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3º Curso Virtual de Teologia do Corpo – 2010 ____________________________________________________ 1

Cristo se Refere ao “Princípio”


Introdução
5. A partir daqui, citamos trechos das próprias
1. As catequeses do papa João Paulo II iniciam-se catequeses do Papa. O arranjo das citações
com o “ciclo” onde o Papa volta sua atenção, procura seguir uma ordem lógica, que permita a
junto com as palavras de Cristo, para o compreensão dos principais pontos, e a ligação
“Princípio”, refletindo sobre os capítulos iniciais entre eles. Alguns comentários podem ser
do livro do Gênesis. Esse ciclo consiste de 23 adicionados, para facilitar a compreensão. Em
audiências gerais, proferidas entre 5 de setembro cada citação segue-se a respectiva referência, de
de 1979 e 2 de abril de 1980. acordo com a numeração seguida pela tradução de
Michael Waldstein (ver tabela específica entregue
2. Esse tema integra a primeira grande parte da no início do curso).
Teologia do Corpo, onde o Papa traça uma
“adequada antropologia”, uma “visão integral do
ser humano”. Os temas seguintes, que completam O que Significa o “Princípio”?
essa primeira parte, serão vistos nos próximos
textos: “Cristo se Refere ao Coração Humano”, e 6. Jesus, na sua resposta aos fariseus, evita se
“Cristo se refere à Ressurreição”. embrenhar em controvérsias jurídicas ou
casuísticas; em vez disso, faz referência duas
3. O Papa sempre inicia cada ciclo de catequeses vezes ao "princípio". "Princípio" significa,
com as palavras de Cristo porque “Cristo revela o portanto, aquilo de que fala o Livro do Gênesis.
homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação (TdC 1)
sublime ” (Gaudium et Spes 22).
7. Na presente análise procuramos, sobretudo,
tomar em consideração o aspecto da subjetividade
As palavras de Cristo humana. (TdC 18)

4. As palavras de Cristo que servem como base O Papa explica agora os dois relatos da Criação.
para este ciclo de catequeses são retiradas de O primeiro relato está em Gênesis capítulo 1.
Mateus 19, 3-8: Trata-se do ciclo de sete dias em que houve a
criação do mundo, na qual o ser humano é
“Alguns fariseus aproximaram-se de Jesus e,
criado no último dia, “à imagem e semelhança
para experimentá-lo, perguntaram: “É permitido
ao homem despedir sua mulher por qualquer
de Deus. O segundo relato está em Gênesis
motivo?” Ele respondeu: “Nunca lestes que o capítulo 2. Ele descreve a criação do homem a
Criador, desde o princípio, os fez homem e partir “do pó” vivificado com o “sopro de
mulher e disse: „Por isso, o homem deixará pai e Deus”, bem como a criação da mulher a partir
mãe e se unirá à sua mulher, e os dois formarão da “costela” de Adão.
uma só carne‟? De modo que eles já não são dois,
mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o 9. A primeira narrativa da criação do homem é
homem não separe”. Perguntaram: “Como então cronologicamente posterior à segunda. O
Moisés mandou dar atestado de divórcio e conteúdo da primeira narrativa da criação do
despedir a mulher?” Jesus respondeu: “Moisés homem, embora cronologicamente posterior, tem
permitiu despedir a mulher, por causa da dureza sobretudo um caráter teológico. (TdC 2)
do vosso coração. Mas não foi assim desde o
princípio.” 10. Nessa primeira narrativa, a criação do homem
se diferencia da obra anterior de Deus. A criação
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do ser humano é precedida por uma solene


introdução (“Deus disse: „Façamos o ser humano Voltando ao “Princípio”
à nossa imagem e segundo nossa semelhança‟” –
Gen 1, 26), como se fosse o caso de Deus estar 14. Gênesis capítulo 3 inicia a narrativa da
deliberando antes desse importante ato. E, acima primeira queda do homem e da mulher, ligada
de tudo, a excepcional dignidade da pessoa com a árvore misteriosa, que já antes fora
humana é realçada pela “semelhança” com Deus. chamada “árvore do conhecimento do bem e do
(TdC 2) mal”. A primeira situação é de inocência original
(estado “original”), e a segunda situação, pelo
11. O primeiro relato é conciso, livre de qualquer contrário, é aquela em que o homem, depois de
traço de subjetivismo, mas contém em si um transgredir o mandamento do Criador por
poderoso conteúdo metafísico. O primeiro sugestão do espírito maligno simbolizado pela
capítulo do Gênesis formou a base sólida para serpente, se encontra, de certo modo, dentro do
uma metafísica e também para uma antropologia e conhecimento do bem e do mal
uma ética, segundo a qual "ens et bonum (estado”histórico”). Quando Cristo, referindo-se
convertuntur" (o ser e o bem convergem). (TdC 2) ao "princípio", dirige a atenção dos fariseus para
as palavras escritas em Gênesis, ordena-lhes, em
12. O segundo relato da criação está no capítulo 2 certo sentido, que ultrapassem os limites
do Gênesis, e constitui, de certo modo, a mais existentes entre a primeira e a segunda situação do
antiga descrição e registro da auto-compreensão homem. Isso significa que a ordem inicial em que
do homem e, juntamente com o capítulo 3º, é o Deus criou o homem não perdeu sua força, ainda
primeiro testemunho da consciência humana. Esse que o homem tenha perdido a inocência primitiva
relato nos maravilha com a sua profundidade de (TdC 3)
natureza sobretudo subjetiva, e portanto, em certo
sentido, psicológica. (TdC 3) 15. As palavras de Cristo, que se referem ao
"princípio", permitem-nos encontrar no homem
certa continuidade essencial e um laço entre estes
1º Relato da Criação 2º Relato da Criação dois estados diversos ou duas dimensões do ser
humano. Em todo homem, sem exceção, o estado
Deus é chamado
Deus é chamado "histórico" tem suas raízes profundamente na sua
“Elohim”
“Javé” (texto javista) "pré-história" teológica, que é o estado da
(texto elohista)
inocência original. Mas o ser humano não está só
Caráter metafísico e Caráter subjetivo, fechado, pela sua pecaminosidade, à inocência
teológico psicológico, e mítico1 original, mas ao mesmo tempo ele está aberto para
Sete dias da criação, o mistério da redenção, que se realizou em Cristo
Homem criado do pó,
ser humano criado “à e por meio de Cristo. É a perspectiva da redenção
mulher criada da
imagem e semelhança do corpo que assegura a continuidade e a unidade
costela do homem
de Deus” entre o estado de pecado do homem e a sua
Cronologicamente Cronologicamente inocência original. (TdC 4)
posterior anterior
O ser humano não é
Mais antigo relato da
criado de acordo com
a sucessão natural
consciência humana A partir de agora veremos seis conceitos
fundamentais do “princípio”: a solidão original,
a unidade original, a nudez original, o
13. A Bíblia chama o primeiro ser humano significado esponsal do corpo, a inocência
“homem” („ādām = “humanidade”). Depois do original, e o ciclo “conhecimento-procriação”.
momento da criação da primeira mulher, começa a Eles constituem e explicam a condição humana
chamar o homem “varão”, „îš (pronuncia-se no “princípio”. Lembre-se que cada aspecto
“eesh”), em relação à „îššā (pronuncia-se desses não ficou perdido na nossa “pré-história”
“eeshsha”), que significa mulher, porque foi teológica, antes do pecado original. Apesar de
tirada do homem-varão. (TdC 3) termos perdido de forma irremediável esse
estado de inocência original, guardamos ainda
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Mito é entendido aqui como um símbolo constituído de um “eco” dele em nosso coração. Como vimos,
elementos de realidade, com o propósito de apresentar o isso é possível através da redenção do corpo, que
absoluto e o transcendente. Não se refere a um conteúdo
fictício-fabuloso, mas simplesmente é um modo arcaico de
Cristo veio nos trazer.
expressar um conteúdo mais profundo. (TdC 8)

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existência, diante de Deus, em busca da própria


A Solidão Original "identidade". A solidão significa também a
subjetividade do homem, a qual se forma através
16. “E o Senhor Deus disse: „Não é bom que o do autoconhecimento. O homem está só, porque é
homem esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que "diferente" do mundo visível, do mundo dos seres
lhe corresponda‟” (Gen 2, 18). vivos. (TdC 5)

17. É significativo que o primeiro homem 20. O homem está "só": isto quer dizer que,
(„ādām), criado do "pó da terra", só depois da através da própria humanidade, através daquilo
criação da primeira mulher seja definido como que ele é, o homem é constituído em uma relação
“varão” ou “macho” („îš). Assim, portanto, com o próprio Deus que é única, exclusiva e
quando Deus-Javé pronuncia as palavras a irrepetível. Pode-se afirmar com certeza que o
respeito da solidão, refere-as à solidão do "ser homem assim constituído tem o conhecimento e a
humano" (tanto o homem quanto a mulher) consciência do sentido do próprio corpo. E isto
enquanto tal, e não só à do “macho” ou “varão”. baseado na experiência da solidão original. (TdC
Essa solidão tem 2 significados: um que deriva da 6)
própria criatura do homem, isto é, da sua
humanidade (o que é evidente na narrativa de Gn
2), e o outro que deriva da relação macho-fêmea, A Unidade Original
o que é evidente, de certo modo, com base no
primeiro significado. (TdC 5) 21. “Então o Senhor Deus fez vir sobre o homem
um profundo sono, e ele adormeceu. Tirou-lhe
18. “Então o Senhor Deus formou da terra todos uma das costelas e fechou o lugar com carne.
os animais selvagens e todas as aves do céu, e Depois, da costela tirada do homem, o Senhor
apresentou-os ao homem para ver como os Deus formou a mulher e apresentou-a ao
chamaria; cada ser vivo teria o nome que o homem.” (Gen 2, 21-22)
homem lhe desse. E o homem deu nome a todos os
animais domésticos, a todas as aves do céu e a 22. O homem („ādām) cai em um „profundo sono‟
todos os animais selvagens, mas não encontrou ou „torpor‟ para acordar "macho" („îš) e "fêmea"
uma auxiliar que lhe correspondesse.” (Gen 2, („îššā). Talvez a analogia do “profundo sono”
19-20) indique aqui um retorno específico ao “não-ser”,
ou a momento que antecede a criação, para que o
"homem" solitário possa, por iniciativa criadora
de Deus, ressurgir daquele momento na sua dupla
unidade de macho e fêmea. De todo modo, à luz
do contexto de Gênesis 2, não há dúvida que o
homem cai nesse "profundo sono" com o desejo
de encontrar um ser semelhante a si. (TdC 8)

23. “E o homem exclamou: „Desta vez sim, é osso


dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será
chamada „humana‟ porque do homem foi tirada‟”
(Gen 2, 23). Deste modo o homem (macho)
manifesta pela primeira vez alegria e até mesmo
exultação, de que anteriormente não tinha motivo,
por causa da falta de um ser semelhante a si. (TdC
8)
19. O primitivo significado da solidão original do
homem é definido em função de um "teste"
24. O significado da unidade original do homem,
específico, ou de um exame a que o homem é
através da masculinidade e da feminilidade, se
submetido diante de Deus (e em certo modo
expressa como uma ultrapassagem dos limites da
também diante de si mesmo). Graças a esse
solidão, e ao mesmo tempo como afirmação –
"teste", o homem toma consciência da própria
para ambos – de tudo na solidão que constitui o
superioridade, quer dizer, de não poder colocar-se
"ser humano". A comunhão das pessoas só podia
em igualdade com nenhuma outra espécie de ser
se formar com base em uma "dupla solidão" do
vivo sobre a terra. Portanto, o ser humano criado
homem e da mulher, ou seja, como encontro em
encontra-se, desde o primeiro momento da sua
sua mesma “distinção” do mundo dos seres vivos.

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(...) O homem se tornou "imagem e semelhança" para todos os homens e mulheres que, em
de Deus não só mediante a própria humanidade, qualquer época, se unem entre si tão intimamente
mas ainda mediante a comunhão de pessoas, que que formam "uma só carne". (TdC 10)
o homem e a mulher formam desde o
“princípio”. O homem torna-se imagem de Deus
não tanto no momento da solidão quanto no A Nudez Original
momento da comunhão, (...) como imagem de
uma imperscrutável comunhão divina de 30. “O homem e sua mulher estavam nus, mas não
Pessoas. (TdC 9) se envergonhavam.” (Gen 2, 25)

31. O significado da nudez original, que é


claramente realçado no contexto de Gênesis, não é
coisa acidental. Pelo contrário, forma
precisamente a chave para a sua plena e completa
compreensão. O texto de Gênesis 2, 25 exige
expressamente que se liguem as reflexões sobre a
teologia do corpo com a dimensão da
subjetividade pessoal do homem. A frase, segundo
a qual os primeiros seres humanos, homem e
mulher “estavam nus” mas “não se
envergonhavam”, descreve indubitavelmente o
estado de consciência de ambos. (TdC 11)

32. Devemos nos perguntar se é possível


reconstruir, de algum modo, o significado original
25. A busca da identidade humana daquele que no da nudez. Isto parece possível, se tomarmos como
princípio está "só", deve passar sempre pela ponto de referência a experiência da vergonha
dualidade, através da "comunhão". (TdC 10) como uma experiência "limítrofe" (TdC 11). Na
experiência da vergonha (ou pudor), o ser humano
26. A unidade, de que fala Gênesis 2, 24 ("os experimenta medo em face do "segundo eu"
dois serão uma só carne"), é sem dúvida aquela (assim, por exemplo, a mulher diante do homem),
que se expressa e se realiza no ato conjugal. e isso é substancialmente medo quanto ao próprio
(TdC 10) "eu". Com a vergonha, o ser humano manifesta
"instintivamente" a necessidade da afirmação e da
27. Quando se unem entre si (no ato conjugal) tão aceitação deste "eu" de acordo com o seu justo
intimamente, que se tornam "uma só carne", o valor. (TdC 12)
homem e a mulher redescobrem, a cada vez e de
modo especial, o mistério da criação. Voltam, 33. Devemos estabelecer, primeiramente, que se
assim, àquela união na mesma humanidade ("osso trata de verdadeira não-presença da vergonha, e
dos meus ossos e carne da minha carne"), que lhes não de uma falta ou subdesenvolvimento dela. As
permite reconhecerem-se reciprocamente e palavras “não se envergonhavam” servem para
chamarem-se pelo nome, como fizeram da indicar a plenitude de compreensão do significado
primeira vez. Isto significa reviver, em certo do corpo, ligada ao fato de “estarem nus”. (TdC
sentido, o original valor virginal do homem, que 12)
deriva do mistério da sua solidão diante de Deus e
no meio do mundo. (TdC 10) 34. “E Deus viu tudo quanto havia feito e achou
que era muito bom.” (Gen 1, 31). A “nudez”
28. O ato conjugal expressa uma sempre nova significa a bondade original da visão divina.
superação do limite da solidão do homem. Esta Significa toda a simplicidade e plenitude dessa
superação sempre implica, de certo modo, que a visão, que mostra o valor "puro" do homem como
pessoa assume a solidão do corpo do segundo macho e fêmea, o valor puro do corpo e do [seu]
"eu", como sua própria. (TdC 10) sexo. Vendo-se reciprocamente, como que através
do mistério mesmo da criação, o homem e a
29. Criados à imagem de Deus também na medida mulher vêem-se a si mesmos mais plena e mais
em que formam autêntica comunhão de pessoas, o distintamente do que através do próprio sentido da
primeiro homem e a primeira mulher devem visão, isto é, através dos olhos do corpo. Vêem-se,
constituir o início e o modelo dessa comunhão de fato, e conhecem-se a si mesmos com toda a

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paz do olhar interior, que cria precisamente a mas encerra desde "o princípio" o atributo
plenitude da intimidade das pessoas. Se a "esponsal", isto é, a capacidade de expressar
"vergonha" traz consigo uma específica limitação amor: exatamente aquele amor em que a pessoa
do ver mediante os olhos do corpo, isto acontece humana se torna um dom e – mediante este dom –
acima de tudo porque a intimidade pessoal é como realiza o próprio sentido do seu ser e existir.
que perturbada e quase "ameaçada" por tal visão. Recordamos agora o texto do último Concílio,
(...) O significado original da nudez corresponde à onde se declara que o homem é a única criatura no
simplicidade e plenitude da visão, em que a mundo visível que Deus quis "por si mesma",
compreensão do significado do corpo nasce quase acrescentando que esse homem "não se pode
no coração mesmo da sua comunidade-comunhão. encontrar plenamente a não ser no sincero dom de
Chamaremos esse significado de “esponsal”. (TdC si mesmo" [Gaudium et spes, 24, 3]. (TdC 15)
13)
38. No primeiro encontro beatífico, o homem
assim encontra a mulher e ela encontra-o a ele.
O Significado Esponsal do Corpo Deste modo ele acolhe-a interiormente; acolhe-a
assim como ela é querida "por si mesma" pelo
35. A dimensão do “dom” é decisiva para a Criador, como é constituída no mistério da
verdade essencial e a profundidade de significado imagem de Deus por meio da sua feminilidade
da solidão-unidade-nudez original. A leitura dos (ou seja, única e irrepetível, escolhida pelo eterno
primeiros capítulos do Livro do Gênesis nos Amor). E, reciprocamente, ela acolhe-o a ele do
introduz no mistério da criação, isto é, do início mesmo modo, como ele é querido "por si mesmo"
do mundo por vontade de Deus, que é onipotência pelo Criador e por Ele constituído mediante a sua
e amor. Por conseguinte, toda a criatura traz em si masculinidade. Nisto consiste a revelação e a
o sinal do “dom” original e fundamental. (TdC descoberta do significado "esponsal" do corpo.
13) A narrativa javista, e em particular Gênesis 2, 25,
permite-nos deduzir que o homem e a mulher
36. Mas devemos observar que, até nesta situação entram no mundo exatamente com esta
de felicidade original, o mesmo Criador (Deus consciência do significado do próprio corpo, da
Javé) e depois também o "homem", em vez de sua masculinidade e feminilidade. (TdC 15)
sublinharem o aspecto do mundo criado para o
homem como dom subjetivamente beatífico,
fazem notar que o homem está "só". De fato,
nenhum dos seres vivos (animais) oferece ao
homem as condições básicas que tornariam
possível ao homem existir em uma relação de dom
recíproco. "Sozinho" o homem não realiza
totalmente a sua essência. Ele só a realiza
existindo "com alguém" – e, ainda mais profunda
e completamente, existindo "para alguém".
Atravessando a profundidade da solidão original,
o homem surge agora na dimensão do dom
recíproco, cuja expressão – que por isso mesmo é
expressão da sua existência como pessoa – é o
corpo humano em toda a verdade original da sua
masculinidade e feminilidade. O corpo, que
exprime a feminilidade "para" a masculinidade e,
vice-versa, a masculinidade "para" a feminilidade,
manifesta a reciprocidade e a comunhão das
pessoas. Este é o corpo: uma testemunha que a 39. A perspectiva "histórica" (depois do pecado
criação é fundamentalmente um dom, e portanto original), se construirá de modo diverso do que
uma testemunha de que o Amor é a fonte da qual era no "princípio" beatífico. Mas nela o homem
brota esse mesmo “doar-se”. (TdC 14) não deixará de conferir um significado esponsal
ao próprio corpo. Mesmo que esse significado
37. O corpo humano, com o seu sexo – a sua sofra e venha a sofrer muitas distorções, ele
masculinidade e feminilidade – visto no próprio sempre permanecerá o nível mais profundo, que
mistério da criação, é não só fonte de fecundidade exige ser sempre revelado em toda a sua
e de procriação, como em toda a ordem natural, simplicidade e pureza, e se manifestar em toda a

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sua verdade, como sinal da "imagem de Deus". vergonha acerca da nudez nasce neles, uma
Por aqui passa também o caminho que leva do vergonha que não sentiram no estado de inocência
mistério da criação à “redenção do corpo”. (TdC original. A inocência original manifesta e ao
15) mesmo tempo constitui o “ethos” perfeito do dom.
(TdC 18)

A Inocência Original 42. Depois do pecado original, o homem e a


mulher perderam a graça da inocência original. A
40. Essa inocência pertence à dimensão da graça descoberta do significado esponsal do corpo deixa
contida no mistério da criação, isto é, àquele de ser para eles uma simples realidade da
misterioso dom oferecido ao íntimo do homem – revelação e da graça. Todavia, esse significado
ao "coração" humano – que permite a ambos, ficará como dever imposto ao homem pelo ethos
homem e mulher, existirem desde o "princípio" na do dom, inscrito no fundo do coração humano
recíproca relação do dom desinteressado de si como eco longínquo da inocência original. (TdC
mesmos. A inocência original é, portanto, o que 19)
"radicalmente", isto é, nas suas próprias raízes,
exclui a vergonha do corpo na relação entre 43. Assim, nesta dimensão, constitui-se um
homem e mulher, que elimina a necessidade dessa sacramento primordial, entendido como sinal que
vergonha em ambos, em seu coração, ou transmite eficazmente ao mundo visível o mundo
consciência. A consciência beatífica do invisível oculto em Deus desde a eternidade. E
significado do corpo – isto é, do significado este é o mistério da Verdade e do Amor, o
esponsal da masculinidade e da feminilidade mistério da vida divina, da qual o homem
humanas – é condicionada pela inocência original. participa realmente. Na história do homem, é a
Parece não haver nenhum impedimento para inocência original que inicia esta participação e é
entender aqui a inocência original como uma também fonte da felicidade original. O
especial "pureza de coração". (TdC 16) sacramento, como sinal visível, constitui-se com
o homem, enquanto "corpo", mediante a sua
"visível" masculinidade e feminilidade. O corpo,
de fato, e só ele, é capaz de tornar visível o que é
invisível: o espiritual e o divino. Foi criado para
transferir para a realidade visível do mundo o
mistério oculto desde a eternidade em Deus, e
assim ser sinal d'Ele. Esse sacramento primordial
provém da fonte divina da santidade, e ao mesmo
tempo é instituído para a santidade. (TdC 19)

“Conhecimento” e Procriação

44. Em Gênesis 4, e portanto ainda no âmbito do


texto javista, lemos: “O homem se uniu a Eva, sua
mulher, e ela concebeu e deu à luz Caim, dizendo:
„Ganhei um homem com a ajuda do Senhor‟”
(Gen 4, 1). Não deixa de ter significado que a
situação em que marido e mulher se unem tão
intimamente entre si a ponto de formar "uma só
41. Reduzir o ser humano (o homem para a carne" tenha sido definida como "conhecimento".
mulher e a mulher para o homem) interiormente a Deste modo, na verdade, é da pobreza mesma da
puro "objeto para mim", deve assim assinalar o linguagem que parece deduzir-se uma
princípio da vergonha. Esta, na verdade, profundidade específica de significado. Quando
corresponde a uma ameaça feita ao dom na sua fala aqui de "conhecimento", mesmo que apenas
intimidade pessoal, e testemunha o desabar por causa da pobreza de sua língua, a Bíblia indica
interior da inocência e da experiência recíproca a essência mais profunda da realidade da
(TdC 17). Se o homem e a mulher deixam de ser convivência matrimonial. Isto autoriza-nos, em
reciprocamente um dom desinteressado, como o certo sentido, a afirmar que "o marido conhece a
eram um para o outro no mistério da criação, mulher" ou que ambos "se conhecem"
então reconhecem que "estão nus". É então que a reciprocamente. Então eles revelam-se um ao

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outro com aquela específica profundidade do Encarnação. Pelo fato de o Verbo de Deus se ter
próprio "eu" humano, que por sinal se revela feito carne, o corpo entrou, eu diria, pela porta
também mediante os sexos, masculinidade e principal da teologia, isto é, na ciência que tem
feminilidade. (TdC 20) por objeto a divindade. (TdC 23)

45. Já desde agora, porém, é preciso verificar que, 48. Quanto é necessária uma precisa consciência
no "conhecimento", de que fala Gênesis 4, 1, o do significado esponsal do corpo, do seu
mistério da feminilidade se manifesta e revela em significado gerador – dado que tudo isto, que
toda sua profundidade mediante a maternidade, forma o conteúdo da vida dos esposos, deve
como diz o texto: "concebeu e deu à luz". A encontrar constantemente a sua dimensão plena e
mulher apresenta-se diante do homem como mãe, pessoal na convivência, no comportamento e nos
sujeito da nova vida humana, que nela é sentimentos! E isto, ainda mais no contexto de
concebida e se desenvolve, e dela nasce para o uma civilização que permanece sob a pressão de
mundo. Assim se revela também em toda um modo de pensar e de julgar materialista e
profundidade o mistério da masculinidade do utilitário. (TdC 23)
homem, isto é, o significado gerador e "paterno"
do seu corpo. (...) A procriação faz com que "o ________________________________________
homem e a mulher (sua esposa)" se conheçam
reciprocamente no "terceiro", originado de ambos. Perguntas para estudo
(TdC 21)
1. Falando de divórcio, Jesus nos diz em Mateus 19, 8
46. A consciência do significado do corpo e a que “no princípio não era assim”. Parece-lhe possível
consciência do seu significado generativo entram que nós tenhamos sido criados para estar no mundo
em contato, no homem, com a consciência da não no sofrimento e no pecado, mas na graça e
morte. Todavia, sempre volta na história do felicidade beatífica?
homem o ciclo do "conhecimento-procriação", em 2. Qual seu entendimento acerca do significado
que a vida luta, sempre de novo, com a inexorável esponsal do corpo? Os conhecimentos adquiridos
perspectiva da morte, e sempre a domina. Apesar mudam a percepção da sua própria dignidade
de todas as experiências da própria vida, apesar enquanto pessoa humana?
dos sofrimentos, das desilusões, de sua 3. Um dos ensinamentos do Concílio Vaticano II diz
pecaminosidade, e apesar da perspectiva que o “homem não pode se encontrar plenamente a
inevitável da morte, o ser humano coloca sempre não ser no sincero dom de si mesmo”. O que isso
de novo o "conhecimento" no "início" da significa?
"geração"; desse modo ele parece participar 4. Tornar-se “uma só carne” refere-se muito mais que
naquela primeira "visão" do próprio Deus: o ao encontro de dois corpos. Discuta o conceito de
Criador "viu tudo..., e achou que era muito bom". “comunhão de pessoas” na unidade original.
(TdC 22)
5. João Paulo II considera a nudez isenta de vergonha
como a chave para entender o plano original de Deus
para o homem e a mulher. Para nos ajudar a entender
Conclusão porque, discuta as seguintes questões:
a) Porque Adão e Eva não sentiam vergonha da sua
47. Penso que entre as respostas que Cristo daria nudez antes do pecado original?
aos homens do nosso tempo e às suas
b) O que significava a nudez deles?
interrogações, muitas vezes tão impacientes, seria
ainda fundamental a que deu aos fariseus. c) Como Adão e Eva experimentavam o desejo sexual
antes do pecado original?
Respondendo àquelas interrogações, Cristo iria se
referir antes de qualquer coisa ao "princípio". É a d) Com base no que foi visto até agora, como o
resposta através da qual entrevemos a própria desejo sexual pode ter mudado depois do pecado
original?
estrutura da identidade humana nas dimensões do
mistério da criação e, ao mesmo tempo, na
perspectiva do mistério da redenção. O estudo (Sugere-se enviar as respostas para daniel@teologiadocorpo.com.br)
destes capítulos, talvez mais do que o de outros, ____________________________________________
torna-nos conscientes do significado e da
necessidade da "teologia do corpo". O fato de a © Texto elaborado pela equipe Teologia do Corpo - Brasil
exclusivamente para fins didáticos, contendo trechos das
teologia compreender também o corpo não deve catequeses do Papa. As citações das catequeses TdC seguem
maravilhar nem surpreender ninguém que seja a numeração de Michael Waldstein (ver quadro de referência
consciente do mistério e da realidade da em separado) As citações bíblicas são da tradução da CNBB.