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Um grunho entra num café…

O Fonseca acordou com os azeites. Tirando hoje, é todos os dias. No que vai entre a
empada que abocanha e a televisão aos gritos, já revirou os olhos três vezes à conta do
que vê no canal oficial do estaminé. Catrefada de comunas, traidores e larilas, pensa. A
mostarda sobe-lhe ao nariz. Facilmente lhe salta a tampa. Vale o Ventura e a loira de
mamas empinadas que dizem umas verdades que lhe tonificam o fel e que ele repete de
uma ponta a outra do café, anda pra aí muita gente a mamar dos subsídios. Diz para o
Lopes, atrás do balcão, e para quem o quiser ouvir, até porque o Lopes está de olhos
postos nos cafés, meias-de-leite e torradas que a esta hora, a meio da manhã, saem que
nem ginjas. É o país que temos, insiste, de atalaia a qualquer olhar cúmplice, falta-lhes
trabalho no lombo, nunca souberam o que era vergar a mola. Sempre os mesmos,
ciganos, pretos, ah… e os refugiados, aqui desenhando com os dedos as aspas aéreas,
duas vezes, que à primeira ninguém viu. Está com azar o Fonseca, ninguém morde o
isco.

O Fonseca é pai e dá o exemplo. O filho deixou a escola, farto de professores que só


querem é ganhar o deles, ora de baixa ora de greve e a implicar com o catraio. O
Fonseca não andou em África-é-nossa a arriscar o coiro para agora aturar chulos. O
filho trabalha num estande de automóveis, faz recados ao patrão, que teve de o tirar das
vendas no dia em que escreveu “Epotece única!!! Fale com nosco!!!” em três cartazes,
num claro exagero de pontos de exclamação. Mas prontos, lá vai ganhando o dele. Dá
para as jolas com os amigos. Ainda fez uns pedidos para a câmara, mas aquilo é só
primos e enteados, uns mamões que não sabem um cú, afiança o Fonseca, obrigava-os
todos a fazer um exame que eu cá sei, que nem a porra da prova dos nove sabem, di-lo
abrindo e fechando a mão como que avivando a memória das reguadas que levou até
que aquilo se lhe fixasse na mona.

O Fonseca também patrulha as redes sociais. Entre fotos da tropa e Fátima, lá vai
partilhando umas tiradas espirituosas como aquela da vaca preta a quem pagamos para
dizer mal de Portugal e que merecia era ser recambiada para a terra dela à força de
pontapés.

Isto já bateu no fundo, não desiste o Fonseca. Os clientes fingem não ver nem ouvir.
Também nada dizem. Mais fácil com os telemóveis, há sempre um meme do Sporting
ou da Joacine ou Joceline ou lá como se chama a gaja, que já nem os nomes são
portugueses. Isto precisa de uma volta e já lá não vamos com eleições. Mandasse ele e
ia tudo preso. Mais dia, menos dia e isto rebenta pelas costuras e aí é que vai ser o bom
e o bonito. O Fonseca tem uma lista com nomes para quando esse dia chegar. Isso e
todas as avenidas voltarem a ser de Salazar.

O Fonseca faz parte daquela estirpe servil que alimenta os tiranetes. O Fonseca não
sabe, mas é o exemplar perfeito da falta de memória dos povos. De braço dado com o
senhor Nogueira, aqui pintado há dias pelo Rui Pelejão, são a linha avançada da
congregação local de saudosistas dos tempos áureos do império, do antes é que era
bom. Calha chamar-se Fonseca, mas poderia ter outro nome. O Fonseca é muitos. O
Fonseca é um logro. É grunho.

O Lopes aguenta, estoicamente, como julga próprio do seu mister. Fosse outro dia e
tinha feito orelhas moucas, mas o puto, o seu, que anda no sexto mas já pensa como
gente grande, veio-lhe ontem com as ditaduras e de como a opressão dos povos sempre
começa com os que se calam. O Fonseca também é pai. Fosse outro dia, mas não hoje.
Não será com o seu silêncio… Oh Fonseca! Vê lá é se fechas a matraca que já estou
farto de te ouvir. Continuas com essa merda e levas uma berlaitada que te viro do
avesso.