Você está na página 1de 21

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

UNICAMP

Relatório Final de Iniciação Científica PIBIC/CNPq


Quota 2012– 2013

A construção do movimento - A educação somática


como ferramenta potencializadora da organização
corporal da infância à vida adulta.

Orientanda: Emiliana Wenceslau Almeida


Registro Acadêmico: 070723
Orientadora: Profa. Dra. Julia Ziviani Vitiello
Departamento de Artes Corporais
Instituto de Artes
Campinas, Agosto de 2013.

I. Introdução

O que é que pode ser a arte da dança senão um amálgama de memórias,


sensações, percepções e imagens? O artista vive o que cria, ou viveu o que ainda virá a
criar. A dança é um movimento de vida. Os intérpretes carregam no corpo sua história,
sua relação com o mundo e é isto que, entre um gesto e outro, se revela no palco.
Nosso corpo “rememora suas origens e se refina” (BEZIÉRS e PIRET, 1992, pg.
8) a cada ação corporal. Estamos, continuamente, construindo a integração da
percepção, do pensamento, da lembrança, da sensibilidade, da motivação com o
movimento. Todos fazemos os mesmos gestos, mas cada um o faz a sua maneira, pois
essa integração entre os processos corpóreos e psíquicos é singular a cada um. E a dança
os desvela.
A construção do movimento em sua completude, desde os primórdios de nossa
existência até o último piscar de olhos do momento presente é o lugar de onde parte essa
pesquisa. Esta compreensão se dá por meio dos trabalhos de Beziérs, Piret e Hunsinger¹,
que nos apresenta o percurso do movimento em sua psicomotricidade, “desde sua
previsão genética, por assim dizer, até sua efetivação na relação com o objeto, o espaço
e com os outros seres, e sempre em colaboração com os outros sentidos, cujo resultado
final é a forma do corpo” (BEZIÉRS e PIRET, 1992, pg. 7).
Sobre a estrutura musculoesquelético, a Ideokinesis nos permite trazer uma
compreensão sensível da organização corporal que lança possibilidades ao
desenvolvimento desta em criação de movimento. Dançar a partir dos pensamentos que
fundamentam esse método nos faz não só executar conscientemente um gesto, mas sim
senti-lo, vivê-lo. As Nove Linhas de Movimento (SWEIGARD, 1994) são mais que
uma ferramenta para dispor ossos sobre ossos, sobretudo uma porta para adentrar
sensações e memórias guardadas tão profundamente em nós mesmos, quase perdidas ou
esquecidas, que só as linhas imaginárias poderiam penetrar para resgatar ao processo
criativo.
Partindo de uma experiência anatômica e fisiológica, o Body-Mind Centering®
(BMC®) trabalha os Padrões de Desenvolvimento do Movimento que são a base de
todas as formas de expressão do corpo. Em consonância com a Ideokinesis, este método
auto-investigativo é também um meio para perceber os padrões de movimento físico,
emocional e mental recorrentes. Isso possibilita ampliar o repertório corporal, pois o
reconhecimento de nossos próprios padrões e as possibilidades de atuar sobre eles
expande a intrínseca relação entre arte e vida. Fundamentando-se no princípio de que
tudo o que somos está enraizado em nossa anatomia e na história do nosso
desenvolvimento motor, cada expressão da mente registra-se no corpo, e reciprocamente
essa dinâmica é captada através do movimento (COHEN, 2006).
Dessa intersecção de pensamentos semelhantes, surge na pesquisa uma projeção
de comunicar as “Unidades de Coordenação Motora” com as “Linhas de Movimento”
através de uma sobreposição de desenhos anatômicos. Sobretudo, o trabalho de
observação do bebê paralelo à reflexão obtida com as aulas de técnica do curso de
graduação em Dança da Unicamp, nos proporcionou valiosos resultados qualitativos
quanto à suposição de correlacionar o desenvolvimento motor com a estruturação do
corpo para a dança. Apoiados na anatomia, começamos a abrir caminho para novas
possibilidades de mover-se e atentar-se à escuta cuidadosa de como se mover.
Pretendemos com isso, não só tratar desses métodos como possibilidades para
reeducação do movimento e da postura ou ampliar as habilidades técnicas, mas sim criar
pontes entre a organização corporal e a criação em dança, a consciência do movimento e
a potência de sua expressão em cena.
II. A Coordenação Motora - O infinito como forma de organização
corporal

Nós nos formamos em movimento. Ainda na vida intra-uterina o corpo humano


ganha forma e sentido através dos movimentos reflexos realizados ali. É ao longo do
movimento que o feto e o neonatal reúne informações, busca alimento e encontra
proteção, pois os reflexos primitivos são o primeiro meio para realizar essas ações. A
fase motora reflexiva inicia-se na gestação e se estende até o quarto mês de vida do
bebê, esse estágio sensório-motor é caracterizado como codificador de informações, já
que a apreensão do ambiente imediato acontece através dos reflexos. Esses movimentos
são reações musculares controlados pela área subcortical do cérebro, por isso é uma
atividade motora involuntária e sua intensidade e duração estará diretamente relacionada
com os estímulos sensoriais recebidos. O segundo momento do desenvolvimento inicia-
se a partir do quarto mês de vida com o estágio de decodificação (processamento) de
informações da fase reflexiva, nesse processo de maturidade neurológica há
gradualmente a inibição de reflexos à medida que novas habilidades são adquiridas. Isso
implica diretamente com o desenvolvimento da percepção sensorial e cognitiva, pois há
a evolução do controle voluntário dos movimentos esqueletais do bebê que envolve o
processamento dos estímulos sensoriais com as informações já armazenadas, não se
trata mais de reações. O período de decodificação substitui as atividades sensório-
motoras por habilidades motoras perceptivas (GALLAHUE, OZMUN, 2005). Desta
forma, os reflexos são as primeiras formas de movimento humano, eles formam toda a
base para o desenvolvimento motor subsequente: expressões e gestos precisos,
movimentos altamente complexos sempre construídos pela intrínseca relação entre as
faculdades psicofísicas e o ambiente habitado.
É no decorrer da primeira infância, que se cria os hábitos de postura e se aprende
os movimentos que se estabelecem, permanentemente no cérebro e na musculatura, em
forma de modelos neuromusculares compondo, desta forma, os padrões de postura e
movimento. São estes modelos que proporcionam força muscular necessária para
organizar, equilibrar e mover o esqueleto. Isso caracteriza a individualidade de cada ser
humano. Beziérs e Hunsinger¹ (1992), afirmam que na criança tudo acontece
simultaneamente, “[...] através dos movimentos, ela percebe as diferentes sensações:
motoras, orgânicas, sensoriais, afetivas etc. Desse modo, quando tiver percebido o
movimento como um todo, e quando for capaz de reproduzi-lo voluntariamente, a
criança reviverá as sensações que experimentou e que percebeu anteriormente” (pg. 10).

Os primeiros movimentos são reflexos. Observamos porém que eles se


propagam através de músculos definidos, que se encadeiam para descrever
um movimento preciso. Esse movimento produz uma sensação muscular e
articular, e imprime tensões à pele que fazem parte do conjunto da sensação.
A reunião de todas as sensações provocadas pelo movimento reflexo constitui
a estrutura fundamental do movimento; é o que chamamos de ‘coordenação
motora e psicomotora (BEZIÉRS; PIRET, 1992, p. 10).

Aprender a mover-se é um processo permanente que envolve o ser humano


desde sua formação até a idade avançada. O aparelho locomotor não só é responsável
pelo nosso deslocamento, mas, também, através dele que apreendemos sensações e
percepções. O corpo é o nosso canal de comunicação com o mundo e, reciprocamente, a
maneira como nos relacionamos com o ambiente é que dá a nossa forma corporal.
Continuamente, a existência do movimento depende da qualidade com que nos
relacionamos com o exterior: o ar, a variedade de temperatura e textura, a forma e o
______
¹Marie-Madeleine Beziérs, Suzanne Piret e Iva Hunsinger desenvolveram fundamentos sobre a estrutura e
organização do movimento humano. Esses princípios constituem o Método Coordenação Motora.

realização, assim perdemos a percepção do seu desenvolvimento e dos fatores que


espaço ocupado pelos objetos e pelos outros seres humanos. Não raro, após
experimentar e integrar o movimento ao nosso uso comum automatizamos sua o
modificam constantemente (BEZIÉRS; PIRET, 1992). Da mesma forma, o nosso
“desenho anatômico” (BEZIÉRS e PIRET, 1992, pg. 7) é definido pela insistência nos
movimentos fundamentais (como a preensão humana e o andar), essa busca nos mantém
vivos às percepções e sensações de nós próprios e de como nos relacionamos com o
ambiente.
Imerso nessa tentativa de aguçar sua postura perante o mundo e a si mesmo, o
artista da dança na contemporaneidade se coloca numa posição investigativa para ativar
e refinar seus canais perceptivos no intuito de ampliar a sua capacidade de criar, realizar
e interpretar o movimento. Nesse sentido, a Coordenação Motora é um método que
trabalha sobre “a importância fundamental da estrutura do movimento” (BEZIÉRS e
PIRET, 1992, p. 11) e possibilitou-nos fazer uma importante conexão entre o dançarino e o
desenvolvimento psicomotor dos bebês. Partindo primeiramente do movimento, levantou-se os
princípios básicos desse método para entender como a organização corporal dos bebês
influencia no adulto e como esses princípios são abordados na aula de técnica em dança.

II.I Princípios Básicos

A Coordenação Motora propõe à estruturação do corpo e da personalidade quatro


organizações essenciais: enrolamento, endireitamento, torção e tensão. Estes elementos
permitem que o indivíduo se organize em uma unidade estruturada e se apoie para
avançar em direção ao mundo.
Para o recém-nascido o enrolamento é fundamental, pois é uma posição onde ele
experimenta sua corporeidade como uma “unidade estável e equilibrada” (BEZIÉRS e
HUNSINGER, 1992, pg. 17), isto promove sensações de bem-estar o que dá segurança
a ele. O enrolamento permite que o bebê se reagrupe sobre si mesmo, já que estando em
enrolamento os diferentes grupos musculares estão colocados em situação favorável à
coordenação motora. É a partir dessa posição que acontecerá “o desenvolvimento
psicomotor da criança, e que a levará progressivamente à autonomia e à conquista do
mundo exterior” (BEZIÉRS e da parte posterior do tronco (os
HUNSINGER, 1992, pg. 17). O músculos “extensores” das costas) se
enrolamento ou posição de bem-estar é
a postura onde a cabeça e a bacia
aproximam-se uma na direção da outra,
por meio do trabalho dos músculos
flexores da parte anterior do tronco
(músculos do pescoço, do abdômen, do
períneo). É a partir do enrolamento do
tronco que a criança irá se organizar, de
forma eficiente, para realizar o
endireitamento que é necessário às
sucessivas ações de sentar, ficar em pé e
andar. No endireitamento, os músculos
Figura 1: Enrolamento-Endireitamento

apoiam nos músculos do enrolamento para endireitar o tronco.


O enrolamento-endireitamento constitui o movimento de base, pois é uma
organização anterior à postura ereta perfeita, uma vez que é a partir dele que começa o
processo de “tensionamento” (encadeamento dos músculos da coordenação) para ficar
em pé. A qualidade da posição vertical depende diretamente da boa qualidade do
“enrolamento-endireitamento”. A organização corporal que descreve essa boa
qualidade, ou seja, o bebê bem coordenado é aquele que mantém os ombros baixos, a
cabeça liberada e bem colocada no prolongamento do tronco, mostrando-se estável
nesse processo da posição horizontal (deitado) à posição vertical (em pé), isso porque
ele encadeou todos os músculos da coordenação. A posição inversa ao enrolamento é a
posição “em extensão”, onde a cabeça e o tronco estão arqueados para trás e os
músculos extensores contraídos. Nos membros há também o enrolamento no
movimento de flexão das articulações.
A torção é a rotação, o movimento característico das unidades de coordenação
motora. Ela gera uma oposição no âmbito das articulações que resulta na ação de
flexão-extensão o que permite aos eixos ósseos se dobrarem e se estenderem, no tronco
é a oposição do tórax com a bacia.
Tensão é o encadeamento dos músculos da coordenação motora. O estado de
tensão é construído a partir da tríade: tônus muscular, organização dos músculos
monoarticulares e pluriarticulares formando o antagonismo e organização de todos os
músculos entre si, formando a coordenação motora.
Assim, enrolamento-torção-tensão, formam a base para todo o princípio dessa
organização corporal. “Pelas ações musculares e disposições do esqueleto nossos corpos
são formados por tensões que resultam em torções (gera a flexão), isso dá ao membro
sua estrutura e forma” (BEZIÉRS e PIRET, 1992, p. 21).
Nessa arquitetura musculoesquelética temos as Unidades de Coordenação
Motora que formam o estado de tensão, elas são “um conjunto formado por dois
elementos em rotação que se colocam sob tensão ao opor o sentido de suas rotações por
meio de músculos condutores, graças a um dispositivo intermediário de flexão-extensão
(...), cada unidade de coordenação se relaciona com uma unidade de coordenação
vizinha por encaixe dos elementos esféricos.” (BEZIÉRS e PIRET, 1992, p. 21). As
Unidades de Coordenação são subdivididas em Unidades Transicionais, encontradas nas
articulações dos membros, seu movimento característico é o de zigue-zague e Unidades
de Enrolamento, característica do tronco onde as abóbodas da bacia e da cabeça se
aproximam com a flexão da coluna vertebral, esse conjunto forma a organização
mecânica do corpo. Scanear imagens livro pg 23 pg 42

Dessa forma, Beziérs e Piret enunciam o princípio da Coordenação Motora:

A organização mecânica do corpo, fundada no antagonismo muscular,


é construída com base no principio de elementos esféricos tensionados pelos
músculos condutores que, da cabeça à mão e ao pé, unem todo o corpo em
uma tensão que rege sua forma e seu movimento, construindo a coordenação
motora (1992, p. 22).

Assim, temos a organização


corporal em forma de infinito. Cada
articulação é um ponto que sofre tensão e
gera flexão. E o tronco, que é a unidade
complexa e tem por centro um eixo
mediano e lateralizado, é o ponto de
reunião de todas as outras unidades de
coordenação, e também o centro de
contato das unidades homólogas
determinando, portanto, o eixo corporal.

Figura 4 - Reunião das unidades de coordenação

Ao que importa para esse estudo, a coordenação motora nos alimenta com
princípios supracitados. Esses elementos foram essenciais para o entendimento da
organização musculoesquelética, do desencadeamento do movimento e o percurso
realizado, assim como a relevância de alguns movimentos para a construção de base
anterior ao mover-se no espaço. Trarei adiante esse recorte junto aos aspectos
psicomotores na correlação entre os métodos, as observações realizadas com o bebê e as
reflexões sobre o aprendizado da técnica em dança.

III. Ideokinesis - A organização corporal em linhas


Movimento é um fenômeno neuro-músculo-esquelético. O responsável por
iniciar, regular e monitorar cada pequeno movimento é o sistema nervoso que
estabelece e organiza os padrões de movimento segundo a ideia (sensação, percepção)
que temos do próprio movimento. Esse trânsito neuromuscular é a área de atuação da
Ideokinesis, um método que trabalha com o alinhamento postural e com o movimento
corporal reeducando os padrões instaurados.
Essa palavra de origem grega, Ideo (ideia) e kinesis (movimento), pode ser
expressa como: a imagem ou o pensamento como facilitador do movimento. Mabel
Elsworth Todd percebeu o poder que a mente pode exercer para estimular mudanças no
corpo, e com isso desenvolveu um pensamento diferenciado das tradicionais linhas de
educação do movimento. A partir de suas experiências com a educação postural, ela
criou um método que concilia pensamento, percepção e imaginação junto à ação
corporal.
A Ideokinesis emprega o uso de imagens para atingir
os padrões musculares, já que mudanças corporais realizadas
a nível externo, sob a forma do corpo, não são integradas
como parte do indivíduo, uma vez que elas não alteram os
comandos neuromusculares, responsáveis pela coordenação
do movimento. Para realizar eficientemente essas mudanças
temos que trabalhar remodelando esses padrões musculares e
a ideokinesis nos permite atingir esses refinados canais de
condução muscular, pois a visualização do movimento apenas com
a mente sem nenhuma sensação perceptível de esforço reorganiza
esses comandos e é agregada à memória (TODD, 1937).
Nosso estudo faz um recorte nos princípios da educação
psicofisiológica e neuromuscular de Todd e de sua discípula Lulu
Sweigard para a organização do corpo em movimento.
Apropriamos-nos da relação entre o pensamento e o movimento e
das Nove Linhas de Movimento.

III.I As Nove Linhas de Movimento e a Imagem


Em suas pesquisas de equilíbrio mecânico e alinhamento postural Lulu Sweigard
designou nove áreas do esqueleto, onde a localização e alinhamento repercutem na
estrutura como um todo. A partir dessa investigação, ela desenvolveu as Nove Linhas de
Movimento (SWEIGARD, 1994), são elas:

1. linha traçada do final da espinha em direção ao chão;


2. linha traçada do ponto entre as cristas ilíacas na pélvis
e a décima segunda vértebra torácica;
3. linha traçada do topo do esterno ao topo à 1ª vértebra cervical.
4. linha que aproxima e desce as costelas na frente do torso;
5. linha atrás da pélvis, entre sacro e cristas ilíacas, que passa alargando no sentido
horizontal;
6. linha que aproxima as cristas ilíacas em direção ao centro;
7. linha entre o centro do joelho ao centro da articulação do fêmur;
8. linha entre o hálux e o calcâneo;
9. linha que projeta o eixo central do torso para cima.

Figura 5 - As Nove Linhas Movimento


A organização do aparelho locomotor acontece de forma dinâmica através da
imaginação das linhas, elas possuem ação, localização e direção determinadas no
percurso que corre o esqueleto. Para o exercício de visualização dessas linhas, iniciamos
a partir de uma posição denominada “repouso
(ou descanso) construtivo”, CRP (Construtive
Rest Position), onde a pessoa deita em
decúbito dorsal, flexiona os quadris e os
joelhos e os pés ficam bem apoiados no solo
em posição paralela. Nessa posição cedemos à
força da gravidade, pois nenhum esforço de Figura 6 - Repouso Construtivo
natureza muscular é produzido para contrapor essa força. De acordo com Sweigard
(1974), em razão da estrutura esquelética e de seus ligamentos essa é a única posição do
corpo que distribui o seu peso em tão estreita conformidade com os princípios de
equilíbrio mecânico (SWEIGARD, 1974).
A metodologia ideokinética utiliza-se de imagens para reestabelecer os padrões
de movimento. Elas são trabalhadas a fim de alcançar o alinhamento postural por meio
do equilíbrio mecânico do corpo, ou seja, reprogramamos nossos padrões para descartar
forças desnecessárias à realização da postura ou do movimento. Assim, as indesejadas
tensões musculares que causam desconforto, lesão ou dificuldade na execução do
movimento são dissolvidas em função de uma padronização eficiente (solicitação
exclusiva da musculatura necessária). Consideram-se formas de imagem: pensamento,
desejo, atitude, intuição e intenção. A imagem deve ser diferente, trazer forte impressão
e ser interessante para que funcione. Ela deve estar relacionada e localizada no
esqueleto, sendo abstrata e não anatômica.
Através dos “olhos da mente” (TODD, 1937), que nos permite visualizar a nós
mesmos, tomamos consciência das nossas estruturas físico-emocionais e dos caminhos
para atingir esse equilíbrio de forças internas (músculos) e externas (forças universais,
como a gravidade), desta forma, a vivência no processo ideokinético, promove um alto
grau de habilidade e inteligência corporal, além do refinamento técnico e do estado de
alerta corporal que previne contra lesões. O indivíduo praticante alcança maior
liberdade de criação através da tomada de consciência do corpo, dos caminhos do
movimento e do espaço circundante (TODD, 1937).
Através da graduação em Dança na Universidade Estadual de Campinas, pude
entrar em contato com essa disciplina somática por meio das aulas de técnica da profª.
Drª Julia Zivini Vitiello, entretanto, no decorrer da pesquisa senti necessidade de
aprofundar o conhecimento teórico vivenciando a organização corporal proposta pela
Ideokinesis, por isso participei da disciplina AC101 - A - Laboratório de Criação,
ministrada para a pós-graduação do Instituto de Artes, Unicamp, sob a direção da profª.
Drª Julia Zivini Vitiello, orientadora desta pesquisa, com a colaboração das profª s. Drªs
Lygia Arcuri Eluf e Marisa Lambert. O objetivo do Laboratório foi o entrelaçamento
entre a prática e a teoria. Com isso, foi nos apresentado a Técnica da Ideokinesis a partir
da tríade: técnica, poética e processos específicos para a criação em dança. Como
suporte à organização corporal e ao procedimento criativo foi utilizado a imagem e
através dela vivemos novas possibilidades de realizar os movimentos com
espontaneidade e qualidade. A disciplina aconteceu no período de 09 de novembro à 01
de dezembro de 2012, o estudo experimental foi essencial para o entendimento pleno
deste método, além disso foi possível cruzar a organização das “Nove Linhas de
Movimento” com a da Coordenação Motora.
O tocante desse método para a presente pesquisa é que cada indivíduo irá utilizá-
lo de acordo com seu conhecimento, objetivo e história corporal, é uma prática
construtiva, não rígida, que age respeitando a singularidade de cada ser. Reeducando os
padrões de movimento deficientes, a Ideokinesis permite desenvolver um trabalho
consistente em direção à sensibilidade, organização e autonomia corporal. Todas essas
habilidades, expandidas a partir do campo imagético, são uma importante ferramenta
para a qualidade expressiva do intérprete na contemporaneidade, seja pela precisão
técnica e qualidade de movimentação ou pela autenticidade e diversidade criativa.

IV. Body-Mind Centering® - Os padrões de desenvolvimento

O corpo humano é constituído por sistemas, cada um deles possui sua específica
função, qualidade expressiva e consciência. Toda e qualquer mudança que venha a
acontecer, seja à nível celular ou por repadronização de movimento, é medida e
registrada através dos nervos cerebrais. Quando o sistema nervoso registra as novas
sensações do movimento, ele disponibiliza uma nova forma de ação, um novo
significado de expressão através da experiência criada por aquela atividade (VELLOSO,
2006).
A percepção, o movimento e a organização das funções do corpo são
coordenados pela sofisticação do sistema nervoso e que este registra todas as
novas sensações e direciona as respostas baseadas na ‘memória’ e na
percepção das experiências passadas, o que leva a uma conexão particular
com o aparato sensório-motor e à possibilidade de podermos rever nosso
mapa sensório a cada vivencia corporal (VELLOSO, 2006, p. 4).
Considerado como o sistema de comunicação e transformação do corpo humano, o
sistema nervoso é um dos principais envolvidos no processo de padronizar e
repadronizar os movimentos. Largamente estudado pelo BMC®, esse sistema assim
como nosso esqueleto, músculos, fáscia, ligamentos, órgãos, glândulas endócrinas,
gordura, fluidos, pele e respiração são integrados psicofisicamente aos nossos sentidos e
percepção. Partindo de uma jornada experiencial através do corpo humano, o Body-
Mind Centering® atua no desenvolvimento de uma consciência que permite acessarmos
esses sistemas corpóreos. Essa abordagem de educação do movimento desenvolvida
pela norte-americana Bonnie Bainbridge Cohen acredita que “nosso corpo se move
como nossa mente se move” (COHEN, 2006, pg. 11) e que as qualidades de qualquer
movimento são as manifestações de como a mente é expressa através do corpo que está
em movimento. Respeitando a importância de cada sistema, sem hierarquizá-los, Cohen
defende que “cada sistema corporal expressa uma qualidade diferente de movimento e
estimula uma mudança identificável na sensação, na percepção, e no estado de
consciência” (HARTLEY, 2000, p. 33 apud VELLOSO, 2006, p.1).
Em entrevista, Adriana Almeida Pees² relata o método segundo sua trajetória na
dança que conta com diferentes códigos corporais, muitas companhias profissionais de
renome e a experiência em alguns métodos de educação somática, entretanto, para ela
nenhum ressoou tão profundamente em seu corpo quanto o Body-Mind Centering®. Ela
me conta que através do BMC® ela pôde experienciar a anatomia e a fisiologia dos
diferentes sistemas corporais. No método você entra em contato com a sua própria
maneira e reorganiza os movimentos percebendo a distinção que cada um desses
sistemas possui em seu estado mental e na sua qualidade de mover. No processo de
repadronização você passa a dar mais atenção ao apoio que a anatomia e a fisiologia
oferecem para o mover, não é só a forma e a técnica, para além disso, é observar de
maneira um pouco mais cuidadosa o que o corpo precisa. Não se trata só de
repadronizar movimentos, a mudança é global, do meu ser e das formas de ser, estar e
atuar no mundo. Não só produzindo e organizando movimento, acima disso refinando
sua escuta sobre como o corpo quer se expressar. A repadronização é um processo
contínuo de aprofundar as descobertas da maneira de ser e se mover segundo os
diversos sistemas.

A possibilidade de vivenciar de uma outra maneira determinadas


situações que aparentemente se repetem é uma capacidade da espécie
humana. E dependendo da disponibilidade do indivíduo a reconfiguração do
mapa de percepções pode estar sendo refeita (VELLOSO, 2006, p. 5).

Dentro desse processo, vem à tona diversos padrões que você fica repetindo
sempre e outros que não fazem parte do seu vocabulário ou que você nunca se moveu
daquela forma. Repadronizar é essa potencialidade de se modificar e abrir portas para
novas escolhas de movimento, movimentos mais eficientes, mais integrados com a
história do seu corpo, com a sua escuta interna, com a expressividade para que o próprio
____
² Adriana Almeida Pees é Body-Mind Centering® Practitioner e Infant Developmental Movement
Educator da School for Body-Mind Centering em Amherst, Massachusetts e Berkeley, California, é
ISMETA-Registered Movement Therapist e Movement Educator na International Somatic Movement
Education & Therapy Association, e terapeuta Crânio-Sacral. Atualmente é professora assistente na
School for Body-mind Centering (Europa) e está participando da formação como certified teacher for
Body-Mind Centering®. Adriana cedeu no dia 23 de junho de 2013 uma entrevista (com duração de 60
minutos) para essa iniciação científica, nossa conversa aconteceu via skype, pois Adriana atualmente
reside na Alemanha. Para este relatório resumimos a entrevista transcrevendo os pontos mais relevantes
para o presente estudo.
corpo possa se reorganizar melhor no espaço. A repadronização acontece em diversas
situações e em vários sistemas corporais. E isto é de acordo com cada indivíduo, o que é
reorganizar de acordo com sua história, o seu momento, o meio ambiente, tudo isso.
Então, repadronizar não é algo que se estabelece e já modificou é um processo contínuo
de estar se escutando, modificando. É um processo dolorido, nem sempre é só gostoso,
são partes emocionais e físicas que vem à tona, mas é muito peculiar e poderosa essa
possibilidade de estar no mundo aberto às novas maneiras de atuar.
Sobre a Educação do Desenvolvimento do Movimento Infantil, Adriana conta
que foi um grande marco para ela o curso, não só pela intensidade do processo, mas
também pela análise profunda de como se dão essas etapas evolutivas do
desenvolvimento motor e o quanto isso influencia todo nosso espectro de qualidades de
movimento. O trabalho com os bebês propicia uma compreensão integral do processo
de padronização do movimento, isso possibilita entender mais profundamente o outro e
gera uma instrumentalização para trabalhar com o corpo do outro, ajudar seja o
bailarino, o ator, ou o indivíduo interessado nessa experiencia. É um processo onde eu
entendo mais o meu corpo, o corpo do outro e o como mover (Adriana Almeida Pees,
em entrevista, 23/06/2013).

IV.I Os Padrões Neurológicos Básicos

Uma das grandes contribuições de Cohen para o estudo do corpo são os Padrões
Neurológicos Básicos, seus componentes são: os reflexos, as reações e as respostas de
equilíbrio, considerados como o “alfabeto” do movimento humano (COHEN, 1993).
Em busca de um indivíduo mais expressivo, ela debruçou sua pesquisa sobre o
desenvolvimento do movimento, paralelizando o desenvolvimento infantil humano à
progressão evolucionária das espécies animais, daí partem os Padrões Neurológicos
Básicos provenientes do movimento dos pré-vertebrados e dos vertebrados. São
dezesseis padrões neurológicos que se desenvolvem à medida que o ser humano
progride do movimento fetal à capacidade de se arrastar, engatinhar e, posteriormente,
andar. Esse desenvolvimento individual da criança (ontogênese) é paralelizado ao
desenvolvimento grupal do reino animal (filogênese) e cada padrão está relacionado
com um estágio (COHEN, 1993, p.5).

Dos pré-vertebrados quatro padrões:

1)Respiração celular – movimento de expandir e condensar da respiração - animais


unicelulares;
2)Radiação umbilical – relação de todas as partes do corpo com o centro, umbigo –
Equinodermos: estrela do mar;
3)Mouthing – movimento do corpo iniciado pela boca – Tunicados: cordados marinhos;
4) Pré-espinhal – movimentos sequenciados pela coluna, iniciados pela interface entre
medula espinhal e o aparelho digestivo – Lancelot Amphioxus;

Os vertebrados apresentam doze padrões:

1)Espinhal (04 padrões) – conexão cabeça/cóccix – peixe


2)Homólogo (04 padrões) – movimento simétrico dos dois membros superiores e/ou
inferiores - anfíbios
3)Homolateral (02 padrões) – movimento assimétrico de um membro superior e do
membro inferior do mesmo lado – répteis
4)Contralateral (02 padrões) – movimento diagonal de um dos membros superiores com
o membro inferior oposto - mamíferos

Bonnie explica que o primeiro ano de vida da criança é o mais importante, pois
nessa fase é estabelecida a relação entre o processo perceptivo (como vemos o mundo) e
o processo motor (como nos movemos e agimos no mundo), dessa forma, o processo de
progressão do movimento e da percepção irá depender de como se deu o
desenvolvimento desses padrões nessa fase (COHEN, 1993). Por considerar que o
desenvolvimento não é uma sequencia linear “e sim uma sobreposição de ondas que
sucedem uma a outra se integrando no próximo padrão e complexificando os estágios
posteriores” (Velloso, 2006, p.3) Cohen esclarece:

Cada estágio prévio salienta e dá suporte a cada estágio sucessivo,


qualquer salto, interrupção ou falha para completar um estágio de
desenvolvimento, pode levar a problemas de alinhamento/movimento,
desequilíbrios nos sistemas corporais, e problemas de percepção,
sequenciamento, organização, memória e criatividade (1993, p. 6).

Dentro de cada fase, teremos os padrões de ceder/empurrar e alcançar/puxar


relacionados às partes envolvidas, essas etapas promovem o acesso ao espaço e
constroem a interconexão entre os mundos interno e externo. Assim, “os padrões
neurológicos básicos sublinhados pelos reflexos básicos são os facilitadores da
consciência externa e do movimento através do espaço” (Velloso, 2006, p. 3)
(...) o movimento se desenvolve através de uma série de estágios pré-
determinados. Um movimento pertence a um padrão específico baseado no
modo como é iniciado e em como se sequencia através do corpo. (...) O modo
como iniciamos movimento também diz respeito a nossa relação com nosso
ambiente (HARTLEY,1995, apud VELLOSO, 2006, p. 3).
Dessa forma, o BMC® nos dá suporte para compreendermos o desenvolvimento
do movimento infantil, a relação dos padrões neurológicos com os padrões de
movimento e a possibilidade de atuar sobre os movimentos padronizados de forma
ineficiente. Essa breve noção nos orienta a uma escuta mais humana e enraizada na
nossa própria corporeidade. Temos a chance de refletir sobre os aspectos que formam a
memória que constrói nossa gestualidade inata e a possibilidade de desenvolvermos
uma consciência que permita abrirmos novas opções de pensamento e sentimento
através de mudanças fisiológicas. Em consequência, podemos realizar os movimentos
de forma mais calma, coordenada, equilibrada e integrada evitando, com isso, lesões,
tensões desnecessárias e desalinhamento dos sistemas corporais como um todo. Além
disso, passamos a encontrar diferentes soluções para os desafios cotidianos e ampliamos
a criatividade. Dessa forma, a atuação do Body-Mind Centering® vai além do
alinhamento da estrutura física consigo mesmo e com a gravidade, da relação do meio
interno com o externo e da integração dos sentimentos, desejos e intenções com a ação
no espaço, acima disso, gera maior liberdade no
desenvolvimento da consciência do que está acontecendo
em nosso interior, em nosso redor e conseguimos assim
dançar segundo as variações recorrentes nesses universos,
criando momentaneamente as qualidades que o nosso
movimento tem.

V. A correlação entre os métodos, a técnica em


dança e o desenvolvimento neonatal
Chegamos à parte fundamental dessa pesquisa,
sem ela talvez o nosso estudo não tivesse tido o alcance
que conquistou na compreensão de como o
desenvolvimento neonatal interfere diretamente na boa
estruturação psicomotora da criança e do adulto. Essa
etapa conta com três seguimentos: a correlação entre os
métodos supracitados; a observação (por 12 meses) de um
bebê do sexo feminino, com um ano e um mês de vida e a
vivencia nas aulas de Técnica I (Investigação e
Percepção), Técnica III (Prática e Análise) e Técnica V (Variação e Exploração) do
curso de graduação em Dança da Universidade Estadual de Campinas, ministradas pela
professora Drª Julia Ziviani Vitiello.
No percurso do desenvolvimento psicomotor o recém-nascido tem algumas fases
a cumprir, já que ele passa da posição deitada em flexão e rotação interna de membros
para uma atitude em extensão e com dissociação de cinturas, antes de atingir à posição
vertical em pé. Ao nascer, ele não tem noção que o seu corpo é fragmentado, a
concepção é de um único bloco que sofre intensamente a ação da gravidade (o que
chega a dificultar o movimento). A primeira noção que ele ganha é a de centro-
extremidade e a partir daí ele começa a brincar com os ângulos com que vê as coisas. A
cada movimento (ou posição) descoberta há uma repetição do mesmo até que a criança
reencontre e reproduza a sensação provocada pelo movimento, e ao cabo de várias
tentativas conseguirá comandar seu próprio movimento, esse é o processo de
padronização dos movimentos, quando registrados na memória do bebê, imprimem nela
também imagens de linhas, volumes, distâncias e duração temporal.
Aos poucos, o bebê vai vencendo a força da gravidade e conhecendo cada lado
do seu corpo em separado, da mesma forma distingue a parte inferior da superior.
Toma-se consciência da linha imaginária (eixo corporal) que verticalmente divide nosso
corpo ao meio, percebendo a independência que o lado direito possui do esquerdo e
assim experimenta o equilíbrio e a sustentação desse eixo a cada posição que se coloca.
A partir disso, os movimentos são paralelos (principalmente o andar) e os membros
superiores em conjunto com os inferiores de um mesmo lado. E chegando ao ponto mais
complexo, o movimento cruzado, quando o membro superior de um lado cruza em
movimento com o membro inferior do lado oposto (braço direito com perna esquerda, a
exemplo).
Esse percurso de desenvolvimento psicomotor ontogenético é uma das
possibilidades para trabalhar a consciência corporal e a educação do movimento, como
visto nas pesquisas de Beziérs e Cohen. Dentro da Técnica I, ele é vastamente usado
como base no trabalho de percepção corporal, parte-se da relação mundo interno/
mundo externo para desenvolver (ou restituir) a sensibilidade ao dançarino quanto à
sensação de cada estrutura do corpo; onde se inicia o movimento, quais sensações ele
me traz e como isso é exteriorizado; as sensações que o ambiente traz, como isso
modifica o movimento, da mesma forma com o objeto e com o outro com quem se
dividi o espaço e, reafirmando esses aspectos, sintonizar corpo/mente. Como tudo se
inicia, do ponto de vista do movimento? Essa é uma das questões chefes para que o
dançarino possa aprender a se expressar genuinamente e para respondê-la tomamos
emprestada a perspectiva do recém-nascido. Dessa forma, os tópicos abordados em aula
foram expandir e condensar, radiação umbilical, pré-espinhal e espinhal (movimentos
sequenciados pela coluna que relaciona cabeça-cóccix), homólogos (movimento
simétrico dos dois membros superiores e/ou inferiores), homolaterais (movimento
assimétrico de um membro superior e do membro inferior do mesmo lado) e
contralaterais (movimento diagonal de um dos membros superiores com o membro
inferior oposto).
Esses conceitos combinam-se e a partir deles organizam-se as três esferas
corporais (cabeça, caixa torácica e pelve), alinham-se os membros inferiores e
dissociam-se as cinturas pélvica e escapular (grandes juntas, quadril e ombro). Os
movimentos espiralados (torções) bem como a projeção para o espaço são elementos
que compõe a reestruturação corporal enfatizada na Técnica III.
Uma importante organização trabalhada é o alinhamento das três esferas e o
rolamento das mesmas. Se para o neonatal o enrolamento se constitui o movimento de
base, para o dançarino essa posição está constantemente presente, seja como um local
de chegada ou de passagem, enrolamento-endireitamento tanto no chão quanto na
posição em pé orienta o trabalho de alinhamento e flexibilização da coluna vertebral no
decorrer do movimento e a sua oposição, a extensão, também.
Através do chão o bebê desenvolve o padrão de empurrar e ceder interagindo
com os efeitos da gravidade sobre o seu corpo. Pelo chão ele rasteja, rola, engatinha,
experimenta sua corporeidade das diversas formas possíveis, dessa maneira, entende o
funcionamento do seu aparelho locomotor e através dos apoios fortalece toda
musculatura necessária à ereção da verticalidade. Da mesma forma, o dançarino utiliza
o chão e as possíveis mobilidades no nível baixo para alicerçar a subida ao nível alto e
criar outras opções de expressão por meio do deslizar, dos diferentes apoios ósseos, etc.
Além disso, o chão se torna um grande aliado na educação do movimento, pois ele serve
como referência para conscientizarmo-nos das nossas estruturas ósseas, alinhando e
padronizando esse novo reposicionamento.
Ao longo das Técnicas III e V, o trabalho com as Linhas de Movimento é
agregado ao das esferas, busca-se uma correção postural através da sutiliza e da
inteligência, concentrando-se na trajetória e na organização do movimento. A
Ideokinesis que trabalha com o equilíbrio mecânico, sobretudo, o confronto das linhas
de movimento com a ação de forças universais e as possíveis maneiras para se equiparar
estas forças tanto em repouso quanto em movimento, é muito ilustrada nessas aulas
como um caminho para alcançar um estado de equilíbrio, onde as estruturas são capazes
de resistir eficientemente às forças que atuam sobre elas. Esta resistência é criada pela
dinâmica interna das estruturas musculoesqueléticas. Quanto mais o suporte de uma
estrutura estiver no centro de gravidade, menor será à força de contrapeso necessária
para mantê-la em equilíbrio. O corpo humano segue o mesmo princípio: quanto mais a
estrutura de suporte do esqueleto for trazida para o centro de gravidade, mais eficiente
será seu equilíbrio, e menor será a força muscular necessária para mantê-lo.
Tomando esse conceito como referência, entendemos a insistência
no movimento fundamental de caminhar, esse é um dos movimentos
abordados em aula: deslocar no espaço com o eixo alinhado, ou seja,
mantendo umas esferas sobrepostas e sentir a oposição imagética que as
linhas proporcionam na estruturação corporal.
Ao que tange os três métodos, uma ferramenta para o trabalho de
repadronizar se dá por meio do toque. Através de manipulação
conseguimos desencadear o movimento proporcionando a substituição do
comando motor, isso gera uma sensação que leva a pessoa a perceber
sensorialmente a imagem que teria obtido se ela mesma tivesse
comandado o movimento neurologicamente. Desse modo, com as
repetições de desencadeamento é possível chegar a tornar precisa a
imagem, o comando e a manter a posição, assim consegue-se reencontrar
o movimento, pois essa sensação irá programá-lo
novamente.
Esse estudo orienta-nos a entender tanto o bebê em seu mover reflexo, rudimentar e
fundamental

scanear livro da bonie pg 105

no que tange

Descobrindo, assim, as diferentes qualidades que cada tecido possui e que


interfere diretamente na especificidade do movimento enquanto expressão da mente.

(centramento)
Conclusão
Com o estudo da Coordenação Motora pude, além de abrir novas portas de conhecimento,
aprofundar meu aprendizado na estrutura física do nosso aparelho locomotor e sua íntima
relação com o tempo, o espaço e o equilíbrio de forças externas e internas, isso foi essencial
para o bom entendimento da Ideokinesis, que foi o segundo método somático investigado nessa
pesquisa.

Movimento é a nossa primeira percepção


saberes sensíveis para a mobilidade do corpo
A coordenação motora fala da formação da auto-imagem a partir dos movimentos
aprendidos e a ideokinesis trabalha sobre eles.
Voltar para o pdf de desenvolvimento motor para fechar a primiera parte
Essa organização precisa e minuciosa é necessária ao dançarino que tem no corpo todo
o vocabulário da sua fala.
O movimento é a nossa primeira percepção
O bailarino tem no corpo seu veículo de expressão, e é através da movimentação
que ele cria, comunica e dissemina sua arte. A dança, que se concretiza pelo movimento
situado no espaço-tempo, tem na sua essencialidade a coordenação motora, que só
existe através da associação: forma óssea, disposição do conjunto muscular e a pele
como mediadora entre o mundo interno e externo. Esse diálogo cérebro-aparelho
locomotor nos impulsiona “[...] a novas possibilidades de expressão na constante
organização em forma de infinito (∞) da coordenação motora” (BEZIÉRS, 1992, p. 10).
Essa organização em forma de infinito ilustra a auto-organização dinâmica de equilíbrio
que o corpo apresenta. Esse equilíbrio, por sua vez, se caracteriza por ser instável,
próximo ao desequilíbrio, já que os músculos, quando em contínuo estado de tensão,
estão prontos para restabelecer um re-equilíbrio a qualquer momento. A instabilidade
gera a necessidade de um re-equilíbrio, que é o momento em que o movimento corporal
acontece.
Essa complexa e constante dinâmica de reorganização do eixo corporal, tão
importante ao ser humano em geral, mas especialmente ao “[...] artista que conta com o
próprio corpo para desenvolver seu trabalho de interpretação e criação” (PEES, 2010, p.
XI), tem ganhado o foco de muitos intérpretes/pesquisadores ao longo dos séculos.
Com o estudo da Coordenação Motora pude, além de abrir novas portas de conhecimento,
aprofundar meu aprendizado na estrutura física do nosso aparelho locomotor e sua íntima
relação com o tempo, o espaço e o equilíbrio de forças externas e internas, isso foi essencial
para o bom entendimento da Ideokinesis, que foi o segundo método somático investigado nessa
pesquisa.

Quando altera-se a qualidade dos movimentos, cria-se também mudanças fisiológicas,


psicológicas. Sendo o movimento uma expressão física da mente através do corpo,
quanto maior forem as possibilidades corporais maiores serão as opções de discursar os
sentimentos, de dar voz ao que esta intimamente guardado no cerne de cada ser humano
e que erroneamente acredita-se não ser comunicável, como o pensamento que passa por
cada célula que o compõe.
“Possuímos hábitos restritivos que nos impedem de funcionar da melhor maneira possível.
Busca-se um padrão corporal mais organizado e coerente
O BMC trabalha com o alinhamento da estrutura física consigo mesmo e com a
gravidade; a relação do meio interno com o ambiente externo ; o foco individual de
atenção interna ou externa, e a integração dos sentimentos, desejo e intenção com a
atenção e ação possibilitando uma liberdade maior no desenvolvimento da consciência e
do que está acontecendo em nós e em volta de nós e dançar com o a mudança do
momento".

Essa complexa e constante dinâmica de reorganização do eixo corporal, tão importante ao ser
humano em geral, mas especialmente ao “[...] artista que conta com o próprio corpo para
desenvolver seu trabalho de interpretação e criação” (PEES, 2010, p. XI),

O poder de decisão, a percepção das possibilidades do caminho e como a escolha pode


ser feita são capacidades desenvolvidas por essa integração corpo-mente proposta pelo
método. “Se eu sei o que faço, faço o que quero”2, essa autonomia no desenvolvimento
da movimentação gera maiores possibilidades na criação do repertório gestual do
intérprete, assim como na qualidade da dança que interpreta, pois o controle dos
aspectos envolvidos na expressividade é desenvolvido. “Todo artista que deseja ser um
criador deve buscar o encontro de uma liberdade profunda no seu processo expressivo”
(LAMBERT, 2010, p.55). Neste aspecto, a ideokinesis possibilita ao intérprete contatar
a si mesmo através da percepção corporal e apropriação dos conteúdos internos.
Considerando-se a ativa e inseparável conexão corpo-mente, o intérprete passa a objetivar ações
voltadas para si, e a técnica (procedimentos executados sem atenção e percepção do
movimento) perde espaço para a criação através da intenção e da consciência da ação realizada.

“Esse processo de criação deve contar, por parte do


artista, com uma atitude baseada na percepção do equilíbrio do
seu corpo, nas suas escolhas e nas qualidades inerentes da
reestruturação equilíbrio/desequilíbrio no movimento e no
desenho coreográfico” (PEES, 2010, p. XI).

Procuraremos entender seus caminhos para respaldar a criança nesse percurso de aprendizagem
do movimento, assim como assistir adolescentes e adultos na repadronização de posturas e
ações inapropriadas, as quais divergem da eficiente motricidade natural do corpo humano.
Assim, esse estudo ao se propor a compreender o início da construção do movimento, oferece
possibilidades de atuação tanto na criança, realçando a qualidade do processo, quanto no
adolescente e adulto re-construindo suas concepções de corpo e movimento.

A relevância desse estudo está na importância desse processo de construção


psicomotora, ressaltando que o “subdesenvolvimento ou ineficiência em qualquer
padrão afeta todos os outros e pode levar à problemas de percepção, organização,
memória e criatividade; problemas de aprendizagem , disfunções cerebrais, dificuldades
sociais e psicológicas” (KNASTER, 2003, p. 275). Buscamos um indivíduo mais
expressivo e integrado, em equilíbrio com a consciência e a ação, ciente de todas as
conexões entre corpo/mente e agindo segundo esse reconhecimento.
_______

² Frase vastamente utilizada pela docente Dra. Julia Ziviani Vitiello, especialista em Ideokinesis, durante
suas aulas de técnica em dança no Departamento de Artes Corporais do Instituto de Artes da Unicamp.

1. Referências Bibliográficas

BERTAZZO, Ivaldo. Cidadão Corpo - Identidade e autonomia do movimento. 3ª ed. São Paulo:
Summus, 1998.

BEZIÉRS, Marie-Madeleine; HUNSINGER, Iva. O bebê e a coordenação motora. Tradução de


Lúcia Campello Hahn. 2ª ed. São Paulo: Summus, 1992.

BEZIÉRS, Marie-Madeleine, PIRET, Suzanne. A coordenação motora - Aspecto mecânico da


organização psicomotora do homem. Tradução de Ângela Santos. Revisão técnica de Lúcia
Campello Hahn. São Paulo: Summus, 1992.

COHEN, Bonnie Bainbridge. Sensing, Feeling, and Action. The experiential anatomy of Body-
Mind Centering. Northampton: Contact Editions, 1993.

_______________________. An introduction to Body-Mind Centering. In: KOVAROVA,


Miroslava; MIRANDA, Regina. (Org.) Proceedings of Conference Laban & Performing Arts.
Bratislava: Bratislava in Movement Association/Academy of Music and Dramatic Arts, 2006, p.
11-20. Tradução: Patrícia de Lima Caetano. Disponível em
http://www.conexaodanca.art.br/imagens/textos/artigos/Body-Mind%20Centering.htm, Abril de
2013.

GALLAHUE, David L, OZMUN, John C.  Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês,


crianças, adolescentes e adultos. Revisão científica Marcos Garcia Neira; Tradução de Maria
Aparecida da Silva Pereira Araujo. 3 Ed. São Paulo, SP: Phorte, 2005. 

KNASTER, Mirka. Descubra a Sabedoria do seu Corpo. 9 Ed. São Paulo, SP: Editora Cultrix,
2003. Disponível em http://books.google.com.br/books?
id=9JOd7OqzPWkC&pg=PA275&lpg=PA275&dq=padr
%C3%A3o+de+desenvolvimento+body-mind+centering&source=bl&ots=RuFIPnO-
iU&sig=wdACxU6Va2iNWF8iTPfsS40udRU&hl=en&sa=X&ei=tR6JUYShD8uh4AP37oGYC
w&ved=0CCsQ6AEwADgK#v=onepage&q=padr%C3%A3o%20de%20desenvolvimento
%20body-mind%20centering&f=false

LAMBERT, Marisa Martins. Expressividade cênica pelo fluxo percepção/ação: o sistema


Laban/Bartenieff no desenvolvimento somático e na criação em dança. 2010. 277 p. Tese
(doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes. Disponível em:
http://cutter.unicamp.br/document/?code=000778888.

MATT, Pamela. A Kinesthetic Legacy. The life and works of Barbara Clark. Arizona: CMT
Press, 1993.

SWEIGARD, Lulu E. Human Movement Potential – Its Ideokinesis Facilitation. New York:
University Press of America, 1988.
TODD, Mabel E. The Thinking Body - A study of the balancing forces of dinamic man.
Princeton: Princeton Book Company Publishers, 1937

VELLOSO, Marila. Body-mind Centering e os sistemas corporais: uma possibilidade de


integração no ensino da dança. Artigo publicado na revista científica FAP, Curitiba, v. 1.
Janeiro/dezembro 2006.