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Maria Cidália Queiroz (FEP)


Marielle Gros (ISSSP)

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Em resposta à explosão do desemprego estrutural nos países do centro do capitalismo,


o Rendimento Social de Inserção 1 é um instrumento de política social que, de algum modo,
procura amenizar o défice crónico das oportunidades de trabalho decente 2, bem como a
agudização das desigualdades sociais que tenazmente se impõem nestas sociedades. Da
vasta literatura produzida a respeit o das mudanças que há, mais ou menos, três décadas se
vêm consolidando nesta parte do mundo, sobressaem, quanto a nós, as análises que
assinalam o retorno ao capitalismo concorrencial e, por essa via, a destruição do consenso
social e político que havia si do construído no pós -segunda guerra mundial.
Pressões consideráveis vêm sendo exercidas sobre as empresas para que invistam na
rentabilidade a curto prazo, precipitando transformações organizacionais em busca da tão
proclamada flexibilidade dinâmica, mesm o quando a empresa estável funciona perfeitamente.
A solidez institucional e a estabilidade passaram a ser vistas como sinal de fraqueza, de
incapacidade de inovar e de gerir a mudança, logo como características negativas 3.
Não faltam, com efeito, estudos 4 acerca da gigantesca dilatação da esfera financeira e
do seu empolamento à margem de qualquer relação directa com o financiamento da produção
e das trocas internacionais, confirmando a previsão que, há mais de cinquenta anos, foi
avançada por Keynes sobre a possível paralisação da esfera produtiva por via do
desenvolvimento incontrolado da finança. O principal resultado destes processos manifesta -se
nas sucessivas ondas massivas de desemprego, ao mesmo tempo que ocorrem grandes fluxos
de imigração dirigid os ao ³Mundo Triádico´.

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1
Inicialmente, Rendimento Mínimo Garantido.
2
Nos termos definidos pela OIT
3
Sennett, R., ·   
   , Yale, Yale University Press, 2006.c
4
Grupo de Lisboa, o  Lisboa, Europa-América, 1994 e 2002. Estudos recentes antecipavam a
redução de cerca de 20 a 25 milhões de efectivos no emprego aos EUA, no decorrer dos próximos vinte anos.

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Sob o impulso desse fenómeno de reorganização, o crescimento exponencial do
número de indivíduos tornados supérfluos, ou seja, transformados em ³resíduos humanos´
ultrapassa largamente a capacidade de integração do planeta, já que a própria modernidade
capitalista não cessa de os produzir 5. Neste quadro de fracasso crescente da integração social
pelo trabalho emerge o fenómeno da destruição, em massa, de estruturas que haviam
assegurado a criação de laços sociais verdadeiramente prot ectores de derrapagens para
trajectos de privação aos níveis material, social e simbólico 6.
Os indivíduos empregados na indústria diminuíram nos países da comunidade europeia,
entre 1970 e 1994, de 30% para 20% e nos EUA de 28% para 16%, contrastando com o
aumento da produtividade industrial cujo crescimento médio anual foi, nesse mesmo período,
de 2,5% 7.
Algumas tentativas de medição do volume de emprego destruído na última década, no
quadro da OCDE 8, por exemplo, mostram que, entre 1970 e 2000, o recuo médio do emprego
em 15 países analisados 9 é mais acentuado nos ramos de actividade onde a concorrência das
importações é mais intensa, com uma taxa de emprego eliminado de 27%, contra 16% no
conjunto das indústrias transformadoras.
Por sua vez, o fenómeno mais recente da deslocalização da produção de serviços, que
vários autores têm procurado estudar, afigura -se, desde a década de noventa, como factor
agravante da retracção do emprego. As previsões sobre a evolução da externalização dos
serviços nos próximos anos apontam para perdas da ordem dos 55 000 postos de trabalho por
trimestre até 2015 nos EUA 10, tendência que se confirmará na Europa 11 com a previsível
deslocalização de um milhão e duzentos mil empregos nos serviços e nas tecnol ogias da
informação, no mesmo período.
Os acima referidos estudos assinalam que os trabalhadores que perdem o emprego
devido à intensificação dos investimentos directos no estrangeiro enfrentam maiores
dificuldades em reencontrar um emprego e sofrem perda s de salário mais importantes quando
o recuperam12.
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5
Zygmunt Bauman, o·o    , Cambridge, Polity Press, 2006.
6
Cfr. Castells, M., · 
  , Oxford, Backwell, 1997; Sennett, R., ·        · 
  ! 
   , New York, W.W.Norton, 1998; Fitoussi, J.P., Rosanvallon,
P., o"# #, Paris, Seuil, 1996.
7
Bauman, Z., !  
  , Philadelphia, Open University Press, 1998.
8
In  $ $%&', 2005.
9
Reino-Unido, Finlândia, França, Dinamarca, Áustria, Noruega, Japão, Itália, Bélgica, Austrália, Suécia, Estados-
Unidos, Canada, Portugal e Espanha.
10
Mc Carthy, JC, «New Term Growth of Offshoring Accelerating», Trends, Forrester Research, 14/05/2004. Quoted
in: Perspectives de l¶emploi de l¶ OCDE, 2005, opus cit. According also to Spletzer, JR and others, «Business
Employment Dynamics: New Data on Gross Job Gains and Losses» in: Monthly Labour review, April 2004,
Perspectives de l¶emploi de l¶ OCDE, 2005, opus cit.
11
Parker, A., «Two-Speed Europe: Why 1 million Jobs Will Move Offshore», ·Forrester Research, Agosto de
2004.  $ $%&'())* opus cit.
12
In :  $ $%&' 2005,cap. 1: «Les coûts d¶ajustement liés aux échanges sur les marchés
du travail des pays de l¶OCDE: quelle est leur ampleur véritable?». As taxas de retorno ao emprego são mais baixas
na Europa do que nos Estados Unidos, com uma média de 57% para o conjunto das indústrias transformadoras
(contra 67% nos Estados Unidos) e 52% para os ramos deste sector submetidos a uma forte concorrência
internacional (contra 63% nos EUA). No que respeita às condições em que este retorno ocorre, nos Estados Unidos,

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Em síntese, as abordagens dominantes ao problema da organização do trabalho
continuam a guiar-se pelo princípio primário da redução de custos lançando mão de várias
estratégias que assinalam o triunfo da competitividade sobre as estratégias de recuperação do
trabalho. De referir a este respeito, designadamente a procura de mão -de-obra estrangeira, a
maior implementação de tecnologia, principalmente como medida de redução da mão - de-obra,
o uso generalizado de trabalho temporário e a diminuição da dimensão das companhias. A
internacionalização da produção, um processo que foi extraordinariamente acelerado durante a
década de noventa, tem sido acompanhada de efeitos devastadores no que respeita à oferta
de emprego, à qualificação dos trabalhadores, à sua organização colectiva e, até, no que toca
às identidades profissionais. Noutros termos, a organização dos sectores produtivos em redes
de empresas espalhadas pelo mundo tem sido um meio eficaz para obter traba lho, lá onde ele
é mais barato, tirando partido de sistemas políticos não democráticos, que não reconhecem
direitos há muito consagrados nos chamados países de capitalismo maduro.
No mundo das grandes corporações, o progresso é antes de tudo ³redução de p essoal´
e o avanço tecnológico equivale a substituir seres humanos por software electrónico. Acusam -
se os beneficiários dos novos programas sociais de não quererem trabalhar, de que podiam
ganhar a vida se abandonassem os seus hábitos de dependência. Todav ia, as Bolsas reagem
com entusiasmo frente à notícia de que a proporção de trabalhadores ocupados provavelmente
não aumentará.
Os empregos permanentes, seguros e garantidos tornaram -se excepção, os postos de
trabalho criados não garantem continuidade, uma vez que o novo lema da flexibilidade implica
um jogo de contratação e despedimento com muito poucas regras que, além do mais, são
susceptíveis de mudar unilateralmente enquanto o jogo está a ser jogado.
Em suma, não falta evidência empírica de que, nas úl timas décadas, o agravamento da
pobreza é indissociável do crescimento económico, desde logo porque este está associado à
substituição de postos de trabalho estáveis por contratos a prazo, por trabalhos temporários, a
reduções de pessoal, enfim, a reestrut urações que se resumem à diminuição dos empregos.

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os trabalhadores dos ramos submetidos a uma forte concorrência internacional registam perda de salários da ordem
dos 13%, em média, sendo que um quarto destes trabalhadores sofre perdas de salários da mordem dos 30% ou
mais. Na Europa, as variações de salários entre antigo e novo emprego tendem a ser menores, designadamente no
que respeita às perdas mais significativas (8% de trabalhadores mencionando perdas de salários de pelo menos
30% contra 22% nos EUA). O European Monitoring Centre on Change (EMCC) tem vindo a reunir, desde Janeiro de
2002, informações sistemáticas sobre as supressões de emprego nos países da União Europeia que revelam, por
outro lado, que este fenómeno não está apenas associado à deslocalização dos investimentos, mas, igualmente, a
diversas modalidades de reestruturação das actividades industriais ou de serviços. O progresso tecnológico é, entre
outros, um factor preponderante na reestruturação das empresas, uma vez que se tornou possível gerar um
crescimento da produtividade inversamente proporcional ao do emprego. Os benefícios de produtividade
proporcionados pela automatização permitem fazer economias na mão-de-obra que confrontam os trabalhadores
modernos com o espectro da inutilidade. De acordo com o recenseamento do acima referido EMCC, relativo a
empresas com mais de 100 trabalhadores - as operações ditas de reestruturação, que incluem, além das
deslocalizações, mudanças no sistema de trabalho e nas relações laborais, subcontratação de parte das actividades
de produção, fusões/aquisições e falências e encerramentos, implicaram, entre Janeiro de 2002 e Março de 2010,
uma perda total de 3 774 375 postos de trabalho. Ver '       e estatísticas
disponíveis no site www.eurofound.europa.eu/emcc.

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Os pobres que outrora desempenhavam o papel de reserva de mão ± de ± obra deixaram de
ter qualquer função útil real ou potencial 
Longe de ser consequência de um disfuncionamento passageiro do sistema econ ómico,
o imparável aumento do desemprego nas sociedades mais desenvolvidas no plano económico
não pode deixar de suscitar a reflexão sobre o papel da economia nas sociedades modernas,
desde logo, porque ao seu funcionamento está associado a ressurgência qu er da pobreza,
quer das desigualdades sociais, após décadas em que a homogeneidade social parecia haver
sido uma conquista irreversível.
Com efeito, entre 1995 e 2008 13, a população da União Europeia com rendimentos
inferiores a 60% do rendimento mediano, após transferências sociais, representava 17% da
população total, estimando -se que o volume absoluto da população em situação de pobreza
rondará, em 2010, os 79 milhões de cidadãos europeus. A par do alargamento da pobreza de
rendimentos a uma percentagem significativa de indivíduos que exercem uma actividade
profissional 14, as assimetrias em matéria de distribuição dos rendimentos permaneceram
estáveis ao longo do mesmo período, com tendência para um ligeiro agravamento desde os
anos 2000 15.
O facto novo na Europa mais desenvolvida é que a exclusão deixou de ser uma
realidade marginal e ressurgiu como um fenómeno em expansão, em consequência de uma
dinâmica económica e social que origina, simultaneamente, mais dificuldades económicas e
mais instabilidade rel acional. A especificidade da exclusão moderna reside na circunstância de
ter deixado de implicar apenas algumas categorias de indivíduos e de haver passado a
envolver sectores inteiros da sociedade. A exclusão moderna tem origem em tendências que
traduzem um fracasso maciço dos processos de integração social, quer no plano profissional,
quer no relacional.
Ora, neste contexto, em que ³crescimento económico´ e aumento do emprego se
tornaram contraditórios, em que o progresso tecnológico se mede pelo volume de postos de
trabalho substituídos ou eliminados, faz todo o sentido, quanto a nós, dedicar alguma atenção
aos modos de construir a pobreza, muito em particular aos que elegem a ética do trabalho
como condição para sair da pobreza. Imputar a pobreza à falt a de uma ética que valoriza o
trabalho como caminho para a dignidade e a autonomia, sem considerar, na devida conta, os

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13
Na base das informações disponibilizadas no site da Eurostat. Segundo a mesma fonte, em Portugal, a proporção
da população com rendimentos inferiores ao limiar de pobreza alcançava os 23% em 1995 (contra 17% em média
na União Europeia), manteve-se igual ou ligeiramente superior aos 20% até 2004, alcançando em 2008 o seu valor
mais baixo com 18% (contra 16% para o conjunto da Zona Euro).
14
Segundo Eurostat, em 2008, 8% dos trabalhadores activos da zona Euro auferiam rendimentos inferiores ao limiar
de pobreza, sendo que esta vulnerabilidade à pobreza atingia, em média, 5% dos trabalhadores com contrato
permanente, 13% dos que apenas dispunham de um contrato de trabalho temporário e 10% dos trabalhadores a
tempo inteiro.
15
Medidas pelo Coeficiente de Gini, as desigualdades de rendimentos passaram, para o conjunto dos países da UE-
15 de 29 em 2000 para 30 em 2008, enquanto a disparidade entre os níveis de rendimentos do estrato dos 20%
mais ricos em relação ao dos 20% mais pobres evoluiu dos 4,5 para 4,9, segundo as informações da Eurostat. Em
Portugal, as desigualdades de rendimentos são mais acentuadas, uma vez que o valor do Coeficiente de Gini em
2008 era de 36 e os rendimentos do quintil mais rico 6,1 vezes superior aos do quintil mais pobre.

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factores macroestruturais que estão na origem da restrição drástica da oferta de emprego, é
uma abordagem que, implicitamente, constitui uma racionalização que, ao remeter a pobreza
para os defeitos pessoais dos que a sofrem, permite sossegar as consciências e justificar a
indiferença da sociedade para com eles.
Numa sociedade que deixou de ser integrada, ou seja, que renunciou a incluir t odos os
seus membros, a emergência de uma categoria de indivíduos impedidos de desempenhar um
papel útil na sociedade, definitivamente afastadas de qualquer possibilidade de mobilidade
social, impedidas de realizar contributos úteis para a vida dos restant es e sem qualquer
esperança de integração, é incontestavelmente um fenómeno político que se prende com a
alteração da relação de forças entre as classes sociais e a distribuição das oportunidades.
Analisar a pobreza em termos de resultado de uma desindust rialização que gerou o
desemprego de grandes sectores da população que, assim, deixaram de ter alguma
16
possibilidade de se voltarem a inserir no mercado de trabalho, como propõe Gunnar Myrdal ,
constitui uma ruptura decisiva com os obstáculos epistemológico s naturalista, individualista e
etnocentrista que muito contribuem para instalar a ideia de que são as deficiências morais e a
automarginalização voluntária dos indivíduos os factores precipitantes da situação em causa. O
que em Gunnar Myrdal é visto como produto da lógica económica, enfim, como efeito da
derrota da sociedade, em geral, para garantir a todos uma vida concordante com os preceitos
da ética do trabalho, é construído pela maioria dos cidadãos como consequência da recusa dos
valores comummente aceites, efeito de deficiências de comportamento, de falhas psicológicas
que podem ser intensificadas por situações de pobreza mas que não são determinadas por ela.
Em suma, a análise dos processos económicos conducentes à eliminação massiva de
postos de trabalho é um procedimento fundamental para desmantelar as construções que
atribuem a pobreza à carência da capacidade de apreciar as vantagens de uma vida de
trabalho, à passividade dos muito pobres, que deixam passar as oportunidades que se lhes
apresentam, em suma, à incapacidade para controlar a própria vida.
O modo como as sociedades percepcionam os seus pobres é um objecto de análise
cuja relevância reside, desde logo, no facto de as classificações determinarem o tipo de
relação que com eles estamos di spostos a estabelecer. Conhecido o poder das classificações
em matéria de criação da realidade, o trabalho de desvendamento dos processos e dinâmicas
sociais que conduzem à emergência da pobreza é crucial para desmontar os discursos que
remetem este proble ma para falhas imputáveis à psicologia ou à cultura dos indivíduos.
É preciso abalar o discurso dos fazedores de moral que não se cansam de enaltecer as
virtudes do trabalho, não obstante a mão -de-obra ter passado a ser um obstáculo ao
crescimento da produtividade. É preciso demonstrar que a responsabilidade pela desocupação
permanente de um grande número de concidadãos cabe a actores sociais poderosos, quer do

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16
Myrdal, G.,  +  New York, Random House, 1963.
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campo económico, quer do campo político, cujas decisões põem em marcha processos
económicos verdadeiramente atentatórios da vida das pessoas. É preciso, ainda, demonstrar
que a pobreza não se elimina com caridade, mas com a criação de condições compatíveis com
o desenvolvimento pessoal. Mais, que a caridade face aos pobres é uma forma de silenciar as
consciências, uma semi obrigação moral que encontra a sua via de escape, por exemplo, em
periódicas ³feiras de caridade´ que, sendo concorridas mas de curta vida, cumprem a função
de tornar a indiferença mais suportável 17. Fortalecem, em última instância, a s convicções que
justificam o desterro dos pobres da nossa sociedade.
Como, a nosso ver, muito pertinentemente observa Bauman, as horrendas imagens de
fomes e a tragédia dos pobres, que têm grande êxito nos grandes meios de comunicação, são
apresentadas como se não existisse conexão alguma entre as promessas ocas da ética do
trabalho e as dores das pessoas, num mundo que já não necessita de mais trabalhadores.
No fundo, o discurso dominante sobre os pobres e a pobreza procura manter ilesa uma
ética do trabalho que não se opõe a que a economia priorize a rentabilidade e a eficácia
comercial, uma ética que é, na actualidade, essencial para desacreditar a ideia de
³dependência´. Um argumento supremo para desmantelar o Estado benfeitor consiste em
atribuir-lhe responsabilidade na criação de dependência, assim como de a elevar ao nivel de
uma cultura que se autoperpetua.

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Em conjuntura de forte desregulação dos mecanismos que em alguma medida haviam


relativizado o papel do mercado na sociedade, a aprovação do Rendimento Mínimo de
Inserção em contexto europeu é um sinal de sobressalto numa sociedade confrontada com o
dilema de não reconhecer a exclusão como u m fenómeno aceitável, ao mesmo tempo que
reconhece não estar ao seu alcance oferecer emprego a todos. É uma medida a que está
subjacente o reconhecimento de que a sociedade salarial está em crise, pois que, ao contrário
das outras modalidades de indemnizaç ão do desemprego, a sua aplicação não está ligada a
uma situação profissional anterior. Representa, igualmente, a recusa de que a parte da
população definitivamente excluída do trabalho seja, por essa via, definitiva ou duradouramente
excluída da troca social, assim como representa o reconhecimento de que é impossível
desligar totalmente os meios materiais da existência e a participação activa na sociedade.
Num contexto de retraimento e declínio do Estado Providência e de ascensão das
forças favoráveis a um capitalismo desregulado faz sentido, quanto a nós, questionar até que
ponto estamos em presença de uma medida que apenas permite conter a pobreza, facultando
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17
Bauman, Z., !    , Philadelphia, Open University Press, 1998.

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às pessoas envolvidas meios que se limitam a manter as carências no limiar do suportável,
mas que estão longe de lhes permitir aceder a condições de vida dignas. Pelo contrário, uma
outra possibilidade é que a referida medida comporte as potencialidades que lhe atribuem os
responsáveis políticos, designadamente a concretização do direito à inserção. I nteressa, pois,
analisar criticamente a execução da medida para averiguar até que ponto ela pode configurar
um instrumento de resistência à destruição das solidariedades sociais e do próprio Estado
Providência, para o que é preciso delimitar quais os obstá culos que a impedem de constituir
um meio de desenvolvimento social e não de criação de uma massa de assistidos.
Na sua formulação oficial, o Rendimento Social de Inserção traduz o reconhecimento
do de que todas as pessoas privadas de um mínimo de recursos têm direito aos meios de
subsistência, independentemente dos motivos que conduziram a essa privação. Igualmente
traduz o reconhecimento de que este direito deve ser complementado com um trabalho de
inserção que passa pelo esforço de reintroduzir as pessoa s numa vida profissional e social
comum18.
Em face dos problemas suscitados pelas novas formas de precariedade e de
insegurança social que emergiram na década de setenta, as formas tradicionais de seguro e de
assistência deixaram de responder às necessidades de protecção das novas populações
rejeitadas para as margens do sistema económico. O núcleo duro da protecção social que
havia sido ancorado numa relação necessária entre a ocupação de um trabalho estável e o
benefício de uma protecção legal, contra a insegurança, a doença, a grande pobreza e a
dependência da idade, foi exposto a constantes abalos por força da intensa desregulação do
mercado de trabalho e do retrocesso dos direitos sociais. A partir do momento em que o
retorno a uma condição salarial altamente instável se impôs como a regra domin ante do
funcionamento do mercado de trabalho, o seguro obrigatório, generalizado numa ³segurança
social´ alargada à totalidade das categorias sociais cujo destino é indissociável do trabalho,
deixou de constituir um mecanismo de protecção eficaz.
A transformação profunda da problemática do trabalho, com a brusca inflexão da
relação salarial que se havia consolidado na segunda metade do século XX, não podia deixar
de abalar os fundamentos da política social, uma vez que a protecção social se encontrava
estreitamente ligada ao trabalho.
No contexto de proliferação de situações de trabalho atípicas nos anos oitenta,
designadamente o trabalho temporário e clandestino, o desemprego de longa duração, o
contrato de duração determinada, o biscate, o estágio de ins erção, o trabalho sazonal, o
estágio de qualificação, que evidencia a dissipação do salariato segundo uma pluralidade de
situações ocupacionais, todas elas geradoras de grande instabilidade e incerteza no que
respeita à obtenção dos meios de subsistência, a criação do RSI surge como uma resposta ao
aparecimento de dois novos perfis de ³pobres´: os trabalhadores que haviam estado integrados

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18
Castel, R., e Laé, J.F., (dir.), o,-$./& , L¶Harmattan, Paris, 1992

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no sistema produtivo e que foram precipitados na zona da grande pobreza e os jovens cujas
novas exigências do trabalho os condenam hoje à precariedade, ao desemprego, à alternância
entre pequenas ocupações e a inactividade.
Os estudos de caracterização dos beneficiários desta medida nos países europeus
destacam a preponderância dos desempregados, em especial os de longa du ração, das
pessoas isoladas e das famílias monoparentais. Parte significativa dos beneficiários não
exercem actividade profissional, são adultos sem cônjuge, com fraco nível de instrução e de
qualificação e com idade relativamente pouco elevada. Constituem uma camada da população
constituída por indivíduos simultaneamente privados de participar no mundo do trabalho e
socialmente isolados 19. Uma tendência forte em termos de composição social dos destinatários
desta medida de protecção diz respeito às trajectó rias inerentes à relação com o mercado de
trabalho, permitindo identificar dois tipos de situações fortemente contrastadas. Um primeiro
constituído por indivíduos do estrato mais fragilizado que passaram à situação de
desempregados de longa duração, em resultado de um endurecimento do mercado de
trabalho. O outro é formado por indivíduos que nunca estiveram inscritos no mercado de
trabalho e que permaneceram à margem quer do sistema produtivo, quer dos sistemas de
ajuda social que foram constituídos antes d o RMI20.
Uma das inovações introduzidas pela medida em causa reside no facto de constituir
uma ruptura com a tradicional segmentação das ajudas em função da heterogeneidade das
situações e dos problemas (adultos deficientes, inválidos, pais isolados, pensio nistas,
desempregados de longa duração), reunindo sob um mesmo direito os indivíduos que
partilham a comum característica de não terem um lugar, independentemente dos motivos que
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19
Cfr.Robert Castel e J. F. Laé (dir.), o , - $. /  &  , L¶Harmattan, Paris,
1992. Segundo estes autores, em França, 77% dos beneficiários estão excluídos da actividade profissional, ¾ são
adultos sem cônjuge, igualmente distribuídos segundo o género, 20% das mulheres têm filhos, 70% possuem um
nível de escolarização inferior ao 9º ano, 60% têm menos de 40 anos de idade. Dos inactivos, 13,5% estão
desempregados há menos de 1 ano e 20% entre 1 e 3 anos. Em França, por força das medidas especificamente
aplicáveis a outras categorias, nomeadamente idosos e famílias numerosas, a proporção de jovens solteiros entre
os beneficiários do RMI é esmagadora.
Em Portugal, segundo o mais recente relatório da Comissão Nacional do Rendimento Social de Inserção (2008), a
marginalização em relação ao mundo do trabalho é ainda mais acentuada, uma vez que 70% dos beneficiários não
possuíam qualquer outro rendimento além da prestação de RSI e somente 10% daqueles que usufruíam de outros
meios de vida os obtinham através do trabalho. No que respeita aos titulares da prestação, observa-se que a
população em idade activa tem um peso muito significativo, sendo que os titulares com idades compreendidas entre
os 35 e 54 anos representavam 50% deste universo contra 29% para aqueles cuja idade era inferior a 34 anos. Os
agregados familiares mais representados são as famílias nucleares com filhos (29%), seguida pelos isolados (24%)
e pelas famílias monoparentais (21%), o que, relativamente aos dois últimos tipos, constitui um forte contraste com a
realidade nacional, em que não representam, respectivamente, mais do que 17,5% e 8%. Embora com peso relativo
nais baixo (6%), as famílias extensas/alargadas estão igualmente mais representadas do que no conjunto da
população portuguesa. No seu conjunto, a população dos beneficiários é predominantemente jovem, uma vez que
os indivíduos com idades inferiores a 18 anos perfazem 41% do total. Embora os relatórios oficiais não
disponibilizem qualquer informação sobre os níveis de instrução dos beneficiários, a amplitude do abandono escolar
antes da conclusão da escolaridade obrigatória em Portugal permite afirmar que a privação de qualificações
escolares e profissionais constitui um traço forte nesta população.
20
Ver o contributo de S. Paugam, o     , '   #, Paris, PUF, 2000. Num
estudo anterior à implementação do RMI, o autor distinguia entre os que chamava «os assistidos» que usam
largamente os serviços sociais e os «marginais» que apenas recorrem pontualmente ou não recorrem a tais serviços
e que procuram sobreviver nas margens do sistema produtivo. Trata-se de indivíduos relativamente jovens, isolados,
vivendo em habitat precário, em suma de indivíduos que têm as mesmas características do que o beneficiário - tipo
do RMI.

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estiveram na base dessa privação Ô Representa uma ruptura com a velha dicotomi a entre
regimes de protecção, ela própria decorrente da separação entre aptos e não aptos para o
trabalho, ao mesmo tempo que se propõe romper com as práticas de tipo meramente
assistencial que se limitavam a providenciar uma ajuda monetária. A inovação co nsiste em
abranger todos aqueles que dependiam tradicionalmente da acção social e os novos precários
gerados pela decomposição da situação de emprego, reunindo -os numa mesma categoria,
para além de pretender ser mais do que um simples direito ao socorro, i sto é, mais do que
simples distribuição obrigatória de subsídios. Nos países europeus mais ricos, o Rendimento
Mínimo de Inserção ficou associado a uma vontade legislativa de programar uma reinserção,
prevendo-se para tal a mobilização concertada de um con junto de organizações e profissionais
cujas intervenções costumam ser pautadas por uma divisão do trabalho relativamente rígida.
Cabe, entretanto, perguntar, qual o significado que é atribuído ao termo reinserção?
Significará que aos indivíduos em dificuld ade deve ser proporcionada a integração num
trabalho estável e uma inscrição relacional forte?
Pelo que anteriormente se aflorou, não restam dúvidas de que são muitos os
obstáculos que se interpõem à mobilização dos recursos compatíveis com a contenção d as
fragilidades e vulnerabilidades que minam a coesão social.
Sabendo-se que as possibilidades de contrariar os processos de desregulamentação
alargada das actividades económicas, de flexibilização do sistema de emprego e de
emagrecimento dos sistemas de p rotecção social não estão ao alcance dos profissionais que
no âmbito das instituições executam esta medida de política social, sabendo -se que, muito
longe disso, sem um movimento social vigoroso, a uma escala transnacional, não há hipóteses
de enfraquecer o poder dos actores económicos globais e de influenciar a acção política para
que esta assuma o desenvolvimento e o bem - estar das pessoas como valor principal e se
decida pela subordinação da economia aos imperativos da coesão social, não restam dúvidas
de que as margens de intervenção transformadora da política social são limitadas.
Se nos detivermos na análise dos pesados constrangimentos estruturais que hoje
precipitam a vida de muitos milhares de pessoas na incerteza e na privação, só com grande
dose de convicção será possível superar o pessimismo da lucidez que dessa análise resulta.
Quais as margens de poder instituinte que restam perante uma engrenagem tão
poderosa como a que vem imparavelmente conduzindo à liquidação das conquistas mais
admiráveis das lutas sociais dos dois últimos séculos?
Que tipo de relação estabelecer com as pessoas que usufruem do RSI de modo a
sobre elas não fazer recair a culpa da sua situação de dependência?
Que tipo de relação estabelecer de modo a que essas mesmas pesso as, inversamente,
não enveredem pelos caminhos do abandono de si próprias e da desistência, condutas estas
que, não raro, se mascaram sob a aparência de irresponsabilidade, ausência de consciência
cívica, parasitismo, entre outros.

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Em Portugal, um continge nte não negligenciável desse universo heterogéneo de
indivíduos que necessitam da protecção social para sobreviver é constituído por populações
urbanas residentes em bairros de habitação social, vítimas do desenraizamento cultural dos
ascendentes e cuja socialização ocorreu em contextos relacionais em que as únicas
referências foram os pares, também eles privados de enquadramentos institucionais capazes
de suprir a ausência da família ou as suas dificuldades de providenciar uma educação
adequada às exigênci as que as recentes evoluções da sociedade impõem.

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Se não se antevêem cenários plausíveis de retorno ao pleno emprego, se, como analisa
Zigmunt Bauman, o enfraquecimento do Estado benfeitor é uma realidade incontornável contra
a qual não se vislumbram hoje actores e movimentos sociais consistentes, como po derão a
pobreza e a exclusão social ser combatidas?
A reflexão deste autor a respeito das evoluções mais recentes do Estado Providência
esclarece a dimensão dos obstáculos estruturais que restringem severamente as
oportunidades de segmentos significativos das populações nas sociedades consideradas mais
desenvolvidas. Assinala ele que a emergência do Estado benfeitor no mundo industrializado,
assim como o seu assombroso êxito inicial e a quase total ausência de resistências que
encontrou, se ficaram a dever a uma conjugação de circunstâncias que se encontram hoje
profundamente alteradas. A convergência entre numerosos interesses e pressões,
provenientes de campos antagónicos, que foi a condição necessária para manter a paz social e
evitar uma luta sem quarte l entre o capital e o trabalho, deu lugar ao Estado benfeitor,
fortemente implicado em superar a ética do trabalho exclusivamente firmada em medidas
coercitivas.
Mais importante do que constatar a regressão do Estado benfeitor, assinala este autor,
é compreender como a base social de apoio que o sustentou se dissipou, de tal modo que hoje
nos deparamos com um largo consenso favorável à restrição da sua acção protectora. Explicar
a mudança de atitude a respeito do Estado benfeitor é uma tarefa que, desde log o, implica uma
ruptura com as teses que atribuem a causa determinante dessa mudança ao triunfo da
ideologia neoliberal, monetarista e neoconservadora. Mais do que fornecer racionalizações
políticas e justificações ideológicas interessa perceber porque é qu e a propaganda neoliberal
21
encontrou um auditório tão amplo e, aparentemente, sem resistência . O argumento principal
de Bauman é que, numa sociedade dominada pelo capital, o êxito inicial do Estado benfeitor
cccccccccccccccccccccccccccccccccccccccc cccccccc
21
In: ³Democracy Against the Welfare State?´ (in: : -     0 '  !. Cambridge, Mass., MIT
Press, 1996, pp. 147-182), Claus Offe escrevia que a rápida perda de apoio sofrida pelo Estado ³não pode explicar-
se totalmente com raciocínios fiscais, nem através de argumentos políticos que sublinham a ascensão de elites e
ideologias neoconservadoras; tão pouco, invocando a justiça e a legitimidade moral do actual reordenamento del
Estado´.

c c
não seria possível caso não tivessem existido co incidências profundas entre os seguros
públicos propostos e as necessidades da economia capitalista. Ora, entre as numerosas
funções que o Estado benfeitor veio a cumprir sobressai o seu desempenho na actualização e
no melhoramento da mão - de - obra como mercadoria. Assegurar uma educação de boa
qualidade, um serviço de saúde apropiado, casas dignas e uma alimentação saudável para os
filhos das famílias pobres, fornecia à indústria capitalista uma mão - de - obra qualificada.
Na actualidade, as perspectivas de que os empregadores necessitem regularmente dos
serviços desse exército de reserva, formado e mantido pelo Estado, são cada vez mais
remotas, sendo grande a probabilidade de a mão -de-obra actualmente desocupada nunca mais
voltar a ser considerada como mercadoria 22. A antiga assistência do Estado perdeu a sua
importância para a expansão e segurança do capital. Ao desaparecerem as vantagens de
financiar a educação e a reprodução da mão -de-obra, de que muito dificilmente a indústria
volta a necessitar, não se pede aos empresários da nova era que compartilhem os custos dos
serviços. Mediante o derrube dos seus fundamentos económicos, será possível manter o
funcionamento do Estado - benfeitor com o apoio que gozou noutro tempo, proveniente de
todas as classes sociais e para além dos limites dos partidos políticos?
O que é preciso explicar, segundo Bauman, é como o consenso que, a partir de
Marshall, conduziu à aceitação dos direitos sociais, como componente inevitável e lógica da
democracia, deu lugar a um novo consenso político, desta vez num sentido completamente
oposto. Como é que o consenso sobre o Estado - benfeitor, que transcendia os partidos e se
apresentava como expressão de uma genuina solidariedade entre as classes sociais, se
expressa hoje em sentido contrário.
Uma primeira alteração é a que remete para o facto de as classes médias terem
adquirido a convicção de que a assistência do Estado ³não rende o dinheiro que custa´e de que
os seguros privados oferecem mais e melhores benefícios. As m otivações que haviam
conduzido a classe média a apoiar a redistribuição da riqueza dissiparam -se em face da
percepção da baixa qualidade dos serviços que o Estado proporciona. Apesar de continuarem
a necessitar de um seguro contra as contingências, as clas ses médias alteraram a sua
percepção do equilíbrio entre os sacríficios e o valor dos benefícios, pelo que a redução de
impostos lhes passou a parecer uma perspectiva melhor que a possibilidade, em grande
medida abstracta, de recorrer a uma assistência cuj a qualidade e atractivo se reduzem dia
após dia.
A mudança de percepção que o votante médio tem do equilíbrio entre custos fiscais e
benefícios sociais deve-se, primeiro lugar, à aplicação do princípio de investigação de

cccccccccccccccccccccccccccccccccccccccc cccccccc
22
A única procura que pode surgir hoje (pedidos de trabalhadores ocasionais, part-time e ³flexíveis´, e portanto não
demasiado preparados o especializados) deixará de lado, seguramente, aquela força laboral educada, saudável e
segura que se cultivava nos melhores tempos do Estado benfeitor. Inclusive as quantidades relativamente pequenas
daquela antiga mão de obra especializada, que alguns sectores da indústria moderna poderiam continuar a
necessitar, são procurados e encontrados mais além das fronteiras de cada país, graças à irrestrita liberdade de
movimentos de que hoje dispõem as finanças e a tão ponderada flexibilidade da empresa moderna.

c c
rendimentos cujo efeito mais contu ndente é a incessante e contínua deterioração da qualidade
dos serviços sociais. Com efeito, pelo facto de haverem passado a ser reservados aos
cidadãos com menores rendimentos, e de, assim, terem deixado de ser alvo da pressão
política dos que ³não precis am´, esses serviços acabaram por sofrer uma acentuada perda de
qualidade. A adopção do critério da investigação de rendimentos e o estabelecimento de um
limite de acesso a certas prestações sociais que, até então, eram de carácter universal, abrem
o caminho a uma severa retracção da parte da despesa pública consagrada à protecção social.
Negando às classes médias o acesso igualitário a determinadas prestações colectivas, que
acabaram por ficar circunscritas aos mais pobres, a política, aparentemente justa, da
investigação de rendimentos esconde uma lógica de legitimação dos cortes de financiamento
das instituições que operam na área da redistribuição, fazendo juz à regra de que ³os
programas para pobres são programas pobres´. Limitar os benefícios dos serviç os estatais ao
segmento politicamente marginalizado do eleitorado é, então, uma receita perfeita para baixar
a qualidade desses serviços a um nível que fará com que as mais duvidosas seguradoras
privadas pareçam um luxo aos olhos dos segmentos algo menos e mpobrecidos e que o
dinheiro que lhes é destinado seja visto como puro desperdício. A descida constante da
qualidade dos serviços é o melhor argumento contra o custo que representam.
Outra consequência da investigação de rendimentos é que ela constitui um processo de
estigmatização dos beneficiários, uma vez que a necessidade de assistência representa a
impossibilidade de viver ao nível da maioria, que não parece ter dificuldades para o alcançar.
Solicitar um benefício é o mesmo que admitir esse fracasso. É tomar uma decisão vergonhosa,
é automarginalizar -se, porque a maior parte das pessoas nunca parecem recorrer ao erário
público. A perspectiva de solicitar benefícios está longe de ser atractiva, pelo que,
independentemente da sua qualidade, qualquer outra alternativa surge como mais desejável e
razoável.
Para compreender a mudança do consenso a respeito do estado benfeitor é ainda
necessário, diz Bauman, ter em conta o surgimento da sociedade de consumo e da cultura
consumista que elegeram a escolha como o valor que mede e hierarquiza todos os demais. De
acordo com o mito do mercado como provedor da livre escolha e guardião da liberdade de
expressar preferências, saber escolher um entre muitos outros objectos, ser uma pessoa
habilidosa e cultivada na arte d e escolher é a honra mais cobiçada. A convicção de se saber
capacitado para escolher é a mais gratificante .
Por tudo isto, a ordenada instituição do Estado benfeitor está em contradição absoluta
com o clima reinante na sociedade de consumo, uma vez que a i deia de igualdade de
necessidades e de direitos esbarra com o culto da diferença e da escolha. Mesmo que os
serviços oferecidos pelo Estado fossem de qualidade muito superior, carregariam sempre a
falha fundamental de anular a supostamente livre escolha do consumidor.

c c
Se as tendências de evolução do Estado benfeitor continuarem a operar no sentido da
redução sistemática das despesas e da desqualificação dos serviços que operam no domínio
da redistribuição e da concretização dos direitos sociais, como poder erá o RSI constituir um
instrumento de inclusão social?
Se o Estado perfilha a política ³dos cofres vazios´ 23, desde logo por ter perdido, com a
sua própria cumplicidade, parte importante do poder de gerar receitas públicas, seja pela
crescente desregulamentação do contrato social do pós guerra e liberalização dos controlos
sobre a acção do capital, seja pela privatização sistemática de sectores criadores de receitas
próprias, poderá o RSI constituir um instrumento de apropriação dos trunfos necessários para
haver inclusão social? Como poderá esta medida gerar o acesso à satisfação de necessidades
básicas, tais como a apropriação de rendimento compatível com os padrões de consumo
vigentes na sociedade em que vivemos, a obtenção de uma educação digna desse nom e, o
acesso a uma residência que promova a dignidade, a obtenção de cuidados de saúde, quando
o emagrecimento das fontes de receita do Estado serve para justificar a redução das depesas
de protecção social?
Que autenticidade poderão ter as declarações de princípio inscritas nos textos que
enunciam o RSI, ou nos apelos à solidariedade da sociedade civil constantes na consagração
do Ano Europeu de Combate à Exclusão Social, quando os poderes políticos puseram em
marcha um processo de redução de impostos favo rável aos mais ricos? Que autenticidade
terão essas declarações quando os Estados accionam políticas financeiras que aprofundam os
défices públicos e instauram um «clima de austeridade» altamente propício à política de
sistemática redução das despesas?
Bastará analisar como têm evoluído os indicadores    e     
  para dar conta que a diminuição das receitas públicas está longe de ser determinada pelo
abrandamento do crescimento. Com efeito, se analisarmos o comportamento do indicador
24
pressão fiscal, dado pelo rácio entre a soma das receitas fiscais e a soma dos PIB dos países
membros da OCDE, podemos verificar que, entre 1960 e 1980, este teve um crescimento anual
médio da ordem dos 1,48% 25, havendo deixado de crescer desde o início da década de oitenta,
o que indica uma nítida tendência para a estabilização da pressão fiscal.
Quanto à repartição da carga fiscal, observa -se que, quer nos Estados Unidos, quer nos
países europeus, desde o final dos anos oitenta, ocorreu uma cla ra interrupção do papel
redistributivo da fiscalidade, patente na tendência para a diminuição da parte relativa aos
impostos directos, progressivos, e para o aumento da parte resultante dos impostos indirectos,
com um efeito regressivo, ligados ao consumo.
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23
S. Guex, «La politique des caisses vides. Etat, finances publiques et mondialisation» in:+   
  nº 146-147 de Março de 2003
24
Que incluem as cotizações para a segurança social.
25
Segundo as estatisticas da OCDE, para o conjunto dos países membros, o nível das receitas fiscais evoluiu de
25,4% dos PIB em 1960 para 34,1% em 1980 para o conjunto dos países da OCDE. Considerando os 15 primeirosc
países da UE, as receitas fiscais representavam, em média, 38,2% do PIB em 1990 e não ultrapassavam os 39,8%
em 2006.

c c
A concorrência que se estabeleceu entre os diversos Estados, designadamente no seio
da União Europeia, em matéria de fiscalidade, com o intuito de cada um tentar atrair e fixar no
seu território as empresas e as famílias mais ricas, é largamente responsá vel por um regular
movimento de diminuição das taxas de imposição que pesam sobre os benefícios das
empresas, os mais altos rendimentos e o património 26. Para todos aqueles que não dispõem da
mobilidade de que usufruem, hoje, as empresas e as grandes fortun as, as consequências
negativas desta concorrência fiscal prendem -se, em primeiro lugar, com o facto de a massa de
impostos proveniente dos rendimentos do trabalho exceder largamente a que provém do
imposto sobre o capital 27. Mas da acima referida concorrênc ia fiscal resultam dois outros efeitos
particularmente negativos, designadamente o recurso crescente à fiscalidade indirecta (cujo
peso no total das receitas é da ordem dos 25%), que penaliza severamente os assalariados
com mais baixos rendimentos, assim c omo desempregados e reformados, e a profunda
mudança nas prioridades estabelecidas em matéria de despesas públicas. A necessidade de
atrair os contribuintes mais ³móveis´ leva os Estados a privilegiar a oferta dos bens públicos de
que as grandes empresas tiram directamente partido, tais como as infraestruturas de
transportes e comunicações, em detrimento das medidas e serviços com potencial
redistributivo que estes mesmos agentes passaram a considerar como custo sem contrapartida
útil28.
Neste contexto, a priori pouco favorável ao desenvolvimento de políticas susceptíveis de
combater eficazmente a pobreza, importa, então, observar mais de perto os recursos
mobilizados pelo Estado português, cujas despesas sociais continuam a ser significativamente
29
inferiores às verificadas entre os 15 mais antigos membros da União Europeia . Num país que,
no quadro da UE, regista uma das mais acentuadas taxas de incidência da pobreza,
designadamente da pobreza persistente, faz sentido analisar os constrangimentos que se
interpõem à pretendida ³inserção laboral, social e comunitária´ das famílias mais vulneráveis,
desde logo através da observação dos montantes de rendimentos providenciados pela política
do Rendimento Social de Inserção.
A primeira constatação que se impõe é que estes se situam bem abaixo do limiar de
pobreza. O seu valor é notoriamente reduzido, desde logo porque foi definido por referência às

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26
A média das taxas nominais de imposto sobre as sociedades passou dos 45%, no meio dos anos setenta, para
valores da ordem dos 20%, na actualidade. Foram igualmente revistas as taxas que afectam os rendimentos mais
elevados. Assim, entre 1986 e 202, esta diminuição atingiu 10 pontos percentuais em Espanha, 11 na Itáliam 12 na
Holanda, 15 em França e na Alemanha, 18 na Bélgica e 20 na Grã Bretanha. Cfr. A. Brachet, A. Verdier, «Entre
concurrence et convergence fiscale, quel projet européen?» in: j$' , nº 39, Sept. 2006 e V. Drezet,
«Vers une accélération de la concurrence fiscale´, 1 2# #  #, 2004.
27
Da ordem dos 40% em média na EU, contra pouco mais de 20% para o capital, segundo a Eurostat.
28
A título de exemplo, mais de metade da despesa realizada em 2009 no quadro do Programa de Investimentos e
Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC) dizia respeito às funções económicas (56,2%),
contra somente 22,2% para as funções sociais e é de relevar que nestas é a educação que predomina largamente
com 15,4% da execução contra somente 0,2% para Segurança e Acção Sociais e 3,5% para Habitação e Serviços
Colectivos (In:  3 '  de 2009, vol. 1, p. 120).
29
Apesar de terem registado um crescimento entre 1996 e 2007, as despesas sociais portuguesas, estimadas em %
do PIB, são ainda inferiores à média europeia: 20,2% contra 27,8% na primeira data e 24,8% contra 26,9% na
segunda. Estimadas em ¼/habitante, a distância em relação à média da UE-15 é notória: 3812,3¼ contra 7850,9¼.

c c
duas prestações sociais mínimas então existentes no quadro do regime não contributivo, a
pensão social de reforma e a pe nsão social de invalidez. A evolução progressiva, anunciada
em 2003, a fim de promover a convergência entre todas as prestações sociais mínimas e o
valor do salário mínimo nacional não chegou, na realidade, a concretizar -se. Em consequência,
no presente ano, o valor recebido por um adulto que vive só não vai além dos 189,52¼, o que
contrasta fortemente quer com o valor do salário mínimo nacional (475¼), quer com o do limiar
de pobreza relativa que, segundo as informações estatísticas disponíveis, era de 406 ¼ em
2007. Embora o valor da prestação financeira varie com a composição do agregado familiar,
não é, de todo, possível fugir à conclusão de que, em todo o tipo de grupo doméstico, o nível
de vida assim garantido permanece sempre aquém do limiar oficial de pobreza30.
Um rápido exercício de comparação com os montantes estabelecidos noutros países
europeus permite, alias, afirmar que Portugal se encontra entre aqueles em que a prestação de
rendimento mínimo é particularmente baixa, contrastando com outros que , apesar de um
inegável recuo do Estado Social, mantêm mecanismos mais fortemente protectores. Referimo -
nos a países como a Dinamarca, Finlândia, Irlanda, Holanda, Reino -Unido, Suécia ou Noruega
em que, consoante a composição dos grupos domésticos, o monta nte das prestações de ajuda
social chega a ultrapassar o limiar de pobreza fixado 31. Interessa realçar que, nos países em
que ainda não sucumbiu totalmente a vontade política de garantir um mínimo de coesão social,
através da responsabilização colectiva pel as situações de grande precariedade material, o
dispositivo do rendimento mínimo garante, a par com o rendimento de substituição, o direito a
prestações financeiras complementares e regulares que permitem enfrentar despesas
essenciais para se poder fazer e fectivamente parte da vida social, tais como as de alojamento
e de guarda das crianças.
Por referência a estas políticas de RSI, que procuram fixar o montante do rendimento
mínimo em função dos padrões médios de vida da população, a medida portuguesa não

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30
Relação entre o rendimento social de inserção e o limiar de pobreza (INE e Segurança Social ± 2009)
Tipos de família 1.Limiar de pobreza 2. Prestação RSI Diferença 1- 2 Prestação em % de 1.
1 adulto só 406,00 ¼ 189,52 ¼ 216,48 ¼ 46,68
2 adultos sem criança 609,00 ¼ 379,04 ¼ 229,96 ¼ 62,24
1 adulto c/1 criança c/ - de 1 ano 527,80 ¼ 379,04 ¼ 148,76 ¼ 71,82
1 adulto c/1 criança c/+ de 1 ano 527,80 ¼ 284,28 ¼ 243,52 ¼ 53,86
1 adulto c/2 crianças c/+ de 1 ano 649,60 ¼ 379,04 ¼ 270,56 ¼ 58,35
1 adulto c/3 crianças c/+ de 1 ano 771,40 ¼ 511,70 ¼ 183,90 ¼ 76,16
2 adultos c/1 criança c/- de 1 ano 730,80 ¼ 568,56 ¼ 162,24 ¼ 77,80
2 adultos c/1 criança c/+ de 1 ano 730,80 ¼ 473,80 ¼ 257,00 ¼ 64,83
2 ad.c/2 crianças, 1 c/ - de 1 ano 852,60 ¼ 663,32 ¼ 189,28 ¼ 77,80
2 ad.c/2 crianças, as 2 c/+ 1 ano 852,60 ¼ 568,56 ¼ 284,04 ¼ 66,69
2 adultos c/ 3 crianças 974,40 ¼ 701,22 ¼ 273,18 ¼ 79,74
3 adultos c/ 1 criança c/-de 1 ano 933,80 ¼ 701,22 ¼ 232,58 ¼ 75,09
3 adultos c/1 criança c/+ de 1 ano 933,80 ¼ 606,22 ¼ 327,58 ¼ 64,92
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proporciona mais do que um muito limitado ³rendimento de subsistência´. Apesar de prever a
mobilização de ³apoios complementares´ destinados a suportar cuidados de saúde, despesas
de educação, de habitação ou de transportes, o Rendimento Social de Inserção em Portugal
está longe de traduzir o reconhecimento do direito à satisfação dessas necessidades. Para
demonstrar que o RSI em Portugal é um ³programa pobre para pobres´ basta atentar que o
montante anual dos chamados ³apoios complementares´ não ultrapassa va os 1000¼ por
família32.
Relevando muito mais do velho método assistencialista de atribuição pontual de
subsídios, do que de uma lógica de cidadania social, os apoios financeiros em questão estão
longe de ter a regularidade, estabilidade material e prev isibilidade indispensáveis para que os
seus destinatários se possam libertar do imediatismo, que tende a dominar o seu modo de gerir
a vida, e adquirir as capacidades de cálculo e previsão inerentes às exigências de um projecto
de vida gerador de ascenção social. E a perpetuação da incerteza e da insegurança que daí
resulta é tanto mais gravosa quanto as necessidades que passam, assim, a depender, na
totalidade ou em parte, do sistema assistencial se prendem com a mais elementar
sobrevivência quotidiana. Re metem, com efeito, para a aquisição de medicamentos, o acesso
a tratamentos médicos e dentários (geralmente prolongados e dispendiosos, sobretudo quando
urgentes), o usufruto de um alojamento minimamente compatível com a preservação ou
restauração da digni dade social, o pagamento atempado das despesas de mercearia ou dos
custos de infantário. Em suma, para necessidades que não podem deixar de condicionar
fortemente a disponibilidade dos indivíduos para investir num percurso de qualificação escolar,
profissional e social que, na maioria dos casos, se prevê longo, desde logo quando, através do
programa de inserção, se pretende induzir uma mudança cultural profunda, rejeitando o mero
simulacro de qualificação que constituem muitas iniciativas de ³reconhecimento e validação de
competências´ ou de ³desenvolvimento de competências pessoais e familiares´.
Face a tais limitações, como interpretar a supressão pura e simples, a partir de 1 de
Agosto de 2010, dos magros recursos inscritos nos ³apoios complementares´? R epresentará o
RSI uma despesa tão considerável, a ponto de se poder esperar ³conter de forma sustentada o
crescimento da despesa pública´ 33, recorrendo a cortes de despesas já de si manifestamente
escassas, se pensarmos na grandeza das privações que destroem a vida de muitos destes
cidadãos?

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32
No caso das famílias acompanhadas pela QpI, calculou-se que o recurso ao máximo das verbas disponíveis fez
passar o valor médio mensal da prestação por indivíduo, em 2009, de 119,4¼ para 139,7¼ .
33
Ver o preâmbulo da Lei 70/2010 de 16 de Junho que altera os procedimentos de verificação da condição de
rendimentos e pretende introduzir «maior rigor e eficiência na prestação». Segundo a Eurostat, em 2007, as
despesas sociais relacionadas com a «exclusão social» representavam 0,3% do PIB português, contra 23,4% para o
total das despesas em prestações sociais. As informações do INE, relativas ao mesmo ano, estimam a
464.333.000¼ as despesas de prestações sociais que correspondem a função «exclusão social», o que representa
1,2% do total das despesas em prestações sociais na mesma data (38.218.538.000¼). Segundo o 1
' 41   de Julho de 2010, o total das despesas correntes da Segurança Social relativas ao
RSI elevaram-se, no final de 2009, a 508 milhões de euros. Só em juros o Estado pagou, no mesmo ano, 4794
milhões de euros.

c c
Num momento em que os líderes da União Europeia apontam o objectivo de reduzir, em
20 milhões, o número de cidadãos europeus em situação de pobreza 34, como interpretar a
publicação, pelo governo português, de um de creto-lei que mais não faz do que multiplicar os
procedimentos que restringem, ainda mais, as parcas verbas destinadas à ³exclusão social´?
A redução dos rendimentos proporcionados aos beneficiários do RSI é, de facto, a
principal consequência a esperar das alterações agora decididas. Em primeiro lugar, pela
implementação de regras mais estritas para apurar a capitação das famílias, prescrevendo a
35
diminuição do peso relativo dos diversos membros do grupo doméstico para efeitos de cálculo
do valor da prestação. Em segundo lugar, pela supressão dos apoios complementares e de
todos os apoios ³especiais´ até agora concedidos às famílias confrontadas com encargos
suplementares, por motivos de deficiência, doença crónica, dependência de algum dos seus
membros idosos ou da existência de crianças no primeiro ano de vida.
No mesmo sentido aponta a imposição legal de redefinir os rendimentos a
considerar36para o cálculo da prestação, passando as bolsas de estudo ou a habitação social a
ser contabilizadas como rendime ntos. Um dos sinais mais gritantes do desprezo pelos pobres
que estas alterações evidenciam reside na contabilização, a título de rendimentos, do valor de
46¼36 quando estes residem em bairros de habitação social. A completa indiferença face aos
fenómenos de relegação urbana e seus efeitos na perpetuação da pobreza, que assim se
institucionaliza cada vez mais, está igualmente bem patente na supressão da reduzida
37
compensação prevista, no dispositivo criado em 2003, para as despesas de habitação .
Como pretendem os governantes tornar compatível a Carta dos Direitos Fundamentais,
que o Tratado de Lisboa investiu de ³força obrigatória´, com a redução de despesas sociais já
de si extremamente exíguas, se pensarmos nos 35,8¼ anuais que em 2007 couberam, em
média, a cada habitante? O ³rigor´ e a ³austeridade´ exigidos em matéria de despesas públicas
poderão realmente contribuir para alcançar o objectivo da ³consolidação orçamental´, na
ausência de um efectivo reforço da solidariedade? A demissão face à criação de n ovas
receitas, por exemplo através de impostos sobre os ganhos especulativos, conduz
inevitavelmente a uma política de contenção de despesas que, ao exigir mais sacrifícios a

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34
Anunciado no quadro da ³Estratégia 2020´, proposta pela Comissão Europeia e subscrita em 17 de Junho.
35
Enquanto o dispositivo de 2003 previa que o montante da prestação a atribuir era de 100% da pensão social por
cada indivíduo maior, até ao segundo, passando para 70% da pensão social a partir do terceiro, as novas regras
limitam os 100% da pensão social a apenas 1 adulto por grupo doméstico, os restantes não auferindo mais do que
70%. Penalizam igualmente as famílias mais numerosas, diminuindo de 70 para 50% da pensão social o montante
da prestação a receber a partir do 3º filho, assim como as famílias com filhos adultos, já que eliminam a
possibilidade de os jovens com mais de 18 anos acederem autonomamente ao RSI, tornando-se titulares e
recebendo 100% da pensão social, enquanto residirem com o restante agregado familiar. Revogam totalmente os
apoios concedidos em caso de gravidez (56,87¼/mês), assim como durante o 1º ano de vida da criança
(94,76¼/mês).
36
Contrariando o que vigorava com a lei nº13/2003, o decreto-lei de 16 de Junho 2010 obriga a considerar como
rendimentos disponíveis para as famílias todas as prestações, subsídios ou apoios sociais atribuídos de forma
continuada (com excepção das prestações por encargos familiares, no domínio da deficiência e com familiar
dependente), todo o tipo de apoios à habitação e de bolsas de estudo e de formação, de origem pública ou privada.
37
As despesas de habitação superiores a 25% do valor do RSI (47¼38) tornavam possível o acesso a um subsídio,
mas cujo limite máximo correspondia ao montante mais elevado do subsídio de renda (cerca de 45¼/mês em 2009).

c c
quem já possui menos recursos, é não só socialmente muito prejudicial mas economi camente
muito arriscada. Na perspectiva de J. Stiglitz, por exemplo, aumenta consideravelmente o risco
de precipitar um novo período de recessão económica, desde logo pelos efeitos negativos das
políticas de austeridade na procura interna dos países europe us, que inviabilizará a própria
concretização do objectivo pretendido. A recessão económica induz mais desemprego, mais
pobreza e, portanto, mais gastos, a própria diminuição dos défices está longe de ficar
garantida. Sustenta, aliás, este economista, que com somente uma parte das somas colossais
que foram canalizadas para salvar os bancos, os governos teriam tido meios para criar, eles
próprios, novos bancos e para desenvolver políticas de investimento capazes de ³estimular a
economia e criar empregos no c urto prazo, promovendo crescimento e redução das dívidas no
longo prazo´ 38.
Indiferente ao agravamento das fracturas sociais, o poder político não cessa de reiterar
a sua preocupação acerca do ³rigor´ necessário na avaliação das contrapartidas esperadas do s
pobres. O que, por mais legítimo que seja a busca de um saudável equilíbrio entre direitos e
deveres, não deixa de surpreender, face à total despreocupação manifestada acerca das
contrapartidas proporcionadas pelos dirigentes de sociedades cujos ³salário s´ mensais são
mensuráveis em dezenas, ou até, mesmo centenas de salários mínimos e cujo ³sucesso´ está
longe de ser independente de numerosos investimentos públicos.
Há assim motivos fortes para pensar que as restrições ainda mais drásticas que estão a
ser impostas àqueles cujas condições de existência os degradam pessoal e socialmente
cumprem a função de instalar um modo de pensar a pobreza como resultado da
responsabilidade individual dos pobres.
Continuar a exigir ³mais rigor e eficiência na prestação ´, assim como ³maior
responsabilização dos seus destinatários´, sem uma avaliação séria dos recursos
efectivamente mobilizados e das oportunidades criadas, desde logo pelas instituições públicas
directamente envolvidas nesta política, não é mais do que um modo insidioso de consolidar, na
opinião pública, a representação dos pobres como indivíduos que não justificam os custos que
acarretam. Quanto mais se propaga a ideia de que são os rendimentos provenientes das
transferências sociais que desincentivam o ex ercício de uma actividade produtiva por parte dos
mais vulneráveis, e não a drástica redução de oportunidades de aceder a um posto de trabalho
decente e a ausência de qualquer alternativa inequívoca ao trabalho remunerado para poder
dar provas de utilidade social, mais se desvia a atenção dos cidadãos das transformações
económicas e políticas em curso, assim como dos projectos de sociedade que lhes
correspondem. Reforça-se igualmente a predisposição para aderir à crença, alimentada por
economistas empenhados em justificar o extraordinário crescimento dos mais altos
rendimentos, de que as desigualdades estimulam a eficiência económica.
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38
J. Stiglitz, «Obama must resist ³deficit fetish´», 10/02/2010, http://dyn.politico.com; e «Osborne's first Budget? It's
wrong, wrong, wrong!» entrevista publicada in: · . , 27-06-2010.

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Um outro domínio de análise é o que remete para o funcionamento das chamad as


comissões locais de acompanhamento, formadas por um largo leque de instituições,
relacionadas com o emprego, a formação, a saúde e a pobreza, a habitação, a quem cabe a
missão de produzir diagnósticos, conceber as vias de acesso à inserção e angariar os recursos
necessários para que esse mesmo acesso seja exequível.
Ora, uma constatação que rapidamente se impõe a quem encara a pobreza sem
concessões ao determinismo, que o mesmo é dizer, sem postular, à partida, que estamos
perante um fenómeno irresolúve l, essencialmente imputável às motivações e traços
psicológicos dos indivíduos, é o fraco investimento que nessas comissões é dedicado à
obtenção dos recursos compatíveis com um trabalho de inserção, verdadeiramente digno
desse nome.
O que a observação di recta e prolongada do terreno, enquanto instituição responsável
por contratualizar projectos de inserção com 450 famílias residentes na cidade do Porto, nos
impõe como evidência incontornável é que não basta a consagração legal da obrigatoriedade
de trabalhar em parceria para efectivamente fazer nascer uma metodologia de intervenção
assente na congregação de esforços e de recursos e, acima de tudo, capaz de romper com os
modos burocráticos de responder aos problemas. Por outras palavras, a retórica da
intervenção obrigatoriamente ancorada em parcerias não gera, por si só, a necessária
interacção dos diversos representantes institucionais, quer em torno da construção e partilha
de uma visão cientificamente fundada dos problemas, quer em termos das acções a
empreender para que as práticas sejam efectivamente coerentes com os diagnósticos.
Para demonstrar a orientação essencialmente burocrática dessas comissões locais de
acompanhamento começamos por tomar o exemplo das práticas adoptadas no domínio da
formação académica e profissional dos beneficiários.
Um primeiro aspecto que, de imediato, se impõe à observação é a tendência para
hierarquizar os pobres em função da profundidade e gravidade das rupturas que marcaram os
seus trajectos, de tal modo que as oportunidades de ingressar numa formação
verdadeiramente qualificante se circunscrevem ao número relativamente restrito daqueles que
tiveram uma vida profissional e que já possuem algumas qualificações.
Para aqueles que, ao longo da vida, acumularam vários tipos de rupturas, de ordem
material, emocional, cultural e social, e que pouco ou nada adquiriram em termos de formação,
as propostas de formação pecam por manifesta incapacidade de gerar uma efectiva evolução
em termos de saberes e competências com algum valor no mercado de trabalho e na
sociedade em que vivemos. Os mais pobres, muito part icularmente os que desde a infância
foram impossibilitados de adquirir as atitudes e os saberes socialmente inclusivos, são

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sistematicamente remetidos para autênticos simulacros de formação que jamais lhes permitirão
ingressar no mercado de trabalho e aced er a um mínimo de autonomia.
As soluções prescritas para os que vivem a pobreza mais perniciosa, por força de,
desde a infância, haverem acumulado rupturas, tais como a morte, abandono ou violência dos
progenitores, a institucionalização, a socialização e m bairros onde germinam subculturas
desviantes, a ausência de uma figura de referência com que se pudessem identificar, a
impossibilidade de encontrar na escola uma verdadeira oportunidade para descobrir
capacidades, apropriar -se do conhecimento e descobri r a sua utilidade para a futura vida
profissional, são manifestamente irrisórias, desde logo pela penúria e miserabilismo inerentes
aos modelos de formação disponíveis.
De certo que o retorno destas pessoas à formação, com o objectivo de verdadeiramente
provocar a sua inserção social, exigiria um questionamento profundo das concepções e dos
modos de fazer institucionalizados neste domínio da formação, assumindo a necessidade de
implicação e investimentos relacionais intensos. A pluralidade e gravidade das dificuldades que
perpassa(ra)m a vida deste tipo de pobres não são superáveis se os meios disponibilizados
são insuficientes face à grandeza e à perversidade dos problemas que constrangeram as suas
vidas. Por maioria de razão, não serão superáveis se à par tida se postula que nada mais há a
fazer que não seja preencher o quotidiano, através de uma actividade meramente ocupacional.
No caso desta pobreza perniciosa, em que as rupturas relacionais no seio da família
não raro se associam a outros factores agrav antes do processo de socialização, como, por
exemplo, a residência em habitats propícios à produção de subculturas  mais ou menos,
desviantes, o processo de inserção toma contornos particularmente complexos,
designadamente devido à integração em grupos de pares cujo acesso à identidade só pode ser
conseguido através do mecanismo psicológico da inversão da escala de valores.
Para que as comissões locais de acompanhamento pudessem ser efectivos
instrumentos de promoção da inserção social seria, desde logo, i ndispensável levar a sério a
análise científica dos problemas, o que não dispensaria a apropriação de uma problemática
teórica capaz de integrar as várias dimensões implicadas na produção da vulnerabilidade social
que caracteriza esta pobreza.
Para que a inserção e as parcerias não se resumam a uma mera linguagem, as
comissões locais de acompanhamento teriam que enfrentar, como exigência incontornável, a
necessidade de incorporar e difundir o que de mais relevante a comunidade científica produziu
a respeito do problema. Sem isso, o funcionamento das referidas comissões redunda numa
sucessão de rotinas imunes à reflexão e ao distanciamento críticos e, por essa via, muito mais
favoráveis à reprodução do fenómeno do que à sua superação.
Só assim a pretendida mobilização dos recursos da comunidade, que supostamente
constitui uma das tarefas essenciais das comissões locais de acompanhamento, deixará de se
confinar ao mero inventário do que existe e à constatação da escassez dos meios materiais

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disponíveis. Sem negar, como já assinalamos anteriormente, o peso específico da penúria dos
meios materiais enquanto obstáculo limitador da intervenção, não nos parece descabido
afirmar que os recursos existentes, nomeadamente os humanos, poderiam ser mais e melhor
rentabilizados se os vários tipos de profissionais se envolvessem na partilha e difusão de
modos de ler e intervir cientificamente fundamentados.
A compreensão da complexidade dos processos de marginalização social só é possível
no quadro de um diálogo interdisci plinar capaz de esclarecer o encadeamento dos possíveis
nexos causais entre políticas habitacionais e de ordenamento territorial socialmente
segregadoras, os efeitos desencadeados pela residência constrangida num habitat socialmente
relegado sobre a qualid ade da vida familiar, ou os efeitos da premente escassez de recursos
económicos no dia ± a - dia sobre os modos de relacionamento entre pais e filhos e a
emergência de formas de organização familiar com sinais de disfuncionamento, tal como
acerca da relação entre funcionamento escolar, desmotivação pelo estudo e fechamento das
perspectivas de evolução e de desenvolvimento pessoal.
Qual o interesse desta incursão teórica para a discussão do funcionamento das referidas
comissões locais de acompanhamento a que m compete aprovar os contratos de inserção?
A sua pertinência remete, desde logo, para a necessidade de desconstruir os inúmeros
equívocos que prevalecem, nas instituições, em geral, e na comunidade escolar, em particular,
a respeito das famílias e da sua responsabilidade na educação dos filhos.
Qual o papel que poderiam, então, desempenhar estas comissões para que
efectivamente se desenvolvesse uma cultura aberta ao estabelecimento de pontes produtivas
entre parceiros e ao enriquecimento mútuo dos profissionais com formações diversificadas?
Que acções poderiam desenvolver nomeadamente, junto das instituições de ensino para que
estas se dispusessem a experimentar tipos de formação alternativos aos modelos
convencionais.
A tendência para conceber as ditas comissões de acompanhamento como somatório de
profissionais que mais não fazem do que prescrever o encaminhamento dos beneficiários para
instituições de formação está, desde logo, patente na ausência de reflexão acerca das razões
que levam ao abandono/ exclusão escolar e à desqualificação profissional , tal como na falta de
problematização do funcionamento das instituições escolares. Os supostos diagnósticos
realizados em sede das unidades locais de acompanhamento são construídos com base em
categorias institucionais que, pouco devendo à análise científ ica dos problemas, acabam por
reproduzir práticas e condições que incapacitam o acesso à formação efectivamente
qualificante.
Acatar acrítica e submissamente a oferta existente num dado território, sem
problematizar as lógicas e modelos de formação, franc amente desajustados, que tendem a
prevalecer nestas instituições, equivale a anular o potencial inovador da medida, a retirar -lhe
qualquer eficácia enquanto ferramenta capaz de desencadear o processo de inserção,

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equivale, enfim, a reduzi -la à aplicação burocrática de falsas soluções que apenas servem a
gestão da miséria.
Apesar de não faltarem estudos que lançam luz sobre a importância de enraizar a
formação nos problemas da vida e nos conhecimentos que estes suscitam, a realidade é que,
mesmo no âmbito da formação profissional, continuam a prevalecer modos de ensinar que
instalam um profundo desencorajamento a respeito do retorno a projecto de formação. A
intervenção em parceria exigiria um intenso envolvimento e interacção dos parceiros com as
instituições formadoras em ordem à negociação das condições de formação adequadas,
apresentando propostas concebidas na base das importantes teorizações que acerca da
formação de adultos têm sido desenvolvidas.
Os funcionamentos burocráticos das instituições de form ação, no sentido de que
aplicam procedimentos estandardizados e tidos como imutáveis, são observáveis na própria
qualidade da oferta de modalidades de formação. Quem se dedicar ao trabalho de reunir as
condições para que os menos munidos possam enveredar p or um caminho de saída da
vulnerabilidade peculiar que os atinge por força da falta de saberes e competências valorizados
no mercado de trabalho não pode deixar de sentir a tenaz resistência dos modos de pensar e
de fazer institucionalizados. Um dos aspect os que mais choca com o objectivo da reinserção é
a prática amplamente difundida de encaminhar os indivíduos de muito baixas qualificações
para formações pouco ou nada qualificantes que meramente se destinam a ocupá -los e que,
assim, acabam por induzir a descrença na mudança e instalar um modo de relacionamento
instrumental com as instituições de protecção social. Na realidade, a fracção dos pobres que
herdaram a pobreza da geração anterior ou que nela foram precipitados devido a rupturas na
transição para a vida adulta, oriundas de desfasamentos profundos entre as culturas da família
e da escola, dificilmente encontrarão oportunidades de sair da desqualificação.
Além dos problemas ligados a um tipo de ensino que desliga os saberes da acção, que
recorre a práticas pedagógicas expositivas, que não sabe articular formação geral e
profissional, que impõe modelos pré fabricados de formação, que descura a ligação entre a
formação e a vida quotidiana, acrescem os que remetem para a confrangedora falta de
exigência e de qualidade do ensino que a estes indivíduos é oferecido.
As baixíssimas expectativas a respeito das suas capacidades não são prerrogativa
apenas dos profissionais do ensino mas, igualmente, dos outros agentes institucionais que
compõem as comissões locais de acompanhamento, já que a contratualização do programa de
inserção envolve a participação de um conjunto de instituições, entre as quais a educação.
É, então, pertinente que nos questionemos acerca da noção de contrato de inserção
que está em causa, tal como acerca da noção de inserção. Será esta apenas uma panaceia?

Um outro aspecto revelador da incoerência dos funcionamentos das comissões locais


de acompanhamento face ao discurso que preconiza o esforço da colectividade pública para

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que sejam reunidas as condições de acesso aos direitos fundamentais de todo o cidadão é o
que remete para a inexistência de acções consistentes no domínio das condições
habitacionais. Apesar das intenções inovadoras que parecem estar subjacentes à concepção
da medida, desde logo pelo reconhecimento de que a prestação pecuniária mensal não é, em
muitos casos, suficiente para induzir a saída da situação, antes, pelo contrário, se isolada dos
outros factores responsáveis pela pobreza pode, até, instalar uma dependência, a verdade é
que a presença de representantes das autarquias locais nestas comissões está longe de
representar uma efectiva cooperação destas instâncias em matéria de satisfação das
necessidades de habitação.
Tal como no caso da formação, também neste domín io se impõe internalizar análises
produzidas no âmbito da sociologia urbana que permitem compreender que as necessidades
habitacionais não se reduzem aos elementos materiais, tais como tecto, água canalizada,
electricidade, rede de esgotos, número de compa rtimentos. Aos modos de ocupar o território
estão subjacentes certas lógicas com consequências, muitas vezes, devastadoras no que diz
respeito à distribuição de dois trunfos decisivos para a inclusão social: a(s) rede(s) de relações
sociais em que é possív el tomar parte; o acesso à dignidade e ao valor simbólico.
Para um número relevante de beneficiários do RSI, a situação habitacional representa
um constrangimento poderoso não só porque submete os indivíduos à influência de grupos
com poder de imposição, pela força, de referências e modos de vida notoriamente dissidentes,
mas, igualmente, porque os impede de interagir com mundos sociais externos e de construir
uma identidade social alternativa à de habitante de bairro socialmente relegado. A política de
habitação que aprofunda a separação espacial e relacional das categorias sociais cuja situação
económica não permite aceder ao mercado da habitação dá lugar a fenómenos psicossociais
devastadores, desde logo porque precipita a constituição de grupos juvenis cuja
impossibilidade de viver a escola como oportunidade e de projectar o futuro estreitam
severamente as possibilidades de acesso a uma identidade social valorizada.
Excluídos no plano do consumo, uma vez que os seus rendimentos não lhes permitem
viver segundo as normas socialmente dominantes, estes indivíduos acumulam sérias privações
ligadas às sociabilidades primárias. A sua integração na dimensão social, designadamente na
rede familiar e de amigos, está longe de constituir um suporte relevante para o estabelecimento
de laços de solidariedade susceptíveis de criar antídotos contra a vulnerabilidade social. No
plano simbólico, nem o trabalho, nem a família, nem a comunidade de residência podem
alimentar o seu orgulho e sustentar a interiorização do senti mento de utilidade social, o que
restringe as possibilidades de saída da situação.
Ao contrário do que acontece com as classes populares que, exclusivamente afectadas
pela exclusão económica, acabam por reforçar a sua coesão e desenvolver um forte sentido de
pertença a um grupo, por oposição aos actores dominantes, os indivíduos que são atingidos
pela exclusão simbólica vivem uma situação bem mais devastadora. A sua existência é uma

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associação de fraquezas, em que à escassez de recursos económicos se acrescenta o
isolamento, a miséria afectiva, a ruptura das pertenças, a deriva física e p síquica. Não podem,
como as classes populares, desenvolver uma visão da organização social enquanto espaço
construído por relações sociais conflituais entre actores com interesses divergentes, desde
logo porque não está ao seu alcance desempenhar um papel susceptível de exprimir um lugar
e uma utilidade na produção social.
Sem recursos para participar na produção de uma cultura capaz de produzir uma leitura
crítica da situação vivida, e que, ao mesmo tempo, permitisse experimentar um sentimento de
pertença a um colectivo detentor de um lugar determinado no seio do sistema social, os
indivíduos de que falamos vivenciam uma situação substancialmente distinta da dos pobres
que, embora ocupando o último escalão da hierarquia social, embora recebendo os salários
mais baixos e fazendo os trabalhos mais penosos ou os mais sujos, têm consciência de ocupar
um lugar no sistema e de ter uma utilidade social, mesmo que esta não seja valorizada. Uma
vivência distinta da dos pobres que, apesar das frustrações provocadas pe lo confronto
quotidiano com a riqueza dos outros, possuem uma cultura que lhes permite fazer face à
desvalorização. Está fora do seu alcance o recurso a formas de resistência à desvalorização,
tais como a aceitação da ordem das coisas, a revolta, a indigna ção, assim como a mobilização
colectiva ou individual (mobilidade pessoal por qualificação profissional ou geracional através
dos estudos dos filhos). Seja porque, na sua maioria, as múltiplas carências que hoje os
afectam estiveram presentes na sua vida d esde que nasceram, seja porque os aspectos
estruturantes da cultura operária se vão dissipando, este tipo de beneficiários do RSI
dificilmente poderão partilhar certas normas e representações colectivas.
E dizemos que dificilmente poderão partilhar o ideal de eu social definido na base do
sistema de valores e normas socialmente valorizados porque as múltiplas interacções em que
estiveram envolvidos, não só na infância, como ao longo da sua vida, não lhes permitiram
aceder a um sentido positivo de si próprio s, ou seja, tornaram impossível o processo de auto
reconhecimento e de reconhecimento pelos outros.
Por uma inversão de sentido, estratégia frequente nas situações em que os
constrangimentos simbólicos são fortes, as actividades ilegais e a delinquência s ão
transformadas em modo de sobrevivência valorizado. Trata -se de uma estratégia de
revalorização simbólica que se aproxima do que Bourdieu assinalou como uma forma de luta
³com as armas dos desarmados´ 39.
Entre os beneficiários do RSI não escasseiam os qu e fizeram um percurso de completa
desinserção social por via da exclusão em domínios tais como o desemprego, os recursos
económicos, as relações sociais, a valorização simbólica.

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39
Bourdieu, P., +#5), Paris, Editions de Minuit, 1977.
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Conhecidos, pois, os efeitos da habitação constrangida em habitats socialmen te
relegados sobre a estruturação do habitus e face à inexistência de medidas de política
habitacional capazes de arrancar este tipo de excluídos da segregação relacional a que se
encontram votados não nos parece descabido concluir, uma vez mais, que a acç ão das
referidas comissões de acompanhamento no terreno está longe de proporcionar caminhos de
inserção social.
Quem no terreno se depara com o problema de não ser possível induzir a saída da
situação de pobreza e de exclusão social se não ocorrer uma ref ormulação do habitus
interiorizado nos sucessivos anos de deriva sem sentido não pode descurar a reflexão sobre as
condições da mudança interna, indispensável para desencadear a atitude favorável à saída da
situação. Se, como tão bem demonstrou Norbert Eli as, o indivíduo é o conjunto das interacções
que fazem parte da sua existência, como desencadear a mudança das categorias de
apreensão do mundo quando a pressão do grupo trabalha no sentido da adaptação? Como
desencadear a referida transformação subjectiva se as redes relacionais permanecem
dominadas pela influência dominante de grupos que segregam formas de integração nas
margens da sociedade? Diríamos mais, quem no terreno constata que entre os factores
responsáveis pela exclusão económica dos beneficiári os do RSI se destaca a socialização
precoce em subculturas que não podem gerar uma leitura política da pobreza mas que, pelo
contrário, na falta de trunfos para apostar na revalorização colectiva, segregam a inversão da
escala de valores, não deixará de co nstatar que o carácter inovador da medida não é mais do
que um discurso.
Na realidade, as possibilidades de melhorar as condições habitacionais são
extremamente escassas ou mesmo inexistentes, uma vez que além de não existir outra
alternativa além da habi tação social, acresce que mesmo esta medida está longe de colmatar
as necessidades habitacionais dos mais pobres. Apesar do discurso sobre a necessidade do
partenariado e da actuação concertada entre instituições, apesar do discurso sobre o carácter
sistémico do problema e sobre a necessidade de inovação e criatividade das práticas
institucionais, a verdade é que os modos de fazer instalados revelam que, também neste
domínio, se descura completamente a mobilização de recursos e de modos de intervir
assumidamente dirigidos para a superação da exclusão relacional e simbólica associada ao
habitat residencial. A inexistência de reflexão crítica sobre esta forma de privação, que remete
os mais jovens para contextos de socialização incompatíveis com a incorporação das
disposições que permitem tirar partido da escola e participar em redes sociais geradoras de
antecipações identificatórias mais positivas, é uma evidência de quanto o uso da designação
programa de inserção se divorcia das práticas. Em face da pura e si mples inexistência de
medidas de política habitacional efectivamente empenhadas em romper com práticas que
instalam profundas separações, criam mundos mutuamente estranhos, erguem muros e geram
incomunicabilidade e impossibilidade de partilha colectiva de valores, as margens de

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intervenção das comissões locais de acompanhamento não ultrapassam o quadro das
soluções avulsas e precárias. No concelho do Porto, as situações de premente e inequívoca
necessidade de habitação esbarram com a crónica falta de respos ta da autarquia, pelo que
resta procurar no mercado uma solução habitualmente cara e de qualidade medíocre. Apesar
de cada beneficiário do RSI poder dispor de uma ajuda complementar de 1000¼ anuais, a
verdade é que essa quantia é absolutamente insuficiente para suprir esta despesa. Na melhor
das hipóteses chegará para pagar quatro meses de arrendamento. Há, então, que lançar mão
de um outro dispositivo, desta feita do âmbito da acção social, que implica a renovação, mês a
mês, do pedido de ajuda financeira indispensável para evitar a acção de despejo, a fim de
obter a sempre incerta aprovação da ajuda requerida. Em suma, resta recorrer a um
procedimento que nada tem a ver com a planificação das acções e, mais grave ainda, que não
traduz um efectivo compromisso entre as partes envolvidas, pois que pode ser suprimido a
qualquer altura, consoante o montante da parte já gasta da despesa orçamentada. À medida
que o ano avança e que o montante financeiro global previsto para a acção social se aproxima
do esgotamento, estas ajudas podem deixar de ser autorizadas e os processos de despejo
podem ocorrer.
Em face da ausência de iniciativas concertadas a fim de comprometer os responsáveis
institucionais na criação de soluções estáveis e com alguma qualidade, sobretudo n o que
respeita à elevação do capital social dos indivíduos, os técnicos que, no terreno, assumem a
defesa das condições de vida dos beneficiários têm que reunir doses consideráveis de
convicção, energia, imaginação e militância para contornar os pesados e frios procedimentos
burocráticos, indiferentes aos reais problemas das pessoas. As escassas margens de
intervenção que neste domínio é possível explorar não vão além das tentativas de conquistar
os senhorios para que aceitem os atrasos de pagamento derivad os da demora das decisões e
dos procedimentos da segurança social, assumir pessoalmente o papel de fiadores nos
contratos de arrendamento e, incansavelmente, reiterar mês após mês os pedidos de ajuda.
Crescer em certos bairros de habitação social é um ris co demasiado pesado que as
famílias não sabem como contornar, de modo a preservarem os mais jovens da derrapagem
para percursos desviantes. Quem, como nós, conhece em directo os dramas de muitas das
famílias que se debatem com a exiguidade, insalubridade e quase total ausência de elementos
de conforto na habitação, não deixará de registar a preferência pela insalubridade e
desconforto acentuado das velhas e exíguas habitações face à alternativa de residir num bairro
social. Os depoimentos por nós recolhidos revelam uma consciência muito nítida dos riscos
que recaem sobre os filhos, designadamente pela preponderância de grupos de pares
familiarizados com o consumo e o tráfico de drogas.
Em suma, nada indica que a execução do RSI esteja a contribuir para o nas cimento de
uma efectiva cultura de trabalho em rede, mensurável através do envolvimento das instituições
no equacionamento de propostas que representem alguma superação das rotinas instaladas e

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da implicação em acções de influência sobre as instâncias deci soras. Se tivermos em
consideração que o tipo de Estado social 40, que em Portugal deu os primeiros passos a partir
de 1974, comporta certas características peculiares por relação aos vários modelos que se
afirmaram nos países da Europa ocidental, não deixar emos de concluir que as possibilidades
de erradicar a pobreza em Portugal não parecem estar no horizonte das organizações que
actualmente podem aceder ao poder político. No ano internacional consagrado ao combate à
pobreza, a inserção permanece pouco defin ida e dependente das práticas que são
implementadas pelos diversos actores sociais, num vazio de debate público vigoroso sobre as
causas e os caminhos de superação do problema.

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Na sua esmagadora maioria, os indivíduos que acompanhamos no âmbito do RSI


encontram-se em situação de fraca integração no plano económico, não possuem qualificações
profissionais e escolares, nem motivação para viver o trabalho como uma actividade em que
vale a pena investir. Deixaram de procurar emprego, seja por falta de oportunidades de o
encontrar, seja porque aqueles a que poderiam aceder proporcionam salários tão baixos, a
ponto de ser economicamente mais racional enveredar pelo recurso às prestações disponíveis
no âmbito da protecção social. Além da escassez de recursos, com que sempre se
confrontaram, a sua imagem social e as suas relações com os outros foram -se degradando ao
longo da vida, abeirando a desinserção social.
Na sua quase totalidade, os ³nossos´ desempregados nunca usufruíram de subsídio de
desemprego, precisamente em resultado da informalid ade dos vínculos laborais em que
estiveram envolvidos. Também não lhes foi possível capitalizar recursos que permitissem fazer
face ao desemprego. Tão pouco lhes é possível encontrar no grupo familiar os suportes
capazes de compensar a carência de rendimen tos do trabalho.
Os indivíduos por nós acompanhados dispõem de escassas oportunidades de participar
em redes de solidariedade e, acima de tudo, não dispõem dos recursos relacionais, culturais,
intelectuais, ideológicos e simbólicos requeridos para tomar parte numa acção colectiva
susceptível de conduzir à conquista de uma melhoria das suas condições de existência.
Podemos dizer, sem arriscar muito, que à exclusão do emprego se acumulou a exclusão do
espaço de socialidade, designadamente do grupo familiar, precipitando-os numa deriva social e

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c Esping-Andersen, G., «Orçamento e democracia: o Estado-providência em Espanha e Portugal 1960-1986», in:
+6 , nº 122, vol. XXVIII, 1993 (3), Sousa Santos, B., «O Estado, as relações salariais e o bem-estar social
na semi-periferia» in: Sousa Santos, B., org.,    Porto, Afrontamento, 1993.c

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psicológica que torna ainda mais difícil a reinserção. São protagonistas de histórias de vida
recheadas de privações, quer no plano material, quer no plano psicológico. As suas condições
concretas de existência determi naram a estruturação interna de certas reacções subjectivas
que tendem a contribuir, de forma muito difícil de reverter, para a manutenção da incapacidade
de assegurar uma vida pelos próprios meios. São, na sua esmagadora maioria, indivíduos que
se confrontaram, desde muito cedo, com rupturas de ordem material e emocional, rupturas,
estas, que induziram a elaboração de racionalizações que se constituem em forte obstáculo à
saída da situação.
Impotentes para melhorarem o seu modo de vida, acabaram por se adaptar
psicologicamente às suas condições de existência porque só assim conseguem reduzir o seu
sofrimento. Vêem-se a si próprios como desprovidos de poder para actuar sobre a situação, e
assim reforçam a imagem negativa que desenvolvem a seu respeito. Não conseguindo livrar -se
da situação que os oprimiu, tendem a transformar a visão que dela têm, instalam -se na
resignação e na passividade, modificam a sua relação com as normas, tornam -se indiferentes
aos pensamentos e reacções dos outros. Instalados na pobreza, os seus modos de existência
são um exemplo vivo de retraimento social, de isolamento, de falta de domínio e de controlo
sobre os acontecimentos da vida. Acabaram por interiorizar uma ati tude fatalista acerca da
situação na qual se encontram, ora considerando -se vítimas do sistema, ora vendo-se como
totalmente responsáveis pelo que lhes acontece. Aprenderam a adquirir referências mais ou
menos desviantes e desestruturadoras, ao mesmo tempo que evitam relacionar -se com
pessoas cujas vidas mais organizadas lhes proporcionariam referências distintas. Recorrem a
racionalizações que não deixam de significar que se desvalorizam a si próprios.


   
   
Centrando-nos agora no obje cto essencial do projecto que estamos a apresentar, o de
conceber e testar metodologias de intervenção sustentadas por um diagnóstico dos problemas,
é altura de assinalar que, pelo facto de estar subordinada à produção de mudanças relevantes
a respeito da vulnerabilidade social dos indivíduos, a análise deve ser conduzida numa
perspectiva de pesquisa operacional. Distingue -se, pois, sensivelmente da investigação
fundamental, embora utilize os seus instrumentos e resultados.
Nesta perspectiva de investigaçã o operacional, em que a construção do objecto é função
dos problemas a tratar, a análise deve desembocar na identificação das possibilidades de
mudança, com destaque para os processos estruturais intangíveis e os factores sobre os quais
é possível agir.
E porque se trata de uma investigação orientada para a superação de problemas, é
indispensável que ela seja capaz de fornecer igualmente indicações sobre os modos de
intervenção encaráveis e sobre as acções a empreender. Em suma, as hipóteses teóricas que

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fundam a análise devem permitir elaborar as hipóteses operacionais que servirão de base às
práticas de mudança.
A ciência fornece-nos conhecimentos relevantes para perceber porque é que a pobreza
acontece, assim como nos fornece elementos significativos ace rca dos seus efeitos na vida
psicológica e social dos indivíduos. Apesar destes saberes, as políticas e medidas que, até à
data, têm sido postas em prática têm sido manifestamente inoperantes, seja porque não são
coerentes com análises cientificamente váli das, seja porque não existe vontade política para
combater este problema social, seja, ainda, porque a utilização do conhecimento científico
disponível na produção da mudança social é uma prática particularmente difícil e ainda
incipiente.
Traduzir o conhecimento científico em programas de acção é uma prática necessária,
desde logo para alterar as condutas dos agentes sociais que, nas mais variadas instituições,
contribuem para que a pobreza se torne um fenómeno estrutural .
Traduzir o conhecimento científ ico em programas de acção é uma prática muito
exigente, desde logo porque implica a sua apropriação por outros agentes sociais que não
exclusivamente os investigadores profissionais, envolve a saída do conhecimento do círculo
restrito dos académicos, assim como implica criar interacções que suscitem a partilha do
conhecimento científico por um conjunto alargado de agentes sociais, com a tenacidade
necessária para desalojar modos de ver, analisar e pensar instituídos e muito resistentes à
apropriação de leit uras científicas do fenómeno pobreza. É ainda uma prática muito exigente
porque envolve o confronto não só com visões do mundo solidamente estabelecidas mas
também com interesses instalados.
Em suma, trataremos de descrever os modos de intervir concebidos no âmbito desta
associação como instrumentos capazes de reverter, quer a perpetuação desta pobreza numa
dada geração, quer a sua reprodução na geração seguinte.

"   


 
     
   )
 
'
 
  *


Assim, consideramos pertinente começar por reter que o programa de intervenção que
pretendemos testar assenta num conjunto de pressupostos teóricos nucleares quer para a sua
concepção, quer para a sua operacionalização. Destacamos, em primeiro lugar , a ruptura com
todo o tipo de explicação que remeta para os excluídos a culpa da sua própria exclusão, que
lhes devolva a ideia de que são os únicos responsáveis pelo seu destino, que os leve a pensar
que a situação vivida é fruto das suas própria escolha s. A relação que procuramos construir
com as pessoas inspira-se num ponto de vista teórico que apreende a pobreza como o
resultado de forças a que os indivíduos não têm oportunidade de resistir, controlar e, menos
ainda, escapar. Em termos mais concretos, tem como suporte teórico uma abordagem que não

c c
descarta a influência dos factores macro -estruturais, responsáveis pela produção e reprodução
das desigualdades sociais, mas que, igualmente, assume os efeitos das interacções,
designadamente entre técnicos e beneficiários, na degradação moral dos indivíduos e na
precipitação definitiva na condição de pobres.
No seguimento das análises de notáveis sociólogos como Pierre Bourdieu, Norbert Elias,
Giddens, retemos que cada homem singular, sendo diferente de todos os outros, traz em si o
hábito de um grupo 41, é ao mesmo tempo um ser individual e social, que a sua identidade
individual só existe através da identidade com um ³nós´, identidade que, por seu turno, não tem
um carácter estático. Desses autores retiramos a tese que, para compreender o problema da
identidade individual ao longo da vida, é indispensável ter em conta a natureza processual do
ser humano, que a construção da identidade é um processo evolutivo contínuo, segundo uma
sucessão de fases que podem variar em função da diversidade dos contextos sociais a que o
indivíduo acede. Não existe, nesse sentido, apenas um caminho para estruturar a
personalidade, o que diverge, aliás, do evolucionismo, quase natural, que está presente na
abordagem psicológica do d esenvolvimento humano. A noção do indivíduo como um ser que
existe e decide em absoluta independência dos outros, como ser inteiramente livre, como
personalidade fechada e inteiramente autónoma, assenta numa confusão que remete para a
ideia de que existe u ma barreira entre o que está dentro e fora de cada um.
Desses mesmos autores apreendemos, igualmente, a ideia de que a sociedade está
longe de ser uma entidade orgânica supra individual, que o mesmo é dizer, uma realidade
particular que existe fora e par a além dos indivíduos, os quais têm escasso ou nulo poder para
a transformar. Apreendemos que as estruturas individuais e as estruturas sociais estão longe
de constituir dois objectos que existem separadamente, mas que são aspectos diferentes e
inseparáveis dos mesmos homens, que o comportamento do indivíduo é, sim, função e
manifestação da sua relação com os outros. É através do relacionamento com os pensamentos
dos outros que o indivíduo desenvolve convicções, afectos, necessidades, marcas
características que representam a sua personalidade, o seu verdadeiro ³si mesmo´, num
entrelaçamento constante de relações, isto é, que se constrói como individualidade.
Dos autores acima referidos retemos, finalmente, uma outra ideia de capital importância
para conceber um modelo de intervenção capaz de forjar caminhos de superação e que remete
para a percepção que os indivíduos submetidos à pobreza constroem a respeito de si próprios.
Fornecem-nos uma explicação sociológica que nos permite compreender porque é que as
antíteses entre ³interior´ e ³exterior´, tal como entre ³natural´ e ³socialmente condicionado´,
estão profundamente enraizadas no pensamento e na consciência dos indivíduos, levando -os a
acreditar que tudo o que sentem o devem unicamente a si próprios, à sua ³natureza´ e a mais
ninguém. Porque é que a dependência natural de um ser humano face a outros, a orientação
natural das funções psíquicas para as relações é um fenómeno tão difícil de captar e de ser

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41
Elias, N., + 4, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2004 (2ªed.), pág. 205.

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assumido pelos seres humanos individuais? A resposta a vançada é que essa percepção é
resultado do próprio processo histórico que conduziu à ascensão de modos de socialização
que libertaram o indivíduo da submissão aos laços tradicionais e sobre ele remeteram toda a
responsabilidade da entrada e adaptação aos meios sociais distintos do familiar. O ser humano
deixou de se poder pensar a si próprio em função dos outros e passou a contemplar o mundo
como realidade exterior, deixou de lhe ser possível ver -se a si mesmo no contexto global de
uma teia humana em movim ento.
Do posicionamento teórico acima sintetizado e assumido, decorre que a nossa
intervenção elege como missão principal, não somente a luta pela obtenção de recursos
necessários para ampliar as oportunidades dos indivíduos, mas, também, com estes
estabelecer uma relação, que se pode considerar simultaneamente terapêutica e educativa.
Sem a interacção dessas duas condições nem será possível desencadear as mudanças
internas indispensáveis à formação de uma consciência crítica a respeito dos processos sociais
que constrangem a vida, nem adoptar práticas mais compatíveis com a inclusão.
Daí que a relação a estabelecer com os beneficiários constitua uma das ferramentas
mais decisivas para atingir esse objectivo, mais ou menos longínquo, que é a inclusão social.
Investir na relação com as pessoas é uma necessidade imperiosa para inverter os processos
de ³mortificação do eu´ e favorecer a reconstrução da história pessoal em termos que, embora
sem cair na desresponsabilização, possam libertar o indivíduo de sentimentos de inferioridade
e de descrença. Por isso, se aposta em transmitir, com a clareza possível, e sempre que
necessário, que o tipo de intervenção a que nos propomos nada tem a ver com sentimentos de
misericórdia ou compaixão. Longe disso, tratar a s pessoas como sujeitos de direitos e de
deveres obriga a que nos assumamos como agentes facilitadores da apropriação de uma
leitura crítica sobre os funcionamentos sociais que induzem a pobreza e determinam a
construção do indivíduo, ou seja, trabalhar pa ra que se apropriem de saberes e de um tipo de
formação que, algum dia, lhes permita negociar e contestar os rótulos que sobre eles recaem.
A relação que queremos testar implica, pois, que se adopte uma atitude compreensiva,
no sentido que este termo assum e na corrente sociológica de matriz weberiana, que o mesmo
é dizer uma ruptura epistemológica com os estereótipos que levam a catalogar todo e qualquer
comportamento do pobre como evidência de falhas de carácter e a tratá -lo com a dureza e a
falta de consideração que se destinam aos que se afastam da norma. A relação que
pretendemos estabelecer envolve um longo processo de intermediação em que o essencial do
papel que queremos assumir se prende com a facilitação do conhecimento dos
constrangimentos objectiv os que presidem à organização social, nos seus diversos contextos
ou campos, de forma a que os indivíduos possam efectivamente escolher, decidir o que mais e
melhor lhes convém. Romper com o relacionamento unilateral que remete para os
responsáveis institucionais o poder de impor aos que precisam das parcas ajudas financeiras
para sobreviver, impondo -lhes tarefas em cuja escolha não participaram, nem, tão pouco, cujo

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valor para a vida lhes foi demonstrado, é um propósito nuclear para arrancar os assistidos à
terrível desvalorização simbólica e à desconsideração social a que estão sujeitos.
Arrancar os indivíduos à desvalorização simbólica, aos sentimentos de inferioridade e
de culpa pela situação em que se encontram é, quanto a nós, uma condição necessária para
desencadear a tomada de consciência dos caminhos, embora estreitos e dolorosos, que
podem conduzir a alguma libertação. As teses que assinalaram a emergência de uma cultura
de pobreza, germinada a partir de condições de vida destruidoras de qualquer e sperança de
algum dia poder sair da situação, são um instrumento de trabalho precioso para não cair na
armadilha de interpretar as manifestações dessa cultura como causa da pobreza. É uma
ferramenta decisiva para não interpretar a aparente falta de ambição , a aparente aceitação e
falta de esforço para se libertarem da miséria, a aparente falta de motivação para o trabalho, a
aparente resistência a regressar à escola como causas do problema, enfim, o aparente
desinteresse em projectar o futuro. A aparente re signação dos pobres deve ser interpretada
como efeito e não como causa. Um efeito que, é certo, retroage sobre as causas originais e as
reforça, contribuindo para conferir à pobreza o carácter de uma engrenagem muito difícil de
reverter, dada a interacção perniciosa que se estabelece entre causas e efeitos.
Na realidade, o cruzamento das várias perspectivas teóricas que acerca da pobreza
foram produzidas é, na nossa óptica, decisivo para não ceder a simplismos, entre os quais o
que leva a uma visão românti ca ou ingénua acerca dos que se encontram duravelmente
instalados na pobreza. Com efeito, se desse cruzamento de perspectivas teóricas deduzirmos
que certas condições de existência demasiado penosas, não só do ponto de vista da escassez
dos bens materiais mas, também, no que respeita à inexistência de capitais social e simbólico,
podem instalar formas de reacção psicológica e estados de consciência específicos que,
retroagindo sobre os factores externos, acabam por reforçar a sua acção e lhe conferir o
carácter de uma engrenagem que se autoreproduz de geração em geração, não nos
deixaremos prender na tentatação das rotulações.
Se percebermos que a produção de culturas mais ou menos aproximadas do que Oscar
Lewis codificou como 7  78 é uma resultante de um encadeamento severo de
restrições, que as estruturas subjectivas inerentes a esta subcultura não são mais do que
formas de adaptação psicológica a essas circunstâncias francamente penosas, então,
saberemos controlar a tendência para julgar o comportamento dos pobres e com eles
empreender um trabalho de reelaboração das suas próprias racionalizações acerca dos
fracassos vivenciados.
Se é certo que o afastamento, temporário ou definitivo, dos mais desmunidos do
mercado de trabalho e das inst ituições não decorre, em primeira instância, do seu desinteresse
pelos valores da sociedade global, mas antes da consciência que têm da falta de poder e de
instrução para aceder às oportunidades de promoção social e escapar ao destino da exclusão
social, não será menos certo que os mecanismos psicológicos de defesa, que assim se

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instalam, dão lugar a estruturas subjectivas duráveis que podem inviabilizar ou dificultar a
participação em eventuais processos de emancipação social. Por isso, não podemos deixar de
assinalar que a pretensão de com os assistidos estabelecer uma relação emancipadora está
recheada de dificuldades e, não raro, de conflitos que é preciso saber gerir, lançando mão de
um misto de conhecimentos científicos, sensibilidade, maturidade pesso al, implicação cívica e
de posicionamento político a respeito da produção de desigualdades.
Se tivermos em conta, como, aliás, importantes estudiosos do fenómeno analisaram,
que os efeitos mais profundamente disruptores da pobreza se prendem mais com a pri vação
relacional e simbólica do que com a material, ou, seja, com o modo como a pobreza é
construída numa sociedade movida por valores consumistas, logo compreenderemos que o
investimento na reconstituição de um tecido relacional mais heterogéneo e estrutu rado por
relações que devolvam o sentimento da dignidade e do valor próprio se configura como um
caminho incontornável para gerar a reconstrução do 742 que o mesmo é dizer, do
sistema de esquemas lógicos e princípios que fazem parte da cultura e orie ntam as escolhas
dos indivíduos cujas vidas foram devastadas pela pobreza.
E é porque o 7 constitui uma matriz de percepção e de atribuição de sentido que
é incarnada sob a forma de disposições permanentes 43, apesar de constituir um capital
incorporado que nada deve a determinantes inatos, que a relação a estabelecer com aqueles
cuja vivência prolongada da pobreza instalou estruturas subjectivas de adaptação se reveste
de grande complexidade e de inúmeras dificuldades. Se sabemos que as estruturas ment ais
que se desenvolvem no interior dos indivíduos são inseparáveis das estruturas objectivas, que
são o produto da incorporação das estruturas sociais cuja génese é produto de lutas históricas
que conduzem à distribuição de indivíduos e grupos no espaço so cial44, não ignoraremos a
necessidade de tomar posição contra a ideia profundamente instalada nos próprios pobres de
que são as suas capacidades e as suas escolhas a causa primordial da sua situação.
Dessa leitura sociológica das práticas retiramos que o pr incipal princípio orientador da
intervenção deverá passar por um trabalho de partilha de saberes que, à maneira do que
propõe Paulo Freire, restitua aos pobres a capacidade de desmontar os mecanismos,
incessantemente ocultados, que estão na base da exclusã o moderna, não somente devido à
acção de forças externas, como ao modo como os próprios se adaptam às privações.
Interessa, muito em particular, construir com as pessoas uma análise sobre a pobreza e os
possíveis caminhos que, embora limitados, podem const ituir alguma (re)conquista da dignidade
perdida ou nunca alcançada. Entender com a profundidade possível, o que gera o desemprego

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42
Bourdieu, P., jParis, Editions de Minuit, 1984 pp. 133-136.
43
Ou seja, é um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas,
funciona em cada momento como uma matriz de percepções, apreciações e acções e torna possível cumprir tarefas
infinitamente diferenciadas, graças à transferência analógica de esquemas adquiridos numa prática anterior Pierre
Bourdieu, P., '7    6  9 : 7 Oeiras, Celta, 1972 e
2002.
44
Bourdieu, P.,  ; Loic Wacquant, «Esclarecer o habitus» in  ,  ;  o nº
14, 2004; Bourdieu, P.,  &Paris, Éditions de Minuit, 1987, pág. 25

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e a pobreza, assim como desconstruir os discursos correntes que a seu respeito são
veiculados é, de certo, um caminho que inte ressa percorrer com os cidadãos que usufruem da
medida, se compreendemos que a sua emancipação social requer a demonstração inequívoca
da sua capacidade de negociar rótulos. Não serve, contudo, esta perspectiva para facilmente
tudo remeter para a acção dos mais poderosos e conduzir à desresponsabilização absoluta
dos indivíduos. O trabalho de conscientização, para retomarmos uma expressão de Paulo
Freire, é, na nossa leitura, uma condição necessária para libertar a relação entre técnicos e
beneficiários de inquinações românticas, paternalistas ou moralistas, entre outras, que acabam
por conduzir à reprodução da situação. Percorrer com as pessoas a análise dos factores
estruturais que não podemos mudar a curto ou a médio prazo, sobretudo, que não podemos
mudar se não houver uma acção colectiva consistente capaz de formular os problemas e de
reivindicar alternativas, assim como com elas percorrer a análise dos constrangimentos que
podemos alterar é uma componente forte do modelo de intervenção que pretendemos
implementar e testar.
De registar que os domínios nucleares desse trabalho de reconstrução do mundo são
precisamente os que se prendem com o trabalho e o emprego, com o funcionamento da
economia e do sistema político, pelo menos no que diz respeito à regula ção das relações de
poder entre classes sociais. E isto porque consideramos de grande relevância com esses
beneficiários fazer a ruptura com as declarações vazias ou hipócritas que apontam a ética do
trabalho como remédio eficaz e indispensável frente à am eaça da pobreza. Mais, para que
aconteça uma libertação dos rótulos que pesadamente corroem a auto imagem é crucial
desmonstar os motivos que estão por trás da ideia de que é necessário reduzir ao mínimo as
condições oferecidas pela medida, sob pena de os indivíduos se instalarem na dependência de
subsídios, aliás, solidamente instalada na opinião pública. Como crucial é romper com o
pressuposto de que os pobres não estão em condições de dirigir a sua própria vida e de que
alguém o terá que fazer por eles, tal como há que desconstruir os discursos e desvendar a
natureza das práticas que actualmente sustentam a retirada do Estado benfeitor. Se a única
escolha que a sabedoria económica actual oferece aos governos é optar entre um crescimento
veloz do desemprego, como na Europa, ou por uma queda, ainda mais veloz, dos rendimentos
das classes baixas, como nos Estados Unidos, que lugar poderão ocupar aqueles que se
tornaram excedentários, que o mesmo é dizer, inúteis?
Prosseguindo o exercício de tradução da teoria sociológica em programa de acção,
retemos o conceito de 7 como um elemento de análise que releva as possibilidades de
acção libertadora em relação aos determinismos sociais que, por seu turno, tornaram possível
uma maneira particular de ser ou de fazer. Interessa -nos, em especial, explorar possibilidades

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de desencadear um processo de ampliação, que, muitas vezes, poderá ser de reformulação,
de padrões de sentido ausentes no meio social de que são originários os indi víduos45.
Da leitura crítica de Bernard Lahire acerca da abordagem do 7 por Pierre
Bourdieu consideramos que vale a pena reter algumas reflexões que encaramos como
susceptíveis de enriquecer as potencialidades operacionais do conceito e gerar acções
46
transformadoras . Diz este autor que as pesquisas empíricas deveriam permitir precisar as
diferentes maneiras de incorporar o 7 e, muito em especial, pesquisar as situações em
que o princípio da ³necessidade feita virtude´ 47 não se verifica ou não s e verifica plenamente.
Do seu ponto de vista, é pertinente o desenvolvimento de protocolos de investigação
concebidos para o estudo dos condicionantes que permitem desinstalar o amor do necessário,
ou seja, o amor àquilo a que não podemos escapar, essa rel ação encantada com o mundo que
impede de considerar que as coisas poderiam ser de outra maneira ou que outras escolhas
pudessem ser feitas. Lahire aponta pistas que parecem pertinentes para empreender um tal
trabalho, desde logo por considerar que a integr ação dos elementos da identidade do indivíduo
nem sempre é harmoniosa e sem conflitos e por, igualmente, atribuir aos conflitos
intrapsíquicos uma fonte importante da mudança do 7 . Os conflitos intrapsíquicos são
uma componente tão central como a bus ca da coerência e da integração.
Ora, o que a observação, já relativamente prolongada das reacções de muitos dos
indivíduos com quem nos comprometemos na concretização de um projecto de inserção, nos
vai deixando captar é a abertura à mudança de atitudes e condutas que, à primeira vista,
poderíamos pensar impossíveis de alterar. Permite constatar que a interacção em torno de
actividades que as pessoas vivenciam como enriquecedoras do seu quotidiano e como
oportunidade de aceder a relações de genuíno respei to e implicação na sua valorização gera,
em muitos casos, uma adesão, que se vai tornando progressivamente mais sólida, à ideia de
que vale a pena começar a dar passos no sentido de desenvolver iniciativas que aumentem as
probabilidades de melhorar a sua s ituação. Uma adesão que chega a ser comovente tal o
esforço empreendido e a alegria que irrompe em momentos de descoberta de mundos e de
capacidades jamais sonhados.
Sem negar que algumas pessoas se revelam resistentes e imunes à transformação das
práticas quotidianas e dos modos de vida, a experimentação que, ao longo de cinco anos,
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45
N. Elias fala das dificuldades de adquirir novos hábitos adequados às transformações sociais que confrontam os
seres individuais com a necessidade de se libertarem do hábito social da fase anterior. A transformação do hábito
social dos indivíduos é sempre um processo extremamente lento, uma vez que as estruturas da personalidade social
dos homens isolados, designadamente as imagens do ³eu´ e do ³nós´, são bastante duradouras e resistentesÔ
Resistem às inovações múltiplas requeridas pela passagem para um novo nível de integração. A pressão dum
hábito social surge a muitos homens como uma realidade tão poderosa e inevitável que acabam por aceitá-la como
um facto da natureza, como algo tão evidente como o nascimento e a morte.
46
Lahire, B., ³De la théorie de l¶habitus à une sociologia psychologique´, inLahire, B. 8dir.), o  
 10<, Éditions La Découverte, Paris, 1999, p.121-152.
c
47
Pierre Bourdieu fala do ³habitus como necessidade tornada virtude´ in Bourdieu, P., o &0 
=Paris, Editions de Minuit, 1979, p. 433.

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temos vindo a concretizar permite -nos pensar que o constrangimento cultural de partida não
está, em muitos casos, completamente interiorizado. A criação de contextos de social ização,
ao mesmo tempo desafiadores e securizantes, torna evidente que muitas atitudes e práticas de
que os indivíduos são portadores são mais desencadeadas por obrigação, rotina não
consciente, por defesa ou hábito, do que por adesão interior profunda e c onvicta. A simples
saída do contexto residencial e do quadro relacional restrito e restritivo que lhe está associado,
em que a força das categorias de apreensão do mundo deriva, desde logo, da necessidade de
não ser hostilizado pelos pares, constitui uma c ondição necessária para instalar o que Peter
Berger e Thomas Luckmann chamam ³aparelho de conversa´ ou ³estrutura de plausibilidade´,
que o mesmo é dizer, um espaço relacional estruturado por um investimento colectivo intenso
na reflexão sobre os constrangimentos do mundo, como estes pesaram sobre os modos de
sentir, pensar e agir, bem como sobre os próprios percursos pessoais. A concretização desse
³aparelho de conversa´, num ambiente que incorpora a demonstração de uma inequívoca
tomada de posição a favor da sua luta, cria oportunidades de colectivamente se irem
distanciando do constrangimento cultural de partida, o que é perfeitamente visível no
entusiasmo que revelam a respeito da continuidade da formação, quando começam a descobrir
que possuem capacidades e que o conhecimento está ao seu alcance. Na realidade, por via da
sua ocupação diária em actividades de formação surgem inúmeras situações, umas
expressamente programadas, outras inesperadas, que suscitam a análise e a reflexão, sempre
numa perspectiva de alargamento do campo de significações. A manifestação de entusiasmo
em relação ao prosseguimento dos estudos, etapa após etapa, as transformações na
apresentação de si próprios, por meio do recurso aos cuidados de saúde que conseguimos
ampliar graças a um forte investimento na contratualização de serviços com entidades privadas
e públicas, em especial na especialidade de estomatologia, o interesse demonstrado na
participação em recitais de poesia, designadamente a disponibilidade e empenho para
trabalhar como o profissional de teatro que os prepara nessa exigente tarefa que é recitar
poesia, a visível transformação da escolha do vestuário, o apreço que manifestam por se
aperceberem de que com eles trabalhamos por gosto mais do que para cumprir uma obriga ção
formal, tudo isso nos indica que os contextos de interacção social podem inibir ou desactivar
disposições anteriormente instaladas.
Mais, o facto de as suas vidas haverem, desde muito cedo, sido constrangidas por
condições francamente penosas, de conh ecerem uma grande parte da pluralidade de facetas
que o sofrimento pode assumir, permite pensar, no seguimento, aliás, de Berger e Luckmann,
que as interiorizações originais não têm a consistência pesada que têm aquelas que são
adquiridas em contextos de r elacionamento afectivo muito mais seguro e liberto de
ambivalências. Se é verdade que a mudança das práticas, indispensável para gerar a mudança
do habitus, é um processo demorado e recheado de conflitos, tanto mais inevitáveis quanto os
modos de relacionamento e as actividades que lhes propomos se revelam estranhas à luz do

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seu universo de significações, não é menos verdade que muitos, aqueles que de si próprios
preservaram alguma parte positiva, retiram dessas interacções quotidianas desafiadoras e, ao
mesmo tempo protectoras, a confiança indispensável para começarem a investir em si próprios
e a superar a tendência para interiorizar o fracasso.
Nesse processo relacional necessariamente longo, dado o ponto de partida dos
indivíduos, vai-se tornando perceptível que é possível gerar oportunidades de aquisição de
novas disposições facilitadoras do acesso a meios sociais decisivos para a inclusão, se parte
significativa das suas vidas transitar para contextos de relacionamento e interacção social
apostados na reparação dos choques biográficos resultantes da desvalorização e
estigmatização dos seus meios de origem. Vai -se, igualmente, tornando perceptível que a
reparação desses choques biográficos depende da reunião de um conjunto de condições de
que começamos por destacar a constituição de uma instituição mediadora, equivalente a uma
estrutura de plausibilidade ou a um laboratório de transformação, para utilizar as próprias
palavras de Berger e Luckmann. Trata -se de uma estrutura cujo papel primordial é assegurar a
conservação de uma parte da identidade antiga, à medida que se estimula o processo de
identificação com outros novos significativos percepcionados como legítimos. Uma outra
função que deve ser assegurada por essa estrutura de plausibilidade é a instituc ionalização do
que os autores chamam aparelho de conversa, o que equivale a investir numa acção contínua
em torno da interpretação, análise e reflexão sobre os modos de percepcionar, avaliar e
classificar a realidade. Trata -se de um trabalho de transformaç ão do mundo vivido (a realidade
subjectiva) por via da modificação da linguagem, o que, no caso dos adultos que formam o
nosso grupo de estudo/experimentação, envolve, acima de tudo, uma ampliação considerável
dos temas susceptíveis de serem conversados, uma orientação do olhar para facetas nunca
observadas, nem pressentidas, envolve, enfim, uma diversificação e alargamento das
realidades concretas que povoam o mundo exterior e interior.
Esse processo de transformação parcial da identidade, a que os auto res já mencionados
chamam alternações, só será exequível se forem accionados procedimentos pesados de
socialização, com características que, por vezes, se aproximam da psico terapia 48. Por outras
palavras, não será possível sem uma articulação duradoura ent re um aparelho de legitimação e
uma reinterpretação da biografia passada, que o mesmo é dizer, um trabalho biográfico de
redefinição dos acontecimentos passados.
Em suma, o recurso a estes relevantes instrumentos teóricos na condução da relação
que pretendemos estabelecer com os cidadãos que usufruem do RSI é crucial para romper
com o determinismo fatalista que   postula a impossibilidade da transformação e serve de
justificação para admitir como inúteis todos e quaisquer esforços que possam ser inve stidos na

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48
Os autores assinalam dois outros exemplos típicos da alternação, exigindo procedimentos pesados de
socialização secundária: o endoutrinamento político e a conversão religiosa.Cfr. Berger, P., Luckmann, T., +
  ,  , Petrópolis, Vozes, 1996.
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relação com as pessoas, assim como na angariação de recursos adequados à grandeza e
gravidade dos problemas que os afectam. É igualmente crucial para compreender que, embora
não ocorra por geração espontânea, a transformação interna dos indivíduo s é possível.
Por tudo o que acima se explanou atribuímos grande importância à criação de
condições externas que despertem a capacidade e a vontade de reagir à exclusão, seja por via
da criação de um universo relacional que represente uma inequívova valorização simbólica,
seja pelas oportunidades de aceder a modalidades de formação efectivamente organizadas
para desencadear o empenho na aquisição de saberes e competências socialmente
valorizados e que, mesmo que incapazes de gerar o acesso ao emprego remunerado, possam
fornecer saberes rentabilizáveis em actividades úteis à comunidade.
Há que agir no sentido de que os pobres possam unir os seus sofrimentos numa causa
comum, deixem de viver os seus dramas em solidão, ocupem um lugar visível na sociedade
pelo seu envolvimento em actividades que suscitem a empatia e o respeito da comunidade e,
assim, passem a vislumbrar alguma forma de se libertarem da degradação moral a que são
lançados. Queremos com eles reescrever a história de modo a que a pri vação passe a ser
construída pelos próprios como motivo de afirmação, não de depravação, de modo a que a
suspeição que sobre eles recai seja, pelos próprios, apercebida como sinal de indiferença
moral da comunidade envolvente. Pretendemos com eles desconst ruir a ideia de que a
pobreza é, antes de tudo, e talvez unicamente, uma questão de lei e de ordem, que deveria ser
combatida do mesmo modo que se combate qualquer outro tipo de delito. Com eles queremos
desenvolver uma reflexão consistente em torno de cer tas interrogações que consideramos
cruciais para poder sobreviver psicologicamente às terríveis privações. O que é o crescimento
económico, a quem serve, quais os seus custos e onde nos permite chegar, eis um conjunto de
questões que, a nosso ver, devem es truturar a interacção que consideramos pertinente
estabelecer com os cidadãos em causa.
Faz todo o sentido, quanto a nós, exactamente nos termos em que falam Claus Offe e
Zigmunt Bauman, considerar a ideia de que o direito ao rendimento individual pode ser
dissociado da capacidade real de obter este rendimento, desde logo porque na sociedade em
que vivemos o objectivo do pleno emprego deixou de ser realista e porque a velha ética do
trabalho que faz depender a obtenção do rendimento do acesso ao trabalho as salariado deixou
de estar acessível aos muitos cidadãos remetidos para a categoria de excedentários. Como,
continuando a partilhar as ideias dos autores antes referidos, faz todo o sentido, pese embora a
recusa de todas as forças políticas, reivindicar o r econhecimento de um direito essencial a uma
garantia básica, ditado pela condição intrínseca e a dignidade de todo o ser humano, o que só
será exequível se a segurança social for financiada com impostos, se forem eliminadas a
investigação de rendimentos e a avaliação da disposição para o trabalho, substituindo
gradualmente o princípio de equivalência pelo da necessidade. Faz todo o sentido, ainda,
dissociar o trabalho do mercado de trabalho, que o mesmo é dizer, considerar que há mais

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trabalho do que o trab alho remunerado. Desde que as actividades necessárias para a vida
familiar e da comunidade deixaram de ser consideradas trabalho e, logo, se tornaram
economicamente invisíveis, ficar fora do mercado laboral, realizando tarefas invendíveis,
passou a significar o mesmo que estar desempregado. Essa identificação estrita do trabalho
com a actividade remunerada, que equivale a desvalorizar todo e qualquer tipo de actividade
exercida à margem do mercado, constitui uma grave erosão das relações humanas e de todo o
vínculo moral entre as pessoas, o que só pode contribuir para a dissolução, gradual mas
implacável, da coesão social.
A emancipação do trabalho em relação ao mercado exigiria que a ética do trabalho que
foi moldada em favor do mercado de trabalho viesse a ser substituída por uma outra ética, a do
trabalho bem realizado. Mas, para isso, é preciso romper com o pressuposto que leva a pensar
que, caso não fossemos pagos, preferiríamos permanecer ociosos. Como muito
pertinentemente, a nosso ver, observam esses autores, à diferença da ética do trabalho, que é
uma invenção moderna, a predisposição da espécie humana para a invenção e a criação
constitui um invariante antropológico que só por imposição arbitrária pode ser circunscrito ao
trabalho vendível. Sugerir que sem pagamento preferiríamos permanecer ociosos e deixar que
a nossa capacidade e a nossa imaginação apodreçam e se dissipem equivale a mutilar o
potencial humano. Só uma ética do trabalho bem realizado poderia devolver ao ser humano as
possibilidades de actualizar o potencial de desenvolvimento intelectual com que é
geneticamente apetrechado, e assim restaurar a dignidade que a ética do trabalho, nascida na
moderna sociedade capitalista, negou a muitos.
Por muito tentados que sejamos a considerar como utopia a dissociação do direito a um
rendimento da capacidade de o obter, isto é a separar o trabalho do mercado de trabalho, por
muito que estejamos seguros de que uma economia que não seja escrava do mercado é uma
incongruência e que a desigualdade cresc ente não pode ser travada, por muito que estejamos
convictos que a eficiência é sempre boa, sem interrogar as suas consequências sobre o
sofrimento humano, por muito que aquilo a que se chama ³crescimento económico´, que
estatisticamente se pode definir co mo ³mais hoje que ontem, mais amanhã do que hoje ´, seja
considerado bom em si mesmo, certo é que as pessoas contam cada vez menos .

Assim, tendo em conta as várias dimensões da exclusão, económica, social e simbólica


e sabendo que está fora do nosso alca nce interromper todas as dinâmicas, lógicas e processos
responsáveis pela actual inutilidade económica de muitos cidadãos, elegemos as qualificações
académicas e profissionais como objecto nuclear da intervenção, assumindo que se estas não
são condição suficiente para o acesso ao emprego e à autonomia, não deixam de constituir
uma condição necessária da dignidade e da inclusão económica e social.


 
    
           


  
 
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É essa certeza que nos leva a eleger a formação dos indivíduos como um domínio central
do projecto de inserção que deve ser contratualizado entre os beneficiários do RSI e os
serviços de protecção social. A questão está longe de ser simples já que são escassas as
oportunidades de estes beneficiários voltarem à formação e de, por esta via, se apoderarem de
um trunfo efectivo para a vida profissional. Para ampliar estas oportunidades, a Associação
Qualificar para Incluir trabalha arduamente na estruturação de uma rede de instit uições de
ensino e de formação profissional segundo uma perspectiva de inovação, em clara ruptura com
certos procedimentos burocráticos responsáveis pela exclusão escolar de muitos indivíduos.
Procura construir com essas organizações um consenso, progressi vamente mais sólido, acerca
das razões que estão na origem da relação negativa que a escola mantém com estes
indivíduos, assim como a respeito da organização dos programas formativos e dos métodos de
ensino mais adequados ao universo cultural dos formandos . Aos dirigentes das escolas e
centros de formação, que procuramos seleccionar em função das tendências da procura no
mercado de trabalho, propomos a partilha das análises críticas que atribuem ao funcionamento
das instituições de ensino, designadamente às concepções pedagógicas que ignoram os
determinantes sócio culturais da aprendizagem, uma responsabilidade no abandono e
insucesso escolares. A revisão das teses que analisam as oportunidades de acesso à
educação formal como consequência das relações, muit as vezes conflituais e contraditórias,
entre o sistema de ensino e os sistemas familiar e económico, é fundamental para a
demonstração de que muito do mal - estar que hoje se vive na escola deriva do seu próprio
funcionamento interno, em consequência da as sumpção de definições excessivamente
burocráticas do papel de aluno e de professor, assim como de definições excessivamente
redutoras do que é ensinar e aprender.
Mas, sublinhe-se, as propostas que lhes fazemos no sentido da necessária reformulação
das práticas pedagógicas nada têm a ver com a apologia da redução da qualidade e da
exigência do ensino, o que, apesar de ser uma tendência fortemente instalada nas instituições
de ensino portuguesas, constitui, a nosso ver, uma forma de eliminação das mais perv ersas.
Uma das maiores dificuldades no que respeita à ampliação das oportunidades destes
indivíduos é convencer os dirigentes e profissionais das instituições de ensino a abrirem -se à
experimentação de modalidades de ensino ± aprendizagem, não somente adeq uadas à cultura
em que os formandos foram inicialmente socializados, mas que, igualmente, assumam
conhecimentos teóricos relevantes sobre o fenómeno da aprendizagem, muito em especial
sobre a aprendizagem de competências. Reunir as condições adequadas para que o saber
passe a estar ao alcance destes indivíduos, que desde muito cedo viveram a escola como um
meio estranho e desinteressante, passa pelo investimento incansável na alteração das
representações correntes dos agentes de ensino a respeito do trabalh o pedagógico, bem como
das dos próprios indivíduos que regressam à formação. Quem, como nós, não se limita a
encaminhar as pessoas para as escolas e centros de formação profissional, nem se demite de

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acompanhar o processo formativo dia após dia, de escutar as dificuldades, as frustrações, os
desânimos e as alegrias dos indivíduos que aceitam a formação como parte do seu projecto de
inserção, sabe que os obstáculos são poderosos. Quem, como nós, acompanha diariamente os
formandos no próprio contexto de forma ção pode observar como é difícil para os formadores
compreender os problemas, os modos de pensar, de ser e de fazer destes formandos. Pode,
por exemplo, constatar a dificuldade dos formadores em perceber que por trás da recusa em
responder a um teste escri to está, frequentemente, a vergonha de mostrar que não se sabe ler,
nem escrever. Que, por trás da expressão da vontade de desistir está a dificuldade em
acompanhar as matérias, ao ritmo que os formadores imprimem, assim como a dificuldade e a
vergonha de formular as dúvidas e as incompreensões. Que a perda da coragem para
prosseguir no processo formativo pode esconder a falta de convicção acerca do valor do que
se está a aprender, o pouco interesse e relevância de certas matérias e dos modos de as
transmitir. Quem, como nós, está quotidianamente na sala de aula e observa, em directo, os
conteúdos seleccionados, os modos de os tratar, a interacção entre formadores e formandos,
os seus processos de comunicação, o próprio valor que os docentes atribuem ao
conhecimento, constatará, com mais frequência do que se desejaria, a prevalência de práticas
que destroem o interesse pelo conhecimento, anulam a criatividade e a inteligência dos
aprendizes, induzem processos de verdadeiro desfasamento entre as representações da
realidade e a própria realidade.
A nossa relação directa com estes contextos institucionais, tornada possível pelo
estabelecimento de protocolos de cooperação com algumas instituições escolares e de
formação profissional, permite -nos observar numerosos exemplos ilustrativos de como e
quanto a relação dos formadores com o saber e o conhecimento, em geral, está impregnada de
artificialidade. Igualmente nos permite constatar que não são muitos os docentes preparados
para accionar os conhecimentos na resolução de problemas em contextos da vida real e
abertos à reflexão e inovação pedagógicas. Cabe registar que, no caso dos ³beneficiários´ em
questão, a escola não representou uma oportunidade para adquirirem saberes básicos, tais
como falar com fluência, ler, interpretar e escrever, resolver ope rações aritméticas elementares.
Por isso, a tendência para seguir programas estabelecidos sem ter em conta pré -requisitos
indispensáveis para que os seus conteúdos sejam apreendidos se revela um obstáculo real à
aquisição dos conhecimentos. É por isso de capital importância repor as aprendizagens
basilares de que decorrem outras de nível mais elevado, assim como é crucial abandonar
programas estereotipados ou concebidos sem tomar em consideração as aprendizagens
prévias e a realidade social e cultural dos alunos. A posição de interventores no espaço
escolar, na qualidade de participantes da equipa pedagógica afecta a cada turma, permite -nos
destacar um outro mecanismo conducente à exclusão do acesso à cultura e ao conhecimento:
a banalização do trabalho esc olar e a concessão de certificados que não correspondem a reais
aprendizagens.

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Apesar de os protocolos entre a Associação QpI e as escolas e centros de formação
profissional conterem compromissos explícitos a respeito da reflexão, planeamento conjunto
dos conteúdos e formas de avaliação, bem como a respeito da constante análise dos
resultados, um dos ³combates´ mais difíceis de travar no seio das equipas prende -se
precisamente com a oposição que movemos à prática de não implementar processos de real
avaliação dos conhecimentos apropriados pelos alunos. Quer no caso dos adultos, quer dos
jovens inscritos em cursos de formação profissional, o ³combate´ às ideias e às práticas que
iludem os excluídos, fazendo -os crer que o diploma tem um valor, independentemen te das
aprendizagens realizadas e que este está garantido pela simples inscrição, constitui, a nosso
ver, uma das intervenções indispensáveis para efectivamente ampliar as suas oportunidades.
A intervenção desenvolvida no domínio da formação dos adultos 49 permite-nos uma
observação fina dos processos que impedem estes indivíduos de terem acesso aos
conhecimentos, económica e socialmente valorizados, assim como nos permite constatar
significativas potencialidades de desenvolvimento cognitivo se os dispositiv os pedagógicos
forem centrados nas pessoas.
Um dos acima referidos obstáculos é precisamente a oferta de formações de baixa
qualidade, numa verdadeira demonstração das baixas expectativas dos formadores acerca dos
formandos e de como as interacções em que os primeiros estão dispostos a envolver -se com
os segundos configuram uma engrenagem que é um impedimento bem objectivo à sua
evolução cultural. Não raro, nos temos deparado com a enorme resistência de certos docentes
em participar empenhadamente na reflex ão sobre conteúdos, práticas pedagógicas e
modalidades de avaliação adequadas ao nível dos conhecimentos e à cultura actual dos
formados. No caso da formação de adultos, é de salientar a resistência de muitos docentes a
utilizar modalidades de avaliação qu antitativa, assim como a tendência para desvirtuar a
função da avaliação enquanto parte integrante do processo de ensino/aprendizagem. Assim
sendo, deparamo -nos com situações em que a certificação do 9º ano de escolaridade é
atribuída a indivíduos que não lêem fluentemente, não interpretam um texto relativamente
simples, não dominam as operações matemáticas elementares, nem conseguem proceder a
cálculos simples como, por exemplo, determinar o custo final de um produto após a dedução
de uma dada percentagem de desconto.
Um outro processo que muito encoraja a desistência e a morte da motivação para
investir na formação remete para a ³terrível´ resistência dos formadores à aprendizagem por

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49
No ano lectivo de 2009-10, a Qpi organizou e acompanhou no terreno a formação de 168 beneficiários adultos,
distribuídos por cursos de alfabetização (44), EFA B2 Geral (41), EFA B3 Instalação e Reparação de Computadores
(16), EFA Secundário Condução de Obra (14), EFA B3 Electricidade (17), EFA B3 Manobrador de Máquinas (11);
EFA B3 Canalizações (11); EFA B3 Cozinha (14) EFA Secundário Electrónica (24). Foram, igualmente, organizados
e acompanhados cursos para jovens (total de 88): Curso profissional de Electrónica, Automação e Comando - 12º
ano (11); Curso profissional de Desenho, Medição e Preparação de Obras, 11º ano (15); curso profissional de
Prevenção, Segurança e Higiene no Trabalho- 11º ano (16); curso profissional de Electrónica ± 10º ano (12 jovens);
Curso Educação Formação de Instalação e Reparação de Computadores ± 9º ano (10 jovens); Curso de Educação
Formação de Desenho Assistido por Computador/Autocad ± 8º ano (14 jovens).

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competências. Se esta afirmação pode, à primeira vista, parecer injusta dada a prevalência da
palavra competência nos textos programáticos da formação de adultos e, igualmente, dada a
formalização de competências nas grelhas de avaliação institucionalmente estabelecidas, certo
é que do conceito de competência é feita uma inte rpretação que desvirtua e banaliza o seu
significado. Por outras palavras, a interpretação que prevalece entre os docentes é que as
competências remetem exclusivamente para o fazer sem qualquer sustentação em
conhecimentos teóricos e processuais.
Quem, como nós, se empenhe em criar as condições objectivas externas, que o
mesmo é dizer, um quadro relacional em que os mais apetrechados se implicam na evolução
daqueles que nem puderam obter conhecimentos fundamentais, nem a força anímica para
acreditarem em si próprios, terá que se confrontar com fortes resistências de muitos
profissionais do ensino. Resistências cuja superação requer, da parte dos profissionais que têm
a missão de estabelecer um projecto de inserção com os beneficiários, o domínio de
conhecimentos e capacidade de argumentação para rebater estereótipos e representações
profundamente interiorizadas no meio escolar e da própria formação profissional.
Inflectir os processos de exclusão das pessoas menos favorecidas, numa sociedade
em que as mudanças aceleradas no plano económico e técnico apelam ao constante
investimento na qualificação, envolve certamente a recusa de valores e comportamentos de
resignação e a implicação na procura de soluções para os graves problemas que envolvem a
produção, a organização do trabalho, o desemprego e a formação na nossa sociedade. Neste
ponto, pretendemos demonstrar que é possível reconciliar estes excluídos do sistema escolar,
jovens e menos jovens, com o saber, que é possível impedir que neles se instale
definitivamente uma resignação fatalista, que é possível, enfim, arrancá -los à descrença de si
próprios.
De facto, os ³beneficiários´ com quem procuramos fazer um caminho no sentido da
inserção reúnem um conjunto de características que tornam particularmente difíci l com eles
estabelecer uma relação de genuína implicação recíproca. Chegaram até nós já
profundamente instalados na desinserção, quer do ponto de vista material, quer mental.
Adaptaram-se às condições concretas da existência. Construíram uma identidade soc ial que os
levou a desistir de negociar a sua imagem social. A relação subjectiva que os próprios mantêm
com as suas condições de existência tende a reforçar o processo de exclusão, de tal modo que
este se assemelha a uma irresistível engrenagem.
Como demonstrar que a reprodução da pobreza não é uma fatalidade?
Se não há dúvida que o saber trás dignidade e que esta é uma necessidade primária
de todo o indivíduo, não é menos verdade que muitos dos beneficiários cuja actividade
formativa acompanhamos de perto não têm dentro de si suficiente convicção de que são
capazes de evoluir neste aspecto. Por outro lado, o caminho é demasiado longo, exigindo um
esforço árduo, tanto mais difícil de suportar quanto as suas vidas quotidianas estão recheadas

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de frustrações, desconforto, privação de muitos dos pequenos prazeres que nos permitem
refazer a energia necessária para enfrentar obstáculos. Apresentar -se diariamente e a horas no
local de formação, adoptar atitudes de concentração e disponibilidade para aprender matér ias
que não são imediata e facilmente acessíveis à compreensão, tudo isso são exigências de
concretização difícil dado o nível de degradação material e moral a que chegaram as suas
vidas. Daí que perspectivemos como dimensão fundamental da intervenção o es tabelecimento
de interacções intensas, implicadas, atentas e sensíveis às vivências subjectivas das pessoas,
na perspectiva de lhes proporcionar efectivo sucesso nas aprendizagens e contextos
relacionais que lhes devolvam algum sentimento de dignidade, ele vem a autoestima e a
energia para se envolverem nalgum projecto de luta contra o estado actual das suas vidas.
Acima de tudo, é preciso que os técnicos não se deixem, eles próprios, desencorajar
pelas frequentes ³recaídas´ dos beneficiários na tentação da desistência e abandono de
qualquer projecto, assim como não se deixem abater pela resistência dos agentes de en sino
em enveredar pela experimentação de uma escolaridade que permita apreender a realidade  e
adquirir os meios para agir no e sobre o mundo.
Por isso, parte substancial da experimentação desenvolvida pela QpI passa por um
exercício de influência junto do s dirigentes de instituições de formação, procurando difundir e
50
pôr em prática as importantes abordagens de Perrenoud acerca do ensino por competências .
Não cabendo no âmbito deste trabalho aprofundar as propostas que deste autor assumimos,
concluímos com uma ideia que nos parece sintetizar o programa de intervenção experimental
em cuja concretização nos empenhamos: arrancar o quotidiano dos indivíduos ao vazio de
relações, actividades, interesses, referências, ligações e objectivos não elimina a pobreza
material no curto prazo, permite, isso sim, conter ou inverter a degradação moral que aniquila a
possibilidade de de se apropriarem da sua própria história.

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50
Perrenoud, Ph.,  #2>#. Paris, ESF, 1997.
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