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UNIJUI – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO

ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL


DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO

ONEIDA GONÇALVES DOS SANTOS

EXPERIÊNCIAS EM ESTÁGIO - ESCUTANDO A MÚSICA DA


EDUCAÇÃO INFANTIL

Ijui - RS
2015
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ONEIDA GONÇALVES DOS SANTOS

EXPERIÊNCIAS EM ESTÁGIO - ESCUTANDO A MÚSICA DA


EDUCAÇÃO INFANTIL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como


requisito para aprovação na disciplina de Trabalho
de Conclusão de Curso II, do Curso de Licenciatura
em Pedagogia, da Universidade Regional do
Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

Orientadora: Prof.ª Drª Noeli V. Weschenfelder

Ijui – RS
2015

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RESUMO

A música é uma linguagem universal que desperta sentimentos e faz parte de nossa
vida em todos os momentos. Considerando essencial para a formação da criança
pela sua riqueza de experiências que proporciona, possibilitando vivencias de
aprendizagens e desenvolvimento em todos os sentidos, trago para esta monografia
a música como elemento de apropriação cultural do sujeito e que proporciona
crescimento pessoal além de abordar as passagens musicais que me constituíram.
Faço ainda as considerações sobre as experiências em observação e pratica de aula
na Educação Infantil, olhando o aspecto musical ao qual era desenvolvido.

Palavras chave: Música. Importância. Educação Infantil.

RESUME

Music is a universal language that arouses feelings and part of our life at all times.
Whereas it is essential for the formation of children by their wealth of experience it
provides, enabling vivencias learning and development in every way, I bring to this
monograph music as cultural appropriation element of the subject and providing
personal growth as well as address the musical passages that formed me. I also
considerations about the experiences in observation and practice class in
kindergarten, watching the musical aspect which was developed.

Keywords: Music. Importance. Childhood Education.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 5

1 PASSEIO PELO ESTÁGIO NA EDUCAÇÃO INFANTIL .............................. 6

2 ABRINDO MEU BAÚ DE MEMÓRIAS ........................................................... 12

3 POR QUE AS CRIANÇAS BRINCAM? ........................................................... 19

4 O QUE DIZEM AS LEIS?................................................................................... 22

5 MÚSICA? PRESENTE! ESTOU NA EDUCAÇÃO INFANTIL ................... 32

6 O QUE FAZER COM A MÚSICA? ................................................................... 36

7 E EU PROFESSORA! .......................................................................................... 42

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 45

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ....................................................................... 48

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INTRODUÇÃO

Esta monografia partiu da observação de algumas aulas na disciplina de


música, em uma escola da rede municipal de ensino, no período de setembro e
outubro de 2014.
As aulas de música para Educação Infantil foram o fato gerador de toda a
minha inquietação, pois me deparei com situações que não condiziam com o meu
pensar, por isso, considerei relevante abordar o assunto sob o modo como se
desenvolvia o período de 45 min em um dos dias da semana.
Neste trabalho, propus um passeio pelo estágio na Educação Infantil e
considerei as minha infância quando abri meu baú de memórias, considerando que
as experiências do passado são bastante importantes para a constituição das
pessoas.
No titulo seguinte, abordo o por que as crianças brincam e o que dizem as
Leias sobre o direito da criança ter acesso a Música na Educação Infantil, buscando
no amparo legal a justificativa para a mesma ser desenvolvida em sala de aula.
No capitulo seguinte, busquei informações da Música na Educação Infantil, o
que fazer com ela e eu, como Educadora, procurei trazer aspectos relevantes sobre
o assunto, mostrando e sensibilizando que esta parte da arte, precisa de cuidados e
de estudos para ser desenvolvida de maneira mais sensível na Escola.
Acredito na importância da música, por isso conto com a maior valorização
deste campo dentro dos espaços escolares pois além de trazer alegria e bem estar,
ela proporciona crescimento emocional, afetivo, cognitivo e motor.

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1 PASSEIO PELO ESTÁGIO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A música é a linguagem que se traduz em formas sonoras capazes


de expressar e comunicar sensações, sentimentos e pensamentos,
por meio da organização e relacionamento expressivo entre o som e
o silêncio. (BRASIL, 1998, P.45)

A música se faz presente em todas as manifestações sociais e culturais do


ser hum ano, somos movidos diariamente por várias situações de som que
interferem na nossa rotina e em alguns momentos podem proporcionar mudanças no
humor e comportamento, tudo de acordo com a experiência de vida que temos a
respeito da musicalidade.
A música promove no nosso interior, experiências inerentes à natureza
humana, é uma segunda língua materna e toda criança tem o direito a esta
experiência sensorial que possibilite as expressões que o processo desencadeia.
A música em muitas culturas acompanha a história, atravessando gerações,
chega à contemporaneidade embalando nossos dias e nos deixa marcas pela vida.

Temos um repertório musical especial, que reúne músicas


significativas que dizem respeito à nossa história de vida: as músicas
da infância, as que nos lembram de alguém, as que cantávamos na
escola, as que nos remetem a fatos alegres ou tristes, as que
ouvimos no rádio, em concertos, shows etc. (BRITO. 2010. p.31)

É através dela que os mais diferentes sentimentos de nossa alma são


expressos, ela é expressão artística em qualquer classe social e culturalmente
presente nas manifestações religiosas.
Por ter esse papel tão importante na nossa vida, por se fazer presente,
desde quando o bebê passa descobrir os primeiros sons lá pela 20ª/21ª semana
quando se rompe o tampão de proteção do tímpano e ele começa a ter contato com
o líquido amniótico... considerando que o som a partir do liquido se propaga em
maior velocidade que no ar, então podemos considerar que os sons originados pelo
corpo materno (coração, cordão umbilical, respiração, sistema digestivo, articulação
dos ossos e diafragma) são melhor identificados pelo bebê, até mesmo situações de
susto que a mãe passa, isso é percebido.
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Podemos considerar também que o bebê não passa o dia todo acordado. A
maior parte do tempo esta dormindo, pois é onde acontece o crescimento, portanto,
são esses sons que ele começa a identificar e se tornam familiares nos momentos
em que ele está acordado sendo a voz da mãe a que ele mais identifica e depois as
vozes de quem venha a falar com ele na barriga.
Com o passar do tempo, aprende com estímulos sonoros como ruídos do
ambiente social no qual passará a conviver, reconhece a voz dos pais e familiares
mais próximos, além de se acostumar com as músicas que a família costuma ouvir.
O que proporciona “momentos de troca e comunicação sonoro-musicais favorecendo
o desenvolvimento afetivo e cognitivo, bem como a criação de vínculos fortes tanto
com os adultos quanto com a música”. (BRITO, 2003, p.35)
Quando nascemos, nosso aparelho auditivo esta pronto para ser usado, pois
atingiu o seu amadurecimento, será a nossa porta de entrada para a comunicação
com o mundo que nos cerca. Já ouvimos os barulhos do corpo de nossa mãe e
agora começamos a descobrir o mundo externo, começa-se a ouvir a si mesmo
quando emite som e com o passar do tempo esses balbucios passam a compor
melodias, aprende-se a cantar, antes mesmo de falar.
Os acalantos e canções de ninar também são manifestações musicais que
guardamos desta fase, conforme crescemos o nosso repertório aumenta, pois
nossos familiares passam a desenvolver brincadeiras com movimentos e ritmo onde
se canta e gesticula-se ao mesmo tempo, são as brincadeiras tradicionais da
infância transmitidas para a próxima geração.
Nas interações externas com brincadeiras infantis, a música permanece
sendo usada como fonte de interação e expressão, valorizando e aproximando
adultos/crianças e crianças com seus pares, o que muitas vezes favorece as
relações sociais e aprendizagens.
Por considerar então, desde sempre a importância da música na vida da
criança e ser a infância um período determinante para o seu crescimento, a
relevância deste tema se encontra no fato de que é um direito estabelecido às
crianças de educação infantil, ter o acesso à música para seu desenvolvimento
físico, intelectual e moral e que na escola pode estar sendo negligenciado ou até
mesmo não sendo oportunizado ou ainda, não desenvolvido a contento.

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Após desenvolver estágio na Educação Infantil e visualizar como acontece o
processo de musicalização numa escola específica, optei por este tema, por não
concordar como estava sendo desenvolvido esse processo nas instituições de
ensino.
Fiz observações mais detalhadas quando observei a turma de pré I, turno da
tarde e pela manhã no 2º ano, no período de setembro e outubro de 2014, nesta
cidade de Ijuí – RS. Fato que proporcionou-me uma inquietação com o modo que
era desenvolvida, a frequência em que acontecia e duração das aulas, no caso, e
em particular com a turma em que me encontrava.
Realizei visita junto à referida turma para fins de conhecimento das crianças
e da professora, familiarizações e entendimento de suas rotinas e espaço, portanto,
um período de diagnóstico da situação precedeu o que na oportunidade não
levantou curiosidade do processo de musicalização, pois não presenciei nessa esta
fase, nada que viesse a incomodar o meu pensar e olhar a respeito desse tema.
No decorrer da primeira semana de observação, não houve aula de música
no dia e horário pré-estabelecido, como a coordenadora não se encontrava na
escola naquela tarde e minhas informações sobre o processo eram somente o
horário, não fui buscar explicações para o não cumprimento da agenda estabelecido
para a turma.
Na oportunidade seguinte, quando foi efetivamente desenvolvida a aula,
observei a rigidez da professora que administrava o período, pois ela não tinha nada
de simpatia com as crianças, gritava, era dura e seca, exigiu para antes de começar
a aula, que a turma em horário determinado por ela, antes de começar a sua parte
da aula, estivessem todos organizados em círculo, esperando-a.
As crianças ansiosas pela aula de música, faceiras com a nova atividade,
empolgadas, cheias de esperança, entusiasmo, alegria, contentamento, esperança...
“Agora meu pai e minha mãe não precisam mais pagar aula de música pra mim,
porque tenho na escola,” dizia uma menina... Outra que ela “podia cantar as músicas
que aprendera na escolinha da igreja”. Era muita empolgação por parte das crianças
em ambas as turmas que observei, só que as atitudes da professora, tanto numa
sala de aula, quanto na outra, eram as mesmas, tanto no decorrer da aula quanto
com a outra professora que estava com as crianças antes de começar o período
designado à música.
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Acho que a minha decepção está com a situação que pelas crianças eu via
sua motivação para as aulas de música e a professora desenvolvendo aquilo ali,
sem maior envolvimento, com tudo cronometrado, falando bem alto, chegava à sala
colocando o CD de músicas no aparelho de som e começava a cantar com as
crianças... Exigia 45 minutos de silêncio, tinham que ficar em completo domínio e
absorção com as músicas que ela tinha estabelecido de cantar, não poderiam
levantar da classe, fazer barulho e nem conversar com o colega, tinham de fazer
exatamente o que ela queria. Tanto que numa situação, na turma de pré 1, que
estava comigo em sala de aula, uma das crianças estava mais salientes, ela parou o
que estava fazendo de cantoria, disse para criança parar, sentar e que não ia
continuar a aula, e que a professora que estava em sala (na ocasião eu) que fosse
acalmar o aluno em questão, para ela continuar a aula, que ela se recusava
prosseguir.
Então, a minha inquietação está nesse sentido, às crianças cheias de
expectativa pelas aulas e a professora como se estivesse descontente, pois as suas
atitudes não demonstravam que fazia a atividade com gosto e interesse. Em uma
das oportunidades, ela até disse que tinha instrumentos musicais para as crianças
explorarem, mas como estava chovendo ela resolveu por não levar para a sala de
aula naquela manhã.
Percebi a importância das minhas atitudes perante a turma para mante-los
envolvidos com a proposição da aula e controlar as crianças para atenderem as
expectativas que ela tinha, evitando maiores transtornos a todos, e que viessem a
perder os únicos 45 minutos semanais que possuíam.
Tudo isso me incomodou profundamente. As crianças não tinham a noção
do que acontecia e tudo para eles era novidade e encanto. Resumia-se como aula
de música, a professora entrar na sala, colocar o CD e ensinar as canções que ela
tinha estabelecido canções de bom dia, boa tarde, despedida e assim por diante.
Nos bastidores da situação, acreditava que as aulas de música poderiam ser bem
mais do que estava sendo apresentado. Eu tinha a dualidade da situação, da
expectativa das crianças.
Eu acredito que tudo isso que vivenciei se transformou numa forma de
terrorismo pois ela não transparecia contentamento algum com o que estava
acontecendo. Por uma oportunidade fomos visitados por um rapaz que veio observar
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a aula de música da educação infantil e suas atitudes mudaram drasticamente, o
que evidencia uma falta de compostura desta profissional pois na frente de um
estranho, ela tinha atitudes muito agradáveis e no momento que esta pessoa se
ausentava do espaço, sua conduta se transformava, passando a ser ríspida, seca e
com atitudes não muito amigáveis.
Nossas crianças têm direitos de ser atendidas a contento, que o profissional
que vai administrar esta tarefa seja alguém competente, que goste do trabalho que
faz e o faça da melhor forma possível. A minha experiência é pouca com sala de
aula, mas acredito que o professor não possa ser um leigo para a sensibilidade que
ele precisa ter em trabalhar com crianças pequenas.
Para as crianças existe a lei que determina que seja dada a elas a educação
musical ou musicalização. A Secretaria da Educação oferece a seus professores a
capacitação necessária para alcançar este objetivo. Resta ao profissional designado
a receber esta formação, dar o destino adequado de suas aprendizagens no
momento em que está em sala de aula, e passa a ser o provedor das experiências.
A partir do que foi aprendido, temos de levar para a escola as informações
com a disponibilidade de um professor pesquisador, montar aulas que sejam
interessantes de troca de experiências com os materiais que estão disponíveis nas
escolas e que servem de apoio.
Nas escolas, encontramos vícios que determinam as características das
mesmas. São atitudes de seus professores que determinarão o envolvimento e as
aprendizagens a serem alcançadas. A alegação de estar chovendo para não levar
para a sala de aula material disponível para musicalização pode ser uma justificativa
aceita momentaneamente mas que isso nunca vire rotina.
A coordenadora pedagógica precisa ficar atenta ao que está sendo
desenvolvido e a que materiais estão tendo acesso e disponibilidade, pois só assim
terá condições de fazer as devidas cobranças ao professor competente.
Kelly Werle, no seu artigo A educação musical na formação e nas práticas
de professora dos anos iniciais: analisando repercussões de oficinas musicais, cita

“cada professor tem autonomia no seu fazer pedagógico e por mais


que tenha orientação e formação acerca da educação musical, o
que, de fato, vai ser potencializado em sala de aula com os alunos,
depende de sua disponibilidade, da iniciativa, do comprometimento,
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de responsabilidade e de valores atribuídos aos conhecimentos, não
dissociados de suas perspectivas com relação às dimensões da
formação humana para a qual se destina a educação básica.”
(WERLE. 2015).

Foi também nesse estágio que visualizei cadernos amarelados pelo tempo
que as professoras ainda usam para montar seus planos novos de aula,
esqueceram que o tempo passou, as crianças mudaram comunidade escolar,
sociedade, tudo são outros tempos e exigem inovações e aprendizados mais
efetivos para o que se vive hoje.
Como ter a atenção da criança, despertar o interesse com uma situação que
não condiz com suas expectativas? A inquietação das crianças para a “aula de
música” pode ser justificada pela falta de atender as suas necessidades.
Uma aula de música interessante, proporcionará envolvimento o que não
acarretaria na falta de atenção de algumas crianças. Aula de música é movimento,
alegria, agito, constrói sentidos a partir da convivência e interações, e para isso
acontecer, ela precisa se movimentar para interagir e construir conhecimentos, não
tem como ser diferente suas atitudes, pois a música envolve e produz sentidos em
nossas ações.
Rebuscando as memórias, acredito que a citação de Maria da Graça Souza
Horn ajuda-nos a ilustrar como enxergava a situação:

As escolas de educação infantil têm na organização dos ambientes


uma parte importante de sua proposta pedagógica. Ela traduz as
concepções de criança, de educação, de ensino e aprendizagem,
bem como uma visão de mundo e de ser humano do educador que
atua nesse cenário. Portanto, qualquer professor tem, na realidade,
uma concepção pedagógica explicitada no modo como planeja suas
aulas, na maneira como se relaciona com as crianças, na forma
como organiza seus espaços na sala de aula. Por exemplo, se o
educador planeja as atividades de acordo com a ideia de que as
crianças aprendem através da memorização de conceitos; se
mantém uma atitude autoritária sem discutir com as crianças as
regras do convívio em grupo; se privilegia a ocupação dos espaços
nobres das salas de aula com armários (onde somente ele tem
acesso), mesas e cadeiras, a concepção que revela é
eminentemente fundamentada em uma prática pedagógica
tradicional. [...] As mesas e as cadeiras ocuparão espaços
privilegiados na sala de aula, e todas as ações das crianças
dependerão de seu comando, de sua concordância e aquiescência.
(HORN, 2004, p. 61).

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2 ABRINDO MEU BAÚ DE MEMÓRIAS

As lembranças da infância nos empurram para o mundo, nos elevam na


vida, em alguns momentos estas recordações nos fazem sofrer, em outras sentir
saudade, volta a nossa memória situações da infância, adolescência que muitas
vezes foram marcas e produziram marcos na nossa vida, mas com o passar do
tempo ficam ali adormecidas até que por algum motivo ou outro, algo aconteça e a
memória do passado volte à tona pelo saudosismo ou pelo fato marcante que tenha
sido gerado, desencadeado.
Considerando meus registros pessoais, busco na memória fatos que procuro
fazer associações para justificar a pessoa que sou hoje.
Nasci na cidade, mas minha família morava no interior e é de lá minhas
primeiras lembranças. Adorava meus avós maternos e tinha certa restrição aos
paternos, mas sem esquecer que devo muito a eles por estar aqui, pois foi com seus
auxílios e cuidados que consegui estudar e ter certo conforto que para a época era
permitido. Nada de extravagâncias, pois a situação nunca foi para isso, mas com
algum agrado da parte deles que me fizeram saber o quanto eles sentiam a
realidade que eu e minha mãe vivíamos e tentavam nos compensar de alguma
forma com seus regalos, visitas, cuidados e atenção.
Fui sempre estimulada pela minha mãe para pintura, ela sempre mantinha
material de desenho e livros com desenhos para colorir a minha disposição; quantas
e quantas caixas de lápis de cor, giz de cera e canetinhas se perderam nas frestas
do chão de tábua que tínhamos em nossa casa, o que era uma briga com minha
mãe, pois sempre vinha a promessa de que não ganharia outro material se não
soubesse cuidar.
Tive a experiência de compartilhar a vida, atenção e cuidados com minha
irmã que chegou anos mais tarde, o que me provocava certa revolta porque eu
queria brincar e minha mãe mandava cuidar da pequena ou fazer minhas obrigações
de casa.
Lembro-me das brincadeiras empoleirada na janela do quarto, brincando de
cavalinho, trepada nas árvores que tínhamos na frente da casa, dos banhos frios no
inverno, pois no nosso banheiro entrava bastante vento e era numa casa de

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madeira. As corridas de pega-pega com meus primos, a visita dos primos de Santa
Maria do lado do pai e do lado da mãe.
As músicas no rádio de fim de tarde ou das que tocavam logo após o
almoço. Meu pai sempre foi muito cultivador das tradições gauchescas, apreciava
bastante a música, os bailes, e queria também uma filha tocando acordeom como a
irmã dele, coisa que nunca me interessei em fazer.
Meu interesse é por música sim, aprecio a música gaúcha, gosto de várias
músicas MPB, eu diria que sou eclética, mas não integralmente, preciso fazer umas
considerações que tem certas aberrações musicais, sonoridades que acabam com
qualquer apreciação, mas como vivemos num mundo civilizado, é preciso respeitar
os gostos de cada pessoa.
Uma lembrança mais antiga pode ser anterior aos oito anos, eram as
músicas gaúchas, tocadas no toca discos do meu pai, acho que essas músicas que
embalaram a minha infância, antes de chegar à escola, pois esta recordação eu
tenho dos inúmeros discos que tínhamos em casa e que eram tocados no toca
discos laranja e preto, quando o pai estava em casa.
Lembrar-me da infância musical passa pelas cantigas de roda na primeira
série o que aumenta o sentido e traz significado para o meu aprendizado pessoal,
pois foi uma fase boa da infância que os compromissos maiores são infinitamente
menores do que hoje se assume como adulto, mas foi fase bastante importante de
qualquer jeito.
Foram às cantigas de roda de quando estudava no interior de Tupanciretã
que aprendi na escola, como “atirei um pau no gato, roda cotia, ciranda cirandinha”
depois quando mudei para a cidade “passa passará, escravos de jó, fita e renda,”
que me embalaram nas brincadeiras de escola e nas junções de rua de final de dia.
Outras brincadeiras também fizeram parte como “andar de bicicleta, pular corda”,
com um pouco mais de idade.
A partir destas constatações, aflora na memória uma experiência em escola
rural antes mesmo de entrar na escola aos 7 anos. Uma vez, visitei uns parentes no
interior, (eu morava no interior, mas eles mais adiante ainda) que na casa onde
estávamos a filha mais velha do casal, era professora numa escolinha ali perto, não
tinha magistério e fazia cursos por correspondência .

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Na manhã seguinte, fui com ela para a escola onde eram as aulas e as
coisas transcorriam da forma citada anteriormente, onde uma professora era
responsável por vários alunos em séries diferentes. O meu processo de
alfabetização foi na 1ª série na época, numa escola multiseriada que tinha até 4ª
série na escola, depois disso tinha de ir morar na cidade se quisesse continuar
estudando.
Depois de terminar a primeira série, que modificações familiares
aconteceram e acabei indo morar na cidade e estudar numa escola particular. A
partir dai, novas recordações e experiências nortearam os estudos, pois meus
primos ainda permaneceram na escola multiseriada e eu caia numa sala de aula que
não mais era desta forma, me sentindo estranha com tanta novidade.
Após esta fase escolar, tem as lembranças da adolescência onde as
músicas MPB embalavam os dias e as noites, os primeiros bailinhos na casa dos
amigos, a festa da escola, a dança das cadeiras e a da vassoura, pura diversão e
risadas. Tem a música do rádio, o caderno de coleção das músicas, os programas
de tv no sábado a tarde onde apareciam os sucessos musicais da semana, ainda
para compensar, as músicas sertanejas melosas e cheia de sofrimento que saiam
pelos tocas fitas e programas de rádio, todos os dias, às 18 horas, que eu acabava
escutando não por escolha, mas por não ter opção na casa que morava.
Também marcaram as músicas de igreja as quais eram cantadas nas
missas que fazia parte, nos encontros de família, novenas, encontro de jovens da
comunidade católica, tais como “Maria de Nazaré”, “Noite Feliz”, “A barca” e
“Quando eu era pequeno”. As orações cantadas foram novidades para mim quando
comecei a frequentar as missas na comunidade de São Geraldo, de Ijui, RS.
Outras memórias remetem as brincadeiras de professora com as colegas
onde fazíamos a lateral do roupeiro um quadro para brincarmos de aula. Eu
procurava ser sempre a professora, pois não gostava de ser a aluna, dai ia
ensinando as demais continhas de matemática, português, jogos e cantos... As
brincadeiras de pula corda também eram apreciadas e cantadas conforme evoluíam
os pulos.
Sofremos influências da TV, pois tínhamos como ídolos na época: Xuxa com
suas botas brancas que nunca pude ter, Angélica que também embalava as nossas

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cantorias com suas músicas. Apreciávamos a turma do Balão Mágico, Jairzinho e
Simony e descobri o gosto também pelas músicas do Roberto Carlos.
Na adolescência as músicas dos Menudos, Polegar, Dominó, Roupa Nova,
Radio Taxi, Blitz, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Titãs, Ultraje a rigor,
RPM, Legião Urbana, Kid Abelha, Capital Inicial, Ira, Biquíni Cavadão, Erasmo
Carlos e o Coração de Estudante de Milton Nascimento não poderia faltar.
Era a apreciação da sonoridade que se fazia parte no nosso cotidiano que
recriávamos a realidade, buscando para marcar o nosso gosto por registros que
aconteciam nos cadernos de músicas que fazíamos e nos trocava para todas as
amigas ter, linhas e linhas escritas. Hoje me faço uma pergunta: como
conseguíamos ter as cópias dessas músicas já que o acesso a esse tipo de fonte
era bem mais difícil? Não lembro para explicar, mas sei que fez parte da minha
história musical, o que proporcionava um significado muito importante para todas, e
fazia parte do jogo e das brincadeiras de convivência e interação, o que para Brito
(2007, p.69) são “formas de experienciar, de desenvolver recursos e construir
conhecimentos”.
Nos programas de rádio da cidade, ligávamos pedindo as músicas preferidas
e mandávamos músicas para nossos amigos e familiares, claro que por detalhe para
família, pois nosso interesse era dedicar certa música a certa pessoa e participava
do programa, em outros momentos, uma cartinha ou ligação para algum programa
ao vivo, com as solicitações de músicas e as dedicatórias.
Sou apreciadora da música nacional. A internacionais somente para as
baladinhas românticas com os amigos para dançar. Gosto, tenho minhas
preferências ainda, mas a dificuldade com o idioma pode me desestimular.
Então, concluo que com as experiências que tive e as que visualizo hoje são
de relevante importância, pois como Werle (2015, p.48) diz “as experiências na
infância se constituem através do brincar. A brincadeira e os jogos protagonizados
da criança proporcionam suas experiências com o mundo, incluindo experiências
estéticas e musicais”.
Antigamente a imprensa tipográfica havia separado esses dois mundos,
definindo o papel da escola e o da família com relação à criança. A criança não tinha
acesso ao que era escrito para o adulto. Hoje, ao contrário, assim como o adulto, ela
vive uma vida cheia de compromissos e estresse.
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Hoje vejo as influências que a música faz na vida do meu filho, pois foi uma
forma que ele encontrou de estudar é escutando música, em momentos mais
descontraídos ensaia umas danças e coreografias, mas é muito tímido no meio dos
pais, quando em roda de amigos, as companhias levam a se soltar um pouco mais.
Percebo também as influências que os amigos proporcionam com aquisição
de materiais que julgam de necessidade e os adultos com suas bagagens e
experiências, não veem o consumismo com bom olhos, pois identificamos a
sociedade com forte apelo comercial, não que não existisse nas épocas passadas,
mas hoje a gente vivenciando o outro lado da história, percebe diferente.
Os apelos musicais são sensuais e as crianças não veem maldades em
certas coreografias, o que passa aos olhos como sendo tudo tão bonitinho para uma
criança tão pequena estar fazendo.
As memórias viajam pelo tempo, passam pelo período de magistério quando
trabalhávamos com a música para apresentações na escola. Uma que foi marcante
foi na disciplina de espanhol que tínhamos de escolher uma música espanhola,
caracteriza-la, dançá-la numa apresentação. Para mim, a pior parte foi o momento
das coreografias, pois me acho um caos para movimentos coordenados, acho que
deva ter interferência de algum momento da infância que tenha ocasionado algum
bloqueio.
Na faculdade, tenho lembranças de algumas aulas que num momento,
fizemos a socialização dos nossos aprendizados com uma apresentação para
nossos filhos na sala de materiais da pedagogia. Claro que esses anos todos de
faculdade não se resumiram a isso em contato com a música, mas acredito que por
ter sido um momento especial que compartilhei com meu filho, tenha sido de mais
valia. As oficinas oferecidas pelo Departamento de Habilidades e educação na
semana acadêmica também foram bastante interessantes e didáticas para o
aprendizado.
Outra situação interessante e foi bastante emocionante foi no inicio de um
semestre, na aula de linguagens expressivas II, onde fomos recepcionadas no
auditório da sede, pelo Prof. Oséias da EFA tocando para nós violino, foi muito legal
entrar neste espaço com esta surpresa agradável.
Aos acontecimentos particulares pode-se pegar para ilustração, a partir da
ideia de que o bebê na barriga ouve e sente as mesmas coisas que a mãe.
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Presenciei na minha gestação, pela situação de susto quando um cliente chega até
minha sala e bate com a carteira no balcão, o que me induz a um sobressalto, o que
pode ser exemplo de que as crianças no ventre, também sentem as mesmas coisas
que as mães.
Um caso particular aconteceu comigo quando minha irmã estava grávida do
terceiro filho, pois o bebê iria nascer num período em que eu estaria cheia de
atividades e aquilo estava me angustiando, pois eu queria compartilhar, estar junto
com minha irmã quando nascesse a bebê já que dos outros eu não estava presente.
Um dia eu disse pra bebê na barriga da mãe que ela precisava nascer antes, sei que
foi um momento de egoísmo meu vendo hoje o que fiz, mas não pensei que seria
atendida tão prontamente, pois ela acabou vindo de parto normal. Uns cinco dias
antes de começar a contar o período que o médico previu e ainda, ela esperou que
eu chegasse à maternidade para ela nascer, o que tem de intervenção divina ou o
que quer que seja não sei dizer, só sei que as coisas aconteceram dessa forma.
Então, isso é mais um motivo para eu acreditar que

o envolvimento das crianças com o universo sonoro começa ainda


antes do nascimento, pois na fase intrauterina os bebes já convivem
com um ambiente de sons provocados [...] (BRITO, 2003, p.35)

e ainda com a voz de familiares próximos, também fazem interferências nesse


período, então eu concordo com o músico terapeuta Fernando de Oliveira Pereira
que diz “as melodias da vida intrauterina serão um referencial de conforto para o
bebê”, pois será um ponto de referencia para a criança quando estiver nascido.
A música usada para despedidas em celebrações fúnebres marcam a vida
das pessoas em geral, acredito que não seja somente a minha, tanto que pedi ao
celebrante da cerimônia do meu pai, que não fizesse a escolha de certas músicas
que doem demais as letras, sorte que fui plenamente atendida e agradeço por tal,
pois já bastava o sofrimento da situação, não necessitava que estas músicas
marcantes e tristes, fossem entoadas no momento.
É por estas e outras, que a vida das pessoas é marcada pela música, como
dito anteriormente, são músicas que marcam pela alegria do ritmo, pela letra que a
pessoa se identifica, pela nostalgia da situação, de acordo com a situação que a
pessoa está vivendo, será a sua elaboração para a música que esta a ouvir.

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Quantas vezes é possível estar escutando uma música e não gostar dela e
procurar uma forma de mudar de estação, avançar mais uma música ou duas, caso
não venha encontrar algo que se identifique melhor para o momento, venha desligar
o aparelho e mudar de atitude diante da música.

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3 POR QUE AS CRIANÇAS BRINCAM?

O brincar é uma das formas mais comuns do comportamento humano,


principalmente durante a infância. Já foi o tempo em que o brincar era desvalorizado
e menosprezado, destituído de valor a nível educativo. Com o passar dos tempos,
atravessa-se uma mudança na forma como se vê o brincar, e a sua importância no
processo de desenvolvimento duma criança.
Werle (2015, p.49) descreve que

“as crianças brincam não porque gostam de criar e imaginar brincam


porque, através do brincar, tem a possibilidade de representar e
compreender a realidade. Brincando as crianças produzem culturas,
exploram linguagens e formas de interação com seus pares,
usufruindo também das experiências de gênero, poder”. (WERLE.
2015, p.49)

Hoje constatamos em nossos estudos que se tem e deve ser valorizado


todas as aprendizagens que a criança demonstra por incentivo ou por iniciativa, de
acordo com os objetos que os são entregues/fornecidos para o seu
desenvolvimento. Brincar é essencial para o desenvolvimento da criança - e o valor
da brincadeira não pode ser subestimado, tudo vem a contribuir para seu
aprendizado, até as investidas com o brinquedo que possam não dar certo ou a
contento da criança, faz parte de seu aprendizado.
O momento da brincadeira é uma oportunidade de desenvolvimento para a
criança. Segundo Werle (2015, p.50) “o brincar, para além de uma atividade que
ocorre em um determinado período de tempo, é o modo de ser, estar, de
experimentar o mundo”. Através do brincar ela aprende, experimenta o mundo,
possibilidades, relações sociais, elabora sua autonomia de ação, organiza emoções,
mais do que uma "ferramenta", o brincar é uma condição essencial para o
desenvolvimento da criança, pois desenvolve capacidades importantes como
atenção, memória, imitação, imaginação além de estimular a curiosidade,
autoconfiança e autonomia, proporciona ainda o desenvolvimento da linguagem, do
pensamento, da concentração e da atenção.
Ao brincar, exploram e refletem sobre a realidade e a cultura na qual estão
inseridas, interiorizando-as e, ao mesmo tempo, questionando as regras e papéis

19
sociais. O brincar potencializa o desenvolvimento, já que assim aprende a conhecer,
aprende a fazer, aprende a conviver e, sobretudo, aprende a ser. Brincar tem um
viés que vai muito além da simples fantasia, pois através da brincadeira, as crianças
ultrapassam a realidade, transformando-a através da imaginação. Desta forma,
expressam o que teriam dificuldades em realizar através do uso de palavras.
Enquanto um adulto vê apenas uma criança empilhando bloquinhos, para o pequeno
aquilo significa experimentar as possibilidades de construir e conhecer novas cores,
formatos e texturas. Para a criança, brincar é um processo permanente de
descoberta. É um investimento, é coisa seria.
A criança que brinca vai ser mais esperta, mais interessada e terá mais
facilidade de aprender - tudo isso de forma natural, seu poder de concentração será
melhor, sua autoconfiança e determinação. O brincar e estimular a criança
proporciona um melhor desempenho em suas atividades educativas e motoras, pois
tudo será a partir da exploração, confirmação, tirando suas próprias conclusões sob
os aspectos que se fizerem necessário.
Através do jogo, da brincadeira, a criança compreende o mundo à sua volta,
aprende regras, testa habilidades físicas, como correr, pular, aprende a ganhar e
perder. O brincar desenvolve também a aprendizagem da linguagem e a habilidade
motora. A brincadeira em grupo favorece alguns princípios como o compartilhar, a
cooperação, a liderança, a competição, a obediência às regras. O jogo é uma forma
da criança se expressar, já que é uma circunstância favorável para manifestar seus
sentimentos e desprazeres. Assim, o brinquedo passa a ser a linguagem da criança.
Brincar tem três grandes objetivos para as crianças: o prazer, a expressão
dos sentimentos e a aprendizagem. Brincando, a criança passa o tempo, mostra aos
pais e professores sua personalidade e descobre informações, e é a partir dessa
exploração que ela demonstra o interesse por certas atividades mais que outras,
explorando a brincadeira com maior interesse e define estratégias para conseguir a
manipulação do brinquedo de outras formas, é neste momento que podemos
interferir se vier a proporcionar algum risco a sua integridade, sendo necessário um
ambiente propício para a exploração sem ser um lugar que precise o adulto estar
interferindo constantemente devido ao fato de ocorrer risco para com a criança.
Para crianças pequenas se faz necessário e preciso que sejam brincadeiras
que estimulem os sentidos o que determina por assim dizer, que cada faixa etária
20
que a criança se encontra, as possibilidades e habilidades a serem desenvolvidas.
Através deles, elas exploram e descobrem cores, texturas, sons, cheiros e gostos.
Brincar envolve movimento e é uma forma saudável e atraente de explorar a
música nas atividades, pois proporciona conhecimentos novos pelo prazer que
desperta. Música possibilita interação e troca entre os pares, é felicidade, pois
podemos nos descobrir explorando e conhecendo o corpo e tirando dele sons que
podem aumentar as nossas experiências sensoriais.
Brinca-se com ritmo, som, silêncio, com o barulhar explorativo ou
contemplativo. São as experiências sensoriais e motoras que proporcionarão
curiosidades que gerarão dúvidas e aprendizagens, pois tudo o que nos proporciona
perguntas interpelativas, produziu algum significado na nossa bagagem cultural. Só
vai significar algo para mim quando eu tiver a curiosidade de explorar e resignificar o
meu saber.

21
4 O QUE DIZEM AS LEIS?

A partir do momento que houve a necessidade de criação desse espaço


especial para a criança, quando apareceram as creches e pré–escolar, surgiu-se a
preocupação de proteger e surgiu às leis e políticas públicas que vieram garantir
esses direitos, o que hoje garantem um espaço educacional.
As crianças passaram a ter direitos não faz muito tempo. Antigamente
crianças eram vistas como adultos em miniatura e tinham os mesmos direitos e
obrigações que estes e estavam, da mesma maneira, submetidas às leis dos
adultos.
Com a mudança de paradigma, onde a criança passou a ser vista como um
ser em desenvolvimento, novas teorias de aprendizagem e desenvolvimento foram
surgindo. O desenvolvimento científico e filosófico levou legisladores a pensarem
sobre leis específicas às crianças e adolescentes, já que a lei dos adultos não
poderia ser mais aplicada a elas.
O Estatuto da Criança e do Adolescente garante que todas as crianças:
devem ser protegida pela família, pela sociedade e pelo Estado, para que possa se
desenvolver física e intelectualmente;

A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao seu


pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da
cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-lhes:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II - direito de ser respeitado por seus educadores;
III - direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às
instâncias escolares superiores;
IV - direito de organização e participação em entidades estudantis;
V - acesso a escola pública e gratuita próxima de sua residência.

Parágrafo único. É direito dos pais ou responsáveis ter ciência do


processo pedagógico, bem como participar da definição das
propostas educacionais.

A resolução nº 01, do Conselho Nacional da Educação, de 10 março de


2011, assegura ainda um leque de considerações e direitos a serem observados, o
que determina a importância que hoje esta sendo dada para esta faixa etária.

22
Art. 1º As unidades de Educação Infantil mantidas e administradas
por universidades federais, ministérios, autarquias federais e
fundações mantidas pela União caracterizam-se, de acordo com o
art. 16, inciso I, da Lei nº 9.394/96, como instituições públicas de
ensino mantidas pela União, integram o sistema federal de ensino e
devem:

I – oferecer igualdade de condições para o acesso e a permanência


de todas as crianças na faixa etária que se propõem a atender;
II – realizar atendimento educacional gratuito a todos, vedada a
cobrança de contribuição ou taxa de matrícula, custeio de material
didático ou qualquer outra;
III – atender a padrões mínimos de qualidade definidos pelo órgão
normativo do sistema de ensino;
IV – garantir ingresso dos profissionais da educação,
exclusivamente, por meio de concurso público de provas e títulos;
V – assegurar planos de carreira e valorização dos profissionais do
magistério e dos funcionários da unidade educacional;
VI – garantir o direito à formação profissional continuada;
VII – assegurar piso salarial profissional; e
VIII – assegurar condições adequadas de trabalho.

Parágrafo único. Unidades educacionais de Educação Infantil que


funcionam em espaço/prédio de órgão da Administração Pública
Federal, mantidas e administradas, mediante convênio, por pessoa
física ou jurídica de direito privado, tais como cooperativas,
associações, sindicatos ou similares, caracterizam-se como
estabelecimentos privados e integram o respectivo sistema de ensino
municipal, estadual ou do Distrito Federal e, portanto, devem orientar
seu funcionamento e solicitar autorização para ofertar a Educação
Infantil ao Conselho de Educação do respectivo sistema.

Art. 2º Para funcionar, as unidades de Educação Infantil que


integram o sistema federal devem ter um projeto pedagógico que:

I – considere as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação


Infantil (Parecer CNE/CEB nº 20/2009 e Resolução CNE/CEB nº
5/2009);
II – apresente os fins e objetivos da unidade educacional;
III – explicite uma concepção de criança, de desenvolvimento infantil
e de aprendizagem;
IV – considere as características da população a ser atendida e da
comunidade em que se insere;
V – especifique seu regime de funcionamento, parcial ou integral;
VI – descreva o espaço físico, as instalações e os equipamentos
existentes;
VII – relacione os recursos humanos da unidade;
VIII – aponte os critérios de organização dos agrupamentos de
crianças;
IX – indique a razão professor/criança existente ou prevista;
X – descreva a organização do cotidiano de trabalho junto às
crianças;

23
XI – indique as formas previstas de articulação da unidade
educacional com a família, com a comunidade e com outras
instituições que possam colaborar com o trabalho educacional; e
XII – descreva o processo de acompanhamento e registro do
desenvolvimento integral da criança, sendo que os processos de
avaliação não têm a finalidade de promoção.

A Educação Infantil é a primeira etapa da Educação Básica e a linguagem


musical é uma excelente forma para conseguir desenvolver habilidades nesta fase,
proporcionando integração, equilíbrio, autoestima, autoconhecimento além de
conseguir se expressar.
A Constituição Federal de 1988, Lei das Diretrizes e Bases da Educação
Nacional – LDBEN 1996, Parâmetros Curriculares Nacional PNE 2008, com volumes
1 e 2 e Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil RCNEI 1998 que no
volume 3 – Conhecimento de Mundo, vieram contribuir pela valorização desta fase
da vida, cada uma com suas especificidades.
LEI nº 11.769 de 18 de agosto de 2008 que determina a obrigatoriedade da
música na escola, considerando a importância desta etapa na vida escolar e por
valorização da expressão humana, portanto, trouxe significativos avanços para a
educação brasileira, pois se criou um aparato legal que justifica a devida
importância, considerando os seus aspectos sensíveis, afetivos, estéticos e
cognitivos, assim como a promoção de interação e comunicação social conferem
caráter significativo à linguagem musical.
De acordo com os documentos do Referencial Curricular para a Educação
Infantil (RCNEI):

A música é a linguagem que se traduz em formas sonoras capazes


de expressar e comunicar sensações, sentimentos e pensamentos,
por meio da organização e relacionamento expressivo entre o som e
o silêncio. A música está presente em todas as culturas, nas mais
diversas situações: festas e comemorações, rituais religiosos,
manifestações cívicas, políticas etc. (BRASIL, 1998, p. 45).

Os RCNEI destacam ainda uma parte importante no processo, aliando a


essa prática o movimento corporal:

O gesto e o movimento corporal estão ligados e conectados ao


trabalho musical. Implica tanto em gesto como em movimento,
porque o som é, também, gesto e movimento vibratório, e o corpo

24
traduz em movimento os diferentes sons que percebe. Os
movimentos de flexão, balanceio, torção, estiramento etc., e os de
locomoção como andar, saltar, correr, saltitar, galopar etc.,
estabelecem relações diretas com os diferentes gestos sonoros.
(BRASIL, 1998, p. 61).

Constatamos que os conteúdos musicais devem ser desenvolvidos nas


aulas de música para crianças, mas outras habilidades como a socialização, a
afetividade, a criatividade, a imaginação, a comunicação entre outros, também
estarão sendo trabalhadas simultaneamente. De acordo com o RCNEI:

A integração entre os aspectos sensíveis, afetivos, estéticos e


cognitivos, assim como a promoção de integração e comunicação
social, conferem caráter significativo à linguagem musical. É uma das
formas importantes de expressão humana, o que por si só justifica
sua presença no contexto da educação, de um modo geral, e na
educação infantil, particularmente. (BRASIL, 1998, p. 45).

Foi tema de ampla pesquisa em nível nacional, coordenado pela UERGS


com intenso trabalho em todos os estados, trata-se das Diretrizes Nacional para a
educação Infantil.
Acrescentamos ainda, o Referencial Curricular Nacional para a Educação
Infantil, este constituído de três volumes, no ano de 1998, ao qual, para nosso
interesse no momento, se resume no volume 3, que vem intitulado como
Conhecimento de Mundo, que cita a musica como.
A Lei nº 12.287 de 13 de junho de 2010 altera Lei no 9.394, de 20 de
dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, no
tocante ao ensino da arte, no artigo 26, inciso 2º determina que o ensino de artes
constitua componente curricular obrigatório nos diversos níveis da educação básica,
de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos,
Nas Diretrizes Curriculares da Educação Infantil ( 2010) no item 11, onde se
refere das práticas pedagógicas da educação infantil, determina que sejam
garantidas experiências que “favoreçam a imersão das crianças nas diferentes
linguagens e gêneros e o progressivo domínio por elas de vários gêneros e formas
de expressão: gestual, verbal, plástica, dramática e musical;” e ainda acrescenta a
referência a música quando é proposto também que “Promovam o relacionamento e

25
a interação das crianças com diversificadas manifestações de música, artes
plásticas e gráficas, cinema, fotografia, dança, teatro, poesia e literatura”.
As aulas do curso de pedagogia proporcionaram que eu mudasse os meus
conceitos e pude visualizar o que acontece dentro do espaço escolar. Aprendi em
sala de aula o que os livros sugerem e as experiências que cada um tem para o
desenvolvimento da formação pedagógica contribuíram para proporcionar a
verdadeira visão do que é o processo educativo e como está a sua verdadeira
realidade.
Visualizar as duas realidades me proporcionou crescimento e troca de
experiências, não estamos vivendo uma utopia de que tudo é perfeito fora da
faculdade e dentro da escola. Sabemos das diferenças que acontecem e o quão em
alguns momentos são negligenciadas responsabilidades tanto familiares quanto
escolares, mas estamos dispostos a enfrentar o desafio para o bem maior que são
as nossas crianças.
Não saio desta instituição com aprendizado completo, pois a nossa profissão
exigente estudos constantes, atualizações diárias por que o processo é dinâmico e
precisa ser acompanhado.
As experiências de estágio em primeiro momento aconteceram em
observações e após com práticas, juntamente com os aprendizados e trocas de
informações em sala de aula, proporcionou-me um olhar critico e observador, pois
determinou a minha visão ao que deveria ser olhado com atenção.
Assim como Lilian Lopes Martin da Silva, escreve no prefácio do livro,
Culturas infantis em creches e pré-escolas: estagio e pesquisa, considero suas
palavras muito sabias e oportunas para estes momentos de estágio ao qual estive
envolvida
“O olho esta presente em muitas operações de um sujeito. Pode ser
um olho que mira. Encara. Contempla. Perde-se no vazio. Pisca.
Flerta. Vislumbra. Observa. Vê. E, embora acreditemos muito no
olhar (queremos ver para crer!) é bom lembrar que o olhar também
pode nos enganar. E, embora muitos dos encontros do homem com
o mundo se deem pela visão, é bom que se diga que não só. Nos
encontramos com a realidade do mundo através de todos os outros
sentidos: audição, paladar, tato etc. todo o nosso corpo é envolvido
na experiência de explorar aquilo que esta fora de nos, que é
diferente de nós, que se oferece ao conhecimento. Entretanto, em
nossa cultura e nosso tempo, impõe-se a visão como faculdade
privilegiada para esse encontro.” (SILVA, 2011. p.7)

26
E assim, se processou os dias que estive compartilhando da experiência de
ter contato como estagiária em várias escolas da rede estadual, municipal e privada,
com observações e registro do que estava acontecendo. Foi dessa forma que tentei
me comportar, como expectadora da realidade escolar. Foram momentos de
atividades direcionadas, brincadeiras, cumprindo o que a lei determina nos tempos
adequados, favorecendo os intervalos e interferências nas atividades quando se
julgava necessidade.
No desenvolvimento dos estágios pude comprovar os aprendizados
encontrados em sala de aula, justificando certas leituras as quais tivemos
oportunidade de em mãos, escritos como Formosinho (2007) quando percebi o
significado do estar diz em seu trabalho quando afirma que

“garantir que essas crianças construam a infância divertindo-se e


isso, pela observação se conhecera os seus desejos e as suas
necessidades. Ela é radicalmente coletiva: não só entre as crianças
construindo as culturas infantis, não só entre as professoras
construindo a cultura da infância, mas entre adultos e crianças,
construindo a pedagogia”.(FORMOSINHO, 2007)

A escola enquanto instituição, é norteada pelas leis que regem a Educação


Infantil e as outras modalidades de ensino as quais ela oferece. Ela possibilita a
convivência e interações entre as crianças, adultos e crianças, professores,
familiares, na verdade a escola é uma grande família pois este espaço não tem
somente crianças e professores, para funcionar é preciso da contribuição de vários
servidores que compõem a comunidade escolar para determinar o seu pleno
desenvolvimento e desempenho.
Aprendi que Escola como meio social de convivência, proporciona a
ampliação de saberes e conhecimentos de diferentes naturezas e ainda promove a
igualdade de oportunidades educacionais entre as crianças de diferentes classes
sociais, no que se refere ao acesso a bens culturais e as possibilidades de vivência
da infância, pois dentro da sala da aula, encontramos crianças de varias condições
econômicas.
As integrações que acontecem, valorizando as singularidades individuais e
coletivas das crianças, provendo interações com seus pares e autonomia, é possível
a partir da convivência, o que oportuniza mais independência e criticidade. Também
27
pude comprovar isso, mas como tudo é um processo a longo prazo e precisa de um
tempo maior para ser absorvido e visualizado na prática como objetivo alcançado.
Aprendi que o registro é uma ferramenta essencial para acompanharmos a
evolução do processo evolutivo educativo a que esta sendo proposto na instituição
escolar, pois em cada fase da vida escolar, existem conhecimentos e habilidades
que devem ser alcançados. Que a importância e valorização da criança como ser
cultural é necessária para sabermos com quem estamos trabalhando, que as
influencias da família interferem no crescimento, aprendizado e autonomia da
criança.
“a criança com pouca idade não é apenas uma aluna. Ela se espalha
por todo o mundo através das culturas infantis, da manifestação de
suas obras tridimensionais, dos desenhos inventivos que também
mostram a tridimensionalidade do real, do imaginário, dos jogos e
dos movimentos que ocupam o espaço em tempos diferenciados do
tempo do capital.” (FORMOSINHO, 2007.p.285)

Precisamos construirmos um espaço cada vez mais agradável para todos e


para isso acontecer, os educadores precisam ser comprometidos com a educação,
bem como os pais precisam fazer a sua parte também, pois hoje com a chegada
cada vez mais cedo da criança na escola, muitos deveres estão sendo remetidos a
escola para atender.
Aprendi no decorrer do processo do curso e vivenciei no processo de
estágio, que a criança aprende nesta faixa etária brincando, pois assim, criam e
recriam os seus mundos, construindo sua cultura de infância.

Nessas brincadeiras, por meio de uma reprodução interpretativa,


expressam suas ideias, manifestam e testam seus conhecimentos
sobre o mundo adulto, sobre si mesmas e sobre os aspectos da
cultura da qual fazem parte. (FARIA, p.84, 2012)

As experiências de estágio, servem para a confirmação das hipóteses


atestadas em salas de aula, pois comprovamos com as observações e interações
que fizemos, que as crianças trocam informações, vivenciam conflitos, constroem
hipóteses com seus pares o que proporciona aprendizagens para a vida.

As práticas da Educação Infantil devem ter como eixos norteadores


as interações e a brincadeira, garantindo experiências que:

28
I – promovam o conhecimento de si e do mundo por meio da
ampliação de experiências sensoriais, expressivas, corporais que
possibilitem movimentação ampla, expressão da individualidade e
respeito pelos ritmos e desejos das crianças;
(...)
V- ampliem a confiança e a participação das crianças nas atividades
individuais e coletivas;
VII – possibilitem situações de aprendizagem mediadas para a
elaboração da autonomia das crianças nas ações de cuidado
pessoal, auto-organização, saúde e bem-estar;
VII – possibilitem vivencias éticas e estéticas com outras crianças e
grupos culturais, que alarguem seus padrões de referencias e de
identidades no dialogo e reconhecimento da diversidade. (BRASIL,
2009)

Constatei também a veridicidade da consideração que as crianças possuem


a sua própria cultura, sua história e que em contato no espaço escolar com outras
crianças, ela terá acesso a outras histórias e culturas trazidas por seus colegas e
demais pessoas de suas convivências, o que proporcionará a reconstrução de suas
identidades a partir da ressignificação de suas experiências, proporcionando a
criança uma reelaboração de suas aprendizagens.
Dessa forma, acredito na consideração de que o currículo da educação
infantil seja:
(...) um conjunto de práticas que buscam articular as
experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos
que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental,
cientifico e tecnológico, de modo a promover o
desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade.
(BRASIL, 2009)

A criança é um sujeito de direitos, não somente aqueles assegurados como


cidadão, mas também pelo assegurado dentro do espaço escolar o qual deve
proporcionar o direito de desenvolver as múltiplas linguagens de brincar, contato
com a natureza, movimentar-se, ter acesso aos saberes, praticas e produções
culturais e ao conhecimento sistematizado.
Assegurar ainda um currículo que possibilite vivenciar experiências, partindo
de situações concretas que são mais bem identificadas e visualizadas para
ampliação de seus conhecimentos sobre o mundo.

(...) é na relação com o outro, que o sujeito se constitui como


ser individual nas praticas sociais das quais participa, na
29
cultura em que está inserido, apropriando-se dela e
transformando-a. (FARIA, p.101, 2012)

As experiências com docência foram todas bastante interessantes,


estimulante, me proporcionou aprendizagens e um conhecimento maior da vida
escolar. As experiências não precisam ser todas boas para serem consideradas
válidas, também aquelas que não foram a contento serviram para nortear e nos
mostrar que a realidade não é um sonho de que tudo é perfeito. Não temos escolas
como instituições perfeitas, alunos perfeitos e nem professores com esta habilidade,
o que encontramos são pessoas tentando acertar e tentar fazer o melhor por aquilo
que acredita.
Considero que este processo de formação foi muito válido, extremamente
enriquecedor para meu aprendizado, serviu de fonte de experiência também para a
vida, pois sempre aprendemos na convivência com as pessoas, inclusive com os
pequenos que nos ensinam muito e superam as nossas expectativas com suas
vivencias.
O trabalho em sala de aula deixa uma grande bagagem de aprendizado,
considerando que me encontrava e assim permaneço, restringindo meu contato a
escola nos períodos solicitados de estagio. Conviver com tudo o que acontece no
dia a dia, vivenciando a realidade das várias escolas que me abriram as portas para
poder desenvolver os estágios me mostrou a realidade do que temos hoje.
Meu desempenho, foi com momentos de frustração e outros de satisfação
pelas atividades desempenhadas, mas sei que é importante ressaltar que

(...) não temos um grande conhecimento, para além do senso


comum, sobre esses assuntos que surgem de forma imprevisível.
Precisamos, como profissionais que somos, reconhecer os nossos
limites e estarmos abertos, também no decorrer do trabalho, para a
ampliação dos nossos próprios conhecimentos e para a busca de
outras fontes de informação, na perspectiva de possibilitar as
crianças expressarem seus saberes e terem acesso ao
conhecimento científico. (FARIA, p.73, 2012)

Isso se deve ao fato de que o professor precisa ser um constante estudioso,


sempre investigador, nunca estar satisfeito e nem acomodado com o que já
conseguiu alcançar.

30
Aprendi bastante e pude comprovar na prática, situações de aprendizagem e
estudo desenvolvidas em sala de aula, no processo de formação pedagógica.
Conheci novas pessoas e convivi com as diferenças e empatias do ambiente de
trabalho, o que me proporcionou crescimento pessoal, período que pude obter um
amadurecimento tanto profissional quanto pessoal que será extremamente
importante para mim no futuro.

31
5 MÚSICA? PRESENTE! ESTOU NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Uma das características que se encontra nas escolas é a constante


renovação, atravessando por diversos imprevistos que precisam ser regularizados
para o pleno desenvolvimento de suas atividades.
Temos uma escola que se coloca e se reconhece como sendo uma
instituição necessária para a sociedade, principalmente para o desenvolvimento das
camadas populares. É nesta escola onde se repensa o currículo, onde se repensa o
projeto, é o lugar onde é possível pensar na educação, como direito de todos.
A escola pública é um espaço privilegiado, organizado para a juventude de
classe popular viver sua cultura. É necessário que se modifique o discurso
pessimista sobre a escola pública.
Precisamos voltar nosso olhar para nós mesmos, para nossa prática. Se na
escola não ocorressem situações de aprendizagem concretas e possibilidades de
emancipação, não haverá as históricas lutas das classes populares pelo direito á
escola.
Neste processo de constantes adaptações, a escola busca oferecer a
criança o desenvolvimento mais amplo de suas habilidades e traz para a sala de
aula, a música como direito adquirido, passa a fazer parte desse ambiente, o que
exige melhorias e adequações para poder ser promovida.
Werle (2015, p.50) “compreendo as manifestações musicais estando
fortemente vinculadas à cultura de determinados grupos sociais, desta forma,
conceituo música como um elemento de cultura manifesto em uma linguagem,
expresso por sons e sinais”.
Para nosso tempo, grandes desafios e dificuldades se encontram para a
prática de uma educação musical.
A formação de professores limita a utilização desse instrumento de ensino,
pois é necessário considerar que o repertório musical que temos é bastante variado
e precisa-se fazer uma atualização do que nossos ouvidos encontram, produzindo
um material sonoro de boa qualidade para contribuir com o pleno desenvolvimento
infantil.

32
Chegou a hora da escola pública de educação infantil fazer sua parte, uma
vez que tem uma população diferenciada da rede privada devido às condições e
acesso a materiais que venham a proporcionar experimentos e trocas entre os
iguais, o que não limita e nem exime de suas responsabilidade e direitos às duas
instituições de ensino.
A criança é energia e por isso ela produz muita história e cultura. É com as
suas interações com a sociedade que revela significados a sua existência, portanto
ela não deve ser negligenciada ou negado ao seu direito de acesso a esse bem
cultural chamado música que está conectada a arte, que nos proporciona
sentimento, reflexão, imitação, criação, motivação, pois aguça nossos sentidos e nos
proporciona imaginação o que pode acarretar mudança de atitude e comportamento.
Encontramos na nossa comunidade, diferentes situações de escolas pois
algumas oferecem o material para ser usado com as crianças e outras não, o que
obriga o professor a desenvolver de outra maneira as aulas de musicalidade,
partindo desde então da confecção dos materiais que poderão ser utilizados,
mudando os planejamentos e reconstruindo sua proposta.
Bom, a música está na escola e precisa ser trabalhada desde Educação
Infantil, o professor possui alguma disponibilidade de material para montar o seu
projeto sobre música, mas, como está esse espaço para recebe-los?
Qual é a sala? Que espaço é esse? Como está distribuído este material?
Tem material para todos? Como podemos explorar? O que fazer com o que temos
disponível?
Mais uma vez entra o bom senso para planejar um trabalho adequado. As
escolas com a necessidade de abranger grande número de crianças na educação
infantil, muitas vezes, encontra-se com seus espaços sobrecarregados o que
ocasiona falta de espaço para desenvolver atividades que exijam maior movimento,
dificultando a circulação e exploração do espaço.
Então, é uma necessidade, que este espaço seja adequado para poder ser
promotor de conhecimento e aprendizado na hora de trocas com seus pares, o que
não acontece na escola em questão, pois os materiais ficam longe do acesso das
crianças, encontrando dificuldade para o seu manuseio, conforme o caso observado.

33
Considero que ganhar o direito a ter a musicalização na educação infantil
não garante que seja um trabalho realmente efetivado com as devidas qualidades
que se julga necessário para desenvolver os aprendizados na interações.
Encontramos numa escola, uma turma de crianças com diversidade de
culturas e com condições de aprendizagens diferentes, pois cada um tem o seu
ritmo, cabe ao professor desenvolver a melhor forma de aproveitar isso a favor das
aprendizagens.
Conforme Werle

[...] musicar na escola transcende os tempos previstos para o brincar,


perpassando todas as situações do cotidiano escolar. Para as
crianças, todos os tempos e espaços constituem possibilidades do
brincar e do musicar, pois o brincar é o modo de ser, de estar no
mundo e representa-lo. As crianças sonorizam em todos os espaços
em variados momentos, explorando os materiais disponíveis,
desafiando uns aos outros a comporem sonoridades e construírem
jogos musicais. (WERLE, Kelly. 2015, p.176)

Se tal fato não acontecer, o barulhar explorativo das crianças que deveria
produzir momentos de contemplação e aprendizado, experiências e musicalizações,
perde o significado, pois determina-se metas e tempos de exploração, pois não
permite o tempo suficiente para que ela produza os conhecimentos adequados e
necessários.
Dinamizar as atividades, proporcionar um tempo maior de exploração e
espaços melhor organizados facilitariam bastante as explorações e trocas de
experiências com os pares, usufruindo do espaço e tempo que esta entidade tem
durante o período que a crianças passam a seus cuidados.

Organizar o cotidiano das crianças da Educação Infantil pressupõe


pensar que o estabelecimento de uma sequência básica de
atividades diárias é, antes de mais nada, o resultado da leitura que
fazemos do nosso grupo de crianças, a partir, principalmente, de
suas necessidades. É importante que o educador observe o que as
crianças brincam como estas brincadeiras se desenvolvem, o que
mais gostam de fazer, em que espaços preferem ficar, o que lhes
chama mais atenção, em que momentos do dia estão mais tranquilos
ou mais agitados. Este conhecimento é fundamental para que a
estruturação espaço-temporal tenha significado. Ao lado disto,
também é importante considerar o contexto sociocultural no qual se
insere e a proposta pedagógica da instituição, que deverão lhe dar
suporte. (BARBOSA; HORN, 2001, p. 67).

34
O professor, como mediador, facilitador, responsável pela organização do
espaço, deve sempre considerar que tudo o que ele precisa fazer, tem de ter um
objetivo entre tantos outros, que é o de proporcionar o desenvolvimento das
crianças, são essas horas que ele passa em convivência com esta instituição escolar
que ajudarão na formação da criança na integralidade. Maria da Graça Souza Horn
escreve sobre esta situação, onde afirma

O olhar de um educador atento é sensível a todos os elementos que


estão postos em uma sala de aula. O modo como organizamos
materiais e móveis, e a forma como crianças e adultos ocupam esse
espaço e como interagem com ele são reveladores de uma
concepção pedagógica. Aliás, o que sempre chamou minha atenção
foi à pobreza frequentemente encontrada nas salas de aula, nos
materiais, nas cores, nos aromas; enfim, em tudo que pode povoar o
espaço onde cotidianamente as crianças estão e como poderiam
desenvolver-se nele e por meio dele se fosse mais bem organizado e
mais rico em desafios. (HORN, 2004, p. 15).

O professor educador precisa enxergar possibilidades dentro do espaço e


tempo que possui e garantir experiências interessantes e desafios para as crianças.

35
6 O QUE FAZER COM A MÚSICA?

Espaços diferenciados proporcionam situações de aprendizagem distintas.


As possibilidades de exploração fazem com que se ampliem os conhecimentos e
experiências das crianças, proporcionando o exercício da autonomia, liberdade, livre
escolha e iniciativa tudo que venha contribuir para que esta criança se torne um
cidadão dinâmico.
Para alcançar um amadurecimento de aprendizagens e conhecimentos, as
nossas interações diárias promovem reelaboração de conceitos e experiências.
Explorar a música nesse espaço diferenciado, usando os saberes adquiridos para
montar uma proposta e explorar possibilidades com materiais de sons e
instrumentos, proporcionará crianças envolvidas e encantadas com todas as
descobertas alcançadas na convivência e experimentação que vão usufruir com
seus pares.
A partir da convivência com as outras pessoas, seja no lugar que for, vai
proporcionar novas aprendizagens por meio da troca e interações com as
experiências oriundas e únicas de cada pessoa, portanto a minha concepção e
construção musical é única. Cada pessoa tem sua bagagem cultural, é um ouvinte
com experiência de vida que será determinante para a apreciação, escuta
intencional, transformadora, geradora de sentidos e significados, cada ouvinte tem.
São as bagagens da vida que nortearão suas aprendizagens e adaptaram
seus gostos a partir de tudo que nos cerca de sons, então, a escola a partir da
organização de seu espaço para a criança, proporciona que esta venha a usufruir de
sua criatividade e desenvolver a sensibilidade, portanto, agora não se vê mais o
espaço de escola como um lugar que se ensinava e passa para um novo conceito
de elemento facilitador e de grande importância para o processo de formação, o que
deve determinar uma aprendizagem significativa.
O que podemos considerar é sua elevada importância no processo de
aprendizagem, as ramificações que pode proporcionar ao ouvinte, ações que são
determinantes na infância e que seguirão para suas vidas, sendo um agente positivo
e inovador para o desenvolvimento das crianças, potencializando as suas
habilidades, quando bem direcionadas e exploradas.

36
Usar adequadamente as atividade para não matar o tempo e proporcionar
uma aprendizagens, mesmo considerando os momentos de maior excitação das
crianças, ou seja, usar das músicas mais calmas quando estão agitados ou as
canções mais agitadas para movimentar a turma quando precisam dar uma
reanimada no espaço escolar.
Assim como a música nos proporciona lembranças para toda a vida,

Os espaços de nossa infância nos marcam profundamente. Sejam


eles berço, casa, rua, praça, creche, escola, cidade, país, sejam eles
bonitos ou feios, confortáveis ou não, o fato é que influenciam
definitivamente nossa maneira de vermos o mundo e de nos
relacionarmos com ele. (CAMARGO, 2008, p. 45)

Portando, se faz necessária organização e que as interações sejam


norteadoras e que a rotina e o planejamento não seja uma constante sem maiores
fundamentações, sendo flexíveis e permitindo ajustes para o bom desenvolvimento e
bem estar de todos, pois se tem que considerar que cada criança possui o seu ritmo
e o professor, deverá obter o bom senso e equilíbrio para que tudo funcione
adequadamente.
A contribuição da música no desenvolvimento da criança começa muito
cedo, até mesmo quando esta no ventre materno, pois a música age sob a criança e
ela reage ao escutar o barulho, e assim se processa nas etapas que se seguem até
a chegada dela na escola, porque até ai, ela encontra as canções de ninar e
músicas de rádio, tv, além de outras que sejam cantigas de roda e afins.
Na escola, descobre novos sons, que não são tão novidade assim, pois ela
já vem de uma cultura musical própria e familiar, o que ela vai encontrar é o
aperfeiçoamento e um aumento de sua aculturação em relação a musica, pois vai
desenvolver sensibilidades a outros sons também. Os conhecimentos prévios das
crianças deverão ser valorizados e usados como referencia para o ponto de partida
para novas explorações.
A ideia de exploração da música na educação infantil traz o ensino de que é
importante perceber que a música não está somente ligada ao aprendizado de
instrumentos ou de repetição de canções e cantigas decoradas e

37
descontextualizadas, práticas muito frequentes no ambiente educacional, ela deve
ser um suporte de trabalho diário aos professores com a finalidade de integrar as
diversas áreas do conhecimento que necessitam ser desenvolvidas no decorrer do
período, o que pode proporcionar diversos usos e funções dentro do cotidiano
escolar, mas precisa ser valorizada e não somente como um apoio.
Por considerar a música essencial para crianças na educação infantil, pois
elas se encontram com o cérebro em pleno desenvolvimento e suas condições de
aprendizagem são as melhores possíveis, vai promover interações e laços além de
ser um poderoso meio de integração e desenvolvimento de habilidades, uma fonte
de riqueza, infelizmente, pode-se estar sendo negligenciada a sua aplicação dentro
do espaço escolar ou até mesmo não sendo dado o seu devido valor, tudo
considerando as realidades de instituições que temos a nosso dispor para exercitar o
processo de pesquisa.
Portanto, por acreditar que a música tem sua presença constante em nossa
vida, independente da classe, ela surge com suas características peculiares
inclusive nas várias culturas, cada um cultivando-a dentro de seus aprendizados e
experiências.
Quando a música vem para a turma de educação infantil, a criança precisa
vivenciar situações concretas, pois parte-se da ideia que ela venha promover a
interação nos aspectos afetivos, estéticos, sensíveis e cognitivos do sujeito, pois
desperta a criatividade desde que seja estimulada para tal, proporcionando seu
contato com materiais que possa manusear e que produza sonoridade, o que não
tem por objetivo a formação de possíveis músicos.

[“...] a musica deve ser transmitida com alegria, vibração, através de


uma metodologia lúdica e dinâmica, própria do mundo da criança.”
(BUENO, 2011, p.178).

O raciocínio lógico matemático também pode ser incentivado por meio de


atividades musicais e o vocabulário pode agregar palavras novas. O fato de mover-
se, cantar, experimentar instrumentos tirando deles o som, desenvolve o movimento
corporal e a comunicação através do corpo, é a fase de sensibilização, exploração
na qual as crianças percebem a música, o instrumento, investiga e cria suas
hipóteses sobre o que estão vendo.

38
O uso de materiais alternativos (sucatas) para explorar o som também deve
ser incorporado ao planejamento de exploração musical que o professor está
propondo, o que garante a validade da música enquanto ferramenta pedagógica,
pois a consciência ecológica também é trabalhada, gerando também um processo
de interdisciplinaridade.
A investigação/percepção do som é muito útil para as crianças perceberem
a diferença entre som e silêncio, os diferentes sons que podemos produzir de
diferentes materiais e com variedades de combinações entre eles; é uma forma de
incrementar as possibilidades de exploração e criatividade, além é claro da criação
de objetos sonoros.
Outro fator que acho muito interessante a ideia é a exploração de sons do
corpo, aqueles que são emitidos por nós mesmos sem auxilio de outro material que
venha a proporcionar o barulho. Escutar o coração do colega ou até mesmo o
próprio, o estalar de dedos, palmas, passos, o barulho da barriga quando estamos
com fome, barulho de gases, são alguns sons que acontecem no nosso corpo que
em alguns momentos podem proporcionar constrangimento e em outros,
considerarmos brincadeiras de exploração e divertimento.
A exploração do ambiente também é de grande valia para o trabalho com a
educação infantil. Parar e observar os sons que temos a nossa volta e imaginar do
que se trata também, é uma atividade bastante interessante e desafiadora. É este
jogo entre som e silêncio que nos fará diferenciar as situações e nos aguçará nas
explorações.
Partimos para as propriedades do som, usando qualificações determinantes
como duração, intensidade, altura e timbre, característica de cada instrumento. Na
ausência de som encontramos quando nossos ouvidos não conseguem captar por
ser de tão baixa intensidade o som, o que privilegia animais como o cachorro a ter o
ouvido mais aguçado e escutar barulhos inaudíveis ao homem. As vibrações
sonoras e gestos também são inaudíveis para nós.
O gosto musical de cada indivíduo se determina pelas influências da cultura
familiar, gostando primeiramente destes e depois quando aumenta seu círculo de
convivências e contato com outros estilos musicais, vai se definindo seus gostos e
estilos e definindo a sua personalidade, o que vai acontecer na fase da

39
adolescência. Ouvir com frequência desperta apreciação seja por música de boa
qualidade ou não.

A frequência com que somos levados a ouvir e a apreciar músicas de


boa qualidade é responsável direto pelo desenvolvimento do gosto
musical e o despertar da vocação natural do ser criador, o que pode
acontecer no homem em qualquer idade. (BUENO, 2012, p.66).

Como considerar o conhecimento adquiridos pela criança no fim de


atividades musicais? Acredito que necessite ser bastante minuciosa e detalhista
para conseguir exprimir uma avaliação sobre o assunto, pois cada criança tem uma
experiência única, vem de um contato familiar/social que resgata as suas origens e
transmite junto as suas especificidades e ainda um ritmo ao qual preciso ponderar
para consolidar o que houve de aprendizado e traçar uma linha de informações que
vai ajudar a estabelecer o quanto ela evolui e como determinou suas reações diante
das atividades propostas com o contato com as situações propostas.
Avaliar não é fácil, precisa de muita sensibilidade, treino, planejamento e
estabelecer alguns critérios norteadores de observação. É um processo continuo
que preciso estar revendo os conceitos rotineiramente para ver quanto estou
conseguindo alcançar meus objetivos e quando necessário, refazendo os esquemas
de aplicação, planejamento e observação e corrigindo erros.
Para Brito (2003, p.198), diz: “a avaliação, na área de música, deve
considerar a qualidade do envolvimento nas atividades propostas, a postura para o
fazer a disposição para pesquisar, para escutar atentamente, para improvisar,
compor, construir instrumentos.”
É preciso ter a noção do todo, das várias áreas de desenvolvimento que
esse processo de musicalização envolve, pois as área cognitiva, afetiva/social,
linguística, psicomotora tem de ser considerada para se ter uma ideia de toda a
evolução que a criança teve neste período de apreciação e musicalização.
A minha sensibilidade em perceber as primeiras explorações e seguir uma
linha evolutiva, é assim que se espera, que o contato com os materiais proporcionem
crescimento e aprendizagens com base na exploração e na troca de informações,
seja nas intervenções com o adulto ou entre o grupo mesmo.

40
O envolvimento das criança nas atividades propostas também é considerado
pois isso proporciona conhecimentos novos, ampliando vocabulário, autonomia e
socialização.
Um mundo sonoro está a nossa disposição, o que temos de fazer é aprender
a classificar, elaborar critérios para selecionar o som que educa, que é fonte de
riqueza e saudável e que visa a transformar e proporcionar o crescimento integral da
criança daquele que não oferece nada de produtivo e sequer soa bem ao ouvido.
Porque por mais sensíveis que somos a este ou aquele som, a criança no
seu lar tem acesso aos sons e músicas que sua família costuma ouvir, o que não
quer dizer que estes sejam os mais adequados para a sua faixa etária, mesmo
porque o que encontramos na mídia televisiva, muitas vezes tem apelo erótico, o
que estimula precocemente a sexualidade da criança.
A construção de saberes acontece com as interações com outras
crianças mediadas pelas brincadeiras que desencadearão troca de culturas e
protagonizarão suas experiências musicais, estabelecendo regras e
questionamentos. São estas interações que proporcionarão vínculos de amizade
e cumplicidade entre os pares que possibilitam e favorecem que sejam
produzidas interações musicais a partir de suas próprias experiências,
construindo saberes e troncando experiências e proporcionando aprendizagens.

41
7 E EU PROFESSORA!

Acreditando que a convivência em sociedade de pares ocorre também em


ambientes escolares, considero este como um dos principais espaços de
possibilidade para contribuir com as relações sociais e produzir culturas na relação
criança-criança ou criança-adulto.
As instituições educativas para a infância, conforme afirma Werle (2015,
p.52) “passam a ser cenário de investigações sobre culturas infantis justamente pela
possibilidade de se observar, ouvir e compreender as crianças em seus grupos
coletivos, interagindo e atuando com seus pares”.
A partir das leituras feitas, coloco as palavras de Nicolau e Dias (2003)
ilustrando o que senti na observação que fiz na escola, pegando esta ideia para a
visão das crianças

“para muitos, aqueles foram os primeiros encontros com uma visão


de educação musical. Para outros, o primeiro contato com
brincadeiras infantis brasileiras. Para a grande maioria, uma pequena
incursão nesse imenso mundo da arte musical, que serviu, no
entanto, para despertar o interesse e a curiosidade pelo papel da
música na formação e na educação da criança. Para nós, o prazer de
dividir experiências e aprender novos meios de aprender e ensinar.”
(NICOLAU E DIAS, 2003, p.93)

Usando das palavras de Werle (2015, p.55), “é notória a importância da


música na construção e produção das culturas de pares da infância”. A música
compõe parte das linguagens, rotinas, formas de expressão e rituais de
compartilhamento das atividades entre os grupos de pares.
Música exige sensibilidade, percepção e disposição, é um “jogo simbólico,
uma brincadeira de faz de conta em que as crianças representam e recriam o mundo
a sua maneira”, conforme cita Werle (2015, p.59). Não significa colocar música no
aparelho de som e colocar a criança a acompanhar o cantar, esta atitude não
acrescenta nada ao aprendizado então aprendemos que as repetições mecânicas
não produzem significados, seja em qualquer situação de aprendizagem, a criança
somente fará para atender ao pedido do professor.
Considero o que Werle (2015, p.175) diz que o “fazer música está vinculado
ao brincar, de modo que as crianças brincam e fazem música o tempo todo,
42
explorando as diferentes possibilidades sonoras do próprio corpo e dos diversos
objetos que encontram em cada espaço da escola”.
A criança não possui o conhecimento do quanto ela precisa saber mas o
adulto que está responsável pelo seu crescimento físico, intelectual deve ter a noção
do quanto ela, na devida faixa etária que se encontra, tem condições de responder
as atividades propostas, é uma visão qualificada do quanto tem-se a oferecer e
objetivos previsíveis e alcançáveis são possíveis determinar.
A música colabora com o crescimento do indivíduo pois ela não privilegia
esta criança ou aquela, a linguagem musical é universal, as expressões podem ser
demonstradas em qualquer situação de linguagem que a música se encontre.
Concordo com Werle (2015, p.69) quando ela diz que “quando as crianças
cantam e representam músicas produzidas ou não por elas, o fazem mediante
apropriação cultural, na qual atribuem sentidos, significados e sentimentos
diferenciados, contextualizados as suas necessidades de compreender, representar,
transformar e criar o mundo através da construção de suas culturas de pares” e
ainda que estas “são protagonistas, sujeitos históricos de direitos que participam
ativamente da sociedade, produzindo culturas [...] nem sempre as vozes são
consideradas”, isso é uma realidade que temos de nos sujeitar mas temos de lutar
sempre, pois não é possível se calar para o fato.
A criança precisa conhecer as canções folclóricas, mas também tem
condições de aliar com o novo, é preciso uma proposta que amplie o conhecimento,
valorizando as manifestações, possibilitando criações, proporcionando o aumento do
repertório musical e suas explorações, considerando que a pouca bagagem pode
contribuir aproximando e potencializando suas visões a respeito da música.
Citada por Werle (2015, p.135) “nas brincadeiras e jogos musicais que as
crianças realizavam, reflito sobre a atemporalidade de algumas parlendas, jogos de
mãos e canções, que são ensinadas e aprendidas, atravessando os espaços-
tempos de gerações/infâncias constituídas de modos tão diferentes”. Pois embora
surjam novidades em brinquedos e jogos eletrônicos, determinadas brincadeiras
vinculadas ao folclore popular, continuam a existir e fazer parte das culturas
produzidas na infância, assim me reporto a já citadas brincadeiras da minha infância.
Não é toda atividade que deve ser direcionada, existem atividades que tem o
seu fundamento mesmo quando não se tem um objetivo maior, determinante como a
43
manipulação e exploração do material, gerando um conhecimento do material e o
que ele pode proporcionar.
A música proporciona a dualidade de sentimentos, portando, devo ser
cuidadosa o suficiente para planejar uma aula que propicie segurança ao
desenvolver e contentamento as crianças. O planejamento entra como uma linha
previa a ser seguido, um norteador, mas não a determina que seja somente isso, a
elaboração do mesmo propicia que as necessidades da turma sejam alcançadas
pois são exatamente as carências que podem ser melhor trabalhadas ou serem
mudadas de foco para o desempenho ser alcançado.
Tudo o que se precisa é o conhecimento da realidade e a partir desta
informação, se desvincula as possibilidades de trabalhar um tema gerador
perpassando pela interdisciplinaridade.
Desta forma, como Werle (2015, p.123) acredito que seja fundamental
proporcionar, mediar e contribuir com situações em que as crianças tenham espaço
para produzir a própria infância, protagonizando experiências sensíveis, favorecendo
a produção de culturas da infância, considerando que é importante para a
construção do conhecimento a cultura que a criança tem quando vem para a escola.

Entendo que as crianças protagonizam experiências musicais nos


mais variados tempos e espaços da instituição de educação infantil.
As experiências musicais das crianças estão vinculadas ao brincar, a
exploração de diferentes possibilidades sonoras do próprio corpo e
dos diversos objetos que encontram, e ocorrem num espaço tempo
não racionalizado e não fragmentado (LINO, 2008), num dimensão
que abarca a capacidade de transmutação infantil (BENJAMIN,
1987). Por fim a experiência musical na infância esta,
intrinsecamente, relacionada à produção de cultura de pares, as
quais são alimentadas pelos processos intra e intergeracionais
(SARMENTO, 2003), por meio do folclore popular e das culturas
midiáticas as quais as crianças tem contato. (WERLE, Kelly, 2015,
p.136)

As pequenas experiências de atuação, as observações no espaço


educacional, me dão conta do que eu não quero ser como profissional, são as
inquietudes me fazem decidir o que não quero para mim... o que serei não sei, mas
o que incomoda, com certeza não fará parte de meu currículo.

44
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao terminar esta etapa, comprovo o que os escritos estudados afirmam da


necessidade e importância de conhecermos a realidade da instituição escolar em
que estaremos trabalhando. A interação com os profissionais é também
extremamente importante e enriquecedora, pois conforme nossas expectativas,
conseguimos vivenciar a rotina do cotidiano escolar e realização de diversas
atividades.
Esta experiência proporcionada trouxe significações e aprendizagens para a
nossa constituição de professoras pedagogas, profissionais agentes da educação.
O desempenho nos vários momentos proporcionou ainda um complemento a
nossa formação acadêmica e confere subsídios para uma atuação efetivamente
democrática e transformadora.
Diante de toda a situação educacional que temos hoje, a nossa atuação
profissional nos proporcionou vivências, mostrou-nos a importância da formação
continuada e do constante aprimoramento dos conhecimentos das áreas, das
necessidades sociais de investigação da própria prática e a busca de temas atuais
por isso de considerarmos bastante relevante a ideia de que o professor precisa ser
um estudioso constante, investigador, nunca satisfeito e nem acomodado com o que
já conseguiu alcançar, sempre pesquisador para ser um profissional marcante para
suas crianças com atitudes produtivas, emancipativas e criativas.
Retomo também os conceitos aprendidos e agora mais ainda valorizados,
como o conceito de criança que foi ampliado, valorizado e visto na sociedade como
alguém que tem seus direitos como qualquer outro cidadão e que precisa o adulto
estar atento a tudo que diz respeito ao seu desenvolvimento pois por sua condição
de ser pequena, precisa de um adulto que seja responsável o suficiente para
atender suas necessidades.
Que o ato de brincar não significa apenas recrear-se, pelo contrário, é a
forma mais completa que a criança tem de comunicar consigo mesma e com o
mundo, é a valorização dos atos das crianças, sua forma de crescer como uma
criança sadia em sua plenitude. A criança precisa ter tempo e espaço para brincar. É
importante proporcionar um ambiente rico para a brincadeira e estimular a atividade

45
lúdica no ambiente familiar e escolar, lembrando que rico não quer dizer ter
brinquedos caros, mas fazer com que elas explorem as diferentes linguagens que a
brincadeira possibilita (musical, corporal, gestual, escrita), fazendo com que
desenvolvam a sua criatividade e imaginação.
É brincando que se aprende o que mais ninguém lhe pode ensinar. É dessa
forma que ela se estrutura e conhece a realidade. Além de estar a conhecer o
mundo, está-se a conhecer a si mesma. Ela descobre, compreende o papel dos
adultos, aprende a comportar-se e a sentir-se como eles, são as oportunidades e a
criatividade que vão gerar uma criança sadia, pois o ato de brincar pode incorporar
valores morais e culturais, em que as atividades podem promover à autoimagem, a
autoestima, a cooperação, já que o lúdico conduz à imaginação, fantasia,
criatividade e à aquisição dum sentido crítico, entre outros aspectos que ajudam a
moldar as suas vidas, como crianças e, futuramente, como adultos.
É através da atividade lúdica que a criança se prepara para a vida,
assimilando a cultura do meio em que vive, integrando-se nele, adaptando-se às
condições que o mundo lhe oferece e aprendendo a competir, cooperar com os seus
semelhantes: a conviver como um ser social.
Portanto, por tudo que o brincar favorece a criança, no espaço que ela se
encontrar, seja em escola ou na família, é preciso que seja valorizado o ato, seu
futuro depende desse momento, desses aprendizados, dessas experiências para se
tornar um adulto sensato, coerente, digno.
A escola e seus professores, não pode somente buscar o aprendizado da
matéria, precisa ir mais além, são marcas que são cravadas na infância que não são
percebidas mas que na idade adulta, você encontra barreiras a superar, traumas a
transpor.
Este trabalho me proporcionou uma viagem pela música que me constituiu.
Viajar pelo tempo em busca de minha história e que faz parte de minhas lembranças
adormecidas, as suas transformações no decorrer da vida, o que com o passar do
anos, proporcionou a vivencias de vários ritmos, servindo de aprendizado.
As canções estão presentes na vida de todas as pessoas, em todas as
culturas, nos variados momentos, em todas as épocas, sendo uma linguagem
universal que supera a barreira do tempo e do espaço.

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Conhecer as concepções de criança, educação infantil trazendo para o
campo musical também é interessante, pois nos leva a valorizar mais as atitudes
que devemos tomar quando nos propomos o desafio de trabalhar com criança da
educação infantil a música.
É a valorização da importância e conhecimento adquiridos que vem a somar
contribuições para elaborar novos aprendizados, a partir da mediação e
consideração da bagagem advinda das famílias.
Por achar a maneira como está sendo apresentada a música na escola
como uma forma inadequada o que leva a inquietação a mim como observadora,
diante da oportunidade de ser diferente pois acredito que existe a possibilidade de
maior aprendizado e exploração além do que esta sendo feito.
Devo considerar ainda que de um ano para outro, novas medidas e
aprendizagens tenham sido elaboradas, novas experiências absorvidas, o que me
leva a acreditar que para este ano letivo, a aulas sejam aplicadas de forma diferente
e mais enriquecedora.
O professor é peça chave no desenvolvimento de suas atribuições dentro da
educação infantil e é a partir do que ele propõe como prática pedagógica que levará
a música a contemplar os seus benefícios na aprendizagem, o que proporciona
desenvolver habilidades e ampliar seus conhecimentos.
Ter a consciência de que a criança

é um ator social, ativo na sociedade, historicamente situada que


possui direitos e produz culturas na relação que estabelece com os
demais. Desta forma, suas culturas sofrem influencias dos contextos
nos quais esta inserida, bem como, também contribui com os
processos de construção da sociedade, através da ampliação e
extensão da cultura adulta. (WERLE, Kelly. 2015 p.174)

Repensar as atitudes e sua formação, considerar os recursos que a


realidade proporciona, e fazer do trabalho docente um resignificar da música,
colaborando com o desenvolvimento da criança e sendo uma ferramenta
pedagógica aliada no processo escolar, assim deve ser entendida e desenvolvida o
processo musical.

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