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BERRO – LABORATÓRIO DE ARTES CÊNICAS

DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

ÁSCIOS

é uma busca por compreender as relações sociais no sertão-mundo. É um primeiro


ensaio, estudo em processo. Dentre os textos a que tenho me dedicado, este é um dos
que me oferece maior desafio, pois estou embrenhando numa cultura que por mim é
quase toda desconhecida. Daí a figura do Fulano da Sylva, talvez para mim mais
acessível, mais próximo, mas também porque a cada dia é maior o número e a
diversidade daqueles que se enquadram como áscios, que não têm sombra, que
entram na fila e são lançados ao sol

ofereço este trabalho ao mestre Alexandre Mate

reconheço a importância dos colaboradores, que mesmo sem as condições


necessárias, têm dedicado os seus esforços nos trabalhos do BERRO - Laboratório de
Artes Cênicas da UFPI

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BERRO – LABORATÓRIO DE ARTES CÊNICAS
DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

ÁSCIOS

ATORES PERSONAGENS

EDERVAL MONTE Sr. Fulano da Sylva


JARLENI SILVA Psicóloga, Beltrana, testemunha II
JOSÉ ELIELTON Áscio VI e IX, Sr. Sicrano, Criança
IVONETHY CARVALHO Sra. Sicrana, Áscio III e XV, Testemunha III
CLEIBER RICARDO Alto-Falante, Sr. Beltrano, Já Morreu, Testemunha I
ÉVELA MAC Sra. Fulana da Sylva, Áscio VII, Juiz, Mãe
ADRIANA CAMPELO Menina
ANDERSON GABRIEL Religioso, Amigo-12345/1, Alex, Pai
VÍTOR SAMPAIO Esgalamido

PRÓLOGO – A Cidade Verde

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(Cena de rua. Coreografia: “Vai pela sombra”: pessoas se protegem do sol; procuram por

sombra. Música: um artista de rua, cego e idoso, toca uma rabeca, que mima a coreografia.

Projeções: cotidiano dos sem sombra do sertão-mundo. Esgalamido e Menina estão entre os

áscios que perambulam, ouve-se a sineta do carro deles, igual a de carrinho de sorvete. O

carrinho também é semelhante aos de coletar lixo e tem placa como as de automóvel.

Esgalamido passa vestido em poucos trapos, logo atrás a Menina, com um chicote na mão.

Quando passam novamente Esgalamido puxa o carrinho como cavalo a uma carroça, a

Menina montada no carrinho. Sensualidade. Espanto. Propagandas divulgam a Cidade

Verde como o lugar maravilhoso - fantástico).

ALTO-FALANTE – (carrega um estandarte como semelhante às propagandas que invadem

os computadores e vendem o green-card) Dai-me vossos exaustos, vossos pobres, / Vossas

massas amontoadas ansiosas de respirarem livres, / O rebotalho desditoso de vossas praias

fervilhantes, / Mandai-me esses, os sem lar, os arremessados pela tempestade, / Ergo-lhes a

minha lâmpada junto ao portão de ouro1. (Áscios seguem o Alto-falante)

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Estas palavras estão inscritas na base da Estátua da Liberdade, nos Estados Unidos da América.
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CENA I – Nas ruas

(Plano da memória. Bancas, camelôs, áscios perambulam).

MENINA – (ao público) Onde vive Fulano da Sylva, as sombras da maioria das pessoas

foram tiradas; o comércio das sombras tornou-se lucrativo para as organizações não

governamentais internacionais.

ESGALAMIDO – (ao público) Todos aqueles que são sem sombra são lançados ao sol,

sobrevivem nos Assentamentos Paupérrimos.

MENINA - (como vendedora) – Diga meu bem!

FULANO – Estou na Cidade Verde? Tanta placa, tanto sinal, e não sei que rumo tomar!

ESGALAMIDO – Meu faro me diz que já estamos nesta cidade.

RELIGIOSO – Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum;

porque tua vara e teu cajado me consolam.

MENINA – Calcinhas! Leve duas pague uma. De renda! De seda! De sede! De hortelã,

morango e chocolate! Na rede! Na cama! No céu! Da boca faz bem! R$ 1,99; R$ 1,99. Leva?

ESGALAMIDO - (repara as moças que vendem café2) Ah este cheiro! Meu faro não me

engana! Ei Professor, aceita um café? As meninas são lindas!

FULANO – (aturdido, vê entre as moças do café a Sra. Fulana) Não, não tomo café! Pelo

amor de Deus!

(Som de policiamento. Reação alarmada de todos: deitam-se, arrastam-se, levantam-se...).

ALTO-FALANTE - (durante o policiamento) Inspeção Oficial Diária. Em nome da Capitania,

apresentem a Licença de Livre Circulação, todos os classificados como suspeitos, ainda que

tolerados, os que moram fora do Grande Círculo da Green Zone3, todos os áscios que

moram nos Assentamentos Paupérrimos devem apresentar a L.L.C. É um direito apresentar

2
Em Teresina (Piauí), além de outras técnicas, o meretrício usa, nas ruas, a venda de café como um chamariz de clientes.
3
A Green Zone é a área de proteção criada pelos EUA quando da invasão no Iraque em 2003. Este tipo de espaço tem se
tornado comum nas grandes metrópoles: condomínios fechados, áreas privativas etc.
4
a L.L.C. Não usufruir deste direito é cometer infração grave contra a paz e a economia; crime

contra a Capitania, a todos os infratores estão reservadas as duras penas da lei.

RELIGIOSO – Mil cairão a tua direita, 10 mil a tua esquerda, mas tua casa não se abalará.

ESGALAMIDO – A legítima imitação de sombra natural! Fresca! Sombra de cajueiro! De

mangueira! De Pequizeiro! Sombra de nuvem, que vento não carrega!

RELIGIOSO - Adquira aqui tua proteção! Não façais negócio com qualquer santo! Fazei um

contrato com o Nosso Senhor! O único!

ESGALAMIDO – (com as garotas do café) Sem sombra de dúvida, é bem aqui o paraíso!

Música - BALADA DOS ÁSCIOS (“Lançado ao sol”)

ESGALAMIDO - Este é o berro do cabra // que acorda com a pancada,

E logo devorado em carne viva;

TODOS: Carne crua // carne seca.

ESGALAMIDO: Estirado no bafo quente!

TODOS: Na rua! // Vê?

MENINA: Diga meu bem! // Café? // Quem é que não vem, quem é?

Com a barriga vazia // quem é que não vem, quem é?

TODOS: Incomodo // Fedo e tu desvia // Me banho no sol

No pino do meio dia // banho na calçada // banho de bacia!

ESGALAMIDO: Tu passa e me benze com a lama

das rodas do teu mundo que passa veloz.

TODOS: Roda mundo e ai de nós // Ave Maria // Ah véia Maria

Minha mãe // Rogai por nós.

ESGALAMIDO: Depois passa e me benze com a lama!

MENINA: Cumprimento entre pessoas humanas.


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TODOS: Irmão, vem o dia que sombra pra ti não tem.

ESGALAMIDO: E aí professor?!

MENINA: Diga meu Bem!

ESGALAMIDO e MENINA: Tu é convidado; // A banhar na calçada!

TODOS: Sempre tem lugar pra mais um // E tu não te engane

aí na sombra, é apenas mais um!

ESGALAMIDO e MENINA: Até que será lançado ao sol!

TODOS: Lançado ao sol!

CENA II - No Portão de Vidro

(Plano da memória. No Portão de Vidro da Business. Amigo-12345/1 carrega o boneco

Amigo-12345/x, arma uma rede, os punhos da rede pendem do seu pescoço e do boneco;

usam coleiras no pescoço, de cada uma pende uma corrente que é fixa na cintura, não usam

camisas apenas os punhos delas; pose de bailarinos. Sra. Sicrana chega, deita na rede).

Sr. BELTRANO – (situação romântica.) ...então as mosquinhas da fruta, as drosófilas, têm

células que cuidam do namoro delas...

FULANO - Aqui é a Business Sonhos do Brasil?

AMIGO-12345/x – (voz gravada, como se latisse) Sai daqui!

Sra. SICRANA – Os comedores de lixo já passaram aqui ontem!

AMIGO-12345/1 – Esta área é reservada! Pertence ao Círculo dos Privilegiados. Ei, ei, ei,

vocês não tem direito à sombra, é propriedade particular!

AMIGO-12345/x – Sai daqui!

FULANO – Xô! Vocês não ouviram bando de diabos... Xô! Xô! Xô bando de urubus! (muda

intenção) Não estou com eles. Não sei como conseguem passar da Linha de Segurança dos

Assentamentos Paupérrimos! (aos áscios) Saiam malditos!


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ESGALAMIDO – Arre égua! Que o professor só sabe arremedar.

ÁSCIO X – Te alui professor! Tu é um lançado ao sol que nem nós, xô! Xô!

ESGALAMIDO – Ilustríssima Senhora quem ao pobre empresta a deus dá.

ÁSCIO X – Por misericórdia, pode nossa passagem de volta completar?

Sra. SICRANA – Não me empate! Tira estas coisas fedidas daqui. Ficam enfeiando as ruas.

AMIGO-12345/x – Sai! Sai! Sai!

ESGALAMIDO – Conhecem a Menina?! Revela os detalhes mais importantes da tua vida!

MENINA – (na plataforma do carrinho) Viagens, desavença familiar, amor não

correspondido, vício, inveja, mau-olhado, depressão!

ESGALAMIDO – O mercado tá mal humorado? Tua sorte tá ficando com outro? Ela desfaz

qualquer tipo de magia de difícil solução para si.

MENINA – Resolvo todo problema de negócio, doença e tudo que não tem solução!

ESGALAMIDO – Ou que não tinha, até hoje! Consulta ao alcance de todos!

MENINA – (insinuante) Satisfação garantida!

ÁSCIO VI – (saliente) Au Au Auuuu.

FULANO – (à frente) Minha cabeça está para espocar; é aqui a Business Sonhos do Brasil?

ÁSCIO VI – (toma a frente) Hierarquia professor! (manso) Sou do Movimento dos Sem

Sombra! Quero um pedaço de chão, um lugar na fila.

AMIGO-12345/1 e /x – Tu ta é doido, é? Vai te catá, cabra safado!

AMIGO-12345/x – Sai daqui!

Sra. SICRANA - (brinca com os lábios do Sr. Beltrano) “A Business”. Quero banhar! Vamos?

(Sr. Beltrano a acompanha, antes aciona os Amigos).

AMIGO-12345/x – (gravação eletrônica) Adentrarão pelo Portão de Vidro da Business...

AMIGO-12345/1 - Se receberem o Cartão de Acesso...

AMIGO-12345/x – (gravação eletrônica) Com código expedido na Agência Vagas LTDA.


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AMIGO-12345/1 - (sarcástico para os áscios) Vão pela sombra!

FULANO – Não posso ir. Eu tenho amigos aí! Estou sendo aguardado.

AMIGO-12345/1 - Todos estão (sarcástico). Está me ouvindo!? (enrola e leva a rede).

MENINA - Estes bando de diabos já devem estar com os miolos queimados! (Áscios saem

com a coreografia: “Vai pela sombra”. Permanecem em cena Amigo-12345/x e Fulano).

(imaginação de Fulano)

MÃE – Vem cá filho, como mamãe ensinou (Fulano se ajoelha). Isto, junte as mãos, feche os

olhos, repita (pega a mão do filho e traça o sinal da cruz no rosto dele): com Deus me deito,

com Deus me levanto, com as graças de Deus e Divino Espírito Santo. Assim meu filho ficará

protegido e será um homem forte pra ser um servo de Deus. (a Mãe traça com giz um círculo

no chão, ao redor de Fulano e Amigo-12345/x, beija o filho e sai, ele fica de olhos fechados).

CENA III – Flores azuis são raras

(Tribunal. Juiz, de toga sobre a roupa de bufão, bate o martelo sobre um bumbo. Dentro da

jaula, traçada pela mãe, estão Sr. Fulano e Amigo-12345/x).

PSICÓLOGA – Está me ouvindo? Sr. Fulano!

FULANO – Mãe?!

PSICÓLOGA – Não senhor Fulano da Sylva. Estamos num tribunal, sou a psicóloga

designada para este caso, preciso fazer meu trabalho, vamos parar com essas brincadeiras!

Então, por quê manter os olhos fechados? (verifica e faz anotações).

FULANO – Eu me sinto melhor no escuro. Ninguém me vê... Não preciso me justificar. Não

preciso justificar nada pra ninguém. Não preciso pedir desculpas... No escuro eu não preciso.

PSICÓLOGA – Do que é que não precisa?

FULANO – É isto, no escuro... eu não preciso.

PSICÓLOGA – Está bem. (faz anotações) Continue. Fale mais.


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FULANO - Sei que não deveria ser tão direto... Sei que... Bem... Desculpe... Eu estava

fazendo tudo certo! Não tive filhos.

PSICÓLOGA – Não foram aprovados no Conselho de Genética?

FULANO - Não é isto. Tive medo!

PSICÓLOGA – Medo?! Por quê não tocou no Amigo? Não tem marcas nele. Não sente

raiva? Esta jaula não te deixa estressado? Não sente falta de carinhos, necessidades

humanas? Te avisaram que poderia usar o Amigo?

FULANO – A senhora tem filhos?

PSICÓLOGA – O interrogado aqui é o senhor! Responda minhas perguntas.

FULANO - Amigo? Minha vida foi um coito interrompido.

JUIZ - Ordem! (bate o martelo)

ESGALAMIDO - Palavras deste naipe não são aceitas aqui. Seja mais polido professor.

FULANO – Chegamos a passar no teste do Conselho de Genética, mas confesso que fiquei

feliz quando o governo estabeleceu uma taxa por filho, e quando estabeleceu uma renda

mínima para se ter o primeiro filho também. Filhos que nascessem fora dos padrões

estabelecidos pelo Conselho, de pais que não podiam pagar a taxa ou que não tinham a tal

renda mínima; eram destinados e reaproveitados na Agência de Serviços Inferiores.

PSICÓLOGA – Isto foi antes da fundação do Banco Mundial de Sementes?

FULANO – Sim. Só recentemente é que o Banco Mundial obteve o controle das sementes de

todas as espécies: pessoas, animais e plantas. Ninguém mais tem mãe nem pai. A

fertilização é em laboratório, ninguém mais pare. Não nasce mais feijão de pé de feijão,

simplesmente porque o feijão que se compra é pra comer, se quiser plantar ele não germina,

e não é por falta de água ou de adubo; se quiser plantar feijão precisa ir aos Bancos, precisa

ter Licença.

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PSICÓLOGA – Ainda bem que temos um governo humanista; somente quando o número era

excedente é que os execrados eram lançados ao sol. Nasci num período em que o governo

precisava da confiança pública. (gloriosa) O senhor está diante de uma das 777 crianças

escolhidas para ser emergente... (deprime-se) Meus irmãos não foram escolhidos...

FULANO – Onde estão teus irmãos?

PSICÓLOGA - Vamos falar sobre você, da relação com tua esposa! Tinha prazer quando

estava na companhia dela!?

FULANO - Adorava quando, para me agradar, ela falava comigo com voz de menina, olhava

pra mim de baixo para cima, sabe? Me aliviava quando dizia que estava cansada... Ser

homem é ser forte.

PSICÓLOGA – E tua mulher sabia deste teu (insinua à platéia que ele não gosta de

mulheres) desvio?

FULANO - Chama a isto de desvio?... Acho que ela sentia o mesmo...

PSICÓLOGA – Sentia o quê?

FULANO – Quando ela estava cansada não precisava cumprir com as obrigações de mulher.

(tempo) Ser homem por muito tempo cansa. (tempo) Vocês nunca se cansam?

PSICÓLOGA - Não me responda com outra pergunta! Limite-se a me responder! (como em

tantas vezes recompõe-se e assume subserviência em relação ao Juiz).

JUIZ – Ordem! (bate o martelo)

FULANO - Ela me atraia... por causa do nada que era ela. Sim, ela toda era nada. Não sei.

Eu precisava casar com alguém. A vida é assim...

PSICÓLOGA - Tua ficha diz que viveram juntos 15 anos; é quase uma vida...

FULANO – A senhora tem um conceito de vida muito estranho... O casamento durou...

porque suportamos um ao outro... nos acostumamos. No início a presença dela preenchia

meus olhos, me incomodava, depois eu não me importava... me sentia melhor sozinho.


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PSICÓLOGA – Sem Amigo, pode-se dizer. Preciso concluir o diagnóstico; isto é de praxe.

FULANO - Eu sei. (abre os olhos) Tua camisa é muito bonita. Flores azuis são raras.

PSICÓLOGA – Sei. Então continuemos com nosso teatro; um pouco mais de melodrama:

(distanciamento, melodramática) durante a vida que passaram juntos, chegaram a se amar?

FULANO – (também melodramático) Quando ela andava comigo colocava o braço sobre

meus ombros e eu sentia que pesava... Como se eu carregasse uma cruz... O mundo! Ela

dizia que um casal tinha de andar daquele jeito, de mãos dadas; jamais tirar o anel; se

importava com o que as amigas pensavam. O amor é um sacrifício?

PSICÓLOGA – (corte brusco) O senhor faz perguntas demais!

FULANO – Onde vai? Vender o diagnóstico dos teus irmãos execrados?! (rictus) Ahrr! (tenta

agarrar, mas sem forças, limita-se à jaula traçada com giz, vai até em frente ao Amigo-

12345/x, cerra os punhos como se fosse esmurrar, cai de joelhos).

PSICÓLOGA – Diagnóstico: Homem padrão! Tipo mediano!

CENA IV – Um casal

(Plano da memória. Quarto na casa dos Da Sylva. Antes de amanhecer).

FULANO - Ahrr (grito de pavor que não se efetiva).

FULANA - O que foi Sylva? (não se olham, monologam).

FULANO - O mesmo sonho!...

FULANA – Ainda sonhando com mulheres que vendem café?! Consegue sonhar... eu nem

durmo! (senta na beira da cama) Mas aquela quenga ruim vai me pagar!

FULANO – (senta na outra beira da cama) Sombra... que besteira!

FULANA - Quem ela está pensando que é? (passa a pentear-se)

FULANO – Este ventilador me tortura. (desliga o ventilador) Por que demora tanto a

amanhecer?! (vai até à janela e deixa-a meio aberta).


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FULANA - Só está dando aula porque é cunhada do diretor. Não desliga; eu pago!

FULANO – Na verdade não sei se era sonho ou se eu pensava... parecia tão real...

FULANA - Ainda sonha! Devia pensar num serviço! Mas pensar pra você deve ser

(sarcástica) cansativo...

FULANO – Eu te dei esta sombra! (pega a cadeira e a põe em frente à janela, senta e

continua a olhar para fora).

FULANA – (ainda na beira da cama) Tem a capacidade de chamar isto de sombra... De dia

não tem quem agüente e de noite o calor me tira o ar. Que agonia! Esta casa não tem forro!

Eu, morando numa casa sem forro! Estes ratos andam nas nossas cabeças; parece que

todas as baratas do mundo no final da vida vêm pra cá, não tem quem vença varrer tantas

baratas; tem umas que ficam viradas pra cima e aí ficam dias, ainda vivas; elas se mexem. É

estranho como elas se parecem com algumas pessoas... (tempo). Estas aranhas tecem

tanto, aos poucos vão tomando conta da casa até nos prenderem; são elas que atraem

tantas bribas, bichos horríveis, brancos e ficam olhando pra gente; não suporto mais as

picadas dessas muriçocas, estão me deixando toda marcada; estou ficando estressada

porque tenho de ficar mexendo as pernas sem parar! Todas as pragas vêm pra cá!

FULANO – Elas estão aqui! (liga o rádio).

FULANA – O quê?!

ESGALAMIDO - (imita um galo; como locutor) A previsão da temperatura é de 50 graus.

Hoje é o dia de circulação de todos com nomes que começam com a letra A.

MENINA – (como locutora) Portanto, minha amiga e meu amigo, esta é a hora de você sair

de casa, levante antes do sol, garanta já o seu lugar na fila, enquanto tem vagas!

ESGALAMIDO – Para você que aluga sua sombra, você que ainda vive na Zona Tórrida...

MENINA – Para você de sombra mirrada, você que ainda sobrevive nos Assentamentos

Paupérrimos...
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ESGALAMIDO - O Plano Globalizado de Inclusão emitirá a Licença de Livre Circulação para

quem comprovar que algum parente seu, até terceiro grau, nasceu em alguma das atuais

zonas protegidas...

MENINA – Anote os documentos que você deve apresentar: árvore genealógica, mapa

genético e o brasão de família...

ESGALAMIDO - Se você não dispõe destes documentos não se apoquente, não é Menina?

MENINA - É isto mesmo Esgalamido, caro ouvidente você não esquente a moringa...

ESGALAMIDO - Porque a Secretaria desta Capitania fornece a L.L.C. ou o Green-Card para

quem comprovar que paga dízimo superior a 1.000 créditos ao Padim desta Capitania...

FULANO – (desliga o rádio) Devia estar agradecida eu ter conseguido pelo menos isto.

FULANA – (arruma a cama) A casa da mulher do Sicrano sim é uma sombra! Ar

condicionado na casa toda; que quarto lindo! A casa tem cheiro de clínica de tão limpa!

Agora isto aqui, toda esta poeira, não tenho mais paciência pra ficar tirando pó a toda hora.

FULANO – Quando foi à casa da sua prima?! Como conhece o quarto deles?...

FULANA – (gagueira) As pessoas falam...

FULANO – Cada tijolo foi suado, a casa comeu toda a bolsa-auxílio do serviço voluntário.

FULANA – (liga o ventilador; vai até Fulano, faz gesto para que se levante, pega a cadeira)

O marido dela (abraça a cadeira ao peito) foi indicado diretamente pelo Padim para ser o

gerente geral nacional da Business Sonhos do Brasil. Fui conversar com ele. Pelo menos eu

tenho família, fui muito bem tratada (põe a cadeira diante do espelho, senta.). Até me

convidou para almoçar.

FULANO - Sabe muito bem que as casas com sombra custam muito mais caro...

FULANA – Sou de família... e fui me casar logo com este traste...

FULANO - Poderia ter alugado, sairia mais barato... mas respeito a tradição... A vida é

assim! Homem pra casar precisa ter uma casa e eu sou é homem! (volta à cama).
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FULANA – (passa creme no rosto) Fiz este sacrifício por ti. Precisava ver a cara daquela

secretariazinha quando eu disse que era uma Sylva com Y, prima da mulher do Dr. Sicrano...

Acredita que ela teve a coragem de dizer que era a minha prima?! Imagina que minha prima

iria trabalhar como uma secretariazinha! (passa creme no rosto, obsessiva) Tu deveria ter ido

para ver quem eu sou. (tempo) Tu vai trabalhar! Ah vai! Nem que seja de lamber o chão... E

no natal, quero aquela blusa que me prometeu desde o nosso primeiro natal juntos! A blusa

da Eva era linda! Azul turquesa. Claro, o marido dela é um homem de verdade! Se bem que

minha saia estava bem mais na moda que a daquela palhaça dos brincos enormes. Devia

era colocar uma melancia no pescoço. Este mês pode se preparar para pedir dinheiro para

pagar a luz, eu não vou pagar! (tempo) Ai meu deus! Me ajude. Sempre fui uma mulher

quieta... estou com este homem, mas até que ele é tão bonzinho, talvez ele nem mereça

estar debaixo das tuas sandálias, precisa apenas que o senhor olhe para ele... (muda o tom,

para o marido) Me prometeu de tudo! Não é! Ah, mas tu vai trabalhar! Vai me pagar tudinho!

Ah vai! Está me ouvindo?

CENA V - Escritório da Business

(Fulano fantasia. Áscios estão como os Esperançosos Folheadores de Revistas).

TODOS – (canto) na Business sucesso eu terei

meus sonhos realizarei

na Business Sonhos me amarrei

com o Verbo no futuro

deposito minha esperança

Com sombra ou sem feliz

serei o próximo!

o próximo serei!
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serei o próximo!

Sra. SICRANA - Está me ouvindo? Senhor! Próximo!

FULANA – Ele está comigo. Não sai da minha sombra este homem (patética).

Sra. SICRANA – Sei...

FULANA - Querida, sou a Sra Fulana de Tall e Sylva, se escreve Tall com dois eles e Syl

com (diz as letras em inglês) S.Y.L, mas se lê-se Syl como em português mesmo, sabe?

Então: (didática) Sra. Fulana de Tall e Sylva.

Sra. SICRANA – Desculpe, a senhora marcou hora?

FULANA – Não, diga meu nome que o Dr. Sicrano me atenderá.

Sra. SICRANA - Aguarde por favor (Esgalamido traz na bandeja um telefone), Doutor a Sra.

(a Sra. Fulana) como é o nome?

FULANA – Fulana de Tall e Sylva.

Sra. SICRANA – A Sra. Fulana de Tall e Sylva com y está aqui. (tempo) anrã... entendi...

Certo! (a mulher) Desculpe... ele não está lembrado da senhora.

FULANA – (gestus) Diga que sou a prima da esposa dele.

Sra. SICRANA – Dr. desculpe, ela diz que é prima da Sra. Sicrana. (tempo) Como? (tempo)

Não conheço! (tempo) Tudo bem Doutor, desculpe... (à mulher) Desculpe, ele diz que

definitivamente não lembra da senhora, ele pediu que aguarde.

FULANA – (gestus) Humrumhum

Sra. SICRANA – Senhora, a senha.

FULANA - Senha?

Sra. SICRANA - Sim... tem 17 pessoas aguardando, se der tempo ainda hoje ele vai atender.

Sr. SICRANO – Estou saindo para o almoço.

Sra. SICRANA – Ok, Doutor.

FULANA – (intenção) Não lembra de mim?


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Sr. SICRANO – Sra... Claro! Lembro! Sra. Das Dores!

FULANA – Ora... (patética) O senhor é uma pessoa interessante... Isto não se faz... Como

está a prima? Vou dizer para ela que tu nem se alembra mais da família... Também, trabalha

muito! Precisa é de alguém que cuide de você. Digo, ela precisa passear mais com você...

Sr. SICRANO – Diga isto para ela, esta é a Sra. Sicrana, minha esposa.

FULANA– Ai desculpa! Que lindo! Trabalham juntos! Ai, eita mancada a minha! Como

mudou! Não te reconheci... Desculpe.

Sra. SICRANA – Tudo bem, nem eu te reconheci. (ao Sr. Sicrano) O Sr. Beltrano ligou.

Sr. SICRANO – Claro. Temos um almoço, não posso demorar, já estou atrasado!

FULANA – Será que não podemos conversar? É muito importante!

Sr. SICRANO - Venha, no caminho conversamos. Sicrana, cadê o meu gravador de voz?

Sra. SICRANA – Aqui, já transcrevi. (entrega o gravador) Que horas tu volta?

Sr. SICRANO – (coloca o gravador no paletó) Não sei!

FULANA – (entrega a senha) Benzinho, obrigada por tua atenção.

FULANO – Eu...

FULANA – Não queridinho, pode voltar para casa. Está muito quente, vai lhe dar aquelas

dores de cabeça. Chegando em casa tome um banhinho bem gostoso, tá bom? (comenta)

Tadinho, é meu marido, fazer o que né? Ele é tão bonzinho. (sai com o Sr. Sicrano).

CENA VI – Comércio de sombras

(Outra cena fantasiada por Fulano. A negociata com grande sensualidade).

MENINA – (cumplicidade com o público) Sr. Fulano apresente o seu Cartão de Acesso.

Sr. FULANO – Que Cartão? Não tenho! O sonho é meu!

MENINA – Já virão atender! (ao cliente que entra) O senhor é da casa, será um prazer servir.

Sr. BELTRANO – (saliente) O prazer será nosso. O Sicrano chegou?


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MENINA – Ainda não. Vai querer algo especial para hoje?

Sr. BELTRANO – O que eu gosto sirva sempre, o mesmo sorriso, natural e espontâneo,

parece uma fotografia.

MENINA – 3 por 4 na medida do Doutor. (Beltrana vem à mesa) Satisfeito?

Sr. BELTRANO – (fixo em Beltrana embora fale com a Menina) Feito! Continue assim e logo

logo vai estar no mural: “Lindinha, funcionária do mês”. Uma semana inteira as pessoas vão

saber quem você é; pode até colocar isto no teu currículo.

MENINA – Obrigada, tenho me forçado muito.

Sr. BELTRANO – Meu amigo Sicrano, que elegância!

Sr. SICRANO – Estou na gerência, quem me veste é a matriz. Boas novas?

Sr. BELTRANO – Em 2022 nossa capitania será livre, vai desfilar no Bloco das Emergentes.

Sr. SICRANO – O Grande Gestor disse para os Secretários utilizarem o (enfático) "potencial

financeiro que é o coração do ser humano" para resolver os problemas sociais em vez de

passarem o tempo inteiro discutindo se têm ou não têm créditos.

Sr. BELTRANO – Tenho ótimos projetos para nós!

Sr. SICRANO – Agora todo mundo tem projeto para tudo. (Beltrana sai). Preciso de mais

sombras, a baixo custo! Não tenho créditos pra investir em Amigos, o alvará é caro demais.

(garçons servem a Sra. Fulana nua como prato principal, sobre seu corpo diversas iguarias).

Sr. BELTRANO – Existem modelos populares. É sombra que tu quer? Tenho umas

voluntárias, nada de greves, férias, nem décimo-terceiro; todas dispostas a um acordo

amigável! Servidas de bandeja!

Sr. SICRANO – Oba! Vamos começar pela sobremesa? O negócio dos pontos de ônibus

funciona. A construtora da Cidade Verde faz pontos mui calientes. O governo pede pra minha

empresa construir pontos mais (intenção) “confortáveis”; enquanto o transporte não vem, o

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(gesto) populacho admira propagandas dos nossos clientes. Mantenho meu parceiro

saciando sua carência aos poucos, deixando margens para melhorias futuras.

Sr. BELTRANO – Ora, eu não ia te passar um mau negócio! Afinal somos amigos. Mas

algum dia teu parceiro pode querer experiências diferentes. O mundo é muito atraente.

Devemos variar nossos investimentos. Imagina se você pudesse comercializar sombras de

árvores dos locais públicos, hoje em dia, sombra de gente quase não tem.

Sr. SICRANO – Por que eu ainda não tinha pensado nisto?

Sr. BELTRANO – Sábia natureza! Porque eu trago o negócio pra você. O Grande Gestor

autorizou a licitação, tudo conforme manda o figurino. Contrato de exclusividade.

Sr. SICRANO – E a limpeza? Quem vai tirar os ambulantes, os mendigos das sombras?

Sr. BELTRANO – Não me conhece!? Está tudo sob controle. Tem gente que vende luz, que

vende cruz. Ué! Precisa de sombra? Eu coleciono e vendo. São virtuais e os valores reais.

Sr. SICRANO – Vamos receber visitas da matriz; nosso último relatório não foi muito

satisfatório; estamos perdendo para as filiais da África e da América Central, e você sabe,

ser explorado por nosso padrinho comercial é um privilégio. A concorrência está grande. Já

tem outras ONG’s atuando no mesmo ramo.

Sr. BELTRANO - Meus amigos no Conselho dos Secretários aprovaram o projeto do nosso

Doutor. Quanto aos sem sombra, antes que se tornem perigosos, o governo tem projetos de

reciclagem e recrutamento. A ONG vencedora da licitação receberá meia bolsa para cada

execrado que for aproveitado. Para os que não se enquadrarem, apela-se para a Santa

Providência (gesto de execução e em seguida o sinal da cruz).

Sr. SICRANO – Podemos lucrar com as sombras e com aqueles que não têm sombra?

Sr. BELTRANO – É assim, nosso Doutor provou que casas com sombra em frente, à tarde,

são boas para a saúde. Lotes de mesma área e numa mesma quadra tem valores diferentes,

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justifica impostos diferenciados. Tiramos as sombras, ou compramos dá no mesmo, e somos

parceiros do governo para ajudar quem não tem sombra. Ganhamos nos dois casos.

Sr. SICRANO – (improvisa um jingle) “na Business sucesso terei // meus sonhos realizarei //

na Business Sonhos me amarrei”. Pode ser muito bom!

Sr. BELTRANO – Tudo “sem fins lucrativos”. Não é genial?

Sr. SICRANO – Espero não precisar pagar os jornais pra cuidar daquela gente do

Movimento dos Sem Sombra!

Sr. BELTRANO – Nosso slogam é: “Vá pela sombra”. Quer saber? Queria controlar o sol; e

aí ter o controle total sobre as sombras. Se eu controlo a luz não vou controlar as sombras?

FULANA – (saliente) E se venderia cruz se ninguém cultivasse o pecado?

Sr. BELTRANO – Tem gente que se alimenta do pecado, eu me alimento das sombras.

(brinca com o corpo de Fulana) Imagina Sicrano, eu sou luz e tu também, se a gente cruzar

com este corpo, produzimos sombras. Mais luz, mais sombra. Entendeu?

Sr. SICRANO – Sem este corpo, não tem luz nem sombra. O sol é azul.

FULANA – As luzes depois de terem cruzado comigo vão cumprir o prometido?

Sr. BELTRANO – Pode deixar comigo, o lugar do Fulano na fila está garantido.

Sr. SICRANO – Me garanta aprovação na licitação e fazemos o mesmo acordo de sempre.

Sr. BELTRANO – Fechado! Faça o depósito naquelas três contas. Nada em meu nome

Sicrano (chama a Menina). Lindinha, (referindo-se à bandeja) embrulhe o resto pra viagem

que o Sicrano vai levar! (risos, saem; áscios avançam vorazes sobre a mesa).

Sr. FULANO – (enquanto a cena bacante se desenvolve ao lado) Ei! Ninguém vai me servir?

MENINA – Não ligue para aquilo (em relação ao banquete), é tudo sonho. Para o senhor

vamos ao Cardápio Alternativo.

TODOS - (ainda no banquete): Calango no espeto

Pedaços de // Retalhos de
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Recolhidos na Ceasa

No final da feira

No caldo ralo de feijão

Casca de banana

Bunda de formiga

Ricas em potássio

Nacos generosos de palma

Ricos em ferro

Bom pra isto e aquilo

Enlatados já vencidos

Talos disto e daquilo

As partes, o fato e miúdos

No caldo ralo de feijão!

(áscios saem carregando a Sra. Fulana da Sylva) Piaba Frita! Piaba Frita! Piaba Frita!

ESGALAMIDO – Faltou osso, eu gosto é de chupar osso, tutano é bom.

MENINA - Tutano é bom, mas tu não tem. Bom mesmo é gongo, gongo frito com farinha.

(imaginação de Fulano)

PAI – Vai servir a Pátria filhão?! Muito bem, vai aprender o que é disciplina. Aprender a ser

um homem de verdade!

FULANO – Mas pai...

PAI – (interrompe e indica sinal de silêncio) Lá você vai aprender a ouvir os seus superiores.

(o pai traça com giz o círculo em torno de Fulano e do Amigo-12345/x, faz sinal de

continência, Fulano corresponde e assim fica até que o pai desapareça).

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CENA VII - A reconstituição

(Tribunal. Fulano da Sylva na jaula traçada por seu pai. Esgalamido e Menina cumprimentam

sarcasticamente Fulano com uma continência).

JUIZ – Ordem! (bate o martelo)

ESGALAMIDO – (ao Juiz) Meretrícimo, vamos reconstituir os fatos. (ao público) Senhoras e

senhores, jurados, furados e murados, tenho a honra de apresentar a Trupe Que Se Lembra!

(os integrantes da Trupe entram, como bufões, aspectos de figuras cujos movimentos

lembram os de marionetes, reconstituirão situações com Fulano da Sylva, interagem como

num pesadelo). Era uma vez...

MENINA – Há muito tempo atrás...

ESGALAMIDO – Num reino muito distante (começa a reconstituição).

SICRANO - Como está? (acompanhado de Sicrana)

FULANO – Estava te procurando.

SICRANO - Para quê?

FULANO – Avisa ao Grande Gestor, vão fazer uma manifestação na hora da reunião.

SICRANO - Reunião da Reforma Universal?

FULANO – Sim, é... me diz, já foram distribuídos os cargos de segundo escalão?

SICRANO - Depois a gente conversa, obrigado pelo aviso, um abraço.

ESGALAMIDO - (como Mestre de Cerimônias) Vamos agora ouvir o Ilustríssimo, o

Excelentíssimo, o Magnificente, o nosso Grande Gestor Professor Doutor pós pós neo neo.

GRANDE GESTOR – Ilustríssimos da minha esquerda, Ilustrísssimos da minha direita, todos

aqueles que estão na primeira fileira, aqueles que usam azul, senhoras bem-vindas,

senhores bem-vindos e... (fotos) e... (fotos) autoridades aqui presentes... (fotos) estaremos

dando um voto de confiança ao amor que o homem tem no coração, aproveitando o seu

potencial financeiro, ando, endo, indo, ondo, undo, é assim que vamos resolvendo os
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problemas sociais, tipo, sei lá, tipo, como se diz, ou não, entendem? Vamos estar

substituindo todos os muros por paredes de vidro. Portas de vidro! Janelas de vidro!

Sapatinhos de cristal! Não estou querendo perder tempo discutindo se temos créditos ou

não, temos capital humano. Precisamos estar aproveitando, ando, endo, indo, ondo, undo,

esta onda de otimismo, enquanto o humor do mercado está sendo favorável, pois uma nova

era está começando hoje. Pocotó-pocotó! Somente assim nossa Capitania estará sendo

competitiva no mercado. Ti-bum!

SICRANA - Ai que lindo! Sabia que eu ajudei a escrever este discurso? Não é lindo?!

BELTRANO – Sim. Vamos lá. São aqueles ali? Quer que a gente pegue o nome deles?

SICRANO – São eles. Não precisa pegar nomes, já sabemos quem são. Sicrana vá com ele.

SICRANA – Tá bom querido.

BELTRANO – Conhece algum deles?

SICRANA – Ali está um deles.

BELTRANO – Tu tá é doida, é? Ele é o juiz! Esgalamido, e agora?

ESGALAMIDO – Algum amigo pra fazer papel do aluno? Alguém?! Sr. Meretrícimo poderia

nos emprestar sua máscara, sabemos que o senhor já chegou a fazer bico como ator.

MENINA – (ao público) Isto vai ser moleza, talvez ele ainda lembre daquele dia, o

Meritíssimo era o aluno. (ao Juiz) Vai lá meritíssimo, usa tua memória emotiva.

BELTRANO - TV MEIO BLOGAL. Soubemos que vocês têm observações bastante

interessantes sobre as condições sugeridas pelo Conselho Gestor das Capitanias

Internacionais para que venhamos fazer parte do Bloco das Capitanias Emergentes. O que

vocês propõem como alternativa?

ALUNO-JUIZ – (pigarreia) Ham ham. Primeiro, dizer que nossas observações são

“interessantes”, não informa nada. Segundo, (tomado pelo ímpeto de ex-aluno) as tais

“sugestões” do Conselho são impostas como leis, se a gente não concorda, sofremos
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boicote. Ham ham (retoma a compostura) Terceiro, não fomos condenados pela natureza a

fazer parte do Bloco, (ímpeto) esse é o destino que nos quer obrigar a voz do Padim que é a

Dominante no Conselho. Ham ham. Nossa proposta é que seja cumprida nossa Constituição.

ESGALAMIDO – Palmas! Palmas! Se ator ganhasse crédito como o Juiz, dava até pra trocar

de profissão. (para o público) E se eu tivesse cara-de-pau seria Juiz!

MENINA – (belisca Esgalamido) Vamos continuar com a reconstituição?

ESGALAMIDO – Beltrano é com você.

BELTRANO – Deixa comigo. O que o Aluno-Juiz falou?

SICRANA – Não sei, mas gostei de ver os lábios dele dizendo “Padim, dominante”.

BELTRANO – Vou entrevistar agora o professor de História. O senhor é contra a Reforma?

ALEX – Sou mesmo! A população paga impostos, a constituição garante o direito à

educação e à cultura; é um dever do Estado e direito do cidadão...

FULANO – (torce para que a manifestação se realize, à surdina) Vai! Não acredito que eles

não vão se manifestar! E se organizaram um esquema pra impedir a manifestação e não

acontecer nada?! Vão achar que menti! Estes filhos da p... (espera o martelo que não vem)

têm de fazer a manifestação que prometeram! Se não estou acabado! Vai!

ALEX – A reunião era pra decidir a Reforma Universal, você votou?

(A Trupe arma em torno de Fulano e de Alex um ringue; bate o gongo).

FULANO – (sente-se flagrado) Não foi nada disto! (tempo) O que é que esperavam de mim?

Que eu fosse alguma espécie de herói? Concordo que os motivos de vocês eram legítimos,

mas tem maneiras de fazer as coisas. Acham que fui um traidor?! Pois achem.

ALEX - “Os motivos de vocês eram legítimos”; Sylva, nós somos da mesma classe!

MENINA – Tudo farinha do mesmo saco.

FULANO - Que classe? Você sabe, o Padim diz que hoje não tem mais isto.

ALEX – Lá vem com as tuas citações! Só sabe arremedar mesmo. Tem preguiça de pensar?
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FULANO - Não fala isto! Isto eu não admito!

ALEX – Tu mesmo já chegou a falar em emancipação, hoje defende os ideais do Construtor

das Paredes de Vidro, paredes mais cruéis que os antigos muros; querem fazer acreditar que

estamos em um mesmo lugar.

MENINA – Tudo lorota, conversa pra boi dormir, pura embromação!

ALEX - Os construtores das paredes de vidro têm um sindicato eficaz para defender o lugar

deles. E nós?

FULANO – Eles querem nossa participação! Isto é solidariedade! Um pacto social! Somos

um só rebanho de um só pastor, agora o patrão e o empregado podem dar as mãos!

ALEX - Acorda! O discurso antes transformador agora faz parte do programa dos

conservadores: “Vamos dar bolsa, cestas básicas!”; “Vamos ensiná-los a viver de

reciclagem!”; “Vamos jogar umas bombas, depois mandamos ajuda humanitária!”. Viver de

reciclagem! Sylva, você gosta de comer restos? É esta a nossa participação?! Sylva, o

gemido do pobre desgraçado é usado no discurso do opressor! Eles poluem o mundo e

pedem pra nós diminuirmos nossas queimadas. Prefiro coco e não coca e não vem com

papo de xenofobia que não cola. (bate o gongo, recuperam o fôlego e retornam ao debate).

FULANO - Tu não é periferia. Tu não sabe o que é passar fome! Nunca andou em pau-de-

arara. Não passa sede e nem fome! Por que fala em pobreza?

ALEX – (mangando) Não se sente fome só de feijão!

MENINA – Isto mesmo, o quiabo, o maxixe, não tem não?

ALEX – Pô Menina! Assim não dá, tira toda minha concentração!

MENINA – Beleza, vai lá, foi mal, vai lá: 3, 2, 1...

ALEX - Cadê a Revolução Social? O Conselho Gestor das Capitanias Internacionais está

queimando o direito conquistado pelo trabalhador durante séculos de lutas. Isto é aliança? É

flexibilidade?
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FULANO – O que está querendo? Luta armada?

ALEX - Acorda Sylva, a luta armada já começou! De um lado, os defensores do mundo, em

nome da paz universal e com a bandeira da democracia, da liberdade, invadem países e dão

as novas regras da Aldeia Global. Do outro lado, homens se transformam em armas para se

defenderem; para ir fazer a feira.

FULANO – Não quero saber de história! Caro professor, eu quero viver tranqüilo, quero dar

minhas aulas, já joguei a bandeira branca, joguei a toalha. Pronto! Esse delírio é meu, acaba

com esta porcaria!

JUIZ - (rindo da situação) Direito negado! (bate o gongo com o martelo)

ESGALAMIDO – Para vocês que são nossos ouvidentes Classic e Gold temos uma

entrevista exclusiva com o Porta-Voz do Padim: O que muda no cenário da nossa Capitania?

PORTA-VOZ – (a fala é gravada, dublagem, a personagem é apenas o veículo da voz) De

agora em diante fica estabelecido que somos todos parceiros; cada cidadão é uma empresa;

cada empresa tem autonomia. Autonomia para se adaptar aos paradigmas contemporâneos,

assumindo o caráter responsável que é exigido. O desenvolvimento da nossa Capitania

doravante será medido não pela riqueza, mas pela felicidade. Portanto, nada de cara feia,

ninguém mais emburrado, nem carrancudo ou cabisbaixo! Nosso eficiente governo vai

orientar a política econômica pela felicidade e não pelo crescimento econômico. Para manter

nossa Felicidade Interna Bruta acima da média, vamos alistar os voluntários otimistas, cuja

função será andar pelas ruas divulgando boas novas. Também serão incentivados os

programas que provoquem o riso fácil; afinal ninguém tem tempo pra ficar adivinhando

charadas. Para democratizar a cultura, nosso Secretário, o Ilustríssimo Hilário, já está

fazendo do nosso teatro oficial o melhor lugar para se ouvir uma boa piada, depois de um dia

estressante podemos desopilar. As universidades abrirão cursos de especialização em

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alecrologia. Só para concluir e parafraseando nosso Padim: qualquer discurso contrário é

nhenhenhem da oposição. (no decorrer do discurso todos foram se retirando).

CENA VIII - A enorme fila

(Plano da memória. Agência Vagas Ltda. Paredes de Vidro. Um quadro luminoso avisa

números de senhas e anúncios: “Saia Da Fila!”; “Adquira Sua Senha Antes!”; “Em Um Posto

Avançado!”, “Nosso Representante 24horas!”).

MENINA – (para o público) É aqui a Agência Vagas Ltda.

JÁ MORREU – (anda com as mãos, que calçam chinelos) O senhor sabe quando vai abrir?

ÁSCIO VI - Dizem que já estão atendendo.

JÁ MORREU – Quando cheguei, a fila já dobrava a esquina.

ÁSCIO III - O senhor veio pra vaga também?

JÁ MORREU - Que vaga? Vi uma fila e entrei.

ÁSCIO VI – É mesmo é? Rapaz, como tu é esperto!

MENINA - (para o público) Hoje, a pessoa entra na fila e depois pergunta pra que é a fila.

ÁSCIO VI – (sarcástico) A gente só vai a algum lugar se pega fila. É mais democrático!

MENINA – (para o público) A fila agora é um meio de transporte.

ÁSCIO III – O senhor sabe se era preciso trazer carteira de motorista? (Já Morreu entra no

lugar dela) Esqueci...

ÁSCIO VI – É obrigado trazer, inclusive o Teste de Sangue; Certificado do Conselho de

Genética; a Licença de Livre Circulação. Se a senhora não tem, vou dar um conselho de

amigo, é melhor ir embora e voltar outro dia.

ÁSCIO III – É? Então não dá pra mim (sai).

JÁ MORREU – (levanta, calça os chinelos e vai atrás) Ei! calma aí. Espera, sei onde tem

outra fila.
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ÁSCIO VI – Um a menos! (aparte) Menos são, melhor passamos! O meu já tá garantido.

ÁSCIO VII – É, mas tinha de trazer três fotocópias de cada documento. O senhor trouxe?

ÁSCIO VI – Eu? Claro! Deixa eu conferir...

AMIGO-12345/1 – (que entrara assoviando) Próxima! Os documentos. Muito bem, atrás da

faixa! Mais para trás! É cega é!? Atrás da faixa! Muito bem, venha agora. Devagar! Isto,

agora sim. Passa!

Sr. BELTRANO - Preencha esta ficha!

MENINA – Agora mestre.

AMIGO-12345/1 - Próximo! Mantenha-se na linha!

BELTRANA – (ao áscio VI) Ai, brigadinha. Paguei com o cartão. Xau, lindinho!

ÁSCIO VI – É só ligar, nossa empresa 24HORAS está a sua disposição. (irritação dos

ascios por causa da venda de lugar na fila).

ÁSCIO VII – Só vou fazer uma pergunta. É este os documento? Tenho experiência.

AMIGO-12345/1 – Experiência? Isto não tem mais importância. Não fazemos reciclagem; já

procurou a Agência de Serviços Inferiores? Aguarde daquele lado.

BELTRANA - Oi gente, com licença! Boa tarde!

Sr. BELTRANO - Ei Amigo-12345, esta tem os atributos necessários.

AMIGO-12345/1 – É! Vem cá lindinha, tem implantes?

BELTRANA – (empunha uma caneta na boca) Tenho! De inglês, de digitação, e na

Universidade estou pagando disciplinas sobre outros implantes atraentes.

Sr. BELTRANO - É mesmo é? De quê?

BELTRANA – Adivinha? Ui! Caiu, licença. (abaixa para pegar a caneta).

AMIGO-12345/1 – Coloque o e-mail, quero entrar no seu blog; preencha a ficha direitinho.

BELTRANA - Treinamento virtual? Interessante! Deixa eu anotar: qual teu nick number?

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AMIGO-12345/1 - Sou o Amigo-12345/1 (orgulhoso de sua patente: /1). Possuo as mais

recentes inovações tecnológicas em nanobiomecatrônica e sei beijar, e beijo na boca!

BELTRANA – Sabe é? Interessante, mas tua numeração é doze mil e quanto? Bom... anotei,

brigadinha bem (desdenhosa).

AMIGO-12345/1 - Próxima! Mantenham-se na linha!

ÁSCIO VII - Olha, conheço o Sicrano, patrão da minha mãe... ele taí?... Ele disse pra mim

vim e preencher uma ficha, por isto eu vim...

AMIGO-12345/1 – A senhora novamente? Cadê os documentos?

ÁSCIO VII – Tão aqui, pronto.

AMIGO-12345/1 – Fale com o Sr. Beltrano.

Sr. BELTRANO – Preencha a ficha, coloque naquele monte e aguarde a agência ligar.

ÁSCIO VII – O senhor liga pro orelhão e pede pra chamar a filha do Seu Beiço, que é eu.

Sr. BELTRANO – Quê?! Não posso fazer nada, coloca teu endereço para correspondência.

ÁSCIO VII – Doutor, na minha casa não tem endereço, nem que tivesse, num sei escrevê.

Sr. BELTRANO – Vive lá nos Assentamentos Paupérrimos, não é? Olha aí uma invasora!

AMIGO-12345/1 – Assim não dá minha tia, atendimento pra analfabetos e mais de 40 é das

7 as 10h!

ÁSCIO VII – Cheguei cedinho! Tá todo mundo de prova.

AMIGO-12345/1 – Seu horário foi de manhã. Não podemos fazer nada, a vida é assim.

ÁSCIO VII – Mas doutor...

Sr. BELTRANO – Mas o que?!

ÁSCIO VII - Nada. Disculpa. Obrigado (procura ajuda pra preencher a ficha).

ESGALAMIDO – Vamos trabalhar mais e falar menos! Queremos ser atendidos!

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AMIGO-12345/1 - O amigo leu aquele aviso? Faltar com respeito ao funcionário é crime, de

acordo com a Lei dos Funcionários Precavidos. (serve água ao Sr. Beltrano). Próxima! Pela

faixa amarela!

ESGALAMIDO – Ê mano, nem parece que mora lá nas quebradas com a gente.

AMIGO-12345/1 – Aqui o papo é outro; nem te conheço; me erra mano!

Sr. BELTRANO - As fichas de hoje já foram preenchidas!

AMIGO-12345/1 - (pega um café e serve ao Sr. Beltrano) Me chamou senhor?

Sr. BELTRANO – Passa as pessoas desta lista pra frente e vamos fazer a seleção.

AMIGO-12345/1 - Sim senhor. (confere) Vocês duas e o senhor podem passar.

FULANO – Obrigado.

ÁSCIO VII – Que história é esta, a gente chegou junto.

FULANO – Acontece que não tenho 40 ainda!

CENA IX - A seleção

(Plano da memória. Sala onde se fazem dinâmicas para seleção dos novos servidores).

AMIGO-12345/1 - Vocês estão confortáveis? Acredito que não. (solícito em relação à

aprovação do Sr. Beltrano). Vamos romper com esta forma tradicional de relacionamento?

Muito bem, vamos colocar as cadeiras num círculo. (solícito em relação à aprovação do Sr.

Beltrano) Se chegaram até aqui é porque são campeões. Até outro dia eu era apenas mais

um de vocês. E pelo apoio de pessoas como o professor aqui presente e ao meu esforço

(serve um copo d’água ao Sr. Beltrano) consegui vencer. É importante que vocês

mantenham a felicidade no coração; assim já estarão muitos passos à frente dos perdedores.

Vamos nos dar as mãos. Coloquemos nossas inteligências emocionais para funcionar.

Nosso mundo precisa de cidadãos flexíveis, portanto vamos nos exercitar. (tempo) Com

vocês o nosso professor (gesto para o Sr. Beltrano assumir).


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Sr. BELTRANO – Muito bem, chega disto, não é? Nossa agência Vagas Ltda é uma das

melhores agências de seleção e treinamento de pessoal. As melhores empresas desta

Capitania são nossas clientes. Daremos início ao processo de seleção; tão logo tenhamos

divulgado o nome dos classificados, faremos um breakfast de 20 minutos; tempo de ir ao

toillet e de tomar um capuccino; então retornaremos para as entrevistas com os

classificados.

AMIGO-12345/1 - Vamos distribuir os testes; são muito simples, leiam com atenção. Só

comecem a preencher quando dermos a largada, o start! Para segurança de todos; vocês

estão sendo filmados; os testes não são exatamente idênticos, portanto, não se esforcem em

querer pescar as respostas dos outros colegas. Não esqueçam: “Sorria. Vocês estão sendo

filmados”. Vamos? É um, dois e...

AMIGO-12345/1 e Sr. BELTRANO – Já!

AMIGO-12345/1 - Go! Go! Go!

(ações concomitantes)

MENINA – (sobe na cadeira e canta o hino nacional, ao terminar desce e retorna aos testes).

BELTRANA – (fica de joelhos e reza, ao terminar retorna à cadeira, aos testes).

FULANO – (segue instruções assinaladas num mapa; acha uma garrafa e grita) “Eu achei

mamãe, eu sou um menino inteligente!” (retorna à cadeira, aos testes).

ÁSCIO XV – (como gato, mia, lambe e grosa; beija o pé de um selecionador; volta à cadeira

e aos testes).

BELTRANA – (pega a garrafa achada por Fulano e requebra sobre ela, retoma os testes).

(gargalhada dos selecionadores)

FULANO – (sai correndo e fura os balões pendurados; dentro de um dos balões há um papel

onde lê em voz alta) “Serei um sucesso e vou realizar meus sonhos” (retorna à cadeira).

ÁSCIO XV – (como Oficial Militar, pega um cacetete, tenta disciplinar outros como recrutas).
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MENINA - (gira como dervixe e tenta fazer os outros girarem até a vertigem).

FULANO – (tenta formar esculturas com os outros; que resistem porque têm seus testes

para executar; estapeiam-se com certa compostura, cria-se uma pantomima) Sou um artista!

Sou um escultor! (Cacofonia. Pantomima e ritmos alcançam o paroxismo).

AMIGO-12345/1 – (bate o gongo) Muito bem, chega!

Sr. BELTRANO – Chega! Parem! Eu disse parem! O primeiro teste dizia: “o mais rápido

possível faça...”, mas a frase seguinte dizia: “Antes de executar o que manda a frase anterior,

leia com atenção a última questão”. O que diz a última questão?

BELTRANA – “Não precisa executar nenhuma das questões anteriores, apenas escreva seu

nome e entregue a um dos selecionadores. Parabéns! Muito sucesso!”.

AMIGO-12345/1 - Parece que nenhum de vocês leu a última questão. Mesmo assim,

parabéns! Aqueles que passaram no teste serão chamados por nossa agência. Vamos

novamente fazer um círculo, nos dar as mãos, agora juntem as mãos, assim. Respirem

profundamente... profundamente. Abrace a pessoa que está do seu lado. Epa! Ei! Calma! O

teste já terminou, vocês são amigos agora...

Sr. BELTRANO - Mas não se preocupem! Além dos testes, a agência valoriza muito os

implantes, os dotes e as dimensões das suas sombras. Todos vocês são pessoas especiais

e, portanto, estarão fazendo parte do cadastro da nossa agência.

BELTRANA – Viva! Yes!

TODOS - (olham com espanto para ela)

FULANO – (ergue receoso e educadamente a mão) Licença, é... e se por acaso a pessoa

não tiver sombra? (Sr. Beltrano começa a rir, Amigo-12345/1 acompanha e em seguida

todos. Permanece o Amigo-12345/x e Fulano).

(imaginação de Fulano)

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MÃE – Parabéns meu filho! Me orgulho de você! Dou muito valor as letras que tu estudou.

Teu padrasto não veio, tu sabe a opinião dele, entenda. Ele é um sargento, terceiro sargento,

sempre achando que tu devia era fazer carreira no exército. Mas teu pai, tão humilde! Um

magarefe. Que Deus o tenha. Onde estiver, está feliz que o filho dele tem um diploma. (a

mãe traça, como antes, a jaula com giz, beija-o e sai. Fulano fecha os olhos e assim fica).

CENA X – Human Zoo

(Tribunal. Fulano da Sylva na jaula traçada com giz no chão. Cacofonia invade o ambiente.

Esgalamido usa uma capa de chuva, é de plástico e transparente com muitos bolsos,

também usa uma cartola).

ESGALAMIDO – (sua bocarra é projetada, o grito inicia o espetáculo) Silêncio, está me

ouvindo? “Please dont’t disturb”; leiam as placas, senhores! Aproximem-se senhores e

senhoras! Mas somente até a linha amarela. Não é permitido dar comida, pois ele tem uma

dieta controlada pelos nutricionistas da Central. É um ser muito dócil. Mas não se aproximem

demais da jaula, ela está carregada com fluxos desmoralizantes.

CRIANÇA – Mãe, ele vai pra escola?

Sra. SICRANA – Deixa o moço falar. Fala moço.

ESGALAMIDO – Filhinho, ele foi filósofo e professor de Artes. Como filósofo, achava que

pensar era muito cansativo. Teve muito azar no tempo dos SS, Sapientíssimos Secretários;

para eles, qualquer um poderia ser professor de Arte. Assim, passou parte da vida prestando

serviços voluntários em escolas animando crianças.

Sra. BELTRANA – Ai, isto tudo é tão emocionante! Quando vejo estas coisas no jornal ou na

TV o cheiro e o gosto são censurados, óia! Posso chegar perto dele! Tipo, posso tocar nele?

ESGALAMIDO - Para as vossas lentes indiscretas; este é o melhor dos lugares públicos que

oferece a você o melhor dos programas de fim de semana, o nosso, o meu, o teu: Zoológico
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Humano. Idealizado por nosso consultor científico o digníssimo Professor Doutor Phd. e pós

pós neo neo Feellipes Zimbrabo, presidente da Associação Americana de Psicologia, é

pioneiro em experiências com pessoas confinadas. O objetivo de Human Zoo é promover um

estudo psicológico do comportamento humano quando confrontado com situações adversas.

CRIANÇA – Mamãe, como é o nome do homem?

Sra. SICRANA - Meu filho é... alguma coisa Timbrado. Fique quieto! Vai com teu pai, vai.

ESGALAMIDO – Vocês poderão observar que pessoas normal fazem coisas extraordinárias

e até mesmo más! Apenas porque Alguém com autoridade as manda fazer! A pergunta que

os senhores devem se fazer é: Por que fazemos o que algumas pessoas nos mandam fazer,

mas desobedecemos outras? Nestas jaulas, temos testemunhos reais de pessoas que

estiveram em situações adversas! Aqui são analisados para entender os motivos das

diferenças de comportamento.

AMIGO-12345/1 – (aparece aqui sem a corrente, a coleira é substituída por uma gravata

borboleta, mas ainda apenas com os punhos de camisa. Fala à criança) Vem cá filho, vamos

tirar fotos. (ao Guia) Podemos tirar fotos?

ESGALAMIDO – Pode, desde que o senhor pague os direitos de imagem. O nosso

patrocinador exige. Vai economizar se comprar nossas fotos! Foram tiradas por um

especialista. São flagrantes da vida privada deste espécime. Elemento padrão civilizado! Na

cadeia evolutiva, conforme as experiências indicam, este indivíduo não alcançou a categoria

de pós-humano, tem proximidades com seus antepassados mais próximos os macacos!

Sra. BELTRANA – Estupendo!

Sra. SICRANA – Estupendo nada. Aposto que nem chega a ser padrão. Fotos mentem;

lembra do álbum de família que a finada mostrou pra gente lá na casa deles?

Sra. BELTRANA – Não estou falando dele, é da companhia dele; modelo novo de Amigo!

Sra. SICRANA – Ah isto?! Boba, tenho um bocado deles lá em casa!


33
CRIANÇA – Papai, compra este pra mim!

AMIGO-12345/1 – Pra você quebrar como sempre? Agora só no dia das crianças. Quieto!

ESGALAMIDO – Para realmente formular uma tese sobre o assunto, foi necessário explorar

as estruturas de poder em casa e ver como elas afetam as ações dos adultos desta espécie.

O governo autorizou câmeras secretas em cada quarto de várias casas. As agências do

governo ainda não tinham o completo controle da distribuição do poder numa família

convencional.

Sra. BELTRANA – Tipo assim, isso é que é reality show.

(sinal sonoro; luz vermelha acende; com as mãos para fora da jaula, Fulano passa a digitar).

AMIGO-12345/1 - Ele abriu os olhos!

ESGALAMIDO - A jaula é monitorada. Em determinadas horas abrimos nossas câmeras

para o mundo. Temos espectadores em todos os continentes, os mais diletantes

acompanham o dia-a-dia do nosso espécime, acompanham todo o processo. Ele chega a

receber cartas! Claro que nós verificamos antes, depois lemos para ele; pode ser que alguém

queira abreviar sua via crucis e aí... bum!

Sra. BELTRANA - Ai que susto!

ESGALAMIDO - Assim que ele chegou aqui ficou animado com os fãs... O sucesso subiu a

sua cabeça e começou a ficar mal humorado. Hoje para ele comer tem de teclar com nossos

espectadores Classic e Gold. Toda a conversa é monitorada! E antes de dormir tem de

escrever no seu blog! Fotos, conversas e diário são para um livro que será publicado após

sua execução!

Sra. BELTRANA - Que lindinho! Eu quero o livro dele!

ESGALAMIDO – Calma! Não sabemos se ele será o sorteado. São muitos os candidatos.

Uma vez por mês o público escolhe um dentre todos aqueles que estão na nossa galeria de

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executáveis. A Central tem suas preferências, mas a participação do público é muito

importante. Dá mais emoção, não acha, linda senhorita!

AMIGO-12345/1 – Com certeza este aqui não vai ser o escolhido!

Sra. BELTRANA - Eu gosto destas coisas bizarras, grotescas! Moço tem como fazer

reserva? Eu quero ser a primeira! Quero ver tudo ao vivo!

ESGALAMIDO - Aqueles que pagarem com antecedência vão receber o livro autografado

pelo Doutor e, claro, antes que nosso espécime seja lançado ao sol, vamos providenciar para

que também autografe! Vamos ver o próximo?!

CRIANÇA – Mãe, como ele vai autografar se vai ser lançado ao sol?

Sra. SICRANA – Ah filhinho eles dão um jeito. Vamos, não solta da mamãe.

ESGALAMIDO - Por aqui! Veremos um professor de História, que também não foi escolhido

no Banco Mundial de Sementes.

CRIANÇA – Mamãe disse que sou semente selecionada! (ficam Fulano da Sylva e Menina)

MENINA – Como afinal professor você veio parar nesta jaula?

FULANO - Não interessa! Estas lembranças me atormentam!

MENINA – (ao público) O Fulano não alcançou a categoria de um tipo pós-humano, ainda

tem desagradáveis lapsos de lembrança. Bora professor, tá na moda ser diferente.

CENA XI - As visitas

(Plano da memória. Sala da casa dos Da Sylva. Uma mesa, cadeiras, Tv, flores de plástico).

FULANA – Anda logo Sylva! Vem cá menina, tirou o pó das flores?

MENINA – (diarista) Sim senhora, são de plástico, o pó tinha grudado, achei melhor lavar.

FULANO – Não sei porque tenho de vestir esta roupa! Não suporto esta gravata! Este calor

do inferno! O paletó me deixa sem ar, fico me desfazendo em suor! Já não basta quando

vamos rezar O Terço na casa da sua mãe?


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FULANA - Logo chegará ao cargo de gerência, aí vai poder opinar sobre a roupa que usa!

Não é qualquer um que tem a honra de jantar com o futuro chefe!

FULANO – Não sei o que ele está fazendo aqui, nunca se interessou pela família.

(campainha igual a do início do espetáculo, feita pela sineta do carrinho de Esgalamido).

FULANA – Vai ver quem é? São eles! Meu deus, já chegaram! Olha! Vem cá! A braguilha

aberta, de novo? E a gola deste jeito! Desta vez não estraga tudo, pelo menos desta vez, tá

bom meu amorzinho... Vai abrir!

FULANO – Por que a Menina não vai? (senta)

FULANA - Porque você é o chefe da casa! (sinal pra que se levante, ele levanta).

MENINA – Atendo eu senhora?

FULANA - Vai pra cozinha menina! Só vem quando eu chamar! Entendeu! Vai queridinha.

Vai logo diabo! Ai, não sei como mamãe continua com esta menina!

FULANO – É a que está suportando mais sua mãe, está até demorando muito lá. Nenhuma

das outras ficou mais de dois meses.

Sra. e Sr. SICRANO – Boa noite Fulano! Como vai? Tudo bem?

Sra. e Sr. DA SYLVA – Boa noite Sicrano! Como vai? Tudo bem?

Sra. e Sr. BELTRANO - Boa noite Fulano! Como vai? Tudo bem?

Sra. e Sr. DA SYLVA – Boa noite Beltrano! Como vai? Tudo bem?

(As moscas)

FULANA – Aqui está o álbum que disse mostraria a vocês. (a partir deste momento projeção

de imagens de álbum de família possibilitam relações críticas com a conversa seguinte).

Sra. SICRANA – Ai, parece que você acertou na mosca! Vocês nasceram um para o outro.

FULANA - Como assim?

Sra. BELTRANA - Almas gêmeas. Isto é tão emocionante!

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Sra. SICRANA – Meu professor explicou que um grupo de células nervosas ligadas ao

comportamento sexual é que garante o sucesso entre as garotas; pelo menos entre as

drosófilas; as moscas das frutas.

FULANA - Você está me chamando de mosca?

Sra. SICRANA – Não, imagina! Acontece que a mosca é um organismo modelo com funções

celulares básicas muito semelhantes às das pessoas. Nossos comportamentos sexuais

também se baseiam num circuito do sistema nervoso que regula as atrações e o namoro.

Sra. BELTRANA - Já ouvi dizer que geneticamente a diferença entre os seres humanos e as

minhocas ou os ratos é coisa mínima.

Sra. SICRANA – Temos muito em comum com as drosófilas. Temos células responsáveis

por nosso comportamento sexual. Quando estas células não funcionam bem, as moscas

machos não conseguem cumprir os passos do ritual de namoro, “avançam o sinal”, aí as

mosquinhas fêmeas não gostam disto e não fazem amor.

Sra. BELTRANA – Adoro maçã, morango, banana, pepino; mas não sou nem um pouco

mosca, porque até gosto quando um homem, um homem de verdade, avança o sinal!

FULANA - Como?!

Sra. SICRANA - Meu bem, o pepino fica por sua conta, não sabia que era fruta.

Sra. BELTRANA - É melhor que maçã!

FULANA – (empolgada) Ai! E muito melhor!

Sra. SICRANA e Sra. BELTRANA – (olham admiradas para Sra. Fulana)

FULANA - Na salada é claro!

Sra. SICRANA - Claro. O professor disse que os rudimentos básicos das mosquinhas são

muito semelhantes com o que as pessoas fazem para namorar com sucesso.

(Os macacos)

Sr. BELTRANO - Então como vão os negócios?


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Sr. SICRANO – As terceirizadas não estão fornecendo mão de obra para jornada de 4

turnos. Dizem que o empregado não agüenta e o sindicato negocia somente até 3 jornadas.

Mas os Amigos trabalham em 4 turnos, o alvará permite.

FULANO – (deixado de lado, liga a TV, projeção de imagens mostram situações de

exploração, comentam e estabelecem relações críticas com a conversa seguinte).

Sr. BELTRANO - Nem todo mundo é como a empregada lá de casa, à nossa disposição dia

e noite; as crianças até tratam ela como se fosse da família. Pra tudo tem um jeito. Até

macacos preguiçosos podem ser transformados em trabalhadores compulsivos.

Conseguimos aumentar e melhorar nossa produção simplesmente acrescentando na comida

dos empregados uma substância que bloqueia a dopamina.

Sr. SICRANO – Que diabos é esta tal dopamina e o que tem a ver com macacos?

Sr. BELTRANO – A dopamina informa ao cérebro sobre recompensas; com o bloqueio da

dopamina o nosso Doutor fez com que os macacos trabalhassem mais e melhor.

Sr. SICRANO - Qual o nome desta substância? Já está patenteada? Posso adquirir?

Sr. BELTRANO – Informação confidencial do Laboratório Amazônia de Todos. Posso te

repassar a substância por um preço camarada. Olha, basta uma gota pra transformar todo

um exército em um bando de macacos meigos e dóceis. Sem precisar comprar alvará.

Sr. SICRANO – O Conselho de Genética vai liberar o produto para comercialização aqui na

Capitania Brasil? Vai ter licitação?

Sr. BELTRANO – Depois falo sobre estes detalhes. Escuta, esta técnica transformou a ética

de trabalho dos macacos. Como muitos de nós, relaxam quando trabalham rumo a uma meta

distante. Na experiência os sete macacos rhesus puxavam uma alavanca em resposta a

elementos visuais que apareciam na tela, e recebiam uma gota de água como recompensa.

Sr. SICRANO – Funciona do mesmo jeito com pessoas?

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Sr. BELTRANO – Sim. Eles trabalham de forma mais eficiente conforme ficam mais perto de

serem recompensados. O que é melhor, com a dopamina bloqueada, eles suportam por mais

tempo as tarefas e com dedicação, cometem poucos erros, porque já não conseguem mais

aprender a usar os elementos visuais para prever quanto trabalho falta para receberem a

recompensa. Os macacos e os humanos são capazes de estimar, visualmente, quanto falta

para uma tarefa ser concluída.

Sr. SICRANO – Então a substância age sobre aquilo que ainda temos de humano. E os

seres humanos deixam tudo para última hora.

Sr. BELTRANO – Os macacos também, justamente porque conseguem estimar o tempo de

trabalho necessário. Pra você ter uma idéia, eu iria demitir 50% do plantel, mas fiz um acordo

amigável, diminuí a carga horária e o salário também, evidente, em troca eles se

comprometeram em manter a mesma produção, resultado: ainda pude contratar uns pobres

lascados que estavam passando fome. Você sabe que hoje a empresa é cotada não pelo

quanto produz, mas pelo seu potencial, a ONG que tu gerencia, por exemplo, que

comercializa sonhos, vale pela importância social. Você sabe, é preciso humanizar o capital,

minha empresa Sicrano, posso dizer de boca cheia e dormir com a consciência tranqüila,

minha empresa é uma empresa cidadã, solidária.

Sr. SICRANO – Caramba! Parece bom! Parabéns! Então vamos aos detalhes...

Sr. BELTRANO – (mudando de assunto) Como é Fulano, não vem conversar com a gente?

Sr. FULANO – Oi? Nesta TV não passa nada (desliga a TV). O que é isto?

Sr. SICRANO - (evita revelar o segredo) Nada, apenas um adoçante! Não é Beltrano?

Sr. BELTRANO – (cúmplice) Um adoçante e que tira dor de cabeça.

(O café)

FULANA – Sobre o que tanto conversam os rapazes? Sr. Sicrano, será que nos traz boas

notícias? Imaginem, meu querido esposo será o novo amigo de serviço do Sicrano.
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Sr. SICRANO – É, quem sabe?... Bem, vou ser sincero... (Fulano oferece um aperitivo).

Sr. FULANO - Os testes foram engraçados, mas acredito que eu tenha ido bem.

FULANA - Com certeza, eu soube que foi muito concorrido.

Sra. BELTRANA - É o que eu digo, devemos sempre estar bem preparados! Agora estou

lembrando dele! O cara da mamãe. (sardônica) Aquilo foi ótimo! E no final confessou que

não tem sombra! Ninguém confessa isto!

Sr. SICRANO – Prima! Você veio me vender a sombra do teu marido, mas o nosso amigo é

um áscio, não tem sombra! Ele vendeu a sombra e você não sabia!

FULANA - Mas você me garantiu! Sicrano!

Sr. SICRANO – O lugar dele na fila sim. Não posso obrar milagre, negócios são negócios.

FULANA – Mas nós fizemos um negócio!

Sr. FULANO – Que negócio? Você não tem crédito nenhum!

FULANA – (à sorrelfa) Fique calado! Como diz o professor da Sra Sicrana, tu é uma mosca

que sempre avança o sinal, mas sempre fez isto na hora errada e para o que não devia. Não

me disse que não tinha mais sombra!

Sr. FULANO - Vendi pra comprar nosso par de alianças... Não pude dizer a você...

Sra. SICRANA e Sra. BELTRANA - (ouviam) Oh, que romântico!

Sr. SICRANO – (irônico) Tua mulher fez um puta negócio. Meu amigo, não se faz negócio só

pensando em créditos! Tem negócio que fazemos por puro prazer! (ri) Mas, vem cá (para

Sra. Sicrana), que professor é este que tu tem que eu não sei?

Sr. BELTRANO – Vamos mudar de assunto, esta é uma reunião de família. Peba tu tem

visto o Oreia?

Sr. SICRANO – A última vez que nos vimos foi... na festa de casais na casa do Zoim!

Sra. BELTRANA - Fiquei sabendo que a mulher dele emprenhou de outro homem!

FULANA - Aceitam um café? Sylva, querido, peça pra Menina trazer.


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Sr. FULANO – Café?! Claro meu amorzinho. Com adoçante? (pega a antidopamina).

Sra. BELTRANA – Claro, por favor, é melhor pra nossa saúde.

(Cenas paralelas. A Menina já vem com uma bandeja e nela o café).

Sr. FULANO – Com isto aqui, ninguém vai ter dor de cabeça. 3 gotinhas pra cada um. Ah

sim, lembrei de uma coisa, quer dizer que sirvo só pra motivo de riso, não é? Pois agora

também vou rir um pouco. Pra estes dois, um pouco mais de adoçante. Opa, talvez devemos

prever e ajudar o casal de pombinhos a não ter dor de cabeça durante toda esta semana,

3x7 igual a 7, 14, 21 gotinhas. Melhor, o que você acha se eles ficarem um mês sem ter dor

de cabeça? Pronto. Derrame o resto do café. Coloque água aqui (no frasco vazio).

MENINA – Não acha que vai ficar doce demais?

Sr. FULANO – Se não gostarem assim, que pena, acabou o café.

Sr. SICRANO – Estou admirado, que eficiência Sylva!

Sra. BELTRANA – Que jogo-de-café lindo!

FULANA – Ganhei no nosso chá-de-cozinha. Resolvi guardar para uma ocasião especial

como esta, pra compartilhar com pessoas especiais (gesto indicativo em relação ao Sr.

Sicrano). Deixa, eu sirvo.

Sr. FULANO - Não, faço questão de servir.

Sr. SICRANO - Ora sou grato, pela consideração.

Sra. SICRANA - Está com gosto estranho.

FULANA – Talvez porque seja descafeinado.

Sra. BELTRANA – Assim é melhor, é algo pra pessoas de gosto refinado.

Sr. FULANO – Sim, é isto mesmo!

Sr. SICRANO – Não estou me sentindo bem! (levanta)

FULANA – (repara a xícara quebrada) Eu também não! (levanta, dá as mãos ao Sr. Sicrano).

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ESGALAMIDO – (as personagens executam o que é narrado) E foi assim que tudo

aconteceu. Os outros convidados apavorados olharam para os dois, para o café que tinham

nas mãos, para o Sr. Fulano, que pasmo, ria... ria... ria nervoso. Sra. Fulana e Sr. Sicrano

caíram; os outros se levantaram, olharam para o público, estáticos, e saíram como não

querendo envolvimento com o caso. Sim, foi bem assim senhores.

MENINA - Depois vieram os áscios entraram e carregaram os corpos caídos. Sim, porque eu

não iria limpar aquela sujeira sozinha!

EPÍLOGO - O julgamento

(Ano sétimo. Tribunal, com aspecto de programa de auditório).

CRIANÇA – Vamos brincar de pula-macaca? São sete casas, do inferno (desenha, traça

com giz o circulo em torno de Fulano e do Amigo-12345/x, o inferno coincide com a jaula) até

o céu, não pisa na casa que tem a pedra, tem de pular (demonstra: a pedra no inferno, pula,

continua a brincadeira). Viu? É fácil! (a sineta do carrinho de Esgalamido inicia a sessão).

JUIZ – Ordem! (a Criança corre para próximo do Juiz, bate o martelo).

MENINA – Vamos, na primeira fileira ficam as Amigas Vitrines Vivas.

Sra. BELTRANA – Com licença, tenho Cartão de Acesso, o meu lugar é pré-pago,

brigadinha. (grita para Fulano da Sylva) Lindo!

VOZ POPULAR – (áscios que estão num pau-de-arara) Fala! Fala! Fala!

JUIZ – Direito concedido! (a Criança bate o martelo)

FULANO – É como tenho dito, não foi propósito meu. Queria apenas tirar a dor de cabeça

deles, me disseram que aquilo era adoçante...

MENINA – Epa! Todo mundo viu, você sentiu sua masculinidade ofendida, por outro macho

da mesma espécie.

VOZ POPULAR – (aplausos) aeh!


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ESGALAMIDO – Este é o nosso Fulano da Sylva. Não percam, logo mais o testemunho de

quem viveu ao lado desta fera. Recesso para ouvir a mensagem do nosso patrocinador.

JUIZ – Direito concedido! (a Criança bate o martelo)

PORTA-VOZ – (em off) Motivando a saúde pública; fomentando o turismo e, (intenção)

naturalmente, atraindo capitais, criando empregos; nosso eficiente governo estará

oportunizando a a livre iniciativa e a as organizações não governamentais, através dos

processos legais de praxe, a exploração das sombras nos locais públicos...

JUIZ – Ordem! (a Criança bate o martelo)

TESTEMUNHA I – (para o público) Conheci o Vivi, vivi era como a gente chamava, quando

ainda andava descalço e corria peladinho pelas ruas, os pesinho tudo rachado, parecia uma

criança normal.

VOZ POPULAR – Chora! Chora! Chora!

TESTEMUNHA II – (para o público) Era muito difícil “ficar” com o Sylva, ele vivia com livros

debaixo do braço; não dava pra saber se ele carregava o livro ou o livro carregava ele. Nós

terminamos, mas ainda lembro dele. Ele é tão bonzinho...

TESTEMUNHA III – (para o público) Para um professor de Arte, isto é antiestético; deveria

andar bem vestido, com rosto limpo e não cheio de pêlos, coisa mais bárbara! Ele até anda

penso (imita). Que exemplo ele dá para nossos jovens?!

VOZ POPULAR – Fala! Fala! Fala!

FULANO – Bem...

MENINA – Temos público do mundo inteiro. É bom lembrar que todo o material deste

processo está sendo organizado num livro, mas a galeria dos execráveis é grande. Será este

o escolhido? Devemos lançá-lo ao sol?

VOZ POPULAR – Lança! Lança! Lança!

ACUSAÇÃO – Protesto!
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JUIZ – Direito concedido! (a Criança bate o martelo)

ACUSAÇÃO - O Sr. Fulano é um homem que não é pós-humano. Não disfarça o cheiro do

seu suor! Saiu dos Assentamentos Paupérrimos, não adquiriu a L.L.C., não tem sombra,

anda penso, não usufrui da estética oficial, embora se esforce. Involuntariamente causou a

morte da sua esposa e de outro ente familiar que, mui solidariamente e fazendo uma boa

ação, arrumou-lhe um lugar na fila. Não conseguiu tornar-se uma empresa competitiva. Não

tem nada de extraordinário que o faça merecer um livro dedicado a sua biografia. Todos

ouviram o diagnóstico (ouve-se em off a Psicóloga: “- Homem padrão! Tipo mediano!).

Similar aos outros da sua espécie, como vêem, não olha nos seus olhos e abaixa a cabeça

quando conversamos com ele, acreditem, suas atitudes são previsíveis, com seus bons

modos, não significa nada, nenhum risco à ordem. Talvez por isto nunca tenha recebido um

cargo de segundo escalão. Pede licença. Pede desculpa. Agradece. Tudo o que faz a

maioria.

MENINA – Vocês aí, no pau-de-arara, o que acham? Devemos lançar ele ao sol?

VOZ POPULAR – (áscios no pau-de-arara) Lança! Lança! Lança!

JUIZ – Ordem! (a Criança bate o martelo)

ESGALAMIDO - Tem algo a dizer Professor?

FULANO – Sempre fui um homem quieto. Cumpri minhas obrigações de cidadão! Sempre fiz

tudo certo. Estudei. Não pesquei4. Não fui um bom ops, não me interpretem mal senhores, eu

fui um bom marido. Eu não traí minha mulher. Quanto a ser penso, oras meus senhores, todo

mundo pende pra algum lado. Fui voluntário, fiz caridade. Sempre cumprimentei sorrindo

qualquer pessoa que olhasse para mim. Vocês sabem, não é? Quem aqui nunca teve de rir

ou cumprimentar mesmo não querendo? “- Está tudo bem?”, “- Sim, tudo bem!”. Devemos

fazer isto por educação. Pois bem, sempre fui um homem educado! Sempre procurei não

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Na linguagem local dos estudantes significa usar recursos não permitidos para resolver as provas dadas por professores.
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desagradar ninguém. Nunca cuspi no chão. Não falei grosso diante de nenhuma autoridade.

Nem me lembro da última vez que gritei. Acho que não sei mais gritar. Posso tentar?

JUIZ – Direito negado! (a Criança bate o martelo).

FULANO – Estava só brincando. Claro, não se permite a um homem civilizado gritar sem

motivo. Um homem civilizado deve ser manso. Sereno, mas não lerdo, ando rapidinho, sabe?

Pra não me atrasar, mesmo não tendo compromisso, sempre alerta! Estão vendo? Sou um

homem normal.

VOZ POPULAR – Chora! Chora! Chora!

MENINA – Já apuramos os votos dos nossos diletantes virtuais. Podemos ler o veredicto?!

JUIZ – Direito concedido! (a Criança bate o martelo).

MENINA – Sentença...

MENINA e ESGALAMIDO - Lançado ao sol!

VOZ POPULAR – (áscios) Aeh! Lançado ao Sol! Lançado ao Sol! Lançado ao Sol!

FULANO – Não posso sair daqui. Não entendem? Esta jaula é onde aprendi a viver! Eu não

saberia viver fora daqui. Por favor senhores! É simples, sejam razoáveis. Um passarinho,

depois que se acostuma na gaiola, não sabe mais voar, tem asas, mas não sabe mais usar

estas asas. Aqui eu sou notado, sou visto, me acostumei com as visitações. Aqui pelo menos

uma vez ao dia me levam para pegar sombra. Por que o silêncio? Por quê me olham assim?

(riso patético, desespero) Se me tirarem isto, não me resta mais nada. É preferível a morte.

ESGALAMIDO – Sr. Fulano, fala sério? Não estamos chamando o senhor de frouxo. Fala a

verdade, tem coragem de se matar? Aqui!? Pra gente ver!? Ao vivo!? (os que estão no pau-

de-arara dão risadas).

FULANO - Sou um cristão, é isto, um cristão não pode tirar a sua própria vida. Me causa

medo saber que vou ser um áscio, um ninguém! Me espanta ver a risada deles, é uma

felicidade que me causa pavor.


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VOZ POPULAR – Sai! Sai! Sai!

FULANO – Não posso sair daqui! Não consigo! O que me amarra, não é uma jaula de ferro.

Ei pessoal, não me deixem assim! Os senhores devem saber o quanto é cruel estar sozinho.

Não estou pedindo que os senhores tenham piedade. O que sinto é mais do que dor, é um

grito que explode dentro, é um desespero. Não é melodrama, eu juro! Estou perdido. Eu

preciso acreditar em uma saída. Me dêem pelo menos uma esperança! (Espera a

reprimenda do martelo).

JUIZ – Direito concedido! (a Criança bate o martelo).

ESGALAMIDO – (canta como galo, locutor) Atenção você que sempre ansiou por uma vaga.

MENINA – (locutora) Você que sempre lutou por um lugar à sombra...

ESGALAMIDO – O governo desta Capitania, abriu inscrições na Agência de Serviços

Inferiores.

MENINA - Para você que sempre se achou um injustiçado...

ESGALAMIDO – Para você que vive resmungando pelos cantos...

MENINA - Chegou sua vez de ser feliz, será o nosso novo reaproveitado...

ESGALAMIDO - Amigo Voluntário Otimista, nosso eficiente governo precisa da sua

participação...

MENINA - Você será reciclado...

ESGALAMIDO - Treinado para andar pelas ruas e propagar que está tudo bem...

MENINA – Para você que é amarelo, vermelho, branco, negro, verde, furta-cor ou colorido...

ESGALAMIDO – Você poderá alugar as suas pernas!

MENINA - A sua boca!

ESGALAMIDO – Os seus ouvidos!

MENINA - Os seus olhos!

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ESGALAMIDO – Suas mãos e, principalmente, o dedo polegar da sua mão direita e os

indicadores.

MENINA - Os seus cabelos!

ESGALAMIDO – Suas partes!

MENINA - Lá na agência procure falar com a Esperança.

ESGALAMIDO - Uma pessoa humana e bronzeada!

MENINA - De olhos claros!

ESGALAMIDO – Lábios Vermelhos!

FULANO – Estou indo! Esperem por mim! Esperança!

JÁ MORREU - Bora professor, sei onde tem uma fila!

ÁSCIO XV – Café? Garanto, nada de adoçante.

FULANO - É?! Esperança, espere por mim! Estou indo! Esperança! (música do prólogo).

(Esganiçamento).

Pano

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