ao mesmo tempo, tos, suas cadeias e seus limites são produtos da sua cons-
proclamava-se a consciência política, jurídica e moral co- ciência, coerentes consigo próprios, os jovens hegelia-
rno consciência religiosa ou teológica, e o homem polí- nos propôern aos homens este postulado moral: trocar a
tico, jurídico e moral, "o homem" em última instância, sua consciência atual pela consciência humana, crítica
corno religioso. Postulou-se o domínio da religião. E, ou egoísta e, assim fazendo, abolir seus limites. Exigir
pouco a pouco, toda relação dominante foi declarada assim a transformação da consciência equivale a inter-
corno relação religiosa e transformada em culto: culto do pretar de modo diferente o que existe, isto é, reconhe-
direito, culto do Estado etc. Por toda parte só importa- cê-lo por meio de urna outra interpretação. Apesar de
vam os dogmas e a fé nos dogmas. O mundo foi cano- suas frases pomposas, que supostamente "revolucionam
nizado numa escala cada vez maior, até que o venerado o mundo", os ideólogos da escola jovem-hegeliana são
São Max* pôde canonizá-lo en hloc 2 e liquidá-lo de urna os maiores conservadores. Os mais jovens dentre eles
vez por todas. acharam a expressão exata para qualificar sua atividade,
Os velhos hegelianos tinham compreendido tudo ao afirmarem que lutam unicamente contra urna "fraseo-
desde que tinham reduzido tudo a urna categoria da ló- logia". Esquecem no entanto que eles próprios opôern a
gica hegeliana. Os jovens hegelianos criticaram tudo, essa fraseologia nada mais que outra fraseologia e que
substituindo cada coisa por representaçôes religiosas ou não lutam de maneira alguma contra o mundo que exis-
proclamando-a corno teológica. Jovens e velhos hegelia- te realmente ao combaterem unicamente a fraseologia
nos estão de acordo em acreditar que a religião, os con- desse mundo. Os únicos resultados a que pôde chegar
ceitos e o Universal reinavam no mundo existente. A essa crítica filosófica foram alguns esclarecimentos histó-
única diferença é que uns combatem, corno se fosse usur- rico-religiosos - e assim mesmo de um ponto de vista
pação, o domínio que os outros celebram corno legítimo. muito restrito - sobre o cristianismo; todas as suas outras
afirrnaçôes não passam de novas maneiras de revestir de
ornamentos suas pretensôes de terem revelado desco-
* Referência irêmica a Max Stirner. (N. do R. T.)

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8
- - - - - - - - - A Ideologia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Feuerhach _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

be~as de um grande alcance histórico - a partir de escla-


tência, os homens produzem indiretamente sua própria
recimentos insignificantes.
vida material.
Nenhum desses filósofos teve a idéia de se pergun-
A maneira como os homens produzem seus meios
tar qual era a ligação entre a filosofia alemã e a realida-
de existência depende, antes de mais nada, da natureza
de alemã, a ligação entre a sua crítica e o seu próprio
meio material. dos meios de existência já eocontrados e que eles pre-
cisam reproduzir. Não se deve considerar esse modo de
produção sob esse único ponto de vista, ou seja, en-
As premissas de que partimos não são bases arbitrá-
quanto reprodução da existência física dos indivíduos.
rias, dogmas; são bases reais que só podemos abstrair na
Ao contrário, ele representa, já, um modo determinado
imaginação. São os indivíduos reais, sua ação e suas con-
da atividade desses indivíduos, uma maneira determi-
dições materiais de existência, tanto as que eles já en-
nada de manifestar sua vida, um modo de vida determina-
contraram prontas, como aquelas engendradas de sua
do. A maneira como os indivíduos manifestam sua vida
própria ação. Essas bases são pois verificáveis por via
.reflete exatamente o que eles são. O que eles são coin-
puramente empírica.
cide, pois, com sua produção, isto é, tanto com o que
A primeira condição de toda a história humana é
eles produzem quanto com a maneira como produzem.
naturalmente, a existência de seres humanos vivos-'. ~
O que os indivíduos são depende, portanto, das condi-
primeira situação a constatar é, portanto, a constituição
ções materiais da sua produção.
corporal desses indivíduos e as relações que ela gera
Essa produção só aparece com o aumento da popu-
entre eles e o restante da natureza. Não podemos, natu-
lação. Esta pressupõe, por sua vez, o intercâmbio" dos
ralmente, fazer aqui um estudo mais profundo da pró-
indivíduos entre si. A forma desses intercâmbios se acha
pria constituição física do homem, nem das condições '
por sua vez, condicionada pela produção.
naturais, que os homens encontraram já prontas, condi-
As relações entre as diferentes nações dependem do
ções geológicas, orográficas, hidrográficas, climáticas e
estágio de desenvolvimento em que cada uma delas se
outras4 • Toda historiografia deve partir dessas bases na-
encontra, no que concerne às forças produtivas, à divisão
turais e de sua transformação pela ação dos homens, no
do trabalho e às relações internas. Este princípio é univer-
curso da história.
salmente reconhecido. Entretanto, não só as relações en-
Pode-se distinguir os homens dos animais pela cons-
tre uma nação e outra, mas também toda a estrutura inter-
ciência, pela religião e por tudo o que se queira. Mas
na de cada nação, dependem do nível de desenvolvimen-
eles próprios começam a se distinguir dos animais logo
to de sua produção e de seus intercâmbios internos e
que começam a produzir seus meios de existência, e
externos. Reconhece-se da maneira mais patente o grau
esse passo ã frente é a própria conseqüência de sua or-
de desenvolvimento alcançado pelas forças produtivas de
ganização corporal. Ao produzirem seus meios de exis-
uma nação pelo grau de desenvolvimento alcançado pela

10
11
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ f'euerhacb _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
- - - - - - - - ~ A Ideologia Alemâ _ _ _ _ _ _ _ __

timo caso, isso pressupõe uma grande quantidade de


divisão do trabalho. Na medida em que esta divisão do terras incultas. Nesse estágio, a divisão do trabalho é ain-
trabalho não é mera extensão quantitativa das forças pro- da muito pouco desenvolvida e representa apenas uma
dutivas já conhecidas anteriormente (o aproveitamento de extensão maior da divisão natural que ocorre na família.
terras incultas, por exemplo), qualquer força produtiva A estrutura social se limita, por isso mesmo, a uma ex-
nova traz como conseqüência um novo aperfeiçoamento tensão da família: chefes da tribo patriarcal, abaixo de-
da divisão do trabalho. les os membros da tribo e os escravos. A escravidão
A divisão do trabalho no interior de uma nação gera, latente na família só se desenvolve paulatinamente com
antes de mais nada, a separação entre trabalho industrial o aumento da população e das necessidades, com a ex-
e comercial, de um lado, e trabalho agrícola, de outro; tensão dos intercâmbios externos, tanto da guerra como
e, com isso, a separação entre a cidade e o campo e a do comércio.
oposição de seus interesses. Seu desenvolvimento pos- A segunda forma da propriedade é a propriedade
terior leva à separação do trabalho comercial e do traba- comunal e propriedade do Estado, encontrada na Anti-
lho industrial. Ao mesmo tempo, pela divisão do trabalho guidade e proveniente sobretudo da reunião de várias
no interior dos diferentes ramos constata-se, por sua tribos em uma única cidade, por contrato ou por con-
vez, o desenvolvimento de diversas subdivisões entre os quista, e na qual subsiste a e?cravidão. Ao lado da pro-
indivíduos que cooperam em trabalhos determinados. A priedade comunal, já se desenvolve a propriedade pri-
posição de cada uma dessas subdivisões particulares em vada, mobiliária e, mais tarde, imobiliária, mas de modo
relação às outras é condicionada pelo modo de explora- limitado e subordinada à propriedade comunal. Apenas
ção do trabalho agrícola, industrial e comercial (patriar- coletivamente os cidadãos exercem seu poder sobre os
cado, escravatura, ordens e classes). Essas mesmas rela- escravos que trabalham, o que então os liga à forma da
ções aparecem quando as trocas são mais desenvolvidas propriedade comunal. Essa forma é a propriedade priva-
nas relações entre as diversas nações. da do conjunto dos cidadãos ativos, obrigados, diante
Os diversos estágios de desenvolvimento da divisão dos escravos, a conservar essa forma natural de associa-
do trabalho representam outras tantas formas diferentes ção. É por isso que toda a estrutura social nessa forma
da propriedade; em outras palavras, cada novo estágio de associação se desagrega à medida que se desenvolve
da divisão do trabalho determina, igualmente, as rela- a propriedade privada, particularmente a imobiliária, e
ções dos indivíduos entre si no tocante à matéria, aos com ela se desagrega também o poder do povo. A divi-
instrumentos e aos produtos do trabalho. são do trabalho já aparece, aqui, mais avançada. Encon-
A primeira forma da propriedade é a propriedade tramos, então, a oposição entre cidade e campo e, mais
tribal<'. Ela corresponde àquele estágio rudimentar da pro- tarde, a oposição entre os Estados que representam o in-
dução em que um povo se alimenta da caça e da pesca, teresse das cidades e aqueles que representam o interes-
do pastor:io ou, eventualmente, da agricultura. Neste úl-

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12
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Jdeulugia Alemà _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Feuerhach _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

se dos campos. E vamos encontrar, no interior das pró- Nessas circunstâncias, a população livre tinha desapare-
prias cidades, a oposição entre o comércio marítimo e a cido quase completamente, os próprios escravos esta-
indústria. As relações de classes entre cidadãos e escra- vam em processo de extinção, e tinham de ser constan-
vos alcançaram seu pleno desenvolvimento. temente substituídos. O escravismo continuou sendo a
A existência da conquista parece estar em contradi- base de toda a produção. Os plebeus, situados entre os
ção com toda essa concepção da história. Até agora, fez- homens livres e os escravos, nunca chegaram a elevar-
se da violência, da guerra, da pilhagem, do banditismo se acima da condição de Lumpenproletariat7. Além dis-
etc., a força motriz da história. Somos forçados, aqui, a so, Roma nunca ultrapassou o estágio de cidade; estava
nos limitarmos aos pontos capitais; por isso tomamos ligada às províncias por laços quase unicamente políti-
apenas o exemplo muito eloqüente da destruição de cos que, por sua vez, poderiam se romper, evidente-
uma velha civilização por um povo bárbaro e a conse- mente, por acontecimentos políticos.
qüente formação de uma nova estrutura social, que re- Com o desenvolvimento da propriedade privada,
começa a partir de zero. (Roma e os bárbaros, o feuda- vêem-se aparecer, pela primeira vez, relações que torna-
lismo e a Gália, o Baixo-Império e os Turcos.) Para o remos a encontrar numa escala muito maior na proprie-
povo bárbaro conquistador, a própria guerra ainda é, co- dade privada moderna. Por um lado, a concentração da
mo indicamos anteriormente, um modo normal de inter- propriedade privada, que começou muito cedo em Roma,
câmbio praticado com maior empenho à medida que o como atesta a lei agrária de Licínio8 , e progrediu rapida-
crescimento da população cria, de maneira mais impe- mente a partir das guerras civis e, sobretudo, sob o Im-
riosa, a necessidade de novos meios de produção, visto pério; por outro lado, e em correlação com esses fatos, a
que o modo de produção tradicional e rudimentar é o transformação dos pequenos camponeses plebeus em um
único possível para esse povo. Na Itália, ao contrário, proletariado impediu que este tivesse um desenvolvimen-
assiste-se à concentração da propriedade fundiária, rea- to independente por estar numa situação intermediária
lizada por herança, por compra e pagamento de dívida, entre os cidadãos proprietários e os escravos.
uma vez que a extrema dissolução dos costumes e a rari- A terceira forma é a propriedade feudal 9 ou a dos di-
dade dos casamentos provocavam a extinção progressi- versos estamentos. Enquanto a Antiguidade partia da ci-
va das velhas famílias, passando seus bens para as mãos dade e de seu pequeno território, a Idade Média partia
de poucos. Além do mais, essa propriedade fundiária do campo. A população existente, esparsa e dispersa-
transformou-se em pastagens, transformação esta provo- mente distribuída por uma vasta superfície, que os con-
cada não só pelas causas econômicas comuns, válidas quistadores praticamente não aumentaram, condicionou
ainda em nossos dias, como pela importação de cereais essa mudança de ponto de partida. Ao contrário do que
pilhados ou exigidos a título de tributo e também pela ocorreu na Grécia e em Roma, o desenvolvimento feu-
conseqüente falta de consumidores para o trigo italiano. dal se inicia em um território bem maior, preparado pelas

14 15
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Alemâ _ _ _ _ _ _ _ __
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Feuerhach _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

conquistas romanas e pela expansão da agricultura que


munais para as atividades mercantis numa época em que
estas inicialmente ocasionaram. Os últimos séculos do
o industrial era também comerciante, a concorrência
Império Romano em declínio e a conquista dos próprios
crescente dos servos que fugiam em massa para as cida-
bárbaros aniquilaram uma grande massa de forças pro-
des prósperas, a estrutura feudal de todo o país - tudo
dutivas: a agricultura havia declinado, a indústria entra-
isso fez surgir as cotporações. Os pequenos capitais eco-
ra em decadência por falta de mercados, o comércio se
nomizados pouco a pouco pelos artesãos isolados e o
reduzia ou era interrompido pela violência, a popula-
número invariável destes em uma população que cres-
ção, tanto rural quanto urbana, tinha diminuído. Tal si-
cia incessantemente desenvolveram a condição de com-
tuação e o conseqüente modo de organização da con-
panheiro e de aprendiz que deu origem, nas cidades, a
quista desenvolveram a propriedade feudal, sob a in-
uma hierarquia semelhante à do campo.
fluência da organização militar dos germanos. Como a
Portanto, a propriedade principal consistia, por um
propriedade da tribo e da comuna, esta repousa, por sua
lado, durante a época feudal, na propriedade fundiária
vez, sobre uma comunidade em face da qual não são
à qual está ligado o trabalho dos servos, por outro lado
mais os escravos, como no antigo sistema, mas sim os
no trabalho pessoal com a ajuda de um pequeno capi-
pequenos camponeses submetidos ã servidão que cons-
tal e dominando o trabalho de companheiros e aprendi-
tituem a classe diretamente produtiva. Simultaneamente
zes. A estrutura de cada uma dessas duas formas era
à completa formação do feudalismo salienta-se, ainda, a
condicionada pelas relações de produção limitadas, a
oposição às cidades. A estrutura hierárquica da proprie-
agricultura rudimentar e restrita e a indústria artesanal.
dade fundiária e a suserania militar que a acompanhava
No apogeu do feudalismo, a divisão do trabalho pouco
conferiram à nobreza o poder absoluto sobre os servos.
se desenvolveu. Cada país continha em si mesmo a opo-
Essa estrutura feudal, exatamente do mesmo modo que
sição cidade-campo. A divisão em estamentos era na ver-
a antiga propriedade comunal, era uma associação con-
dade muito acentuada, mas não houve divisão importan-
tra a classe produtora dominada, só que a forma de
te do trabalho, além da separação entre príncipes rei-
associação e as relações com os produtores são diferen-
nantes, nobreza, clero e camponeses no campo, e entre
tes pelo fato de serem diferentes as condições de pro-
mestres, companheiros e aprendizes, e logo também nas
dução.
cidades uma plebe de jornaleiros. Na agricultura, essa
A essa estrutura feudal da propriedade fundiária cor-
divisão se tornara mais difícil pela exploração parcelada
respondia, nas cidades, a propriedade corporativa, orga-
da terra, ao lado da qual se desenvolveu a indústria
nização feudal do ofício artesanal. Na cidade, aproprie-
doméstica dos próprios camponeses; na indústria, o tra-
dade consistia principalmente no trabalho de cada indi-
balho não era absolutamente dividido dentro de cada
víduo: a necessidade de associação contra os nobres pi-
ofício e muito pouco entre os diferentes ofícios. A divi-
lhadores conluiados, a necessidade de construções co-
são entre o comércio e a indústria já existia em cidades

16
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---------~Feuerhac/.1 _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
- - - - - - - - - A Ideologia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __

mais antigas, mas só mais tarde se desenvolveu nascida- de todo um povo. São os homens que produzem suas
des novas, quando as cidades foram tendo contato umas representações, suas idéias etc., mas os homens reais ,
com as outras. atuantes, tais como são condicionados por um determi-
A reunião de áreas de uma certa extensão forman- nado desenvolvimento de suas forças produtivas e das
do reinos feudais era uma necessidade tanto para a no- relações que a elas correspondem, inclusive as mais am-
breza fundiária como para as cidades. Por isso mesmo, plas formas que estas podem tomar. A consciência nun-
a organização da classe dominante isto é da nobreza ca pode ser mais que o ser consciente 11 ; e o ser dos
' ' ' homens é o seu processo de vida real. E, se, em toda a
teve por toda parte um monarca à frente.
Eis, portanto, os fatos: indivíduos determinados com ideologia, os homens e suas relações nos aparecem de
atividade produtiva segundo um modo determinado en- cabeça para baixo como em uma câmera escura, esse
tram em relações sociais e políticas determinadas. Em fenômeno decorre de seu processo de vida histórico,
cada caso isolado, a observação empírica deve mostrar exatamente como a inversão dos objetos na retina de-
nos fatos, e sem nenhuma especulação nem mistifica- corre de seu processo de vida diretamente físico.
ção, a ligação entre a estrutura social e política e a pro- Ao contrário da filosofia alemã, que desce do céu
dução. A estrutura social e o Estado nascem continua- para a terra, aqui é da terra que se sobe ao céu. Em ou-
mente do processo vital de indivíduos determinados· tras palavras, não partimos do que os homens dizem,
mas desses indivíduos não tais como aparecem nas re~ imaginam e representam, tampouco do que eles são nas
· presentações que fazem de si mesmos ou nas represen- palavras, no pensamento, na imaginação e na represen-
tações que os outros fazem deles, mas na sua existência tação dos outros, para depois se chegar aos homens de
real, isto é, tais como trabalham e produzem material- carne e osso; mas partimos dos homens em sua ativida-
mente; portanto, do modo como atuam em bases, con- de real, é a partir de seu processo de vida real que re-
dições e limites materiais determinados e independentes presentamos também o desenvolvimento dos reflexos e
de sua vontade 1º. das repercussões ideológicas desse processo vital. E
A produção das idéias, das representações e da cons- mesmo as fantasmagorias existêntes no cérebro humano
ciência está, a princípio, direta e intimamente ligada à são sublimações resultantes necessariamente do proces-
atividade material e ao comércio material dos homens· so de sua vida material, que podemos constatar empiri-
ela é a linguagem da vida real. As representações, ~ camente e que repousa em bases materiais. Assim, a
pensamento, o comércio intelectual dos homens apare- moral, a religião, a metafísica e todo o restante da ideo-
cem aqui ainda como a emanação direta de seu compor- logia, bem como as formas de consciência a elas corres-
tamento material. O mesmo acontece com a produção pondentes, perdem logo toda a aparência de autonomia.
intelectual tal como se apresenta na linguagem da polí- Nào têm história, nào têm desenvolvimento; ao contrá-
rio, sào os homens que, desenvolvendo sua produção
tica, na das leis, da moral, da religião, da metafísica etc.

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material e suas relações materiais, transformam, com a absolutamente nenhum valor. Podem quando muito ser-
realidade que lhes é própria, seu pensamento e também vir para a classificação mais fácil da matéria histórica,
os produtos do seu pensamento. Não é a consciência que para indicar a sucessão de suas estratificações particula-
determina a vida, mas sim a vida que determina a cons- res. Mas não dão, de modo algum, como a filosofia, uma
ciência. Na primeira forma de considerar as coisas, par- receita, um esquema segundo o qual se possam ordenar
timos da consciência como sendo o indivíduo vivo; na as épocas históricas. Ao contrário, a dificuldade só co-
segunda, que corresponde à vida real, partimos dos pró- meça quando nos pomos a estudar e a classificar essa
prios indivíduos reais e vivos, e consideramos a cons- matéria, quer se trate de uma época passada ou do tem-
ciência unicamente como a sua consciência. po presente, e a analisá-la realmente. A eliminação des-
Essa forma de considerar as coisas não é isenta de sas dificuldades depende de premissas que nos é impos-
pressupostos. Ela parte das premissas reais e não as sível desenvolver aqui, pois resultam do estudo do pro-
abandona por um instante sequer. Essas premissas são cesso de vida real e da ação dos indivíduos de cada épo-
os homens não os homens isolados e definidos de al- ca. Vamos considerar aqui algumas dessas abstrações, de
gum modo ' imaginário, mas envolvidos em seu processo que nos serviremos em confronto com a ideologia, e ex-
de desenvolvime nto real em determinadas condições, plicá-las através de exemplos históricos.
desenvolvime nto esse empiricament e visível. Desde que
se represente esse processo de atividade vital, a história
deixa de ser uma coleção de fatos sem vida, tal como é 1. História
para os empiristas, que são eles próprios também abs- Para os alemães despojados de qualquer pressupos-
tratos, ou a ação imaginária de sujeitos imaginários, tal to, somos obrigados a começar pela constatação de um
como é para os idealistas. primeiro pressuposto de toda a existência humana, e
É aí que termina a especulação, é na vida real que portanto de toda a história, ou seja, o de que todos os
começa portanto a ciência real, positiva, a análise da ati- homens devem ter condições de viver para poder "fazer
vidade prática, do processo, do desenyolvime nto práti- a história" 12 • Mas, para viver, é preciso antes de tudo
co dos homens. Cessam as frases ocas sobre a consciên- beber, comer, morar, vestir-se e algumas outras coisas
cia, para que um saber real as substitua. Com o conhe- mais. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção
cimento da realidade, a filosofia não tem mais um meio dos meios que permitem satisfazer essas necessidades, a
para existir de maneira autônoma. Em seu lugar, poder- produção da própria vida material; e isso mesmo cons-
se-á no máximo colocar uma síntese dos resultados mais titui um fato histórico, uma condição fundamental de
gerais que é possível abstrair do estudo do desenvolvi- toda a história que se deve, ainda hoje como há milha-
mento histórico dos homens. Essas abstraçôes, tomadas res de anos, preencher dia a dia, hora a hora, simples-
em si mesmas, desvinculadas da história real, não têm mente para manter os homens com vida. Mesmo quan-

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do a realidade sensível se reduz a um hastão, ao míni- "fato bruto" e tamhérn porque pode dar asas ao seu ins-
mo possível, corno acontece com São Bruno 15, essa rea- tinto especulativo e pode criar hipóteses aos milhares e
lidade implica a atividade que produziu esse bastão. A deixá-las de lado.
primeira coisa a fazer, em qualquer concepção histórica, A terceira relação, que intervém no desenvolvimen-
é portanto ohservar esse fato fundamental com todo o to histórico, é que os homens, que renovam a cada dia
seu significado e em toda a sua extensão, e dar-lhe o sua própria vida, passam a criar outros homens, a se re-
lugar a que tem direito. Todos sabem que os alemães produzir. É a relação entre homem e mulher, pais e fi-
nunca o fizeram; portanto nunca tiveram base terrestre lhos, é a família. Esta família, que é inicialmente a úni-
para a história e, conseqüentemente, nunca tiveram ne- ca relação social, torna-se em seguida uma relação su-
nhum historiador. Ernhora os franceses e os ingleses só balterna (exceto na Alemanha), quando as necessidades
tivessem visto sob o ângulo mais restrito a conexão des- acrescidas geram novas relações sociais e o aumento da
se fato com o que chamamos de história, sobretudo população gera novas necessidades; por conseguinte,
enquanto permaneceram prisioneiros da ideologia polí- deve-se tratar e desenvolver o tema da família segundo
tica, nem por isso deixaram de realizar as primeiras ten- os fatos empíricos existentes, e não segundo o "concei-
tativas para dar à história uma base materialista, escre- to de família", corno se costuma fazer na Alernanha 1 '.
vendo primeiramente histórias da sociedade burguesa, Aliás, não se devem compreender esses três aspectos da
do comércio e da indústria. atividade social como três estágios diferentes, mas tão-
O segundo ponto a examinar é que uma vez satis- somente corno três aspectos ou, para empregar uma lin-
feita a primeira necessidade, a ação de satisfazê-la e o guagem clara para os alemães, três "momentos" que coe-
instrumento já adquirido com essa satisfação levam a xistiram desde o começo da história e desde os primei-
novas necessidades - e essa produção de novas neces- ros homens, e que ainda hoje se manifestam na história.
sidades é o primeiro ato histórico. E é por aí que reco- Produzir a vida, tanto a sua própria vida pelo trabalho,
nhecemos imediatamente de que espírito é filha a gran- quanto a dos outros pela procriação, nos aparece por-
de sahedoria histórica dos alemães; pois quando existe tanto, a partir de agora, corno uma dupla relação: por
carência de material positivo e quando não se discutem um lado corno uma relação natural, por outro corno uma
disparates teológicos, nem disparates políticos ou literá- relação social - social no sentido em que se estende
rios, nossos alemães vêem, não mais a história, mas os com isso a ação conjugada de vários indivíduos, sejam
"tempos pré-históricos"; eles não nos explicam, aliás, quais forem suas condições, forma e ohjetivos. Disso de-
como se passa desse absurdo da "pré-história" à história corre que um modo de produção ou um estágio indus-
propriamente dita - se bem que, por outro lado, sua es- trial determinados estão constantemente ligados a um
peculação histórica se lança particularmente a essa "pré- modo de cooperação ou a um estádio social determina-
história", porque acredita estar a salvo da ingerência do dos, e que esse modo de cooperação é, ele próprio,

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uma "força produtiva"; decorre igualmente que a massa outros homens 1''. Onde existe uma relação, ela existe para
das forças produtivas acessíveis aos homens determina mim. O animal "nào está em relação" com coisa alguma,
o estado social, e que se deve por conseguinte estudar não conhece, afinal, nenhuma relação. Para o animal, suas
e elaborar incessantemente a "história dos homens" em relaçôes com os outros não existem enquanto relaçôes.
conexão com a história da indústria e das trocas. Mas A consciência é portanto, de início, um produto social e
também é claro que é impossível escrever uma tal histó- o será enquanto existirem homens. Assim, a consciência
ria na Alemanha, já que para tanto faltam aos alemães é, antes de mais nada, apenas a consciência do meio
não somente a faculdade de a conceber e os materiais, sensível mais próximo e de uma interdependência limi-
mas também a "certeza sensível", e que não se podem tada com outras pessoas e outras coisas situadas fora do
fazer experiências sobre essas coisas do outro lado do indivíduo que toma consciência; é ao mesmo tempo a
Reno, pois ali não há mais história. Manifesta-se portan- consciência da natureza que se ergue primeiro em face
to, de início, uma dependência material dos homens dos homens como uma força fundamentalmente estra-
entre si, condicionada pelas necessidades e pelo modo nha, onipotente e inatacável, em relação à qual os ho-
de produção, e que é tão antiga quanto os próprios ho- mens se comportam de um modo puramente animal e
mens - dependência essa que assume constantemente que se impõe a eles tanto quanto aos rebanhos; é, por
novas formas e apresenta portanto uma "história", mes- conseguinte, uma consciência da natureza puramente ani-
mo sem que exista ainda qualquer absurdo político ou mal (religião da natureza).
religioso que também mantenha os homens unidos. Vê-se imediatamente que essa religião da natureza
E somente agora, depois de já termos examinado ou essas relações determinadas para com a natureza são
quatro momentos, quatro aspectos das relações históri- condicionadas pela forma da sociedade e vice-versa.
cas originárias, descobrimos que o homem tem também Aqui, como por toda parte, aliás, a identidade entre o
"consciência" 1S. Mas não se trata de uma consciência que homem e a natureza aparece também sob esta forma, ou
seja de antemão consciência "pura". Desde o começo, seja, o comportamento limitado dos homens face à natu-
pesa uma maldição sobre o "espírito", a de ser "macula- reza condiciona seu comportamento limitado entre si, e
do" pela matéria que se apresenta aqui em forma de este condiciona, por sua vez, suas relações limitadas com
camadas de ar agitadas, de sons, em resumo, em forma a natureza, precisamente porque a natureza ainda quase
de linguagem. A linguagem é tão antiga quanto a cons- não foi modificada pela história. Por outro lado, a cons-
ciência - a linguagem é a consciência real, prática, que ciência da necessidade de entrar em relação com os in-
existe também para os outros homens, que existe, por- divíduos que o cercam marca, para o homem, o come-
tanto, também primeiro para mim mesmo e, exatamen- ço da consciência do fato de que, afinal, ele vive em so-
te como a consciência, a linguagem só aparece com a ciedade. Este começo é tão animal quanto a própria vida
carência, com a necessidade dos intercâmbios com os social nesta fase; é uma simples consciência gregária e,

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aqui, o homem se distingue do carneiro pelo simples Pouco importa, aliás, o que a consciência empreen-
fato de que nele a consciência toma o lugar do instinto de isoladamente; toda essa podridão só nos dá um resul-
ou de que seu instinto é um instinto consciente. Essa tado: esses três momentos - a força produtiva, o estado
consciência gregária ou tribal se desenvolve e se aper- social e a consciência - podem e devem entrar em con-
feiçoa posteriormente em razào do aumento da produti- flito entre si, pois, pela divisão do trabalho, torna-se pos-
vidade, do aumento das necessidades e do crescimento sível, ou melhor, acontece efetivamente que a atividade
populacional que está na base dos dois elementos pre- intelectual e a atividade material - o gozo e o trabalho,
cedentes. Assim se desenvolve a divisào do trabalho que a produção e o consumo - acabam sendo destinados a
outra coisa nào era, primitivamente, senão a divisão do indivíduos diferentes; então, a possibilidade de esses ele-
trabalho no ato sexual, e depois se tomou a divisào de tra- mentos não entrarem em conflito reside unicamente no
balho que se faz por si só ou "pela natureza", em virtu- fato de se abolir novamente a divisão do trabalho. É evi-
de das disposições naturais ( vigor corporal, por exem- dente aliás que os "fantasmas", "laços", "ser supremo",
plo), das necessidades, do acaso etc. A divisão do traba- "conceito", "escrúpulos" 1'' são apenas a expressão mental
lho só se torna efetivamente divisào do trabalho a partir idealista, a representaçào aparente do indivíduo isolado,
do momento em que se opera uma divisão entre o tra- a representação de cadeias e de limites muito empíricos
balho material e o trabalho intelectual1". A partir desse no interior dos quais se move o modo de produção da
momento, a consciência pode de fato imaginar que é vida e o modo de trocas ligado a ele.
algo mais do que a consciência da prática existente, que Essa divisào do trabalho, que implica todas essas con-
ela representa realmente algo, sem representar algo real. tradições, e repousa por sua vez na divisão natural do
A partir desse momento, a consciência está em condi- trabalho na família e na separaçào da sociedade em fa-
ções de se emancipar do mundo e de passar à formação mílias isoladas e opostas umas às outras - essa divisão
da teoria "pura", teologia, filosofia, moral etc. Mas, mes- do trabalho encerra ao mesmo tempo a repartição do tra-
mo quando essa teoria, essa teologia, essa filosofia, essa balho e de seus produtos, distribuição desigual, na ver-
moral etc. entram em contradição com as relações exis- dade, tanto em quantidade quanto em qualidade. Encer-
tentes, isso só pode acontecer pelo fato de as relações ra portanto a propriedade, cuja primeira forma, o seu
sociais existentes terem entrado em contradição com a germe, reside na família onde a mulher e os filhos sào
força produtiva existente; aliás, numa esfera nacional escravos do homem. A escravidào, certamente ainda mui-
determinada isso também pode acontecer porque, nesse to mdimentar e latente na família, é a primeira proprie-
caso, a contradição se produz não no interior dessa esfe- dade, que aliás já corresponde perfeitamente aqui à defi-
ra nacional, mas entre essa consciência nacional e a prá- nição dos economistas modernos segundo a qual ela é
tica das outras nações, isto é, entre a consciência nacio- a livre disposição da força de trabalho de outrem. Assim,
nal de uma naçào e a sua consciência universal1". divisào do trabalho e propriedade privada sào expres-

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sões idênticas - na primeira se enuncia, em relação à ati- ca me tornar caçador, pescador ou crítico. Essa fixaçào
vidade, aquilo que na segunda é enunciado em relaçào da atividade social, essa consolidaçào do nosso próprio
ao produto dessa atividade. produto pessoal em uma força objetiva que nos domina,
Além disso, a divisão do trabalho implica também a escapando ao nosso controle, contrariando nossas expec-
contradiçào entre o interesse do indivíduo isolado ou da tativas, reduzindo a nada nossos cálculos, é até hoje um
família isolada e o interesse coletivo de todos os indiví- dos momentos capitais do desenvolvimento histórico. É
duos que mantêm relações entre si; e, ainda mais, esse justamente essa contradiçào entre o interesse particular e
interesse comunitário nào existe somente, digamos, na o interesse coletivo que leva o interesse coletivo a tomar,
representaçào, como "universal", mas primeiramente na na qualidade de Estado, uma forma independente, sepa-
realidade concreta, como dependência recíproca dos in- rada dos interesses reais do indivíduo e do conjunto e a
divíduos entre os quais o trabalho é dividido. fazer ao mesmo tempo as vezes de comunidade ilusória,
Enfim, a divisào do trabalho nos oferece imediata- mas sempre tendo por base concreta os laços existentes
mente o primeiro exemplo do seguinte fato: enquanto os em cada agrupamento familiar e tribal, tais como laços
homens permanecerem na sociedade natural, portanto, de sangue, língua, divisào do trabalho em uma larga
enquanto há cisào entre o interesse particular e o inte- escala, e outros interesses; e entre esses interesses encon-
resse comum, enquanto portanto também a atividade tramos particularmente, como trataremos mais adiante,
nào é dividida voluntariamente, mas sim naturalmente, a os interesses das classes já condicionadas pela divisào
própria açào do homem se transforma para ele em força do trabalho, que se diferenciam em todo agrupamento
estranha, que a ele se opõe e o subjuga, em vez de ser desse gênero e no qual uma domina todas as outras. Se-
por ele dominada. Com efeito, a partir do instante em gue-se que todas as lutas no âmbito do Estado, a luta en-
que o trabalho começa a ser dividido, cada um tem uma tre a democracia, a aristocracia e a monarquia, a luta pelo
esfera de atividade exclusiva e determinada, que lhe é direito de voto etc. etc., nada mais sào do que formas
imposta e da qual ele nào pode fugir; ele é caçador, pes- ilusórias sob as quais sào travadas as lutas efetivas entre
cador, pastor ou crítico2º, e deverá permanecer assim se as diferentes classes (do que os teóricos alemàes nào per-
nào quiser perder seus meios de sobrevivência; ao passo cebem o mínimo, embora sobre isso muito já lhes tenha
que, na sociedade comunista, em que cada um nào tem sido mostrado bastante em Anais Franco-alemães e em
uma esfera de atividade exclusiva, mas pode se aperfei- A Sagrada Família 21 ); segue-se também que toda classe
çoar no ramo que lhe agradar, a sociedade regulamenta que aspira à dominaçào, mesmo que essa dominaçào
a produçào geral, o que cria para mim a possibilidade de determine a aboliçào de toda a antiga forma social e da
hoje fazer uma coisa, amanhà outra, caçar de manhà, dominação em geral, como acontece com o proletariado,
pescar na parte da tarde, cuidar do gado ao anoitecer, fa- segue-se portanto que essa classe deve conquistar pri-
zer crítica após as refeições, a meu bel-prazer, sem mm- meiro o poder político para apresentar por sua vez seu

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interesse próprio corno sendo o interesse geral, sendo tra o qual se faça a revolução, é necessário que ela tenha
obrigada a isso no primeiro momento. Justamente por- feito da massa da humanidade urna massa totalmente
que os indivíduos procuram apenas seu interesse parti- "privada de propriedade", que se ache ao mesmo tempo
cular - que para eles não coincide com seu interesse em contradição com um mundo de riqueza e de cultura
coletivo, já que a universalidade é apenas urna forma ilu- realmente existente, ambos pressupondo um grande au-
sória da coletividade -, esse interesse é apresentado corno mento da força produtiva, isto é, um estágio elevado de
um interesse que lhes é "estranho", "independente" deles seu desenvolvimento. Por outro lado, esse desenvolvi-
e ele próprio, por sua vez, um interesse "universal" espe- mento das forças produtivas (que já implica que a exis-
cial e particular; ou então eles devem rnovirnentar-se 22 tência empírica real dos homens se desenrole no plano
nessa dualidade, corno acontece na democracia. Por ou- da história mundial e não no plano da vida local) é uma
tro lado, o combate prático desses interesses particula- condição prática prévia absolutamente indispensável,
res, que constantemente se chocam realmente com os in- pois, sem ele, a penúria se generalizaria, e, com a neces-
teresses coletivos e ilusoriamente coletivos, torna neces- sidade, também a luta pelo necessário recomeçaria, e se
sária a intervenção prática e o refreamento por meio do cairia fatalmente na mesma imundície anterior. Ele é
interesse "universal" ilusório sob forma de Estado. O po- também uma condição prática sine qua non, porque uni-
der social, isto é, a força produtiva multiplicada que nas- camente através desse desenvolvimento universal das
ce da cooperação dos diversos indivíduos, condicionada forças produtivas é possível estabelecer um intercâmbio
pela divisão do trabalho, não aparece a esses indivíduos universal entre os homens, e assim ele gera o fenômeno
corno sendo sua própria força conjugada, porque essa da massa "privada de propriedade" simultaneamente em
própria cooperação não é voluntária, mas sim natural; todos os povos (concorrência universal) e torna cada um
ela lhes aparece, ao contrário, corno urna força estranha, deles dependente das revoluções dos demais; e porque,
situada fora deles, que não sabem de onde ela vem nem finalmente, coloca homens que vivem empiricamente a
para onde vai, que, portanto, não podem mais dominar história universal em lugar de indivíduos que vivem
e que, inversamente, percorre agora urna série particular num plano local. Sem isso: 1º o comunismo só poderia
de fases e de estádios de desenvolvimento, tão indepen- existir como fenômeno local; 2º os poderes dos inter-
dente da vontade e da marcha da humanidade, que na câmbios humanos não poderiam desenvolver-se como
verdade é ela que dirige essa vontade e essa marcha da poderes universais e, portanto, insuportáveis, continuan-
humanidade. do a ser simples "circunstâncias" ligadas a superstições
Esta "alienação" - para que a nossa exposição seja locais; e 3º qualquer ampliação do intercâmbio superaria
compreendida pelos filósofos -, naturalmente, só pode o comunismo local. O comunismo só é empiricamente
ser superada sob duas condições práticas. Para que ela possível como o ato "súbito" e simultâneo dos povos do-
se torne um poder "insuportável", isto é, um poder cem- minantes, o que supôe, por sua vez, o desenvolvimento

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universal da força produtiva e os intercâmbios mundiais tal ou de qualquer espécie de satisfação mesmo que
estreitamente ligados a este desenvolvimento. De outro limitada - pressupõe o mercado mundial, como o pres-
modo, como poderia a propriedade, por exemplo, ter supõe também, devido à concorrência, a perda desse
uma história, tomar diferentes formas? Como, digamos, trabalho enquanto fonte de subsistência garantida, e não
poderia a propriedade fundiária, segundo as várias con- mais a título temporário.
dições que se apresentavam, passar, na França, da frag- O proletariado só pode existir, portanto, em termos
mentação à centralização nas mãos de alguns, e, na In- de história universal, assim como o comunismo, que é a
glaterra, passar da centralização nas mãos de alguns à sua conseqüência, só pode se apresentar enquanto exis-
fragmentação, corno efetivamente acontece hoje? Ou en- tência "histórica universal". Existência histórica universal
tão é possível, ainda hoje, que o comércio, que nada dos indivíduos, em outras palavras, existência dos indiví-
mais representa a não ser a troca dos produtos de indi- duos diretamente ligada à história universal.
víduos e de nações diferentes, domine o mundo inteiro A forma das trocas, condicionada pelas forças de pro-
pela relação da oferta e da procura - relação essa que, dução existentes em todas as fases históricas que prece-
segundo um economista inglês, paira sobre a Terra co- dem a nossa e por sua vez as condiciona, é a sociedade
mo a fatalidade antiga e distribui, com mão invisível, a civil, que, como já se depreende pelo que foi dito antes,
felicidade e a desgraça entre os homens, funda impérios, tem por condição prévia e base fundamental a família
aniquila impérios, faz nascerem e desaparecerem povos -, simples e a família composta, o que se chama de clã,
ao passo que uma vez abolida a base, que é a proprie- cujas definições mais precisas já foram dadas anterior-
dade privada, e instaurada a regulamentação comunista mente. Já é evidente, portanto, que essa sociedade civil
da produção, que elimina no homem o sentimento de é a verdadeira sede, o verdadeiro palco de toda a histó-
estar diante de seu próprio produto como diante de uma ria e vemos a que ponto a concepção passada da história
coisa estranha, a força da relação da oferta e da procura era um absurdo que omitia as relações reais e se limita-
é reduzida a nada, e os homens recuperem o controle va aos grandes e retumbantes acontecimentos históricos
sobre o comércio, a produção, seu modo de comporta- e políticos 2\ A sociedade civil compreende o conjunto
mento recíproco? das relações materiais dos indivíduos dentro de um está-
Para nós o comunismo não é nem um estado a ser gio determinado de desenvolvimento das forças produti-
criado, nem um ideal pelo qual a realidade deverá se vas. Compreende o conjunto da vida comercial e indus-
guiar. Chamamos de comunismo o movimento real que trial de um estágio e ultrapassa, por isso mesmo, o Estado
supera o estado atual de coisas. As condições desse movi- e a nação, embora deva, por outro lado, afirmar-se no
mento resultam das premissas atualmente existentes. exterior como nacionalidade e organizar-se no interior
Enfim, a massa de trabalhadores que são apenas tra- como Estado. O termo sociedade civiF' apareceu no sé-
balhadores- força de trabalho maciça, separada do capi- culo XVIII, quando as relações de propriedade se desli-

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garam da comunidade antiga e medieval. A sociedade (inclusive a produção intelectual) e posto em condições
civil enquanto tal só se desenvolve com a burguesia; en- de adquirir a capacidade de desfrutar a produção do
tretanto, a organização social resultante diretamente da mundo inteiro em todos os seus domínios ( criação dos
produção e do comércio, e que constitui em qualquer homens). A dependência universal, essa forma natural
tempo a base do Estado e do restante da superestrutura da cooperação dos indivíduos em escala histórico-mun-
idealista, tem sido constantemente designada por esse dial, será transformada por essa revolução comunista em
mesmo nome. controle e domínio consciente dessas forças que, engen-
dradas pela ação recíproca dos homens entre si, lhes
foram até agora impostas como se fossem forças funda-
2. Da Produção da Consciência mentalmente estranhas, e os dominaram. Esta concepção
Na verdade, é também um fato indubitavelmente pode ser, por sua vez, concebida de maneira especulati-
empírico que, na história decorrida até hoje, com a ex- va e idealista, isto é, fantasiosa, como "geração do gêne-
tensão da atividade, no plano da história universal, os ro26 por si mesmo" (a "sociedade enquanto sujeito") e,
indivíduos foram cada vez mais submetidos a uma força por isso, mesmo a série sucessiva dos indivíduos em
que lhes é estranha - opressão essa que eles considera- relação uns com os outros pode ser representada como
vam como uma trapaça do chamado Espírito universal -, um indivíduo único que realizaria esse mistério de gerar
uma força que se foi tornando cada vez mais maciça e se a si mesmo. Vê-se então que os indivíduos se criam uns
revela, em última instância, como o mercado mundial. aos outros, no sentido físico e no moral, mas não se
Mas também tem base empírica o fato de que essa força, criam, nem no sentido absurdo de São Bnmo, nem no
tão misteriosa para os teóricos alemães, será superada sentido do "único" 27 , do homem "feito por si mesmo".
com a derrubada do atual estado social, pela revolução Esta concepção da história, portanto, tem por base o
comunista (de que falaremos mais tarde) e pela abolição desenvolvimento do processo real da produção, e isso
da propriedade privada, que lhe é inerente; então a partindo da produção material da vida imediata; ela con-
libertação de cada indivíduo em particular se realizará cebe a forma dos intercâmbios humanos ligada a esse
exatamente na medida em que a história se transformar modo de produção e por ele engendrada, isto é, a socie-
completamente em história mundial2\ Segundo o que foi dade civil em seus diferentes estágios como sendo o fun-
dito anteriormente, está claro que a verdadeira riqueza damento de toda a história, o que significa representá-la
intelectual do indivíduo depende inteiramente da rique- em sua ação enquanto Estado, bem como em explicar
za de suas relações reais. É só desta maneira que cada por ela o conjunto das diversas produções teóricas e das
indivíduo em particular será libertado das diversas limi- formas da consciência, religião, filosofia, moral etc., e a
tações nacionais e locais que encontra, sendo colocado seguir sua gênese a partir dessas produções, o que per-
em relações práticas com a produção do mundo inteiro mite então naturalmente representar a coisa na sua tota-

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lidade (e examinar também a ação recíproca de seus di- fos fazem do que seja "substância" e "essência do ho-
ferentes aspectos). Ela não é obrigada, como ocorre com mem", daquilo que eles elevaram às nuvens ou comba-
a concepção idealista da história, a procurar uma catego- teram, base concreta cujos efeitos e influência sobre o
ria em cada período, mas permanece constantemente no desenvolvimento dos homens não são absolutamente
terreno real da história; ela não explica a prática segun- afetados pelo fato de esses filósofos se revoltarem contra
do a idéia, explica a formação das idéias segundo a prá- ela na qualidade de "consciência de si" e de "únicos".
tica material; chega por conseguinte ao resultado de que São igualmente essas condições de vida, que as diversas
todas as formas e produtos da consciência podem ser gerações encontram prontas, que determinam se a co-
resolvidos não por meio da crítica (espiritual) intelectual, moção revolucionária, produzida periodicamente na his-
pela redução à "consciência de si" ou pela metamorfose tória, será suficientemente forte para derrubar as bases
'em "almas do outro mundo", em "fantasmas", em "obses- de tudo o que existe; os elementos materiais de uma
sões"2" etc., mas unicamente pela derrubada efetiva das subversão total são, por um lado, as forças produtivas
relações sociais concretas de onde surgiram essas babo- existentes e, por outro lado, a formação de uma massa
seiras idealistas. A revolução, e não a crítica, é a verda- revolucionária que faça a revolução não só contra condi-
deira força motriz da história, da religião, da filosofia e ções particulares da sociedade existente até então, mas
de qualquer outra teoria. Esta concepção mostra que o também contra a própria "produção da vida" anterior,
fim da história não se acaba resolvendo em "consciência contra o "conjunto da atividade" que constitui sua base;
de si", como "espírito do espírito", mas sim que a cada se essas condições não existem, é inteiramente indife-
estágio são dados um resultado material, uma soma de rente, para o desenvolvimento prático, que a idéia dessa
forças produtivas, uma relação com a natureza e entre os subversão já tenha sido expressada mil vezes ... como o
indivíduos, criados historicamente e transmitidos a cada prova a história do comunismo.
geração por aquela que a precede, uma massa de forças Até agora, toda concepção histórica deixou comple-
produtivas, de capitais e de circunstâncias, que, por um tamente de lado essa base real da história, ou então a
lado, são bastante modificados pela nova geração, mas considerou como algo acessório, sem qualquer vínculo
que, por outro lado, ditam a ela suas próprias condições com a marcha da história. É por isso que a história deve
de existência e lhe imprimem um determinado desenvol- sempre ser escrita segundo uma norma situada fora dela.
vimento, um caráter específico; por conseguinte as cir- A produção real da vida aparece na origem da história,
cunstâncias fazem os homens tanto quanto os homens ao passo que aquilo que é propriamente histórico apare-
fazem as circunstâncias. Esta soma de forças produtivas, ce como separado da vida comum, como extra e supra-
de capitais, de formas de relações sociais, que cada indi- terrestre. As relações entre os homens e a natureza são,
víduo e cada geração encontram como dados existentes, por isso, excluídas da história, o que engendra a oposi-
constitui a base concreta da representação que os filóso- ção entre a natureza e a história. Por conseguinte, essa

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_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Feuerhach _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

concepção só pôde ver na história os grandes aconteci- mas 2'1, a cuja visão só consegue escapar pela "dessacrali-
mentos históricos e políticos, lutas religiosas e, sobretu- zação". Essa concepção é de fato religiosa, ela supõe
do, teóricos, e teve particularmente de compartilhar, em que o homem religioso é o homem primitivo do qual par-
cada época histórica, a ilusão dessa época. Suponhamos te toda a história, e ela substitui, na sua imaginação, a
que uma época imagine ser determinada por motivos produção real dos meios de vida e da própria vida por
puramente "políticos" ou "religiosos", embora "política" uma produção religiosa de coisas imaginárias. Toda essa
e "religião" sejam apenas formas de seus reais motivos: concepção da história, bem como a sua desagregação e
seu historiador aceita então essa opinião. A "imagina- os escrúpulos e as dúvidas que dela resultam, não passa
ção", a "representação" que esses homens determinados de uma questão puramente nacional que diz respeito
fazem da sua práxis real, transforma-se na única força apenas aos alemães, tendo apenas um interesse local
determinante e ativa que domina e determina a prática para a Alemanha, como por exemplo a questão impor-
desses homens. Se a forma rudimentar sob a qual se apre- tante, e tratada reiteradas vezes ultimamente, de se saber
senta a divisão do trabalho entre os indianos e os egíp- como se passa exatamente "do reino de Deus ao reino
cios faz surgir um regime de castas em seu Estado e em dos homens"; como se esse "reino de Deus" algum dia
sua religião, o historiador acredita que o regime das cas- tivesse existido em algum lugar que não na imaginação
tas é a força que engendrou essa forma social rudimen- dos homens e como se esses doutos senhores não vives-
tar. Enquanto os franceses e os ingleses se apegam pelo sem sempre, e sem dar por isso, no "reino dos homens",
menos à ilusão política, que é ainda a que mais se apro- cujo caminho estão procurando agora, e como se o
xima da realidade efetiva, os alemães se movem no do- divertimento científico - pois nada mais é do que isso -
mínio do "espírito puro" e fazem da ilusão religiosa a que existe em explicar a singularidade dessa construção
força motriz da história. A filosofia da história de Hegel teórica nas nuvens não consistisse, ao contrário, em
é a última expressão conseqüente, levada à sua "mais demonstrar como essa mesma construção surgiu do esta-
pura expressão", de toda essa maneira que os alemães do de coisas real, terrestre. Em geral, para esses alemães,
têm de escrever a história e na qual não se fala de inte- trata-se de atribuir o contra-senso que encontram a algu-
resses reais, nem mesmo de interesses políticos, mas de ma outra quimera, ou seja, de afirmar que todo esse con-
idéias puras; essa história não pode, então, deixar de tra-senso tem um sentido particular que é preciso escla-
aparecer a São Bruno como uma seqüência de "idéias", recer, quando na verdade se trata unicamente de expli-
em que uma devora a outra e acaba por perecer na car essa fraseologia teórica a partir das relações reais exis-
"consciência de si", e para São Max Stirner, que nada tentes. A verdadeira solução prática dessa fraseologia, a
sabe de toda a história real, essa marcha da história devia eliminação dessas representações na consciência dos ho-
parecer, com muito mais lógica ainda, como uma sim- mens, só será realizada, repitamos, por mei9 de uma
ples história de "cavaleiros", de bandidos e de fantas- transformação das circunstâncias existentes, e não por

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deduções teóricas. Para a massa dos homens, isto é, para brilho a glória de uma pessoa que não é histórica e de
o proletariado, tais representações teóricas não existem e suas fantasias, e se coaduna com esse objetivo o fato de
portanto não precisam ser suprimidas, e, se essa massa já não lembrar os acontecimentos realmente históricos, nem
teve algum dia representações teóricas como a religião, mesmo as intromissões realmente históricas da política
há muito tempo já foram destruídas pelas circunstâncias. na história, e de oferecer, em compensação, um relato
O caráter puramente nacional dessas questões e de que não se fundamenta em um estudo sério, mas em
suas soluções manifesta-se ainda no fato de que esses montagens históricas e bisbilhotices literárias - como fez
teóricos acreditavam, com a maior seriedade do mundo, São Bruno em sua História do Século XVIIIi 2, agora es-
que as divagações do espírito como o "homem-deus", o quecida. Esses merceeiros do pensamento, cheios de vee-
"homem" etc., presidiram às diferentes épocas da histó- mência e arrogância, que se julgam infinitamente acima
ria - São Bruno chega mesmo a afirmar que somente "a dos preconceitos nacionais, são, na prática, muito mais
crítica e os críticos fizeram a história" - e, inclusive, quan- nacionais do que esses filisteus de cervejaria que, como
do se dedicam a construções históricas, eles saltam rapi- pequenos burgueses, sonham com a unidade alemã.
damente por cima de todo o passado e vão da "civiliza- Recusam todo caráter histórico às ações dos outros po-
ção mongol" à história propriamente dita "rica de con- vos, vivem na Alemanha, para a Alemanha e pela Ale-
teúdo", isto é, à história de Anais de Halle e Anais Ale- manha, transformam a Canção do Reno em hino espiri-
mães'º e contam como a escola hegeliana degenerou em tuaP', e conquistam a Alsácia-Lorena pilhando a filosofia
disputa geral. Todas as outras nações, todos os aconte- francesa em vez de pilhar o Estado francês, e germani-
cimentos reais são esquecidos, o teatro do mundo zando pensamentos franceses em vez de germanizar pro-
(Tbeatrum mundi) limita-se à feira de livros de Leipzig e víncias francesas. O sr. VenedeyY• aparece como cosmo-
às controvérsias recíprocas da "Crítica", do "Homem" e polita ao lado de São Bruno e de São Max", que procla-
do "Único"' 1 • Quando acontece à teoria tratar de temas mam a hegemonia da Alemanha proclamando a hege-
verdadeiramente históricos, como o século XVIII, por monia da teoria.
exemplo, esses filósofos só oferecem a história das re- Vê-se também, por essas discussões, o quanto Feuer-
presentações, desligada dos fatos e dos desenvolvimen- bach se engana quando (na Revista Trimestral de Wigand,
tos práticos que constituem sua base; e, além disso, só 1845, tomo II)'6, qualificando-se de "homem comunitá-
oferecem essa história com a finalidade de representar a rio", ele se proclama comunista e transforma este nome
época em foco como uma primeira etapa imperfeita, em predicado de "o" homem, acreditando poder assim
como um anúncio, ainda limitado, da verdadeira época transformar em uma simples categoria o termo comunis-
histórica, isto é, da época da luta dos filósofos alemães ta que, no mundo atual, designa o adepto de um partido
de 1840 a 1844. Seu objetivo é, portanto, escrever uma revolucionário determinado. Toda a dedução de Feuer-
história do passado para fazer resplandecer com o maior bach quanto às relações recíprocas dos homens visa uni-

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camente a provar que os homens têm necessidade uns de atacar e de transformar praticamente o estado de coi-
dos outros e que sempre foi assim. Ele quer que a cons- sas que ele encontrou. E, se às vezes encontramos em
ciência se aposse desse fato, ele quer assim, a exemplo Feuerbach pontos de vista desse gênero, eles nunca vão
dos outros teóricos, suscitar uma justa consciência de um além de intuições isoladas e têm muito pouca influência
fato existente, ao passo que para o verdadeiro comunis- sobre toda a concepção geral, para que possamos ver ne-
ta o que importa é derrubar essa ordem existente. Re- les, aqui, algo mais do que germes capazes de se desen-
conhecemos plenamente, aliás, que Feuerbach, nos seus volverem. A "concepção" do mundo sensível para Feuer-
esforços para engendrar a consciência desse fato, vai tão bach limita-se, por um lado, à simples intuição deste últi-
longe quanto é possível a um teórico sem deixar de ser mo e, por outro, à simples sensação. Ele diz "o homem"
teórico e filósofo. Mas é bem característico o fato de que em vez de dizer os "homens históricos reais". "o ho-
São Bruno e São Max colocaram imediatament e a repre- mem" é, na realidade, "o alemão". No primeiro caso, na
sentação do comunista segundo Feuerbach no lugar do intuição do mundo sensível, ele se choca necessaria-
comunista verdadeiro, e assim o fazem, em parte, a fim mente contra objetos que estão em contradição com a
de poderem combater o comunismo enquanto "espírito sua consciência e as suas sensações, que perturbam a
do espírito", enquanto categoria filosófica, enquanto ad- harmonia de todas as partes do mundo sensível que ele
versário de condição idêntica à deles - e São Bruno o faz havia pressuposto, sobretudo a do homem e da nature-
aliás, por sua vez, em vista de interesses pragmáticos. za59. Para eliminar esses objetos, ele é obrigado a se refu-
Como exemplo desse reconhecimen to e desconhecime n- giar em uma dupla maneira de ver, oscila entre uma
to simultâneos do estado de coisas existente, que Feuer- maneira de ver profana, que percebe apenas "o que é vi-
bach continua a partilhar com nossos adversários, lem- sível a olho nu", e uma maneira de ver mais elevada
bremos esta passagem da Filosofia do Futuro 37, onde ele filosófica, que percebe a "essência verdadeira" das coi~
desenvolve a idéia de que o ser de um objeto ou de um sas. Não vê que o mundo sensível que o cerca não é um
homem é igualmente sua essência, que as condições de objeto dado diretamente, eterno e sempre igual a si
existência, o modo de vida e a atividade determinada de mesmo, mas sim o produto da indústria e do estado da
uma criatura animal ou humana são aqueles em que a sociedade, no sentido de que é um produto histórico, o
sua "essência" se sente satisfeita. Compreende- se aqui resultado da atividade de toda uma série de gerações,
expressament e cada exceção como um infeliz acaso, co- sendo que cada uma delas se alçava sobre os ombros da
mo uma anomalia que não se pode mudar. Portanto, se precedente, aperfeiçoava sua indústria e seu comércio e
milhões de proletários não se sentem de maneira alguma modificava seu regime social em função da modificação
satisfeitos com suas condições de vida, se seu "ser" ( ... ) 38 das necessidades. Os objetos da mais simples "certeza
Na realidade, para o materialista prático, isto é, para o sensível" são dados a Feuerbach apenas pelo desenvol-
comunista, trata-se de revolucionar o mundo existente, vimento social, pela indústria e pelas trocas comerciais.

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_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia A l e m ã - - - - - - - - ~ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Feuerbach _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

Sabe-se que a cerejeira, como quase todas as árvores fru- havia somente rocas de fiar e teares manuais, e descobre
tíferas, foi transplantada para as nossas latitudes pelo apenas pastagens e pântanos nos campos romanos, on-
comércio, há apenas poucos séculos, e que portanto foi de nos tempos de Augusto teria encontrado somente
somente graças a essa ação de uma determinada socie- vinhedos e villas de capitalistas romanos. Feuerbach fala
dade em uma determinada época que ela foi dada ã "cer- particularmente da concepção da ciência da natureza,
teza sensível" de Feuerbach. lembra segredos que se revelam somente aos olhos do
Por sua vez, nessa concepção que vê as coisas tais físico e do químico; mas onde estaria a ciência da natu-
como realmente são e como aconteceram realmente, to- reza sem o comércio e a indústria? Mesmo esta ciência
do problema filosófico oculto se converte simplesmente da natureza chamada "pura", não são apenas o comércio
em um fato empírico, como veremos ainda mais clara- e a indústria, a atividade material dos homens, que lhe
mente um pouco mais adiante. Tomemos por exemplo a atribuem uma finalidade e lhe fornecem seus materiais?
questão importante das relações entre o homem e a na- E essa atividade, esse trabalho, essa criação material in-
tureza (ou mesmo, como Bruno nos diz na página 110''0 , cessante dos homens, essa produção, em uma palavra, é
as "contradições na natureza e na história", como se aí a base de todo o mundo sensível tal como existe em nos-
houvesse duas "coisas" separadas, como se o homem sos dias, a tal ponto que se fossem interrompidas, mes-
não se achasse sempre em face de uma natureza que é mo por apenas um ano, Feuerbach não somente encon-
histórica e de uma história que é natural). Esta questão traria uma enorme modificação no mundo natural, como
da origem de todas as "obras de uma grandeza insondá- bem depressa deploraria a perda de todo o mundo hu-
vel"11 sobre a "substância" e a "consciência de si" se re- mano e de sua própria faculdade de intuição, e até de
duz por si só à compreensão do fato de que a tão céle- sua própria existência. Naturalmente, o primado da natu-
bre "unidade do homem e da natureza" existiu em todos reza exterior também não subsiste, e nada disso pode,
os tempos na indústria e se apresentou de maneira dife- decerto, aplicar-se aos primeiros homens produzidos por
rente, em cada época, segundo o desenvolvimento maior generatio aequivoca'' 2 ; mas essa distinção só tem sentido
ou menor da indústria; e o mesmo acontece com a "luta" se considerarmos o homem como sendo diferente da
do homem contra a natureza, até que as suas forças pro- natureza. Em suma, essa natureza que precede a história
dutivas se tenham desenvolvido sobre uma base adequa- dos homens não é de modo algum a natureza onde vive
da. A indústria e o comércio, a produção e a troca dos Feuerbach; essa natureza, hoje em dia, não existe mais
meios de subsistência condicionam a distribuição, a es- em parte alguma, a não ser talvez em alguns atóis austra-
trutura das diferentes classes sociais, para serem por sua lianos de formação recente, e portanto ela tampouco
vez condicionadas por estas em seu modo de funciona- existe para Feuerbach.
mento. E é por isso que Feuerbach só vê, por exemplo, Confessemos que Feuerbach leva, sobre os materia-
em Manchester, fábricas e máquinas onde há um século listas "puros", a grande vantagem de perceber que o ho-

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mem é também um "objeto sensível"; mas deixemos de tais, as forças produtivas que lhe são transmitidas pelas
lado o fato de que ele considera o homem unicamente gerações precedentes; assim sendo, cada geração, por
como "objeto sensível" e não como "atividade sensível", um lado, continua o modo de atividade que lhe é trans-
pois também aí ele se contenta com a teoria e não con- mitido, mas em circunstâncias radicalmente transforma-
sidera os homens em seu determinado contexto social, das, e, por outro lado, ela modifica as antigas circunstân-
em suas reais condições de vida, que deles fizeram o cias entregando-se a uma atividade radicalmente diferen-
que hoje são; e o fato é que ele nunca chega aos homens te; chega-se a desnaturar esses fatos pela especulação,
que existem e agem realmente; fica numa abstração, "o fazendo-se da história recente a finalidade da história an-
homem", e só chega a reconhecer o homem "real, indi- terior; é assim, por exemplo, que se atribui à descoberta
vidual, em carne e osso", no sentimento; em outras pala- da América o seguinte objetivo: ajudar a eclodir a Revo-
vras, não conhece outras "relações humanas" "do ho- lução Francesa; dessa maneira, confere-se então à histó-
mem para com o homem", que não sejam o amor e a ria seus fins particulares e dela se faz uma "pessoa ao
amizade, e ainda assim idealizados. Ele não critica as lado de outras pessoas" (a saber "consciência de si, críti-
atuais condições de vida. Nunca chega, portanto, a con- ca, único" etc.), enquanto que aquilo que se designa
siderar o mundo sensível como a soma da atividade viva pelos termos "determinação", "finalidade", "germe", "idéia"
e física dos indivíduos que o compõem; e quando vê, da história passada nada mais é do que uma abstração da
por exemplo, em vez de homens saudáveis, um bando história anterior, uma abstração da influência ativa que
de famintos escrofulosos, esgotados e tuberculosos é obri- a história anterior exerce sobre a história atual.
gado a apelar para a "concepção superior das coisas", e Ora, quanto mais as esferas individuais, que agem
para a "igualização ideal no gênero"; recai por conse- uma sobre a outra, crescem no curso desse desenvolvi-
guinte no idealismo, precisamente onde o materialismo mento, e quanto mais o isolamento primitivo das diver-
comunista vê a necessidade ao mesmo tempo de uma sas nações é destruído pelo modo de produção aperfei-
transformação radical tanto da indústria como da estru- çoado, pela circulação e a divisão do trabalho entre as
tura social. nações que disso espontaneamente resulta, tanto mais a
Na medida em que é materialista, Feuerbach nunca história se transforma em história mundial; de sorte que,
faz intervir a história, e, na medida em que considera a se inventarem, por exemplo, na Inglaterra uma máquina
história, ele deixa de ser materialista. Para ele, história e que, na Índia e na China, roube o pão a milhares de tra-
materialismo são duas coisas completamente separadas, balhadores e subverta toda a forma de existência desses
o que fica explicado, aliás, por tudo o que foi dito ante- impérios, essa invenção torna-se um fato da história uni-
riormente13. versal. É dessa mesma maneira que o açúcar e o café
A história não é senão a sucessão das diferentes ge- provaram sua importância para a história universal no
rações, cada uma das quais explora os materiais, os capi- século XIX, pelo fato de que a carência desses produtos,

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resultado do bloqueio continental de Napoleão, provo- bém como seres pensantes, como produtores de idéias,
cou a subversão dos alemães contra Napoleão, tornan- que regulamentam a produção e a distribuição dos pen-
do-se assim a base concreta das gloriosas guerras de li- samentos da sua época; suas idéias são portanto as idéias
bertação de 1813. Donde se conclui que essa transforma- dominantes de sua época. Tomemos como exemplo
ção da história em história universal não é, digamos, um uma época e um país em que o poder real, a aristocracia
simples fato abstrato da "consciência de si", do espírito e a burguesia disputam a dominação e onde esta é por-
do mundo ou de algum outro fantasma metafísico, mas tanto dividida; vemos que o pensamento dominante é aí
sim uma ação puramente material, que se pode verificar a doutrina da divisão dos poderes, que é então enuncia-
de forma empírica, uma ação da qual cada indivíduo for- da como uma "lei eterna".
nece a prova tal como ela é, comendo, bebendo e se Reencontramos aqui a divisão do trabalho mencio-
vestindo. nada antes (pp. 28-34) como uma das forças capitais da
Os pensamentos da classe dominante são também, história. Ela se manifesta também na classe dominante
em todas as épocas, os pensamentos dominantes; em sob a forma de divisão entre o trabalho intelectual e o
outras palavras, a classe que é o poder material domi- trabalho material, de tal modo que teremos duas catego-
nante numa determinada sociedade é também o poder rias de indivíduos dentro dessa mesma classe. Uns serão
espiritual dominante. A classe que dispõe dos meios da os pensadores dessa classe (os ideólogos ativos, que teo-
produção material dispõe também dos meios da produ- rizam e fazem da elaboração da ilusão que essa classe
ção intelectual, de tal modo que o pensamento daqueles tem de si mesma sua substância principal), ao passo que
aos quais são negados os meios de produção intelectual os outros terão uma atitude mais passiva e mais recepti-
está submetido também à classe dominante. Os pensa- va em face desses pensamentos e dessas ilusões, porque
mentos dominantes nada mais são do que a expressão eles são na realidade os membros ativos dessa classe e
ideal das relações materiais dominantes; eles são essas têm menos tempo para alimentar ilusões e idéias sobre
relações materiais dominantes consideradas sob forma suas próprias pessoas. Dentro dessa classe, essa cisão
de idéias, portanto a expressão das relações que fazem de pode mesmo chegar a uma certa oposição e a uma certa
uma classe a classe dominante; em outras palavras, são hostilidade das duas partes em questão. Mas, surgindo
as idéias de sua dominação. Os indivíduos que consti- algum conflito prático em que a classe toda fique amea-
tuem a classe dominante possuem, entre outras coisas, çada, essa oposição cai por si mesma, enquanto vemos
também uma consciência, e conseqüentemente pensam; volatizar-se a ilusão de que as idéias dominantes não se-
na medida em que dominam como classe e determinam riam as idéias da classe dominante e que teriam um po-
uma época histórica em toda a sua extensão, é evidente der distinto do poder dessa classe. A existência de idéias
que esses indivíduos dominam em todos os sentidos e revolucionárias em uma determinada época já supõe a
que têm uma posição dominante, entre outras coisas tam- existência de uma classe revolucionária e dissemos ante-

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riormente (pp. 28-34) tudo o que era preciso a respeito como sen,do toda a massa da sociedade diante da única
das condições prévias que isso implica. classe dominante 15 • Isso lhe é possível porque no come-
Admitamos que, no modo de conceber a marcha da ço seu interesse ainda está na verdade intimamente li-
história, as idéias da classe dominante sejam desvincula- gado ao interesse comum de todas as outras classes não
das dessa mesma classe e ganhem autonomia. Suponha- dominantes e porque, sob a pressão do estado de coi-
mos que fiquemos apenas no fato de terem estas ou sas anterior, esse interesse ainda não pôde se desenvol-
aquelas idéias dominado em tal época, sem nos preocu- ver como interesse particular de uma classe particular.
parmos com as condições da produção nem com os Por isso, a vitória dessa classe é útil também a muitos
produtores dessas mesmas idéias, abstraindo-nos por- indivíduos das outras classes, as quais não conseguem
tanto dos indivíduos e das circunstâncias mundiais que chegar a dominar; mas é útil somente na medida em
estão na base dessas idéias. Então poderemos dizer, por que coloca esses indivíduos em condições de poder
exemplo, que no tempo em que imperava a aristocracia chegar à classe dominante. Quando a burguesia france-
imperavam os conceitos de honra, fidelidade etc. e que, sa derrubou o domínio da aristocracia, permitiu que
no tempo em que dominava a burguesia, imperavam os muitos proletários se elevassem acima do proletariado,
conceitos de liberdade, igualdade etc. 44 É o que imagina mas unicamente no sentido de que se tornaram, eles
a própria classe dominante em sua totalidade. Essa con- próprios, burgueses. Portanto, cada nova classe conse-
cepção da história, comum a todos os historiadores, gue apenas estabelecer seu domínio sobre uma base
especialmente a partir do século XVIII, colidirá necessa- mais ampla do que a classe que dominava anteriormen-
riamente com o fenômeno de que os pensamentos do- te, mas, em compensação, a oposição entre a classe
minantes serão cada vez mais abstratos, ou seja, assumi- que passa então a dominar e as classes que não domi-
rão cada vez mais a forma de universalidade. Com efei- nam só tende a se agravar mais profunda e intensamen-
to, cada nova classe que toma o lugar daquela que do- te. Donde se conclui o seguinte: o combate a se travar
minava antes dela é obrigada, mesmo que seja apenas contra a nova classe dirigente tem como finalidade, por
para atingir seus fins, a representar o seu interesse como sua vez, negar as condições sociais existentes até então
sendo o interesse comum de todos os membros da so- de um modo mais decisivo e mais radical do que pude-
ciedade ou, para exprimir as coisas no plano das idéias: ram fazer todas as classes que ambicionavam o poder
essa classe é obrigada a dar aos seus pensamentos a for- anteriormente.
ma de universalidade e representá-los como sendo os Toda a ilusão de que o domínio de uma classe deter-
únicos razoáveis, os únicos universalmente válidos. Pelo minada é unicamente o domínio de certas idéias cessa
simples fato de defrontar com uma classe, a classe revo- naturalmente, logo que o domínio de qualquer classe
lucionária se apresenta, de início, não como classe, mas que seja deixa de ser a forma do regime social, isto é,
sim como representando a sociedade em geral; aparece não é mais necessário representar um interesse particu-

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lar como sendo o interesse geral ou representar "o uni- 2º É preciso pôr uma ordem nesse domínio das idéias,
versal" como dominante. estabelecer um vínculo místico entre as sucessivas idéias
Uma vez que as idéias dominantes estejam desvincu- dominantes, e a isso chegaremos concebendo-as como
ladas dos indivíduos dominantes, e sobretudo das rela- "autodeterminações do conceito". (O fato de estarem es-
ções que decorrem de um dado estágio do modo de pro- ses pensamentos realmente ligados entre si por sua base
dução, obtém-se como resultado que sempre são as idéias empírica torna isso possível; por outro lado, considerados
que dominam na história e é então muito fácil abstrair, como pensamentos puros e simples, eles se tornam dife-
dessas diferentes idéias, "a idéia", ou seja, a idéia por ex- renciações de si, distinções produzidas pelo próprio pen-
celência etc., para dela fazer o elemento que domina na samento.)
história, e conceber assim todas as idéias e conceitos iso- 3º Para despojar de seu aspecto místico esse "con-
lados como sendo "autodeterminações" do conceito que ceito que determina a si próprio", nós o transformamos
se desenvolve ao longo da história. É também natural em uma pessoa - "a consciência de si" - ou, para pare-
fazer em seguida derivar todas as relações humanas do cer completamente materialista, fazemos dele uma série
conceito do homem, do homem representado, da essên- de pessoas que representam "o conceito" na história, a
cia do homem, de o homem em uma palavra. É o que fez saber os "pensadores", os "filósofos", os ideólogos que
a filosofia especulativa. O próprio Hegel confessa, no sào considerados, por sua vez, como os fabricantes da
final de Filosofia da História, que ele "examina apenas o história, como o "comitê dos guardiões", como os domi-
desenvolvimento do conceito" e que ele expôs na histó- nadores46. Ao mesmo tempo eliminaram-se todos os ele-
ria a "verdadeira teodicéia" (p. 446). E agora podemos mentos materialistas da história e podemos tranqüila-
voltar aos produtores do "conceito", aos teóricos, ideólo- mente dar rédeas soltas ao seu pendor especulativo.
gos e filósofos, para chegarmos à conclusão de que os Na vida corrente, qualquer shopkeeper47 sabe muito
filósofos, os pensadores como tais, dominaram na histó- bem fazer a distinção entre o que cada um pretende ser
ria por todo o tempo - isto é, chegarmos a uma conclu- e o que é realmente; mas a nossa história ainda não
são que Hegel já havia expressado, como acabamos de conseguiu chegar a esse conhecimento vulgar. Para ca-
ver. De fato, a façanha que consiste em demonstrar que da época, ela acredita piamente no que essa época diz
o espírito é soberano na história (o que para Stirner é hie- de si mesma e nas ilusões que ela tem a respeito de si
rarquia) se reduz aos três esforços seguintes: mesma.
1º Trata-se de separar as idéias daqueles que, porra- Esse método histórico, que reinava sobretudo na
zões empíricas, dominam enquanto indivíduos materiais Alemanha, evidentemente, deve ser explicado a partir
e em condições empíricas, desses mesmos homens e de de sua interligação com a ilusão dos ideólogos em ge-
reconhecer conseqüentemente que são idéias ou ilusões ral, por exemplo, com as ilusões dos juristas, dos polí-
que dominam a história. ticos (e mesmo, mais abaixo, dos homens de Estado

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_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __

em atividade); devemos portanto partir dos devaneios


dogmáticos e das idéias extravagantes dessa gente, ilu-
são essa que se explica simplesmente por sua posição
prática na vida, sua profissão e pela divisão do tra-
balho.

B. A BASE REAL DA IDEOLOGIA

1. Trocas 1 e Força Produtiva


A maior divisão do trabalho material e intelectual é
a separação entre a cidade e o campo. A oposição entre
a cidade e o campo surge com a passagem da barbárie
para a civilização, da organização tribal para o Estado,
do provincialismo para a nação, e persiste através de to-
da a história da civilização até nossos dias (a Anti Com
Law League2). - A existência da cidade implica ao mes-
mo tempo a necessidade da administração, da polícia,
dos impostos etc., em uma palavra, a necessidade da or-
ganização comunitária e, portanto, da política em geral.
Foi então que surgiu pela primeira vez a divisão da po-
pulação él_m duas grandes classes, divisão essa que re-
pousa diretamente sobre a divisão do trabalho e os ins-
trumentos de produção. A cidade constitui o espaço da
concentração, da população, dos instrumentos de pro-
dução, do capital, dos prazeres e das necessidades, ao
passo que o campo evidencia o oposto, o isolamento e
a dispersão. A oposição entre a cidade e o campo só po-

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_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Feuerbach _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

de existir no âmbito da propriedade privada. Ela é a ex- pela propriedade em comum de um determinado traba-
pressão mais flagrante da subordinação do indivíduo à lho, a necessidade de construções coletivas para a venda
divisão do trabalho, a uma determinada atividade que lhe de suas mercadorias, numa época em que os artesãos
é imposta. Esta subordinação faz de um indivíduo um eram também comerciantes, e proibição de que pessoas
animal das cidades e do outro um animal dos campos, não qualificadas usassem essas construções, a oposição
tanto um quanto o outro limitados, e faz renascer a cada dos interesses das diferentes profissões, a necessidade
dia a oposição de interesses entre as duas partes. Aqui de proteger um trabalho aprendido com dificuldade e a
também o trabalho é o dado capital, o poder sobre os organização feudal do país inteiro levaram os trabalha-
indivíduos e, enquanto esse poder existir, haverá tam- dores de cada profissão a se unir em corporações. Não
bém uma propriedade privada. A abolição dessa oposi- nos cabe aprofundar aqui as múltiplas modificações do
ção entre a cidade e o campo é uma das primeiras con- sistema das corporações, introduzidas pelos desenvolvi-
dições da comunidade, e essa condição depende por sua mentos históricos ulteriores. O êxodo dos servos para as
vez de um conjunto de condições materiais prévias, que cidades prosseguiu sem interrupção durante toda a Ida-
a simples vontade não é suficiente para concretizar, como de Média. Esses servos, perseguidos no campo pelos seus
todo o mundo pode constatar logo à primeira vista. (É senhores, chegavam um a um às cidades, onde encontra-
preciso que essas condições estejam também desenvol- vam uma comunidade organizada, contra a qual eram
vidas.) Pode-se também entender a separação entre a impotentes e no interior da qual eram obrigados a acei-
cidade e o campo como a separação entre o capital e a tar a situação que lhes era conferida pela necessidade que
propriedade fundiária, como o início de uma existência se tinha de seu trabalho e pelos interesses de seus con-
e de um desenvolvimento do capital independentes da correntes organizados da cidade. Esses trabalhadores,
propriedade fundiária, como o início de uma proprieda- que chegavam isoladamente, jamais conseguiram ser uma
de que tem como única base o trabalho e a troca. força, porque ou seu trabalho era da alçada de uma cor-
Na Idade Média, nas cidades que não foram cons- poração e devia ser aprendido, e então os mestres da
truídas no período histórico anterior, mas que se forma- corporação os submetiam às suas leis e os organizavam
ram povoando-se de servos libertos, o trabalho particu- segundo os seus interesses; ou então seu trabalho não
lar de cada um era sua única propriedade, além dope- exigia aprendizagem, não era da esfera de uma corpora-
queno capital que cada um trazia e que se compunha ção, era um trabalho de diaristas e, neste caso, nunca
quase exclusivamente dos utensílios mais indispensá- chegavam a criar uma organização e permaneciam como
veis. A concorrência dos servos fugitivos que não cessa- uma plebe desorganizada. A necessidade do trabalho de
vam de chegar às cidades, a guerra incessante do campo diaristas nas cidades criou a plebe.
contra as cidades e conseqüentemente a necessidade de Essas cidades formavam verdadeiras "associações"
uma força militar urbana organizada, o elo constituído geradas pela necessidade imediata, a preocupação de

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proteção à propriedade, e aptas a multiplicar os meios entre os trabalhadores tomados isoladamente, dentro das
de produção e os meios de defesa de seus membros in- próprias corporações. Cada trabalhador devia estar apto
dividualmente. A plebe dessas cidades, composta de indi- a executar todo um ciclo de trabalhos. Devia estar em
víduos estranhos uns aos outros e que chegavam separa- condições de fazer absolutamente tudo o que podia ser
damente, achava-se sem organização face a uma força feito com suas ferramentas; as trocas restritas, a pouca
organizada, equipada para a guerra e que os vigiava cio- ligação entre as cidades, a rarefação da população e a exi-
samente; e isso explica por que ela própria foi privada güidade das necessidades tampouco favoreciam uma
de qualquer poder. Companheiros e aprendizes eram divisão do trabalho mais avançada, e, por isso, quem
organizados em cada profissão de modo a servir melhor quisesse tornar-se mestre devia conhecer todos os aspec-
aos interesses dos mestres. As relações patriarcais que tos da sua profissão. Por isso encontra-se ainda entre os
existiam entre eles e seus mestres conferiam a estes um artesãos da Idade Média um interesse por seu trabalho
duplo poder. Tinham, por um lado, uma influência dire- particular e pela habilidade nesse trabalho que pode ele-
ta sobre toda a vida dos companheiros; por outro lado, var-se até a um certo sentido artístico. E é também por
como as relações representavam um verdadeiro vínculo isso que cada artesão da Idade Média se entregava intei-
para os companheiros que trabalhavam para um mesmo ramente a seu trabalho; tinha para com ele uma relação
mestre, eles constituíam um bloco em face dos compa- de sujeição sentimental e a ele estava muito mais subor-
nheiros dos outros mestres, e isso os separava deles; fi- dinado do que o trabalhador moderno, que é indiferen-
nalmente, os companheiros já estavam ligados ao regime te para com seu trabalho.
existente só pelo fato de terem interesse de se tornar eles Nas cidades, o capital era um capital natural que con-
próprios mestres. Por conseguinte, enquanto a plebe se sistia em alojamento, ferramentas e uma clientela natural
amotinava contra toda a ordem municipal, em motins hereditária, e transmitia-se forçosamente de pai para fi-
que, dada a sua impotência, eram perfeitamente inope- lho, devido ao estado ainda embrionário das trocas e à
rantes, os companheiros não foram além de pequenas falta de circulação que impossibilitava a sua realização.
rebeliões dentro de corporações isoladas, como se vê Contrariamente ao capital moderno, não era um capital
em todo regime corporativo. As grandes sublevações da que se pudesse avaliar em dinheiro, pouco importan-
Idade Média partiram todas do campo, mas se destina- do que fosse investido numa coisa ou em outra; era um
ram todas ao fracasso, em razão do isolamento em que capital ligado diretamente ao trabalho determinado do
viviam os camponeses e da sua rudeza, conseqüência seu possuidor, inseparável desse trabalho, e portanto um
disso. capital ligado a um estado 3 .
Nas cidades, a divisão do trabalho se fazia ainda de A extensão da divisão do trabalho que se seguiu foi
maneira perfeitamente espontânea entre as diferentes a separação entre a produção e o comércio, a formação
corporações, mas não se estabelecia de maneira alguma de uma classe particular de comerciantes, separação essa

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que já era um fato nas cidades antigas (com os judeus, essa opos1çao condicionava transformaram ao mesmo
entre outros) e que logo surgiu nas cidades de formação tempo as condições de vida de cada burguês em particu-
recente. Isso implicava a possibilidade de uma ligação lar, para fazer delas condições de vida comuns a todos
comercial que ultrapassava os arredores imediatos e a os burgueses e independentes de cada indivíduo isola-
realização dessa possibilidade dependia dos meios de do. Os burgueses tinham criado essas condições na me-
comunicação existentes, do estado da segurança pública dida em que se tinham desligado da associação feudal, e
no campo, condicionado esse estado pelas relações polí- eles tinham sido criados por essas condições, na medida
ticas (sabe-se que durante toda a Idade Média os comer- em que estavam determinados por sua oposição ao feu-
ciantes viajavam em caravanas armadas); dependia tam- dalismo existente. Com a ligação entre as diferentes cida-
bém das necessidades do território acessível ao comér- des, essas condições comuns transformaram-se em con-
cio, necessidades essas cujo grau de desenvolvimento dições de classe. As mesmas condições, a mesma oposi-
era determinado, em cada caso, pelo nível de civilização. ção, os mesmos interesses deviam engendrar os mesmos
A constituição de uma classe particular dedicada ao costumes por toda parte. A própria burguesia só se de-
comércio, a extensão do comércio para além dos arredo- senvolve pouco a pouco, ao mesmo tempo que lhe são
res mais próximos da cidade graças aos negociantes, fi- dadas as condições próprias para isso; por sua vez ela se
zeram logo surgir uma ação recíproca entre a produção divide em diferentes frações, segundo a divisão do traba-
e o comércio. As cidades entram em contato entre si, lho, e acaba por absorver em seu âmbito todas as classes
transferem-se de uma cidade para a outra instrumentos proprietárias já existentes (enquanto ela transforma em
novos e a divisão da produção e do comércio rapida- uma nova classe, o proletariado, a maioria da classe não
mente suscita uma nova divisão da produção entre as di- proprietária e uma parte da classe até então proprietá-
ferentes cidades, cada uma explorando um ramo de in- ria)4, na medida em que toda a propriedade existente é
dústria predominante. A limitação primitiva, o provincia- convertida em capital comercial ou industrial. Os indiví-
lismo, começam pouco a pouco a desaparecer. duos isolados só formam uma classe na medida em que
Na Idade Média, os burgueses eram obrigados a se devem travar uma luta comum contra uma outra classe;
unir, em cada cidade, contra a nobreza do campo, para quanto ao mais, eles se comportam como inimigos na
se defender; a extensão do comércio, o estabelecimento concorrência. Por outro lado, a classe torna-se, por sua
das comunicações levaram cada cidade a conhecer ou- vez, independente em relação aos indivíduos, de manei-
tras cidades que tinham feito triunfar os mesmos interes- ra que estes têm suas condições de vida estabelecidas
ses, lutando contra os mesmos inimigos. Só muito lenta- antecipadamente, recebem de sua classe, já delineada,
mente a classe burguesa se formou a partir das numero- sua posição na vida e ao mesmo tempo seu desenvolvi-
sas burguesias locais das diversas cidades. A oposição às mento pessoal; são subordinados à sua classe. É o mes-
relações existentes e também o modo de trabalho que mo fenômeno da subordinação dos indivíduos isolados

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à divisào do trabalho, e este fenômeno só pode ser su- faturas, ramos da produção que escapam ao sistema cor-
primido se for suprimida a propriedade privada e o pró- porativo. O primeiro desabrochar das manufaturas - na
prio trabalho. Várias vezes indicamos como essa subor- Itália e mais tarde em Flandres - teve como condição his-
dinação dos indivíduos à sua classe torna-se ao mesmo tórica prévia o comércio com as nações estrangeiras. Nos
tempo a subordinação a todos os tipos de representa- outros países - a Inglaterra e a França, por exemplo -, as
ções etc. manufaturas se limitaram, no começo, ao mercado inter-
Depende unicamente da extensão das trocas a possi- no. Além das condições prévias já indicadas, as manufa-
bilidade de aproveitar ou não para o desenvolvimento turas exigem ainda, para se estabelecerem, uma concen-
ulterior forças produtivas desenvolvidas em uma localida- tração elevada da população - sobretudo no campo - e
de, sobretudo as invenções. Enquanto não existirem rela- também do capital que começava a se acumular em um
ções comerciais para além dos arredores mais próximos, pequeno número de mãos, em parte nas corporações,
deve-se fazer a mesma invençào em particular em cada apesar dos regulamentos administrativos, e em parte en-
localidade, e bastam puros acasos, como a invasão de tre os comerciantes.
povos bárbaros e até mesmo as guerras habituais, para O trabalho que dependia de início do uso de uma
obrigar um país que tem forças produtivas e necessidades máquina, por mais rudimentar que fosse, logo se revelou
desenvolvidas a recomeçar do zero. Nos primórdios da o mais suscetível de desenvolvimento. A tecelagem, que
história, era preciso recriar cada invenção diariamente e os camponeses praticavam até então no campo como
realizá-la de maneira independente em cada localidade. atividade suplementar para obterem seu vestuário, foi o
O exemplo dos fenícios mostra-nos até que ponto as for- primeiro trabalho que recebeu um impulso e teve o mais
ças produtivas desenvolvidas, mesmo com um comércio amplo desenvolvimento graças à extensão das relações
relativamente bastante amplo, estão pouco a salvo da comerciais. A tecelagem foi a primeira e continuou sen-
destruição completa, pois a maioria de suas invenções do a principal atividade manufatureira. A procura de te-
desapareceram, e por muito tempo, porque esse povo foi cidos para roupas, que aumentava proporcionalmente
eliminado do comércio e conquistado por Alexandre, o ao crescimento da população, o começo da acumulação
que provocou sua decadência. O mesmo acontece, por e da mobilização do capital primitivo, graças a uma cir-
exemplo, na Idade Média com a pintura sobre vidro. A culação acelerada, a necessidade de luxo que daí resul-
continuidade das forças produtivas adquiridas só é asse- tou e que favoreceu sobretudo a extensão progressiva
gurada a partir do dia em que o comércio se torna um do comércio, deram à tecelagem um impulso que a ar-
comércio mundial que tem por base a grande indústria e rancou da forma de produção anterior tanto na quantida-
todas as nações são arrastadas na luta da concorrência. de como na qualidade. Ao lado dos camponeses que te-
A divisão do trabalho entre as diferentes cidades te- ciam para satisfazer suas necessidades pessoais, que con-
ve como primeira conseqüência o nascimento das manu- tinuaram a subsistir, e que existem ainda hoje, nasceu

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nas cidades uma nova classe de tecelões cujos produtos também pelos melhoramentos da agricultura e a trans-
eram destinados a todo o mercado interno e, muitas ve- formação de vastas zonas de terras de cultura em pasta-
zes, aos mercados externos. gens. Daí decorre que a vagabundagem está ligada exa-
A tecelagem, trabalho que quase sempre exige pou- tamente à decomposição do feudalismo. Desde o século
ca habilidade e que bem depressa se subdividiu em uma XIII, registram-se alguns períodos desse tipo, mas a va-
infinidade de ramos, era, naturalmente, refratária às ca- gabundagem só se estabeleceu de forma permanente e
deias da corporação. Por isso, foi praticada sobretudo generalizada no fim do século XV e começo do século
nas aldeias e povoados sem organização corporativa que XVI. Os vagabundos eram tantos que o rei Henrique
pouco a pouco se tornaram cidades e, até rapidamente, VIII, da Inglaterra, entre outros, mandou enforcar 72.000
as mais florescentes cidades em cada país. deles, e foi preciso uma extrema miséria para obrigá-los
Com a manufatura libertada da corporação, as rela- a trabalhar e isso com enormes dificuldades e após uma
ções de propriedade também se transformaram imedia- longa resistência. A rápida prosperidade das manufatu-
tamente. O primeiro passo à frente para ultrapassar oca- ras, sobretudo na Inglaterra, absorveu-os progressiva-
pital naturalmente acumulado no quadro de uma ordem mente.
social foi marcado pelo aparecimento dos comerciantes Com a manufatura, as diferentes nações entraram em
que possuíam de início um capital móvel, portanto um relações de concorrência, iniciaram uma luta comercial
capital no sentido moderno da palavra, tanto quanto era que foi travada por meio de guerras, de direitos aduanei-
possível pas condições de vida da época. O segundo ros protecionistas e de proibições, ao passo que anterior-
progresso foi marcado pela manufatura que mobilizou mente só tinham praticado entre si, quando mantinham
por sua vez um grande volume do capital primitivo e au- relações, trocas inofensivas. Daí por diante o comércio
mentou de modo geral o volume do capital móvel em passa a ter uma significação política.
relação ao capital primitivo. A manufatura acarretou ao mesmo tempo uma mu-
A manufatura tornou-se ao mesmo tempo um refú- dança das relações entre trabalhador e empregador. Nas
gio para os camponeses, contra as corporações que os corporações, as relações patriarcais entre os companhei-
excluíam ou que lhes pagavam mal, como antigamente ros e o mestre subsistiam; na manufatura, foram substi-
as cidades corporativas lhes tinham servido de refúgio tuídas por relações monetárias entre o trabalhador e o
contra [a nobreza do campo que os oprimia]. capitalista, as quais mantinham traços de patriarcalismo
O começo das manufaturas foi marcado ao mesmo no campo e nas pequenas cidades, mas que, logo, per-
tempo por um período de vagabundagem, causado pelo deram quase todo o matiz patriarcal nas cidades propria-
desaparecimento das tropas armadas feudais e pela des- mente manufatureiras de certa importância.
mobilização dos exércitos que tinham sido reunidos e A manufatura e o movimento da produção em geral
que os reis utilizaram contra os seus vassalos, e causado tomaram um impulso prodigioso, em decorrência da am-

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_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia A l e m ã - - - - - - - - - _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Feuerbacb _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

pliação do comércio propiciada pela descoberta da Amé- cidades tornou necessária a indústria, importada do es-
rica e da rota marítima das Índias orientais. Os novos pro- trangeiro na maioria das vezes; e esta indústria não po-
dutos importados das Índias, e principalmente as grandes dia dispensar os privilégios que seriam naturalmente con-
quantidades de ouro e de prata que entraram em circula- cedidos não somente contra a concorrência interna, mas
ção, transformaram totalmente a situação das classes so- sobretudo contra a concorrência externa. Nessas primei-
ciais entre si e desfecharam um duro golpe na proprieda- ras proibições, o privilégio corporativo local foi estendi-
de feudal fundiária e nos trabalhadores; as expedições do à nação inteira. Os direitos aduaneiros têm sua ori-
dos aventureiros, a colonização, e, acima de tudo, o fato gem nos direitos que os senhores feudais impunham aos
de os mercados terem ganho a amplitude de mercados mercadores que atravessavam seu território, como resga-
mundiais, o que agora se tornava possível e se realizava te de pilhagem; esses direitos foram mais tarde impostos
cada dia mais, provocaram uma nova etapa de desenvol- também pelas cidades e, com o aparecimento dos Esta-
vimento histórico; mas não devemos deter-nos por mais dos modernos, foram o meio mais acessível para permi-
tempo aqui. A colonização dos países recém- descober- tir ao fisco a arrecadação de dinheiro.
tos forneceu um novo sustento para a luta comercial que Essas medidas tomaram outro sentido com o apare-
se travava entre as nações e por conseguinte essa luta cimento do ouro e da prata americanos nos mercados
teve uma amplitude e uma ferocidade maiores. europeus, com o desenvolvimento progressivo da indús-
A expansão do comércio e da manufatura acelera- tria, o rápido surto do comércio e suas conseqüências, a
ram a acumulação do capital móvel, ao passo que, nas prosperidade da burguesia alheia às corporações e a im-
corporações que não recebiam nenhum estímulo para portância crescente do dinheiro. O Estado, para o qual
aumentar sua produção, o capital primitivo permanecia tornava-se cada dia mais difícil prescindir do dinheiro,
estável ou até diminuía. O comércio e a manufatura cria- manteve a proibição de exportar ouro e prata, unica-
ram a grande burguesia; nas corporações, efetuou-se a mente por motivos de ordem fiscal; os burgueses, cujo
concentração da pequena burguesia, que daí por diante objetivo principal era agora apoderarem-se dessa grande
não mais reinava nas cidades como anteriormente, mas quantidade de dinheiro recentemente lançada no merca-
devia submeter-se ao domínio dos grandes comerciantes do, estavam plenamente satisfeitos; os privilégios exis-
e dos manufacturiers'. Daí o declínio das corporações tentes tornaram-se uma fonte de rendas para o governo
ao entrarem em contato com a manufatura. e foram trocados por dinheiro; na legislação das alfânde-
As relações comerciais entre as nações tomaram dois gas surgiram os direitos de exportação que, colocando
aspectos diferentes no período de que falamos. No co- simplesmente um obstáculo no caminho da indústria,
meço, a pequena quantidade de ouro e de prata em cir- tinham uma finalidade puramente fiscal.
culação determinou a proibição de exportar esses metais; O segundo período começou em meados do século
e a necessidade de ocupar a crescente população das XVII e durou até quase o fim do século XVIII. O comér-

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cio e a navegação se tinham desenvolvido mais rapida- condições pouco favoráveis, também poderia ser destruí-
mente do que a manufatura, que desempenhava um pa- da com a mesma facilidade. Por outro lado, pelo modo
pel secundário; as colônias começaram a se tornar gran- como foi praticada no campo, sobretudo no século XVIII,
des consumidores; à custa de longos combates, as dife- a manufatura está tão intimamente ligada às condições da
rentes nações dividiram entre si o mercado mundial que vida de uma grande massa de indivíduos que nenhum
se abria. Esse período começa com as Leis sobre a Nave- país pode arriscar-se a pôr em jogo sua existência pela in-
gação6 e os monopólios coloniais. Evitou-se tanto quan- trodução da livre concorrência. Na medida em que con-
to possível, com tarifas, proibições, tratados, que as segue exportar, ela depende inteiramente da extensão ou
diversas nações pudessem fazer concorrência entre si; e, da limitação do comércio e exerce sobre ele uma reação
em última instância, foram as guerras, e sobretudo as relativamente fraca. Daí, sua importância secundária [pas-
guerras marítimas, que serviram para comandar a luta da sagem rasurada no manuscrito] e a influência dos comer-
concorrência e decidiram de seu resultado. A nação mais ciantes do século XVIII. Foram os comerciantes, e parti-
poderosa no mar, a Inglaterra, conservou a primazia no cularmente os armadores, que, mais do que todos os ou-
comércio e na manufatura. Vê-se aqui uma concentração tros, insistiram no protecionismo do Estado e nos mono-
em um único país. pólios; os donos das manufaturas pediram e obtiveram,
A manufatura era constantemente garantida, no mer- na verdade, também eles, essa proteção, mas cederam
cado nacional, por direitos protecionistas, por uma posi- sempre o lugar aos comerciantes no que diz respeito à
ção de monopólio no mercado colonial e o mais possível importância política. As cidades comerciais, as cidades
no mercado externo, mediante tarifas alfandegárias dife- portuárias em particular, alcançaram um grau de civiliza-
renciadas7. Foi favorecida a transformação de matéria- ção relativo e se tornaram cidades de grande burguesia,
prima produzida no próprio país (lã e linho na Inglaterra, ao passo que nas cidades industriais subsistiu mais o es-
seda na França); interditou-se a exportação de maté- pírito pequeno-burguês. Cf. Aikin8, por exemplo. O sécu-
ria-prima produzida no local (lã na Inglaterra) e negligen- lo XVIII foi o século do comércio. Pinto o diz expressa-
ciou-se ou dificultou-se a transformação de matéria im- mente: "Le commerce est la marotte du siecle" 9 ; e "depuis
portada (algodão na Inglaterra). A nação que possuía a quelque temps il n 'est plus question que de commerce, de
supremacia no comércio marítimo e o poder colonial ga- navigation et de marine" 10 •
rantiu também naturalmente a maior expansão quantita- Esse período é também caracterizado pela suspen-
tiva e qualitativa da manufatura. A manufatura não podia são da proibição de exportar ouro e prata, pelo nasci-
absolutamente dispensar o protecionismo, sendo que a mento do comércio do dinheiro, dos bancos, das dívidas
menor modificação produzida em outros países podia fa- do Estado, do papel-moeda, das especulações sobre os
zer com que ela perdesse seu mercado e ficasse arruina- fundos e as ações, da agiotagem sobre todos os artigos,
da; pois, se era facilmente introduzida em um país sob do desenvolvimento do sistema monetário em geral. O

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capital perdeu novamente uma grande parte do caráter cação e o mercado mundial moderno, colocou o comér-
natural que ainda lhe era inerente. cio sob o seu domínio, transformou todo o capital em
A concentração do comércio e da manufatura em um capital industrial e deu origem, assim, à circulação (aper-
único país, a Inglaterra, tal como se desenvolveu sem feiçoamento do sistema monetário) e à centralização rá-
interrupção no século XVII, criou progressivamente para pida de capitais. Por meio da concorrência universal, ela
esse país um mercado mundial relativo e suscitou por forçou todos os indivíduos a uma tensão máxima da sua
isso mesmo uma demanda dos produtos ingleses manu- energia. Aniquilou o mais possível a ideologia, a religião,
faturados, que as forças produtivas industriais anteriores a moral etc. e, quando isso lhe era impossível, fez delas
não podiam mais satisfazer. Essa demanda que ultrapas- mentiras flagrantes. Foi ela que criou de fato a história
sava as forças produtivas foi a força motriz que suscitou mundial, na medida em que fez depender do mundo
o terceiro período da propriedade privada desde a Idade inteiro cada nação civilizada, e cada indivíduo para satis-
Média, criando a grande indústria - a utilização das for- fazer suas necessidades, e na medida em que aniquilou
ças da natureza para fins industriais, o maquinário e a di- nas diversas nações a identidade própria que até então
visão do trabalho mais desenvolvida. As outras condi- lhes era natural. Subordinou a ciência da natureza ao
ções dessa nova fase, tais como a liberdade da concor- capital e privou a divisão do trabalho de sua última apa-
rência no âmbito da nação, o aperfeiçoamento da mecâ- rência de fenômeno natural. De modo geral, aniquilou
nica teórica etc., já existiam na Inglaterra (a mecânica todo elemento natural na medida em que isso é possível
aperfeiçoada por Newton era, aliás, a ciência mais popu- no âmbito do trabalho, e conseguiu dissolver todas as re-
lar na França e na Inglaterra no século XVIII). (Quanto à lações naturais para transformá-las em relações monetá-
livre concorrência no âmbito da nação, foi preciso uma rias. No lugar das cidades nascidas naturalmente, criou
revolução por toda parte para conquistá-la - em 1640 e as grandes cidades industriais modernas que brotaram
em 1688 na Inglaterra, em 1789 na França.) A concorrên- como cogumelos. Por toda a parte onde penetrou, ela
cia obrigou logo cada país que quisesse conservar seu destruiu o artesanato e, de modo geral, todos os estágios
papel histórico a proteger suas manufaturas com novas anteriores da indústria. Completou a vitória da cidade co-
medidas alfandegárias (pois as antigas não prestavam mercial sobre o campo. Sua condição primeira é o siste-
mais nenhuma ajuda contra a grande indústria) e a intro- ma automático. Seu desenvolvimento criou uma quanti-
duzir pouco depois a grande indústria acompanhada de dade de forças produtivas para as quais a propriedade
tarifas protecionistas. Apesar desses meios de proteção, privada se tornou um entrave, tanto quanto a corporação
a grande indústria tornou a concorrência universal (ela tinha sido para a manufatura, e tanto quanto a pequena
representa a liberdade comercial prática, e as medidas exploração rural tinha sido para o artesanato em vias de
alfandegárias protecionistas representam para elas ape- desenvolvimento. Tais forças produtivas alcançam com a
nas um paliativo, uma arma de defesa no interior da li- propriedade privada um desenvolvimento exclusivamen-
berdade do comércio), estabeleceu os meios de comuni- te unilateral, tornam-se, em sua maior parte, forças des-

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trutivas, e um grande número delas não pode encontrar 2. Relações do Estado e do direito
a menor utilização sob o seu regime. Em geral, a grande com a propriedade
indústria criou por toda parte as mesmas relações entre
as classes da sociedade e destruiu por isso o caráter par- No mundo antigo, como também na Idade Média, a
ticular das diferentes nacionalidades. E finalmente, en- primeira forma da propriedade é a propriedade tribal,
quanto a burguesia de cada nação conserva ainda inte- condicionada principalmente entre os romanos pela
resses nacionais particulares, a grande indústria criou guerra e entre os germanos pela pecuária. Entre os povos
uma classe cujos interesses são os mesmos em todas as antigos, com várias tribos coabitando em uma mesma
nações e para a qual a nacionalidade já está abolida, uma cidade, a propriedade da tribo aparece como proprieda-
classe que realmente se desvencilhou do mundo antigo de de Estado, e o direito do indivíduo a essa propriedade
aparece como uma simples possessio que no entanto se
e que ao mesmo tempo a ele se opõe. Não só as relações
limita, aliás a exemplo da propriedade tribal, apenas à
com o capitalista se tornam insuportáveis para o operá-
propriedade fundiária. A propriedade privada, propria-
rio, mas também seu próprio trabalho.
mente dita, começa, entre os povos antigos como entre
É óbvio que a grande indústria não chega ao mesmo
os modernos, com a propriedade mobiliária. - (Escrava-
nível de aperfeiçoamento em todas as localidades de um
tura e comunidade) (dominium ex jure quiritum12 ). En-
mesmo país. Mas isso não detém o movimento de classe
tre os povos que emergem da Idade Média, a proprieda-
do proletariado, pois os proletários gerados pela grande
de tribal evolui então passando por estágios diferentes -
indústria colocam-se à frente desse movimento, arrastan-
propriedade fundiária feudal, propriedade mobiliária
do consigo toda a massa e visto que os trabalhadores ex-
corporativa, capital manufatureiro - até chegar ao capital
cluídos da grande indústria são lançados em uma situa-
moderno, condicionado pela grande indústria e pela con-
ção ainda pior que os próprios trabalhadores da grande
corrência universal, que representa a propriedade priva-
indústria. Do mesmo modo, os países onde se desenvol-
da no estado puro, despojada de todo aspecto de coleti-
veu uma grande indústria atuam em relação aos países vo e tendo excluído toda ação do Estado sobre o desen-
mais ou menos desprovidos de indústria, na medida em volvimento da propriedade. É a esta propriedade priva-
que estes últimos são arrastados pelo comércio mundial da moderna que corresponde o Estado moderno, adqui-
na luta da concorrência universal1 1 • rido pouco a pouco pelos proprietários privados através
Essas diversas formas são outras tantas formas da dos impostos, tendo caído inteiramente nas suas mãos
organização do trabalho e ao mesmo tempo da proprie- por força do sistema da dívida pública e cuja exi~tência
dade. Em cada período produziu-se uma união das for- depende exclusivamente, pelo jogo da alta e da baixa dos
ças produtivas existentes, na medida em que as necessi- valores do Estado na Bolsa, do crédito comercial que lhes
dades tornaram isso uma exigência. é concedido pelos proprietários privados, os burgueses.
Por ser uma classe e não mais um estamento, a burgue-

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sia é obrigada a se organizar no plano nacional, e não A dissolução da comunidade natural engendra o di-
mais no plano local, e a dar uma forma universal aos seus reito privado, assim como a propriedade privada, que se
interesses comuns. Com a emancipação da propriedade desenvolve simultaneamente. Entre os romanos, o de-
privada em relação ã comunidade, o Estado adquiriu uma senvolvimento da propriedade privada e do direito pri-
existência particular ao lado da sociedade civil e fora vado não teve nenhuma conseqüência industrial ou
dela; mas este Estado não é outra coisa senão a forma de comercial ulterior, porque todo o seu modo de produção
organização que os burgueses dão a si mesmos por ne- permanecia o mesmo 13 . Entre os povos modernos, tendo
cessidade, para garantir reciprocamente sua propriedade a indústria e o comércio provocado a dissolução da co-
munidade feudal, o nascimento da propriedade privada
e os seus interesses, tanto externa quanto internamente.
e do direito privado marcou o início de uma nova fase,
A independência do Estado não existe mais hoje em dia
suscetível de um desenvolvimento ulterior. Amalfi 14, pri-
a não ser nos países onde os estamentos ainda não atin-
meira cidade da Idade Média que teve um comércio
giram completamente, em seu processo de desenvolvi-
marítimo de vulto, foi também a primeira a elaborar o di-
mento, o estágio de classes e desempenham ainda um
reito marítimo. Na Itália, primeiramente, e mais tarde em
papel, ao passo que são eliminadas nos países mais evo- outros países, quando o comércio e a indústria provoca-
luídos, em países, portanto, onde existe uma situação mis- ram um desenvolvimento mais considerável da proprie-
ta e nos quais, por conseguinte, nenhuma parcela da dade privada, retomou-se imediatamente o direito privado
população pode vir a dominar as outras. É este, especial- dos romanos já elaborado, que foi elevado à categoria
mente, o caso da Alemanha. O exemplo de Estado mo- de autoridade. Mais tarde, quando a burguesia adquiriu
derno mais aperfeiçoado é a América do Norte. Os escri- poder suficiente, de tal modo que os príncipes defendes-
tores franceses, ingleses e americanos modernos chegam sem os seus próprios interesses, utilizando essa burgue-
todos, sem exceção, a declarar que o Estado só existe sia como um instrumento para derrubar a classe feudal,
devido à propriedade privada, tanto assim que essa con- o desenvolvimento propriamente dito do direito come-
vicção passou à consciência comum. çou em todos os países - na França no século XVI -, e
Sendo o Estado, portanto, a forma pela qual os indi- em todos os países, com exceção da Inglaterra, esse de-
víduos de uma classe dominante fazem valer seus inte- senvolvimento se efetuou com base no direito romano.
resses comuns e na qual se resume toda a sociedade civil Mesmo na Inglaterra, tiveram de introduzir princípios do
de uma época, conclui-se que todas as instituições co- direito romano (particµlarmente para a propriedade mo-
muns passam pela mediação do Estado e recebem uma biliária) para continuar aperfeiçoando o direito privado.
forma política. Daí a ilusão de que a lei repousa na von- (Não esqueçamos que o direito, do mesmo modo que a
tade, e, mais ainda, em uma vontade livre, destacada da religião, não tem uma história própria.)
sua base concreta. Da mesma maneira, o direito por sua No direito privado, exprimem-se as relações de pro-
vez reduz-se à lei. priedade existentes como sendo o resultado de uma von-

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tade geral. O próprio jus utendi et abutendiVi exprime, Cada vez que o desenvolvimento da indústria e do
por um lado, o fato de que a propriedade privada se tor- comércio criou novas formas de troca (por exemplo,
nou completamente independente da comunidade e, companhias de seguros e outras), o direito foi regular-
por outro lado, a ilusão de que essa propriedade priva- mente obrigado a integrá-las nos modos de aquisição da
da repousa sobre a simples vontade privada, sobre a li- propriedade.
vre disposição das coisas. Na prática, o abuti 16 tem limi-
tes econômicos bem determinados para o proprietário Nada é mais comum do que a idéia de que até agora
privado, se este não quiser ver sua propriedade, e com na história só se tratou de conquistas (Nehmen). Os bár-
ela seu jus abutendi, passar para outras mãos; pois, afi- baros conquistam o Império Romano, e essa conquista
nal de contas, a coisa, considerada unicamente em suas explica a passagem do mundo antigo para o feudalismo.
relações com sua vontade, não é absolutamente nada, Mas nessa conquista pelos bárbaros é preciso saber se a
mas somente no comércio, e independentemente do di- nação que foi conquistada desenvolveu forças produti-
reito, torna-se uma coisa, uma propriedade real (uma re- vas industriais, como acontece entre os povos moder-
lação, aquilo que os filósofos chamam uma idéia 17). nos, ou se suas forças produtivas repousam unicamente
Essa ilusão jurídica, que reduz o direito à simples sobre sua concentração e sobre a comunidade. A conquis-
vontade, leva fatalmente, com o ulterior desenvolvimen- ta é também condicionada pelo objeto que se conquista.
to das relações de propriedade, a que alguém possa ter Ninguém pode absolutamente apoderar-se da fortuna de
um título jurídico de uma coisa sem possuir realmente es- um banqueiro, que consiste em papéis, sem se submeter
sa coisa. Suponhamos, por exemplo, que a renda de um às condições de produção e de circulação do país con-
terreno seja suprimida pela concorrência; o proprietário quistado. O mesmo acontece em relação a todo o capi-
desse terreno conserva seu título jurídico sobre esse ter- tal industrial de um país industrial moderno. E, em últi-
reno bem como seu jus utendi et abutendi. Mas nada ma análise, a conquista termina rapidamente em todos
pode fazer dele, nem nada possui enquanto proprietário os lugares e, quando nada mais existe para conquistar, é
fundiário, se não possuir, além disso, capitais suficientes preciso, certamente, começar a produzir. Decorre dessa
para cultivar o seu terreno. Essa mesma ilusão dos juris- necessidade de produzir, que se manifesta muito cedo,
tas explica que, para eles e para todos os códigos jurídi- que a forma de comunidade adotada pelos conquistado-
cos, é meramente casual que, por exemplo, os indiví- res que se instalam deve corresponder ao estágio de de-
duos entrem em relações entre si, por contrato, e que, a senvolvimento das forças de produção que eles encon-
seus olhos, relações desse gênero passem como sendo tram e se de início assim não for, a forma de comunida-
daquelas que podem subscrever ou não, segundo sua de de~e transformar-se em função das forças produtivas.
vontade, e cujo conteúdo repousa inteiramente na von- Daí vem a explicação de um fato que se acredita ter sido
tade arbitrária e individual das partes contratantes. notado em toda parte no período que se segue às gran-

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des invasões: de fato, o servo era o mestre e os conquis- dade, aqui a propriedade fundiária, aparece portanto
tadores logo adotaram a linguagem, a cultura e os costu- também como uma dominação imediata e natural; no se-
mes do país conquistado. gundo caso, essa propriedade aparece como uma domi-
O feudalismo não foi absolutamente trazido pronto nação do trabalho e, no caso, do trabalho acumulado, do
da Alemanha, mas teve sua origem, da parte dos conquis- capital. O primeiro caso pressupõe que os indivíduos es-
tadores, na organização militar do exército durante a con- tejam unidos por um laço qualquer, seja a família, a
quista, organização essa que se desenvolveu depois da tribo, ou o próprio solo etc. O segundo caso pressupõe
conquista, sob o efeito das forças produtivas encontra- que sejam independentes uns dos outros e só sejam
das no país conquistado, para somente então se tornar o mantidos juntos em virtude do intercâmbio. No primeiro
feudalismo propriamente dito. O fracasso das tentativas caso, o intercâmbio é essencialmente um intercâmbio
feitas para impor outras formas surgidas de reminiscên- entre os homens e a natureza, uma troca em que o tra-
cias da Roma antiga (Carlos Magno, por exemplo) nos balho de uns é trocado pelo produto do outro; no segun-
mostra até que ponto a forma feudal era condicionada do caso, é, de modo predominante, uma troca entre os
pelas forças produtivas. próprios homens. No primeiro caso, basta uma inteligên-
cia média para o homem, a atividade corporal e a ativi-
dade intelectual ainda não estão absolutamente separa-
J. Instrumentos de Produção e Formas de das; no segundo caso, a divisão entre o trabalho corpo-
Propriedade Naturais e Civilizadas ral e o trabalho intelectual já deve estar praticamente con-
... é encontrado 18 • Do primeiro ponto resulta uma di- cluída. No primeiro caso, a dominação do proprietário
visão do trabalho aperfeiçoada e um comércio amplo co- sobre os não-possuidores pode repousar sobre relações
mo condição prévia, resultando do segundo ponto o pessoais, sobre uma espécie de comunidade; no segun-
caráter local. No primeiro caso, devem-se reunir os indi- do caso, ela deve ter tomado uma forma material, encar-
víduos; no segundo caso, eles se encontram ao lado do nar-se em um terceiro termo, o dinheiro. No primeiro
instrumento de produção dado, eles próprios como ins- caso, a pequena indústria existe, porém subordinada ã
trumento de produção. Aqui aparece pois a diferença utilização do instrumento de produção natural e, por is-
entre instrumentos de produção naturais e instrumentos so mesmo, sem divisão do trabalho entre os diferentes
de produção criados pela civilização. O campo cultivado indivíduos; no segundo caso, a indústria só existe na di-
(a água etc.) pode ser considerado como um instrumen- visão do trabalho e por essa divisão.
to de produção natural. No primeiro caso, para o instru- Até agora partimos dos instrumentos de produção,
mento de produção natural, os indivíduos são subordi- e, neste caso, já era evidente a necessidade da proprie-
nados à natureza; no segundo caso, eles se subordinam dade privada para certos estágios industriais. Na indus-
a um produto do trabalho. No primeiro caso, a proprie- trie extractive 19 , a propriedade privada coincide ainda

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plenamente com o trabalho; na pequena indústria e, até senvolvimento posterior. De início a divisão do trabalho
agora, em toda a agricultura, a propriedade é a conse- inclui também a divisão das condições de trabalho, ins-
qüência necessária dos instrumentos de trabalho existen- trumentos e materiais e, com essa divisão, o fracionamen-
tes; na grande indústria, a contradição entre o instrumen- to do capital acumulado entre diversos proprietários e,
to de produção e a propriedade privada é apenas o pro- em seguida, o fracionamento entre capital e trabalho,
duto dessa indústria que já deve estar bem desenvolvida bem como as diversas formas da própria propriedade.
para criá-lo. A abolição da propriedade privada também Quanto mais a divisão do trabalho se aperfeiçoa, mais a
só é possível, portanto, com a grande indústria. acumulação aumenta e mais esse fracionamento se acen-
Na grande indústria e na concorrência, todas as con- tua também de maneira marcante. O próprio trabalho só
dições de existência, as determinações e as limitações pode subsistir sob condição desse fracionamento.
dos indivíduos se fundem nas duas formas mais simples: Dois fatos surgem por,tanto aqui2 2 • Primeiro, as forças
propriedade privada e trabalho. Com o dinheiro, qual- produtivas se apresentam como completamente inde-
quer tipo de troca e a própria troca aparecem para os in- pendentes e desligadas dos indivíduos, como um mundo
divíduos como acidentais. É pois da própria natureza do à parte, ao lado dos indivíduos. Isso tem sua razão de ser
dinheiro que todas as relações até então tenham sido porque os indivíduos, dos quais são as forças, existem
somente relações dos indivíduos que viviam em determi- como indivíduos dispersos e em oposição uns aos outros,
nadas condições, e não relações entre indivíduos en- enquanto que essas forças, por outro lado, só são forças
quanto indivíduos. Essas condições reduzem-se agora a reais no comércio e na interdependência desses indiví-
apenas duas: trabalho acumulado ou propriedade priva- duos. Portanto, por um lado, uma totalidade das forças
da de um lado, trabalho real do outro lado. Se uma des- produtivas que assumiram uma espécie de forma objeti-
sas condições desaparece, a troca é interrompida. Os va e não são mais para esses indivíduos as suas próprias
próprios economistas modernos, Sismondi, por exemplo, forças, mas sim as da propriedade privada e, portanto, as
Cherbuliez 2º etc. opõem l'association des individus à dos indivíduos unicamente na medida em que são pro-
l'association des capitaux 21 • Por outro lado, os próprios prietários privados. Em nenhum período anterior as for-
indivíduos são completamente subordinados à divisão ças produtivas tinham assumido essa forma indiferente
do trabalho e por isso mesmo colocados em dependên- ao comércio dos indivíduos enquanto indivíduos, por-
cia uns dos outros. Na medida em que, dentro do traba- que suas relações eram ainda limitadas. Por outro lado,
lho, ela se opõe ao trabalho, a propriedade privada nas- vê-se evidenciar ante essas forças produtivas a maioria
ce e se desenvolve por força da necessidade da acumu- dos indivíduos de que essas forças se desligaram e que
lação e contínua, no inicio, a conservar a forma da co- dessa forma se viram frustrados do conteúdo real da sua
munidade, para se aproximar no entanto, cada vez mais, vida, tornaram-se indivíduos abstratos, mas que, por isso
da forma moderna da propriedade privada em seu de- mesmo e somente então, foram colocados em condições

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de entrar em contato uns com os outros enquanto indi- dução já é o desenvolvimento de uma totalidade de fa-
víduos. culdades nos próprios indivíduos. Essa apropriação é,
O trabalho, único laço que os une ainda às forças além disso, condicionada pelos indivíduos que se apro-
produtivas e à sua própria existência, perdeu entre eles priam. Somente os proletários da época atual, totalmen-
toda a aparência de manifestação de si, e só mantém sua te excluídos de toda atividade individual autônoma, es-
vida estiolando-a. Nos períodos anteriores, a manifes- tão em condições de chegar a um desenvolvimento total,
tação de si e a produção da vida material eram separa- e não mais limitado, que consiste na apropriação de uma
das pelo simples fato de que cabiam a pessoas diferen- totalidade de forças produtivas e no desenvolvimento de
tes e pelo fato de que a produção da vida material era uma totalidade de faculdades que isso implica. Todas as
tida ainda por uma manifestação de si de ordem inferior apropriações revolucionárias anteriores eram limitadas.
por causa do caráter limitado dos próprios indivíduos; Indivíduos cuja atividade livre era limitada por um ins-
hoje, manifestação de si e produção da vida material são trumento de produção limitado e por trocas limitadas
de tal modo separadas que a vida material aparece como apropriavam-se desse instrumento de produção limitado
a finalidade, e a produção da vida material, isto é, o tra- e assim chegavam apenas a uma nova limitação. Seu ins-
balho, como sendo o meio (sendo agora esse trabalho a trumento de produção tornava-se propriedade sua, mas
única forma possível, mas, como vemos, negativa, da ma- eles próprios permaneciam subordinados à divisão do
nifestação de si). trabalho e ao seu próprio instrumento de produção. Em
Chegamos hoje em dia ao ponto em que os indiví- todas as apropriações anteriores, uma grande quantidade
duos são obrigados a se apropriar da totalidade das for- de indivíduos permanecia subordinada a um só instru-
ças produtivas existentes, não somente para chegar a mento de produção; na apropriação pelos proletários,
uma manifestação de si, mas antes de tudo para garantir uma grande massa de instrumentos de produção fica ne-
sua existência. Essa apropriação é condicionada, em pri- cessariamente subordinada a cada indivíduo, e a pro-
meiro lugar, pelo objeto de que ele quer se apropriar, priedade é subordinada a todos. As trocas universais mo-
neste caso as forças produtivas desenvolvidas até o nível dernas só podem ser subordinadas aos indivíduos se fo-
de sua totalidade e existindo unicamente nos limites de rem subordinadas a todos.
trocas universais. Sob esse aspecto, essa apropriação de- A apropriação é também condicionada pela forma
ve necessariamente apresentar um caráter universal cor- particular com que necessariamente ela se faz. Ela, por
respondente às forças produtivas e às trocas. A apropria- sua vez, só pode efetuar-se por meio de uma união obri-
ção dessas forças é apenas, em si mesma, o desenvolvi- gatoriamente universal, pelo próprio caráter do proleta-
mento das faculdades individuais correspondentes aos riado, e por uma revolução que, por um lado, subverte-
instrumentos materiais de produção. Por isso mesmo, a rá a força do modo de produção e de troca anterior, assim
apropriação de uma totalidade de instrumentos de pro- como a força da estrutura social anterior, e que, por outro

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lado, desenvolverá o caráter universal do proletariado e teriores 23 • Graças a essa inversão, que de início não leva
a energia que lhe é necessária para levar a bom termo es- em conta as condições reais, foi possível transformar toda
sa apropriação, uma revolução enfim em que o proleta- a história em um processo de desenvolvimento da cons-
riado se despojará também de tudo o que lhe resta ainda ciência.
da sua posição social anterior. A concepção da história que acabamos de desenvol-
É somente nesse estágio que a manifestação da ati- ver resulta finalmente no seguinte: 1. No desenvolvimen-
vidade individual livre coincide com a vida material, o to das forças produtivas, ocorre um estágio em que nas-
que corresponde à transformação dos indivíduos em in- cem forças produtivas e meios de circulação que só po-
divíduos completos e ao despojamento de todo o caráter dem ser nefastos no quadro das relações existentes e não
imposto originariamente pela natureza; a esse estágio são mais forças produtivas, mas sim forças destrutivas (a
correspondem a transformação do trabalho em atividade máquina e o dinheiro) - e, em ligação com isso, nasce
livre e a transformação dos intercâmbios condicionados uma classe que suporta todos os ônus da sociedade, sem
existentes num intercâmbio dos indivíduos como tais. gozar das suas vantagens, que é expulsa da sociedade e
Com a apropriação da totalidade das forças produtivas se encontra forçosamente na oposição mais aberta a
pelos indivíduos associados, a propriedade privada é abo- todas as outras classes, uma classe formada pela maioria
lida. Enquanto, na história anterior, cada condição parti- dos membros da sociedade e da qual surge a consciên-
cular aparecia sempre como acidental, agora se tornam cia da necessidade de uma revolução radical, consciência
acidentais o isolamento dos próprios indivíduos, o ga- que é a consciência comunista e pode se formar também,
nho privado de cada um. bem entendido, nas outras classes, quando toma conhe-
Os indivíduos que não estão mais subordinados à cimento da situação dessa classe. 2. As condições nas
divisão do trabalho são representados idealmente pelos quais se podem utilizar forças produtivas determinadas
filósofos sob o termo "homem", e eles compreenderam são as condições da dominação de uma classe determi-
todo o processo que acabamos de desenvolver como sen- nada da sociedade; o poder social dessa classe, decor-
do o desenvolvimento do "homem"; de sorte que, em rendo do que ela possui, encontra regularmente sua ex-
todos os estágios da história passada, os indivíduos reais pressão prática sob forma idealista no tipo de Estado pe-
foram substituídos pelo "homem", que foi apresentado culiar a cada época; é por isso que qualquer luta revolu-
como a força motriz da história. Todo o processo foi com- cionária é dirigida contra uma classe que dominou até
preendido, portanto, como processo de auto-alienação então21 • 3. Em todas as revoluções anteriores, o modo de
do "homem" e isso vem essencialmente do fato de que o atividade permanecia inalterado e se tratava apenas de
indivíduo médio do período posterior foi sempre substi- uma outra distribuição dessa atividade, de uma nova divi-
tuído pelo que pertencia ao período anterior e a cons- são do trabalho entre outras pessoas; a revolução comu-
ciência posterior foi sempre atribuída aos indivíduos an- nista , ao contrário , é dirigida contra o modo de atividade

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anterior, ela suprime o trabalho 2; e extingue a domina-


ção de todas as classes abolindo as próprias classes, por-
que ela é efetuada pela classe que não é mais considerada
como uma classe na sociedade, que não é mais reco-
nhecida como tal, e que já é a expressão da dissolução de
todas as classes, de todas as nacionalidades etc., no qua-
dro da sociedade atual. 4. Uma ampla transformação dos
homens se faz necessária para a criação em massa dessa
consciência comunista, como também para levar a bom
termo a própria coisa; ora, uma tal transformação só se
pode operar por um movimento prático, por uma rev~ C COMUNISMO -PRODUÇÃO DO PRÓPRIO
lução; esta revolução não se faz somente necessária, MODO DE TROCAS
portanto, só por ser o único meio de derrubar a classe
dominante, ela é igualmente necessária porque somente O comunismo distingue-se de todos os movimentos
uma revolução permitirá que a classe que derruba a ou- que o antecederam até agora pelo fato de subverter as
tra varra toda a podridão do velho sistema e se torne bases de todas as relações de produção e de trocas ante-
apta a fundar a sociedade sobre bases novas 26 • riores e de, pela primeira vez, tratar conscientemente
todas as condições naturais prévias como criações dos
homens que nos precederam até agora, de despojá-las
do seu caráter natural e submetê-las ao poder dos indi-
víduos reunidos 1 • Por isso sua organização é essencial-
mente econômica, é a criação material das condições
dessa união; faz das condições existentes as condições da
união. O estado de coisas criado pelo comunismo cons-
titui precisamente a base real que torna impossível tudo
o que existe independentemente dos indivíduos - na me-
dida, porém, em que esse estado de coisas existente é
pura e simplesmente um produto das relações anteriores
dos indivíduos entre si. Na prática, os comunistas tratam
pois as condições criadas pela produção e o comércio
antes deles como fatores inorgânicos, mas nem por isso
imaginam que o plano ou a razão de ser das gerações

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anteriores tenham sido de lhes fornecer materiais, e não tram em relações entre si são condições inerentes à sua
acreditam que essas condições tenham sido inorgânicas individualidade; não lhes são de maneira alguma exte-
aos olhos daqueles que as criavam. A diferença entre o riores e únicas; elas permitem que esses indivíduos de-
indivíduo pessoal e o indivíduo contingente não é uma terminados, e existindo em condições determinadas,
distinção do conceito, mas sim um fato histórico. Essa dis- produzam sua vida material e tudo o que disso decor-
tinção tem um sentido diferente em épocas diferentes: re; são portanto condições de sua afirmação ativa de si
por exemplo, o estamento [enquanto contingência] pa~a e são produzidas por essa afirmação de si'. Conseqüen-
o indivíduo do século XVIII, e a família também plus ou temente, como a contradição ainda não surgiu, as con-
moins2 • É uma distinção que nós não precisamos fazer dições determinadas, nas quais os indivíduos produ-
para cada época, mas que cada época faz por si mesma zem, correspodem portanto à sua limitação efetiva, à
entre os diferentes elementos que ela encontra ao che- sua existênc.ia limitada, cujo caráter limitado só se reve-
gar, e isso não segundo um conceito, mas sob a pressão la com o aparecimento da contradição e existe, por isso
dos conflitos materiais da vida. O que aparece como con- mesmo, para a geração posterior. Então, essa condição
tingente na época posterior, por oposição à época ante- surge como um entrave acidental, então atribui-se tam-
rior, mesmo entre os elementos herdados dessa época bém à época anterior a consciência de que ela era um
anterior, é um modo de trocas que correspondia a um entrave.
desenvolvimento determinado das forças produtivas. A Essas diferentes condições, que aparecem primeiro
relação entre forças produtivas e forma das trocas é a re- como condições da manifestação de si, e mais tarde co-
lação entre o modo das trocas e a ação ou a atividade mo entraves desta, formam em toda a evolução histórica
dos indivíduos. (A forma fundamental dessa atividade é uma seqüência coerente de modos de trocas cuja ligação
naturalmente a forma material de que depende qualquer consiste no fato de se substituir a forma de trocas ante-
outra forma intelectual, política, religiosa etc. Evidente- rior, que se tornou entrave, por uma nova forma que
mente, a forma diferente que a vida material assume é corresponde às forças produtivas mais desenvolvidas, e,
cada vez mais dependente das necessidades já desenvol- por isso mesmo, ao modo mais aperfeiçoado da ativida-
vidas, e a produção dessas necessidades, exatamente de dos indivíduos, forma que à son tour 6 torna-se um
como sua satisfação, é ela própria um processo histórico entrave e se vê então substituída por uma outra. Como a
que nunca encontraremos em um carneiro ou em um cada estágio essas condições correspondem ao desen-
cachorro [argumento capital de Stirner adversus homi- volvimento simultâneo das forças produtivas, sua histó-
nem 3, de arrepiar os cabelos] embora carneiros e cachor- ria é ao mesmo tempo a história das forças produtivas
ros, sob sua forma atual, sejam, porém malgré eux4, pro- que se desenvolvem e são retomadas por cada geração
dutos de um processo histórico.) Como a contradição nova e é também a história do desenvolvimento das for-
não apareceu, as condições nas quais os indivíduos en- ças dos próprios indivíduos.

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Esse desenvolvimento produzindo-se naturalmente, dos pelos modos de trocas dos antigos países? modos
isto é, não estando subordinado a um plano de conjun- esses que não correspondem mais às suas necessidades.
to estabelecido por indivíduos livremente associados, Esses países começam portanto com os indivíduos mais
parte de localidades diferentes, de tribos, de nações, de evoluídos do Velho Mundo, e por isso com a forma de
ramos de trabalho diferentes etc., cada um dos quais se trocas mais desenvolvida correspondente a esses indiví-
desenvolve primeiro independentemente dos outros e só duos, antes mesmo que esse sistema de trocas tenha po-
pouco a pouco entra em ligação com os outros. Além dido impor-se nos antigos países7 • É o que acontece em
disso, ele só se processa muito lentamente; os diferentes todas as colônias na medida em que não sejam simples
estágios e interesses nunca são completamente ultrapas- bases militares ou comerciais. Exemplos disso são Carta-
sados, mas somente subordinados ao interesse que triun- go, as colônias gregas e a Islândia nos séculos XI e XII.
fa e durante séculos eles se arrastam a seu lado. Disso Um caso análogo se apresenta na conquista, quando se
resulta que, no âmbito da mesma nação, os indivíduos traz pronto para o país conquistado o modo de trocas
têm desenvolvimentos completamente diferentes, mes- que se desenvolveu em uma outra terra; em seu país de
mo sem considerar suas condições financeiras, e resulta origem, essa forma estava ainda sobrecarregada pelos in-
igualmente que um interesse anterior, cujo modo de tro- teresses e pelas condições de vida das épocas anteriores,
ca particular de relações já está suplantado por um ou- mas aqui, ao contrário, ela pode e deve implantar-se to-
tro, correspondente a um interesse posterior, fica muito talmente e sem entraves, nem que seja apenas para ga-
tempo ainda em poder de uma força tradicional na co- rantir um poder durável ao conquistador. (A Inglaterra e
munidade aparente e que se tornou autônoma face aos Nápoles, após a conquista normanda, na qual conhece-
indivíduos (Estado, direito); somente uma revolução é, ram a forma mais aperfeiçoada da organização feudal.)
em última instância, capaz de romper esse sistema. É o Portanto, segundo a nossa concepção, todos os con-
que explica igualmente por que razão, quando se trata flitos da história têm sua origem na contradição entre as
de pontos singulares, que permitem uma síntese mais forças produtivas e o modo das trocas. Não é necessário,
geral, a consciência pode parecer às vezes antecipar-se aliás, que em um país essa contradição seja levada ao
às relações empíricas contemporâneas, tanto que nas lu- extremo para provocar conflito nesse mesmo país. A
tas de um período posterior é possível apoiar-se em teó- concorrência com países cuja indústria é mais desenvol-
ricos anteriores como sendo uma autoridade. vida, concorrência essa provocada pela expansão do co-
Por outro lado, em países como a América do Norte, mércio internacional, basta para engendrar uma contra-
que começam a existir em um período histórico há mui- dição desse tipo, mesmo nos países cuja indústria é me-
to desenvolvido, o desenvolvimento se faz com rapidez. nos desenvolvida (por exemplo, o proletariado latente
Tais países só têm como condição natural prévia os indi- na Alemanha cujo aparecimento é provocado pela con-
víduos que neles se estabelecem e que para lá são leva- corrência da indústria inglesa).

90 91
- - - - - - - - - A Ideoloµ,ia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Feuerhach _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

Essa contradição entre as forças produtivas e o mo- de outra, ela representava não somente uma comunidade
do de trocas que, como vimos, já se produziu várias ve- completamente ilusória para a classe dominada, mas tam-
zes na história até nossos dias, sem todavia comprome- bém uma nova cadeia. Na comunidade real os indiví-
'
ter sua base fundamental, teve, a cada vez, de provocar duos adquirem sua liberdade simultaneamente com sua
a eclosão de uma revolução, tomando ao mesmo tempo associação, graças a essa associação e nela.
div.ersas formas acessórias, tais como totalidade dos con- Evidencia-se de todo o desenvolvimento histórico até
flitos, choques de diferentes classes, contradições da os nossos dias que as relações comunitárias em que en-
consciência, luta ideológica etc., luta política etc. De um tram os indivíduos de uma classe, e que eram sempre
ponto de vista limitado, pode-se logo abstrair uma des- condicionadas por seus interesses comuns em face de
sas formas acessórias e considerá-la a base dessas revo- terceiros, consistiam sempre em uma comunidade que
luções, o que era tanto mais fácil quanto mais próprios englobava esses indivíduos unicamente enquanto indiví-
os indivíduos de onde partiam as revoluções criavam ilu- duos médios, na medida em que eles viviam nas condi-
sões sobre sua própria atividade, segundo seu grau de ções de existência da sua classe; eram portanto, em su-
cultura e seu estágio de desenvolvimento histórico. ma, relações nas quais eles participavam não enquanto
A transformação das forças pessoais (relações) em indivíduos, mas sim enquanto membros de uma classe.
forças materiais causada pela divisão do trabalho não Por outro lado, na comunidade dos proletários revolu-
pode ser abolida pelo fator de se extirpar do cérebro cionários que põem sob seu controle todas as suas pró-
essa representação geral, mas sim unicamente se os indi- prias condições de existência e as de todos os membros
víduos subjugarem de novo essas forças materiais e abo- da sociedade, ocorre o inverso: os indivíduos nela parti-
lirem a divisão do trabalho8 • Isso não é possível sem a cipam enquanto indivíduos. E (evidentemente desde que
comunidade. É somente na comunidade [com outros que a associação dos indivíduos se faça dentro do quadro
cada] indivíduo possui os meios de desenvolver suas das forças produtivas que se supõem agora desenvolvi-
faculdades em todos os sentidos; é somente na comuni- das) é essa reunião que põe sob seu controle as condi-
dade que a liberdade pessoal é possível. Nos sucedâ- ções do livre desenvolvimento e movimento dos indiví-
neos de comunidades que até agora existiram, no Estado duos, ao passo que elas tinham sido até então entregues
etc., a liberdade pessoal só existia para os indivíduos ao acaso e tinham adotado uma existência autônoma em
que se tinham desenvolvido nas condições da classe do- face dos indivíduos, precisamente pela sua separação
minante e só na medida em que eram indivíduos dessa enquanto indivíduos e a sua união necessária, implicada
classe. A comunidade aparente, que os indivíduos ti- pela divisão do trabalho, mas que se tornou, devido à
nham até então constituído, tomou sempre uma existên- sua separação enquanto indivíduos, um laço que lhes
cia independente em relação a eles e, ao mesmo tempo, era estranho. A associação até agora conhecida não era
pelo fato de representar a união de uma classe em face de modo algum a união voluntária (que se apresenta,

92 93
- - - - - - - - - A Ideologia Alemà _ _ _ _ _ _ _ __ - - - - - - - - - - - F e u e r h a c h _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

por exemplo, no Contrato Social 9 ), mas uma união ne- de da independência adquirida pelas relações sociais,
cessária, baseada nas condições dentro das quais os indi- fruto inevitável da divisão do trabalho, que há uma dife-
víduos desfrutavam da contingência (comparar, por exem- rença entre a vida de cada indivíduo, na medida em que
plo, a formação do Estado na América do Norte e as ela é pessoal, e a sua vida na medida em que é subsumi-
repúblicas da América do Sul). Esse direito de poderdes- da por um ramo qualquer do trabalho e às condições
frutar com toda a tranqüilidade da contingência dentro inerentes a esse ramo. (Não se deve entender por isso que
de certas condições é o que se chamava até agora de o rentista ou o capitalista, por exemplo, deixam de ser
liberdade pessoal. - Essas condições de existência são pessoas; mas sua personalidade é condicionada por rela-
naturalmente apenas as forças produtivas e as formas ções de classe inteiramente determinadas e essa diferen-
das trocas de cada período. ça só aparece em oposição a uma outra classe; e a eles
Se considerarmos, do ponto de vista filosófico, o de- próprios só aparece no dia em que abrem falência.) No
senvolvimento dos indivíduos nas condições de existên- estamento (e mais ainda na tribo), esse fato ainda per-
cia comum dos estamentos e das classes que se sucedem manece encoberto; por exemplo, um nobre permanece
historicamente e nas representações gerais que lhes são sempre um nobre, um roturier permanece sempre rotu-
impostas por esse fato, é fácil, na verdade, imaginar que rier11, sem considerar as suas outras relações; é uma qua-
o gênero ou o homem se desenvolveram nesses indiví- lidade inseparável da sua individualidade. A diferença
duos ou que eles desenvolveram o homem; visão imagi- entre o indivíduo pessoal diante do indivíduo na sua
nária que inflige duros golpes à história 1º. Podem-se então qualidade de membro de uma classe e a contingência das
compreender essas diferentes ordens e diferentes classes condições de existência para o indivíduo só aparecem
como sendo especificações da expressão geral, como com a classe que é, ela própria, um produto da burgue-
subdivisões do gênero, como fases de desenvolvimento sia. É somente a concorrência e a luta entre os indivíduos
do homem. que engendram e desenvolvem essa contingência como
Essa subsunção dos indivíduos por determinadas tal. Por conseguinte, na representação, os indivíduos são
classes não pode ser abolida enquanto não se tiver for- mais livres sob o domínio da burguesia do que antes,
mado uma classe que não tenha mais que fazer prevale- porque suas condições de existência lhes são contingen-
cer um interesse de classe particular contra a classe do- tes; na realidade, eles são naturalmente menos livres sob
minante. o domínio da burguesia do que antes, porque estão mui-
Os indivíduos sempre partiram de si mesmos, natu- to mais subsumidos por um poder objetivo. A diferença
ralmente não do indivíduo "puro", no sentido dos ideó- com respeito à ordem aparece sobretudo na oposição
logos, mas sim deles mesmos, dentro de suas condições entre burguesia e proletariado. Quando a ordem dos bur-
e de suas relações históricas. Mas fica evidente no curso gueses das cidades, as corporações etc. surgiram diante
do desenvolvimento histórico, e precisamente em virtu- da nobreza fundiária, suas condições de existência, pro-

94 95
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Alemà _ _ _ _ _ _ _ __ - - - - - - - - - - ~ F e u e r h a c h _ _ _ _ _ _ _ _ _ _~

priedade mobiliária e trabalho artesanal, que já tinham rem afirmar-se enquanto pessoa, devem abolir sua pró-
existido de forma latente antes de se separar da associa- pria condição de existência anterior, que é, ao mesmo
ção feudal, apareceram como algo positivo, que se fez tempo, a de toda a sociedade até hoje, quer dizer, abolir
valer contra a propriedade fundiária e que, de início, o trabalho 15. Eles se colocam com isso em oposição dire-
tomou então, a seu modo, a forma feudal. Sem dúvida os ta à forma pela qual os indivíduos da sociedade até ago-
servos fugitivos consideravam seu estado de servidão ra escolheram como expressão de conjunto, isto é, em
anterior como algo contingente à sua personalidade: nis- oposição ao Estado, sendo-lhes preciso derrubar esse
so, eles agiam simplesmente como o faz toda classe que Estado para realizarem sua personalidade.
se liberta de uma cadeia e, então, eles não se libertavam
enquanto classe, mas sim isoladamente. Além disso, não
saíram do domínio do sistema de estamentos, mas for-
maram somente um novo estamento e conservaram seu
modo de trabalho anterior em sua nova situação e elabo-
raram esse modo de trabalho libertando-o dos vínculos
do passado que já não correspondiam ao grau de desen-
volvimento que ele havia atingido 12 •
Entre os proletários, ao contrário, suas próprias con-
dições de vida, o trabalho e, por isso, todas as condições
de existência da sociedade atual tornaram-se para eles
algo contingente, sobre o que os proletários isolados não
tinham nenhum controle, e sobre o que nenhuma orga-
nização social pode dar-lhes o controle. A contradição
entre a personalidade do proletário em particular, e as
condições de vida que lhe são impostas, isto é, o traba-
lho, aparece-lhe com evidência, sobretudo porque ele já
foi sacrificado desde a sua primeira juventude e não terá
jamais a oportunidade de chegar, no âmbito de sua clas-
se, às condições que o fariam passar para uma outra clas-
se. Portanto, enquanto os servos fugitivos só queriam
desenvolver livremente suas condições de existência já
estabelecidas e fazê-las valer, mas só chegavam em últi-
ma instância ao trabalho livre, os proletários, se quise-

96 97
Anexo
Teses Sobre Feuerbach 1

1. AD FEUERBACH

I
Até agora, o principal defeito de todo materialismo
(inclusive o de Feuerbach) é que o objeto, a realidade, o
mundo sensível só são apreendidos sob a forma de obje-
to ou de intuição, mas não como atividade humana sen-
sível, enquanto práxis, de maneira não subjetiva. Em vis-
ta disso, o aspecto ativo foi desenvolvido pelo idealismo,
em oposição ao materialismo - mas só abstratamente,
pois o idealismo naturalmente não conhece a atividade
real, sensível, como tal. Feuerbach quer objetos sensí-
veis, realmente distintos dos objetos do pensamento;
mas ele não considera a própria atividade humana como
atividade objetiva. É por isso que em A Essência do Cris-
tianismo ele considera como autenticamente humana
apenas a atividade teórica, ao passo que a práxis só é
por ele apreendida e firmada em sua manifestação judai-
ca sórdida. É por isso que ele não compreende a impor-
tância da atividade "revolucionária", da atividade "práti-
co-crítica".

99
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Jdeolo&ia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Anexo _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

II profano". Seu trabalho consiste em reduzir o mundo reli-


gioso à sua base profana. Ele não vê que, uma vez reali-
A questão de atribuir ao pensamento humano uma zado esse trabalho, o principal ainda está por fazer 6 • O fa-
verdade objetiva não é uma questão teórica, mas sim to, principalmente, de que a base profana se desliga de-
uma questão prática. É na práxis que o homem precisa
la própria e se fixa nas nuvens, constituindo assim um
provar a verdade, isto é, a realidade e a força, a terrena-
reino autônomo, só pode se explicar precisamente pelo
lidade do seu pensamento. A discussão sobre a realida-
auto-rompimento e pela autocontradição dessa base pro-
de ou a irrealidade do pensamento - isolado da práxis -
fana. É preciso portanto primeiro compreender essa base
é puramente escolástica.
na sua contradiçào1 para depois revolucioná-la prati,ca-
mente, suprimindo a contradição. Portanto, uma vez que
se descobriu, por exemplo, que a família terrestre é o
III
segredo da família celeste, é da primeira que doravante
A doutrina materialista que pretende que os homens se deve fazer a crítica teórica e é ela que se deve revolu-
sejam produtos das circunstâncias e da educação, e que, cionar na prática8 •
conseqüentemente, homens transformados sejam produ-
tos de outras circunstâncias e de uma educação modifi-
cada2, esquece que são precisamente os homens que V
transformam as circunstâncias e que o próprio educador
precisa ser educado. É por isso que ela tende inevitavel- Feuerbach, que não se satisfaz com o pensamento
mente a dividir a sociedade em duas partes, uma das abstrato, recorre à intuição sensível; mas não conside-
quais está acima da sociedade (por exemplo, em Robert ra a sensibilidade como atividade prática humana e sen-
Owen)3. sível.
A coincidência da mudança das circunstâncias e da
atividade humana ou automudança só pode ser conside-
rada e compreendida racionalmente como práxis revolu- VI
cionária.
Feuerbach converte a essência religiosa em essência
humana. Mas a essência do homem não é uma abstra-
IV ção inerente ao indivíduo isolado. Na sua realidade, ela
Feuerbach parte do fato de que a religião torna o é o conjunto das relações sociais.
homem estranho a si mesmo e duplica o mundo em um Feuerbach, que não empreende a crítica desse ser
mundo religioso, objeto de representação", e um mundo real, é por conseguinte obrigado:

100 101
_ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Alemã _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Anexo _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

1. a abstrair-se do curso da história e a tratar o espí- X


rito religioso como uma realidade que existe por si mes-
ma, supondo a existência de um indivíduo humano abs- O ponto de vista do velho materialismo antigo é a
trato, isolado. sociedade "civil". O ponto de vista do novo materialismo
2. a considerar, por conseguinte, o ser humano 9 é a sociedade humana, ou a humanidade social1 3 •
unicamente como "gênero", como universalidade inter-
na, muda, ligando de modo natural a multidão dos in-
XI
divíduos.
Os filósofos só interpretaram o mundo de diferentes
maneiras; do que se trata 14 é de traniformá-lo. ·
VII
É por isso que Feuerbach não vê que o "espírito reli-
gioso" é ele próprio um produto social e que o indivíduo
abstrato que ele analisa iJ)ertence na realidade 10 a uma
forma social determinada.

VIII
Toda 11 vida social é essencialmente prática. Todos
os mistérios que conduzem ao misticismo encontram sua
solução racional na práxis humana e na compreensão
dessa práxis.

IX
O máximo alcançado pelo materialismo contempla-
tivo, isto é, o materialismo que não concebe a sensibili-
dade como atividade prática, é a contemplação dos indi-
víduos isolados e da sociedade civil1 2 •

102 103
Notas

Prefdcio
1. Marx caracteriza, respectivamente, as posições de Feuer-
bach, Bruno Bauer e Max Stirner.
2. [Passagem riscada no manuscrito:] Nenhuma diferença
específica distingue o idealismo alemão da ideologia de todos
os outros povos. Também para esta última, o mundo é domi-
nado pelas idéias; as idéias e os conceitos são princípios deter-
minantes; certas idéias constituem o mistério do mundo mate-
rial acessível aos filósofos.
Hegel levará à perfeição o idealismo positivo. Para ele,
não só o mundo material se havia metamorfoseado em um
mundo das idéias e toda a história, em uma história das idéias.
Ele não se limita a registrar os fatos de pensamento, mas pro-
cura também analisar o ato de produção.
Quando são sacudidos para saírem de seu mundo de so-
nhos, os filósofos alemães protestam contra o mundo das idéias,
que lhes [. .. ] a representação do [mundo] real, fís[ico]. ..
Todos os criticistas alemães afirmam que as idéias, repre-
sentações, conceitos, dominaram e determinaram até agora os
homens reais, que o mundo real é um produto do mundo das
idéias. Isso, que ocorre até o presente momento, vai, no en-
tanto, se modificar. Eles se diferenciam pela maneira como
querem libertar o mundo dos homens, os quais, segundo eles,
gemeriam assim sob o peso de suas próprias idéias fixas; eles

105
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideo/cwia Alemã _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Notas _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

também se diferenciam pelo que qualificam de idéia fixa; têm tica, tanto quanto necessário para compreendermos e funda-
em comum a crença no domínio das idéias; têm em comum a mentarmos as críticas individuais que se vão seguir. Se opo-
crença em que o seu raciocínio crítico trará, fatalmente, o fim mos essas considerações precisamente a Feuerbach, é porque
do estado de coisas existente, seja porque consideram o seu ele é o único a ter, pelo menos, realizado um progresso, o úni-
pensamento individual suficiente para alcançar esse resultado, co cujos escritos podem, de bonnefoi*, ser estudados)**; essas
seja porque almejam conquistar a consciência geral. · considerações esclarecerão as premissas ideológicas comuns a
A crença de que o mundo real é o produto do mundo todos eles.
ideal, de que o mundo das idéias [. .. ] 1. A ideologia em geral, especialmente a filosofia alemã
Extraviados pelo mundo hegeliano das idéias, que se tor- Conhecemos apenas uma ciência, a ciência da história. A
nou o deles, os filósofos alemães protestam contra o domínio história pode ser examinada sob dois aspectos. Pode ser divi-
dos pensamentos, idéias, representações, que até agora, se- dida em história da natureza e história dos homens. Os dois
gundo eles, isto é, segundo a ilusão de Hegel, deram origem, aspectos, entretanto, são inseparáveis; enquanto existirem os
determinaram e dominaram o mundo real. Lançam um protes- homens, sua história e a da natureza se condicionarão recipro-
to e perecem[. .. ] camente. A história da natureza, que designamos como ciên-
No sistema de Hegel, as idéias, pensamentos, conceitos, cia da natureza, não nos interessa aqui; em compensação, te-
produziram, determinaram, dominaram a vida real dos ho- remos que nos ocupar pormenorizadamente da história dos
mens, seu mundo material, suas relações reais. Seus discípulos homens; com efeito, quase toda a ideologia ou se reduz a uma
revoltados tomaram dele esse postulado [. .. ] concepção falsa dessa história, ou procura fazer dela total abs-
tração. A própria ideologia não passa de um dos aspectos des-
sa história.
Feuerbach • Em francês no texto (de boa-fé).
1. David Friedrich Strauss (1808-1874) tornou-se famoso ** Os trechos estão cortados verticalmente. A parte que
por sua Vie de Jésus. colocamos entre parênteses, entretanto, está cortada horizon-
2. Generais de Alexandre da Macedônia que, após sua talmente.
morte, se entregaram a uma luta obstinada pelo poder. No cur-
so dessa luta, o império de Alexandre foi dividido em uma sé-
rie de Estados. A. Ideologia em Geral e em Particular
3. Literalmente: cabeça morta, termo utilizado em quími- a Ideologia Alemã
ca para designar o resíduo de uma destilação. Aqui: restos,
resíduos. 1. [Passagem cortada no manuscrito:] ... ela tinha a preten-
4. [Passagem cortada no manuscrito:] Eis por que faremos são de ser a redentora absoluta do mundo, de libertá-lo de
preceder a crítica particular dos diversos representantes desse todo o mal. A religião foi sempre considerada como o inimigo
movimento por algumas considerações gerais (essas conside- supremo, a causa última de tudo o que repugnava a esses filó-
rações bastarão para caracterizar o ponto de vista de nossa crí- sofos, e como tal foi tratada.

106 107
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Alemã _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Notas _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

2. Em francês no original ( = em bloco). servando que ela só é válida para a Europa ocidental e assina-
3. [Frase cortada no manuscrito:] O primeiro ato histórico lando a existência de um modo de produção asiático. Cf. Lettres
desses indivíduos, por meio do qual eles se distinguem dos sur "Le Capital"e La Pensée, nº 114.
animais, não é o fato de eles pensarem, mas o de começarem 10. [Passagem cortada no manuscrito:] As representações
a produzir seus meios de existência. que esses indivíduos fazem de si mesmos são idéias quer sobre
4. [Frase cortada:] Ora, esse estado de coisas não condi- suas relações com a natureza, quer sobre suas relações uns com
ciona apenas a organização que emana da natureza, a organi- os outros, quer sobre sua própria natureza. É evidente que, em
zação primitiva dos homens, principalmente suas diferenças todos esses casos, tais representações são a expressão cons-
raciais; condiciona igualmente todo o seu desenvolvimento ou ciente - real ou imaginária - de suas relações e de sua ativida-
não-desenvolvimento ulterior, até a época atual. de reais, de sua produção, de seu comércio, de sua organiza-
5. Marx emprega aqui a palavra Verkehr, que ele próprio ção política e social. Só é possível emitir a hipótese inversa
traduz por commerce (no sentido amplo do termo, ou seja, de supondo-se, além do espírito dos indivíduos reais condiciona-
intercâmbio entre as pessoas) na sua carta a Annenkov. Mais dos materialmente, um outro espírito màis, um espírito particu-
adiante, voltarão os termos Verkehrsform, Verkehrsverhaltnisse lar. Se a expressão consciente das condições reais de vida des-
pelos quais Marx entende o que mais tarde irá designar como ses indivíduos é imaginária, se, em suas representações, eles
"relações de produção" (Produktionsverhaltnisse). põem a realidade de cabeça para baixo, esse fenômeno é ainda
6. Na época em que Marx escreveu essas linhas, dava-se uma conseqüência de seu modo de atividade material limitado
grande importância à noção de tribo, de clã. A obra de L. H. e das relações sociais insignificantes que dele resultam.
Morgan, publicada em 1877 e dedicada ao estudo da socieda- 11. Marx decompõe a palavra Bewusstsein (consciência)
de primitiva, explicitará as noções de "gens" e de "clã". Engels em seus dois elementos: Das hewusste Sein (o ser consciente).
utilizará os resultados de Morgan em sua obra: A Origem da 12. [Ao lado desta frase, Marx anotou, à direita:] Hegel.
Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884). Condições geológicas, hidrográficas etc. Os corpos humanos.
7. Ao pé da letfa: proletariado em farrapos. Elementos Necessidade, trabalho.
desclassificados, miseráveis c, não-organizados do proletariado 13. Alusão a uma teoria de Bruno Bauer.
urbano. 14. Construção das casas. Entre os selvagens, é claro que
8. Licínio (por volta de 350 antes da nossa era): Tribuno cada família tem sua própria caverna ou cabana, assim como
da plebe que, com Séxtio, editou em 367 leis que favoreciam é normal, entre os nômades, a tenda própria de cada família.
os plebeus. Em virtude desses textos, nenhum cidadão roma- Com a continuação do desenvolvimento da propriedade priva-
no tinha o direito de possuir mais de 500 geiras (cerca de 125 da, essa economia doméstica separada torna-se ainda mais
hectares) de propriedade estatal (ager puhlicus). Após 367, a indispensável. Entre as populações agrícolas, a economia do-
"fome de terra" dos plebeus foi parcialmente aplacada, pois, méstica comunitária é tão impossível quanto o cultivo em
graças às vitórias militares, eles receberam em parcelas as ter- comum do solo. A construção das cidades constituiu um gran-
ras conquistadas. de progresso. Entretanto, em todos os períodos anteriores, a
9. Mais tarde Marx e Engels modificariam essa descrição, supressão da economia separada, inerente à supressão da pro-
esse esquema da evolução das estruturas da propriedade, ob- priedade privada, era impossível pelo simples fato de lhe fal-

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_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ A Ideologia Alemà _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Notas _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

tarem as condições materiais para que isso ocorresse. O esta- Em 1845, em Francfort-sur-Main, foi publicada a obra de
belecimento de uma economia doméstica comunitária tem Marx e Engels: A Sagrada Família, ou Critica da Critica Criti-
como condições prévias o desenvolvimento da maquinaria, da ca. Contra Bruno Bauer e adeptos. Título alemão: Die heilige
utilização das forças naturais e de numerosas outras forças pro- Familie, oder Kritik der Kritischen Kritik. Gegen Bruno Bauer
dutivas - por exemplo abastecimento de água, iluminação a und Consorten.
gás, aquecimento a vapor etc., a supressão [da oposição] entre 22. A edição MEGA dá uma versão ligeiramente diferente:
a cidade e o campo. Sem essas condições, a própria economia sich begegnen (defrontar-se), em vez de sich bewegen (movi-
em comum não constituiria, por sua vez, uma nova força pro- mentar-se).
dutiva. Careceria de qualquer base material, repousaria apenas 23. [Passagem cortada no manuscrito:] Até agora examina-
sobre uma base teórica ou, em outras palavras, seria uma sim- mos somente um aspecto da atividade humana, a traneforma-
ples fantasia e levaria somente ã economia monacal. Isso era ção da natureza pelos homens. O outro aspecto, a tranefor-
possível, como provam o agrupamento em cidades e a cons- mação dos homens pelos homens ...
trução de edifícios comuns para fins especiais (prisões, quar- Origem do Estado e relações entre o Estado e a socieda-
téis etc.). A supressão da economia separada acompanha, logi- de civil.
camente, a abolição da família (M./E.). 24. A expressão alemã é bürgerliche Gessellschaft, que po-
15. [Neste ponto, Marx escreve na coluna da direita:] Os deria significar "sociedade burguesa".
homens têm uma história, porque devem produzir sua vida e 25. [Aqui, Marx escreveu na coluna da direita:] DA PRO-
devem fazê-lo de uma forma determinada: é uma conseqüên- DUÇÃO DA CONSCIÊNCIA.
cia de sua organização física: assim também sua consciência.
26. Em alemão: Gattung, que traduzimos por gênero, no
16. [Frase cortada no manuscrito:] Minha consciência é a
sentido de gênero humano.
minha relação com o que me cerca.
27. Max Stirner.
17. [Na altura desta frase, Marx escreveu na coluna da di-
28. Alusão às teorias de Bauer e de Stirner. Ver acima.
reita:] Primeira forma dos ideólogos, sacerdotes, coincide.
29. [A esta altura, Marx escreveu na coluna da direita:] A
18. [Na altura desta frase, Marx escreveu na coluna da di-
maneira chamada objetiva de escrever a história consistia pre-
reita:] Religião. Os alemães com a ideologia como tal.
cisamente em conceber as relações históricas separadas da ati-
19. Termos do vo.:abulário dos jovens hegelianos, e parti-
vidade. Caráter reacionário.
cularmente de Stirner.
20. Sabe-se que Bauer pretendia-se campeão de uma 30. Título abreviado de uma única e mesma revista dos jo-
escola filosófica "crítica". vens hegelianos que surgiu de 1838 a 1843 sob a forma de fo-
21. Anais Franco-alemães era uma revista editada em Pa- lhetos diários. De janeiro de 1838 a junho de 1841, ela se inti-
ris por Marx e A. Ruge. O primeiro e o único número apare- tulou: Hallische Jarhrbücher für deutsche Wissenschaft und
ceu em fevereiro de 1844. Continha dois artigos de Marx: Kunst [Anais de Halle para a Ciência e a Arte Alemãs], sob a
"Sobre 'a questão judaica", "Contribuição à crítica da filosofia direção de Arnold Ruge e de Theodor Echtermeyer. Ameaçada
do direito de Hegel" e um longo artigo de Engels: "Esboço de de ser proibida na Prússia, a revista se transferiu para a Saxô-
uma crítica da economia política". As divergências entre Marx nia tomando o nome, em julho de 1841, de Deutsche.farhr-
e Ruge impediram a continuidade dessa publicação. hücherfür Wissenschq/i und Kunst[Anais Alemães para a Ciên-

llO 1 ll
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Notas _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
- - - - - - - - - - A Ideologia Alemà _ _ _ _ _ _ _ _ __

eia e a Arte]. Mas, em janeiro de 1843, o governo proibiu a tira- contrário, no fato de que, em última instância, ele não pode
gem da revista, proibição essa que foi estendida a toda a chegar ã conclusão sobre a materialidade sem considerá-la
Alemanha por decisão do Bundestag. com os "olhos", ou seja, através dos "óculos" do filósofo
31. Respectivamente, alusão a Bauer, Feuerbach, Stirner. (M./E.).
32. Bruno Bauer: Geschichte des Politik, Cultur und Aufkla- 40. Bruno Bauer: "Característica de Ludwig Feuerbach",
rung des achtzehten jahrhunderts, Bd 1-4, Charlottenburg, Wigand's Vierteljahrsschrift, 1845, t. III.
1843-1845. 41. Alusão a um verso do Fausto de Goethe (Prólogo no
33. Cântico nacionalista de Nicolas Becker: "O Reno céu).
Alemão", composto em 1840, provocando então duas réplicas 42. Geração espontânea.
diferentes, a de Musset, patrioteira, e a de Lamartine, pacifista. 43. [Passagem cortada no manuscrito:] Se todavia examf-
34. Jakob Venedey (1805-1871): jornalista e político ale- namos aqui a história um pouco mais de perto, é porque os
mão de esquerda. alemães têm o hábito, quando ouvem as palavras "história" e
35. Trata-se de Bruno Bauer e de Max Stirner. "histórico", de imaginar todas as coisas possíveis e imaginá-
36. Wigand's Vierteljahrsschrift, revista dos jovens hegelia- veis, mas, sobretudo, não a realidade. E, desse hábito, São
nos editada em Leipzig, de 1844 a 1845, por Otto Wigand. No Bruno, "esse orador versado na eloqüência sacra", nos forne-
tomo II, Feuerbach escrevera um artigo em que polemizava ce um brilhante exemplo.
com Stirner e que se intitulava "Über das Wesen des Chris- 44. [Passagem cortada no manuscrito:] Estes "conceitos
tenthums in Beziehung auf den Einzigen und sein Eigenthum"* dominantes" terão uma forma tanto mais geral e generalizada
[De A Essência do Cristianismo em relação a O Único e sua quanto mais a classe dominante é obrigada a apresentar os
PropriedadeL seus interesses como sendo o interesse de todos os membros
• A primeira obra é de Feuerbach, a segunda é de Stirner. da sociedade. Em média, a própria classe dominante imagina
37. Obra de Feuerbach: Grundsatze der Philosophie der que são os seus conceitos que imperam, e só os distingue das
Zukunft [Princípios da Filosofia do Futuro], Zurique e Winther- idéias dominantes das épocas anteriores apresentando-os co-
thur, 1843. mo verdades eternas.
38. O sentido da passagem que falta é mais ou menos o 45. [Neste ponto, Marx escreveu na coluna da direita:] A
seguinte: Se seu "ser" contradiz sua "essência", aí está sem dú- universalidade corresponde: 1) ã classe contra o estamento; 2)
vida uma anomalia, mas não um acaso infeliz. É um fato his- ã concorrência, ao comércio mundial etc.; 3) ao grande núme-
tórico baseado em re!ações sociais determinadas, que Feuer- ro da classe dominante; 4) à ilusão da comunidade dos inte-
bach se contenta em constatar; ele interpreta somente o resses. (No começo, essa ilusão [é] justa); 5) à ilusão dos ideó-
mundo sensível existente, e se comporta para com ele como logos e à divisão do trabalho.
teórico, enquanto que na realidade ... 46. [Marx escreveu à margem:] O homem = o "espírito hu-
39. N.-B.- O erro de Feuerbach não reside no fato de ele mano pensante".
subordinar o que é visível a olho nu, a aparência sensível, ã 47. Em inglês no original ( = lojista).
realidade sensível constatada graças a um exame mais pro-
fundo do estado concreto das coisas; seu erro consiste, ao

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_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ /Votas _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _~

B. A base real da ideologia


"Carta sobre o egoísmo do comércio" da obra Tratado da Cir-
1. Marx emprega o termo Veria?hr. culação e do Crédito. Amsterdam, 1771.
2. Liga contra a Lei do Trigo, organização de livre comér- 10. O movimento do capital, embora sensivelmente ace-
cio inglesa fundada em Manchester, em 1838, por Cobden e lerado, ainda era de relativa lentidão. A divisão do mercado
Bright. Ela havia determinado como seu objetivo a abolição mundial em partes isoladas, cada uma das quais era explorada
das taxas sobre a importação dos cereais; lutava contra os pro- por uma nação determinada, a eliminação da concorrência en-
prietários de terras, partidários da manutenção das taxas, e era tre as nações, a inépcia da própria produção e o sistema finan-
animada por industriais que achavam que a livre importação ceiro que mal ultrapassara o primeiro estágio do seu desenvol-
do trigo provocaria uma baixa do preço do pão e dos salários. vimento, entravavam muito a circulação. Seguiu-se um espíri-
Obteve êxito em 1846. to mercantil de uma sórdida mesquinhez, que manchava todos
3. Estado tem aqui o sentido que tem em terceiro-estado. os comerciantes e todas as formas de exploração do comércio.
4. [Na altura desta frase, Marx escreveu uma observação Em comparação com os manufatureiros e mais ainda com os
na coluna da direita:] Ela absorve primeiro os tipos de trabalho artesãos, eles eram, na verdade, grandes burgueses; em com-
que dependem diretamente do Estado, depois todas as profis- paração com os comerciantes e com os industriais do período
sões mais ou menos ideológicas. subseqüente, eles ficam pequeno-burgueses. Cf. Adam Smith*
5.Em francês no texto de Marx. [Adiante desta frase, Marx (M./E.).
escreveu na coluna da direita:] • Nessa época Marx conhecia•Smith pela tradução france-
Pequenos burgueses. sa de sua obra intitulada: Investigações sobre a Natureza e as
Classe média. Causas da Riqueza das Nações. Título do original: An Inquiry
Grande burguesia. ínto the Nature and Causes of the Wealth of Nations, Londres,
6. Leis editadas por Cromwell em 1651 e renovadas de- 1776.
pois. Estipulavam que a maioria das mercadorias importadas 11. A concorrência isola os indivíduos, não somente os
da Europa, da Rússia ou da Turquia só deviam ser transporta- burgueses, mas ainda mais os proletários entre si, embora os
das por navios ingleses ou dos países exportadores. A cabota- reúna. É por isso que sempre decorre um longo período até
gem ao longo das costas inglesas devia ser feita exclusivamen- que esses indivíduos possam unir-se, sem contar o fato de que
te por barcos ingleses. Essas leis, destinadas a favorecer a ma- - se queremos que sua união não seja puramente local - esta
rinha inglesa, eram sobretudo dirigidas contra a Holanda. Fo- exige previamente a criação, pela grande indústria, dos meios
ram abolidas de 1793 a 1854. necessários, ela exige as grandes cidades industriais e as co-
7. Essas tarifas diferenciadas incidiam com pesos diferen- municações rápidas e a baixo custo; e por isso só após longas
tes sobre uma mesma mercadoria, conforme sua origem fosse lutas é possível vencer qualquer poder organizado frente a es-
des-te ou daquele país. ses indivíduos isolados e que vivem em condições que recriam
8. John Aikin 0747-1822): médico inglês que foi também a cada dia esse isolamento. Exigir o contrário seria o mesmo
historiador. ., que exigir que a concorrência não existisse naquela época his-
9. Isaac Pinto (1715-1787): especulador e economista ho- tórica determinada, ou que os indivíduos eliminassem de seu
landês. As citações (em francês no original) são extraídas da cérebro condições sobre as quais não têm nenhum controle
como indivíduos isolados (M./E.).

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12. Propriedade de um cidadão romano de linhagem seu sonho e pensa que, se se coloca "o humanismo real", ou
antiga. seja, o comunismo, "no lugar do espiritualismo" (que não tem
13. [Na altura desta linha, Engels escreveu na coluna da mais lugar nenhum), é unicamente para que ele ganhe em res-
direita:) (Usura!) peito. Então - continua ele sonhando "será preciso que venha
14. Cidade italiana situada ao sul de Nápoles. Nos séculos a salvação, que se tenha o céu na terra e que a terra seja o
X e Xl, era um porto florescente e seu direito marítimo foi ado- céu". (Nosso douto teólogo ainda não consegue privar-se do
tado por toda a Itália. céu.) "Então brilharão, em meio às celestes harmonias, a ale-
15. Direito de usar e de abusar. gria e a felicidade por toda a eternidade" (p. 140). Nosso San-
16. O direito de abusar. to-Padre da Igreja terá a maior surpresa quando desabar sobre
17. Relação para os filósofos = idéia. ele o dia do Juízo Final, aquele dia em que tudo se cumprirá
Eles conhecem somente a relação de "o homem" por si - um dia cuja aurora será feita do reflexo sobre o céu das cida-
mesmo e é por isso que todas as relações reais se tornam para des em chamas, e em que chegará a seus ouvidos, no meio
eles idéias (M./E.). dessas "harmonias ·celestes", a melodia da Marselhesa e da
18. Falta o começo, que estava no caderno que recebeu Carmanhola acompanhada do troar dos canhões, que nào
de Engels o nº 83 e de Marx a paginação de 36 a 39. Ao todo podem faltar no caso, enquanto a guilhotina marcará o com-
são quatro páginas. passo; enquanto a "massa" ímpia urrará Ça ira, ça ira• e abo-
19. Em francês no original ( = indústria extrativa). lirá a "consciência de si" por meio da lanterna••. Menos que
20. Sismondi (1773-1842): economista suíço, critica o ca- qualquer outro, São Bruno não tem razão de traçar dessa "ale-
pitalismo partindo de um ponto de vista pequeno-burguês. gria e felicidade por toda a eternidade" um quadro edificante.
Cherbuliez Cl 797-1869): discípulo de Sismondi, acrescenta às Não nos daremos ao prazer de arquitetar a priori o que será o
idéias deste noções tiradas de Ricardo. comportamento de São Bruno no dia do Juízo Final. É igual-
21. Em francês no original ( = a associação dos indivíduos mente difícil decidir se os prolétaires en révolution••• deviam
à associação dos capitais). ser concebidos como "substância", como "massa" que quer de-
22. [Aqui Engels anotou à margem:) Sismondi. rrubar a crítica ou então como "emanação" do espírito, que to-
23. [Frase marcada com um traço por Marx que anota davia careceria da consistência necessária para digerir os pensa-
adiante na coluna da direita:) Alienação de si. mentos bauerianos****.
24. [Anotação de Marx na coluna da direita:) de sorte que * Em francês no original(= Vai dar certo, vai dar certo).
essas pessoas têm interesse em manter o atual estado de pro- ** Alusões ao refrão do Ça ira: "Os aristocratas da lanterna".
dução. *** Em francês no original ( = proletários em revolução).
25. [Palavras cortadas no manuscrito:) ....... forma moder- **** Compreende-se que Marx tenha finalmente cortado
na da atividade sob a qual a dominação das .............. . essa visão apocalíptica da revolução, mesmo que, é claro, nes-
26. [Passagem cortada no manuscrito:) Desde algum tem- sa época ele não concebesse outra revolução que não violen-
po todos os comunistas, tanto na França como na Inglaterra e ta e necessariamente sangrenta. Ele tinha presentes no espíri-
na Alemanha, estão de acordo quanto à necessidade dessa re- to a Revolução ·Francesa e o Terror.
volução; São Bruno no entanto prossegue tranqüilamente no

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C. Comunismo - Produção do Próprio Modo de Trocas evasão da propriedade do senhor e lhe dava a perspectiva de
ser bem-sucedido na cidade enquanto cidadão; disso resultou
1. No lugar desse termo, Marx empregará mais tarde o ter-
também uma hierarquização entre os servos, de tal maneira
mo associados (associação em vez de união etc.).
que os que se evadem já são meio-burgueses. Fica evidente,
2. Em francês no original ( = mais ou menos).
portanto, que os vilões que conheciam um ofício tinham o má-
3. Contra o homem.
ximo de oportunidade de adquirir bens móveis (M./E.).
4. Em francês no original ( = a despeito de si mesmos).
* Parcelas.
5. [Nesta frase, na coluna da direita, Marx escreveu:]
13. Mais tarde, Marx, explicitando essa noção de trabalho
Produção do próprio modo de trocas. preconizará a abolição do trabalho assalariado.
6. Em francês no original ( = por sua vez).
7. Energia pessoal dos indivíduos de diferentes nações -
alemães e americanos -, energia surgida realmente do cruza- Anexo - Teses sobre Feuerbach
mento de raças - daí os alemães verdadeiros cretinos - na
França, na Inglaterra etc., povos estrangeiros transplantados 1. Traduzimos segundo o manuscrito de Marx. Todavia,
levamos em conta a versão publicada por Engels, em apêndi-
para um solo já evoluído e para um solo inteiramente novo na
ce ao seu Feuerbach, em 1888. Indicamos em nota as varian-
América; na Alemanha a população primitiva absolutamente
tes importantes.
não se mexeu (M./E.).
2. O manuscrito de Marx indica aqui somente: "a doutri-
8. [Na frente dessa frase, Engels escreveu na coluna da
na materialista da modificação das circunstâncias e da educa-
direita:] (Feuerbach: Ser e Essência).
ção esquece ... " Engels explicitou o pensamento, em uma nota,
9. Trata-se da célebre çibra de Jean-Jacques Rousseau. como se lê no texto acima.
10. A frase que se encontra freqüentemente em São Max 3. Parênteses acrescentado por Engels.
Stirner: "cada um é o que é graças ao Estado", vem a ser, no 4. Essa precisão é acrescentada por Engels.
fundo, o mesmo que dizer que o burgGes não passa de um 5. Engels diz "real".
exemplar da espécie burguesa, frase que pressupõe que a 6. Frase acrescentada por Engels.
classe dos burgueses deve ter existido antes dos indivíduos 7. O texto de Marx coloca as duas operações no mesmo
que a constituem*. plano.
* Essa frase é colocada entre colchetes por Marx, que ano- 8. Marx escreveu: "é a primeira que é preciso aniquilar no
ta na coluna da direita: PREEXISTÊNCIA da classe, entre os plano da teoria e da prática."
filósofos. 9. Adjetivo acrescentado por Engels.
11. Em francês no original(= plebeu). 10. "na realidade" é acrescentado por Engels.
12. N. B. - Não esqueçamos que a necessidade da servi- 11. Engels diz simplesmente "a vida".
dão, para existir, e a impossibilidade da grande exploração, a 12. Variante de Engels: "a maneira de ver dos indivíduos
qual trouxe a divisão dos lotes* entre os servos, reduziram bem isolados na sociedade civil".
depressa as obrigações destes para com o senhor feudal a uma 13. Neste parágrafo, é Engels que sublinha humana e põe
média de entregas in natura e de corvéias; isso dava ao servo entre aspas civil.
a possibilidade de acumular os bens móveis, favorecia a sua 14. Engels acrescentou: "porém ... "

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