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Tribunal de Justiça

RIO GRANDE DO NORTE

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Poder Judiciário
Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte

Mandado de Segurança Sem Liminar n° 2016.010763-3


Origem : Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte.
Impetrante : SINTE - Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Rio
Grande do Norte - Núcleo Extremoz.
Advogados : Dr. Carlos Gondim Miranda de Farias (2560/RN) e outros
Impetrado : Governador do Estado do Rio Grande do Norte
Impetrado : Secretário de Administração e dos Recursos Humanos do Estado do
Rio Grande do Norte
Impetrado : Presidente do Instituto de Previdência dos servidores do Estado do Rio
Grande do Norte - IPERN
Ente Público : Estado do Rio Grande do Norte
Procuradora : Drª. Paula Maria Gomes da Silva (1994/RN)
Relator : Desembargador Expedito Ferreira

EMENTA: DIREITO CONSTITUCIONAL E


ADMINISTRATIVO. MANDADO DE SEGURANÇA
COLETIVO. SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL DA
EDUCAÇÃO PÚBLICA. ATRASO NO PAGAMENTO
DA REMUNERAÇÃO DOS AGENTES
REPRESENTADOS. PROVA SUFICIENTE DA
IMPONTUALIDADE DOS PAGAMENTOS.
FUNDAMENTOS JAMAIS NEGADOS PELAS
AUTORIDADES IMPETRADAS. TRANSGRESSÃO AO
CONTEÚDO DO § 5º ART. 28 DA CONSTITUIÇÃO DO
RIO GRANDE DO NORTE. POTENCIAL
NECESSIDADE DE REEQUILÍBRIO DE CONTAS
PÚBLICAS QUE NÃO SE PRESTA PARA AFASTAR
GARANTIA FUNDAMENTAL TRATADA NA NORMA
CONSTITUCIONAL. DIREITO LÍQUIDO E CERTO

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EVIDENCIADO. PRECEDENTE DESTA CORTE DE


JUSTIÇA. CONCESSÃO DA SEGURANÇA QUE SE
IMPÕE.

ACÓRDÃO

Acordam os Desembargadores que integram a Tribunal


Pleno deste Egrégio Tribunal de Justiça, à unanimidade de votos, em consonância com
o parecer da 12ª Procuradoria de Justiça, conceder a segurança pretendida na inicial,
determinando às autoridades impetradas que procedam ao pagamento dos servidores
representados pela entidade sindical impetrante até o último dia de cada mês,
corrigindo-se monetariamente os valores, caso o pagamento se efetive além desse
prazo, em conformidade com o determinado pelo art. 28, § 5º, da Constituição
Estadual, nos termos do voto do Relator.

RELATÓRIO

Trata-se de Mandado de Segurança impetrado pelo SINTE


- Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Rio Grande do Norte - Núcleo
Extremoz em face do Governador do Estado do Rio Grande do Norte, Secretário da
Administração e dos Recursos Humanos do Estado do Rio Grande do Norte e do
Presidente do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado do Rio Grande do
Norte – IPERN.
Em sua petição inicial, o ente sindical impetrante discorre
sobre a competência desta Corte de Justiça para o exame do direito suscitado na
inicial, bem como sobre sua legitimidade para a impetração.
Especifica que seus representados não estaria percebendo a
contraprestação salarial devida dentro do prazo previsto na norma constitucional do
Rio Grande do Norte.

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Reafirma que o Poder Público do Rio Grande do Norte não


vem cumprindo com o calendário de pagamento de seus servidores.
Descreve os inúmeros prejuízos decorrentes da
impontualidade reiterada e sistemática da Administração Pública no pagamento da
remuneração de seus servidores.
Especifica que os atrasos também atingem os servidores
inativos, com comprometimento do essencial para a subsistência dos representados.
Invoca a regra preservada no artigo 28, § 5º, da
Constituição do Rio Grande do Norte, ao prescrever que o pagamento das
remunerações mensais dos servidores públicos deverá ocorrer até o último dia de cada
mês.
Argumenta sobre a natureza de direito líquido e certo de
seus representados ao pagamento da remuneração mensal.
Pretende a concessão de provimento liminar.
Reafirma a ilegalidade do ato encampado pelas autoridades
apontadas coatoras.
Cita precedentes em favor do direito alegado na inicial.
Ao final, pugna pela concessão da segurança,
determinando-se o pagamento da remuneração dos substituídos processualmente até o
último dia de cada mês, corrigindo-se os valores no caso de pagamento além de
referida data.
Trouxe aos autos os documentos de fls. 25/242.
Notificado, o Secretário da Administração e dos Recursos
Humanos do Estado do Rio Grande do Norte apresentou informações, às fls. 248/251,
alegando a impossibilidade material temporária para acolhimento da pretensão inicial.
Discorre sobre a frustração de receitas de grande monta
pela Fazenda Pública Estadual, comprometendo sobremaneira o cumprimento das
despesas ordinárias.
Esclarece que, mesmo implementadas medidas

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administrativas de equilíbrio fiscal, mostra-se impossível a manutenção dos


pagamentos de servidores até o último dia de cada mês.
Reafirma a intercorrência de severa queda na arrecadação
da Fazenda Estadual, com impacto na capacidade de endividamento do ente público.
Pondera sobre o risco de vir a ultrapassar os limites da Lei
de Responsabilidade Fiscal.
Encerra requerendo a denegação da segurança.
O Estado do Rio Grande do Norte apresentou manifestação
nos autos, às fls. 267/270, destacando a impossibilidade de pagamento de servidores
inativos sem que se tenha previamente recolhido as correspondentes Contribuições
Previdenciárias.
Instado a se manifestar, o Ministério Público, por sua 12ª
Procuradoria de Justiça, às fls. 272/279, opinou pela concessão da segurança.
É o relatório.

VOTO

Conforme destacado anteriormente, centra-se o debate


desenvolvido na presente lide em perquirir sobre o possível direito dos representados
pelo ente sindical impetrante ao pagamento de seus vencimentos mensais até o último
dia de cada mês.
Em relação ao tema, observa-se que Constituição do Estado
do Rio Grande do Norte apresenta norma específica para o deslinde da matéria,
consoante artigo 28, § 5º, a seguir trazido em transcrição:

Art. 28. (...)


§ 5º Os vencimentos dos servidores públicos estaduais e
municipais, da administração direta, indireta, autárquica,
fundacional, de empresa pública e de sociedade de
economia mista, serão pagos até o último dia de cada mês,

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corrigindo-se monetariamente os seus valores, se o


pagamento se der além desse prazo.

Convém registrar que a constitucionalidade de referida


disposição restou assinalada pelo Supremo Tribunal Federal, por ocasião do
julgamento da ADI 144/RN, que se limitou a excluir do texto acima destacado as
expressões "municipais" e "de empresa pública e de sociedade de economia mista",
conforme ementa a seguir transcrita:

"Ação Direta de Inconstitucionalidade. 2. Artigo 28, § 5º,


da Constituição do Estado do Rio Grande do Norte. 3.
Fixação de data para o pagamento dos vencimentos dos
servidores públicos estaduais e municipais, da
administração direta, indireta, autárquica, fundacional, de
empresa pública e de sociedade de economia mista,
corrigindo-se monetariamente os seus valores se pagos em
atraso. 4. Violação dos artigos 34, VII, c, e 22, I, da
Constituição Federal. 5. Ação Direta de
Inconstitucionalidade julgada parcialmente procedente
para confirmar a medida liminar e declarar
inconstitucionais as expressões “municipais” e “de
empresa pública e de sociedade de economia mista”,
constantes do § 5º, art. 28, da Constituição do Estado do
Rio Grande do Norte" (ADI 144, Relator(a):  Min.
GILMAR MENDES, Tribunal Pleno, julgado em
19/02/2014, DJe-066 DIVULG 02-04-2014 PUBLIC 03-
04-2014 EMENT VOL-02724-01 PP-00001).

Em contraponto, observa-se que inexiste negativa das

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autoridades inquinadas coatoras quanto à afirmação de pagamento impontual das


prestações salariais dos servidores representados.
Portanto, apresenta-se nítido e inquestionável o direito
líquido e certo dos servidores representados pelo ente sindical impetrante em perceber
suas respectivas remunerações até o último dia de cada mês.
Por outro lado, há que se deixar evidente que as escusas
apresentadas pelas autoridades inquinadas coatoras não são suficientes para
desconstituir o direito alegado na inicial.
De fato, observa-se no cenário econômico nacional
ambiente de severa crise financeira, com o comprometimento de recursos outrora
disponíveis para os diversos entes da federal.
Contudo, referida realidade não seria contingência
imponderada pelo gestor público atento. Ao contrário, diversos foram as indicações
sobre as condições econômicas desfavoráveis, de modo a recomendar medidas de
austeridade para momentos de maior agravamento.
Não seria o processo judicial, sobretudo na via estreita do
mandado de segurança, o meio viável para debater as políticas econômicas do Poder
Público, muito menos se utilizaria este Magistrado das prerrogativas conferidas ao
Judiciário para render críticas ao modelo de enfrentamento da crise implementado no
âmbito da Administração Pública do Estado do Rio Grande do Norte.
Para os fins do presente processo, importa somente
ponderar se a situação de crise do Estado do Rio Grande do Norte seria suficiente para
sublimar o direito dos servidores estaduais em perceber sua remuneração até o último
dia de cada mês.
Neste contexto, entendo que a situação circunstancial atual
de crise financeira não seria suficiente para afastar a garantia perene trazida na norma
do artigo 28, § 5º, da Constituição do Estado do Rio Grande do Norte.
Com efeito, eventuais óbices de ordem político e
econômico não seriam questões centrais a serem enfrentadas nesta via, posto que

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pertinente somente o exame sobre a viabilidade do direito arguido na petição inicial.


Portanto, sendo inúmeras as medidas passíveis de adoção
pelo gestor público para alcançar o equilíbrio das contas públicas, não vislumbro
legalidade na implementação de ações que busquem denegar ou postergar direitos
resguardados na carta constitucional do Rio Grande do Norte em favor dos servidores
da Administração Pública, exatamente contra atos potencialmente deletérios dos
gestores na execução de suas políticas.
Neste mesmo sentido, há precedente desta Corte de Justiça,
por ocasião do exame de questão correlata:

EMENTA: CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO.


MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO. SERVIDOR
PÚBLICO DA ADMINISTRAÇÃO INDIRETA (DOCENTE
DA UERN). VENCIMENTOS ADIMPLIDOS COM
ATRASO. PRELIMINAR DE ILEGITIMIDADE
PASSIVA, SUSCITADA PELO REITOR. ATRIBUIÇÃO
EXCLUSIVA DO CHEFE DO EXECUTIVO.
ACOLHIMENTO. MÉRITO. REMUNERAÇÃO PAGA A
DESTEMPO. AFRONTA AO § 5º ART. 28 DA CE, CUJA
CONSTITUCIONALIDADE RESTOU RECONHECIDA
PELO STF NA ADI 144. PRETEXTO DE REEQUILÍBRIO
DE CONTAS PÚBLICAS IMPRESTÁVEL A TOLHER
GARANTIA FUNDAMENTAL, MALFERINDO A
PREVALÊNCIA DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA
PESSOA HUMANA. VERBA PRIORITÁRIA E
INTANGÍVEL, DADA A SUA NATUREZA
ESTRITAMENTE ALIMENTAR.   DIREITO LÍQUIDO E
CERTO AO PERCEBIMENTO DA CONTRAPRESTAÇÃO
PECUNIÁRIA ATÉ O ÚLTIMO DIA DE CADA MÊS.

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MORA SUJEITA, NECESSARIAMENTE, À CORREÇÃO


MONETÁRIA. PRECEDENTES DESTA CORTE, TJRS E
TJDF. CONCESSÃO DA SEGURANÇA. (MS n.º
2016.001006-2, do Tribunal Pleno do TJRN. Rel. Des.
Saraiva Sobrinho, j. 05/10/2016).

Ante o exposto, revelado o direito líquido e certo defendido


na petição inicial, em consonância com o parecer da 12ª Procuradoria de Justiça, voto
pela concessão da segurança pretendida, determinando às autoridades impetradas que
procedam ao pagamento dos servidores representados pela entidade sindical
impetrante até o último dia de cada mês, corrigindo-se monetariamente os valores,
caso o pagamento se efetive além desse prazo, em conformidade com o determinado
pelo art. 28, § 5º, da Constituição Estadual.
É como voto.
Natal, 07 de dezembro de 2016.

Desembargador CLÁUDIO SANTOS


Presidente

Desembargador EXPEDITO FERREIRA


Relator

Doutor JOVINO PEREIRA DA COSTA SOBRINHO


Procurador-Geral de Justiça em substituição