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Sumário

Apresentação
PARTE I – Teoria dos Regimes de Acumulação
1 – História do Capitalismo e Regimes de Acumulação
PARTE II – O Regime de Acumulação Integral
1 – O Significado Histórico do Toyotismo
A organização do trabalho no capitalismo: Questão de método
A produção capitalista de mercadorias
Processo de trabalho e processo de valorização
Desenvolvimento capitalista e formas de organização do trabalho
Toyotismo e acumulação integral
2 – Estado Neoliberal e Acumulação Integral
3 – Neoimperialismo, Relações Internacionais e Acumulação Integral
A acumulação integral e a nova dinâmica do capitalismo mundial
A dinâmica do Neoimperialismo
A especificidade do imperialismo norte-americano
Considerações finais
PARTE III – Acumulação Integral e Ideologia
1 – Crítica à Ideologia da Globalização
2 – Acumulação Integral e Pós-Modernismo
Pós-Modernismo: Armadilha ideológica
Regime de acumulação e mudança cultural
3 – A Crise da Sociedade do Trabalho
Claus Offe ou os descaminhos da sociologia contemporânea
Habermas: O racionalismo utópico-abstrato
Uma crise da sociedade do trabalho?
4 – A Ideologia do Trabalho Imaterial
A Ideologia do Trabalho Imaterial
Crítica da ideologia do trabalho imaterial
Negrismo ou o reino das abstrações metafísicas
Daniel Bell: Precursor de Antônio Negri
Capitalismo contemporâneo, acumulação integral e trabalho intelectual
PARTE IV – Consequências da Acumulação Integral
1 – Exclusão Social ou Lumpemproletarização?
2 – A Nova Dinâmica da Luta de Classes
Luta cultural: Ofensiva capitalista e resistência proletária
Estado e amortecimento da luta de classes
A luta proletária hoje
Referências Bibliográficas
Nildo Viana


O Capitalismo na era
da Acumulação Integral

Copyright © 2010 Editora Idéias & Letras


Todos os direitos reservados à editora

Edição Digital

Aparecida-SP
2010
DIRETOR EDITORIAL
Marcelo C. Araújo
EDITORES
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COORDENAÇÃO EDITORIAL
Ana Lúcia de Castro Leite
COPIDESQUE
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REVISÃO
Bruna Marzullo
Eliana Maria Barreto Ferreira
DIAGRAMAÇÃO
Simone Godoy
CAPA
Alfredo Castillo


* Revisão do texto conforme o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor a
partir de 1º de janeiro de 2009.

Viana, Nildo
O capitalismo na era da acumulação integral / Nildo Viana. – Aparecida, SP: Editora Idéias &
Letras, 2009.

Bibliografia.
ISBN 978-85-7698-036-0 (impresso)
ISBN 978-85-7698-080-3 (e-book)

1. Capitalismo
2. Capitalismo – História I. Título.
Palavras-chave:
1. Capitalismo: História 330.12209

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Apresentação
O capitalismo possui uma longa história. Em épocas passadas, os indivíduos
pensavam que a sua sociedade era a única forma de existência social possível. Aristóteles já
dizia que “a escravidão será eterna”. O mesmo muitos disseram sobre as relações sociais nas
quais nasceram e viveram. Perceber a historicidade das sociedades é algo muito difícil. Da
mesma forma, perceber as mudanças que ocorrem na história de uma mesma sociedade é
bastante difícil. A sociedade capitalista passou por diversas fases, e cada uma delas os
indivíduos – e isto inclui cientistas, pesquisadores, militantes políticos – julgaram ser a
definitiva ou a final.
Para alguns, a atual fase do capitalismo marca o fim da história, tal como para
Fukuyama e muitos outros; para outros, é seu “estágio final”. No entanto, a maioria julga que
esta fase é eterna, imutável. Se uma fase de uma determinada sociedade é tida como eterna, a
visão da historicidade de uma sociedade é muito mais difícil de vir à tona na consciência. O
presente livro visa discutir justamente a historicidade da sociedade capitalista e, portanto, sua
não-eternidade. A sociedade capitalista é histórica e transitória, tal como foram a sociedade
escravista, a sociedade feudal, entre outras. Por conseguinte, o capitalismo não é eterno. Além
disso, o capitalismo atravessa diversas fases de desenvolvimento, no qual sua reprodução fica
cada vez mais difícil. O foco de análise será justamente nesta dupla historicidade do
capitalismo: a historicidade da sociedade moderna e a historicidade de suas formas.
Para realizar esta análise do desenvolvimento histórico do capitalismo e seu atual
estágio de desenvolvimento, é necessário ter uma teoria como ponto de partida. A teoria do
modo de produção capitalista elaborada por Marx é o fio condutor de qualquer análise que
não queira perder-se em equívocos e ilusões. A essência do modo de produção capitalista está
exposta em O Capital, e ninguém pode, neste aspecto, ir além do que está lá. O
desenvolvimento histórico do capitalismo mostra a permanência desta essência e a mutação
de suas formas. Denominamos as formas assumidas pelo capitalismo por regime de
acumulação. O objetivo básico que nos propomos é compreender o atual regime de
acumulação, chave para a compreensão do capitalismo contemporâneo.
O regime de acumulação integral aprofunda e radicaliza vários elementos do regime
de acumulação anterior. Além disso, não somente produz mudanças nos aspectos básicos e
definidores de um regime de acumulação (processo de valorização, formação estatal e
exploração internacional) como também provoca mudanças culturais e sociais em geral. Neste
amplo quadro, falta um estudo de conjunto sobre o novo regime de acumulação. A partir dos
anos 1970 começa a se esboçar a emergência do regime de acumulação integral, mas ele
emerge efetivamente a partir dos anos 1980 e vai se expandindo em nível mundial.
A grande questão é conseguir perceber este processo de mudança no regime de
acumulação e possuir elementos teóricos e metodológicos para realizar a análise. O método
dialético e a teoria do capitalismo elaborada por Marx, como já dissemos, são o fio condutor
para tornar visíveis estas mudanças aparentemente invisíveis, pelo menos em suas
determinações. No entanto, é preciso, partindo deste fio condutor, avançar no sentido de
compreender a dinâmica do modo de produção capitalista e suas fases de desenvolvimento.
Assim, é necessária uma teoria dos regimes de acumulação. Essa teoria tem o papel de
apresentar não somente o conceito de regime de acumulação, mas também o processo de
passagem e mudança de um regime de acumulação para outro, os conceitos derivados e suas
implicações no conjunto das relações sociais. A este problema dedicamos a primeira parte da
presente obra.
Uma vez exposta a teoria dos regimes de acumulação, o passo seguinte é analisar as
características e os elementos constituintes do atual regime de acumulação. A segunda parte
deste livro aborda justamente este aspecto, em três capítulos que mostram as bases do regime
de acumulação integral: o toyotismo, o neoliberalismo e o neoimperialismo. Estes três
elementos são partes constituintes, constitutivas e complementares do regime de acumulação
integral.
Além de analisar as bases do regime de acumulação integral, é preciso ver as
mutações ideológicas que ocorrem e como surgem novas ideologias para legitimar, justificar e
naturalizar o novo regime de acumulação. A diversidade de ideologias que cumprem este
papel inviabiliza abordar todas, e por isso a terceira parte deste livro se limita a abordar
algumas delas. Algumas ideologias (tal como a da globalização, da crise da sociedade do
trabalho, do trabalho imaterial e a do chamado “pós-modernismo”) foram selecionadas para
serem abordadas e mostrarem sua íntima relação com o novo regime de acumulação. Isto
significa dizer que elas são tão históricas e transitórias quanto a realidade que expressam e da
qual são produto.
Na última parte do presente livro, discutiremos algumas das consequências da
implantação do regime de acumulação integral. A lumpemproletarização e a ideologia que
dificulta a sua percepção, a ideologia da exclusão social, são abordadas em um capítulo, e a
nova dinâmica da luta de classes, que envolve uma gama de questões (culturais, políticas,
sociais), em outro. Assim, o último capítulo visa mostrar que existe uma radicalização das
lutas sociais no regime de acumulação integral, mas que isso não significa uma crise do
capitalismo, como alguns supõem (desde Lênin, em 1916, quando escreveu O Imperialismo,
Fase Superior do Capitalismo, tornou-se mania na pseudoesquerda achar que sempre estamos
diante da “crise final do capitalismo”). Trata-se de uma fase de lutas mais radicais
comparadas com a fase anterior, do antigo regime de acumulação.
Mas isto não significa, ainda, um processo de questionamento e ultrapassagem do
capitalismo, embora manifeste a fraqueza deste e amplie tal possibilidade. A cada regime de
acumulação, a reprodução do capital fica mais difícil, e o atual regime de acumulação mostra
que a manutenção do capitalismo contemporâneo pressupõe o aumento geral da exploração e
dos conflitos. A crise deste regime de acumulação, o que ainda não ocorreu, possibilita uma
nova onda de lutas sociais tais como as que ocorreram no início do século 20. Porém, tais
tendências sempre são acompanhadas de contratendências, e a transformação social ou a
barbárie são possibilidades existentes, e são as lutas sociais que definirão qual será o destino
da humanidade. Tornar consciente esta realidade é um passo importante para que as pessoas
não decidam cegamente o seu destino e evitem a barbárie. O presente livro pretende, assim,
ser uma contribuição para evitar a cegueira e o caminho rumo à barbárie.
PARTE I – Teoria dos Regimes de
Acumulação
1 – História do Capitalismo e Regimes de Acumulação

A história do capitalismo possui uma durabilidade de séculos. A análise deste


desenvolvimento histórico ainda é algo bastante rudimentar. Alguns pesquisadores,
economistas, sociólogos, entre outros, realizaram estudos sobre o desenvolvimento histórico
do capitalismo. No entanto, na maioria destes estudos falta a base teórico-explicativa do
fenômeno. Não pretendemos aqui analisar a história do capitalismo, mas tão-somente discutir
uma teoria do desenvolvimento capitalista. Marx foi o grande fundador da teoria do
capitalismo, e muitos se inspiraram nele para analisar o desenvolvimento capitalista. Porém,
muitos foram extremamente descritivos, e vários não apresentaram uma periodização. A
periodização da história da humanidade é algo bastante comum, desde a visão tradicional das
“Idades” (Antiga, Média e Moderna) até a teoria marxista da sucessão dos modos de produção
na Europa (escravismo, feudalismo, capitalismo). A periodização do capitalismo, ao contrário,
ainda está por ser feita, pelo menos na perspectiva marxista, que espera a superação do
aspecto descritivo. Assim como o marxismo supera a periodização tradicional da história da
humanidade (Pagès, 1983), também deve superar a periodização tradicional do capitalismo.
O nosso objetivo aqui é tão-somente discutir quais são as bases teóricas para uma
periodização do desenvolvimento capitalista. Desde Marx temos o ponto de partida para
entender o modo de produção capitalista e, assim, é neste pensador que encontramos a chave
para pensarmos tal periodização. A essência do modo de produção capitalista é a produção de
mais-valor. Marx analisa magistralmente o processo de gênese do capitalismo (Marx, 1988b) e
aborda a acumulação primitiva de capital para explicar a origem da acumulação capitalista
propriamente dita. Ao trabalhar os conceitos de mais-valor absoluto e mais-valor relativo,
Marx também proporcionou uma contribuição fundamental para entender o processo de luta
de classes na esfera da produção. Através deste trabalho teórico, ele elaborou uma teoria da
acumulação capitalista, que possui inúmeros desdobramentos (reprodução ampliada do
capital, concentração e centralização do capital etc.). No entanto, Marx não poderia analisar o
desenvolvimento capitalista depois dele, mas tão-somente, como o fez, expor suas principais
tendências. Partindo dos pressupostos teórico-metodológicos desenvolvidos por Marx e das
contribuições de outros pensadores, é possível ter uma base teórica adequada para se
compreender o desenvolvimento capitalista.
O desenvolvimento da história da humanidade pode ser compreendido pela sucessão
dos modos de produção. Da mesma forma, consideramos que o desenvolvimento capitalista
pode ser compreendido como uma sucessão de regimes de acumulação. Claro que aqui se
torna necessária uma explicação. A mudança de um modo de produção para outro significa a
criação de sociedades radicalmente diferentes e as mudanças no capitalismo expressam
mudanças no interior de um mesmo modo de produção. Assim, a radicalidade das mudanças
na sucessão dos modos de produção não é comparável às mudanças nos regimes de
acumulação. No primeiro caso, temos uma ruptura e radicalidade no processo histórico e, no
segundo, uma mudança no interior de uma permanência, o que significa que, em sentido
amplo, não há ruptura e nem radicalidade no processo de mudança. A sucessão de regimes de
acumulação explicita a manutenção do modo de produção capitalista e de seus elementos
característicos fundamentais, e a substituição de um regime por outro é marcada, no fundo,
pela realização do objetivo de manter as relações de produção capitalistas e pelo
aprofundamento de tendências já existentes no regime anterior, seguindo a dinâmica da
acumulação de capital.
Este processo é um processo de luta de classes, como mostraremos a seguir, e está
contido na teoria do capitalismo de Marx. Porém, é manifestação da realidade concreta, e é
esta que permite a periodização. Ou seja, a teoria é expressão da realidade num universo
conceitual (Viana, 1997). Esta teoria expressa a realidade e, portanto, realiza sua explicação.
Uma teoria mais ampla e anterior, no caso a teoria do capitalismo de Marx, ajuda-nos a
desenvolver uma teoria da história do capitalismo, cujo fundamento é a teoria já constituída e
a realidade concreta tal como se desenvolve no processo histórico. A teoria reconstitui a
realidade no pensamento. Logo, não existe dicotomia entre teoria e realidade. A teoria do
capitalismo de Marx apresenta um esboço de uma teoria do desenvolvimento capitalista e foi
constituída com base no desenvolvimento concreto do capitalismo e, assim, serve de base para
uma teoria posterior e historicamente mais abrangente (devido às mudanças da história do
capitalismo) e, por conseguinte, para sua periodização.
Para entendermos este processo será preciso retomar alguns aspectos da teoria do
capitalismo de Marx, discutir o conceito de regime de acumulação e seu processo de formação
e analisar o desenvolvimento histórico concreto do capitalismo – elemento que será abordado
nos demais capítulos.
A origem do termo “regime de acumulação” é relativamente recente. Nada mais
natural, e podemos compará-la com o conceito de modo de produção para notarmos isto. Os
modos de produção existiram deste a aurora da humanidade, mas somente no modo de
produção capitalista é que esse conceito foi desenvolvido. Da mesma forma, é natural que um
conceito que expressa a lógica do desenvolvimento capitalista só apareça num momento no
qual ele está desenvolvido e apresenta suas formas de desenvolvimento. Marx, ao revelar a
dinâmica da acumulação capitalista fundada na reprodução ampliada do capital, fornece
subsídios para desenvolvimento de uma teoria dos regimes de acumulação, ainda prematuros
devido à época em que isto ocorreu. Ao discutir a acumulação primitiva e o processo de
desenvolvimento capitalista posterior, ele apresentou vários subsídios para analisar os
primeiros regimes de acumulação, o extensivo e o intensivo. No entanto, o conceito de regime
de acumulação não foi desenvolvido por Marx.
As análises do desenvolvimento do capitalismo são as mais diversas, e algumas
buscaram fornecer uma periodização deste processo histórico. É claro que não podemos citar
ou trabalhar todas, e por isso iremos apenas tomar alguns exemplos.
Iniciaremos por uma visão conservadora do desenvolvimento capitalista. W. W.
Rostow realizou uma periodização do capitalismo em cinco etapas: 1) a sociedade tradicional;
2) as pré-condições para o arranco; 3) o arranco; 4) o período de maturidade; 5) a era do
consumo de massa. Ele também prevê um futuro que seria marcado por ser “além do consumo
de massas”.
A sociedade tradicional é assim definida por Rostow:

Primeiramente, temos a sociedade tradicional. Uma sociedade tradicional é aquela cuja estrutura
se expande dentro de funções de produção limitadas, baseadas em uma ciência e tecnologia pré-newtonianas,
assim como em atitudes pré-newtonianas diante do mundo físico. Newton é aqui tomado como um símbolo
daquele divisor de águas da História após o qual os homens passaram a crer, de maneira predominante, que o
mundo exterior estava sujeito a umas quantas leis cognoscíveis e que era suscetível de manipulação produtiva
sistemática (Rostow, 1974, p. 16).

Rostow se refere às sociedades pré-capitalistas, que expressariam a primeira fase de
suas “etapas do desenvolvimento econômico”. Ele mesmo esclarece que engloba no termo
“sociedades tradicionais” tudo o que compõe “todo o mundo pré-newtoniano”, incluindo “as
dinastias da China; a civilização do Oriente Médio e do Mediterrâneo; o mundo da Europa
medieval”. E ainda acrescenta a este bloco as sociedades pós-newtonianas que não
desenvolveram suas capacidades.
A segunda etapa do desenvolvimento abarca as sociedades de transição,
caracterizadas pelo estabelecimento das pré-condições do arranco, tal como o
desenvolvimento da ciência moderna, que com o tempo pode ser utilizada para o
desenvolvimento da produção e da acumulação. Segundo Rostow, as pré-condições para o
arranco “se desenvolveram pela primeira vez, de forma acentuada, na Europa Ocidental do
fim do século XVII e início do XVIII”, e eram derivadas da aplicação das concepções da ciência
moderna no processo de produção, “tanto da agricultura quanto da indústria, num ambiente
dinamizado pela expansão paralela dos mercados mundiais e pela concorrência internacional
por estes” (Rostow, 1974, p. 18). A Inglaterra, devido a sua peculiaridade, desenvolveu
pioneiramente essas pré-condições.
A terceira etapa, a do “arranco”, significa um processo de avanço da industrialização
e acumulação de capital. O principal incentivo, mas não o único, foi o desenvolvimento
tecnológico. A acumulação de capital somada com o “acesso ao poder político” de um “grupo
preparado para a modernização da economia” se uniria ao desenvolvimento tecnológico para
proporcionar o arranco. Na Inglaterra, este processo ocorreria no início do século XIX; na
França e nos Estados Unidos, pouco depois da primeira metade deste século e na Alemanha,
no final dele.
A quarta etapa é o período da maturidade, que ocorre geralmente 60 anos após o
arranco, e se caracteriza pelo fato de a economia demonstrar “capacidade de avançar para
além das indústrias” que impulsionaram o seu desenvolvimento e com capacidade também de
absorver um leque amplo de seus recursos tecnológicos.
A quinta e última etapa analisada por Rostow é a da era do consumo em massa.
Nesta etapa, os setores líderes da produção passam a ser os bens duráveis de consumo e os
serviços. O surto do Estado do Bem-estar Social revela uma sociedade que caminha para esta
etapa. Foi principalmente após a Segunda Guerra Mundial que esta etapa se consolidou nos
Estados Unidos. Na Europa Ocidental e no Japão, isso ocorreu a partir dos anos 50, e nos anos
70 a União Soviética já estava em condições de entrar na fase do consumo de massa. Além
desta fase, Rostow prevê outra, que a substituiria. Como se trata de previsão, não iremos levar
esta manifestação de futurologia em consideração.
Esta periodização de Rostow é bastante problemática. Além da visível pobreza
terminológica, ela possui um caráter descritivo. Periodizar o desenvolvimento histórico a
partir da descrição é algo extremamente problemático, pois fica-se na superfície dos
fenômenos e toma-se o aparente como essencial, sem justificar o procedimento. É claro que se
pode colocar que há um princípio explicativo na periodização de Rostow – o avanço do
processo de acumulação –, mas isto não é trabalhado suficientemente para sair da esfera
descritiva. O próprio Rostow afirma que suas etapas não são meramente descritivas, já que ele
se fundamenta numa “teoria dinâmica da produção”, pois elas possuem “uma lógica e uma
continuidade interiores” e um arcabouço analítico, a referida teoria (Rostow, 1974, p. 26). No
entanto, em lugar nenhum tal teoria é apresentada, a não ser numa divagação nada teórica
sobre setores e desníveis de desenvolvimento e coisas semelhantes, que não passam de
abstrações metafísicas.
A lógica e continuidade interiores a que ele se refere, por sua vez, não passam de
uma percepção descritiva da realidade do desenvolvimento capitalista que tem como
fundamento um evolucionismo unilinear e panglossiano. Nem no capítulo que fornece um
resumo de sua obra, o qual citamos, nem nos posteriores Rostow vai mais longe. Sua
periodização parte do pré-capitalismo (“sociedades tradicionais”), mas não consegue fornecer
um processo analítico e concreto, além do caráter economicista de sua abordagem. Ele pensa
um processo numa visão “desenvolvimentista”, na qual existe um processo de acumulação de
capital, que tende a desembocar numa sociedade de abundância e sem conflitos, sem
contradições, como se o modo de produção capitalista não fosse uma contradição ambulante.
O seu esquema das etapas do desenvolvimento é muito pobre, e sua periodização
não somente é pobre, terminólogica e teoricamente, mas também não dá conta da riqueza dos
processos sociais e das mutações ocorridas no capitalismo. Até mesmo as datas são
questionáveis, mas, devido ao caráter abstrato-metafísico de sua fundamentação, o que é
visível na ausência dos seres humanos histórico-concretos, não há muito o que criticar.
Outra periodização do desenvolvimento capitalista é apresentada por Joseph Lajugie.
Ele possui um projeto mais ambicioso, que é analisar os sistemas econômicos, e por isso parte
do que denomina “economias fechadas” (pré-capitalistas) para chegar à “economia de troca”.
A economia de mercado capitalista passou por quatro fases (até a época em que o autor
escreveu seu livro, cuja edição portuguesa é de 1985): a fase na qual predominavam os
elementos financeiros e comerciais (a partir do século XVI); a fase do capitalismo industrial
(século XVIII); a fase do capitalismo liberal (século XIX) e a fase do capitalismo regulamentar
(a partir do final do século XIX). O esquema de Lajugie é o seguinte: o desenvolvimento do
comércio e das finanças começa a partir do século XII, mas a partir do século XVI se expande
e desemboca na revolução industrial, no século XVIII, época do capitalismo industrial.
Posteriormente, do início ao fim do século XIX, temos o capitalismo liberal, no qual domina o
laissez-faire, o liberalismo econômico. Já no final deste século, posteriormente se consolidando
e incluindo o “Estado Providencial” (do “bem-estar social”), temos o capitalismo regulamentar.
Esta periodização tem elementos bastante convincentes, mas também padece por ser
descritiva e economicista. Sem dúvida, qualquer periodização ocorre com base em
informações sobre a realidade, mas caso não ultrapasse a descrição, poderá ser equivocada,
confundindo mudanças superficiais com mudanças fundamentais. Neste sentido, qualquer
periodização fundada em descrição é problemática e limitada. Além disso, quando se deixam
de lado as relações internacionais, tal como fez Rostow, fica limitado o processo de análise.
O título do livro de Paul Sweezy (1976), autor influenciado pelo marxismo, parecia
indicar que teria uma abordagem histórica do capitalismo e que, por conseguinte,
apresentaria uma periodização do desenvolvimento desse modo de produção. No entanto, a
Teoria do Desenvolvimento Capitalista não apresentou nenhuma periodização, e a análise
histórica foi bastante pobre, manifestando-se mais uma abordagem da estrutura do
capitalismo, fazendo poucas referências ao seu desenvolvimento histórico, o que ocorre no
capítulo dedicado ao imperialismo.
André Gunder Frank (1980) apresentou uma das mais interessantes periodizações do
capitalismo: períodos mercantilista (1500- 1770); capitalista industrial (1770-1870) e
imperialista (1870- 1930). Não iremos aqui reproduzir as considerações teóricas que ele
apresenta e discute, nem as críticas e respostas que ele fornece a elas no âmbito da chamada
“teoria da dependência”. Aqui o que nos interessa é mostrar que ele apresentou uma
periodização, qual é ela e quais seus méritos e deméritos1. Um dos méritos de Frank está em
reconhecer a existência concreta de fases no desenvolvimento da acumulação de capital, pré-
condição para sua periodização:

O processo histórico da acumulação de capital e do desenvolvimento capitalista ocorreu em fases
ou estádios. É evidente que estas fases não têm uma existência independente do próprio processo nem o
processo existe sem as suas fases. De modo semelhante, o processo de acumulação e suas fases de
desenvolvimento foram temporalmente desiguais, em que eles tiveram movimento para cima de expansão e
para baixo de contração, que também são partes integrantes do processo. É aparentemente possível
distinguir, como procuramos fazer, os chamados longos movimentos econômicos ascendentes e descendentes,
mas o processo de acumulação também está marcado por flutuações e ciclos “médios” e curtos. Na verdade,
estes últimos também são partes integrantes dos movimentos mais longos como os acontecimentos diários e
momentâneos são também aspectos integrantes destes e de todo o processo histórico. Isto é, a história ou
qualquer de seus ciclos não têm existência materializada à parte dos acontecimentos múltiplos que os
compõem, e os acontecimentos e a sua ocorrência desigual não têm lugar fora da história (Frank, 1979, p. 44).

Claro que se pode notar certo fetichismo nos usos dos termos de Frank, mas isso não
abole sua visão da necessidade de uma periodização e percepção do desenvolvimento histórico
das fases de desenvolvimento da acumulação de capital. Sua periodização também possui
problemas. Um dos problemas de Frank (1980) é tomar as teses de Mandel como elemento
importante para realizar a periodização que ele propõe. Isso é derivado do foco que ele utiliza
para sua própria periodização – o comércio internacional –, o que, por sua vez, está ligado ao
problema do subdesenvolvimento e da dependência. Frank focaliza as relações internacionais
e, respondendo a seus críticos, discute a questão da “determinação interna”, que ele insere
em sua análise, principalmente discutindo a questão dos modos de produção nos países
dependentes. Porém, a forma como faz isso é fetichista, pois discute relações de produção e
modo de produção sem colocar as relações sociais concretas e as lutas de classes que estão na
base de sua dinâmica2.
A periodização apresenta três períodos: o mercantilista, que vai do século XVI ao
XVIII, que é época da acumulação primitiva de capital; a capitalista-industrial, que vai do final
do século XVIII ao final do século XIX; e a imperialista, que vai do final do século XIX ao início
do século XX. Sem dúvida, a periodização é aceitável e não-problemática, somente a
explicação e os termos utilizados são problemáticos. A periodização de Frank é semelhante à
de Samir Amim, bem como os problemas de análise. Samir Amin, no entanto, faz referências
às lutas de classes, embora somente em seu período de ascensão, mas, tal como Frank,
focaliza sua análise nas relações internacionais e pouca importância confere ao estado
capitalista nesse processo. A sua periodização é a seguinte: 1815-1840, com crise em 1840-
1850; 1850-1870, com crise em 1870-1890; 1890-1914, com crise no período de 1914- 1948;
1948-1967, sendo que a partir de 1967 haveria nova crise. Segundo ele:

Cada fase de expansão caracteriza-se por um modelo particular de acumulação, um tipo de
indústria motriz, um quadro específico que define as modalidades da concorrência e o estatuto da empresa.
Cada uma corresponde a certa etapa da expansão geográfica do sistema capitalista, a uma organização
particular da especialização internacional neste quadro, e, mais precisamente, a uma distribuição das funções
de seu centro e de sua periferia, e, finalmente, a certo equilíbrio (ou desequilíbrio) entre os diferentes
estados-nações centrais. Todos esse conjunto define o tipo de aliança de classes que corresponde ao modelo
de acumulação e, através disso, o quadro da luta de classes e da vida política, bem como o modelo de
produção da burguesia, complemento necessário ao modelo de reprodução do capital (Amin, 1977, p. 6).

A periodização de Amin abarca o período posterior a 1930, não contemplado pela
periodização de Frank, já que seu estudo possuía uma delimitação temporal que não chegava
até este período. Porém, Amin também cai no fetichismo ao pensar que é o “modelo particular
de acumulação”, com suas características, que define a luta de classes. Samir Amin não
compreende que a acumulação é, em si, luta de classes e desconsidera o papel fundamental do
estado neste processo. Em sua análise, tudo fica sendo derivado de um metafísico “modelo de
acumulação”, e a expressão “modelo” não deixa de ser reveladora.
Rabah Benakouche apresenta uma discussão interessante sobre a importância da
periodização e faz uma tentativa neste sentido:

As formas de expansão do modo de produção capitalista nos níveis nacional e mundial mudaram
consideravelmente desde a sua gênese até agora; assim, é importante investigar o que mudou e/ou mudará, e
o que permanece ou permanecerá. A importância desse estudo é mostrar em que e por que os mecanismos
reguladores, ocultos e aparentes, do modo de produção capitalista, em diversos momentos de sua história, não
são mais os mesmos ou, mais exatamente, assumem formas diferentes. A mudança de formas é uma das
características do modo de produção capitalista. De fato, os modos e as formas de acumulação do capital, e,
portanto, os modos de extração da mais-valia e as formas que assumem as relações sociais (inclusive as
relações salariais) mudam em função de evolução do capitalismo. E, se os modos e formas de acumulação de
capital mudam com o tempo, seus elementos de articulação, tais como os modos de extração da mais-valia, as
formas das relações sociais, as formas da estrutura de produção ou a hierarquização do sistema produtivo
nacional, os modos e as formas de organização do processo de trabalho, o nível e o tipo de desenvolvimento
das forças produtivas, as formas do Estado, a estrutura social ou os modos e as formas da luta de classes, os
tipos e as formas de dominação nas relações econômicas internacionais... evoluem ou mudam em função do
grau atingido pelo desenvolvimento do capitalismo (Benakouche, 1980, p. 23-24).

A justificativa da periodização de Benakouche é convincente. Porém, ele cai em um
equívoco que é separar o desenvolvimento capitalista de todo o processo social que ele cita,
para concluir que este “evolui” ou “muda” em função do grau de desenvolvimento do
capitalismo. Assim, cria-se um fetichismo do desenvolvimento capitalista, derivado de certa
influência pouco explícita da escola da regulação. Porém, este fetichismo é contrabalançado
com a percepção das lutas de classes, embora isto não anule o fato de que ela deixa de ser o
motor da transformação, sendo mais efeito de um processo de desenvolvimento visto de forma
metafísica.
A sua periodização ocorre através do que ele denomina “ciclo do capital” e sua
internacionalização. Assim, são as relações econômicas internacionais que forneceriam a base
para a periodização do capital.

Karl Marx mostrou que o ciclo do capital se internacionalizava. De fato, pode-se explicar as
relações econômicas internacionais a partir da internacionalização do ciclo do capital. O processo de
internacionalização do capital teve início com a emergência do modo de produção capitalista, e somente hoje
atingiu o seu pleno desenvolvimento. Ele se fez através de fases sucessivamente ligadas que são: – a da
internacionalização do ciclo do capital-mercadoria (que corresponde ao estágio clássico); – a da
internacionalização do ciclo do capital-dinheiro (que corresponde à primeira fase do imperialismo analisada
por Lênin); – a da internacionalização do capital produtivo (que corresponde à segunda fase do estágio
monopolista) (Benakouche, 1980, p. 28).

A periodização de Benakouche expressa bem a evolução das relações internacionais,
porém, padece do problema de deixar de lado as relações de produção internas a cada bloco
de países, além de tomar o desenvolvimento capitalista como algo autônomo e independente,
visão fetichista e determinista, apesar de em vários momentos o autor ressaltar a luta de
classes e, em outras obras (1981), fazer uma interessante discussão sobre a evolução das
formas de organização do trabalho (taylorismo, fordismo, neofordismo). Sua visão da
internacionalização do capital também não enfatiza o processo de exploração que caracteriza
cada uma de suas etapas e as contradições que decorrem daí. A sua subdivisão de fases e
estágios (a fase monopolista tem duas fases: a da internacionalização do ciclo do capital-
dinheiro e a da internacionalização do ciclo do capital produtivo) também é problemática, pois
assim um processo descritivo e classificatório substitui um processo analítico-explicativo da
dinâmica do desenvolvimento capitalista. Por último, ao tomar o desenvolvimento capitalista
como algo autônomo e independente, Benakouche focaliza o desenvolvimento tendencial
espontâneo do capitalismo e deixa de lado o papel das lutas de classes neste processo,
modificando a dinâmica de tal desenvolvimento.
Encerraremos nossa exposição sobre as várias periodizações do capitalismo e, sem
dúvida, algumas ficaram de fora, bem com as formas descritivas assumidas pela historiografia,
mas o objetivo aqui era apenas colocar em evidência o problema da periodização, algumas das
principais tentativas de realizar este procedimento e seus limites. A base explicativa de todas
elas, no entanto, é frágil.
A partir de agora iniciaremos nossa exposição das bases teóricas de uma análise do
desenvolvimento capitalista e, por conseguinte, de sua periodização. Consideramos que o
conceito de regime de acumulação é fundamental para compreender o processo histórico de
desenvolvimento do capitalismo. Alain Lipietz, um dos principais representantes da chamada
“escola da regulação”, forneceu a seguinte definição de regime de acumulação:

São a lógica e as leis macroeconômicas que descrevem as evoluções conjuntas, por um longo
período, das condições de produção (produtividade do trabalho, grau de mecanização, importância relativa
dos diferentes ramos), bem como das condições do uso social da produção (consumo familiar, investimentos,
despesas governamentais, comércio exterior) (Lipietz, 1991, p. 28).

Para esse autor, o regime de acumulação é parte integrante de um “modelo de
desenvolvimento” que conta também com um modelo de organização do trabalho (paradigma
tecnológico, modelo de industrialização, princípios gerais que governam a organização do
trabalho) e um modo de regulação (combinação dos mecanismos que ajustam os
comportamentos conflituosos dos indivíduos aos princípios coletivos do regime de
acumulação). Assim, o regime de acumulação seria um dos três elementos componentes de um
modelo de desenvolvimento.
Esta definição de regime de acumulação possui elementos semelhantes à nossa
concepção que apresentaremos adiante, mas também possui inúmeras diferenças. Em
primeiro lugar, o que o autor define como regime de acumulação é um fetiche, em que faltam
precisamente os seres humanos históricos e concretos, seus criadores e agentes. A noção de
“modo de regulação” é o complemento que coloca que se trata de relações sociais entre seres
humanos, e não mera abstração metafísica. No entanto, o modo de regulação é também
apresentado de forma problemática, e seu objetivo é adequar os indivíduos ao fetiche do
regime de acumulação3. Assim, a escola da regulação e Lipietz em particular não conseguem
ultrapassar o fetichismo da economia, que ao invés de ser relações sociais entre seres
humanos e, por conseguinte, luta de classes, passa a ser um conjunto de construtos
fantasmagóricos.
Um autor próximo da Escola da Regulação, mas que vai além dela e que também
utiliza o termo regime de acumulação é Rabah Benakouche (1981). No entanto, apesar de
analisar o processo histórico do capitalismo e trabalhar com a ideia de regime de acumulação,
este autor não a define em nenhum lugar. Benakouche apenas coloca que o regime de
acumulação engloba modos de acumulação e formas de exploração. Estes termos, por sua vez,
não são desenvolvidos. Apesar disso, o autor oferece uma contribuição bastante importante
para a periodização do capitalismo, enfatizando as relações internacionais (Benakouche,
1980).
Sendo assim, é partindo destas concepções iniciais que teremos de desenvolver o
conceito de regime de acumulação. Tal como colocamos em trabalho anterior (Viana, 2003),
um regime de acumulação é um determinado estágio do desenvolvimento capitalista, marcado
por determinada forma de organização do trabalho (processo de valorização), determinada
forma estatal e determinada forma de exploração internacional. O processo de valorização sob
uma determinada forma de organização do trabalho expressa uma correlação de forças entre
burguesia e proletariado em certo momento histórico. Manifesta, portanto, um determinado
estágio da luta de classes. Essa luta de classes é marcada pela supremacia burguesa, pois,
caso contrário, as relações de produção capitalistas já teriam sido abolidas. Esta supremacia,
no entanto, não é absoluta, pois existe a resistência cotidiana e espontânea do proletariado.
Porém, ela é uma correlação de forças relativamente estável já que a contestação operária não
a abole, apenas não permite a intensificação da exploração e mantém avanços e recuos dentro
de uma relação relativamente estável e estabelecida. A forma estatal também expressa uma
correlação de forças entre burguesia e proletariado, bem como outras classes sociais, em um
determinado período histórico. Da mesma forma, é uma manifestação relativamente estável da
luta de classes. A exploração internacional, por sua vez, também é expressão da luta de
classes, mediada pelos Estados Nacionais. Ela explicita, em cada estado nacional, uma
determinada correlação de forças entre as classes sociais internas, que influencia as relações
internacionais e marca determinadas características de um país nestas relações. Em todos os
três casos temos luta de classes na sua base. Mas se trata de luta de classes relativamente
estável, com os posicionamentos e correlação de forças estabelecidas durante determinado
período de tempo. Se não houvesse a resistência operária e de outras classes e grupos sociais,
a exploração seria intensificada continuamente.
O regime de acumulação, portanto, é a forma que o capitalismo assume durante o
seu desenvolvimento. O desenvolvimento capitalista, no entanto, possui uma tendência,
determinada em sua própria essência: a produção de mais-valor. O desdobramento da
produção de mais-valor é a acumulação de capital e este, por sua vez, gera a reprodução
ampliada e a centralização e concentração do capital, gerando a expansão mundial do
capitalismo e a exploração internacional, ao lado da ação estatal no sentido de garantir todo
este processo.
Porém, outros desdobramentos ocorrem. Exemplos destes desdobramentos são a
resistência operária na esfera da produção e as diversas contestações na esfera da sociedade
civil, que, no entanto, é controlada e amenizada pelo Estado e outros aparatos da sociedade
capitalista. A luta operária e de outros setores da sociedade, no entanto, tende a explodir e
ameaçar a existência do próprio modo de produção capitalista, o que gera uma crise geral e a
tentativa desesperada da classe dominante de manter o capitalismo, mesmo que recuando e
fazendo concessões. Outro desdobramento é o que podemos chamar tendência geral e
espontânea da acumulação capitalista, pois a produção de mais-valor gera a tendência
declinante da taxa de lucro médio, o que traz a necessidade de aumentar a exploração para
compensar esta queda, além de outras ações e formas de produzir contratendências, tal como
a ação estatal repressiva e ideológica.
As crises do capitalismo ocorrem justamente quando um desses dois
desdobramentos assume certa radicalidade e, na verdade, um reforça o outro, pois as
conquistas do proletariado interferem na extração de mais-valor, reforçando a tendência de
queda da taxa de lucro e esta tendência, realizando-se e provocando a ação reativa da classe
burguesa no sentido de aumentar a exploração para compensar tal queda, reforça o
descontentamento e a luta do proletariado. Assim, um tende a reforçar o outro e proporcionar
uma crise. Esta crise ou gera um processo revolucionário e abolição do capitalismo ou então
proporciona uma mudança no interior do capitalismo, isto é, uma mudança no regime de
acumulação.
Sendo assim, um regime de acumulação expressa determinado estágio do
desenvolvimento capitalista, ou seja, da luta de classes4. Desta forma, o conceito de regime de
acumulação se torna fundamental para se realizar uma periodização do capitalismo e para
entender sua dinâmica histórica. Mas é fundamental acrescentar um elemento. O modo de
produção capitalista não pode reproduzir-se infinita e indefinidamente. Existem limites
humanos e naturais que tornam o capitalismo um período transitório na história da
humanidade. A própria dinâmica do capitalismo, relevada na produção de mais-valor, expressa
sua finitude.
A ideia da história do capitalismo como sendo uma sucessão de regimes de
acumulação parece contradizer essa tese. No entanto, é necessário compreender que, a cada
regime de acumulação, o capitalismo encontra maiores dificuldades para sua reprodução. A
crise de um regime de acumulação abre a possibilidade da transformação social, mas caso isso
não ocorra, e um novo regime de acumulação suceda o anterior, o processo de exploração e a
dificuldade de reprodução do capitalismo se tornam cada vez maiores. A cada regime de
acumulação, o capitalismo se encontra num estágio mais próximo do fim. Sem dúvida, alguns
podem dizer que a evolução histórica contradiz esta afirmação, pois o capitalismo do pós-
Segunda Guerra Mundial conseguiu uma certa estabilidade, só rompida nas últimas décadas.
Porém, esta visão é falsa, pois o capitalismo imperialista conseguiu certa estabilidade, mas
não o capitalismo subordinado, que enfrentou diversas crises. A sucessão de regimes
ditatoriais na América Latina, para citar apenas um exemplo, mostra isto, e foi a transferência
de mais-valor dos países subordinados para os países imperialistas que possibilitou a relativa
estabilidade dos últimos. O aumento da exploração internacional conseguiu manter uma
relativa estabilidade no capitalismo imperialista, mas a partir de 1960 uma nova crise de
regime de acumulação ocorreu e gerou a transição do atual regime de acumulação, que marca
não só uma tentativa de novo aumento de exploração internacional como também nacional,
inclusive nos países imperialistas.
Desta forma, observamos que existe uma dificuldade crescente para a acumulação
capitalista. Essa dificuldade, quando gera uma crise, abre espaço para a revolução proletária
mundial que, caso não ocorra, significa a instauração de um novo regime de acumulação. Este,
no entanto, para manter o capitalismo, precisa intensificar o processo de exploração, o que
significa que o processo de valorização se torna mais repressivo e desgastante, que a forma
estatal se torna cada vez mais repressiva, que as relações internacionais se tornam mais
conflituosas – e isto se reproduz em toda as esferas da vida social. O desenvolvimento
tendencial do capitalismo é abalado pela ascensão das lutas operárias, e cada vez mais este
processo se torna mundializado, e, assim, cada vez mais a superação do capitalismo se
aproxima, e as tentativas de revolução proletária se tornam mais fortes.
Neste sentido, o velho dilema da integração da classe operária no capitalismo
apenas se esquece desse detalhe, não percebendo que isso ocorre em primeiro lugar através
de uma divisão mundial entre “integrados” e “superexplorados”, não percebem que,
atualmente, os integrados estão cada vez mais explorados e, portanto, menos integrados, e os
superexplorados ficam numa situação ainda pior. Caso não haja a transformação social e um
novo regime de acumulação mais explorador do que atual não surja (tal como o fascismo
transformado em um regime de acumulação permanente), a guerra poderá tornar-se a única
saída para a classe capitalista. A destruição em massa das forças produtivas abre caminho
para a retomada da acumulação e a sobrevivência do modo de produção capitalista por mais
um longo tempo.
A partir desta definição de regime de acumulação, podemos apresentar, em grandes
linhas, a sucessão de regimes de acumulação que ocorreram na Europa Ocidental e nos
demais países imperialistas: depois da acumulação primitiva do capital, tivemos o regime de
acumulação extensivo (que durou desde o período da revolução industrial até o final do século
XIX); o regime de acumulação intensivo (vigente do final do século XIX até a Segunda Guerra
Mundial); o regime de acumulação intensivo-extensivo (que vai do Pós-Segunda Guerra
Mundial até o final do século XX); o regime de acumulação integral (que vai do final do século
XX até a atualidade). O regime de acumulação extensivo é o primeiro regime de acumulação
capitalista propriamente dito. Ele se caracterizava pela extração de mais-valor absoluto, pela
vigência do Estado liberal e do neocolonialismo. O regime de acumulação intensivo, que o
substituiu, caracterizava-se pela busca de aumento de extração de mais-valor relativo, através
do taylorismo, pelo Estado Liberal-Democrático e pelo imperialismo financeiro, fundado na
exportação de capital-dinheiro.
O regime de acumulação que o sucedeu foi o intensivo-extensivo, no qual o fordismo
buscava ampliar a extração de mais-valor relativo no bloco imperialista e a extração de mais-
valor absoluto no bloco subordinado, o que foi complementado pelo Estado Integracionista
(welfare state) e pela expansão oligopolista transnacional. O regime de acumulação integral
busca ampliar simultaneamente a extração de mais-valor relativo e absoluto e tem como
complemento necessário para efetivar isso o Estado Neoliberal e o Neoimperialismo5.
A crise dos regimes de acumulação que gera sua mutação em um novo regime deriva
da ascensão das lutas de classes, de sua radicalização e da tendência declinante da taxa de
lucro, isto é, do desenvolvimento tendencial espontâneo do capitalismo (determinada
correlação de forças na luta de classes estabilizada que marca as crises cíclicas do
capitalismo), sendo que uma reforça a outra6. A primeira grande crise capitalista ocorreu no
século XIX, quando o regime de acumulação extensivo começou a dar sinal de cansaço, a
partir de 1840, e entrou em colapso em 1870, época da ascensão das lutas operárias e da
Comuna de Paris, além de outras manifestações das lutas de classes.
A segunda grande crise do capitalismo foi com a derrocada do regime de
acumulação intensivo, que tem seus primeiros sintomas em torno de 1910 (a Revolução Russa
de 1905 e novamente em 1917; as tentativas de revolução em outros países europeus, a
Primeira Guerra Mundial etc.) e gerou as grandes lutas operárias que, uma vez acabadas,
abriram caminho para o nazi-fascismo e a Segunda Guerra Mundial. A terceira grande crise
do capitalismo ocorreu com a derrocada do regime de acumulação intensivo-extensivo, com a
ascensão das lutas operárias e estudantis em todo o mundo (tal como na França, Itália etc.) e
na emergência dos movimentos sociais e contraculturais.
Nos países de capitalismo subordinado, há uma especificidade no seu
desenvolvimento, que realiza uma atualização subordinada ao capitalismo imperialista, de
acordo com a divisão internacional do trabalho. Na época da acumulação primitiva, em muitos
países subordinados reinavam modos de produção não-capitalistas; durante o regime de
acumulação extensivo, a modernização ocorria mais na esfera das formas de regularização
(Estado, cultura), e durante o regime de acumulação intensivo é que as relações de produção
capitalistas avançaram e se tornaram dominantes em um bloco de países, mas não em todos.
Nos países que já haviam entrado pela via do desenvolvimento capitalista, formou-se uma
acumulação subordinada extensiva convivendo com formas não-capitalistas de exploração.
Com a formação do regime de acumulação intensivo-extensivo, os países capitalistas
subordinados passaram a desenvolver uma acumulação extensivo-intensiva conjugada com
resquícios de exploração não-capitalista. Na era atual, há uma maior uniformização da
acumulação capitalista, e o que existe hoje é uma acumulação integral tanto no capitalismo
imperialista quanto no capitalismo subordinado, embora este último viva sob um regime de
acumulação integral intensificada. Esta tendência de uniformização também tende a criar uma
homogeneização nas lutas de classes, abrindo espaço para formas de lutas semelhantes nos
mais diversos países.
Também deveríamos abrir espaço para citar o regime de acumulação estatal7,
instaurado no capitalismo de Estado russo e em seus satélites. A formação do capitalismo de
Estado e a Guerra Fria exerceram um papel de polarização entre dois regimes de acumulação
com suas respectivas formas de extração de mais-valor, forma estatal e exploração
internacional. Porém, o regime de acumulação estatal marcava um engessamento do modo de
produção capitalista através do controle estatal da acumulação, gerando um desenvolvimento
tecnológico mais lento, uma mistura de extração de mais-valor absoluto e relativo, com
primazia do primeiro, e com um processo de integração da classe operária muito mais
deficiente, já que os bens de consumo não eram produzidos com a abundância que existe no
capitalismo privado, o que é compensado com o caráter ditatorial do Estado e o controle
burocrático do conjunto das relações sociais.
Esta periodização do desenvolvimento capitalista através da sucessão de regimes de
acumulação expressa não só as mudanças no processo de valorização, forma estatal e
exploração internacional, mas também mudanças sociais gerais, na cultura etc. provocadas
pela alteração no regime de acumulação. A cada regime de acumulação, determinadas
ideologias se tornam dominantes, tal como o keynesianismo durante o regime de acumulação
intensivo-extensivo e a ideologia da globalização na atualidade. A concepção de Rostow, por
exemplo, é uma manifestação típica de uma ideologia produzida de acordo com as
necessidades do regime de acumulação intensivo-extensivo. A cultura também apresenta
mudanças importantes, na esfera da arte, das concepções políticas etc. Também nas relações
sociais cotidianas se observa uma alteração relacionada com o novo regime de acumulação. A
mudança ideológica mais visível que acompanha a mudança de regime de acumulação é na
esfera da ciência econômica, justamente por suas ligações com este processo, seu “objeto de
estudo”. Uma história da ciência econômica, bem como da ciência em geral, seria beneficiada
pela percepção do processo de sucessão de regimes de acumulação e seus efeitos na esfera da
produção ideológica e científica.
Cada regime de acumulação promove formas de regularização que lhe
correspondem. A mudança de regime de acumulação gera mudança nas formas de
regularização8. Ao lado da preservação de ideologias e elementos pertencentes a formas de
regularização do antigo regime de acumulação, que se tornam esclerosadas, novas formas de
ideologia e manifestações culturais, bem como outras mudanças sociais, acontecem. Isto, no
entanto, não significa uma mudança total e radical. A essência do modo de produção
capitalista permanece em qualquer regime de acumulação, bem como a essência das formas
capitalistas de regularização das relações sociais; o que muda é a forma.
Depois desta discussão sobre regime de acumulação e história do capitalismo,
chegamos a algumas conclusões:

a) É possível, e necessária, uma periodização da história do capitalismo.
b) Tal periodização é fundamental para entender o processo concreto do
desenvolvimento capitalista, suas mutações e contradições.
c) A história do capitalismo pode ser interpretada como uma sucessão de regimes de
acumulação.
d) O conceito de regime de acumulação é a chave interpretativa para analisar o
processo histórico de desenvolvimento do capitalismo.
e) As definições de regime de acumulação apresentadas por alguns autores, bem
como a periodização de outros, é limitada e deve ser repensada.
f ) O regime de acumulação significa uma forma de manifestação relativamente
estabilizada da luta de classes e se expressa em determinada forma de organização do
trabalho, determinada forma de organização estatal e determinada forma de relações
internacionais.
g) O regime de acumulação é constituído a partir do desenvolvimento tendencial do
capitalismo (que seria a manifestação espontânea e contínua da extração de mais-valor sem
irrupções revolucionárias, através da acumulação de capital) e das lutas de classes em
determinados períodos históricos.
h) A sucessão de regimes de acumulação é marcada por uma dificuldade crescente
no processo de reprodução do capitalismo.
i) A mudança no regime de acumulação promove mudanças sociais e culturais
gerais.

Partindo dessas conclusões, temos um amplo programa de pesquisa sobre a história
do capitalismo e sobre o atual regime de acumulação, o integral. Alguns desdobramentos já
foram efetivados, mas são ainda bastante incipientes, principalmente no sentido de analisar a
história do capitalismo. Nosso objetivo, no presente trabalho, é contribuir com este programa
de pesquisa através de uma análise do regime de acumulação integral, questão de suma
importância teórica e prática.
PARTE II – O Regime de Acumulação
Integral
1 – O Significado Histórico do Toyotismo

O toyotismo vem sendo apresentado como um substituto das demais formas de


organização do trabalho, em especial o taylorismo e o fordismo, e, na realidade, vem se
expandindo pelo mundo. Trata-se de uma mudança nas formas de relação entre capital e
trabalho nas unidades de produção, e esta nova relação aparece como um fenômeno novo e
ainda não suficientemente explicado. Por isso, tal tema assume um grande interesse, e
esperamos colaborar para sua compreensão.
A questão do toyotismo se insere numa discussão sobre o processo de trabalho. É no
espaço das relações de trabalho que se implanta a “organização científica do trabalho”
(taylorismo) como forma de controle da força de trabalho. O taylorismo mudou de forma com o
desenvolvimento histórico do modo de produção capitalista. Após diversas formas de
organização do trabalho (que são formas do taylorismo), tal como o fordismo, o fayolismo,
entre outros, surge, contemporaneamente, o chamado “toyotismo”. Este surge num contexto
marcado por uma nova fase do capitalismo mundial. A primeira pergunta que fazemos é: Qual
é o melhor ponto de partida para se estudar este fenômeno histórico? A segunda é a seguinte:
O que significa historicamente esta expansão do chamado “sistema Toyota”?
O ponto de partida mais apropriado para responder a esta questão consiste, em
primeiro lugar, em estabelecer a determinação fundamental da existência das diversas formas
de organização do trabalho, o que nos remete ao estudo das relações de trabalho no modo de
produção capitalista. Após isso é necessário observar a especificidade do toyotismo. O que
diferencia o toyotismo das demais formas de organização capitalista do trabalho? A resposta a
esta questão é fundamental para avaliar o significado histórico do toyotismo e está
intimamente ligada à segunda questão.
A segunda questão só pode ser respondida através da comparação entre as diversas
formas de organização do trabalho e sua relação com o desenvolvimento histórico do
capitalismo. Sendo assim, iniciaremos com uma análise do processo de produção capitalista e
posteriormente esboçaremos uma análise do seu desenvolvimento histórico e das formas de
organização do trabalho que lhe são correspondentes. Por fim, apresentaremos uma discussão
sobre o significado histórico do toyotismo. Tal análise se fundamenta, portanto, numa
problemática delimitada: o significado histórico do toyotismo. Trata-se, então, de retomar a
discussão sobre a organização do trabalho e inseri-la na contemporaneidade da sociedade
capitalista.

A organização do trabalho no capitalismo: Questão de método


Qualquer análise social do trabalho deve levar em consideração a existência de uma
grande diversidade de formas de organização social. Em cada sociedade se observam
fenômenos diferentes e singulares, cuja explicação remete a um método que não se pretenda
“universal” e “invariável”. Posto isto, podemos dizer que os apontamentos sobre o estudo da
organização do trabalho aqui apresentados se referem tão-somente ao processo de trabalho
numa sociedade capitalista9.
Qual é o método mais apropriado para se estudar a organização capitalista do
trabalho? A nosso ver, é o método dialético. Com este método busca-se descobrir as
determinações de um fenômeno, bem como sua inserção na totalidade das relações sociais.
Portanto, o nosso ponto de partida será a busca em descobrir as determinações da
organização do trabalho e como ela se insere na totalidade das relações sociais.
Segundo Marx, é o processo de produção e reprodução da vida material que
determina o conjunto das relações sociais. Este processo de produção é marcado por ser uma
determinada forma de organização do trabalho. Logo, percebemos que a organização do
trabalho é o aspecto determinante das demais relações sociais. Estas, porém, possuem uma
autonomia relativa e, por sua vez, influenciam a organização do trabalho. Nas sociedades
divididas em classes sociais, a organização do trabalho se manifesta como organização
marcada pelo conflito. O conteúdo da organização do trabalho é caracterizado pelas relações
instauradas entre as classes sociais envolvidas em tal organização.
Assim, podemos tomar como ponto de partida para o estudo da organização do
trabalho as relações de classes no processo de produção. No caso concreto da sociedade
capitalista, a organização do trabalho se manifesta como uma relação entre a classe
capitalista e a classe operária. Esta é a determinação fundamental do processo de trabalho.
Porém, resta especificar como ocorre esta relação no processo de trabalho e o que
ele significa. O processo de trabalho numa sociedade capitalista é um processo de valorização.
Essa afirmação será mais bem fundamentada mais adiante. Tomamos aqui tal afirmação como
um “dado” que mais adiante será explicado.
Este processo de valorização se caracteriza por ser conflituoso, ou seja, há uma luta
entre a classe capitalista, por um lado, e o proletariado, por outro. A luta se dá
fundamentalmente em torno do tempo do trabalho. Isto se justifica pelo fato de que, tal como
Marx havia colocado, o valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho
socialmente necessário para sua produção. Daí a classe capitalista querer exercer um controle
minucioso sobre o tempo de trabalho. Isto se revela não só na questão da jornada de trabalho,
mas também na luta para diminuir o “tempo morto” levada a cabo pela classe capitalista e
sistematizada como pensamento através da obra de F. W. Taylor. Se este é o objetivo da classe
capitalista, o do proletariado é, pelo contrário, diminuir o tempo de trabalho. Não se trata, na
maioria dos casos, de uma ação consciente visando diminuir a extração de mais-valor. Trata-se
de uma resistência provocada geralmente pelo caráter alienado do trabalho, pelo desgaste do
processo de trabalho, ou seja, pelo caráter negativo que ele possui para os trabalhadores,
devido ao fato de ser um trabalho alienado10.
Aí se encontra a determinação fundamental da organização do trabalho na sociedade
capitalista. Mas existem outras determinações que formam a totalidade dos aspectos que
explicam as formas de organização do trabalho. Existem duas outras determinações que
assumem grande importância explicativa em relação a este fenômeno. Quais são elas?
Uma se encontra no fato de que a produção de mais-valor ocorre no processo de
produção, mas sua realização ocorre no processo de distribuição. A realização e a repartição
do mais-valor assumem grande importância explicativa do fenômeno da organização do
trabalho, pois aí está presente um segundo nível da luta de classes: a luta em torno da
distribuição do que é produzido. A classe capitalista busca aumentar o seu lucro, e a classe
operária, o seu salário, assim como as demais classes sociais buscam para si uma maior parte
da renda nacional. O problema da repartição de mais-valor se desenvolve em escala nacional e
internacional, proporcionando, também, a influência das relações internacionais sobre o
processo de trabalho.
O aspecto mais importante aqui se encontra na relação entre lucro, salário e
consumo, pois a classe operária busca aumentar o salário real, e isto significa uma diminuição
no lucro do capitalista. Entretanto, o preço da força de trabalho, o salário, não é definido no
processo de produção, e sim de distribuição (bem como no processo institucional através da
intervenção do estado e dos sindicatos, entre outras instituições), ou seja, no mercado. Além
disso, o mais-valor só se realiza com a venda da mercadoria no mercado, o que significa que é
necessário um mercado consumidor. Acontece que o mercado consumidor pode influenciar no
processo de produção ao se expandir ou retrair, e o mesmo ocorre com a questão do salário,
pois seu aumento pode provocar estratégias compensadoras por parte da classe capitalista
visando recuperar as perdas com aumentos de salários reais. Também as relações de
exploração em nível internacional criam necessidades nacionais específicas.
Por fim, existe uma terceira determinação que escapa das esferas da produção e da
distribuição e se localiza nas formas de regularização das relações sociais (“superestrutura”).
É aí que se dá a organização institucional de classes e frações de classes na defesa de seus
interesses e se definem o tamanho da jornada de trabalho, as ideologias sobre a produção e
distribuição, as pressões em torno da questão salarial. Enfim, é onde há ação do estado, ação
sindical, movimentos sociais e políticos, produção de ideologias e da legislação etc.
Portanto, existem várias determinações na organização do trabalho. Mas essa
constatação em si é insuficiente. É necessário saber como essas determinações se articulam.
Em primeiro lugar, podemos dizer que a luta de classes na produção é a determinação
fundamental da organização capitalista do trabalho. Isto ocorre devido ao fato de que é no
próprio processo de trabalho, simultaneamente processo de valorização, que se dá a produção
de mais-valor. Desta forma, o trabalhador, ao resistir em utilizar toda sua capacidade de
trabalho, tende a diminuir a extração de mais-valor. É por isso que surge uma luta nas
unidades de produção, em que o capitalista busca controlar a força de trabalho para que ela
não desperdice tempo e, por conseguinte, faça decair o seu lucro.
Entretanto, a produção de mercadorias só tem sentido com a possibilidade de sua
venda no mercado. O mercado consumidor precisa absorver o conjunto de mercadorias
produzidas. Mas isto nem sempre ocorre, e a solução que a classe capitalista busca para esse
problema está na constante ampliação do mercado consumidor. Isto, contudo, não é feito sem
critérios. O capitalista tem de levar em consideração as preferências, necessidades etc. do
mercado consumidor. A mercadoria, em primeiro lugar, tem de possuir não só um valor de
troca, mas também um valor de uso. Em segundo lugar, deve ser desejada pelos
consumidores. É por isso que a partir de certo estágio de desenvolvimento capitalista se inicia
um conjunto de iniciativas visando criar necessidades fabricadas. Tais iniciativas se encontram
na publicidade, por exemplo. Se a publicidade de um determinado produto surte um efeito de
grandes proporções, isto terá ressonâncias no processo de produção, que irá intensificar a
produção da mercadoria em questão. Portanto, existe uma ação de retorno da distribuição
sobre a produção. O mesmo ocorre na obsolescência planejada das mercadorias e no caso dos
produtos descartáveis. Porém, esta ação do mercado sobre a produção é determinada pela
própria produção, que incentiva através da publicidade, entre outros meios, o consumo e este,
uma vez desencadeado, reforça o processo de produção.
A luta salarial também se reflete no processo de produção, pois o aumento real de
salário diminui o lucro do capitalista e faz com que este busque compensar esta perda com um
aumento de extração de mais-valor. Isto, por sua vez, faz retornar a luta operária visando um
novo aumento salarial. Desta forma, existe uma constante luta em torno do lucro e do salário,
embora haja quase sempre o predomínio dos interesses da classe capitalista. As relações de
exploração entre países capitalistas também influenciam o processo de trabalho, pois nos
países capitalistas imperialistas existe um contexto de extração de mais-valor, mercado de
consumo, específico, bem como articulado com um contexto tecnológico próprio. Nos países
capitalistas subordinados, por sua vez, a situação possui diferenças, e isto se reflete no
processo de trabalho.
A terceira determinação do processo de trabalho é a que se refere aos espaços
jurídicos, institucionais, ideológicos, ou seja, ao mundo das formas de regularização. A
legislação trabalhista interfere sobre o processo de produção, por exemplo, ao delimitar a
jornada de trabalho, bem como a ação sindical, que pode reivindicar a diminuição desta. A
cultura e as ideologias também interferem na ação das classes sociais no processo de
produção, sendo que a hegemonia da classe dominante tende a amortecer os conflitos no
processo de trabalho, e a penetração das ideias socialistas, por exemplo, tende a radicalizá-
los. Além destas determinações existem outras, tais como a especificidade cultural e política
de cada país, as relações internacionais etc., embora sejam menos influentes que as acima
apresentadas.
Ocorre, porém, que estas determinações são rearticuladas em cada período histórico
concreto, e isto significa que não se pode elaborar um modelo abstrato que sirva de
generalização para todos os períodos. Neste sentido, a reflexão sobre o método de estudo da
organização do trabalho na sociedade capitalista deve limitar-se a estes apontamentos.
Partindo deste referencial, iremos a partir de agora analisar o desenvolvimento da
organização da produção capitalista e daí analisar a emergência do toyotismo enquanto
fenômeno histórico contemporâneo e buscar explicá-lo.

A produção capitalista de mercadorias


A produção capitalista é uma produção de mercadorias, ou seja, voltada para a
criação de valores de troca, que são produtos comercializáveis. As mercadorias são valores de
uso portadores de valores de troca, ou seja, elas possuem uma utilidade e é por isso que são
trocadas. No entanto, não são produzidas, na sociedade capitalista, por serem úteis, e sim
porque são portadoras de valor de troca. Assim, as mercadorias são produtos do trabalho
humano que são portadoras de valor de uso e valor de troca11.
No capitalismo, ao contrário dos modos de produção pré-capitalistas, cria-se uma
separação entre quem produz e quem consome o que foi produzido. De um lado está o
produtor e de outro o consumidor. Sem dúvida, o produtor também é um consumidor.
Contudo, ele não consome o que ele mesmo produz, e sim o que outro produtor produziu e que
ele nem sequer conhece, pois compra tal meio de consumo no mercado.
As unidades de produção, no capitalismo, produzem mercadorias para vendê-las no
mercado. A própria força de trabalho do trabalhador se torna uma mercadoria12. O
trabalhador a vende no mercado de trabalho para um capitalista. Desta forma, percebemos
que o modo de produção capitalista é um modo de produção de mercadorias. Ocorre, porém,
que é um modo de produção de mercadorias específico. Sua especificidade se encontra no fato
de que a mercantilização se generaliza e atinge até mesmo a força de trabalho, que se torna
ela mesma uma mercadoria. Isto significa a instauração do trabalho assalariado, sendo que a
mercadoria força de trabalho recebe por seu uso um salário, que é o seu preço.
Para descobrirmos como são as relações de trabalho neste tipo de sociedade,
precisamos inicialmente saber como é determinado o valor de uma mercadoria. Nós todos
sabemos que as mercadorias não se reproduzem sozinhas e que são produtos do trabalho
humano. Sabemos também que uma mercadoria deve ser vendida por um valor superior ao
gasto para produzi-la, pois, caso contrário, ninguém iria produzir mercadorias.
Quais são os gastos existentes na produção de mercadorias? O capitalista possui dois
tipos de gastos: os referentes aos meios de produção (máquinas, ferramentas, matérias-
primas, instalações etc.) e a força de trabalho (o conjunto de trabalhadores empregados). Os
meios de produção, entretanto, não acrescentam valor às mercadorias. Se o capitalista
quisesse vender as matérias-primas tais como as comprou, ou seja, sem elas serem
trabalhadas (ou seja, transformadas, pelo trabalho, em mercadorias), não conseguiria nenhum
lucro, nenhum valor a mais. O mesmo ocorre com as máquinas, instalações etc.
Daí se conclui que estes meios de produção apenas repassam o seu valor às
mercadorias. Entretanto, o capitalista só realiza a produção visando o lucro, ou seja, visando
receber mais do que gastou. Por isso, ele precisa encontrar algo que não só repassa o seu
valor à mercadoria como lhe acrescenta mais valor. Este “algo” só pode ser o trabalho.
Segundo Latouche,

A mercadoria que cria mais valor do que custa efetivamente existe, mas não é fornecida pela
natureza. Ela não existe em si e para si, como as ideias hegelianas. Embora sua necessidade se baseie na
lógica da mercadoria e embora essa mercadoria só exista em condições históricas bem definidas. Essa
mercadoria é a força de trabalho (Latouche, 1977, p. 98).

Os gastos do capitalista com o conjunto de trabalhadores empregados é o salário.
Mas o salário não é equivalente ao valor acrescentado à mercadoria pelo trabalhador. É o
trabalho que acrescenta valor à mercadoria. O valor de uma mercadoria é determinado pelo
tempo de trabalho social médio gasto para produzi-la. Ocorre, porém, que o capitalista extrai
do trabalhador um mais-trabalho, ou seja, o trabalhador trabalha o período suficiente para
repor os gastos do capitalista com o seu salário e ainda trabalha um período que produz um
mais-valor que é apropriado pelo capitalista.
Se um trabalhador é vagaroso e gasta muito tempo na produção de uma mercadoria,
isto não significa que ela custará mais caro, pois o que determina seu valor é o trabalho social
médio. Isto quer dizer que outros trabalhadores, em outras fábricas, estão produzindo a
mesma mercadoria em tempo mais rápido, e é o tempo social médio que determina o valor da
mercadoria, e, portanto, é esta média que irá determinar o valor da mercadoria. Segundo
Marx,

Deixando de lado então o valor de uso dos corpos das mercadorias, resta a elas apenas uma
propriedade, que é a de serem produtos do trabalho. (...) Ao desaparecer o caráter útil dos produtos do
trabalho, desaparecem também, portanto, as diferentes formas concretas desses trabalhos, que deixam de
diferenciar-se um do outro para reduzir-se em sua totalidade a igual trabalho humano, a trabalho humano
abstrato (Marx, 1988a, p. 47).

É por isso que o valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho
socialmente necessário para produzi-la, isto é, quanto tempo, sob condições normais de
trabalho, os trabalhadores demoram em média para produzi-la. Por conseguinte, o valor de
uma mercadoria é determinado pelo trabalho incorporado nela, e este é medido pelo tempo de
trabalho social médio despendido na sua produção.
Este trabalho incorporado (materializado) na mercadoria é tanto o trabalho passado
(que foi utilizado na produção, transporte etc. dos meios de produção) quanto o trabalho
presente (a força de trabalho em atividade, ou seja, a transformação realizada pelos
trabalhadores). Por conseguinte, o que se chama custos de produção é, na verdade, o trabalho
anteriormente incorporado nas mercadorias que servem de meios de produção. E o valor da
mercadoria é a soma deste trabalho anterior com o trabalho acrescentado pela força de
trabalho em sua atividade na sua produção.
O capitalista explora um conjunto de trabalhadores e assim extrai o lucro. Os seus
gastos são de dois tipos: gastos com os meios de produção (investimentos) e gastos com a
força de trabalho (salários). Com a venda da mercadoria ele adquire os recursos necessários
para suprir seus gastos e ainda, devido à exploração do trabalhador, para retirar seu lucro.
O que ele faz com o lucro? O capitalista (hoje, na verdade, a maioria das empresas
capitalistas possui mais de um dono e geralmente se organiza como sociedade por ações)
utiliza uma pequena parte do seu lucro para gastos pessoais (meios de consumo, pagamento
de empregados domésticos, despesas pessoais e familiares diversas etc.) e a maior parte ele
reinveste na produção, comprando uma quantidade maior de meios de produção e
contratando mais trabalhadores assalariados. O capitalista é constrangido a investir cada vez
mais na produção e também a aumentar o seu lucro (que é equivalente à taxa de exploração
dos trabalhadores) cada vez mais para manter um investimento crescente na produção.
Aqui cabe a pergunta: qual é a necessidade de investimentos crescentes na
produção? O que faz com que o capitalista seja impelido a aumentar cada vez mais o processo
de reprodução ampliada de capital? A resposta se encontra na competição existente entre os
capitais individuais, ou seja, entre as empresas capitalistas particulares.
Esta competição é provocada pela disputa, entre as empresas capitalistas, pelo
mercado consumidor. A realização do mais-valor ocorre com a venda da mercadoria no
mercado. A produção de mais-valor é realizada no processo de trabalho, mas ela só se
concretiza quando a mercadoria é vendida, pois é neste momento que o capitalista recebe o
dinheiro com o qual irá pagar os salários e os meios de produção e que lhe proporcionará um
valor a mais, o lucro. Para uma empresa capitalista sobreviver ela necessita vender suas
mercadorias. Outras empresas, porém, produzem a mesma mercadoria e também precisam
vendê-la. Assim, cria-se uma disputa pelo mercado consumidor.
Essa disputa constrange as empresas capitalistas a reinvestirem na produção, o que
provoca a ampliação da produção, o desenvolvimento tecnológico, o aumento da taxa de
exploração etc. Este processo de acumulação capitalista produz a concentração e
centralização do capital. As empresas que fracassam na concorrência se extinguem e deixam o
mercado consumidor nas mãos de poucas empresas. Surge, nesta fase histórica, o capitalismo
monopolista (o nome mais correto é oligopolista – quando poucas empresas dominam o
mercado –, embora a palavra monopolista seja mais utilizada).
Portanto, a partir destes elementos, podemos desenvolver uma análise mais ampla
do desenvolvimento das formas de organização do trabalho, em especial do toyotismo. Para
tanto, só nos resta aprofundar a questão da relação entre processo de trabalho / processo de
valorização que realizaremos na próxima seção.

Processo de trabalho e processo de valorização


Como Marx analisava o processo de trabalho e o processo de valorização? Para
Marx, o processo de trabalho é um processo de mediação entre o ser humano e a natureza. É
através do trabalho que o ser humano media e regula sua relação com a natureza. Isto ocorre
em todas as épocas e em todos os lugares. O processo de trabalho é, assim, um conceito
universal. Entretanto, ele não se manifesta da mesma forma em todas as épocas e em todos os
lugares. Em cada modo de produção específico existe uma forma específica de manifestação
do processo de trabalho.
O processo de valorização é a forma específica sob a qual o processo de trabalho se
manifesta no modo de produção capitalista. Isto quer dizer que o processo de trabalho, na
sociedade capitalista, é processo de valorização. Segundo Marx:

Como unidade do processo de trabalho e processo de formação do valor, o processo de produção é
processo de produção de mercadorias; como unidade do processo de trabalho e processo de valorização, é ele
processo de produção capitalista, forma capitalista da produção de mercadorias (Marx, 1988a, p. 155).

Se processo de trabalho e processo de valorização são a mesma coisa, então o foco
essencial da análise deve recair sobre este ponto. Pode-se argumentar, sem dúvida, que o
processo de valorização só começa após o processo de trabalho ter reposto o valor da força de
trabalho e o valor dos meios de produção.
Para realizar esta análise do processo de trabalho, ele teria de ser decomposto em:
a) tempo de trabalho gasto na reposição do valor da força de trabalho; b) tempo de trabalho
gasto na reposição do valor dos meios de produção; e c) tempo de trabalho que produz mais-
valor. Esta decomposição poderia basear-se num período de trabalho de um mês ou um dia.
Tomando um dia como o período que serve para medir o tempo de trabalho decomposto,
poderíamos, hipoteticamente, afirmar que o trabalhador gasta, numa jornada de trabalho de
oito horas, cerca de duas horas para repor o valor de sua força de trabalho, cerca de duas
horas para repor o valor dos meios de produção e cerca de quatro horas acrescentando valor
às mercadorias.
Porém, esta análise se revela equivocada, pois processo de trabalho e processo de
valorização são uma única e mesma coisa. Apenas na imaginação se poderiam decompor os
tempos de trabalho, e isto pode ser feito para se calcular os gastos, o lucro, a taxa de mais-
valor etc., mas, na realidade, todo tempo de trabalho significa produção de mais-valor. O
trabalhador, ao produzir uma mercadoria, está, simultaneamente, produzindo mais-valor e
repassando valor. Desta forma, produção de mais-valor e reposição do valor ocorrem
simultaneamente. Tal como colocou Marx, o trabalhador não trabalha duas vezes: uma para
agregar valor, outra para conservar o valor anterior. Segundo ele,

Antes, pelo contrário, pelo mero acréscimo de novo valor conserva o valor antigo [e acrescenta] no
mesmo instante, o trabalho, em uma condição, tem que gerar valor e em outra condição deve conservar ou
transferir valor (Marx, 1988a, p. 157).

O valor da força de trabalho é correspondente a um padrão historicamente definido
de necessidades do trabalhador, e isto quer dizer que ele não é definido no próprio processo
de produção, e sim no processo de repartição do mais-valor, em que o capitalista deve levar
em consideração o valor dos meios necessários para a reprodução da força de trabalho, sendo
que o que é considerado “necessário” varia de acordo com a época e o lugar e também com a
pressão da classe trabalhadora.
O valor dos meios de produção é expresso no quantum em dinheiro que o capitalista
cede para adquiri-los antes de usá-los no processo de produção. Isto quer dizer que, antes
deste, já se sabe qual é o seu valor. Ocorre, porém, que o capitalista só recupera este valor
investido, assim como passa a ter acesso ao valor que será despendido com a força de
trabalho, com a venda da mercadoria no mercado. Juntamente com esta recuperação, ocorre a
apropriação do mais-valor produzido.
Ao produzir a mercadoria, ou seja, mais-valor, a força de trabalho repõe,
simultaneamente, o valor dos meios de produção e produz o seu próprio valor. Neste sentido,
não há como decompor o tempo de trabalho no processo de produção, e por isso o capitalista
deve exercer um controle sobre o tempo total de produção, e não apenas ao tempo reservado
à produção de mais-valor.
Ao reconhecer que o processo de trabalho é simultaneamente processo de
valorização, então se torna impossível separar a análise do processo de trabalho da análise do
processo de valorização e, por conseguinte, da luta de classes na produção. A luta de classes
na produção gira em torno do mais-valor, em que a classe capitalista busca aumentar a
extração do mais-valor, e a classe operária busca reduzir esta extração13.
A classe capitalista busca extrair cada vez mais lucro dos trabalhadores. Na época
da revolução industrial, a jornada de trabalho chegava até 16 horas diárias. A luta dos
trabalhadores diminuiu esta jornada para 10 e posteriormente para 8 horas diárias. Se ocorre
uma diminuição da jornada de trabalho, então cai a taxa de lucro (exploração). A produção de
mais-valor absoluto cai, e a classe capitalista busca reagir através do aumento da extração de
mais-valor relativo. O mais-valor absoluto é determinado, fundamentalmente, pela jornada de
trabalho, ou seja, pelo tempo de trabalho. O mais-valor relativo é determinado pelo índice de
produtividade, isto é, pelo aumento de produção num mesmo espaço de tempo.
Mas como há o aumento de extração de mais-valor relativo? Tomemos um exemplo.
Digamos que numa jornada de 10 horas diárias se produzam 10 unidades de determinada
mercadoria e que devido à luta operária a jornada seja reduzida para 8 horas. Podemos dizer
que, neste caso, a jornada de 8 horas leva à produção de 8 unidades e que isto significa,
portanto, uma queda da taxa de exploração. Mas, se os operários nas mesmas 8 horas
passarem a produzir 12 unidades, isto significa (desde que o salário não aumente ou aumente
numa proporção inferior ao da produtividade) que houve um crescimento da taxa de
exploração através da extração de mais-valor relativo.
Como os operários podem produzir mais num mesmo período de tempo? A classe
capitalista encontrou duas formas principais para conseguir isso: uma é através da
organização do processo de trabalho: através da disciplina, do controle rígido, do cronômetro
e de especialistas em vigiar, planejar e dirigir o trabalho dos operários, busca-se acabar com o
desperdício de tempo e aumentar o rendimento do trabalho. Outra forma é através do
desenvolvimento tecnológico – a utilização de máquinas cada vez mais modernas e eficientes
faz com que haja um aumento de produtividade.
Mas isso significa apenas aumento da massa de lucro, e não da taxa de lucro, se for
provocado apenas por desenvolvimento tecnológico. Segundo Barrot,

O aumento de produtividade faz aumentar a massa do lucro, mas provoca uma baixa da sua taxa.
Esta é determinada pela relação do lucro com o capital total (constante e variável); o crescimento da
proporção de capital constante diminui na mesma quantidade a parte do único capital que fornece a mais-
valia e é, portanto, fonte de lucro: o capital investido em força de trabalho (Barrot, 1977, p. 62).

Esta análise do aumento de produtividade de Barrot é correta desde que se acredite
que somente através de desenvolvimento tecnológico é que se pode aumentar a produtividade.
Ocorre, porém, que através da organização do trabalho, por exemplo, pode-se conseguir
aumento de produtividade, e isto não pressupõe alteração nos gastos relativos ao capital
constante (meios de produção) e ao capital variável (força de trabalho). Contudo, o aumento
de produtividade não pode ser conseguido indefinidamente através de mudanças na
organização do trabalho, pois existem limites que impedem uma utilização intensiva da força
de trabalho (além da luta de classes). Desta forma, devemos abordar as formas de extração de
mais-valor relativo para esclarecer esta questão de fundamental importância para nosso
estudo.
Além da utilização de maquinaria cada vez mais moderna, o aumento de
produtividade pode ser conseguido através da organização do processo de trabalho, que
utiliza diversos recursos, tais como: a) a busca em aumentar o ritmo da produção através de
diversos artifícios, como a cronometragem, a gerência e vigilância constante etc.; b)
supervisão e disciplina rigorosas em relação ao afastamento das atividades de produção, tais
como multas por atraso ou ausências (inclusive as idas ao lavatório) durante as horas de
trabalho, redução dos horários de refeições, ou então relacionadas ao descuido no trabalho tal
como o exemplo das multas por destruição de máquinas e ferramentas etc.; c) “métodos de
adulação” (Eaton), como a proposta de participação nos lucros, oferecimento de pensões e de
ascensão na empresa, instituição de prêmios, como, por exemplo, o de “operário-padrão” etc.
Além desses recursos, existe mais uma forma de se tentar aumentar a produtividade:
trata-se da forma de pagamento dos salários. Segundo John Eaton,

As formas de pagamento de salários constituem uma batalha entre o empregador e os sindicatos.
Salário-tarefa, ou seja, salário pago de acordo com a produção, proporciona ao capitalista um meio de obrigar
o trabalhador a fazer mais durante o dia de trabalho, já que disso depende quanto o trabalhador leva para
casa. À primeira vista, pode parecer que o pagamento de salários-tarefa contradiz o que dissemos
anteriormente sobre os salários e o valor da força de trabalho, como correspondendo aproximadamente ao
valor dos meios de subsistência do trabalhador. O pagamento “por peça”, ou seja, de acordo com a produção,
sugere que quando esta se eleva, os salários se elevarão de forma correspondente. Isso só ocorre a prazo
muito curto. A experiência de muitas décadas mostrou aos trabalhadores que os salários-tarefa são, no final,
fixados em preços baseados em salário-tempo, e na soma de artigos que o trabalhador deve comprar para
viver. Se a produção aumenta acentuadamente, então o preço pago unitariamente é logo reduzido. O salário-
tarefa de todo um dia de trabalho pode, é certo, ser um pouco mais do que o salário-tempo do dia, mas a isso
se contrapõe o fato de que a maior intensidade de trabalho aumenta as necessidades do trabalhador. Para o
capitalista, porém, é compensador pagar pelo trabalho executado, já que essa produção extra aumenta o
volume de mais-valia numa proporção que excede consideravelmente qualquer extra pago em salários (Eaton,
1965, p. 101).

Portanto, o que se depreende disso tudo é que existem várias formas de se aumentar
a extração de mais-valor relativo. Estas formas são derivadas da utilização de tecnologia mais
avançada ou da organização do trabalho. Dentre as formas derivadas da organização do
trabalho, tal como já colocamos, podemos citar a racionalização, o controle e vigilância do
processo de trabalho, a relação salarial, os métodos de cooptação etc. Sem dúvida, estas
formas podem estar, e muitas vezes estão, mescladas em sua aplicação prática. Às vezes são
aplicadas isoladamente. Isto depende do caso concreto em que há o processo de trabalho. Esta
disputa em torno do tempo de trabalho, tal como já foi dito, é uma disputa em torno do mais-
valor. Nesta disputa, a classe capitalista busca aumentar a extração de mais-valor, e a classe
operária visa diminuir essa extração. As formas de organização do trabalho são determinadas
principalmente por esta disputa. É disto que trataremos a seguir.

Desenvolvimento capitalista e formas de organização do trabalho


Num plano histórico-concreto, o confronto de classes no processo de produção é
mediado por um conjunto de relações tanto dentro quanto fora do processo diretamente
produtivo. Em primeiro lugar, existe a luta em torno do mais-valor. Esta é a determinação
fundamental do confronto entre a classe capitalista e a classe operária no processo de
produção. As demais determinações são derivadas desta.
É claro que esta luta ultrapassa o espaço do processo de produção e se expande para
as demais relações sociais. A luta pela redução da jornada de trabalho não se deu apenas no
interior da fábrica, pois sua regulamentação ocorre no plano jurídico-institucional, que ocorre
na esfera das formas de regularização. A classe operária lutou pela redução da jornada de
trabalho e conquistou sua redução e regulamentação para 10 horas diárias e posteriormente
para 8 horas. Ora, isso significou uma perda para a classe capitalista, que viu sua taxa de
mais-valor ser reduzida. É nesse contexto e buscando responder as necessidades do capital
que surge a organização científica do trabalho, objetivando combater a redução da taxa de
mais-valor.
A diminuição da jornada de trabalho significa uma queda na extração de mais-valor
absoluto. A isto se respondeu com a busca de aumento da extração do mais-valor relativo. A
obra de Friedrich Taylor representa a tentativa de realizar um aumento de produtividade, ou
seja, de extração de mais-valor, através da organização do trabalho. A chamada “organização
científica do trabalho”, ou simplesmente taylorismo, é o primeiro passo para se conseguir
combater a tendência de queda da taxa de lucro médio. Tal tentativa de combater a tendência
declinante da taxa de lucro acontecia espontaneamente, e foi com a obra de Taylor que surgiu
uma concepção consciente e racionalizada de como fazer isto.
Para conseguir isso, Taylor se preocupou com o tempo de trabalho e seu
aproveitamento máximo. Surge assim a racionalização do processo de trabalho, e sua
vigilância se torna mais profunda. O método elaborado por Taylor apresentava um controle do
tempo de trabalho, que passa a ser cronometrado. Sem dúvida, o objetivo de Taylor é
aumentar a produtividade do trabalho (o que é equivalente, na maioria dos casos, ao aumento
de extração de mais-valor relativo) através de diversos artifícios, entre os quais o controle
rígido do processo de trabalho, o uso do cronômetro, os prêmios por produtividade individual,
o parcelamento das tarefas, a formação de especialistas em gerência, a divisão entre trabalho
de elaboração e de execução etc. (Taylor, 1987).
Sem dúvida, houve a resistência operária, tal como o próprio Taylor reconheceu ao
citá-la e dizer que foi até mesmo ameaçado de morte. O taylorismo, entretanto, surgiu num
período histórico em que o desenvolvimento tecnológico ainda não tinha assumido as
proporções verificadas em anos posteriores. Tratava-se de uma tentativa de aumento de
extração de mais-valor relativo apelando-se para a racionalização do processo de trabalho,
caracterizada pelo reforço da disciplina, das técnicas de trabalho, pelos incentivos materiais
etc. O desenvolvimento tecnológico ainda era lento, a diminuição da jornada de trabalho levou
à diminuição da extração de mais-valor absoluto e o taylorismo foi a resposta do capital ao
proletariado. A luta se deslocou para a extração de mais-valor relativo. A “indolência” que
Taylor via nos trabalhadores significava a resistência operária, e a obra de Taylor significava a
resposta do capital.
Assim, o taylorismo pode ser considerado como o primeiro momento da estratégia do
capital voltado para a organização do trabalho na disputa em torno do mais-valor relativo e
fornecedor da base de todas as outras formas de organização do trabalho posteriores, tal
como o fordismo, o fayolismo etc., o que significa que não há nenhuma mudança fundamental
entre o taylorismo e as formas de organização do trabalho posteriores. As alterações
implantadas pelo fordismo, por exemplo, referem-se a questões superficiais e são provocadas
pelo desenvolvimento histórico do capitalismo. O contexto histórico de surgimento do
fordismo remete ao aceleramento de desenvolvimento tecnológico em relação ao período
anterior.
O fordismo é uma aplicação do taylorismo à produção de massa, ou, em outras
palavras,

O fordismo caracteriza o que poderíamos chamar de socialização da proposta de Taylor, pois,
enquanto este procurava administrar a forma de execução de cada trabalho individual, o fordismo realiza isto
de forma coletiva, ou seja, a administração pelo capital da forma de execução das tarefas individuais se dá de
uma forma coletiva, pela via da esteira (Neto, 1989, p. 36)14.

Sendo assim, o taylorismo pode ser considerado a estratégia do capital na luta em
torno do mais-valor relativo e a base de todas as outras formas de organização do trabalho
que o “sucederam”.

Toyotismo e acumulação integral


E o toyotismo? Ele não marca um momento de ruptura total com o “paradigma”
taylorista? Na verdade, existem teorias que afirmam a continuidade entre ambos os sistemas
de organização do trabalho e outras que falam numa mudança radical entre um e outro. A
nosso ver, o toyotismo segue a mesma lógica do taylorismo e se diferencia dele em aspectos
secundários.
Para comprovarmos ou não esta hipótese teremos de aprofundar a definição de
taylorismo fornecida e compará-lo com o toyotismo. O taylorismo, tal como o concebemos,
caracteriza-se por um processo de controle da força de trabalho realizado segundo uma forma
“racionalizada”, ou seja, calculada, medida, normatizada, objetivando o aumento da
produtividade, isto é, de extração de mais- -valor relativo, e isto pressupõe a “gerência
científica”, o que significa não só a aplicação do conhecimento técnico-científico ao processo
de produção, conhecimento este extraído em parte do próprio saber operário, como também a
existência dos gerentes, ou seja, um conjunto de especialistas encarregados em planejar a
execução das tarefas. Em outras palavras, o taylorismo pressupõe uma camada de burocratas:
a burocracia empresarial. O fordismo e as demais formas de organização do trabalho também
possuem a mesma razão de ser e por isso não são nada mais do que extensões e adaptações
do sistema Taylor às necessidades históricas de determinado estágio de desenvolvimento do
modo de produção capitalista.
O toyotismo se diferencia do fordismo, segundo alguns pesquisadores, devido à
“flexibilização” que se encontra em oposição à rigidez daquele. Isto não contradiz, na verdade,
as características fundamentais do taylorismo, que estão presentes no fordismo. A grande
mudança apresentada pelo toyotismo seria a produção submetida a este tipo de organização
do trabalho estar voltada para a demanda do mercado, e não para a produção em massa, tal
como no fordismo. Na verdade, o que ocorre é que a produção estandardizada do fordismo se
vê substituída por uma produção personalizada, ou seja, a produção em massa ou em série de
um mesmo produto é substituída por uma produção variada (Coriat, 1992). Isso não impede a
produção em massa, pois apenas personaliza os produtos por cotas, ou seja, a produção em
massa deixa de ser de apenas de um produto para ser de vários produtos.
Resta tratar da “rigidez” do taylorismo e do fordismo e da “flexibilização” do
toyotismo. Segundo Ricardo Antunes:

Outro ponto essencial do toyotismo é que, para a efetiva flexibilização do aparato produtivo, é
também imprescindível a flexibilização dos trabalhadores. Direitos flexíveis, de modo a dispor desta força de
trabalho em função direta das necessidades do mercado consumidor. O toyotismo estrutura-se a partir de um
número mínimo de trabalhadores, ampliando-os, através de horas extras, trabalhadores temporários ou
subcontratados, dependendo das condições de mercado. O ponto de partida básico é um número reduzido de
trabalhadores e a realização de horas extras. Isto explica por que um operário da Toyota trabalha
aproximadamente 2.300 horas, em média, por ano, enquanto na Bélgica (Ford-Genk, General Motors-Anvers,
Volkswagen-Forest, Renault-Vilvorde e Volvo-Gand), trabalha entre 1.550 e 1.650 horas por ano (Antunes,
1994, p. 28).

Aqui cabe abrir um parêntese para apresentar uma crítica da expressão
“flexibilização”. Tal expressão pode tanto significar “aptidão para variadas coisas ou
aplicação” ou então “submissão e docilidade”, tal como se vê nos dicionários. Ao se falar de
“acumulação flexível”, “especialização flexível”, “flexibilização dos trabalhadores” e “aparato
produtivo”, vê-se que a palavra é utilizada em sentidos diferentes e inexatos. O duplo
significado da palavra revela sua ambiguidade e também a ambiguidade que reside em falar
de “especialização flexível”, “acumulação flexível” e “flexibilização dos trabalhadores”. A
flexibilização se refere, na maioria dos casos, a aptidão múltipla. A nosso ver é preciso
apresentar uma linguagem mais próxima do fenômeno que ela representa. Na verdade, não
existe “flexibilização” do aparato produtivo e muito menos dos trabalhadores, o que existe é
uma “inflexibilidade”, pois tanto o aparato produtivo quanto os trabalhadores são submetidos
“inexoravelmente” e “implacavelmente” ao objetivo de aumentar a extração de mais-valor
relativo.
A expressão mais adequada a qualquer relação ou fenômeno social deve ser
compatível com o “ser” que expressa. No caso da acumulação, o que se busca é concretizar
uma acumulação integral, simultaneamente intensiva e extensiva através da extensão do
processo de mercantilização das relações sociais e da busca de ampliação do mercado
consumidor, mesmo que esta busca se caracterize, em parte, pela produção personalizada, e
também pelo aumento da intensificação da exploração da força de trabalho através do
aumento de extração de mais-valor relativo e absoluto. No caso da especialização ou do que
alguns chamam de pluriespecialização (Coriat), trata-se de uma especialização ampliada, em
que ao invés de o trabalhador se dedicar a apenas uma atividade passa a se dedicar a várias,
embora se mantenha afastado do controle do processo de trabalho – o que significa
especialização no processo de execução – e continue não executando certas funções práticas
que ficam a cargo de outros trabalhadores. No caso dos trabalhadores, o que ocorre é uma
intensificação da exploração com a retirada de seus direitos já conquistados e da formação de
um mercado de trabalho inflexível, em que os trabalhadores se submetem à subcontratação,
ao desemprego etc. No caso da subcontratação (bem como no caso das horas extras), o que se
vê é um aumento disfarçado da jornada de trabalho, o que significa aumento de extração de
mais-valor absoluto. Aliás, mais-valor relativo e mais-valor absoluto andam juntos no período
de acumulação integral, embora isto seja constante no capitalismo15, mas agora assume
proporções intensas, tal como não ocorria há muito tempo na história do capitalismo.
A fábrica flexível também é assim chamada por causa das “novas tecnologias” que
criam “ferramentas flexíveis”. Segundo Coriat,

Num primeiro sentido, o mais rigoroso, mas aquele cuja aplicação no meio industrial em larga
escala é a mais rara, a flexibilidade de um bem de capital diz respeito à sua capacidade de captar informações
em tempo real sobre processos de produção em curso e, com base nisso, modificar por si mesmo seu
programa de operações, a fim de levar em conta eventos não previstos que se manifestem tornando suas
formas de operação coerentes com a nova situação com a qual é confrontado. Neste sentido, “flexibilidade” e
“capacidade de retroação” são quase sinônimos (Coriat, 1988, p. 100).

Essas ferramentas, ao invés de serem chamadas de “flexíveis”, deveriam ser
chamadas de autorreguláveis, pois elas mesmas podem mudar seus regulamentos, isto é, seu
programa de operações. Na verdade, a distinção entre automação “rígida” e automação
“flexível” (Dina, 1987) expressa a mesma questão, pois se trata de uma automação
autorregulável em contraposição a uma automação heterorregulável. Novamente observamos
que o termo “flexível” é questionável. Na verdade, a expressão vem para encobrir o
verdadeiro caráter do processo de superexploração ao qual a classe operária é submetida em
tempos “flexíveis”. Este caráter autorregulável retira a capacidade de regulação por parte do
trabalhador, e a definição do programa de operações é realizada pela burocracia, de acordo
com os objetivos do capital, isto é, voltados para o aumento da exploração e controle.
Do ponto de vista do capitalista, trata-se de uma fábrica flexível em relação ao
mercado consumidor, de trabalhadores flexíveis (“moldáveis”) pelos seus interesses etc. Do
ponto de vista do operário, trata-se de uma exploração integral. Na verdade, esta confusão na
linguagem revela, em alguns casos, a falta de uma teoria da atual fase do capitalismo mundial
e das formas de organização do trabalho assumidas contemporaneamente e, em outros, uma
posição ideológica que busca amenizar as palavras utilizadas para não permitir uma imediata
consciência do seu significado real. Além disso, a expressão flexível passa a ser utilizada para
fenômenos tão diferentes que não se sabe mais qual é o significado da palavra: acumulação
(integral), ferramenta (autorregulável), trabalho (superexplorado), especialização (ampliada),
direitos (restringidos), automação (autorregulável) passam a ser fenômenos em que a
expressão “flexível” passa a ser aplicável.
Podemos dizer que a diferença entre o toyotismo e o taylorismo e seus derivados não
é tão grande assim, pois a chamada “flexibilização” da empresa através da sua “pretensa”
subordinação à demanda do mercado se revela uma mudança no quanto se produzir, e não no
que e como se produzir. Pensar o contrário só seria possível imaginando que o consumidor iria
idealizar um produto ainda inexistente e depois iria solicitá-lo à empresa. Isto também não
quer dizer que o mercado passou a direcionar a produção da fábrica, pois foi a fábrica que
elegeu esta forma de organização na produção de bens visando muito mais o aumento de
produtividade do que qualquer outra coisa, ou seja, a pretensa subordinação da fábrica ao
mercado revela apenas que a primeira busca aumentar o ritmo da produção, pois o método
utilizado para “subordinar” a fábrica ao mercado garante o aumento da eficácia do controle
sobre a força de trabalho e da cadeia produtiva16, o que significa o aumento da produtividade
(de extração de mais-valor relativo). A própria produção personalizada é uma forma de
conquistar e ampliar o mercado consumidor e é incentivada pelos mecanismos de divulgação
das empresas, principalmente através da publicidade, pois para se manter a reprodução
ampliada do capital é preciso garantir a reprodução ampliada do mercado consumidor, e isto
implica produzir necessidades fabricadas, já que estas realizam esta ampliação.
Nos casos em que se vê um crescimento de extração de mais-valor absoluto, com o
aumento da jornada de trabalho, observa-se que a “flexibilidade” se caracteriza por uma
ofensiva do capital na tentativa de combater a tendência à queda da taxa de lucro médio, e tal
“flexibilidade”, interferindo até na legislação trabalhista, tem como objetivo remover
obstáculos jurídico-legais e deixar um espaço aberto e mais “flexível” para a ação do capital.
Outro motivo para a adoção do toyotismo se encontra na limitação do mercado consumidor, o
que provoca a necessidade de tornar as mercadorias produzidas mais atraentes para o
consumidor e de acordo com a capacidade do mercado consumidor existente.
Em síntese, o toyotismo apresenta os mesmos objetivos do taylorismo e do fordismo,
o aumento de extração de mais-valor relativo. Isto é colocado em prática do mesmo modo que
no modo tradicional, através da racionalização e da gerência científica. Vê-se isto no combate
ao desperdício, na intensificação do controle da direção sobre a força de trabalho etc. Enfim, o
toyotismo não traz nenhuma grande alteração nas formas de organização do trabalho. Em
outras palavras, existe uma mudança na forma de se aplicar o taylorismo, mas não no seu
conteúdo. O significado histórico do toyotismo se encontra no fato de ele ser uma adaptação
ao novo estágio de desenvolvimento do capitalismo mundial, fundamentado sob a lógica da
acumulação integral. Ele nasce no Japão e se expande para os outros países imperialistas,
devido à queda da taxa de lucro médio e à competição oligopolista internacional.
Posteriormente, ele busca generalizar- se e atingir os países capitalistas subordinados, devido
ao processo de constante reconversão capitalista (atualização subordinada das mudanças do
capitalismo que se irradia dos países imperialistas para os países capitalistas subordinados),
porém, não se pode deixar de alertar que nos países capitalistas subordinados, tal como o
Brasil, a implantação do toyotismo ocorre de forma muito mais vagarosa e contraditória, tanto
devido ao atraso tecnológico em relação aos países imperialistas quanto pela resistência
patronal (a utilização de tecnologia mais avançada aumenta os custos de produção) e operária,
sendo que esta última existe com mais força no capitalismo subordinado graças à já
superexploração da força de trabalho nestes países.
Portanto, observamos que há uma relação entre luta de classes na produção, na
distribuição e nas formas de regularização das relações sociais. Também notamos que a
ideologia da “flexibilidade” corresponde aos interesses da classe dominante e que esta
ideologia faz parte do processo de luta de classes. O toyotismo, portanto, pode ser
compreendido como um processo produzido pelo atual estágio de desenvolvimento capitalista,
marcado pela acumulação integral.
O toyotismo significa, portanto, uma adaptação do taylorismo à nova fase do
capitalismo. O capitalismo no período de acumulação integral expressa uma ofensiva
capitalista no sentido de combater a queda da taxa de lucro médio através do aumento da
exploração da classe operária e da extensão da mercantilização das relações sociais. Porém, a
acumulação integral não resolve os problemas do capitalismo, pois, se, por um lado, ela
combate a queda da taxa de lucro médio, e com isso evita a crise e o acirramento das lutas de
classes, por outro, intensifica a exploração do proletariado e cria um processo de
lumpemproletarização (tal como expresso no crescimento do desemprego) que leva a uma
radicalização das lutas sociais. Porém, devido à manutenção da hegemonia burguesa na
sociedade civil, a guerra civil oculta não se transforma em guerra civil aberta. Neste sentido, a
acumulação integral é contraditória e só se mantém enquanto perdurar a hegemonia
burguesa, com toda a sua fragilidade em períodos como este.
2 – Estado Neoliberal e Acumulação Integral

O Estado Neoliberal emerge a partir da década de 80 do século XX como parte de


um conjunto de transformações do modo de produção capitalista, expressando uma alteração
em seu regime de acumulação. Esta é a tese que desenvolveremos aqui. Para efetivar isto,
analisaremos o processo de constituição e desenvolvimento do Estado Neoliberal,
observaremos algumas de suas consequências e apresentaremos o seu processo de
engendramento como constituído pela formação de um novo regime de acumulação, o regime
de acumulação integral.
É quase consensual, entre os autores e pesquisadores, a visão acerca das
características gerais do neoliberalismo: predomínio do mercado, privatização, corte dos
gastos públicos, política repressiva etc. Isto, no entanto, é apenas uma visão panorâmica e
descritiva. Para superar esta visão superficial é necessário inserir o neoliberalismo na
totalidade das relações sociais e seu papel no atual momento histórico. Para compreender a
emergência e o significado do neoliberalismo é preciso entender o desenvolvimento capitalista
e as lutas de classes que vêm desenvolvendo-se nas últimas décadas.
O sufixo neo remete ao antigo liberalismo. O liberalismo surgiu com o processo de
luta de classes, no qual a burguesia buscava constituir a sua formação estatal específica, o
que fez surgir o Estado Liberal e as suas expressões ideológicas. O liberalismo político
(Bentham, Mandeville, Stuart Mill, Locke, Constant) se fundamenta numa ética individualista
e filosofia hedonista, para defender a tese de que o papel do Estado é proteger o indivíduo, a
propriedade privada e o trabalho. O liberalismo econômico (Adam Smith, David Ricardo) tinha
a mesma fundamentação no individualismo e no hedonismo e propunha a tese de que a
competição é benéfica para a sociedade. Segundo a concepção liberal de Smith, a competição
derivada do individualismo é positiva para a sociedade. Sua tese era a de que, se capitalistas e
trabalhadores investissem o capital ou o trabalho onde fosse mais produtivo, isto seria
benéfico para a economia como um todo. A “mão invisível” do mercado dirigida pelo livre jogo
da oferta e da procura tornaria Estado desnecessário. Estas concepções correspondiam aos
interesses do Estado capitalista nascente que buscava regularizar as relações de produção
capitalistas, isto é, o processo de produção sob as novas bases industriais do capitalismo
concorrencial. A ideologia liberal surge simultaneamente com a emergência do Estado liberal.
O neoliberalismo é uma apropriação do liberalismo clássico. A ideologia liberal é
adaptada às novas condições sociais e históricas do capitalismo a partir dos anos 80 e
reformulada, ficando submetida às novas necessidades engendradas contemporaneamente por
este modo de produção. Alguns pensam que o neoliberalismo surgiu na década de 1940.

O neoliberalismo nasceu logo depois da Segunda Guerra Mundial, na região da Europa e da
América do Norte, onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado
intervencionista e de bem-estar. Seu texto de origem é O Caminho da Servidão, de Friedrich Hayek, escrito já
em 1944. Trata-se de um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte
do Estado, denunciadas como uma ameaça letal à liberdade, não somente econômica, mas também política
(Anderson, 1998, p. 9).

Porém, o que surge neste período é a ideologia neoliberal. Em 1944, com a obra O
Caminho da Servidão, de F. Hayek (embora já em 1937 ele lançasse as bases de seu
pensamento com o livro Economia e Conhecimento), surge a base intelectual da ideologia
neoliberal. O neoliberalismo como ideologia se desenvolve em outras obras de Hayek e de
outros pensadores, que formaram a “Sociedade de Mont Pèlerin”. A ideologia neoliberal
antecede a emergência do Estado Neoliberal, e sua pouca ressonância se deve ao seu
aparecimento no período do regime de acumulação intensivo-extensivo, em plena vigência do
Estado Integracionista, protótipo intervencionista contrário aos preceitos do neoliberalismo.
É fundamental distinguir entre ideologia neoliberal e Estado neoliberal. A ideologia
neoliberal surgiu no pós-guerra e não teve ressonância, sendo uma “ideia fora de época”. A
obra de Hayek era pouco conhecida, e ele era um pensador marginal na ciência econômica,
pois a ideologia econômica dominante nesta época era o keynesianismo. A emergência do
Estado Neoliberal só ocorre algumas décadas depois. Porém, alguns pesquisadores,
abstraindo que o processo de produção das ideias é constituído socialmente e que sua
influência depende de sua adequação ao momento histórico e aos interesses dominantes,
analisam a emergência do neoliberalismo como um derivado das ideias neoliberais de Hayek e
demais pensadores. Este é o caso de Perry Anderson:

A chegada da grande crise do modelo econômico do pós-guerra, em 1973, quando todo o mundo
capitalista avançado caiu numa longa e profunda recessão, combinando, pela primeira vez, baixas taxas de
crescimento com altas taxas de inflação, mudou tudo. A partir daí as ideias neoliberais passaram a ganhar
terreno (Anderson, 1998, p. 10).

Perry Anderson, depois de descrever a explicação da crise e as propostas de Hayek,
tais como estabilidade monetária, diminuição dos gastos estatais etc., afirma que a
“hegemonia deste programa não se realizou do dia para a noite”, pois somente com o final da
década de 70 e início da década de 80, a partir da emergência dos governos de Margareth
Thatcher na Inglaterra (1979), de Ronald Reagan nos Estados Unidos (1980) e Helmut Kohl,
na Alemanha (1982), é que este programa começou a ser efetivado.
Os erros de Perry Anderson são visíveis. Em primeiro lugar, a crise do regime de
acumulação intensivo-extensivo se inicia no final da década de 1960 (Harvey, 1992; Viana,
2003) e se prolonga durante a década de 1970 (Granou, 1974). Em segundo lugar, o estado
neoliberal não é uma mera aplicação das ideias concebidas anteriormente por Hayek, e sim
uma resposta para a crise do regime de acumulação anterior, que, certamente, recuperou e
adaptou as teses deste e de outros pensadores para sua implementação. O procedimento
metodológico de Anderson é simplista e linear, parecendo tomar as ideias como o demiurgo do
real. Não foi o programa de Hayek que foi implementado, e sim as novas necessidades da
acumulação capitalista que resgataram algumas das teses de Hayek e de outros para realizar
a necessária mutação no estado e em outras esferas sociais. Pensar como Anderson significa
reduzir o neoliberalismo à ideologia produzida por Hayek e, desta forma, qualquer desvio da
doutrina pode ser considerado como não sendo “neoliberalismo”. É por isso que ele poderá
afirmar que o Governo Thatcher é mais “puro”, os demais governos da Europa praticam um
neoliberalismo mais “matizado”, o governo Reagan já não se encaixa tão bem, pois mantém
elementos de keynesianismo etc.
Ele acrescenta que “o que demonstravam estas experiências era a hegemonia
alcançada pelo neoliberalismo como ideologia” (Anderson, 1998, p. 14). Ou seja, ao invés de
partir das relações sociais concretas, do processo histórico do desenvolvimento capitalista,
para entender a emergência da ideologia neoliberal em 1944 e sua recuperação e alteração a
partir do final do século XX, Anderson parte da ideologia neoliberal e tenta ver quando
historicamente ele se torna hegemônico. É graças a este procedimento ideológico que muitos
outros irão buscar analisar o Estado Neoliberal como se fosse a manifestação da ideologia
neoliberal, ao invés de perceber que a ideologia neoliberal da metade do século XX foi apenas
uma ideologia recuperada e utilizada segundo as novas necessidades da acumulação
capitalista em declínio e que foi modificada, adaptada, atualizada, mesclada com outras
ideologias, assim como outras formas de ideologia neoliberal que surgiram e também
sofreram o mesmo processo.
Outros fazem até um histórico de diversas escolas neoliberais (Moraes, 2001), tal
como a Escola Austríaca (F. Hayek); a Escola de Chicago (T. Schultz, G. Becker), a Escola de
Virgínia (J. Buchanan) e a escola “anarco-capitalista” (R. Nozick), um nome bastante
impróprio. Outras escolas poderiam ser acrescentadas depois de 1980, inclusive pensadores
como Norberto Bobbio (1988), que se tornou neoliberal.
Segundo Bobbio, o estado é o conjunto dos indivíduos em suas atividades e relações
e deve submeter-se aos interesses individuais (Bobbio, 1988). Este ideólogo revela e enfatiza
uma das principais características do neoliberalismo, a defesa do Estado mínimo e forte. Em
seu interior deve haver a defesa do mercado livre. Porém, tal como já estava esboçado em
Hayek (Anderson, 1998) e nas proposições da Comissão Trilateral (Assmann, 1978), há uma
ênfase no Estado Forte:

Não se pode confundir a antítese estado mínimo/ estado máximo, que é o mais frequente objeto de
debate, com a antítese estado forte/estado fraco. Trata-se de duas antíteses diversas, que não se superpõem
necessariamente. A acusação que o neoliberalismo faz ao estado do bem-estar não é apenas a de ter violado o
princípio do estado mínimo, mas também a de ter dado vida a um estado que não consegue mais cumprir a
própria função, que é a de governar (o estado fraco). O ideal do neoliberalismo é tornar então o estado
simultaneamente mínimo e forte (Bobbio, 1987, p. 26).

Um estado forte, para Bobbio, é aquele que cumpre sua função de detentor do
monopólio do uso da coerção nos casos necessários, ou seja, para defender as liberdades
individuais. Isto, no fundo, quer dizer a mesma coisa que em seus antecessores: um estado
repressivo.
A emergência do neoliberalismo não é produto da aplicação da ideologia neoliberal,
o que seria uma visão descontextualizada do momento em que o Estado neoliberal surgiu, bem
como o seu real significado. A formação do Estado Neoliberal foi o resultado de um conjunto
de transformações sociais que tornaram esta forma estatal necessária (e somente depois disso
as concepções destas escolas seriam resgatadas e outras seriam criadas). Para compreender
isso é preciso analisar a emergência histórica do Estado Neoliberal.
O Estado capitalista atravessou várias fases e possuiu várias formas no decorrer da
sua história. Podemos dizer que depois do Estado Absolutista tivemos o Estado Liberal, o
Estado Liberal-Democrático, o Estado Integracionista (keynesiano, de bem-estar social) e, a
partir do final da década de 20 (em torno de 1980), o Estado Neoliberal. Estas formas estatais
não são produtos de aplicação de ideias, mas sim produtos das mudanças sociais que fazem
com que o Estado assuma determinada forma, especialmente o regime de acumulação.
A acumulação capitalista depois da Segunda Guerra Mundial encontrou um período
de estabilidade e expansão. Nos EUA e na Europa ocidental, tivemos a generalização do
fordismo como forma de organização do trabalho e o período de expansão das empresas
oligopolistas transnacionais. O fordismo, por um lado, permitiu um ganho de produtividade ao
aprimorar o uso da tecnologia no processo de trabalho. Além disso, proporcionou incentivos
materiais, tal como crédito e aumentos salariais, o que elevou o poder aquisitivo de grande
parte dos trabalhadores. A expansão oligopolista transnacional permitiu um impulso da
acumulação de capital nos países imperialistas, através da transferência de lucro das
empresas para o país sede. Neste contexto, o Estado assumiu a forma de Estado
Integracionista, buscando integrar a classe operária no mundo do consumo (e foi devido a isso
que surgiram nessa época as teses sociológicas da “sociedade de consumo” e da “integração
da classe operária no capitalismo”) e também através das políticas estatais de assistência e
seguridade social.
No entanto, a crise que se iniciou nos anos 60 acabou promovendo novas alterações
na sociedade moderna. Os movimentos culturais da década de 60 (hippie, contracultura,
pacifismo etc.) foram complementados por movimentos sociais em ascensão (movimento negro
nos Estados Unidos, movimento feminista, movimento estudantil) que, ao lado das lutas
operárias e conflitos nos países de capitalismo subordinado (“terceiro mundo”), produziram
um quadro de crise que agravou a acumulação capitalista já em declínio a partir do final dos
anos 60. Foi a época da Guerra do Vietnam, da contracultura e do Festival de Woodstock, das
lutas estudantis, principalmente as que se desenvolveram na França (o maio de 68) e na
Alemanha, das fortes lutas operárias na França, Itália etc.
A acumulação capitalista passa por constantes crises periódicas, e no final dos anos
60, a taxa de lucro declinou (Harvey, 1992; Viana, 2003) e fez com que novas medidas fossem
tomadas. O maio de 68 e as lutas sociais do final da década de 60, a crise do petróleo de 1973
e a Revolução Portuguesa de 1975 foram os acontecimentos que incentivaram a busca de
mudanças, que se esboçaram nos anos 70 e se concretizaram nos anos 80. A Comissão
Trilateral (Asmann, 1978) aponta para a necessidade de um Estado forte, repressivo,
aumentando seu aparato repressivo e postulando um maior controle sobre os países fora do
eixo dos mais desenvolvidos. Mudanças culturais passam a ocorrer, com o surgimento do pós-
vanguardismo, que no mundo da arte decretava o fim das vanguardas artísticas e do pós-
estruturalismo e, no mundo das ciências humanas, a crítica do racionalismo e da visão
totalizadora do mundo. Ambas as tendências passaram a ser chamadas, ideologicamente, de
“pós-modernismo”.
Estes elementos foram importantes antecedentes do que mais tarde ocorreria. A
mutação ideológica colaborou para a reemergência da ideologia neoliberal e para o
aparecimento de uma nova forma estatal, o Estado Neoliberal. O Estado Neoliberal surge no
final da década de 70 e início da década de 80, com Margareth Thatcher, na Inglaterra (1979),
Ronald Reagan, nos EUA (1980), e Helmut Kohl, na Alemanha (1982). A partir daí se expande
pelo mundo nos anos seguintes. Esse processo de expansão culmina com a generalização
mundial do neoliberalismo, embora carregando em si, como colocaremos adiante, diferenças
de acordo com o país e com a origem dos governos que o implementam. Assim, a formação do
Estado neoliberal é produto das mudanças da sociedade capitalista, cuja origem se encontra
no final da década de 60 e se esboça na década de 70, e se efetivando a partir dos anos 80. A
partir dos anos 80 se inicia a chamada “reestruturação produtiva”, marcada pela substituição
do fordismo pelo toyotismo e por modelos de gestão do trabalho similares.
O estado neoliberal surge para atender as novas necessidades de reprodução do
capitalismo. Com a queda da taxa de lucro médio, era necessário aumentar a extração de
mais-valor. Isto só poderia ocorrer aumentando-se a extração de mais-valor em escala nacional
e internacional, o que significa aumentar a exploração em geral. Desta forma, o estado
neoliberal tem o papel fundamental de criar as condições institucionais para o aumento da
acumulação capitalista, o que o liga intimamente com a chamada reestruturação produtiva e
com o neoimperialismo.
A reestruturação produtiva precisa, para ser implementada, da corrosão dos direitos
trabalhistas e de “flexibilidade” na esfera da produção para permitir o combate à queda da
taxa de lucro generalizada que se iniciou no fim dos anos 60. Assim, a implantação do
toyotismo e de modelos similares tem como objetivo aumentar a taxa de lucro, a
produtividade, através da reorganização do processo de trabalho (trabalho em equipe, círculo
de controle de qualidade, kanban, just-in-time), a terceirização e outras ações que visam
aumentar o lucro. A subcontratação e outras medidas complementares requerem mudanças na
legislação trabalhista, assim como o aumento do lucro exige perda de direitos trabalhistas.
Isto tem um reflexo direto nas políticas neoliberais, como colocaremos adiante.
Neste contexto, também há mudanças nas relações internacionais (chamadas de
“globalização”, “mundialização”, “neoimperialismo”), nas quais os países centrais buscam
aumentar a transferência de lucro dos países subordinados para os países imperialistas. Os
Estados Unidos são o principal arquiteto e beneficiado com este processo. Sua política
ofensiva (bem como sua tentativa de implantação da ALCA – Aliança do Livre Comércio das
Américas) e as guerras fazem parte da especificidade do capitalismo norte-americano, no qual
a indústria bélica tem um papel proeminente. Uma crise da indústria bélica provocaria um
colapso na economia norte-americana, e tal indústria funciona como qualquer outra empresa
capitalista: visa o lucro e aumenta constantemente a produção para aumentar a massa de
lucro. O problema é que não existe mercado consumidor para armas, e o Estado norte-
americano, mesmo através do endividamento estatal, para evitar a crise da economia norte-
americana, é o principal comprador. Devido a isso precisa produzir guerras e destruir armas,
para renovar o consumo e a produção de armamentos, bem como justificar e legitimar os
investimentos nesta esfera. Ao lado disso, as empresas transnacionais passam a possuir cada
vez mais importância em nível mundial, e os organismos internacionais (Banco Mundial, FMI
etc.) assumem grande importância neste processo de transferência de riqueza dos países
pobres para os países ricos.
O Estado Neoliberal é o complemento destas mudanças, pois permite o
desdobramento das novas relações internacionais e da reestruturação produtiva, criando as
condições legais, institucionais, políticas e estruturais para sua realização. Agora podemos
entender melhor o que é o neoliberalismo. Assim, quando se diz que o neoliberalismo possui
como objetivos a estabilização (de preços e contas nacionais); a privatização (dos meios de
produção e das empresas estatais); a liberalização (do comércio e dos fluxos de capital); a
desregulamentação (da atividade privada) e a austeridade fiscal (restrições dos gastos
públicos), apenas se apresentam detalhadamente algumas de suas características.
O Estado neoliberal é a forma estatal necessária ao novo regime de acumulação, o
regime de acumulação integral, que é um complemento necessário ao processo de
reestruturação produtiva e alteração nas relações internacionais e que se caracteriza por
conter os gastos estatais, desregulamentar o mercado e “flexibilizar” as relações de trabalho,
subsidiar o capital oligopolista e aumentar a política de repressão e vigilância social. Não
existe uma fórmula única para se efetivar este processo, pois isso depende da situação de
cada país, das forças sociais e políticas que apoiam determinado governo, do poder de pressão
da população, entre diversas outras determinações.
O neoliberalismo se manifesta de forma diferente em países diferentes. Nos Estados
Unidos, por exemplo, é protecionista, isto é, defende a proteção dos interesses nacionais e das
empresas norte-americanas e por isso promove barreiras para importação e atividades
estrangeiras em seu território. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos propõem aos demais
países um neoliberalismo sem fronteiras e sem protecionismo, o que é de seu interesse, tal
como no caso da ALCA. Nos países de capitalismo subordinado (o que antigamente era
chamado “Terceiro Mundo”), o neoliberalismo é nãoprotecionista, deixando o mercado
nacional a mercê do mercado mundial. A ideologia da globalização é apenas a manifestação
dos interesses neoimperialistas e prega a abertura do mercado para haver o aumento da
exploração internacional.
Também existem algumas diferenças entre os governos neoliberais, que expressam
diferentes frações de classes sociais e organizações políticas. Uma diferença é a que ocorre
entre as políticas neoliberais realizadas por governos como os de Margareth Thatcher e
Ronald Reagan, que é a versão mais dura do neoliberalismo, enquanto que versões diferentes
surgem em outros países e contextos, tal como os governos neoliberais efetivados por partidos
socialdemocratas e “socialistas”.
A fórmula do “Estado mínimo e forte”, proposta pelo ideólogo Norberto Bobbio
(1988), reflete o papel contemporâneo do Estado Neoliberal, que quer interferir o menos
possível no mercado e nas políticas sociais e, ao mesmo, quer ser um Estado forte, repressivo,
já que este novo estágio do capitalismo é marcado pelo aumento da pobreza, desigualdade,
violência, criminalidade e conflitos sociais. Por isso não se pode definir o neoliberalismo a
partir das ideologias neoliberais, pois ele faz parte de um conjunto de mudanças sociais e é
parte integrante do novo regime de acumulação. Desta forma, ele não é uma expressão de
determinadas concepções e dogmas oriundos de alguma ideologia que se aplica na realidade,
mas sim uma necessidade do novo regime de acumulação e que se manifesta de forma
diferente em situações diferentes, tendo como eixos fundamentais (mas que se manifestam de
forma diferente) a desregulamentação, o subsídio ao capital oligopolista, a diminuição dos
gastos estatais e a intensificação da política repressiva.
As consequências do neoliberalismo são as mais variadas. A primeira e mais
perceptível é o aumento da pobreza e da desigualdade. Mesmo nos países mais ricos há um
aumento da pobreza, da miséria, da fome, do desemprego e diminuição do poder aquisitivo de
amplas parcelas da população. Isto tem efeito sobre o mercado consumidor, sendo que a faixa
mais pobre acaba tendo sua capacidade de consumo reduzida. A desregulamentação do
mercado permite o aumento da exploração (corrosão dos direitos trabalhistas) e perda de
poder aquisitivo e de pressão por parte dos trabalhadores, bem como deixa as empresas mais
livres para utilizar trabalho infantil e outras estratégias que geram mais desemprego e elevam
o grau de exploração. Ao lado disso, o corte nos gastos estatais ocorre principalmente na
diminuição das políticas sociais, diminuindo as políticas de assistência social estruturais, ou
seja, os investimentos de base em educação, saúde etc., e gerando novas políticas sociais
paliativas, que apenas amenizam superficialmente os graves problemas sociais existentes.
Derivado disto há o aumento da violência, da criminalidade e dos conflitos sociais.
Isto reforça a justificativa para o aumento da política repressiva. Neste sentido, o sociólogo
francês Löic Wacquant tem razão ao colocar que o Estado Neoliberal é um Estado penal. O
aumento da população carcerária no mundo, sendo que alguns países possuem aumento
superior a 100%, e outros a 200%, é justificado por ideologias e propostas políticas (tal como a
de “tolerância zero”, criada em Nova Iorque, nos anos 80) que acabam se generalizando no
mundo todo.

De Nova York, a doutrina da “tolerância zero”, instrumento de legitimação da gestão policial e
judiciária da pobreza que incomoda – a que se vê, a que causa incidentes e desordens no espaço público,
alimentando, por conseguinte, uma difusa sensação de insegurança ou simplesmente de incômodo tenaz e de
inconveniência – propagou-se através do globo a uma velocidade alucinante. E com ela a retórica militar da
“guerra” ao crime e da “reconquista” do espaço público, que assimila os delinquentes (reais ou imaginários),
sem-teto, mendigos e outros marginais a invasores estrangeiros – o que facilita o amálgama com a imigração,
sempre rentoso eleitoralmente (Wacquant, 2001, p. 30).

Os conflitos sociais também são ampliados, pois a nova situação marcada por um
intenso desemprego gera a ação dos desempregados: a xenofobia (Enzensberger, 1995) em
determinados países (devido à competição pelo mercado de trabalho e os imigrantes serem
vistos como responsáveis pelo desemprego). A pobreza crescente também produz ações
sociais, e a política repressiva e de vigilância social proporciona movimentos de contestação
social. Os acontecimentos que ocorrem a partir de 1999 (movimento antiglobalização, revoltas
na França e Argentina, conflitos na América Latina etc.) são outros exemplos de crescimento
de conflitos sociais em todo mundo.
Os números confirmam tudo isso: a fome atinge 850 milhões de pessoas hoje no
mundo, 500 milhões de pessoas sofrem de subnutrição crônica; a diminuição de renda atingiu
cerca de um bilhão de pessoas entre 1980 e 1993; cerca de 17 milhões de pessoas morrem de
moléstias infecciosas e parasitárias incuráveis; o desemprego atinge milhões de pessoas e vem
aumentando progressivamente.
Neste sentido, podemos dizer que o Estado neoliberal está atingindo seus propósitos,
pois vem contribuindo para o aumento da exploração e recuperação da acumulação
capitalista, tanto em nível nacional quanto internacional. Podemos dizer, resumidamente, que
o neoliberalismo é uma nova forma estatal que surge nos anos 80, sendo produto do regime de
acumulação integral, e que busca diminuir os gastos estatais, desregulamentar o mercado,
subsidiar o capital oligopolista e aumentar a política repressiva, facilitando assim o
desenvolvimento da reestruturação produtiva e da instauração de novas relações
internacionais. As consequências do neoliberalismo são o aumento da pobreza e miséria, da
desigualdade, da criminalidade e dos conflitos sociais. O mundo neoliberal é um mundo
marcado por contradições crescentes.
3 – Neoimperialismo, Relações Internacionais e
Acumulação Integral

A história do capitalismo possui uma dinâmica evolutiva marcada pelo processo


contínuo de reprodução ampliada do capital e pela consequente centralização e concentração
do capital, tal como havia colocado Marx (1988). No entanto, este processo é marcado pela
geração de crises cíclicas e pela tendência declinante da taxa de lucro. Essa tendência é
constituída devido ao desenvolvimento das forças produtivas, pois quanto mais desenvolvida é
a tecnologia e quanto mais esta entra no processo de produção, menos se utiliza a força de
trabalho, que é a fonte geradora de mais-valor. Assim, retomando Marx, a composição
orgânica do capital (o quantum proporcional de capital fixo – forças produtivas – e capital
variável – força de trabalho) tende a ser composta cada vez mais por tecnologia e menos por
força de trabalho, já que esta última gera mais-valor e a primeira apenas repassa o seu valor
às mercadorias, produzindo a queda da taxa de lucro. Outro problema da produção capitalista,
também gerador de crises, é o mercado consumidor, pois a reprodução ampliada de capital
significa não só o desenvolvimento das forças produtivas, mas também a produção crescente
de bens de consumo, promovendo a necessidade constante de aumento do mercado
consumidor, o que nem sempre é possível, principalmente em momentos de crise, quando
aumenta o desemprego e cai o poder aquisitivo da população. Isto tudo proporciona crises e
lutas sociais intensas.
Porém, esta reprodução espontânea é abalada pelas lutas de classes. Na verdade, tal
reprodução espontânea é uma determinada configuração das lutas de classes (trata-se das
lutas de classes no processo de produção, na qual a classe capitalista consegue impor
determinada forma de controle e exploração, e dos limites impostos pelo Estado via pressão
operária a ela – regularização dos salários, legislação trabalhista etc.; entre outras formas de
manifestação), mas que, para a análise, mantém-se sem grandes rupturas, isto é, ficam
tendencialmente moderadas. Esta reprodução espontânea, que significa uma luta de classes
moderada que caminha no sentido da acumulação de capital sem fortes obstáculos na ação
proletária, é abalada pela radicalização da luta operária e dificultada pela tendência
declinante da taxa de lucro e suas outras contradições.
Na época de Marx não era visível a forma como se daria o desdobramento deste
processo, mas hoje ele ganha visibilidade. Este processo se torna visível através da
periodização da história do capitalismo e da percepção de que ela é marcada por sucessivos
regimes de acumulação. Alguns pesquisadores buscaram periodizar o capitalismo, abordando
suas crises e alterações (Amim, 1977), e outros observaram que tal periodização revela uma
sucessão de regimes de acumulação (Benakouche, 1980).
Iremos partir destas reflexões e buscar ir além delas no sentido de compreender o
significado e a dinâmica dos regimes de acumulação. Um regime de acumulação é constituído
por uma determinada forma assumida pelo processo de valorização, por uma determinada
configuração estatal e por determinadas relações internacionais (Viana, 2003). A constituição
da acumulação capitalista propriamente dita, em substituição à acumulação primitiva, marca o
surgimento do regime de acumulação extensivo. Após este, emerge o regime de acumulação
intensivo, substituído pelo intensivo-extensivo e, atualmente, pelo regime de acumulação
integral. Esquematicamente, podemos realizar a seguinte periodização e caracterização
destes regimes de acumulação:

• Regime de acumulação extensivo
Predominante desde a revolução industrial até o final do século XIX, caracterizava-se
pelo predomínio da extração de mais-valor absoluto, pelo Estado liberal e pelo
neocolonialismo. A extração de mais-valor absoluto era visível nas longas jornadas de
trabalho, no uso da força de trabalho precoce e feminina, nos baixos salários e nas péssimas
condições de trabalho. O Estado liberal era o veículo institucional da dominação burguesa
sobre o proletariado para sustentar este amplo processo de exploração, restringindo ao
máximo a participação das classes exploradas na constituição das políticas estatais
(democracia censitária, combate às ações e organizações operárias, aos sindicatos e partidos
socialdemocratas etc.) e realizando uma política nacional de acordo com os interesses da
burguesia nativa, tanto interna quanto externa. O neocolonialismo foi um prosseguimento do
sistema colonial, mas com a emergência da proeminência inglesa e da burguesia industrial
como fração dominante da classe burguesa, constituindo uma divisão internacional do
trabalho e um processo de exportação de mercadorias por parte do centro capitalista. Este
regime de acumulação entrou em crise devido às dificuldades espontâneas de reprodução
global do capitalismo e principalmente devido à radicalização da luta operária (que gerou a
diminuição da jornada de trabalho, a Comuna de Paris etc.).

• Regime de acumulação intensivo
Vigente a partir do final do século XIX até a Segunda Guerra Mundial, caracterizava-
se pelo predomínio da extração de mais-valor relativo (através do taylorismo ou “organização
científica do trabalho”), pelo Estado liberal-democrático e pelo imperialismo financeiro. A
diminuição da jornada de trabalho, conquistada no período final do regime de acumulação
anterior, forçou o capital a buscar uma compensação no processo de valorização através do
aumento de produtividade, isto é, de extração de mais-valor relativo. O taylorismo foi a
sistematização e racionalização implementada pelo capital visando concretizar tal objetivo. A
diminuição da jornada de trabalho significou um recuo do capital diante do movimento
operário, mas foi acompanhada pela compensação através do rígido controle do processo de
trabalho via racionalização taylorista, isto é, a diminuição de extração de mais-valor absoluto
foi compensada pelo aumento de extração de mais-valor relativo. O Estado liberal-democrático
também expressa um recuo do capital, pois o proletariado consegue reconhecimento estatal
de sindicatos e partidos, participação no processo eleitoral (passagem da democracia
censitária para a democracia partidária) etc. No entanto, também neste caso houve uma
compensação: a institucionalização das lutas de classes, provocando o seu amortecimento
através da cooptação (socialdemocracia) de setores do proletariado e formação de novas
camadas de trabalhadores assalariados improdutivos (burocracia partidária, burocracia
sindical etc.). O neocolonialismo é substituído, enquanto forma predominante de exploração
internacional, pelo imperialismo, fundado na exportação de capital-dinheiro (Benakouche,
1980), pela competição interimperialista (a Inglaterra encontra concorrentes à altura e novos
candidatos à concorrência). Esta é a fase do capitalismo oligopolista, no qual o processo de
centralização e concentração do capital promovido durante o regime de acumulação anterior
permitiu a formação de oligopólios nacionais. No entanto, a luta operária provoca nova crise
de regime de acumulação, através da resistência cotidiana ao taylorismo, ao desenvolvimento
de forças e concepções revolucionárias pela ascensão do movimento grevista, ao processo de
formação de conselhos operários e, principalmente, pelas tentativas de revoluções proletárias
(Rússia: 1905, 1917; Alemanha: 1918, 1920; Itália: 1919-1920; Hungria: 1919 etc.). A luta
operária colocou em questão o modo de produção capitalista. A crise continuou, e, como o
movimento operário não conseguiu concretizar o processo revolucionário, a burguesia
encontrou a solução no fascismo e no capitalismo de guerra. A última grande luta operária
desse período ocorreu durante a Guerra Civil Espanhola, na década de 30, e sua derrota geral
foi concretizada com a Segunda Guerra Mundial.

• Regime de Acumulação Intensivo-Extensivo
Instaurado no pós-guerra e vigente até a década de 80 do século XX, este novo
regime de acumulação promoveu uma nova configuração no processo de valorização, na forma
estatal e nas relações internacionais. O fordismo substituiu o taylorismo, sendo um
aprofundamento e aperfeiçoamento deste, caracterizado pela ampliação do uso de tecnologia
no processo de trabalho enquanto forma de controle e meio de conseguir aumento de
produtividade, e tal alteração foi complementada pelos aumentos salariais, propiciando uma
compensação para os trabalhadores e ampliando a capacidade do mercado consumidor. O
estado abandonou seu caráter liberal-democrático e assumiu a forma de estado
integracionista (“keynesiano”, de “bem-estar social”, “socialdemocrata”), que aumentou a
burocratização da democracia partidária, através de novas regras de participação (via
legislação, principalmente, mas não unicamente). O Estado Integracionista buscava integrar a
classe operária e setores oprimidos através da burocratização da sociedade civil, da política
social etc. O imperialismo entrou em nova fase, caracterizada pela expansão transnacional, em
que grandes empresas transnacionais passaram a dominar os países capitalistas subordinados
e drenar recursos para os países capitalistas imperialistas. Este processo, proporcionado pela
ampla destruição das forças produtivas durante a Segunda Guerra Mundial, permitiu uma
rápida expansão e acumulação de capital, mas teve que buscar frear a tendência declinante da
taxa de lucro, diminuindo os investimentos no processo de produção de meios de produção e
aumentando os investimentos na produção de meios de consumo, criando a “sociedade
burocrática de consumo dirigido”, segundo expressão de Lefebvre (1991), ou, segundo
linguagem sociológica dominante, “sociedade de consumo”. Mas o processo de
mercantilização e burocratização das relações sociais e o Estado integracionista, bem como os
aumentos salariais, corroeram parte do aumento de produtividade conquistado pelo fordismo,
e isto é compensado pela exploração internacional. A expansão transnacional marca o
processo de exploração da força de trabalho dos países capitalistas subordinados, juntamente
com outros mecanismos de exploração imperialista: o endividamento externo e a “troca
desigual” (Viana, 2000). O regime de acumulação é predominantemente intensivo no bloco
imperialista, mas combinado com o regime de acumulação extensivo no bloco subordinado,
sendo esta acumulação extensiva e a transferência de mais-valor para o bloco imperialista o
sustentáculo do capitalismo mundial nesse período. Esse regime de acumulação, que alguns
chamam “fordista” (Harvey, 1992), começou a entrar em crise a partir do final da década de
60 e início dos anos 70 do século XX (Granou, 1973). As lutas estudantis e operárias,
principalmente na França e Itália, bem como nos EUA, o movimento pacifista, a contracultura
etc. marcam a primeira rachadura, que, no entanto, irá resistir, e somente na década de 80 irá
começar a passagem para um novo regime de acumulação, o integral.
A crise do regime de acumulação intensivo-extensivo foi marcada pela tentativa dos
países imperialistas de reverterem o quadro dentro do mesmo regime de acumulação, pois “a
revolução mundial de 1968 não desmantelou o sistema internacional” (Wallerstein, 2002, p.
164). A década de 70 foi marcada por uma crise do crescimento das principais potências
imperialistas, e os remédios apresentados são a chamada “trilateral” (comissão fundada em
1973, impulsionada por David Rockfeller), que alguns pensaram ser uma “nova fase do
capitalismo mundial” (Assmann, 1979), através da chamada “gestão da interdependência”, na
qual o bloco imperialista reconhecia a supremacia norte-americana (Wallerstein, 2002), e
também da ideia de “estado forte”, que será uma prefiguração do neoliberalismo, bem como
uma visão do capitalismo subordinado (“terceiro mundo”) que precisa ser controlado. Assim, a
ideologia da Comissão Trilateral antecipa, em alguns aspectos (a ideia do fim do Estado-
Nação, por exemplo), o neoliberalismo, mas ainda fica nos limites do regime de acumulação
intensivo-extensivo, não proporcionando nenhuma nova configuração do Estado, do processo
de valorização e das relações internacionais, e focaliza apenas a necessidade de
fortalecimento da repressão para garantir a reprodução do mesmo regime de acumulação.

A acumulação integral e a nova dinâmica do capitalismo mundial


É a partir dos anos 80 que começa a se constituir o novo regime de acumulação. Este
marca uma mudança no processo de valorização, no qual a chamada reestruturação produtiva
(toyotismo e modelos similares) e o neoliberalismo assumem a vanguarda do processo. O
capitalismo continua sua marcha global no sentido do desenvolvimento das forças produtivas
e, por conseguinte, queda da taxa de lucro e ampliação do processo de centralização e
concentração do capital, criando verdadeiros oligopólios mundiais.
A crise do regime de acumulação anterior promove a constituição de um novo
regime de acumulação. Trata-se do regime de acumulação integral. No entanto, a cada regime
de acumulação o processo de reprodução do capital se torna mais difícil, tornando necessário
o aumento da exploração em escala cada vez mais intensa. A passagem do regime de
acumulação extensivo para o intensivo significou uma mudança na forma de exploração
complementada pela exploração internacional, isto é, só foi possível a passagem devido ao
imperialismo. O regime de acumulação intensivo-extensivo, que, aos olhos dos ideólogos do
capitalismo, significou a possibilidade de este modo de produção proporcionar níveis de renda
elevados aos trabalhadores, revela-se na verdade um processo combinado de alteração na
forma de exploração com uma intensificação da exploração internacional. A estabilidade
relativa do bloco imperialista foi conquistada graças à superexploração existente no bloco
subordinado e sua consequente instabilidade. O “terceiro mundo” é um produto do capital. Ele
não é, como colocam alguns ideólogos, originário da falta de capitalismo, mas sim o resultado
da divisão internacional do trabalho e da exploração capitalista internacional. Mas agora a
situação mudou. A exploração aumenta no bloco imperialista e deve ser complementada com o
aumento da taxa de exploração no bloco subordinado, agora contando com os países do
“segundo mundo”, que, depois da crise do capitalismo de estado da URSS, Leste Europeu etc.
e de seu processo de privatização e abandono do estatismo, vêm colocando-se de forma mais
integrada no capitalismo mundial. O regime de acumulação integral altera as relações
internacionais, bem como a forma do Estado e do processo de valorização. Neoliberalismo e
reestruturação produtiva são os nomes fornecidos a esse processo.
O neoliberalismo surge na principal potência imperialista, os EUA, e se instala
imediatamente no seu aliado incondicional, a Inglaterra. Logo, a nova forma do Estado
capitalista se espalha pelo mundo, generalizando o neoliberalismo, com a missão de realizar
uma política impopular, considerada austera, e necessária, segundo os seus ideólogos, que
visa contribuir com o aumento da exploração da força de trabalho, principalmente com a
corrosão da legislação trabalhista, bem como diminuir os gastos estatais (prioritariamente
com a política social), realizar a privatização e reforma fiscal etc.
O toyotismo, por sua vez, surge no Japão uma década depois do pós-guerra e é um
importante instrumento utilizado para a reestruturação nacional e reequiparação deste país
com as grandes potências imperialistas depois da derrota na Segunda Guerra Mundial.
Modelos similares ao toyotismo vão surgindo em países da Europa Ocidental, tal como no caso
da Itália. As novas formas de organização do trabalho são uma continuidade do taylorismo-
fordismo e do objetivo básico, que é o aumento da taxa de exploração via aumento de
produtividade. O taylorismo focalizou a organização do trabalho; o fordismo, a tecnologia e
incentivos materiais. O toyotismo e similares buscam mesclar ambos os processos, atuando
tanto no que se refere à organização do trabalho (o trabalho em equipe visa com o seu
participacionismo integrar o trabalhador no processo de trabalho, e outras estratégias, como o
“controle de qualidade”, são apenas uma modernização participacionista da vigilância
taylorista) quanto no que se refere ao uso de novas tecnologias, pois eles estão intimamente
ligados. Um exemplo seria o kan-ban, método que os japoneses importaram dos
supermercados dos EUA e que, através do sistema de luzes, comanda a intensidade do
processo de trabalho. Outro objetivo presente nestas novas formas de gestão da força de
trabalho se encontra na tentativa de envolver o trabalhador com o processo de produção, ou
seja, uma nova forma de buscar criar um “operário-padrão”, ao envolvê-lo com o seu trabalho.
A tentativa de “catexizar” (para utilizar palavra psicanalítica, derivada de catexia, que
significa investimentos, desejos do indivíduo, cujo significado, portanto, é formar desejos e
investimentos) o trabalhador vai do participacionismo até novas ideologias e técnicas, tal
como a da inteligência emocional. Mas a grande novidade da chamada “reestruturação
produtiva” reside no seu objetivo de buscar aumentar não somente a extração de mais-valor
relativo (produtividade), mas também mais-valor absoluto (Viana, 2003; Harvey, 1992), no qual
se utiliza também, de forma complementar, o que Marx denominou “métodos secundários de
exploração capitalista”, tal como se vê em certas formas de trabalho autônomo. Isto é
complementado pelo retorno do uso em massa da força de trabalho precoce (crianças e
jovens).
O aumento do exército industrial de reserva também está incluído neste processo,
que denominamos “lumpemproletarização”, é resultado tanto da política neoliberal quanto da
reestruturação produtiva que tem o efeito de aumentar a competição pelo mercado de
trabalho e fazer crescer fenômenos como xenofobia, miséria, violência, e, o que é do interesse
do capital, pressionar os salários para baixo. É neste contexto que surgirão a ideologia da
“exclusão social” e as políticas paliativas (renda cidadã, bolsa-escola etc.), que vêm substituir
as políticas sociais clássicas do estado integracionista, dito do “bem-estar social”.
Assim, a nova dinâmica do capitalismo mundial se fundamenta na busca de aumento
da taxa de exploração. Trata-se de um novo regime de acumulação, denominado por alguns de
“acumulação flexível” (Harvey, 1992), expressão que tem o defeito de ser um eufemismo que
encobre o processo de exploração integral, fundado no aumento de extração de mais-valor
relativo e absoluto (Harvey, 1992; Viana, 2002; Viana, 2003). Por isto, preferimos a expressão
acumulação integral. Mas, tal como colocamos anteriormente, um regime de acumulação se
caracteriza não somente por uma determinada organização do processo de valorização e
forma estatal, mas também por determinadas relações internacionais. É justamente isto que
iremos abordar a partir de agora, isto é, a nova fase do imperialismo que caracteriza as
relações internacionais na era da acumulação integral.

A dinâmica do Neoimperialismo


É neste contexto que emerge o neoimperialismo. Trata-se do imperialismo da época
da acumulação integral. Ele cumpre o papel de generalizar a busca de acumulação integral
em todo o mundo e reproduzir o processo de exploração intensificado nas relações
internacionais, o que é complementar, pois quanto maior é a exploração nos países de
capitalismo subordinado, maior é o quantum de mais-valor produzido, o que possibilita, por
sua vez, um maior índice de transferência de mais-valor dos países subordinados para os
países imperialistas. Em outras palavras, quanto maior a exploração nacional dos
trabalhadores, maior a possibilidade de exploração ampliada internacional de nações. Por
conseguinte, a generalização mundial do neoliberalismo e da reestruturação produtiva são
partes da estratégia do capital visando combater a queda da taxa de lucro.
Obviamente, a reestruturação produtiva e o neoliberalismo assumem formas
peculiares no capitalismo subordinado, pois setores do capital nacional destes países possuem
dificuldades em adotar novas tecnologias, além do fato de o Estado integracionista (Estado de
bem-estar social) nunca ter existido nos mesmos moldes que nos países imperialistas. No
capitalismo subordinado, a taxa de exploração já era elevada, mas tende a aumentar, via
política neoliberal de corrosão dos direitos trabalhistas e estratégias de reestruturação
produtiva, que se volta principalmente para a busca de aumento de extração de mais-valor
relativo (organização do trabalho, novas tecnologias, catexização), devido ao fato de a
extração de mais-valor absoluto já ser intensa, embora também haja a tentativa de aumentá-la
ainda mais.
Assim, o neoimperialismo produz um Estado neoliberal subordinado, que executa o
papel de aumentar a exploração interna e, ao mesmo tempo, permitir o aumento da
exploração externa. A proeminência de organismos internacionais na elaboração das políticas
nacionais dos Estados subordinados (FMI, Banco Mundial etc.) apenas revela esta
subordinação e alguns dos mecanismos utilizados pelo bloco imperialista (e pelo capital
oligopolista transnacional por detrás dele). O bloco subordinado realiza uma política
neoliberal que revela a debilidade do capital nacional e, por conseguinte, das burguesias
nacionais, subordinadas e ao mesmo tempo associadas ao capital oligopolista transnacional (A
reprodução subordinada dos capitalismos nacionais permite sua reprodução. O fato de o nível
da exploração dos trabalhadores locais ser maior não lhes interessa). O neoliberalismo
subordinado não só busca aumentar a exploração dos trabalhadores como também permite a
transferência de parte do mais-valor ampliadamente extorquido para os países capitalistas
imperialistas. Isto, por exemplo, é visível quando se vê o caráter protecionista dos Estados
neoliberais imperialistas em comparação com a política de livre mercado dos Estados
neoliberais subordinados. O protecionismo cumpre dois papéis: ele faz parte da luta
interimperialista e ao mesmo tempo da estratégia de ampliação da subordinação dos países do
bloco subordinado, embora no primeiro caso tenham surgido alternativas na competição
interimperialista.
É neste momento que devemos discutir a questão da chamada “transnacionalização
do capital”, tese defendida por diversos autores e que tende a se tornar hegemônica. A ideia
de “transnacionalização do capital” não significa a emergência do capital transnacional, uma
realidade desde o período após a Segunda Guerra Mundial, e sim um processo no qual o
capital supera o Estado. A concentração do capital, segundo Bernardo (1998), chegou a um
estágio que tornou possível para as grandes empresas dispensar as funções reguladoras do
Estado. Isto é reforçado pelo processo de privatização e pelo controle que as grandes
empresas exercem sobre aparelhos do Estado. Isto ocorreria em nível internacional,
proporcionando uma transnacionalização do capital, pois este estaria, agora, além do Estado-
Nação.
Esta concepção parece convincente, mas carece de correspondência com a
realidade. É preciso compreender a relação entre capital e Estado para entender as mutações
contemporâneas. Sem dúvida, o capital oligopolista transnacional exerce uma influência maior
sobre o Estado do que há algumas décadas, mas isto não significa que ele consiga estar acima
ou além dele. O Estado não só continua sendo o grande regulador da sociedade civil e mesmo
do processo de produção, como é o sustentáculo da dominação burguesa, pois continua
exercendo o seu papel, inclusive intensificando seu papel repressivo.
O aumento da influência do capital oligopolista apenas coloca o Estado mais voltado
para as necessidades do grande capital, mas aqui o que temos é apenas uma variação de grau,
pois desde o surgimento do capitalismo sempre foi assim. O processo de privatização também
fica nesse nível, o que não significa grandes alterações a ponto de se falar de fim do Estado-
Nação ou de produção de um novo quadro de análise, fundado na chamada
“transnacionalização do capital”. João Bernardo pensa que as fronteiras nacionais não são
mais o palco onde se processa o ciclo da produção e reprodução do capital, e que se torna
questionável a ideia de que o “capital estrangeiro” realiza uma intromissão de um país em
outro (1998). Tais ideias são, simultaneamente, verdadeiras e falsas. O ciclo da produção e
reprodução do capital ocorre no interior das fronteiras nacionais e além delas (isto é, pelo
processo de valorização em determinado Estado-Nação e pelas relações internacionais), assim
como o capital estrangeiro realiza, evidentemente, uma intromissão de um país em outro. Isto
é tão verdadeiro que João Bernardo cita o protecionismo como estratégia de competição
interimperialista (o que provoca a substituição do processo de exportação pela implantação de
unidades produtivas nos países protecionistas). Além disso, este autor não percebe que seus
exemplos se voltam todos para a relação entre países imperialistas e não toca na relação entre
estes e o bloco subordinado (o que é normal, tendo em vista que o autor é português e vê o
mundo com as lentes europeias).
Toda esta discussão carece de sentido se observarmos que o Estado, como já dizia
Engels, é o “capitalista coletivo ideal” e continua a exercer o papel de regularizador nacional e
internacional, com a diferença de que em nível nacional ele possui legitimidade e tem nas
disputas do bloco dominante via parlamento, governo etc. os meios de resolução dos conflitos
pelo poder e a competição das empresas capitalistas. No nível internacional, esta legitimidade
é muito mais frágil, e os organismos internacionais também não a possuem, sendo que a ONU,
que teria um maior quantum de legitimidade, foi desmoralizada pelos EUA com a Guerra do
Iraque. Desta forma, a regularização internacional cabe principalmente aos Estados-Nação,
embora de forma conflitual, num jogo de interesses e disputas. Mas quais são os interesses
por detrás destes conflitos? Os do capital oligopolista transnacional. Obviamente, aqui é
preciso compreender que cada Estado-Nação representa os interesses de seu capital nacional,
mas de acordo com sua força e potência financeira e no interior do bloco imperialista. O
Estados capitalistas subordinados, na verdade, apresentam uma proeminência do capital
transnacional sobre ele e sobre o capital nacional, pois a subordinação do Estado e do capital
nacional ao capital transnacional é uma das características do capitalismo subordinado. Os
Estados capitalistas imperialistas, por sua vez, apresentam a proeminência do capital nacional
sobre o capital transnacional. No capitalismo subordinado, o capital nacional é limitado, não
ultrapassando, em seu limite máximo, o papel de um capital de pequena força fora das
fronteiras nacionais. Já no capitalismo imperialista, o capital nacional é um capital
transnacional, lançando seus tentáculos sobre o mundo inteiro. É isto que faz com que este
último tenha proeminência não só em seu Estado-Nação, mas também nos dos países
capitalistas subordinados, embora encontrando resistência do capital nacional subordinado e
enfrentando a concorrência do capital transnacional dos demais países e, em alguns casos, do
próprio país.
A competição interimperialista produz a necessidade da interferência dos Estados-
Nação no processo de regularização das relações internacionais. Do ponto de vista do ciclo de
produção e reprodução do capital, isto se dá pelas ações do próprio capital transnacional
(investimentos, por exemplo), mas é limitada pela ação estatal, não somente através do
protecionismo, por exemplo, como através de diversas outras instâncias, tal como a
regularização das organizações internacionais, tratados internacionais, ação bélica etc.
Tomemos um exemplo, o Banco Mundial:

Desde a sua criação, os Estados Unidos sempre tiveram enorme peso na gestão do Banco Mundial,
que, por sua vez, vem desempenhando importante papel como instrumento auxiliar do governo norte-
americano na execução de sua política externa. Os estatutos do Banco Mundial estabelecem que a influência
nas decisões e votações é proporcional à participação no aporte de capital, o que tem assegurado aos EUA a
presidência do Banco desde a sua fundação, e hegemonia absoluta entre as cinco nações [EUA, Japão,
Alemanha, França e Reino Unido] líderes na definição de suas políticas e prioridades (Soares, 2003, p. 16).

O FMI, desde o seu surgimento, também esteve submetido à proeminência norte-
americana (Pou, 1979). Essas duas instituições são instrumentos fundamentais para a
ampliação da exploração imperialista:

Através de programas de ajuste estrutural, elaborados com o objetivo de indicar aos países
endividados os meios para a obtenção dos recursos necessários ao pagamento dos juros, o FMI e o Banco
Mundial condicionam sistematicamente seu “auxílio” financeiro à colocação em prática dos planos elaborados
e definidos por sua tecnoburocracia mundial. Numerosos países endividados passam, desse modo, à tutela do
sistema financeiro internacional que, por sua vez, “recoloniza” o Terceiro Mundo (Braga, 1997, p. 184).

Assim, a prioridade à política de exportações, a abertura comercial e o pagamento
dos juros das dívidas são incentivados pela ação destas e outras instituições internacionais.
O capital transnacional norte-americano tem seus interesses representados pelo
governo norte-americano, assim como os demais Estados-Nação representam os seus capitais
nacionais-transnacionais. Os organismos internacionais (Banco Mundial, FMI, BIRD etc.)
concretizam as políticas internacionais do interesse do bloco imperialista e do país dominante
no seu interior, os EUA. Basta notar que 75% da produção de mais-valor se concentra nos
países onde estão as matrizes das empresas transnacionais, justamente nos países
imperialistas (Hirst e Thompson, 1988), para ver que o Estado e o capital possuem relações
íntimas e que não foram, e nem podem ser, ultrapassadas.
Depois destas colocações a respeito da pretensa “transnacionalização do capital”,
continuemos nossa análise do neoimperialismo.
Os organismos internacionais são partes do processo de regularização da exploração
internacional. Com a passagem para o regime de acumulação integral, muda a política dessas
instituições. O Banco Mundial, por exemplo, cumpriu o papel de propiciar investimentos no
regime de acumulação intensivo-extensivo, mas no regime de acumulação integral passa a
exercer o papel de “guardião dos interesses dos grandes credores internacionais, responsável
por assegurar o pagamento da dívida externa e por empreender a reestruturação e abertura”
do capitalismo subordinado (Soares, 2003, p. 21).
O regime de acumulação integral faz com que as organizações internacionais atuem
no sentido de constranger o bloco subordinado a implementar e/ou aprofundar o
neoliberalismo, a reestruturação produtiva e uma nova política internacional, fundada no
“livre comércio”, isto é, livre para o capital transnacional. O neoimperialismo é, tal como o
regime de acumulação que lhe gerou, integral, buscando aumentar a transferência de mais-
valor do capitalismo subordinado através de várias formas, além das tradicionais. E desloca
investimentos para locais onde a força de trabalho é mais barata e busca criar nichos
exclusivos de mercado consumidor (veja, no caso dos EUA, a NAFTA, o projeto da ALCA etc.),
o que faz acirrar a competição interimperialista. Também há o aprofundamento da estratégia
de emperrar o desenvolvimento das forças produtivas, desviando os investimentos para bens
de consumo, indústria bélica etc. Assim, a dinâmica do neoimperialismo é marcada por uma
busca desenfreada de aumentar a exploração imperialista, buscando combater a tendência
declinante da taxa de lucro.

A especificidade do imperialismo norte-americano


O imperialismo norte-americano possui algumas especificidades. O imperialismo
mundial é composto por uma diversidade de países, destacando-se os EUA, Japão, Alemanha
etc., marcados pela competição e por uma hierarquia. No cume da hierarquia temos os
Estados Unidos, embora existam competidores querendo conquistar seu lugar. O imperialismo
norte-americano possui as mesmas características do imperialismo dos demais países, mas
tem uma especificidade derivada de seu processo específico de formação.
Os EUA emergem da Segunda Guerra Mundial como grande potência mundial. Já
antes da Primeira Guerra Mundial o processo de industrialização norte-americana estava num
estágio avançado. No século XIX, “Os Estados Unidos atravessam um auge industrial” e no
final deste século “colocam-se à cabeça do mundo pelo volume de produção da sua indústria”
(Polianski & Shemiskine, 1973). O abastecimento dos países da Entente durante a guerra
impulsionou ainda mais o capitalismo norte-americano, que passou a ter uma
sobreacumulação oriunda dos lucros da guerra. Os oligopólios norte-americanos se
fortaleceram neste processo, e os EUA se tornaram a grande potência mundial.
Após a Primeira Guerra Mundial, no entanto, o volume das exportações decresceu,
fazendo cair o preço dos produtos agrícolas, bem como a venda de armamentos. Os Estados
Unidos extraíam vantagens da exploração imperialista, mas isto não foi suficiente para evitar
sua crise em 1929. A Segunda Guerra Mundial possibilitou a recuperação norte-americana. “A
guerra serviu de mola impulsora da indústria americana de armamentos” (Polianski &
Shemiskine, 1973, p. 91). A indústria bélica se tornou um componente fundamental do ciclo de
produção e reprodução do capital nos Estados Unidos.
Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA se tornaram a grande potência mundial,
tendo como único rival a URSS, que, na verdade, era um parceiro na dominação imperialista
mundial (Wallerstein, 2002). A indústria bélica não tinha grandes incentivos para se
reproduzir em escala ampliada. No entanto, ela continuava a ser prioridade dos investimentos
governamentais. A razão disto se encontra no processo de busca de emperramento do
desenvolvimento das forças produtivas para evitar a queda da taxa de lucro, juntamente com a
expansão da produção de meios de consumo. Mas esta política não se sustenta por muito
tempo, pois o deslocamento dos investimentos para a produção de meios de consumo produz a
necessidade de reprodução ampliada do mercado consumidor, e o mesmo ocorre com a
produção de armamentos. Os bens de consumo podem-se ser exportados, pode utilizar a
publicidade e outros estratagemas para criar necessidades fabricadas, produzir a
obsolescência planejada das mercadorias e produtos descartáveis etc. Os armamentos, no
entanto, possuem um escasso mercado consumidor (outras nações, consumidores de armas de
pequeno porte etc.) e têm como consumidor fundamental o Estado norte-americano. Este tem
de sustentar a indústria bélica não somente para desviar investimentos para um setor que não
aumenta a composição orgânica do capital no sentido do desenvolvimento tecnológico, mas
também devido ao papel estratégico que ela terá no capitalismo norte-americano, pois cria
postos de trabalho, consumo de matérias-primas e maquinaria, produz um mercado
consumidor (os trabalhadores, empresários etc. envolvidos na produção de armamentos) etc.
Os Estados Unidos, enquanto grande potência mundial e país avançado tecnologicamente, têm
a dupla necessidade de sustentar a indústria bélica, para evitar a queda da taxa de lucro e
reproduzir um dos sustentáculos de seu capitalismo.
A indústria bélica norte-americana ocupa um papel privilegiado no interior do setor
produtivo dos EUA e a partir do início do século XX se tornou uma das maiores do mundo até
se tornar a maior, o que significa que é o país em que o peso e importância dela são
proporcionalmente maiores. Desta forma, o Estado capitalista norte-americano se vê
constrangido a consumir armamentos, pois é o grande consumidor bélico. Caso não o fizesse,
a crise da indústria bélica atingiria todo o capitalismo norte-americano, pois o desemprego,
falência etc. neste setor iriam atingir vários outros. Assim, o Estado norte-americano sustenta
a indústria bélica. No entanto, a indústria bélica possui a mesma lógica de qualquer outra
indústria capitalista: a reprodução ampliada do capital. Ora, é difícil garantir um constante
aumento da produção bélica sem a ocorrência de guerras, e torna-se cada vez mais oneroso
para o Estado sustentar tal indústria. Tal como coloca Dantas (2003), os recursos do Estado
provêm fundamentalmente dos impostos, e estes, por sua vez, possuem sua origem no setor
produtivo, e o investimento estatal na indústria bélica significa transferência de mais-valor do
capital produtivo para o setor bélico (não entraremos aqui na discussão sobre o caráter da
indústria bélica, se pode ser considerada integrante do setor produtivo ou se seria um
“terceiro departamento”, fora do Departamento I – produção de meios de produção – e do
Departamento II – produção de meios de consumo, como considera Dantas, pois essa
classificação, seja ela qual for, não altera nossa análise). Mas esta transferência também gera
gastos estatais acima de suas possibilidades, o que gera a dívida pública e dificuldades
adicionais do capitalismo norte-americano (Dantas, 2003).
É possível argumentar que a indústria bélica também possui um papel importante
nos demais países capitalistas, principalmente nos imperialistas. Sem dúvida, isto é verdade.
Mas também é verdade que dentre todos os países do mundo, os EUA são o que mais gasta
com a indústria bélica. Segundo Dantas (2003),

Com os dólares que foram gastos em armas pelo governo americano entre 1947 e 1989 (total de
8,2 trilhões de dólares) se poderia construir um outro país do porte dos Estados Unidos, incluindo todas as
indústrias, toda a infraestrutura e tudo que lá foi fabricado pela mão humana (...). Só em 2001, segundo o
SIPRI [Stockholm Internacional Peace Research Institute] Yearbook de 2002, os gastos mundiais em armas
foram estimados em 0,8 trilhões de dólares, sendo que cinco países são responsáveis por metade daqueles
gastos, os Estados Unidos à cabeça. O orçamento do Pentágono é igual aos orçamentos somados dos 12 ou 15
países com maiores gastos militares depois dos Estados Unidos.

Este autor acrescenta que “Os Estados Unidos gastam 36% deste total; para se ter
uma ideia, a Rússia gasta 6% e França, Japão e Inglaterra 5% cada um, em dados de 2001”
(Dantas, 2003).
Assim, a guerra é a estratégia fundamental para reerguer o capitalismo norte-
americano, pois assim aquece a indústria bélica. É por isso que os EUA são um país que “não
pode passar dez anos sem guerra” (Moraes, 2003). A história dos Estados Unidos confirma
isto. A crise de 1948-1949 gerou a Guerra da Coreia em 1950, o que aqueceu sobremaneira a
indústria bélica norte-americana.

Em três anos de guerra na Coreia o total das encomendas feitas às fábricas de armamentos foi de
151.000 milhões de dólares. Em 1951, a produção destinada à guerra constituía 25 por cento da produção
mundial dos Estados Unidos. Todos os ramos industriais foram orientados para fins bélicos, em maior ou
menor grau. Em 1951-1952, por exemplo, 10 por cento da produção da indústria têxtil destinou-se a satisfazer
pedidos militares (Polianski & Shemiskine, 1973, p. 102).

Desta forma, é fácil perceber que o aquecimento da indústria bélica significa um
aquecimento da produção geral norte-americana e que isto precisa ser efetivado
periodicamente, num processo cíclico necessário para sustentar o capitalismo norte-
americano. Assim, a nova crise na década de 60 irá gerar a prolongada Guerra do Vietnam,
que vai iniciar nos anos 60 e encerrar na década de 70, além de outros casos como a Líbia
(1986), a Guerra do Golfo (1991) e diversas ações, conflitos, ameaças e intervenções em várias
partes do mundo (China, 1945-1946; Guatemala, 1954; Indonésia, 1958; Cuba, 1959-1960;
Guatemala, 1960; Congo, 1964; Peru, 1965; República Dominicana, 1965; Laos, 1964, 1973;
Camboja, 1969-1970; Guatemala, 1963-1967; Chile, 1972; Granada, 1983; Líbano, 1984; El
Salvador, 1980; Nicarágua, 1980; Panamá, 1989; Iraque, 1991-1999; Sudão, 1998;
Afeganistão, 1998, Iugoslávia, 1999). Esta lista apenas mostra alguns casos que serviram para
incentivar a reprodução ampliada da produção bélica e deve ser somada à chamada Guerra
Fria, uma justificativa permanente para o armamentismo desde o fim da Segunda Guerra
Mundial e que teve momentos de acirramento, como nas ameaças de confronto direto com o
bloco capitalista estatal, um império dentro do império capitalista, como no caso de Cuba,
Vietnã etc. A competição entre o capitalismo estatal comandado pela antiga URSS e pelo
capitalismo privado comandado pelos EUA não somente legitimava a corrida armamentista
nestas potências como gerava sua necessidade, pois quem tem armas pode utilizá-las. Daí as
análises de Castoriadis sobre a superioridade militar russa e a inevitabilidade da guerra entre
as duas potências (Castoriadis, 1982), que não passa de mais um dos equívocos deste autor,
que analisou a Rússia como se fosse uma totalidade fechada e autogeradora, esquecendo-se
das relações internacionais e da pressão dos EUA no sentindo de aumentar os investimentos
em produção bélica por parte deste país.
O complexo militar-industrial, segundo Beinstein, converteu-se em fator essencial da
reprodução do capitalismo norte-americano e foi legitimado pela Guerra Fria, mas, com a
decadência do capitalismo de estado russo, os EUA perderam este elemento legitimador, mas
não podiam abrir mão desta “muleta essencial” (Beinstein, 2003). Segundo este autor,

O colapso soviético deixou o aparelho militar industrial sem legitimação externa. Nesse novo
contexto, o império utilizou desculpas circunstanciais para continuar avançando, como na primeira Guerra do
Golfo e na da Iugoslávia. Mas estes eram inimigos insignificantes. A tensão entre a pequena realidade e a
busca doentia de adversários de grande estatura foi gerando megadelírios que começaram a tomar forma em
torno do 11 de setembro de 2001. Não devemos pensar que a guerra infinita contra o terrorismo foi pura
invenção do lobby militar e seu compadre petroleiro, mas sim o resultado de necessidades profundas da
cúpula do capitalismo norte-americano, transbordante de autoritarismo e desejo de rapina, para além das
conspirações mafiosas próprias desse sistema de poder (Beinstein, 2003, p. 26).

Embora não se possa concordar com o conjunto das ideias de Beinstein, sua
percepção da importância da indústria bélica para os EUA é uma contribuição importante para
compreender as últimas ações bélicas norte-americanas, incluindo a recente guerra contra o
Iraque, cuja determinação fundamental se encontra nas necessidades da indústria bélica
norte-americana. A recuperação parcial do capitalismo norte-americano após a Guerra do
Iraque é um elemento que reforça nossa análise. No entanto, a proeminência da indústria
bélica no capitalismo norte-americano tem outros efeitos. Um deles é que o Estado precisa
consumir a produção de armamentos em escala crescente. Para fazer isto, precisa aumentar
os seus recursos ou fazer empréstimos. Aí temos a fonte do endividamento público (Dantas,
2003) e da importância crescente do capital financeiro nos EUA. Assim, o Estado imperialista
norte-americano tem de combater a tendência declinante da taxa de lucro, ampliar o mercado
consumidor, sustentar o crescimento da indústria bélica, vencer a competição
interimperialista etc. Desta forma, o capitalismo norte- americano tem de aumentar a
superexploração local e internacional. Os resultados visíveis desta exploração local são
visíveis na nova política estatal e na lumpemproletarização de grande parte da população
norte-americana, e nas consequências disto, incluindo o aumento da violência e a
concretização da ideologia neoliberal do “Estado forte”, o Estado Penal, segundo Wacquant
(2001).
A exploração internacional, que é a que aqui nos interessa, manifesta- se sob várias
formas, entre elas, a busca de uma nova política internacional para a América Latina, visando
integrar o capitalismo subordinado do continente num sistema de exploração ainda mais
intenso. Este é o caso da NAFTA e ALCA. A NAFTA – Tratado de Livre Comércio da América do
Norte, surgiu em 1994, e seus países integrantes são os EUA, Canadá e México. O processo de
superexploração atingiu o México, que sofreu interferências em sua política interna, aumento
da miséria e desigualdades redução dos salários (o que também ocorreu no Canadá e EUA,
mas com maior intensidade no elo mais fraco, atingindo mais intensamente os já
superexplorados trabalhadores mexicanos), predomínio do capital transnacional norte-
americano, lumpemproletarização (200 mil desempregados foram produzidos apenas no setor
privado), solapamento da legislação trabalhista etc.
Isso, sem dúvida, serviu aos interesses do capitalismo norte-americano, mas é
insuficiente, e, por isso, novas ações devem ser implementadas. É neste contexto que surgem
o projeto da ALCA, o Plano Colômbia, as ações bélicas no Iraque e outras iniciativas norte-
americanas, tal como o protecionismo voltado para as outras potências imperialistas. A ALCA
faz parte da competição interimperialista norte-americana e visa conter suas dificuldades de
acumulação de capital. Segundo Petras, ela é incentivada pelo aprofundamento das
dificuldades do capitalismo norte-americano e pela “crescente competitividade” da Europa e
Ásia:

Num tempo de crise interna e externa e de crescente competitividade, Washington precisa se
apoderar de uma maior parte do mercado latino-americano, suas empresas e recursos naturais. A ALCA
estabeleceria a supremacia das companhias multinacionais dos Estados Unidos sobre os concorrentes
europeus, dando-lhes prioridade de acesso ao comércio e aos mercados. “Livre comércio” dentro da ALCA
significa controle monopolista dos Estados Unidos sobre seus competidores latino-americanos, especialmente
se forem consideradas as restrições protecionistas que Washington quer impor às exportações latino-
americanas (Petras, 2002, p. 27).

Assim, a ALCA é a “extensão lógica” do neoliberalismo ao continente americano
(Petras, 2002). Sem dúvida, ela é uma estratégia norte-americana na competição
interimperialista, bem como uma busca de superar as dificuldades da acumulação de capital.
Mas o caráter muito mais ofensivo, expresso na ação norte-americana com a NAFTA e ALCA,
não é derivado somente de sua posição de grande potência mundial e de sua força militar, mas
também de sua necessidade crescente de drenar mais-valor do capitalismo subordinado – no
caso, do capitalismo latino-americano.
A política internacional norte-americana de aumentar a exploração e possibilitar a
reprodução ampliada do capital bélico é reforçada pelo Plano Colômbia. Segundo Petras, o
Plano Colômbia é uma estratégia que visa combater a guerrilha (FARC – Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia e ELN – Exército de Libertação Nacional) e evitar uma vitória
das forças populares, que serviriam de exemplo a outras iniciativas e permitir uma aliança
entre Cuba- Venezuela-Colômbia, constituindo uma força econômica, política e militar
“formidável” e “poderosa” que seria “um sistema socioeconômico alternativo ao modelo
neoliberal” comandado pelos EUA. Interpretação curiosa e discutível. Em primeiro lugar, dizer
que Cuba, Venezuela e Colômbia formariam um bloco “formidável” ou “poderoso” é, no
mínimo, risível. Considerar que países mais pobres do que o Iraque poderiam, numa aliança
de pobres, competir com os EUA, seja do ponto de vista militar ou econômico, não tem o
menor sentido. Além disso, revive a ilusão de um nacionalismo terceiro-mundista, de redenção
do capitalismo subordinado via associação de subordinados que, no mínimo, para sobreviver,
teriam de executar a mesma superexploração planejada pelos EUA, a não ser que
caminhassem rumo ao socialismo, mas isto só ocorreria se houvesse uma revolução proletária
em Cuba, na Venezuela e a na Colômbia (pois dificilmente se poderia pensar que as FARC ou o
ELN poderiam implantar outra coisa que não um capitalismo de estado). Por fim, acreditar
que o motivo do Plano Colômbia se encontra no movimento guerrilheiro é o mesmo que
acreditar que a invasão do Iraque foi provocada pelas supostas armas nucleares lá existentes.
Na verdade, o Plano Colômbia visa servir aos interesses de reprodução ampliada do
capital bélico e possibilitar o controle da região para permitir o aumento da exploração e
impedir o surgimento de insurreições populares, e não a guerrilha propriamente dita. Os
Estados Unidos criam um inimigo imaginário, tal como aconteceu com o Afeganistão e Iraque,
para legitimar e justificar sua investida. Tal inimigo imaginário são as FARC e ELN, que, na
verdade, não constituem ameaças reais. A geopolítica aponta para a militarização da Colômbia
e região próxima, que serve de ponto de apoio para a intervenção em toda a América Latina,
não devido a movimentos guerrilheiros e outros tipos de movimentos existentes (Movimento
dos Sem-Terra, no Brasil, citado por Petras), e sim devido à tendência de ascensão de fortes
lutas sociais devido ao aumento da exploração, crescimento da miséria, lumpemproletarização
etc. em países cujo nível de vida já é extremamente precário.
Assim, a especificidade do imperialismo norte-americano advém de sua supremacia
mundial e da importância assumida pela indústria bélica no seu processo de reprodução, o
que gera sua política militarista e ofensiva. No entanto, a intensificação da exploração tende a
provocar a intensificação das lutas e resistências, e a repressão a estas, já planejada gera
mais luta e resistência. A política norte-americana também faz dos EUA o alvo principal de
fundamentalismos religiosos, nacionalismos, pacifismos, o que corrói em parte sua
legitimidade. Assim, a exploração crescente gera uma luta crescente, o que já se esboça no
mundo inteiro, e junto com isso a possibilidade de transformação social. O imperialismo, isto
é, o capitalismo mundial, é o seu próprio coveiro.

Considerações finais


O conceito de neoimperialismo expressa a nova realidade do capitalismo mundial, na
era da acumulação integral. O imperialismo assume a mesma ferocidade em busca da
ampliação da exploração internacional com que o capital busca aumentar a taxa de exploração
do proletariado e outros segmentos sociais. Não se trata de uma novidade radical, pois o
capitalismo e o imperialismo, seu derivado lógico e histórico, continuam possuindo a mesma
essência, embora com mudanças formais, concretas, resultado dos primeiros sinais de
esgotamento daquele.
O regime de acumulação integral vem para substituir o regime de acumulação
intensivo-extensivo. Os regimes de acumulação são formas assumidas pelo capitalismo
derivadas das lutas de classes e formam novas configurações no Estado, no processo de
valorização e nas relações internacionais, seus elementos básicos e definidores, mas também
em outras esferas, como a cultural, ideológica, científica, cotidiana etc., criando novos
materiais para novas lutas de classes. O regime de acumulação integral é, simultaneamente,
um produto do desenvolvimento capitalista espontâneo e uma resposta específica para sua
tendência à autodissolução e/ou à radicalização das lutas de classes. O capitalismo não é
eterno, a-histórico. Como todos os demais modos de produção, ele é histórico, transitório.
Embora tenha mostrado notável capacidade de superar suas crises, de integrar as classes
exploradas, de combater sua tendência à dissolução, tal processo é limitado, não pode ocorrer
indefinidamente. Cada novo regime de acumulação se reproduz com cada vez mais
dificuldades. Isto foi ofuscado pelo regime de acumulação intensivo-extensivo, que deslocou as
contradições maiores para o chamado “Terceiro Mundo” e assim conseguiu uma estabilidade
relativa, e, devido à colonização cultural que o bloco imperialista exerce sobre a cultura do
capitalismo subordinado, a luta de classes foi jogada para fora da realidade, como resíduo do
século XIX e início do século XX.
Hoje, no entanto, fica cada vez mais visível a falsidade disso. Embora muitos já o
denunciassem, agora a sua visibilidade atinge uma parcela maior da população, e já não é
mais possível sustentar as ideologias do fim da história e da eternidade do capitalismo. O
regime de acumulação integral, necessidade do capital para garantir sua sobrevivência,
mostra a dura realidade da historicidade do capitalismo e do barbarismo que ele pode gerar
para tentar resistir ao processo de sua derrocada. Assim, vivemos numa época de exploração
integral, inclusive no nível internacional. Neste sentido, é plenamente justificado o uso do
conceito de neoimperialismo, que aprofunda elementos do imperialismo fundamentado no
regime de acumulação anterior, mas inova formalmente e busca, seguindo a dinâmica da
acumulação integral, intensificar o processo de exploração no nível internacional. Lênin havia
dito que o imperialismo financeiro do final do século XIX e início do século XX era a “fase
superior do capitalismo” (Lênin, 1987), o que foi um equívoco, pois ele não percebeu que o
imperialismo poderia ser o sustentáculo da reprodução mundial do capitalismo, tal como
aconteceu no pós-Segunda Guerra Mundial. Isto proporcionou concessões para os explorados
e oprimidos do bloco imperialista, mas atualmente o processo está se invertendo devido às
dificuldades de reprodução do capitalismo, e as concessões são abolidas, bem como se acirra a
exploração no bloco subordinado. Um novo regime de acumulação, uma nova época de lutas.
No entanto, tal regime de acumulação ainda não concretizou seu ciclo de formação, ainda não
se formou totalmente, e a efetivação disto pode tornar as coisas piores do que estão. As lutas
sociais é que definirão algumas características deste novo regime de acumulação ou, se ele
atingir um certo nível de radicalização, podem levar à sua abolição, que só pode ocorrer com a
abolição do capitalismo.
PARTE III – Acumulação Integral e
Ideologia
1 – Crítica à Ideologia da Globalização

O processo de desenvolvimento capitalista é marcado pela sucessão de regimes de


acumulação. Estas mutações nos regimes de acumulação provocam mudanças nas esferas
ideológicas, políticas e culturais. O atual regime de acumulação, que vem se desenvolvendo
principalmente a partir dos anos 80 e se ampliando em escala mundial, produz mudanças nas
esferas das relações de produção e distribuição, o que provoca também mudanças culturais.
Uma das características destas mudanças culturais reside no fato de criarem representações e
ideologias descritivas e normativas da realidade que, devido ao seu caráter descritivo,
parecem expressar a realidade e ser confirmada por ela. Este é o caso da ideologia da
globalização. É justamente esta ideologia contemporânea que abordaremos no presente texto.
Mas antes de aprofundarmos a questão da ideologia da globalização, vamos discutir
um pouco mais esta questão da relação entre regime de acumulação e ideologias
contemporâneas. Os regimes de acumulação produzem ideologias e representações que os
abordam de forma descritiva e normativa. Estas ideologias (bem como as representações
cotidianas que as influenciam e são influenciadas por elas) são manifestações descritivas da
realidade e a interpretam de forma fatalista, normativa e, de certa forma, grotesca. Invertem a
realidade e tomam o empírico como real, não distinguindo entre essência, existência e
aparência e tomando esta última como a única realidade pensável e possível. Procedimento
metodológico oposto ao de Karl Marx, que, em O Capital, apontou os elementos que
expressam a essência do modo de produção capitalista e suas formas de existência, além de
criticar as ideologias (economia política inglesa, clássica, vulgar e eclética) que se iludem com
a aparência.
Obviamente Marx, embora tenha apontado as tendências históricas do capitalismo,
realizou sua análise dentro do quadro do regime de acumulação extensivo (século XIX), que já
traz em si os germens do regime de acumulação intensivo (final do século XIX e início do
século XX). No entanto, a essência do modo de produção capitalista não muda com os regimes
de acumulação, pois estes são formas de manifestação histórico-concreta daquele. No entanto,
a mudança do regime de acumulação promoveu, por exemplo, mudanças culturais que
atingiram até a interpretação do pensamento de Marx. No regime de acumulação intensivo se
apontou a chamada “crise do marxismo”, e nasceu o revisionismo socialdemocrata. Bernstein
(1997), o principal representante desta ideologia, considerava as teses de Marx ultrapassadas
pelas transformações do capitalismo e interpretava estas transformações de forma descritiva e
normativa. Isto lhe rendeu críticas por partes de opositores superficiais (e que, por isso,
ficavam no mesmo quadro intelectual conservador) e radicais (aqueles que realizam a crítica
do novo regime de acumulação enquanto manifestação do desenvolvimento capitalista, o que
significa uma crítica não só a determinado regime de acumulação, mas à essência do
capitalismo).
No prosseguimento histórico, temos a instauração do regime de acumulação
intensivo-extensivo (Viana, 2003), marcado pela expansão do fordismo, estado integracionista
e imperialismo. Fundado na expansão transnacional, este cria também suas ideologias,
também descritivo-normativas, indo desde T. H. Marshall até chegar à sua “esquerda”,
representada pela nova socialdemocracia conservadora e pelo eurocomunismo, bem como
pela Escola de Frankfurt, a sua expressão mais intelectualizada e avançada, que poderia ter
ultrapassado suas limitações superando o seu pessimismo (Adorno e Horkheimer e a tese da
indústria cultural) e reformismo (Adorno e sua concepção de educação). Em sua produção
mais radical, expressa em Marcuse, colocou a transformação social em destaque, mas sem
uma visão concreta das relações internacionais, o que gerou a tese de que o proletariado
haveria deixado de ser o sujeito revolucionário, sem perceber o processo de exploração
internacional que amenizava os conflitos de classes nos países imperialistas17.
Hoje temos muitos Bersteins... Basta ver as ideologias descritivo- normativas do
capitalismo fundado no regime de acumulação integral, indo desde Fukuyama e Giddens até
chegar ao “centro” (Habermas) e, novamente, à sua “esquerda” (Toni Negri, por exemplo). E
tais ideologias não só apresentam uma descrição normativa do atual regime de acumulação
como reinterpretam a história e o regime de acumulação anterior. Este é o caso daqueles que
falam de “modo de produção fordista” para se referir ao regime de acumulação intensivo-
extensivo (Toni Negri, Escola Regulacionista etc.), apresentando um regime de acumulação
como um modo de produção, fazendo uma confusão conveniente para os interesses da classe
dominante e também daqueles que possuem ideologias bem mais conservadoras, as que
sustentam a existência de uma sociedade pós-moderna, pós-capitalista (o que já está em
Negri, apesar de ele se declarar de “esquerda”).
É neste contexto que surge uma “nova linguagem”, carregada de eufemismos e
cristalizações, visando, no primeiro caso, amortecer o impacto da realidade caracterizada por
um aumento da exploração e miséria, e, no segundo caso, normatizar e desistoricizar as novas
realidades. Bourdieu denominou isto “novilíngua”:

Em todos os países avançados, patrões, altos funcionários internacionais, intelectuais de projeção
nos mass media e jornalistas do top estão de acordo em falar uma estranha novilíngua cujo vocabulário,
aparentemente sem origem, circula por todas as bocas: “globalização”, “flexibilidade”, “governabilidade” e
“empregabilidade”, “underclass” e “exclusão”, “nova economia” e “tolerância zero”, “comunitarismo”,
“multiculturalismo” e os seus primos “pós-modernos”, “etnicidade”, “minoridade”, “identidade”,
“fragmentação” etc. (Bourdieu, 2004).

Este é o caso do termo “globalização”, citado por Bourdieu. Iremos, a partir de
agora, realizar a crítica da ideologia da globalização, que faz parte de um processo muito mais
amplo e que leva a uma crítica da base real desta ideologia e dos seus desdobramentos, bem
como um posicionamento diante do atual estado de coisas.
A ideologia da globalização aponta a existência de algo novo, mas ao mesmo tempo
esconde o que realmente existe de novo na atual fase do desenvolvimento capitalista,
ofuscando as verdadeiras relações sociais. Destacaremos, inicialmente, as principais teses
falsas desta ideologia e apresentaremos posteriormente, de forma breve, as características
essenciais do novo regime de acumulação e sua relação com a ideologia da globalização.
Refutaremos as seguintes teses globalistas: a) a globalização (e, por conseguinte, a
ideologia da globalização) constitui uma novidade histórica radical; b) a globalização é
inevitável; c) a globalização promove uma uniformização mundial.
O fenômeno chamado de “globalização” não é uma novidade histórica. Esse
eufemismo (“globalização” ou “mundialização”) vem, na verdade, ocultar, simultaneamente, o
que é novo e o que é velho, a continuidade e a descontinuidade. O que é velho – o que
demonstra que tal fenômeno não é totalmente “novo” ou “original” – é o processo de expansão
mundial do capitalismo através da exploração internacional, que surge com o processo de
acumulação primitiva de capital e se desdobra nas formas posteriores assumidas pelo
imperialismo. O que é novo é a forma como isto ocorre, através da intensificação da
exploração internacional de acordo com a lógica do novo regime de acumulação integral. Na
ideologia da globalização, o ocultamento do processo de exploração permite abolir a
continuidade e, ao mesmo tempo, a descontinuidade, produzindo uma novidade histórica
inexistente na realidade concreta, pois é justamente a exploração internacional que fornece
inteligibilidade a este processo histórico. Se o fenômeno concreto é novo, tal como afirmam os
ideólogos globalistas, então a ideologia que lhe “retrata” também é. Mas da mesma forma que
a realidade não é tão nova assim, a ideologia também não é. O que a ideologia globalista traz
de velho é a visão do processo mundial de expansão mundial do capitalismo, e o que traz de
novo é o ocultamento da essência deste processo, a questão da exploração internacional, o
imperialismo. Esta ideologia se apega às mudanças superficiais, à aparência do fenômeno, e,
ao isolar a manifestação fenomenal do processo e separá-lo de sua essência, pode postular sua
“novidade”, tanto do fenômeno quanto de sua expressão ideológica. Além disso, a
inevitabilidade é afirmada de forma fatalista pela ideologia globalista:

A “globalização” está na ordem do dia; uma palavra da moda que se transforma rapidamente em
um lema, uma encantação mágica, uma senha capaz de abrir as portas de todos os mistérios presentes e
futuros. Para alguns, “globalização” é o que devemos fazer se quisermos ser felizes; para outros, é a causa de
nossa infelicidade. Para todos, porém, “globalização” é o destino irremediável do mundo, um processo
irreversível; é também um processo que nos afeta na mesma medida e da mesma maneira. Estamos todos
sendo “globalizados” – e isso significa basicamente o mesmo para todos (Bauman, 1999, p. 7).

A visão fatalista da ideologia globalista é apenas a forma de manifestação da
imposição ideológica que quer abolir a oposição, tanto no nível do pensamento quanto no nível
político. A globalização é inevitável, e a descrição da realidade contemporânea parece
confirmar isto e legitimar o normativismo fatalista que a acompanha. A ideologia globalista
tem o mesmo destino da realidade que ela expressa de forma invertida18. Ela se torna o
pensamento único:

Todas as palavras da moda tendem a um mesmo destino: quanto mais experiências pretendem
explicar, mais opacas se tornam. Quanto mais numerosas as verdades ortodoxas que desalojam e superam,
mais rápido se tornam cânones inquestionáveis. As práticas humanas que o conceito tentou originalmente
captar saem do alcance da vista e são agora os “fatos materiais”, a qualidade do “mundo lá fora” que o termo
parece “esclarecer” e que ele invoca para reivindicar sua própria imunidade ao questionamento. A
“globalização” não é exceção à regra (Bauman, 1999, p. 7).

A dinâmica do capitalismo mundial promove o neoimperialismo (“globalização”, na
sua forma ideológica de aparecer, tornando visível apenas sua face “empírica” e
imediatamente visível, aparente, tal como nas mudanças tecnológicas, no fortalecimento das
organizações internacionais, no fim de barreiras internacionais etc.) para combater a
tendência declinante da taxa de lucro, mas este processo é marcado por lutas, resistências,
avanços e recuos, bem como por disputas interimperialistas. Mas sua própria constituição tem
origem nas lutas de classes, na esfera da produção, nos países imperialistas e subordinados e
na sociedade civil, com a ofensiva burguesa e o recuo do movimento operário e demais setores
oprimidos, pelo menos num primeiro momento, pois a partir do final dos anos 90 se começa a
fortalecer a luta contrária ao neoimperialismo e tudo que lhe acompanha. O neoimperialismo é
um dos pilares do novo regime de acumulação. Ele, ao lado das mudanças na esfera da
produção (toyotismo e modelos similares) e do Estado (neoliberalismo) e que são
complementares, forma os elementos constituintes e característicos do regime de acumulação
integral.
A globalização é, geralmente, apresentada como um processo de uniformização da
economia mundial. Essa concepção, entretanto, é falsa. As transformações que ocorrem no
mundo contemporâneo não significam um processo de uniformização, e sim uma nova fase do
capitalismo mundial. O que se chama de “globalização” é, na verdade, uma reconversão
capitalista constituída a partir da instauração de um novo regime de acumulação.
O que significa isso? Só uma análise do capitalismo mundial poderá responder a esta
questão. Ao contrário dos modos de produção pré-capitalistas (escravismo, feudalismo etc.), o
capitalismo só pode viver em constante expansão. O caráter expansionista do capitalismo se
revela, inicialmente, na necessidade de acumulação primitiva de capital, e o sistema colonial
surge para drenar os recursos que possibilitam a expansão da produção capitalista,
juntamente com outras formas de exploração.
A necessidade de força de trabalho abundante, matéria-prima, mercado consumidor
etc. faz com que o capitalismo, em seu contato com modos de produção pré-capitalistas, dê
origem a relações de produção não-capitalistas que lhes são subordinadas, como o modo de
produção camponês, o modo de produção escravista colonial etc. Os modos de produção
subordinados, principalmente os de outras nações, são paulatinamente convertidos ao
capitalismo, pois este, num primeiro momento, controla a esfera da distribuição dos modos de
produção subordinados nos países coloniais e depois passa a interferir na própria esfera da
produção, implantando relações de produção capitalistas.
Essa conversão dos países coloniais ao capitalismo se dá de forma subordinada, ou
seja, é realizada sob o signo do imperialismo. Isto ocorre por vários motivos, sendo que se
destacam os seguintes:
a) os países capitalistas que se industrializaram inicialmente conseguiram, graças à
acumulação de capital realizada, manter a subordinação dos países capitalistas retardatários;
b) o processo de centralização e concentração de capital ocorre em nível mundial e
não apenas nacional;
c) os países capitalistas retardatários são inseridos de forma desvantajosa no
capitalismo mundial, devido a sua acumulação incipiente de capital, seu desenvolvimento
tecnológico inferior, um mercado mundial já dividido entre os países mais industrializados etc.
A implantação de relações de produção de forma subordinada aos países capitalistas
produz um processo constante de reconversão capitalista, processo no qual os países mais
desenvolvidos sofrem alterações formais e as exportam para os países subordinados,
reconvertendo- os e adaptando-os à nova dinâmica da produção capitalista. Entretanto, esta
reconversão capitalista, nos países subordinados, sempre ocorre a posteriori, ou seja, somente
algum tempo após sua realização e consolidação nos países mais desenvolvidos é que ela
ocorre nos países capitalistas subordinados. Há, assim, um processo de irradiação das
transformações do capitalismo dos países imperialistas aos países subordinados. Isto também
significa que a tese de que os países “subdesenvolvidos” não podem se desenvolver é
equivocada, pois este desenvolvimento não só é possível como é impulsionado pelo
desenvolvimento dos países mais desenvolvidos. O que é impossível é um desenvolvimento
autônomo dos países capitalistas subordinados.
Por conseguinte, a chamada “globalização da economia” que vem sendo
propagandeada pelos ideólogos da burguesia como se fosse uma novidade histórica não passa
de um fenômeno que acompanha o capitalismo desde seu surgimento. Além disso, a
“originalidade” da ideia de globalização não passa de uma farsa acadêmica, pois há muito
tempo se estuda o processo de irradiação capitalista:

O processo de propagação-mundialização a partir de um foco capitalista inicial produz uma
estrutura espacial não-igualitária. Esse tipo de estrutura permite o fortalecimento do desenvolvimento das
forças produtivas do centro em detrimento das zonas periféricas e, por conseguinte (...), uma intensificação do
processo de propagação-mundialização. Assim, Marx analisa um processo contraditório, que nos permite
compreender ao mesmo tempo o desenvolvimento do centro em detrimento das zonas periféricas
(essencialmente os “círculos” mais afastados do centro quanto ao nível de produtividade) e o desenvolvimento
concêntrico a partir das zonas mais “próximas” do foco. Desse modo, Marx supera dialeticamente as análises
ortodoxas dos efeitos desenvolvimentistas do capitalismo com relação à periferia, bem como algumas análises
de seus continuadores, que põem o acento tão-somente sobre o desenvolvimento do subdesenvolvimento.
Através de um único movimento, o capitalismo central alimenta sua superacumulação por meio de uma
extorsão na periferia e só pode encontrar solução para essa indigestão ao se propagar e ao impor em círculos
cada vez mais próximos seu modo peculiar de desenvolvimento das forças produtivas e suas relações sociais.
O foco desenvolve-se e estende-se, saqueando em torno de si, donde certamente resulta o desenvolvimento,
além da desigualdade crescente e, com a dissolução dos antigos modos de produção, a ruína e a morte na
periferia (Dockès, 1976, p. 163-164).

Sem dúvida, há um desenvolvimento nos países subordinados. No entanto, este é um
desenvolvimento subordinado. O que significa isto? Significa que é um desenvolvimento
dirigido pelos países imperialistas e que estes retiram vantagens deste desenvolvimento. Na
verdade, esta subordinação significa uma modernização dos países subordinados, mas que não
gera um desenvolvimento suficiente para alcançar os níveis dos países imperialistas, pois ele
ocorre de acordo com os ditames do mercado mundial e dos organismos internacionais
controlados pelas potências imperialistas. Segundo A. Emmanuel,

Desta forma, quando Hubert Deschamp escreve no caderno n. 39 do Tiers Monde que o “algodão
indiano abastecia o Lancashire e os tecidos ingleses vestiam os indianos”, tem-se que reconhecer que este
ponto de vista é menos débil do que parece. Os termos da troca mudaram, e a Inglaterra abandonou os tecidos
de algodão. Desde então, ao invés de haver troca de tecido de algodão inglês por algodão indiano, há tecido de
algodão indiano em troca de diferentes tecidos ingleses, e logo depois diversos tecidos indianos em troca de
máquinas inglesas, e assim sucessivamente. Pode-se imaginar – ao menos teoricamente – um deslocamento
semelhante até o infinito (Emannuel, 1981, p. 32).

Além disso, esta reconversão capitalista ocorre de forma contraditória. A contradição
é provocada pela subordinação. O capitalismo subordinado é submetido à divisão
internacional do trabalho e todas as suas alterações só ocorrem quando ele passa a cumprir
um novo papel no contexto do capitalismo mundial. A subordinação implica a transferência de
mais-valor dos países subordinados para os países imperialistas. Segundo Pierre Dockès:

Numa economia capitalista, toda divisão do trabalho é produzida pelo capital; a divisão
internacional, portanto, não escapa evidentemente a essa regra. Os trabalhadores de uma cidade, de uma
região ou de uma nação não têm liberdade real de escolher sua especialização. Em escala mundial,
encontramo-nos igualmente em presença seja de uma divisão despótica do trabalho, seja de uma divisão
mercantil do trabalho. As relações entre as economias nacionais foram por muito tempo quase exclusivamente
fundadas sobre a opressão pura e simples, sobre o colonialismo. Com o recuo deste tipo de opressão, o
recurso à divisão mercantil internacional parece generalizar-se. Mas as relações mercantis são conservadas
apenas na medida em que são mais eficientes do que as relações despóticas: toda ruptura, pelo país
dominado, das regras do jogo liberal que o oprime (constituição de um sindicato de nações etc.) apresenta o
risco de produzir um retorno flamejante de despotismo. (...). A divisão internacional, como toda divisão
capitalista do trabalho, produz desigualdade e dependência entre as nações. Como, ademais, o alargamento
do mercado induz ao aprofundamento da divisão intranacional, as desigualdades sociais e regionais se
reforçam ainda mais (Dockès, 1976, p. 251).

O que hoje se chama “globalização” é, na verdade, uma nova fase da constante
reconversão capitalista, em que, como sempre, os países subordinados se inserem de forma
desvantajosa e contraditória no novo contexto do capitalismo mundial, marcado pela
instauração do regime de acumulação integral. Isto significa que o conjunto de
transformações que constitui o que se chama “globalização” chega aos países capitalistas
subordinados depois de ter ocorrido nos países imperialistas e de forma muito mais lenta.
Além disso, estas mudanças ocorrem no interior de uma relação de subordinação, o
que significa que ocorrem num contexto de exploração dos países subordinados pelos países
imperialistas. Daí o acirramento das lutas de classes e dos conflitos sociais nos países
subordinados. A “política neoliberal”, a “reestruturação produtiva”, as “inovações
tecnológicas” encontram um duplo obstáculo: a debilidade da classe dominante local e a
resistência da classe operária. Isto agrava os conflitos e reforça o acirramento da luta de
classes.
No entanto, o neoliberalismo possui duas faces: nos países capitalistas imperialistas
ele diminui a política social e a intervenção na produção, intensifica a repressão, pois é um
“estado mínimo” e “forte”, como já pregava Bobbio (1987), mas é protecionista, o que lhe
permite buscar aumentar a exploração internacional e drenar um maior quantum de mais-
valor, principalmente com a implantação do neoliberalismo subordinado nos demais países
capitalistas; nos países capitalistas subordinados ele apresenta as mesmas características,
com exceção do protecionismo, isto é, é um neoliberalismo subordinado devido ao processo de
exploração e dominação no capitalismo mundial.
A nova situação é marcada pela implantação de um novo regime de acumulação que
se caracteriza pelo aumento do processo de exploração e pela ofensiva da classe dominante
por detrás disso. A tendência mundial de queda da taxa de lucro médio e a busca dos países
capitalistas imperialistas em compensar isto através do aumento da exploração, tanto interna
(dos trabalhadores locais), quanto externa (dos países capitalistas subordinados, ou seja, dos
trabalhadores destes países), é uma realidade e caracteriza um neoimperialismo.
A evolução do capitalismo mundial é marcada por uma constante alteração na
divisão internacional do trabalho que realiza uma reconversão capitalista dos países
subordinados, inserindo-os numa nova fase do desenvolvimento capitalista. Este processo é
marcado pela exploração dos países subordinados e pela exportação da miséria e dos conflitos
sociais para estes países. O processo de exploração internacional é um elemento característico
e essencial do capitalismo, mas as formas como realiza isto se alteram historicamente, de
acordo com a dinâmica da luta de classes tanto nos países imperialistas quanto nos países
capitalistas subordinados. Daí as mudanças nos regimes de acumulação e nas relações
internacionais.
Ocorre, porém, que a situação atual do capitalismo se caracteriza por uma queda da
taxa de lucro médio, e por isso a forma de exploração imperialista existente até a década de
80 não é suficiente para controlar essa queda e manter a estabilidade capitalista. Assim, a
busca do aumento da exploração da classe trabalhadora é reforçada. Esta é a causa da
chamada “reestruturação produtiva” e da “política neoliberal”. Tanto uma quanto a outra vêm
para aumentar a exploração dos trabalhadores.
Acontece que a chamada “reestruturação produtiva” e o “neoliberalismo” são
exportados para os países subordinados (já superexplorados), mas também são aplicados nos
próprios países imperialistas, obviamente com diferenças formais. Isso significa uma expansão
do processo de exploração em escala mundial. Entretanto, nos países capitalistas
subordinados, sua implantação encontra uma resistência muito mais forte e reproduz em
escala ampliada os conflitos sociais.
Isso é a chamada “globalização”. Mas essa palavra ofusca o verdadeiro caráter da
atual fase do capitalismo mundial. A ideologia da globalização é a forma como a classe
dominante, através de seus ideólogos, apresenta o capitalismo mundial em sua luta para
combater a tendência declinante da taxa de lucro médio que ocorre hoje em escala mundial,
ou, para utilizar expressão da moda, “global”. O novo regime de acumulação, fundado na
busca de aumento do processo de exploração, aponta para a generalização da exploração e
novos conflitos sociais. Neste sentido, devemos desmascarar esta ideologia, pois a luta
cultural é parte do processo da luta operária contra o capital.
Esta nova fase do capitalismo mundial produz mudanças culturais bastante visíveis.
A produção ideológica aponta para o fim da história, isto é, a vitória definitiva do novo regime
de acumulação, tal como propõe Francis Fukuyama, funcionário do governo norte-americano,
no final da década de 80 em artigo desenvolvido como livro em 1990:

Ao chegarmos a 1990, o mundo como um todo não nos revelou novos males, mas apresenta uma
melhora sob certos aspectos distintos. A maior das surpresas ocorridas no passado recente foi o colapso
totalmente inesperado do comunismo em quase todo o mundo no fim da década de 1980. Porém, essa
ocorrência, sem dúvida espantosa, foi apenas uma parte de um padrão de eventos mais amplo que vem se
formando desde a Segunda Guerra Mundial. Ditaduras totalitárias de todos os tipos, tanto de Direita quanto
de Esquerda, entraram em colapso. Em alguns casos, o colapso levou ao estabelecimento de democracias
liberais prósperas e estáveis (Fukuyama, 1992, p. 39).

Algumas deficiências de Fukuyama já foram apontadas (Anderson, 1996), mas o
esquema abstrato-metafísico fundado numa filosofia da história presa ao positivismo clássico
(a tese do Estado positivo, enquanto último estágio do desenvolvimento da humanidade) é
produto das novas formas de produção cultural da burguesia, que quer, à força e contra todas
as evidências sociais e históricas, abolir a historicidade do capitalismo para eternizá-lo. Isto é
feito sob variadas formas, desde a mais conservadora, expressa por Fukuyama, passando por
teses consideradas mais à esquerda, tal como se vê em Habermas e sua ideia de “esgotamento
das energias utópicas”, abordada no capítulo anterior, até chegar àqueles que buscam fazer
mudanças dentro da ordem, através de isolamento e fragmentação da realidade social e das
lutas sociais, desligando-as da busca de transformação social total, o que significa a
permanência da totalidade da sociedade capitalista convivendo com pequenas reformas no seu
interior. Trata-se de um microrreformismo que se coloca como de “esquerda” e libertário,
realizando a crítica do marxismo e buscando substituí-lo enquanto concepção aglutinadora dos
descontentes com a civilização burguesa. Há também aqueles que são semelhantes à
Fukuyama e pregam que já vivemos no pós-capitalismo (as ideologias da “sociedade pós-
industrial” e “pós-moderna”) e que por isso não há mais sentido em pensar em processos
revolucionários no mundo contemporâneo.
Além disso, o cerco do processo de produção e reprodução cultural do capitalismo se
fecha e radicaliza, não somente através de sua ofensiva ideológica como também via controle
sobre tal produção. É isto que coloca Chossudovsky:

Desde o início da década de 80, o discurso econômico dominante tem aumentado sua influência nas
instituições acadêmicas e de pesquisa em todo o mundo: a análise crítica é fortemente desestimulada; a
realidade social e econômica deve ser vista através de um único conjunto de relações econômicas fictícias,
cuja finalidade é dissimular as manipulações do sistema econômico global. Estudiosos das principais correntes
econômicas produzem teoria sem fatos (“teoria pura”) e fatos sem teoria (“economia aplicada”). O dogma
econômico dominante não admite nem divergências nem discussão sobre seu paradigma teórico básico: a
principal função das universidades é produzir uma geração de economistas leais e confiáveis que sejam
incapazes de desvendar os fundamentos sociais da economia de mercado global. Da mesma forma os
intelectuais do Terceiro Mundo são cada vez mais recrutados para apoiar o paradigma neoliberal; a
internacionalização da “ciência” econômica apoia sem reservas o processo de reestruturação econômica
global (Chossudovsky, 1999, p. 34).

Assim, o que está por detrás do neoimperialismo, eufemisticamente chamado de
“globalização”, são a tendência mundial declinante da taxa de lucro e a ofensiva do capital
para recuperar o que vem perdendo, aumentando a exploração em geral, tanto nacional
quanto internacional, dos operários e de outros segmentos sociais, é algo que os economistas
não dizem e não conhecem. O lucro é a mola propulsora do neoimperialismo. Este busca
aumentar a exploração internacional através da intensificação da transferência de mais-valor.

O lucro, que é o nervo e está no coração de toda acusação contra o sistema atual, é
permanentemente evitado, sistematicamente esquecido, a ponto de nunca ser evocado e de seu
escamoteamento passar mesmo despercebido. Seu julgamento, apesar de essencial, nunca é iniciado ou
mesmo vislumbrado (Forrester, 2001, p. 26).

Mas o pensamento único não pode assumir-se como tal, e assim o neoliberalismo cria
sua própria esquerda. Os neoliberais de esquerda são produtos do neoliberalismo e de seu
complemento microrreformista. Segundo Chossudovsky:

Esse dogma neoliberal “oficial” também cria o seu próprio “contraparadigma”, incorporando um
discurso altamente moral e ético, que se concentra no “desenvolvimento sustentável” e na “diminuição da
pobreza”, ao mesmo tempo em que distorce e “disfarça” as questões políticas referentes à pobreza, à proteção
do meio ambiente e aos direitos sociais das mulheres. Essa “contraideologia” raramente desafia as
prescrições da política neoliberal. Ela se desenvolve paralelamente e em harmonia com o dogma neoliberal
oficial, e não em oposição a ele. Dentro dessa contraideologia (que é generosamente financiada pela
instituição de pesquisa), estudiosos do desenvolvimento encontram um confortável nicho. Seu papel é gerar
(internamente a esse contradiscurso) uma aparência de debate crítico sem tocar nos fundamentos sociais do
sistema de mercado global. O Banco Mundial desempenha um papel-chave nesse particular, promovendo
pesquisa sobre a pobreza e as chamadas “dimensões sociais do ajuste”. Esse enfoque ético e as categorias
subjacentes (por exemplo, diminuição da pobreza, questões ligadas a gênero, equidade etc.) fornecem uma
“face humana” às instituições de Breton Woods e uma aparência de compromisso com a mudança social.
Todavia, uma vez que está funcionalmente divorciada de um entendimento das principais reformas
macroeconômicas, essa análise raramente constitui uma ameaça para a agenda econômica neoliberal
(Chossudovsky, 1999, p. 34-35).

Aqui nós temos uma das bases das novas ideologias tanto da ciência econômica
quanto de outras ciências. O conservadorismo neoliberal traz de volta o individualismo
metodológico e as referências intermináveis à Weber e Nietszche e chega até a ressuscitar
mortos, como Georg Simmel, que passa a ser idolatrado como nunca foi antes, sem falar em
figuras mais medíocres como Pareto, entre outros. Ocorre tanto uma retomada do positivismo
clássico comteano em algumas de suas formulações (a idolatria da ciência e de sua
neutralidade) quanto o apelo a concepções individualistas ou holistas. Por outro lado, a
esquerda neoliberal vem como grande alternativa, querendo sufocar ou assimilar os
verdadeiros discursos críticos (marxismo e anarquismo), e o microrreformismo e “pós-
modernismo crítico” passam a tentar ser contra-hegemônicos, mas no interior do mesmo
universo sociopolítico do pensamento único, o neoliberalismo.
O neoimperialismo é prodigioso em dominar a produção cultural e científica no
mundo inteiro, e, além dos organismos internacionais (Banco Mundial, FMI etc.) e fundações
norte-americanas, temos a hegemonia cultural norte-americana, que vem buscando aumentar
a ferocidade de seu imperialismo cultural. Este tem como fundamento não apenas as suas
fundações (Fundação Rockfeller, por exemplo), mas as empresas transnacionais ligadas ao
capital comunicacional (“indústria cultural”), tais como as grandes redes de comunicação, a
começar pelas grandes editoras (Bourdieu, 2001). A tendência culturalista assume assim um
papel primordial em todo este processo, pois tenta assimilar e integrar as tendências críticas e
se apresenta como nova alternativa, sem romper absolutamente com nada. A opressão da
mulher é substituída pelas ideológicas “relações de gênero” (Viana, 2006), a opressão em
geral é substituída pela “diferença” e assim por diante.
Daí se percebe que as mudanças culturais estão relacionadas às mutações do
capitalismo, e alguns chegam ao absurdo de ir além desta percepção para eleger o cultural
como a própria lógica desta fase do capitalismo (Jameson, 2002). O jogo pelo poder acadêmico
nas esferas universitárias promove a hegemonia culturalista, pois aqueles que ficam do lado
de alguma das diversas formas de ideologia dominante têm o sucesso acadêmico facilitado, e
isto ainda é mais verdadeiro tendo em vista a pobreza intelectual que acompanha estas
tendências, o que provoca uma “economia (poupança) de energia mental” e possibilita a
pensadores medíocres (produtores ou reprodutores) galgarem espaço no mundo acadêmico
através dos modismos adequados aos interesses da classe dominante e de sua micropolítica
acadêmica, formando escolas e grupos de interesses desligados de qualquer compromisso
social.
Este é o quadro geral no qual emerge a ideologia globalista, assumindo várias
formas (Ianni, 1996) e buscando cristalizar e eternizar um processo histórico em andamento e
que caminha para novas irrupções contestadoras e revolucionárias, uma nova vaga
revolucionária que pode lembrar no início do século presente o início do século passado, as
revoluções proletárias do início do século XX, que promoveram o fim do regime de
acumulação intensivo e quase decretaram o fim do capitalismo. Existem aqueles que só
enxergam na miséria a miséria e no presente o presente, enquanto que somente aqueles que
conseguem ver na miséria a negação da miséria e no presente o movimento rumo ao futuro
podem desligar-se das ilusões da época e compreender as possibilidades e tendências do
mundo contemporâneo. O futuro não é o presente, e ele mostrará isto.
2 – Acumulação Integral e Pós-Modernismo

Cada novo regime de acumulação, traz em si, novas manifestações culturais. Tais
manifestações culturais não são “neutras”, são produtos das lutas de classes. Não se trata, no
entanto, de derivação imediata e automática. É um conjunto de manifestações que possui
contradições, e algumas delas são derivações imediatas do regime de acumulação, enquanto
que outras são indiretas ou estão mais relacionadas com aspectos da sociedade que não
aparentam ligação com o processo social global. Há muito se fala em pós-modernismo e
muitos livros já foram escritos para descrevê-lo, explicá-lo, defendê-lo, criticá-lo. A nossa tese
é a de que toda a discussão sobre o pós-modernismo acaba, de uma forma ou de outra, caindo
na autoilusão dos ideólogos “ditos” pós-modernos. O pós-modernismo nem sequer existe.

Pós-Modernismo: Armadilha ideológica


O pós-modernismo é um construto, isto é, um falso conceito (Viana, 1997). Ele não
expressa nenhuma realidade efetiva, a não ser num sentido muito restrito, invertendo esta
realidade. Segundo grande parte daqueles que abordaram tal fenômeno ideológico, ele surge
no mundo artístico e depois entra no mundo filosófico e científico. A emergência do dito pós-
modernismo se daria na arte, principalmente na arquitetura, mas depois se expandindo para a
literatura e outras artes, na década de 70. Embora outros façam uma arqueologia da
expressão (Anderson, 1999), alguns consideram que o fenômeno em si já surge na década de
50 ou 60. Na verdade, a expressão em si é problemática. O que seria o tal pós-modernismo no
mundo artístico? Para alguns, seria uma negação do modernismo, caracterizado por uma
“estética cartesiana” (Subirats, 1986). Esta interpretação não está longe das demais, que,
mesmo enfatizando outro aspecto do modernismo ou utilizando outra linguagem, todos
apontam para a ruptura com o modernismo e seu racionalismo, seu caráter totalizador etc.
Aqui se revela a armadilha do dito pós-modernismo: é acreditar em seu discurso. Na
verdade, a ideologia que utiliza o construto de pós-modernismo cria uma ficção sobre o
modernismo. O modernismo é tido, na maioria dos casos, como algo monolítico, homogêneo.
Assim, o racionalismo, por exemplo, seria uma das características fundamentais do
modernismo, ou a característica fundamental. Isto, no entanto, é um equívoco e não
corresponde à riqueza da realidade concreta. O modernismo, visto desta forma, é uma ficção.
O modernismo, como todas as manifestações culturais em nossa sociedade, é marcado por
diversas correntes, muitas vezes semelhantes, mas também, muitas vezes, divergentes. Sem
falar no antimodernismo que é confundido com o modernismo, que é o marxismo19.
A outra face da armadilha ideológica está em homogeneizar o pós-modernismo, como
se ele também fosse um todo homogêneo. Mas trata-se de um complemento do processo
anterior. No entanto, a ideia-força desta armadilha ideológica está em apresentar o pós-
modernismo como uma grande novidade histórica, antagônica ao modernismo. Se o
modernismo é um todo homogêneo, então pode ser rejeitado em sua totalidade e pode ser
substituído por uma nova forma de arte. A recusa do modernismo, chamada pós-modernismo
seria uma nova forma de arte. Mas, analisando-se a história da arte, vê-se que esta tese
dificilmente é sustentada. O dito pós-modernismo carrega em si elementos presentes em
vários movimentos modernistas, tais como dadaísmo, surrealismo, pop arte, entre outros. Uma
análise na história da arte faz ver muitas semelhanças entre a arte dita moderna e a dita pós-
moderna. Muitos tentam desfazer-se desta obviedade afirmando serem “precursores do pós-
modernismo”, tal como Marcel Duchamp ou, então, que na década de 60 havia emergido o
pós-modernismo com o eixo Duchamp-Cage-Warhol 20. Nenhuma das soluções ultrapassam a
autoilusão da época atual.
O pós-modernismo não é uma novidade histórica radical, pois o antagonismo entre
ele e o dito modernismo é uma criação fictícia. Ele é, na verdade, continuação da arte
moderna, que rompe com alguns aspectos presentes em grande parte dela e assimilando
outros. Ele, também, se inspira em certas correntes da arte moderna, cuja a assimilação é
muito maior, e nega outras correntes, com as quais a oposição também é mais intensa. No
entanto, há uma nova tendência artística, a que se chama costumeiramente de pós-moderna.
Porém, é preciso deixar claro que não é uma superação da arte moderna, é uma continuação
dela, e que também não é homogênea. Além disso, ela não aboliu as demais tendências e por
isso é apenas uma tendência, que, em certo momento histórico, se torna hegemônica.
O que caracteriza esta tendência? Isto já foi percebido, mas as consequências e
importância para explicar sua emergência e essência não foram consideradas em
profundidade. A ruptura que esta tendência realiza com outras tendências modernas, está na
negação das vanguardas artísticas. Assim, o melhor meio de interpretar o dito pós-
modernismo e nomeá-lo corretamente não se encontra numa oposição abstrata e temporal
entre moderno e pós-moderno, e sim na compreensão de mais uma tendência artística que,
surge num determinado momento histórico, como todas as outras, a partir de mudanças
sociais, e que possui algumas características definidoras oriundas do novo contexto histórico.
Desta forma, é necessário deixar de lado a ideia de uma oposição entre moderno e pós-
moderno, pois o que temos é apenas mais uma tendência no interior da arte moderna. Sendo
nova tendência dentro da arte moderna, ela traz em si uma novidade. Porém, não se trata de
uma novidade tão drástica a ponto de postular a superação da arte moderna por uma outra
que seria “pós-moderna”, o que é uma autoilusão bastante pretensiosa.
A recusa das vanguardas é característica comum entre as várias manifestações desta
nova tendência e é por isso, que alguns utilizaram a expressão pós-vanguardismo. Do nosso
ponto de vista, a expressão pós-vanguardismo é mais adequada e menos ilusória que pós-
modernismo. Por isso, alguns falam de “fim das vanguardas” (Ferry, 1994). As vanguardas
artísticas são elementos importantes, presentes na história da arte moderna:

A ideia artística de vanguarda e o conceito de modernidade ou de cultura moderna são afins.
Ambos designam, certamente, realidades distintas: de um lado, determinados movimentos artísticos
caracterizados por uma atitude social beligerante e mesmo agressiva, em todo o caso, de signo crítico; de
outro, a ideia geral de uma idade histórica ou a estrutura de uma civilização que identificamos com razão
científica e com tecnologia, ou, então, ao mesmo tempo, como objetivos sociais como a democracia ou o
socialismo (Subirats, 1986, p. 47).

Não podemos concordar com a totalidade do que está escrito acima. Entretanto, o
parágrafo traz uma relação fundamental para entender a arte moderna: a relação entre
vanguarda e movimento artístico. A arte moderna teve quase toda a sua história marcada por
uma sucessão de movimentos artísticos. Tais movimentos, no entanto, nem sempre eram
críticos, tal como coloca Subirats e a maioria dos intérpretes do “modernismo”. A arte
abstrata e o impressionismo, para citar dois exemplos, não exerceram atividade crítica. Do
ponto de vista histórico-teórico, o que eles expressaram não foi uma recusa da sociedade
burguesa, tal como alguns colocaram como sendo característica de toda a arte moderna, mas,
ao contrário, sua defesa, a partir de um ponto de vista específico, o da esfera artística, através
da ideologia da autonomia da arte. Daí o elitismo, que muitos adeptos do pós-vanguardismo
vão, acertadamente, identificar no “modernismo”, o que é verdade no caso de alguns
movimentos artísticos, mas não em outros. Este elitismo manifesto através de um fetichismo
da arte (Bourdieu, 1996; Viana, 2007a), ao mesmo tempo em que aparentemente afastava a
arte moderna da sociedade burguesa, acabava sendo o equivalente artístico da neutralidade
de valores no mundo científico.
O pós-vanguardismo revela, nada mais nada menos, que a recusa das vanguardas
artísticas, dos movimentos artísticos. Resta saber o motivo de tal recusa. A explicação disto
nos remete à realidade histórico-concreta. E é neste momento que podemos datar o
surgimento do pós-vanguardismo. Huyssen (1992), confundindo semelhanças entre pós-
vanguardistas e tendências vanguardistas da década de 60, acaba afirmando que existia um
pós-modernismo na década de 60 e outro, diferente, na década de 70. O primeiro seria crítico
e vanguardista, enquanto o segundo seria dividido entre uma tendência conservadora e outra
crítica, ambas não-vanguardistas.
Huyssen, por ver semelhanças entre Duchamp, Cage e Warhol, entre outros, com o
“pós-modernismo”, acaba julgando que eles também eram pós-modernos. O mesmo poderia
ser dito, como alguns afirmam, que o dadaísmo no início do século XX também seria pós-
moderno. Assim, ele vê “pós-modernismo” onde há “modernismo”. É por isso que ele tem que
dizer que o primeiro é “vanguardista” e o segundo não. Na verdade, apenas o segundo é pós-
vanguardismo e surge na década de 70.
Assim, temos a data de nascimento do pós-vanguardismo: a década de 70. Mas,
antes de continuarmos nossa análise, seria interessante observarmos como surge a ideia de
um “pós-modernismo” na esfera da filosofia e da ciência. Segundo Anderson (1999, p. 31), a
“primeira obra filosófica a adotar a noção” – de pós-modernismo – foi A Condição Pós-
Moderna, de Jean-François Lyotard. No entanto, o programa ideológico de Lyotard, tal como
defendido nesta obra, já estava sendo colocado em prática desde o início da década de 70.
Tanto em obras anteriores, como em seu texto sobre Marx e Freud, no qual afirma que a razão
está ao lado do capital (Anderson, 1999). Mas aqui, tal como no que se refere à arte, a
expressão pós-modernismo é equivocada. Alguns tomam como base, assim como o próprio
Lyotard (1986), a ideologia de Daniel Bell (1977) e Alain Touraine (1970) que afirmam a
passagem de uma sociedade industrial para uma sociedade pós-industrial. Esta sociedade pós-
industrial, ou pós-moderna, seria a base social das transformações culturais e aí se faz a
distinção entre ela, chamada também de pós-modernidade, e a cultura pós-moderna, ou pós-
modernismo.
A ideia de que a partir do pós-Segunda Guerra Mundial tenha surgido uma sociedade
pós-industrial é destituída de fundamentos. Sem dúvida, mudanças sociais ocorreram, mas
elas não podem ser consideradas profundas. E isso fica claro quando não temos mais que um
“pós” para definir a “nova” sociedade. Por qual motivo a sociedade pós-industrial não
abandona a sociedade anterior e para ser definida tem que se diferenciar dela, dizendo tão-
somente não o que é, mas sim o que deixou de ser? Ninguém diria que o capitalismo é uma
sociedade pós-feudal, embora o seja, simplesmente porque ele tem suas características
próprias. Isto o define e não a referência à sociedade anterior. Para se conceber uma
sociedade pós-industrial ou pós-moderna seria necessário comprovar que a essência da
sociedade industrial ou moderna tenha sido substituída por outra essência, e a falta de nome
para esta última revela justamente a ausência de tal transformação. A ideia de uma sociedade
pós-industrial apenas faz uma comparação com a sociedade antes da Segunda Guerra Mundial
e observa que houve um recuo da indústria e um aumento do chamado “setor de serviços”, ou
seja, uma mudança quantitativa dos termos e não uma alteração ou abolição, portanto,
conclui-se que houve a ocorrência de uma transformação social. Na verdade, depois da
Segunda Guerra Mundial, houve a mutação no capitalismo, marcada pela passagem do regime
de acumulação intensiva para o regime de acumulação intensiva-extensiva e este, tal como
colocamos anteriormente, adquiriu várias características novas em relação ao regime anterior.
Essa ideia de uma base social para a cultura dita “pós-moderna” encontra eco
também em pensadores influenciados pelo marxismo. É o caso de Fredric Jameson (2002) que
vai apresentar uma interpretação diferente do pós-modernismo, partindo da contribuição do
economista belga Ernest Mandel e do filósofo francês Louis Althusser. De Mandel, Jameson
retira a ideia de “terceira fase do capitalismo”, contida em sua obra O Capitalismo Tardio. De
Althusser, ele vai retirar a concepção de modo de produção com dominância, que afirma que
um modo de produção pode provocar a dominância de alguma de suas instâncias (econômica,
política e cultural). Assim, no capitalismo, a dominância seria do econômico, mas no
feudalismo seria da política, para citar dois exemplos. A concepção althusseriana vai ser a
base para Jameson considerar o pós-modernismo como sendo a lógica cultural do capitalismo
tardio, no qual a cultura seria o dominante.
A obra de Jameson, no entanto, acaba se revelando extremamente frágil. A base do
pós-modernismo, o capitalismo tardio, é amplamente questionável. Jameson se baseia apenas
em uma obra para caracterizar a sociedade capitalista pós-Segunda Guerra Mundial. Em que
pese Mandel ser um economista e trotskista renomado, isso não é suficiente. Jameson não é
economista, nem sociólogo, sua especialização é a crítica literária, mas já que adentrou no
terreno das mudanças sociais, então deveria ter feito uma pesquisa de maior amplitude. A
obra de Mandel (1985) é marcada por determinados preceitos ideológicos (o trotskismo) e é
subjacente em tal obra um determinismo tecnológico. Além disso, a periodização de Mandel
não combina com a de Jameson. O capitalismo tardio de Mandel é o do pós-Segunda Guerra
Mundial enquanto que o surgimento do pós-modernismo, segundo Jameson, é da década de
70. Como não bastasse isso, Jameson teve a oportunidade de ler, antes de encaminhar as
reedições de seus artigos, a obra de David Harvey, A Condição Pós-Moderna, que mostra a
transição do fordismo (período equivalente ao do capitalismo tardio de Mandel) para o pós-
fordismo, justamente no período da década de 70. Ao ler e citar nas reedições a obra de
Harvey, e manter sua posição baseada em Mandel, cuja obra foi publicada em 1972, e
abordando o período de 1940 a 1970, acaba por mostrar uma deficiência de análise.
A tese da dominância cultural do pós-modernismo, além de se basear em
fundamentos teórico-metodológicos já amplamente criticados21, ainda não consegue fornecer
uma teoria convincente do pós-modernismo. Jameson cai na armadilha ideológica de
considerar a existência de algo chamado pós-modernismo e não sai do círculo vicioso. Assim, a
saída althusseriana acaba dando uma resposta dita “marxista” no círculo vicioso da ideologia
referente ao pós-modernismo. Aliás, este é um dos motivos pelos quais ele resiste em criticar o
que considera pós-modernismo.
Mas, voltemos ao problema das ciências e da filosofia. No mundo artístico, a década
de 70 marca o nascimento do pós-vanguardismo e, no mundo científico e filosófico, a maioria
dos autores considera que o surgimento de uma nova tendência (que alguns denominam “pós-
moderna” ou “pós-estruturalista”) ocorre na mesma época (Jameson, 2002; Harvey, 1992;
Eagleton, 1998; Lemert, 2000). Assim, temos igual período histórico para demarcar o
nascimento do que preferimos denominar pós-estruturalismo.
O pós-estruturalismo, em sua autoimagem ideológica, “pós-modernismo”, realiza o
mesmo procedimento de crítica do dito “modernismo”, que é amalgamar uma diversidade de
tendências e concepções numa unidade e homogeneidade ilusória. Assim, o pós-estruturalismo
aparece como uma radical novidade que se lança contra as concepções modernas,
consideradas como totalizadoras, racionalistas etc. No entanto, assim como na arte moderna,
não podemos imaginar que no pensamento moderno tenha existido tal uniformidade. Isso é
ainda mais grave quando colocam Marx entre os “modernos”. O pensamento moderno não é
apenas racionalista ou totalizador. Basta lembrar pensadores como Nietzsche, Simmel, entre
outros. O pensamento moderno possui, no seu interior, tanto o racionalismo quanto o
irracionalismo, e cada um assume formas diferentes. Algumas concepções fundamentam-se na
totalidade e outras a negam. Na verdade, o “modernismo” do “pós-modernismo” não passa de
um espantalho. Temos muitas teses pós-estruturalistas já presentes no pensamento moderno,
o que significa que pós-estruturalismo não é pós-moderno, mesmo porque tal coisa não existe.
E isso é tão visível que basta ler os pós-modernos e suas eternas referências a pensadores
como Nietzsche, Spinoza etc. Aspectos do pós-estruturalismo, como a crítica da razão, podem
ser encontrados em Rousseau, no século XVIII, em Nietzsche, no século XIX. Uma concepção
que não se funda na ideia de totalidade também pode ser vista em Adam Smith, Georg
Simmel, Vilfredo Pareto, entre outros.
Assim, deixando os falsos espantalhos e corvos de lado, podemos dizer que o pós-
estruturalismo cria um falso inimigo, tal como o pós-vanguardismo, e desta forma se coloca
como uma novidade radical. Poderíamos elencar as principais características do pós-
estruturalismo, como muitos o fizeram, tal como a recusa da totalidade e do racionalismo, o
apego à diferença, e assim por diante. No entanto, embora existam algumas características
comuns nessa corrente de pensamento, temos também de reconhecer que existem diferenças.
A maioria das descrições do pós-estruturalismo apresenta características comuns e por isso
não iremos retomá-las. Vamos nos concentrar sobre as diferentes formas de pós-
estruturalismo.
Podemos considerar que existem três tendências pós-estruturalistas. Uma é o pós-
estruturalismo conservador, representando por nomes como os de Jean Baudrillard, Richard
Rorty, Michel Maffesoli, Jacques Derrida, Roland Barthes, entre outros. Esse é um pós-
estruturalismo que faz a apologia da sociedade contemporânea. Há também um pós-
modernismo crítico (o que não quer dizer revolucionário), cujos representantes são Foucault,
Deleuze, Guattari, entre outros. Há, também, o pós-estruturalismo eclético, que une pós-
estruturalismo e outras tendências do pensamento moderno, tal como o marxismo, e este é o
caso de Antonio Negri, Cornelius Castoriadis, entre outros. O primeiro tipo de pós-
estruturalismo faz apologia do capitalismo contemporâneo. O segundo focaliza a questão do
poder, da dominação e realiza uma crítica à sociedade moderna, mas não propõe uma ruptura,
uma revolução social. O terceiro aborda a questão da transformação social, mas de forma
ambígua e eclética, aproximando- se geralmente do conservadorismo da primeira corrente,
unindo teses de pensadores pós-estruturalistas e Marx, Spinoza, entre outros.
Assim, a pretensa unidade do pós-estruturalismo é uma ficção, embora observe-se
semelhanças no seu interior, o que justamente define essa corrente. A semelhança básica que
caracteriza o pós-estruturalismo é a recusa do marxismo, seja através de sua negação total,
seja através de sua mescla com ideologias burguesas. Elas visam negar a teoria da revolução
proletária, seja através do descarte do marxismo – sob a aparente negação de um suposto
“modernismo” – ou de sua reinterpretação e inserção em concepções não-revolucionárias. A
ideia de uma sociedade pós-moderna, ou pós-industrial, defendida pelos ideólogos pós-
estruturalistas, é um dos argumentos-chave para descartar o marxismo. As teses da “crise da
sociedade do trabalho”, “fim do trabalho”, “fim da história”, “fim das utopias” etc., são outras
teses fantasmagóricas produzidas para se afirmar o fim do marxismo, sua superação ou
necessidade de complementação por uma ideologia burguesa. A grande alternativa ao
marxismo, nos anos 60, era o estruturalismo, e a partir dos anos 70 é o pós-estruturalismo.
Inclusive o uso deste termo, ao lado de pós-modernismo, pelos ideólogos e estudiosos deste
fenômeno cultural, é revelador.
Sem dúvida, o pós-estruturalismo surge a partir dos anos 70. Alguns pós-
estruturalistas iniciam suas obras no âmbito do estruturalismo, do estruturalismo “marxista” e
de outras tendências semelhantes na década de 60. Jean Baudrillard, por exemplo, publica
algumas obras de caráter estruturalista-“marxista”, como Para uma Crítica da Economia
Política do Signo (1995). Porém, suas obras posteriores, como América (1986); À Sombra das
Maiorias Silenciosas – O Fim do Social e o Surgimento das Massas (1985)22, entre outras, são
tipicamente pós-estruturalistas. Michel Foucault produz seus primeiros trabalhos numa
abordagem estruturalista, como As Palavras e As Coisas (1987a) e Arqueologia do Saber
(1987b). A partir de Vigiar e Punir (1983) ele passa a ser pós-estruturalista. O mesmo ocorre
com Barthes, Lyotard, entre outros. Pelas datas dos livros, temos a visão que o pós-
estruturalismo surge, tal como o pós-vanguardismo, na década de 70. Aqui, podemos retomar
o fio da meada para explicar a gênese do pós-vanguardismo e do pós-estruturalismo.

Regime de acumulação e mudança cultural


A década de 50 e 60 foi marcada por uma relativa estabilidade do capitalismo. No
entanto, o modo de produção capitalista foi questionado por várias concepções políticas e
teóricas neste período. A crítica ao capitalismo nesse período foi realizada por integrantes da
chamada Escola de Frankfurt, especialmente Horkheimer, Adorno e Marcuse. Esses
pensadores fizeram uma análise da razão instrumental e mostraram que ela estava a serviço
da reprodução do capital. A crítica da manipulação do desejo, da indústria cultural – a forma
aparente sob a qual se percebe o capital comunicacional (Viana, 2007c) etc., – também estava
presente. O filósofo e sociólogo Henri Lefebvre também faria diversas críticas a esta
sociedade, qualificada por ele como “sociedade burocrática de consumo dirigido”. Também a
crítica dos integrantes da chamada Internacional Situacionista, tal como Debord, Jorn,
Vaneigem, estava presente. Além disso, ao contrário do estruturalismo e seu formalismo
abstrato, havia o existencialismo, – principalmente Sartre –, que apontava para uma
perspectiva crítica que foi se radicalizando com o passar do tempo. O freudo-marxismo
também contribuía com a crítica da sociedade fundada no consumo e burocratismo, bem como
nos efeitos psíquicos nocivos da nova era capitalista. Daniel Guérin contribuiria com a
tentativa de síntese entre marxismo e anarquismo23.
A nova fase do capitalismo, fundado no regime de acumulação intensivo- extensivo,
promoveu certa estabilidade nos países imperialistas, enquanto que nos países de capitalismo
subordinado era marcado por um aumento da exploração. Na Europa, o regime de acumulação
buscava combater a tendência declinante da taxa de lucro e para isso expandia o setor de
serviços, a produção de bens de consumo e invadia o cotidiano (Viana, 2003; Viana, 2002).
Devido a essa invasão do cotidiano, promovia a reflexão crítica sobre a cotidianidade e sua
relação com o processo de reprodução do capitalismo.
No entanto, a irrupção do movimento operário e a radicalização de alguns
movimentos sociais, bem como o surgimento da contracultura, marcaram um período de
ascensão das lutas sociais e de questionamento da sociedade burguesa, sob formas mais ou
menos radicais. O Maio de 68 assume um caráter exemplar e é justamente a derrota deste
movimento que marca a formação de ideologias embrionárias e passam a expressar a nova
situação histórica e a passagem para um novo regime de acumulação, que necessita de novas
ideologias.
O Maio de 68, bem como outras lutas sociais em outros lugares e momentos, a partir
do final da década de 60 e início dos anos 1970, marcaram uma retomada da crítica da
sociedade burguesa sendo visível a influência de Henri Lefebvre, Debord, Marcuse, Daniel
Guérin, entre outros. Os intelectuais críticos foram retomados pelos movimentos e
organizações desse período, que viram florescer o autonomismo italiano, os grupos radicais na
França e na Alemanha, e na prática dos trabalhadores que inspiraram a produção intelectual,
como ocorreu na Itália, Alemanha e França.
Neste contexto, os temas do cotidiano, da “indústria cultural”, da razão
instrumental, dos movimentos sociais, dos marginais, não podiam mais ser descartados.
Assim, a ideologia pós-estruturalista, em consonância com a ideologia pós-vanguardista,
apresentou uma alternativa ao movimento contestador. A forma como isto foi realizado
caracterizou-se, principalmente, pela retomada das temáticas anteriores (cotidiano, crítica da
razão instrumental, ciência etc.), e através de sua despolitização e recusa da totalidade. Em
grande parte dos casos, a crítica da razão instrumental aparece sob a forma de irracionalismo,
ou seja, aparece como uma crítica da razão em si, que é acompanhada por uma crítica da
categoria totalidade, ou das “meta-narrativas”. A análise do cotidiano se torna moda, mas
devido à recusa da totalidade, se torna descritiva ou fetichista, através do seu isolamento das
demais relações sociais. É nesse momento histórico que os intelectuais estruturalistas
(Foucault, Derrida, Kristeva etc.), pseudomarxistas (Toni Negri, Castoriadis etc.), entre outros,
vão se metamorfoseando em pós-estruturalistas. É nesse período que surge a “História das
mentalidades” no campo historiográfico francês, em substituição à geração de Braudel e da
história econômica, bem como surge a micro-história, a versão italiana do pós-estruturalismo
em historiografia. A terceira geração da Escola dos Annales, pós-estruturalista, assume o
poder em 1969. Isso não é mera coincidência.
Porém, o desenvolvimento capitalista também necessita ampliar o mercado
consumidor e a crise do regime de acumulação intensivo-extensivo tornou ainda mais urgente
esta necessidade. A reprodução ampliada do mercado consumidor significa o deslocamento
dos investimentos, cada vez mais para a esfera dos meios de consumo, visando barrar o
desenvolvimento acelerado dos meios de produção, significando desenvolvimento tecnológico
que teria como consequência o aumento ainda mais acelerado da composição orgânica do
capital. O que esta estratégia realiza não é a estagnação do desenvolvimento tecnológico e
científico, mas uma desaceleração. Esta desaceleração, no entanto, significa tão-somente que,
se tal estratégia de reprodução ampliada do mercado consumidor de meios de consumo não
fosse realizada, seria ainda mais acelerada do que já é. Isso gera, inclusive, a transformação
de tecnologia que servia como meio de produção passar a servir como meio de consumo. Mas,
o que nos interessa aqui, é a necessidade de reprodução ampliada do mercado consumidor e
das estratégias produzidas para efetivar isto, que se intensifica a partir do regime de
acumulação intensivo-extensivo e, devido às dificuldades mais intensas e permanentes no
regime de acumulação integral, é ainda mais necessário o uso desta estratégia por parte do
capital.
Assim, a reprodução ampliada do mercado consumidor na era do regime de
acumulação de capital gera nichos de mercado, antes não explorados (por exemplo, a
produção de mercadorias para atender as necessidades, na verdade criar tais necessidades,
para homossexuais, “afrodescendentes”, animais, ecologistas, torcedores de futebol etc.). Se
um grande nicho de mercado durante o regime de acumulação intensivo- extensivo foi a
juventude, hoje nós temos a ampliação e a diversificação desse mercado consumidor. O novo
regime de acumulação transforma até mesmo cães, gatos, hamsters, peixes e aves em
consumidores. Claro que esses animais não entendem a lógica mercantil e nem possuem o vil
metal para adquirir tais meios de consumo, mas seus donos passam a ser vítimas da coleira do
consumismo. Primeiro se consome o animal, uma mercadoria que se compra no mercado, e
depois passa a reproduzir o consumo de forma ampliada, ao comprar mercadorias – produtos
para os animais – para outras mercadorias – os animais que foram comprados. Assim como o
computador é uma mercadoria que traz a necessidade de outras mercadorias (“suprimentos”),
o mesmo acontece com o animal e o carro, para ficar em poucos exemplos.
O novo regime de acumulação, no entanto, encontrou uma fonte bastante promissora
de ampliação do mercado consumidor: a cultura. A mercantilização da cultura é algo antigo,
mas sua intensificação e intervenção se tornam cada vez mais intensiva e extensiva. As
universidades-mercadorias, as publicações-mercadorias, as ideias-mercadorias etc., são
expressões do novo regime de acumulação. Se a cultura mercantil podia renovar-se com as
mudanças existentes, tal como os movimentos artísticos no plano da arte e as escolas
acadêmicas, no plano da ciência, agora sua renovação deve ser mais rápida e ampla, além de
criar nichos de mercado específicos.
Assim, temos a arte pós-vanguardista convivendo com a vanguardista e a primeira
não tem muito o que oferecer em matéria de criatividade, e originalidade, podendo inclusive
repetir ou misturar coisas antigas. A ideologia pós-estruturalista não só convive com o nicho
de mercado das demais escolas acadêmicas, – como o pseudomarxismo, o positivismo clássico
redivivo etc. – como ainda conseguem recuperar o situacionismo, o anarquismo, o
conselhismo, e criar novos nichos de mercado.
Porém, os movimentos artísticos e as escolas acadêmicas passam a ter seu espaço
reduzido e em seu lugar surge o modismo cultural. O movimento artístico tem um processo de
formação e duração que as modas não possuem. Uma moda pode durar cinco anos e ser
substituída facilmente por outra, de acordo com a dinâmica do capital comunicacional. As
modas acadêmicas são mais lentas, devido à própria estrutura consumo acadêmico, mas é
bem mais veloz em sua superação que as antigas tendências expressas nas escolas
acadêmicas. Temos também o uso da tecnologia para transformar a cultura em produção
material, tal como CDs, DVDs, livros, revistas etc., e, em alguns casos, os aparelhos para sua
reprodução (aparelhos de DVD, por exemplo)24.
Desta forma, o pós-vanguardismo e o pós-estruturalismo são a manifestação de uma
contrarrevolução cultural preventiva, gerada pela derrota das lutas sociais do final da década
de 1960, que busca assimilar e domesticar a cultura contestadora do passado e,
simultaneamente, faz parte do processo da nova fase da mercantilização da cultura,
caracterizada pela produção de uma cultura descartável e diversificada. Essa diversificação
cria um nicho de mercado voltado até para os pretensos contestadores da sociedade
contemporânea, e assim temos o pós-estruturalismo crítico e eclético, que apresenta
contestação limitada, para ter espaço no mercado consumidor de parte da juventude e grupos
políticos. Herbert Marcuse já havia percebido isso, no início dos anos 70:

A contrarrevolução é predominantemente preventiva e, no mundo ocidental, inteiramente
preventiva. Aqui, não existe qualquer revolução recente a desmantelar nem nenhuma existe em gestação. E,
no entanto, é o medo da revolução que gera o interesse comum e cria os vínculos entre as várias fases e
formas da contrarrevolução. Esta percorre toda a gama desde a democracia parlamentar à ditadura
declarada, passando pelo Estado policial. O capitalismo reorganiza-se para enfrentar a ameaça de uma
revolução que seria a mais radical de todas as revoluções históricas. Seria a primeira revolução histórica
verdadeiramente mundial (Marcuse, 1981, p. 11-12).

O pós-estruturalismo, mesmo o crítico e o eclético, são partes componentes da
contrarrevolução cultural preventiva e são mercadorias consumidas em novos nichos de
mercado consumidor. Essa mutação cultural acompanha a mudança no regime de acumulação,
que necessita da reprodução ampliada do mercado consumidor, criando uma cultura
descartável e diversificada, e da contrarrevolução intelectual, através da expansão e
desenvolvimento de uma cultura conservadora (pós-estruturalismo conservador,
protofascismo, ideologia da globalização, sociologia conservadora, culturalismo etc.) ao lado
de uma cultura crítica domesticada (pós-estruturalismo crítico e eclético, tendências
revolucionárias domesticadas etc.). Desta forma, a dinâmica cultural no capitalismo neoliberal
é marcada pela diversidade (que gera nichos de mercado consumidor de cultura) e
descartabilidade, principalmente para o grande público.
Assim, o novo contexto cultural é marcado pelo vazio do pós-vanguardismo e do pós-
estruturalismo. A era do vazio e a luta contra o vazio ocorrem também no mundo cultural na
época do regime de acumulação integral. O problema é que muitos realizam uma luta vazia
contra o vazio cultural e não saem da lógica que buscam combater. A debilidade do pós-
estruturalismo, enquanto ideologia que simplesmente evita aprofundar qualquer questão, gera
sua esterilidade. Porém, isso é interesse de quem detém o poder. Ideias estéreis podem gerar
conservadorismo, imobilismo ou ações igualmente estéreis.
A única saída é a superação do pós-estruturalismo. Esse não precisa ser superado
teoricamente, porquanto ele foi um retrocesso intelectual. O fim do pós-estruturalismo
ocorrerá ou pela via da superação capitalista, que pode assumir um tenebroso caráter fascista
de uma contrarrevolução mais agressiva ainda, ou anticapitalista, através da luta pela
transformação social que irá gerar uma nova sociedade, abolindo as relações sociais que
geram necessidade de ilusões e, por conseguinte, das próprias ilusões.
3 – A Crise da Sociedade do Trabalho

Um dos debates mais importantes no âmbito da sociologia contemporânea é o da


chamada “crise da sociedade do trabalho” ou da “importância decrescente do trabalho”. Essa
tese é defendida por diversos autores e vem recebendo grande destaque no mundo acadêmico.
Essa discussão não é gratuita e nem deriva de mera curiosidade intelectual ou importância
temática. A raiz dessa discussão faz parte do amplo processo de luta cultural que emerge no
capitalismo contemporâneo, comandado pelo regime de acumulação integral, que busca
ofuscar o marxismo e criar novas ideologias substitutas, para facilitar, assim, o processo de
dominação e reprodução do capital. A ideologia da “crise da sociedade do trabalho” é apenas
mais uma tentativa de decretar a crise do marxismo e, assim, mostrar que é necessário outras
concepções e práticas, já não mais ligado ao movimento operário25. As ideologias que
defendem tais teses variam, mas todas acabam caracterizando-se pela recusa do marxismo e
do papel revolucionário do proletariado, seja decretando fim da história, seja aderindo a um
utopismo abstrato, ambos beneficiando a reprodução do capital.
Dois autores se destacam nessa discussão, a saber: Claus Offe e Jürgen Habermas.
Também poderíamos citar André Gorz, mas o deixaremos de lado, tendo em vista a diferença
entre suas teses e as de Offe e Habermas, diferença esta que coloca o debate em torno do
trabalho em outro nível, já que este aborda a questão do fim do trabalho assalariado e
substituição por novas relações de trabalho. Por isso, optamos por deixá-lo de lado e focalizar
nossa atenção em Offe e Habermas. Muitos críticos saíram em defesa do trabalho e o debate
continua a causar polêmica e inquietação nos meios acadêmicos e até nos meios políticos.
Para nós, a ideia que o trabalho assalariado perdeu sua importância na sociedade
contemporânea não se sustenta diante de uma análise pormenorizada. Mas, no presente
artigo, pretendemos tão-somente demonstrar a fragilidade das concepções que buscam
declarar o “fim do trabalho” ou a “crise da sociedade do trabalho”. Escolhemos para tanto os
dois principais representantes dessa tese, acima citados, e buscaremos analisar criticamente
suas colocações.

Claus Offe ou os descaminhos da sociologia contemporânea


Um dos principais adeptos da tese da crise da sociedade do trabalho é Claus Offe.
Para ele, o trabalho seria a categoria central da sociologia clássica, tanto de orientação
marxista quanto de orientação burguesa. Existiria, assim, nos clássicos da sociologia (Marx,
Durkheim, Weber) uma perspectiva analítica comum caracterizada pela centralidade do
trabalho como categoria explicativa da sociedade.
Para Offe, todas as sociedades são obrigadas a instaurar, através da mediação do
trabalho, uma relação metabólica com a natureza, que permita a sobrevivência da sociedade.
Mas, o que interessa a Offe é ir além dessa “trivialidade sociológica”, que é um aspecto
amplamente reconhecido e, centralizar sua atenção no papel do trabalho e da divisão do
trabalho e também de sua organização e racionalidade na fase clássica da sociologia. Segundo
Offe, o papel atribuído ao trabalho pela sociologia clássica é de elemento explicativo do
mundo social. Marx, Weber e Durkheim, apesar das divergências metodológicas e dos
resultados obtidos, elegeram o trabalho como a “categoria sociológica chave”. É claro que a
sociologia clássica possuía um ponto de partida empírico: o trabalho do século XIX, a visão do
conflito social (ou, no caso de Durkheim, da “integração”), a proletarização da força de
trabalho e a racionalização. Mas agora, segundo Offe, é a ideia do trabalho assalariado como
categoria explicativa que se torna questionável. Quais as razões disto? Segundo ele:

Esse questionamento confirma-se ao observar-se inicialmente a tônica temática da pesquisa, das
conferências e das publicações atuais nas ciências sociais, considerando os pressupostos e os critérios de
relevância, aí mais ou menos explícitos. Assim procedendo, o exame de documentos do campo das ciências
sociais, como catálogos de editoras, programas de fundações de fomento científico, índices de teses e
monografias, permite encontrar diversos indícios, pelo menos para a constatação negativa, de que o trabalho
e a posição do trabalhador no processo produtivo não é tratado como o principal princípio organizador das
estruturas sociais, de que a dinâmica do desenvolvimento social não é de antemão conceptualizada como
resultante de conflitos em torno da dominação no plano empresarial, de que a racionalidade capitalista
industrial da otimização das condições técnico-organizacionais ou da relação meios/fins econômicos não é
suposta como a racionalidade condutora da continuidade do desenvolvimento social etc. (Offe, 1989, p. 16).

Mas Offe sabe que tal fundamentação é frágil e por isso apressa-se em fornecer
“dados empíricos” para reforçar sua tese. Segundo ele, o papel fundamental do trabalho pode
ser questionado ao observar os “múltiplos aspectos empíricos do trabalho”. Ele coloca uma
série de “dúvidas” a respeito da centralidade do trabalho: a) a inexistência de uma identidade
coletiva na classe trabalhadora; b) o crescimento do número de trabalhadores empregados no
setor de serviços; e c) a perda de significado do trabalho para a população.
Para Offe não existe uma identidade coletiva na classe trabalhadora. Ele coloca que
há uma diferenciação interna na classe trabalhadora e que tal diferenciação vem crescendo e
corroendo sua unidade. Segundo ele:

A continuidade da já mencionada diferenciação interna do “trabalhador genérico” na sociedade,
assim como a erosão das sustentações culturais e políticas de uma identidade coletiva centrada no trabalho,
devem ter aguçado aqueles dilemas fundamentados na forma do trabalho assalariado, ao ponto de que o fato
do trabalho assalariado, ou da dependência do assalariamento não represente mais nenhum papel privilegiado
enquanto foco de atenção e significado social, ou de cisão sócio- política. Radicalizando: não é nada evidente
que indagar sobre a noção social “do” trabalhador seja a priori sociologicamente mais relevante que indagar
sobre a noção de sociedade do consumidor de gasolina ou do contribuinte do IPI (Offe, 1989, p. 21).

Offe também enfatiza a expansão do setor de serviços, dizendo que este, ao contrário
do setor industrial, não possui a mesma unicidade e sua expansão diminui a importância da
indústria. Para ele, o setor de serviços possui uma “racionalidade própria”, onde a
“racionalidade técnica” é substituída, nos serviços, por experiência, empatia etc. O trabalho
no setor de serviços diferencia-se do trabalho industrial em dois aspectos:

Primeiro, já por causa da falta de homogeneidade, da descontinuidade e da incerteza temporal,
social e material dos “casos” tratados pelo trabalho em serviços, frequentemente não é possível (a não ser
com consequências contraproducentes) normatizar uma função técnica de produção para o trabalho, a ser
adotada como critério de controle da execução do trabalho. Em segundo lugar, o trabalho em serviços se
distingue do trabalho na produção de bens, na medida em que ela não dispõe de um claro e inquestionado
critério de economicidade, a partir do qual se possa derivar estrategicamente o tipo, o volume, o local e o
momento de sua oferta, e isso porque diversos serviços gerados em organizações públicas e mesmo por meio
de “funcionários” em empresas privadas resultam quando muito em “utilidades” concretas, mas em nenhum
“rendimento” monetário (e no máximo em “economias” de volume dificilmente quantificável) (Offe, 1989, p.
23).

Offe também coloca em questão a perda de significado do trabalho. Ele refuta a tese
do trabalho como “necessidade moral” (Weber) e a tese do trabalho como “condição de
sobrevivência física” (Marx). A primeira tese, segundo ele, foi refutada pela “erosão das
tradições culturais religiosas e secularizadas” e pela expansão do hedonismo consumista,
entre outros fatores. Acrescenta que o trabalho não pode constituir uma unidade subjetiva por
dois motivos: a mudança na estrutura temporal e na biografia de trabalho. Hoje, segundo ele,
a continuidade entre formação e exercício profissional é mais uma exceção do que uma regra,
válida na própria continuidade da vida profissional. Além disso, há tendência de redução do
tempo de trabalho e, consequentemente, de aumento do tempo livre, que os elementos
determinantes são outras experiências, orientações e necessidades.
Para Offe, a tese do trabalho como condição para sobrevivência física perdeu sua
validade nos estados liberais de bem-estar, onde a seguridade social e a preferência pelo
subemprego e desemprego produzem uma alternativa ao trabalho assalariado.
Após essas observações, Offe coloca que, diante do fato de que o trabalho não é mais
a categoria fundamental da sociologia, então quais seriam sociologicamente aplicáveis à
descrição da sociedade? Offe afirma que a teoria habermasiana da “ação comunicativa” se
apresenta como proposta teórica satisfatória ao se separar razão instrumental e razão
comunicativa. A ideia clássica da centralidade do trabalho perde cada vez mais sua
“respeitabilidade acadêmica”, principalmente com a divulgação das concepções de Foucault,
Touraine, Gorz, entre outros. Mas, mesmo os “marxistas”, começam a mudar o eixo de suas
preocupações, do modo de produção para o modo de vida e o cotidiano. Mas essas últimas
concepções são criticadas por Offe:

No meu modo de ver, entretanto, a utilização de tais dicotomias apresenta, via de regra, duas
deficiências (...). Inicialmente, existe uma sensível assimetria no grau de estruturação conceitual nos dois
lados dessas dicotomias; enquanto que pelo lado do trabalho e da produção sabemos claramente com quais
estruturas, atores e princípios de racionalidade podemos contar e, por isso, com quais categorias devemos
trabalhar, pelo lado oposto, no “modo de vida”, isto é menos claro (Offe, 1989, p. 36).

Outra deficiência que Offe observa nessas dicotomias, com exceção do caso de
Habermas e Daniel Bell, é que tais esquemas binários não passam de classificações ad hoc,
que não são integrados numa teoria social. Ele conclui afirmando que, uma nova teoria
deveria dar conta da razão do trabalho ter perdido sua importância na determinação da
estrutura social e, devido a isto, libera espaço para novos atores sociais e novas
racionalidades.
Ao final do artigo de Offe surge uma sensação de vazio. Tal sensação ocorre por três
motivos: em primeiro lugar, a “fundamentação” de sua tese de superação da “centralidade” da
categoria trabalho é pouco convincente e demasiadamente “abstrata”, além de pouco
aprofundada em seu debate com os clássicos; em segundo lugar, ele não apresenta nenhuma
concepção alternativa, a não ser uma vaga referência a Habermas; em terceiro e último lugar,
fica a pergunta: de onde vem tamanho barulho em torno de Offe e seu artigo, um tanto quanto
pobre?
Antes de tratarmos dessa última questão, devemos recolocar a questão do trabalho
que foi posta de pernas para o ar por Offe. Antes de tudo, cabe indagar a afirmação de Offe,
segundo a qual o trabalho é uma categoria chave para a sociologia clássica, onde se incluem
em Marx, Durkheim e Weber. No caso de Marx, tal afirmação é correta (desde que se
ultrapasse sua simplicidade aparente e se penetre na complexidade da teoria do modo de
produção e das classes sociais). Mas no caso de Weber, já não se pode sustentar essa tese de
forma convincente, embora o trabalho tenha um papel importante em sua concepção, pois, é
difícil considerar sua “categoria fundamental”. No caso de Durkheim, isto é mais difícil de
sustentar-se, principalmente tendo-se em vista a sua concepção holista de sociedade. Isso é
tão verdadeiro que Offe nunca compara suas teses com as de Durkheim, mas tão-somente com
Marx e, em menor grau, com Weber. O que Claus Offe faz, na verdade, é buscar refutar Marx,
pois este é o único teórico que realmente fornece uma importância explicativa ao trabalho. É
por isso que iremos focalizar as teses de Offe, contrapondo-as, principalmente a teoria de
Marx e, em alguns casos, a Weber.
A primeira fundamentação apresentada por Offe é a temática de pesquisas,
conferências e publicações em ciências sociais e do exame de catálogos de editoras e índices
de teses e monografias etc. Mas tal fundamentação é inconsistente. O exame, citado pelo
autor, não é suficiente para levar às conclusões a que ele chega. Os catálogos de editoras,
índices de teses ou monografias etc., se referem apenas à Alemanha ou ao conjunto dos países
da Europa Ocidental? Ou, ainda, aos países capitalistas superdesenvolvidos ou ao mundo
todo? Outro questionamento que se pode fazer é o seguinte: o procedimento de tomar a ideia
mais difundida como sendo verdadeira é válido? Se isso fosse correto, talvez ainda
estivéssemos defendendo o geocentrismo... Além disso, Marx já dizia que “a ideologia
dominante é a ideologia da classe dominante” e por isso não podemos nos iludir com as ideias
dominantes.
Mas Offe também diz que não existe uma identidade coletiva na classe trabalhadora.
A diferenciação da classe trabalhadora teria corroído a identidade coletiva. Do ponto de vista
da teoria marxista, isso não tem o menor sentido. A identidade coletiva que Offe julga
necessário encontrar na classe trabalhadora é um equívoco. Em primeiro lugar, para a teoria
marxista, o conceito utilizado é o de consciência de classe e não o de identidade coletiva (que
ele retira de Habermas). Daí nota-se que é preciso distinguir entre o proletariado (composto
pelos trabalhadores assalariados produtivos) e demais trabalhadores. No interior do
proletariado existem divisões (algumas produzidas pelo próprio capital, como Marx colocou) e
estas, sem dúvida, interferem no processo de desenvolvimento de sua consciência de classe.
Mas não tem o menor sentido utilizar ideias apresentadas por Marx, e incluídas em sua
análise como elemento complicador, mas cuja solução a sua própria teoria já tinha indicado o
caminho, para refutá-lo, como Offe faz.
Marx afirmava que o proletariado passava de “classe-em-si” a “classe-para-si”
através da luta de classes (Marx, 1989). Vários pensadores posteriores, superando essa
linguagem hegeliana, trabalharam a tese da passagem da consciência de classe contraditória
para a consciência de classe revolucionária (Reich, 1986; Gramsci, 1987). A chamada
“identidade coletiva” da classe trabalhadora a que Offe se refere não é uma “coisa dada”,
segundo a teoria marxista. Ela é o resultado da luta de classes e significa a unificação do
proletariado, tanto ao nível da consciência coletiva quanto ao nível da prática concreta, mas
que só ocorre nos períodos revolucionários. A visão clara desse processo também é facilitada e
em períodos não-revolucionários ele se torna quase imperceptível. Portanto, a constatação de
Offe não refuta a teoria de Marx e demonstra, aliás, uma incompreensão desta.
O problema da expansão do setor de serviços é tratado de forma pouco convincente
por Offe. Em primeiro lugar, de acordo com a teoria marxista, a quantidade de pessoas
empregadas na indústria ou no setor de serviços não altera a importância relativa de um ou de
outro. Na verdade, a produção de mais-valor é a questão fundamental. O setor de serviços não
produz mais-valor e, portanto não possui um papel determinante no desenvolvimento do modo
de produção capitalista. A diminuição quantitativa de trabalhadores de indústria e o aumento
dos trabalhadores no setor de serviços não significa a perda de importância do primeiro. Aliás,
a própria expansão do setor de serviços é explicada pelo desenvolvimento do modo de
produção capitalista, que se fundamenta, como já foi dito, na produção de mais-valor.
Offe também afirma que há uma “racionalidade própria” no setor de serviços,
afirmação que se contrapõe mais às teses de Weber do que de Marx. Entretanto, a
racionalidade do setor de serviços é tão burocrática quanto de qualquer outro “setor”. É claro
que a racionalidade capitalista aplicada nesse setor assume características específicas, mas
mantém sua essência. Por isso a tese de Offe é bastante frágil, pois faltou comparar a
racionalidade dos outros “setores” com a do setor de serviços para demonstrar a diferença
radical que ele julga existir.
O trabalho deixou de ser uma “necessidade moral”? Quando Weber tratou da “ética
do trabalho” promovido pela religião protestante, ele deixou claro que se tratava de uma
análise de um período histórico delimitado – o do surgimento do capitalismo – e que não o
ultrapassava (Weber, 1987). Erigir isso em “princípio universal” é um tanto quanto
problemático. Mas, de qualquer forma, até hoje o trabalho é visto por certos grupos sociais
(que, sem dúvida, não são majoritários) como uma necessidade moral. Também persiste, em
nossos dias, certa ideologia do trabalho (produtivo).
O problema da “descontinuidade da biografia de trabalho” e da “redução do tempo
de trabalho” pode expressar apenas uma possibilidade de afastamento em relação ao trabalho
assalariado (que é, para Marx, um trabalho alienado deve ser superado historicamente),
elemento importante para a transformação social, pois abre espaço maior para a negação do
trabalho alienado e isso significa a unificação do proletariado e não, como quer Offe, sua
dispersão. Mas devemos alertar que isto gera apenas a possibilidade e não um
desenvolvimento natural. A própria “descontinuidade da biografia de trabalho” e a “redução
do tempo de trabalho” não são um processo natural, como deixa entrever o evolucionismo
unilinear e simplista de Offe, e sim um processo social contraditório que pode tanto avançar
quanto recuar, dependendo das lutas sociais.
Offe se defronta novamente com a teoria marxista quando nega que o trabalho seja
uma “condição de sobrevivência física” no mundo atual. Em primeiro lugar, seu quadro
analítico parece só levar em conta os países capitalistas superdesenvolvidos. Aliás, isso fica
claro quando fundamenta sua tese dizendo que “os estados liberais do bem-estar”
possibilitam, através da seguridade social, juntamente com a opção pelo subemprego, o “viver
sem trabalho”. Além de a tese circunscrever-se num espaço geográfico restrito e não
podermos deixar de relacionar o bem-estar do “primeiro mundo” com o mal-estar dos “demais
mundos” (ou seja, a questão da transferência internacional de mais-valor), ela é inexata, pois
toma uma determinada situação histórica como um estágio superior da história e que só pode
seguir rumo ao “progresso” e assim se descarta a possibilidade existente de retrocesso. Aliás,
a atual onda neoliberal, a perda de direitos sociais, o desemprego em massa, a luta pelo
mercado de trabalho, entre outros acontecimentos históricos contemporâneos, já são
suficientes para refutá-lo.
Podemos também discutir quais são as categorias sociológicas adequadas para
entender a sociedade do “pós-trabalho”. Offe, neste ponto, é mais vago ainda. Na verdade, ele
apenas aponta a teoria habermasiana da ação comunicativa como “proposta teórica
satisfatória” e faz algumas críticas à algumas teses existentes. Cabe aqui acrescentar que,
quando alguns marxistas tratam do modo de vida ou do cotidiano (Granou, 1975; Lefebvre,
1991; Harrington, 1977), o fazem de forma articulada com o modo de produção e que nestes
casos não há nenhuma dicotomia ou “esquema binário”. Além disso, o modo de vida se tornou
uma preocupação para a teoria marxista no momento histórico em que o modo de produção
capitalista realizou uma invasão burguesa do cotidiano, através de um amplo processo de
competição, mercantilização e burocratização do conjunto das relações sociais – a expansão
do setor de serviços é apenas mais um aspecto deste processo.
Por fim, resta descobrir de onde vem tanto sucesso de um artigo tão pouco
explicativo e carregado de equívocos. Há vários motivos para tão alardeado sucesso: o
modismo da crítica ao marxismo, o predomínio da consciência coisificada, a avalanche de
ideologias legitimadoras do novo regime de acumulação etc. Para encerrar, podemos dizer que
o trabalho continua sendo o fundamento explicativo da sociedade contemporânea.

Habermas: O racionalismo utópico-abstrato


O filósofo alemão Jürgen Habermas pertence à chamada “segunda geração” da
Escola de Frankfurt. Ele herda dessa escola a influência do Iluminismo e do racionalismo. Sua
tese principal, no que se refere ao problema aqui tratado, é que hoje vivemos uma “crise da
utopia da sociedade do trabalho” e essa crise teria levado a um “esgotamento das energias
utópicas”. Vejamos tudo isso mais de perto.
Habermas parte da constatação que a partir do final do século 18 surgiu uma nova
consciência de tempo. A ênfase passa a recair sobre a transitoriedade dos acontecimentos
históricos e na perspectiva de um futuro novo. A modernidade se caracteriza pelo
entrelaçamento da tradição e da inovação. Segundo ele, o “espírito da época” realiza a fusão
do pensamento histórico e do pensamento utópico. Esses dois tipos de pensamento,
inicialmente, se excluem. O pensamento histórico, devido sua ligação com a experiência,
critica o projeto utópico. Este, por sua vez, nega a continuidade histórica. Mas, desde a
Revolução Francesa, ocorre a fusão desses dois tipos de pensamento. O pensamento político
moderno busca resistir ao peso dos problemas atuais e se encontra repleto de energias
utópicas, mas ele controla o excesso de expectativas com o contrapeso da experiência
histórica e sua carga de conservadorismo.
O pensamento utópico e o pensamento histórico se uniram no pensamento político
dos socialistas pré-marxistas (Fourier, Proudhon, Owen, Saint-Simon) até chegar ao marxismo.
Mas, no limiar do século XXI, segundo Habermas, o pensamento histórico parece ter se
distanciado do pensamento utópico e o futuro passa a ser visto de forma negativa: a espiral
armamentista, a difusão sem controle das armas nucleares, o desemprego crescente, a
destruição ambiental etc., formam um quadro desanimador para o futuro. Desta forma,
Habermas conclui que há “esgotamento das energias utópicas”. Segundo ele:

Há certamente bons motivos para o esgotamento das energias utópicas. As utopias clássicas
traçaram as condições para uma vida digna do homem, para a felicidade socialmente organizada; as utopias
sociais fundidas ao pensamento histórico (que interferem nos debates políticos desde o século XIX (despertam
expectativas mais realistas. Elas apresentam a ciência, a técnica e o planejamento como instrumentos
promissores e seguros para um verdadeiro controle da natureza e da sociedade. Contudo, precisamente essa
expectativa foi abalada por evidencias massivas. A energia nuclear, a tecnologia de armamentos e o avanço no
espaço, a pesquisa genética e a intervenção da biotecnologia no comportamento humano, a elaboração de
informações, o processamento de dados e os novos meios de comunicação são técnicas de consequências
intrinsecamente ambivalentes. E quanto mais complexos se tornam os sistemas necessitados de controle,
tanto maiores as probabilidades de efeitos colaterais disfuncionais. Nós percebemos diariamente as forças
produtivas transformarem-se em forças destrutivas e que a capacidade de planejamento transforma-se em
potencial desagregador (Habermas, 1987, p. 105).

Neste momento histórico, logo surgem os anunciadores da crise da modernidade e o
aparecimento da pós-modernidade. Mas Habermas discorda da tese do surgimento da pós-
modernidade. Para ele, o que chegou ao fim é uma determinada utopia, a utopia da sociedade
do trabalho. Essa utopia está presente em Marx e na tese dos “trabalhadores livremente
associados”, ideia que ressurgiu sob o título de autogestão nos movimentos radicais do final
da década de 60. Segundo Habermas:

A utopia de uma sociedade do trabalho perdeu sua força persuasiva (e isso não apenas porque as
forças produtivas perderam sua inocência ou porque a abolição da propriedade privada dos meios de
produção manifestamente não resulta por si só no governo autônomo dos trabalhadores. Acima de tudo, a
utopia perdeu seu ponto de referência na realidade: a força estruturadora e socializadora do trabalho
abstrato. Claus Offe compilou convincentemente (sic) “indicações da força objetivamente decrescente de
fatores como trabalho, produção e lucro na determinação da constituição e do desenvolvimento da sociedade
em geral” (Habermas, 1987, p. 106).

Mas esta utopia de uma sociedade do trabalho também se manifesta sob a forma de
projeto sócio-estatal. A crise do estado de bem-estar social e dos partidos trabalhistas,
socialdemocratas e socialistas deixa entrever que tal projeto também está esgotado. O próprio
“sucesso” do estado de bem-estar social produz efeitos colaterais que levam à crise social.
Entre outros fatores, pode-se citar os custos crescentes com salários e encargos trabalhistas
que levam ao crescimento de investimento em racionalização que, por sua vez, intensifica a
produtividade do trabalho de forma elevada gerando diminuição do tempo de trabalho
socialmente necessário, o que provoca ociosidade crescente na classe operária.
Além disso, o objetivo do projeto sócio-estatal era controlar o crescimento econômico
e impedir que seus reflexos destrutivos atingissem os trabalhadores. Isto, segundo Habermas,
proporcionou um “alto grau de justiça social”, mas, ao mesmo tempo, devido ao unilateralismo
de objetivo, provocou excesso de regulamentação e burocratização que produziram “efeitos
contraproducentes” na política social, criando, pois, um “mundo da vida” excessivamente
“regulamentado, analisado, controlado e protegido” e, simultaneamente interferindo no ciclo
econômico de forma inadequada ao seu, crescimento. A partir disso Habermas conclui que a
utopia de uma sociedade do trabalho está esgotada.
Diante desse quadro, as respostas fornecidas pelos “agentes sociais” não oferecem
alternativa viável. Habermas coloca a existência de três tipos de reação: os “legitimistas”, os
“neoconservadores” e os “dissidentes”. Os legitimistas (a socialdemocracia de direita), que se
colocam numa posição defensiva, buscam harmonizar o desenvolvimento do “estado social” e
da modernização através da economia de mercado, abandonando assim o ideal de superação
do trabalho heterônomo. Mas a nova situação eleitoral e a crise do sindicalismo corroem suas
bases de sustentação. Os neoconservadores (neoliberais) estão em ascensão. As suas
propostas políticas e ideológicas enfatizam o crescimento econômico através do livre jogo do
mercado. O grupo dos dissidentes é composto pelos “novos movimentos sociais” que fazem
“aliança antiprodutivista” e possuem uma visão ambígua do estado social, pois recusam a
visão produtivista do progresso em voga e questionam tanto a mercantilização (dinheiro)
quanto à burocratização (poder) e apresentam um projeto que propõe formas de organização
mais próximas da base e “autogestionárias”, desvinculação da segurança social e emprego
etc.
Porém, afirma Habermas, hoje não apenas o capitalismo, mas também o “próprio
estado intervencionista deve ser socialmente contido”. Isso complica a situação. Segundo ele:

Se agora contenção e controle indireto devem dirigir-se também contra a dinâmica interna da
administração pública, a capacidade indispensável de reflexão e controle deve ser procurada em outro lugar, a
saber, em uma relação completamente transformada entre as esferas públicas autônomas auto-organizadas,
de um lado, e os domínios de ação regidos pelo dinheiro e pelo poder administrativo, de outro lado
(Habermas, 1987, p. 112).

Isso significa que o estado social deve buscar controlar a economia capitalista e a si
mesmo. Mas, desta forma, o trabalho perde o privilégio de ser o ponto central de referência.
Habermas acrescenta que o poder, o dinheiro e a solidariedade são os três recursos que a
sociedade moderna possui para garantir o exercício do governo. Para ele:

As esferas de influência desses recursos teriam de ser postas em um novo equilíbrio. Eis o que
quero dizer: o poder de integração social da solidariedade deveria ser capaz de resistir às “forças” dos outros
dois recursos, dinheiro e poder administrativo. Pois bem, os domínios da vida especializados em transmitir
valores tradicionais e conhecimentos culturais, em integrar grupos e em socializar crescimentos, sempre
dependeram da solidariedade. Mas desta fonte também teria de brotar uma formação política da vontade que
exercesse influência sobre a demarcação de fronteiras e o intercâmbio existente entre essas áreas da vida
comunicativamente estruturadas, de um lado, e Estado e economia, de outro lado (Habermas, 1987, p. 112).

Portanto, é o surgimento de esferas públicas autônomas que podem produzir lutas
nos “microdomínios da comunicação cotidiana” que busquem criar uma nova
intersubjetividade, um novo consenso. Assim, a crise da utopia da sociedade do trabalho não
destrói a utopia em geral. Ela apenas nos revela a ilusão de que a razão instrumental
desencadeada no interior das forças produtivas poderia cumprir um papel emancipador.
Habermas afirma que:

O projeto do Estado social voltado para si mesmo despede-se da utopia de uma sociedade do
trabalho. Esta orientara-se pelo contraste do trabalho vivo e do trabalho morto, pela ideia de autoatividade.
Para isso ela certamente precisou supor as formas subculturais de vida dos trabalhadores industriais como
uma fonte de solidariedade. Ela precisou pressupor que relações de cooperação no interior da fábrica até
mesmo forçariam a naturalmente estabelecida solidariamente da subcultura dos trabalhadores. Mas essas
relações de cooperação têm se desagregado tanto quanto possível nesse meio tempo; e é de certa maneira
duvidoso que sua capacidade de instituir solidariedade no emprego possa ser restaurada. Seja como for, o que
para a utopia de uma sociedade do trabalho era pressuposto ou condição marginal hoje se converteu em tema.
E com esse tema os acentos utópicos deslocam-se do conceito do trabalho para o conceito de comunicação
(Habermas, 1987, p. 114).

Habermas enfatiza o papel destas “esferas públicas autônomas”. Habermas, em seu
texto Soberania Popular Como Procedimento, retoma sua crítica a Marx e ao reformismo e,
curiosamente, defende a ideia de que o anarquismo ainda possui uma atualidade. A partir do
reconhecimento da atualidade do anarquismo, ele fundamenta sua tese de formação de
associações espontâneas e auto-organização. Habermas coloca que:

Estas apresentam um grau mínimo de institucionalização: os contatos horizontais no plano das
interações simples devem adensar-se numa prática intersubjetiva de deliberação e execução que seja o
suficiente forte para manter todas as outras instituições no estado fluido de agregado da fase de fundação,
preservando-as por assim dizer do coagulamento. Esse anti-institucionalismo tem pontos de contato com
antigas concepções liberais de um espaço público sustentado por associações, no qual a prática comunicativa
pode realizar-se numa formação de opinião e vontade dirigida de maneira efetivamente argumentativa
(Habermas, 1990, p. 107).

Assim, segundo Habermas, só é possível uma “democratização fundamental” através
da instauração de espaços públicos autônomos, pois somente estes podem possibilitar a
formação racional de uma vontade e opinião para efetivá-la, bem como a soberania popular.
As colocações de Habermas sobre o “esgotamento das energias utópicas” são
parcialmente verdadeiras. Podemos dizer que os “legitimistas” e “neoconservadores”
realmente não produzem nenhuma alternativa ao mundo existente e, se encontram numa
situação de perplexidade, embora a extrema-direita esteja ansiosa para conquistar o poder. Os
que ele chama de “dissidentes”, entretanto, ainda são uma reserva de energia utópica. De
qualquer forma, a ideia de se instaurar uma “sociedade do trabalho” equilibrada está
ultrapassada.
Ocorre, porém, que Marx e os marxistas revolucionários nunca propuseram tal coisa.
Pelo contrário, no marxismo, a crítica ao estado socialdemocrata (e também ao estado liberal
e fascista) sempre esteve presente. Do ponto de vista da teoria marxista, não se trata de
controlar o desenvolvimento capitalista e nem a organização burocrática do estado e sim
substituí-los pela “livre associação dos produtores”. Mas esta não se caracteriza por ser uma
“sociedade do trabalho” e nem, como querem outros, do não-trabalho, pois ela rompe
justamente com essa divisão entre trabalho e não-trabalho. Pode-se falar isto quando se refere
à concepção stalinista, à União Soviética etc., mas não quando se trata das ideias de Marx ou
do marxismo revolucionário. A dicotomia que Habermas erige entre a razão instrumental e
razão comunicativa, parcialmente verdadeira no que se refere ao capitalismo, seria inexistente
neste tipo de sociedade.
Abordemos rapidamente a ideologia habermasiana do agir comunicativo. Para
Habermas existem dois tipos de racionalidade: a razão instrumental e a razão comunicativa.
Segundo ele, a razão instrumental é produzida por um discurso técnico e científico que
cumpre a função de legitimar a dominação. O desenvolvimento das forças produtivas não
possui mais um caráter revolucionário. A ciência e a técnica, partes constitutivas das forças
produtivas no capitalismo tardio, se tornaram ideológicas. Isto ocorreu devido ao fato de que o
capitalismo tardio precisa, para se reproduzir, da crescente intervenção do estado no
desenvolvimento do modo de produção capitalista, principalmente a partir da Segunda Guerra
Mundial. Um dos aspectos centrais dessa intervenção se localiza na pesquisa científica e
tecnológica, criando grandes centros de pesquisas estatais (Habermas, 1987b).
O discurso técnico assume uma importância fundamental como fonte de legitimação
do capitalismo tardio. As decisões relativas ao poder passam a ser tomadas a partir de
critérios técnicos a cargo de uma minoria de especialistas, técnicos. Essa ideologia, segundo
Habermas, possui em comum com as outras ideologias a característica de nunca
problematizar a questão do poder existente. Ocorre, porém, que ela distingue-se das outras
ideologias, que dominaram no passado, pelo fato de não buscar sua legitimação em normas
consideradas justas e sim sustentando que são as normas técnicas que devem comandar o
processo de decisão, pois só elas são eficazes. Para Habermas, a ideologia tecnocrática ou
discurso técnico é muito mais radical que qualquer outra ideologia. A razão disso se encontra
no fato de que ela busca assimilar a estrutura da ação comunicativa à ação instrumental.
Surge assim, um consenso factual baseado na razão instrumental. Essa razão
instrumental cria um “falso consenso”. O objetivo passa a ser, então, a criação de um novo
consenso, que deve fundamentar- se no agir comunicativo.
Mas é interessante ressaltar as limitações da alternativa apresentada por Habermas.
Segundo a tradição marxista, tal alternativa seria definida como reformista, pois busca uma
nova configuração do “estado social” e não sua abolição. Apesar de suas referências elogiosas
ao anarquismo, ele considera esta última concepção apenas em seus meios e não em seus
objetivos (a autogestão em pressupõe o fim do estado e do mercado). Ele simplesmente evita
aprofundar questões fundamentais como, por exemplo, a revolução tecnológica e suas
consequências sociais (desemprego), a tendência declinante da queda da taxa de lucro médio
e as crises do capital etc. Habermas prefere, ilusoriamente, repartir a realidade social em três
esferas (o poder, o dinheiro e a comunicação, ou “solidariedade”) e buscar um equilíbrio com a
primazia da comunicação. Postura nada radical, pois não postula nenhuma ruptura, que revela
uma mistura de comodismo e evolucionismo. Sua concepção é até mesmo conservadora, pois
busca apenas mudar as relações entre as esferas e não substituí-las.
A proposta de surgimento do que ele chama de “espaços públicos autônomos” e
“associações voluntárias”, em si mesma, é interessante e não se contrapõe à tradição
socialista. Mas tal proposta carece de fundamentação. Afinal, Habermas nunca coloca quais
são as condições necessárias para surgirem tais espaços públicos autônomos e associações
voluntárias. O estado, instrumento do poder (e da razão instrumental) aceitaria a formação
desses “espaços públicos autônomos” e “associações espontâneas”? Até que ponto os espaços
e associações não se corromperiam, tal como ocorreu com os partidos e sindicatos?
As respostas a estas questões deixam claras as limitações da ideologia
habermasiana. Portanto, devemos concluir que Habermas acaba caindo numa concepção
“utópica” (no sentido de “utopia abstrata”, segundo expressão de Ernst Bloch) influenciada
pela filosofia iluminista, caracterizada por excessiva fé na razão. Trata-se de um racionalismo
utópico-abstrato.
É por isso que ele pode evitar a questão dos agentes da transformação social. Quem
são os responsáveis pela formação dessas associações e espaços? Habermas não responde. Ele
prefere acreditar em um desenvolvimento metafísico de espaços e associações, ao invés de
identificar que são os agentes, os indivíduos histórico-concretos, que irão realizar tal tarefa.
Ao reconhecer isso teria que retomar a teoria marxista. Isso provocaria uma discussão sobre
necessidades, interesses, classes sociais, luta de classes etc., e que nos remete a um plano
histórico-concreto. Em primeiro lugar, seria necessário observar que o poder não existe sem
motivo e que ele busca manter as relações de produção capitalistas. Mas o estado não é uma
entidade metafísica e sim uma relação de dominação de classe, mediada pela burocracia
estatal, que se encontra aquartelada nos meios estatais de administração. A classe capitalista
e as classes auxiliares (a burocracia estatal, em especial) combateriam qualquer tentativa de
transformação social. Essa tentativa, por sua vez, precisaria ser encaminhada por indivíduos
concretos que teriam interesse, assim como a possibilidade de transformar as relações de
produção, que é a determinação fundamental da sociedade. Esses indivíduos só podem ser os
provenientes das classes exploradas e em especial aqueles que possuem uma posição chave
para transformar tais relações, os indivíduos proletários, envolvidos diretamente no processo
de produção capitalista. Por conseguinte, somente a teoria marxista das classes sociais
poderia superar o utopismo abstrato, racionalista, de Habermas.
Habermas tenta refutar o marxismo, mas não consegue. Quando ele fala do “papel
decrescente do trabalho” nos remete a Claus Offe, que, como já vimos, comete inúmeros
equívocos e fracassa na tentativa de demonstrar que o marxismo foi superado pelo
desenvolvimento histórico do capitalismo. Habermas não consegue ultrapassar a estratégia,
mil e uma vezes utilizada (algumas vezes intencionalmente, outras não), de simplificar o
marxismo, para conseguir refutá-lo, tal como na repetida fórmula do “desenvolvimento das
forças produtivas” como motor da história.
Também é digno de nota o fato de Habermas, da mesma forma que Offe, centrar sua
atenção nos países capitalistas superdesenvolvidos e se esquecer do resto do mundo, ou seja,
dos países capitalistas subordinados, e também das relações internacionais, onde ocorre a
transferência de mais-valor.
Por fim, podemos dizer que o racionalismo habermasiano não consegue explicar o
mundo contemporâneo e nem apontar uma alternativa a ele. Habermas fica preso no prédio
de concreto da razão comunicativa, que não tem portas e nem janelas. Trata-se de uma prisão
que não tem saída.

Uma crise da sociedade do trabalho?


Desta forma, podemos observar que tanto Habermas quanto Offe equivocam-se ao
falar de uma importância decrescente do trabalho na sociedade contemporânea. Na verdade,
para sustentar essa tese seria necessário comprovar que a produção de mais-valor foi
superada ou então que foi subjugada por outra forma de produção. Entretanto, isso não é
verdadeiro e nem esses autores tentaram fundamentar tal ideia. Somente no caso do fim da
produção de mais-valor é que se poderia falar em “crise da sociedade do trabalho” ou da
“importância decrescente do trabalho”. Mas como nem Habermas nem Offe o fazem, então
não há como dizer que eles conseguiram refutar a teoria marxista do modo de produção
capitalista e tudo que deriva daí.
Mas deixando o plano da ideologia e retornando ao plano histórico e social, podemos
dizer que o trabalho assalariado produtivo continua sendo a base da produção e reprodução
da sociedade contemporânea e, por isso não há como dizer que ele está em crise. Sem dúvida,
o trabalho assalariado produtivo está diminuindo quantitativamente, embora alguns neguem
tal fato, mas isso não significa, que ele perde sua relevância social, pois sua importância não
vem do seu quantum e sim de sua característica como elemento constituinte da sociedade
capitalista. Marx já dizia que, durante o período manufatureiro, a supremacia do capital
comercial fornecia o predomínio do capital industrial. Posteriormente, o capital industrial
passou a caminhar com as próprias pernas e esse fato traz consigo a supremacia comercial.
Isto quer dizer que para o capital industrial predominar não é necessário que seja
quantitativamente superior a outras formas de produção. Por conseguinte, o capital industrial
continua coordenando o desenvolvimento da sociedade contemporânea e ele se fundamenta
sobre o trabalho assalariado produtivo.
Também não se pode negar que a revolução tecnológica e o desemprego em massa,
cujo processo ocorre de forma mais avançada nos países capitalistas superdesenvolvidos,
estão corroendo as bases da sociedade capitalista. Isso não significa, corroer a base de sua
destruição, ou seja, destruir o proletariado, que é o “seu coveiro” (Marx)? Tal visão se esquece
que o proletariado é uma classe social que possui a possibilidade de destruir as relações de
produção capitalistas e instaurar novas relações de produção. Para que ele faça isso é preciso
que passe a dirigir o processo de produção. O fato do processo de automação acabar com
alguns postos de trabalho não significa o fim do processo de produção e sim sua limitação
quantitativa. A diminuição quantitativa, por sua vez, não implica em impossibilidade, pois
qualquer processo de transformação social só pode ocorrer atingindo-o. O aumento massivo
de desemprego não impossibilita esse processo. Por isso, tal fato não anula a possibilidade de
revolução social nos moldes apontados por Marx.
Mas é preciso ver o outro lado da moeda. O processo de transformação social é
reforçado em suas tendências. Isto ocorre pelo fato de a sociedade capitalista acabar sendo
corroída por tais acontecimentos. De que forma? Basta observar que a produção de mais-valor
continua existindo e dominando a sociedade moderna, mas ao mesmo tempo, com o processo
de revolução tecnológica e desemprego em massa, ocorre a queda da taxa de lucro médio, tal
como Marx havia colocado. Cada vez mais aumenta-se o uso de trabalho morto (tecnologia),
que apenas repassa seu valor às mercadorias, e cada vez menos utiliza o trabalho vivo (a força
de trabalho), que produz mais-valor. Isso aumenta a composição orgânica do capital e
reproduz, de forma mais intensa, a dificuldade de reprodução do capital. Além disso, a massa
de desempregados tende a tornar-se uma forte aliada do proletariado e dos demais setores
sociais que buscam a transformação social. Sem dúvida, o estado capitalista e a burguesia
buscam criar contratendências (tanto no nível “econômico”, quanto nos demais níveis) e
inviabilizar tal processo, mas mesmo assim a crise e a possibilidade de uma mudança
revolucionária estão dadas. É exatamente o regime de acumulação integral que constitui a
resposta do capital a esta situação. Porém, nem Offe, nem Habermas, levam em consideração
as lutas de classes e sua expressão na acumulação de capital. Outra alternativa é a volta do
nazi-fascismo e a guerra e, consequentemente, a destruição em massa das forças produtivas, o
que restauraria, por algum tempo, o crescimento capitalista.
Independentemente das possibilidades de resolução da crise, o que se constata é que
a teoria de Marx sobre a sociedade capitalista, deixando de lado todos os modismos
acadêmicos, continua explicando a realidade social. Isto significa, simultaneamente, que o
trabalho assalariado ainda é o pilar que sustenta a moderna sociedade burguesa e que
qualquer tentativa de mudança radical, necessariamente, deve passar por superação e isso só
poderá ocorrer com a ação do proletariado. Ou, em outras palavras, tanto o trabalho
assalariado quanto o proletariado submetido a ele, que é sua negação, não foram
ultrapassados e nem perderam sua importância.
4 – A Ideologia do Trabalho Imaterial

O capitalismo na era da acumulação integral vem produzindo diversas ideologias


sobre as transformações atuais. A ideologia, no sentido marxista do termo, significa uma falsa
consciência sistematizada da realidade, e ela muda de acordo com as transformações sociais.
Uma dessas ideologias é a produzida pelo italiano Antonio Negri e seus colaboradores
(Michael Hardt, Maurício Lazzarato, Paolo Virno, Giuseppe Cocco etc.). Nosso objetivo não é
analisar o conjunto das teses apresentadas por esta concepção – um trabalho coletivo que se
desenvolve há muitos anos, e uma produção muito ampla – e sim uma de suas teses
fundamentais: a do trabalho imaterial.
Neste sentido, iremos realizar uma análise marxista do trabalho imaterial. O que
significa isto? Significa que realizamos uma clara separação entre marxismo e negrismo26. O
marxismo é uma expressão teórica e política do movimento revolucionário do proletariado.
Adiante iremos definir o significado do termo “proletariado”. Aqui, por enquanto, basta
colocar que o negrismo não é expressão do movimento operário e isto fica explícito em suas
teses, tal como veremos mais à frente. Sendo assim, uma análise marxista da teoria do
trabalho imaterial faz-se necessária.
As teses do negrismo, no entanto, são muito frágeis e carecem de fundamentação.
Alguém pode perguntar: então, como convencem tantas pessoas? Isto é o resultado de
múltiplas determinações. A existência de tantas ideologias frágeis e sem fundamentação que
circulam em nossa sociedade, inclusive sendo as hegemônicas, não deveria causar espanto. O
sucesso relativo do negrismo encontra-se, em parte, em sua estratégia competitiva no interior
da produção capitalista de ideologias. Temos que, aqui, distinguir no negrismo um “núcleo
produtor”, formado por seus ideólogos produtivos, dos círculos de reprodutores (os
divulgadores e vulgarizadores, “ideólogos passivos”), apropriadores (que fazem uma
determinada interpretação da ideologia e, muitas vezes mesclando-as com outras, fornecem
uma nova direção para ela) e os simpatizantes. Os “apropriadores” e “simpatizantes”, de certa
forma “negristas heterodoxos”, não são aqui contemplados, mas somente os “ortodoxos”.
Depois dos esclarecimentos iniciais, passemos à nossa análise.

A Ideologia do Trabalho Imaterial


Antônio Negri e seus colaboradores colocam que houve uma transformação no
capitalismo contemporâneo, que promoveu a passagem do modo de produção fordista para o
pós-fordista. A velha classe operária foi substituída, em sua centralidade, pelo trabalho
imaterial. Antes de iniciar a exposição das teses negristas, devemos asseverar ao leitor de que
elas, em parte, são produtos de uma deformação da concepção marxista. Por isso iremos, em
várias oportunidades, apresentar tais deformações.
O modelo pós-fordista, segundo Negri, baseia-se na centralidade do trabalho vivo e
este é sempre “mais intelectualizado”, pois tal modelo pede o “investimento da subjetividade”.
Segundo ele:

Se hoje em dia definimos o trabalho operário como atividade abstrata ligada à subjetividade, é
necessário, todavia, evitar todo mal entendido. Esta forma de atividade produtiva não pertence somente aos
operários qualificados: trata-se também do valor de uso da força de trabalho, e mais genericamente da forma
de atividade de cada sujeito na sociedade pós-industrial (Negri & Lazzarato, 2001, p. 25-26).

Aqui já temos algumas novidades apresentadas pelo negrismo: trabalho vivo,
subjetividade, trabalho produtivo, sociedade pós-industrial. Os conceitos de trabalho vivo e
produtivo são de origem marxista, mas na concepção negrista são, num primeiro momento,
deformados e, num segundo momento, redefinidos. No texto citado, por exemplo, o trabalho
vivo não tem nada a ver com a concepção marxista e é por isso que em textos posteriores se
coloca a necessidade de “ampliá-lo”27. A redefinição de trabalho vivo pelos negristas acaba
reduzindo-o ao que denominam de “trabalho imaterial”. Voltaremos a isto mais adiante.
Negri e Lazzarato consideram que as transformações do trabalho na
contemporaneidade (organização do trabalho descentralizado, fábrica difusa, terceirização
etc.), marcam a passagem para uma sociedade pós-industrial, na qual o trabalho imaterial
ganha centralidade. Há uma integração do trabalho imaterial28 no trabalho industrial e
terciário.

O ciclo do trabalho imaterial é pré-constituído por uma força de trabalho social e autônoma, capaz
de organizar o próprio trabalho e as próprias relações com a empresa. Nenhuma organização científica do
trabalho pode predeterminar esta capacidade e a capacidade produtiva social (Negri & Lazzarato, 2001, p.
27).

As lutas operárias da década de 70 consolidaram “espaços de autonomia”, que são
espaços independentes de organização do trabalho imaterial, e com a emergência do modo de
produção pós-fordista, são subordinados às grandes indústrias, valorizando a “nova qualidade
do trabalho”. Assim, estão dadas as condições de desenvolvimento da sociedade pós-fordista.
A transformação integral do trabalho imaterial e da força de trabalho em intelectualidade de
massa transmuta-se em “sujeito social e politicamente hegemônico”.
Tal tese é inspirada em Marx. Negri e Lazzarato utilizam uma citação dos
Grundrisse:

Como, com o desenvolvimento da grande indústria, a base sobre a qual ela se funda – ou seja, a
apropriação do tempo alheio cessa de constituir ou criar riqueza, assim, com ele, o trabalho imediato cessa de
ser, como tal, a base da produção, porque por um lado vem transformado em uma atividade prevalentemente
de vigilância e regulamentação; mas também porque o produto cessa de ser o produto do trabalho isolado
imediato e é, ao contrário, a combinação da atividade social a apresentar-se como o produtor (Apud. Negri &
Lazzarato, 2001, p. 28).

Assim, o trabalho imediato e o tempo de trabalho deixam de ser medida de produção
e riqueza e passam a ser “apropriação de sua produtividade geral”. A nova base criada pela
própria indústria abole o tempo de trabalho e, por conseguinte, o valor de troca. O mais-valor
deixa de ser medida de riqueza e o não-trabalho deixa de ser condição do desenvolvimento
intelectual. A produção fundada no valor de troca desmorona, o capital busca diminuir o
trabalho necessário, provocando desenvolvimento artístico, científico etc.
Devemos abrir parênteses e expor que a referida citação de Marx, que serve de
fundamento para a tese de Negri e Lazzarato, foi descontextualizada. Marx buscava
apresentar, no trecho citado e nos posteriores, resumidos por Negri e Lazzarato, a tendência
evolutiva do capital para sua autodissolução, num estágio extremamente avançado, marcado
pela automação (Marx, 1985)29. Marx queria dizer tão-somente que o movimento do capital
tende a produzir sua autodissolução. No entanto, não se trata de um movimento automático,
pois o movimento do capital busca desenvolver forças produtivas e impedir seu
desenvolvimento, seu processo contraditório. Por isso existe o que Marx denominou
“destruição periódica de capital” (Marx, 1985), sem falar nas “contratendências” (Marx,
1988c) e na ação estatal, ausentes na análise dos negristas. O movimento do capital busca
desenvolver forças produtivas capitalistas e emperrar aquelas que não lhe são prejudiciais. A
questão está em compreender quais são as forças produtivas capitalistas e quais não são.
As forças produtivas capitalistas são aquelas que se integram na produção de mais-
valor. As forças produtivas prejudiciais ao capital são aquelas que comprometem a produção
de mais-valor. O processo de automação é prejudicial, pois não só reforça o processo de
declínio da taxa de lucro (devido à composição orgânica do capital) como, caso “completado”,
significaria a própria abolição da produção de mais-valor, ou seja, do capitalismo. Portanto,
somente numa concepção economicista e evolucionista se poderia pensar em tal
desenvolvimento, deixando de lado a ação da classe capitalista, do estado etc. Somente uma
leitura dos Grundrisse, isolada dos outros textos de Marx, é que pode possibilitar a ideia que
seria possível abolir a produção do mais-valor pelo desenvolvimento das forças produtivas.
Se, como coloca Negri e Lazzarato, baseando-se em citações do Grundrisse, o valor
de troca tivesse “desmoronado”, então estaríamos realmente em uma sociedade pós-
capitalista, mas não é este o caso, como mostraremos adiante. Aqui fechamos o parêntese.
Negri e Lazzarato prosseguem o raciocínio dizendo que o novo “ator fundamental”
do processo de produção é o intelecto geral (general intellect). A relação sujeito-produção não
é mais caracterizada pela subordinação ao capital e coloca-se, em termos de autonomia, em
relação à exploração. Assim, o conceito clássico de trabalho mostra-se incapaz de explicar a
atividade do trabalho imaterial. Ele é “tempo de vida global”, no qual é difícil distinguir tempo
de trabalho, tempo de produção e tempo livre. No momento em que o trabalho passa a ser
trabalho imaterial e se torna “a base fundamental da produção”, passa a dominar a produção,
e todo o processo de reprodução e consumo. Não há nova produção sob a forma de exploração
e sim como “forma de reprodução da subjetividade”. Desta forma, o trabalho imaterial vai
conquistando uma independência progressiva em relação ao domínio capitalista. O controle
capitalista torna-se totalitário, mas sua influência é apenas formal, pois o conteúdo do
processo pertence a outro modo de produção, caracterizado pela “cooperação social do
trabalho imaterial”.
O que interessa, segundo eles, é a produção da nova subjetividade que surge a partir
de 68 (época da rebelião estudantil), criando focos múltiplos, heterogêneos e transversais de
resistência. Há o surgimento de uma “nova subjetividade”, que possibilita novas análises
(Habermas, Krahl, Foucault, Deleuze, e outros). A questão passa a ser a da “produção
autônoma da subjetividade”:

A subjetividade, como elemento de indeterminação absoluta, torna-se um elemento de
potencialidade absoluta. Não é mais necessária a intervenção determinante do empreendedor capitalista. Este
último torna-se sempre mais externo ao processo de produção de subjetividade, isto é, processo de produção
tout court, se constitui “fora” da relação de capital, no cerne dos processos constitutivos da intelectualidade
de massa, isto é, da subjetivação do trabalho (Negri & Lazzarato, 2001, p. 35).

Essa intelectualidade de massa produz novos antagonismos na “sociedade pós-
industrial”. Para eles, a inteligência coletiva cria contradição entre a “nova subjetividade” e o
domínio capitalista que não é mais “dialética” e sim alternativa, pois sua relação com o capital
está além do antagonismo, é alternativa constituinte de uma nova relação social, nova
realidade, e por isso não cabe a ideia de transição. O que importa não é mais o conflito entre
burguesia e proletariado e sim a constituição autônoma da “subjetividade alternativa”. A
identificação dos antagonismos está subordinada ao reconhecimento dos “novos poderes
constituintes”. Isso produz uma nova noção de revolução que passa a ser compreendida como
uma ruptura radical subordinada à constituição do novo poder.
Assim, estamos diante do pós-fordismo e de um novo ciclo de produção, a do
trabalho imaterial. O fundamental passa a ser o “tratamento da informação”, a “venda e a
relação com o consumidor”. “Esta estratégia se baseia sobre a produção e o consumo da
informação, ela mobiliza importantes estratégias de comunicação e marketing para
reaprender a informação (conhecer a tendência do mercado)” (Lazzarato, 2001, p. 43-44).
Esse processo ocorre tanto na indústria quanto no setor de serviços, é mais visível, e
o consumidor intervém, “de maneira ativa”, na produção. A economia pós-industrial
fundamenta-se no tratamento imaterial (produção audiovisual, publicidade, moda, produção
de software, gestão do território etc.) que institui uma relação específica entre produção-
mercado-consumo. O trabalho torna-se a interface de relação produção-consumo, passando a
ativar e organizá-la. Isto é realizado através do processo comunicativo, formando e
materializando os gostos, o imaginário e as necessidades do consumidor. A mercadoria passa a
ter conteúdo informativo e cultural, constituindo o “ambiente cultural e ideológico” do
consumidor.
Isso, segundo Lazzarato, cria uma nova configuração para o mais-valor. Publicidade
e consumo passaram a ser “processo de trabalho”. O trabalho imaterial tem um valor
econômico quando produz uma relação social (inovação, produção, consumo), cuja “matéria-
prima” é a subjetividade; satisfaz e produz o consumidor, gera valor econômico e
subjetividade.

A nossa hipótese é que o processo de produção da comunicação tende a tornar-se imediatamente
processo de valorização. Se no passado a comunicação era organizada, fundamentalmente, por meio da
linguagem (a produção ideológica, literária e as suas instituições), hoje ela, investida pela produção industrial,
é reproduzida por meio de formas tecnológicas específicas (tecnologia de reprodução do saber, do
pensamento, da imagem, do som, da linguagem) e por meio de formas de organização e do management, que
são portadoras de um novo modo de produção (Lazzarato, 2001, p. 48).

O trabalho imaterial é coletivo, autônomo, produtor de subjetividade, comunicativo e
criativo. Assim, o “produtivo” passa a ser o conjunto das relações sociais, que coloca em jogo o
“sentido” questionando a “apropriação capitalista” do processo, que busca normatizá-lo e
padronizá-lo. “A mais-valia deriva da produção e do controle dos fluxos, em primeiro lugar dos
fluxos financeiros e comunicativos” (Lazzarato, 2001, p. 48).
Lazzarato retoma os críticos de Marx (Habermas, Arendt, Gorz etc.) e coloca que a
crítica que endereçam ao marxismo resulta da incompreensão da relação entre “sujeito e
objeto”:

A particularidade do método marxiano consiste no fato de que suas categorias apreendem, ao
mesmo tempo, a objetividade da produção e a subjetividade dos agentes da transformação, consentindo uma
tradução, em ambos os sentidos, entre estrutura e sujeito. O conceito de trabalho vivo é a chave para analisar
e compreender a produção, seja para apreender o sujeito revolucionário (Lazzarato, 2001, p. 48).

Existe uma “nova centralidade do trabalho vivo” e a superação do “economicismo”
de Marx, postulada por seus críticos, ocorre através da radicalização e ampliação do conceito
de trabalho vivo. Assim, Marx, ao contrário de seus críticos, funda sua teoria da ação no
conceito de trabalho vivo, uma potência ontológica que produz não apenas mercadorias, mas
também relações políticas.

Crítica da ideologia do trabalho imaterial



Agora que apresentamos uma breve exposição da ideologia do trabalho imaterial
(embora incompleta, pois alguns construtos como os de general intellect, modo de produção
pós-fordista, multidões, império etc. não foram abordados, mas que serão incluídos na análise
mais à frente), passemos para sua crítica. Iniciemos pela tese da passagem do modo de
produção fordista para o pós-fordista.
Os negristas, em primeiro lugar, esvaziaram o conceito de modo de produção; o uso
fornecido por eles a este termo é completamente não-marxista. O modo de produção “pós-
fordista” fundamenta-se no trabalho “imaterial”. Ora, em Marx, o conceito de modo de
produção sempre se refere à “vida material”, à produção de bens materiais30. O fato dos
negristas não utilizarem o termo “modo de produção” no sentido marxista não é suficiente
para determinar suas fraquezas e equívocos, embora pudessem ter adotado outra noção.
Contudo, o conceito marxista de modo de produção é o único que consegue dar conta do
processo de criação de riquezas na história. A humanidade só pode livrar-se da dependência
em relação ao meio ambiente através da geração de bens materiais. Um modo de produção é
sempre de bens materiais e o processo de circulação e consumo só pode existir tendo-o como
sua base.
Sendo assim, não pode existir nenhum modo de produção pós-fordista. Aliás, sequer
existe um modo de produção fordista. O que existe, na verdade, é o modo de produção
capitalista, que possui, no seu desenvolvimento histórico, diversas formas de organização do
trabalho, derivadas das lutas de classes (Viana, 2003). Assim, o taylorismo, o fordismo, o
toyotismo, são formas de organização do trabalho, sendo que as duas últimas são
desenvolvimentos da primeira. De qualquer forma, nenhum modo de produção pode sustentar-
se sobre o “trabalho imaterial”.
A “produção de subjetividade” não gera riquezas, não produz alimentos, roupas,
casas, mesas, cadeiras, meios materiais de produção etc. O próprio discurso em torno da
“subjetividade” é uma capitulação diante da ideologia burguesa do conhecimento, fundada na
separação entre “sujeito” e “objeto” (Viana, 1997).
Mas a concepção básica que sustenta a ideologia do modo de produção pós-fordista é
a de que a produção de mais-valor deixou de ser a medida da riqueza e o valor de troca foi
superado. Supondo que tal tese fosse verdadeira, estaríamos realmente numa sociedade pós-
capitalista. No entanto, se a produção de mais-valor foi suplantada, então a produção de bens
materiais vem ocorrendo de outra forma. Como não é comunismo, então se trata de uma nova
forma de exploração. Isto não foi fundamentado em lugar nenhum, logo, não só continua
havendo produção de mais-valor como o valor de troca continua reinando absoluto. A única
alternativa seria provar que houve uma automação completa da produção material, algo
impossível de ser feito.
Mas os negristas perceberam essa encruzilhada e tentaram apresentar uma solução:

O capitalismo sempre foi uma coexistência de diversos modos de produção, comandados,
organizados e explorados pelo mais desterritorializado (abstrato segundo a definição marxista) dentre eles.
Esta realidade é exaltada pelo modo de produção pós-fordista, o qual se apresenta como o acúmulo modos de
produção que compreendem também as formas de trabalho servil e pré-capitalista (Lazzarato, 2001b, p. 95).

Aqui se revela toda fragilidade da concepção negrista. Sua solução é um retrocesso
em relação à teoria marxista. Em primeiro lugar, aponta para a superação da produção de
mais-valor sem nenhuma fundamentação (a não ser uma citação descontextualizada de
Marx)31 e depois, tendo em vista a insustentabilidade desta tese, diz que o capitalismo é uma
coexistência de diversos modos de produção (e dentre eles o capitalismo – modo de produção
“fordista”, segundo linguagem dos negristas). Ora, em uma determinada sociedade, sem
dúvida, pode haver a coexistência de diversos modos de produção, mas tal “coexistência”, no
capitalismo, não é e não pode ser de justaposição. Isso pode ocorrer em sociedades não-
capitalistas (Viana, 1997), mas não no capitalismo.
O modo de produção capitalista é expansionista e universalizante devido à
necessidade de reprodução ampliada do capital. O modo de produção capitalista subordina os
modos de produção não-capitalistas e destrói os pré-capitalistas. Esta subordinação se dá sob
diversas formas: dominação militar, domínio do capital comercial e financeiro etc. O
capitalismo causa a subordinação de modos de produção não-capitalistas tanto a nível
internacional (processo ocorreu durante o colonialismo, e, no Brasil, foi o caso do modo de
produção escravista colonial) quanto a nível nacional (o exemplo clássico é o modo de
produção camponês). Esta subordinação é a de modos de produção (ou seja, formas não-
capitalistas de produção material) que são extorquidos pelo capitalismo.
O que os negristas tentam, confusamente, expressar é a proeminência de um setor
do capital sobre outro. Marx explica-o através dos conceitos de mais-valor total, repartição do
mais-valor e transferência de mais-valor. Assim, o capital industrial e outros setores do capital
que extraem mais-valor proporcionam a formação do mais-valor total que é repartido no
conjunto da sociedade, para as frações do capital que não extraem mais-valor (capital
comercial, financeiro etc.) para o estado para as classes auxiliares da burguesia. Dessa forma,
a fração de capital que absorve para si maior quantum de mais-valor é o que é mais avançado
tecnologicamente (Viana, 2000) e não o “mais abstrato” ou “desterritorializado” (outra
afirmação que não foi fundamentada). Assim, existe uma transferência de mais-valor do
capital que extrai mais-valor (produtivo) para o capital que não extrai (improdutivo) e das
frações menos desenvolvidas tecnologicamente do capital produtivo para as mais
desenvolvidas.
A partir do que colocamos, percebermos que não existe nenhum modo de produção
pós-fordista e que o setor de serviços ou de “produção de subjetividades” não constitui um
modo de produção e que jamais poderia ser modo de produção dominante.
Aqui temos que aproveitar a tese para criticar a afirmação confusa (ou deformadora)
de que há uma “nova centralidade do trabalho vivo”. Ora, desde que o capitalismo se
consolidou há essa “centralidade” que durará enquanto ele existir. O problema é que os
negristas deformam o conceito marxista de trabalho vivo. Afirmam que no interior da
concepção de Marx não é possível definir “a relação entre trabalho e trabalho vivo”, o que, do
ponto de vista marxista é incompreensível. O conceito de trabalho vivo não existe sozinho e
isolado, mas sim no interior de um universo conceitual e intimamente ligado à definição de
trabalho morto. Os negristas, no entanto, descontextualizam e o opõe ao “trabalho”, que deve
ser mais uma entidade metafísica inventada por eles. Assim, ao criarem uma problemática que
não é de Marx (e que não se encontra nele, tal como a relação “sujeito” e “estrutura”, ou entre
“trabalho vivo” e “trabalho”) e deformarem seus conceitos, os negristas podem criticar o que
quiserem, pois não é mais que uma invenção. Desta forma, fazem o mesmo que acusaram H.
Arendt de fazer: uma caricatura do marxismo.
Para Marx, o trabalho vivo é trabalho que cria valor (e, sendo assim, são a mesma
coisa e, por isso o último não pode “comandar” o primeiro, tal como afirma a ideologia
negrista) e que sua contradição com o trabalho morto leva à abolição de ambos, tendência
história espontânea que o capital busca impedir através da ação estatal, da destruição das
forças produtivas e outras ações contratendenciais. Por conseguinte, o trabalho vivo sempre
foi “central” e não pode ser confundido com “trabalho imaterial”, sendo que este último não
pode tornar-se “central”, mesmo considerando o trabalho imaterial como coletivo, social etc.,
o que tornaria possível afirmar, como efetivamente afirmam, que “a sociedade inteira participa
da produção de riqueza” (Cocco, 2000). Barrot colocou:

O desenvolvimento da esfera da circulação marca o parasitismo do próprio capital, que desenvolve
aquilo que não cria qualquer riqueza para a sociedade. A ideologia inverte a relação real e faz aparecer os
bens produzidos como obra de todos os assalariados. (...) a “solidariedade” dos radicais de fins do século 19 e
a “comunidade popular” do país (volksgemeinshapt) estão realizadas: “toda a gente” contribui para a
atividade social e participa na mesma condição salarial (capitalistas, trabalhadores produtivos e
improdutivos). Como era previsível desde meados de século 19, o capitalismo levou a uma simplificação – e
mesmo a uma uniformização – das relações de trabalho. Todos os homens tendem a servir um ser que os
supera: a sociedade – isto é, o capital, uma vez que este a conquistou. Estão unidos por um mesmo modo de
relação com a economia (venda da força de trabalho) sem por isso terem o mesmo papel em relação à
produção (Barrot, 1975, p. 89).

Desta forma vemos que tal ideologia não é nova. A produção de riqueza é realizada
pelo proletariado e não pela “sociedade inteira”. A crítica ao capitalismo, como bem coloca
Barrot, deve distinguir entre trabalho produtivo e improdutivo e entre produção e transmissão
de mais-valor. Assim, os novos ideólogos do capital irão atacar, precisamente, essa distinção.
Segundo Cocco, a distinção marxista (ou, segundo sua linguagem academicista, “marxiana”)
entre trabalho produtivo e improdutivo tornou-se “obsoleta”.

Marx atribui uma qualidade produtiva somente as atividades que se objetivam, na obra, em uma
existência independente da do produtor, considerando improdutivo o trabalho cujo produto é inseparável do
ato de produzir, isto é, os artistas executores de uma “partitura” (Cocco, 2001, p. 114).

Cocco não se dá conta da complexidade que envolve a questão do trabalho produtivo
e improdutivo e nem das ambiguidades de Marx, no que se refere à definição de trabalho
produtivo (e também das inúmeras discussões posteriores dos “marxistas” sobre a questão).
Não iremos aqui, como de costume, apresentar inúmeras citações de seus diversos escritos
em que tratou dessa questão (O Capital, os Grundrisse, Teorias da Mais-Valia, Capítulo Inédito
de O Capital) para legitimar nossa conceituação de trabalho produtivo. Apenas colocamos que,
nesse ponto, Marx, aparentemente, foi ambíguo32 e nós optamos por uma concepção de
trabalho produtivo que julgamos adequada para explicar o modo de produção capitalista.
O trabalho produtivo é aquele que produz mais-valor. O que é a produção de mais-
valor? É o processo no qual o trabalhador acrescenta valor às mercadorias. O que é uma
mercadoria? Um objeto que é portador de valor de uso e valor de troca. Aqui destacamos,
diferentemente de Marx (embora isto esteja explícito em algumas passagens e em alguns
momentos esteja implícito), que a mercadoria é um produto material. Uma mesa é uma
mercadoria e a “educação formal” não, embora possa assumir a forma aparente de
mercadoria, pois ganha valor de uso e de troca, mas não é produto material. Do ponto de vista
do capital, tudo que gera lucro é “produtivo”. Assim, um professor assalariado de uma escola
privada é “produtivo”, pois gera lucro para o proprietário desta instituição. No entanto, da
perspectiva do proletariado, ele é improdutivo. Mas ele não produziu mais-valor? Não, na
verdade ele forneceu mais-valor. A produção de mais-valor só pode ocorrer no processo de
produção de mercadorias. Assim, ela não pode ser produzida no processo de distribuição-
circulação de mercadorias, nem no processo de “produção” de forma-mercadoria (serviços,
trabalho intelectual etc.).
Ora, se no processo de produção de forma-mercadoria (que não é uma mercadoria-
objeto material, mas tão-somente algo – um serviço, por exemplo – que possui forma de valor
de uso e de troca – sem possuir materialidade – isto é, sem ser um produto material) não há
produção de mais-valor, então de onde vem o lucro? O professor assalariado de uma escola
privada trocou seu trabalho por um salário e o proprietário da escola, não só obteve o que foi
gasto com as despesas (instalações etc.) e com os salários, como ainda obteve lucro. O lucro,
nesse caso, vem do professor assalariado que forneceu mais-valor para o proprietário da
escola ao trocar a forma-mercadoria que ele produz por um salário inferior ao que o usuário
pagou pela mesma forma-mercadoria. No entanto, o serviço-mercadoria não poderá ser
reintegrado no processo de produção (não serve como meio de produção) e nem poderá ser
vendido separadamente do produtor como meio de consumo. Terminada a jornada de trabalho,
termina o serviço-mercadoria. É algo natimorto para o processo de reprodução capitalista.
Não há o menor sentido na afirmação de Negri de que “somente a alma e o cérebro
produzem hoje excedente” (Negri, 1998, p. 3). Negri e seus colaboradores apenas apresentam
o ponto de vista do capital, que confunde geração de lucro com produção de mais-valor. Assim,
é possível dizer que é a “sociedade inteira”, ou a “cooperação social do trabalho imaterial” ou
“a intelectualidade de massa” que é “geradora de riqueza”.
Assim, se torna necessária uma breve discussão sobre general intellect e
“intelectualidade de massa”, bem como que prática política gera essa concepção. O
colaborador de Negri que desenvolveu os construtos de “intelectualidade de massa” e
“General Intellect” foi Paolo Virno. Ele se baseou no fragmento de Marx, nos Grundrisse,
citado no início. Segundo Virno, a intelectualidade de massa é “o trabalho vivo, como
articulação determinante do “General Intellect”. A intelectualidade de massa – em seu
conjunto, como corpo social – é depositária de saberes não visíveis das causas vivas, de
cooperação linguística” (Virno, 1992).
Isso irá constituir um “novo proletariado”, que inclui todos os explorados e
subjugados pelo capitalismo (que exerce uma dominação meramente “formal”). “A figura da
força de trabalho imaterial (envolvida em comunicação, cooperação, dedicação e reprodução
de cuidados) ocupa posição cada vez mais central tanto nos esquemas de produção capitalista
como na composição do proletariado” (Hardt & Negri, 2001, p. 72).
Em outro texto, Negri e Lazzarato afirmam que o intelectual está no centro do
processo produtivo, o que mudou o papel do intelectual na luta pela libertação. “A sua
intervenção não pode, portanto, ser reduzida nem a uma função epistemológica e crítica, nem
a um envolvimento e a um testemunho de libertação; é no nível do próprio agenciamento
coletivo que ele intervém” (Negri & Lazzarato, 2001, p. 41). “Quando Negri e Hardt falam de
multidão estão tentando determinar o novo proletariado ligado a um novo trabalho imaterial”
(Altamira, 2002).
Agenciar significa ser representante ou agente de uma negociação. Logo, estamos
diante de uma nova ideologia da intelligentsia como vanguarda, agora do “novo proletariado”,
ou das “multidões”. As multidões devem lutar contra o império, outro construto da ideologia
negrista. Assim, a teoria do imperialismo é substituída pela tese metafísica do “império”. Os
construtos vagos da ideologia negrista abrem caminho para uma nova contrarrevolução
burocrática. Basta analisar as propostas políticas colocadas por Negri e Hardt no final do livro
O Império para ver uma concepção que nunca ultrapassa os limites do modo de produção
capitalista (“cidadania global”, “salário social” etc.). Não colocam como objetivo do programa
revolucionário a abolição do mais-valor (pois ele já foi, nessa ideologia, “abolido”) e a
instauração de um novo modo de produção.
A concepção de Negri acaba revelando-se mais uma ideologia da burocracia
semelhante ao revisionismo socialdemocrata que, através de um evolucionismo reformista
busca instaurar a dominação burocrática. A tendência evolutiva do capitalismo aponta para o
processo de automação e abolição da produção de mais-valor, que os ideólogos negristas
dizem já ter ocorrido. Porém, isto não ocorreu ou ocorrerá devido à oposição do capital. No
entanto, as contradições tendem ao acirramento, e se o proletariado e demais setores
oprimidos da sociedade não realizarem a revolução social e abolição da divisão social do
trabalho (inclusive a distinção entre trabalho “material” e “imaterial”), o que vai acontecer
será a implantação de uma nova forma de dominação, o modo de produção burocrático.
Alguns irão, seguindo a linha de Negri, até postular a existência de um modo de produção
cibernético (Cândido, 2002). Rudi Supek percebeu isso: “um novo perigo surge: o do
nascimento de uma oligarquia tecnoburocrática, de uma camada social, que tenta utilizar a
nova forma de produção social para se colocar, por meios políticos não-democráticos, ‘em
nome da sociedade, acima da sociedade’” (Supek, 1980, p. 27).

Negrismo ou o reino das abstrações metafísicas


Devemos, depois de explicar e refutar a ideologia do trabalho imaterial, fazer
algumas observações sobre o procedimento “metodológico” de Negri e de seus colaboradores,
é uma crítica ao método de Negri por não ser a dialética positivista fundada por Engels33.
Trata-se, na verdade, da necessidade de revelar o caráter metafísico do conjunto dos
construtos da ideologia negrista.
Entendemos por metafísico uma ideia desligada de uma base concreta, isto é, da
história e das relações sociais concretas, existentes34. Demonstramos que a base do edifício
negrista, a abolição da produção de mais-valor, é irreal e fictícia. O mesmo vale para suas
teses. Mas o caráter metafísico da tese da superação da produção de mais-valor se encontra
no fato de não ter sido fundamentada em material informativo convincente.
O mesmo ocorre com a ideologia da “produção de subjetividade”. Deixando de lado o
caráter ideológico do próprio termo “subjetividade”, a ideia de que a produção é “autônoma” e
“independente” da dominação capitalista não foi fundamentada em lugar algum. Aliás, os
próprios ideólogos negristas falam do “domínio totalitário do capital”, demonstrando
contradição no interior desta ideologia. Somente num isolamento fantástico, típico das
concepções metafísicas, se pode pensar em uma produção de subjetividade autônoma e
independente do domínio do capital.
A pesquisa científica e tecnológica é financiada pelo estado burguês ou pelas
empresas capitalistas para atender aos seus interesses, centrados no lucro, na produção de
mais-valor, isto é, na reprodução do capitalismo. O mesmo ocorre com a comunicação, a arte
etc., que mesmo não sendo financiados pelo capital, são formas-mercadorias que são vendidas
e estão submetidas ao capitalismo, expressando uma cultura mercantil. Basta observar a
decadência artística contemporânea para notar que a arte virou uma forma-mercadoria que
nada tem de autônoma e independente. Mas não só na mercantilização da produção cultural e
intelectual se percebe isso, pois basta observar os indivíduos reais e concretos que são seus
produtores (e não indivíduos “metafísicos”) para ver que seus valores e interesses não são
“autônomos” e “independentes” e nem expressam uma “nova subjetividade”.
O modo de produção pós-fordista, o general intellect, as multidões, o império e todos
os outros construtos da ideologia negrista são metafísicos. Se existe algum império no mundo
contemporâneo é o império das abstrações metafísicas do negrismo.
Outro problema metodológico do negrismo é a substituição da concepção dialética
por uma concepção metafísica de transformação social. Negri quer ser o porta-voz daquilo que
chama “novos antagonismos” da “sociedade pós-industrial”. Negri afirma que a “inteligência
coletiva” dos “sujeitos sociais independentes e autônomos” cria uma contradição entre a
“nova subjetividade” e o domínio capitalista que não é mais “dialética” e sim “alternativa”,
pois sua relação com o capital está além do antagonismo. Ela é alternativa, constituinte de
uma relação social, nova realidade e por isso não cabe a ideia de transição (Negri &
Lazzarato, 2001, p. 35-36).
Já colocamos que esta pretensa “inteligência coletiva”, estes “novos sujeitos sociais
autônomos e independentes” etc. são construções metafísicas. Mas a tese tem um problema
adicional, pois a ideia de trocar dialética pela alternativa tem o objetivo de substituir o sujeito
revolucionário da teoria marxista por um novo sujeito, os trabalhadores imateriais. O desejo
de romper com a dialética não é nada mais que a vontade de ultrapassar a contradição
fundamental entre capital (burguesia) e trabalho (proletariado), pois é do conflito entre
trabalho morto e trabalho vivo que surge o novo, a revolução proletária que instaura a
autogestão social. A “alternativa”, que está “além do antagonismo” com o capital, é um
produto endógeno e não-antagônico ao capital (Negri irá “pescar” seus “peixes” na filosofia de
Spinoza, buscando uma potência metafísica que se desenvolve por si mesma).
É assim que o negrismo descobre o novo “sujeito revolucionário”, os trabalhadores
imateriais que, sem dúvida alguma, não são antagônicos ao capital (como uma classe auxiliar
da burguesia seria antagônica a ela?) e traz em si uma “potência”, que é justamente a
“subjetividade”. A ideologia negrista, assim, substitui o proletariado como produtor de mais-
valor pelos trabalhadores imateriais, e, por conseguinte, o substitui como sujeito
revolucionário. Os trabalhadores imateriais são o substituto negrista do proletariado,
tornando-se, nesta ideologia, os produtores de mais-valor e o sujeito revolucionário.
Observamos, por detrás das teses negristas, um conjunto de valores: supervaloração
da “cultura”, do “intelecto” etc., que se expressa em sua tese que é a “nova subjetividade” e
os sujeitos portadores dela, que realizam a mudança e o novo reino, a sociedade dos
intelectuais, obviamente, os negristas (Negri, Hardt, Lazzarato, Virno etc.) estão entre os tão
privilegiados “trabalhadores imateriais”. Os trabalhadores “materiais”, por sua vez, são
desvalorados (já que não produzem tão rica obra filosófica como Negri e seus colaboradores),
pois a “velha classe operária industrial” foi relegada a segundo plano.
A alternativa proposta pelo negrismo se encontra fora do antagonismo burguês e
proletariado. Agora a intelligentsia é o novo sujeito revolucionário. Antonio Negri foi além do
leninismo, pois em sua concepção a intelligentsia deixa de ser vanguarda para ser o próprio
sujeito revolucionário. Assim, fica fácil compreender por qual motivo o negrismo rompeu com
a tese leninista do “período de transição”. Não se trata de “radicalismo” esquerdista, muito
pelo contrário. Já que o negrismo trocou o “sujeito revolucionário” (o proletariado pelos
“trabalhadores imateriais”) e que o novo agente da revolução está “além do antagonismo” com
o capital, então é dispensável a ideia de revolução. Esse é o motivo pelo qual muitos irão
denunciar o reformismo de Negri e seus colaboradores. Como havíamos mencionado
anteriormente, em nenhum momento o negrismo coloca a necessidade da ruptura, da
revolução. Não se trata aqui de defender, tal como os trotskistas (Castillo, 2002), a “tomada do
poder político”, a conquista do estado. O processo de constituição do modo de produção
comunista pressupõe a destruição das relações de produção capitalistas e do estado burguês.
Consequentemente, a instauração da autogestão social, ou seja, de novas relações de
produção, abolem a existência das classes sociais (propriedade privada, produção de mais-
valor, divisão social do trabalho) e do estado (cuja razão de ser é o conflito de classe).
O projeto político negrista pode ser assim resumido:

A) Cidadania global:

As massas precisam ser capazes de decidir se, quando e para onde se movem. Precisam ter o
direito também, de ficar parada e apreciar um lugar, em vez de ser forçada a viver permanentemente em
marcha. O direito geral de controlar seu próprio movimento é a demanda definitiva da cidadania global. Essa
demanda é radical na medida em que desafia o aparato básico de controle imperial sobre o rendimento e a
vida a multidão. Cidadania global é o poder do povo de se reapropriar do controle sobre o espaço e, assim,
desempenhar a nova cartografia (Negri & Hardt, 2001, p. 424).

B) Direito a um salário social:

O salário social estende-se muito além da família, para toda a multidão, mesmo para os
desempregados, porque a multidão inteira produz, e sua produção é necessária do ponto de vista de todo o
capital social; uma vez que a cidadania se estende a todos, podemos chamar esta renda garantida de renda de
cidadania, devida a cada um como membro da sociedade (Negri & Hardt, 2001, p. 427).

C) O direito à reapropriação:

Direito à reapropriação é antes e acima de tudo o direito à reapropriação dos meios de produção.
Socialistas e comunistas de há muito exigem que o proletariado tenha livre acesso a, e o controle de,
máquinas e matérias que usam para produzir. No contexto da produção imaterial e biopolítica, entretanto,
esta demanda tradicional toma novo aspecto. A multidão não apenas usa máquinas para produzir, mas se
torna cada vez mais maquinal, enquanto os meios de produção são progressivamente integrados às mentes e
aos corpos da multidão. Nesse contexto reapropriação significa ter livre acesso a, controle de, conhecimento,
informação, comunicação e afetos – porque esses são alguns dos meios primários de produção biopolítica. Só
porque essas máquinas produtivas foram integradas à multidão não significa que a multidão tenha controle
sobre elas. Em vez disso, sua alimentação torna-se mais viciosa e nociva. O direito à reapropriação é
realmente o direito da multidão ao autocontrole e a autoprodução autônoma (Negri & Hardt, 2001, p. 430-
431).

D) A posse:

O único evento que ainda estamos esperando é a construção, ou melhor a insurreição, de uma
poderosa organização. A cadeia genética é formada e estabelecida em ontologia, o andaime é continuamente
construído e renovado pela nova produtividade cooperativa, e dessa maneira esperamos apenas a manutenção
do desenvolvimento político da posse. Não dispomos de qualquer modelo para este evento. Só a multidão, pela
experimentação prática, oferecerá os modelos e determinará quando e como o possível se torna real (Negri &
Hardt, 2001, p. 435).

O negrismo, como “reino das abstrações metafísicas”, e também suas imprecisões
(tanto terminológicas quanto projetivas –, nunca apontam para o processo de revolução social
e de constituição do comunismo como modo de produção), sempre deixam para o futuro o
delineamento da transformação social; é um claro papel ideológico. A ideologia negrista
produz uma prática (a dos seus seguidores e simpatizantes) que não tem um sentido definido,
o que permite sua apropriação pela burocracia – tendência já presente nas concepções
negristas, com nítido caráter burocrático.
Sem entrar na questão da linguagem burguesa expressa no projeto político negrista
(direito, cidadania etc.), devemos dizer que tal projeto ao mesmo tempo em que parece exigir
tudo, não exige nada. Todas as reivindicações desse projeto são assimiláveis pelo capital. Elas
não se opõem à dominação burguesa – não é antagônica – e podem tanto ser integradas nela,
como podem ser incluídas em uma nova forma de dominação. A “cidadania global” é o velho
direito burguês de ir e vir, só que agora, em escala internacional. Sem dúvida, esse direito é
na maioria dos casos, fictício, mas lutar pela concretização das promessas da revolução
burguesa significa ficar nos limites da burguesia.
O direito de um “salário social” ou “renda cidadã”, que os próprios governos
burgueses colocam parcialmente em prática, também é assimilável pela sociedade burguesa.
Aliás, tal proposta, na atualidade faz parte da estratégia contrarrevolucionária do capital,
como colocaremos mais adiante.
O direito à reapropriação é tão vago quanto complementar ao direito a um salário
social. Pedir um “salário social” ou “renda cidadã” (inclusive para os desempregados)
pressupõe que alguém (ou alguma instituição) ofereça tal renda. Essa instituição só pode ser o
estado capitalista. A reapropriação do controle sobre o conhecimento, informação etc., revela-
se, como uma autonomização da intelligentsia no interior do capitalismo. No entanto, com o
advento de uma “poderosa organização”, podemos imaginar uma nova forma de dominação.
“Posse” e “reapropriação” realizada pelos “trabalhadores imateriais” (na verdade, pela
burocracia) significam uma nova oposição de classe: de um lado, a burocracia enquanto classe
dominante, dirigente, privilegiada e exploradora (pois controladora da renda produzida pela
população) e, de outro, a verdadeira “multidão” que recebe uma renda menor do que produz
(uma vez que na ideologia negrista não é ela que produz e sim “todos”, inclusive os
burocratas), pois a maior parte da renda ficará com a burocracia. Trata-se de um novo modo
de produção, o modo de produção burocrático, no qual a extração de mais-trabalho assume
outra forma e, por conseguinte, novos conceitos explicariam este novo modo de exploração.
Neste novo reino da burocracia, agora sem a produção de mais-valor como no capitalismo de
estado (Rússia, China, Leste Europeu, Cuba), os bustos de Lênin e Stálin seriam substituídos
pelos de Negri e de Lazzarato.
Por isso nada é mais revelador do que esta frase de Negri e Hardt:

Agora o militante não pode sequer fingir ser um representante, mesmo das necessidades humanas,
fundamentais dos explorados. A militância política revolucionária hoje, ao contrário, precisa redescobrir o que
sempre foi a sua forma própria. Atividade não representante. Mas constituinte. A militância atual é uma
atividade positiva, inovadora (Hardt & Lazzarato, 2001, p. 437).

A socialdemocracia e o bolchevismo foram ultrapassados pelo negrismo. O militante
não é mais “representante”, “vanguarda”, é constituinte! Um marxista russo, já no início do
século XX, antes da socialdemocracia revelar-se “social-chauvinista” e antes do bolchevismo
realizar a contrarrevolução burocrática na Rússia, já denunciava a “ciência socialista”, a “nova
religião dos intelectuais”. Makhäisky revelou os fundamentos de classe da socialdemocracia e
do bolchevismo (Makhäisky, 1981) e hoje temos que revelar o caráter de classe do negrismo: a
mais nova ideologia da intelectualidade e da burocracia.

Daniel Bell: Precursor de Antônio Negri


É interessante notar as semelhanças entre as teses de Antônio Negri e do negrismo
em geral com a dos ideólogos antimarxistas da “sociedade pós-industrial”, principalmente
Daniel Bell, autor de famosos textos conservadores: O Fim da Ideologia e a Sociedade Pós-
industrial. Podemos inclusive considerar Bell como precursor de Negri e do negrismo.
Segundo Lojkine,

As teses sobre a sociedade ‘pós-industrial’, de que Daniel Bell permanece como grande formulador,
estão associadas, com efeito, a uma certa concepção da revolução ‘informacional’ fundada numa ideia que
parece ter a simplicidade da evidência: a da substituição da produção industrial pela informação e,
decorrentemente, da experiência profissional pela ciência, dos operários pelos engenheiros (Lojkine, 1995, p.
238).

Lojkine destaca os vínculos ideológicos entre Daniel Bell e Frederich Taylor, com
Radovam Richta (ideólogo da revolução técnico- científica), Serge Mallet (ideólogo da “nova
classe operária”) e outros. Segundo Lojkine:

De acordo com Daniel Bell, estamos assistindo a uma substituição inexorável (ligada ao processo
técnico) das atividades industriais fundadas na manipulação da matéria por atividades fundadas no
tratamento de informação – tal como se assistiu, no século passado, à substituição da agricultura pela
indústria35.

Lojkine percebeu muito bem o caráter burocrático (ou “tecnocrático”) da concepção
de Bell e outros ideólogos da sociedade pós-industrial. Lojkine destaca a semelhança entre as
teses de Bell e Richta:

Para Bell, o “princípio axial” da sociedade pós-industrial é, na verdade, “a centralidade do saber
teórico, tanto gerador da inovação quanto das ideias matrizes que inspiram a coletividade”. Ora, este princípio
hipertecnocrático (...) está também na base da noção de revolução científica e técnica desenvolvida por R.
Richta; “no processo das mutações atuais da produção, a ciência impregna o conjunto do processo de
produção, tornando- se progressivamente a força produtiva central da sociedade e, praticamente, o fator
decisivo do crescimento das forças produtivas (...). A ciência e suas aplicações na técnica (...) substituem hoje
o trabalho simples, parcelado, que até aqui constitui a base da produção. (...) Nas condições da revolução
científica e técnica, a prioridade da ciência sobre a técnica e da técnica sobre a produção direta tornam-se a
lei do desenvolvimento das forças produtivas (Lojkine, 1995, p. 239).

Lojkine diz que a “concepção tecnocrática de inovação pelo alto”, influenciada por
Taylor, é questionada por diversos economistas e gerentes ocidentais. A concepção
substitucionista de Bell, baseada na “tecnologia do intelecto” leva a redução da automação à
“simples substituição dos homens por máquinas”. O seu ideal é construir uma fábrica
inteiramente automatizada.
Daniel Bell já havia expressado, muito antes de Negri e seus colaboradores, a “nova
centralidade” do trabalho intelectual (“imaterial”, científico, informacional). Mas ele também
já havia defendido a tese da superação da produção de mais-valor, e, por conseguinte, a da
perda da validade da teoria do valor-trabalho:

Se, como pensam Bell e os teóricos da sociedade pós-industrial, o saber abstrato (a ciência)
substitui o trabalho simples, na produção direta, o valor-trabalho, fundação da economia política clássica
(Smith, Ricardo) e de sua crítica marxista, deixa de ser o critério central para a avaliação do progresso
tecnológico e do crescimento das atividades informacionais. O valor-trabalho da sociedade industrial
(capitalista) seria substituído, então, pelo “valor-saber” da sociedade pós-industrial (pós-capitalista). Por isto,
a sociedade pós-industrial recupera as teses sobre o pós-capitalismo gerencial: uma classe de “gerentes” –
organizadores deslocaria o antigo poder dos acionistas capitalistas (Burnham, Dahrendorf, Bell etc.); as
“antigas” relações de exploração seriam substituídas por relações de dominação (Touraine) (Lojkine, 1995, p.
240).

Continuemos citando Lojkine:

Último grande componente da sociedade pós-industrial, a emergência de uma “nova classe” de
“profissionais” da ciência e da técnica substituiria a classe operária da revolução Industrial, na sociedade pós-
industrial, é a expansão de atividades de saúde, de ensino, de pesquisa e de administração que desempenha o
papel decisivo – “Ora, é nestes domínios que cresce a nova intelligentsia (nas universidades, nas instituições
de pesquisa nas profissões liberais e similares, na administração)” (Lojkine, 1995, p. 241).

Lojkine coloca que essa última tese tem “duas variantes”, que são mais
complementares que antagônicas: ‘a tese ‘consensual’, sobre a proeminência da classe dos
‘profissionais’; e a tese ‘conflitual’ da ‘nova classe operária’ – os técnicos da sociedade pós-
industrial substituindo os operários da sociedade industrial em seu combate revolucionário
contra a classe dominante. É de notar que Daniel Bell (1977) sabe, admiravelmente, utilizar as
contradições de alguns trabalhos qualificados como ‘neomarxistas’ (Richta, Mallet, Gorz,
Garaudy) para demonstrar que, de fato, eles também se vinculam ao tema da sociedade pós-
industrial:

Se é verdade que, na sociedade pós-industrial, a classe operária está em regressão, como preservar
a visão marxiana da história? (...). Não é afirmando que todo mundo, ou quase todo mundo faz parte da classe
operária que se poderá salvar a teoria (Lojkine, 1995, p. 241).

Notamos uma grande semelhança entre as teses de Bell e as de Negri e seus
seguidores. Obviamente, também existem muitas diferenças, algumas delas são superficiais,
como as de linguagem, e outras mais importantes. As teses de Negri são mais próximas do
“modelo conflitual” e de Touraine (1970), entre os citados por Lojkine, do que de Bell (1977),
embora ambos tenham semelhanças, como pregar o advento da sociedade pós-industrial e
prever o papel cada vez mais importante da tecnocracia. O nosso objetivo com essa
comparação não é simplesmente desacreditar o negrismo devido sua proximidade com as
teses de um renomado ideólogo conservador, e sim, demonstrar a capitulação do negrismo
diante das ideologias pós-modernas, sendo que manifesta claramente que se inspira em
algumas delas. Esta capitulação tem razões diversas, como a incompreensão da atual fase do
desenvolvimento capitalista, mas também está ligada aos valores e interesses que inspiram o
negrismo.
Lojkine lança algumas críticas à ideologia da sociedade pós-industrial que, do nosso
ponto de vista, também podem ser dirigidas ao negrismo:

A) O processo de inovação é um ciclo que não realiza uma visão completa entre o
saber abstrato e as experiências concretas dos usuários de novas tecnologias (essas críticas
não se aplicam ao negrismo, que sustenta a tese do “ciclo de produção imaterial”). Outro
elemento é a tese da substituição-automação e da fábrica “sem homens”, que é colocada em
questão devido sua “ineficácia econômica” (Lojkine, 1995), ou seja, ser prejudicial para o
capital e, portanto, ser barrado por ele;
B) O crescimento das atividades de serviços (informacionais) depende do
crescimento das atividades industriais;
C) A teoria dos três setores da economia não corresponde à realidade e nem às
tendências perceptíveis. Existe uma imbricação entre eles;
D) Inexiste uma substituição da classe operária por uma classe dos “trabalhadores
da informação”, assim como não ocorreu a absorção dos assalariados dos serviços em uma
“nova classe operária” (Lojkine, 1995). Isso compromete a produção de mais-valor, e provoca
a reação do capital, coisa que os negristas não percebem.

Embora não possamos concordar com algumas teses de Lojkine, podemos dizer que
parte dessas críticas também são aplicáveis à ideologia negrista e demonstram sua fragilidade
e ligação com ideologias conservadoras e burocráticas.

Capitalismo contemporâneo, acumulação integral e trabalho


intelectual


Os atrativos da ideologia negrista encontram-se na descrição de alguns aspectos
contemporâneos, na nova linguagem (que aparenta significar uma concepção nova) e na busca
de apropriação de tese de pensadores influentes (Marx, Foucault etc.). Para aqueles aos quais
falta senso crítico ou que estão perdidos (ou “maravilhados”) diante do mundo
contemporâneo, o negrismo fornece um ponto de vista ao qual a realidade pode ser
subsumida, amenizando assim os conflitos intelectuais de alguns indivíduos, tal como as
religiões trazem “a paz para a alma” de muitos outros, bem como expressam os interesses da
nova intelligentsia, formada por trabalhadores informacionais e intelectuais caçadores de
novas ideologias burocráticas com aparência de “esquerda”.
No entanto, não basta revelar o fracasso da tentativa negrista em compreender o
mundo contemporâneo, pois é preciso ultrapassar o nebuloso véu da ideologia e chegar ao
mundo da realidade concreta. O capitalismo contemporâneo atravessa uma nova fase,
complexa e cheia de dificuldades analíticas, pois nada é mais difícil do que analisar a
realidade presente, na qual a distinção entre o essencial e o aparente é difícil, principalmente
se consideramos o conjunto de ideologias que surgem para obscurecê-la.
Consideramos que o capitalismo hoje vive uma fase de acumulação integral, tal como
pode ser visto em outros capítulos da presente obra. O processo de desenvolvimento
capitalista possui a tendência de declínio da taxa de lucro e, em certos momentos históricos,
este declínio se torna tão intenso e as lutas de classes tão fortes que provocam mudança no
regime de acumulação. Assim, a crise capitalista que gerou a Segunda Guerra Mundial
marcou o início de uma nova fase do capitalismo e de um novo regime de acumulação.
O processo de acumulação de capital possui uma contradição básica: o capital para
sobreviver precisa realizar uma reprodução ampliada (expresso no ciclo: produção – lucro –
investimento – +produção – +lucro – +investimento e assim sucessivamente) que gera o
desenvolvimento tecnológico e, a necessidade de reprodução ampliada do mercado
consumidor. O capital busca incessantemente aumentar a extração de mais-valor, mas
encontra o proletariado como obstáculo. Assim se instaura, ao lado da luta operária nas
formas de regularização, uma luta de classes na produção, em torno do mais-valor. As lutas
operárias nas formas de regularização produzem efeitos visíveis no processo de acumulação
de capital (a redução da jornada de trabalho, por exemplo, ocorre na esfera jurídica e
interfere no processo de produção e extração de mais-valor) e as lutas de classes na produção
demonstram a resistência operária que impõe limites ao processo de exploração. Ao lado
disso, o desenvolvimento tecnológico anteriormente citado, é, ao mesmo tempo, uma
necessidade e um entrave para o capital. Como já dizia Marx, o capitalismo precisa
constantemente revolucionar os meios de produção (Marx e Engels, 1988). Mas ao fazer isso
aumenta a produtividade e a composição orgânica do capital. Este processo provoca a queda
da taxa de lucro, ao mesmo tempo em que aumenta a massa de lucro.
Assim, a taxa de lucro possui dois grandes inimigos: o desenvolvimento tecnológico –
que expressa uma forma relativamente estável de luta de classes – e a luta operária. No
entanto, esses não são os únicos problemas para a reprodução do capitalismo, pois existe, a
partir de certo estágio de seu desenvolvimento, o problema do mercado consumidor, que deve
acompanhar a ampliação da produção de mercadorias.
Após a Segunda Guerra Mundial e a destruição em massa das forças produtivas
(principalmente na Europa), o capitalismo começou um novo ciclo de expansão. Na esfera da
organização do trabalho, o fordismo buscava o uso da tecnologia objetivando uma
produtividade cada vez maior; o estado capitalista passa a intervir intensivamente na
produção e distribuição, bem como cria um aparato de serviços sociais; a expansão
transnacional ocorre velozmente; há uma expansão da produção de meios de consumo e novas
estratégias são criadas para que haja o processo de reprodução ampliada do mercado
consumidor (Viana, 2002). O ciclo de expansão, beneficiado pela exploração imperialista dos
países capitalistas subordinados, começou a perder o fôlego, já na década de 60, quando as
lutas operárias e estudantis se destacaram (neste ponto, nossa abordagem coincide com a dos
negristas), e continuou no início da década de 70 (reforçada pela crise do petróleo) (Granou,
1974).
É neste momento que a competição capitalista internacional se acirra (EUA, Japão,
Europa etc.) e a hegemonia norte-americana se vê ameaçada. O desenvolvimento do
capitalismo japonês começa a aparecer como modelo ideal a ser seguido, pois a
superexploração dos trabalhadores japoneses no “sistema Toyota” aparece como solução para
aumentar novamente a taxa de lucro. O capitalismo mundial inicia uma nova fase, pois a
queda da taxa de lucro faz assumir uma posição ofensiva. A crise do capitalismo de estado da
União Soviética (crise do regime de acumulação) reforça a constituição do novo quadro
mundial.
O toyotismo e formas similares de organização do trabalho revelam a ofensiva do
capital no processo de produção, buscando aumentar a extração de mais-valor, juntamente
com a política neoliberal e o processo de desregulamentação (o que gera diminuição dos
custos de força de trabalho para o capital), entre outras ações estatais. O capitalismo retoma
os “métodos secundários de exploração capitalista” (Marx, 1986), expresso no que os
ideólogos negristas chamam de “pré-fordismo”; além da ampliação da exploração imperialista
e o novo desenvolvimento tecnológico, e da lumpemproletarização que acompanha todo este
processo. O neoliberalismo busca o protecionismo para as potências imperialistas e a
liberalização do mercado para os países capitalistas subordinados. A nova expressão desse
neoimperialismo pode ser vista na formação dos blocos internacionais, como a ALCA, que
significa nova partilha mundial de acordo com as grandes forças do imperialismo mundial,
deixando o continente americano sob comando dos Estados Unidos.
A acumulação integral, a atual estratégia do capital, busca realizar uma exploração
intensiva (mais-valor relativo) e extensiva (mais-valor absoluto) utilizando-se da chamada
“revolução da informática”, “reestruturação produtiva”, do “neoliberalismo”, da
lumpemproletarização, e se reforça com a utilização de métodos secundários de exploração
capitalista.
Os negristas buscam desvencilhar-se dos métodos secundários de exploração
capitalista através da sua exclusão da análise. Lazzarato cita os trabalhos de Serge Bologna
sobre o “trabalho autônomo” e o contesta:

O insistir sobre a descrição “sociológica” da organização do trabalho (as empresas individuais, o
trabalho autônomo consorciado – cooperativo –, o “artesanato”, o trabalho autônomo da segunda geração –
para distingui-lo daquele, por “antonomásia”, dos comerciantes e das profissões liberais –, o self-employment
dos muitos desocupados e inocupados da era pós-fordista, as pequenas empresas que produzem serviços para
as empresas etc.) e o destaque dado para os aspectos “econômicos” e “financeiros” (prolongamento da
jornada de trabalho, composição da “renda” segundo lógicas pré-fordistas) tem uma função diretamente
política: destacar o trabalho autônomo como novo filão de produtividade e como forma renovada da
exploração. Parece-me que a preocupação de Bologna seja aquela de salientar, frente ao lado liberatório e
inovativo colocado no primeiro plano pelas teorizações do General Intellect, o lado obscuro e trágico das
novas condições de produção. O pós-fordismo não é somente “produção de mercadorias por meio de
linguagem”, intelectualidade de massa, comunicação, mas também um retorno às formas de exploração pré-
fordista. Ao contrário, parece dizer Bologna, os trabalhadores autônomos são mais explorados do que os
operários fordistas”; “A exaltação deste aspecto “material” da exploração e do “sofrimento” incorre, porém, no
risco de passar para segundo plano a qualificação geral da relação social pós-fordista e do trabalho (do qual o
“trabalho autônomo” é apenas uma parte). A continuidade da exploração não deve nos impedir de apreender a
descontinuidade de suas formas de organização e de comando (Lazzarato, 2001c, p. 92-93).

O que Lazzarato não percebe é que sua exaltação do “trabalho imaterial” é bem pior
que a do trabalho autônomo. No entanto, Lazzarato e os negristas não explicam a emergência
do trabalho autônomo, pois foge ao “princípio abstrato” da concepção negrista e como já
colocava Karel Kosik, em sua discussão metodológica a respeito da totalidade concreta, tudo
que não se enquadra em tal princípio abstrato (a totalidade abstrata de Negri e seus
colaboradores) permanece inexplicado e relegado ao esquecimento, pois “destituído de
importância” (Kosik, 1986).
O uso da tecnologia, como sempre contraditório, busca aumentar a extração de mais-
valor e o caso mais específico da automação, visa à reprodução do trabalho morto, mas que
não fornece os resultados desejados. “O princípio da automação-substituição e da fábrica sem
homens (Unmamed Factory) é hoje, cada vez mais posto em questão, por causa de sua
implicância econômica” (Lojkine, 1995, p. 242). No entanto, a aplicação crescente de
tecnologia permite aumentar a massa de lucro. O toyotismo e modelos similares buscam
através das formas organizativas aumentar a produtividade (extração de mais-valor relativo),
adotando várias estratégias, entre as quais o modelo do supermercado colocando a produção
sob a dinâmica do mercado, como forma de subjugação do trabalhador no processo laboral, e
tentando catexizar o trabalhador36. A busca de catexização do trabalho se dá via trabalho em
equipe, pluriespecialização e apelo ao envolvimento “emocional” (esta é a origem da ideologia
da “inteligência emocional”). Segundo Vieira,

Apropriar-se da subjetividade do trabalhador passa a ser, diante das mudanças forjadas na
produção, uma condição importante para o prosseguimento normal do processo de trabalho e de valorização,
sem os obstáculos e dificuldades da produção próprios da organização de trabalho fordista que se vinham
acumulando. Utilizar-se intensa e prolongadamente da subjetividade do trabalhador tornou-se o cerne do
aumento da produtividade (Vieira, 2002, p.)37.

A política neoliberal, a lumpemproletarização e os métodos secundários de
exploração capitalista são componentes complementares na busca do capital em aumentar a
extração de mais-valor. Estes elementos formam algumas das principais características do
regime de acumulação integral. No entanto, isso não vem sendo suficiente para garantir a
reprodução do capitalismo, pois ao mesmo tempo em que ele consegue, com sua ofensiva, uma
vitória parcial no terreno da valorização, ele produz um descontentamento maior, que fragiliza
sua hegemonia na sociedade civil. Ao lado disso, mesmo no terreno da luta em torno do mais-
valor, o capital vem recebendo diversos golpes, como se vê no caso da Argentina, Paraguai,
Uruguai, Brasil etc., pois o regime de acumulação integral não foi eficaz, tanto por sua
aplicação em alguns casos parciais e lentos, quanto por sua incapacidade própria de retomar o
processo de acumulação nas mesmas bases que a anterior.
O processo de lumpemproletarização cria o complicador de diminuir o “poder
aquisitivo” de uma parcela da população, diminuindo, assim, o mercado consumidor. As
propostas de “renda cidadã”, salário social etc., tem dois efeitos práticos: conter o
descontentamento dessa parcela da população e lhe fornecer uma capacidade aquisitiva,
visando incluí-la no mercado consumidor. Daí seu caráter contrarrevolucionário e conservador,
pois não propõe uma solução fora da ordem capitalista nem tenta uma resolução dentro dos
marcos do capitalismo que beneficie o conjunto dos trabalhadores, redução da jornada de
trabalho sem diminuição salarial, aumentando a demanda pela força de trabalho.
Assim podemos ter uma visão do processo de formação do regime de acumulação
integral e de suas determinações. A ideologia negrista, ao contrário do que afirma38, apenas
descreve os fenômenos, mas não os explica. A ideologia negrista descreve e nomeia aspectos
do processo de acumulação integral, mas não fornece nenhuma explicação de sua gênese e
características. A abordagem negrista não consegue explicar por qual motivo, a produção de
mais-valor foi superada, se utiliza métodos secundários de exploração capitalista, bem como
não explica o neoliberalismo e diversos outros fenômenos.
É no contexto do regime de acumulação integral que podemos compreender a
dinâmica do trabalho intelectual (“imaterial”). Não iremos aqui fazer uma longa discussão
sobre a história e a diversidade do trabalho intelectual, mas tão-somente apresentar,
sinteticamente, o papel do trabalho intelectual no desenvolvimento capitalista.
Iremos abordar, no entanto, apenas uma forma assumida pelo trabalho intelectual, a
que mais se aproxima da discussão sobre “trabalho imaterial”, ligada ao processo de
informatização. O processo de expansão capitalista do pós-guerra marcou o desenvolvimento
da informática (cuja origem se deu na indústria bélica), o que gerou aumento dos
trabalhadores informacionais. E passaram a ter um papel importante na estratégia capitalista,
tanto no processo de busca de aumento de extração de mais-valor relativo, quanto no da
reprodução ampliada do mercado consumidor.
Contudo, no regime de acumulação integral, os trabalhadores informacionais
assumem uma importância muito maior e isto proporciona sua expansão quantitativa e
setorial (na produção industrial e no processo de distribuição-circulação-regularização). A
chamada “revolução informacional” através do uso mais intensivo de novas tecnologias e da
informatização controlada pelo capital é uma das principais fontes desta expansão do trabalho
informacional. No entanto, a informatização tem um papel fundamental no processo de
reprodução ampliada do mercado consumidor. Não apenas os trabalhadores informacionais se
tornam consumidores de forma-mercadoria (o próprio processo de formação da força de
trabalho) e de mercadorias, como o processo de informatização produz uma grande ampliação
do mercado consumidor que atinge outras camadas da população.
A informatização dos serviços sociais produz uma enorme demanda de
equipamentos, “sem os quais eles não funcionam”, como “equipamentos médicos,
instrumentação científica, computadores, redes informáticas e telemáticas, (cabos, fibras
óticas, material telefônico etc.), sistemas urbanos – sem esquecer a própria habilitação e o
equipamento eletrodoméstico” (Lojkine, 1995, p. 259). Assim, a produção capitalista de
necessidades amplia o mercado consumidor para permitir a ampliação da produção
capitalista. Não é necessário recordar que as mercadorias tecnológicas continuam submetidas
à estratégia do pós-guerra de “obsolescência planejada” e o exemplo do computador é
paradigmático: os modelos de computadores são substituídos por outros cada vez mais
modernos e a publicidade e a competição social constrangem os consumidores a se
“atualizarem” comprando o “último modelo”.
Mas se alguns produtos são substituídos por serem mais “modernos” e fornecerem
maior “status social”, o computador tem um elemento adicional que torna sua substituição, em
muitos casos, obrigatória. O computador, como outros instrumentos complexos, está inter-
relacionado com acessórios (softwares, impressoras, scanners, fax modem etc.), que são
desenvolvidos para não caberem nos modelos antigos (por exemplo: um modelo antigo, com
baixa capacidade de memória e outros recursos limitados não permite a instalação de certos
softwares, ou o caso do disquete, que foi substituído em forma e depois pelo CD, sendo que os
novos modelos não possuem saída para os disquetes antigos e não são mais encontrados no
mercado, bem como, daqui algum tempo, podemos prever, não haverá saída para os disquetes
recentes, obrigando ao consumo renovado).
Desta forma, os trabalhadores informacionais são apenas mais uma peça na
engrenagem do processo de acumulação capitalista. O controle do processo informacional, na
empresa, continua controlado pelo cume da hierarquia, pelo capital, e somente as
“informações” mais gerais são socializadas.
Assim, a informatização amplia a camada de trabalhadores informacionais, o
mercado consumidor e o processo de extração de mais-valor. O trabalho informacional
(imaterial) não produz riqueza, pois é improdutivo. A incorporação de saber técnico no
processo produtivo não cria mais-valor, apenas contribui para a intensificação da produção de
mais-valor. Ele apenas serve ao processo de reprodução capitalista. A ciência aplicada, quando
ocorre não formar mais-valor, pois não gera nova mercadoria, condição necessária para gerar
um novo valor. É um trabalho improdutivo, não gerando mais-valor. Quando um trabalhador
intelectual ou um cantor produzem o conteúdo de um software ou de um CD, respectivamente,
não criaram mais-valor. Só será criado quando for realizada a produção material do software e
do CD, geralmente em escala quantitativamente elevada, utilizando força de trabalho
explorada, que gera esses bens materiais, que, ao serem vendidos, gerarão lucro para o
capitalista. O mesmo ocorre com uma grande obra científica, que, por mais valor intelectual
ou social que possua, não produz mais-valor, mas somente quando se transforma em um livro,
uma mercadoria, produzida pelos trabalhadores gráficos, é que gera mais-valor.
O trabalho imaterial também não produz uma “nova subjetividade”, mas é formado
pela sociedade burguesa (família, escola, formação profissional), para realizar o papel de
contribuir com o processo de reprodução. A tecnologia e a ciência e a técnica são produzidas
para a expansão capitalista e não para o bem estar-social. Os trabalhadores informacionais
estão dominados pela mentalidade burguesa e pelas necessidades do capital e são, o trabalho
intelectual em geral, improdutivos. A ampliação do número de trabalhadores informacionais, e
do uso do trabalho intelectual em geral, é apenas mais uma face do processo de reprodução
capitalista que visa exercer maior controle sobre a sociedade e precisa de agentes concretos
para efetivar este processo. Os trabalhadores intelectuais, assim como a burocracia, possuem
o papel de auxiliar a dominação burguesa. Pensar que através deles poderia haver uma
transformação social é um equívoco e serve como pretexto para a formação de uma nova
classe dominante.
Assim, somente através de um isolamento fantástico, produto de uma ideologia, é
que a informatização (ou os trabalhadores informacionais) podem se desligar das
determinações do capitalismo e se “autonomizar”. Não é na informatização que podemos ver o
embrião de uma sociedade igualitária e libertária e sim nas lutas operárias e dos demais
grupos sociais oprimidos. A informatização, caso ultrapassasse a produção de mais-valor,
poderia gerar uma nova forma de exploração, o modo de produção burocrático. As concepções
fetichistas da informatização reforçam esta possibilidade histórica e por isso devem ser
combatidas.
PARTE IV – Consequências da Acumulação
Integral
1 – Exclusão Social ou Lumpemproletarização?

Vivemos em dois mundos: um mundo real, concreto e um mundo fictício, ilusório,


ideológico. O primeiro mundo nem sempre nos é acessível. Isto se deve ao fato de que o
mundo concreto das relações sociais é, em nossa percepção, mediado pelo mundo da
consciência. E a consciência, devido à divisão social do trabalho e ao regime de exploração e
alienação em que vivemos, é geralmente falsa, ou seja, não corresponde à realidade concreta.
No entanto, isso não deve iludir os trabalhadores intelectuais, pois no mundo científico e
filosófico reina a ideologia, que é uma sistematização da falsa consciência. A diferença entre
ideologia e as representações cotidianas ilusórias dos não-especialistas no trabalho intelectual
é apenas de grau de sistematicidade e é no seu grau mais elevado de sistematização que se vê
a única “vantagem” da ideologia sobre as representações cotidianas (“senso comum”).
Desta forma, nos meios acadêmicos e científicos, temos um véu nebuloso de
ideologias que nos separam da realidade. Assim, temos que fazer duplo esforço: realizar
pesquisas para apreender a realidade concreta e, simultaneamente, fazer a crítica das
ideologias que erguem sobre ela uma camada obscurecedora. O presente texto busca realizar
tal tarefa e por isso iremos realizar uma crítica da ideologia à exclusão social e ao mesmo
tempo buscar descobrir o que está escondido por detrás desta ideologia, que é o processo de
lumpemproletarização provocado pela atual fase do desenvolvimento capitalista.
A exclusão social, no mundo da ideologia, aparece como um fenômeno novo, o que
somente em parte é verdade. No entanto, não existe unanimidade sobre o que é a exclusão
social. Os excluídos, para uns, são aqueles que estão fora do mercado de trabalho; para outros
são aqueles que estão fora do mercado de consumo; há aqueles que consideram como
excluídos os que não possuem acesso à cidadania. Alguns vão dizer, retomando Marx, que os
excluídos formam o lumpemproletariado, enquanto que outros os consideram “marginais”
(retomando a tese da marginalidade da década de 70, em suas diversas variantes). Há ainda
aqueles que irão distinguir entre os “excluídos necessários” e os “excluídos desnecessários”,
sendo que os últimos seriam considerados “nefastos e perigosos” para a sociedade.
Desta forma, observamos que o termo exclusão social é polissêmico, possuindo
significados distintos em abordagens diferentes. Muitos estudos, na Europa Ocidental, em
especial na França, vêm discutindo esta questão, que, até algum tempo atrás, era debatido
apenas no “Terceiro Mundo”, especialmente na América Latina.
Na década de 70, na América Latina, muitas pesquisas foram dedicadas ao problema
da marginalidade e da marginalização. Os altos índices de desemprego, pobreza e miséria nos
países latino-americanos revelavam a necessidade de compreender esse fenômeno (tanto do
ponto de vista do capital, para amortecer os conflitos sociais, quanto do ponto de vista do
proletariado, para radicalizar as lutas de classes). Vários pesquisadores se debruçaram sobre
esta questão: Lúcio Kowarick (1979), Anibal Quijano (apud. Pereira, 1978), José Nun (apud.
Pereira, 1978), Luíz Pereira (1978), Manoel Berlinck (1975), Paoli (1974), entre outros.
Também não havia unanimidade entre estes pesquisadores sobre o que era, o que provocava,
e como explicar a marginalidade. Manoel Berlinck, entre outros, iria criticar o próprio termo
marginalidade.
Mas na Europa Ocidental, a partir da década de 80, surgem os estudos sobre os
“excluídos”, os “novos pobres”, os “desafiliados”, o “lumpemproletariado”. Mas como pode, na
Europa Ocidental (onde predominava o “estado de bem-estar social” e quase que o pleno
emprego), surgir “novos pobres”? Responderemos esta questão mais adiante, quando formos
tratar da gênese da lumpemproletarização contemporânea. Por enquanto, basta reconhecer
que a ideia de exclusão social surge na Europa Ocidental (mais exatamente na França), para
explicar a “nova pobreza” e chega ao Brasil e ao continente americano alguns anos depois,
embora tal continente já convivesse com uma questão parecida e que seus cientistas sociais
denominavam “marginalidade”. No caso da América Latina o problema é mais grave, como
veremos mais adiante, e o debate em torno da marginalidade, esquecido por muitos, pode
contribuir para sua compreensão.
O termo exclusão social é um construto39, isto é, um falso conceito, pois é uma
unidade de um discurso ideológico. A primeira crítica que podemos realizar ao termo exclusão
social é de caráter teórico-metodológico (Viana, 1997). A ideologia da exclusão social se
fundamenta numa concepção dualista da sociedade, na qual existiriam os incluídos e os
excluídos. Assim se obscurece o fato de que a realidade concreta é constituída como uma
totalidade. Essa totalidade é a das classes sociais, que lhe fornece sua dinâmica através de
suas lutas. Assim, na concepção dualista da sociedade, só existiriam os incluídos e os
excluídos, como se fossem independentes e separados, faltando aqui também a ideia de
relação, no interior de uma totalidade40.
Além disso, essa ideologia cria uma falsa impressão de homogeneidade entre os
“incluídos” e também entre os “excluídos”. Quem são os incluídos? Ora, na ideologia da
exclusão social os capitalistas, os operários, os burocratas, os camponeses etc. são todos
partes de uma totalidade homogênea: os incluídos. Da mesma forma, os excluídos, sejam
desempregados, mendigos, meninos de rua, índios aculturados e empobrecidos etc., são todos
partes da outra totalidade homogênea, oposta e não relacionada com a primeira.
Não é difícil perceber os valores por detrás dessa concepção. Ao dividir a sociedade
em incluídos e excluídos, esta ideologia demonstra a necessidade de incluir os excluídos, ou
seja, revela seus valores e não há como escapar deles. O mundo dos incluídos, neste discurso,
passa a ser “o ideal a ser alcançado” pelos excluídos, independentemente de qual mundo dos
incluídos é este (pois ele não é homogêneo, mas obviamente não se pretende que os excluídos
sejam incluídos entre os privilegiados da sociedade capitalista, seja na burguesia, burocracia
ou qualquer outra classe privilegiada). Assim, a inclusão passa a ser o ideal (atribuído pelos
dominantes) dos excluídos e o grande problema social passa a ser como incluir os excluídos.
Aqui, a ideia é que existe um grande contingente de excluídos, potencialmente contestador, e
por isso é preciso integrá-los, de qualquer forma, na sociedade capitalista. Integrar na
sociedade capitalista significa o mesmo que incluir o excluído, ou seja, colocá-lo dentro da
dinâmica de reprodução do capitalismo, fazendo com que ele deixe de ser uma ameaça para a
permanência desta sociedade. A ideologia da necessidade de inclusão revela, no fundo, essa
preocupação com a integração.
A ideologia da exclusão social não explica a gênese deste fenômeno. A exclusão
social aparece como sendo um processo sem agentes e sem conflito, cuja origem não se sabe
qual. Assim, a ideologia da exclusão social é meramente descritiva, não sendo explicativa. As
razões disso também são evidentes, pois a ideologia não pode revelar o que está por detrás
dela, não pode revelar a questão da exploração e da luta de classes, deve, ao contrário,
escamoteá-las. Tal como coloca José de Sousa Martins,

O discurso da exclusão é basicamente produto de um equívoco, de uma fetichização, a fetichização
conceitual da exclusão, a exclusão transformada numa palavra mágica que explicaria tudo”; “quero dizer
apenas que o conceito é “inconceitual”, impróprio, e distorce o problema que pretende explicar (Martins,
2002, p. 27).

Assim, Martins aponta para uma perspectiva semelhante à nossa, isto é, de que a
exclusão social não é um conceito e sim um construto, embora não possamos concordar com
ele em sua afirmação de que se trata de um “equívoco”, a não ser por parte daqueles que o
reproduzem, mas não por parte daqueles que o produzem, ou seja, pelos ideólogos. Eles
pensam desta forma devido não a equívocos, mas sim graças à sua mentalidade, constituída
pelos valores dominantes.
A ideologia da exclusão social também está presente nas tentativas de explicar o
processo de formação desse fenômeno. Segundo Elimar Nascimento, a exclusão social e a
desigualdade só se tornam um problema (diríamos: um problema consciente) na sociedade
moderna, que nasce juntamente com a ideia e a proposta de igualdade, tal como se vê nas
palavras de ordem da revolução francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. O tema da
igualdade, ainda segundo este autor, seria retomado e considerado fundamental pela tradição
socialista, desde Babeuf com seu “Manifesto dos Iguais” e seu igualitarismo até Marx e os
socialistas posteriores. Desta forma, a igualdade era um valor fundamental a ser preservado e
já prometido pela igualdade jurídica (criticada por Marx por ser apenas formal e não real).
Assim, a desigualdade passa a ser vista como um problema e como algo que deve ser
superado.
O Brasil convive com a exclusão social há muito tempo. Elimar Nascimento coloca
que o crescimento econômico da década de 70 aumentou a concentração de renda (pobreza
relativa) e diminuiu a pobreza absoluta. De qualquer forma, ele afirma que
independentemente do crescimento econômico ou da conjuntura, persiste uma “pobreza
estrutural”. Hoje, com o processo de “globalização”, a exclusão social torna-se ainda mais
forte nos países do chamado “Terceiro Mundo”. Para esse autor, a globalização não é um
processo contrário à modernidade, pois esta nasce sob o signo da mudança e da expansão
mundial. Mas a exclusão social é uma ameaça à modernidade, pois ela é incompatível com a
igualdade, um dos valores fundamentais da sociedade moderna, e traz a desigualdade, que
corrói a cidadania e o espaço público e democrático, alicerces da modernidade (Nascimento,
1994).
O que esse autor apresenta é uma descrição, que além de tudo é limitada e
carregada de equívocos. Em primeiro lugar, apenas em certos setores da sociedade (como na
“tradição socialista”) a igualdade é um valor fundamental e não é, portanto, este valor que faz
emergir a preocupação com a exclusão social. Em segundo lugar, sua descrição não explica a
diferença entre “pobreza” e “exclusão social” e nem estabelece a relação entre globalização e
exclusão social, dois construtos do qual ele lança mão41.
A compreensão do processo histórico de constituição da sociedade capitalista nos
permite superar a ideologia da exclusão social. Assim, ao invés de trabalhar com o construto
de exclusão social, iremos utilizar o conceito de lumpemproletariado. Marx desenvolveu o
conceito, mas não aprofundou o suficiente, sem falar que em textos diferentes ele abordou o
lumpemproletariado de forma diversa. Iremos aqui, tal como Franz Fanon, ressignificar o
conceito de lumpemproletariado (Fanon, 1975). Para nós, o lumpemproletariado é equivalente
ao conceito marxista de exército industrial de reserva. Por conseguinte, os lumpemproletários
são aqueles que possuem necessidade de vender sua força de trabalho e que estão fora do
mercado, por conseguinte, estão marginalizados também no mercado de consumo e também
na “cidadania” (no sentido fornecido por T. H. Marshall, que inclui também os direitos sociais
além dos civis e políticos) (Marshall, 1967). Podemos dizer que existem graus diferenciados de
marginalização no mercado de trabalho, no mercado de consumo e na cidadania. Alguns vivem
em subempregos, outros estão completamente alijados do mercado de trabalho e há aqueles
que se empregam temporariamente. Alguns conseguem no mercado de consumo os meios
necessários para a sobrevivência e outros nem isso, ficando abaixo do “mínimo calórico”;
alguns usufruem alguns direitos sociais e outros estão totalmente destituídos desses direitos.
No entanto, o fundamental é reter que os conceitos de lumpemproletariado e
lumpemproletarização estão inseridos em uma teoria das classes sociais. Por isso, o
lumpemproletariado não está totalmente excluído, se isto fosse possível. Os indivíduos
lumpemproletários podem, momentaneamente, estar fora do mercado de trabalho, e longe do
acesso aos direitos sociais (da cidadania) e marginalizados no mercado de consumo, mas não
definitivamente. Ocorrem mudanças sociais que alteram essa situação, além de existir uma
mobilidade entre lumpemproletariado e proletariado, entre segmentos do lumpemproletariado
etc. Outro aspecto importante é ter em vista que aqui, o conceito de lumpemproletariado não
tem o sentido político fornecido por Marx em alguns de seus escritos e pelos autointitulados
marxistas. O lumpemproletariado não é composto por aqueles que “primeiro se vendem ao
capital”. Em primeiro lugar, não existe uma homogeneidade no lumpemproletariado tal como o
definimos; em segundo lugar, o lado que ele fica no processo das lutas de classes depende da
própria luta; em terceiro lugar, o lumpemproletariado é potencialmente revolucionário,
embora alguns indivíduos lumpemproletários possam assumir posição conservadora. É o
processo de luta de classes e a forma como se dá concretamente o combate entre proletariado
e burguesia, bem como a ação destas classes e das forças políticas e intelectuais que as
expressam, que define a posição do lumpemproletariado, sendo que a tendência é se aliar ao
proletariado e não à burguesia, como pensam muitos “marxistas”, que, com suas ideologias,
reforçam a tendência contrária e assim creem que estão certos.
Marx descreveu como que, na sociedade moderna, durante o período da Revolução
Industrial, se desencadeou um processo de proletarização e lumpemproletarização que trazia
consigo a marca da desigualdade e da miséria. A expulsão dos camponeses da área rural
formou a força de trabalho assalariada para o capital. Mas, além de fornecer a mão de obra,
que foi efetivamente utilizada, concedeu também um exército industrial de reserva que não
tinha emprego e, portanto, estava fora do mercado de trabalho, e relativamente fora do
mercado de consumo e dos direitos políticos e sociais. Junto com a proletarização ocorreu a
lumpemproletarização, ou, segundo linguagem de Clauss Offe, uma proletarização ativa e uma
proletarização passiva (Offe, 1984).
O amplo processo de exploração da classe operária durante o período da Revolução
Industrial foi amenizado devido às lutas operárias, principalmente no século XIX. O
proletariado conseguiu diminuir a extração de mais-valor absoluto, com a diminuição da
jornada de trabalho, o que provocou a reação capitalista através do taylorismo o aumento da
extração de mais-valor relativo. No plano político-institucional, a classe dominante cedeu um
maior grau de participação para as classes exploradas, com a passagem da democracia
censitária para a democracia partidária, e com a oficialização de partidos e sindicatos “ditos”
operários. No entanto, o novo regime de acumulação baseado no taylorismo e na extração de
mais-valor relativo não conseguiu manter a estabilidade do capitalismo durante muito tempo.
A crise do início do século XX, marcou não só novas dificuldades para o processo de
acumulação de capital como uma forte luta operária em diversos países (Rússia, Alemanha,
Hungria, Itália etc.) que gerou as duas guerras mundiais.
A reestruturação capitalista após a Segunda Guerra Mundial foi caracterizada por
uma maior aplicação da tecnologia ao processo de trabalho, implantando-se um derivado do
taylorismo, o fordismo, como forma de organização social do trabalho. O aumento de extração
de mais-valor relativo via desenvolvimento tecnológico marcou uma nova etapa na acumulação
capitalista, acompanhada pela expansão transnacional, pelo intervencionismo estatal, pela
expansão da produção dos meios de consumo e do setor de serviços, e por uma ampla
exploração dos países capitalistas subordinados. Neste contexto, o capitalismo conseguiu
melhorar o nível de renda do proletariado nos países capitalistas imperialistas e diminuiu
drasticamente o desemprego. O Estado de Bem-Estar Social e seu assistencialismo social
(seguro-desemprego etc.) forneceu aos desempregados certa possibilidade de sobrevivência.
Essa conquista deve-se ao aumento de extração de mais-valor relativo e à transferência de
mais-valor dos países capitalistas subordinados aos países capitalistas imperialistas.
No entanto, na atualidade, o desemprego em massa volta a atingir os países
capitalistas imperialistas, provocando um novo processo de lumpemproletarização. Isto ocorre
devido às novas dificuldades do processo de acumulação capitalista, iniciado na década de 60
(momento de ascensão de lutas operárias e estudantis) e início da década de 70, que foram
reprimidas até a década de 80, quando se iniciou o processo de supremacia do neoliberalismo,
enquanto nova resposta do capital ao contexto mundial. No processo de extração de mais-
valor, a chamada “reestruturação produtiva” (toyotismo e similares) veio combater a
tendência declinante da taxa de lucro, utilizando simultaneamente novas tecnologias e
métodos organizativos, visando extrair um maior quantum de mais-valor. Ao lado disso, a
política neoliberal com o processo de desregulamentação visava diminuir despesas do capital
e aumentar o processo de exploração. Também o processo de precarização, terceirização,
subcontratação, “trabalho autônomo”, reforçavam a exploração. Ao corroer as bases do
Estado de Bem-Estar Social, destruindo direitos trabalhistas adquiridos por lutas passadas dos
trabalhadores, abolindo políticas estatais de assistência e proteção social e a diminuição da
máquina estatal gerando a redução dos empregos públicos, são elementos do neoliberalismo
que contribuem com o aumento do desemprego e o empobrecimento da população. Como
parte da reestruturação produtiva, a informatização (“revolução informacional”, “revolução
científica-tecnológica”) produzia mutação no mercado de trabalho, sendo uma de suas
consequências o desemprego. É neste contexto, marcado por um novo regime de acumulação,
que volta a crescer o desemprego. A lumpemproletarização é resultado do regime de
acumulação integral implantado pelo capital. O aumento intensivo do uso do trabalho precoce
(principalmente de crianças), também provoca o desemprego de trabalhadores adultos, pois é
mais vantajoso para o capital explorar as crianças, já que a taxa de exploração é maior. Surge,
na Europa Ocidental, então, a ideologia da “exclusão social”.
O processo de lumpemproletarização no Brasil e nos países capitalistas
subordinados, em geral, é mais grave. Um dos motivos reside no fato de que tais países já
possuíam um alto índice de lumpemproletarização, que se deve ao processo específico de
constituição do capitalismo subordinado. Três elementos são importantes para compreender
porque o lumpemproletariado no capitalismo subordinado sempre foi maior e permanente.
Tomaremos o caso do Brasil como exemplo. O primeiro elemento é o processo de concentração
fundiária. Com a abolição da escravidão e a implantação da “lei de terras” – passos iniciais no
amplo processo de concentração fundiária –, iniciou-se a proletarização e
lumpemproletarização, pois a expulsão dos trabalhadores do mundo rural, e, por conseguinte,
sua concentração nos grandes centros urbanos, sob condições miseráveis, foram necessárias
para a industrialização no Brasil. No entanto, apenas uma parte da força de trabalho liberada
do mundo rural era absorvida por indústria, bem como em outras atividades criadas ou
intensificadas. A imigração também era item adicional que diminuía a possibilidade de se
conseguir emprego. A industrialização brasileira, como em todos os países capitalistas
subordinados, ocorreu de forma tardia em relação aos países capitalistas imperialistas. O
segundo elemento é a industrialização tardia faz com que esses países entrem no mercado
mundial de forma desvantajosa. Assim, a industrialização tardia também é uma
industrialização incipiente, pois o mercado externo já estava dominado pelas grandes
potências imperialistas. O terceiro elemento, intimamente ligado ao anterior, é o imperialismo
e o processo de transferência de mais-valor dos países subordinados para os países
imperialistas, tornando a acumulação de capital nos primeiros, bastante débil.
Somente em alguns períodos, como a Segunda Guerra Mundial, se abriam novos
espaços no mercado mundial. A política de substituição de importações (e exportações)
forneceu alguns incentivos ao processo de industrialização, mas muito modestos tendo em
vista as potencialidades de um país de extensão continental como o Brasil. O mercado interno,
por sua vez, era muito restrito, pois, além da produção de subsistência e de formas não-
capitalistas no campo, o grande contingente de desempregados e os baixos salários da força
de trabalho ativa, tornava-o extremamente reduzido, sendo constituído basicamente pela
burguesia e suas classes auxiliares e pelos latifundiários.
Assim, o Brasil sempre foi um país com grande contingente de lumpemproletários. É
por isso que o tema da “pobreza”, “marginalidade” e agora “exclusão social” sempre
estiveram presentes no mundo acadêmico. Mas agora há um processo de intensificação da
lumpemproletarização. A supremacia mundial do neoliberalismo, a informatização, as
tentativas de “reestruturação produtiva” e a exploração imperialista criam um processo de
lumpemproletarização que é acrescido ao que já existia anteriormente. Em outras palavras, a
lumpemproletarização, anteriormente existente, soma-se com a provocada pelo processo de
reconversão capitalista comandado por um neoimperialismo (o que os ideólogos chamam de
“globalização”). Além disso, a política neoliberal no Brasil assume um caráter muito mais
nefasto para a população brasileira. O neoliberalismo nos países imperialistas é marcado pelo
protecionismo enquanto que no Brasil ocorre o contrário. É o caso, por exemplo, de fábricas
de calçados em São Paulo que estão indo à falência ou contratando e superexplorando o
trabalho de crianças por causa da concorrência dos calçados mais baratos vindos da China e
Itália (que também exploram a força de trabalho precoce). A reestruturação produtiva
aumenta o desemprego, tal como se vê explicitamente na lei que instituiu o contrato
temporário, e terceirização também, pois criam postos de trabalho mas destroem uma
quantidade muito maior. O neoliberalismo brasileiro abre ainda mais as portas para o capital
estrangeiro e seus produtos e assim destrói parte do capital nacional, o que gera desemprego.
O estado capitalista brasileiro, com sua contenção de gastos públicos, privatização, abandono
de políticas estatais de assistência social, agrava ainda mais a situação de grande parte da
população. Isso é mais grave ainda quando nota-se que as políticas estatais e os gastos do
governo brasileiro com a resolução dos problemas sociais sempre foram ínfimos, comparando-
se com os realizados pelos países imperialistas, embora alguns programas assistencialistas
venham sendo implantados (bolsa-escola, renda cidadã etc.).
Assim, temos um quadro do processo de lumpemproletarização da sociedade
brasileira, bem como no mundo inteiro. O processo amplo de lumpemproletarização
convivendo com os altos índices anteriormente existentes provocam a seguinte realidade: a
possibilidade da parcela inferior do lumpemproletariado de proletarizar-se foi drasticamente
reduzida. José de Sousa Martins percebeu parcialmente o problema:

Por que agora nós todos percebemos a exclusão e antes não percebíamos? Provavelmente, porque
antes, logo que se dava a exclusão, em curtíssimo prazo, se dava também a inclusão: os camponeses eram
expulsos do campo e eram absorvidos pela indústria, logo em seguida. A exclusão não tinha visibilidade como
exclusão porque eles eram excluídos e reincluídos, em outro plano, num outro modo de viver, de pensar a
vida, de trabalhar e assim por diante. O problema da exclusão começou a se tornar visível nos últimos anos
porque começa a demorar muito a inclusão: o tempo que o trabalhador passa a procurar trabalho começou a
se tornar excessivamente longo e frequentemente o modo que encontra para ser incluído é um modo que
implica certa degradação. Todo o problema do reaparecimento do trabalho escravo no Brasil (a partir dos
casos de fuga, nos últimos vinte anos, foram contados 80 mil, mas, provavelmente, o número real está acima
de 300 mil), é um problema decorrente desta nova dinâmica da sociedade capitalista. Ou seja, são pessoas
excluídas, em geral camponeses expulsos da terra, ou próximos da possibilidade da expulsão, porque não
conseguem mais sobreviver naquele pedaço de terra. Serão reabsorvidos como escravos, ou seja, trabalham
pela comida, ou, frequentemente menos que a comida. Estas formas extremas e dramáticas de inclusão
indicam que o modo de absorver a população excluída está mudando. A sociedade moderna está criando uma
grande massa de população sobrante, que tem pouca chance de ser de fato reincluída nos padrões atuais de
desenvolvimento econômico. Em outras palavras, o período da passagem do momento da exclusão para o
momento da inclusão está se transformando num modo de vida, está se tornando mais do que um período
transitório (Martins, 2002, p. 32-33).

Os limites da abordagem de Martins são claros: ao mesmo tempo em que criticou os
construtos de inclusão e exclusão, acabou reproduzindo-os, da mesma forma vaga que acusou
ver neles. Também, devido a não ter feito uma análise da totalidade concreta da sociedade
capitalista, é vago no processo de constituição do fenômeno da lumpemproletarização, se
limitando a falar da “nova dinâmica da sociedade capitalista” ou que “a sociedade moderna
está criando uma população sobrante”, sem explicitar a razão de ser do fenômeno. Além disso,
sua tese de que o novo na atual “exclusão” encontra-se na demora na inclusão, o que promove
uma não-inclusão permanente de alguns segmentos, é verdadeira, mas insuficiente, pois
somente explicando o processo de sobreposição entre a lumpemproletarização antes da
implantação do regime de acumulação integral com a provocada por ela é que se pode
compreender que camadas do lumpemproletariado ficam impossibilitadas de se proletarizar,
devido ao quantum acumulado e ao processo limitado de produção de novos empregos
acompanhado pelo constante aumento do desemprego. Por isso, as camadas inferiores do
lumpemproletariado tendem a não conseguir mobilidade, ficando impossibilitados de se mover
para as camadas superiores (subempregados, empregados temporários) ou se proletarizar.
Desta forma, podemos dizer que é a implantação do regime de acumulação integral
que gera um amplo processo mundial de lumpemproletarização, e que tal processo é mais
intenso nos países capitalistas subordinados. No mundo da ideologia, ao contrário, a “exclusão
social” é o inexplicável e o indesejável. Nada mais do que isso. A descrição é, portanto,
suficiente. Mas, para aqueles que têm compromisso com o processo de transformação social, a
questão fundamental reside na explicação de sua gênese e nas possibilidades de superação,
tanto da lumpemproletarização quanto da exploração do proletariado, o que nos remete não a
visão dicotômica e ideológica dos incluídos e excluídos e sim à necessidade de abolir o modo
de produção capitalista e na estratégia política de articular lutas imediatas com o objetivo
final, exigências específicas, juntamente com exigências globais. Mas para que isso ocorra é
preciso superar o mundo ideológico que media nossa visão de mundo concreto, ou, em outras
palavras, é necessário superar a ideologia da exclusão social, bem como muitas outras
ideologias e compreender o real processo social, pois somente assim a razão será libertadora
e contribuirá com a emancipação humana.
2 – A Nova Dinâmica da Luta de Classes

A emergência do regime de acumulação integral marca a instituição de uma nova


dinâmica da luta de classes. A luta de classes durante o regime de acumulação intensivo-
extensivo foi marcada por lutas operárias espontâneas, que em alguns casos radicalizavam-
se, principalmente no período de crise deste regime de acumulação, e pela ação de
movimentos sociais com suas questões específicas nos países do bloco imperialista e por lutas
operárias mais fortes e pelo nacionalismo terceiro-mundista no bloco subordinado. Com a
passagem para o regime de acumulação integral, temos uma nova dinâmica da luta de classes,
tanto no bloco imperialista quanto no bloco subordinado. Isso vai alterar radicalmente a
paisagem da sociedade civil e a cultura contemporânea. As mudanças ocorrem em toda a
sociedade, possuindo manifestações específicas em determinados países, bem como
envolvendo uma multiplicidade de grupos e indivíduos. Destacaremos algumas das principais
mudanças nas lutas de classes a partir da instauração do regime de acumulação integral.
As lutas de classes manifestam-se sob as mais variadas formas. Tanto no processo de
trabalho, quanto nas instituições, elas estão presentes. Manifestam-se sob a forma de luta
cultural ou ações concretas. Iremos, primeiramente, colocar as formas culturais das lutas de
classes sob o regime de acumulação integral, para depois analisar as ações concretas, embora
ambas estejam intimamente ligadas. Deixaremos de lado as lutas cotidianas, espontâneas, que
se desenvolvem nas fábricas, nos locais de trabalho etc., e, focalizaremos as lutas mais
visíveis, que ocorre na sociedade civil ou os esboços de autonomização da classe operária e
demais setores oprimidos. Sem dúvida, a chamada reestruturação produtiva e o
neoliberalismo expressam a luta de classes, mas, nesse caso, expressam a iniciativa e ofensiva
da classe dominante. A resistência também ocorre, tal como nas greves na Espanha e outras
lutas cotidianas pelo mundo, mas o novo nesse processo é a brecha que foi aberta na
sociedade civil e é por isso que colocaremos as lutas de classes na sociedade civil a partir da
emergência do regime de acumulação integral.

Luta cultural: Ofensiva capitalista e resistência proletária


As mudanças culturais são marcadas pela hegemonia de determinadas ideologias, tal
como a ideologia da globalização, do pós-estruturalismo, neoliberalismo, entre outras, e
modismos acadêmicos. No campo do pensamento complexo, as novas ideologias manifestam
os interesses gerais e históricos da classe dominante aliados aos interesses imediatos e de
grupos no seu interior (frações de classes, categorias profissionais etc.). Como já abordamos
este aspecto em capítulos anteriores, abordaremos, a partir de agora, outras formas de lutas
culturais.
Porém, é necessário perceber, que há um processo, com a formação do novo regime
de acumulação, uma ofensiva da classe dominante. Isto se deve ao fato de que, em resposta à
crise do regime de acumulação anterior, se tornou necessário ampliar a exploração. Assim, a
ofensiva ocorre a partir da chamada reestruturação produtiva e do neoliberalismo, que visam
o aumento da exploração e outras medidas para permitir e reforçá-la. Logo após, as mudanças
nas relações internacionais reforçam esta tendência e a exploração internacional também
amplia-se. Para justificar e legitimar isto, várias ideologias que formam o quadro da
contrarrevolução cultural preventiva, especialmente o pós-estruturalismo, também avançam e
vão tornar-se hegemônico a partir dos anos 1980. No entanto, novas ideologias, algumas mais
específicas, também surgem. Para justificar e legitimar o neoimperialismo, nasce a ideologia
da globalização, o multiculturalismo, além da ideologia neoliberal. Algumas ideologias mais
específicas, como a da crise da sociedade do trabalho, fim do emprego, fim do Estado-Nação,
o fim da história, crise do marxismo, crise do comunismo etc., aparecem e se tornam parte
integrante da ofensiva ideológica da classe capitalista, visando não só legitimar e justificar a
nova fase do capitalismo como destruir e enfraquecer as tendências críticas, o que provoca
um enfraquecimento simultâneo das classes exploradas e grupos oprimidos.
Ao lado disso, novas ações são realizadas pela classe dominante e suas classes
auxiliares. O processo de mercantilização das relações sociais vê-se ainda mais ampliado,
principalmente na esfera cultural. O capital comunicacional oligopolista (indústria cultural)42,
cujo período de nascimento foi o capitalismo oligopolista transnacional (regime de acumulação
intensivo-extensivo). O capital comunicacional expande-se, tornando um dos elementos mais
importantes no novo regime de acumulação. A cultura foi mercantilizada já a partir de 1945,
num processo crescente e amplo, mas agora assume novas proporções. A estratégia
capitalista de aumentar a massa de lucro para combater a tendência declinante da taxa de
lucro e aumentar a produção de bens de consumo para evitar uma superaceleramento do
desenvolvimento tecnológico, o que comprometeria ainda mais a taxa de lucro, produz a
necessidade de reprodução ampliada do mercado consumidor. A estratégia, da época do
capitalismo oligopolista transnacional, é ampliada no capitalismo neoliberal. Isto ocorre
devido ao fato de que a tendência declinante da taxa de lucro persiste de forma ampliada e,
além do desenvolvimento tecnológico acumulado e em desenvolvimento tornar a situação do
capitalismo ainda mais frágil. Assim, no novo regime de acumulação é preciso garantir a
reprodução ampliada do mercado consumidor, rompendo novas fronteiras e reforçando as
antigas estratégias de criar necessidades fabricadas, aumentar a capacidade individual de
consumo etc. É neste contexto que ocorre, então a expansão de shopping-centers,
condomínios fechados, modismos culturais, novos nichos de mercado etc.
O capital comunicacional busca ampliar suas estratégias no mesmo sentido. Se ele é,
como já diziam os representantes da Escola de Frankfurt (Adorno & Horkheimer, 1986; Jay,
1988), uma fábrica de ilusões e consumo superficial, agora se torna mais amplo. A ampliação
do mercado consumidor e das necessidades fabricadas atinge principalmente a produção
cultural. A capacidade aquisitiva de um consumidor na sociedade capitalista já é bastante
elevada e suas necessidades de consumo em algumas instâncias já estão no limite da
saturação (alimentação, bens imóveis, automóveis etc.). A cultura acaba sendo um espaço
privilegiado para a reprodução ampliada do mercado consumidor. Assim, é preciso criar
condições para: a) aumentar a capacidade de consumo cultural da população em geral; b)
criar a necessidade de consumo cultural na população; c) criar uma renovação cíclica do
consumo cultural de cada vez mais veloz; d) criar nichos de mercado específicos.
O aumento da capacidade de consumo cultural da população está diretamente ligado
ao processo educacional. A expansão da alfabetização, do ensino superior etc., está
intimamente ligada a este processo. Nos países imperialistas, trata-se de aumentar o acesso
ao ensino superior, principalmente; nos países capitalistas subordinados, trata-se de ampliar a
alfabetização de parte da população e o acesso ao ensino superior de outra parte. Assim, cria-
se novos consumidores, tanto de produtos culturais com menor exigência de formação
intelectual quanto de mercadorias culturais que possuam uma maior exigência neste aspecto.
Este processo acaba sendo mundial e é um dos motivos do FMI e Banco Mundial pressionarem
os governos dos países capitalistas subordinados para que ampliem o processo educacional,
além de incentivarem novas ideologias43. Tais ideologias, por sua vez, se integram no circuito
de produção cultural mercantil e passam a servir também para a reprodução ampliada do
mercado consumidor. O consumo cultural exige certas capacidades, tais como de leitura,
apreciação (ou seja, valores, para apreciar “obras de arte”), etc. É o sistema de ensino que
fornecerá tais capacidades e irá, diretamente, provocar ampliação do consumo cultural, pois
faz com que algumas mercadorias culturais (livros, DVDs, CDs, revistas etc.) sejam
consumidas no próprio processo de ensino, principalmente, mas não unicamente, no ensino
superior.
O aumento do suporte tecnológico para o desenvolvimento da capacidade de
consumo cultural também se amplia, tal como no caso de computadores, MP3, aparelhos de
DVD etc. Isto, por sua vez, gera o consumo de tais aparelhos tecnológicos. O próprio uso
destes suportes tecnológicos, em parte, amplia a capacidade de consumo cultural, pois o uso
do computador e da internet, mais especificamente, incentiva o consumo de mercadorias
culturais relacionadas (desde a mais técnica, como manuais e livros de informática, até
aquelas oriundas de concepções vinculadas a eles ou simplesmente tornado acessível o
contato via internet). Também, através do computador e da internet, ocorre a “capacitação” a
certo consumo, via cursos, divulgação etc., do futuro consumidor cultural.
Esse processo não só amplia a capacidade de consumo individual de grande parcela
da população como também já se torna uma necessidade. A criação da necessidade fabricada
de consumir mercadorias culturais ocorre desde o status que isto promove (que era maior nos
setores mais privilegiados e intelectualizados da sociedade), à publicidade e à expansão dos
valores dominantes. A cultura passa a ser um valor cada vez mais forte em nossa sociedade.
Isto está expresso nas ideologias surgidas no capitalismo neoliberal, tal como a da “sociedade
do conhecimento”, “sociedade informacional”, “trabalho imaterial”, “culturalismo”,
“multiculturalismo”, “saberes e competências” etc. Assim, a cultura passa a ter uma
importância social maior e sua aquisição se torna uma necessidade. Quando uma ideologia
afirma que a cultura é determinante no desenvolvimento histórico e outra diz que ela é
proeminente em nossa época ou a geradora de riquezas, temos apenas um complemento
ideológico de uma necessidade do capital, que gera uma necessidade fabricada para a
população. O consumismo cultural é uma das faces do capitalismo neoliberal.
Outro elemento deste processo é a criação cíclica de renovação cultural. Desde o
início da expansão do capital comunicacional, houve uma renovação do consumo. Porém, já a
partir da crise do regime de acumulação anterior, a renovação cultural ganhou uma maior
velocidade. A partir de 1970 esse processo teve uma ampliação e, a partir dos anos 1980, se
tornou ainda mais intenso. Na esfera acadêmica, isso pode ser visto na ampliação do mercado
capitalista de ideologias. Além de ideologias anteriores permanecerem, surgem novas, e estas
se renovam formalmente, criando a necessidade de “atualização bibliográfica”, inclusive com
o culto, no sistema de ensino superior, dos livros editados recentemente. O produtivismo
também gera a necessidade de ampliação de consumo cultural acadêmico. Assim, a renovação
da produção gera a necessidade de atualização, ou seja, de consumo de mercadoria cultural.
Na esfera musical isto é mais visível. Os modismos musicais são substituídos rapidamente,
renovando o consumo de modas de pouca durabilidade. Na esfera cinematográfica, com os
constantes lançamentos de filmes, – desde pobres remakes com muitos efeitos especiais até as
eternas continuações, cada vez mais frequentes, até chegar a produção considerada “Cult” –,
temos uma sucessão de novas mercadorias culturais desfilando nos cinemas e com todo um
circuito paralelo (salas de cinema, locadoras, DVDs para venda, lojas de DVD, brinquedos
temáticos inspirados em filmes, roupas etc.).
É neste contexto que a cultura mercantil passa a ser cada vez mais descartável e o
modismo (musical, literário, acadêmico) substitui toda a cultura anterior. Essa cultura
descartável é marcada pelos ciclos de renovação periódica de produtos, pois ela permite a
reprodução ampliada do consumo. Se um determinado estilo musical permanece por muito
tempo, então o consumo também se vê sem grandes crescimentos, pois quem compra um CD
de rock and roll de determinada banda, poderá continuá-lo ouvindo por muito tempo, mas se a
cada 5 anos surge um novo modismo musical, então o consumo expande-se em proporções
consideráveis. Assim, a transformação da MPB em cultura descartável apenas mostra que a
lógica do lucro domina tudo, inclusive a produção cultural, e mostra a razão de seu
progressivo empobrecimento.
Essa mercantilização amplia-se no novo regime de acumulação e invade cada vez
mais todas as esferas da vida social. O filme Monique, Sempre Feliz (Valerie Guignabodet,
França, 2002), é uma comédia que mostra como a coisificação das relações amorosas pode
promover a substituição de uma mulher de carne e osso por uma boneca moldada, uma
mercadoria que substitui um ser humano. A cultura mercantil é tão descartável quanto
qualquer outra mercadoria. Assim, o índice de obras publicadas passa a crescer, tanto pelo
incentivo do capital comunicacional, como através da ação estatal, inclusive na esfera
acadêmica. A produção em massa requer o consumo em massa. O consumidor que efetiva esta
forma de consumo é o homo consumens, retratado por Erich Fromm: “um homem cujo
principal objetivo é consumir e para quem o mundo inteiro, as riquezas do mundo, se
transformaram em artigos de consumo” (Fromm, 2006, p. 112).
Assim, a cultura, ao mesmo tempo em que se torna relativamente mais acessível
para uma parte da população, se torna um artigo de consumo, no qual o valor de troca é o
fundamental e, em muitos casos, o valor de uso é subjugado por ele, já que é o primeiro que
fornece status, visibilidade social e gera o consumo. O potencial crítico da cultura é anulado
desta forma, bem como o excesso de obras e manifestações culturais contraditórias, que faz
com que muitos indivíduos acabem aceitando tudo por não saber assimilar e trabalhar em sua
mente a diversidade cultural existente.
Esta imposição cultural da classe dominante e dos meios oligopolistas de
comunicação gera duas consequências. Por um lado, amplia o mercado consumidor,
beneficiando a acumulação de capital; por outro, despolitiza e anula o potencial crítico da
cultura. No entanto, aqui a contradição do capital comunicacional manifesta-se, pois o
potencial crítico é anulado para o homo consumens, mas não para determinados indivíduos,
que poderão ter acesso, graças a estas mesmas contradições, à cultura de maior qualidade e
criticidade, bem como podem interpretar e analisar criticamente a produção cultural
existente.
Novos nichos de mercado são criados, novos produtos personalizados, bem como o
uso da tecnologia para criar novas mercadorias culturais e suportes materiais44. Novos filões
de cultura mercantil se ampliam, tal como o da autoajuda, que vem se expandindo nos últimos
anos, sendo uma produção cultural realizada pelas grandes editoras, vendedoras de best-
sellers, um ramo que rende alto lucro. A origem da autoajuda se encontra nos livros sobre
Pensamento Positivo, cujo auge ocorreu na década de 70. Na década seguinte, os livros de
autoajuda, que utilizam mais estratagemas do que apelo ao “pensamento positivo”,
aumentaram suas vendas e desde a década de 90 até hoje, vem batendo recordes de
vendagem para o “estilo”.
A quem se deve a grande procura por livros de autoajuda? A própria expressão
“autoajuda” esclarece quem: aqueles que precisam de ajuda. São pessoas que estão em
condições de vida desfavoráveis, seja no sentido profissional, sentimental etc. O misticismo, a
cartomancia, entre outros recursos, são alguns dos concorrentes da autoajuda. Mas a
autoajuda se distingue das outras formas por ter como fundamento o indivíduo que ajuda a si
mesmo, bem como a razão de ser do misticismo e da cartomancia também poder ser
encontrada em problemas psíquicos, se diferenciando, assim, da autoajuda.
O individualismo – juntamente com a racionalização da vida moderna – está
intimamente ligado a esta resposta aos problemas sociais expressa pela autoajuda. Significa
que o indivíduo não busca a ajuda de outros, e sim, em si mesmo. A partir disto podemos
pensar que aquele que procura autoajuda pensa que os outros não podem ajudá-lo, o que em
parte é apenas expressão do caráter competitivo da sociedade moderna, e que ele pode ajudar
a si mesmo. Ironicamente, a busca de ajuda a si mesmo ocorre através dos livros de autoajuda,
dos conselhos e receitas fornecidos por outra pessoa, embora não seja pessoalmente, mas sim
a figura abstrata do escritor do livro (e sua propaganda pode ser o próprio “sucesso”).
A ironia está no fato do indivíduo pensar que está ajudando a si mesmo e, no fundo, é
ajudado por outro, que lhe diz como “se ajudar”. A outra ironia é que, ao pedir ajuda ao
escritor de livros desse segmento, ele ajuda a este, que ganha dinheiro e sucesso vendendo
esses livros. E grande parte daqueles que buscam a autoajuda precisam de socorro, não
devido a carências reais, necessidades básicas, mas sim graças aos valores que são
portadores. A busca de status, riqueza, poder, sucesso, revela um grande filão do mercado
daqueles que buscam autoajuda. Eles esperam que, utilizando este recurso, irão conseguir
realizar suas ambições e revelam os valores dessa sociedade que prega a necessidade de
ascensão social e outros objetivos socialmente desejados e dificilmente realizáveis para muitos
setores.
A autoajuda funciona? Os conselhos e receitas não resolvem os problemas dos
indivíduos e quanto mais graves, menores as probabilidades de qualquer ajuda fornecida por
este tipo de leitura. Ele traz uma série de ilusões e, posteriormente, desilusões, a não ser que,
como ocorre em muitos casos, o indivíduo se culpe pelo seu “fracasso” ou então torne sua
ilusão algo permanente. Se algum resultado se consegue, é do tipo que atinge apenas parte da
vida cotidiana, o que não faz ninguém chegar ao “sucesso”. A coincidência pode reforçar a
ilusão da eficácia da autoajuda, pois uma pessoa pode chegar a determinados resultados por
um conjunto de circunstâncias e atribuí-los a ela. A eficácia da autoajuda é muito restrita, mas
a crença é mais forte do que a razão, mesmo quando ela tem origem racional.
No entanto, essa análise não é suficiente para explicar o aumento do apelo aos livros
de autoajuda, que vem continuamente crescendo. Em 1994, a literatura de autoajuda vendia
em torno de 412 mil exemplares; em 1997 chegou a 1 milhão e 100 mil exemplares e, em
1998, quase dobrou, chegando a 2 milhões e 100 mil. Esses dados, fornecidos pela Câmara
Brasileiro do Livro (CBL), apresentam um aumento constante na venda de livros de autoajuda,
marcando um processo de consumo ampliado que continua até hoje. A explicação para o
aumento da procura pode ser encontrada em três determinações: a) a situação precária de
vida de grande parte da população, que procura a autoajuda como refúgio e esperança; b) a
expansão dos valores voltados para a ascensão social; c) a estratégia de vendas e divulgação
das editoras.
As mudanças da sociedade moderna explicam estas determinações. A partir das
décadas de 60 e 70 a situação foi marcada por crises e dificuldades mundiais, que se agravou
a partir dos anos 80, pois a solução encontrada foi um novo regime de acumulação, o integral.
Este novo regime de acumulação marca a queda do nível de vida e renda, inclusive nos países
considerados “desenvolvidos”, e o aumento da miséria, pobreza, violência, criminalidade. O
Estado neoliberal é agente desse processo e, ao mesmo tempo, busca reduzir seus gastos e
diminuir as políticas sociais, agravando ainda mais a situação. As novas ideologias e
exigências do mercado, como a competitividade, a “inteligência emocional”, juntamente com o
aumento do desemprego, promovem uma radicalização da competição social, que produz um
incentivo a mais para a literatura de autoajuda.
Aqueles que estão em situação desfavorável, juntamente com aqueles que
ambicionam a ascensão social, mas estão cada vez mais longe disso, criam todo um filão de
consumidores de livros de autoajuda. Esse mercado consumidor se apega à literatura de
autoajuda e as grandes editoras reforçam essa tendência com a publicidade, “variedade” de
produtos (alguns passam da leitura de certas obras para outras, já que as técnicas indicadas
não dão resultado e assim se buscam outras) e com obras mais acessíveis do ponto de vista
financeiro (livros de bolso com preço menor, por exemplo, para atender ao público de menor
poder aquisitivo), bem como criando novas formas de autoajuda, voltadas para públicos
específicos. Assim, temos a miséria geral da sociedade moderna reproduzindo-se sob a forma
de miséria psíquica e seus corolários: o misticismo e a autoajuda.
A literatura de autoajuda tem um nicho de mercado específico. No entanto, o nicho
de mercado formado pelo misticismo, esoterismo, autoajuda, irracionalismo, são partes de um
processo mais amplo. É o caso da esfera acadêmica, que também se relaciona e realiza uma
quase fusão com o misticismo e esoterismo. Assim, a cultura mercantil, seja sob a forma de
música ou livro, acaba criando toda uma cultura entorpecente. O irracionalismo geralmente
acompanha essa tendência, bem como o hedonismo, consumismo, entre outras manifestações
intelectuais que são como reflexos do espelho da miséria capitalista. O irracionalismo,
baseado em ideologias científicas ou filosóficas ou, ainda, em concepções místicas ou
religiosas, é, na verdade, manifestação das tendências regressivas na sociedade
contemporânea.
O irracionalismo tem como fonte inspiradora os antigos irracionalistas do século XIX
(Nietzsche, por exemplo) e as tendências ideológicas que resgatam o pensamento desses
ideólogos, (o pós-estruturalismo, também chamado “pós-modernismo”). Outra fonte
inspiradora se encontra no misticismo e no chamado “novo espiritualismo” que vem ganhando
espaço social nos últimos anos. Os pós-estruturalistas negam a razão e declaram a
necessidade de seu abandono. Esta ideologia é, na verdade, a expressão de uma
contrarrevolução cultural preventiva, tal como colocamos anteriormente, que simplesmente
troca a crítica da razão instrumental, realizada, pela Escola de Frankfurt, por uma crítica da
razão em geral. Assim, com a aparência de criticidade e em alguns casos até de “esquerda”,
os ideólogos pós-estruturalistas negam a razão e a teoria, sem fazer distinções. Eles retomam
teses irracionalistas e criticam o racionalismo, principalmente o marxismo, seu principal alvo.
O racionalismo é uma ideologia burguesa e metafísica e o seu amálgama com o
marxismo, que muitos ditos marxistas aceitam de bom grado, serve aos interesses intrínsecos
do capitalismo contemporâneo. O seu alter ego, o irracionalismo, vai consolidando-se e
convivendo ironicamente e hipocritamente com o racionalismo burocrático e cientificista. O
irracionalismo acaba virando moda e sendo uma arma do capital contra as tentativas de
transformação social. Trata-se, no fundo, de uma visão neoconservadora. Outra tendência é o
misticismo e novo espiritualismo que se instaura através do ecletismo ou da transformação do
sucesso e dinheiro no grande objetivo religioso. Os novos vendilhões das mais variadas seitas
e igrejas transformam os valores burgueses de ascensão social, competição, busca por status,
poder e riqueza, como o supremo objetivo da vida. Os místicos misturam várias religiões e
concepções (de Platão, passando por Nietzsche, até chegar a Jung), em alguns casos até
mesmo literatura de autoajuda, e passam a justificar e legitimar as relações sociais existentes,
alguns pregando veladamente concepções racistas, neonazistas, preconceituosas, partindo de
sua suposta superioridade espiritual ou de raça.
A razão instrumental, sem dúvida, está a serviço da dominação capitalista. Porém,
não se aplica à teoria ou à razão em geral. Ao evitar esta distinção, os ideólogos apenas
buscam retirar a teoria e a razão da luta dos explorados e dominados para facilitar a
reprodução da dominação e exploração. O que gera a adesão a esta nova onda de
irracionalismo é, por um lado, a miséria psíquica reinante atual, que transformou a “geração
coca-cola” em “geração prozac”, e, por outro, a pobreza e miséria real de algumas pessoas. A
depressão, a ansiedade (“stress”), a infelicidade, a pobreza, o desemprego, juntamente com a
falta de uma perspectiva de mudança, seja individual ou coletiva, faz com que as pessoas se
apeguem a crenças irracionais como forma de sobrevivência psíquica ou de esperança. Estes
dois elementos são reforçados pelos modismos ideológicos acadêmicos e pela ascensão da
extrema-direita e revigoramento do fascismo e neonazismo.
O processo de repressão social atinge os indivíduos sob todas as formas. O controle
torna-se cada vez mais intensivo sobre os indivíduos e trabalhadores. A busca de controle de
suas emoções (a ideologia da “inteligência emocional”), a videovigilância, a exigência cada vez
maior de produtividade e rendimento, o reino absoluto dos valores do sucesso e da riqueza (tal
como na “teologia da prosperidade”, “autoajuda” etc.) e se manifesta também no produtivismo
acadêmico. Há uma alienação total, que pode gerar uma recusa total ou uma reação alienada.
Isto fortalece tendências regressivas que podem levar a uma nova barbárie. O irracionalismo
(e o culturalismo) reforça esta posição ao pregar a recusa da razão e o relativismo, como se
tudo fosse cultural e relativo e, portanto, sem necessidade de discussão. A comunicação
humana é, desta forma, assassinada, pois esta só pode ocorrer via razão. A comunicação
através do confronto ou acomodação de valores e sentimentos é inviável, pois gera tendência
ao conflito irracional ou ao conformismo de rebanho.
O capitalismo hiper-repressivo sufoca o indivíduo nas relações de trabalho e na
aquisição de bens básicos pela maioria da população e é, ao mesmo tempo, um capitalismo
aparentemente hiperliberal, pois libera o indivíduo para prazeres hedonistas, sádicos e
pervertidos, enquanto satisfação substituta ou “válvula de escape”. Estas contradições podem
gerar, como resultado negativo, uma nova era de fascismo e, como resultado positivo, a
transformação social. A última tem como condição de possibilidade o reconhecimento da
necessidade da teoria e da razão humanista e, por conseguinte, sua defesa se torna também
uma necessidade.
Neste contexto de cultura entorpecente, a ofensiva ideológica e cultural burguesa
passa a expressar uma forte dominação em todas as esferas da vida social. A ideologia
dominante e outras manifestações da cultura burguesa declaram o fim da utopia e do projeto
socialista. A derrocada do Muro de Berlim em 1989 reforça esta visão da realidade
contemporânea como sem saída ou sem alternativa a não ser mudanças superficiais no
capitalismo. Porém, a crise do capitalismo estatal russo e do Leste Europeu teve um efeito de
reforçar a ofensiva ideológica e cultural burguesa, tanto no sentido de aprofundar a
mercantilização da cultura quanto de promover uma visão de que o socialismo foi derrotado,
mas também de abrir novas perspectivas para a luta cultural do proletariado. Efetivamente, a
partir desse momento histórico, alguns autores marginais no marxismo começaram a ser
resgatados (Bloch, Korsch etc.), bem como a busca de saída fez renascer o anarquismo e
outras tendências políticas que estavam extremamente enfraquecidas. A nova situação social,
marcada pelo aumento da exploração capitalista, era outro incentivo para a reação cultural
contra a hegemonia burguesa. A partir de 1996 houve um crescimento do anarquismo e, a
partir de 1999, e das manifestações antiglobalização, nova onda de resistência e luta cultural
emergiu. Assim, autores esquecidos começaram a ser recuperados (comunistas de conselhos,
situacionismo etc.) reforçando o movimento já esboçado.
Também ocorreu uma facilidade de comunicação devido o desenvolvimento
tecnológico e a internet. Este é o caso do processo de aumento de intercâmbio entre pessoas e
grupos, o crescimento do anarquismo, a divulgação e influência do situacionismo e
conselhismo. Embora ainda seja incipiente e muitas vezes, por medo do bolchevismo ou da
socialdemocracia, tais tendências acabem caindo na influência das ideologias burguesas,
principalmente o pós-estruturalismo crítico, outras vezes caem num dogmatismo e ao
contrário das lutas concretas e pela emancipação humana apegam-se a doutrinas e,
descontextualizam a história e dificultam a articulação entre as tendências de esquerda (que,
inclusive, foi facilitada pela expansão da internet); tal como um certo anarquismo dogmático,
cujo inimigo principal é o “malvado Marx” e não a classe dominante.
Apesar disso, as novas tendências políticas ajudam a recuperar o pensamento de
autores que foram ofuscados durante o regime de acumulação intensivo-extensivo, como os
marxistas revolucionários (Karl Korsch, Anton Pannekoek, Otto Rühle), anarquistas (Mikhail
Bakunin, Malatesta, Kropotkin), entre outros (Debord, Bloch, Bordiga etc.), que foram
abandonados por não estarem de acordo nem com o conservadorismo e nem com a
pseudoesquerda. Uma nova produção cultural também se esboça e assim temos, por um lado,
uma cultura descartável, entorpecente, asfixiante e, por outro, uma cultura contestadora.
O capital comunicacional, devido suas contradições, também está envolvido o
processo. Sem dúvida, estas contradições não são “explosivas” e predomina amplamente a
reprodução das mercadorias culturais, que geram os valores dominantes da sociedade
moderna. As pequenas brechas também são portadoras de potencialidade de ampliação e
colaboração com outras lutas no sentido da transformação social. Obviamente que novas
formas de comunicação devem ser produzidas e utilizadas, assim como o uso de formas
alternativas já existentes. A análise também deve levar estas formas alternativas em
consideração para conseguir perceber que a hegemonia daqueles que detém o poder não é
total e que possui brechas. Assim se torna possível perceber o processo de contradições em
movimento que demonstram a possibilidade de transformação social e a formação de uma
nova produção cultural, não-mercantil.

Estado e amortecimento da luta de classes


A emergência e consolidação do regime de acumulação integral promovem o
aumento da exploração internacional, da lumpemproletarização, da pobreza, miséria, violência
e criminalidade. Neste processo, o Estado capitalista tem um papel fundamental, entre os
quais, dentro de sua lógica (contribuir com o aumento do processo de exploração e conter
seus próprios gastos), amortecer os conflitos sociais. A estratégia utilizada é a da repressão,
cooptação e políticas estatais paliativas.
Esse processo ocorre em escala mundial e a migração e conflitos interétnicos,
marcam a ascensão da xenofobia e ascensão da extrema- direita, nacionalismo e racismo. As
reivindicações dos trabalhadores, esporádicas e localizadas, aliadas à insatisfação estudantil e
de outros setores sociais, provocam um mundo de contradições que, possuem como resposta,
por um lado, o aumento da repressão estatal que não quer executar políticas de assistência
social de caráter estrutural, mas apenas paliativas, tornando-se um estado penal. O aumento
da criminalidade acompanha todo o processo.
A partir da década de 1980, com a emergência do novo regime de acumulação,
começou-se a ampliar a violência criminal, atingindo índices cada vez mais elevados no mundo
inteiro. O desmantelamento do Estado integracionista e a diminuição dos investimentos
estatais em políticas de assistência social aliados à precarização do trabalho, o aumento do
desemprego, entre outros elementos, apontam para processos que geram aumento da
criminalidade. Sem dúvida, o crime organizado acaba sendo reforçado por esta situação. A
criminalidade torna-se uma estratégia de sobrevivência para setores mais carentes da
sociedade, seja pela ação individual e direta, seja pelo aliciamento pelo crime organizado.
Também não se pode descartar a importância explicativa dos valores dominantes em nossa
sociedade para justificar o aumento da violência e criminalidade, que leva à luta por status,
poder, riqueza, que brota no terreno da competição social, elemento característico da
sociabilidade moderna. O mundo moderno é um mundo axiológico (Viana, 2008b) e, por
conseguinte, é elemento propulsor de ações criminosas para realizar-se, seja por indivíduos
das classes exploradas ou das classes privilegiadas.
Essa situação é mais grave nos países fora dos centros hegemônicos constituídos
pelos Estados Unidos, Europa e mais alguns poucos países. Em alguns, por exemplo, o crime
torna-se uma empresa comercial semelhante a qualquer outra do gênero. O crime organizado
gera “emprego”, gera fidelidade, redes de contatos, produtores e consumidores (não apenas
no caso do tráfico de drogas), possui hierarquia etc. Também é claro que por detrás da
semelhança existe a diferença, que é visível, mas que ofusca o que existe em comum. O
objetivo da criminalidade é o dinheiro, a mercadoria das mercadorias. Mas não se trata de
produção de dinheiro e sim de aquisição, feita sob as mais variadas formas e com processo
distributivo interno.
O crime organizado é reforçado pela situação de crescimento da penúria em todo o
mundo, o que é revertido em maior força social para este setor da sociedade moderna. O
combate ao crime é a medida preconizada por muitos para desestruturá-lo. O Estado
Neoliberal, o principal responsável por este estado de coisas, assume-se, como já colocava
Wacquant (2002), como um Estado Penal. O aumento da violência estatal torna-se o remédio
sugerido ao invés da resolução dos problemas sociais gerados pelo próprio neoliberalismo. O
aumento da repressão ao crime é apenas mais do mesmo, num círculo vicioso e ascendente de
violência. A população carcerária mundial cresceu vertiginosamente a partir dos anos 80, e
isto reforça a base social da criminalidade, ao invés de enfraquecê-la, pois as prisões
proporcionam união, contato, redes, organização. Se não houver uma mudança social de
grandes proporções, a tendência é aumentar a violência criminal e estatal, que se reforçam
mutuamente.
Mas o Estado Neoliberal não é apenas repressivo, pois utiliza habilmente políticas
paliativas e a estratégia da cooptação de amplos setores da população, visando amortecimento
das lutas de classes. Desde o financiamento de instituições, grupos acadêmicos, entre outros,
até realizar ponte entre as políticas paliativas e sistema de cooptação, o Estado Neoliberal é
rico em estratégias e, para manter a dominação neste contexto de miséria social e psíquica,
necessariamente deveria sê-lo.
Podemos citar o exemplo das políticas de cotas. A gênese da política de cotas tem
raízes históricas e sociais. As políticas estatais (chamadas “públicas”) nunca nascem devido à
genialidade dos governantes ou ao acaso. Elas são um fenômeno concreto e por isso possuem
determinações que explicam sua gênese. O Estado, o aparelho produtor e realizador das
políticas estatais, sofre mutações com o desenvolvimento histórico. As mudanças estatais
explicam as alterações na constituição, alteração, conteúdo e forma das políticas denominadas
“públicas”.
As políticas estatais mudam com as alterações na forma do Estado capitalista e não
foi diferente na mais recente mutação estatal, a passagem do Estado integracionista (dito do
“bem-estar social”, ou keynesiano) para o Estado neoliberal (Viana, 2003). O Estado,
integracionista utiliza uma ampla gama de políticas estatais visando integrar o conjunto da
população na sociedade capitalista, sendo resultado de um processo de luta de classes que
coloca o Estado, enquanto instituição que busca salvaguardar o capitalismo, através de alguns
benefícios e da cooptação, após as tentativas de revoluções proletárias que sacudiram o
mundo na primeira metade do século XX e das duas Guerras Mundiais. Obviamente, é
necessário compreender que esta formação estatal só existiu plenamente nos países de
capitalismo superdesenvolvido, nos quais o processo de transferência de mais-valor dos países
“pobres” para os países “ricos” permitia este dispêndio estatal e a implantação da chamada
“sociedade de consumo”.
A transição para o neoliberalismo ocorre com a crescente dificuldade da acumulação
capitalista. O neoliberalismo complementa a reestruturação produtiva – corroendo os direitos
trabalhistas e “flexibilizando” as relações de trabalho no sentido de permitir, legalmente, uma
maior exploração da força de trabalho – e o neoimperialismo, assumindo o papel protecionista
nos países imperialistas e defendendo o livre comércio nos países de capitalismo subordinado.
O Estado neoliberal, mínimo e forte, segundo seus ideólogos, é aquele que busca conter
gastos sociais, reduzindo ao mínimo as políticas estatais para a população e adquirir um papel
repressivo cada vez mais intensivo, devido ao acirramento dos conflitos sociais, aumento da
miséria, criminalidade e violência. Ele se torna um “Estado Penal” (Wacquant, 2002).
O Estado neoliberal, ao contrário do seu antecessor, não possui um conjunto de
políticas estatais voltadas para o chamado “bem-estar social” e sim uma forte política
repressiva e um conjunto de paliativos que buscam amenizar as contradições sociais através
da cooptação e responsabilização da sociedade civil. É neste contexto que há a expansão do
chamado “terceiro setor”, das ONGs etc., bem como novas ideologias e ações que jogam para
a sociedade civil as antigas responsabilidades estatais (voluntariado, “amigos da escola” etc.).
Assim, as políticas estatais neoliberais são políticas paliativas, isto é, não visam à resolução de
problemas sociais e sim sua amenização, não estruturam um conjunto de políticas estatais
voltadas para áreas chaves, mas sim para legitimar e desmobilizar reivindicações sociais mais
intensivas e resolutivas. Isso está de acordo com o princípio neoliberal de diminuir os gastos
sociais, já que tais políticas possuem custos muito mais baixos. A privatização é o
complemento de todo o processo, pois ela joga para instituições que visam o lucro em diversos
serviços sociais (educação, saúde etc.) o que antes era responsabilidade do Estado.
É neste contexto que surge a chamada “política de cotas”. Este é um exemplo de
política tipicamente paliativa, isto é, neoliberal. As cotas (raciais, étnicas, sociais) não visam
resolver nenhum problema social ou minimizá-lo consideravelmente. O que este tipo de
política visa é beneficiar artificialmente uma parcela da população, sem aumentar seus gastos,
e buscando cooptar tais “beneficiados”, legitimando o neoliberalismo. Basta olhar os dados
estatísticos sobre a população negra no Brasil, por exemplo, para ver que o sistema de cotas
na universidade atinge uma ínfima minoria, que é justamente a parcela melhor posicionada na
sociedade.
Se observarmos que a maioria absoluta da população pobre não tem a menor
possibilidade de acesso ao ensino superior e é formada em torno de 70% por negros, então
vemos o tanto que tal política beneficia uma pequena minoria. Desta minoria beneficiada,
surgem ardorosos defensores da política de cotas que deixam de lado aqueles que são mais
necessitados, e ainda podem posar de militantes em prol do interesse coletivo daqueles que
são negros. A política de cooptação atinge parcela da população negra com maior capital
cultural e posição social, que, obviamente, possui uma maior penetração nos meios
acadêmicos, nos meios de comunicação, nos movimentos sociais etc.
Essa população negra cooptada também tem novos interesses criados, tal como
núcleos de estudos, publicações, pesquisas etc. Isto tudo está ligado ao financiamento
realizado por determinadas instituições (inclusive internacionais) e pelo Estado,
movimentando grandes somas em dinheiro e criando uma rede de interesses em torno da
política de cotas, de temáticas de estudo (“ações afirmativas”, cultura afro-brasileira etc.).
Isso encontra respaldo nas ideologias contemporâneas, especialmente na moda pós-
estruturalista (Foucault, Guatari, Deleuze, Lyotard etc.), com seu discurso conveniente contra
a totalidade, criando as bases fragmentárias do microrreformismo. Nada disto é inocente e
basta ver a influência das fundações norte-americanas na produção brasileira referente à
questão racial.

Poder-se-ia invocar, evidentemente, o papel motor que desempenharam as grandes fundações
americanas de filantropia e pesquisa na difusão da doxa racial norte-americana no seio do campo universitário
brasileiro, tanto no plano das representações, quanto das práticas. Assim, a Fundação Rockfeller financia um
programa sobre “Raça e etnicidade” na Universidade Federal do Rio de Janeiro, bem como o Centro de
Estudos Afro-Asiáticos (e sua revista Estudos Afro-Asiáticos) da Universidade Cândido Mendes, de maneira a
manter intercâmbio de pesquisadores e estudantes. Para a obtenção de seu patrocínio, a Fundação impõe
como condição que as equipes de pesquisa obedeçam aos critérios de affirmative action à maneira americana
(...) (Bourdieu & Wacquant, 2001, p. 25).

O Estado, ao invés de investir na educação, aumentando o número de vagas, apenas
realiza um processo de substituição dos ocupantes das vagas, criando cotas que garantam tal
troca. Abrir 50% de cotas para alunos oriundos do ensino público, significa que não haverá
aumento de vagas, mas tão somente substituição dos ocupantes das vagas. Não ocorre gasto
adicional e ainda há a propaganda que afirma que o Estado realiza políticas em benefício da
população (ou melhor, de uma pequena parte da população em detrimento da sua maioria). No
caso de cotas para pessoas oriundas do ensino público, vemos apenas algumas pessoas serem
beneficiadas em detrimento de outras e sem haver aumento de vagas. Nenhum governo
neoliberal aponta para a criação de 50% de novas vagas no ensino superior. Ao contrário, a
política neoliberal sucateia o ensino superior público e incentiva a expansão das instituições
privadas de ensino superior.
O sistema de cotas não resolve nenhuma questão, mas possui muitos defensores. A
dissolução do Estado integracionista pulverizou as esquerdas institucionais. A
socialdemocracia se tornou um “neoliberalismo de esquerda”, que apenas busca unir um
microrreformismo ao sabor “pós-estruturalista” com o pragmatismo conservador e, portanto,
submetido à pauta neoliberal. As grandes reformas sociais nem sequer são mais citadas e a
ideia de transformação social já havia sido abandonada pela socialdemocracia até no discurso
após a Segunda Guerra Mundial. Os novos governos socialdemocratas reproduzem a lógica
neoliberal e se diferenciam apenas por apresentar projetos que não saem do papel juntamente
com um aprofundamento de paliativos e responsabilização da sociedade civil.
A ala mais à esquerda apresenta projetos de “economia popular”, “economia
solidária”, “desenvolvimento sustentável” e coisas do gênero, às vezes utilizando linguagem
mais radical e ainda falando de socialismo, mas sem rupturas e através de uma ideia de
desenvolvimento linear de cooperativas e iniciativas da sociedade civil até o socialismo,
lembrando o reformismo do início do século XX.
Assim, a transformação social sai do horizonte das esquerdas institucionais e o
microrreformismo, um reformismo em migalhas, assume seu lugar. Obviamente, que muitos
argumentam que não se pode esperar a realização da utopia para depois se fazer alguma
coisa. Tal colocação já revela um posicionamento ao colocar que a transformação social é uma
“utopia”, mas aponta para a necessidade de ações imediatas e pragmáticas. Sem dúvida, são
necessárias ações imediatas, mas elas só possuem algum valor real se realizadas a partir de
uma articulação com o projeto de transformação social e apresentarem propostas de reformas
que sirvam para a acumulação de forças do campo revolucionário e outras que coloquem em
xeque a própria sociedade existente, o que André Gorz denominou “reformas não-reformistas”
(Gorz, 1968).
A política de cotas não apresenta nem a solução do problema que diz vir para
resolver e nem possui este nível de articulação com um projeto de transformação social. Basta
ver o discurso que é preciso, imediatamente, pagar a “dívida histórica” com os negros, para
ver que o microrreformismo é a sua base. Se existe uma “dívida histórica” com a população
negra, esta dívida não é do conjunto da população e sim da classe dominante – já que foi ela
que colonizou, escravizou, explorou, oprimiu – e não é esta que irá pagar tal dívida, pois os
que perderão suas vagas devido ao sistema de cotas são os setores mais pobres da população.
Da mesma forma, se há uma “dívida histórica” com a população negra, também
existe a mesma “dívida” com os proletários, lumpemproletários, camponeses, índios,
mulheres, jovens, crianças, e diversos outros grupos sociais oprimidos, presentes na sociedade
moderna. Assim, a ideologia isola a questão negra das demais questões sociais e cria um
paliativo, que beneficia apenas os mais bem posicionados dessa população e permite pensar
que se trata de um projeto compromissado com toda uma população – a negra. A população
negra – já separada dos demais grupos oprimidos, e esta separação entre os oprimidos apenas
reflete a estratégia da classe dominante de dividir para dominar mais facilmente – não é
beneficiada por tais políticas que, na verdade, atendem interesses de uma minoria no seu
interior.
Propor aumento das vagas ao invés de cotas, melhoria dos demais níveis de ensino
ao invés de privilegiar os privilegiados de um grupo “desprivilegiado” (cuja maioria é
desprivilegiada, mas não todos), entre outras propostas, seria o caminho da articulação entre
propostas imediatas e concretas com outras a longo prazo. Isso também geraria uma forma de
ação que não é produto de paternalismo estatal que beneficia uma minoria e sim de lutas
populares que beneficiam a maioria. Ninguém consegue libertação assumindo-se como
“vítima” e pedindo aos algozes a sua libertação, quando isso ocorre, o que se faz é transformar
algumas “vítimas” em novos algozes.
É preciso ultrapassar o pensamento único, o neoliberalismo. Isto é possível
superando os marcos de seu pensamento, tanto neoliberalismo de direita quanto de esquerda,
pois ambos são neoliberais. A renda nacional cada vez mais se concentra em poucas mãos e o
Estado neoliberal cumpre o papel de evitar gastos e criar paliativos para substituir as políticas
estatais de atendimento à população e através de responsabilização da sociedade civil pelo
que antes era um atributo seu. O Estado sempre teve papel-chave no processo de repartição
do mais-valor na sociedade e, sempre fez isto de acordo com os interesses dominantes. As
dificuldades encontradas no processo de acumulação capitalista fazem com que haja a
intensificação da ação estatal no sentido de garantir uma maior parte da renda nacional para
o capital e a luta hoje deve ser contra isto e a favor da criação de condições favoráveis para a
transformação social.
Por conseguinte, temos uma sociedade dilacerada por inúmeros conflitos, por uma
dominação cultural asfixiante e entorpecente, aliado a um estado extremamente repressivo, as
explosões e lutas sociais tendem também a se acirrar. Uma nova época de luta de classes
surge. Para perceber isso é necessário observar os sinais do tempo. A manifestação do
proletariado, da juventude, dos demais setores oprimidos ou explorados continua existindo, de
forma mais ou menos radical, mais ou menos contraditória, com avanços e recuos, com
influências de ideologias burguesas ou não, mas permanece e se torna mais atuante do que
em épocas anteriores.

A luta proletária hoje


No regime de acumulação intensivo-extensivo, as lutas sociais diminuíram
drasticamente na Europa e EUA e, somente no período de sua crise é que elas ressurgiram
com força considerável. No regime de acumulação integral, novas ações e lutas surgem, que,
mesmo perpassadas por ambiguidades, expressam a nova fase da luta de classes. Trata-se de
uma luta cotidiana, espontânea, que é mais radical do que a que existia no regime de
acumulação anterior. Neste sentido, as atuais lutas sociais não são lutas revolucionárias e nem
expressam uma crise do capitalismo, como muitos supõem, nem sequer há uma crise do
regime de acumulação, muitos menos do modo de produção. As lutas que se manifestam hoje
são as lutas espontâneas e normais do novo regime de acumulação. O regime de acumulação
integral aumenta a exploração e por isso a integração do proletariado e dos demais setores
descontentes da sociedade é mais frágil, apesar do estado repressivo e do sistema de
cooptação, bem como da cultura mercantil e do novo consumismo e das novas tendências
culturais regressivas.
Assim, as lutas esporádicas são manifestações da luta de classes na sociedade
contemporânea. Isto significa, entre outras coisas, que quando o regime de acumulação
integral entrar em crise, tais lutas serão intensificadas e generalizadas, além de radicalizadas.
Uma nova onda revolucionária tende a surgir, tal como as grandes possibilidades
revolucionárias, especialmente as do início do século XX, mas agora tendo por base
sociedades capitalistas muito mais desenvolvidas e articuladas, possibilitando o que Marcuse
antecipou em 1972: a revolução mundial.
É neste contexto que ocorrem lutas como as que se desenvolveram (e continuam se
desenvolvendo) em vários países. Além da luta cultural, também a luta política se manifesta
através da emergência do chamado “movimento antiglobalização”, e outras lutas políticas que
explodem pelo mundo. O movimento antiglobalização, um nome impróprio e preso à ideologia
da globalização (Ludd, 2002)45, surgiu em 1999, depois das manifestações da Ação Global dos
Povos Contra o Capitalismo, no qual se destacou a manifestação em Seattle, Estados Unidos,
em 30 de novembro deste ano, um protesto contra o Fundo Monetário Internacional. A onda
de manifestações se espalhou por dezenas de países e cidades.
Nesse movimento estavam presentes os mais variados grupos, tendências, posições
políticas. Desde anarquistas até ONGs, passando por tendências ditas marxistas, esquerdistas,
antimilitaristas, feministas, esquerda católica, sindicalistas etc., mostrando o caráter amplo e
indefinido do movimento. Várias outras manifestações e desdobramentos ocorreram, em vários
países. Confrontos com a polícia ocorrem em vários casos, tal como aconteceu em Gênova em
2001, no qual o Black Bloc, um movimento que se diz antiautoritário, utiliza formas violentas
de protesto e em um confronto com a polícia ocasionou a morte de um militante do movimento
antiglobalização, Carlo Giuliani, que se transformou para muitos, em símbolo do movimento. O
movimento antiglobalização gerou vários desdobramentos, em várias perspectivas (inclusive
tendo em vista a variedade de indivíduos, grupos, tendências e organizações que participaram
de seu processo de constituição), tal como o FSM, Fórum Social Mundial, representante da ala
reformista do movimento e contatos e organizações anticapitalistas (Ryoki e Ortellado, 2004;
Ludd, 2002).
Também ocorrem lutas esporádicas e espontâneas em várias partes do mundo. Este
é o caso das lutas sociais na França, Argentina e México. As lutas sociais na França já
promoveram algumas ações esporádicas, mas que estão retornando com certa frequência. Os
acontecimentos de 2005 na sociedade francesa são apenas um sintoma de que algo está por
acontecer, que é a tendência da radicalização das lutas sociais na Europa e em todos os países
imperialistas. Esse sintoma é apenas mais um entre diversos outros e a percepção de suas
manifestações nos ajudam a entender todo o processo social em andamento no mundo
contemporâneo.
Os jovens, imigrantes, pobres, queimam os carros, enfrentam a polícia. O que
provoca isso? A situação precária de vida de grande parte da população francesa,
principalmente os imigrantes e outros setores mais empobrecidos da população. Mas essa
afirmação não revela tudo o que está por detrás dos acontecimentos contemporâneos na
França e no mundo. Em outros países, movimentos de revolta popular também ocorrem e
tendem a continuar ocorrendo. A explicação mais fácil dos acontecimentos na França remete a
revolta contra a superexploração e a pobreza. De certa forma, isso está correto, mas existe
algo mais: por qual motivo essa revolta não assume características contestadoras e de
exigências de mudanças sociais? Por qual motivo o ato destrutivo, a violência de massas, se
manifesta sem nenhum projeto alternativo?
As explicações são várias: o nível de consciência dos revoltados não permite a eles
ultrapassarem a ação simplesmente destrutiva. No entanto, existe algo mais. Existe a falta de
uma utopia. Como já dizia o filósofo Ernst Bloch, sem utopia não há revolução. Os projetos
alternativos de sociedade estão sendo bombardeados pela contrarrevolução intelectual e
cultural que se iniciou nos anos 70, com a ideologia pós-estruturalista e sua popularização e se
aprofundou com a derrocada do capitalismo estatal soviético (“dito” socialismo) e a crise do
“marxismo”-leninismo e transformação da socialdemocracia em “social”-liberalismo ou um
“neoliberalismo de esquerda”.
O anarquismo ressurgiu, mas não conseguiu adquirir uma força política considerável
e grande parte do que se diz anarquismo é na verdade, uma mistura eclética de ideologia pós-
estruturalista e pseudoanarquista – na qual o niilismo, a revolta, a destruição, se tornam a
razão de ser da ação – onde qualquer proposta de projeto alternativo de sociedade, de auto-
organização, é condenada. Estas teses acabam popularizando-se mais ou menos e influenciam
em parte o processo social e os movimentos sociais.
Os integrantes dos movimentos antiglobalização estão também numa situação
semelhante ao do anarquismo, pois acabam fazendo uma mistura de ideologias pós-
estruturalistas, por um lado, com o situacionismo, conselhismo, marxismo libertário ou o
anarquismo, por outro. Claro que deixando de lado as tendências reformistas, ou “social-
liberais” que continuam existindo. Neste contexto, o marxismo que, em períodos de
estabilidade capitalista passa de teoria para ideologia (Korsch, 1977), começa a ser
recuperado pelas lutas operárias e começa a retomar seu caráter teórico.
Esses elementos complementam a situação social concreta da sociedade francesa e
acaba explicando o caráter das ações dos jovens franceses, que tomam a destruição, o
individualismo, a revolta, a não-organização, a falta de um projeto, enquanto meio de ação.
Por conseguinte, enquanto não houver uma utopia, um projeto alternativo de sociedade, para
guiar as ações populares, o risco da mera destruição e da recuperação ou desvio destas ações
para práticas conservadoras é grande. Por isso, retomar a ideia de transformação social com
um projeto alternativo de sociedade, se torna hoje fundamental. E isso faz parte de uma ampla
luta cultural contra os antiutopismos existentes e ideologias dominantes, o que pode fazer
brotar um projeto coletivo de transformação social. Mas tanto uma possibilidade quanto a
outra estão dadas, isto é, tanto a revolta de massas pode gerar a mera destruição, ou seu
desvio direitista e fascista, quanto pode, a partir do momento em que haja uma utopia
concreta que dê direção ao movimento, uma possibilidade de caminhar rumo à transformação
social. De qualquer forma, a luta existe e não foi abolida, está presente, permeada por
contradições, mas faz parte do processo de desenvolvimento da consciência e organização. As
lutas espontâneas passam para uma luta mais efetiva e caminho para a lutas autônomas e
autogestionárias.
O caso argentino, em 2002, é outro exemplo. O regime de acumulação integral
provoca aumento geral da exploração internacional e cria dificuldades crescentes para a
acumulação capitalista em diversos países, gerando conflitos e lutas sociais. A formação das
“assembleias de bairro” (cerca de oitenta, em abril de 2002), que apresentam uma forma
organizativa semiconselhista, sendo que os conselhos operários surgem e ressurgem no
processo histórico, demonstrando o embrião da autogestão social. Desde a primeira grande
experiência histórica da Comuna de Paris (1871), o movimento operário e o movimento
popular em geral, sempre criaram formas de auto-organização, de autogestão, sendo que os
conselhos (de fábrica, de bairros, operários etc.) são as formas geralmente assumidas.
Durante a Comuna de Paris, o regime autogestionário reconhecido como a primeira revolução
proletária por Marx e Bakunin (Viana, 2004), representantes das duas correntes mais
importantes do movimento revolucionário, apresentou os conselhos de forma embrionária46.
Assim, a nova dinâmica da luta de classes passou a se desenvolver também na
América Latina, inclusive em alguns casos com maior radicalidade, tal como ocorreu na
Argentina. Assim, a possibilidade histórica de ressurgimento dos conselhos estava dada e o
renascimento do movimento político conselhista acompanha estes momentos de acirramento
dos conflitos de classes. Vejamos o caso das Assembleias de bairros na Argentina, que podem
ser consideradas embriões dos conselhos de bairros, formas organizativas que tendem a
evoluir. As assembleias de bairro rejeitam os partidos políticos e apresentam uma forma de
organização horizontal. Todos possuem direito de manifestação, o que permite o debate livre e
a decisão majoritária, considerada mesmo pelos que possuem outra opinião como sendo
legítima. As assembleias não são convocadas por um centro, por uma direção, mas sim pela
própria população. Elas criam grupos de trabalhos (voltados para diversas questões, como
saúde, educação, propaganda etc.) que se reúnem uma vez por semana para discutir as
propostas, para enfrentar a crise e, os problemas cotidianos e as apresentam nas assembleias
de bairro, onde serão discutidas, aprovadas e implementadas.

Nascidas de forma espontânea nas ruas e praças dos bairros dos grandes centros urbanos do país,
as assembleias implicaram a instalação de um novo âmbito político e a possibilidade efetiva de recuperação e
apropriação do espaço público. Certamente, a experiência das assembleias instalou uma forma original da
atuação política por fora do aparelho de Estado e das estruturas políticas tradicionais, instalando práticas
baseadas na democracia direta, o que implicou a rejeição de qualquer modalidade de organização que
supusesse delegação e/ou criação de candidatos ou representantes (Hopstein, 2007, p. 99).

Mas tal estrutura não se mantém isolada em um bairro. Existe também a assembleia
geral, que ocorre com a participação dos conselhos de todos os bairros, chamada Assembleia
Interbarrial. Tais assembleias significam autonomização da população Argentina, que dispensa
os intermediários, partidos políticos principalmente, inclusive os de esquerda. O movimento
ainda não assumiu a radicalidade de questionar o domínio do capital, a propriedade privada
das fábricas, o que pressupõe a formação dos conselhos de fábrica e transformação em
conselhos de bairros, mas já marca um momento de autonomização das classes exploradas na
Argentina. Essa primeira experiência de autonomização do proletariado ainda pode causar o
nascimento de um movimento revolucionário ou pelo menos formar uma primeira geração de
argentinos com experiência na luta direta, sem mediação burocrática, o que proporciona os
incentivadores de uma nova forma de organização e de ressurgimento dos conselhos, tal como
na Alemanha e outras experiências históricas47.
Na Argentina, a crise nacional e as ações governamentais impopulares geraram uma
crise de legitimidade do Estado capitalista argentino, o que provocou uma recusa dos partidos
políticos e novas formas de ação política, como o panelaço, o chaveiraço, e, principalmente, as
assembleias populares. Segundo a socióloga conservadora Graciela Römer:

Há uma crise de legitimação política, que compromete o conjunto dos dirigentes e dos partidos
políticos. Está em xeque a forma tradicional de fazer política, como ficou claro nas eleições de 2001, quando
50% dos eleitores não compareceram, votaram em branco ou anularam seu voto (entrevista em Zero Hora,
03/02/2002).

O surgimento dessas assembleias ocorreu, como os demais exemplos históricos
confirmam, de forma espontânea:

As assembleias surgiram da conversa informal de vizinhos, que se reuniam em esquinas e praças
de vários bairros para discutir o desastre De La Rúa, a insatisfação com o peronismo, o adiamento das
eleições diretas e, é claro, o confisco bancário. Dessa maneira, da informalidade, os grupos passaram a
reuniões semanais, inicialmente com cerca de 30 pessoas. Atualmente, em alguns bairros, os encontros
chegam a atrair 300. – Não temos líder, porque defendemos a democracia direta, comandada pelo povo – diz o
historiador Raúl Isman, do partido de Villa del Parque, tradicional bairro de classe média da capital (O Globo,
27/04/2002).

O Governo Argentino já percebeu o perigo representado por tais assembleias e, por
isso, se pode ler no Jornal O Globo, de 27/04/2002:

Nem os governadores, nem o Fundo Monetário Internacional (FMI). Tampouco os sindicatos e
muito menos as empresas espanholas. A principal preocupação do presidente Eduardo Duhalde hoje é a
crescente participação da população da capital em assembleias de bairros, um fenômeno de organização
apartidária que nasceu dos panelaços há menos de 30 dias, reunindo desde a classe média empobrecida,
estudantes, desempregados a pequenos empresários.

A preocupação não é só do governo, pois a socióloga conservadora Graciela Romer
também mostra sua preocupação e dá a mesma receita que o Governo Argentino: integrar os
movimentos atendendo parcialmente suas demandas e fazendo do discurso da cidadania,
forma de integração capitalista. Este é o discurso da classe dominante e do poder, que tem
como aliado os partidos de esquerda (Ferreiro, 2007).
Ao lado do surgimento e desenvolvimento das assembleias de bairro, surge o Truque,
feiras nas quais as trocas não se baseiam em dinheiro, ocupação de fábricas, entre outras
iniciativas que demonstram a efervescência política no país. A crise do capitalismo argentino
faz parte da instauração de um regime de acumulação que intensifica, mundialmente, o
processo de exploração e isto atinge determinados países e setores de forma mais rápida,
intensa e ampla do que em outros, geralmente revoltas e lutas mais fortes, mas que fazem
parte da dinâmica mundial do novo regime de acumulação.
Outro exemplo de ascensão das lutas sociais é o caso mexicano. Desde as ações em
Chiapas na década de 1990, através do movimento ligado ao EZLN – Exército Zapatista de
Libertação Nacional (Genari, 2002) que, apesar de suas limitações enquanto força política e
filiação ao leninismo, foi expressão das condições sociais e históricas, cujo movimento tende a
ultrapassar a própria organização leninista48.
Porém, as lutas sociais no México ampliaram-se com a mobilização de Oaxaca, e
vários conjuntos de mobilizações, como a marcha de 120 mil pessoas em 06 de junho de 2006
e várias manifestações, greves, ações, como a tomada de emissoras de rádio e TV, ocupação da
cidade de Oaxaca e formação da APPO – Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca. A aparente
derrota do movimento, apenas mostra, que a luta serviu para forjar novas esperanças e a
experiência de luta coletiva, dificultada pela direção ligada a partidos políticos, mas que tende
a ressurgir, cada vez mais forte, nos próximos anos.
Assim, os conflitos sociais geram formas de auto-organização, lutas, desenvolvimento
da consciência, ações esporádicas, dependendo do contexto, dos agentes, da situação histórica
e social. Apesar das lutas apresentadas anteriormente serem permeadas de contradições e
algumas sofrerem determinadas limitações, na própria luta e na tendência de generalização e
ampliação, isso tende a ser resolvido. A cada luta, mesmo derrotada, avança a auto-
organização e a consciência, permitindo e incentivando novas ações e lutas, preparando o
terreno para o fortalecimento da tendência histórica da transformação social.
O mais interessante disso tudo é que se trata, na maioria dos casos, de lutas
espontâneas e cotidianas. Estas, além da acumulação de experiência, auto-organização e
desenvolvimento da consciência, ainda podem ser reforçadas pela ocorrência de uma crise do
regime de acumulação integral, mesmo porque, tal regime dificilmente vai ter uma vida de tão
longa duração quanto os regimes de acumulação anterior. Assim, a possibilidade de
transformação social se coloca no horizonte. Além do horizonte, e cada vez mais próximo, está
a autogestão social.

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Notas

Parte – 1

Capítulo 1
1. A periodização de Preobazhensky e Mandel, citada por Frank, é pouco fundamentada e
não acrescenta muito em matéria de reflexão teórica. A periodização de Samir Amim, por sua
vez, parece-nos, no que se refere ao problema dos períodos históricos, mais adequada, embora
também seja teoricamente limitada.
2. Em outra obra ele tenta resolver essa questão: “A análise da formação e luta de classes é
particularmente deficiente em relação ao processo de acumulação de capital em conjunto. (...)
A este respeito limitar-nos-emos a algumas observações ou questões isoladas e superficiais
acerca da acumulação de capital e formação e composição de classes e acerca de conflitos e
lutas de classes tal como se manifestam através do estado, guerra e conflito ou revolução
ideológica ou religiosa e política” (Frank, 1979, p. 49). Além de o próprio autor reconhecer a
superficialidade do tratamento que fornece à questão das lutas de classes, ele realiza isto
como se acumulação de capital e luta de classes fossem coisas externas uma à outra, e assim
não percebe que a própria acumulação é expressão de luta de classes e que suas crises e
mudanças são produtos destas mesmas lutas. A ligação se torna entre duas coisas externas
uma a outra, o que transforma a acumulação de capital em algo fetichista.
3. Em outra obra, Lipietz afirma: “É necessário, portanto, que exista uma materialização do
regime de acumulação, sob a forma de normas, costumes, leis, mecanismos reguladores, que
assegure, através da rotina do comportamento dos agentes em luta uns contra os outros (na
luta econômica entre capitalistas e assalariados, na concorrência entre capitais), a unidade do
processo, o respeito aproximativo do esquema de reprodução. Este conjunto de regras
interiorizadas e de procedimentos sociais, que incorpora o social nos comportamentos
individuais (o habitus, conceito desenvolvido por Pierre Bourdieu), é o que se chama de modo
de regulação” (Lipietz, 1988, p. 30).
4. O desenvolvimento capitalista não é um processo automático e mecânico de forças
metafísicas, e sim luta de classes estabilizada e restrita ao processo de valorização e nos
elementos diretamente ligados ao processo de acumulação de capital.
5. As características de cada regime de acumulação serão discutidas mais detalhadamente
nos próximos textos, principalmente o regime de acumulação integral.
6. Isso significa luta de classes autônomas (ou, em certos momentos e casos,
autogestionárias), extraordinárias, radicalizadas, por um lado, e lutas de classes cotidianas,
ordinárias, estabilizadas, por outro. Porém, devido às características próprias das relações de
classes entre a classe exploradora, a burguesia, e a classe explorada, o proletariado, mesmo
as lutas cotidianas e estabilizadas encaminham o capitalismo para a crise, já que reforçam a
tendência declinante da taxa de lucro.
7. Na obra anterior, em que abordamos a teoria do regime de acumulação (Viana, 2003),
não discutimos o problema do nazi-fascismo, por um lado, nem o problema da acumulação nos
países de capitalismo de Estado e subordinado. Sem dúvida, o nazi-fascismo foi uma exceção e
tentativa de salvar o capitalismo da crise que se encontrava, e por isso não tinha tanta
importância para uma análise da sucessão dos regimes de acumulação. O caso do capitalismo
subordinado, devido à questão da exploração internacional e a suas formas, estava
parcialmente contemplado, embora necessitando análises mais completas e profundas, que
aqui também não estão desenvolvidas. O caso do capitalismo estatal mereceria, no entanto,
uma abordagem, devido a seu papel na divisão internacional do trabalho e sua importância
relativa no desenvolvimento capitalista, principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial.
O pequeno trecho que dedicamos a algumas destas questões, especialmente ao caso do
capitalismo estatal, apenas apontam a necessidade de aprofundar o estudo da acumulação
capitalista neste caso, o que ainda está por ser feito, apesar de já existirem alguns estudos,
mesmo que deficientes, sobre isso.
8. Sobre o conceito de formas de regularização, veja: Viana, 1997.

Parte – 2

Capítulo 1
9. Tal afirmação, entretanto, não deve servir para uma interpretação que coloque o
presente trabalho entre as abordagens “relativistas”, pois aqui partimos do materialismo
histórico-dialético utilizado por Karl Marx e alguns de seus seguidores. A abordagem
lukacsiana (Lukács, 1989), segundo a qual o materialismo histórico-dialético só seria aplicável
à sociedade burguesa, não se encontra presente aqui, pois, para nós, ele possui tanto
elementos aplicáveis a todos os modos de produção que existiram na história quanto
elementos aplicáveis somente ao modo de produção capitalista (Viana, 1997).
10. “A forma de que se reveste o sofrimento varia com o tipo de organização do trabalho. O
trabalho repetitivo cria a insatisfação, cujas consequências não se limitam a um desgosto
particular. Ela é de certa forma uma porta de entrada para a doença, e uma encruzilhada que
se abre para as descompensações mentais ou doenças somáticas (...)” (Dejours, 1988, p. 133);
“as autoridades da saúde pública da Alemanha Ocidental já não podem ocultar o fato de que é
crescente a proporção de doenças funcionais entre a população assalariada. O ‘relatório
interno médico’ de 1970 menciona cifras alarmantes: em 63,9 por cento de homens e 71,1 por
cento de mulheres num total de 50 mil empregados (dos quais, porém, apenas 63 por cento
deixaram-se examinar), medidas terapêuticas foram consideradas necessárias. (...)”
(Schneider, 1977, p. 230).
11. “A riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece
como uma ‘imensa coleção de mercadorias’, e a mercadoria individual como sua forma
elementar” (Marx, 1988, p. 45). É preciso notar aqui que Marx fala que “aparece”, ou seja,
remete ao mundo da aparência. De acordo com o método dialético, é preciso superar a
aparência para chegar até a essência. Assim, muitos leitores apressados de Marx passam a
definir o capitalismo como “produção de mercadorias”. No entanto, como demonstraremos a
seguir, a produção capitalista é produção de mercadorias, mas não é aí que reside sua
especificidade. A produção capitalista é uma forma específica de produção de mercadorias,
fundada na extração de mais-valor. Logo, a produção capitalista é, na verdade, produção de
mais-valor, processo de exploração. Definir o capitalismo como produção de mercadorias é
ficar no limite da aparência e não chegar à essência, o que muitos ditos marxistas fazem.
12. “Quando a força de trabalho torna-se mercadoria e os meios de produção capital, a
relação mercantil pode tornar-se a base da sociedade” (Latouche, 1977, p. 99).
13. Podemos dizer que, na perspectiva do proletariado, a luta pela diminuição da extração
de mais-valor é apenas uma etapa na luta mais geral e fundamental, que é abolir a existência
do mais-valor, o que significa abolir as duas classes que tornam esta existência possível – a
burguesia e o proletariado.
14. “O ‘fordismo’ é uma aplicação do sistema Taylor, na fabricação em massa: em 1913,
Henry Ford introduziu a primeira cadeia de montagem, na construção de automóveis, em
Detroit” (Linhart, 1983).
15. “A mais-valia relativa e a absoluta vão, frequentemente, de mãos dadas” (Eaton, 1965,
p. 103).
16. “O sistema toyotista supõe uma intensificação da exploração do trabalho, quer pelo fato
de que os operários atuam simultaneamente com várias máquinas diversificadas, quer através
do sistema de luzes (verde = funcionamento normal; laranja = intensidade máxima, e
vermelha = há problemas, deve-se reter a produção) que possibilitam ao capital intensificar –
sem estrangular – o ritmo produtivo do trabalho”; “o sistema de luzes permite um melhor
controle da direção sobre os operários” e “serve para elevar continuamente a velocidade da
cadeia produtiva” (Antunes, p. 27-28); “Barrier Lynn cita a terrível descrição do ‘inferno
Toyota’, elaborada pelo japonês Satochi. Sob a aparência do consenso voluntário e do
paternalismo patronal protetor, Satochi descreve a coerção permanente a que está submetida
a força de trabalho, o que desencadeia o karoshi ou morte por ‘overdose de trabalho’. Meio
milhar de trabalhadores morre ao ano em consequência das jornadas de trabalho de 15/16
horas, da ausência de férias, das agonizantes viagens de horas ao centros fabris e da
existência diária em habitações minúsculas. Estas condições de vida popularizam o ditado:
‘triturar-se a si mesmo até converter-se em pó’” (Katz, 1995, p. 34).

Parte – 3

Capítulo 1
17. Marcuse chegou a esboçar a compreensão disso sem suas últimas obras, produzidas na
época de crise do regime de acumulação intensivo-extensivo (cf. Marcuse, 1981).
18. O mesmo vale para o eufemismo “mundialização”, utilizado inclusive por muitos
“marxistas”: “Poder-se-ia analisar também em todos os seus detalhes a noção fortemente
polissêmica de ‘mundialização’, que tem como efeito, para não dizer função, submergir no
ecumenismo cultural ou no fatalismo econômico os efeitos do imperialismo e fazer aparecer
uma relação de força transnacional como uma necessidade natural. No termo de uma
reviravolta simbólica baseada na naturalização dos esquemas do pensamento neoliberal, cuja
dominação se impôs nos últimos vinte anos, graças ao trabalho de São Paulo dos think thanks
conservadores e de seus aliados nos campos político e jornalístico, a remodelagem das
relações sociais e das práticas culturais das sociedades avançadas em conformidade com o
padrão norte-americano, apoiado na pauperização do Estado, mercantilização dos bens
públicos e generalização da insegurança social, é aceita atualmente com resignação como o
desfecho obrigatório das evoluções nacionais quando não é celebrada com um entusiasmo
subserviente que faz lembrar estranhamente a ‘febre’ pela América que, há meio século, o
plano Marshall tinha suscitado em uma Europa devastada” (Bourdieu, 2001, p. 19-20).

Capítulo 2
19. No caso, as manifestações artísticas embasadas no marxismo.
20. “Contra o codificado alto modernismo das décadas precedentes, o pós-modernismo dos
anos 60 tentou revitalizar a herança da vanguarda europeia e dar-lhe uma forma norte-
americana ao longo do que pode ser resumidamente chamado de eixo Duchamp-Cage-Warhol”
(Huyssen, 1992, p. 31).
21. Seria difícil citar toda a bibliografia de crítica a Althusser, sob os mais variados pontos
de vista, devido à quantidade, e por isso vamos colocar apenas algumas das mais conhecidas:
Thompson (1981); Vázquez (1980); Silveira (1978).
22. As datas de publicação das obras de Baudrillard são as seguintes:
O período estruturalista-“marxista”: 1968: O Sistema dos Objetos; 1970: A Sociedade de
Consumo; 1972: Para Uma Crítica da Economia Política do Signo.
O período pós-estruturalista: 1973: O Espelho da Produção; 1978: À Sombra das Maiorias
Silenciosas; 1979: Da Sedução; 1981: Simulacros e Simulação; 1988: América, entre diversas
outras neste período.
No caso de Foucault as datas são as seguintes:
Período estruturalista: 1954: Doença Mental e Psicologia; 1961: História da Loucura; 1963:
Nascimento da Clínica; 1966: As Palavras e as Coisas; 1969: Arqueologia do Saber.
Período pós-estruturalista: 1975: Vigiar e Punir; 1976-1984: História da Sexualidade; 1970: A
Vontade de Saber; etc.
Esta periodização serve para notarmos que o estruturalismo, que era moda e verdade absoluta
para muitos, logo foi facilmente trocado por um punhado de intelectuais, por uma nova moda
e nova verdade absoluta (mesmo que seja uma verdade absoluta que faz a pregação da
inexistência de verdade absoluta). Nos anos 1960, temos a hegemonia do estruturalismo; a
partir dos anos 1970 é a vez do “pós-estruturalismo”.
23. Adorno e Horkheimer produziram em coautoria uma das principais obras deste período,
A Dialética do Esclarecimento (1985); neste contexto, as demais obras destes autores
(Horkheimer, 1976) Adorno (1995), se enquadram nessa crítica da sociedade europeia.
Marcuse, por sua vez, produziu uma quantidade maior de obras, apesar de certos avanços e
recuos mais radicais e críticos (Marcuse, 1982; 1986; 1981). Debord lançou sua grande obra,
A Sociedade do Espetáculo (1997), mas a Internacional Situacionista e ele mesmo já haviam
adiantado parte das críticas muito tempo antes, inclusive sendo influenciados por Henri
Lefebvre (1981). O freudo-marxismo, especialmente Erich Fromm (2006; 1976), realiza uma
crítica à sociedade contemporânea, apresentando o predomínio do ter sobre o ser, a
burocratização e mercantilização etc. Sartre, em sua tentativa de unir marxismo e
existencialismo também forneceria elementos para uma crítica da sociedade europeia do pós-
guerra e do pseudomarxismo fossilizado da década de 60 (1967). Daniel Guérin efetivaria a
crítica do leninismo e buscaria um “marxismo libertário”, e simultaneamente recuperar o
anarquismo (Guérin, 1969; Guérin, 2007; Guérin, 1973; Viana, 2008a).
24. Claro que isso não ocorre apenas no que se refere à cultura, pois basta ver os exemplos
anteriores e diversos outros (celular, por exemplo), que mostra essa intensificação do mercado
consumidor, fundamentalmente através da criação de necessidades fabricadas e intensificação
do consumo por indivíduo.

Capítulo 3
25. Sobre as teses da crise do marxismo, veja: Viana (2007b).

Capítulo 4
26. Utilizaremos a expressão negrismo para qualificar as teses de Negri e seus
colaboradores, tendo em vista que elas formam uma ideologia, uma falsa consciência
sistematizada, que ainda não tinha sido “batizada” e porque se distingue do autonomismo
italiano dos anos 60-70 do século passado (o “obreirismo”), formando uma nova concepção
que, portanto, merece novo nome.
27. O texto citado, Trabalho Imaterial e Subjetividade, é de 1991, e o texto onde se coloca
explicitamente a necessidade de “ampliar” o termo “trabalho vivo”, O Trabalho: Um Novo
Debate para Velhas Alternativas, contida na mesma coletânea que citamos anteriormente
(Lazzarato & Negri, 2001), é posterior.
28. “A noção de trabalho imaterial – como figura subjetiva, social, cooperativa, difusa e
pública do trabalho intelectual – pretende levar em conta o novo valor de uso das forças de
trabalho na forma geral da atividade de todo sujeito da sociedade pós-industrial” (Cocco,
1996, p. 19).
29. A parte citada e resumida por Negri e Lazzarato tem versão portuguesa (Marx, 1980).
30. “O que entendemos por relações econômicas – que consideramos como a base
determinante da história da sociedade – é o modo pelo qual os homens de uma dada sociedade
produzem seus meios de subsistência e trocam os produtos (na medida em que exista divisão
social do trabalho)” (Engels, 1987, p. 53)
31. “Segundo dados do Banco Mundial de 1997, existem hoje 2. 806 bilhões de
trabalhadores assalariados, dos quais 550 milhões trabalham na indústria e 850 milhões nos
serviços” (Castillo, 2001). Deve-se acrescentar a estes trabalhadores da indústria, outros
setores, como os trabalhadores da construção civil, para se ter uma ideia mais exata do total
de operários no mundo.
32. Sem dúvida, uma pesquisa mais aprofundada dos textos de Marx se faz necessária para
ter uma posição definitiva sobre a existência de ambiguidade ou não. De qualquer forma,
nossa análise nada tem a ver com os pensadores que consideram que a obra de Marx é, em
geral, marcada por “ambiguidades”, que são apenas expressões de leituras imprecisas e
confusas, tal como o faz João Bernardo (2003).
33. Isto é o que faz Paula Bach: “creio que Negri, ao abandonar expressamente a dialética,
expressão das leis do movimento, acaba outorgando a seu valor um caráter ideal de que não
pode ser preenchido de conteúdo para explicar a realidade” (Bach, 2001, p. 02). Aqui apenas
se troca uma concepção metafísica por outra.
34. Marx trabalha com a ideia de abstração em dois sentidos: a abstração metafísica (tal
como se vê em sua afirmação de que “a população é uma abstração se não for percebida que é
composta por classes sociais etc.” – em como a “multidão” de Negri), embora não tenha
utilizado esta expressão, e a da abstração dialética, que capta a determinação fundamental do
fenômeno e por isso diz que a análise da sociedade é realizada utilizando o “método da
abstração” ou a “faculdade de abstrair” (cf. Viana, 1997; Viana, 1998).
35. “Esta substituição estaria marcada, ao mesmo tempo, por uma intelectualização dos
novos ofícios informacionais: o saber abstrato da ‘ciência’ e dos cientistas substituiria a
experiência dos saberes-fazeres produtivos” (Lojkine, 1995, p. 239).
36. A catexia é um conceito psicanalítico que expressa os investimentos (libidinais) de um
indivíduo. Utilizamos esse conceito retirando-lhe o caráter puramente sexual. Assim, catexia é
o conjunto de “investimentos” (valores, sentimentos, projetos etc.) de um indivíduo.
37. O grande problema desse texto encontra-se em sua capitulação diante dos construtos
da “moda”, tal como subjetividade e flexibilidade. O que Renato Vieira chama de
“subjetividade” é semelhante ao que denominamos catexia.
38. “O debate italiano definiu de maneira rica a ‘fenomenologia’ e a ‘ontologia’ do pós-
fordismo” (Lazzarato, 2001c, p. 106).

Parte – 4

Capítulo 1
39. Sobre construto e falso conceito, Cf. Viana (1997).
40. Tal crítica também foi endereçada à chamada “teoria da marginalidade” (em suas
diversas versões), que também teria uma visão dualista da sociedade (cf. Berlinck, 1975).
Consideramos que tais críticas se aplicam também à concepção de exclusão social, tendo em
vista suas características semelhantes.
41. O ex-governador do Distrito Federal e economista Cristovam Buarque também cai em
equívocos semelhantes. Ele utiliza a expressão “apartação” ou “apartheid social” para tratar
dos “excluídos”, que, segundo ele, estão próximos de ficar na mesma situação dos negros sul-
africanos durante o regime do apartheid: segregados e separados (Buarque, 1998). Aqui, além
de problemas semelhantes, vemos uma exasperação do problema, que mostra uma de suas
fontes: o medo dos “incluídos” (principalmente por parte das classes auxiliares da burguesia)
em relação aos excluídos.

Capítulo 2
42. Preferimos utilizar a expressão capital comunicacional ao invés de “indústria cultural”,
termo criado por Adorno e Horkheimer (1986), por ser mais adequado a uma teoria do
capitalismo e para a compreensão da realidade moderna. Sobre o conceito de capital
comunicacional e sua vantagem em relação ao construto de “indústria cultural”, cf. Viana
(2007c).
43. Estas novas ideologias se somam com as que defendem que serão a escola e a educação
que irão promover a “transformação social” (ideologia que consegue adeptos até na dita
“esquerda”, sem fazer nenhuma consideração crítica sobre qual escola e educação é fornecida
para a população). Elas defendem teses como as da proeminência da “sociedade do
conhecimento”, “informacional”, que o que gera riqueza é o “trabalho imaterial”, que a lógica
do capitalismo contemporâneo expressa a dominância da instância cultural, entre outras.
44. A generalização do uso da TV a cabo, DVDs, CDs etc., expressa o que alguns chamam
de “democratização”. Porém, é preciso perceber que esta democratização é para quem
compra e tem poder aquisitivo para fazê-lo. Os velhos filmes do cinema mudo agora podem ser
comprados em DVD e assistidos em casa, bem como uma diversidade de filmes de todas as
épocas; o telespectador, através da TV a cabo, passa a ter um leque muito maior para
selecionar o seu programa ou filme; as músicas agora podem ser compradas em suportes
materiais mais duráveis, tal como o CD e assim por diante. Antes, somente uma elite poderia
assistir aos filmes mudos ou ouvir certas músicas. Porém, esta democratização é limitada e
atinge uma parte da população, a que tem poder aquisitivo, que tem capacidade de aumentar
o consumo – mesmo se endividando – e assim integrar o circuito da reprodução ampliada do
mercado consumidor. Certamente, certas obras se tornaram acessíveis, mas também se
tornaram mercadorias. Enquanto mercadoria possui valor de uso e valor de troca. O valor de
uso muitas vezes inexiste para muitos consumidores. Na maioria dos casos, eles compram
devido à propaganda, ao status que a mercadoria pode fornecer, mas não para um uso e,
principalmente, um uso fundado na reflexão e que contribui com o desenvolvimento do
indivíduo, mesmo a obra tendo esta potencialidade. O valor de uso é deturpado e assim resta o
valor de troca e a função desta é dar prosseguimento ao processo permanente de acumulação
capitalista, a reprodução ampliada do capital, das mercadorias e do consumo de mercadorias,
que leva a destruição ampliada do meio ambiente.
45. Não somente o nome é impróprio, como cria um amálgama entre diversas correntes e
tendências, entre as quais a que se coloca como anticapitalista e outras reformistas. Assim
como “globalização” significa uma homogeneização de algo heterogêneo, a antiglobalização
também o é. Mantemos esta terminologia no presente texto até ocorrer uma elaboração mais
adequada, mas com a ressalva de seu caráter problemático.
46. Esta forma de auto-organização será aperfeiçoada e reaparecerá com a crise do regime
de acumulação intensivo e o aparecimento dos conselhos operários na Rússia (1905-1917), na
Itália (1919-1920), na Hungria (1919), na Alemanha (1915-1919-1921-1923), na Guerra Civil
Espanhola (1936-1939), e em diversas outras oportunidades. No início do século XX, um
período de acirramento da luta de classes, o surgimento dos conselhos operários e de bairros
foi diversificado, em vários países. Durante o capitalismo oligopolista transnacional o
surgimento de conselhos diminuiu bastante. Apesar disso, a formação de conselhos operários
e de bairros passou a acontecer em algumas ocasiões, como na década de 60, em diversos
países, início da década de 70 e na década de 80, na Polônia, em oposição ao capitalismo de
estado polonês (dito “socialismo real”). No Brasil, surgiram comissões de fábrica nos anos 60
e durante as greves de 1978. Assim como coloca Wright: “O suporte do movimento, a
insistência dos comunistas conselhistas na auto-organização dos trabalhadores como o
coração da política de classe não perdeu de nenhuma forma a sua pertinência. Enquanto isso,
os conselhos operários revolucionários continuam aparecendo nos momentos de intenso
conflito social, nos últimos setenta anos: da Hungria ao Chile, da Polônia ao Irã. O mais
recente exemplo ocorreu a quatro anos atrás, durante a rebelião em 1991 no Kurdistão; e não
será o último” (Wright, 2001).
47. Obviamente, o refluxo do movimento operário argentino gerou um processo de
burocratização e derrota desta experiência de luta (Ferreiro, 2007).
48. O movimento zapatista acabou exercendo uma forte influência no interior do chamado
“movimento antiglobalização” e em outros casos e movimentos, até mesmo anarquistas. Isto
se deve à sua luta, à efervescência política, a necessidade de adesão a modelos e exemplos por
parte da maioria dos militantes políticos, bem como ao uso da internet pelos zapatistas: “a
circulação de informações sobre o conflito em Chiapas e o movimento zapatista em escala
mundial, através da internet e das redes de comunicação alternativas que foram sendo tecidas
no espaço virtual, tornou-se um dos mais bem-sucedidos exemplos do uso das
telecomunicações via computador por movimentos sociais desde a popularização desta
tecnologia” (Ortiz, 2006, p. 48).