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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE


CENTRO DE ESTUDOS GERAIS
INSTITUTO DE CI€NCIAS HUMANAS E FILOSOFIA
PROGRAMA DE P•S-GRADUA‚ƒO EM HIST•RIA SOCIAL

PARA ONDE FOI A CUT?

DO CLASSISMO AO SINDICALISMO SOCIAL-LIBERAL (1978-2000)

RODRIGO DIAS TEIXEIRA

Niter€i
2009

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RODRIGO DIAS TEIXEIRA

PARA ONDE FOI A CUT?

DO CLASSISMO AO SINDICALISMO SOCIAL-LIBERAL (1978-2000)

Disserta„…o apresentada ao Programa de


P†s-Gradua„…o em Hist†ria Social da
Universidade Federal Fluminense, como
requisito para obten„…o do grau de
Mestre.

Orientadora: Prof‡. Dr‡. Virgˆnia Fontes

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PARA ONDE FOI A CUT?

DO CLASSISMO AO SINDICALISMO SOCIAL-LIBERAL (1978-2000)

RODRIGO DIAS TEIXEIRA

Disserta„…o apresentada ao Programa de


P†s-Gradua„…o em Hist†ria Social da
Universidade Federal Fluminense, como
requisito para obten„…o do grau de
Mestre.

Orientadora: Prof‡. Dr‡. Virgˆnia Fontes

BANCA EXAMINADORA

Prof‡. Dr‡. Virgˆnia Maria Gomes de Mattos Fontes (orientadora) – UFF

Prof. Dr. Marcelo Badar† Mattos – UFF

Prof. Dr. Gelsom Rozentino de Almeida – UERJ-FFP

Prof. Vito Giannotti - NPC

Niter†i 2009

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PARA ONDE FOI A CUT?

DO CLASSISMO AO SINDICALISMO SOCIAL-LIBERAL (1978-2000)

RODRIGO DIAS TEIXEIRA

RESUMO

Esta pesquisa analisa as permanŠncias e mudan„as na trajet†ria da CUT desde o


processo de sua funda„…o, at‹ o seu 7Œ Congresso Nacional, no ano de 2000. A Central
•nica dos Trabalhadores sempre teve correntes sindicais diversas em seu interior, o que
forjou disputas em torno de quais seriam os referenciais prŽticos e te†ricos que
dirigiriam sua polˆtica. Dentre estes referenciais destacamos enquanto recorte de nossa
disserta„…o a rela„…o da CUT com o Estado, tendo em vista a sua formula„…o te†rica em
e as rela„•es que a Central construiu com •quele. A partir da d‹cada de 1990, devido a
uma nova conjuntura de descenso, e maior Šnfase na participa„…o nos conselhos
tripartites, de convŠnios internacionais, e na disputa de recursos do Fundo de Aparo ao
Trabalho (FAT) para implementa„…o de cursos na Žrea de forma„…o profissional, a CUT
reformulou sua concep„…o sobre o Estado, modificando, de forma correlacionada, a sua
prŽtica. De um sindicalismo classista e de lutas, a CUT, que passou a ser dominada pela
corrente Articula„…o Sindical, tornou-se, gradativamente, uma central social-liberal,
aplicando enquanto seu o programa estrat‹gico das classes dominantes. Como parte
destas transforma„•es enfatizamos a relev‘ncia da constru„…o pela CUT de “espa„os
p“blicos n…o estatais”, que em geral s…o associa„•es da entidade civil que recebem
recursos p“blicos para fornecerem servi„os sociais privatizados.

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ABSTRACT

This research analyzes what remains and what changes in the trajectory of the
CUT since the process of its foundation until its 7ΠNational Congress, in the year of
2000. The United Union of the Workers always had diverse organizations in its interior,
and it forjed disputes around which would be the practice and theory that would direct
its politics. Amongst these conceptions, we choose for our research the relation
betewwn CUT and the State, in view of its theoretical formularization in and the
relations that the Union constructed with that one. From the decade of 1990, it was a
new conjuncture, and greater emphasis in the participation in the advice tripartites, of
international accords, and in the dispute of resources of the FAT for implementation of
courses in the area of professional formation, the CUT reformulated its conception
about State, modifying, of correlated form, it•s practices. Of a representative unionism,
the CUT, that passed to be dominated by the current “Articula„…o Sindical” , became,
gradually, a social-liberal union, applying the strategical program of the ruling classes.
Between these transformations, we emphasize the relevance of the construction for CUT
of “not state public spaces”, that is in general associations of the civil entity that receive
resources public to supply privatized social services.

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PRINCIPAIS SIGLAS CITADAS

AIT – Associa„…o Internacional dos Trabalhadores


ANAMPOS – Articula„…o Nacional dos Movimentos Popular e Sindical
AFL-CIO – Federa„…o Americana do Trabalho - Congresso das Organiza„•es
Industriais
ADS – AgŠncia de Desenvolvimento SolidŽrio
ALCA – –rea de Livre Com‹rcio das Am‹ricas
ASS – Alternativa Sindical Socialista
CC – Capacita„…o de Conselheiros
CCQ – Cˆrculo de Controle de Qualidade
CEDAC – Centro de A„…o ComunitŽria
CEE – Comiss…o Estadual de Emprego
CGT – Central Geral dos Trabalhadores (Brasil)
CGT – Confedera„…o Geral dos Trabalhadores (Brasil)
CGT – Confedera„…o Geral dos Trabalhadores (Fran„a)
CIOSL – Confedera„…o Internacional das Organiza„•es Sindicais Livres
CMP – Central de Movimentos Populares
CNI – Confedera„…o Nacional da Ind“stria
CNM – Confedera„…o Nacional dos Metal“rgicos
CNMT – Comiss…o Nacional da Mulher Trabalhadora
CME – Comiss…o Municipal de Emprego
CODEFAT – Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador
CONAFOR – Coletivo Nacional de Forma„…o da CUT
CONTAG – Confedera„…o Nacional dos Trabalhadores Rurais
CONCLAT – ConferŠncia Nacional das Classes Trabalhadoras
CONCLAT – Congresso Nacional da Classe Trabalhadora
CONCUT – Congresso Nacional da CUT
CPNF – ConferŠncia da Polˆtica Nacional de Forma„…o da CUT
CSC – Corrente Sindical Socialista
CTR – Central de Trabalho e Renda
CUT – Central •nica dos Trabalhadores
DIAP – Departamento Intersindical de A„…o Parlamentar
DIEESE – Departamento Intersindical de Estatˆstica e Estudos Socioecon—micos
ENAFOR – Encontro Nacional de Forma„…o
ENTOES – Encontro Nacional dos Trabalhadores em Oposi„…o • Estrutura Sindical
FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador
FGTS – Fundo de Garantia por Tempo de Servi„o
FHC – Fernando Henrique Cardoso
FIESP – Federa„…o das Ind“strias do Estado de S…o Paulo
FMI – Fundo MonetŽrio Internacional

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FS – For„a Sindical
MERCOSUL – Mercado Comum do Cone Sul
MP – Medida Provis†ria
MTb – Minist‹rio do Trabalho (denomina„…o at‹ 1995)
MTE – Minist‹rio do Trabalho e Emprego (denomina„…o a partir de 1995)
MST – Movimento dos Sem Terra
NT – N“cleos temŽticos da CUT
OIT – Organiza„…o Internacional do Trabalho
OMC – Organiza„…o Mundial do Com‹rcio
ONG’s – Organiza„•es N…o Governamentais
ORIT – Organiza„…o Interamericana de Trabalhadores
PACTI - Programa de Apoio • Capacita„…o Tecnol†gica da Ind“stria
PLANFOR - Plano Nacional de Forma„…o do MTE
PBQP - Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade
PCB – Partido Comunista Brasileiro
PCDA - Programa de Capacita„…o de Dirigentes e Assessores
PDV – Plano de Demiss…o VoluntŽria
PEC – Projeto de Emenda Constitucional
PID - Programa Integrar de Forma„…o de Dirigentes
PL – Projeto de Lei
PLANFOR – Plano Nacional de Qualifica„…o Profissional
PLR – Participa„…o nos Lucros e Resultados
PNF-CUT – Polˆtica nacional de Forma„…o da CUT
PNM – Programa Nacional de metodologias da CUT
PNQP/CUT – Programa Nacional de Qualifica„…o Profissional da CUT
PNBE – Pensamento Nacional das Bases Empresariais
PNQP – Programa Nacional de Qualifica„…o Profissional da CUT
PROGER - Programa de Gera„…o de Emprego e Renda
PROGER Rural - Programa de Gera„…o de Emprego e Renda Rural
PRONAF - Programa Nacional da Agricultura Familiar
PT – Partido dos Trabalhadores
SDRT – Sistema DemocrŽtico de Rela„•es de Trabalho
SDS – Social Democracia Sindical
SMABC – Sindicato dos Metal“rgicos do ABC
SMSBC – Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Bernardo do Campo e Diadema
SPE – Sistema P“blico de Emprego
TRT – Tribunal Regional do Trabalho
TST – Tribunal Superior do Trabalho
UNE – Uni…o Nacional dos Estudantes
UNISOL - Uni…o e Solidariedade das Cooperativas do Estado de S…o Paulo
USI – Uni…o Sindical Independente

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Para Dina, Mariana, Maur€cio e Miriam

Em mem•ria de Mery e Maria

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Agradecimentos

Meus agradecimentos, como n…o poderia deixar de ser, s…o coletivos. Em


primeiro lugar gostaria de agradecer a todos os companheiros e companheiras que
estiveram comigo na milit‘ncia. Foi atrav‹s da luta que aprendi a valorizar a
Universidade P“blica, sentindo a necessidade da constru„…o de um mundo diferente,
que tenha como pilar fundamental a vida e n…o o lucro. Agrade„o, especialmente, a
Daniel do Vale, Madureira, Taiguara, Gustavo Dantas, Rafael D•Oliveira, Juliana
Gagno, Vinicius Almeida, Carlos Bittencourt, Flavio Serafini, Vinicius Code„o,
Fernanda Affonso, Fernando, Keila, Danielzinho, Raquel Junia, Z‹ Rodolfo, Rodrigo
“Ninja”, Thiago Mello, Manuela Green, Suellen, Martha, Lucas, Gabriel, Danielle
Jardim, Miguel, Laryssa, Luis Arthur, Maria Raquel, Clarice, Paulo Eduardo,
Renatinho, Pedrinho, Mi“do, Marcus, Juninho, Cla“dia, Morales e Genilce.
™ Professora Doutora Virginia Fontes, pelo trabalho de orienta„…o e constru„…o
coletiva de conhecimento nos “ltimos cinco anos. Virginia e suas crˆticas sempre
contundentes, que me colocavam a necessidade de pensar o todo sem perder as
especificidades do particular, me colocando sempre no “ch…o” quando meus objetivos
iam para al‹m das minhas capacidades.
Ao GTO – Grupo de Trabalho e Orienta„…o – coordenado pela Virginia, no qual
participavam graduandos, mestrandos e doutorandos, realizando uma verdadeira
“orienta„…o coletiva”, baseada na discuss…o de capˆtulos, projetos e roteiros de reda„…o,
al‹m de textos gerais e temas que nos guiavam, em geral voltados aos debates em torno
do marxismo. Reuni•es que se repetiam em at‹ mesmo trŠs dias seguidos, sempre com
hora pra come„ar, mas n…o para acabar. Foi neste espa„o que aprendi a valorizar a
constru„…o coletiva de conhecimento, o qual, infelizmente, ‹ deixado de lado em um
momento no qual a “academia” tornou-se um grande mercado de vendedores de livros e
ilus•es. Agrade„o especialmente a Demian e Danilo, com os quais aprendi muito em
nossos intensos debates.
Obrigado, aos que aceitaram participar da banca:
Ao Professor Dr. Marcelo Badar†, companheiro de longa data, o qual sempre
mostrou-me a import‘ncia de se conjugar teoria e prŽtica, dividindo id‹ias e lutas em
comum.
Ao Professor Vito Giannotti, que apesar da vis…o elitista da academia,
demonstrou aguerridamente na luta da vida a real fun„…o da produ„…o de conhecimento.
Ao Professor Dr. Gelsom Rozentino, que com suas importantes crˆticas nos fez
avan„ar na consolida„…o da pesquisa e de sua reda„…o.

A todos e todas, meu OBRIGADO!

Rodrigo Dias Teixeira

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•NDICE

IntroduÄÅo.................................................................................................................................11

1. A CUT classista e a dÇcada das lutas (1978-1989).....................................................14


1.1 A ConferŠncia Nacional das Classes Trabalhadores – CONCLAT.............................19
1.2 1ΠCongresso Nacional da Classe Trabalhadora - I CONCLAT................................23
1.3 O IΠCONCUT: construindo o sindicalismo classista e de luta...................................25
1.4 O inˆcio da Secretaria Nacional de Forma„…o da CUT................................................29
1.5 O II CONCUT: avan„ar nas lutas................................................................................24
1.6 O III CONCUT............................................................................................................45

2. As transformaÄÉes da CUT e inÑcio da dÇcada neoliberal (1989-1995)...................60


2.1 O IV CONCUT: tens•es e golpes................................................................................72
2.2 O Plano Nacional de Forma„…o da CUT (1991)..........................................................90
2.3 As C‘maras Setoriais....................................................................................................96
2.4 O V CONCUT.............................................................................................................104
2.4.1 A Polˆtica Nacional de Forma„…o e a Forma„…o Profissional da CUT: rumo ao
sindicalismo cidad…o”...............................................................................................................108

3. A CUT social-liberal e a hegemonia capitalista (1995-2000)...................................120


3.1 A 7‡ PlenŽria Nacional: A CUT e a implementa„…o da Forma„…o Profissional atrav‹s dos
recursos do FAT......................................................................................................................135
3.2 O VI CONCUT.............................................................................................................156
3.3 O Programa “Integral”: A primeira grande Parceria Nacional entre a CUT e o
FAT.........................................................................................................................................166
3.4 A 9‡ PlenŽria Nacional: consolidando os novos rumos................................................176
3.5 O Plano Nacional de Qualifica„…o da CUT...................................................................181
3.6 A CUT e a atua„…o na Žrea de intermedia„…o de m…o-de-obra: a funda„…o da Central de
Trabalho e Renda como “espa„o p“blico n…o-estatal”..........................................................187
3.7 A 1‡ ConferŠncia da Polˆtica Nacional de Forma„…o da CUT.....................................192
3.8 Unitrabalho: construindo a rede de assessoria e pesquisa da CUT em forma„…o
profissional e cooperativismo................................................................................................195
3.9 A CUT e a atua„…o na Žrea do cooperativismo: a funda„…o da AgŠncia de Desenvolvimento
SolidŽrio ADS/CUT..............................................................................................................197
3.10 A CUT e a funda„…o da Uni…o e Solidariedade das Cooperativas e Empreendimentos de
Economia Social do Brasil (UNISOL)..................................................................................199
3.11 O VII CONCUT: A CUT social-liberal.......................................................................203
Conclus…o..............................................................................................................................217
Bibliografia...........................................................................................................................231
Fontes....................................................................................................................................235

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Introdu‚ƒo

Por que, neste momento, um estudo sobre o sindicalismo brasileiro, mais


especificamente sobre a Central •nica dos Trabalhadores – CUT?

Este estudo tem o objetivo de corresponder •s ang“stias e mudan„as de


uma nova conjuntura polˆtica, a qual fecha um ciclo dentro da organiza„…o dos
movimentos sociais no Brasil. Se no perˆodo de transi„…o p†s-ditadura o sindicalismo
demonstrava for„a e capacidade de mobiliza„…o, na d‹cada de 1990 a avalanche
neoliberal gerou importantes modifica„•es no interior do mundo do trabalho,
debilitando as entidades das classes subalternas.
Atualmente, a tendŠncia mais geral ‹ de diminui„…o da quantidade de
estudos sobre o sindicalismo brasileiro, passado o “boom” das pesquisas em torno do
“novo sindicalismo”. Uma das conseqšŠncias da queda da capacidade de mobiliza„…o e
influŠncia do sindicalismo ‹ a diminui„…o dos estudos sobre as entidades sindicais e
suas formas de organiza„…o. Em contrapartida, crescem os estudos sobre a
reestrutura„…o produtiva, os “novos” movimentos sociais e ONG•s, os supostos agentes
desse “mundo globalizado”. Entretanto, ‹ necessŽrio destacar que, apesar das mudan„as
fundamentais que est…o em processo, n…o podemos deslocŽ-las como se n…o fossem
conseqšŠncia de um perˆodo anterior. As mudan„as geradas pelo ajuste neoliberal da
d‹cada de 1990 n…o nasceram “em si”, mas foram fruto de grandes disputas no terreno
da luta de classes, os quais n…o necessariamente iniciaram-se naquela d‹cada. O mais
provŽvel, inclusive, ‹ que seja parte de um processo mais amplo, no qual a d‹cada de
1990 ‹ um marco fundamental, derivado das modifica„•es no patamar da correla„…o de
for„as entre as classes, na forma de organiza„…o destas e dos seus mecanismos de
disputa de hegemonia.
Nesse sentido, n…o podemos entender a debilidade do movimento
sindical, a reestrutura„…o produtiva, e as modifica„•es na organiza„…o do Estado,
sem procurarmos saber os motivos que os geraram, quais processos est…o envolvidos
que, de forma correlacionada, possibilitaram estas mudan„as. Precisamos analisar a
correla„…o existente entre o avan„o do ajuste neoliberal e a diminui„…o da capacidade
de organiza„…o das classes subalternas, mais especificamente no movimento sindical.
N…o seria possˆvel a reestrutura„…o produtiva e o processo de remodelagem do

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mundo do trabalho sem o aumento do controle sobre os trabalhadores, sendo


necessŽrio, portanto, diminuir sua capacidade de organiza„…o aut—noma. Este n…o ‹
um mecanismo direto e de m…o “nica, mas, ao contrŽrio, ‹ um processo complexo, de
m“ltiplas determina„•es. Ou seja, tanto a debilidade da CUT determinou a
possibilidade de exist‚ncia da pol€tica neoliberal, quanta esta acabou por
enfraquecer a luta dos trabalhadores. Se fossemos destacar um dos lados que detŠm
maior Šnfase nesta equa„…o, acreditamos que seria o aspecto objetivo, jŽ que a
conjuntura, mesmo na d‹cada de 1980, era adversa na maioria dos paˆses europeus e
em grande parte dos latino-americanos; foi a for„a de organiza„…o dos trabalhadores
naquele perˆodo que garantiu um patamar de resistŠncia e conquistas importantes,
apesar das dificuldades existentes. Assim, se a capacidade de press…o dos
movimentos sociais garantiu uma resistŠncia em 1980, o mesmo n…o foi realizado
durante a d‹cada seguinte, com o avan„o do neoliberalismo como alternativa das
classes dominantes • crise existente. Isto se deve as rela„•es entre o sindicalismo e a
conjuntura do perˆodo, as disputas internas no interior do sindicalismo, e as
mudan„as mais gerais na conjuntura nacional e internacional, as quais n…o se
encontram no ‘mbito deste estudo. A Reestrutura„…o Produtiva, por esta †tica, n…o ‹
vista apenas pelas vontades intrˆnsecas de um suposto Estado-sujeito, pronto para
realizar aquilo que seja mais adequado •s classes dominantes. Como nos enfatiza
S—nia Mendon„a:
“ O essencial para a anŽlise do Estado e das polˆticas p“blicas ‹ tomŽ-las
enquanto resultado do embate entre fra„•es de classes distintas, em
disputa pela inscri„…o de seus projetos junto •s agŠncias do Estado em
seu sentido restrito. (...) Logo, (...), para chegar-se ao Estado em seu
sentido estrito, deve-se partir da Sociedade Civil e n…o o contrŽrio”1.

Ao inv‹s de perceber meramente a influŠncia do processo de


reestrutura„…o produtiva no interior da CUT, este estudo busca contribuir tamb‹m
para outro enfoque de anŽlise: em que medida a mudanƒa de atuaƒ„o da CUT
viabilizou a reestruturaƒ„o produtiva no Brasil, tanto do ponto de vista ideol•gico
quanto pol€tico? Ou seja, partir dos aparelhos privados de hegemonia, da Sociedade
Civil, para chegar ao Estado no sentido amplo, percebendo seus conflitos e mudan„as
de rota.

1
MENDON‚A, S—nia (org). O Estado Brasileiro: AgŠncias e Agentes. Niter†i: EdUFF/ Vˆcio de Leitura,
2005 PŽg 13

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Nosso objetivo mais especˆfico, ent…o, foi construir um apanhado geral


das pesquisas existentes sobre as mudan„as ocorridas na CUT, sua atua„…o na
conjuntura e as disputas realizadas em seu interior, tendo como objeto mais delineado as
tens•es sobre a rela„…o da Central com espa„os tripartites, as propostas de pacto social
existentes, e os conflitos no que tange a defesa do classismo. Dentro dessa perspectiva,
priorizamos a rela„…o da CUT com o FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador, o maior
fundo p“blico brasileiro, do qual a Central participava de seu Conselho Deliberativo, o
CODEFAT.
Acreditamos que, ao inv‹s de apenas nos focarmos nos agentes sociais
mais “em voga” no perˆodo neoliberal, precisamos perceber em que medida ocorreu
transmuta„•es de um mesmo processo, os quais modificaram a conjuntura e sua
correla„…o de for„as. Para n†s, a convers…o da CUT, deixando de ser um espa„o de
organiza„…o aut—noma dos trabalhadores para tornar-se um aparelho de manuten„…o da
ordem, foi o principal fator de transmuta„…o da conjuntura entre as d‹cadas de 1980 e
1990. N…o conseguiremos retomar, de um ponto de vista amplo, uma maior mobiliza„…o
das classes subordinadas, sem entender seus espa„os de organiza„…o e os mecanismos
das classes dominantes que buscam desconstruˆ-los: para conseguirmos avan„ar na
organiza„…o dos trabalhadores enquanto classe precisamos entender quais foram os
processos que produziram a convers…o da CUT.
Optamos, portanto, por um estudo que buscasse construir uma cronologia
da rela„…o entre as mudan„as ocorridas na CUT e as modifica„•es na conjuntura do
paˆs. Gostarˆamos de destacar, tamb‹m, que o tˆtulo dessa Disserta„…o, que remete ao
importantˆssimo livro organizado por Vito Giannoti “Para Onde Vai a CUT?2 ”, foi
proposto pelo pr†prio autor na banca de Qualifica„…o: ficamos muito orgulhosos pela
referŠncia e agradecemos enormemente ao Vito pela sugest…o. Esperamos fazer jus a
sua trajet†ria coerente e engajada que jŽ estŽ marcada na hist†ria do sindicalismo
brasileiro.

2
NETO, Sebasti…o Lopes; GIANNOTTI, Vito. Para Onde Vai a Cut? S…o Paulo: Scritta. 1993

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1. A CUT classista e a d„cada das lutas (1978-1989)

A d‹cada de 1980 inaugura-se no plano da conjuntura internacional sob a


duplica„…o dos pre„os do petr†leo e da eleva„…o das taxas de juros, as quais
prenunciavam um perˆodo de crise. O impacto da recess…o mundial iniciada pela
polˆtica de valoriza„…o do d†lar refletiu sobretudo na deterioriza„…o das rela„•es de
troca entre os paˆses, com um grande aumento nos pre„os de importa„•es e diminui„•es
dos pre„os de exporta„•es no que concerne aos paˆses perif‹ricos. A escassez de
recursos refor„ava a crise interna vivenciada no Brasil, jŽ que grande parte do
financiamento que viabilizava as polˆticas econ—micas do paˆs no perˆodo tinha
proveniŠncia externa e do superŽvit na balan„a comercial, que no perˆodo entre 1980-
1985, a tˆtulo de exemplo, teve uma queda de 27%.
Demonstrava-se, assim, a artificialidade dos mecanismos econ—micos
que possibilitavam fortes crescimentos do Produto Interno Bruto (PIB), o chamado
“Milagre Brasileiro”. A t—nica deste processo de expans…o de economia brasileira foi
dada por dois suportes: 1) a abundancia de recursos no mercado financeiro
internacional; 2) o favorecimento das empresas multinacionais na estrutura industrial do
paˆs3 . Somou-se a este processo a din‘mica da “transi„…o tutelada” da ditadura
empresarial-militar para regime representativo burguŠs, marcada por revezes como a
confirma„…o de elei„•es indiretas para os governadores e para 1/3 do Senado, e o
aumento da press…o exercida pela oposi„…o, com a conquista das elei„•es nos principais
Estados em 1982. Ao longo dos anos 1980, entretanto, os desdobramentos deste
processo ultrapassariam a capacidade de controle “pelo alto”, como na campanha das
Diretas JŽ.
Iniciada em 1983 com a emenda institucional Dante de Oliveira, a
“Diretas JŽ” tinha como objetivo eliminar as elei„•es indiretas por interm‹dio de um
Col‹gio Eleitoral. Tornou-se uma frente da Oposi„…o, com a participa„…o de partidos
como o PMDB, PT e PDT, e incorporando as mais diversas associa„•es e entidades
polˆticas. A emenda foi derrotada, mas novos agentes sociais come„avam a entrar em
cena, modificando a correla„…o de for„as existentes na sociedade: dentre estes agentes,
destacava-se a Central •nica dos Trabalhadores, a CUT.

3
FONTES, V.. ; MENDON‚A, S. R. . Hist†ria do Brasil Recente: 1964-1990. 4. ed. SƒO PAULO:
–TICA, 1994. PŽg 52

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Depois de um intenso perˆodo de silŠncio imposto pela ditadura


empresarial-militar, as greves come„aram a ressurgir em vŽrias partes do paˆs e em
diversos segmentos econ—micos, sendo o mais expressivo o movimento metal“rgico da
regi…o do ABCD paulista. As greves ocorridas desde maio de 1978 na Scania Vabis, em
S…o Bernardo do Campo, espalharam-se para outras grandes fŽbricas de autom†veis.
Duas semanas depois, as greves chegaram • capital paulista, organizadas pela Oposi„…o
Sindical Metal“rgica de S…o Paulo. Formou-se uma nova onda de lutas sindicais, as
quais impulsionaram a necessidade de constru„…o de novos espa„os de organiza„…o dos
trabalhadores.
As reivindica„•es n…o eram apenas de cunho econ—mico, mas tamb‹m
polˆtico. Exigia-se aumento dos salŽrios para compensar os anos de arrocho, al‹m do
direito de organiza„…o no interior do local de trabalho, liberdade e autonomia sindical,
direito de greve e fim da Ditadura Militar. As lutas, que inicialmente eram isoladas em
algumas fŽbricas, foram pouco a pouco se expandindo territorialmente, avan„ando na
unifica„…o dos trabalhadores e nas suas conquistas. Segundo Eduardo Noronha, o
processo de avan„o das greves teve altos e baixos, partindo do setor privado para o
p“blico:

“1. nos dois primeiros anos estouram vŽrias e importantes greves


concentradas no setor privado, cujo efeito de longo prazo serŽ a defini„…o
desses tra„os comuns – nesse sentido, as greves desse ano tŠm um carŽter
inaugural; 2. a segunda fase (1980 a 1982) ‹ marcada pela retra„…o do
movimento grevista em fun„…o de particulares altera„•es polˆticas e
econ—micas: inˆcio do perˆodo recessivo, a instabilidade do processo de
transi„…o e o aumento das rea„•es governamentais e empresariais •s
press•es sindicais; 3. a terceira fase (1983 e 1984) caracteriza-se pela
relativa retomada das greves do setor privado e, particularmente, pela
extens…o definitiva desse tipo de conflito para o setor p“blico”4 .

Apesar de ser um momento de ascenso das lutas sindicais e das greves, a


rela„…o direta que essas tinham com a conjuntura do paˆs trazia diversos complicadores,
especialmente em rela„…o a inexistŠncia de garantia de direitos polˆticos, como o direito
de greve. Ao mesmo tempo em que as lutas eram expandidas, a rea„…o das classes
dominantes legitimando o c†digo legal da ditadura civil-militar trazia dificuldades,

4
NORONHA, Eduardo. “A Explos…o das Greves na D‹cada de 80”, in Boito Jr., Armando (org), O
Sindicalismo Brasileiro nos Anos 80, Rio de Janeiro, Paz e Terra. PŽg 103

15
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gerando um conflito permanente. N„o podemos, ent„o, caracterizar essas greves como
meramente “econ†micas”, isto ˆ, como “corporativas”. Tanto o seu alcance quanto
seus objetivos tinham relaƒ„o com a conjuntura mais geral do pa€s e a necessidade de
avanƒo das classes subalternas e de seus espaƒos de organizaƒ„o.
Em junho de 1978, ocorreu o 10Œ Congresso Nacional dos Metal“rgicos,
realizado em Po„os de Caldas (MG), e uma de suas resolu„•es indicava que “as
entidades sindicais dever…o ser coordenadas por uma Central •nica de Trabalhadores”.
Depois, em junho do mesmo ano, foi marcante a posse da nova diretoria do Sindicato
dos BancŽrios de Belo Horizonte, resultado da vit†ria da oposi„…o contra os
interventores. Nela, 32 dirigentes sindicais divulgaram uma declara„…o conjunta,
expressando o processo de articula„…o do sindicalismo combativo5 .
Em Outubro de 1978, o III Congresso dos Metal“rgicos de S…o Bernardo
reafirmava a necessidade de unidade dos trabalhadores e da constru„…o de uma central:
“Aos poderosos grupos empresariais, organizados e unidos na defesa de
seus interesses comuns, deverŽ se contrapor a unidade da classe
trabalhadora, atrav‹s de uma central “nica dos trabalhadores de ‘mbito
nacional.6 ”

Neste Congresso, os sindicalistas tamb‹m reconheceram que o principal


obst‰culo para uma maior atuaƒ„o sindical era a sua depend‚ncia do Estado. Para eles,
devia-se partir “(...)do princˆpio de que a organiza„…o da classe trabalhadora deve se dar
independentemente das amarras que a prendem ao Estado, tendo o seu come„o, meio e
fim decididos pelo pr†prios trabalhadores (...). Na verdade, o avan„o da organiza„…o do
trabalhador na luta em defesa de seus mais legˆtimos interesses ‹ barrada por uma
estrutura sindical que foi justamente montada, hŽ mais de quarenta anos, com este
objetivo: impedir a organiza„…o da classe trabalhadora independentemente da tutela do
Estado.7 ”
Cinco meses depois, em mar„o de 1979, ocorreu o I Congresso da
Oposi„…o Sindical Metal“rgica de S…o Paulo (OSM-SP). Este campo sindical foi o
principal impulsionador da primeira greve da categoria metal“rgica ap†s o golpe de

5
GIANNOTTI, VITO. Hist†ria das Lutas dos Trabalhadores no Brasil. Rio de Janeiro, Mauad X: 2007.
PŽg 236
6
Resolu„•es do III Congresso dos Metalurgicos de S…o Bernardo. Retirado de GIANNOTTI, VITO. CUT
– Por dentro e Por fora. Petr†polis, Vozes: 1999. PŽg 29
7
Resolu„•es do III Congresso dos Metal“rgicos de S…o Bernardo. Retirado de RODRIGUES, Iram
JŽcome. Sindicalismo e Polˆtica: A trajet†ria da CUT. S…o Paulo, Scrita: 1997. PŽg 77

16
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19648 . O Congresso tamb‹m reafirmou a disposi„…o de unificar os lutadores em ‘mbito


nacional:
“™ medida em que forem surgindo dire„•es independentes e que
pratiquem a ruptura com a atual estrutura, as oposi„•es devem ir se
unificando a elas, para centralizar a for„a dos trabalhadores. Esse
processo irŽ crescendo at‹ o momento em que os trabalhadores sentirem
for„as para fundar a sua central sindical9 ”

Dessa forma, neste processo de crescimento das mobilizaƒŠes,


formaram-se dois “campos” no interior do sindicalismo de luta: as “oposiƒŠes
sindicais” e os “sindicalistas aut‚nticos”.
O Encontro da Oposi„…o Sindical Metal“rgica de S…o Paulo indicou a
“convoca„…o de um encontro nacional de todas as oposi„•es sindicais”, para
“estabelecer um programa de lutas comuns e dirigir um debate nacional entre os
trabalhadores sobre organiza„…o sindical”. Assim surgiu o “Encontro Nacional das
Oposi„•es Sindicais”, o ENOS, ocorrido no inˆcio de 1980. O ENOS juntou
trabalhadores do campo e da cidade, com a participa„…o de diversas categorias, como
bancŽrios, jornalistas, metal“rgicos, professores e trabalhadores da constru„…o civil. Um
encontro ousado, sendo o primeiro com este carŽter ap†s o golpe de 1964. Como
sˆmbolo trŽgico, o lavrador Raimundo F. Lima, o “Gringo”, que participou do ENOS,
foi assassinado por jagun„os de latifundiŽrios logo ap†s sua volta do encontro.
Paralelamente, ocorreu em fevereiro de 1980 o “Encontro de
Monlevade”, sendo um marco no esfor„o de articula„…o nacional dos “sindicalistas
autŠnticos”. O Encontro foi realizado no Sindicato dos Metal“rgicos da cidade e dele
participaram, al‹m dos sindicalistas combativos, lideran„as de movimentos populares e
das pastorais operŽrias. Al‹m de defender a crˆtica • estrutura sindical oficial e ao
regime, sob a perspectiva da defesa da “liberdade e autonomia sindical” e da
“democratiza„…o da estrutura sindical”, o Encontro tamb‹m apontou para a necessidade
das lideran„as presentes impulsionarem uma organiza„…o nacional de carŽter
intersindical, incentivando a “articula„…o entre as lutas do movimento sindical e as lutas
do movimento popular, na cidade e no campo”10 .

8
Este greve metal“rgica ocorreu na capital paulista, em outubro de 1978.
9
Resolu„•es do I Congresso da Oposi„…o Sindical Metal“rgica de S…o Paulo. Retirado de: GIANNOTTI,
VITO. CUT – Por dentro e Por fora. Petr†polis, Vozes: 1999. PŽg 30
10
Idem, ibidem. PŽg 34

17
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Em maio de 1980, milhares de trabalhadores, provenientes de diversos


locais, se reuniram no ent…o desconhecido EstŽdio da Vila Euclides para dar apoio a
uma greve dos metal“rgicos do ABC, naquele momento a maior concentra„…o de
operŽrios da ind“stria automobilˆstica da Am‹rica Latina. Constituˆa-se uma luta de
massas, que ampliava seus horizontes polˆticos, deixando de ser uma greve de apenas
uma categoria, para representar uma mobiliza„…o contra o arrocho imposto pela ditadura
empresarial-militar que estava com sinais de esgotamento.
Em julho do mesmo ano, ocorreu o “Encontro de S…o Bernardo”,
basicamente com o “sindicalismo autŠntico” local, tamb‹m discutindo a necessidade da
constru„…o de uma nova central. Em momento posterior foi realizado tamb‹m outro
encontro em Vit†ria/ES. Estes dois encontros, em conjunto com o realizado em
Monlevade, resultaram na constitui„…o da Articula„…o Nacional dos Movimentos
Populares e Sindical – ANAMPOS. Apesar de toda uma elabora„…o produzida nesses
encontros no sentido de se fundamentar uma rela„…o org‘nica entre o movimento
sindical e os movimentos populares, ap†s o “Encontro de Vit†ria” se estabeleceu uma
distin„…o entre a Anampos Sindical e a Anampos Popular. As dificuldades de unifica„…o
geraram uma diferencia„…o de seus espa„os organizativos.
De inˆcio, os “sindicalistas aut‚nticos” tentaram trazer para a
ANAMPOS os sindicalistas do PCB, que tinha a frente Arnaldo Gonƒalves, Presidente
do Sindicato dos Metal‹rgicos de Santos. Entretanto, esta tŽtica mostrou-se inviŽvel, e
os “autŠnticos” aproximaram-se cada vez mais das oposi„•es sindicais.
Foi a partir dessa congruŠncia, resultado tamb‹m da aproxima„…o do

Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Bernardo e da Oposi„…o Sindical dos Metal“rgicos

de S…o Paulo nas greves de abril e maio de 1980, que ocorreu o Encontro Nacional dos

Trabalhadores em Oposi„…o • Estrutura Sindical – ENTOES, em setembro daquele ano.

Sua fun„…o partia da crˆtica ao ENOS, devido ao seu carŽter restritivo para apenas as

oposi„•es sindicais. Todavia, este “encontro unitŽrio” n…o surtiu muito efeito.

Demonstrou-se na prŽtica que apesar do avanƒo nas lutas, o movimento sindical

combativo ainda tinha dificuldades em seu processo de unificaƒ„o.

18
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1.1 A Confer‚ncia Nacional das Classes Trabalhadores – CONCLAT

Em um ato p“blico realizado em S…o Bernardo, em fevereiro de 1981,

contra a cassa„…o da diretoria do Sindicato dos Metal“rgicos e seu enquadramento na

Lei de Seguran„a Nacional, cerca de 60 entidades sindicais convocaram uma reuni…o

mais ampla para mar„o do mesmo ano, com o objetivo de discutir a realiza„…o de uma

ConferŠncia Nacional das Classes Trabalhadores – CONCLAT 11 . Na reuni…o de mar„o,

183 entidades, de 13 estados, lan„aram a convocat†ria “Aos Trabalhadores Brasileiros”,

marcando a CONCLAT para os dias 21 a 23 de agosto de 1981.

Antes do CONCLAT, ocorreram Encontros Estaduais das Classes

Trabalhadoras - Enclats, realizados em 16 Estados, mais o DF, envolvendo cerca de

3.500 participantes e 1.010 entidades. A ConferŠncia Nacional ocorreu, em Praia

Grande, no litoral de S…o Paulo, na data prevista, reunindo 5.036 delegados,

representando 1.091 entidades sindicais de 22 Estados, mais o Distrito Federal.

O processo do CONCLAT de 1981 possibilitou uma maior unifica„…o

entre os “sindicalistas autŠnticos” e as “oposi„•es sindicais”, construindo o “bloco

combativo”, base do que viria a ser chamado “novo sindicalismo”. Esta unifica„…o

ocorreu tamb‹m devido a necessidade de oposi„…o •s propostas da Unidade Sindical

(Composta pelo PCB, PC do B e MR8), que tamb‹m participou da ConferŠncia. Estava

tamb‹m presente uma parcela importante de n…o alinhados aos dois grupos12 . Ou seja,

se no momento anterior, a unidade dos setores combativos tinha dificuldades para ser

11
› importante destacar que ocorreram dois “CONCLAT”, o primeiro, em 1981, denominado ConferŠncia
Nacional das Classes Trabalhadores, e o segundo, em 1983, denominado 1ΠCongresso Nacional da
Classe Trabalhadora. Foi no “segundo” CONCLAT em que se fundou a CUT.
12
OLIVEIRA, Roberto V‹ras de. Sindicalismo e Democracia no Brasil: Atualiza„…o - Do novo
Sindicalismo ao Sindicato Cidad…o. Tese apresentada ao Programa de P†s Gradua„…o em Sociologia-
USP. S…o Paulo, 2002. PŽg 116

19
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realizada, a necessidade concreta da luta contra as propostas da Unidade Sindical foi

um fator fundamental para a maior converg‚ncia.

Todo o debate da ConferŠncia esteve marcado pela polariza„…o entre os

dois blocos. De um lado, o “bloco dos combativos”, que tinha um posicionamento claro

de independŠncia e de crˆtica • estrutura sindical, ao governo e ao projeto de “transi„…o

tutelada”. Do outro, a Unidade Sindical, a qual defendia “maior cautela”, pois o mais

importante seria n…o comprometer a “transi„…o democrŽtica”, nem “dividir” o

movimento sindical. Al‹m disso, os membros da Unidade Sindical n…o viam com “bons

olhos” a participa„…o das “oposi„•es sindicais” no Encontro: o fundamental era

fortalecer a atua„…o dos sindicatos legais.

O momento mais tenso ocorreu quando se discutiu a composi„…o da

Comiss…o Nacional Pr†-CUT, formando-se duas chapas. Com os delegados divididos,

estabeleceu-se um impasse pela impossibilidade de definir uma chapa vencedora. Ao

final, chegou-se a um acordo e encaminhamento de uma chapa “nica, composta por 56

membros (1/3 dos quais identificados com o setor combativo)13 . A tarefa principal da

Comiss…o, al‹m de encaminhar nacionalmente o Plano de Lutas aprovado, era a de

organizar o congresso de funda„…o da Central •nica dos Trabalhadores – CUT, que

seria realizado em agosto de 1982. A CONCLAT aprovou tamb‹m a luta pela

convoca„…o de uma nova Constitui„…o, a substitui„…o da CLT por um C†digo Nacional

do Trabalho, a estabilidade no emprego, o seguro-desemprego, o direito de greve, a

conven„…o coletiva de trabalho, o salŽrio-mˆnimo real unificado, a redu„…o da jornada

de trabalho para 40 horas sem redu„…o de salŽrio, liberdade e autonomia sindical,

13
Idem, ibidem, pŽg 118. A composi„…o da chapa “nica, 56 membros, teve seu maior ponto de conflito na
exigŠncia, por parte dos membros da chapa 2, em excluir Joaquim dos Santos Andrade, substituindo-o por
Waldemar Rossi (que havia concorrido e perdido as elei„•es para a diretoria do Sindicato dos
Metal“rgicos de S…o Paulo). O acordo terminou por excluir os dois.

20
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reforma agrŽria ampla, massiva, imediata e com a participa„…o dos trabalhadores rurais,

entre outras bandeiras14 .

No processo que se seguiu • Conclat, as tens•es no interior da Comiss…o

Nacional Pr†-CUT intensificaram-se. Cada vez mais duas chocavam-se duas vis•es a

respeito da “transi„…o democrŽtica” e da reforma sindical. Para o “bloco dos

combativos” (“autŠnticos” e oposi„•es sindicais”) , a Unidade Sindical, majoritŽria na

Comiss…o, n…o se empenhava efetivamente na condu„…o do Plano de Lutas, nem na

realiza„…o do congresso de funda„…o da CUT. Al‹m disso, o bloco dos combativos

avaliava que a US apostava na “abertura polˆtica” , pois tinham receio de que uma maior

radicaliza„…o por parte dos trabalhadores pudesse provocar rupturas no processo

institucional. O apego da US ao sindicalismo oficial, especialmente seus †rg…os de

c“pula (federa„•es e confedera„•es) era marcante.

A reuni…o da Comiss…o, realizada em setembro daquele ano, foi tensa.

Definiu-se ali nova data para o Conclat (agosto de 1983). A partir dessa reuni…o o bloco

combativo divulgou documento intitulado “Aos companheiros da cidade e do campo”,

relatando os fatos, denunciando a maioria da Comiss…o Nacional Pr†-CUT e

defendendo “a unidade dos trabalhadores”. Defendia que tal unidade s† poderia ser

construˆda em torno das lutas, e n…o na defesa da estrutura sindical oficial. Reivindicava

a continuidade da constru„…o da CUT e a prŽtica democrŽtica, em particular a garantia

da “participa„…o das bases” como condi„…o da unidade.

Dessa forma, ap†s diversos conflitos, a Comiss…o Pr†-CUT formada em


1981 acabou rompendo. O bloco que depois veio a fundar a CUT defendia uma Central
formada por Sindicatos Oficiais, por Oposi„•es e por Associa„•es de trabalhadores. O
bloco que recusou a participa„…o da CUT exigia a participa„…o apenas no interior da
estrutura sindical oficial, com a proposta de uma Central formada apenas pelos

14
CUT. ResoluƒŠes da Confer‚ncia Nacional da Classe Trabalhadora. 1981 in: CUT 20 anos – 1983 a
2003. CD-ROM

21
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Sindicatos Oficiais e pelas Federa„•es e Confedera„•es constituˆdas no ‘mbito estatal.


Entretanto, como nos diz Vito Giannoti, n…o podemos reduzir o racha do sindicalismo
brasileiro no ano de 1983 apenas •s quest•es de estrutura sindical:

“O problema ‹ bem mais profundo. O pessoal que se recusou a


participar do Congresso de S…o Bernardo, onde se fundou a CUT,
era conhecido, dentro do movimento pr†-CUT, como “pessoal da
reforma”. (...) As pessoas, diretamente ligadas, ou na Žrea de
influŠncia do Partido Comunista Brasileiro (PCB), defendiam que a
mudan„a polˆtica rumo a um regime democrŽtico seria obtida
atrav‹s de uma reforma gradual do sistema. (...) Junto com o PCB,
estavam os sindicalistas alinhados com o PC do B. (...) Estes, o
PCB e o MR8, eram apelidados, em bloco, de reformistas. (...). Os
que se juntaram a CUT defendiam uma via de transforma„…o
“revolucionŽria”. Essa palavra estava bastante imprecisa, indefinida
e vaga. Servia, na ‹poca, para marcar uma posi„…o e diferenciŽ-la
da defendida pelos denominados, pejorativamente, de “pessoal da
reforma”15 .

As divergŠncias n…o eram apenas de cunho organizativo, mas de


concep„…o polˆtico-programŽtica. Desde o processo de formaƒ„o da CUT, as diferenƒas
em torno da pol€tica estratˆgica da Central tinham como quest„o fundamental a
relaƒ„o com o Estado.
N…o apenas o debate sobre a estrutura sindical definiu os princˆpios que
nortearam a forma„…o da CUT, mas tamb‹m sobre de que maneira os trabalhadores
deveriam relacionar-se com o sistema vigente. S† uma parte da Comiss…o Pr†-CUT
tocou de fato a primeira greve geral, puxada em julho de 1983, a qual teve a
participa„…o estimada em dois milh•es de grevistas. Esta greve geral demarcou, de
forma definitiva, as divergŠncias existentes no interior do sindicalismo, tendo como
conseqšŠncia a funda„…o da Central •nica dos Trabalhadores trinta e trŠs dias depois,
em agosto de 1983.

15
NETO, Sebasti…o Lopes; GIANNOTTI, Vito. Para Onde Vai a Cut? S…o Paulo: Scritta.
1993 Pg. 24

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1.2 - 1• Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, I CONCLAT

O 1ΠCongresso Nacional da Classe Trabalhadora, o I CONCLAT (1983),


teve a participa„…o de 5.059 delegados provenientes de 912 entidades diferentes,
representando 12.192.849 trabalhadores. O I CONCLAT deliberou um Plano de Lutas,
uma Coordena„…o, Executiva e Dire„…o Nacional, al‹m dos Estatutos da CUT. No
Capˆtulo 2, chamado “Objetivos e Princˆpios da CUT”, assim a Central definia sua
polˆtica estrat‹gica:

“Artigo 2: Uma sociedade sem explora‚ƒo e democr†tica


A CUT ‹ uma central sindical unitŽria classista que luta pelos objetivos
imediatos e hist†ricos dos trabalhadores, tendo a perspectiva de uma
sociedade sem explora„…o, onde impere a democracia polˆtica, social e
econ—mica. Seu princˆpio fundamental ‹ a defesa intransigente dos
direitos, reivindica„•es e interesses gerais ou particulares dos
trabalhadores brasileiros, bem como do povo explorado.16 ”

Nesse sentido, na CUT tinham ficado aqueles que queriam uma Central
para a defesa dos interesses dos trabalhadores, uma Central classista, profundamente
crˆtica em rela„…o • polˆtica de concilia„…o de classes construˆda pelas lideran„as
sindicais do perˆodo da ditadura empresarial-militar:

“Artigo 4: Unidade de classe


A CUT defende a unidade da classe trabalhadora e objetiva
representŽ-la em nˆvel nacional, com respeito absoluto pelas convic„•es
polˆticas, ideol†gicas, filos†ficas e religiosas. A CUT tem como tarefa avan„ar
na unidade da classe trabalhadora e n…o na coopera„…o entre as classes sociais
(exploradores e explorados), lutando por sua independŠncia econ—mica, polˆtica
e organizativa. 17 ”

Do ponto de vista da estrutura organizativa, estavam presentes desde


poderosos sindicatos, frutos da estrutura sindical oficial em vigor, at‹ oposi„•es

16
CUT – Resolu„•es do 1Œ Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, 1983. In: CUT 20 anos – 1983 a
2003. CD-ROM
17
CUT – Resolu„•es do 1Œ Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, 1983 In: CUT 20 anos – 1983 a
2003. CD-ROM

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sindicais e associa„•es de trabalhadores que a estrutura oficial n…o contemplava, como


os funcionŽrios p“blicos. A CUT nascia, portanto, com um pˆ fora e outro dentro da
estrutura sindical oficial.
O Plano de Lutas aprovado tinha diversos pontos, dentre os quais: fim da
polˆtica econ—mica do governo; rompimento dos acordos com o FMI; liberdade e
autonomia sindical; liberdade de organiza„…o polˆtica; reforma agrŽria sob controle dos
trabalhadores; n…o pagamento da dˆvida externa; fim da Lei de Seguran„a Nacional; fim
do Regime Militar e por um governo controlado pelos trabalhadores; elei„•es diretas
para Presidente; estabilidade no emprego e salŽrio-desemprego; direito de organiza„…o
no local de trabalho, redu„…o da jornada de trabalho para 40 horas sem redu„…o de
salŽrio, extin„…o da hora extra, contra o arrocho salarial, em defesa do direito •
habita„…o e legaliza„…o imediata das Žreas ocupadas; dentre outros18 .
Paralelamente a esse processo, os setores articulados em torno da
Unidade Sindical marcaram um Congresso pr†prio para os dias 4 a 6 de novembro de
1983. Para a US, o bloco dos combativos era, na verdade, “vanguardista”:

“estes companheiros (...) tŠm desenvolvido interven„•es – sobretudo


aqueles que obedecem aos consignas de “greve geral” e a “CUT jŽ” – que
lhes custaram duros golpes, com efeitos negativos para o movimento
(recordem-se as greves de Paulˆnia(SP) e as interven„•es em sindicatos
mais recentes.19 ”

Al‹m disso, para a Unidade Sindical, a melhor tŽtica em torno do avan„o


do regime democrŽtico era uma saˆda negociada baseada na press…o e n…o no
confronto20 . Mesmo assim, ap†s estas divergŠncias e da constru„…o de espa„os
paralelos, a CUT entregou a Unidade Sindical uma carta defendendo a “unidade na luta”
em torno do Plano de Lutas aprovado no I CONCLAT e a participa„…o de todas as
entidades sindicais nos congressos estaduais e regionais preparat†rios para o I
Congresso Nacional da CUT, marcado para agosto de 1984. Dessa forma, buscava-se
uma possˆvel reunifica„…o:

18
CUT. Resolu„•es do 1Œ Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, 1983 In: CUT 20 anos – 1983 a
2003. CD-ROM
19
Voz da Unidade, 11/8/1983. Retirado de: GIANNOTTI, VITO. CUT – Por dentro e Por fora.
Petr†polis, Vozes: 1999. PŽg 39
20
“Assim como uma saˆda democrŽtica para a crise brasileira requer hoje solu„•es negociadas • base da
press…o organizada das massas e n…o na aposta no confronto, ela tamb‹m requisita a unidade dos
trabalhadores.” Idem, ibidem. PŽg 39.

24
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“O Conclat tra„ou um Plano de A„…o que julga ser o caminho mais


correto para atingir os objetivos mais imediatos e futuros dos
trabalhadores da cidade e do campo. Dentro desta perspectiva de luta
concreta, a CUT estŽ disposta a somar for„as com todos os setores do
movimento sindical e estŽ aberta ao debate21 ”

Entretanto, o processo de divis…o entre a CUT, de um lado, e os setores


agrupados na Unidade Sindical, de outro, foi mantido.
Nesse 1Œ CONCLAT, as decis•es foram tomadas, em geral, por consenso
ou por ampla maioria. O tema mais polŠmico foi a defini„…o da forma da dire„…o da
CUT. Delinearam-se duas posi„•es: uma, em favor da elei„…o de uma diretoria, com
nomes e cargos definidos; outra em defesa da elei„…o de um colegiado, sem defini„•es
de cargos. No final houve um acordo de elegerem-se sete nomes para a Coordena„…o
Nacional, incluindo um coordenador geral, Jair Meneguelli. Dentre os escolhidos, a
maioria era de metal“rgicos (4 de 7)
No processo de constru„…o do I Congresso da CUT foi impulsionada a
conforma„…o de CUT`s Estaduais e Regionais. Ou seja, ao invˆs de uma concepƒ„o “de
cima pra baixo”, o I Congresso teve como pressuposto a consolidaƒ„o de espaƒos
organizativos mais pr•ximos das bases sindicais. At‹ a PlenŽria Nacional, realizada em
maio de 1984, foram criadas 20 CUTs Regionais, em 8 estados, e 5 CUTs Estaduais.
Al‹m disso, vŽrios outros congressos regionais e estaduais estavam marcados naquele
momento22 .

1.3 – O I• CONCUT: construindo o sindicalismo classista e de luta

Em agosto de 1984 foi realizado o I Congresso Nacional da CUT, o I


CONCUT, contando com 5.222 delegados, de 937 entidades diferentes, representando
11.288.655 trabalhadores. Dos Delegados, 65,9% eram provenientes da Base, e 34,1%
das dire„•es dos sindicatos.
Nas discuss•es deste primeiro Congresso, apesar de certa unidade na
maioria dos temas, existiam diferen„as no que tange a Šnfase de certas propostas. Ou
seja, a grande maioria das delibera„•es era consensual, mas havia divergŠncias na forma

21
Jornal da CUT. S…o Paulo, n. 01. Retirado de OLIVEIRA, Roberto Vˆras de. Op.cit. PŽg 129
22
Idem, ibidem. PŽg 130

25
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que seriam colocadas em prŽtica. Um exemplo marcante era a rela„…o com o Col‹gio
eleitoral e com a luta das Diretas JŽ.
Mesmo ap†s a derrota da Emenda “Dante de Oliveira” no Parlamento, a

qual defendia a elei„…o direta pra presidente, a CUT manteve a luta pelas “Diretas jŽ”,

defendendo um boicote ao Col‹gio Eleitoral e a necessidade de novas elei„•es

realmente democrŽticas. Sua polˆtica era denunciar a farsa colocada, e criticar as

candidaturas do Col‹gio Eleitoral, tanto Tancredo quanto Maluf.

Para a Tese da “CUT Regional I – Campinas, Sorocaba, Americana,

Piracicaba”, o fundamental da campanha das “Diretas JŽ” era manter a luta pela

democracia nas m…os do povo, e questionar os polˆticos de direita:

“A CUT acha que a luta pelas Diretas jŽ, que a luta pela democracia ‹ de
interesse primeiro da classe trabalhadora. N†s n…o podemos deixar a
bandeira da liberdade, da democracia, nas m…os destes pseudopolˆticos
que dizem defender nossos interesses e acabam fazendo acordos esp“rios
para repartir entre si o poder. (...) Temos que exigir que as Diretas sejam
marcadas JŽ. Temos que repudiar o Col‹gio eleitoral”23 .

A contribui„…o do Sindicato dos Metal“rgicos de Belo Horizonte e

Contagem, e Sindicato da Constru„…o Civil de S…o Bernardo do Campo, tem maior

Šnfase na posi„…o de classe das candidaturas colocadas no col‹gio eleitoral:

“A oposi„…o burguesa tenta fazer os trabalhadores aceitarem a


candidatura de Tancredo pelo Col‹gio Eleitoral como a “nica alternativa
real para o paˆs. NƒO! O congresso da CUT deve afirmar que n…o ‹ a
“na„…o” que estŽ unida junto com o Tancredo, e sim a burguesia que estŽ
unida em torno do Col‹gio Eleitoral com seus dois candidatos Tancredo e
Maluf. (...) Nem Tancredo nem Maluf. Fora os candidatos bi—nicos dos
patr•es. S† os trabalhadores podem levar a luta contra os militares at‹ o
fim” 24 .

23
Contribui„…o ao 1Œ Congresso da CUT – CUT Regional I– Campinas, Sorocaba, Americana, Piracicaba.
In: Teses para o 1ΠCongresso da CUT (mimeo)
24
Tese do Sindicato dos Metal“rgicos de Belo Horizonte e Contagem e Sindicato da Constru„…o Civil de
S…o Bernardo do Campo. In: Teses para o 1Œ Congresso da CUT (mimeo)

26
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Defende tamb‹m, mesmo que de forma cuidadosa e incipiente, que a


postura da dire„…o da CUT foi vacilante em rela„…o •s greves gerais:

“Por duas vezes seguidas(...) a dire„…o nacional suspendeu as greves


marcadas. Isto desgastou a polˆtica de greve geral e a pr†pria CUT de tal
maneira que hoje muitos ativistas duvidam, n…o em fun„…o da
necessidade da greve geral, mas pelo marca-desmarca desmobilizante.
(...) A CUT jŽ poderia ter se transformado no organismo centralizado das
lutas dos trabalhadores se tivesse aplicado a polˆtica de greve geral
votada em seu congresso de funda„…o. Infelizmente isto n…o se deu.25 ”

Fica claro, portanto, que desde o in€cio do processo de consolidaƒ„o da


CUT existiram diferenƒas no seu interior, especialmente no que tange a necessidade de
den‹ncia do car‰ter burgu‚s do Estado e na ‚nfase em torno da greve geral.
Al‹m disso, a Tese do Sindicato dos Metal“rgicos de Belo Horizonte
defendia a necessidade de apresentar um “anti-candidato dos trabalhadores s† pelas
diretas” – Lula:
“Quando o Congresso da CUT estiver sendo realizado, todos os patr•es
burgueses e as outras for„as polˆticas jŽ ter…o se definido em torno de um
candidato. (...) N†s propomos que este Congresso aponte Lula como
candidato e abra a discuss…o com o PT e com todas as for„as que se
disponham a apoiar um candidato “nico dos trabalhadores, s† pelas
diretas. (...) um anti-candidato dos trabalhadores para um governo dos
trabalhadores.26 “

No final, a resolu„…o aprovada no Congresso destacou o papel de


concilia„…o do Col‹gio Eleitoral, e a preserva„…o da polˆtica da ditadura civil-militar.
No mais, n…o fez qualquer referŠncia a uma “anti-candidatura” de Lula:

“A CUT lutarŽ pelo fim do regime militar e contra a candidatura de Paulo


Maluf, que expressa sua continuidade e tamb‹m se posiciona firmemente
contra a proposta da Alian„a DemocrŽtica e a candidatura de Tancredo–
Sarney, porque representa a concilia„…o com o regime, a preserva„…o dos
acordos com o FMI e a trai„…o polˆtica da vontade democrŽtica e das
reivindica„•es mais elementares do povo brasileiro27 ”

25
Idem, ibidem.
26
Tese do Sindicato dos Metal“rgicos de Belo Horizonte e Contagem e Sindicato da Constru„…o Civil de
S…o Bernardo do Campo. In: Teses para o 1Œ Congresso da CUT (mimeo)
27
CUT – Resolu„•es do 1Œ Congresso Nacional da CUT – 1984. In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-
ROM

27
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No I CONCUT outro ponto fundamental era a campanha pela redu„…o da


jornada de trabalho sem redu„…o dos salŽrios. A Tese da CUT Regional ABC defendia
que a melhor forma de unificar o movimento sindical, caminhando em conjunto com o
movimento popular para disputa da opini…o p“blica brasileira, era construir lutas que
sensibilizassem os trabalhadores, baseadas em uma reivindica„…o principal mais
detalhada, n…o muito gen‹rica. Citava-se enquanto exemplo a luta dos trabalhadores
metal“rgicos alem…es, que atrav‹s de sua Central Sindical IG Metal realizou o “maior
conflito da hist†ria recente da Alemanha entre operŽrios e patr•es”, numa enorme greve
que resultou na conquista da redu„…o de jornada de trabalho de 40 horas semanais para
38,528 . Assim, a CUT deveria recolher detalhadamente dados sobre as jornadas de
trabalho no Brasil e Exterior, base de uma estrat‹gia para sensibilizar os trabalhadores,
elegendo ent…o, uma comiss…o especˆfica para este fim.
Outro exemplo reafirmado na tese era da CFDT, a Central Francesa, que
tinha enquanto um dos seus slogans a luta “Para Viver melhor”, vinculando a queda da
jornada de trabalho ao aumento da qualidade de vida do trabalhador, pois “algu‹m que
trabalhe menos tem mais tempo para ele mesmo, para viver mais, (...) [isto] reduziria os
efeitos de uma jornada estafante no seu pr†prio corpo”29 . Assim, a relaƒ„o
internacional da CUT, neste momento, estava mais vinculada Ž refer‚ncia das lutas e
mobilizaƒŠes do que uma cumplicidade org•nica com alguma outra Central:

“Artigo 9: Solidariedade internacional


A CUT serŽ solidŽria com todos os movimentos da classe trabalhadora e
dos povos que caminham na perspectiva de uma sociedade livre e
igualitŽria. A CUT serŽ solidŽria nas lutas pela emancipa„…o da classe
trabalhadora, pela emancipa„…o dos povos e pelo fim das guerras
imperialistas. A CUT manterŽ rela„•es com todas as Centrais Sindicais,
conservando sua autonomia e independŠncia.30 ”

Do ponto de vista mais prŽtico, o “nico encaminhamento foi o indicativo


de constru„…o do “Encontro Latino-Americano sobre Dˆvida Externa”, em conjunto com
a “PlenŽrio Intersindical de Trabalhadores/Conven„…o Nacional dos Trabalhadores –
PIT/CNT” do Uruguai e a COB Boliviana. A perspectiva era de uma “participa„…o
28
Tese da CUT REGIONAL ABC. In: Teses para o 1ΠCongresso da CUT (mimeo)
29
Idem, ibidem.
30
CUT – Resolu„•es do 1Œ Congresso Nacional da CUT – 1984. In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-
ROM

28
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ampla e unitŽria procurando com que todas as for„as sindicais participem e encaminhem
um processo de luta que nos libere do peso da dˆvida externa e das imposi„•es do
FMI.31 ”
Neste Congresso foi eleita consensualmente uma executiva nacional com
divis…o de cargos, sendo estes: Presidente, Vice-presidente, SecretŽrio-geral,
Tesoureiro, Segundo Tesoureiro, Secretaria Rela„•es Internacionais, Secretaria Rural,
Secretaria Imprensa e Divulga„…o, Secretaria Polˆtica Sindical e Secretaria Forma„…o.
Na delibera„…o “Plataforma de lutas dos trabalhadores” destacavam-se a defesa do
rompimento com o FMI e o n…o pagamento da dˆvida externa, a exigŠncia do fim do
arrocho salarial e a defesa da autonomia sindical com o fim do tˆtulo V da CLT32. A
Central mantinha seu carŽter de massas, unindo trabalhadores de diversas Žreas, a defesa
do classismo e necessidade de supera„…o do capitalismo.

1.4 O in€cio da Secretaria Nacional de Formaƒ„o da CUT

No IŒ CONCUT foi tamb‹m eleita a primeira secretŽria nacional de


Forma„…o, Ana L“cia da Silva, professora de Hist†ria da Universidade Federal de
GoiŽs. › importante frisar que a primeira secretŽria nacional de Forma„…o era a ‹nica
pessoa da direƒ„o nacional oriunda da base, e n„o de uma direƒ„o sindical, e sem
pertencimento a nenhum agrupamento pol€tico-partid‰rio.

No perˆodo de sua gest…o, as condi„•es de desenvolvimento do trabalho


das dire„•es eram materialmente precŽrias, com pouca disponibilidade de recursos, sem
liberaƒ„o sindical para cumprimento das tarefas militantes. Ana L“cia dispunha apenas
de uma secretŽria, e era obrigada a viajar constantemente de GoiŽs, onde morava, para
S…o Paulo, onde se localizava a sede nacional da CUT. Podemos afirmar que, ao mesmo
tempo em que as dificuldades materiais do inˆcio da forma„…o polˆtico-sindical
diminuˆam o alcance de seus objetivos, sua estrutura pouco burocrŽtica viabilizava a
manuten„…o de uma concep„…o de Central mais pr†xima a de movimento social, e
menos de um aparelho centralizado. Nesse contexto, a Secretaria Nacional de
Forma„…o deu inˆcio ao processo de discuss…o de uma polˆtica de forma„…o, baseada nos
princˆpios da Central elencados em seu estatuto. Segundo Ana L“cia:

31
Idem, ibidem.
32
Iidem, ibidem.

29
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“A pol€tica de formaƒ„o da CUT tinha que se estruturar a partir dos


princ€pios de criaƒ„o da Central e que indicavam uma CUT classista, de
luta, de massa, uma CUT anticapitalista, que se entendia como
instrumento na luta pela destruiƒ„o do capitalismo e criaƒ„o de uma
sociedade socialista, uma CUT democrŽtica, pela base. Ent…o, minha
avalia„…o enquanto secretŽria de forma„…o, e aˆ eu expus tanto para a
executiva como para a dire„…o nacional... para todos os setores que
estavam na funda„…o da CUT, era que a forma„…o da CUT tinha que
apontar para a estrat‹gia que a CUT tinha, quer dizer, a forma„…o tinha
que ser um instrumento tŽtico na perspectiva estrat‹gica que estava
formulada nos estatutos da CUT. E que, para isso, ent…o, era necessŽrio
unificar, apontar uma forma„…o que, respeitando as especificidades
regionais, tivesse uma perspectiva nacional”33

Dessa forma, a primeira gest…o da SNF, que foi de agosto de 1984 a


junho de 1986, tinha como norteador de sua polˆtica o estatuto da CUT, e seus
princˆpios primordiais como o classismo e o anticapitalismo. A partir desses princˆpios
que foi pensada uma polˆtica nacional de forma„…o polˆtico-sindical na Central naquele
momento.
Para sua concretiza„…o, foi realizado o SeminŽrio Nacional para os
SecretŽrios de Forma„…o, o qual ocorreu entre 27 e 30 de mar„o de 1986. Al‹m desse
seminŽrio, a SNF organizou, em 1985, cinco seminŽrios regionais com dura„…o de dois
dias cada, tendo como objetivo debater a quest…o da estrutura„…o sindical34 . Outra
atividade desenvolvida pela Secretaria Nacional de Forma„…o foi a organiza„…o, •s
v‹speras do II CONCUT, de encontros estaduais, e depois, como desdobramento, um
encontro nacional de mulheres, o qual apresentou ao congresso uma proposta a respeito
da quest…o de gŠnero na CUT. A Secretaria tamb‹m promoveu algumas atividades para
debater a quest…o da constituinte, tema fundamental para a conjuntura da ‹poca.

Entretanto, mesmo que a SNF tenha construˆdo um conjunto de a„•es em


‘mbito nacional, a id‹ia proposta era que a Secretaria apenas organizasse e coordenasse
os programas de forma„…o, que seriam executados principalmente pelas secretarias
estaduais da CUT. Estas tinham melhores condi„•es para construir os programas de
forma„…o, na medida em que as quest•es geogrŽficas e materiais eram de suma
import‘ncia para a Central naquele perˆodo, tendo em vista seus escassos recursos, e sua
pouca centraliza„…o organizativa. A principal Secretaria de Forma„…o estadual foi a da

33
Entrevista de Ana L“cia da Silva • Paulo Sergio Tumolo. Fonte: TUMOLO, Paulo Sergio. Da
Contesta„…o • Conforma„…o – A Forma„…o Sindical da CUT e a Reestrutura„…o Capitalista. S…o Paulo, Ed
Unicamp, 2001., pg 144.
34
Idem, pg. 146

30
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CUT S…o Paulo, destacando-se na realiza„…o de diversos cursos de forma„…o polˆtico-


sindical. Os cursos propostos por essa secretaria estadual eram divididos
fundamentalmente em dois tipos: 1) cursos mais prŽticos, que provinham das demandas
colocadas pelo movimento sindical cutista, particularmente pelas oposi„•es sindicais, os
quais davam suporte para a luta contra os “pelegos” e em rela„…o a administra„…o dos
sindicatos, como os cursos de “administra„…o sindical”, “negocia„…o sindical” e
“organiza„…o nos locais de trabalho”. Eram cursos rel‘mpago, com dura„…o aproximada
de 8 a 20 horas, solicitados pelo pr†prio movimento. 2) cursos mais te†ricos,
idealizados pela equipe de forma„…o da secretaria estadual. O primeiro curso, que veio a
ser chamado de “Quest•es do Sindicalismo”, era dividido em duas partes; na primeira
discutia-se a sociedade capitalista e as classes sociais em luta, na segunda o sindicato
como instrumento de organiza„…o e luta dos trabalhadores frente •s classes dominantes.
Retoma-se a hist†ria do movimento operŽrio-sindical e de suas lutas, inserindo a CUT
em um quadro mais amplo. Este curso foi dividido posteriormente em dois: “No„•es
bŽsicas de economia polˆtica” e “Hist†ria do movimento operŽrio-sindical no Brasil”35 .

A marca caracterˆstica da primeira gest…o da Secretaria Nacional de


Forma„…o foi certa autonomia relativa no que tange as disputas internas da Central, jŽ
que sua SecretŽria provinha da base e n…o tinha uma rela„…o de alinhamento automŽtico
com nenhum campo polˆtico, como tamb‹m seu coletivo de formadores. Esta autonomia
relativa e a pequena estrutura burocrŽtica da CUT no perˆodo garantiram uma pol€tica
de formaƒ„o pol€tico-sindical baseada no classismo e no anticapitalismo como
princ€pios norteadores, em conson‘ncia com o estatuto da Central.
Mas, apesar da certa uniformidade da trajet†ria polˆtica da CUT no
perˆodo de sua forma„…o, a conjuntura do paˆs apresentava importantes mudan„as. Ap†s
a elei„…o de Tancredo Neves de forma indireta, este foi internado •s pressas na v‹spera
de sua posse, em mar„o de 1985, para uma cirurgia de emergŠncia, cabendo ao vice,
Jos‹ Sarney36 , assumir interinamente a PresidŠncia da Rep“blica. Tancredo Neves
acabou por falecer em 21 de abril, com 75 anos de idade, vˆtima de infec„…o
generalizada. Mesmo com o slogan “Fora Daqui, com o FMI” da oposi„…o • ditadura,
de Tancredo ter dito que “n…o pagaria a dˆvida com a fome e a mis‹ria do povo
brasileiro”, a equipe econ—mica montada por ele e mantida por Jos‹ Sarney, liderada

35
Idem, pg. 152
36
Jos‹ Sarney foi Presidente da Arena (Alian„a Renovadora Nacional) em 1979, Partido de sustenta„…o
da Ditadura empresarial-militar.

31
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pelo Ministro da Fazenda Francisco Dornelles37 n…o apresentou nenhuma resistŠncia ao


modelo imposto pelo FMI.
A polˆtica econ—mica de Dornelles, de concep„…o ortodoxa e condizente
com os dogmas do FMI, primava pela redu„…o do d‹ficit p“blico atrav‹s do corte nos
gastos. Mesmo que contendo provisoriamente a espiral inflacionŽria, o represamento
dos pre„os p“blicos em um contexto de escalada da taxa de juros e ajustes cambiais
maiores agravou dramaticamente a situa„…o do setor p“blico estatal, aumentando seu
d‹ficit e as press•es sobre ele, al‹m de cis•es entre Žreas do governo afetadas pelo corte
de gastos. Assim, rapidamente perdeu-se o controle sobre o d‹ficit p“blico e a polˆtica
econ—mica defendida por Dornelles tornou-se insustentŽvel38 .
Com o fracasso da polˆtica econ—mica do Ministro Francisco Dornelles,
uma nova equipe econ—mica assumiu, liderada pelo empresŽrio Dˆlson Funaro como
Ministro da Fazenda. Esta nova equipe se deparava com o problema financeiro, com o
aumento de gastos com pessoal e encargos em todas as esferas da administra„…o p“blica
e a retomada dos investimentos por estados e municˆpios e a hiperinfla„…o. Para
enfrentar estes problemas, dentre outros, em 28 de fevereiro de 1986 o Governo Sarney
anunciou o Plano Cruzado. Esse plano econ—mico baseava-se na teoria da “infla„…o
inercial”, combinando medidas monetaristas tradicionais – como taxas de juros,
austeridade fiscal – e medidas intervencionistas, como o congelamento de pre„os e
salŽrios39 . Com uma intensa campanha nos meios de comunica„…o, a governo teve
enorme aprova„…o da sociedade, segundo as pesquisas de opini…o; surgiram os “fiscais
do Sarney”, pessoas armadas de tabelas que percorriam supermercados fiscalizando os
pre„os. Apesar das crˆticas que o plano passou a receber, inclusive da sua base de
sustenta„…o, que defendiam “ajustes” de pre„os e tarifas, em 15 de novembro de 1986 o
PMDB, partido do Presidente da Rep“blica, elegeu 22 dos 23 governadores.
Desde 1985, o Governo e o empresariado procuravam de toda a forma
interlocutores para realizar um pacto social. O objetivo da classe dominante estava

37
A presen„a de Dornelles, dentre outros aspectos da transi„…o, demonstra a permanŠncia de fortes
caracterˆsticas da ditadura empresarial-militar no perˆodo posterior do estado burguŠs representativo; as
mudan„as moleculares ocorridas no interior do aparelho de Estado mantiveram a presen„a tanto de
membros do governo anterior, como de manuten„…o da estrutura polˆtico-burocrŽtico do aparelho e da sua
forma de atua„…o. Francisco Dornelles foi Procurador-Geral da Fazenda Nacional - 1975/1979, Membro
do Conselho Administra„…o do Banco do Brasil S/A - 1977/1979,SecretŽrio da Receita Federal -
1979/1985 e Membro do Grupo de Peritos das Na„•es Unidas em Mat‹ria de Coopera„…o TributŽria
Internacional - 1981/1984.
38
ALMEIDA, Gelson Rozentino de. A hist•ria de uma dˆcada quase perdida: 1979-1989. Teste
(Doutorado em Hist†ria) - Universidade Federal Fluminense. 2000. PŽg 44
39
Idem, pg 49

32
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evidente: garantir a acumula„…o do capital em patamares rentŽveis em uma ‹poca de


crise, tornando-se necessŽrios esfor„os para controlar os trabalhadores. Entretanto, a
postura ideol•gica da CUT, que vinha se definindo cada vez mais num sentido classista,
negava qualquer possibilidade de estabelecimento de um pacto social entre as classes.
Como exemplo, temos as resolu„•es do II Congresso da CUT Regional da Grande S…o
Paulo, realizado em 1985:
“Foi correta a posi„…o da CUT de recusa do pacto social, de atuar para
inviabilizŽ-lo por meio da pr†pria luta e criar um sentimento de
condena„…o da id‹ia de colaborar com este Governo. De fato, temos que
fomentar uma oposi„…o radical • proposta de pacto social, que visa
unicamente estabelecer a colabora„…o de classes para estabelecer a
transi„…o em favor do capital. Nesta dire„…o, ‹ essencial desfazer as
ilus•es dos que pensam que possa existir pacto bom; todo e qualquer
pacto social e ganancioso e desarma os trabalhadores para a defesa dos
seus interesses hist†ricos e imediatos. 40 “

Em rela„…o ao Plano Cruzado, a CUT saiu imediatamente •s ruas com


jornais e panfletos criticando este plano como ilus†rio e demagogo. Neste ataque estava
implˆcita a nega„…o do pacto social e de qualquer tentativa de garantir estabilidade
governamental atrav‹s de um acordo tripartite, entre Governo, empresariado e
trabalhadores.
Em Junho de 1986 ocorreu o 1Œ Encontro Nacional dos Metal“rgicos da
CUT, na Praia Grande (SP), reunindo 173 delegados de 11 Estados. Dentre as suas
resolu„•es estavam a luta pela incorpora„…o na Constituinte uma “nica data-base, e a
necessidade de uma campanha salarial unificada com um eixo polˆtico bem definido
com todos os sindicatos e oposi„•es, bem como a pauta bŽsica comum a ser negociada e
as formas de luta a serem utilizadas41 . Outro ponto importante era o fortalecimento da
CUT atrav‹s da conquistas de novos sindicatos que n…o estavam filiados, sendo
encaminhado um encontro das oposi„•es metal“rgicas para planejar a conquista de
novas entidades. O clima de avan„o e consolida„…o da CUT estava colocado.

40
Resolu„•es do II Congresso da CUT Regional da Grande S…o Paulo – 1985. Retirado de GIANNOTTI,
Vito; NETO, Sebasti…o. CUT, por dentro e por fora. Petr†polis, Vozes,1990. PŽg 56.
41
CUT. Boletim Nacional Especial: 1Œ Encontro Nacional dos Metal“rgicos da CUT. Junho de 1986. PŽg
2

33
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1.4 – O II CONCUT: avanƒar nas lutas

Em agosto de 1986 foi realizado no GinŽsio do Maracan…zinho, no Rio


de Janeiro, o II CONCUT, com a participa„…o de 5.564 delegados provenientes de 1.014
entidades, representando 12.423.214 trabalhadores. Dos delegados, 70,51% vinham da
Base, enquanto 29,49% da Diretoria dos sindicatos. Neste Congresso, a Central se
definiu claramente pelo socialismo, como explicita„…o do que entendia por classismo e
independŠncia de classe. Entre as formula„•es, estavam:
“A CUT tem como preocupa„…o polˆtica permanente a articula„…o
das lutas em defesa de melhores condi„•es de vida e de trabalho,
com as transforma„•es de fundo da sociedade brasileira em
dire„…o • democracia e ao socialismo. (...)
A CUT faz avan„ar a luta de classe enquanto consegue apontar
para a constru„…o de uma sociedade socialista, (...)
A alternativa dos trabalhadores para a sociedade ‹ o
socialismo.42 ”

Outra caracterˆstica importante ratificada no II CONCUT foi a


valoriza„…o da organiza„…o por local de trabalho. Essa organiza„…o pela base era para a
CUT a maneira de viabilizar a mobiliza„…o dos trabalhadores, garantida por uma prŽtica
democrŽtica de grandes Assembl‹ias e a constru„…o de diversas inst‘ncias deliberativas.
Em rela„…o •s polˆticas p“blicas implementadas pelo Governo Sarney, a
CUT teve uma postura clara de den“ncia e da necessidade de seu controle por parte dos
trabalhadores:

“A CUT denuncia a propaganda criminosa que o governo Sarney


vem realizando em torno de polˆticas sociais que nunca se
efetivaram. (...) A CUT exige a amplia„…o dos gastos sociais e
controle dos trabalhadores na destina„…o desses recursos e na
qualidade dos servi„os prestados. 43 “

Entretanto, existiram importantes diferen„as em rela„…o • concep„…o do


que seriam realmente os espa„os de organiza„…o de trabalho. A tese da Executiva
Nacional da CUT defendia que s† poderiam participar da comiss…o sindical de base os
trabalhadores sindicalizados:
“As elei„•es sindicais para a comiss…o de base ser…o realizadas da
seguinte forma:
42
CUT. Resolu„•es do II Congresso Nacional da CUT. 1986. In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
43
Idem.

34
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a) Votam todos os trabalhadores maiores de 16 anos, em dia com as suas


obrigaÄÅes e que tenham se associado atÇ a publicaÄÉo do edital que
convoca as eleiÄÅes;
b) Podem ser votados os sindicalizados maiores de 16 anos, em dia com
as suas obrigaÄÅes e com, pelo menos, seis meses de sÑcios;44”

A tese 2, dos Metal“rgicos da Capital Paulista, Sapateiros de Franca,


Vidreiros, Coureiros, PlŽsticos e Frios da Capital Paulista defendia que neste espa„o de
base, denominado “Comiss…o de FŽbrica ou Empresa”, qualquer trabalhador poderia
participar, sindicalizado ou n…o:
“As Comiss•es de FŽbrica ou Empresa devem ser construˆdas como
organismos que representam o conjunto dos trabalhadores daquela
f†brica ou empresa, sindicalizados ou nƒo. Suas tarefas v…o al‹m do
trabalho sindical na fŽbrica ou empresa e por isso devem ser
independentes da estrutura sindical, buscando se constituˆrem como uma
verdadeira escola de poder operŽrio.45”

Nesse sentido, jŽ no II CONCUT existiram diferen„as na avalia„…o no


que tange a estrutura sindical. Em que medida a estrutura do sindicato reflete certa
burocracia, sendo necess‰rio, portanto, espaƒos de organizaƒ„o aut†nomos dos
trabalhadores, inclusive em relaƒ„o aos sindicatos? Mesmo ap•s a implementaƒ„o de
uma nova estrutura sindical, mais democr‰tica, seria necess‰rio a construƒ„o de
espaƒos aut†nomos, por fora dos sindicatos?
A tese da Executiva Nacional defendia um espa„o de organiza„…o do
sindicato mais pr†ximo da base, enquanto a tese dos Metal“rgicos da Capital Paulista
defendia um espa„o de auto-organiza„…o dos trabalhadores referenciado no sindicato,
mas n…o fazendo parte da sua estrutura de forma restrita. No final, depois de acirrado
debate, uma terceira resolu„…o foi aprovada, definindo a existŠncia da comiss…o sindical
de base atrav‹s de trabalhadores filiados, e indicando a import‘ncia de constru„…o
tamb‹m das comiss•es de fŽbrica. Assim, ambos os espa„os conviveriam com carŽter
diferenciado:

“Al‹m das comiss•es sindicais de base vinculadas • nova


estrutura sindical devemos implantar as comiss•es de fŽbrica ou

44
Quest…o B- Artigo 8Œ Sobre a comiss…o sindical de base in: Caderno 3 das Tese do II CONCUT. PŽg 10
Grifos Nossos.
45
ibidem, pŽg 11

35
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de empresa, mantendo sua independŠncia e autonomia em rela„…o


ao sindicato.46 ”

Esta resolu„…o, apesar de definir na estrutura dos sindicatos Cutistas


espa„os de base realmente aut—nomos, acabou tamb‹m por consolidar uma concep„…o
das lutas dos trabalhadores vinculada • estrutura dos sindicatos. Ou seja, as
contradi„•es em rela„…o • concep„…o de luta sindical jŽ faziam parte dos debates da
CUT.

Outro tema importante foi a proporcionalidade nos espa„os de dire„…o.


Antes do Congresso, a Executiva Estadual de S…o Paulo defendeu o fim da
proporcionalidade em todas as Executivas, propondo sua composi„…o apenas pelos
membros da chapa majoritŽria47 . Esta proposta n…o chegou a ser apresentada no II
CONCUT pelo alto grau de rejei„…o naquele momento; mas o debate em rela„…o •
proporcionalidade jŽ estava colocado. A tese apresentada pelo SINTEL – MG defendia
que a “proporcionalidade n…o era uma quest…o de princˆpio”, e que esta, na verdade,
inviabilizava a constru„…o sindical:

“A proporcionalidade das executivas acaba por diluir


politicamente programas, princˆpios e prŽticas muitas vezes
conflitantes. (...) Tem servido at‹ hoje, na prŽtica, para
invibializar o funcionamento de vŽrias executivas. (...)Tentar
confundir a proporcionalidade com democracia representa, na
verdade, escamotear a vontade e a prŽtica de algumas correntes no
interior do movimento sindical no sentido de garantirem espa„os
nos organismos de dire„…o para poderem encaminhar suas
polˆticas”48 .

Outros sindicatos, ao contrŽrio, defendiam que a proporcionalidade


deveria ser ampliada, “no sentido de fortalecer a democracia interna da CUT,
permitindo que todos os setores que atuam na sua constru„…o tenham n…o s† o direito de
apresentar propostas mas tamb‹m participar de sua dire„…o cotidiana.49 ” No fim, todas

46
CUT. Resolu„•es do II Congresso Nacional da CUT. In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
47
Jornal ConvergŠncia Socialista 0 9/7/86.Fonte: GIANNOTTI, Vito; NETO, Sebasti…o. CUT Ontem e
Hoje, S…o Paulo, Vozes: 1991. PŽg 21
48
Tese No 4 – Sintel – Mg Caderno 3 das Tese do II CONCUT. PŽg 40 Grifos Nossos.
49
Tese No 3 – Metal“rgicos da Metal“rgicos da Capital paulista, Sapateiros de Franca, Vidreiros,
Coureiros, plŽsticos e frios da capital paulista. PŽg 40

36
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as quest•es relativas •s mudan„as de estatuto no que tange a organiza„…o das dire„•es


foram deixadas de lado, reaparecendo apenas no III CONCUT.
Neste II CONCUT foi tamb‹m deliberada a resolu„…o “Princˆpios para a
nova estrutura sindical, sua forma organizativa e seu funcionamento”. Nela, definiram-
se diversas orienta„•es para os sindicatos Cutistas, como tamb‹m a indica„…o do
processo de cria„…o dos departamentos profissionais e o enquadramento sindical em
rela„…o • atividade econ—mica (agropecuŽria, industrial, com‹rcio e servi„os, inativos,
servi„os p“blicos, ut—nomos urbanos e profissionais liberais). Esta era a proposta da
Tese da Executiva Nacional da CUT; entretanto, a Executiva Estadual de SP defendia a
organiza„…o por Federa„…o Estadual ou Interestadual em trŠs setores (agropecuŽrio,
industrial e servi„os), e n…o por departamentos profissionais.
Neste tema, a Tese dos Metal“rgicos da Capital Paulista tinha mais
acordos com aquela apresentada pela Executiva Nacional: o fundamental era a cria„…o
de departamentos como †rg…os sob dire„…o da Central e n…o uma federa„…o com uma
estrutura org‘nica pr†pria e aut—noma em rela„…o • CUT. Para eles, a proposta de
departamentos estaria mais ligada aos sindicatos de base, enquanto a Federa„…o teria um
carŽter mais corporativo.
No Ponto 3 da Resolu„…o aprovada, denominado “Plano de implanta„…o
da nova estrutura sindical”, um dos itens relacionados era “implanta„…o da sustenta„…o
financeira”, baseada em:

“a) batalhar pela aboli„…o do imposto sindical;


b) batalhar pelo fim gradual do assistencialismo, exigindo que o Estado
assuma este papel garantindo-se a sa•de e assist‚ncia mƒdica sob o controle
dos trabalhadores.50”

Um dos maiores dilemas enfrentados pela CUT era que grande parte de
seus sindicatos detinham uma estrutura que ainda guardava resquˆcios do
corporativismo sindical da ditadura militar, ou mesmo da ditadura Vargas. Ganhar uma
elei„…o neste sindicato n…o necessariamente trazia, por si s†, a democratiza„…o do
aparelho sindical: era fundamental implementar medidas que avan„assem na crˆtica ao
modelo burocrŽtico anterior. Entretanto, esta n…o era uma tarefa fŽcil.

50
CUT. Resolu„•es do II Congresso Nacional da CUT.

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O SINTTEL/MRJ (Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de


Telecomunica„•es do Rio de Janeiro), a tˆtulo de exemplo, detinha em 1980, vinte e oito
farmŽcias cadastradas em um sistema de cr‹dito para financiamento de rem‹dios aos
sindicalizados. Al‹m disso, detinha um Departamento Jurˆdico exclusivo para os
associados, que realizou no mesmo ano 1.229 consultas, entre a Žrea de justi„a do
trabalho, cˆvel e criminal. Na Žrea de assistŠncia m‹dica, tinha 18 odont†logos
exclusivos, que atenderam 25.380 associados no ano de 1979, e seis m‹dicos, que
prestaram 4.816 consultas. O Sindicato ainda tinha uma parceria com o SESI para
oferecimento de cursos de 2ΠGrau, corte e costura, trabalhos manuais, pintura em
tecido, artes culinŽrias e doces e salgados e uma col—nia de f‹rias em Barra de S…o Jo…o.
Entre as prŽticas assistenciais para o lazer tamb‹m estavam as “festas e bailes”, como
uma “programa„…o social” contendo o “Show da Telefonista”, o “Festival de Samba”, a
“Festa da Crian„a” e o “Torneio de Pelada”51 . Dessa forma, um dos principais desafios
colocados para a CUT estava no corporativismo e assistencialismo herdados pelos
sindicatos de sua base.
A Constituinte tamb‹m foi um dos debates centrais deste II CONCUT.
As diferen„as, novamente, estavam na Šnfase dada • disputa dos espa„os institucionais
ou em sua “den“ncia”. Segundo a teste da Executiva Nacional, intitulada “Constituinte
sem povo n…o cria nada de novo”, a CUT devia politizar o processo constituinte,
trazendo • tona as demandas dos trabalhadores:

“A nossa participa„…o no processo Constituinte deve, portanto, por um


lado, inviabilizar as tentativas da burguesia de excluir o movimento
operŽrio e popular do processo, por outro, avan„ar rumo ao projeto
polˆtico dos trabalhadores. Do ponto de vista dos trabalhadores a tŽtica
deve se centrar de um lado em questionar os limites que a “Nova
Rep“blica” p•e • democracia, acentuando a necessidade de uma
Constituinte livre, soberana e democrŽtica. 52 “

Para a Tese NŒ 8, encabe„ada pelo Sindicato dos Metal“rgicos de


BH/Contagem, o fundamental era evidenciar o carŽter de classe da Constituinte:

“O Governo da Nova Rep“blica e os patr•es est…o tentando completar a


‘obra’ o pacot…o desviando agora as preocupa„•es para a Assembl‹ia

51
Todos os dados foram retirados da brilhante tese de JUNIOR, Jos‹ Fernando Souto. PrŽticas
Assistenciais em Sindicatos Pernambucanos e Cariocas 1978-1998. Niter†i, PPGH-UFF, 2005.
52
Teses da Executiva Nacional da CUT para o 2Œ CONCUT. PŽg 7

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Constituinte. Aqui tamb‹m se travarŽ uma batalha entre os patr•es e


trabalhadores. S…o interesses inconciliŽveis. (...) Numa greve somos
inimigos e n…o aliados dos patr•es. Tamb‹m na Constituinte deve ser
assim: trabalhadores de um lado, contra todos os patr•es e seus partidos.
53

As vis•es sobre a Constituinte e suas elei„•es demonstravam as diversas


concep„•es existentes na CUT no que tange a disputa ou n…o dos espa„os institucionais.
Em que medida a participaƒ„o da CUT nos espaƒos institucionais seria uma
necessidade da luta ou legitimaƒ„o do Estado Burgu‚s? Qual era o limite entre disputa
de espaƒos e colaboraƒ„o de classe?

Dessa forma, aliado a conjuntura que vivia o movimento sindical em


1986, •s v‹speras das elei„•es para a Constituinte, ocorreu nesse momento um
aprofundamento da organiza„…o e da concep„…o da CUT, balizadas pela atua„…o nos
locais de trabalho, na democracia, no classismo e na luta pelo socialismo.
Por outro lado, o II CONCUT tamb‹m se caracterizou pela formaliza„…o
de tendŠncias internas.
“Assim, aos poucos foram se aproximando politicamente os que n…o
aceitavam promover na CUT, naquele momento, as mudan„as
estatutŽrias que o agrupamento majoritŽrio queria impor. Tamb‹m se
verificou essa aproxima„…o a prop†sito de posi„•es polˆticas que se
ligavam diretamente • vis…o do papel da Central na constru„…o do
socialismo. Embora as diferentes vis•es, dentro da CUT, jŽ estivessem
presentes desde o come„o, devido ao fato que ela se formou a partir de
diferentes prŽticas sindicais, (...) ‹ desse Congresso que saˆram
estruturadas as duas principais tendŠncias da CUT: a “Articula„…o
Sindical”, que se deu este nome pouco tempo depois, e a “CUT pela
Base”, que jŽ estava usando esse nome desde os Congressos Estaduais
que antecederam esse II CONCUT.54 ”

Ou seja, se o II CONCUT representou um aprofundamento das posi„•es


de esquerda da CUT, significou tamb‹m um acirramento da luta polˆtica e ideol†gica
entre as principais correntes polˆticas. Na Elei„…o para a nova dire„…o da Central,
concorreram 3 Chapas: a Chapa 1, ligada • corrente “Articula„…o Sindical” obteve
59,9% dos votos; a chapa 2, representativa dos sindicalistas do “CUT pela Base”,
obteve 28,95%, e uma terceira chapa, representada principalmente pelos setores
alinhados • ConvergŠncia Socialista, teve 11,07%. Foi neste Congresso o “ltimo
53
Tese No 8 – Sindicato dos Metal“rgicos de BH/Contagem, etc. pŽg 94
54
Vito Giannotti e Sebasti…o Nego. CUT: Ontem e Hoje. PŽg. 44

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momento no qual a esquerda socialista da CUT conseguiu imprimir fortemente sua


marca. A partir deste momento, os setores majoritŽrios da Central, referenciados na
“Articula„…o Sindical” e seus aliados, passaram a definir mais concretamente novos
rumos polˆticos para a CUT. Como demonstra„…o do inˆcio da disputa mais clara dos
rumos da Central, temos as mudan„as nos estatutos, especialmente no que tange a
elei„…o dos delegados para o pr†ximo Congresso da CUT, diminuindo a participa„…o da
base:
Tabela 1 - Proporƒ„o dos Delegados– Antes do II CONCUT

At‹ De 2001 a De 10.001 De 30.000 a De 100.001 Mais de


2000 10.000 a 30.000 100.000 a 200.000 200.000
Base 8 15 20 25 30 40
Dire„…o 3 4 5 6 7 8
Propor„…o 2,6 3,75 4 4,16 4,28 5
Base/Dire„…o

Fonte: CUT. Delibera„•es do II Congresso da CUT. Elabora„…o pr†pria

Tabela 2 –Proporƒ„o dos Delegados– P•s II CONCUT

At‹ De 2001 a De 10.001 De 30.000 a De 100.001 Mais de


2000 10.000 a 30.000 100.000 a 200.000 200.000
Base 6 10 14 18 25 30
Dire„…o 3 4 5 6 7 8
Propor„…o 2 2,5 2,8 3 3,57 3,75
Base/Dire„…o

Fonte: CUT. Delibera„•es do II Congresso da CUT. Elabora„…o pr†pria

As tabelas demonstram uma diminui„…o da participa„…o da base em


compara„…o com a dire„…o dos sindicatos para a elei„…o do III CONCUT.
A partir do II Congresso a CUT passa a ser hegemonizada pela
Articula„…o Sindical, a qual concebia atrav‹s da rela„…o entre os elementos de consenso
de suas propostas e a for„a de sua maioria num‹rica, a dire„…o intelectual e moral da
Central. N…o ocorria uma diferencia„…o global entre as minorias, representadas pela
CUT pela Base e pela ConvergŠncia Socialista, e a maioria representada pela
Articula„…o Sindical. Mesmo quando colocava uma proposta para vota„…o, a
Articula„…o Sindical mesclava, de forma subordinada, elementos das propostas da
minoria, mantendo certo consenso no interior da Central que viabilizava sua dire„…o

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intelectual e polˆtica. A cren„a de que todos na CUT eram classistas e socialistas, apesar
das divergŠncias, era o principal elemento de coes…o e consenso. Se no plano interno, a
CUT era hegemonizada pela Articulaƒ„o Sindical, no plano externo, colocava-se
claramente em oposiƒ„o as classes dominantes e seu projeto de classe. A CUT
mantinha-se classista e anticapitalista. A relaƒ„o das classes dominantes com a CUT era
baseada mais na coerƒ„o, seja econ†mica ou f€sica, do que no consenso pol€tico-
ideol•gico: uma relaƒ„o de dominaƒ„o, n„o de direƒ„o.
Em rela„…o •s iniciativas no terreno da polˆtica de forma„…o da Central, o
II CONCUT foi tamb‹m um marco importante.
Antes do Congresso, mas ainda em 1986, foi construˆda a primeira escola
de forma„…o da CUT, o Instituto Cajamar (INCA). Pela primeira vez a polˆtica de
forma„…o foi constituˆda em um espa„o n…o interno da Central: o Instituto Cajamar era
aut—nomo, e tinha como objetivo realizar convŠnios com a CUT para forma„…o de seus
militantes. Al‹m disso, a forma„…o do Instituto tinha outras duas caracterˆsticas
fundamentais: 1) Foi formado por militantes componentes que vieram a fazer parte da
tendŠncia interna da CUT “Articula„…o Sindical”, com o possˆvel objetivo de garantir
uma forma„…o segundo sua orienta„…o polˆtica, independente da polˆtica da Secretaria.
2) Tanto a SecretŽria Nacional de Forma„…o, Ana L“cia da Silva, quanto a equipe de
forma„…o da CUT-SP n…o sabiam da constru„…o do Instituto, dele tomando ciŠncia
apenas nas v‹speras de sua inaugura„…o. Ana L“cia afirma que “quando soube, estava
praticamente tudo criado. (...) nunca nada foi falado publicamente nas instancias da
CUT” 55 . Devido a este fato, a equipe de forma„…o da CUT-SP pediu saˆda, sendo assim
desmantelada. › o inˆcio de um perˆodo de maior disputa da CUT, e de modifica„•es
no ‘mbito da forma„…o polˆtico-sindical.

No II CONCUT a forma„…o sindical foi eleita uma das cinco prioridades


da CUT, e Jorge Lorenzetti, diretor da Associa„…o Brasileira de Enfermagem e
professor da Universidade Federal de Santa Catarina foi eleito para a Secretaria
Nacional de Forma„…o (SNF), na chapa da “Articula„…o Sindical”. O secretŽrio passou a
contar com equipe de dedica„…o exclusiva constituˆda de dois assessores, um agente
administrativo, al‹m de possˆveis colaboradores56 .

O Plano de Trabalho da SNF para 1987, afirmava que:

55
TUMOLO, Paulo Sergio. Op. cit. PŽg 159
56
Idem, Ibidem. PŽg 163

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“a concep„…o classista da sociedade e a defesa dos interesses imediatos e


hist†ricos da classe trabalhadora serŽ o eixo central ou o pano de fundo
de toda a programa„…o da CUT. (...) A reflex…o sobre a hist†ria da luta de
classes no mundo deve ser a principal fonte de saber para o entendimento
da realidade e as perspectivas futuras da luta dos trabalhadores. Desta
forma, o conhecimento e o estudo do capitalismo e do socialismo devem
ser preocupa„…o permanente da forma„…o da CUT”57 .

Podemos perceber que a concepƒ„o classista de formaƒ„o ainda se


manteve ap†s a elei„…o da nova Secretaria Nacional. Entretanto, a maneira pela qual
esta forma„…o foi viabilizada na prŽtica gradativamente modificou suas metas. Apesar
da manuten„…o da concep„…o classista enquanto pano de fundo, os cursos tiveram seus
eixos modificados, e sua Šnfase remodelada. Neste ano, a SNF admitiu que apenas o
eixo sobre sindicalismo foi desenvolvido, pois a Secretaria “n…o teve f—lego para
desenvolver os eixos de economia polˆtica bŽsica e planejamento, administra„…o e a„…o
sindical (...).58 ”

Tamb‹m em 1987 temos a instala„…o da Assembl‹ia Nacional


Constituinte. A f†rmula adotada de “Congresso Constituinte”, com os seus membros
eleitos na elei„…o de 1986 e com mandatos normais, ao inv‹s de uma investidura
especˆfica para a elabora„…o da nova Carta, dissolvendo-se em seguida, decorreu da
preocupa„…o da possibilidade da segunda op„…o estar mais sujeita •s press•es populares.
Desde a sua instala„…o, a Assembl‹ia Constituinte viu-se sob forte
press…o do Executivo, que ainda dispunha de forte margem de atua„…o, viabilizado pelo
chamado “entulho autoritŽrio”. Ademais, a Assembl‹ia refletia, em sua composi„…o, a
heterogeneidade dos agentes sociais, favorecendo o predomˆnio das classes dominantes.
Para termos uma id‹ia, enquanto 32% dos congressistas eram ligados aos setores
industriais, apenas 3% era profissionais manuais ou de nˆvel m‹dio. Segundo Diniz59 , os
interesses do capital, presentes na Constituinte, chegavam a atingir 42,5% do total de
participantes, enquanto que parlamentares ligados aos trabalhadores, chegavam a
somente 12,15%. Temos tamb‹m que levar em considera„…o que, apesar de um n“mero
expressivo de parlamentares vinculados aos empresŽrios, estes expressavam, em certos
momentos, divergŠncias importantes, como a disputa em torno do modelo econ—mico,

57
CUT- Plano de Trabalho da Secretaria Nacional de Forma„…o da CUT – 1987. Fonte: TUMOLO,
Paulo Sergio. Op. cit. Pg. 165.
58
Idem, ibidem.
59
DINIZ, E. E BOSCHI, R. EmpresŽrios e Constituinte. In: CAMARGO, A. e DINIZ, E. Continuidade e
mudan„a no Brasil da Nova Rep“blica.

42
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desenvolvimentista ou neoliberal. A forma„…o do “Centr…o”, que na realidade se


posicionava “• direita”, a agressiva campanha da UDR (Uni…o DemocrŽtica Ruralista) e
a forma„…o de grande capacidade de press…o por parte do empresariado, demonstram o
poder de barganha do grande capital. Do ponto de vista dos trabalhadores, em 12 de
agosto de 1987, diversas entidades populares, entre elas a CUT, entregaram ao
Congresso Constituinte 122 propostas de emendas populares • Constitui„…o, que
somavam mais de quinze milh•es de assinaturas. No dia 3 de dezembro de 1987 a CUT
participou de uma reuni…o em Brasˆlia que congregou mais de duas centenas de
entidades sindicais e populares, chamada “PlenŽria Nacional de Entidades Sindicais,
Populares e DemocrŽticas em Defesa dos Direitos do Povo”, denunciando o ent…o
chamado golpe do “Centr…o”, que tinha como objetivo aprovar medidas danosas aos
movimentos sociais. A CUT tamb‹m participou de uma manifesta„…o com mais de
cinco mil trabalhadores rurais em Brasˆlia, para pressionar a Constituinte por uma
legisla„…o favorŽvel • Reforma AgrŽria.
Em 1988 ocorre a consolida„…o de uma nova Constitui„…o para o paˆs.
Entretanto, sua promulga„…o:

“ap†s dois anos de trabalhos descentralizados, se deu, pois, sem um


impacto capaz de inaugurar um novo trato das quest•es institucionais.
Assegurou conquistas expressivas por parte dos trabalhadores e dos
movimentos sociais, mas deixou clara, tamb‹m, a capacidade de press…o
e intransigŠncia das for„as conservadoras”60 .

No balan„o da constitui„…o podemos afirmar que todos os setores


fundamentais demonstraram descontentamento com o resultado final. N…o houve
nenhuma for„a organizada da sociedade que pudesse declarar uma vit†ria plena, nem
reclamar uma perda total. Entre aqueles que obtiveram as mais importantes propostas
atendidas, temos a UDR e sua vit†ria da contra-reforma agrŽria61 . Os trabalhadores
urbanos, tendo em vista a capacidade de mobiliza„…o da CUT e do PT, prioritariamente,
obtiveram algumas conquistas. Houve uma derrota dos setores populares na
Constituinte, o que n…o diminui o peso da import‘ncia polˆtica de um Partido com um

60
MENDON‚A, Sonia Regina de & FONTES, Virginia Maria. Hist†ria do Brasil recente (1964-1992). 4
ed. rev. atual. S…o Paulo: –tica, 1999. PŽg 91
61
“Antes mesmo da promulga„…o da Carta, a rea„…o do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) ficara expressa no tˆtulo de uma publica„…o sua “Transformar em Carv…o a Constitui„…o”. O MST
explicitava a sua derrota para a articula„…o dos grupos conservadores que imprimiram no texto
constitucional um retrocesso no encaminhamento da quest…o agrŽria.” Retirado de ALMEIDA, Gelsom
Rozentino de. Op. Cit. PŽg. 272

43
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n“mero bem pequeno de representantes polarizar o debate polˆtico no paˆs, garantindo


direitos sociais importantes. No ‘mbito do movimento sindical, o fim do controle do
Minist‹rio do Trabalho sobre os sindicatos, do “estatuto padr…o” e da proibi„…o de
sindicaliza„…o do funcionalismo p“blico foram conquistas inscritas na Constitui„…o. Por
outro lado, manteve-se a unicidade sindical, o monop†lio de representa„…o, o imposto
sindical e o poder normativo da Justi„a do Trabalho. Ou seja, o programa da CUT n…o
se concretizou completamente na Constitui„…o, pois a estrutura sindical oficial, com a
heran„a corporativista, continuou pesando sobre os sindicatos62 . Na falta de projetos
nacionais mais definidos, ocorreu certo consenso por parte das for„as ligadas •s classes
dominantes no sentido do desmantelamento das institui„•es p“blicas, al‹m do
crescimento de um movimento neoliberal, o qual propunha a desregulamenta„…o da
economia e a redu„…o dos investimentos sociais.
No ano de 1988, al‹m da nova Constitui„…o, temos a tentativa, por parte
do Governo Sarney, da realiza„…o de um amplo pacto nacional, como resposta a crise
econ—mica que vinha em andamento. Durante cinco meses, representantes do Governo,
do empresariado e lˆderes sindicais da CGT63 , da ala conhecida como “sindicalismo de
resultados” preparavam, em Brasˆlia, a formula„…o de um pacto social. Neste tempo,
quase diariamente, o horŽrio nobre da televis…o foi ocupado por Jos‹ Sarney, MŽrio
Amato, e o lˆder do “sindicalismo de resultados”, Luiz Antonio Medeiros. Em outubro,
Sarney, preocupado com a ausŠncia da CUT na negocia„…o e buscando maior
representatividade ao principal negociador, Medeiros, eleva-o oficialmente a um papel
nacional, como presidente da artificial Confedera„…o Nacional dos Trabalhadores
Metal“rgicos. Na primeira semana de novembro ‹ assinado o pacto, mas seu peso foi
bem pequeno. As medidas econ—micas propostas foram desconhecidas pelos
trabalhadores. A CUT, neste momento, teve uma postura firme contra o pacto,
denunciando as inten„•es do governo e seu arrocho salarial.

62
MATTOS, Marcelo Badar†. Trabalhadores e sindicatos no Brasil. Rio de Janeiro: Vˆcio
de Leitura, 2002. Pg 84
63
A CGT foi formada pelos segmentos que n…o participaram da forma„…o da CUT, rompendo a Comiss…o
“Pr†-CUT”.Tinha como base de sua forma„…o o PCB, PC do B, MR8, al‹m dos segmentos representados
por Luis Antonio de Medeiros, do Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Paulo e Antonio Rog‹rio Magri, do
Sindicato dos EletricitŽrios de S…o Paulo.

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1.3 – O III CONCUT

Foi dentro deste panorama a realiza„…o do III CONCUT, em setembro de


1988, contando com 6.244 delegados, de 1.157 entidades, 51% provenientes da Base e
49% da diretoria dos sindicatos. Foi o maior Encontro Sindical com delega„…o jŽ
realizado, marcando com for„a o aniversŽrio de 5 anos da CUT.
A mudanƒa nos estatutos do II CONCUT fez a participaƒ„o da base dos
sindicatos ter importante queda no III CONCUT; a participaƒ„o geral entre base e
diretoria foi praticamente meio a meio, o que possibilitou um aprofundamento da
pol€tica do grupo dirigente no per€odo, a “Articulaƒ„o Sindical”.
Apesar da forma que foram encaminhadas as resolu„•es finais deste
Congresso, deliberando o conjunto das posi„•es apresentadas pela Tese da Articula„…o
(a qual foi definida enquanto tese guia no inˆcio dos trabalhos), ocorreram importantes
debates em torno da a„…o polˆtica da CUT. Um dos temas mais importantes foi o
balan„o da atua„…o da Central no processo Constituinte.
Segundo a tese 10, intitulada “Pela CUT classista, de massa,
democrŽtica, de luta e pela base”, referenciada no campo da “Articula„…o Sindical”, a
posi„…o deliberada no II CONCUT e os encaminhamentos posteriores realizados pela
Central sobre o processo Constituinte foram corretos:

“(...)foi correta a polˆtica da CUT frente a Constituinte, definida


democraticamente no 2Œ CONCUT. O esfor„o de coletar assinaturas
populares foi um instrumento de propaganda e mobiliza„…o, al‹m de opor
a soberania popular • constituinte conservadora. Foi correta tamb‹m a
polˆtica de atua„…o de frente com outras entidades e partidos, porque
sempre apontava para a organiza„…o e luta como condi„…o bŽsica para as
conquistas dos direitos dos trabalhadores. Foi correta a den“ncia
incansŽvel da CUT diante do carŽter reacionŽrio do Congresso
Constituinte e frente a atua„…o dos parlamentares(...).64 ”

Al‹m disso, sobre o carŽter da Constituinte e a forma que a CUT deveria


se posicionar em rela„…o ao processo como um todo, a tese defendia que era necessŽrio
esperar o fim dos trabalhos; entretanto, acreditava que era possˆvel avaliar que, no geral,
o carŽter da Constituinte era “antipopular”:

64
Tese 10 - Pela CUT classista, de massa, democrŽtica, de luta e pela base. In: Teses ao III CONCUT.
1988

45
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“A CUT deverŽ aguardar o t‹rmino dos trabalhos no Congresso


Constituinte para definir um posicionamento final, precedido de amplas e
democrŽticas discuss•es. Por‹m, apesar de algum grau de incerteza, neste
momento, quanto aos desdobramentos futuros da Constituinte, ‹ possˆvel
fazer uma avalia„…o. (...) As pequenas conquistas obtidas, gra„as •
press…o exercida, s…o irris†rias diante das fragorosas derrotas, tais como,
a manuten„…o da estrutura sindical e principalmente no caso da Reforma
AgrŽria. A CUT deve denunciar amplamente o carŽter antipopular da
Constituinte, (...) deixando claro que a luta dos trabalhadores em defesa
dos seus direitos continuarŽ avan„ando tendo a CUT como um dos seus
principais instrumentos65 .”

Por outro lado, para a tese 6, intitulada “Construir a CUT pela base”, a
posi„…o da maioria da dire„…o da CUT na condu„…o das lutas em rela„…o • Constituinte
foi equivocada:

“Nossa dire„…o n…o soube enfrentar os desafios colocados pela


Constituinte. Esqueceu que a ferramenta fundamental dos trabalhadores ‹
a sua luta direta e n…o os viciados meandros das negocia„•es (mesmo
combinadas com press•es) ao nˆvel institucional. Orientou a interven„…o
da CUT no processo da Constituinte, privilegiando as reivindica„•es no
campo trabalhista em detrimento das quest•es de ordenamento geral da
sociedade, com o que permitiu os setores mais reacionŽrios ao
“conceder” migalhas trabalhistas ganhassem espa„o para reivindicar
legitimidade de uma ordem jurˆdica e institucional que mant‹m os
mecanismos de repress…o e controle, assim como a tutela militar sobre a
sociedade. 66 “

Em rela„…o ao carŽter da Constituinte, a tese da CUT pela Base utilizava


o mesmo lema do MST, “Transformar em carv…o a Constitui„…o” e real„ava suas
caracterˆsticas conservadoras e o pouco avan„o nas conquistas dos trabalhadores:

“A Constitui„…o que estŽ para ser promulgada pelo processo Constituinte


trouxe poucas reformas que atendessem •s maiores reivindica„•es dos
trabalhadores. Ao contrŽrio, em quest•es essenciais para os
trabalhadores, tais como as ligadas •s suas lutas sindicais, n…o foram
conquistadas a autonomia sindical, o direito amplo de greve, a reforma
agrŽria ou a estabilidade de emprego. (...) Essa Constitui„…o mant‹m o
carŽter conservador e da tutela militar, iguala a propriedade privada ao
direito • vida, legaliza a continuidade dos assassinatos dos trabalhadores
rurais e legitima a transi„…o conservadora de Sarney.67 ”

65
Idem, ibidem.
66
Tese 6 - Construir a CUT pela base. In: Teses ao III CONCUT. 1988
67
Idem, ibidem.

46
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Neste Congresso os tipos de bandeiras de luta da Central, se seriam mais


“polˆticas” ou “econ—mico-corporativas”, tornaram-se um dos temas fundamentais. Para
a tese da Articula„…o, aqueles que criticavam as lutas “econ—micas” eram vanguardistas
e n…o sabiam avaliar o que realmente mobilizava os trabalhadores. Al‹m disso, defendia
as negocia„•es com os patr•es e governos:

“HŽ propostas polˆticas que subestimam a import‘ncia estrat‹gica


das lutas reivindicat†rias, as conquistas econ—micas concretas das
lutas sindicais para impulsionar o projeto hist†rico da classe
trabalhadora. O equˆvoco estŽ em considerar que a CUT, ao
negociar com os patr•es ou o Governo para obter um acordo de
trabalho, pratica uma forma disfar„ada de reformismo. A luta dos
trabalhadores por salŽrios e melhores condi„•es de trabalho se
desenvolve hoje no interior do sistema capitalista e faz parte da
natureza do pr†prio sindicato. Por‹m, se na luta reivindicat†ria a
CUT e seus sindicatos organizarem e colocarem amplas massas
em movimento contra os patr•es e o Estado, estar…o de forma
decisiva contribuindo para formar uma consciŠncia anticapitalista
e impulsionar o projeto hist†rico do socialismo.68 ”

Para a tese da “CUT pela base”, o que estava ocorrendo, na verdade, era
a realiza„…o do pacto social por membros da dire„…o da Central, os quais se
aproximavam das prŽticas do “sindicalismo de resultados”:

“A posi„…o de membros da Central, que confundem uma postura realista


da defesa dos interesses dos trabalhadores com a aceita„…o de fato do
pacto social, precisa ser combatida decididamente, n…o acreditam na
possibilidade de a Central conquistar grandes mobiliza„•es nacionais,
mas acreditam em negocia„•es diretas com empresŽrios e Governo,
confundindo sua prŽtica com o reformismo do “sindicalismo de
resultados”69 .

Dessa forma, desde este III CONCUT, em 1988, j‰ ocorria o debate no


interior da Central de que as diverg‚ncias entre os campos existentes n„o eram apenas
de cunho t‰tico, mas estratˆgico. As formas das divergŠncias e os temas em debate
mudaram de foco: se antes, a quest…o primordial era a “Šnfase” em certas lutas e na
forma pela qual essas seriam encaminhadas, a partir deste momento as escolhas das

68
Tese 10 - Pela CUT classista, de massa, democrŽtica, de luta e pela base. In: Teses ao III CONCUT.
1988
69
Tese 6 - Construir a CUT pela base. In: Teses ao III CONCUT. 1988

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bandeiras de luta e seus objetivos tornam-se n…o consensuais. Comeƒa a ser quebrado o
consenso geral que existia no interior da CUT que todos em seu interior seriam
classistas e anticapitalistas. Assim, sendo difˆcil para o grupo hegem—nico do perˆodo, a
Articula„…o Sindical, aplicar suas propostas atrav‹s do convencimento dos grupos
minoritŽrios, a coer„…o exercida atrav‹s da existŠncia de uma maioria clara nas vota„•es
tornou-se aspecto cada vez mais importante. Era um momento, portanto, de transi„…o: a
Articula„…o Sindical, enquanto corrente polˆtica, ainda dirigia intelectual e
politicamente a CUT, e mantinha-se no interior do sindicalismo combativo; entretanto,
alguns de seus membros jŽ iniciavam a ado„…o de prŽticas parecidas com o
“sindicalismo de resultados”. Por outro lado, as correntes minoritŽrias iniciaram um
debate de maior “den“ncia” das prŽticas da dire„…o majoritŽria, realizando uma disputa
ideol†gica em rela„…o • concep„…o de sindicalismo. Foi a maior Šnfase nos debates
sobre concep„…o de sindicalismo e a necessidade de uma maioria clara para a
“Articula„…o Sindical” que impulsionaram as mudan„as estatutŽrias ocorridas neste III
CONCUT. Al‹m disso, as propostas de uma nova estrutura da CUT tamb‹m se casavam
como uma vis…o de sindicalismo que dava prioridade a consolida„…o de um “aparelho
burocrŽtico”, mais centralizado e controlado politicamente por seus dirigentes. A
estrutura burocr‰tica da CUT enquanto aparelho organizativo ganhava cada vez mais
peso, e a forma pela qual esta estrutura seria gerida tornou-se um dos temas centrais.
Para Jos‹ Maria de Almeida, um dos dirigentes da “ConvergŠncia
Socialista”, segunda mais importante corrente na minoritŽria da CUT, em entrevista
realizada em 2003, as mudan„as polˆticas vieram antes das mudan„as de estrutura da
Central:

“Ainda no Congresso de 88, (...), eu dizia “gente, essa mudan„a


n…o sai de gra„a, essa ‹ uma mudan„a polˆtica, de concep„…o
polˆtica e essa mudan„a de concep„…o polˆtica exige uma
mudan„a de estrutura. Para que rumo? Para o rumo que tˆnhamos
antes, em que a concep„…o polˆtica vai se aproximar daquilo, volta
a ser aproximar daquilo que havia antes. (...) A busca de uma
aproxima„…o, de um diŽlogo com os outros setores da sociedade,
da parceria, da concilia„…o ‹ a resultante da evolu„…o da dire„…o
da CUT, da leitura que eles tinham da realidade e do que era
possˆvel politicamente fazer para defender os trabalhadores. Vem
primeiro uma op„…o polˆtica, as mudan„as estruturais s…o uma

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conseqšŠncia. A primeira mudan„a que veio, no chamado novo


sindicalismo, foi a mudan„a polˆtica”70 .

As avalia„•es dos rumos da Central partiam, ent…o, da avalia„…o da


conjuntura existente e da forma pela qual a CUT deveriam atuar neste processo. Para a
Tese da Articula„…o Sindical, a CUT necessitava mudar sua estrutura organizativa, em
dire„…o a uma forma de organiza„…o mais “Žgil” e “centralizada”. As derrotas ocorridas
na Constituinte demonstravam o inˆcio de um momento mais difˆcil para os
trabalhadores:

“A redefini„…o da estrutura organizativa da CUT, para permitir


respostas mais Žgeis e unificadas, ‹ um elemento decisivo para o
perˆodo que se inicia. Mas, o grande desafio que se coloca para a
classe trabalhadora ‹ saber avan„ar em um momento em que (...)
as recess•es econ—micas s…o freqšentes e a dˆvida externa impede
qualquer altera„…o mais significativa deste quadro. 71 ”

Assim, o III CONCUT foi quase todo absorvido sobre a reorganiza„…o


da estrutura da CUT, mesmo tendo como pano de fundo debates estrat‹gicos
fundamentais, deixando as discuss•es sobre conjuntura e mobiliza„•es em segundo
plano. O objetivo da maioria da dire„…o da Central era aprovar uma mudan„a ainda
maior no estatuto, que possibilitasse a implementa„…o de uma nova concep„…o sindical.
E qual seria essa concep„…o?

“Uma Central de representa„…o, de negocia„…o, mais do que uma Central


de mobiliza„…o e organiza„…o para a luta ampla das massas. Uma Central
que falasse apenas em nome dos sindicalizados e n…o se preocupasse em
mobilizar e organizar os milh•es de trabalhadores que sequer participam
formalmente do mercado de trabalho. Uma Central dos que tŠm registro
na Carteira de Trabalho, excluindo com isso, os 50% dos trabalhadores
que est…o na economia informal. A CUT optou por se aproximar do
modelo das Centrais Sindicais Europ‹ias. 72 ”

70
Retirado de: FERRAZ, Marcos. Da cidadania salarial • agŠncia de desenvolvimento solidŽrio. O
sindicalismo-CUT e os desafios para inventar uma nova cidadania. 2006. Tese (Doutorado em
Sociologia) - Universidade de S…o Paulo. PŽg 75
71
Tese 10 - Pela CUT classista, de massa, democrŽtica, de luta e pela base. In: Teses ao III CONCUT.
1988
72
NETO, Sebasti…o Lopes; GIANNOTTI, Vito. Para Onde Vai a Cut? S…o Paulo: Scritta. 1993. PŽg 42

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As mudan„as organizativas eram parte de uma mudan„a mais profunda,


sobre o papel a ser desempenhado pelo sindicalismo brasileiro. Como nos diz Iram
JŽcome, “para a tendŠncia Articula„…o e seus aliados, a central deveria ter um perfil
claramente sindical, ainda que combativa, e tendo o conflito com atividade fundamental.
JŽ a esquerda socialista – independente de suas diferencia„•es internas – visualizava
para a CUT um papel eminentemente polˆtico, onde a luta anticapitalista e o ideŽrio de
uma sociedade socialista estariam presentes.73 ”
No plano de lutas, foram aprovadas defini„•es da “Campanha Nacional
de Lutas”, combinando-as com uma campanha pelo contrato coletivo em ‘mbito
nacional. Os pontos de reivindica„…o eram: reposi„…o imediata das perdas, reajuste
mensal de salŽrios de acordo com o ˆndice do Dieese, reforma agrŽria sob o controle dos
trabalhadores, contrato coletivo de trabalho nacionalmente articulado, 40 horas
semanais de trabalho, estabilidade no emprego, liberdade e autonomia sindical, a
garantia e aplica„…o imediata das conquistas dos trabalhadores na Constitui„…o, o n…o
pagamento da dˆvida externa e o rompimento dos acordos com o FMI, a n…o
privatiza„…o de estatais e a defesa dos servi„os p“blicos, a garantia de abastecimento e
controle dos pre„os dos gŠneros de primeira necessidade, creche gratuita para os filhos
de trabalhadores at‹ os 7 anos de idade, a n…o demiss…o de mulheres grŽvidas. Nestas
resolu„•es ocorreu maior unidade entre as correntes internas da CUT, na discuss…o e
posterior aprova„…o, demonstrando que ainda era possˆvel um acordo polˆtico amplo
apesar de importantes divergŠncias. Entretanto, n…o podemos dizer o mesmo sobre as
mudan„as nos estatutos da Central.
A discuss…o em torno do Estatuto da Central fazia parte de uma
divergŠncia mais geral em rela„…o • forma de organiza„…o dos sindicatos, isto ‹, um
debate sobre a concep„…o de democracia operŽria. Estas diverg‚ncias tinham origem
tanto na necessidade ou n„o da relaƒ„o mais direta com os trabalhadores na base, e da
possibilidade de atuaƒ„o no interior da estrutura sindical oficial.
A tese No 6, da “CUT pela Base”, defendia uma concep„…o ampla
de sindicalismo democrŽtico, que partia tanto da crˆtica • estrutura sindical oficial como
tamb‹m da forma de organiza„…o do sindicalismo combativo, o qual devia ser aut—nomo
com rela„…o ao Estado. Ou seja, n…o criticava apenas o sindicalismo “oficial”, mas
tamb‹m a pr†pria “estrutura sindical em si”, inclusive no ‘mbito da CUT. Acreditava-se

73
RODRIGUES, Iram JŽcome. Sindicalismo e polˆtica. A trajet†ria da CUT, S…o Paulo, Scritta e Fapesp,
1997. Pg 112.

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que era poss€vel construir uma outra forma de organizaƒ„o sindical, que n„o se
limitasse aos sindicalizados e Ž l•gica corporativa.Em rela„…o • organiza„…o das
dire„•es, a Tese da “CUT pela Base” defendia o fim do presidencialismo e pela
utiliza„…o de um sistema colegiado:

“Exercer a dire„…o colegiada ‹ romper com a estrutura vertical do


exercˆcio do poder, caracterˆstica que a atual estrutura sindical
copiou do sistema capitalista. Esta forma democrŽtica de exercer
o poder ainda n…o foi assimilada por muitas dire„•es, pois
estamos habituados a um sindicalismo em que trŠs pessoas (o
presidente, o secretŽrio-geral e o tesoureiro) decidem por toda a
diretoria, e, muitas vezes, pela pr†pria categoria. A dire„…o
colegiada ‹ a forma de conson‘ncia com a proposta que temos
para toda a sociedade.”74 .

A tese defendia ainda a proporcionalidade em todos os espa„os de


dire„…o como pressuposto da unidade de a„…o dos trabalhadores em luta, e o incentivo
pela realiza„…o das comiss•es de fŽbrica/empresa. Esta comiss…o deveria ser
desvinculada da estrutura sindical, isto ‹, auto-gerida pelos pr†prios trabalhadores,
sindicalizados ou n…o.
Outro ponto importante da tese ‹ o intitulado “A nova estrutura sindical”.
Segundo o texto, ap†s as derrotas no processo de Constituinte, a batalha por um
sindicalismo aut—nomo e democrŽtico estava colocada em um novo patamar:

“A Constituinte referendou a antiga estrutura sindical, o que coloca •


CUT o desafio, mais uma vez, de desconhecer o direito da burguesia,
atrav‹s das suas leis, e estabelecer normas para a organiza„…o dos
trabalhadores. Os “nicos que podem deliberar sobre como estes dever…o
se organizar s…o os pr†prios trabalhadores. 75 ”

Dessa forma, se o direito dos trabalhadores de organizaƒ„o aut†noma


em relaƒ„o ao Estado n„o era garantido na lei em plenitude, tornava-se necess‰rio
uma organizaƒ„o por fora da estrutura sindical oficial. Esta forma de organiza„…o, em
grande medida em confronto com o c†digo legal, era a garantia de um sindicalismo
realmente democrŽtico e de luta. Um exemplo importante era a orienta„…o de que os
trabalhadores que estivessem criando suas organiza„•es sindicais, como no caso do

74
Tese No 6. In: CUT Boletim Nacional Especial РTeses ao 3ΠCONCUT.
75
Idem, ibidem.

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funcionalismo p“blico, assim o fizessem por fora da estrutura sindical oficial e dentro
dos crit‹rios estabelecidos pela Central76 . O balan„o da Nova Constitui„…o, e da rela„…o
do sindicalismo combativo com o Estado tornaram-se pe„as chaves para avalia„…o dos
rumos da CUT e de quais caminhos essa deveria seguir.
Nas resolu„•es deste III CONCUT foi a primeira vez que apareceu um
item sobre “polˆticas sociais”, denominado “CUT e as polˆticas sociais”. Com a Nova
Constitui„…o, novos espa„os institucionais tiveram sua implementa„…o iniciada, como
tamb‹m uma nova forma de aplica„…o de polˆticas p“blicas. A CUT iniciou ent…o um
maior debate em torno de quais polˆticas p“blicas defenderia enquanto reivindica„…o, e
de que forma conseguiria conquistŽ-las. Como nos diz Roberto V‹ras, com o fim da
Ditadura Civil-Militar, as tens•es internas a Central, no que tange a rela„…o entre a„…o
direta e participa„…o institucional, aumentaram:
“A tens…o, desde sempre existente, entre a„…o direta e a„…o institucional ,
sobre a qual construˆra um delicado equilˆbrio, agora requeria dela nova
formula„…o, ao mesmo tempo que recolocava o debate interno (e o
equilˆbrio antes conquistado) em um novo patamar.77 ”

Foram aprovadas nas resolu„•es do III Congresso a CUT as lutas contra


a privatiza„…o das empresas estatais e pelo seu controle pela popula„…o, a melhoria dos
servi„os p“blicos e a estatiza„…o imediata dos servi„os controlados pelo capital privado,
pois “esses servi„os s…o um direito de todos e um elemento central para a melhoria das
condi„•es de vida da popula„…o trabalhadora”78 . Para a Central, era necessŽrio
democratizar os espa„os de defini„…o das polˆticas publicas, garantindo que essas
estivessem sob controle dos trabalhadores e n…o dos governos. Como exemplo
importante deste III CONCUT temos as propostas referentes ao Sistema •nico de
Sa“de. Para o SUS, a CUT defendia o avan„o do seu controle social, garantindo o
custeio de seus servi„os pelo or„amento da Uni…o, Estados e Municˆpios, e a
implementa„…o de conselhos de sa“de, a nˆvel nacional e local, os quais deveriam
garantir a participa„…o democrŽtica dos movimentos sindicais e popular, carŽter
deliberativo, e autonomia para controle de gest…o e controle do sistema. Ou seja,

76
Idem, ibidem.
77
OLIVEIRA, Roberto V‹ras de. Sindicalismo e Democracia no Brasil: Atualiza„…o - Do novo
Sindicalismo ao Sindicato Cidad…o. Tese apresentada ao Programa de P†s Gradua„…o em Sociologia-
USP. S…o Paulo, 2002. PŽg 170
78
CUT. Resolu„•es do III CONCUT (1988). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM

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buscava-se a constru„…o de novos espa„os institucionais que garantissem a participa„…o


dos movimentos sociais no controle social sobre as polˆticas p“blicas estatais, para que
estas n…o fossem definidas apenas pela alta hierarquia governamental. Se o Estado
continuava burguŠs, apesar de certos direitos sociais garantidos pela Nova Constitui„…o
e o fim da Ditadura Civil-Militar, a CUT lutava por sua democratiza„…o real, a qual
apenas seria possˆvel pela atua„…o direta dos trabalhadores e de seus representantes nos
movimentos populares e sindicais. Neste momento, as resoluƒŠes em torno destas
pol€ticas p‹blicas eram defendidas enquanto “direitos sociais fundamentais”, n„o
existindo refer‚ncias ao tema da “cidadania”, o qual se tornar‰ comum na dˆcada de
1990.
No III CONCUT vŽrias escolhas foram feitas, defendidas com m…o de
ferro pela “Articula„…o Sindical” e combatidas pelos setores de oposi„…o; dentre elas as
de maior destaque s…o as que visavam restringir a participa„…o e o poder das bases e
garantir um peso muito maior •s dire„•es oficiais da CUT e as dire„•es dos sindicatos.
A cria„…o de um “funil” para a elei„…o dos delegados foi pe„a chave para a nova
estrutura da CUT. A realiza„…o do funil dificultava enormemente a elei„…o de delegados
da base, pois estes tinham que participar dos Congressos Estaduais, e nestes serem
eleitos para o Congresso Nacional, na propor„…o de 2.000 sindicalizados para um
delegado. Para efeito de compara„…o, os sindicatos que tinham como base at‹ 2.000
trabalhadores podiam levar, no II CONCUT, nove delegados para o Congresso
Nacional, sendo trŠs da dire„…o e seis da base. Para Jair Menegelli, representante da
Articula„…o Sindical, o fundamental era diminuir o tamanho do CONCUT, pois
Congressos muito grandes n…o possibilitariam uma discuss…o mais profunda:

“tudo na vida tem fases. Logo ap†s a cria„…o da CUT, era necessŽrio
realizar congressos grandiosos at‹ como forma de afirmar a sua
viabilidade, a sua for„a. Mas jŽ tˆnhamos em mente que n…o poderia ser
sempre assim. Se mantiv‹ssemos os mesmos crit‹rios de participa„…o,
chegarˆamos no futuro a congressos de quinze mil ou mais trabalhadores.
Este n“mero de pessoas n…o permite o aprofundamento das discuss•es”79 .

Outra modifica„…o importante foi sobre a periodicidade do Congresso da


CUT, que passou para trŠs anos.

79
Jair Menegelli. Entrevista concedida ao Jornal do PT, em outubro de 1988. Retirado de RODRIGUES,
Iram Jacome. Op. cit. PŽg 115

53
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A forma de quantifica„…o dos delegados tamb‹m foi modificada neste


Congresso. At‹ o III CONCUT, o n“mero de delegados era proporcional a quantidade
de trabalhadores existentes em cada categoria; ap†s as mudan„as no Estatuto, os
delegados passaram a ser eleitos tendo como referŠncia a quantidade de trabalhadores
sindicalizados. Em primeiro lugar, esta mudan„a trazia em si uma escolha polˆtica de
privilegiar o setor formal e sindicalizado como espa„o de atua„…o da CUT, deixando de
lado os trabalhadores informais e n…o sindicalizados, que naquele momento jŽ
ultrapassavam o n“mero de 50% dos trabalhadores brasileiros. Em segundo lugar, esta
modifica„…o gerava distor„•es grandes na rela„…o entre o n“mero de delegados eleitos e
o peso polˆtico da atua„…o sindical: um exemplo marcante era a APEOSP (Sindicato dos
Professores Estaduais de S…o Paulo), que passou a ter mais delegados do que vŽrios
Estados do Nordeste juntos80. Aumentava-se ainda mais o peso polˆtico dos grandes
sindicatos, que tinham maior estrutura burocrŽtica e quantidade de sindicalizados, como
tamb‹m dos trabalhadores do setor do servi„o p“blico, que em geral det‹m uma maior
quantidade de sindicalizados do que o setor privado. Al‹m disso, esta defini„…o
inviabilizou uma maior participa„…o da CUT no segmento camponŠs, jŽ que grande
parte desse n…o se organiza atrav‹s de sindicaliza„…o, como o MST (Movimento dos
Sem Terra) e o CNS (Conselho Nacional dos Seringueiros).
Outra altera„…o na forma de elei„…o das delega„•es dizia respeito •s
oposi„•es sindicais. At‹ o III CONCUT, o crit‹rio de participa„…o no Congresso das
oposi„•es sindicais era parecido com aquele aplicado aos sindicatos. A diferen„a era
que os sindicatos levavam delegados a mais, referentes •queles indicados pela dire„…o,
enquanto as oposi„•es tinham direito apenas aos delegados “da base”. A partir deste
momento, o peso das oposi„•es era quantificado atrav‹s da quantidade de votos obtido
na “ltima elei„…o sindical e n…o mais no tamanho da categoria (no caso de n…o ter
participado de elei„…o, comparecia com uma delega„…o igual ao do menor sindicato da
Žrea em quest…o). Como nos diz Vito Gianotti e Sebasti…o Neto, esta proposta n…o
abarcava as possˆveis distor„•es geradas pelas elei„•es sindicais:

“Esse crit‹rio n…o levava em conta que, na atual estrutura


sindical, quase sempre as oposi„•es cutistas enfrentam
elei„•es fraudadas e, al‹m disso, s…o vˆtimas constantes de

80
GIANNOTTI, Vito; NETO, Sebasti…o. CUT Ontem e Hoje, S…o Paulo, Vozes: 1991. PŽg 51

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demiss•es orquestradas pelas diretorias pelegas em


conluio com os empresŽrios. Em muitas categorias, os
pelegos imp•em todo tipo de obstŽculos • sindicaliza„…o.
Com isso, o peso das oposi„•es fica sensivelmente
reduzido.81 ”

Ou seja, atrav‹s de in“meras medidas garantiu-se que a tendŠncia


majoritŽria na Central passasse a aumentar sensivelmente seu peso, definindo quase que
exclusivamente os rumos da CUT. A participa„…o das plenŽrias de base foi reduzida,
possibilitando o aprofundamento da polˆtica da dire„…o em modificar os rumos da
Central. Na elei„…o da dire„…o no III CONCUT, a Chapa 1, da ConvergŠncia Socialista,
teve o apoio de 16,32%; a chapa 2 “Por uma CUT classista, democrŽtica e de massas”,
representando a corrente “Articula„…o Sindical” teve 60,43%, e a chapa 3, “Construir a
CUT pela Base” conseguiu 23,24%82 .
Neste CONCUT ocorreram delibera„•es fundamentais, como contra o
Pacto Social, a defesa do Classismo, a necessidade da liberdade sindical e reafirma„…o
da defesa do socialismo. A CUT continuava participando das lutas fundamentais das
classes subalternas em uma conjuntura de ascenso para os movimentos sociais: n…o hŽ
d“vidas de que a d‹cada de 1980 caracterizou-se por uma notŽvel presen„a social e
polˆtica do sindicalismo brasileiro. Apesar do receituŽrio neoliberal jŽ ser aplicado na
maioria dos paˆses da Europa Ocidental, e em importantes paˆses da Am‹rica Latina,
como Chile, Bolˆvia, M‹xico e Argentina, no Brasil a vitalidade das organiza„•es
populares, representadas especialmente pela CUT e pelo MST, caracterizou uma
resistŠncia organizada a ofensiva neoliberal. Como exemplo importante temos a
organiza„…o de quatro greves gerais no perˆodo.

81
Idem, ibidem. PŽg 53
82
Num total de 5.886 votos, a chapa encabe„ada por Jair Meneguelli, da Articula„…o, que apresentou a
tese nŒ 10, obteve 60,4% dos votos, garantindo nove membros efetivos da Executiva Nacional e cinqšenta
na Dire„…o Nacional. Para essa vit†ria, a Articula„…o contou com o apoio da tendŠncia For„a Socialista
(...) O segundo lugar ficou para a chapa ‘Construir a CUT pela Base’ (tese nŒ 06), encabe„ada por Durval
de Carvalho, presidente do Sindicato dos Metal“rgicos de Campinas. Esta chapa recebeu 23,4% da
vota„…o, ficando com quatro lugares na Executiva e 19 na Dire„…o. Expressando as posi„•es da tendŠncia
CUT pela Base, a chapa de Durval de Carvalho teve o apoio do grupo trotskista do jornal O Trabalho e
dos sindicalistas que apoiavam a tese nŒ 7 (‘CUT do Trabalhador’). Em “ltimo lugar, ficou a chapa ‘CUT
‹ pra Lutar’, liderada por Cyro Garcia, presidente do Sindicato dos BancŽrios do Rio de Janeiro. Com
16,3% dos votos, ficou com direito a dois membros na Executiva e 14 na Dire„…o Nacional. Essa chapa
resultou de uma composi„…o entre os que apoiavam a tese nŒ 9 (‘Democracia e Luta’, que expressava as
posi„•es da ConvergŠncia Socialista), da tese .nŒ 8 (‘Unir a Cidade e o Campo’, ligada ao grupo Causa
OperŽria) e a tese nŒ 3 (‘Construir a CUT Classista e pela Base’, que representava as posi„•es do PCBR)”
Retirado de RODRIGUES, Le—ncio Martins CUT: Os Militantes e a Ideologia, Rio de Janeiro, Ed. Paz e
Terra. PŽg 20

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A primeira greve geral ocorreu em julho de 1983, ainda sob o governo da


ditadura empresarial-militar, sendo um protesto contra o decreto que alterava a polˆtica
salarial, reduzindo o ˆndice de reajuste automŽtico das faixas salariais, al‹m da bandeira
“contra o pagamento da dˆvida externa”. Ela obteve a participa„…o de 3 milh•es de
trabalhadores. A segunda greve geral foi realizada em dezembro de 1986, sendo um
protesto contra o Plano Cruzado II, em especial contra o congelamento de pre„os sem
recupera„…o salarial. A luta contra o pagamento da dˆvida externa foi mantida nesta
greve, com a participa„…o de cerca de 10 milh•es de grevistas. A terceira greve, de
agosto de 1987, foi um protesto contra o Plano Bresser, que tamb‹m propunha
altera„•es na polˆtica salarial, al‹m de reivindica„•es populares, como o n…o pagamento
da dˆvida externa, reforma agrŽria, semana de 40 horas e estabilidade de emprego, com
a participa„…o de 10 milh•es de grevistas. Por “ltimo, temos a quarta greve geral,
realizada em mar„o de 1989. Novamente, tratou-se de uma greve contra um plano
econ—mico, no caso o “Plano Ver…o”. Esta greve deu um salto de qualidade e
organiza„…o, pois durou dois dias, enquanto as anteriores duraram apenas um, al‹m do
n“mero de grevistas ter sido o dobro da greve anterior, contando agora com 20 milh•es
de trabalhadores parados83 . Assim, podemos construir um quadro da evolu„…o das
greves gerais na d‹cada de 1980.

Tabela 3 – Evoluƒ„o das Greves Gerais (1983-1989)

Ano N“mero de •ndice = 100


Grevistas
1983 2.000.000 100
1986 10.000.000 500
1987 10.000.000 500
1989 20.000.000 1.000

Fonte: Elabora„…o pr†pria. Dados retirados de: BOITO JR, Armando. Polˆtica neoliberal e
sindicalismo no Brasil. S…o Paulo : Xam…, 1999.

83
O balan„o das greves gerais teve como referŠncia BOITO JR, Armando. Polˆtica neoliberal e
sindicalismo no Brasil. S…o Paulo : Xam…, 1999, em especial as pŽgs 132/133

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Como podemos verificar atrav‹s da visualiza„…o da tabela, ocorreu um


fortˆssimo crescimento das greves gerais na d‹cada em quest…o: tivemos, num espaƒo de
seis anos, o crescimento de 900% na participaƒ„o nas greves gerais. Outro dado
importante ‹ o crescimento da totalidade das greves no perˆodo.

Tabela 4 – Evoluƒ„o das Greves no Brasil (1980-1989)

Ano N“mero de •ndice = 100


Greves
1980 144 100
1981 150 107
1982 147 102
1983 393 272
1984 618 429
1985 927 643
1986 1.655 1.149
1987 2.188 1.519
1988 2.137 1.484
1989 3.943 2.738

Fonte: Elabora„…o Pr†pria. Dados retirados de: MATTOS, Marcelo Badar†. Trabalhadores e
sindicatos no Brasil. Rio de Janeiro: Vˆcio de Leitura, 2002.

A tabela 4 demonstra tamb‹m o estrondoso crescimento de 2.638% no


n‹mero de greves em um per€odo de nove anos. Nesse sentido, temos na d‹cada de 1980
no Brasil, o forte crescimento dos movimentos sociais, em especial do movimento
sindical, fortalecido pela evolu„…o das greves gerais, do n“mero de greves totais, e da
funda„…o/organiza„…o da CUT. A manuten„…o de um perfil classista na CUT, que
negava a constru„…o de pactos sociais, sua proximidade das bases, e uma atua„…o de
massas, deram contribui„…o fundamental na resistŠncia •s polˆticas neoliberais no
perˆodo, em especial •quelas que visavam ataques ao mundo do trabalho.
Gostarˆamos de destacar, portanto, que grande parte das mudan„as
ocorridas na CUT foi realizada na contram…o da conjuntura polˆtica que se encontravam
as lutas sociais no Brasil, isto ‹, se por um lado a manutenƒ„o da postura combativa da
CUT contribuiu para o crescimento das mobilizaƒŠes e greves, por outro, as
transformaƒŠes da sua estrutura organizativa e da concepƒ„o de mundo de alguns de
seus dirigentes caminhavam no sentido da desmobilizaƒ„o e do descolamento da

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Central da participaƒ„o efetiva dos trabalhadores. Mesmo nos momentos em que


ocorriam lutas de massa, as raˆzes mais profundas do fen—meno burocrŽtico jŽ existiam.
Alguns aspectos que apareciam no inˆcio da CUT apenas enquanto
tendŠncias, pouco a pouco se consolidaram enquanto definidores de mudan„as
qualitativas. Os sindicatos trazem consigo o “germe” de uma burocracia, pela sua forma
organizativa e estrutura (especialmente, no caso da CUT, os sindicatos que provinham
da tradi„…o assistencialista e paternalista da ditadura militar), mas por si s† n…o se
transformam “em seu contrŽrio”, em atravanco das lutas ao inv‹s de um espa„o de
mobiliza„…o e organiza„…o das classes subalternas. Existem m“ltiplas determina„•es
para que isso ocorra, e uma das maiores complexidades ‹ a n…o linearidade do processo.
Nossa busca parte ent…o para a escolha de crit‹rios de anŽlise que nos auxiliem no
entendimento das transforma„•es, rupturas e permanŠncias. Para n†s, um dos principais
crit‹rios de anŽlise ‹ a rela„…o da CUT com o Estado, tendo em vista: 1) As diversas
concep„•es existentes no interior da Central sobre o Estado 2) A rela„…o da CUT com
os espa„os institucionais, a forma de participa„…o, den“ncia ou crˆtica 3) A estrutura da
CUT e de seus sindicatos e sua proximidade com a estrutural sindical oficial.
Neste III CONCUT, aumentaram as divergŠncias em rela„…o • forma de
participa„…o nos espa„os institucionais; outro ponto importante ‹ o inˆcio da
“supervaloriza„…o” da CUT: a concep„…o da dire„…o majoritŽria via a CUT mais como
um espa„o de representa„…o e dire„…o dos trabalhadores. A supervaloriza„…o das
possibilidades da CUT, esquecendo seus limites intrˆnsecos, acabava tamb‹m por
supervalorizar o papel de seus dirigentes; para estes dirigentes n…o era t…o necessŽrio
“ouvir as bases”, algo que demoraria “tempo” em uma conjuntura que necessitava de
“centraliza„…o e agilidade”, pois estes “lˆderes”, com dezenas de anos de experiŠncia na
luta sindical, jŽ “sabiam o que era melhor para os trabalhadores”. Entretanto, um
sindicato n…o se torna combativo apenas por ter uma dire„…o “comprometida com a
luta”, mas na medida em que constr†i uma rela„…o org‘nica e democrŽtica com os
trabalhadores, para que estes se organizem atrav‹s do sindicato e escolham seus rumos.
Al‹m disso, a supervaloriza„…o da CUT tinha tamb‹m enquanto
conseqšŠncia o pouco apego a necessidade de espa„os de organiza„…o aut—nomos dos
trabalhadores, seja em rela„…o a estrutura sindical oficial, seja em rela„…o a qualquer
sindicato, mesmo cutista. O sindicalismo cutista acabava por refletir em seu interior
muito do sindicalismo oficial, especialmente uma forma de organiza„…o menos
democrŽtica e uma rela„…o de maior cumplicidade com o Estado.

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A discuss…o em torno da “parcialidade das lutas”, e das contradi„•es das


lutas econ—mico-corporativas e polˆtico-ideol†gicas, tamb‹m demonstra alguns dos
elementos da concep„…o de mundo de parte dos dirigentes da Central, que tendiam a ter
enquanto horizonte apenas a “conquista de vit†rias” para os trabalhadores e assim
“legitimar-se” enquanto dire„…o polˆtica e continuar no sindicato, ao inv‹s de lidar com
as dificuldades da luta de classes e da necessidade de forma„…o polˆtica em torno dos
limites da atua„…o sindical. A rela„…o entre dire„…o e sindicato tornava-se mais
importante do que a rela„…o dire„…o-base/sindicato-base.
O fortalecimento da coer„…o (atrav‹s da constru„…o deliberada de maioria
num‹rica no conjunto dos delegados) em rela„…o aos elementos de consenso
(proposi„•es) na dire„…o intelectual e polˆtica da CUT pela Articula„…o Sindical,
acabava tamb‹m por descolar a Central dos trabalhadores da base em geral, aumentando
a especializa„…o da dire„…o sindical. Se no III CONCUT a participa„…o entre base e
dire„…o jŽ foi quase meio a meio, ap†s as mudan„as estatutŽrias realizadas, este
processo de diferencia„…o aumentou ainda mais, como veremos a frente. A CUT
mantinha-se combativa e do lado dos subalternos, participando das greves e das lutas
mais gerais, mas sua estrutura jŽ refletia grande parte das contradi„•es da sociedade
como um todo, como a divis…o social do trabalho, separa„…o entre concep„…o e
execu„…o, e hierarquiza„…o. Se na dˆcada de 1980, o “oxig‚nio” das lutas sociais
deixava estes elementos ainda pouco vis€veis, pois grande parte das classes subalternas
mantinha-se em movimento e participava das mobilizaƒŠes, com o descenso posterior, o
peso desta forma de organizaƒ„o sindical mais pr•ximo a estrutura burocr‰tica do
capitalismo reafirmou-se. Entretanto, seria possˆvel a manuten„…o de uma estrutura
aut—noma sem garantias no interior do c†digo legal? Em que medida a manuten„…o
desta estrutura burocrŽtica teve rela„…o direta com as derrotas no processo Constituinte
sobre a autonomia sindical? A vota„…o no interior da Comiss…o de Sistematiza„…o da
Constituinte para o Capˆtulo II (Direitos dos Trabalhadores), teve 5 votos a favor da
autonomia sindical e 79 contra, sendo o pior resultado de todas as propostas colocadas,
dentre elas as emendas populares da CUT (que incluˆam direito de greve e estabilidade
de emprego) e a defesa das 40 horas de jornada de trabalho
Nesse sentido, muito dos rumos adotados pela CUT teve conson‘ncia
com os debates em torno da concep„…o de sindicalismo e da rela„…o deste com o Estado.
Se em sua forma„…o, a CUT tinha um “p‹ dentro e outro fora” da estrutura sindical
oficial, cada vez mais colava seus “dois p‹s dentro”.

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2. As transforma‚‡es da CUT e inˆcio da d„cada neoliberal (1989-1995)

No p†s-Constitui„…o, um verdadeiro vŽcuo de poder foi formado, vindo a


permitir a ascens…o mete†rica de um projeto como o de Collor. As direitas n…o tinham
projetos polˆticos para o paˆs, mas apenas planos de campanha eleitoral. Seu programa
de governo, pretensamente “renovador”, se via reduzido a um remanejamento do quadro
polˆtico e administrativo conservador, baseados num realinhamento institucional. No
geral, sem uma polˆtica estrat‹gica clara, as direitas empunhavam bandeiras
conjunturais: o aspecto mais “ideol†gico” de sua “prega„…o” era a defesa do
anticomunismo84 .
A defesa da “competŠncia administrativa”, da “estabilidade social e
institucional”, mescladas com a luta contra o “inimigo maior”, o comunismo, foram
gradativamente somadas com as bandeiras do “moralismo”, do “combate a corrup„…o”,
pela “moderniza„…o do paˆs” e “austeridade nos gastos p“blicos”. Toda esta campanha,
que eleitoralmente ainda n…o tinha uma vincula„…o direta a um candidato em seu inˆcio
devido • grande gama de candidatos existentes85 , tinha como pilar fundamental a crˆtica
• “ineficŽcia governamental”. Num primeiro momento, o empresariado e seus partidos,
como tamb‹m o campo militar, buscavam a conten„…o do crescimento do PT, como
tamb‹m cercear o candidato do PDT, Leonel Brizola.
Por outro lado, devido ao fortalecimento dos movimentos sociais, das
greves e da reconstru„…o do espa„o polˆtico-partidŽrio de esquerda, um novo “ˆm…”
classista, representado pelo bloco PT-CUT-MST, introduzia novos temas e debates no
interior do processo eleitoral. Mesmo que de forma difusa, as elei„•es refletiam os
diversos embates da luta de classes, catalisados pelo ascenso das mobiliza„•es contra a
ditadura militar e sua “transi„…o tutelada”. A for„a desta frente jŽ se demonstrava
mesmo antes da audiŠncia eleitoral (vota„…o), devido • grande divis…o das direitas em
diversas candidaturas, enquanto as classes subordinadas unificavam-se em torno da
candidatura do PT. Para al‹m da frente PT-PSB-PC do B, apenas a candidatura de

84
DREIFUSS, Ren‹. O jogo da direita. Petr†polis, Vozes, 1989. PŽg 266
85
Os candidatos que participaram da elei„…o presidencial de 1989 foram Fernando Collor de Mello (PRN,
PSC, PTR, PST), Luiz InŽcio Lula da Silva (PT, PSB, PC do B), Leonel Brizola (PDT), MŽrio Covas
(PSDB), Paulo Salim Maluf (PDS), Guilherme Afif Domingos (PL, PDC) Ulysses Guimar…es (PMDB),
Roberto Freire (PCB), Aureliano Chaves (PFL), Ronaldo Caiado (PSD, PDN), Affonso Camargo Neto
(PTB), En‹as Ferreira Carneiro (PRONA), Jos‹ Alcides Marronzinho de Oliveira (PSP), Paulo Gontijo
(PP), Zamir Jos‹ Teixeira (PCN), Lˆvia Maria de Abreu (PN),Eudes Oliveira Mattar (PLP), Fernando
Gabeira (PV), Celso Brant (PMN), Ant—nio dos Santos Pedreira (PPB), Manoel de Oliveira Horta (PDC
do B), Armando CorrŠa da Silva (PMB).

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Leonel Brizola detinha aspectos programŽticos de mudan„as mais estruturais do ponto


de vista de esquerda.
Neste panorama, na delibera„…o “A CUT e as elei„•es presidenciais” da
PlenŽria Nacional de agosto de 1989, a Central manteve sua independŠncia nas elei„•es:

“A PlenŽria Nacional da CUT reafirma o princˆpio estatutŽrio de central


sindical classista, aut—noma e independente de governos, credos
religiosos e partidos polˆticos e refor„a seu compromisso com a defesa
dos interesses imediatos e hist†ricos de toda a classe trabalhadora. A
CUT enquanto entidade n…o apoiarŽ candidatura ou candidaturas, mas
n…o se manterŽ neutra em um momento decisivo para o futuro do paˆs.86 ”

Dessa forma, se o panorama polˆtico-conjuntural no Brasil era, em certo


sentido, favorŽvel •s classes subordinadas, o mesmo n…o se pode dizer do quadro
internacional mais amplo. Resultado de um processo s†cio-hist†rico de dimens•es
planetŽrias, a crise do capitalismo tardio trouxe grandes modifica„•es na arena da luta
de classes, especialmente na forma de organiza„…o da produ„…o e reprodu„…o da vida.
Como nos diz Ernest Mandel, a crise econ—mica capitalista ‹ sempre uma crise de
superprodu„…o de mercadorias87 . Mas o que isto significa?

“A superprodu„…o significa sempre que o capitalismo produziu tantas


mercadorias que n…o havia poder de compra disponˆvel para adquirˆ-las
ao pre„o de produ„…o, isto ‹, a um pre„o que fornecesse a seus
proprietŽrios o lucro m‹dio esperado. (...) Bruscamente, a oferta
ultrapassa a demanda solvŽvel, a ponto de provocar massivamente um
recuo das encomendas e uma redu„…o da produ„…o corrente. › essa venda
insuficiente, essa n…o-estocagem e essa redu„…o de produ„…o corrente que
geram o movimento cumulativo da crise: redu„…o de emprego, das
rendas, dos investimentos, da produ„…o, das encomendas; nova espiral da
redu„…o do emprego, das rendas, dos investimentos, da produ„…o, etc, e
isso nos dois departamentos fundamentais da produ„…o, o de bens de
produ„…o e o de bens de consumo.88 ”

Na ‹poca de consolida„…o do fordismo, quanto mais se acelerava a


expans…o, mais se reduzia o ex‹rcito industrial de reserva, tornando mais difˆcil o

86
CUT – Resolu„•es da 3‡ PlenŽria Nacional (1989). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
87
MANDEL, Ernest. A Crise do Capital: os fatos e sua interpreta„…o marxista. S…o Paulo, Unicamp:
1990.
88
Idem, ibidem. PŽg 212

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aumento da taxa de mais-valia (um aspecto fundamental para que isso ocorra ‹ a
capacidade de organiza„…o dos trabalhadores, caso modifiquem a correla„…o de for„as
no mercado de m…o-de-obra a seu favor). Al‹m disso, quanto mais longa ‹ a expans…o,
mais raros se tornam os setores, ou paˆses, onde os capitais produtivos podem encontrar
uma conjuntura propˆcia para aumentar ainda mais a utiliza„…o de maquinaria e a
produtividade. Essa l†gica de expans…o gerou, em um determinado momento, uma
tendŠncia a queda da taxa de lucro. A queda da taxa de lucro acabou por aument a
competi„…o entre os capitalistas, dando maior “vantagem” as empresas mais fortes
“tecnologicamente” e do ponto de vista dos capitais investidos. Estas, por dominarem o
mercado atrav‹s de seu monop†lio, procuram retardar ao mŽximo o “momento da
verdade”, ou seja, tentam manter no maior tempo possˆvel o superlucro que desfrutavam
em seu “auge”89 . Vejamos como Gramsci descreve o momento de consolida„…o do
fordismo:
“› †bvio que os chamados altos salŽrios constituem uma forma
transit†ria de retribui„…o. A adapta„…o aos novos m‹todos de
produ„…o e de trabalho n…o se pode verificar apenas atrav‹s de
coa„…o social. (...) Se a situa„…o fosse normal, o aparelho de
coer„…o necessŽrio para obter o resultado desejado custaria mais
do que os altos salŽrios. (...) Mas, logo que os novos mˆtodos de
trabalho e produƒ„o se generalizem e difundirem, logo que o tipo
novo de oper‰rio for criado universalmente e o aparelho de
produƒ„o material se aperfeiƒoar mais ainda, o turnover
excessivo ser‰ automaticamente limitado pelo desemprego em
larga escala, e os alto sal‰rios desaparecer„o. Na realidade, a
ind“stria americana que paga altos salŽrios desfruta ainda do
monop†lio que lhe foi proporcionado pela primazia na
implanta„…o dos novos m‹todos; aos lucros de monop•lio
correspondem sal‰rios de monop•lio. Mas o monop†lio serŽ,
necessariamente, primeiro limitado, e, em seguida, destruˆdo pela
difus…o dos novos m‹todos tanto dentro dos Estados Unidos como
fora (ver o fen—meno japonŠs do baixo pre„o das mercadorias) e
desse modo, desaparecer…o os lucros elevados, e tamb‹m os altos
salŽrios. Al‹m do mais, sabe-se que os altos salŽrios est…o ligados
a uma aristocracia operŽria e n…o s…o pagos a todos os
trabalhadores norte-americanos.90 “

N…o podemos descolar as mudan„as ocorridas estruturalmente no


capitalismo p†s-1973 do perˆodo de expans…o no p†s-Segunda Guerra Mundial, o qual ‹
considerado como os “anos dourados do capitalismo”. A produ„…o mundial de

89
Idem, Ibidem. PŽg 212
90
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do CŽrcere Volume 4: “Temas de cultura. A„…o Cat†lica.
Americanismo e fordismo”. Rio de Janeiro: Civiliza„…o Brasileira, 2001. PŽg 273 grifos nossos

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manufaturas quadruplicou entre o inˆcio da d‹cada de 1950 e o inˆcio da d‹cada de


1970, como tamb‹m o com‹rcio mundial de produtos manufaturados aumentou dez
vezes. A eleva„…o da produtividade no cultivo agrˆcola foi tamb‹m enorme: a produ„…o
de gr…os por hectare quase duplicou entre 1950-1980, e mais que duplicou na Am‹rica
do Norte, Europa Ocidental e Leste AsiŽtico. As ind“strias de pesca triplicaram suas
capturas no mesmo perˆodo91 .
Este grande “boom”, esta longa conjuntura de crescimento econ—mico foi
alcan„ada, em certo sentido, pelo continuar de velhas tendŠncias, ou mesmo a
generaliza„…o de modelos que antes estavam restritos aos EUA. “O modelo de produ„…o
de massa de Henry Ford espalhou-se para ind“strias do outro lado dos oceanos,
enquanto o princˆpio fordista ampliava-se para novos tipos de produ„…o, da constru„…o
de habita„•es • chamada junk food (o Mc Donald•s foi uma hist†ria de sucesso do p†s-
guerra)”92 . Durante esta longa onda expansiva, em condi„•es de rŽpido crescimento
econ—mico, ocorreram a realiza„…o de reformas, entre as quais as polˆticas de “pleno
emprego” e seguridade social desempenharam um papel chave. Estas reformas foram
resultado tanto de uma conjuntura de lutas dos trabalhadores e de seu fortalecimento na
correla„…o de for„as, quanto das condi„•es materiais propiciadas pela pr†pria expans…o
econ—mica. Entretanto, quando passamos de uma onda larga expansiva a uma onda
larga depressiva, n…o existe mais possibilidade de assegurar o pleno emprego, a
amplia„…o da seguridade social e “altos” salŽrios aos trabalhadores. Quando este
momento de inflex…o ‹ atingido, a luta por restabelecer a taxa de lucro mediante um
forte crescimento da taxa de mais-valia se transforma na prioridade suprema das classes
dominantes93 . A “contra-revolu„…o antikenesiana” e o estabelecimento em larga escala
do desemprego cr—nico (tamb‹m chamado de “desemprego estrutural”), a polˆtica de
austeridade fiscal e da “culpabilidade individual” s…o a base de uma nova polˆtica
econ—mica que responde •s necessidades imediatas e estrat‹gicas dos capitalistas neste
determinado perˆodo.
Em primeiro lugar, esta queda da taxa m‹dia de lucros desencadeou, em
condi„•es de manuten„…o relativa do crescimento e do aprofundamento da especula„…o
financeira, a busca incessante ao cr‹dito, e o agravamento do endividamento das

91
HOBSBAWM, Eric. “Os anos dourados”. In: Era dos Extremos. S…o Paulo, Companhia das Letras:
1995. PŽg 257
92
Idem, ibidem. PŽg 259
93
MANDEL, Ernest. Las ondas largas Del desarrollo capitalista – La interpretaci†n marxista. Madrid,
Siglo XXI: 1986. PŽg 87. Tradu„…o pr†pria

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empresas, uma vez que os bancos se esfor„aram para evitar as quebras em s‹rie, as
quais lhe causariam grandes perdas94 . Em segundo lugar, ocorreu uma press…o
permanente para acelerar as inova„•es tecnol†gicas, jŽ que se reduziu as outras fontes
de mais-valia. Estas rendas tecnol†gicas s…o “superlucros derivados da monopoliza„…o
do progresso t‹cnico – isto ‹, de descobertas e inven„•es que baixam o pre„o de custo
de mercadorias, mas n…o podem (pelo menos em m‹dio prazo) ser generalizadas a
determinado ramo de produ„…o e aplicadas por todos os concorrentes devido a pr†pria
estrutura do capital monopolista. 95 ” Em terceiro lugar (mas n…o menos importante), a
grande capacidade de generaliza„…o das potencialidades da “terceira revolu„…o
tecnol†gica” e do aumento da automa„…o transformaram as for„as produtivas cada vez
mais em for„as destrutivas: desenvolvimento armamentista permanente, alastramento da
fome nas semicol—nias, contamina„…o da atmosfera e das Žguas, ruptura do equilˆbrio
ecol†gico, dentre outros96 .
Nesse sentido, o novo panorama internacional da d‹cada de 1990
tensionava fortemente para que mudan„as no terreno produtivo fossem realizadas, tendo
em vista a tendŠncia de queda da taxa de lucro e a busca de sua supera„…o pelo aumento
da taxa de mais-valia. Em outras palavras, eram necess‰rias uma reestruturaƒ„o
produtiva e uma nova estratˆgica pol€tico-econ†mica que a garantisse e legitimasse: o
neoliberalismo. Entretanto, apesar desta forte press…o, o panorama polˆtico brasileiro e a
ascens…o da organiza„…o dos trabalhadores abriam espa„o para a consolida„…o de
vit†rias e manuten„…o da resistŠncia • retirada de direitos. Um exemplo emblemŽtico
desta for„a foi a chegada do candidato do PT, Lula da Silva, ao segundo turno das
elei„•es presidenciais; seu oponente seria Fernando Collor de Mello (PRN).
Mesmo antes do segundo turno, apesar das divergŠncias entre as diversas
fra„•es das classes dominantes, a maioria do empresariado foi migrando pouco a pouco
para Collor, o qual era ex-prefeito bi—nico de Mac‹io e ex-governador de Alagoas, e que
jŽ fizera parte da ARENA, PDS e PMDB, e em 1984 tinha votado em Paulo Maluf no
Col‹gio Eleitoral: um candidato jŽ “testado” pelo empresariado. Tendo forte
resson‘ncia popular, sua candidatura foi “catapultada” atrav‹s de um importante
editorial de capa do Jornal “O Globo”, de autoria do jornalista Roberto Marinho, em

94
Mandel, Ernest. A Crise do Capital: os fatos e sua interpreta„…o marxista. S…o Paulo, Unicamp: 1990.
PŽg 215
95
MANDEL, Ernest. “A natureza espec€fica da terceira revoluƒ„o tecnol•gica” In: MANDEL, Ernest. O
Capitalismo Tardio. S…o Paulo, Nova Cultural: 1985. PŽg 135
96
Idem, ibidem. PŽg 151

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2/4/1989. Nele, intitulado “Convoca„…o”, Roberto Marinho conclamava a necessidade


de uma unifica„…o em torno de uma “candidatura de consenso”, de cunho “moderno e
otimista”, uma alternativa aos projetos “caudilhesco-populista” de Leonel Brizola e
“sectŽrio e meramente contestat†rio” de Lula da Silva97 . O editorial teve grande
repercuss…o, gerando a migra„…o de polˆticos tradicionais do PDC, PTB, PL, PFL e
PMDB para a candidatura de Collor, o qual conseguiu chegar ao segundo turno em
primeiro lugar, com 20.607.936 votos.
No segundo turno, as classes dominantes unificaram seus esfor„os em
torno de Collor, sobrepujando suas divergŠncias, pois estavam mais preocupadas com a
possibilidade de ascens…o de um governo popular - naquele momento representado pela
candidatura de Luis InŽcio Lula da Silva do PT - do que com um projeto claro para a
sociedade. Objetivavam o direcionamento do novo governo para seu pr†prio projeto
polˆtico, dando conte“do programŽtico e respaldo social aos novos condutores do
Estado Brasileiro. Nessa conjuntura, a CUT optou por apoiar explicitamente, enquanto
entidade, a candidatura da “Frente Brasil Popular”, encabe„ada por Lula da Silva do PT.
Assim, temos que ter a clareza que, apesar do avan„o nas organiza„•es dos
trabalhadores, do crescimento das greves e das lutas, os 35 milh•es de votos dados a
Collor n…o foram sem raz…o:
“Os principais fatores psicol†gicos, culturais e ideol†gicos que
permitiram que a prega„…o do programa neoliberal de Collor
tivesse aceita„…o podem se resumir em trŠs: desilus…o
generalizada de polˆtica, o clima resultante do desmonte das
experiŠncias do socialismo na URSS e no Leste Europeu, e,
finalmente, a invas…o da onda neoliberal mundial”98 .

Com Collor, os “choques recessivos”, os quais fazem parte da polˆtica de


ajuste neoliberal, tenderam a levar as empresas a promoverem profundas modifica„•es
no interior da estrutura do processo de trabalho. Estas mudan„as n…o tiveram apenas
carŽter defensivo, mas tamb‹m estavam voltadas para um novo cenŽrio de forte
concorrŠncia inter-empresarial. A ado„…o de novos padr•es tecnol†gicos e
organizacionais, baseados na terceiriza„…o e no aumento do controle social sobre os
trabalhadores, adequada • nova l†gica do capital mundial e da polˆtica econ—mica
neoliberal, tinha tamb‹m como objetivo criar uma divis…o maior entre as classes

97
O Globo – 02.04.89 – Retirado de DREIFUSS, Ren‹.Op.cit. PŽg 291
98
GIANNOTTI, Vito. Collor, a CUT e a pizza. S…o Paulo, Editora PŽgina Aberta, 1992. PŽg 18.

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dominadas, criando assim um terreno pouco propˆcio para as organiza„•es coletivas do


tipo sindical. Nesse sentido:

“› possˆvel dizer que, a partir do governo Collor, com sua orienta„…o


polˆtica neoliberal, tende a ocorrer um novo aprofundamento do processo
de integra„…o do Brasil no cenŽrio capitalista mundial, jŽ em avan„ado
estŽgio de globaliza„…o produtiva. Ocorre um novo salto qualitativo no
processo de inova„•es produtivas no paˆs.99 ”

A base destas modifica„•es no processo de trabalho ‹ a tecnologia


(t‹cnica aplicada para a produ„…o), subordinada a uma ciŠncia que visa • explora„…o do
trabalho, a qual tem papel primordial, pois ‹ atrav‹s da cria„…o de novas mŽquinas que,
gradativamente, busca-se a utiliza„…o do menor n“mero possˆvel de trabalhadores no
interior do conjunto da produ„…o. Ou seja, o capital criou as condiƒŠes para garantir a
formaƒ„o de uma nova base tecnol•gica, que seria responsŽvel pela invers…o entre
sujeito-objeto no processo de produ„…o100 . N…o foram as descobertas tecnol†gicas que
pautaram as mudan„as no processo produtivo, mas, ao contrŽrio, foram as necessidades,
por parte do capital, de reorganizar o processo produtivo, que possibilitaram a
emergŠncia de uma nova base material, como novos m‹todos disciplinadores no mundo
do trabalho. Sendo assim, a polˆtica econ—mica do Governo Collor ‹ um impulsionador
do acirramento da competi„…o inter-empresarial, a qual for„a a ado„…o de novos
m‹todos de trabalho como saˆda para o cenŽrio de recess…o e crise.
Ap†s o “Plano Collor I”, decretado em mar„o de 1990 com o objetivo de
diminuir a hiperinfla„…o e ajustar a economia, o governo apresentou, em 26 de junho de
1990 um conjunto de medidas para a polˆtica industrial chamado “Diretrizes gerais para
a polˆtica industrial e de com‹rcio exterior (PICE)”. As propostas tinham como norte
promover um processo de “moderniza„…o” da estrutura produtiva do paˆs, uma
verdadeira “ruptura com o passado”. As diretrizes da PICE apresentavam uma s‹rie de
medidas de desregulamenta„…o do com‹rcio exterior e de redu„•es de alˆquotas de
importa„•es. Caindo as restri„•es •s importa„•es, as empresas do paˆs tendem a
experimentar uma gradativa exposi„…o ao mercado mundial, sofrendo assim com o
processo de competi„…o internacional. As empresas, portanto, deviam aumentar sua

99
ALVES, Giovanni. “Nova ofensiva do capital, crise do sindicalismo e as perspectivas do trabalho – o
Brasil nos anos noventa”. In: TEIXEIRA, Francisco. (Org). Neoliberalismo e Reestrutura„…o produtiva –
as novas determina„•es do mundo do trabalho. S…o Paulo: Cortez, 1996.
100
ROMERO, Daniel . Marx e a T‹cnica. Um Estudo dos Manuscritos de 1861-1863. 01. ed. S…o Paulo:
Express…o Popular, 2005

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produtividade, pois “quem n…o mudar vai ter que fechar as portas”101 . O programa de
moderniza„…o implantado pelo governo Collor procurava, al‹m da abertura comercial:

“incentivar e obrigar o capital privado nacional a ‘reetruturar-se e


fortalecer-se’, com o apoio de cr‹ditos oficiais, ‘utilizados seletivamente
e dirigidos exclusivamente para os investimentos necessŽrios •
reestrutura„…o da ind“stria brasileira e a expans…o do com‹rcio
exterior’102 .

Dessa forma, o Plano Collor, a profunda recess…o, a abertura comercial e


o processo de retirada de direitos trabalhistas, tenderam a impulsionar a reestrutura„…o
produtiva nas ind“strias e bancos, com o objetivo maior de redu„…o de custos, como no
corte do quadro de pessoal. Foi a partir deste momento que se tendeu a propagar novos
m‹todos de organiza„…o do trabalho, vinculados •s novas tecnologias, o que demonstra
que o ajuste neoliberal teve um car‰ter estratˆgico e n„o meramente conjuntural. A
polˆtica de privatiza„…o, de desregulamenta„…o e de abertura da economia ao capital
transnacional transformaram-se em pilares fundamentais de um novo padr…o de
interven„…o do Estado na economia. N…o ocorreu uma “retra„…o” ou “diminui„…o” da
atua„…o Estatal, mas a mudan„a do padr…o de sua polˆtica no que tange a organiza„…o da
produ„…o e ao processo de trabalho, adequando-os ao ajuste neoliberal103 .
No Jap…o, o processo de reestrutura„…o produtiva (referŠncia para uma
“produ„…o enxuta” conectada com os “novos ditames”) teve como pilar fundamental um
inˆcio repressivo, e uma posterior integra„…o dos dirigentes sindicais ao projeto
empresarial:

“Ap†s a repress…o que se abateu sobre os principais lˆderes sindicais, as


empresas aproveitaram a desestrutura„…o do sindicalismo combativo e
criaram o que se constituiu no traƒo distintivo do sindicalismo japon‚s da
era toyotista: o sindicalismo de empresa, o sindicato-casa, atado ao
ide‰rio e ao universo patronal. (...) Combinando repress…o com
coopta„…o, o sindicalismo de empresa teve, como contrapartida • sua
subordina„…o patronal, a obten„…o do emprego vitalˆcio para uma parcela
dos trabalhadores das grandes empresas (cerca de 30% da popula„…o da

101
Jo…o Maia, secretŽrio nacional da Economia, retirado de Giovanni Alves. Nova ofensiva do capital...
op cit, pg 135
102
idem
103
SAES, D‹cio.”O que ˆ a pol€tica estatal neoliberal?” in: SAES, D‹cio. Rep“blica do Capital –
Capitalismo e processo polˆtico no Brasil. S…o Paulo, Boitempo: 2001. PŽg 82

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popula„…o trabalhadora) e tamb‹m ganhos salŽrios decorrentes da


produtividade.104 ”

No caso brasileiro, a principal peculiaridade da conforma„…o inicial da


reestrutura„…o produtiva ‹ que ela ocorre em cenŽrio recessivo, impedindo que as
empresas adotassem, com maior amplitude, novas estrat‹gias de envolvimento dos
trabalhadores, tais como b—nus vinculados • lucratividade. A principal meta, ent…o,
tornou-se o “enxugamento de pessoal” e a necessidade de reorganizar o processo de
trabalho105 , deixando “de lado” uma coopta„…o mais ampla, ou seja, a coerƒ„o
econ†mica foi um traƒo ainda mais caracter€stico da reestruturaƒ„o produtiva tardia
no Brasil.
Em setembro de 1990, Collor come„ou a acenar com uma proposta de
pacto nacional. Este era um perˆodo no qual aumentavam as greves de campanhas
salariais, al‹m da proximidade das elei„•es para o governo dos Estados e do Congresso
Nacional. Mas na plenŽria nacional da CUT de agosto do mesmo ano, os delegados de
vŽrios Estados do Brasil tinham rejeitado a id‹ia de pacto social e aprovado uma pauta
de reivindica„•es para ser encaminhada ao governo:

“A CUT vai desenvolver, imediatamente, um Plano de Lutas envolvendo


o conjunto dos trabalhadores para enfrentar de forma global e nacional o
projeto Collor, com o objetivo de reverter os enormes prejuˆzos que o
mesmo estŽ impondo aos trabalhadores e, assim:
• derrotar o plano de arrocho, desemprego, privatiza„•es e polˆtica
industrial do governo Collor;
• criar um novo patamar de a„…o sindical que permita • CUT enfrentar
um novo perˆodo da luta de classes no paˆs, combinando a resistŠncia •
polˆtica neoliberal com a constru„…o de alternativas a esse projeto que
sejam hegem—nicas no campo popular e que criem condi„•es para uma
disputa global com os setores conservadores, no plano da a„…o direta e da
a„…o institucional;
• demarcar, na disputa eleitoral em curso, o campo dos interesses dos
trabalhadores, suas bandeiras e suas lutas.106 ”

A partir dessa plenŽria, entretanto, come„aram a circular documentos


redigidos pela “Articula„…o Sindical” que caracterizavam a prŽtica sindical cutista da
d‹cada de 1980 como “reativa-reivindicativa”. Iniciou-se um processo de disputa
104
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho?. S…o Paulo, Cortez Editora, 2002 (8‡ edi„…o). PŽg 33
105
ALVES, Giovanni. O novo (e precŽrio) mundo do trabalho – Reestrutura„…o produtiva e crise do
sindicalismo. S…o Paulo, Boitempo, 2000. PŽg 225
106
CUT. Resolu„•es da 4‡ PlenŽria Nacional da CUT (1990). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM

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ideol†gica no interior da CUT de seu hist†rico, para que a partir de supostas anŽlises
fossem legitimadas mudan„as na atua„…o da Central. Nesta plenŽria a “CUT pela base”
entregou um documento intitulado “Construir uma resposta dos trabalhadores • crise”, o
qual denunciava que “membros da Executiva Nacional da CUT participavam de
negocia„•es sigilosas com o governo Collor e com os patr•es”. Para Gustavo Codas, em
dossiŠ polˆtico produzido pela CUT pela Base, o que se tentava com a suposta
caracteriza„…o de uma postura “reativa” da CUT na d‹cada de 1980 era legitimar uma
mudan„a em dire„…o a uma “CUT do Sim”, na qual uma polˆtica “propositiva-
afirmativa” se encaminhava:

“para o pacto social, que a maioria das centrais europ‹ias levaram ao


longo dos anos, e cuja aplica„…o, frente • ofensiva conservadora nos anos
80, teve resultados catastr†ficos. (...) O principal efeito [desta polˆtica]
certamente ‹ o da desmoraliza„…o polˆtica e ideol†gica de uma classe,
que perde referŠncia num projeto alternativo, para se integrar nas
alternativas capitalistas. (...) Ao falar na ‘interven„…o junto a outros
setores da sociedade civil para a constru„…o de uma alternativa de
desenvolvimento’, segundo dirigentes da Articula„…o Sindical na
PlenŽria de agosto de 90 de BH, esses “outros setores” eram, por
exemplo, os empresŽrios da PNBE, corrente de oposi„…o • dire„…o da
FIESP (Federa„…o das Ind“strias do Estado de S…o Paulo107 ”

Nesta plenŽria, em rela„…o ao referido documento da “CUT pela base”,


resolveu-se “a) rejeitar as acusa„•es formuladas no referido documento; b) acatar as
explica„•es da Executiva Nacional feitas • PlenŽria e remeter a ela para anŽlise e
resposta a este documento; c) remeter a resposta da Executiva e as respectivas
explica„•es a todas as inst‘ncias e filiados da CUT.108 ” Entretanto, um mŠs depois,
numa restrita reuni…o da Executiva Nacional, a CUT aprova por dois votos de diferen„a
a participa„…o do tal “entendimento” que Collor e a ministra da Economia, Z‹lia
Cardoso, estavam propondo. Segundo Vito Giannotti e Sebasti…o Neto:

“O resultado deste entendimento foi nulo. O governo, por‹m obteve


importantes frutos polˆticos. Ao sentar com Collor, a CUT estava
confundindo os trabalhadores, legitimando um governo eleito num mar
de mentiras e terrorismo polˆtico, numa opera„…o de guerra montada por
toda a burguesia. Este governo estaria, assim, acima dos conflitos das

107
GIANNOTTI, Vito; NETO, Sebasti…o. CUT Ontem e Hoje, S…o Paulo, Vozes: 1991. PŽg 62
108
CUT. Resolu„•es da 4‡ PlenŽria Nacional da CUT.

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classes, preocupado com o bem-estar dos brasileiros, preocupado em n…o


deixar afundar o navio de nome Brasil.109 “

› importante frisar que o PT em reuni…o de sua Executiva Nacional tinha


indicado a Jair Meneghelli, Presidente da CUT e tamb‹m petista, que seria um erro
polˆtico ir at‹ Collor. O PT, portanto, n…o aprovou a ida da CUT ao “entendimento”
com Collor110 .
Em 1991 a situa„…o se mant‹m. Enquanto os setores minoritŽrios da CUT
insistiam na necessidade de enfrentamento com o projeto neoliberal de Collor, atrav‹s
de uma greve geral, o setor majoritŽrio tentava adiar esta polˆtica. Constr†i-se um jogo
de “marca e desmarca” com a data da greve geral, que acaba criando desconfian„a e
demonstra„…o de pouca organiza„…o, com a greve finalmente acontecendo em maio
daquele ano, mas sem o mesmo grau de mobiliza„…o de antes.
Mas antes da greve, em mar„o daquele ano, em encontro com 2,5 mil
pessoas presentes foi fundada a For„a Sindical. A hist†ria de sua forma„…o vem desde a
segunda metade da d‹cada de 1980 com o germe do “sindicalismo de resultados”. Um
caso emblemŽtico o qual demonstra como esse projeto ganhava “corpo social” foi a
visita de Collor •s portas das fŽbricas durante a campanha presidencial de 1989, levado
pelos diretores do Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Paulo (em carros do pr†prio
sindicato). A partir daˆ, a rela„…o entre Luiz Antonio de Medeiros, naquele momento
Presidente do Sindicato, e Collor estreitava-se ainda mais. Como exemplo do
pensamento de Medeiros, temos algumas de suas declara„•es logo ap†s sua elei„…o no
Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Paulo, ainda em 1987:

“O capitalismo venceu no Brasil e os trabalhadores querem o


capitalismo.111 ”

“N…o escolhi o modelo americano de sindicalismo e sim a vida real. (...)


De fato o trabalhador anseia por melhores condi„•es de trabalho e
melhores salŽrios, e n…o pela derrubada do capitalismo.112 ”

“› preciso ter capitalismo forte, patr•es com lucros, para poder negociar
para ganhar mais e talvez trabalhar menos113 ”.

109
GIANNOTTI, Vito; NETO, Sebasti…o. Para onde vai a CUT? S…o Paulo, Scritta, 1993? PŽg 52
110
Idem, ibidem. PŽg 53
111
Folha de S„o Paulo – 20.8.1987. Retirado de GIANNOTTI, Vito. For„a Sindical: A central
Neoliberal. Rio de Janeiro, Maud, 2002. PŽg 51
112
Folha de S„o Paulo – 23.8.1987. Retirado de GIANNOTTI, Vito. For„a Sindical: A central
Neoliberal. Rio de Janeiro, Maud, 2002. PŽg 51

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“Polˆtica n…o dŽ camisa pra ningu‹m: o que o trabalhador quer ‹ dinheiro


no bolso.114 ”

Ap†s a vit†ria eleitoral, Collor retribuiu os servi„os. Medeiros, que era


cogitado para ser ministro do trabalho, indicou para a pasta seu colega Ant—nio Rog‹rio
Magri, ex-sindicalista que foi eleito presidente da CGT em 1989, com quem Medeiros
tinha grande concord‘ncia polˆtica. Atrav‹s de uma atua„…o conjunta com o Minist‹rio
do Trabalho, a For„a Sindical expandia velozmente seu “sindicalismo de resultados” e a
prega„…o do pacto social, criando centenas de sindicatos pelo paˆs. Para efeito de
compara„…o, de 1990 a 1992, enquanto a CUT recebeu treze cartas sindicais a entidades
filiadas, a For„a Sindical foi presenteada com 132, todas sintonizadas com o
sindicalismo neoliberal 115 .
O objetivo fundamental da For„a Sindical era expandir um sindicalismo
conservador, que contestasse a combatividade da CUT, disputando diretamente na base
das categorias os rumos do sindicalismo. O discurso pr†-capitalista e de negocia„…o sem
princˆpios de Medeiros foi como um raio em c‹u azul; um c‹u at‹ aquele momento
dominado pela CUT, que na prŽtica procurava atrav‹s de um sindicalismo combativo ir
al‹m da simples reivindica„…o salarial, apostando na conscientiza„…o e organiza„…o dos
trabalhadores. Entretanto, o raio trazia consigo nuvens cinzentas que pouco a pouco iam
escurecendo o horizonte do sindicalismo brasileiro.
Foi este novo panorama que a CUT teve que enfrentar com o inˆcio da
d‹cada de 1990. N…o apenas o seu candidato, Lula, tinha sido derrotado na primeira
disputa direta a presidente do perˆodo p†s-ditadura; o candidato vencedor construˆa
atrav‹s da atua„…o governamental uma polˆtica que visava debilitar o movimento
sindical, o qual come„ava a ter dificuldades com o aumento do desemprego e das
modifica„•es no processo de trabalho. Se na d‹cada de 1980 a conjuntura dos
movimentos sociais impulsionava a CUT para frente, oxigenando sua atua„…o com a
for„a das bases e de um grande crescimento das greves, a d‹cada de 1990 traz como
novidade uma conjuntura adversa, na qual os capitalistas reagiam •s investidas dos
movimentos sociais da d‹cada anterior. Collor se elegeu com o voto popular, consagrou

113
O Estado de S„o Paulo – 26.7.1987. Retirado de GIANNOTTI, Vito. For„a Sindical: A central
Neoliberal. Rio de Janeiro, Maud, 2002. PŽg 51
114
Fala atribuˆda a Medeiros em Assembl‹ias na categoria dos metal“rgicos. Retirado de GIANNOTTI,
Vito. For„a Sindical: A central Neoliberal. Rio de Janeiro, Maud, 2002. PŽg 48
115
GIANNOTTI, Vito. For„a Sindical: A central Neoliberal. Rio de Janeiro, Maud, 2002. PŽg 83

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nas urnas o projeto neoliberal que defendera na campanha e demonstrava for„a e


disposi„…o para aplicŽ-lo. Com uma nova conjuntura que trazia ventos adversos, em
setembro de 1991 a CUT realizou seu 4ΠCongresso, o IV CONCUT.

2.1 O IV CONCUT: tensŠes e golpes

O IV CONCUT contou com a participa„…o de 1.554 delegados,


provenientes de 1.679 entidades. Destes, 17% eram provenientes da base, e 83% da
dire„…o dos sindicatos. Um dos aspectos mais marcantes deste congresso foi a luta
interna pelo controle do poder da Central. Esta luta polˆtica, em muitos momentos era
mascarada pelo setor majoritŽrio enquanto “quest•es administrativas”, que envolviam a
mudan„a dos estatutos, a mudan„a na elei„…o dos delegados e a quest…o da chamada
proporcionalidade “qualificada”. A eclos…o de tantas divergŠncias dividiu o Congresso
em dois blocos fundamentais: de um lado, a “Articula„…o Sindical”, em alian„a com a
“Nova Esquerda”, a “Vertente Socialista” e a “Unidade Sindical”, e do outro lado as
outras tendŠncias, como o “CUT pela base”, Corrente Sindical Classista, ConvergŠncia
Socialista, For„a Socialista e outros pequenos grupos. Os campos sindicais nos quais
participavam o PC do B e o PCB, antes presentes na CGT, a partir deste IV CONCUT
iniciaram a sua participa„…o na Central. Ou seja, para al‹m das discuss•es que
supostamente seriam “administrativas”:

“O que estava em jogo nas diferentes teses era a defini„…o do rumo da


Central na d‹cada de 90. A principal quest…o era se a CUT deveria
marchar para ser uma Central de negocia„…o, de contrata„…o apenas, ou
se deveria combinar seu papel de negociar com sua caracterˆstica inicial
de Central de enfrentamento, do confronto com o projeto global da
burguesia.116 ”

A tese da Articula„…o Sindical ao IV CONCUT (que tinha


propositalmente o n“mero 13, do PT), chamada “Avan„ar, consolidar e vencer”,
realizava um balan„o geral positivo da atua„…o da CUT no “ltimo perˆodo, inclusive
sobre quest•es polŠmicas como a ida ao entendimento com Collor. Para a Articula„…o, a
ida ao entendimento foi correta, pois o objetivo fundamental era a disputa com o
governo e os empresŽrios:

116
GIANNOTTI, Vito; NETO, Sebasti…o. CUT Ontem e Hoje, S…o Paulo, Vozes: 1991. PŽg 44.

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“Em setembro de 1990, o governo volta a insistir numa negocia„…o


tripartite, desta vez acenando com a discuss…o de temas gerais e at‹
consensuais como a erradica„…o da pobreza. (...) Ap†s uma consulta
democrŽtica •s suas instancias de base, [a CUT] compareceu ao f†rum de
negocia„•es com o governo, empresŽrios e outros setores do movimento
sindical. (...) Atrav‹s da tŽtica de comparecer para disputar com governo
e empresŽrios, a CUT conseguiu impor a pauta 13 pontos da PlenŽria
Nacional e transformar aquilo que pretendia ser um espa„o para
referendar a polˆtica do governo num f†rum de negocia„•es, em que a
reposi„…o das perdas, necessidade de polˆtica salarial, assentamento de
trabalhadores rurais e revers…o de demiss…o de grevistas se constituˆram
em prioridade de discuss…o.117 ”

A participa„…o da CUT no f†rum contribuiu ent…o para o fortalecimento


da Central e ao isolamento do governo:
“A participa„…o da CUT no f†rum foi um obstŽculo decisivo para os
objetivos do Governo, que se manteve intransigente em cima de seu
projeto antipopular. A CUT contribuiu, assim, para o isolamento do
governo Collor e o desmascaramento de sua polˆtica econ—mica.118 ”

Al‹m disso, para a Articula„…o Sindical, grande parte das dificuldades da


CUT nas negocia„•es se deveu aos setores minoritŽrios da Central, que
“desrespeitando a democracia interna, decidiram encaminhar na base
contra as delibera„•es da Central. Assim, cada assembl‹ia, ao inv‹s de
organizar a mobiliza„…o dos trabalhadores, se transformava em
reavalia„…o da delibera„…o de comparecer •s negocia„•es, disseminando
a desinforma„…o e confundindo propositalmente e de mŽ-f‹ o processo de
negocia„…o com “pacto social”, fazendo coro com patr•es e o
governo”119 .

Esta atua„…o que “desrespeitava a democracia interna” por parte dos


setores minoritŽrios, cumpria para a Articula„…o Sindical dois objetivos:
“Primeiro, para mascarar a incapacidade que esses setores tŠm de
mobilizar a base de seus sindicatos. Assim, transferem seu imobilismo
para o setor majoritŽrio, que estaria “substituindo a mobiliza„…o por
negocia„…o”. (...)O segundo objetivo, eleitoreiro, consistia em precipitar
a discuss…o interna a respeito da dire„…o, visando ao 4Œ CONCUT.120 ”

117
CUT. Caderno de Teses ao 4Œ Concut (1991) – pŽg 90
118
Idem, ibidem – pŽg 91
119
Idem, ibidem – pŽg 91
120
Idem, ibidem. PŽg 91

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Para a ConvergŠncia Socialista, que defendia a Tese No 5, a ida ao pacto


demonstrava “um giro de 180Œ graus”, pois todos os Congresso da CUT at‹ aquele
momento tinham repudiado a participa„…o em qualquer “pacto social”:
“A maioria da Dire„…o Nacional da CUT conduzia a Central, pela
primeira vez na sua hist†ria, a sentar-se • mesa de um pacto social com
os patr•es e o governo patronal de Collor, disfar„adamente chamado de
“entendimento nacional”. Todos os congressos da CUT at‹ hoje
repudiaram por unanimidade qualquer proposta de pacto social, sempre
qualificando-as, corretamente, como propostas de colabora„…o de
classes.121 ”

Al‹m disso, para a CS a avalia„…o positiva que a Articula„…o fazia,


defendendo que na verdade n…o se tratava de um “pacto social”, mas de uma
“negocia„…o”, n…o condizia com a verdade:
“A dire„…o da Articula„…o se defende dizendo que n…o se tratava de um
pacto, mas de uma “negocia„…o”. Ora, era evidente que o objetivo do
“convite” do governo era muito diferente de uma negocia„…o como a que
se trava nas campanhas salariais. O verdadeiro carŽter do “entendimento
nacional” era legitimar e viabilizar o “Plano Brasil Novo”. (...) Al‹m
disto, qualquer dirigente sindical classista sabe que n…o se obt‹m nada
em uma negocia„…o sem uma forte mobiliza„…o que a acompanhe. Essa ‹
a primeira e essencial condi„…o para conquistar alguma coisa.122 ”

No mais, para a ConvergŠncia Socialista, quem atacou a democracia


interna na CUT foi a Articula„…o, e foi esse ataque que possibilitou a ida ao pacto
social:

“Acreditamos que [a ida ao pacto] se deu porque a dire„…o da Articula„…o


tem burocratizado o funcionamento da tomada de decis•es na CUT.
Apenas oito dirigentes, que constituem a maioria da Executiva Nacional
e ligados • dire„…o da Articula„…o, impuseram de forma burocrŽtica a
desmarca„…o da greve geral e a ida ao pacto social. N…o houve consulta
•s bases, n…o houve nem tem havido plenŽrias democrŽticas de sindicatos
para decidir, e assim se imp•e de cima para baixo tais orienta„•es.123 ”

Para a corrente “CUT pela Base”, que defendia a tese 16, a ida da CUT
no pacto social constituˆa-se num “retrocesso hist†rico”, e que se somava a um novo
caminho que a Central estava tomando:

121
Idem, ibidem. PŽg 40
122
Idem, ibidem. PŽg 41
123
Idem, ibidem. PŽg 41

74
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“A ida ao pacto n…o foi um momento isolado na vida da Central.


Corresponde a um trajeto iniciado jŽ em abril de 90 com a assinatura de
dois termos de compromisso com Medeiros e o PNBE, n…o deliberada
por nenhuma inst‘ncia da Central. 124 ”

A tese 16 tamb‹m defendia que a CUT deveria afirmar claramente seu


papel de oposi„…o a Collor e de independŠncia de classe, saindo do pacto social:

“A tens…o hoje existente na Central entre a afirma„…o plena da


independŠncia de classe e as polˆticas que objetivamente colocam a a„…o
da CUT circunscrita aos marcos da ordem burguesa n…o tem seus rumos
totalmente delineados, seja pelas correntes internas que a ela se op•e seja
pela radicaliza„…o do movimento de massas. O 4Œ CONCUT tem todas as
condi„•es para reafirmar a independŠncia de classe da Central. Oposi„…o
a Collor, a CUT fora do pacto social!125 ”

Adicionalmente, a “CUT pela base” acreditava que deveria se diminuir o


sectarismo existente na disputa interna na Central, pois n…o se podia resumir o
movimento sindical a mera busca pelo controle de aparelhos. Quando isso acontece:

“(...)o carŽter plural e democrŽtico que necessariamente as dire„•es


sindicais devem possuir ‹ substituˆdo por uma postura hegemonista,
excludente das posi„•es adversŽrias e das minorias presentes no
movimento. A disputa de mais de uma chapa cutista nas elei„•es
sindicais vem se tornando um fato cotidiano, com efeitos desagregadores
na base das categorias envolvidas em processos despolitizados e
sectŽrios.126 ”

No Congresso, a proposta de resolu„…o encaminhada pela Articula„…o


sobre o “entendimento” foi aprovada na ˆntegra, sem nenhuma emenda. Entretanto, isto
n…o significa que n…o existiu um forte debate no interior da CUT sobre o tema, como
podemos verificar pela tabela a seguir, baseada em dados do livro de Iram JŽcome
Rodrigues em seu livro “Sindicalismo e Polˆtica: a trajet†ria da CUT”:

124
Idem, ibidem. PŽg 109
125
Idem, ibidem. PŽg 110
126
Idem, ibidem. PŽg 110

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Tabela 5 - Posiƒ„o dos delegados presentes ao 4• CONCUT em


relaƒ„o Ž ida ao “entendimento nacional”:

Fonte: RODRIGUES, Iram JŽcome. Sindicalismo e Polˆtica: a trajet†ria da CUT. S…o Paulo,
Scritta, 1997. PŽg 228

Como relatado, entre os trabalhadores urbanos 48,4% eram contra a ida


ao entendimento, e 35,2% eram favorŽveis (n…o tinham posi„…o 12,4% e n…o opinaram
2,4%); nos trabalhadores rurais 54% eram favorŽveis e 21,3% eram contrŽrios. Estes
n“meros caracterizam que a participa„…o em tal reuni…o era bastante polŠmica, al‹m da
real for„a das correntes minoritŽrias na base das categorias, inclusive na base da pr†pria
Articula„…o 127 .
Outro ponto importante sobre as resolu„•es temŽticas dizem respeito ao
carŽter do Estado e qual deveria ser a rela„…o da Central com aquele. A tese da
Articula„…o reivindicava a participa„…o nos conselhos e f†runs de decis•es
governamentais, a amplia„…o de a„•es junto ao Congresso Nacional e a interven„…o no
debate sobre reforma constitucional para ampliar direitos dos trabalhadores,
especialmente no exerc€cio da cidadania:

“Enfrentar a discuss…o e elaborar propostas referentes •s reformas nas


Žreas de polˆticas industrial, social e em todas aquelas que afetem os
nˆveis de emprego, salŽrio, renda e vida do trabalhador, reivindicando

127
RODRIGUES, Iram JŽcome. Sindicalismo e Polˆtica: a trajet†ria da CUT. S…o Paulo, Scritta, 1997.
PŽg 228

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ainda a participaƒ„o nos conselhos e f•runs de decis„o p‹blicos e o


direito de acesso • informa„…o.128 ”

“Ampliar aƒŠes junto ao Congresso Nacional, visando influenciar nas


decis•es, refor„ar as institui„•es de carŽter democrŽtico e conter
iniciativas autoritŽrias do Executivo.129 ”

“Intervir no debate sobre a reforma constitucional, procurando garantir e


ampliar os direitos dos trabalhadores, principalmente no que se refere ao
exerc€cio da cidadania, •s conquistas sociais e aos direitos sociais.130 ”

Podemos perceber que uma formula„…o que ganharŽ peso posteriormente,


em rela„…o • constru„…o de “parcerias” com o Estado na defesa do “exercˆcio pleno da
cidadania”, mesmo que de forma marginal e n…o sendo o foco central do texto do ponto
de vista polˆtico, jŽ se encontrava na tese da Articula„…o Sindical para o IV CONCUT.
Para a ConvergŠncia Socialista, as medidas reivindicadas por um
sindicalismo classista, em sua totalidade, s† poderiam ser garantidas em um Governo
dos Trabalhadores. O Ponto de sua tese denominado “A CUT diante de duas estrat‹gias:
reforma ou revolu„…o” defendia que:

“Nenhum governo patronal, ou mesmo um eventual governo de coaliz…o


“progressista” ou de “unidade popular” que tenha patr•es como MŽrio
Covas, Brizola, Arraes, etc, irŽ tomar tais medidas131 , porque s…o
diretamente contra seus interesses de patr•es, que s…o opostos aos
interesses da maioria da popula„…o brasileira. (...) S† um governo dos
trabalhadores pode tomar as medidas necessŽrias para garantir mˆnimas
condi„•es de vida ao povo trabalhador e assegurar o desenvolvimento do
paˆs.132 ”

“N…o hŽ saˆda dentro do capitalismo. N…o haverŽ saˆda sem


transforma„•es revolucionŽrias de fundo em nosso paˆs.133 ”

128
CUT. Caderno de Teses ao 4Œ Concut (1991) – pŽg 90
129
CUT. Caderno de Teses ao 4Œ Concut (1991) – pŽg 91
130
CUT. Caderno de Teses ao 4Œ Concut (1991) – pŽg 92
131
As medidas aqui referidas constavam na plataforma de luta reivindicada pela tese, como reajuste
mensal automŽtico dos salŽrios, congelamento real dos pre„os sob controle dos sindicatos, redu„…o da
jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redu„…o de salŽrios, manuten„…o das estatais enquanto
p“blicas, reforma agrŽria sob controle dos trabalhadores, estatiza„…o dos bancos sob controle dos
trabalhadores e n…o pagamento da dˆvida externa. Caderno de Teses ao 4• Concut – p‰g 43
132
Idem, ibidem, pŽg 43
133
Idem, ibidem, pŽg 42

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Para a CS, a dire„…o da Articula„…o defendia reformas nos limites do


capitalismo:
“A dire„…o da Articula„…o Sindical, que dirige a CUT, defende uma
estrat‹gia oposta a essa [que reivindicamos]. (...) Eles dizem que ‹
possˆvel haver um desenvolvimento do nosso paˆs estimulado pelo capital
internacional e por um setor importante dos patr•es nacionais. A
realidade mostra o oposto.134 ”

Para a tese da CUT pela Base, o fundamental era articular as lutas de


massas com a luta institucional:
“As institui„•es do Estado podem ser –e em geral o s…o- uma barreira
para nossas reivindica„•es e aspira„•es, ou podem ser uma caixa de
resson‘ncia para o projeto popular. Mas nunca o centro de elabora„…o e
decis…o sobre os rumos propostos pelos trabalhadores.135 ”

A tese defendia, ent…o, que o elemento mais positivo da luta institucional


da CUT estava na a„…o direta:
“O 4Œ Concut [deve reafirmar] resolu„•es hist†ricas da Central no sentido
de impulsionar a a„…o direta dos trabalhadores contra os patr•es e o
Estado. O arsenal de iniciativas que jŽ empreendemos como grandes
mobiliza„•es que questionam atos do governo, greves gerais contra atos
do Executivo, Legislativo ou JudiciŽrio, ocupa„•es de terra que efetivem
a reforma agrŽria, e outras, constituem o elemento mais positivo da a„…o
institucional da CUT e devem ser aprofundadas nesta conjuntura.136 ”

Outro ponto de divergŠncia entre as teses mais representativas foi o peso


relativo do “sindicalismo de resultados” na conjuntura. A tese da Articula„…o Sindical
apenas citava indiretamente o “sindicalismo de resultados” e de forma marginal,
defendendo que as mudan„as realizadas na CUT possibilitaram um avan„o na sua
consolida„…o como a mais importante Central Sindical:

“Os avan„os organizativos e polˆticos decorrentes destas defini„•es [do


3ΠCONCUT] reafirmaram a CUT como principal central sindical,
contribuindo para o esvaziamento de outros projetos sindicais”137 .

134
Idem, ibidem, pŽg 43
135
Idem, ibidem, pŽg 111
136
Idem, ibidem, pŽg 111
137
Idem, ibidem, pŽg 89

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A tese da ConvergŠncia Socialista tamb‹m defendia o fortalecimento da


CUT no “ltimo perˆodo, e a quase inexistŠncia de um sindicalismo fora dos marcos
“cutistas”:

“› um fato que do “ltimo Congresso at‹ hoje a CUT cresceu, aumentou o


n“mero de sindicatos e a abrangŠncia na base do movimento sindical,
incorporando tamb‹m correntes sindicais dirigidas pelo PC do B e pelo
PCB. Quase podemos dizer que a CUT ‹ hoje a “nica central, porque as
CGT•s atuais s…o sombras da antiga e est…o em total decadŠncia, quase
em extin„…o”138 .

Por outro lado, a tese da “CUT pela Base” tinha um longo trecho de
anŽlise sobre o “sindicalismo de resultados”, acreditando que a CUT deveria “levar a
s‹rio” a existŠncia desse novo modelo de sindicalismo, sendo necessŽrio seu combate de
implacavelmente:
“c) Combate ao “sindicalismo de resultados”
Sob o governo Collor, o combate ao movimento sindical classista
encontra um elemento fundamental no fortalecimento – com a ajuda do
Estado e dos patr•es – de um movimento sindical ideologicamente
afinado com os interesses do capital que confronte o sindicalismo
classista numa disputa polˆtica e ideol†gica no movimento de massas. O
combate ao sindicalismo de resultados pressup•e, pois, uma estrat‹gia de
combate em trŠs planos:
Ideol€gico – com a afirma„…o de um sindicalismo classista, aut—nomo,
independente, democrŽtico e organizado pela base, claramente
identificado com o socialismo enquanto projeto hist†rico dos
trabalhadores, que articula interesses imediatos e hist†ricos, lutas
especˆficas e gerais, de carŽter econ—mico e polˆtico.
Polˆtico – na den“ncia de sua articula„…o com o projeto neoliberal e o
governo Collor, sua liga„…o partidŽria com as for„as de direita, sua
docilidade aos interesses do capital e contra as lutas hist†ricas dos
trabalhadores (como a redu„…o de jornada, estabilidade no emprego,
comiss•es de fŽbrica e outras).
Organizativo-sindical – como fortalecimento de oposi„•es sindicais na
base de suas entidades, um trabalho de massas em suas categorias,
incentivo • auto-organiza„…o dos trabalhadores na sua base em
organismos aut—nomos por empresa e regi…o e um trabalho unitŽrio do
conjunto das for„as cutistas no combate eleitoral nestes sindicatos.139 ”

Em rela„…o • discuss…o programŽtica entre as diversas teses, destaca-se


tamb‹m a aten„…o dada • quest…o da mulher na tese da “CUT pela Base”, “nica das
grandes teses que analisa mais a fundo o tema. Dentre outros pontos, a tese afirma que:
138
Idem, ibidem. PŽg 40
139
Idem, ibidem. PŽg 112

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“(...) o movimento sindical, construˆdo historicamente como um espa„o


masculino, reproduz cotidianamente a divis…o sexual do trabalho. Divide
tarefas onde as mulheres em geral est…o em posi„•es secundŽrias ou
organizativas e de infra-estrutura. Reproduz a domina„…o machista seja
nas piadas, nas cantadas e no ass‹dio sexual. Desvaloriza o trabalho
realizado pelas mulheres, e, al‹m disso, n…o reconhece que as mulheres
entram para a vida polˆtica em situa„…o de desigualdade com os homens,
em fun„…o de sua socializa„…o para a vida dom‹stica, de suas maiores
dificuldades no mercado de trabalho, dupla jornada, e amea„a constante
da violŠncia sexista.140 ”

A tese defendia, ainda, a cria„…o de creches, o envolvimento do sindicato


na luta contra a violŠncia praticada contra as mulheres, a elabora„…o de mecanismos que
dŠem condi„•es do aumento da participa„…o das mulheres nas diversas inst‘ncias
sindicais, como tamb‹m o engajamento da CUT “tanto nas mobiliza„•es que visam
socializar o trabalho dom‹stico (lavanderias comunistŽrias, restaurantes populares),
como travar o debate sobre a necessidade dos trabalhadores dividirem as tarefas
dom‹sticas com suas companheiras”141 .
O IV CONCUT estava colocado como um grande marco para defini„…o
dos caminhos que a CUT trilharia na d‹cada de 1990, sobre quais seriam suas respostas
para os desafios colocados com a mudan„a de conjuntura do paˆs. A centralidade desse
Congresso aumentou o clima de disputa na Central, especialmente com o “pano de
fundo” da ida da CUT ao “entendimento nacional” com Collor, como tamb‹m devido •s
novas propostas da Articula„…o Sindical no que tange aos Estatutos.
A elei„…o do sindicato dos bancŽrios de S…o Paulo, no inˆcio de 1991, foi
um dos indicadores de que o nˆvel de disputa no interior da CUT estava aumentando. Se
antes, o objetivo era unificar os lutadores em chapas “cutistas” para derrotar o “velho
sindicalismo”, gradativamente as diferen„as no interior da Central geravam a divis…o da
CUT em mais de uma chapa. Numa elei„…o muito acirrada, de um lado estava a chapa 1,
liderada por Gilmar Carneiro, secretŽrio geral da CUT, e composta quase que
exclusivamente pela Articula„…o Sindical. Do outro, estava um setor da Articula„…o, em
conjunto com a “ConvergŠncia Socialista”, a CUT pela Base e o PCB. A apura„…o deu
vit†ria a chapa 1 por uma pequena diferen„a de votos, que comemorou com a “palavra
de ordem” que demonstra por si s† o grau de sectarismo: “Porra, caralho, bando de

140
Idem, ibidem. PŽg 116
141
Idem, ibidem. PŽg 116

80
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cuz…o, quem manda nessa porra ‹ a Articula„…o”142 . Na elei„…o dos bancŽrios do Rio de
Janeiro, o sectarismo gerado na disputa tamb‹m de duas chapas, uma da situa„…o
liderada pela ConvergŠncia Socialista, e outra de oposi„…o da Articula„…o em conjunto
com o PDT, chegou ao ponto das acusa„•es eleitoreiras e sem princˆpios. A Articula„…o
“denunciou” que o presidente da Chapa da situa„…o, Cyro Garcia, teria roubado “383
milh•es de cruzeiros” dos cofres do Sindicato; s† que Cyro tamb‹m era membro da
Executiva Nacional da CUT, e essa acusa„…o irresponsŽvel voltou a ser feita tamb‹m no
IV Concut. No entanto, a Executiva Nacional da CUT formalizou, a pedido de Cyro,
uma comiss…o de moral e ‹tica para apura„…o dos fatos, com o objetivo de frear o
rebaixamento do debate.
Outros pontos que acabaram por aumentar a disputa foram a forma de
prepara„…o do CONCUT e suas etapas estaduais, que naquele ano elegiam os delegados
ao Congresso Nacional. Em rela„…o •s etapas estaduais, foram denunciadas tanto o
aumento arbitrŽrio do n“mero de delegados, como tamb‹m corte de delega„•es.
Em alguns casos, existiram sindicatos que declararam n“mero de
sindicalizados superior ao real, possibilitando o “incha„o” na elei„…o das delega„•es. Na
primeira rela„…o apresentada da delega„…o do ParŽ, por exemplo, este Estado elegeria 95
delegados ao Congresso Nacional, de 1600 de todo o paˆs, sendo considerado
extremamente excessivo tendo em vista a dimens…o do movimento sindical paraense.
Na ocasi…o foi solicitada atrav‹s de um documento assinado pela “CUT pela Base”,
“ConvergŠncia Socialista” e “For„a Socialista” uma recontagem do n“mero de filiados
no Estado. Ap†s a conforma„…o da comiss…o, foram colocados sob suspeita 22
sindicatos, que tiveram sua lista reformulada. Abaixo verificamos algumas das
modifica„•es realizadas pela comiss…o:

142
GIANNOTTI, Vito; NETO, Sebasti…o. CUT Ontem e Hoje, S…o Paulo, Vozes: 1991.. PŽg 64

81
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Tabela 6 – Sindicalizados do Par‰ (ap•s averiguaƒ„o)

Sindicato Rural Lista Apresentada pela N“mero declarado •


Executiva da CUT-ParŽ comiss…o de averigua„…o
pelos sindicatos
Bragan„a 30.000 filiados 13.365 filiados
CametŽ 3.200 filiados 2.321 filiados
Altamira 9.476 filiados 600 filiados
Santar‹m 5.326 filiados 321 filiados
•bidos 6.862 filiados 1894 filiados
Almerim 4.000 filiados 643 filiados

Fonte: GIANNOTTI, Vito; NETO, Sebasti…o. CUT Ontem e Hoje, S…o Paulo, Vozes:
1991. PŽg 71

Ap†s as den“ncias, o n“mero de delegados foi diminuˆdo de 95 para 57,


uma redu„…o de 40%.
Outra quest…o importante era a n…o aplica„…o da proporcionalidade nas
elei„•es de delegados na base. Pelo o estatuto da CUT, n…o era obrigat†rio a utiliza„…o
do crit‹rio de proporcionalidade na elei„…o de delegados, mesmo que essa fosse a forma
de elei„…o mais comum. A n…o exigŠncia da proporcionalidade nas elei„•es dos
delegados provocava distor„•es importantes, jŽ que a tese “vencedora” acabava por
levar todos os delegados. O Jornal “ConvergŠncia Socialista” na ‹poca denunciava a
principal distor„…o realizada atrav‹s deste m‹todo, ocorrida no Sindicato dos
Metal“rgicos de S…o Bernardo, que declarava ter 90 mil sindicalizados, mais de 10% do
total do Estado de S…o Paulo:

“› o caso do Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Bernardo, onde todos os


delegados eram da Articula„…o. S† com esse sindicato, a Articula„…o
elegeu 45 delegados de sua tese para o Congresso Nacional. Se houvesse
proporcionalidade, a oposi„…o teria pelo menos 10% deles. (...)143 ”

143
GIANNOTTI, Vito; NETO, Sebasti…o. CUT Ontem e Hoje, S…o Paulo, Vozes: 1991. PŽg 73

82
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No caso dos estados de Minas Gerais e Bahia, o que ocorreu foi, ao


contrŽrio, um corte das delega„•es de forma arbitrŽria. Sua decis…o, que demorou
meses, foi realizada por apenas parte da Executiva Nacional da CUT, jŽ que oito
membros (representantes da CUT pela Base, ConvergŠncia Socialista, For„a Socialista e
PLP) se recusaram a participar da vota„…o. Segundo Jos‹ Geraldo Ara“jo, bancŽrio de
Belo Horizonte e membro da Executiva Nacional, o raciocˆnio realizado pela
Articula„…o foi matemŽtico:
“A Articula„…o fez a conta na ponta do lŽpis, ap†s a realiza„…o de todos
os Congressos Estaduais. Ela via que, mesmo com a alian„a com a
Unidade Sindical, n…o teria a maioria necessŽria para aprovar suas
posi„•es e resolveu, ent…o, consegui-la a qualquer custo”144 .

Utilizando como justificativa a falta de informa„•es sobre o pagamento


das entidades filiadas • CUT, a Articula„…o definiu a aplica„…o de um “redutor” nos
respectivos Estados, fixando em 113 delegados a participa„…o de Minas Gerais, no qual
a Articula„…o n…o chegou a 35% dos votos em seu Congresso Estadual. Na Bahia, a
elei„…o de delegados foi diminuˆda em mais de 100, ficando com 114 delegados.
Estas fatos, dentre outros, levaram a reda„…o do documento “Manifesto
aos Dirigentes Sindicais Cutistas”, assinado por 11 membros da Executiva Nacional, o
qual defendia que estava ocorrendo um “violento ataque • democracia na CUT, que
pode cristalizar neste Congresso deforma„•es irremediŽveis para nossa Central e para a
luta dos trabalhadores”. Para os signatŽrios, “as regras do jogo foram alteradas quando
as proje„•es passaram a indicar uma derrota para a corrente majoritŽria, que perderia a
maioria absoluta.” Mesmo assim, os membros da Executiva defendiam a CUT, movidos
pela convic„…o de “resgatar a democracia interna, como princˆpio essencial de nossa
prŽtica e n…o como instrumento de ocasi…o”145 .
Al‹m das fraudes, este foi o primeiro Congresso no qual o efeito “Funil”,
aprovado no III CONCUT foi testado na prŽtica. O que ocorreu foi uma grande
diminui„…o da participa„…o da Base nas defini„•es da CUT, como podemos perceber na
tabela abaixo:

144
Idem, ibidem. PŽg 73
145
Manifesto aos dirigentes Sindicais Cutistas-mimeo. (1991)

83
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Tabela 7 – Evolu„…o da participa„…o dos delegados nos CONCUT•s

Base Dire„…o
I CONCUT 65,9% 34,1%
II CONCUT 70,51% 29,49%
III CONCUT 51% 49%
IV CONCUT 17% 83%

Fonte: CUT. Quadro dos Delegados aos I, II, III e VI CONCUT. Elabora„…o pr†pria.

Assim, no IV CONCUT ocorreu um crescimento de 69% da participaƒ„o


da Direƒ„o, e uma diminuiƒ„o em 66% da participaƒ„o dos delegados da Base.
Com este novo panorama, o Congresso aprovou, por uma pequena
maioria de 21 votos, ou 1,35%, o fim da autonomia da CUT perante as Centrais
Sindicais Internacionais, abrindo espa„o para a filia„…o da CUT a CIOSL na 5‡ PlenŽria
Nacional da CUT, em 1992. Os trŠs primeiros Congressos da CUT reafirmaram uma
postura independente e aut—noma frente aos blocos sindicais mundiais:
“A CUT manterŽ rela„•es com todas as Centrais Sindicais, conservando
sua autonomia e independŠncia”146 .

Entretanto, n…o era a essa a postura da “Articula„…o Sindical”, criticada


pelos representantes da oposi„…o, como a “CUT pela Base”:
“A concep„…o e prŽtica sindical da CUT n…o encontram correspondŠncia
em nenhuma das Centrais Sindicais mundiais. A filia„…o • Confedera„…o
Internacional de Organiza„•es Sindicais Livres (CIOSL), defendida por
dirigentes da Executiva Nacional da CUT, e o compromisso com as
concep„•es e prŽticas sindicais nela existentes s…o danosas • constitui„…o
de um p†lo classista, combativo, solidŽrio e democrŽtico no plano
internacional”147 .

A segunda grande vota„…o foi sobre a proporcionalidade qualificada. A


oposi„…o desejava um sistema mais democrŽtico, no qual houvesse “revezamento” na
escolha dos cargos para a dire„…o da Central. Pelos estatutos vigentes, a chapa
vencedora tinha o direito a preencher todos os cargos de acordo com o n“mero de
representantes eleitos, sendo os outros posteriormente preenchidos pela chapa
perdedora. Se a proporcionalidade qualificada funcionasse, a dire„…o espelharia melhor

146
CUT – Resolu„•es do 1Œ Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, 1983
147
Tese “CUT pela Base”. Caderno de Teses do IV CONCUT.

84
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o equilˆbrio do Congresso, pois a chapa vencedora ficaria com a PresidŠncia, a chapa de


oposi„…o com a vice-presidŠncia, e assim sucessivamente.
Nesta vota„…o, na primeira contagem houve empate. Realizou-se, ent…o,
uma recontagem com a presen„a de fiscais atentos dos dois lados e a proposta da
oposi„…o foi vencedora: 742 votos favorŽveis e 741 contrŽrios. Entretanto, no Domingo,
iniciados os trabalhos, a dire„…o do congresso optou por anular a vota„…o sobre a
proporcionalidade porque um dos votos em separado seria “repetido”. Ap†s a notˆcia da
anula„…o, o Congresso ficou paralisado por mais de quatro horas, perˆodo no qual os
dois blocos existentes na Central tiveram conflitos s‹rios, inclusive fˆsicos. As
confus•es e brigas tiveram como estopim a vota„…o da proporcionalidade, como
tamb‹m a negativa por parte da Mesa de Diretora do Congresso em ceder a
possibilidade de fala para Cyro Garcia, da ConvergŠncia Socialista, tendo em vista sua
defesa em rela„…o •s acusa„•es de “roubo” proferidas pela Articula„…o. As confus•es do
IV CONCUT acabaram por se tornar manchetes de jornais de grande circula„…o do paˆs:

“Nesta vota„…o [proporcionalidade qualificada] ocorreu a primeira briga,


em raz…o da decis…o da mesa coordenadora de propor a desconsidera„…o
de votos em separado, de delegados que haviam perdido seus crachŽs. Os
votos acabaram desconsiderados, mas dariam vit†ria a “AntŽrtica”, frente
anti-Articula„…o. A partir de ent…o virou palavra de ordem entre as
fac„•es radicais que o congresso era fraudado.148 ”

“Terminou em pancadaria, com pelo menos quatro delegados socorridos


em hospitais, o IV Congresso Nacional da Central •nica dos
Trabalhadores (CUT) em S…o Paulo (...) O estopim da briga foi a recusa
por parte da mesa diretoria em autorizar Garcia de se defender, em
plenŽrio, da acusa„…o de sumir com dinheiro do sindicato.149 ”

“A pancadaria no “ltimo dia de Congresso da CUT come„ou quando o


ex-presidente do sindicato dos bancŽrios do Rio de Janeiro, Cyro Garcia,
invadiu o palco onde estava a mesa diretora dos debates e tentou arrancar
• for„a o microfone de um dos mediadores. Logo, outros sindicalistas
invadiram o palco e houve troca de chutes, tapas, pux…o de cabelo e
muito choro.150 ”

148
“Jornal da Tarde. 9/9/91. Retirado de: RODRIGUES, Iram JŽcome. Sindicalismo e polˆtica. A
trajet†ria da CUT, S…o Paulo, Scritta e Fapesp, 1997
149
“Jornal do Brasil. 9/9/91 RODRIGUES, Iram JŽcome. Op. cit. Pg. 269.
150
“O Globo” 9/9/91. Retirado de Iram JŽcome Rodrigues. Sindicalismo e Polˆtica: A trajet†ria da CUT.
Pg. 269.

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De um lado a oposi„…o gritava “Democracia” e “apura„…o, apura„…o,


agora chega de ganhar no tapet…o”. De outro, a situa„…o respondia: “olŠ ol‹ olŽ.. rachar,
rachar” e “racha, racha, vai pra For„a Sindical”. O tempo foi passando, e chegou uma
nova informa„…o da mesa diretora dos trabalhos, avisando que o prazo para a inscri„…o
das chapas havia sido encerrado e com apenas uma chapa inscrita, a da “Articula„…o
Sindical”, passando-se assim para vota„…o. O ambiente, que jŽ estava complicado,
piorou ainda mais. Ap†s uma forte press…o da oposi„…o, foi dado um pequeno prazo
para que outras chapas se inscrevessem. Assim encerrou-se a polŠmica sobre a vota„…o
da proporcionalidade, com a manuten„…o do estatuto da CUT, passando por cima da
delibera„…o do Congresso que aprovara a “proporcionalidade qualificada”.
Em rela„…o •s outras delibera„•es do IV CONCUT, o tema da
democratiza„…o do Estado ‹ marcante, pois se tornou um dos pilares da atua„…o
estrat‹gica da Central, como tamb‹m uma maior Šnfase na defesa da “cidadania”. Na
resolu„…o “Estrat‹gia da CUT”, em seu ponto c, defende-se o “aprofundamento da
democracia” e a defesa do “direito • cidadania”, na busca por uma “alternativa de
desenvolvimento com distribui„…o de renda”:

“c) avan„ar na articula„…o com os setores democrŽticos populares para


aprofundar a democracia, construindo coletivamente uma nova
hegemonia e formulando uma alternativa de desenvolvimento com
distribui‚ƒo de renda. Nesse sentido, devem ser incorporados ao
cotidiano da luta sindical temas como a defesa do direito ‰ cidadania, o
combate aos preconceitos, a busca de novos padr•es de comportamento,
a defesa do meio ambiente e da qualidade de vida, entre outros.151 ”

Al‹m disso, a Šnfase dada • democratiza„…o do Estado no ponto d da


resolu„…o demonstra o maior apelo da participa„…o em †rg…os de controle estatal e
conselhos pela CUT:

“d) Lutar pela democratiza„…o do Estado. Reafirmar o papel


insubstituˆvel do Estado na retomada do desenvolvimento econ—mico e
na solu„…o dos grandes problemas sociais, negando os vˆcios
patrimonialistas, privatistas, autoritŽrios e as prŽticas descaracterizadoras
da fun„…o social do Estado. No Brasil, como em todo o mundo moderno,
sem a a„…o do Estado n…o haverŽ combate eficaz • infla„…o, nem
retomada do desenvolvimento, nem solu„…o da quest…o social. Trata-se,
portanto, de promover a democratiza„…o do Estado, desprivatizando-o e

151
CUT – Resolu„•es do IV CONCUT. Grifos nossos

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colocando-o a servi„o dos interesses p“blicos. Para isso, „ fundamental


a cria‚ƒo e o fortalecimento de €rgƒos de controle da a‚ƒo estatal.
Um Estado que fortale„a e organize a vida democrŽtica, que seja
transparente, que preste contas de suas decis•es e explicite as inten„•es
de seus atos.152 ”

A demonstra„…o que a maior Šnfase no tema “democratiza„…o do Estado”


tem tamb‹m rela„…o com a maior participa„…o, por parte da CUT, em conselhos e
†rg…os de controle Estatal, fica ainda mais clara na resolu„…o “Plano de A„…o” da
Central, que tinha como objetivo definir as a„•es de cunho tŽtico referentes a nova
conjuntura. A constru„…o de um “sindicalismo propositivo”, tendo em vista a supera„…o
de uma suposta a„…o “reativa” nos anos 80 tamb‹m ganha for„a:
“Por outro lado, a CUT deve elaborar propostas referentes ‰s
reformas nas Žreas de polˆtica industrial, social e em todas aquelas que
afetarem os nˆveis de emprego,salŽrio, renda e vida do trabalhador. Deve
ainda reivindicar sua participa‚ƒo nos conselhos e f€runs de decisƒo
pŠblicos e o direito de acesso ‰ informa‚ƒo. As secretarias nacionais da
CUT devem sistematizar tais temas, criando grupos de trabalho e
realizando encontros ou seminŽrios que possibilitem a defini„…o de
propostas e a„•es especˆficas. Como, por exemplo, nas Žreas de polˆtica
habitacional e de reforma urbana, educacional, de sa“de, de previdŠncia e
outras.153 ”

Em rela„…o • concep„…o de sindicalismo presente no IV CONCUT, outro


tema que merece nossa aten„…o foi a devolu„…o ou n…o do imposto sindical. O imposto
sindical ‹ um desconto, geralmente realizado no mŠs de mar„o na folha de pagamento
do trabalhador, de um dia de trabalho por ano (equivalente a 3,33% do salŽrio). Todos
os trabalhadores, sindicalizados ou n…o, s…o descontados, e este dinheiro ‹ repassado
pelas empresas na seguinte forma, de acordo com o artigo 589 da CLT:

152
Idem. Grifos nossos.
153
Idem. Grifos nossos.

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Tabela 8

Fonte: CLT. Artigo 589

Em rela„…o ao imposto sindical, hŽ setores que defendiam o seu fim


gradativo, outros defendiam o n…o recolhimento e sua devolu„…o, como tamb‹m
existiam aqueles que defendiam a utiliza„…o do dinheiro. No IV CONCUT, 80% dos
delegados presentes recolhiam o imposto sindical em seu sindicato de base; entretanto,
apenas 30,5% devolviam este dinheiro ao trabalhador:
Tabela 9

Fonte: RODRIGUES, Iram JŽcome. Sindicalismo e polˆtica. A trajet†ria da CUT, S…o


Paulo, Scritta e Fapesp, 1997 PŽg 220

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Em entrevista realizada no IV CONCUT, um dirigente da Articula„…o


Sindical, dizia: “N…o devolvemos o imposto sindical, aplicamos. Entrou dinheiro, n†s
compramos sub-sedes, capitalizamos o sindicato. (...) Ent…o o neg†cio tem um valor
simb†lico, mas tem tamb‹m um valor demag†gico. Porque se vocŠ pega isso e compra
sub-sede, rotativa, carro de som, come„a a dar pau t…o grande no patr…o que ele fala:
como ‹ que ‹...”. Por outro lado, ‹ importante destacar que desde sua funda„…o, a CUT
foi extremamente crˆtica em suas resolu„•es sobre o imposto sindical, avaliando que
esse era “uma das bases do peleguismo, do imobilismo polˆtico e at‹ mesmo da
corrup„…o nos sindicatos”154 ; no III CONCUT a Central deliberou em sua resolu„…o
“Pelo fim do Imposto Sindical” um dia nacional de luta e devolu„…o do imposto
sindical, pois esse era considerado “o principal sustentŽculo do sindicalismo oficial”155 .
Apenas duas chapas se inscreveram para participar do processo eleitoral
neste congresso. A chapa 1, encabe„ada por Jair Meneguelli, da Articula„…o Sindical e
seus aliados, com 52,16%, e a chapa 2, liderada por Durval de Carvalho, da CUT pela
Base, em conjunto com os outros setores da oposi„…o, com 47,84%. Ap†s a vit†ria do
setor majoritŽrio, assim o SecretŽrio Geral da Central reeleito, Gilmar Carneiro, avaliou
o IV CONCUT (1991):
“Em 1983, no Congresso de funda„…o da CUT tiramos fora a direita.
Neste IV CONCUT nos livramos da esquerda” 156 .

O desgaste do Congresso foi t…o grande, especialmente em rela„…o •


vota„…o da proporcionalidade qualificada que foi aprovado, na primeira reuni…o da nova
Executiva Nacional, o texto chamado “Bases para um compromisso”. Na resolu„…o,
apoiada por 31 dos 32 membros (entre efetivos e suplentes) foi aprovada “a constitui„…o
de uma Comiss…o de ›tica Nacional para verifica„…o dos acontecimentos do IV
CONCUT e apresenta„…o de propostas para uma base ‹tica de convivŠncia na CUT”.
Al‹m disso, foi aprovada que “a polˆtica de funcionamento da nova dire„…o executiva
deve[ria] combinar o envolvimento de todos os companheiros nas tarefas da Central de
acordo com as potencialidades e disponibilidades”. No mais, a chapa da minoria acabou
ficando com apenas parte dos cargos que ela teria direito de escolher, caso a vota„…o de
proporcionalidade qualificada tivesse sido realmente acatada. Assim, defendiam os

154
CUT – Resolu„•es do II CONCUT (1986) In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
155
CUT – Resolu„•es do III CONCUT (1988) In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
156
Jornal da Tarde. 12.9.91. Retirado de Sebasti…o L. Neto e Vito Giannotti. Para Onde Vai a CUT. Pg
54

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membros da Executiva que “apesar dos problemas e dificuldades reveladas reafirmamos


a legitimidade do IV CONCUT e o cumprimento das suas resolu„•es como o ponto de
partida para uma efetiva unidade nas prŽticas da CUT.157 ”

2.2 – O Plano Nacional de Formaƒ„o da CUT (1991)

Em rela„…o • polˆtica de Forma„…o da Central, o Plano Nacional de


Forma„…o (PNF-CUT) de 1991 foi elaborado a partir de um processo iniciado por uma
avalia„…o interna da equipe da Secretaria Nacional de Forma„…o, passando por duas
reuni•es envolvendo as escolas sindicais (Sul e Norte), da CUT e escolas conveniadas
(Inca, 7 de Outubro e Equip), culminando com o 4Œ Encontro Nacional de Forma„…o (4Œ
Enafor), realizado nos dias 1, 2, 3 e 4 de fevereiro de 1991, em Belo Horizonte, MG. As
atividades previstas eram realizadas pelas Escolas de Forma„…o da CUT e a pela pr†pria
Secretaria Nacional de Forma„…o. Inicialmente, de 1984 a 1986, a forma„…o sindical era
realizada dentro da Pr†pria CUT, baseada em seus pr†prios instrumentos de forma„…o
que foram pouco a pouco construˆdos. A partir de 1987, praticamente toda a forma„…o
come„ou a ser realizada pelo Instituto Cajamar (S…o Paulo), e pela Escola Sindical Sete
de Outubro (Belo Horizonte). Na virada para a d‹cada de 1990, come„ou a ganhar for„a
a id‹ia de funda„…o de escolas que pertencessem • estrutura interna das CUT, as escolas
org•nicas. Segundo Paulo Tumolo, esta movimenta„…o de crescimento das escolas
org‘nicas e a queda das escolas conveniadas tem rela„…o direta com a polˆtica da
corrente majoritŽria da CUT, que tamb‹m dirigia a Secretaria Nacional de Forma„…o, a
Articula„…o Sindical. As correntes minoritŽrias avaliavam que:

“(...)a Articula„…o Sindical, num primeiro momento, em 1986/1987


“jogou” a forma„…o sindical para fora da CUT, ou seja, para escolas
conveniadas – basicamente o Instituto Cajamar – tendo em vista que,
naquele momento, a correla„…o de for„as entre as tendŠncias polˆticas
ainda era muito equilibrada e n…o tinha nenhuma garantia de que a
forma„…o sindical – uma polˆtica estrat‹gica – ficaria sob seu controle e
sua orienta„…o. Simultaneamente, a mesma corrente logrou dirigir e
estruturar a Secretaria Nacional de Forma„…o, e, num segundo momento,
no inˆcio dos anos 90, quando jŽ se consolidava n…o s† como majoritŽria,
mas como a tendŠncia polˆtica hegem—nica na CUT, e a forma„…o
sindical havia se organizado razoavelmente no interior da Central

157
Bases para um compromisso (1991) – Mimeo.

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segundo sua orienta„…o, o movimento se inverte, ou seja, a forma„…o


sindical come„a a ser “chamada” novamente para dentro da CUT.158 “

Dessa forma, o Plano Nacional de Forma„…o da CUT de 1991 previa a


transforma„…o dos eixos prioritŽrios do plano de 1990 em programas de forma„…o,
transformando o programa do CEPS (Concep„…o, Estrutura, e PrŽtica Sindical da CUT)
em seu “carro chefe”, atrav‹s dos seguintes programas:
“1)Concep„…o, Estrutura e PrŽtica Sindical da CUT (CEPS)
2) Negocia„…o e Contrata„…o Coletiva
3) Planejamento e Administra„…o Sindical Cutista
4)Processo de trabalho e Organiza„…o Sindical de Base
5)Comunica„…o e Express…o Sindical
6)Forma„…o para a Dire„…o Nacional da CUT
7)Forma„…o sobre a Quest…o Rural
8)Forma„…o sobre a Quest…o da Mulher Trabalhadora
9)Recursos Humanos, Pedag†gicos, e Metodologia no Trabalho da
Forma„…o Cutista
10)Apoio • Estrutura das Secretarias Estaduais de Forma„…o da CUT e
•s Escolas
11)Coopera„…o e Interc‘mbio Nacional e Internacional”159

Na tabela abaixo, podemos verificar jŽ o grande crescimento da


realiza„…o dos cursos pelas Escolas de Forma„…o, em detrimento das atividades
realizadas diretamente pela SNF:

158
TUMOLO, Paulo Sergio. Da Contesta„…o • Conforma„…o – A Forma„…o Sindical da CUT e a
Reestrutura„…o Capitalista. S…o Paulo, Ed Unicamp, 2001. PŽg 179
159
CUT. Plano de Trabalho da Secretaria Nacional de Forma„…o. PŽg 6

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Tabela 10 - Atividades Formativas da Pol€tica Nacional de Formaƒ„o –


CUT (1987-1991)

SNF Escolas Centros/ No

F
Universidades Participantes
1987 20 10 1 672
1988 24 8 2 1.134
1989 23 14 4 1.250
1990 26 23 2 2.035
1991 13 48 2 2.116

Fonte: CUT. Avalia„…o Externa da Polˆtica Nacional de Forma„…o da CUT. PŽg 45

Dessa forma, houve uma diminuiƒ„o em 50% das atividades realizadas


diretamente pela Secretaria Nacional, e o crescimento de 108% daquelas realizadas
pelas Escolas de Formaƒ„o. › importante frisar que o total de atividades e n“mero de
participantes n…o reflete toda a polˆtica de forma„…o cutista, jŽ que n…o constam os
dados das atividades formativas efetivadas pelas demais secretarias das CUT estaduais
como tamb‹m as realizadas pelos sindicatos, confedera„•es e federa„•es; assim, seus
n“meros refletem a polˆtica de forma„…o da CUT Nacional, mas n…o da CUT como um
todo.

Outro dado importante ‹ o crescimento do n“mero de participantes nos


cursos instrumentais e de forma„…o sindical, em especial nos cursos de “forma„…o de
formadores” em Metodologia de forma„…o Sindical, Recursos Humanos e Metodologia
de Forma„…o:

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Tabela 11 - N‹mero de Participantes das atividades da PNF segundo


programa e ano (1987-1991)

Forma„…o Gest…o Operacional/Instrumental


Geral Sindical
1987 349 0 48
1988 957 0 177
1989 933 142 178
1990 885 710 416
1991 882 644 590

Fonte: CUT. Avalia„…o Externa da Polˆtica Nacional de Forma„…o da CUT. PŽg 193 . Elabora„…o
Pr†pria.

Atrav‹s da tabela, verifica-se que o crescimento efetivo dos cursos de


tema “operacional/instrumental” n…o ocorreu em detrimento dos de “forma„…o geral”.
Podemos afirmar que os cursos instrumentais cresceram em uma velocidade e
propor„…o maior do que os cursos de forma„…o geral na CUT entre 1987 e 1991
(crescimento de 152% e 1.129% respectivamente); desde 1988 os cursos de “forma„…o
geral” diminuˆram gradativamente, enquanto os cursos instrumentais cresceram em todo
perˆodo em quest…o, com “saltos” de 1987 para 1988, e de 1989 para 1990. Para
realizar os novos par‘metros definidos na Polˆtica Nacional de Forma„…o, no IV
CONCUT Jorge Lorenzetti, da Articula„…o Sindical, foi reeleito para a Secretaria
Nacional de Forma„…o da Central.
Dessa forma, podemos avaliar que o IV CONCUT foi um marco na
quebra do consenso geral existente no interior da CUT de que todas as suas correntes
eram classistas. A polˆtica de ida ao “entendimento” com Collor aprovada pela
Articula„…o Sindical por uma pequena maioria em reuni…o da Executiva Nacional, como
tamb‹m as mudan„as na atua„…o de suas dire„•es na perspectiva de uma maior
participa„…o em f†runs tripartites, geraram profundas divergŠncias no interior da
Central. As diferen„as existentes na CUT transformaram-se gradativamente em
estrat‹gicas; assim, a grande tens…o que ocorreu no IV CONCUT tem rela„…o direta
com a disputa de rumos da Central e de que concep„…o de sindicalismo seria seu norte,
n…o estando apenas restrita a debates administrativos ou de “m‹todo”. A Articula„…o

93
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Sindical, que no processo de funda„…o da CUT e de seus primeiros Congressos a dirigiu


intelectualmente e moralmente, realizando sua hegemonia atrav‹s de uma maioria
num‹rica e da mescla de forma subordinada de elementos dos grupos minoritŽrios nas
resolu„•es, acabava por aumentar o uso da “coer„…o” na busca pelo controle total da
Central.
Devido impossibilidade de consenso em torno de suas novas propostas,
pois essas, segundo as correntes minoritŽrias, quebravam o “pacto” inicial de funda„…o
da CUT (os princˆpios do classismo e da independŠncia dos Governos e Patr•es), a
Articula„…o Sindical caminhou em dire„…o • imposi„…o pela for„a de novas resolu„•es,
jŽ que era majoritŽrio no sindicalismo cutista a defesa de uma atua„…o classista e
independente. Mesmo com a aplica„…o de “redutores” pela Articula„…o Sindical, a
diminui„…o da atua„…o das bases atrav‹s do funil, o n…o respeito • proporcionalidade,
etc, a representa„…o das correntes que se colocaram em contraposi„…o ao novo rumo da
Central chegou muito perto dos 50% na vota„…o das chapas. A partir do IV CONCUT a
“Articulaƒ„o Sindical” iniciou seu processo de dominaƒ„o da Central atravˆs de uma
complexa relaƒ„o entre a busca da “reescrita” da mem•ria do sindicalismo brasileiro
e da construƒ„o de um novo imagin‰rio, baseando sua atuaƒ„o pela forƒa/coerƒ„o das
fraudes e do cerceamento da democracia sindical como tambˆm pelo poder econ†mico
dos sindicatos por ela controlados. › um momento de transi„…o, no qual a “Articula„…o
Sindical” deixa de dirigir intelectualmente e moralmente a CUT para se tornar a
corrente dominante, passando a controlar quase que exclusivamente seus rumos, com
um abrandamento dos pontos de consenso com os grupos minoritŽrios. As mudan„as
realizadas pela CUT, portanto, tiveram rela„•es com suas disputas internas, com a
atua„…o prŽtica de seus sindicatos - muitas vezes contradit†rias com o projeto de
sindicalismo que defendia (demonstrada pela existŠncia do assistencialismo e utiliza„…o
do imposto sindical nos sindicatos cutistas), como tamb‹m com a mudan„a de
conjuntura na passagem da d‹cada de 1980 para 1990.
Outra mudan„a importante, que ocorreu no p†s IV CONCUT, foi a
dissolu„…o da “CUT pela Base”, a maior corrente de oposi„…o • “Articula„…o Sindical”,
entre o final de 1991 e primeiro semestre de 1992:

94
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“No caso da CUT pela Base, n†s, a CUT pela base, entramos em crise
quando tivemos a completa mudan„a do modelo econ—mico brasileiro e
da mudan„a do Estado. Pelo menos, de um inˆcio de mudan„a, com a
abertura comercial indiscriminada, com a privatiza„…o do Estado. JŽ
tˆnhamos avan„ado na id‹ia do Brasil e das novas tecnologias, com o
impacto nos setores produtivos. E a CUT nesse momento, em minha
opini…o, teve dificuldades em responder estrategicamente ao perˆodo que
n†s estŽvamos entrando. A CUT pela Base, em especial, n…o teve
capacidade de formula„…o. N†s tivemos nesse caso tamb‹m diferen„as
polˆticas de orienta„…o partidŽria, mas jŽ n…o tˆnhamos, na mudan„a
produtiva, uma unidade programŽtica. Ent…o a CUT pela Base se
dissolveu em 1991”160 .

Logo ap†s o Congresso, em 13 de dezembro de 1991, em S…o Bernardo


do Campo, ocorreu a “Vigˆlia contra a Recess…o”, cujo lema era “Vamos acender a
chama da dignidade e da produ„…o”. No palanque, lado a lado, trabalhadores,
empresŽrios e polˆticos ligados aos setores burgueses: entre os presentes, estavam MŽrio
Amato, presidente da Federa„…o do Com‹rcio, e Emerson Kapaz, representante da
PNBE, al‹m de representantes da FIESP e outros empresŽrios. Este seria o pontap‹ para
um novo pacto da CUT com os setores empresariais para resgatar o “desenvolvimento
econ—mico” do paˆs, pois dois meses ap†s, Vicentinho estava trabalhando pela cria„…o
das c‘maras setoriais.

2.3 As C•maras Setoriais

As c‘maras setoriais foram apresentadas pelo setor dirigente da CUT


como a ferramenta que salvaria o Brasil da crise, uma alternativa estrat‹gica para o
conjunto do sindicalismo da d‹cada de 1990. Pretendia-se a organiza„…o de uma c‘mara
para cada setor da economia, e colocando representantes da CUT nas c‘maras jŽ
existentes e que contavam apenas com a participa„…o dos empresŽrios e governo. As
c‘maras eram vistas, portanto, como a realiza„…o prŽtica do contrato coletivo de
trabalho, desempenhando um papel de press…o sobre os empresŽrios e governos para
polˆticas setoriais que interessariam aos trabalhadores, e tamb‹m negociar os pre„os ao

160
Rafael Freite Neto. Entrevista concedida a Ferraz, 2003. Retirado de FERRAZ, Marcos. Da Cidadania
Salarial • AgŠncia de Desenvolvimento SolidŽrio. O Sindicalismo-CUT e os desafios para enfrentar uma
nova cidadania. Tese de Doutorado. S…o Paulo, USP, 2005.PŽg 95

95
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longo das cadeias produtivas, sendo assim um mecanismo “democrŽtico” e pactuado de


controle da infla„…o161 .
As c‘maras setoriais surgiram no final dos anos 80, com o objetivo,
segundo seus formuladores, de estabelecer diagn†sticos de competitividade setorial,
identificar as causas das distor„•es existentes e indicar as estrat‹gias para seu
equacionamento. Ou seja, tiveram, desde o inˆcio, suas fun„•es institucionalmente
voltadas para objetivos e polˆtica industrial. No governo Collor elas foram utilizadas
como inst‘ncia de resolu„…o e pactua„…o de conflitos, como fica claro ap†s o segundo
semestre de 1991, quando medidas do governo redefiniram a competŠncia e abrangŠncia
das c‘maras. Nesse perˆodo passaram a ser elaboradas cartas-compromisso para cada
setor, que incluˆam o desenvolvimento de programas do governo, o Programa Brasileiro
de Qualidade e Produtividade (PBQP), o Programa de Apoio • Capacita„…o Tecnol†gica
da Ind“stria (PACTI) e o Programa de Competitividade Industrial (PCI) no ‘mbito dos
setores. Assim as c‘maras e suas abrangŠncias foram ampliadas, e as cartas-
compromisso foram substituˆdas por acordos setoriais, que tinham como objetivo tratar
de assuntos que n…o se limitavam apenas a negocia„•es de pre„os, mas abordavam
quest•es estruturais de m‹dio e longo prazos162 .
Dessa forma, o setor dirigente da CUT, logo ap†s o IV CONCUT,
propunha como soluƒ„o para o processo de reestruturaƒ„o produtiva a construƒ„o de
um grande pacto entre empres‰rios, trabalhadores e governo. A CUT deixava
progressivamente a luta e mobiliza„…o como pilares fundamentais de sua atua„…o
polˆtica, para deixar-se levar pelos acordos de c“pula dos f†runs tripartites. Um dos
exemplos mais marcantes foram os acordos existentes entre os sindicalistas de S…o
Bernardo na C‘mara Setorial do setor automotivo.
O Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Bernardo come„ou a participar da
c‘mara em dezembro de 1991, e em 26 de mar„o de 1992 foi assinado o primeiro
acordo do setor automotivo pelas entidades representativas dos trabalhadores (entre elas
o Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Bernardo), do setor de autope„as, revendedores de
veˆculos, montadoras e governo. No acordo, ficou acertada redu„…o nos pre„os dos
veˆculos em 22% vŽlida por 90 dias, que seria alcan„ada da seguinte forma: 12%
mediante a redu„…o das alˆquotas de IPI e ICMS; 7,5% com a redu„…o das margens pelo

161
BOITO JR, Armando. Polˆtica neoliberal e sindicalismo no Brasil. S…o Paulo : Xam…, 1999. PŽg 164.
162
ANDERSON, Patricia. C‘maras Setoriais: Hist†rico e Acordos Firmados: 1991/1995. Rio de Janeiro,
IPEA, 1998. PŽg 1

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setor produtivo, sendo 4,5% pelas montadoras e 3% pelos fornecedores de autope„as; e


2,5% com a redu„…o da margem de comercializa„…o, pelas concessionŽrias; manuten„…o
do nˆvel de emprego at‹ 30 de junho de 1992, posteriormente podendo ser estendida at‹
31 de julho de 1993 e corre„•es mensais de salŽrio equivalentes • varia„…o do INPC do
mŠs anterior, resguardando diferencia„•es por setor (montadoras e fornecedores)163 .
Para os sindicalistas que defenderam a proposta, em S…o Bernardo:
“A C‘mara Setorial representa uma alternativa como f†rum de discuss•es
amplas, onde, a despeito das inevitŽveis divergŠncias de diagn†sticos e
propostas existentes entre os vŽrios segmentos que comp•e o setor, existe
a perspectiva de significativos avan„os. O aumento da produtividade ˆ
fundamental para melhorar a competitividade da ind‹stria brasileira no
mercado internacional. Acreditamos que compete a uma nova polˆtica
industrial, antes de mais nada, basear-se numa estrat‹gia para o tipo de
inser„…o do Brasil no novo cenŽrio da economia mundial.164 ”

Os dirigentes do sindicalismo de S…o Bernardo, um dos pilares


fundamentais da constru„…o da CUT, defendiam, ent…o, que a alternativa para a
supera„…o da crise econ—mica do paˆs era o aumento da produtividade da ind“stria
brasileira, favorecendo assim a sua competitividade. Ou seja, al‹m de construir um
pacto com os empresŽrios e governos, seu norte era baseado na proposta das classes
dominantes, e n…o dos trabalhadores, jŽ que aumento de produtividade ˆ sin†nimo de
aumento da exploraƒ„o da forƒa de trabalho. A produtividade ‹ contabilizada pela
propor„…o entre a produ„…o realizada e a o n“mero utilizado de trabalhadores; assim, um
dos mecanismos mais comuns de aumento da produtividade ‹ exatamente a diminui„…o
dos postos de trabalho, a radicaliza„…o da disciplina do processo de trabalho (com a
existŠncia de mecanismos de controle, banco de horas, etc) e a utiliza„…o de novas
tecnologias na produ„…o. Dessa forma, dirigentes do sindicalismo cutista alˆm de
participar dos f•runs tripartites, comeƒavam a atuar nestes sob a direƒ„o intelectual e
moral da burguesia, pois apresentavam enquanto seu o projeto das classes dominantes.
Das 26 c‘maras setoriais existentes, a CUT participava em 14.
Em 1992 a in‹rcia da CUT frente a crise do governo Collor e sua
incapacidade de organizar manifesta„•es sindicais para pressionar a saˆda do presidente,
refletiam bem a mudan„a de postura da Central, e seu gradativo distanciamento das
bases. Enquanto em S…o Paulo, Fortaleza, Jo…o Pessoa, Belo Horizonte, algumas

163
Idem, ibidem. PŽg 18
164
Reestrutura„…o do complexo automotivo brasileiro – as propostas dos trabalhadores na C‘mara
Setorial. Documento produzido pelo Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Bernardo e Diadema. 1992.

97
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inst‘ncias da CUT puxaram o “Fora Collor”, a maioria da Executiva da Central defendia


uma palavra de ordem com outro conte“do. O maior exemplo foi a Regional de S…o
Paulo, que desde novembro de 1991 jŽ tinha enquanto bandeira o “Fora Collor”,
realizando plebiscitos em diversas categorias com as alternativas: 1 – Fora Collor jŽ!, 2-
Oposi„…o sistemŽtica at‹ 94 e 3- Fica Collor. O primeiro plebiscito foi realizado com os
trabalhadores da Cervejaria AntŽrtica, e com mais de 1 mil votos, o “Fora Collor” teve
82%, contra 13% do “oposi„…o sistemŽtica” e apenas 5% do “Fica Collor”. No total, os
plebiscitos somaram mais de cem mil votantes, e as porcentagens n…o variaram muito
tendo em vista a propor„…o da primeira vota„…o165 .
As express•es usadas foram vŽrias: “Diga n…o a Collor”, “Basta de
Collor”, “Chega de Collor”, “N…o dŽ mais”. Quando o Brasil jŽ estava organizando
maiores manifesta„•es, ap†s as den“ncias de corrup„…o, a “Articula„…o Sindical”
tentava manobrar a palavra de ordem, com o “N…o Colla Mais”. Desde aquele
momento, a dire„…o da Central se preocupava com a repercuss…o de suas
movimenta„•es no panorama eleitoral:

“No fundo, a maioria da Executiva da CUT estava apostando, n…o no


“JŽ” do Fora Collor e Elei„•es Gerais, mas em um “Feliz 94”. Nesta
vis…o o movimento n…o deveria partir para um confronto mais profundo,
o que poderia por em risco a elei„…o do candidato do projeto
democrŽtico-popular em 94, mas acumular for„as neste sentido. Aquele
jŽ implicava uma radicalidade que poderia por esse caminho a perder”166 .

Dessa forma, a atua„…o da Central, preocupada mais em n…o arranhar a


imagem da candidatura de Lula da Silva, acabou por n…o impor uma din‘mica mais
enfŽtica e organizada do movimento “Fora Collor”, deixando-se levar pelos
acontecimentos sem imprimir grande for„a polˆtica. A CUT n…o conseguiu dar uma
resposta • altura da propaganda e atua„…o neoliberal, al‹m de acenar em diversos
momentos para pactos sociais que “salvariam” o paˆs. O quadro de recess„o econ†mica
com desemprego e arrocho salarial colocaram os trabalhadores na defensiva,
agravada pela postura vacilante e conciliadora da CUT.
O Impeachment venceu, devido ao amplo apoio popular, com
manifesta„•es massivas nas ruas, a movimenta„…o de alguns setores da burguesia que

165
GIANNOTTI, Vito. Collor, a CUT e a pizza. S…o Paulo, Editora PŽgina Aberta, 1992. PŽg 91
166
NETO, Sebasti…o Lopes; GIANNOTTI, Vito. Para Onde Vai a Cut? S…o Paulo: Scritta. 1993. PŽg 59

98
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deixavam o apoio a Collor para fortalecer os atos pela sua saˆda, e pela atua„…o incisiva
de alguns parlamentares do PT, que viabilizaram a abertura da CPI, levando-a •s
“ltimas conseqšŠncias. Entretanto, ap†s a saˆda de Collor, a esquerda como um todo,
incluindo a CUT, estava em d“vida sobre o que fazer, e a direita rapidamente articula
um pacto capaz de garantir a manuten„…o do vice de Collor, Itamar Franco. Moldando o
espˆrito de crˆtica a Collor em uma expectativa positiva no Governo Itamar, no qual
“tudo seria diferente”, a classe dominante conseguiu estabilizar o regime, e manter a
conjuntura polˆtica sobre relativo controle. Assim o Governo Itamar ascendeu em um
clima de forte consenso no paˆs.

No mesmo ano de 1992, ocorreu a 5‡ PlenŽria Nacional da CUT, em 15,


16, 17 e 18 de julho, em S…o Paulo, com a participa„…o de 297 delegados de todos os
Estados do paˆs, representando as 1.837 entidades filiadas. Nesta plenŽria ocorreu a
aprova„…o da filia„…o da CUT a CIOSL, tendo em vista a abertura a filia„…o • alguma
Central Sindical Internacional aprovada no IV CONCUT:
“A filia„…o da CUT a uma central sindical internacional resulta da
necessidade de respondermos aos problemas concretos colocados para os
trabalhadores representados pelos nossos sindicatos. Nossa filia„…o n…o
significa um alinhamento polˆtico-ideol†gico a qualquer das correntes
que disputam a hegemonia do movimento sindical internacional. Ela
expressa a nossa vontade de confrontar, no plano internacional, essa
nossa concep„…o e prŽtica sindical com a de outras centrais. (...) A CUT
entende que a CIOSL ‹ hoje a “nica central mundial suficientemente
pluralista e representativa capaz de aglutinar as diversas concep„•es e
distintas culturas sindicais existentes no mundo“167 .

Na resolu„…o aprovada, a “nova sociedade” que a CUT buscaria construir


internacionalmente em conjunto com a CIOSL teria diversas caracterˆsticas, mas o
adjetivo “socialista”, ou mesmo uma sociedade “sem classes”, s…o deixados de lado. O
importante seria ampliar a capacidade do movimento sindical:
“(...)na constru„…o de uma nova ordem baseada na autodetermina„…o dos
povos, na preserva„…o da paz, na supera„…o das desigualdades mundiais,
no fortalecimento da democracia e na valoriza„…o dos recursos naturais e
do meio ambiente, e que n…o serŽ possˆvel sem a participa„…o dos
trabalhadores e da sociedade civil organizada”168 .

167
CUT. Resolu„•es da 5‡ PlenŽria Nacional da CUT (1992). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
168
Idem, ibidem.

99
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› importante destacar tamb‹m, que em conjunto com a “valoriza„…o da


cidadania” e o “fortalecimento da democracia”, que apareceram em delibera„•es
anteriores, a defesa da “sociedade civil organizada” come„a a marcar o vocabulŽrio das
delibera„•es da CUT.
Al‹m disso, tendo em vista as grandes divergŠncias existentes na Central
com a participa„…o do Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Bernardo na C‘mara Setorial
do Setor Automotivo, a “Articula„…o Sindical” prop—s, e aprovou nesta plenŽria, uma
resolu„…o que legitimava a atua„…o da CUT nesses espa„os:

“A CUT reafirma a orienta„…o pela participa„…o nas c‘maras setoriais


como espa„o onde se disputa com o projeto neoliberal de reestrutura„…o
produtiva e moderniza„…o conservadora e onde os sindicatos,
representando os trabalhadores e alicer„ados na sua mobiliza„…o, buscam
deter a implanta„…o desse projeto e acumular for„as no sentido de um
projeto alternativo, atrav‹s de novas conquistas trabalhistas e sociais”.

Em mar„o de 1993, jŽ com Itamar eleito, a reuni…o da Dire„…o Nacional


aprovava uma polˆtica em rela„…o ao Governo: nem ser oposiƒ„o, nem situaƒ„o. A
dire„…o da CUT n…o queria enfrentar diretamente o novo governo eleito, mas apenas
suas polˆticas:

“Assim, para a CUT estŽ colocada a urgŠncia de lutar contra as diretrizes


da polˆtica econ—mica conservadora que estŽ sendo implementada pelo
Governo Federal. › preciso dar continuidade • mobiliza„…o, introduzindo
a luta contra a mis‹ria, a fome e contra o arrocho salarial, a infla„…o e a
continuidade da recess…o, que provocaram esse quadro de crise social, de
forma combinada com a apresenta„…o de nossa pauta, que ‹ a pauta das
ruas e da popula„…o, em todos os espaƒos de negociaƒ„o.169 ”

A CUT, ent…o, colocava-se apenas contra a polˆtica econ—mica do


governo, mas n…o contra o governo. Al‹m disso, mantinha em sua forma de atua„…o a
participa„…o nos espa„os de pacto social, imprimindo uma postura cada vez mais
conciliadora com a ordem vigente. Um exemplo desta postura foi a proposta de
“negocia„…o ampla” do governo Itamar Franco, em julho de 1993. Surgiu como
manobra do governo para desorganizar a oposi„…o, pois planejava vetar o projeto de
reajuste mensal de salŽrio de acordo com a infla„…o, aprovada na C‘mara. Partindo da
necessidade de discutir polˆticas alternativas, o governo tentou ampliar a discuss…o para

169
NETO, Sebasti…o Lopes; GIANNOTTI, Vito. Para Onde Vai... Op. cit. PŽg 64.

100
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uma s‹rie de pontos, como polˆtica de renda, polˆtica fiscal, tarifas p“blicas e seguridade
social. Entretanto, a “Agenda Brasil” foi s† uma maneira de o governo ganhar tempo, e
imprimir sua polˆtica.
Outra negocia„…o ocorrida no governo Itamar foi a suposta disposi„…o do
Ministro do Trabalho, Walter Barelli, de implanta„…o do contrato coletivo e trabalho.
Ocorreram in“meras reuni•es com os sindicalistas, foram publicados pela Central
diversos textos sobre o assunto. Este processo envolveu a CUT e as demais centrais
sindicais durante mais de um ano. Por fim, deixou tudo de lado e decidiu demitir-se do
Minist‹rio para apresentar sua candidatura a C‘mara Federal. E a CUT, apesar da
trai„…o realizada, n…o esbo„ou nenhuma rea„…o.
E no dia 5 de abril de 1993, n…o mais de duzentas pessoas compareceram
ao ato p“blico, convocado pela CUT, na cidade do Rio de Janeiro, para protestar contra
a privatiza„…o da Companhia Sider“rgica Nacional (CSN), demonstrando que a Central
jŽ n…o conseguia mobilizar como antes. O 1Œ de maio de 1993 de nada lembrou os
outros primeiros de maio que a Central organizou durante sua primeira d‹cada de
existŠncia. Mesmo quando a CUT ia •s ruas, sua capacidade de mobiliza„…o era a menor
da “ltima d‹cada. Ocorria, portanto, uma conjuntura ainda mais desfavorŽvel, com forte
queda das greves:

Tabela 12 - Greves no Brasil (1989-1993)

Ano N“mero de Greves •ndice = 100


1989 3943 100
1990 2357 59,77
1991 1399 35,48
1992 554 14,05
1993 653 16,56

Fonte: MATTOS, Marcelo Badar†. Trabalhadores e sindicatos no Brasil. Rio de Janeiro: Vˆcio
de Leitura, 2002. Elabora„…o Pr†pria.

Como nos mostra a Tabela, ocorreu uma forte queda do n“mero de


greves no paˆs ap†s 1989. Se at‹ 1989 podˆamos avaliar o perˆodo enquanto de
crescimento do movimento sindical e de resistŠncia, ap†s 1989 temos uma queda da
for„a polˆtica do movimento sindical, e de forma correlacionada, a viabiliza„…o na

101
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prŽtica do projeto neoliberal pelas classes dominantes. Foi esta mudanƒa na correlaƒ„o
de forƒas que viabilizou a concretizaƒ„o do projeto neoliberal no Brasil p•s-1989.
Ainda em 1993, ocorreu a 6‡ PlenŽria Nacional da CUT, de 24 a 28 de
agosto, em S…o Paulo, com a presen„a de 349 delegados (27 membros da Executiva,
240 delegados eleitos nas plenŽrias estaduais e 82 eleitos pelos departamentos e
confedera„•es). O texto da “Articula„…o Sindical” para a PlenŽria avaliava que o
balan„o de 10 anos da CUT, especialmente ap†s o III CONCUT, abria espa„o para uma
nova vis…o estrat‹gica, que obrigava:

“(...)articular a a„…o reivindicativa e de resistŠncia com uma postura


propositiva, presente na atua„…o das c‘maras setoriais, nos conselhos de
gest…o dos fundos sociais, nas negocia„•es dos povos da Amaz—nia, nas
jornadas de luta dos trabalhadores rurais, no f†rum de defesa da escola
p“blica, nas conferŠncias de sa“de, na luta pela universaliza„…o da
previdŠncia social. Em todos esses f†runs, a CUT vem demonstrando seu
papel de articula„…o da sociedade civil, construindo espa„os onde os
interesses corporativos s…o equacionados no interesse da classe
trabalhadora”170 .

Para Miguel Rosseto, ex-membro da Cut pela Base, e que posteriormente


viria a compor a Alternativa Sindical Socialista (ASS), o resultado polˆtico das
negocia„•es das c‘maras setoriais:

“(...)tem representado um afastamento das categorias envolvidas do


processo mais amplo de contesta„…o do projeto neoliberal. Do ponto de
vista de m‹todo, a CUT foi • reboque de uma posi„…o que n…o passou
adequadamente por seus f†runs de discuss…o. As c‘maras n…o tem se
prestado ao enfrentamento de conjunto com as polˆticas econ—micas do
governo federal, e sim ao isolamento de categorias de ponta, em rela„…o
•s demais, assim como em rela„…o •s disputas mais gerais da
sociedade”171 .

Entretanto, na delibera„…o vitoriosa sobre o tema da “reestrutura„…o


produtiva”, a CUT propunha enquanto saˆda o aumento na participa„…o nos espa„os
institucionais:
“A PlenŽria definiu que, at‹ o 5o Concut, a Central deverŽ ter diretrizes
de polˆtica industrial e estrat‹gia frente •s novas formas de produ„…o. Por

170
“Texto1 – CUT 10 anos: balanƒo e perspectiva.” In: CUT. Textos preparat†rios para a 6‡ PlenŽria
Nacional da CUT. (1993) Mimeo
171
“Texto 4 – 10 anos da CUT: Balanƒo”.In: CUT. Textos preparat†rios para a 6‡ PlenŽria Nacional da
CUT. (1993) Mimeo

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isso, autorizou a CNTA/SPS a elaborar um relat†rio sobre as novas


formas de organiza„…o da produ„…o. A Executiva tamb‹m deverŽ
impulsionar a realiza„…o de debates sobre a participa„…o da Central, n…o
s† nas c‘maras setoriais, mas tamb‹m nos f†runs institucionais (FAT,
FGTS etc). A CUT deve intervir nas c‘maras setoriais, contrapor suas
propostas •s polˆticas neoliberais do governo e, assim, trazer benefˆcios a
todos os trabalhadores, tal e qual faz no setor automobilˆstico e naval”172 .

Em 19 de maio de 1993, Fernando Henrique Cardoso foi escolhido


Ministro da Fazenda do Governo Itamar, e em 24 de fevereiro de 1994, o governo
anunciou o Plano Real. A institui„…o da nova moeda era a “ltima etapa de um grande
programa de estabiliza„…o da economia que estava sendo posto em prŽtica desde
dezembro de 1993 por uma equipe de economistas da PUC-RJ. Pelas novas regras
monetŽrias, o Real seria uma moeda forte e para isso contava com o fim da indexa„…o,
ou seja, o fim do repasse automŽtico da infla„…o mensal aos salŽrios, presta„•es,
alugu‹is e contratos em geral. Al‹m disso, a nova moeda estava vinculada ao d†lar. De
fato, o plano previa que a emiss…o de novos reais seria possˆvel apenas se existisse um
volume equivalente de d†lares no cofre do Banco Central. Ao mesmo tempo, mantinha-
se o cambio elevado, chegando a marca de 1 para 1, ou seja, um d†lar passou a
equivaler a um real.
A manuten„…o de uma taxa de cambio equilibrada era garantida pelo
Banco Central, com a interven„…o no mercado de cambio, vendendo grande quantidade
de d†lares e for„ando uma queda no seu valor. O funcionamento do plano dependia,
portanto, da existŠncia de grande reserva de d†lares na m…o do governo. Ou seja, apesar
do Šxito imediato do Plano Real, seu prosseguimento dependia da manuten„…o das
reservas de d†lares e isso somente seria possˆvel pela permanŠncia de elevadas taxas de
juros no paˆs, para atrair a circula„…o do capital internacional especulativo. A
especula„…o financeira cresceu enormemente, colocando em risco a valoriza„…o
monetŽria nacional, al‹m da abertura de novas rodadas de importa„•es, com o governo
defendendo a “integra„…o internacional” como forma de baixar a infla„…o e aumentar a
eficiŠncia da ind“stria nacional.
O plano Real sustentou-se atrav‹s da especula„…o financeira e no
aumento da dˆvida p“blica para a manuten„…o da reserva de d†lares no Banco Central, e
da recess…o econ—mica. Com o aumento da competi„…o inter-empresarial, como na
abertura realizada pelo Governo Collor, a tendŠncia era de cortes nas ind“strias para sua

172
CUT – Resolu„•es da 6‡ PlenŽria Nacional da CUT.

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manuten„…o no mercado, aumentando-se o n“mero de falŠncias e do desemprego. A


queda da infla„…o acontecia ent…o pela forte situa„…o recessiva, com baixo crescimento
da ind“stria, juros altos, especula„…o financeira e aumento da dˆvida p“blica.
Entretanto, os aspectos positivos do plano, como a queda da infla„…o
foram sentidos de imediato, enquanto o lado negativo, como as falŠncias e o
desemprego, s† seriam percebidas a m‹dio prazo. O ministro da Fazendo Fernando
Henrique Cardoso transformou-se em figura de apoio popular, com um forte sutenta„…o
midiŽtica. Em torno de sua candidatura • presidente comp—s-se uma frente de partidos,
com o destaque para o PFL, vinculando o PSDB •s oligarquias do Nordeste e a antigos
colaboradores do regime militar. Com o sucesso do plano e o respaldo polˆtico
generalizado, nas elei„•es de 3 de outubro de 1994, FHC foi eleito presidente da
Rep“blica no primeiro turno, com quase 55% dos votos vŽlidos, enquanto o segundo
colocado, Lula da Silva do PT, apoiado pela CUT e a grande maioria dos movimentos
sociais do paˆs, atingiu 37% dos votos. › interessante destacar que Lula da Silva chegou
a deter 42% das inten„•es de voto em maio de 1994, enquanto FHC detinha apenas
16%, construindo assim uma forte arrancada baseada no plano Real e no apoio em bloco
das classes dominantes.

2.3 – O V CONCUT

O ano de 1994 acumulou mudan„as tamb‹m no interior da CUT. As


derrotas sofridas nos governos Collor e Itamar, a fraqueza da campanha contra as
privatiza„•es, o aumento do desemprego e do arrocho salarial, e a diminui„…o das
greves, colocavam a Central em um momento difˆcil, agravado pelas saˆdas encontradas
pelo seu setor majoritŽrio. Foi ent…o realizado, em maio de 1994, o V Congresso
Nacional da CUT, reunindo 1.918 delegados representando 2.235 entidades.
Como nos lembra Marcos Ferraz173 , quando analisamos as resolu„•es do
V CONCUT, duas quest•es logo nos chamam aten„…o: o volume do caderno de
resolu„•es e o temŽrio do congresso. As resolu„•es do V CONCUT foram distribuˆdas
em 82 pŽginas, contra as 24 pŽginas do Congresso anterior. Al‹m disso, no IV
CONCUT os delegados discutiram 7 t†picos que foram objeto de delibera„…o: balan„o
polˆtico e organizativo da CUT, estrat‹gia da CUT, Conjuntura Nacional e

173
FERRAZ, Marcos. Da Cidadania Salarial • AgŠncia de Desenvolvimento SolidŽrio. O Sindicalismo-
CUT e os desafios para enfrentar uma nova cidadania. Tese de Doutorado. S…o Paulo, USP, 2005.

104
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Internacional, plano de a„…o, estatuto da CUT, temas especˆficos e manifestos; em 1994,


os delegados sistematizaram seus debates em dezoito t†picos e mais dois anexos:
situa„…o internacional, situa„…o nacional, a CUT no perˆodo 1983/1993, estrat‹gia,
plataforma da CUT, a„•es para implementar a estrat‹gia, polˆtica organizativa da CUT,
polˆtica internacional da CUT, polˆtica nacional de forma„…o da CUT, gest…o e finan„as
da CUT, meio ambiente, seguridade social, crian„a e adolescente, forma„…o
profissional, polˆtica de comunica„…o da CUT, mulher trabalhadora, polˆtica anti-racista,
e organiza„…o do trabalho. Podemos avaliar que esta mudan„a, mais do que um simples
“aumento” do n“mero de delibera„•es, resultou da transforma„…o da anŽlise da maioria
da dire„…o da CUT sobre o Estado, tendo em vista tanto o avan„o neoliberal quanto as
novas estrat‹gias de consolida„…o do “sindicalismo cidad…o”. Nesta nova perspectiva o
Estado n…o era mais visto apenas enquanto “burguŠs”, sendo necessŽria a independŠncia
do sindicalismo em rela„…o aos seus espa„os e o combate a maioria de suas
interven„•es; agora, o fundamental era disputar as polˆticas p“blicas e reivindicar a
necessidade do Estado organizar a economia e propor alternativas de desenvolvimento
que integrem plenamente os cidad…os. Daˆ ent…o a formula„…o de propostas em diversas
Žreas que, em certo sentido, extravasavam o “mundo sindical”. Estas propostas eram
tamb‹m defendidas pela maioria da dire„…o cutista como base de uma nova forma de
atua„…o do sindicalismo, o qual pretendia uma maior aproxima„…o da CUT aos
trabalhadores informais, precarizados, jŽ que as mudan„as geradas tinham
reconfiguravam o perfil do mundo do trabalho:
“O capitalismo atual, ao mesmo tempo em que poupa o trabalho humano
(o capital torna os seres humanos sup‹rfluos), leva a explora„…o do
trabalho social produtivo para al‹m da centralidade operŽria e da fŽbrica,
generalizando a luta de classes, que se estende da pesquisa ao consumo e
redefine o perfil do mundo do trabalho”174 .

O V CONCUT (1994) foi realizado tamb‹m numa perspectiva de


comemora„…o dos 10 anos da Central (1983-1993), e a partir deste marco fazia um
balan„o do perˆodo. No ponto “A CUT no perˆodo 1983-1993”, a resolu„…o analisava o
papel decisivo que a CUT imprimiu, sendo um dos principais agentes sociais nas lutas
pela democratiza„…o polˆtica e social do paˆs. Cada vez mais na Central, e este V
CONCUT faz parte desta perspectiva, ganhava for„a a id‹ia de que os primeiros dez
anos foram marcados por uma polˆtica reativa, e que para enfrentar a nova conjuntura, o
174
CUT. Resolu„•es do V Congresso Nacional da CUT (1994). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-
ROM.

105
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importante n…o seria apenas questionar as polˆticas neoliberais do governo, mas sugerir
alternativas:

“Hoje ‹ cada vez mais vital que os trabalhadores n„o s• combatam a


implantaƒ„o do projeto neoliberal como tambˆm formulem suas
diretrizes alternativas visando um novo Brasil, a partir da agenda de
reformas estruturais que hŽ muitos anos vem sendo construˆda pelos
vŽrios movimentos que comp•em o campo popular e democrŽtico.175 “

O que estava colocado, entretanto, n…o era apenas a constru„…o de


possˆveis planos alternativos a polˆtica neoliberal, jŽ que desde sua funda„…o a CUT
demonstrou grande capacidade de formula„…o polˆtica, propondo respostas de cunho
popular •s crises econ—micas existentes, construindo uma importante disputa de
hegemonia com as classes dominantes. A pol€tica da maioria da Direƒ„o da CUT era
conceber um novo imagin‰rio no interior da Central que legitimasse a participaƒ„o nos
f•runs tripartites. Dentro deste imaginŽrio, se destacaria a necessidade de projetos para
o paˆs, os quais teriam seu campo de disputa n…o mais na sociedade como um todo,
organizando os trabalhadores de um ponto de vista popular, mas atrav‹s da atua„…o nos
espa„os de pacto social. E sua atua„…o nesses espa„os mantinha uma postura
subordinada • polˆtica das classes dominantes, pois via a reestrutura„…o produtiva como
algo inexorŽvel. A delibera„…o “Reestrutura‚ƒo produtiva com desenvolvimento
econ‹mico e social” defende a moderniza„…o da ind“stria brasileira, que estava
“obsoleta”, tendo como centralidade a dimens…o social da polˆtica industrial atrav‹s da
incorpora„…o dos marginalizados:
“A busca de um novo modelo de desenvolvimento deve ter como
objetivo central a incorpora„…o plena dos trabalhadores e dos
marginalizados • vida econ—mica e social. Para isso deve ser enfrentada a
quest…o da reestrutura„…o produtiva na ind“stria e na agricultura, tendo
em vista o esgotamento, hŽ vŽrios anos, do aparato produtivo brasileiro e
a introdu„…o, em vŽrios setores, de novos processos e tecnologias. Como
diretriz geral, a reestrutura„…o deve pautar-se pela dimens…o social da
polˆtica industrial, educacional, agrˆcola e agrŽria, de pesquisa e
desenvolvimento, de com‹rcio exterior e de fortalecimento e amplia„…o
do mercado interno, com a amplia„…o e a democratiza„…o das formas de
produ„…o e de apropria„…o dos bens e servi„os produzidos”176 .

175
Idem, ibidem.
176
Idem, ibidem.

106
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Al‹m disso, era necessŽrio estimular o crescimento econ—mico e a


moderniza„…o atrav‹s do aumento da produtividade, e estabelecer a amplia„…o da
participa„…o da CUT n†s f†runs tripartites:

“No que se refere • quest…o industrial, o principal objetivo deve ser o


estˆmulo conjunto e articulado ao crescimento econ—mico, ao
desenvolvimento social e • modernizaƒ„o produtiva, compatibilizando as
necessidades da reestruturaƒ„o em novas bases com uma significativa
redu„…o das desigualdades regionais e de renda. Com isso, busca-se a
incorpora„…o dos trabalhadores e da massa de excluˆdos • condi„…o plena
de produtores, consumidores e cidad…os. Para isso ˆ preciso elevar os
n€veis de produtividade, mas com base nos investimentos, principalmente
p“blicos, em educa„…o, em conhecimento t‹cnico, em sa“de, em
tecnologia e em pesquisa; modernizar e expandir a infra-estrutura
econ—mica e social (transportes, energia, telecomunica„•es, habita„…o e
saneamento); e, principalmente, estabelecer formas democrŽticas e
ampliadas de formula„…o e gest…o de todas as polˆticas que atuam sobre o
desenvolvimento industrial – a exemplo do que hoje estŽ pautado nas
experiŠncias das c‘maras setoriais, do Conselho de Desenvolvimento do
Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat), do Programa Brasileiro de
Qualidade e Produtividade (PBQP), do Conselho Consultivo dos
Trabalhadores para a Competitividade (CTCOM), do Programa de Apoio
• Capacita„…o Tecnol†gica da Ind“stria (PACTI) e do Conselho Nacional
de InformŽtica (Corin).177 ”

Destaca-se na delibera„…o a utiliza„…o das defini„•es neoliberais sobre a


reestrutura„…o produtiva, assim chamada enquanto “moderniza„…o produtiva”. Ou seja,
a CUT compunha sua proposta de forma subordinada aos elementos das classes
dominantes, em especial a defesa da inevitabilidade da reestruturaƒ„o produtiva e da
elevaƒ„o da produtividade nas empresas. O importante n…o seria barrar o processo de
reestrutura„…o produtiva, baseado no aumento da explora„…o do trabalhador, no corte
dos direitos sociais e na expans…o do desemprego, mas propor possˆveis solu„•es que
amenizassem o seu impacto.
Para Jos‹ Ger—nimo Brumatti, da CONTAG e da Dire„…o Nacional da
CUT, membro da Articula„…o Sindical, a nova postura, chamada de “sindicato cidad…o”,
estaria vinculada ao avan„o da Central em setores que n…o estariam ligados • categorias
profissionais:
“Hoje vocŠ tem a maior parte da sociedade que n…o estŽ ligada a
categorias profissionais. Ent…o vocŠ tem que ter a preocupa„…o de que
essa parte da sociedade tamb‹m esteja envolvida nos processos de

177
Idem. Grifos Nossos

107
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discuss…o das propostas de polˆticas p“blicas. (...) Acho que a CUT-


cidad… vem com essa proposi„…o de al‹m dessas categorias que vocŠ jŽ
tem, dos sindicatos, das confedera„•es, das federa„•es que tem acesso e
que discutem, vocŠ tem que ter projeto que vai al‹m disso e que vŽ
discutir com a associa„…o de moradores, com a associa„…o de produtores
rurais, de agricultores, e que vŽ discutir com o desempregado, que vŽ
dialogar com a Igreja, com as comunidades, etc”178 .

Para Ricardo Antunes, em texto de 1993, o que ocorria de fato era a


perda gradativa de uma postura anti-capitalista pela Articula„…o Sindical:
“Ganha cada vez mais for„a, dentro da Articula„…o Sindical, a postura de
abandono de concep„•es socialistas e anticapitalistas, em busca de uma
acomoda„…o dentro da ordem, daquilo que, dizem, ‹ o possˆvel. O culto •
negocia„…o, •s c‘maras setoriais, ao programa econ—mico para gerir pelo
capital a sua crise, estŽ inserido no projeto de maior f—lego, cujo oxigŠnio
‹ dado pelo ideŽrio e pela prŽtica social-democrŽtica”179 .

2.4.1 A Pol€tica Nacional de Formaƒ„o e a Formaƒ„o Profissional da


CUT: rumo ao sindicalismo “cidad„o”

Dentre as principais mudan„as forjadas no V CONCUT na perspectiva de


um “sindicalismo cidad…o”, temos as delibera„•es em torno das Polˆticas de Forma„…o
Sindical e de Forma„…o Profissional. Durante a d‹cada de 1980 a CUT tinha como
espa„o de discuss…o interno da Forma„…o Profissional a Comiss…o Nacional de
Tecnologia e Automa„…o (CNTA), vinculada • Secretaria de Polˆtica Sindical. Discutia-
se a formula„…o de um projeto tecnol†gico alternativo para os trabalhadores, e,
geralmente, criticavam-se o avan„o da automa„…o, a qual conduzia • desqualifica„…o do
trabalho180 . Em 1990 a Secretaria de Polˆtica Sindical e CNTA gerou a organiza„…o do
seminŽrio “Tecnologia e Organiza„…o do Trabalho: a resposta dos trabalhadores”, que
no entanto avan„ou muito pouco sobre o papel da educa„…o e da forma„…o profissional
na CUT. O inˆcio da constru„…o de um programa mais detalhado em torno da forma„…o
profissional ocorreu apenas em 1991, com a cria„…o do Grupo de Trabalho sobre
Reestrutura„…o Produtiva, ligado • Secretaria de Polˆtica Sindical e envolvendo
178
Jos‹ Ger—nimo Brumatti. Entrevista concedida a Ferraz, 2003. Retirado de FERRAZ, Marcos. Da
Cidadania Salarial • AgŠncia de Desenvolvimento SolidŽrio. O Sindicalismo-CUT e os desafios para
enfrentar uma nova cidadania. Tese de Doutorado. S…o Paulo, USP, 2005. PŽg 100
179
ANTUNES, Ricardo. A CUT entre o classismo e a social democracia. In: NETO, Sebasti…o Lopes;
GIANNOTTI, Vito. Para Onde Vai a Cut? S…o Paulo: Scritta. 1993. PŽg 90
180
AFFONSO, ClŽudia, (2001). A CUT conselheira: tripartismo e forma„…o profissional. Concep„•es e
prŽticas sindicais nos anos 90. Disserta„…o de mestrado. Faculdade de Educa„…o da Universidade Federal
Fluminense. PŽg138

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sindicalistas e assessores principalmente do setor industrial, t‹cnicos do Dieese e


acadŠmicos. Em 1992, foi constituˆda a Comiss…o de Educa„…o, vinculada Secretaria de
Polˆticas Sociais, envolvendo basicamente representantes das entidades cutistas da Žrea
da Educa„…o, articulados em torno do Departamento Nacional dos Trabalhadores da
Educa„…o – DNTE181 . Esta Comiss…o produziu, no mesmo ano, o texto “Diretrizes para
uma polˆtica de Forma„…o Profissional da CUT”: o documento, por ter sido escrito por
profissionais da educa„…o, refutava a dicotomia entre Forma„…o Profissional e forma„…o
bŽsica, jŽ que a Forma„…o Profissional deveria ser a culmin‘ncia, em nˆvel superior, do
processo regular de ensino. Al‹m disso, no texto o Estado era considerado o “nico
responsŽvel pela oferta da Forma„…o Profissional, cabendo aos trabalhadores a disputa
por espa„os nas instancias definidoras de polˆticas p“blicas na Žrea da Educa„…o,
fiscalizando e cobrando a realiza„…o das a„•es estatais. Entretanto, como nos afirma
Claudia Affonso, mesmo que este texto tenha sido “encomendado” pela Dire„…o
Nacional da CUT, n…o necessariamente essa tinha concord‘ncia integralmente com seu
conte“do, jŽ que:

“o texto foi redigido por Ignez Navarro de Morares, FlŽvio Aguiar e


Maria de FŽtima Felix, representantes do ANDES-SN na Comiss…o (...).
Destaco, como marca, o fato do texto ter nascido no seio de profissionais
da educa„…o, o que “especializa” o discurso e faz liga„•es com a
educa„…o regular, numa concep„…o que nƒo „ automaticamente
compartilhada pela Dire‚ƒo da Central”182 .

Existia um debate em torno a Forma„…o Profissional, a ser vinculada •


Žrea de Educa„…o, ou em torno das preocupa„•es gestadas pela Reestrutura„…o
Produtiva. Segundo um dirigente que estava diretamente envolvido no debate, ocorria:
“um tensionamento que (...) vem de antes do processo de formula„…o do
primeiro documento, que levou ao Congresso Nacional de 94, e que ‹ um
debate que se apresentou como sendo o pessoal da educa„…o de um lado e
o pessoal da ind“stria do outro. E por que se apresentou dessa maneira?
Porque foi uma coisa muito curiosa de que os membros da Executiva que
tinham a experiŠncia de terem sido alunos do Senai defendiam uma vis…o
profissional como uma polˆtica especˆfica, enquanto que os membros da
Executiva da Žrea da educa„…o, dos sindicatos da Žrea de educa„…o,
181
OLIVEIRA, Roberto V‹ras de. Sindicalismo e Democracia no Brasil: Atualiza„…o - Do novo
Sindicalismo ao Sindicato Cidad…o. Tese apresentada ao Programa de P†s Gradua„…o em Sociologia-
USP. S…o Paulo, 2002. PŽg 453
182
AFFONSO, Claudia. A CUT Conselheira: Tripartismo e Forma„…o Profissional: Concep„•es e
prŽticas sindicais nos anos 90. Tese-UFF. PŽg 141

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defendiam, na verdade, que isso tinha que ser absorvido pelo Sistema
Educacional P“blico, gratuito, laico, universal, etc e tal (...) O pessoal da
educa„…o tem uma vis…o muito externa a forma„…o profissional, aos
dilemas, aos problemas, e se tem uma premissa, mas tem pouca
interven„…o nessa Žrea (...) A CUT lan„ou uma campanha pela educa„…o
p“blica, mas ‹ uma campanha dos Sindicatos da educa„…o, n…o ‹ uma
campanha dos sindicatos em geral. Ent…o a CUT nacional acaba
compondo posi„•es, e isso se expressa nessas composi„•es tensionais
nos documentos, mas de fato, no dia-a-dia sindical isso n…o tem
desdobramento e isso vai dificultar em grande medida que se resolva, na
vida, aquilo que o texto tenta compor e evidentemente isso leva a um
estranhamento entre os setores... estranhamento polˆtico, aˆ n…o tem a ver
com corrente, tem a ver com prŽticas sindicais...183 ”

Existiam divergŠncias no interior da CUT sobre qual rumo deveria seguir


o debate sobre Forma„…o Profissional: se a Central deveria cobrar dos Governos a
realiza„…o de polˆticas p“blicas na Žrea de educa„…o na qual constassem a Forma„…o
Profissional, ou se a pr†pria CUT deveria realizar cursos nesta Žrea. Com a participa„…o
da CUT, desde 1992, do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP), do
Minist‹rio de Ind“stria Com‹rcio e Transportes, e do Programa de Apoio • Capacita„…o
Tecnol†gica da Ind“stria (PACTI) do Minist‹rio de CiŠncia e Tecnologia, na comiss…o
de Emprego, Educa„…o e Tecnologia, ocorreu gradativamente a vincula„…o da discuss…o
em torno da Forma„…o Profissional aos debates sobre qualidade e produtividade,
aproximando-se, assim, do “pessoal da ind“stria”, em detrimento do “pessoal da
educa„…o”. Esta contradi„…o existente no interior gerava tamb‹m, em suas delibera„•es,
textos confusos ou mesmo incoerentes, em certo sentido. Na resolu„…o “Forma„…o
Profissional” deste V CONCUT, que pela primeira vez definiu a posi„…o da CUT sobre
o tema, a Forma„…o Profissional ‹ vista como:

“parte de um projeto global e emancipador. Portanto, deve ser entendida


como exercˆcio de uma concep„…o radical de cidadania. A CUT recusa a
concep„…o de forma„…o profissional como simples adestramento ou como
mera garantia de promo„…o da competitividade dos sistemas
produtivos.184 ”

183
LIMA, Almerico (1999), Rumo ao Sindicato Cidad…o? – Qualifica„…o Profissional e Polˆticas P“blicas
em Tempos de Reestrutura„…o Produtiva, Salvador, Disserta„…o de Mestrado, Faculdade de
Educa„…o/UFBa. PŽg 199 Retirado de OLIVEIRA, Roberto V‹ras de. Sindicalismo e Democracia no
Brasil: Atualiza„…o - Do novo Sindicalismo ao Sindicato Cidad…o. Tese apresentada ao Programa de P†s
Gradua„…o em Sociologia-USP. S…o Paulo, 2002. pŽg 454
184
CUT. Resolu„•es do V CONCUT (1994). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM

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Al‹m disso, em conson‘ncia com esta concep„…o, a Central n…o se via


enquanto executora de Programas de Forma„…o Profissional, mas enquanto
fiscalizadora:

“Isso significa que a forma„…o profissional deve estar submetida ao


controle direto do Estado e que os trabalhadores devem intervir
nesse processo, participando, atrav‹s de suas organiza„•es, da
defini„…o, da gest…o, do acompanhamento e da avalia„…o das polˆticas e
dos programas de forma„…o profissional. 185 ”

No mais, a Forma„…o Profissional seria um patrim—nio social e deveria,


portanto, estar diretamente vinculada ao sistema regular de ensino:

“A forma„…o profissional ‹ patrim—nio social e deve ser colocada sob a


responsabilidade do trabalhador e estar integrada ao sistema regular de
ensino, na luta mais geral por uma escola p“blica, gratuita, laica e
unitŽria, em contraposi„…o • hist†rica dualidade escolar do sistema
educacional brasileiro. P“blica e gratuita com o Estado assumindo as
suas responsabilidades, por‹m com a efetiva participa„…o da sociedade na
sua gest…o pedag†gica e administrativa”186 .

Entretanto, no que tange aos sindicatos que executam cursos de


forma„…o profissional que s…o filiados • CUT, esta n…o tem uma postura de condena„…o,
ou mesmo crˆtica. Para ela o importante seria:

“Avaliar as experiŠncias de forma„…o profissional realizadas em


sindicatos filiados • CUT na perspectiva de subsidiar a vincula„…o entre
educa„…o e trabalho.187 ”

Ou seja, no V CONCUT, ao mesmo tempo em que a CUT colocou-se na


defesa de uma forma„…o profissional financiada atrav‹s de fundos p“blicos e executada
pelo Estado, n…o condena diretamente que sindicatos de sua base realizassem cursos de
forma„…o profissional. › importante destacar que muitos sindicatos que realizavam estes
cursos tinham seu aparato burocrŽtico vinculado •s polˆticas corporativistas, tanto da
Era Vargas quanto da Ditadura Militar, n…o rompendo totalmente com o passado
burocrŽtico, mesmo com a mudan„a de sua dire„…o polˆtica. Para Almerico Lima, esta

185
Idem, ibidem.
186
Idem, ibidem.
187
Idem, ibidem.

111
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delibera„…o foi interpretada como uma legitima„…o, por parte da Dire„…o da CUT, de
que os sindicatos a ela filiados realizassem atividades de Forma„…o Profissional:

“Para os sindicatos do setor privado (particularmente metal“rgicos e


bancŽrios), a resolu„…o do V CONCUT, serviu como um ‘sinal verde’,
para que se sentissem ‘autorizados’ em prosseguir nas suas experiŠncias
em qualifica„…o profissional. Estas experiŠncias estavam acontecendo de
forma tˆmida, principalmente pela press…o das bases, tendo, como jŽ
assinalamos, a ausŠncia de formula„…o levado diversos sindicatos cutistas
a procurarem o que conheciam em termos de qualifica„…o profissional: o
sistema S. Os dirigentes n…o estavam, entretanto, satisfeitos com esta
prŽtica, e com o aprofundamento da discuss…o, inclusive com a
divulga„…o da experiŠncia internacional e das escolas de trabalhadores,
ficava patente a fragilidade e a falta de autonomia com que se tratava
uma quest…o considerada cada vez mais importante”188 .

Dessa forma, muito do “novo sindicalismo” ainda convivia com o


“velho”, o qual era visto enquanto uma prŽtica sindical institucionalizada e
burocratizante. › necessŽrio tamb‹m frisar que, de um ponto de vista geral, as
delibera„•es no que tangem a “Forma„…o Profissional” do V CONCUT tŠm uma Šnfase
maior na a„…o institucional relacionada • ocupa„…o dos espa„os nos f†runs tripartites,
em compara„…o com perˆodos anteriores.
Em rela„…o • Polˆtica Nacional de Forma„…o, o V CONCUT tamb‹m
teve uma resolu„…o especˆfica sobre o tema, o qual deliberou uma nova estrutura de
organiza„…o, assim dividida:

a) Estruturas
A organiza„…o convencional das atividades de forma„…o ficaram a cargo
das seguintes inst‘ncias:
 Secretaria Nacional de Forma„…o (SNF)
 Secretarias Estaduais de Forma„…o (SEF•s)
 Secretarias Regionais de Forma„…o (SRF•s)
 Departamentos/Federa„•es e Confedera„•es
 Sindicatos
 Escolas de Forma„…o

b) F†runs de decis…o
Naquele perˆodo os rumos da PNF eram definidos pelo Congresso e
PlenŽrias Nacionais, Dire„…o Nacional e Executiva Nacional, em ordem decrescente de
import‘ncia. A partir daˆ as decis•es cabem a f†runs especˆficos da Žrea de forma„…o:

188
LIMA, Almerico (1999), Rumo ao ... Op. Cit. PŽg 462

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 Encontros Nacionais de Forma„…o (ENAFOR)


 Coletivo Nacional de Forma„…o (CONAFOR)
 Coordena„•es Nacionais dos Programas de Forma„…o

Ainda no eixo de “Polˆtica Nacional de Forma„…o da CUT”, temos o


esquecimento da referŠncia a uma forma„…o classista e anticapitalista, que tenha como
objetivo o entendimento da organiza„…o da explora„…o na sociedade e a possibilidade de
sua supera„…o. Os termos “classe”, “anticapitalismo”, “socialismo”, n…o s…o sequer
citados. O necessŽrio seria superar “a vis…o de sindicato como “correia de transmiss…o”,
praticar a autonomia como um valor permanente e situar a CUT como sujeito
estrat‹gico na sociedade,[sendo assim] fundamental uma polˆtica de forma„…o pr†pria,
org‘nica e com capacidade metodol†gica crˆtica.189 ” Esta “polˆtica de forma„…o
pr†pria” estaria vinculada •s diretrizes no documento “Um balan„o de 6 anos da PNF-
CUT no aniversŽrio de 10 anos da CUT”. Mais um entre os documentos produzidos
pela Central para o balan„o de sua atua„…o, o documento reivindicava a necessidade de
se forjar um “novo cutista”:

“Qualificando um novo cutista - Necessitamos, para assumirmos a


responsabilidade hist†rica que em n†s estŽ depositada, de pessoas com compreens…o
n…o s† do projeto ideol†gico-polˆtico-sindical da CUT, mas que tamb‹m sejam
competentes em suas Žreas de atua„…o especˆfica, organiza„…o, economia, polˆtica
industrial, forma„…o, comunica„…o, negocia„…o, finan„as, educa„…o, etc. Para
qualifica„…o desse “novo” sujeito hist†rico que a CUT estŽ pondo em cena, ‹
fundamental, mas insuficiente, a sua experiŠncia de luta”190 .

Adicionalmente, no ponto “Princˆpios e papel da Polˆtica Nacional de


Forma„…o”, do mesmo eixo, temos:
“A Polˆtica Nacional de Forma„…o, desde seus debates iniciais em 1987,
sempre se colocou como uma polˆtica estruturada para atender as
necessidades polˆtico-organizativas da CUT; afirmou-se como espa„o de
reflex…o e capacita„…o crˆtica, espa„o de debate pluralista do projeto da
CUT em constru„…o, de seus avan„os, obstŽculos, indefini„•es e desafios.
A experiŠncia da Polˆtica Nacional de Forma„…o reflete a identidade da
189
CUT. Resolu„•es do V CONCUT (1994). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
190
CUT. Um balan„o de 6 anos da PNF-CUT no aniversŽrio de 10 anos da CUT. PŽg 4

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CUT, onde os trabalhadores s…o sujeitos da constru„…o e da reconstru„…o


permanentes do projeto sindical cutista..191 ”

Este ponto deflagra algumas caracterˆsticas importantes da avalia„…o da


forma„…o sindical cutista no perˆodo. Em primeiro lugar, defende-se que os debates
iniciais da Polˆtica Nacional de Forma„…o deram-se em 1987, ou seja, tenta-se apagar
da mem•ria da CUT o per€odo anterior a ocupaƒ„o desta secretaria pela “Articulaƒ„o
Sindical”. Como jŽ vimos, o perˆodo de 1984-1986 ‹ extremamente rico no que tange a
organiza„…o da forma„…o polˆtico-sindical cutista, sendo a tentativa de apagŽ-lo um
sintoma da mudan„a de rumos ocorrida no perˆodo posterior. Em segundo, o texto faz
diversas referŠncias ao “projeto sindical cutista”, oriundo de um espa„o de “reflex…o e
capacita„…o crˆtica”. Nesse momento foram deixados de lado os princ€pios do estatuto
da CUT, a qual deveria ser classista, de luta, de massa, uma CUT anticapitalista, para
nortear a formaƒ„o no “projeto sindical cutista”. Este “projeto sindical cutista” teria
que ser constituˆdo atrav‹s de novas propostas, pois
“as prŽticas reativas e reinvindicativas que representaram um avan„o na
estrat‹gia da Central nos anos 80 n…o s…o mais suficientes para o embate
contra os representantes do capital no anos 90. (...) › neste contexto que
se encontram os desafios para a implanta„…o de um projeto sindical que
extrapole a cultura economicista da a„…o sindical vigente, apontando uma
prŽtica que combine a„•es mobilizadoras nos campos sindical e
institucional, tendo como um dos seus principais eixos o pleno direito do
exerc€cio da cidadania”192 .

Ou seja, o eixo polˆtico que norteava a consolida„…o das mudan„as de


rumo da forma„…o polˆtico-sindical da CUT, foi a substitui„…o da luta classista pelo
exerc€cio da cidadania. A nova forma„…o cutista colocava-se, portanto, em prol da
constitui„…o de instrumentos que viabilizem uma nova Central, com outro pano de
fundo enquanto concep„…o. A forma„…o da CUT perdia seu carŽter polˆtico-sindical,
para tornar-se apenas sindical-instrumental, voltada para as demandas cotidianas das
dire„•es na organiza„…o dos sindicatos, convertendo seu objetivo estrat‹gico de
supera„…o da ordem capitalista em uma disputa de rumos para outros modelos de
desenvolvimento. Uma demonstra„…o clara dessa mudan„a de eixo ‹ a grande queda que
ocorreu na realiza„…o dos cursos de “Concep„…o, Estrutura e PrŽtica Sindical” (CEPS),
“carro chefe” da forma„…o geral/polˆtica da PNF, entre o IV e o V CONCUT•s:

191
Idem, ibidem.
192
CUT. Plano de Trabalho da Secretaria Nacional de Forma„…o da CUT (1994).

114
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Tabela 13 - N‹mero de Participantes do CEPS no •mbito das atividades da Pol€tica


Nacional de Formaƒ„o da CUT (1990-1993)

Ano N“mero de Participantes no •ndice


CEPS
1990 855 100
1991 674 78
1992 259 30
1993 143 16

Fonte: CUT. Plano de Trabalho da Secretaria Nacional de Forma„…o da CUT(1995).


Elabora„…o pr†pria.

Ap†s o V CONCUT, com uma nova Secretaria Nacional de Forma„…o


eleita, ocorreram mudan„as na concep„…o dos seus programas. A partir de ent…o a
forma„…o sindical cutista deixou de ser balizada pelos programas de forma„…o e passou
a ser fundada naquilo que foi denominado de “N“cleos TemŽticos”. No 9Œ ENAFOR,
indicaram-se problemas na estrutura dos programas, trazendo como forma de viabilizar
uma nova estrat‹gia de forma„…o a cria„…o de N“cleos TemŽticos. Este N“cleos

“se prop•em como espa„os de estudo, pesquisa e reflex…o, elabora„…o e


sistematiza„…o de conte“dos, constituˆdos enquanto instrumentos da
PNF, que se organizam a partir de eixos temŽticos-problemŽticos
relacionados com o projeto da CUT e sua Polˆtica Nacional de Forma„…o.
Se definem por recorte de temas (em torno dos quais orbitam, por
afinidade, vŽrios sub-temas) que de algum modo se constituem, para os
sujeitos polˆticos da CUT e da PNF, (...) como desafios suscitados no
pr†prio cotidiano da prŽtica sindical cutista”193 .

Como podemos verificar, os N“cleos TemŽticos, principais bases de uma


nova polˆtica de forma„…o, n…o tem finalidade de executar atividades de forma„…o, mas
construir novos objetivos para estas. Um espa„o de elabora„…o de propostas para
remodelagem da forma„…o sindical cutista.
Assim, at‹ 1994 a discuss…o em torno da Forma„…o Profissional estava
mais ligada ao campo das “Polˆticas Sociais” da CUT, em especial no terreno da
Educa„…o, do que em rela„…o • Secretaria Nacional de Forma„…o. Entretanto, o V

193
CUT. Plano de Trabalho da Secretaria Nacional de Forma„…o da CUT (1995).

115
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CONCUT tornou-se um marco na mudan„a desta polˆtica, jŽ que para al‹m da


legitima„…o dada • execu„…o de cursos de Forma„…o Profissional, a partir deste
Congresso foi a concep„…o de Forma„…o Profissional da Confedera„…o Nacional dos
Metal“rgicos que se tornou hegem—nica na CUT. Como nos afirma Jos‹ Santos de
Souza:

“(...)na realidade, tratava-se apenas de uma transi„…o imposta pela


amea„a do desemprego, que desloca o eixo central do debate educacional
do campo polˆtico – educa„…o bŽsica para garantir a “cidadania plena” –
para o campo econ—mico – educa„…o profissional para a garantia de
emprego e renda. N…o ‹ • toa que, a partir desta ‹poca, a Confedera„…o
Nacional dos Metal“rgicos (CNM) passou a dar a dire„…o ao debate
educacional no interior da CUT, enquanto a Confedera„…o Nacional dos
Trabalhadores em Educa„…o (CNTE) manteve-se ocupada com suas lutas
imediatas por melhores salŽrios. O que ocorreu, na pr†tica, „ que o
projeto de forma‚ƒo profissional da CNM acabou se transformando
no modelo polˆtico-pedag€gico da CUT”194 .

Podemos avaliar, portanto, que as mudan„as ocorridas na forma„…o


polˆtico-sindical da CUT, no perˆodo de 1987-1994 deram-se devido a diversos fatores
de ordem interna, sendo os mais notŽveis:

1)Mudanƒa de linha pol€tica na Secretaria Nacional de Formaƒ„o.: Com


a elei„…o de Jorge Lorenzetti no final de 1986, o qual era ligado ao campo “Articula„…o
Sindical”, a linha da polˆtica de forma„…o da Central foi substancialmente modificada. A
SecretŽria anterior, Ana L“cia, era proveniente da base sindical, e n…o tinha nenhum
vˆnculo polˆtico-partidŽrio: seu mandato a frente da SNF foi marcado pela preocupa„…o
em uma forma„…o ampla e densa, de cunho classista e anticapitalista. A estabilidade da
SNF com o comando de Jorge, que ficou no cargo por 8 anos, possibilitou que a
“Articula„…o Sindical” ditasse quase que exclusivamente os rumos da polˆtica de
forma„…o da CUT no perˆodo. Ou seja, a Secretaria Nacional de Forma„…o tinha uma
esp‹cie de “blindagem” no que tange as disputas ocorridas no ‘mbito da Central, sendo
por esta pouco influenciada.

194
SOUZA, Jos‹ dos Santos. “Trabalho, Qualificaƒ„o e Aƒ„o Sindical no Brasil no Limiar do Sˆculo
XXI: disputa de hegemonia ou consentimento ativo?” Doutorado em Sociologia. UNICAMP, 2005. pŽg
58. “A prop†sito, essa mesma tendŠncia ocorre no ‘mbito da aparelhagem estatal no mesmo perˆodo. No
primeiro governo FHC, o Minist‹rio do Trabalho assume para si a polˆtica de educa„…o profissional, que
antes era gestada pelo Minist‹rio da Educa„…o”.

116
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2) Entrada das Escolas conveniadas para a estrutura interna da CUT.


Ap†s 1987 as Escolas de Forma„…o que construˆam convŠnios com a CUT, v…o
tornando-se gradativamente org‘nicas, aumentando a estrutura da polˆtica de forma„…o
cutista, como tamb‹m o poder de influŠncia da SNF nos seus rumos. As primeiras
Escolas, como o Instituto Cajamar, foram criadas por fora da estrutura da Central, e em
grande medida tinham influŠncia direta da “Articula„…o Sindical”. No momento em que
este campo polˆtico tornou-se dirigente da Secretaria, as Escolas foram se tornando
org‘nicas da CUT, o que fortaleceu ainda mais a concep„…o de forma„…o sindical da
“Articula„…o Sindical”.
3) A mudanƒa do eixo pol€tico estratˆgico da CUT, da luta classista para
o exerc€cio da cidadania. No V CONCUT, em 1994, consolida-se uma nova concep„…o
dos objetivos gerais da Central. Para seu setor dirigente, era necessŽrio superar uma
vis…o “sectŽria” e extremamente “operŽria” de Central, pois era preciso dialogar com o
resto da sociedade, disputando sua hegemonia em todos os segmentos. Dessa forma, a
CUT, para consolidar este novo vi‹s, tinha que superar a concep„…o de uma Central
oper‰ria, para tornar-se uma Central cidad„, a qual deveria lutar pela amplia„…o de
direitos e por uma cidadania plena para todos.
Nesse sentido, temos no perˆodo a transi„…o de uma forma„…o polˆtico-
sindical de cunho classista, para uma sindical-instrumental pautada pelo exercˆcio da
cidadania plena. Ocorreu um aprofundamento dessa perspectiva com a elei„…o de uma
nova SecretŽria para a SNF em 1994, como tamb‹m mudan„as importantes, sendo a
principal delas o in€cio do processo de subordinaƒ„o da pol€tica de formaƒ„o sindical-
instrumental a formaƒ„o profissional.
Para esta nova postura da CUT, baseada na atua„…o nos espa„os de
pacto-social, a Central deveria garantir uma nova dire„…o que viabilizasse esta
concep„…o polˆtica. Em junho de 1994, a CUT participava de 16 conselhos tripartites
organizados pelo Governo Federal, dentre eles o Conselho Nacional do Trabalho,
Conselho Nacional da AssistŠncia Social, Programa Brasileiro de Qualidade e
Produtividade, Conselho Nacional de PrevidŠncia Social, Conselho Nacional da Crian„a
e do Adolescente, entre outros. Para a PresidŠncia da CUT, ent…o, foi eleito Vicente de
Paulo da Silva, o “Vicentinho”.
Desde 1991, por ter colocado o sindicato que atuava fora da greve geral,
Vicentinho passou a receber elogios da grande imprensa e de algumas lideran„as

117
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patronais, interessadas em pressionar a CUT para uma atua„…o moderada195 . Nos meses
posteriores a greve geral, Vicentinho procurou se diferenciar no interior da Central,
pregando uma linha mais conciliadora, tendo como interlocutor a mˆdia grande, a qual
tratou de promovŠ-lo, elogiando sua “vis…o moderna”. No IV CONCUT, devido • crise
na vota„…o da proporcionalidade qualificada, Vicentinho amea„ou publicamente rachar
a Central, se as correntes de oposi„…o insistissem em contestar a vota„…o ocorrida.
Quando foi ent…o eleito presidente, Vicentinho procurou remover o foco de tens…o entre
a CUT e o Governo, a qual tinha como ponto central as lutas contra as privatiza„•es.
A chapa que elegeu Vicentinho foi “nica, tendo em vista a busca de certa
unidade no interior da CUT para supera„…o dos traumas que deixaram o IV Congresso.
Dentro da Chapa eleita, a composi„…o entre as correntes sindicais deu-se da seguinte
forma:

Tabela 14 - Composiƒ„o da Chapa Eleita ao V CONCUT – Membros da


Executiva Nacional

Correntes Sindicais Efetivos Suplentes


Articula„…o Sindical, 14 4
Unidade Sindical (PPS)
F†rum do Interior, DS 2 2

Corrente Sindical 4 0
Classista (PC do B)
PSTU-ConvergŠncia 2 2
Socialista, PLP e
outros
O Trabalho, TM e 1 0
For„a Socialista

Neste V CONCUT ocorreu tamb‹m a elei„…o de uma nova Secretaria


Nacional de Forma„…o, tendo agora a frente M—nica Valente, psic†loga e militante do
Sindicato dos Trabalhadores do Sistema P“blico de Sa“de do Estado de S…o Paulo. › o
fim da participa„…o de Jorge Lorenzetti a frente da SNF, na qual esteve durante 8 anos
(1986-1994).

195
BOITO JR, Armando. Polˆtica neoliberal e sindicalismo no Brasil. S…o Paulo : Xam…, 1999. PŽg. 178

118
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3. A CUT social-liberal e a hegemonia capitalista (1995-2000)

Em 1995 temos a posse de FHC enquanto Presidente da Rep“blica.


Como nos diz D‹cio Saes:
“O atual governo brasileiro resultou da vit†ria eleitoral em 1994 de uma ampla
frente “nica conservadora, da qual participavam: a) os segmentos diversos (na
sua maioria, por‹m n…o na sua totalidade) das classes dominantes; b) a maioria
da classe m‹dia; c) um contingente importante das classes populares. Essa
frente polˆtica apresentava um duplo aspecto. De um lado, era orientada pelo
objetivo principal de derrotar eleitoralmente a esquerda. De outro lado, era
dirigida pela corrente polˆtica neoliberal; tal corrente exercia a hegemonia no
seio da frente polˆtica conservadora, o que significa que a aglutina„…o de todos
os setores conservadores – burgueses, pequeno-burgueses ou populares – da
sociedade capitalista brasileira, com vistas a derrotar eleitoralmente a esquerda,
fazia-se em torno do programa polˆtico neoliberal.196 ”

A aplica„…o do ajuste neoliberal tinha rela„…o direta com a vit†ria de


FHC nas elei„•es de 1994, como tamb‹m com as mudan„as mais gerais ocorridas na
passagem da d‹cada de 1980 para 1990. N…o podemos menosprezar que o Brasil vivia
na d‹cada de 1990, em conson‘ncia com o resto do mundo, um novo momento no que
tange as lutas dos trabalhadores. As mudan„as que ocorreram apenas tiveram
viabilidade devido • nova conjuntura: foram as condi„•es hist†ricas gerais do perˆodo
que viabilizaram a ofensiva das classes dominantes atrav‹s do neoliberalismo e da
reestrutura„…o produtiva. Podemos delimitar algumas dessas condi„•es, como: 1) o
novo cenŽrio internacional forjado pela crise na queda da taxa de lucro na primeira
metade de d‹cada de 1970 e suas conseqšŠncias, como citamos no capˆtulo anterior. 2)
o processo de mundializa„…o do capital, que tendeu a projetar nas filiais das corpora„•es
transnacionais novas estrat‹gias de produ„…o, tamb‹m denominadas por alguns de
“acumula„…o flexˆvel”197 . 3)A crise do movimento socialista e revolucionŽrio no Brasil,
decorrente por um lado, das derrotas polˆticas do PT (e da CUT) nas elei„•es de 1989 e
1994, e por outro, do declˆnio do prestˆgio da Uni…o Sovi‹tica que culminou com a
queda do muro de Berlim.
A ofensiva do capital no terreno da produ„…o, tamb‹m denominada
reestrutura„…o produtiva, aproveitava-se da situa„…o de descenso das lutas das classes
subalternas para realizar uma nova hegemonia, aumentando o controle sobre os

196
SAES, D‹cio. Rep“blica do Capital – Capitalismo e processo polˆtico no Brasil. S…o Paulo, Boitempo:
2001.PŽg 85.

119
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trabalhadores198 . Quais seriam as caracterˆsticas da reestrutura„…o produtiva no caso


brasileiro?
Como nos afirma Segundo Paulo Sergio Tumolo199 , nos “ltimos anos, o
mercado bibliogrŽfico tem sido inundado por uma literatura abundante a respeito das
transforma„•es produtivas que vŠm ocorrendo em escala global. Contudo, ‹ necessŽrio
reconhecer que, mesmo assim, o conhecimento desse fen—meno no Brasil ‹ ainda
insatisfat†ria.
Em primeiro lugar, entre as Žreas que mais abrangem o fen—meno
estudado, n…o se encontra a hist†ria: sociologia (mais especificamente a sociologia do
trabalho), economia do trabalho, economia polˆtica, administra„…o de empresas,
educa„…o e trabalho e engenharia s…o os campos do conhecimento que mais produzem
pesquisas sobre a reestrutura„…o produtiva. Em segundo, temos que ter clareza que este
‹ um fen—meno relativamente novo, que come„a sua difus…o em meados dos anos 1970,
e somente na d‹cada de 1980 observa-se uma maior prolifera„…o de pesquisas sobre o
processo de trabalho e modifica„•es ocorridas atrav‹s da reestrutura„…o produtiva. Em
terceiro, mesmo com o aumento das pesquisas sobre o assunto, n…o chegamos ainda a
grandes consensos, ou obras de sˆntese. No que tange a forma da reestrutura„…o
produtiva no Brasil, o grande consenso ‹ o “dissenso”: aqui a marca ‹ uma
“heterogeneidade generalizada”, que dificulta o estabelecimento de compara„•es e
conex•es. Devido • maioria dos trabalhos centrarem-se nos estudos de caso, s…o poucos
aqueles que constroem uma anŽlise que dŠ conta das tendŠncias gerais, ou, pelo menos,
que defina melhor a articula„…o dos casos isolados com os processos mais amplos. No
geral, os estudos n…o passam de relatos descritivos das transforma„•es por que passam
as empresas pesquisadas.
No que tange as rela„•es de trabalho e as organiza„•es sindicais,
praticamente todas as pesquisas apontam a ocorrŠncia da intensifica„…o do ritmo de
trabalho e a diminui„…o de postos, o aumento do controle social correlacionado com a
repress…o • a„…o sindical combativa, como tamb‹m mecanismos de “participa„…o
subordinada” dos trabalhadores em certas Žreas de organiza„…o e decis…o das empresas,
em geral relacionadas • seguran„a do trabalho e recursos humanos/recrutamento de

198
ALVES, Giovanni. O novo (e precŽrio) mundo do trabalho, S…o Paulo: Boitempo, 2000. PŽg 185
199
TUMOLO, Paulo Sergio. Reestrutura„…o Produtiva no Brasil. Um balan„o crˆtico Introdut†rio da
produ„…o bibliogrŽfica. Educa„…o e Sociedade, S…o Paulo, ano XXII, no 77, dezembro 2001.

120
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pessoal. Existe, por parte das empresas, uma polˆtica de fomento do sindicalismo de
resultados como contraposi„…o ao sindicalismo combativo.
Dentro desse panorama, Ricardo Antunes foi um dos precursores do
estudo do processo de reestrutura„…o produtiva no Brasil. Em seu livro “Adeus ao
Trabalho?”, constr†i um panorama da produ„…o acadŠmica sobre o assunto, criticando
as concep„•es que, no calor dos acontecimentos, acabaram por sobrevalorizar as
modifica„•es ocorridas no processo produtivo. No ‘mbito mais geral, seu livro ‹ um
questionamento as teses gerais de outro autor, Andr‹ Gorz, que em 1980 publica
“Adeus ao Proletariado”. Nele o soci†logo francŠs defende que, devido • tendŠncia de
redu„…o do operariado industrial nas sociedades capitalistas avan„adas, estarˆamos em
um momento de declˆnio do proletariado. Um ensaio t…o instigante quanto
problemŽtico, o qual teve grande repercuss…o, em especial por tentar questionar, na raiz,
a possibilidade de revolu„…o do trabalho.
Para Antunes, a partir de 1980 presenciamos, em especial nos paˆses
centrais, profundas transforma„•es do trabalho, em especial nas suas formas de inser„…o
na estrutura produtiva. Entretanto, o que se denomina por reestrutura„…o produtiva n…o
solapou o mecanismo fundamental de reprodu„…o do capital, que ‹ a extra„…o de mais-
valia, mas reorganizou-a sob novas bases. Em uma d‹cada de grande salto tecnol†gico,
a automa„…o, a rob†tica e a microeletr—nica invadiram o universo fabril, inserindo-se e
desenvolvendo-se nas rela„•es de trabalho e de produ„…o de capital. Foram t…o intensas
as modifica„•es, que se pode mesmo afirmar que a classe-que-vive-do-trabalho sofreu a
mais aguda crise do “ltimo s‹culo, que atingiu n…o s† sua materialidade, mas teve
profundas repercuss•es na sua subjetividade e, no ˆntimo inter-relacionamento desses
nˆveis, afetou sua forma de ser.
Nesse sentido, os tra„os bŽsicos da reestrutura„…o produtiva, que o autor
prefere caracterizar mais especificamente como toyotismo, ‹ a existŠncia de uma
produ„…o variada, em contraposi„…o a produ„…o em massa e em s‹rie do fordismo. Para
atender •s exigŠncias mais individualizadas de mercado, no menor tempo possˆvel, ‹
necessŽrio que a produ„…o se sustente num processo produtivo “flexˆvel”, que permita
um operŽrio operar com vŽrias mŽquinas (em m‹dia cinco mŽquinas na Toyota). Do
mesmo modo, o trabalho passa a ser realizado em equipe, rompendo com o carŽter
parcelar tˆpico do fordismo. Entretanto, s† ‹ possˆvel uma produ„…o “flexˆvel”, se
tamb‹m os direitos trabalhistas foram “flexibilizados”, de modo a dispor da for„a de
trabalho em fun„…o direta das necessidades do mercado consumidor e seu aumento de

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demanda. Estrutura-se a produ„…o a partir do menor n“mero possˆvel de trabalhadores,


ampliando-os necessariamente atrav‹s de horas extras, contratos temporŽrios ou
subcontrata„…o. Mas, como no diz Ricardo Antunes:
“Ao contrŽrio daqueles autores que defendem a perda da centralidade da
categoria trabalho na sociedade contempor‘nea, as tendŠncias em curso,
quer em dire„…o • uma maior intelectualiza„…o do trabalho fabril ou ao
incremento do trabalho qualificado, quer em dire„…o • desqualifica„…o ou
• sua subproletariza„…o, n…o permitem concluir pela perda desta
centralidade no universo de uma sociedade produtora de mercadorias. Os
produtos criados pela Toyota, Benetton ou Volvo, por exemplo, n…o s…o
outra coisa sen…o mercadoria que resultam da intera„…o entre trabalho
vivo e trabalho morto, capital variŽvel e capital constante.200 ”

Edmundo Dias, em seu texto “Reestrutura„…o Produtiva: forma atual da


201
luta de classes” defende um conceito ampliado de reestrutura„…o produtiva. Para o
autor a gest…o do processo produtivo nada mais ‹ do que a forma condensada da polˆtica
das classes dominantes. Condensada porque imp•e, no processo de trabalho, a
desigualdade real existente, mantendo os la„os de subordina„…o/explora„…o. Nesse
sentido, busca eliminar a possibilidade aut—noma do trabalhador coletivo, pois ele
mesmo pode propiciar a recusa ao capitalismo. A reestrutura„…o produtiva,
“contrariamente •s anŽlises dominantes, n…o ‹ um conjunto de t‹cnicas de gest…o e de
produ„…o mas, fundamentalmente , um modo de vida. Mais que propaganda ela ‹
condi„…o do domˆnio do capital, uma ideologia construidora do real”202 . › a f†rmula
privilegiada de resposta capitalista • sua crise, a qual necessita, conjuntamente, limitar
cada vez mais os direitos sociais e os gastos estatais. De uma democracia que antes, na
‹poca “social-democrata”, incluˆa os trabalhadores relativamente, hoje ‹ revelada a
quase nula possibilidade de acesso real ao mundo da polˆtica e do bem estar social,
quando n…o abertamente • pura sobrevivŠncia. Para Edmundo dias, portanto, n…o
podemos descolar o mundo da fŽbrica daquele que o engendra. Parafraseando Gramsci,
“a hegemonia vem da fŽbrica e, para ser exercida, s† necessita de uma quantidade
mˆnima de intermediŽrios profissionais da polˆtica e da ideologia”203 .

200
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? (ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do
trabalho). S…o Paulo: Cortez, 1995. PŽg 84
201
DIAS, Edmundo. “Reestrutura„…o Produtiva: forma atual da luta de classes” in: Outubro, No 1.
202
Id, ibidem. PŽg. 52
203
GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, A Polˆtica e o Estado Moderno. 5 ed. Rio de Janeiro: Civiliza„…o
Brasileira, 1984. PŽg. 381.

122
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Francisco Jos‹ Teixeira204 vai tamb‹m por este caminho. Para o autor,
temos que ter como objetivo central a delimita„…o dos marcos te†ricos da reestrutura„…o
produtiva. Partindo essencialmente de Marx, pretende-se fazer uma crˆtica a diversas
vis•es, como as dos famosos te†ricos da reestrutura„…o produtiva, representados por
Alvin Tofler e Peter Drucker, daqueles que defendem o fim do capitalismo e da teoria
do valor, como Habermas e Giannoti, ou mesmo os te†ricos da Escola da Regula„…o,
como Aglietta. Para ele, ao contrŽrio do que imaginam Habermas e Giannoti, as
transforma„•es por que passa o modo de produ„…o capitalista caminham na dire„…o de
uma racionaliza„…o brutal do trabalho vivo, enquanto fonte produtora de valor. Neste
sentido, a cientifiza„…o dos processos de produ„…o n…o dispensou o trabalho vivo,
enquanto fonte de produ„…o de riqueza. A nova forma de organiza„…o do trabalho,
como tamb‹m a terceiriza„…o, rep•em, em novas bases, as leis de circula„…o simples de
mercadorias; uma reposi„…o de formas antigas de pagamento que foram dominantes nos
prim†rdios do capitalismo e at‹ mesmo na ‹poca do apogeu da grande ind“stria: a forma
transfigurada do salŽrio por pe„a, como meio de pagamento que serviu de alavanca para
o prolongamento do tempo de trabalho e rebaixamento dos salŽrios, no perˆodo de
crescimento que se estendeu entre 1797 e 1815. Nessa reorganiza„…o da produ„…o,
trabalhador torna-se, ele pr†prio, uma fonte potencializada de auto-explora„…o. Visto
que seu salŽrio depende da quantidade de mercadorias produzidas por unidade de
tempo, ‹ de seu interesse aplicar sua for„a de trabalho o mais intensamente possˆvel.
Este seria o mecanismo fundamental da radicaliza„…o do trabalho abstrato na sociedade
contempor‘nea.
ClŽudio Katz, em seu texto “Evolu„…o e Crise do Processo de
205
Trabalho” , tem uma vis…o bem crˆtica em rela„…o as conclus•es que chegaram a
maioria das pesquisas no ‘mbito da reestrutura„…o produtiva, e mais especificamente,
no toyotismo. Para ele, n…o houve uma grande mudan„a, de um suposto taylorismo
desp†tico, coercitivo e repetitivo para formas voluntŽrias, “qualificadoras” e
gratificantes de trabalho no toyotismo. N…o ‹ casual que Ohno – o te†rico mais citado
do toyotismo – seja um declarado admirador de Taylor. Para o Katz, o sistema fabril do

204
TEIXEIRA, Francisco Jos‹ Soares. “Modernidade e crise: reestrutura„…o produtiva ou fim do
capitalismo?” In: Neoliberalismo e Reestrutura„…o Produtiva – As Novas Determina„•es do Mundo do
Trabalho. Cortez Editora, CearŽ, 1998.
205
KATZ, ClŽudio; BRAGA, Ruy e COGGIOLA, Osvaldo. Novas Tecnologias – Crˆtica da atual
Reestrutura„…o Produtiva. S…o Paulo: Xam…, 1995.

123
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p†s-guerra que se ergueu no Jap…o recriou formas primitivas do taylorismo norte-


americano, pois

“a essŠncia do taylorismo n…o ‹ o carŽter repetitivo das tarefas mas o


controle patronal do processo de trabalho, e este tra„o ‹ dominante na
produ„…o japonesa. Sob o toyotismo, a fabrica„…o baseada no “tempo
compartilhado” pelo grupo implica um controle gerencial sobre tempos e
movimentos t…o intenso como a designa„…o fragmentŽria individual de
tarefas. 206 “

As peculiaridades do toyotismo n…o inauguram uma ‹poca p†s-taylorista,


pois preservam ou refor„am o controle patronal. Ou seja, para Katz, sem a destrui„…o
dos sindicatos por categoria e sua substitui„…o por organiza„•es debilitadas e
circunscritas ao ‘mbito de cada empresa, muitas vezes pactuadas com a dire„…o
patronal, as inova„•es da reestrutura„…o produtiva n…o teriam ido adiante.
Com o choque de competitividade imposto pelas polˆticas neoliberais nos
anos 1990, o processo de reestrutura„…o produtiva ganhou impulso, efetivando-se
atrav‹s de formas diferenciadas, configurando uma realidade que comporta tanto
elementos de continuidade como de descontinuidade em rela„…o •s fases anteriores.
No que tange ao Brasil, s…o poucos os textos que avaliam o processo de
reestrutura„…o produtiva de forma especˆfica. Como nos dias Antunes, em outro texto
de sua autoria que remete as caracterˆsticas existentes em nosso paˆs:

“A flexibiliza„…o e a desregulamenta„…o dos direitos do trabalho, bem


como a terceiriza„…o e as novas formas de gest…o da for„a de trabalho
implantadas no espa„o produtivo, est…o em curso acentuado e presentes
em grande intensidade, indicando que o se o fordismo parece ainda
dominante em vŽrios ramos produtivos e de servi„os, quando se olha o
conjunto da estrutura produtiva, ele cada vez mais se mescla fortemente
com novos processos produtivos, em grande expans…o, conseqšŠncia da
liofiliza„…o organizacional, dos mecanismos pr†prios oriundos da
acumula„…o flexˆvel e das prŽticas toyotistas que foram e est…o sendo
fortemente assimiladas no setor produtivo brasileiro. Se ‹ verdade que a
baixa remunera„…o da for„a de trabalho – que se caracteriza como
elemento de atra„…o para o fluxo de capital externo produtivo em nosso
paˆs – pode se constituir, em alguma medida, como elemento
obstaculizador para o avan„o tecnol†gico nestes ramos produtivos,
devemos acrescentar, por outro lado, que a combina„…o obtida atrav‹s da
superexplora„…o da for„a de trabalho com padr•es produtivos
tecnologicamente mais avan„ados, vem se constituindo como um tra„o

206
Idem, ibidem. PŽg 35.

124
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constitutivo e marcante do capitalismo implantado em nosso paˆs. Para os


capitais nacionais e transnacionais produtivos interessa a mescla entre
for„a de trabalho "qualificada", “polivalente”, multifuncional”, apta para
operar com os equipamentos informacionais, articulando com salŽrios
bastante reduzidos, sub-remunerados, em patamares muito inferiores
•queles alcan„ados pelos trabalhadores nas economias avan„adas e em
condi„•es de trabalho amplamente flexibilizadas”207 .

Este amplo processo de mudan„as ocorridas no mundo do trabalho


relacionava-se diretamente com as polˆticas de Estado e com transforma„•es na forma
de atua„…o de diversos agentes sociais, e tinham impactos marcantes na passagem da
d‹cada de 1980 para a primeira metade da d‹cada de 1990. Se na d‹cada de 1980 a
renda apropriada pelos 50% mais pobres no Brasil era correspondente a 14% da renda
nacional, a m‹dia em 1996 caiu para apenas 12%208 ; entre 1985 e 1989 o tempo m‹dio
em que os desempregados procuravam emprego era de dezessete semanas por ano, entre
1990 e 1995 esse perˆodo passou para 22 semanas209 . Na grande S…o Paulo, a taxa
m‹dia de desemprego total entre 1985 e 1989 era de 9,8%, a qual subiu para 13,2% no
perˆodo entre 1990 e 1995210 . Al‹m disso, temos o forte crescimento do mercado
informal e do subemprego, como demonstra a tabela abaixo:
Tabela 16 - Crescimento do mercado informal de trabalho no Brasil (1990-1995)

Trabalhadores Trabalhadores Trabalhadores Trabalhadores


por conta n…o empregados empregados
pr†pria remunerados sem carteira com carteira
assinada assinada
1990 14.000.000 4.900.000 13.800.000 23.500.000
1995 15.700.000 6.900.000 15.500.000 20.600.000
Varia„…o +12,1% +40,8% +12% -12,4%

Fonte: BOITO JR, Armando. Polˆtica neoliberal e sindicalismo no Brasil. S…o Paulo : Xam…, 1999. PŽg
94. Elabora„…o Pr†pria.

207
ANTUNES, Ricardo. As formas Diferenciadas da Reestrutura„…o Produtiva no Brasil. Trabalho
apresentado no XXVIII Encontro Anual da ANPOCS, 2004.
208
BOITO JR, Armando. Polˆtica neoliberal e sindicalismo no Brasil. S…o Paulo : Xam…, 1999. PŽg 101.
209
Idem, ibidem. PŽg 91
210
Idem, ibidem. PŽg 91

125
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O Governo de Fernando Henrique Cardoso atrav‹s de diversas medidas


tinha enquanto objetivo aprofundar a agenda neoliberal no Brasil, implementando
mudan„as que caminhavam nessa dire„…o. Sua postura era assumir no parlamento a
defesa de uma ampla reforma constitucional que quebrava os monop†lios estatais, a
contra-reforma em torno da PrevidŠncia social e da Administra„…o P“blica, e a abertura
da economia nacional ao capital internacional atrav‹s da assinatura de diversos
protocolos com a Organiza„…o Mundial do Com‹rcio, expandindo a participa„…o dos
bancos e empresas estrangeiras no paˆs211 . Assim, esse novo ciclo imp—s novas bases
materiais da hegemonia do capital, especialmente no campo da produ„…o pelo aumento
da competi„…o inter-empresarial, forjando a necessidade de cria„…o de novos m‹todos,
novas tecnologias e novos tipos de controle sobre o processo de trabalho212 .
Como estas transforma„•es influenciaram a ind“stria metal“rgica do
ABC Paulista, ber„o de funda„…o da CUT? As polˆticas adotadas pelos sindicalistas
cutistas frearam a tendŠncia mais geral de enfraquecimento dos trabalhadores, ou ao
contrŽrio, debilitaram ainda mais a classe? Um balan„o importante que nos ajuda as
responder estas quest•es se expressa nos resultados do acordo das montadoras, jŽ que
este era colocado enquanto exemplo da necessidade da CUT “modificar sua atua„…o
devido aos novos tempos”. Apesar de n…o ter sido diretamente conduzido pela CUT, o
acordo das montadoras teve a participa„…o do Sindicato dos Metal“rgicos de S…o
Bernardo e Diadema, um dos sindicatos que mais influenciavam a dire„…o da Central.
Vicentinho, o novo presidente da CUT eleito no V CONCUT em 1994, foi presidente
daquele sindicato entre 1987 e 1993 e Presidente fundador do sindicato unificado dos
metal“rgicos do ABC no mesmo ano. Em primeiro lugar, podemos analisar as
flutua„•es no faturamento do Setor automotivo:

211
SAES, D‹cio. Rep“blica do Capital... Op. cit. PŽg 85.
212
ALVES, Giovanni. O novo (e precŽrio) mundo... Op. cit.. PŽg 185

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Tabela 17 – Faturamento L€quido do Setor Automotivo no Brasil (1989-1994)

Autom†veis Autope„as MŽquinas Total


(US$ Agrˆcolas
milh•es)
1989 11.381.196 15.544 2.522.856 29.448.052
1990 8.486.949 12.244 1.539.308 22.270.257
1991 8.723.709 9.848 1.388.946 19.960.635
1992 10.834.280 10.122 1.511.862 22.468.142
1993 12.551.751 13.222 1.477.879 27.251.630
1994 15.256.006 14.800 2.100.729 32.156.735
Fonte: GALVƒO, Andr‹ia. Participa„…o e fragmenta„…o: a prŽtica sindical dos metal“rgicos do
ABC nos anos 90. Campinas, IFCH, Unicamp, 1996. PŽg 112

Como nos mostra a tabela, houve o crescimento do faturamento lˆquido


do setor automotivo em cerca de 60% entre 1991 e 1994, sendo que o segmento das
ind“strias de autom†vel cresceu quase 75%, e os segmentos de autope„as e mŽquinas
agrˆcolas, 51%. Este crescimento do faturamento foi resultado do aumento da produ„…o
e das vendas, no mesmo perˆodo, como podemos verificar na tabela abaixo:

Tabela 18 - Meta e Realizaƒ„o da produƒ„o de Autom•veis (1991-1995)


Ano Meta Resultado
1991 - 960.219
1992 - 1.073.861
1993 1.200.000 1.391.435
1994 1.350.000 1.581.389
1995 1.500.000 1.635.541

Fonte: GALVƒO, Andr‹ia. Participa„…o e fragmenta„…o: a prŽtica sindical dos


metal“rgicos do ABC nos anos 90. Campinas, IFCH, Unicamp, 1996. PŽg 117

Ocorreu ent…o um crescimento de 70,33% no n“mero de veˆculos


produzidos no Brasil no perˆodo em quest…o. Al‹m disso, ocorreu a diminui„…o dos

127
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empregos no conjunto dos metal“rgicos do ABC em 13,19% entre 1989 e 1995, como
tamb‹m a produtividade por veˆculos passou de 8,8 veˆculos por trabalhador em 1991
para 14,8 em 1994. Para Andr‹ia Galv…o213 , os objetivos que mais interessavam aos
trabalhadores, como o aumento de 4 mil postos de trabalho nas montadoras, de 90 mil
em toda a cadeia e recuperar os salŽrio com aumento real de 20% entre abril de 1993 e
abril de 1995 n…o foram cumpridos, enquanto os interesses dos capitalistas foram
largamente contemplados, superando inclusive todas as expectativas. Com todos esses
resultados, e com a queda de -44,2% do salŽrio real entre 1990 e abril de 1995 entre os
trabalhadores das montadoras, e -46,3% no setor de autope„as, a avalia„…o dos
metal“rgicos do ABC era de quem ganhou com o acordo foram o Governo e os
EmpresŽrios, e n…o os trabalhadores. Para eles, quem mais ganhou com o acordo da
c‘mara automativa foram os empresŽrios (95%) e Governo (80,7%); apenas 40% dos
metal“rgicos do ABC acreditavam que os trabalhadores tamb‹m ganharam com o pacto
estabelecido. Na categoria dos metal“rgicos como um todo a porcentagem de
trabalhadores que acreditava que o pacto das montadoras rendeu frutos aos metal“rgicos
foi ainda menor: 23,3%214 .
Para al‹m da polˆtica econ—mica baseada no Plano Real, que previa corte
de gastos p“blicos, endividamento externo e juros altos como mecanismos de atra„…o de
capitais para manter a estabilidade monetŽria, o processo de privatiza„…o no governo
FHC foi um dos pilares centrais do ajuste neoliberal no Brasil, concentrando-se na
quebra de monop†lios estatais – explora„…o de petr†leo, das telecomunica„•es, da
distribui„…o de gŽs canalizado -, na venda de empresas de eletricidade, na concess…o de
explora„…o de rodovias e ferrovias, e na venda de bancos estaduais. A privatiza„…o da
Vale do Rio Doce, por exemplo, foi efetuada, pelo cŽlculo de especialistas, a um pre„o
que representava uma fra„…o irris†ria da empresa215 . A Usiminas, sider“rgica de alta
produtividade e lucratividade, tinha seu patrim—nio avaliado por alguns consultores em
doze bilh•es de d†lares, mas foi vendida por apenas um bilh…o e meio. E para o
pagamento destas privatiza„•es, foram aceitas “moedas podres”, como as Obriga„•es do
Fundo Nacional de Desenvolvimento, os Tˆtulos da Dˆvida AgrŽria, Tˆtulos da Dˆvida
Externa, entre outras. Al‹m disso, o BNDES participou ativamente das compras, como

213
GALVƒO, Andr‹ia. Participa„…o e Fragmenta„…o: A prŽtica Sindical dos Metal“rgicos no ABC nos
anos 90.
214
Idem, ibidem. PŽg 120
215
BOITO JR, Armando. Polˆtica neoliberal e sindicalismo no Brasil. S…o Paulo : Xam…, 1999. PŽg 178

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no cons†rcio que adquiriu a CPFL, financiando 50% do pre„o da estatal, garantindo os


investimentos da empresa no perˆodo p†s-privatiza„…o, utilizando enquanto garantia as
a„•es das empresas que acabavam de ser privatizadas. Ou seja, a privatizaƒ„o foi uma
pol€tica de Estado, na qual foram utilizados seus aparelhos para viabilizar a
incorporaƒ„o do patrim†nio das empresas p‹blicas pelos grandes bancos e grupos
empresariais.
Como resposta a este processo, em 1995 ocorreram manifesta„•es
importantes contra as contra-reformas constitucionais, como as que defendiam a
abertura do petr†leo, das telecomunica„•es e do gŽs para explora„…o do capital privado.
Em abril de 1995, a CUT-SP reuniu, na Pra„a da Rep“blica, 15 mil manifestantes no
Dia Nacional de Lutas Contra as Reformas Constitucionais. No dia 3 de maio, diversos
sindicatos cutistas do setor p“blico federal organizaram uma greve geral conta as
privatiza„•es, a quebra de monop†lios estatais e a reforma da previdŠncia. Dentro das
greves de maio de 1995, destaca-se a greve dos petroleiros, a maior da hist†ria da
categoria com 32 dias de dura„…o. Os petroleiros terminaram o ano de 1994 sem acordo
de trabalho, mesmo ap†s duas greves nacionais (em setembro e em novembro) para
pressionar a PetrobrŽs a repor as perdas salariais da categoria, que jŽ chegava a 100%.
Em plenŽria nacional convocada pela Federa„…o •nica dos Petroleiros, em janeiro de
1995, a categoria decide unificar a luta com outras categorias do setor p“blico:
eletricitŽrios, telef—nicos, trabalhadores dos Correios e os servidores federais.
Entretanto, o movimento unificado, vai perdendo for„a e os petroleiros acabam
sustentando a greve sozinhos por 32 dias. Mais de 90% da categoria cruzam os bra„os
nas refinarias, nas plataformas, nos terminais de distribui„…o e nas unidades
administrativas da PetrobrŽs. Apesar da legitimidade das reivindica„•es da categoria,
que exigia o cumprimento dos acordos de 1994, o Tribunal Superior do Trabalho julga a
greve abusiva em seu s‹timo dia, como tamb‹m tentava intimidar os sindicatos com o
an“ncio em 11 de maio a primeira lista de 25 demitidos, em sua maioria sindicalistas. A
repress…o s† aumentava, chegando ao ponto que no dia 24, o Ex‹rcito ocupou as
refinarias de ParanŽ (REPAR), Paulˆnia (REPLAN), MauŽ (RECAP) e S…o Jos‹ dos
Campos (REVAP). No dia seguinte, os petroleiros receberam seus contracheques
zerados. Ap†s a constru„…o do dia nacional de solidariedade, em 31 de maio, com a
campanha “Somos Todos Petroleiros”, foi aberta uma frente de negocia„•es
parlamentar na perspectiva de intermediar a rela„…o com a PetrobrŽs, comprometendo a
empresa a cancelar as puni„•es e parcelar os dias parados. Assim, em 2 de junho a FUP

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indicou o fim da greve em todo paˆs, a qual abriu espa„o ao questionamento direto das
fei„•es do novo governo de FHC, jŽ que sua face repressiva ficava cada vez mais
evidente: a utiliza„…o do ex‹rcito, as multas de R$2,1 milh•es aos sindicatos, a
demiss…o de 75 petroleiros e as puni„•es a mais de 1 mil trabalhadores (a maioria com
suspens•es de quase um mŠs) foram parte do saldo de uma das mais importantes a„•es
do sindicalismo brasileiro, que ainda demonstrava disposi„…o e for„a para barrar os
avan„os neoliberais. Por‹m, justamente no momento em que essas manifesta„•es
apontavam para um crescimento, a dire„…o da CUT come„ou a abandonar o processo de
luta contra as privatiza„•es. Esta mudan„a come„ou jŽ no ano inˆcio do ano, com as
reuni•es da Executiva da Central e suas delibera„•es em torno das “reformas
neoliberais” do Governo de Fernando Henrique.
No “Informa CUT” de abril de 1995, a Central divulgava as resolu„•es
da Executiva que ocorreu um pouco tempo antes, em mar„o. Na resolu„…o, a CUT
avaliava que o governo FHC retomava a pauta do Governo Collor, do FMI e do Banco
Mundial, colocando propostas que representavam ataques •s conquistas da Constitui„…o
de 88 e aos direitos trabalhistas, bases do modelo Neoliberal. Nesse sentido, para CUT
era necessŽrio:
“(...)e urgente a revers…o desse modelo e a ado„…o de uma outra agenda
de mudan„as, que garanta uma estabiliza„…o com crescimento econ—mico
e distribui„…o de renda. N…o queremos retrocesso nas conquistas de 88.
N…o aceitamos a pauta de mudan„as neoliberais propostas por FHC, que
visa retirar conquistas dos trabalhadores. A CUT tem sua pauta de
reformas que visam ampliar a cidadania, os direitos dos trabalhadores e a
eficiŠncia do servi„o p“blico, e quer apresentŽ-la, debatŠ-la com toda a
sociedade e lutar para que ela se efetive”216 .

Ao mesmo tempo que a CUT fortemente criticava a polˆtica neoliberal de


FHC, propondo a constru„…o em conjuntos com os sindicatos, demais Centrais Sindicais
e entidades da sociedade civil de uma “Frente pela Cidadania e Direito dos
Trabalhadores”, com o objetivo de frear o avan„o das classes dominantes, sua tŽtica na
conjuntura era apresentar uma “outra proposta na sociedade e lutar para que ela se
efetivasse”, ou em outros termos, divulgar a “nova previdŠncia que desejamos ver
construˆda nos pr†ximos anos”. Essas propostas constavam no mesmo informativo,
como um caderno especial que divulgavam a reforma do Governo, e reforma defendida
pela CUT, denominada “Dignidade para quem fez e faz o paˆs”.

216
CUT. Informa CUT – Abril/1995. PŽg 5

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A quest…o fundamental ‹ que o debate em torno da Reforma da


PrevidŠncia voltou a “pauta” naquele perˆodo devido • polˆtica incisiva do Governo na
retirada de direitos, e n…o atrav‹s do crescimento nas lutas dos trabalhadores. Por causa
da nova conjuntura, n…o existia a possibilidade se constituir vit†rias na conquista de
direitos: o primordial era barrar as contra-reformas em curso impostas pela agenda
neoliberal. Entretanto, a CUT, ao mesmo tempo em que dizia que era necessŽrio
“impedir o retrocesso”, tamb‹m defendia que “[ia] para o debate na expectativa de se
construir junto aos trabalhadores uma nova previdŠncia”. Esta postura, de se colocar
contra as propostas, mas ao mesmo tempo defender alternativas “viŽveis”, abria espa„o,
na prŽtica, para negocia„…o em torno da Reforma do Governo. Esta perspectiva
avan„ou dois dias depois da greve geral dos funcionŽrios p“blicos federais, quando a
Dire„…o Nacional da central, reunida no instituto Cajamar, decidiu, por iniciativa da
corrente “Articula„…o Sindical”, abrir negocia„•es com o governo em torno das contra-
reformas constitucionais. Dos 90 sindicalistas presentes na reuni…o, 55 deles
defenderam a tese vencedora, 28 defenderam o combate •s contra-reformas, e 7
abstiveram-se. Esta decis…o demonstrou uma inflex…o ainda maior da CUT para uma
estrat‹gia de concilia„…o de classes, negociando com o governo n…o atrav‹s de
mobiliza„•es, mas a partir da perspectiva de disputar suas propostas dentro de um
marco meramente institucional. Na resolu„…o da Dire„…o Nacional defendia-se que
“Para quebrar a estrat‹gia do governo e abrir caminho para a discuss…o e
viabiliza„…o em torno de reformas populares dando prosseguimento •s
resolu„•es da Executiva Nacional de mar„o: ‹ preciso difundir e discutir
junto ao conjunto dos trabalhadores, aos movimentos populares, aos
partidos polˆticos, •s entidades democrŽticas da sociedade civil, aos
empresŽrios, ao Congresso e ao governo, nossa pauta alternativa de
reformas, de conte“do populares e democrŽtico”217 .

Foi esta postura que fundamentou a ida de Vicentinho para negociar, com
o governo FHC, no ano seguinte, a Contra-Reforma da PrevidŠncia. Al‹m disso, o
debate em torno da Forma„…o Profissional, o qual tinha rela„…o direta com as contra-
reformas neoliberais que estavam sendo impostas, avan„ava no interior da CUT.
Como analisamos no capˆtulo anterior, a posi„…o sobre Forma„…o
Profissional tinha conson‘ncia com as posturas da Central em torno da reestrutura„…o
produtiva e das mudan„as realizadas na Secretaria Nacional de Forma„…o da CUT
(SNF), especialmente a partir de 1993, quando se definiu como o eixo central da

217
CUT. Informa CUT maio/1995 No 253 – pŽg 4

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forma„…o cutista “a defesa da cidadania” para os trabalhadores. O fundamental seria


realizar o balan„o dos 10 anos da CUT, e analisar as necessidades existentes para
superar “os desafios que est…o colocados para a consolida„…o definitiva da CUT como
instrumento estrat‹gico de defesa dos interesses dos trabalhadores, da democracia e da
cidadania no Brasil”218 . Esta remodelagem estava baseada na transforma„…o do curso
bŽsico de forma„…o polˆtica da Central, o CEPS, que devia superar sua l†gica
“reivindicativa”, combinando “a„…o reivindicativa com a„…o propositiva, de elabora„…o
de um projeto para a sociedade na perspectiva de transforma„•es estruturais, o que se
apresenta hoje como uma necessidade urgente para o movimento sindical cutista.219 ” O
Plano Nacional de Forma„…o de 1994 seguia na mesma dire„…o, defendendo que as
prŽticas “reativas” deveriam ser superadas. A nova conjuntura de ofensiva do capital no
paˆs, que trazia consigo um forte investimento em novas tecnologias e na gest…o do
trabalho, colocava novos desafios para a CUT:

“(...) ‹ neste contexto que se encontram os desafios para a implanta„…o


de um projeto sindical que extrapole a cultura economicista da a„…o
sindical vigente, apontando uma prŽtica que combine a„•es
mobilizadoras nos campos sindical e institucional, tendo como um de
seus principiais eixos o pleno exercˆcio da cidadania”220 .

Al‹m disso, n…o podemos esquecer que as Escolas de Forma„…o da CUT,


as quais se tornaram org‘nicas e transformaram-se no eixo central de Forma„…o da
Central, tinham suas atividades quase que totalmente financiadas atrav‹s de parcerias
com agŠncias sindicais internacionais, no interior da perspectiva de filia„…o da CUT •
CIOSL em 1992, como podemos ver na tabela abaixo:

218
CUT. Plano Nacional de Forma„…o (1993) – pŽg 2
219
Idem. PŽg 4
220
CUT. Plano Nacional de Forma„…o (1993) pŽg 16

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Escolas Financiamento
Escola Sindical do Mais da metade dos recursos provenientes de DGB-
Norte (Bel‹m) Alemanha221 , Icco222 -Holanda; Cisl223 , ItŽlia. Parte dos
recursos diretamente dos governos desses paˆses.
Escola Sul Receitas sindicais, das CUTs do Sul, taxas de inscri„…o,
(Florian†polis) venda de servi„os. Coopera„…o internacional da Alemanha
e ItŽlia
Instituto Cajamar (SP) Recursos de trŠs livrarias “CajŽ”, da presta„…o de servi„os
t‹cnicos e de receitas oriundas de vˆdeos;
Financiamento internacional do Icco-Holanda , Christian
Aid-EUA224 , Fastem Ÿpfer, Entreaide et Fraternit‹225 ,
Iscos-Cisl226 , D‹veloppement et Paix227 , Brot fur die
Welt228 .
Escola Sindical 7 de Iscos-Cisl
Outubro (BH)
Escola Sindical Iscos-Cisl
Quilombo dos
Palmares (Recife)

Fonte: MORA, Eliane Arenas. O caminho da subsun„…o da Polˆtica nacional de


Forma„…o da CUT •s Diretrizes de Sociabilidade Neoliberais. 2007. Tese (Doutorado em Educa„…o) -
Universidade Federal Fluminense. PŽg 112

221
Federa„…o dos Sindicatos Alem…es (DGB)
222
Organiza„…o IntereclesiŽstica de Coopera„…o para o Desenvolvimento (ICCO)
223
Confedera„…o Italiana dos Sindicatos dos Trabalhadores (The Confederazione Italiana Sindacati
Lavoratori) - CISL
224
AgŠncia MissionŽria Crist… - USA “Ao longo dos anos, a Christian Aid tem ajudado a mais de 800
minist‹rios evangelˆsticos estabelecidos em 122 paˆses considerados “campos missionŽrios” al‹m mar
com mais de US$100 milh•es. Estas organiza„•es mobilizam uma for„a combinada de 100.000
missionŽrios servindo nas na„•es n…o evangelizadas do mundo.” Retirado de
http://www.christianaidbrasil.org/quem_somos . Acessado em 12/10/2008
225
ONG Cat†lica de “solidariedade internacional” que impulsiona “a„•es de desenvolvimento nos paˆses
de terceiro mundo, especialmente no setor agrŽrio”
226
ONG ligada • CISL
227
AgŠncia ligada • Igreja Cat†lica do CanadŽ
228
AgŠncia ligada • Igreja Protestante da Alemanha

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Como afirma Armando Boito, a influŠncia que o sindicalismo conciliador


europeu realizou sobre os novos rumos da CUT, especialmente em rela„…o •s mudan„as
de concep„…o da corrente Articula„…o Sindical, n…o deve ser menosprezada:

“Na elabora„…o de sua nova estrat‹gia, a Articula„…o n…o apenas


inspirou-se no sindicalismo cat†lico e social-democrata europeu, ela
contou com a assessoria direta de tais sindicatos. (...) N†s podemos
admitir a hip†tese de que as rela„•es polˆticas da corrente Articula„…o
Sindical com a social-democracia europ‹ia e com essa igreja pesaram na
guinada para o centro empreendida pelo sindicalismo cutista”229 .

O fortalecimento da For„a Sindical, que tinha rela„•es muito pr†ximas


com o Governo FHC, a nova conjuntura de reestrutura„…o produtiva e difus…o atrav‹s da
mˆdia da necessidade da “qualifica„…o” para garantir a “empregabilidade”, a
aproxima„…o com o sindicalismo social-democrata europeu, como tamb‹m certa dose de
pragmatismo dos sindicalistas, acabaram por fortalecer no interior da pr†pria CUT a
possibilidade de realiza„…o de cursos de Forma„…o Profissional230 .
Mesmo que vŽrios sindicatos filiados • CUT jŽ realizassem atividades de
Forma„…o Profissional em seu interior, como denuncia a delibera„…o do V CONCUT, a
Central nunca havia desenvolvido, at‹ ent…o, cursos que abrangessem a Forma„…o
Profissional para al‹m de uma forma„…o de cunho sindical. Em agosto de 1995, na 7‡
PlenŽria Nacional, a mudan„a de rumos ‹ consolidada.

229
BOITO, Armando Jr. Polˆtica Neoliberal... Op. cit. PŽg 215
230
“Estas demandas foram percebidas de forma diferenciada pelos diversos sujeitos polˆticos no interior
da CUT, o que deu origem a atua„•es com Šnfases variadas em um ou outro campo, muitas vezes
calcadas em doses elevadas de pragmatismo. Assim, diversos sindicatos e estruturas cutistas,
principalmente do setor privado, se viram pressionados a realizar a„•es e experiŠncias envolvendo
qualifica„…o profissional, sem, contudo, clareza de concep„…o e objetivo, sem crit‹rios na escolha de
conte“dos, m‹todos e parceiros, com a perda de controle do processo educativo” 230 LIMA, Almerico.
Rumo ao Sindicato Cidad…o? – Qualifica„…o Profissional e Polˆticas P“blicas em Tempos de
Reestrutura„…o Produtiva, Salvador, Disserta„…o de Mestrado, Faculdade de Educa„…o/UFBa.. Retirado
de OLIVEIRA, Roberto V‹ras de. Sindicalismo e Democracia no Brasil: Atualiza„…o - Do novo
Sindicalismo ao Sindicato Cidad…o. Tese apresentada ao Programa de P†s Gradua„…o em Sociologia-
USP. S…o Paulo, 2002. PŽg 453

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3.1 A 7• Plen‰ria Nacional: A CUT e a implementaƒ„o da Formaƒ„o


Profissional atravˆs dos recursos do FAT

A 7‡ PlenŽria (1995) teve no ponto “Forma„…o Profissional” um dos seus


textos de delibera„…o mais elaborados. Ele inicia com uma anŽlise cuidadosa, tecendo
criticas aos discursos e propostas apresentadas pelas classes dirigentes na Žrea de
educa„…o, relacionando-as com o processo de reestrutura„…o produtiva. Em outro
momento, no t†pico denominado “Escolas Sindicais”, a delibera„…o real„a o alarmante
quadro de desemprego no paˆs, e neste contexto a CUT:

“tem defendido que o atendimento aos desempregados deve estar na base


de qualquer polˆtica de emprego, e n…o deve estar restrito ao pagamento
do benefˆcio do seguro-desemprego, mas obrigatoriamente deve incluir a
requalifica„…o profissional e a intermedia„…o de empregos, permitindo ao
trabalhador desempregado voltar a trabalhar de forma digna.231 ”

Dessa forma a

“requalifica„…o profissional ‹ um servi„o de fundamental import‘ncia no


quadro atual, em particular para os atingidos por desemprego decorrente
de alguma moderniza„…o tecnol†gica.232 ”

Em primeiro lugar, ‹ necessŽrio frisar que em certas passagens dessa


deliberaƒ„o, a CUT jŽ n…o diferenciava Forma„…o Profissional de requalifica„…o
profissional, utilizando os termos enquanto sin—nimos. Existiu um importante debate na
Central, em especial na Comiss…o de Educa„…o, sobre a rela„…o entre Educa„…o e
Trabalho, demonstrando que o processo de forma„…o do trabalhador n…o podia estar
deslocado de uma perspectiva crˆtica e humanista, e n…o meramente t‹cnica. A partir
deste momento, entretanto, a tendŠncia era deslocar o eixo de “Forma„…o Profissional”
para “Requalifica„…o Profissional”, do campo da “Educa„…o” para o de “Forma„…o”, e
no que se refere • atua„…o das Secretarias, mudar de “Polˆticas Sociais” para a
“Secretaria Nacional de Forma„…o”.
Al‹m disso, devido • existŠncia de um governo neoliberal e privatizante,
a CUT n…o poderia apenas “reivindicar” uma forma„…o profissional atrav‹s de polˆticas
p“blicas estatais; a alternativa para a expans…o do p“blico estaria na execu„…o, por ela

231
CUT. Resolu„•es da 7‡ PlenŽria Nacional (1995). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
232
Idem, ibidem.

135
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mesma, de cursos de forma„…o profissional. Assim, a CUT em suas deliberaƒŠes sobre


“Formaƒ„o Profissional” j‰ na 7• Plen‰ria diferenciava o conceito de “p‹blico” de
“estatal” na perspectiva de incluir agentes da sociedade civil enquanto parte da
“esfera p‹blica”. O questionamento do carŽter de classe do Estado, que anteriormente
se dava atrav‹s da reivindica„…o de espa„os de controle social das polˆticas p“blicas, foi
deixado de lado com uma nova atua„…o baseada na fiscaliza„…o dos fundos p“blicos e
acesso aos seus recursos. A “esfera p“blica” se expandiria na medida em que a CUT
aprofundasse sua atua„…o no ‘mbito institucional dos f†runs tripartites, fiscalizando e
direcionando as atua„•es governamentais, assim como na disputa pela utiliza„…o dos
recursos dos fundos p“blicos:
“O projeto democrŽtico e popular, alternativa ao anacr—nico projeto
neoliberal na resolu„…o da crise social, de cuja constru„…o a CUT tem
participado junto com os movimentos populares e partidos democrŽticos,
deve ter como ponto nuclear a ampliaƒ„o da esfera p‹blica e a
constituiƒ„o de mecanismos democr‰ticos de controle social dos fundos
p‹blicos. No campo educacional, em particular, o avan„o contra o
neoliberalismo implica em trazer o conflito para a esfera do p“blico, em
publicizŽ-lo. › dessa maneira que poderemos efetivar, como alternativa
hist†rica, a proposta de uma educa„…o democrŽtica que traduza as
necessidades do conjunto da sociedade”233 .

Esta nova vis…o fazia parte de uma reformula„…o pela CUT dos seus
objetivos estrat‹gicos e da sua concep„…o de Estado. Deslocava-se a necessidade de
supera„…o do capitalismo por uma sociedade socialista, para o “aperfei„oamento da
democracia” na perspectiva do exercˆcio pleno da cidadania. Os conceitos de
“cidadania” e “democracia” n…o eram vinculados ao conceito de classe trabalhadora no
interior de uma perspectiva socialista e revolucionŽria, mas enquanto parte de um “outro
projeto de desenvolvimento” no interior do capitalismo. A potencialidade questionadora
da defesa de uma verdadeira democracia, s† possˆvel na sociedade socialista, era
deixada de lado atrav‹s de formula„•es que centravam seus objetivos em reivindica„•es
imediatas e polˆticas redistributivas:

“Central •nica dos Trabalhadores tem, entre seus objetivos permanentes


e estrat‹gicos, o aperfei„oamento constante da democracia, que se baseia
na distribui„…o das riquezas e da renda nacionais e na garantia do
exercˆcio pleno da cidadania, atrav‹s da efetiva„…o de direitos
elementares, polˆticos e sociais, tais como: os direitos de express…o e

233
Idem, ibidem.

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organiza„…o, direito ao emprego e salŽrio, • sa“de e educa„…o, •


assistŠncia e previdŠncia social, • habita„…o e saneamento bŽsico e aos
transportes coletivos, dentre outros. A consecu‚ƒo dos objetivos
apontados passa pela necessidade de se promover ampla revisƒo de
conceitos e de valores, com destaque para a reformula‚ƒo do papel
do Estado e sua rela‚ƒo com a sociedade organizada. Imp•e o
reordenamento de regras e altera„•es de posturas culturais. Pressup•e
mudan„as nas rela„•es de poder entre os diversos atores sociais. 234 “

Outro aspecto importante era a defesa pela CUT da necessidade de


realizar cursos de Forma„…o Profissional devido • urgŠncia da aproxima„…o da Central
com outros segmentos da sociedade, especialmente os desempregados. Para contrapor-
se a forte crise sindical, que diminuˆa o poder de press…o dos sindicatos e suas taxas de
filia„…o, e com o crescimento do desemprego, a CUT necessitava ampliar seu diŽlogo
com outros setores para al‹m do mundo formal do trabalho, em especial os
trabalhadores do mercado informal, precarizados, e desempregados. Assim, ao mesmo
tempo em que a CUT denunciava “a falŽcia ideol†gica, veiculada no discurso de setores
governamentais e empresariais, de resolver o problema do desemprego atrav‹s da
educa„…o e do ensino profissional”235 , reafirmava enquanto sua estrat‹gia de
aproxima„…o desse setor a realiza„…o de cursos de requalifica„…o profissional. Partindo
desta anŽlise de amplia„…o da rela„…o com os desempregados na perspectiva de uma
CUT cidad…, esta decide por:
“Organizar atrav‹s da Secretaria de Polˆticas Sociais, Secretaria de
Forma„…o e Secretaria de Polˆtica Sindical, um plano de trabalho para
implementar a polˆtica de Forma„…o Profissional da CUT na estrutura da
Central (Escolas de Forma„…o, estrutura vertical etc.). 236 “

A polˆtica nacional de Forma„…o Profissional da CUT, a qual seria


implementada a partir dessa nova resolu„…o, tinha como base as experiŠncias existentes
nos sindicatos, especialmente nos Metal“rgicos do ABC. Em rela„…o aos conte“dos, em
certo momento do texto a Central defendia uma forma„…o profissional crˆtica a
“requalifica„…o adaptativa”, diferentemente da defesa, no mesmo texto, da “import‘ncia
da requalifica„…o profissional como servi„o fundamental”. A defini„…o dos conte“dos
programŽticos era alvo de contradi„•es e divergŠncias no interior da resolu„…o: ao
mesmo tempo em que valoriza o saber crˆtico sobre o processo de trabalho, reivindicava

234
Idem, ibidem. Grifos nossos.
235
Idem, ibidem
236
Idem, ibidem.

137
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a obten„…o de certificados escolares pelo Minist‹rio do Trabalho por cursos realizados


pela pr†pria CUT, o que tornava a Central parte das agŠncias de requalifica„…o
profissional legalmente aceitas:
“Conte“dos de ensino: N…o podemos realizar a requalifica„…o adaptativa
dos trabalhadores •s rela„•es de trabalho. Os cursos devem propiciar a
apropria„…o crˆtica de conhecimentos cientˆficos e tecnol†gicos e de
saberes mais gerais sobre o homem e a sociedade, imprescindˆveis na
conforma„…o da cidadania. Nessa perspectiva, e de forma particular, os
cursos devem difundir conhecimentos sobre os processos. (...)›
fundamental que os cursos obtenham aprova„…o legal atrav‹s do
fornecimento de cr‹ditos e certificados escolares reconhecidos pelo
Minist‹rio da Educa„…o e do Trabalho, de maneira a serem tamb‹m
considerados e valorizados pelas empresas nas negocia„•es, conven„•es
e contratos coletivos” 237 .

O debate em torno dos conte“dos da forma„…o profissional e da


sua realiza„…o pela CUT tinha rela„…o direta com a reconfigura„…o da forma„…o sindical
da Central na primeira metade da d‹cada de 1990, especialmente, ap†s o inˆcio da
implementa„…o da nova estrat‹gia formativa da CUT em 1995, baseada nos N“cleos
TemŽticos. A cria„…o dos N“cleos TemŽticos tinha enquanto objetivo viabilizar uma
nova estrat‹gia de forma„…o, a qual era centrada nas necessidades do p“blico alvo nas
prŽticas sindicais cotidianas. Estes n“cleos:
“se prop•em como espa„os de estudo, pesquisa, reflex…o, elabora„…o e
sistematiza„…o dos conte“dos, constituˆdos enquanto instrumentos da
PNF, que se organizam a partir de eixos temŽticos-problemŽticos
relacionados com o projeto da CUT e sua Polˆtica Nacional de Forma„…o.
Se definem por recorte de temas (em torno dos quais orbitam, por
afinidade, vŽrios sub-temas) que de algum modo se constituem, para os
sujeitos polˆticos da CUT e da PNF, como quest•es, problemas, n†s
crˆticos, enfim, como desafios suscitados no pr†prio cotidiano da prŽtica
sindical cutista”238 .

Os N“cleos temŽticos, enquanto nova base da Polˆtica de Forma„…o


cutista, n…o tinham enquanto objetivo executar atividades de forma„…o, mas construir
espa„os de estudo e elabora„…o de pesquisas sobre o cotidiano sindical. Os eixos-
temŽticos dos n“cleos foram definidos na 10‡ Reuni…o do CONAFOR (Coletivo
Nacional de Forma„…o), sendo eles: 1)Gest…o Sindical; 2) Educa„…o do Trabalhador; 3)

237
Idem.
238
Delibera„•es do 8Œ ENAFOR – Retirado de: TUMOLO, Paulo Sergio. Da Contesta„…o •
Conforma„…o – A Forma„…o Sindical da CUT e a Reestrutura„…o Capitalista. S…o Paulo, Ed Unicamp,
2001. PŽg 187

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Transforma„•es no mundo do Trabalho; 4) Organiza„…o sindical cutista e Organiza„…o


no Local de Trabalho (OLT); 5) Sistema democrŽtico de rela„•es de trabalho e
negocia„…o coletiva; 6) Integra„…o econ—mica mundial e Mercosul; 7) Sindicato, estado
e sociedade; 8)Rela„•es sociais de gŠnero. Como podemos perceber, n…o mais existia a
preocupa„…o com uma forma„…o estrat‹gica do sindicalista, que tinha nas concep„•es
polˆtico-ideol†gicas de um sindicalismo combativo e transformador seu principal norte.
Gradativamente, o aspecto instrumental da forma„…o ganhava for„a, com o objetivo de
consolida„…o dos dirigentes sindicais enquanto conhecedores do aparelho sindical e da
din‘mica do processo de trabalho. A centralidade dos conhecimentos institucionais e
administrativos ganhava cada vez mais peso em relaƒ„o aos aspectos pol€tico-
ideol•gicos na pol€tica de formaƒ„o da CUT. Como nos afirma Paulo Sergio Tumolo,
com os N“cleos TemŽticos, houve um fortalecimento do carŽter instrumental e
individualista da forma„…o:

“(...)o que pode ser constatado nos objetivos expressos pela nova
estrat‹gia, calcada nos n“cleos temŽticos e na configura„…o das
atividades de forma„…o propostas a partir de ent…o. (...) Um dos
principais motivos da invers…o l†gica da estrat‹gia formativa foi buscar
organizar a forma„…o sindical, n…o mais atrav‹s de programas que eram
oferecidos aos sujeitos pol€ticos, mas, inversamente, estes “ltimos ‹ que
devem solicitar, aos agentes de forma„…o, a forma„…o que lhe conv‹m, de
acordo com suas necessidades e interesses. (...) O resultado dessa
estrat‹gia formativa tem sido a pulveriza„…o das maias variadas
atividades de forma„…o solicitadas pelos diversos sujeitos polˆticos, de
acordo com as demandas conjunturais”239 .

Ocorreu um movimento paralelo de pulverizaƒ„o da formaƒ„o pol€tica


da CUT e centralizaƒ„o da Formaƒ„o Profissional. Buscava-se avaliar as experiŠncias
jŽ existentes realizadas pelos sindicatos cutistas, unificando atrav‹s de um Plano de
Trabalho Nacional a Forma„…o Profissional, como tamb‹m homogeneizando a atua„…o
da CUT nos f†runs que envolviam o ensino/forma„…o profissional, como as C‘maras
Setoriais, Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade, Instituto Brasileiro de
Qualidade e Produtividade e Programa de Atualiza„…o Cientˆfica e Tecnol†gica da
Ind“stria, e nas Comiss•es Estaduais de Emprego240 :

239
Idem, ibidem. PŽg 189-190
240
CUT. Resolu„•es da 7‡ PlenŽria Nacional (1995). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM

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“Encaminhar no sentido de uniformizar a interven‚ƒo nas Comiss•es


Estaduais de Trabalho e Emprego de modo a garantir efetivamente o
funcionamento tripartite dessas comiss•es; que a bancada dos
trabalhadores seja constituˆda pelas organiza„•es representativas no
estado ou regi…o; o consenso na interven„…o e voto da bancada dos
trabalhadores, viabilizando o exercˆcio do direito de veto pela
bancada”241 .

A preocupa„…o em torno da atua„…o da CUT nos diversos conselhos,


especialmente aqueles vinculados aos dos Fundos P“blicos, norteava toda a resolu„…o
sobre forma„…o profissional da 7‡ PlenŽria. Para a Central, os fundos p“blicos deveriam
ser disponˆveis para o conjunto da sociedade, e n…o apropriados privadamente pelo
empresariado:

“Os fundos p“blicos, hoje apropriados privadamente pelo empresariado,


devem estar disponˆveis ao conjunto da sociedade para que possam
ser utilizados na organiza‚ƒo de diferentes modalidades de forma‚ƒo
profissional, com a participa‚ƒo dos trabalhadores na gestƒo e
implementa‚ƒo dessas polˆticas. Reivindicamos a constitui„…o de
conselhos tripartites paritŽrios (trabalhadores, governo e empresŽrios):
para a gest…o das agŠncias de forma„…o profissional (Senai, Senac, SESI,
Sesc, Senar, Senat), ou de outras iniciativas complementares ao ensino
regular de ‘mbito municipal, estadual, nacional e regional, visando
rigoroso controle fiscal e formaliza„…o de processos sistemŽticos de
avalia„…o dos servi„os prestados”242 .

Esta delibera„…o for„ou o aumento da rela„…o da CUT com a


institucionalidade, em especial na participa„…o nos f†runs tripartites243 . O mais
importante destes ‹ o CODEFAT, Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao
Trabalhador.
O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) foi criado em 1990 pela Lei
7998/90 que regulamenta o artigo 239 da Constitui„…o de 1988, em pleno governo
Collor. Trata-se de um fundo contŽbil, vinculado ao Minist‹rio do Trabalho e
PrevidŠncia Social(MTPS), formado com recursos provenientes do PIS/PASEP244

241
Idem, ibidem. Grifos nossos.
242
Idem, ibidem. Grifos nossos.
243
Os F†runs tripartites s…o espa„os de delibera„…o nos quais participam representantes dos trabalhadores,
empresŽrios e governo.
244
O Fundo PIS-PASEP ‹ resultante da unifica„…o dos fundos constituˆdos com recursos do Programa de
Integra„…o Social - PIS e do Programa de Forma„…o do Patrim—nio do Servidor P“blico - PASEP. S…o
mantidos pelas pessoas jurˆdicas - com exce„…o das micro e pequenas empresas, que s…o obrigadas a
contribuir com uma alˆquota variŽvel (de 0,65% a 1,65%) sobre o total das receitas.

140
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destinados ao custeio do Programa do Seguro Desemprego, ao pagamento do Abono


Salarial e financiamento de programas de desenvolvimento econ—mico e requalifica„…o
profissional. Para se ter uma id‹ia da grandiosidade deste fundo, em 2000, o FAT
totalizava, aproximadamente, sessenta bilh•es de reais, constituindo-se como o maior
fundo p“blico n…o or„amentŽrio do paˆs e um dos maiores do mundo. Para efeito de
compara„…o, podemos lembrar que este valor ‹ 5 vezes o da venda da Companhia Vale
do Rio Doce e 2 vezes o patrim—nio do Banco Mundial245 . Em conjunto com a cria„…o
do Fundo, foi instituˆdo seu Conselho Deliberativo, o CODEFAT. A CUT iniciou sua
participa„…o no CODEFAT em 26 de Julho de 1990, sendo seu representante Antonio
Carlos de Andrade, naquele momento SecretŽrio de Polˆtica Social da Central, e
membro da Federa„…o Nacional das Associa„•es de Servidores da PrevidŠncia Social
(FENASPS). O Conselho era composto por 7 membros, 2 representantes diretos do
Governo (Minist‹rio do Trabalho e da PrevidŠncia Social- MTPS e Banco Nacional de
Desenvolvimento Econ—mico e Social - BNDES), 2 representantes dos empresŽrios
(Confedera„…o Nacional da Ind“stria- CNI e Confedera„…o Nacional do Com‹rcio –
CNC) e 2 representantes dos sindicatos (Central •nica dos Trabalhadores – CUT e
Central Geral dos Trabalhadores – CGT)246 , al‹m do Presidente Adolfo Furtado, na
‹poca SecretŽrio Nacional do Trabalho, indicado pelo Ministro do Trabalho Ant—nio
Magri247 . Dos recursos do FAT, 60% s…o destinados ao Sistema P“blico de Emprego –
SPE, e 40% s…o aplicados no BNDES. Excetuam-se do domˆnio do CODEFAT os 40%
destinados ao BNDES, apesar deste ter que prestar contas ao Conselho. Ou seja, o
CODEFAT n…o tem interferŠncia sobre as verbas do FAT aplicadas diretamente no
BNDES.
No geral, a participa„…o da CUT no CODEFAT na primeira metade da
d‹cada de 1990 ‹ sem grande entusiasmo, mantendo seus princˆpios de “disputa das
concep„•es e dos recursos p“blicos”, como tamb‹m reivindicando um maior controle
sobre o Sistema “S”. Esta atua„…o modificou seus rumos a partir da Resolu„…o 80 do
CODEFAT, em 1994, que instituiu as Comiss•es Municipais e Estaduais de Trabalho e
Emprego, com o objetivo de transferir ao poder local as decis•es dos recursos do FAT e
sua fiscaliza„…o, na perspectiva do Programa de Gera„…o de Renda (PROGER), criado

245
Annual Report 2000 – The World Bank
http://www.worldbank.org/html/extpb/annrep2000/content.htm
246 Ata da 3‡ Reuni…o OrdinŽria do CODEFAT - 26 de julho de 1990
247
Ata da 1‡ Reuni…o ExtraordinŽria do CODEFAT - 21 de junho de 1990

141
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no mesmo ano248 . Estas comiss•es reproduziam a estrutura do CODEFAT, sendo os


assentos governamentais ocupados pelas Secretarias Estaduais de Trabalho e afins, a
cadeira dos empresŽrios ocupada pelos representantes das estaduais e a bancada dos
trabalhadores ocupada pelos representantes estaduais das centrais sindicais. Nas
Comiss•es Municipais a composi„…o variava ligeiramente, jŽ que na maioria dos casos
as grandes corpora„•es empresariais n…o se interessavam por esta esfera de participa„…o,
e na maioria dos municˆpios a representa„…o dos trabalhadores poderia ser feita pelos
sindicatos locais, e n…o apenas pelas centrais sindicais. As Comiss•es Municipais e
Estaduais de Trabalho e Emprego aumentaram a estrutura institucional do FAT, o qual
deixou de ter uma delibera„…o centralizada dos seus recursos por meio do CODEFAT.
A CUT via a cria„…o destas comiss•es como um avan„o, jŽ que:
“o Codefat, por sugest…o dos trabalhadores, aprovou que o repasse dos
fundos s† acontecerŽ nos estados onde forem criadas Comiss•es
Estaduais Tripartites de Emprego, que tŠm a fun„…o de planejar,
coordenar e fiscalizar as atividades do Sine no estado.249 ”

Assim,
“as CUTs Estaduais devem tomar todas as iniciativas necessŽrias para a
constitui„…o das Comiss•es Tripartites Estaduais de Emprego nos seus
estados. › fundamental que os membros da Executiva Estadual, ou
pessoas que recebam essa delega„…o da mesma, fa„am parte da Comiss…o
Tripartite.250 ”

Ou seja, a partir de 1994, a CUT iniciou um processo de organiza„…o de


grande parte da sua estrutura, como as CUTS Estaduais, Secretarias de Forma„…o
Estaduais e Executivas, para participa„…o em Comiss•es tripartites vinculadas ao FAT.
› necessŽrio relembrar que este quadro inseriu-se no contexto do V CONCUT, no qual
a Central ratificou uma posi„…o de n…o execu„…o da Forma„…o Profissional; entretanto,
neste mesmo Congresso, n…o se criticou a realiza„…o da Forma„…o Profissional por
sindicatos filiados • CUT que, agora, atrav‹s das Comiss•es Municipais de Trabalho e
Emprego, podiam disputar livremente os recursos do FAT. Al‹m do enorme aumento da
participa„…o institucional da CUT e dos seus sindicatos filiados nas comiss•es
Tripartites, a tendŠncia era que, atrav‹s da atra„…o das Comiss•es Estaduais e

248
AFFONSO, ClŽudia, (2001). A CUT conselheira: tripartismo e forma„…o profissional. Concep„•es e
prŽticas sindicais nos anos 90. Disserta„…o de mestrado. Faculdade de Educa„…o da Universidade Federal
Fluminense. PŽg 92
249
CUT. Resolu„•es da 7‡ PlenŽria Nacional (1995). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
250
Idem, ibidem.

142
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Municipais, se olhasse para esses espa„os n…o apenas como locais de disputa polˆtica e
fiscaliza„…o, mas tamb‹m por disputa de recursos. Esta perspectiva teve um avan„o
significativo na 7‡ PlenŽria Nacional de CUT, em 1995. Seguindo a mesma linha do V
CONCUT, a PlenŽria aprovou que o importante era:
“Avaliar as experiŠncias de forma„…o profissional realizadas pelos
sindicatos filiados • CUT, com o objetivo de aproveitar aquelas que
possam contribuir para o avan„o das propostas pedag†gicas, das
metodologias e conte“dos de ensino.251 “

A Plen‰ria deliberou que era necess‰rio utilizar as experi‚ncias j‰


realizadas pelos sindicatos filiados Ž CUT para a partir destes exemplos iniciar a
organizaƒ„o de uma pol€tica unificada de Formaƒ„o Profissional pela Central. No
campo especˆfico da Forma„…o Profissional com recursos do FAT, a 7‡ PlenŽria
construiu desdobramentos em rela„…o •s delibera„•es do V CONCUT: amplia„…o do
atendimento ao desempregado, com destaque para as a„•es atrav‹s da requalifica„…o
profissional gerenciada pelas comiss•es estaduais tripartites de emprego, e pelo
programa de gera„…o de emprego e renda, o PROGER252 . A presen„a da CUT no
CODEFAT ganha ent…o um sentido mais forte, ampliado. Tratava-se tamb‹m de
disputar as verbas para os Estados, para garantia de possibilidade de disputa de recursos
atrav‹s das Comiss•es Estaduais e Municipais, como tamb‹m garantir na base dos
sindicatos uma atua„…o condizente com a polˆtica de forma„…o profissional da CUT,
respeitando a boa utiliza„…o das verbas e tendo como referŠncia a experiŠncia da
Comiss…o Tripartite de S…o Paulo. Integrava-se a atua„…o da CUT na esfera nacional,
pelo Codefat, com a atua„…o das CUT`s Estaduais e com os sindicatos da base, numa
atua„…o centralizada da polˆtica de forma„…o profissional :
“Os sindicatos devem ser orientados pelas CUTs Estaduais a apresentar
projetos dentro dos par‘metros [aqui definidos] e daqueles indicados
pelos representantes dos trabalhadores na Comiss…o Tripartite de S…o
Paulo no documento: O que o sindicato deve providenciar para
viabilizar o plano de trabalho. › de fundamental import‘ncia zelar pelo
bom uso dos recursos jŽ que se trata de dinheiro que deve efetivamente
servir para atender os desempregados. A CUT deve ser inflexˆvel em
denunciar todo e qualquer desvio de recursos ou uso esp“rio ou
malversa„…o dos mesmos. › importante que as pessoas responsŽveis nas
Estaduais da CUT fa„am um acompanhamento permanente sobre o

251
Idem, ibidem.
252
AFFONSO, ClŽudia, (2001). A CUT conselheira: tripartismo e forma„…o profissional. Concep„•es e
prŽticas sindicais nos anos 90. Disserta„…o de mestrado. Faculdade de Educa„…o da Universidade Federal
Fluminense. PŽg 153

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andamento desse trabalho nos sindicatos – para o qual pode ajudar a


forma„…o de algum grupo de trabalho permanente que integre os
sindicatos interessados”253 .

Al‹m disso, valorizava-se na resolu„…o certa trajet†ria da atua„…o da


CUT no Codefat, a qual encaminharia atrav‹s do conselho propostas em torno da
amplia„…o do atendimento aos desempregos e cria„…o de programas de emprego e
renda. A Central n…o restringiria suas reivindica„•es a polˆticas compensat†rias, jŽ que
o fundamental era a volta do trabalhador ao mercado de trabalho de “forma digna”
atrav‹s de cursos de qualifica„…o profissional, mecanismos de intermedia„…o de m…o-
de-obra e aumento dos investimentos produtivos para gera„…o de mais empregos.
Entretanto, devemos destacar que n…o existe uma forte crˆtica no texto ao recebimento
de recursos p“blicos por entidades da sociedade civil para execu„…o de servi„os na Žrea
de educa„…o. No ‘mbito do Sistema Nacional de Empregos (SINE) n…o existiam
escolas de Forma„…o Profissional p“blicas, sendo necessŽria sempre a contrata„…o de
terceiros. Ao invˆs de criticar a terceirizaƒ„o por parte do Ministˆrio do Trabalho da
pol€tica de Formaƒ„o Profissional, a CUT defendia a necessidade da luta pela
exist‚ncia de licitaƒŠes para que a pr•pria Central pudesse disputar os recursos com o
“Sistema S”. A proposta da Central em torno dos “Centros P“blicos de Ensino
Profissional” ficava assim extremamente debilitada, pois n…o se questionava na raiz da
quest…o: a polˆtica de privatiza„…o da forma„…o profissional atrav‹s da doa„…o de
recursos p“blicos •s entidades da sociedade civil:

“A requalifica„…o profissional ‹ um servi„o de fundamental import‘ncia


no quadro atual, em particular para os atingidos por desemprego
decorrente de alguma moderniza„…o tecnol†gica. No ‘mbito do Sine n…o
hŽ escolas pr†prias para esses cursos, sendo necessŽrio contratar as
escolas de terceiros para tal. Aqui reside um grande problema, pois as
agŠncias da “rede” Senai, Senac, Senar e Senat podem ser dispensadas de
licita„…o por “not†ria especializa„…o”. Consideramos que essas agŠncias
jŽ recebem recursos arrecadados pela previdŠncia social, n…o se devendo
remunerŽ-las duplamente. A orienta„…o da CUT ‹ para que n…o se aceite
nos estados a dispensa de licita„…o em qualquer hip†tese, inclusive para
os cursos oferecidos pelos sindicatos.254 ”

Nesse sentido, ‹ importante avaliarmos at‹ que ponto a CUT, ao assumir


para si a execu„…o de cursos de forma„…o profissional, n…o se esvaziava enquanto
253
CUT. Resolu„•es da 7‡ PlenŽria Nacional (1995). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
254
Idem, ibidem.

144
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defensora de uma educa„…o p“blica de qualidade255 . Ao defender que existia uma


“esfera p‹blica” que incluiria entidades da sociedade civil, a Central legitimava a
pol€tica neoliberal de terceirizaƒ„o das pol€ticas p‹blicas atravˆs das ONGS, entidades
filantr•picas e ag‚ncias, sendo dirigida intelectualmente e moralmente pelas classes
dominantes. JŽ que o Estado n…o seria o espa„o de disputa do p“blico, a CUT enquanto
entidade da sociedade civil poderia legitimamente aplicar polˆticas de cunho
“democratizante”, em dire„…o a “expans…o da cidadania”. Entretanto, acreditamos que o
Estado, apesar de servir para a manuten„…o da hegemonia das classes dominantes, n…o
tem enquanto base de organiza„…o exclusivamente a rela„…o entre essas e suas fra„•es:
por ser a condensa„…o material de uma dada correla„…o de for„as entre as classes, a
forma de organiza„…o do Estado e de suas polˆticas p“blicas tem rela„…o direta com a
capacidade de organiza„…o dos trabalhadores em um determinado perˆodo. Mesmo que
n…o sejam aplicadas apenas polˆticas que favore„am as classes subordinadas, para
manuten„…o de sua hegemonia as classes dominantes necessitam ceder, de forma
mediada atrav‹s do Estado, certas conquistas para as classes subalternas, visando •
estabiliza„…o de um dado patamar de consenso. Como nos diz Poulantzas:
“As divis•es internas do Estado, o funcionamento concreto de sua
autonomia e o estabelecimento de sua polˆtica atrav‹s das fissuras que
caracterizam-no, n…o se reduzem •s contradi„•es entre as classes e
fra„•es do bloco no poder: dependem da mesma maneira, e mesmo
principalmente, do papel do Estado frente Žs classes dominadas. Os
aparelhos de Estado consagram e reproduzem a hegemonia ao estabelecer
um jogo (variŽvel) de compromissos provis†rios entre o bloco no poder e
determinadas classes dominadas. (...) O Estado concentra n…o apenas a
rela„…o de for„as entre as fra„•es do bloco no poder, mas tambˆm a
relaƒ„o de forƒas entre estas e as classes dominadas. (...) Na realidade,
as lutas populares atravessam o Estado de lado a lado, e isso n…o
acontece porque uma entidade intrˆnseca penetra-o do exterior. Se as
lutas polˆticas que ocorrem no Estado atravessam seus aparelhos, ‹
porque essas lutas est…o desde jŽ inscritas na trama do Estado do qual
elas esbo„am a configura„…o estrat‹gica”256 .

As conquistas de direitos sociais no interior do Estado partem da atua„…o


das lutas populares e da capacidade organizativa das classes subalternas, sendo parte
integrante da sua conforma„…o. Ao deixar de lado •s reivindica„•es para tornar-se parte
da implementa„…o de polˆticas sociais, a CUT refor„ava a fragmenta„…o de suas lutas e a

255
TUMOLO, Paulo Sergio. Da Contesta„…o • Conforma„…o – A Forma„…o Sindical da CUT e a
Reestrutura„…o Capitalista. S…o Paulo, Ed Unicamp, 2001. PŽg 197
256
POULANTZAS, Nico, O Estado, o poder, o socialismo. Rio de Janeiro, Graal: 1978. PŽg 143

145
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subordinava suas iniciativas •s diretrizes burguesas, atrav‹s de presta„…o de servi„os


sociais financiados por recursos p“blicos257 . Este processo de refuncionalizaƒ„o da
CUT, a qual gradativamente deixa de ser um aparelho privado de contra-hegemonia
para servir a manuten„…o da ordem, construiu-se, portanto, tanto pela perda de
autonomia diante do Estado, quanto pela reconfigura„…o te†rica de sua anŽlise sobre
aquele. Ao perder grande parte de sua autonomia diante do Estado, a CUT iniciou a
aplica„…o no interior da sociedade civil do programa neoliberal, expandindo o consenso
social em torno destas polˆticas atrav‹s da co-responsabiliza„…o pela oferta de “servi„os
p“blicos n…o estatais”. Como nos diz Claudia Affonso:

“afastam-se os ideais que, nos anos 1980, viram na sociedade civil


organizada um potencial de transforma„…o social, autonomia e
representa„…o dos interesses populares, de avers…o •s representa„•es
polˆtico-institucionais e instaura-se uma concep„…o segundo a qual a
sociedade civil ‹ uma esfera p“blica n…o estatal de cidadania, como
espa„o de intera„…o social que, tamb‹m homogeneamente, aglutina
esfor„os na dire„…o do bem comum, do interesse p“blico” 258 .

Al‹m disso, n…o podemos perder de vista a necessŽria autonomia perante


o Estado. Na CUT, gradativamente a autonomia experimentou um deslizamento de
sentido, de autonomia de classe para uma autonomia em torno de demandas especˆficas
de grupos organizados, deixando de lado o autofinanciamento. A autonomia de classe
que deveria estar sempre vinculada • capacidade de prover a existŠncia de suas pr†prias
organiza„•es, desvinculando-se das prŽticas dominantes de compra e venda de
capacidades, das formas de subordina„…o e de hierarquia baseadas em cŽlculos
empresŽriais, acabou por se adaptar ao status quo259 . Idealizava-se ent…o a democracia:

“(...) como “reino de uma sociedade filantr†pica”: e cosmopolita, para a


qual todos colaborariam, sem conflitos de classes sociais. (...) O projeto
de contra-reforma empresarial, entretanto, fortemente amparado em
aparelhos privados de hegemonia (e na mˆdia), se consolidava e se
aproveitaria dessas contradi„•es para seduzir e converter os setores

257
NEVES, L“cia Maria Wanderley (org.). A nova pedagogia da hegemonia: estrat‹gias do capital para
educar o consenso. S…o Paulo: Xam…, 2005. PŽg 121
258
AFFONSO, Claudia. Rela„•es (des)educativas entre o sindicalismo propositivo e o Estado no Brasil
(1990-2000): contradi„•es de uma experiŠncia [tese].Niter†i-RJ/UFF,2007. PŽg 131
259
FONTES, Virgˆnia. Sociedade civil no Brasil contempor‘neo: lutas sociais e luta te†rica na d‹cada de
1980. In: Debates e sˆntese do seminŽrio fundamentos da educa„…o escolar do Brasil contempor‘neo.
Rio de janeiro: EPSJV, 2007.

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populares, neutralizando-os frente ao ataque desferido contra direitos


universais”260 .

Dentre os ataques aos direitos universais, estava a contra-reforma da


previdŠncia proposta pelo Governo de Fernando Henrique Cardoso. O governo previa a
derrota da sua proposta, pois o ano era eleitoral e tinha em sua mem†ria os processos de
mobiliza„…o da CUT, como o Dia Nacional de Lutas contra as Reformas
Constitucionais, al‹m da greve geral francesa, em dezembro de 1995 contra a contra-
reforma da previdŠncia daquele paˆs, que havia repercutido no Brasil. Propunha, ent…o,
uma ampla negocia„…o, da qual a CUT aceitou a participar, suspendendo a realiza„…o de
uma nova campanha que estava prestes a iniciar.
A proposta do governo implicava em perdas certas e imediatas para os
trabalhadores. Em troca, havia a promessa de “benefˆcios para conjunto da sociedade"
no futuro. A primeira rodada de "negocia„•es" aconteceu em 11 de janeiro de 1996. A
principal divergŠncia foi a proposta de substitui„…o da aposentadoria por tempo de
servi„o pela aposentadoria por tempo de contribui„…o. A princˆpio, entre as centrais
sindicais (CUT, CGT e For„a Sindical) apenas a For„a Sindical aceitou a proposta
governista. Mas na continua„…o das "negocia„•es" Vicentinho comprometeu-se a
defender os termos do acordo na dire„…o nacional da CUT - inclusive a aposentadoria
por tempo de contribui„…o. Apenas quatro dias ap†s o inˆcio das ''negocia„•es'', os
presidentes das trŠs centrais sindicais se comprometeram, perante os ministros Paulo
Paiva (Trabalho) e Reinhold Stephanes (PrevidŠncia), a formalizar o acordo em
cerim—nia com a presen„a do presidente da Rep“blica. A atitude de Vicentinho
desencadeou um intenso debate na CUT e no PT.
Em uma plenŽria nacional realizada em 21 de janeiro de 1996,
representantes de 17 sindicatos e federa„•es de servidores p“blicos federais filiados •
CUT aprovaram a retirada da central das "negocia„•es" com o governo. E no come„o de
fevereiro de do mesmo ano, dirigentes sindicais do Sindicato Nacional dos Docentes das
Institui„•es de EnsinoSuperior (Andes) e do Sindicato dos Petroleiros de Duque de
Caxias (RJ) assinaram uma nota em conjunto com dirigentes sindicais da Corrente
Sindical Classista (CSC) e do Movimento por uma TendŠncia Socialista (MTS)
condenando o acordo: ''› absolutamente inaceitŽvel que uma inst‘ncia de dire„…o, que
reunirŽ apenas a c“pula da central, decida sobre a quest…o em pauta (o acordo com o

260
Idem, ibidem.

147
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governo) (...) Uma decis…o tomada por maioria apenas na dire„…o nacional feria os
princˆpios fundamentais da nossa central, como a democracia e a soberania da base''261 .
Em fevereiro de 1996, chegou a ser assinado entre o governo e a dire„…o
da CUT um acordo sobre a Contra-Reforma da PrevidŠncia, o qual s† retirava direitos
dos trabalhadores e contrariava pontos bŽsicos da plataforma cutista sobre a mat‹ria.
Todos os partidos de esquerda, como o PT, e alguns outros partidos de proveniŠncia
trabalhista, anunciaram publicamente que votariam contra a proposta oriunda do acordo.
Vendo-se politicamente isolado e abandonado pelo seu pr†prio partido, o presidente da
CUT, Vicentinho, apenas 24 horas antes da vota„…o do projeto enviado a C‘mara,
rejeitou o acordo.
Em entrevista a Revista Teoria e Debate em junho de 1996, Vicentinho
reclamou da postura do PT no processo de discuss…o da Reforma da PrevidŠncia:
“As divergŠncias internas sempre ocorrem, ent…o debatemos e
prosseguimos a vota„…o, porque a CUT ‹ uma inst‘ncia. Podemos at‹
procurar unanimidade, mas cumprimos o que ‹ decidido em vota„…o. As
crˆticas s…o legˆtimas, as divergŠncias s…o naturais e importantes. A
diferen„a neste caso foi que tivemos um debate p“blico com o nosso
partido. Nƒo me agrada, por exemplo, receber elogios a partir de
crˆticas ao Partido dos Trabalhadores, considero isso uma agressƒo
porque acho que devemos tratar as quest‡es entre n€s”262 .

Vicentinho era visto como “exemplo” e recebia “elogios” dos meios de


comunica„…o por se “afastar” das posi„•es defendidas pelo PT, que naquele momento
estava contra a proposta de contra-reforma de FHC. Os debates que anteriormente eram
internos ao PT e a CUT extravasavam para toda a sociedade, e Vicentinho que, num
primeiro momento parecia aparentemente “isolado”, come„a a se tornar gradativamente
um dos principais exemplos das novas prŽticas cutistas.
Neste mesmo ano ocorreu a 8‡ PlenŽria Nacional da CUT (1996), de 28 a
30 de agosto, em S…o Paulo, contando com 357 delegados (259 homens – 72,55% e 98
mulheres – 27,45%). Naquele momento a CUT sentia fortemente as dificuldades da
nova conjuntura de crise econ—mica, reestrutura„…o produtiva, desemprego e contra-
reformas neoliberais. Al‹m disso, fazia-se uma avalia„…o negativa da greve nacional
unificada dos servidores federais, ocorrida em 1995, jŽ que a greve n…o fora realmente

261
BERTOLINO, Osvaldo. Os atropelos de Vicentinho – CUT 24 anos. Federa„…o dos BancŽrios da
Bahia e Sergipe.(mimeo)
262
Entrevista: Vicentinho - A autonomia necessŽria. Revista Teoria e Debate, No 31.

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unitŽria, mantendo na luta poucas categorias; apenas os petroleiros que destoaram


atrav‹s de uma forte mobiliza„…o. Era um momento de dificuldades para a CUT no
‘mbito externo. E internamente, a forte polŠmica voltava a tona atrav‹s dos debates em
torno da atua„…o da CUT na Contra-Reforma da PrevidŠncia.
A Articula„…o Sindical defendia que “n…o havia d“vidas que com a
participa„…o da CUT nas negocia„•es, a nossa postura em defesa dos direitos dos
trabalhadores e de combate aos privil‹gios, nos fortaleceram” 263 . Apesar de reconhecer
as dificuldades na negocia„…o, a Articula„…o Sindical mantinha a defesa da atua„…o da
CUT no “ltimo perˆodo enquanto correta do ponto de vista a defesa dos diretos dos
trabalhadores.
Para a Alternativa Sindical Socialista, negociar a agenda polˆtica com o
governo de Fernando Henrique Cardoso era “cair na armadilha que pode levar ao
esfacelamento da unidade do campo democrŽtico e popular, retirando da cena o
264
principal empecilho • aplica„…o das reformas neoliberais” . Al‹m disso, a ASS
acreditava que a maioria da Executiva Nacional da CUT foi incapaz de perceber a
possibilidade de ascenso das mobiliza„•es e disposi„…o de greve dos trabalhadores,
perdendo a oportunidade de liderar um enfretamento mais amplo ao neoliberalismo.
A Corrente Sindical Classista (CSC) criticava frontalmente a “postura
propositiva”, pois esta acreditava na id‹ia de “chegar uma solu„…o polˆtica com o
neoliberalismo, traduzida na consigna do sindicalismo propositivo a qualquer custo, tido
como uma exigŠncia da modernidade (...) calcado no idealismo polˆtico e no desprezo
pela correla„…o de for„as e avalia„…o equivocada do projeto neoliberal”265 .
Para o Movimento por uma TendŠncia Socialista (MTS), existia um fio
condutor das diversas atua„•es da CUT no “ltimo perˆodo: uma nova a„…o sindical
baseada no “tripartismo” e no “propositivismo”:
“Desde a tentativa de estabelecer o pacto social com o governo Collor; a
ado„…o das c‘maras setoriais como mecanismo privilegiado de a„…o
sindical, a recusa – em plena greve dos petroleiros e outros setores
p“blicos – de assumir com clareza a luta contra as reformas de FHC (...),
as manifesta„•es contra o desemprego realizada com os empresŽrios, a
assinatura de uma proposta conjunta de reforma tributŽria com a FIESP,
a busca de negociar pontualmente a qualquer custo as reformas que o
governo quer fazer na Constitui„…o (como a PrevidŠncia) (...); em todas

263
CUT. 8‡ PlenŽria Nacional (1996) - Textos para Debate. Retirado de AFFONSO, ClŽudia. A CUT
Conselheira: Tripartismo e Forma„…o Profissional. Concep„•es e prŽticas sindicais nos anos 90. PŽg 157
264
Idem, ibidem.
265
Idem, ibidem.

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essas polˆticas hŽ um fio condutor: uma nova concep„…o de a„…o sindical


muito diferente daquela que nos norteava quando fundamos a CUT. Vai
se consolidando uma concep„…o de a„…o sindical baseada no tripartismo e
no propositivismo, caracterˆsiticas do sindicalismo de concilia„…o de
classes, e n…o do sindicalismo comprometido com a luta contra a
explora„…o e transforma„…o da sociedade”266 .

O tema era alvo de fortes divergŠncias na CUT, sendo avaliado por


diversas correntes como o ponto mais alto de uma trajet†ria que modificava os acordos
programŽticos existentes na funda„…o da Central. A atua„…o na negocia„…o da Reforma
da PrevidŠncia no inˆcio de 1996 era analisada pelas correntes minoritŽrias da CUT
como algo que ia na contra-m…o de um sindicalismo combativo e classista: as
diverg‚ncias na Central deixavam de ser t‰ticas, para tornarem-se estratˆgicas, em
torno de concepƒŠes mais gerais sobre o sindicalismo e seus princ€pios norteadores. O
consenso geral que existia no decorrer na d‹cada de 1980, de que todos na CUT eram
classistas, fora quebrado; al‹m disso, existiam poucos pontos de consenso entre a
Articula„…o Sindical e as demais correntes, especialmente a ASS e MTS, que em suas
teses propunham quase que substitutivos globais aos textos da maioria. Este consenso
diminuˆa ainda mais atrav‹s da aprova„…o de resolu„•es que guardavam poucos pontos
comuns com as correntes minoritŽrias: as propostas da minoria n…o eram apropriadas
sequer de forma marginal nos textos deliberados, como podemos verificar na resolu„…o
aprovada sobre a negocia„…o na Reforma da PrevidŠncia:
“(...) a quest…o fundamental da previdŠncia foi preservada, a partir das
negocia„•es com a CUT, mantendo-se a previdŠncia p“blica e o regime
contributivo e de reparti„…o. (...) O fato de termos a nossa proposta de
reforma nos permitiu a ofensiva nas negocia„•es, inclusive prolongando-
as e mudando o f†rum de negocia„•es para o Congresso, apesar das
tentativas do governo, da
imprensa e das outras centrais de dar por fechado um acordo jŽ na
primeira reuni…o. (...) N…o hŽ d“vida de que a participa„…o da CUT nas
negocia„•es, a nossa postura em defesa dos direitos dos trabalhadores e
de combate aos privil‹gios nos fortaleceram. Al‹m disso, retiramos o
debate do Congresso e o trouxemos para a sociedade”267 .

O tema da reestrutura„…o produtiva tamb‹m assumiu maior import‘ncia


na 8‡ PlenŽria, sendo alvo de delibera„…o na PlenŽria um texto elaborado pelo Grupo de
Trabalho sobre Reestrutura„…o Produtiva, criado em encontro anterior. Neste texto, as

266
Idem, ibidem. PŽg 158
267
CUT. Resolu„•es da 8‡ PlenŽria Nacional da CUT (1996) In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM

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vŽrias faces do processo foram encaradas. Sua origem nas respostas • crise capitalista
dos anos 1970, suas vŽrias caracterˆsticas (automa„…o, informatiza„…o, terceiriza„…o,
mudan„as na organiza„…o da produ„…o e do trabalho e na gest…o das empresas), sua
chegada ao Brasil, com maior for„a, nos anos 1990 em associa„…o com as polˆticas
neoliberais, entre outras. Entre as respostas colocadas ao processo, foram destacadas:
uma polˆtica de emprego, que busque o pleno emprego e a maior qualidade do mesmo; a
implanta„…o do sindicato no local de trabalho e a capacita„…o/forma„…o dos militantes
para o entendimento dos novos processos.
A parte de diagn†stico da resolu„…o tinha uma postura mais enfŽtica e
crˆtica do que a parte de encaminhamentos e orienta„•es. No diagn†stico sobre as
mudan„as tecnol†gicas a CUT avaliava que:

“Diante de tal quadro, ‹ indispensŽvel que nossa Central se oriente por


uma filosofia de resistŠncia, em defesa dos direitos e interesses dos
assalariados e combate • ofensiva do capital. Ao mesmo tempo, ‹ preciso
que se diga que os problemas acarretados pela reestrutura„…o produtiva
n…o ser…o solucionados a contento nos marcos do sistema capitalista. A
tendŠncia objetiva desta reestrutura„…o ‹ produzir o desemprego em
massa, al‹m da precariza„…o das rela„•es de trabalho. (...) Por essa raz…o,
a CUT entende que, conjunturalmente com a luta em defesa do emprego
e dos direitos dos trabalhadores, devemos intensificar a propaganda por
uma nova sociedade, uma sociedade socialista”268 .

A interven„…o da Central no objetivo estrat‹gico de “fortalecimento dos


la„os de solidariedade entre os trabalhadores dentro da empresa, no ramo, entre as
categorias, em nˆvel nacional e internacional”, deveria levar em considera„…o os trŠs
planos:
“a) O legal: por exemplo, o projeto de lei que regulamenta o art. 7o da
CF no que diz respeito • prote„…o do trabalhador frente • automa„…o e
outros;
b) O institucional: por exemplo, atrav‹s da atua„…o dos representantes da
Central nos f†runs que discutem polˆticas p“blicas (como Codefat, PBQP
e Mercosul) no sentido de colocar a pauta sindical;
c) A rela„…o direta de negocia„…o, por exemplo, quando os sindicatos,
atrav‹s da mobiliza„…o, buscam impedir a„•es unilaterais das empresas e
conseguir clŽusulas nos acordos/conven„•es que protejam os
trabalhadores frente •s mudan„as organizacionais e tecnol†gicas.269 ”

268
Idem, Ibidem.
269
Idem, Ibidem.

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Apesar de se colocar nos termos da resolu„…o pela “rejei„…o da ideologia


da “parceria” trabalhador-empresa, reafirmando o carŽter conflitivo da rela„…o capital-
trabalho”, a CUT na prŽtica valorizava enquanto desenvolvimento de sua estratˆgia de
atuaƒ„o a atuaƒ„o legal, institucional e a negociaƒ„o com os empres‰rios.
Na 8‡ PlenŽria (1996) tamb‹m a requalifica„…o profissional foi defendida
enquanto polˆtica ativa de gera„…o de emprego e renda, registrando novamente a
permeabilidade do discurso da CUT em rela„…o ao projeto empresarial e governamental.
Para a CUT, portanto, era necessŽrio:
“discutir, de forma mais ampla, uma reforma do sistema do seguro-
desemprego para instituir, progressivamente, o sistema p“blico de
emprego, integrando as a„•es nas Žreas do seguro, da requalifica„…o e
forma„…o profissional, e da intermedia„…o e recoloca„…o da m…o-de-
obra.270 ”
Adicionalmente, a PlenŽria aprovou diversas lutas como : a) Dia
Nacional de Manifesta„•es em torno da palavra de ordem “Reage, Brasil! Contra as
polˆticas neoliberais de FHC”, que envolvia al‹m da CUT a Central de Movimentos
Populares - CMP, UNE, MST, CNBB, OAB, ABI, partidos polˆticos, centrais sindicais
e outros setores; b) ConferŠncia Nacional em Defesa da Terra, do Emprego e da
Cidadania, envolvendo as mesmas entidades; c) Campanha Salarial Nacionalmente
Articulada, prevista para o segundo semestre de 1996, em torno da defesa de salŽrio,
emprego, reforma agrŽria e respeito aos direitos sindicais; d) Ato P“blico, em Brasˆlia,
no dia 03 de setembro, em favor da PrevidŠncia p“blica; e) Grito dos Excluˆdos,
organizado pela CNBB, em setembro; comˆcio, marcado para o dia 13 de outubro “Pela
Dignidade e Cidadania” e contra o desemprego causados pelas polˆticas de FHC”. A
PlenŽria aprovou tamb‹m recusa da CUT em rela„…o a Medida Provis†ria de
Participa„…o dos Trabalhadores nos Lucros e Resultados (PTLR), a qual seria parte da
estrat‹gia empresarial de remunera„…o flexˆvel, pois “a PTLR vem se constituindo para
os empresŽrios, dentro da l†gica neoliberal, como remunera„…o estrat‹gica, no sentido
da total flexibiliza„…o das rela„•es de trabalho. Conforme tendŠncias internacionais, as
empresas come„am tamb‹m a repensar a polˆtica salarial, tentando separar a
remunera„…o fixa (salŽrio-base) da remunera„…o por desempenho individual ou de um
grupo especˆfico (que inclui tamb‹m formas de participa„…o acionŽria). O que se

270
Idem, ibidem.

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pretende com isso ‹ associar o pagamento de salŽrios • amplia„…o dos ganhos da


empresa (refor„ando o discurso empresarial de parceria) “271 .
Ainda em 1996 foi organizado aquilo que viria a se tornar a matriz da
nova vertente de atua„…o no ‘mbito da polˆtica de forma„…o da CUT, o curso de
forma„…o de dirigentes “A„…o sindical sobre emprego, o trabalho e a educa„…o do
trabalhador”, realizado pela Confedera„…o Nacional dos Metal“rgicos (CNM), em
interc‘mbio com os metal“rgicos da Su‹cia e parceria com as Escolas Sindicais SP, 7 de
Outubro e Sul272 . O projeto foi construˆdo no interior do programa “Integrar”, partia da
referŠncia de uma nova concep„…o de forma„…o na CUT, que devia superar “a vis…o
ilustrada da forma„…o sindical, calcada na transmiss…o de ideologias”273 .Segundo a
pr†pria CNM:
“A id‹ia do Programa Integrar surgiu ainda em 1994: durante a avalia„…o
de um curso de matemŽtica realizado pela CNM/CUT, ainda nos velhos
moldes. Concluiu-se que a entidade n…o poderia compactuar com o
entendimento tradicional de forma„…o profissional. Era preciso uma
proposta alternativa. O Congresso Nacional da CNM/CUT de 1995
decidiu que a Confedera„…o deveria assumir o tema da forma„…o
profissional em sua agenda, e desenvolver uma experiŠncia piloto que
norteasse sua a„…o. Foi ent…o elaborado o Programa Integrar, aprovado
pelos †rg…os financiadores em 1996”274 .

Entre os diversos objetivos gerais que oprograma delimitava, estavam a


perspectiva de desenvolver entre os trabalhadores a consciŠncia de que podem e devem
lutar pela sua reinser„…o no mundo do trabalho; situar a certifica„…o de primeiro grau
escolar no compromisso de estudo e de participa„…o grupal e comunitŽria; evidenciar a
nova fei‚ƒo do sindicato, hoje comprometido com a formula‚ƒo de polˆticas para a
forma‚ƒo profissional na dire‚ƒo da cidadania; levar • compreens…o de que o
desemprego serŽ mais bem enfrentado se houver um satisfat†rio domˆnio do
conhecimento e um esfor„o organizado coletivamente para iniciativas de gera„…o de
emprego e renda275 . Al‹m disso, enquanto objetivos especˆficos, o programa tinha:
“1)Assegurar a adultos trabalhadores, excluˆdos do sistema formal de
educa„…o, oportunidade apropriada de desenvolvimento pessoal e
profissional, conjugando forma„…o para o emprego com certifica„…o em

271
Idem, ibidem.
272
Idem, ibidem.
273
CUT/Escola Sindical S…o Paulo. “A crise brasileira no final do s‹culo XX: perspectivas para o
movimento sindical”. S‹rie Debates e reflex•es No6.1999.
274
CNM – O projeto Integrar nacional (Slides de apresenta„…o do Programa).
cinterfor.org.uy/public/spanish/region/ampro/cinterfor/conf/2000/gestfp/pon/cut.ppt -
275
Idem, ibidem.

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nˆvel de Ensino Fundamental e com gera„…o de alternativas de trabalho e


renda.
2)Construir propostas e alternativas de forma„…o para o trabalho que
superem a prŽtica de cursos isolados e a forma„…o compartimentada e
limitada pelo contorno do equipamento.
3)Contribuir para a forma„…o da cidadania, capacitando os
desempregados para o exercˆcio de seus direitos”.
4)Capacitar e organizar os desempregados para desenvolver projetos de
gera„…o de trabalho e renda numa perspectiva solidŽria de
desenvolvimento sustentŽvel. 276 ”

Assim, a fun„…o primordial do Programa era associar forma„…o


profissional com certifica„…o de 1Œ grau: rapidamente o projeto se irradiou por vŽrias
partes do Brasil, sendo este o primeiro de grande porte realizado por entidades da CUT.
Um grande n“mero de dirigentes sindicais – especialmente os responsŽveis pela
Forma„…o Sindical, al‹m de assessores e educadores foram mobilizados. Na Secretaria
Nacional de Forma„…o da CUT, nas sete Escolas Org‘nicas, nas Secretarias de
Forma„…o das CUT•s Estaduais, nas escolas mantidas pelos sindicatos, nos programas
definidos pelas Confedera„•es e Federa„•es cutistas, os novos projetos ampliaram as
equipes e as atividades realizadas.
Chegando a 1997, era perceptˆvel que a virada para a segunda metade da
d‹cada de 1990 mantinha a acentuada queda nas mobiliza„•es dos trabalhadores: se no
perˆodo 1985-90 a m‹dia anual de greves verificada tinha sido de 2.203, entre 1991 e
1996 tal m‹dia teria caˆdo para menos de 900. Os conte“dos das negocia„•es coletivas
sofreram grande mudan„a: se antes estavam concentradas nas reivindica„•es salariais,
como em 1993 com 61,5%, em 1993, adquiria cada vez maior Šnfase os pontos
relacionados ao desrespeito • lei ou acordos trabalhistas, os quais passaram de 23,7%,
em 1993, para 43,0%, em 1997 (ano em que as demandas salariais caˆram para 32,4%).
Mesmo os sindicatos mais organizados se viram pressionados, atrav‹s de negocia„•es
coletivas tendendo a uma maior descentraliza„…o, a fazer concess•es. Ganhavam
evidŠncia as negocia„•es sobre PLR, e em alguns setores, como o automobilˆstico,
come„avam a ocorrer acordos de flexibiliza„…o da jornada de trabalho atrav‹s dos
“bancos de horas”.
O Governo de FHC dava continuidade ao Plano Real promovendo ajustes
econ—micos, como o aumento da taxa de juros, para desaquecer a demanda interna, e a

276
Idem, ibidem.

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desvaloriza„…o do c‘mbio, para estimular as exporta„•es e equilibrar a balan„a


comercial. Surgiam tamb‹m fortes sinais de recess…o: inadimplŠncia, queda no consumo
e demiss…o em massa. Com a eleva„…o do custo dos financiamentos, aumentava a
expectativa de recess…o e de agravamento do desemprego. Entretanto, podemos avaliar
que apesar das grandes derrotas sofridas no perˆodo entre 1989-1997, o ritmo de
aplica„…o da polˆtica neoliberal no Brasil foi seguramente mais lento do que aquele
realizado por outros governos neoliberais na Am‹rica Latina, como Argentina, M‹xico
e Chile277 . Estas resistŠncias explicariam ent…o a forte tendŠncia do governo de
Fernando Henrique em conduzir o fortalecimento do poder Executivo e do
Presidencialismo atrav‹s da edi„…o sem limites de Medidas Provis†rias. “Por meio da
edi„…o de medidas provis†rias, o governo federal contorna a quest…o da competŠncia
dos “poderes” e logra at‹ mesmo transformar certos temas da Reforma Constitucional
em mat‹rias a serem exclusivamente tratadas – pela via da “regulamenta„…o” – pelo
Executivo (‹ o que ocorreu na abordagem da quest…o da abertura do sistema financeiro
nacional a novos bancos estrangeiros).278 ” Entre 1995 e 1997 foram editadas 105 novas
medidas provis†rias e reeditadas 1.648, todas do governo FHC e de seus antecessores.
Em trŠs anos de governo, a m‹dia de edi„…o/reedi„…o de medidas provis†rias era
superior a uma ao dia.
Entretanto, apesar da resistŠncia relativa ao neoliberalismo, se
compararmos com os outros governos que tiveram a mesma perspectiva na Am‹rica
Latina, n…o podemos descartar o avan„o do consenso em torno da apologia do mercado
e da empresa privada na d‹cada de 1990 como base da constitui„…o de uma nova
hegemonia burguesa no Brasil. A condena„…o do Estado e das empresas p“blicas como
se fossem “fontes de desperdˆcio”, de burocratismo e privil‹gios, expandiu-se no
interior da sociedade civil, tornando-se “senso comum” mesmo que de forma desigual e
as vezes contradit†ria279 . Se no inˆcio do Governo Fernando Henrique ocorreu um
“consenso ativo” em torno das id‹ias neoliberais, com grande apoio popular em torno
das privatiza„•es, do “ajuste fiscal”, e das reformas administrativas, na qual as polˆticas
de governo dirigiam intelectual e moralmente as massas, conforme as conseqšŠncias
perversas dessas polˆticas chegavam • tona (como o aumento do desemprego), as
falŽcias dos governantes n…o resultavam em concretude, e o poder de compra forjado do

277
SAES, D‹cio. Rep“blica do Capital – Capitalismo e processo polˆtico no Brasil. S…o Paulo, Boitempo:
2001.PŽg 90
278
Idem, ibidem. PŽg 91
279
BOITO JR, Armando. Polˆtica neoliberal e sindicalismo no Brasil. S…o Paulo : Xam…, 1999. PŽg 219

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inˆcio do plano real diminuˆa, ocorreu uma transi„…o gradativa para um “consenso
passivo”. Um novo momento na qual as massas iniciam um questionamento difuso das
conseqšŠncias dessas polˆticas, mas devido • incapacidade de mobiliza„…o e
organiza„…o, mant‹m-se dominadas, n…o conseguindo construir uma verdadeira contra-
hegemonia. O mantra de que “n…o existe alternativa” ecoava forte no mundo do
trabalho, e a CUT sofreu pesadamente suas conseqšŠncias.

3.2 O VI CONCUT

Em 1997 ocorreu ent…o o VI CONCUT, chamado “Herbert de Souza-


Betinho”, entre 13 e 17 de agosto. Contou com 2.266 delegados (27,57% de mulheres;
26,17% da Žrea da Educa„…o, 10,14% da Administra„…o P“blica, 11,64% de Rurais,
9,95% de Metal“rgicos, 8,97% do setor Financeiro, 8,22% do setor Seguridade Social e
24,91% dos demais setores), representando 19.451.589 trabalhadores na base.
Participaram ainda 71 representantes de delega„•es internacionais provenientes da
CIOSL, ORIT, FSM, totalizando Centrais Sindicais de 21 paˆses. Desde o IV
CONCUT, a Central n…o divulgava mais, nos n“meros do Congresso, a rela„…o entre os
delegados da Base e da dire„…o dos sindicatos. Uma das modifica„•es importantes foi
que, ao contrŽrio dos outros Congressos, nos quais existiam um caderno de teses por
cada tendŠncia, neste VI CONCUT esta tradi„…o foi substituˆda por uma tese “nica da
Dire„…o Nacional da CUT. Esta polˆtica delimitava uma atua„…o ainda mais agressiva da
“Articula„…o Sindical”, que tomava exclusivamente para si a possibilidade de
demonstrar quais rumos deveriam ser propostos para a Central, excluindo as outras
correntes inclusive no campo de proposi„•es.
O VI CONCUT fez uma anŽlise das raz•es objetivas para as
dificuldades de mobiliza„…o sindical, as quais seriam devido: a reestrutura„…o produtiva,
especialmente nos setores eletro-mec‘nico e quˆmico, que lideravam o crescimento
industrial; a precariza„…o dos servi„os p“blicos e a privatiza„…o das empresas estatais, a
crise do sistema financeiro; baixo crescimento econ—mico; o ataque polˆtico e
ideol†gico contra os sindicatos; e desemprego elevado e a precariza„…o do trabalho.
Sobre a conjuntura nacional, a CUT denunciava o carŽter subordinado da
burguesia nacional no interior da ordem econ—mica, como tamb‹m a diminui„…o dos
investimentos sociais atrav‹s da moderniza„…o neoliberal. Em rela„…o ao plano Real, a

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Central avaliava que a drŽstica redu„…o das taxas de infla„…o proporcionou • coaliz…o
polˆtica, responsŽvel pela sustenta„…o do governo de FHC, maior legitimidade •
continuidade do ajuste neoliberal; entretanto, pela sua l†gica interna, o plano seria como
“um gigante com p‹s de barro”, que teria f—lego garantido nas privatiza„•es, na polˆtica
de abertura e num clima internacional que ainda viabiliza um fluxo positivo de capitais
entre o imperialismo e o Brasil. Por‹m, tinha igualmente seus limites. Se a “mudan„a de
ventos” ocorresse, e se revertesse o fluxo de capitais, a “casa cairia”.
Em rela„…o ao balan„o organizativo da Central, foram lembrados o
esgotamento do modelo corporativo da estrutura sindical oficial e a consolida„…o da
CUT como alternativa • velha estrutura sindical herdada do varguismo e da ditadura
militar. Entretanto, o VI Congresso reconheceu a manuten„…o de algumas dificuldades
no interior do sindicalismo cutista para uma supera„…o completa da heran„a corporativa.
O estˆmulo • fus…o de sindicatos passou a ser uma das tarefas prioritŽrias da Central,
mesmo que uma parte considerŽvel dos dirigentes sindicais ainda n…o tenha se
sensibilizado para a necessidade da constru„…o de sindicatos que naquela vis…o seriam
“amplos e representativos”, apontando para a transforma„…o de todos os sindicatos e
federa„•es “filiados” • CUT em sindicatos e federa„•es “org‘nicos” • CUT280 .
A Central tamb‹m aprovou uma s‹rie de propostas em torno da polˆtica
industrial e gera„…o de emprego e renda. Nesta resolu„…o destacam-se trŠs pontos: 1)A
manuten„…o da defesa do aumento da produtividade como caminho para melhoria dos
benefˆcios sociais. 2) A defesa da abertura da economia para o capital externo desde que
feita atrav‹s de uma “reestrutura„…o com justi„a social” e 3) A cria„…o de um grande
Fundo Nacional de Gera„…o de Emprego e Educa„…o Profissional. Na discuss…o sobre
produtividade, a CUT defendia que:

280
A proposta de unifica„…o dos sindicatos cutistas em “sindicatos org‘nicos” partiu da 7‡ PlenŽria
Nacional da CUT, ocorrida em 1995. Segundo a resolu„…o “A caminho do sindicato org‘nico” era
necessŽrio: 1. Incentivar o uso coletivo de estruturas dos sindicatos filiados, como assessorias t‹cnicas,
imprensa e grŽfica, jurˆdico etc.2. Desencadear um processo de fus…o de sindicatos que reforce a
unifica„…o por ramos, em ‘mbito regional, estadual e nacional, com forte organiza„…o por local de
trabalho. 3. Realiza„…o de um amplo debate, com diversos seminŽrios, at‹ 1o semestre de 1996, para
discuss…o dos seguintes pontos: a) Discuss…o pr‹via nos ramos, no sentido de propor uma nova divis…o
territorial em vista da fus…o dos atuais sindicatos em bases regionais ou estaduais e sobre sindicatos n…o
filiados • CUT; b) Definir os crit‹rios a serem seguidos num processo de discuss…o polˆtica nas bases
sobre a import‘ncia da fus…o de sindicatos; d) Discuss…o dos princˆpios bŽsicos de um Estatuto de modelo
sindical cutista, contendo regras de convivŠncia democrŽtica, processo eleitoral, consulta aos
trabalhadores, regras de filia„…o, entre outros, tendo como referŠncia os Estatutos da CUT; e) No processo
de discuss…o sobre o sindicato org‘nico da CUT, deverŽ ter um papel fundamental a constru„…o de uma
polˆtica que vise a unifica„…o dos cutistas, preservada a pluralidade de opini•es. Essa polˆtica deve se
expressar na busca de mecanismos que garantam a composi„…o proporcional entre as diversas vis•es
cutistas, de acordo com seu peso na categoria.

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“A eleva„…o da produtividade industrial deve resultar em benefˆcio social


e n…o em demiss…o em massa de trabalhadores e crescente precariza„…o e
informaliza„…o do mercado de trabalho. Essas polˆticas devem estar
subordinadas aos objetivos de gera„…o de empregos, distribui„…o de
renda e fortalecimento da estrutura produtiva e a preserva„…o do meio
ambiente.281 ”

Ao inv‹s de questionar o carŽter de classe da reestrutura„…o produtiva, e


seu objetivo de eleva„…o da produtividade atrav‹s do aprofundamento do investimento
tecnol†gico, da subordina„…o dos trabalhadores e do aumento do desemprego, a Central
avaliava que seria equivocado se colocar “contra” o processo como um todo, sendo a
postura correta propor solu„•es e possˆveis caminhos alternativos no interior da sua
margem de manobra. Esta concep„…o de um sindicalismo conciliador e social-liberal,
que atuaria no interior das margens de manobra do projeto estrat‹gico neoliberal,
demonstrava-se ainda mais claro no ponto da resolu„…o sobre abertura da economia aos
capitais externos:
“A abertura externa, para cumprir um papel positivo para o pa€s e
contribuir para a modernizaƒ„o e reestruturaƒ„o com justiƒa social,
deve ser realizada de forma gradual, seletiva e vir acompanhada por
polˆticas de desenvolvimento (industrial, agrˆcola, tecnol†gica e de
capacita„…o profissional) que sejam capazes de modernizar os setores,
antes de concluir-se pela sua franca exposi„…o • concorrŠncia
internacional. A polˆtica de abertura deve orientar-se pela escolha do
perfil produtivo desejŽvel e possˆvel para o futuro, contando com o
envolvimento de toda a sociedade”282 .

Nesta delibera„…o, a CUT defendia ent…o que a internacionaliza„…o da


economia brasileira poderia cumprir um papel positivo do ponto de vista dos
trabalhadores, desde que existissem certos m‹todos na forma de sua implementa„…o. O
texto deixa bem claro que o importante n…o seria propor uma nova organiza„…o da
produ„…o, na qual o trabalho tivesse centralidade e n…o os ditames do capital, e atuar no
interior da conjuntura nessa perspectiva; aqui o fundamental ˆ propor soluƒŠes que
amenizariam os impactos e cadenciariam o ritmo das mudanƒas que seriam
inexor‰veis. Seria, portanto, fato inquestionŽvel a necessidade de “moderniza„…o” do
parque industrial brasileiro, pois a incapacidade de gera„…o de empregos estava
associada:

281
CUT. Resolu„•es do VI CONCUT (1997). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
282
Idem, ibidem.

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“ao fato de que uma parcela significativa desse setor produtivo n…o tem
sido capaz de se reestruturar e modernizar (...). Desse forma, a atitude
sindical frente • reestrutura„…o produtiva e • moderniza„…o tecnol†gica
deve ultrapassar os preceitos de aceita„…o passiva, ou da recusa a
qualquer iniciativa das empresas em promover mudan„as”283 .

A CUT ent„o defendia a import•ncia da “modernizaƒ„o tecnol•gica”


das ind‹strias como forma de superaƒ„o do desemprego, aplicando enquanto sua a
estratˆgia das classes dominantes, sendo dirigida intelectual e moralmente pela
burguesia. A defini„…o deste paradigma enquanto social-liberal se justifica na medida
em que a CUT era uma Central que provinha da tradi„…o socialista, e que utilizava de
sua legitimidade no interior das massas para propaga„…o do projeto neoliberal,
defendendo certos desvios de rota e adapta„•es tŽticas no interior das suas margens de
manobra.
As delibera„•es do VI CONCUT (1997) deram outro tom a constru„…o
de um novo imaginŽrio no interior da Central, que legitimaria a mudan„a de rumos
imprimida pela “Articula„…o Sindical”. A manuten„…o da vis…o “meramente de
resistŠncia”, tˆpica da d‹cada de 1980, e identificada com as correntes de oposi„…o, n…o
seria apenas um equˆvoco como era defendido anteriormente, mas uma postura
conservadora:

“Antes, a palavra de ordem era apenas a resistŠncia, e a luta sindical era


antes de tudo uma luta democrŽtica. Agora, ‹ preciso prosseguir na
resistŠncia, mas apresentando claramente as nossas propostas de classe, e
contrapondo-as •s propostas das elites brasileiras. Na atual conjuntura, a
pura e simples nega„…o das reformas propostas pelas elites, equivale a
uma posi„…o conservadora, de manter o status quo, herdado dos militares
e apenas parcialmente modificado pela Constitui„…o de 1988.284 ”

Al‹m disso, no ponto “ResistŠncia propositiva e disputa de hegemonia”


da Resolu„…o “Estrat‹gia”, a CUT defendia de forma superficial a elabora„…o de
alternativas que apontassem para um modelo diferente de sociedade:

“Contra essa onda reacionŽria, ‹ preciso resistir, repudiando o modelo


anterior e apontando para um modelo diferente, comprometido com a
democracia, liberdade, solidariedade, justi„a social e com os interesses e
necessidades da maioria da popula„…o. Isso exige dos trabalhadores e dos

283
Idem, ibidem.
284
CUT. Resolu„•es do VI CONCUT (1997). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM

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setores democrŽticos da sociedade a elabora„…o e apresenta„…o de


alternativas, como um conjunto de propostas, tratando de Polˆtica
Industrial, Polˆtica AgrŽria e Agrˆcola, al‹m de polˆticas voltadas para a
cidadania, priorizando emprego, educa„…o e forma„…o profissional” 285 .

Como forma de viabilizar essa alternativa, no ponto “Mobiliza„…o,


cidadania e negocia„…o” da mesma resolu„…o, defendia-se uma rela„…o de “abertura,
transparŠncia e participa„…o popular” com o governo, pois eram
“(...)com essas preocupa„•es que combinamos, desde a fundaƒ„o da
Central, a mobiliza„…o dos trabalhadores com a ocupa„…o de espa„os
institucionais (Codefat, o Conselho Curador do FGTS, o Conselho de
Seguridade Social e o Conselho Nacional do Trabalho), de negocia„…o
ampla com o governo e o patronato, disputando, em contraposi„…o •s
organiza„•es e propostas patronais, influŠncia junto •
sociedade.Inicialmente, lutando pela defini„…o do princˆpio da
representatividade como requisito bŽsico de representa„…o, ao lado da
abertura para negocia„…o na defini„…o de todas as polˆticas que sejam do
interesse da classe trabalhadora.286 ”

Dessa forma, no que tange a Estrat‹gia da CUT, o VI CONCUT


aprofundava ainda mais a perspectiva da participa„…o dos f†runs tripartites, recriando a
mem•ria da Central como se esta atuaƒ„o sempre estivesse na concepƒ„o cutista de
sindicalismo, desde sua fundaƒ„o. A ampla defesa da ocupa„…o dos espa„os
institucionais, mesclada com a mudan„a no horizonte estrat‹gico da Central, que
deixava de lado a luta de classes, o classismo e o socialismo, para reivindicar “polˆticas
voltadas para a cidadania”, demonstram que a Central •nica dos Trabalhadores
consolidou neste Congresso uma reelaboraƒ„o de sua concepƒ„o sindical, em direƒ„o a
um sindicalismo de cunho social-liberal e conciliador. Aqui, as mudan„as que se deram
primeiramente no terreno prŽtico, chegaram tamb‹m de forma clara e objetiva no
terreno te†rico-ideol†gico das resolu„•es congressuais, conformando um todo “nico e
coerente. Se num primeiro momento a CUT tinha transforma„•es nas suas prŽticas, mas
mantinha resolu„•es que apontavam para supera„…o da ordem e amplas campanhas de
mobiliza„…o, chegamos a um segundo momento que fecha este ciclo de transi„…o, da
prŽtica em dire„…o • teoria. Entretanto, ‹ importante deixar claro que existia uma teoria
por detrŽs da prŽtica desde o inˆcio: a quest…o ‹ que a correla„…o de for„as interna da
CUT e a manuten„…o de resquˆcios de democracia sindical n…o possibilitavam a
aplica„…o em totalidade do projeto da Articula„…o Sindical. As posiƒŠes da CUT n„o
285
Idem, ibidem.
286
Idem, ibidem. Grifos nossos.

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eram apenas as posiƒŠes da maioria da sua direƒ„o: eram a resultante da correlaƒ„o


de forƒas interna com as correntes minorit‰rias, e da posiƒ„o que a Central ocupava na
cena pol€tica como oposiƒ„o ao governo de FHC. Assim, as posi„•es que a CUT
defendia resultavam da intera„…o entre os diversos setores da Central num quadro em
que era obrigada a fazer oposi„…o 287 . Na medida em que a correla„…o de for„as na
sociedade piorava do ponto de vista dos trabalhadores, em paralelo com o aumento do
domˆnio da Articula„…o Sindical sobre a CUT, a tendŠncia era que as delibera„•es da
Central avan„assem na organiza„…o e centraliza„…o de polˆticas que, apesar de serem
pautadas pela maioria da dire„…o, eram apenas difusas na prŽtica, como no caso da
Forma„…o Profissional no interior da perspectiva do “sindicalismo cidad…o”.
Por outro lado, apesar da consolida„…o do perfil social-liberal da CUT, os
diversos determinantes que influenciavam nos rumos de suas resolu„•es ainda
mantiveram a defesa da supera„…o do capitalismo por uma sociedade socialista
enquanto marco da Central, mesmo que contradit†ria com a l†gica geral dos textos:
“N…o parece viŽvel uma solu„…o intermediŽria no contexto do sistema.
Por isto, o socialismo coloca-se como a “nica saˆda progressista para a
humanidade, a “nica alternativa • degrada„…o social. (...)A conclus…o de
que a “nica saˆda para os trabalhadores ‹ o socialismo n…o significa que a
resistŠncia ao neoliberalismo deva ser abandonada. Pelo contrŽrio, s†
participando ativamente nas batalhas concretas, cotidianas, em defesa dos
anseios e reivindica„•es das massas, e elaborando uma alternativa
unitŽria das for„as populares serŽ possˆvel elevar o nˆvel de consciŠncia
dos assalariados e criar as condi„•es subjetivas necessŽrias para a batalha
maior, visando a ruptura revolucionŽria do sistema capitalista e a
conquista do socialismo”288 .

O VI CONCUT (1997) foi um marco contradit†rio. Ao mesmo tempo em


que foi consolidada atrav‹s do caminho imposto pela maioria da dire„…o da CUT uma
concep„…o de sindicalismo social-liberal, outros fatores influenciavam para que a
Central ainda tivesse um papel importante na conjuntura na perspectiva dos
trabalhadores como: 1) A manuten„…o da CUT enquanto uma Central de Massas, que
apesar da drŽstica diminui„…o de sua democracia sindical e das mudan„as em sua
atua„…o, ainda era a principal referŠncia dos trabalhadores combativos e do movimento
social classista. 2) A resistŠncia das correntes minoritŽrias que se mantinham nos

287
Grande parte de nossas anŽlises tiveram como referŠncia comparativa •quelas realizadas em torno das
mudan„as que ocorreram no PT provenientes do texto: BORGES NETO, J. M. Governo Lula - Uma
op„…o neoliberal. In: Jo…o Ant—nio de Paula. (Org.). Adeus ao Desenvolvimento - A op„…o do Governo
Lula. Belo Horizonte: AutŠntica Editora, 2005, v. , p. 67-89.
288
CUT. Resolu„•es do VI CONCUT (1997). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM

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marcos do classismo e da combatividade, que tensionavam na teoria e na prŽtica os


novos rumos que estavam colocados. 3) O papel da CUT na conjuntura em oposi„…o ao
Governo de FHC. Assim, eram diversas as determina„•es que moldavam a CUT, o que
colocava a Central, de forma contradit†ria com ampla parte de suas prŽticas e defesas
ideol†gicas, ainda no apontamento de mobiliza„•es numa frente anti-neoliberal:
“A conjuntura atual aponta para a necessidade de uma maior articula„…o
das organiza„•es populares da chamada sociedade civil, cabendo • CUT
um papel de destaque. Isto exige da Central o estabelecimento de
prioridades no campo da rela„…o com as organiza„•es da sociedade civil,
como CNBB, CPT, MST, ABI, OAB, UNE, organiza„•es n…o-
governamentais e partidos polˆticos comprometidos com os interesses
populares e organiza„•es de base do movimento popular. (...)Um
combate efetivo ao neoliberalismo e • deteriora„…o social exige
mobiliza„…o e articula„…o permanente com os movimentos sociais,
atraindo os setores t‹cnicos e acadŠmicos envolvidos com essas quest•es
e comprometidos com os interesses da popula„…o”289 .

A manuten„…o da unidade da CUT na perspectiva de uma frente “nica


dos trabalhadores era baseada n…o mais nos acordos estrat‹gicos existentes em seu
interior, mas no papel que a Central tinha na luta de classes. Se estruturalmente a
Central caminhava para o social-liberalismo, conjunturalmente ainda tinha relativa
import‘ncia para as classes subalternas. Ocorreu uma transi„…o na qual a Articula„…o
Sindical deixou de dirigir intelectual e moralmente a CUT para dominŽ-la, movimento
esse realizado em paralelo com o aumento da influŠncia do programa burguŠs no
interior do sindicalismo combativo. Esta transi„…o, que foi realizada mesclando fortes
rupturas e imposi„•es (como nos casos de fraudes, diminui„…o da democracia sindical,
n…o respeito • vota„…o da proporcionalidade qualificada), com muta„•es lentas e
graduais (atrav‹s da expans…o da utiliza„…o do imposto sindical e das polˆticas
assistencialistas, da aceita„…o de certos “princˆpios ideol†gicos” do programa das
classes dominantes, etc), gestou-se de forma org‘nica; tanto a CUT era influenciada
negativamente pela nova conjuntura, quanto esta piorava do ponto de vista dos
trabalhadores devido •s escolhas realizadas pela Central.
No ponto “Polˆtica Nacional de Forma„…o” das delibera„•es do referido
Congresso, a CUT fez a anŽlise de que vinha reestruturando sua atua„…o “a fim de
atender aos novos desafios colocados para nossos sindicatos e nossa Central”290 . E para
cumprir este desafio, era preciso a realiza„…o de alguns objetivos estrat‹gicos, como
289
Idem, ibidem.
290
Idem, ibidem.

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“ajudar a CUT a intervir com mais qualidade nos espa„os institucionais tripartites ou
outros conselhos p“blicos”291 , ou mesmo:

“no aprofundamento de nossa formula„…o sobre a quest…o da Forma„…o


Profissional, no campo da a„…o sindical, da negocia„…o sindical, e, em
especial, da forma„…o sindical, onde todo o ac“mulo polˆtico-
metodol†gico da PNF deve ser utilizado”292 .

A resolu„…o recomendava ainda que a Secretaria Nacional de Forma„…o


auxiliasse na consolida„…o de uma polˆtica financeira para as atividades de forma„…o
sindical, dentro de um quadro mais geral de “auto-sustenta„…o” da CUT. Especialmente
a partir deste ano (1997) grande parte da Polˆtica Nacional de Forma„…o foi financiada
com recursos do FAT para a Forma„…o Profissional, atrav‹s do PLANFOR,
direcionando esfor„os das Escolas Sindicais da CUT para este fim.
Na delibera„…o sobre “Forma„…o Profissional”, o VI CONCUT reafirmou
as delibera„•es da 7‡ PlenŽria, e que a CUT deve continuar articulando nacionalmente
as a„•es de suas inst‘ncias horizontais e verticais, como tamb‹m das entidades filiadas
no que tange ao tema. Esta articula„…o deveria visar o desenvolvimento de uma
estrat‹gia nacional de forma„…o, pautada por:

“a) a capacita„…o de dirigentes para a„•es e negocia„•es no campo da


Forma„…o Profissional;
b) a qualifica„…o de formadores (atuantes na Žrea da Forma„…o
Profissional), dentro dos princˆpios metodol†gicos praticados na Rede de
Forma„…o da CUT;
c) a prepara„…o dos representantes cutistas nos f†runs institucionais;
d) o aprofundamento do debate nas inst‘ncias horizontais e verticais
sobre a perspectiva cutista para a Forma„…o Profissional no paˆs;
e) a consolida„…o de iniciativas de interc‘mbio internacional com centrais
e outras entidades que desenvolvem projetos relacionados nessa
Žrea etc.293 ”

Sobre a participa„…o da Central nos espa„os institucionais, manteve-se a


polˆtica de fortalecer a atua„…o nas Comiss•es de Emprego, articulando-a com o
“Programa de Capacita„…o de Dirigentes e Assessores”, al‹m de :

291
Idem, ibidem.
292
Idem, ibidem.
293
Idem, ibidem.

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“Definir uma polˆtica de capta„…o de recursos p“blicos (principalmente


do FAT) para o desenvolvimento de projetos de Forma„…o
Profissional, por parte de suas inst‘ncias verticais e horizontais.294 ”

Dessa forma, o VI CONCUT (1997) faz uma inflex…o ainda maior em


sua polˆtica de forma„…o. O que estava antes colocado de forma vaga na 7‡ PlenŽria de
1995, agora foi descrito e consolidado como uma nova perspectiva polˆtica da Central.
A Šnfase na participa„…o dos f†runs tripartites foi ratificada, sejam eles nacionais,
estaduais ou municipais, como tamb‹m uma polˆtica especˆfica de forma„…o para os
conselheiros que atuam nesses espa„os. Ou seja, a perspectiva sindical-instrumental da
formaƒ„o da CUT deixou de priorizar a organizaƒ„o dos sindicatos e das lutas em
direƒ„o a construƒ„o de subs€dios para a aƒ„o institucional dos dirigentes. Al‹m disso,
foi consolidada a atuaƒ„o da CUT enquanto executora de atividades de Formaƒ„o
Profissional, seja na qualifica„…o de formadores, ou mesmo na realiza„…o de projetos,
inclusive com iniciativas com Centrais Sindicais de outros paˆses. E sobre a forma de
viabiliza„…o do financiamento destas atividades, a delibera„…o tamb‹m ‹ muito clara:
construir uma pol€tica de disputa de recursos provenientes FAT.
A consolida„…o dessa nova concep„…o sobre a rela„…o entre Forma„…o
Profissional e Forma„…o Sindical estava no bojo da redefini„…o dos marcos te†rico-
prŽticos da CUT com o Estado, dentro da constru„…o de “espa„os p“blicos n…o-estatais”,
como demonstra a resolu„…o “Propostas para uma polˆtica de cidadania”:

“Quanto ao papel do Estado em rela„…o •s polˆticas sociais, ‹ importante


notar que a realidade hoje existente imp•e a sua redefini„…o.
Acostumamos a enxergar o Estado como o “nico agente responsŽvel pela
defini„…o e execu„…o dessas polˆticas. Na perspectiva de um embate mais
ideol†gico, Estado e mercado sempre surgiram como “nicas alternativas
de viabiliza„…o do bem-estar social. No entanto, a din•mica atual tem-
nos mostrado que outros atores sociais podem e devem contribuir nas
definiƒŠes, implementaƒŠes, controle e efic‰cia das pol€ticas
p‹blicas”295 .

Para a CUT a co- responsabiliza„…o na presta„…o de servi„os sociais faz


parte da vis…o de que sociedade civil ‹ uma esfera p“blica n…o estatal de cidadania,
sendo, portanto legˆtimo o recebimento de recursos estatais para efetiva„…o de
programas que teriam “fun„…o p“blica”, como a Forma„…o Profissional. A Central

294
Idem, ibidem.
295
CUT. Resolu„•es do VI CONCUT (1997). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM

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propagandeava, na teoria e na prŽtica, a agenda neoliberal de “concerta„…o social”, ou


em outros termos, o pacto social entre as classes.
O VI Congresso em grande parte do tempo esteve tomado pela disputa
sobre quem seria o novo Presidente. N…o entre a Articula„…o e as for„as minoritŽrias,
mas no interior do pr†prio segmento majoritŽrio. Ap†s a determina„…o de Vicentinho
em concorrer •s elei„•es, semanas antes do Concut, setores articulados em torno da
diretoria do Sindicato dos BancŽrios de S…o Paulo amea„aram n…o apoiŽ-lo, defendendo
a indica„…o do ent…o secretŽrio geral da CUT e diretor daquele Sindicato, Jo…o Vaccari
Neto296 . O impasse se estendeu por todo o Congresso, com declara„•es feitas •
imprensa de ambas as partes. Apenas momentos antes da elei„…o da nova Dire„…o,
chegou-se a um acordo, com Vicentinho como presidente e Vaccari como vice. Ao todo
concorreram 5 chapas, tendo a Articula„…o obtido 52% dos votos . A grande quantidade
de chapas, impulsionada tamb‹m pela n…o necessidade de um patamar mˆnio de votos
para participa„…o na dire„…o, demonstrava a fragilidade das correntes minoritŽrias na
Central: um grande contraste com a forma„…o no IV Concut de uma chapa unitŽria de
toda oposi„…o, que dividiu o congresso meio a meio. Nesse sentido, Vicentinho foi
reeleito como Presidente, al‹m da elei„…o de um novo secretŽrio para a SecretŽria
Nacional de Forma„…o, Altemir Tortelli, membro da Fetraf-Sul – Federa„…o dos
Trabalhadores da Agricultura Familiar.
Depois do VI CONCUT ocorreu o 12Œ Encontro Nacional de Forma„…o,
realizado em Novembro de 1997, no qual o tema mais discutido, alvo de uma polŠmica
aberta e demarcada, foi a Forma„…o Profissional. Entretanto, apesar das grandes
divergŠncias, a CUT jŽ havia buscado recursos do FAT para a realiza„…o de atividades
de Forma„…o Profissional, deixando de lado as possˆveis delibera„•es do 12Œ ENAFOR.
Segundo M—nica Valente, ex-SecretŽria da SNF, o “projeto da CUT foi apresentado no
inˆcio do ano (1997), foi aprovado em agosto e o dinheiro chegou em outubro.297 ” Este
novo projeto tinha como referŠncia de Forma„…o Profissional as atividades realizadas
pelo “Integrar”, da Confedera„…o Nacional dos Metal“rgicos, que associava forma„…o
profissional com certifica„…o de primeiro grau, como afirmou Altemir Tortelli no 12Œ

296
OLIVEIRA, Roberto V‹ras de. Sindicalismo e Democracia no Brasil: Atualiza„…o - Do novo
Sindicalismo ao Sindicato Cidad…o. Tese apresentada ao Programa de P†s Gradua„…o em Sociologia-
USP. S…o Paulo, 2002. PŽg 332
297
Entrevista de M—nica Valente. Retirado de Paulo Tumolo. Op cit, pŽg 230

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ENAFOR, novo SecretŽrio da SNF rec‹m-empossado298 . O que era ent…o o “Integral”,


a primeira grande parceria nacional da CUT com o FAT?

3.3. O Programa “Integral”: a grande Parceria Nacional entre a CUT e o


FAT

O Integral correspondia ao ConvŠnio MTb/Sefor/Codefat 0011/97 CUT ,


sendo proposto ao CODEFAT enquanto “Programa Integral de Capacita„…o de
Conselheiros das Comiss•es Estaduais e Municipais de Trabalho, Emprego e Renda e
de Forma„…o de Formadores em Educa„…o Profissional”. Tinha basicamente trŠs Žreas
de atua„…o: 1) Articular as a„•es e projetos desenvolvidos pelas estruturas verticais e
horizontais da CUT no campo da requalifica„…o profissional, integrando-os uma polˆtica
p“blica de empregos 2) Programa de Forma„…o de Formadores, o qual tinha como
p“blico-alvo os educadores de programas de forma„…o profissional; 3) Programa de
Capacita„…o de Conselheiros, que queria atingir os conselheiros de emprego vinculados
aos sindicatos cutistas e as CUT•s Estaduais. Nos dois “ltimos programas, contou-se
com o suporte para sua execu„…o das sete Escolas Sindicais da CUT e das CUT•s
Estaduais. Dessa forma, o “Integral” n…o se tratava propriamente de um programa de
forma„…o profissional; era voltado para estruturar em ‘mbito nacional uma grande rede
de forma„…o profissional, a qual seria sustentada pelos professores capacitados pelo
programa, como tamb‹m atrav‹s da possibilidade de disputa de novos recursos nos
Conselhos Estaduais e Municipais de Emprego, tendo em vista a Capacita„…o de
Conselheiros299 . O Integral tinha enquanto estratˆgia consolidar uma ampla estrutura
de formaƒ„o profissional cutista, que teria sua gest„o e programa pedag•gico dirigidos
pela Secretaria Nacional de Formaƒ„o (SNF).
Com este Programa, a CUT objetivava:
 “Participar e contribuir com o debate sobre a constitui„…o de um sistema
p“blico de emprego e de forma„…o profissional e de alternativas de
gera„…o de emprego e renda;
 Partindo das experiŠncias desenvolvidas no ‘mbito da CUT contribuir
para a formula„…o de propostas de forma„…o profissional e de
alternativas de gera„…o de emprego e renda;
 Articular a„•es sindicais no campo da forma„…o profissional, orientando
a atua„…o dos cutistas frente as polˆticas e iniciativas p“blicas e frente
298
Idem, ibidem
299
OLIVEIRA, Roberto V‹ras. Sindicalismo e Democracia no Brasil: Atualiza„•es – Do novo
Sindicalismo ao Sindicato Cidad…o. [tese USP] pŽg 461

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aos projetos de requalifica„…o profissional desenvolvidos pelas


estruturais verticais e horizontais da CUT.300 ”

O programa de “Articula„…o de a„•es e projetos em requalifica„…o


profissional” tinha previsto a realiza„…o de seminŽrios dos ramos (estruturas verticais da
CUT) e a cria„…o de uma c‘mara t‹cnica de sistematiza„…o e socializa„…o destas
experiŠncias e iniciativas. O “Capacita„…o de Conselheiros” ofereceu mil vagas em
1998 e mil vagas em 1999, para dois tipos de percurso formativo: um curto (40 horas) e
um longo (128 horas). Nos dois casos a estrutura foi modular, combinando oficinas,
seminŽrios e m†dulos de forma„…o • dist‘ncia. Entre os objetivos destacavam-se: a
capacita„…o de conselheiros para uma efetiva participa„…o nos programas sociais de
trabalho, o desenvolvimento de metodologias para a “democratiza„…o do Estado”
baseada na Šnfase no tripartismo. No que tange a Forma„…o de Formadores em
Educa„…o Profissional, foram oferecidas 500 vagas em 1998 e 500 vagas em 1999, para
o curso de 120 horas, organizado em 3 m†dulos, com os seguintes objetivos:
desenvolver um programa de forma„…o profissional promovendo o avan„o conceitual e
operacional das experiŠncias de Forma„…o Profissional da CUT e de outras iniciativas
correlatas da sociedade; elaborar e implementar um banco de dados de formadores301 .
Em rela„…o ao Curso de Capacita„…o de Conselheiros, a base do seu
paradigma era a vis…o cutista de forma„…o sindical:
“A forma„…o sindical promovida pela CUT busca potencializar a
capacidade, profundamente humana, de conhecer de forma crˆtica, com a
perspectiva de construir uma sociedade humana e justa, base de seu
projeto polˆtico-sindical.302 ”

No interior dessa vis…o, era constituˆdo um percurso formativo, dividido


em 6 eixos temŽticos:1) A institucionalidade do campo trabalho educa„…o 2) Mudan„as
Contempor‘neas: Trabalho, Desenvolvimento, Estado e Democracia; 3) A realidade
local: Trabalho, Desenvolvimento, Estado e Democracia; 4) Espa„o P“blico de a„…o
S†cio-Polˆtica e Cultural; 5) AnŽlise crˆtica de experiŠncias concretas de funcionamento
das Comiss•es; 6) Concep„•es e Projetos de Forma„…o Profissional. Para termos id‹ia
da import‘ncia desse Curso de Capacita„…o, podemos verificar o enorme crescimento
dos Conselhos Municipais de Emprego entre 1996 e 1999:

300
“Projeto Forma„…o Integral” in: CUT. Plano Nacional de Forma„…o – 1998. PŽg 26
301
Idem. PŽg 26 e 27
302
CUT. Capacita„…o de Conselheiros das Comiss•es de Trabalho e Emprego, 1999. PŽg 122

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Tabela 20 - Expans„o das ComissŠes Municipais de Emprego (1996-1999)

Ano Quantidade de •ndice = 100


Comiss•es
1996 625 100

1998 1520 243,2

1999 2.432 389,12

Fonte: CUT. Capacita„…o de Conselheiros das Comiss•es de Trabalho e Emprego,


1999. PŽg 55

Apenas no Estado de S…o Paulo, no final de 1998, existiam 295


comiss•es municipais de emprego, envolvendo 1.834 entidades e mais de 5 mil
pessoas303 .
Em rela„…o ao “Programa de Forma„…o de Formadores em Educa„…o
Profissional”, os registros do processo de sistematiza„…o o caracterizam como:
“um momento especˆfico na aƒ„o de formaƒ„o sindical profissional
dentro da Central ‘nica dos Trabalhadores. (...) ‹ um outro tempo
para a forma„…o cutista e profissional no paˆs (...). Cada experiŠncia, a
seu modo, procura responder a necessidade de uma formula„…o
multidimensional, superando em muito a dicotomia entre educaƒ„o
geral, pol€tico-sindical e profissional. Busca-se intensamente promover
uma forma„…o integral, atenta ao desenvolvimento das m“ltiplas
dimens•es do ser humano.304 ”

A inten„…o do curso era “reconstruir a concep„…o de forma„…o


profissional como direito, conformando um ac“mulo polˆtico-metodol†gico para a a„…o
sobre a educa„…o do/a trabalhador/a”305 . E dentro dos princˆpios polˆtico-metol†gicos do
Programa avaliava-se que era necessŽrio, entre outros, “capacitar para a produ„…o de
novos conhecimentos que se articulem de forma crˆtica, aut—noma e soberana no ‘mbito
das transforma„•es que caracterizam o mundo contempor‘neo”306 .

303
Idem, ibidem. PŽg 56
304
CUT/SNF. Forma„…o de Formadores: alicerce do projeto de educa„…o dos trabalhadores (2000).
305
Idem, ibidem. Pag 28
306
Idem, ibidem. Pag 46

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Em 1998, al‹m da realiza„…o dos Cursos dentro da perspectiva do


Programa Integral, foi construˆdo no mŠs de outubro o Encontro Estadual dos
Conselheiros de Trabalho Cutistas de S…o Paulo, em Cajamar, atrav‹s da Secretaria
Nacional de Forma„…o, com o objetivo de “unificar as a„•es nas quest•es que dizem
respeito • disputa por um novo Sistema P“blico de Emprego, no qual a Qualifica„…o
Profissional ‹ um dos principais temas.307 ”. Al‹m disso, a Executiva Nacional da CUT
no final daquele ano aprovou uma iniciativa pioneira de cria„…o da Central de
Atendimento Integrado ao Trabalhador, com o objetivo de transformŽ-la em
experiŠncia-piloto de desenvolvimento “do espa„o p“blico n…o estatal”, executando
assim um programa especˆfico de intermedia„…o de m…o-de-obra.
O “Integral” foi a primeira parceria nacional da CUT com o FAT,
coordenada pela Secretaria Nacional de Forma„…o atrav‹s de sete escolas org‘nicas e
das CUT Estaduais. Tratou-se, portanto, de dois projetos com a nomenclatura
Forma„…o Integral, que absorveram certa de 3 milh•es de Reais dos recursos do FAT,
com o objetivo de habilitar mil formadores para forma„…o profissional e 2 mil
conselheiros das comiss•es. Adicionalmente, a constru„…o do Programa Integral atrav‹s
de um convŠnio de ‘mbito nacional com o FAT revela uma rela„…o com a
institucionalidade distinta do que era realizado anteriormente, demonstrando outro
patamar de articula„•es polˆticas nesta Žrea. Como exemplo dessa forma de atua„…o,
temos a atua„…o do Presidente do CODEFAT no final de 1997, Del“bio Soares de
Castro, representante da CUT no Conselho, que sugeriu o aumento das verbas do FAT
de cerca de 360 milh•es de reais para 1 bilh…o de reais, jŽ que assim a CUT poderia
disputar um montante maior de recursos.
No que tange a conjuntura, apesar do avan„o do ajuste neoliberal, esta
polˆtica estava longe de ter esgotado suas possibilidades no Brasil. Este programa n…o
dependia apenas de “projetos” das for„as sociais envolvidas, pois representava um
encontro de interesses e estrat‹gias das classes dominantes, especialmente as fra„•es
ligadas aos grandes oligop†lios empresŽrias e ao mercado financeiro. As crises cambiais
de 1995, 1997 e 1998 for„aram o governo a acelerar o processo de privatiza„•es, o corte
de gastos sociais e a retirada de direitos dos trabalhadores. Como nos diz Armando
Boito Jr:

307
Nota Convocat†ria para o SeminŽrio sobre A„…o Sindical em Qualifica„…o Profissional – 8 e 9 de
Outubro de 1998- Cajamar/SP. Retirado de op. Cit, pŽg 97.

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“Nessas crises, por exigŠncia de sua pr†pria polˆtica, o governo foi


levado a promover sucessivos “choques de juros”, que, se n…o s…o parte
integrante e inseparŽvel da polˆtica neoliberal, tŠm, dadas as
caracterˆsticas do capitalismo perif‹rico brasileiro, acompanhado a
aplica„…o do programa neoliberal no Brasil.308 “

A polˆtica econ—mica neoliberal, ref‹m dos capitais externos, para


conseguir manter seus ajustes, necessitava cortar ainda mais os investimentos nas Žreas
sociais, reagindo Žs crises em uma perspectiva de avanƒo da sua pol€tica.
Na elei„…o de 1998, a burguesia repetiu o que fizera na elei„…o de 1994:
unificou-se em torno da candidatura de Fernando Henrique Cardoso para derrotar Lula e
“exorcizar” a possibilidade de um candidato mais • esquerda no poder. Mas, passada a
elei„…o, come„avam a surgir indˆcios de que o perˆodo p†s-eleitoral seria diferente do
anterior. Em 1994 a unidade das classes dominantes em torno da plataforma neoliberal
prolongou-se ap†s as elei„•es, criando um forte bloco de poder que viabilizou os ajustes
almejados. Em 1998, multiplicavam-se os indˆcios de que as contradi„•es no interior da
burguesia poderiam trazer dificuldades para uma aplica„…o totalizante do
neoliberalismo, pois jŽ come„avam a ocorrer mudan„as tamb‹m no seio das classes
subordinadas.
O neoliberalismo conseguiu construir uma base de apoio proveniente das
classes subordinadas, moldando as crˆticas existentes ao aparelho do Estado e a falta de
polˆticas p“blicas, para um apoio do seu projeto de contra-reformas como possˆvel
alternativa • crise. Os trabalhadores, se aos poucos viam minada a resistŠncia ao
neoliberalismo, em grande medida devido • d‹bil atua„…o de seus espa„os de
organiza„…o de classe (mesmo porque se dizia que a privatiza„…o visava liberar recursos
para as Žreas de sa“de e educa„…o e para diminuir a dˆvida externa), come„avam a
perceber na prŽtica os seus efeitos, questionando seus males. Al‹m disso, o forte
crescimento do desemprego e da economia informal, gerado pelo ajuste neoliberal
tamb‹m aumenta o descontentamento das classes subordinas. Ao mesmo tempo,
portanto, que temos o enfraquecimento da organiza„…o dos setores populares, existe
uma mudan„a na conjuntura, na qual estes deixam de aceitar passivamente o imaginŽrio
do neoliberalismo enquanto solu„…o viŽvel para a crise. O ajuste neoliberal encontra
ent…o um desgaste cada vez maior.

308
BOITO JR, Armando. Polˆtica neoliberal e sindicalismo no Brasil. S…o Paulo : Xam…, 1999. PŽg 12

170
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Em 1998 e 1999 temos a atua„…o dos trabalhadores na Volks e na Ford,


atrav‹s essencialmente das comiss•es de fŽbrica, questionando a crise que se abatia
sobre as empresas, tendo reflexos imediatos em polˆticas que iam contra os setores
populares. Apesar da iniciativa de mobiliza„…o, o sindicato n…o prop—s mobiliza„•es do
conjunto da categoria, aceitando o modelo de negocia„…o por empresa, facilitando assim
a atua„…o das grandes montadoras. A forma de atua„…o agora, principal bandeira dos
lˆderes sindicais do ABC, era a diminui„…o de impostos. Como nos diz Marcelo Badar†:
“(...)para supostamente defender empregos, tais lideran„as apontaram
como saˆda para a preserva„…o dos altos patamares de lucratividade das
empresas, ainda que a custo de compensar a queda na procura por
autom†veis novos com redu„…o de arrecada„…o de impostos que,
teoricamente, deveriam beneficiar ao conjunto da popula„…o, atrav‹s dos
servi„os p“blicos. A isto chama de “sindicato cidad…o”309 .

A CUT escondia-se atrŽs do r†tulo de sindicalismo cidad…o para


encontrar outra roupagem para sua polˆtica de concilia„…o. › interessante destacar que a
utiliza„…o do termo “cidad…o” vem em uma conjuntura na qual as classes dominantes
tentam deturpar seu significado, como objetivo de legitimar as retiradas de direitos e
gastos sociais, na perspectiva da utiliza„…o do “voluntariado” e do fortalecimento das
ONG•s.
Como balan„o do ajuste neoliberal no perˆodo, temos o forte aumento do
desemprego, como pode ser visto na tabela abaixo:

309
MATTOS, Marcelo Badar†. Trabalhadores e sindicatos no Brasil. Rio de Janeiro: Vˆcio de Leitura,
2002. PŽg 96

171
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Tabela 21 - Taxas de Desemprego % Brasil (PME/IBGE) e S„o Paulo (PED/DIEESE)


Ano Brasil S…o Paulo
1989 3,4 8,7
1990 4,3 10,3
1991 4,8 11,7

1992 5,8 15,2


1993 5,3 14,6
1994 5,1 14,2
1995 4,6 13,2
1996 5,4 15,1
1997 5,7 16,0
1998 7,6 18,3
1999 7,8 19,5

2000 7,1 17,7

Existiu, no perˆodo da d‹cada neoliberal, o aumento de mais de 100% do


desemprego no Brasil. E em conjunto com o desemprego, ocorreu um forte arrocho
salarial:

172
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Esta conjuntura de queda no emprego e diminui„…o dos salŽrios teve


enquanto conseqšŠncia o crescimento das favelas:

Tabela 22 - Populaƒ„o residente em favelas na cidade do Rio de Janeiro (1950-2000)

Popula„…o total residente em favelas Popula„…o residente em


favela/ Popula„…o total

1950 169.305 7,13%

1960 335.063 10,15%

1970 565.135 13,29%

1980 722.424 14,19%

1991 962.793 17,57%

2000 1.092.476 19,93%

Fontes: Ribeiro, L. Segregaƒ„o, Desigualdade e Habitaƒ„o: A Metr•pole do Rio de Janeiro e IBGE.


Elabora„…o pr†pria.

Um grande n“mero dos domicˆlios existente nas favelas foi construˆdo


por regimes de coopera„…o como o “mutir…o”, utilizando dias de folga e fins de semana.
A habita„…o ‹ construˆda, portanto, atrav‹s de trabalho n…o pago. Como nos aponta
Francisco de Oliveira, embora aparentemente:
“esse bem n…o seja desapropriado pelo setor privado da produ„…o, ele
contribuiu para aumentar a taxa de explora„…o da for„a de trabalho, pois
o seu resultado – a casa – reflete-se numa baixa aparente do custo de
reprodu„…o da for„a de trabalho – de que os gastos com habita„…o s…o um
componente importante – e para deprimir salŽrios reais pagos pelas
empresas”310 .

De forma correlacionada a este processo, temos a queda da mobiliza„…o


dos trabalhadores, podendo ser visualizada atrav‹s da forte diminui„…o das greves:

310
OLIVEIRA, Francisco. Crˆtica • raz…o dualista e o ornitorrinco. S…o Paulo: Boitempo, 2003. PŽg 59

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Tabela 23 - Greves no Brasil (1989-1999)


Ano N“mero de Greves
1989 3943
1990 2357
1991 1399
1992 554
1993 653
1994 1034
1995 1056
1996 1258
1997 630
1998 580
1999 553

Fonte: MATTOS, Marcelo Badar†. Novos e velhos sindicalismos no Rio de Janeiro


(1955-1988). Rio de Janeiro: Vˆcio da Leitura. 1998e IPEA. Elabora„…o pr†pria.

E como forma de viabiliza„…o de toda esta polˆtica, baseada na entrada de


capitais externos, o Governo aumentou enormemente a dˆvida externa e interna:

Tabela 24 - Evoluƒ„o da D€vida Externa Brasileira – em d•lares (1970-1999)311

1970 1980 1990 1999


5,3 bilh•es 53,8 bilh•es 120,9 bilh•es 239,0 bilh•es

Fonte: JUBILEU SUL. Dados da Realidade Brasileira. p.1

311
Fonte: JUBILEU SUL. Dados da Realidade Brasileira. p.1

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Tabela 25 - Dˆvida Interna – Setor PŠblico – Porcentagem do PIB (1991-2003)

Os mecanismos de dˆvida, interna e externa, complementam-se,


viabilizando a lucratividade dos capitalistas do setor financeiro, subordinando o governo
ao dinheiro volŽtil, baseado no mercado especulativo312 .
Foi dentro deste panorama de avan„o do ajuste neoliberal, mas que em
conjunto trouxe o seu pr†prio desgaste e um forte endividamento do Estado, que se
iniciava o segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. O ano de 1999 seria
conturbado, e nele a CUT teria grande parte da sua forma de organiza„…o e atua„…o
remodelada.

312
“O governo federal encerrou o ano de 1999 com uma dˆvida p“blica federal no valor de 414 bilh•es de
reais E sobre essa dˆvida o governo estŽ oferecendo tˆtulos p“blicos, para cobrir a taxa de juros de 19%
ao ano. E assim emite tˆtulos, paga juros, para poder ir rolando a dˆvida. Segundo levantamento realizado,
cerca de 61% dos tˆtulos p“blicos federais, com corre„…o cambial, colocados no mercado s…o comprados
por bancos estrangeiros. Ou seja, o capital internacional especulativo vem ao Brasil aplicar seu dinheiro
em Letras do tesouro nacional, que tem garantia contra desvaloriza„…o cambial, ou seja o governo se
compromete a pagar 19% de juros lˆquidos, mais a corre„…o cambial do real, se houver. Estabelece-se
assim um vinculo permanente entre a dˆvida externa (entrada de capital financeiro de curto prazo) com a
dˆvida interna. E os dois mecanismos alem de se completarem, servem unicamente para transferir
recursos nacionais para o exterior.” (Estado de sp 18.2.00) Fonte: JUBILEU SUL. Dados da Realidade
Brasileira. p.3

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3.4 A 9• Plen‰ria Nacional

O perˆodo preparat†rio da 9‡ PlenŽria Nacional da CUT, ocorrida em


agosto de 1999, foi marcada por intensa agita„…o. Sua data foi adiada 3 vezes,
ocorrendo a reda„…o de 3 cadernos de textos diferentes para debate313 . Naquele
momento, a import‘ncia do tema da “Forma„…o Profissional e Sistema P“blico de
Emprego" era tanta que os textos preparat†rios para a 9‡ PlenŽria eram quase que
integralmente dedicados a essa discuss…o.Embora tenha-se buscado o consenso, este foi
impossˆvel: as diversas tendŠncias que compunham a Central polarizaram suas posi„•es
no campo da polˆtica de Forma„…o Profissional. Inicialmente foi lan„ado o caderno
“Textos em Debate”, sendo duas dessas dedicadas ao tema “Forma„…o Profissional”.
A tese da “Articula„…o Sindical” avalia o Projeto de Forma„…o Integral
da CUT, que teve como objetivo a capacita„…o de conselheiros municipais e estaduais
de emprego e a Forma„…o de Formadores em Educa„…o Profissional:
“O desenvolvimento de tais programas tem demonstrado a import‘ncia
da atua„…o da CUT nesse campo, tanto no sentido de qualificar a a„…o
dos conselheiros quanto na elabora„…o de metodologias que apontem
uma nova prŽtica pedag†gica.314 ”

E quais seriam, ent…o, as a„•es desenvolvidas na base desta “nova prŽtica


pedag†gica”?

“Neste sentido, as a„•es e projetos desenvolvidos pelo movimento


sindical e popular buscam desenvolver uma polˆtica de Forma„…o
Profissional continua para os trabalhadores empregados, e desenvolver
iniciativas de eleva„…o de escolaridade atrav‹s de a„•es em qualifica„…o
profissional, especialmente para aqueles setores mais afetados pela
exclus…o do mercado de trabalho (desempregados, jovens, mulheres,
idosos). 315 “

A “Articula„…o Sindical”, em seu texto base para a 9‡ PlenŽria Nacional


da CUT, defendia a constru„…o de uma “nova prŽtica” para a polˆtica de forma„…o da
Central, mais especificamente subordinar a formaƒ„o sindical Ž formaƒ„o profissional.
Os eixos prioritŽrios da Secretaria Nacional de Forma„…o deixaram de ser a prepara„…o

313
AFFONSO, ClŽudia, (2001). A CUT conselheira: tripartismo e forma„…o profissional. Concep„•es e
prŽticas sindicais nos anos 90. Disserta„…o de mestrado. Faculdade de Educa„…o da Universidade Federal
Fluminense. PŽg 167
314
CUT. 9‡ PlenŽria Nacional “Textos em Debate”. Retirado de idem, ibidem. PŽg 168
315
Idem, ibidem. PŽg 168

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de atividades voltadas para a forma„…o sindical-instrumental para ter como objetivo a


capacita„…o de conselheiros e a constru„…o de cursos de Forma„…o Profissional. A
concep„…o em torno desta Forma„…o Profissional tamb‹m se modificava, tendo muitos
pontos de proximidade com o discurso oficial do governo FHC em torno do PLANFOR:

“Neste sentido as a„•es e projetos desenvolvidos pelo movimento


sindical e popular buscam desenvolver iniciativas de eleva„…o de
escolaridade atrav‹s de a„•es em qualifica„…o profissional, especialmente
para aqueles setores mais afetados pela exclus…o do mercado de trabalho
(desempregados, jovens, mulheres, idosos). Estas iniciativas vŠm no
sentido de avan„os conceituais e metodol†gicos na integra„…o educa„…o e
trabalho, orientando a atua„…o dos cutistas frente as polˆticas em
educa„…o profissional”316 .

No mais, a Articula„…o Sindical defendia que era “a partir da polˆtica de


Forma„…o Profissional [que] podemos avan„ar na montagem de um SPE [Sistema
P“blico de Emprego] democrŽtico que integre as polˆticas ativas e passivas de
emprego”317 .
As teses da oposi„…o, como a ASS (Alternativa Sindical Socialista) e
MTS (Movimento por uma TendŠncia Socialista) criticavam esta concep„…o. Como
exemplo temos a recusa do MTS a participa„…o nas comiss•es tripartites, jŽ que esta
participa„…o:
“n…o ajuda a lutar contra o desemprego. Ao colocar como horizonte a
parceria, acaba com a “nica forma de lutar contra o desemprego, que ‹
levar os trabalhadores a acreditarem em sua pr†pria for„a e na luta.318 ”

A ASS criticava diretamente o PLANFOR, o qual estaria “claramente


integrado •s demais medidas do governo FHC”, por defender que o “desemprego
crescente e a segmenta„…o do mercado de trabalho [s…o entendidos] apenas como
decorrŠncia das transforma„•es tecnol†gicas e atribuˆdo aos baixos nˆveis de
escolaridade da popula„…o trabalhadora, que acaba sendo responsabilizada pela sua
empregabilidade”319 . Entretanto, no que tange a discuss…o sobre o FAT, o texto era
muito gen‹rico; ao mesmo tempo em que questionava as metodologias utilizadas, n…o
deixava claro sua posi„…o em torno do tema:

316
Idem, ibidem. PŽg 169
317
Idem, ibidem. PŽg 170
318
Idem, ibidem. PŽg 170
319
Idem, ibidem. PŽg 172

177
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“Diante da situa„…o crˆtica, no que diz respeito especificamente •s


demandas dos trabalhadores por a„•es de qualifica„…o profissional com
recursos do FAT, constitui urgente necessidade a defini„…o de uma
polˆtica p“blica de Forma„…o Profissional como parte do SPE que inclua
seguro desemprego, requalifica„…o e re-emprego e que a partir de novas
premissas conceituais e metodol†gicas, direcione e operacionalize a
organiza„…o de processos educativos pelas diferentes agŠncias
formadoras, p“blicas e privadas.320 ”

As resolu„•es aprovadas na 9‡ PlenŽria construˆram um grande conjunto


que abarcava diversos temas. O entendimento que guiava a ampla gama de delibera„•es
estava na perspectiva do “sindicalismo propositivo”, que deveria ter apontamentos em
quase todas as Žreas de polˆticas p“blicas; ao mesmo tempo, as resolu„•es
transformavam-se quase em um caderno de textos, perdendo muito do seu foco polˆtico,
especialmente sobre os temas polŠmicos.
No que se refere • Polˆtica Internacional, a CUT defendia que sua polˆtica
para a “Am‹rica Latina deveria ter como orienta„…o bŽsica o combate ao neoliberalismo
e a busca de solu„•es para desafios comuns”321 , orientados atrav‹s do apoio ao Grito
Continental dos Excluˆdos, que ocorreria em 12 de Outubro, e • Jornada Mundial de
Lutas Contra a Rodada do MilŠnio, marcada para 30 de Novembro. O ponto central
desta resolu„…o era o rep“dio • ALCA, a qual tinha como objetivo “transformar todo o
Hemisf‹rio em um verdadeiro quintal norte-americano, com total liberdade de mercado
para seus capitais, produtos e uma superexplora„…o da classe operŽria”322 .
Em rela„…o •s Polˆticas Sociais, a Central tinha enquanto pilar a defesa
do SUS “como a melhor polˆtica de sa“de para nosso paˆs. Queremos a universalidade,
a eqšidade, a integralidade e a gratuidade das a„•es do SUS, sob efetivo controle
social”323 . Em rela„…o • Educa„…o, deliberou-se que a CUT legitimava “o Plano
Nacional de Educa„…o construˆdo [num] espa„o democrŽtico, expressando a vontade da
sociedade brasileira organizada. O Plano encontra-se no Congresso Nacional, onde foi
apresentado antes da vers…o elaborada pelo Minist‹rio da Educa„…o. Falta, contudo,
desenvolver uma campanha nacional envolvendo todas as entidades para massificar o
Plano, tornando-o acessˆvel • popula„…o e ao conjunto dos trabalhadores”324 .

320
Idem, ibidem. PŽg 173
321
CUT. Resolu„•es da 9‡ PlenŽria Nacional (1999) In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
322
CUT. Resolu„•es da 9‡ PlenŽria Nacional (1999) In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
323
CUT. Resolu„•es da 9‡ PlenŽria Nacional (1999) In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM
324
Idem, ibidem.

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No Plano de Lutas a CUT tinha como objetivo organizar a Marcha dos


100 Mil sobre Brasˆlia, prevista para o dia 26 de agosto, o Grito dos Excluˆdos, no dia 7
de setembro, a Marcha Nacional em Defesa da Educa„…o P“blica, no dia 6 de outubro,
o Dia de Luta pela Despenaliza„…o do Aborto na Am‹rica Latina e Caribe no dia 28 de
setembro, o Dia Nacional da ConsciŠncia Negra, no dia 20 de novembro e prepara„…o
de uma grande “paralisa„…o nacional” para outubro: “Essa paralisa„…o nacional deverŽ
envolver toda a sociedade, desempregados, movimento popular, trabalhadores –
dispostos ao enfrentamento com o governo FHC”325 .
Na resolu„…o sobre a “Polˆtica Nacional de Forma„…o”, a Central
radicalizava a perspectiva do “sindicalismo propositivo” como unificadora de suas
propostas. A reestrutura„…o produtiva devia ser negociada, e por isso a forma„…o que
norteava essa nova concep„…o sindical tinha como fundamento uma estrat‹gia formativa
que capacitava para a luta atrav‹s da gest…o de polˆticas p“blicas e da atua„…o sindical
na qualifica„…o profissional:
“Diante das complexas mudan„as pelas quais vŠm passando o mundo do
trabalho, que demandam interven„•es cada vez mais qualificadas e
propositivas por parte dos dirigentes e lideran„as cutistas, coloca-se
como imperativo para a PNF desenvolver a„•es, em sua estrat‹gia
formativa, que os capacite para a luta pela negocia„…o da reestrutura„…o
produtiva desde os locais de trabalho; para a luta pela democratiza„…o e
gest…o das polˆticas p“blicas; para a atua„…o sindical em qualifica„…o
profissional, bem como para sua contrata„…o nos processos de
negocia„…o coletiva e amadurecimento de proposi„•es mais amplas que
possibilitem um diŽlogo mais profˆcuo com a sociedade”326 .

O importante era unificar as experiŠncias existentes, construindo um


avan„o na nova perspectiva da PNF, que devia “enfrentar o desafio de, a partir das
experiŠncias em curso, avan„ar nas reflex•es, formula„•es e implementa„…o de
estrat‹gias formativas que articulem as dimens•es da forma„…o sindical – forma„…o
profissional e educa„…o formal”327 . No mais, a defesa da constitui„…o de “espa„os
p“blicos estatais” foi inserida num contexto de reescrita da mem†ria da CUT, como se
desde a d‹cada de 1980 ela defendesse o recebimento de recursos p“blicos por
entidades da sociedade civil para realiza„…o de servi„os sociais. A implementa„…o dessa
polˆtica possibilitaria inclusive o carŽter p“blico do Estado, como demonstrava a

325
Idem, ibidem.
326
Idem, ibidem.
327
Idem, ibidem.

179
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resolu„…o “As bases para a constru„…o do Sistema P“blico de Emprego no Brasil”, na


delibera„…o sobre Forma„…o Profissional:
“A constru„…o de espa„os p“blicos n…o estatais ‹ convergente com os
princˆpios que sempre nortearam a a„…o da Central e de todo o campo
democrŽtico-popular no processo Constituinte de 1988, ancorados na
crˆtica da natureza privatista do Estado brasileiro. Isto nos levou a propor
novas formas e mecanismos decis†rios sobre as polˆticas p“blicas,
resgatando o carŽter p“blico do Estado e propondo solu„•es alternativas
•s polˆticas governamentais predominantes (ou • ausŠncia delas)”328 .

Nas delibera„•es da 9‡ PlenŽria (1999) no ponto “Forma„…o


Profissional”, a CUT construiu como principal tarefa a centraliza„…o das atividades e
recursos nesta Žrea, pois “A soma das iniciativas e esfor„os em desenvolvimento deve
apontar para uma maior organiza„…o da CUT na atua„…o em educa„…o e qualifica„…o
profissional, e convergir para a sinergia necessŽria entre as entidades sindicais
cutistas.”. O objetivo foi dar maior organicidade a SNF no ‘mbito da Forma„…o
Profissional, coordenando os diversos cursos realizados pelo paˆs; naquele momento a
CUT vŠ-se enquanto parte da execu„…o da polˆtica p“blica de emprego e renda:

“As experiŠncias de desenvolvimento de novas metodologias de


educa„…o profissional e do pr†prio desenvolvimento de programas de
educa„…o e forma„…o profissional s…o as iniciativas pioneiras do
movimento sindical cutista no seu envolvimento direto na execu„…o de
polˆticas p“blicas de emprego, renda e educa„…o.329 ”

Ou seja, a CUT continua a defender em seu discurso a democratiza„…o


das polˆticas p“blicas de emprego e renda, s† que n…o apenas interferindo na
distribui„…o e utiliza„…o dos recursos pelo Estado atrav‹s das comiss•es tripartites, mas
tamb‹m atrav‹s da execu„…o de atividades. A CUT devia ent…o construir “espa„os
p“blicos n…o-estatais” organizados pela sociedade civil para execu„…o das atividades
forma„…o profissional. E para viabilizar a constru„…o da forma„…o profissional e da
reconstru„…o da “esfera p“blica”, era necessŽria a afirma„…o da atua„…o institucional da
CUT nos conselhos Tripartites e da busca pelos recursos do FAT, o que era tratado
como uma legˆtima “disputa de hegemonia”:
“A afirma„…o da atua„…o institucional da CUT nas Comiss•es de
Emprego deve convertŠ-las em espa„os legˆtimos de disputa de
hegemonia, a partir da qual a realiza„…o de a„•es e projetos no ‘mbito da
328
Idem, ibidem.
329
CUT. Resolu„•es da 9‡ PlenŽria Nacional (1999) In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM

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forma„…o profissional, financiado com recursos do FAT, ganham maior


import‘ncia. Temos clareza que a configura„…o de uma nova
institucionalidade no campo educacional, particularmente da forma„…o
profissional, no Brasil, ainda que permeada e muitas vezes impulsionada
por interesses governamentais e patronais, constitui-se atualmente em
espa„o de disputa ideol†gica e conformarŽ as a„•es em educa„…o e
forma„…o profissional nas pr†ximas d‹cadas”330 .

3.5 O Plano Nacional de Qualificaƒ„o da CUT

Tamb‹m em 1999, a CUT firmou, em ‘mbito nacional, um convŠnio


“nico com o MTE/Sefor, por meio do Projeto Nacional de Qualifica„…o Profissional –
CUT Brasil, que envolveu sete programas de educa„…o, forma„…o profissional e
desenvolvimento solidŽrio, dos quais trŠs eram regionais (Sul, Norte e Nordeste); dois
eram aprofundamento do Integrar (CNM) e do Integral (SNF/Rede Nacional de
Forma„…o), um da Contag e um a cargo da Secretaria Nacional de Forma„…o da CUT, o
Integra„…o, que atuou, inicialmente, com dez ramos produtivos, com as Estaduais da
CUT e com a Rede Nacional de Forma„…o, realizando forma„…o para trabalhadores,
forma„…o para dirigentes e forma„…o para negocia„…o e contrata„…o coletiva da
educa„…o e forma„…o profissional.
O Plano Nacional de Qualifica„…o da CUT, o PNQ-CUT foi inicialmente
formulado por um dos programas do “Integral” de 1997 e que teve inˆcio em 1998. O
objetivo do projeto do “Integral” era “Articular as a„•es e projetos desenvolvidos pelas
estruturas verticais e horizontais da CUT no campo da requalifica„…o profissional,
integrando-os uma polˆtica p“blica de empregos”. A preocupaƒ„o em unificar uma
formulaƒ„o sobre Formaƒ„o Profissional, atravˆs da Secretaria Nacional de
Formaƒ„o, devia-se tambˆm ao fato de que, a partir de 1999, o FAT apenas repassaria
os recursos de forma centralizada atravˆs da CUT Nacional, e n…o mais pelas
Confedera„•es, como foi o caso em 1998, no qual a Confedera„…o Nacional dos
Metal“rgicos (CNM)-CUT e a Confedera„…o Nacional dos Trabalhadores na
Agricultura (CONTAG)-CUT receberam R$5.000.000,00 e R$2.000.000,00
respectivamente.
Segundo este Plano Nacional de Forma„…o da CUT de 1999, o Programa
“Integra„…o” (seu “carro-chefe”) tinha como objetivo dar um “salto de qualidade em sua
formula„…o para o conjunto das entidades cutistas e sua a„…o sindical; conceitos como a

330
CUT. Resolu„•es da 9‡ PlenŽria Nacional (1999) In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-ROM

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qualifica„…o profissional e suas rela„•es com o sistema p“blico de emprego; e o


aprofundamento e apropria„…o de instrumentos para a negocia„…o da qualifica„…o
profissional”331 . A defesa realizada era de um aprofundamento dos rumos tomados a
partir do V CONCUT, em 1994:

“Diante deste quadro, com base nas resolu„•es dos seus 5Œ Congresso
(1994) e 7‡ PlenŽria (1995) e 9‡ PlenŽria (1999) Nacionais, a CUT dŽ
continuidade •s a„•es em educa„…o profissional, abrangendo n…o s† os
conhecimentos necessŽrios ao desempenho de atividades altamente
demandadas pelas empresas, bem como em conhecimentos necessŽrios
ao pleno exercˆcio da cidadania. Deste modo, procura-se que os
trabalhadores (as) tomem iniciativas e decis•es, n…o somente para
atender suas necessidades urgentes e imediatas, mas sobretudo para ser
incorporada a sua prŽtica cotidiana, no trabalho, na vida social; atrav‹s da
formula„…o e implementa„…o de a„•es visando a capacita„…o para gest…o
de alternativas de gera„…o de trabalho, emprego e renda”332 .

O Integra„…o estava organizado em trŠs subprogramas: 1)Forma„…o e


Qualifica„…o para Trabalhadores; 2) Qualifica„…o Continuada para Gest…o 3)Negocia„…o
e Contrata„…o em Qualifica„…o Profissional. O primeiro subprograma tinha um p“blico
muito amplo, enquanto os outros dois eram voltados para dirigentes e assessores
sindicais.
O subprograma do “Integra„…o” voltado diretamente para a Forma„…o
Profissional construiu uma grande parceria, atrav‹s da Secretaria Nacional de
Forma„…o, com as 7 Escolas Nacionais da CUT e 13 confedera„•es ou federa„•es
nacionais: Contracs – Confedera„…o Nacional dos Trabalhadores no Com‹rcio e
Servi„os;CNTV – Confedera„…o Nacional dos Trabalhadores no VestuŽrio;CONTAC -
Confedera„…o Nacional dos Trabalhadores nas Ind“strias da Alimenta„…o; FNU –
Federa„…o Nacional dos UrbanitŽrios; FASER - Federa„…o dos Trabalhadores na
Agricultura Familiar do Brasil; CNQ - Confedera„…o Nacional do Ramo Quˆmico;
CNTSM - Confedera„…o Nacional dos Trabalhadores do Setor Mineral; CNTT –
Confedera„…o Nacional dos Trabalhadores em Transporte; CNTSS – Confedera„…o
Nacional dos Trabalhadores em Seguridade Social; FITTEL - Federa„…o Interestadual

331
CUT. Plano Nacional de Forma„…o (1999) . PŽg 173
332
CUT. Plano Nacional de Qualifica„…o CUT-Brasil. Retirado de AFFONSO, ClŽudia. Rela„•es
(Des)educativas entre o Estado e o Sindicalismo Propositivo no Brasil (1900-2000). 2007. Tese
(Doutorado em Educa„…o) - UFF. PŽg 193

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dos Trabalhadores em Telecomunica„•es; FENADADOS - Federa„…o Nacional dos


Empregados em Empresas e •rg…os P“blicos e Privados de Processamento de Dados,
Servi„os de InformŽtica e Similares; SINPAF – Sindicato Nacional dos Trabalhadores
de Pesquisa e Desenvolvimento AgropecuŽrio; CONTICOM – Confedera„…o Nacional
dos Sindicatos de Trabalhadores nas Ind“strias da Constru„…o e da Madeira. JŽ que, a
partir do “Integral”, ocorreu a capacita„…o de mil professores em Forma„…o Profissional
(500 em 1998 e 500 em 1999), existia disponˆvel toda estrutura necessŽria (material e
humana) para a efetiva„…o de um grande programa nacional. Apenas nesse programa,
foram constituˆdas 120 turmas de ensino fundamental e 57 turmas de ensino m‹dio
espalhadas por 11 estados, totalizando 5.400 alunos, com 530 professores envolvidos.
Os cursos foram desenvolvidos em 12 m†dulos para o Ensino Fundamental, totalizando
uma carga horŽria de 816 horas, e, em 15 m†dulos para o Ensino M‹dio, totalizando
uma carga horŽria de 1.030 horas333 . No mapa abaixo, podemos verificar a amplitude do
Programa de Forma„…o Profissional do “Integra„…o”:

Tabela 26 - Abrang‚ncia do Programa Integraƒ„o de Formaƒ„o Profissional

Fonte: BARBARA, Maristela Miranda; MIYASHIRO, ROSANA; e GARCIA, Sandra Regina


de. Educa„…o Integral dos Trabalhadores: PrŽticas em constru„…o (CUT). PŽg 25

333
BARBARA, Maristela Miranda; MIYASHIRO, ROSANA; e GARCIA, Sandra Regina de. Educa„…o
Integral dos Trabalhadores: PrŽticas em constru„…o (CUT). PŽg 24

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Em rela„…o aos outros dois programas, o programa de “Qualifica„…o


Continuada para Gest…o” desenvolveu na 1‡ Fase seminŽrios regionais com os ramos
produtivos, forma„…o para gest…o de projetos e a„•es com qualifica„…o profissional
atrav‹s de oficinas formativas regionais, desenvolvimento e implementa„…o de banco de
dados para todo o Programa, elabora„…o de estudos, cadernos curriculares, e uma
Revista. JŽ o “Negocia„…o e Contrata„…o em Qualidade Profissional” desenvolveu
seminŽrios regionais, oficinas metodol†gicas, elabora„…o de processos formativos e
roteiro para experiŠncias piloto, al‹m de oficinas formativas regionais. › importante
destacar que todos os subprogramas tiveram participa„…o direta das Confedera„•es e
Federa„•es Nacionais334 (estruturas verticais da CUT), como tamb‹m das Escolas
Sindicais, com a Gest…o Polˆtica e Pedag†gica Nacional ficando a cargo da Secretaria
Nacional de Forma„…o da CUT (SNF).
Para a Secretaria Nacional de Forma„…o, a constitui„…o de um Programa
de Forma„…o Profissional desse porte estava gerando mudan„as no interior de sua
pr†pria estrutura, pois os “projetos tŠm apresentado nova quest•es para debate na Rede
Nacional de Forma„…o, exigindo novas reflex•es sobre as bases organizativas da
Polˆtica Nacional de Forma„…o (PNF)”. A preocupa„…o em torno da eficiŠncia, dos
crit‹rios de sele„…o e aprova„…o, do acompanhamento, e da busca de financiamento,
tornou-se primordial:
“Esta nova realidade, colocada pelo desenvolvimento dos Projetos, tem
requerido maior aten„…o para alguns desafios: a busca do financiamento
org‘nico da CUT; a necessidade de crit‹rios de sele„…o e aprova„…o de
Projetos.; a necessidade de condi„•es de acompanhamento e avalia„…o
que possibilitem o estabelecimento de uma gest…o eficiente, por parte da
SNF-CUT”335 .

A polˆtica de Forma„…o Profissional cutista partiu do Integrar, construˆdo


pela Confedera„…o Nacional dos Metal“rgicos, em 1996, o qual foi a base para a
formula„…o do Integral, em 1998, e consolidou-se atrav‹s do PNQ-CUT e seu
“Integra„…o”, em 1999. Para o projeto “Integra„…o” foi disponibilizado pelo FAT
R$21.000.000,00 (vinte e um mih•es de reais), o que representava 70% dos gastos totais
da CUT no ano em quest…o, como podemos ver nos dados abaixo:

334
A divis…o das Federa„•es e Confedera„•es era realizada basicamente pelos ramos produtivos
correspondentes.
335
CUT – Diretrizes e Estrat‹gia da Polˆtica Nacional de Forma„…o (1999-2000). PŽg 17

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Podemos afirmar que em 1999, atrav‹s do Plano Nacional de


Qualifica„…o da CUT, a Central consolidou uma Pol€tica Nacional de Formaƒ„o
Profissional gerenciada pela Secretaria Nacional de Formaƒ„o, envolvendo grande
parte da estrutura da CUT em sua implementaƒ„o. O objetivo anterior, de sistematizar
as experiŠncias existentes em Forma„…o Profissional, unificando em uma polˆtica
nacional, foi alcan„ado, como demonstra o balan„o realizado pelo SeminŽrio “A CUT e
os Novos Desafios da Forma„…o Sindical e da Educa„…o”, realizado pela Central no
mesmo ano.
Este seminŽrio foi composto por diversas mesas, as quais tiveram como
fruto a publica„…o de cadernos especˆficos, divididos por temas. No caderno 3,
denominado “A CUT e os novos desafios da forma„…o sindical e da educa„…o”, temos
textos de Jorge Lorenzetti, SecretŽrio de Forma„…o da CUT de 1986 a 1994, M—nica
Valente, SecretŽria entre 1994 e 1997, e de Almir Tortelli, o qual teve sua gest…o de
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1997 a 2000. Em seu texto, Almir Tortelli avaliou como trŠs as diretrizes fundamentais
da Polˆtica de Forma„…o da CUT: 1)Como a forma„…o da CUT pode contribuir para
consolidar uma nova forma de organiza„…o da central?; 2)Como efetivamente a
forma„…o da CUT pode contribuir no processo de debates, de formula„•es, sobre um
novo projeto de desenvolvimento para o Brasil?; 3)A quest…o da educa„…o, casada com
a polˆtica Nacional de Forma„…o da CUT336 .
Para Tortelli, a forma de unifica„…o dessas diretrizes seria atrav‹s da
forma„…o cidad…:
“O grande desafio que estŽ colocado para n†s ‹ saber como uma central
sindical como a CUT vai disputar na sociedade a sua concep„…o, a sua
vis…o, a sua l†gica de pensar o desenvolvimento e a economia, de pensar
a distribui„…o da riqueza, se n…o conseguir pensar o indivˆduo como um
todo. N…o estou me referindo s† ao dirigente ou trabalhador
sindicalizado, mas como indivˆduo cidad…o, porque a nossa concep„…o de
a„…o sindical ‹ pensar a central sindical como central cidad….337 ”

A base dessa concep„…o estaria na supera„…o da CUT como Central


apenas dos trabalhadores, com a constru„…o de uma nova vis…o da “integralidade do
indivˆduo como cidad…o, mais do que simplesmente sindicalista ou trabalhador
sindicalizado338 ”. As formas de aproxima„…o com os desempregados e sub-empregados,
numa perspectiva de incorpora„…o desses segmentos numa agenda cidad…, seriam
atrav‹s da execu„…o e amplia„…o de servi„os sociais financiados com recursos dos
fundos p“blicos: “Por que n…o pensar em massificar a id‹ia do “Integrar” Metal“rgico
para o conjunto das categorias, na perspectiva de forma„…o de segundo e terceiro
grau?339 ”, indagava o SecretŽrio Nacional de Forma„…o. Parafraseando Paulo Sergio
Tumolo, estarˆamos no perˆodo da consolida„…o da “terceira fase” da CUT,
caracterizada “por uma a„…o sindical pautada pelo trin—mio
proposi„…o/negocia„…o/participa„…o dentro da ordem capitalista que perde o carŽter
classista e anticapitalista em troca do horizonte da cidadania”340 . No mais, ‹ importante
destacar que o texto “Breve resgate hist†rico”, de Alex Sgreccia, que fazia parte do
caderno editado pelo SeminŽrio Nacional, simplesmente ignorava a exist‚ncia da

336
TORTELLI, Almir. “A forma„…o Polˆtica e os desafios a serem enfrentados”. In: CUT. Caderno 2:
Forma„…o Profissional: experiŠncias sindicais, alternativas e reflex•es. PŽg 106
337
Idem, ibidem. PŽg 106
338
Idem, ibidem. PŽg 106
339
Idem, ibidem. PŽg 109
340
TUMOLO, Paulo Sergio. Da Contesta„…o • Conforma„…o – A Forma„…o Sindical da CUT e a
Reestrutura„…o Capitalista. S…o Paulo, Ed Unicamp, 2001. PŽg 221

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Pol€tica de Formaƒ„o na CUT anterior a 1986, comeƒando seu “hist•rico” a partir da


primeira gest„o de Jorge Lorenzetti, da Articulaƒ„o Sindical. A dire„…o majoritŽria da
CUT reescrevia a mem†ria da Central, para que a partir desse “novo hist†rico” se
legitimasse um novo imaginŽrio no interior das disputas internas, legitimando a
consolida„…o de sua transi„…o para o sindicalismo social-liberal.
A Polˆtica de Forma„…o Profissional, que era a mais conhecida atua„…o
da CUT na presta„…o de servi„os sociais, no interior de sua concep„…o de “espa„os
p“blicos n…o-estatais”, n…o estava sozinha. Existiam tamb‹m outras “frentes”, que
apesar de menor aporte financeiro comparativamente, tamb‹m tinham grande relev‘ncia
no interior da refuncionaliza„…o da CUT, recebendo grandes quantias atrav‹s dos fundos
p“blicos e de parcerias. A partir de 1999, a Central iniciou sua participa„…o tamb‹m na
Žrea de intermedia„…o de m…o-de-obra, atrav‹s da cria„…o, em setembro, da Central de
Trabalho e Renda (CTR).

3.6 A CUT e a atuaƒ„o na ‰rea de intermediaƒ„o de m„o-de-obra: a


fundaƒ„o da Central de Trabalho e Renda como “espaƒo p‹blico n„o-estatal”

A CTR foi lan„ada inicialmente em Santo Andr‹, com o objetivo de


tornar-se uma experiŠncia modelo da atua„…o da CUT no interior da intermedia„…o de
m…o de obra. A escolha da regi…o do ABC n…o foi ocasional, jŽ que o Sindicato de
Metal“rgicos do ABC tinha participa„…o direta na constru„…o da CTR. Al‹m desse,
apoiavam a iniciativa os sindicatos dos Quˆmicos, BancŽrios e das Costureiras do ABC.
Segundo Jo…o Marcelo, em seu texto “As polˆticas p“blicas de Emprego no Brasil:
Rumo a uma nova Institucionalidade”, um dos documentos base utilizados pela CUT na
discuss…o sobre um Sistema P“blico de Emprego, a Central de Trabalho e Renda:
“visava efetivar um sistema p“blico de emprego, integrado e articulado,
de natureza p‹blica n„o estatal. Neste objetivo estrat‹gico, expressa-se
um conceito estruturador dessa experiŠncia. Historicamente, o Estado
brasileiro foi apropriado privadamente, ou seja, n…o se tornou realmente
p“blico. Essa forma de constitui„…o do Estado impediu o surgimento de
uma cultura polˆtica autenticamente republicana. Por isto, o fato de ser
Estado n…o significa necessariamente ser p“blico e muito menos
democrŽtico. Quando a CTR integra formalmente no Conselho de Gest…o
representantes do movimento sindical, do poder p“blico municipal e da
Comiss…o de Trabalho e Emprego de Santo Andr‹; quando existe um
esfor„o permanente de intera„…o com o setor privado, a comunidade local
e organiza„•es governamentais, na tentativa de compor uma rede de
compromissos em torno de a„•es de combate ao desemprego; e quando

187
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ocorre total transparŠncia sob todos os aspectos da vida desta


experiŠncia, sem d“vida supera-se o comportamento privatista na rela„…o
com a coisa p“blica e contribui-se para recriar um novo significado do
que pode vir a ser um servi„o p“blico”341 .

A forma„…o da CTR foi or„ada em R$4.760.642,00, dos quais o


Minist‹rio do Trabalho/FAT foi responsŽvel pela libera„…o de 3.967.202, e uma parceria
realizada entre a CUT Nacional, os sindicatos e a Prefeitura de Santo Andr‹, arcaram
com R$793.400,00. › necessŽrio frisar que a Central de Trabalho e Renda constituˆa-se
enquanto uma estrutura nova, impulsionada pela CUT, e que com ela fazia diversas
parcerias, mas que ao mesmo tempo tinha certa autonomia relativa. Em 1999, a
Prefeitura de Santo Andr‹ era comandada por Celso Augusto Daniel, do PT. Estava
iniciando-se a conformaƒ„o de uma ampla estrutura, atravˆs da CUT, de ag‚ncias e
entidades por ela dirigidas, com o objetivo de realizar serviƒos sociais atravˆs de
recursos dos fundos p‹blicos.
Uma das propagandas realizadas pela CTR demonstra de que forma era
sua abordagem em torno do problema do desemprego:
“CTR: Onde o emprego procura vocŠ!
Aqui na Central de Trabalho e Renda vocŠ:
Concorre a um emprego;
Se inscreve em cursos de educa„…o profissionais;
Recebe orienta„…o profissional e de gera„…o de renda;
Se habilita para o recebimento do Seguro-Desemprego;
Solicita saque do Fundo de Garantia;
Tira sua carteira de trabalho.
Os nossos servi„os s…o gratuitos e est…o disponˆveis para todos os
trabalhadores desempregados.
Documentos necessŽrios para o cadastro:
- Carteira de Trabalho;
- RG342 ”

Al‹m de oferecer a popula„…o servi„os integrados e articulados de


habilita„…o ao seguro desemprego, oferta de vagas oferecidas pelas empresas, orienta„…o
para o trabalho, cursos de forma„…o profissional e encaminhamento para programas de
gera„…o de trabalho e renda (especialmente por meio do cr‹dito a pequenas iniciativas
individuais ou coletivas dos desempregados em gerar renda para o sustento das suas

341
MARCELO, Jo…o. “As polˆticas p“blicas de Emprego no Brasil: Rumo a uma nova Institucionalidade”
in: CUT. Capacita„…o de Conselheiros das Comiss•es de Trabalho e Emprego: A experiŠncia de 1998 e
1999.” PŽg 61
342
Propaganda Realizada pela CTR no jornal da Associa„…o Comercial e Empresarial de Guarulhos –
24/5/2002;

188
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famˆlias), a CTR promovia encontro coletivos com os empregadores da Regi…o, al‹m de


disponibilizar uma linha de servi„os voltada ao empregador, onde era possˆvel a
realiza„…o direta de recrutamento e sele„…o de profissionais cadastradas pela Central de
Trabalho e Renda. Tamb‹m iniciava a constru„…o de programas pr†prios, como o
“Programa de Orienta„…o para o Trabalho”, onde “atrav‹s de ciclos de palestras e
vivŠncias de grupo sobre temas relacionados com as tendŠncias do mercado de trabalho,
motiva-se o trabalhador a resgatar a sua auto-estima e tornar-se um agente ativo na
descoberta de novas habilidades e na busca de sua pr†pria ocupa„…o.343 ” Na atua„…o no
campo de “gera„…o de renda”, a CTR identificava atrav‹s de seu banco de dados as
possibilidades dos cadastrados e acionava programas relacionados com o micro-cr‹dito
e com a assistŠncia t‹cnica de pequenos empreendimentos, pelo PROGER, Banco do
Povo e pela Incubadora de Cooperativas de Santo Andr‹. Com apenas dois anos de
trabalho, a CTR atendeu “387,9 mil trabalhadores do banco de dados, captou 18.834
vagas e recolocou no mercado de trabalho 8.163 profissionais. Entre os atendidos, 76,3
mil receberam encaminhamento para disputa de novas vagas, 68,9 mil foram
convocados, 11,1 mil conquistaram coloca„…o, 5,1 mil requisitaram seguro-desemprego
e 165.112 permanecem cadastrados nos bancos de emprego”344 . A sua estrutura cresceu
de forma rŽpida e intensa, pois em abril de 2002, jŽ contava com 4 postos de
atendimento (S…o Paulo Capital, Santo Andr‹ (SP), Jandira (SP), Diadema (SP) ), 111
profissionais, 8 mil empresas cadastradas, com a m‹dia de 1,5 mil atendimentos
diŽrios345 . A manuten„…o da Central de Trabalho e Renda tinha um custo anual em torno
de R$4.000.000,00.
Para a CUT, a cria„…o da CTR estaria nos marcos de sua atua„…o, jŽ que
“sempre se pautou pela luta contra a exclus…o social, apresentando propostas e solu„•es
para os principais problemas nacionais, regionais e dos trabalhadores. (...) Essa parceria
tripartite [na constru„…o da Central de Trabalho e Renda] ‹ a garantia do

343
MARCELO, Jo…o. “As polˆticas p“blicas de Emprego no Brasil: Rumo a uma nova Institucionalidade”
in: CUT. Capacita„…o de Conselheiros das Comiss•es de Trabalho e Emprego: A experiŠncia de 1998 e
1999.” PŽg 63
344
DiŽrio do Grande ABC – “Central de Trabalho espera mais R$ 800 mil”. Como parte da mat‹ria, ainda
tˆnhamos: “A Central de Trabalho e Renda da Central •nica dos Trabalhadores (CUT), que comemorou
nesta segunda seu aniversŽrio de dois anos, aguarda a libera„…o de aproximadamente R$ 800 mil da
Secretaria de Estado das Rela„•es do Trabalho para iniciar um programa de 55 cursos de capacita„…o
profissional, que serŽ realizado entre setembro e dezembro deste ano, com objetivo de formar 4,5 mil
pessoas. O programa ‹ similar ao executado no ano passado e visa diminuir a diferen„a entre a
qualifica„…o exigida pelos empregadores e a apresentada pelos candidatos • recoloca„…o no mercado de
trabalho”.
345
Correio Brasiliense 18/04/ 2002 – “Com a ajuda do sindicato”.

189
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desenvolvimento de um novo espa„o p“blico de atendimento aos desempregados da


regi…o, reunindo os atores organizados da sociedade civil, governos e empresŽrios, com
a responsabilidade de oferecer servi„os de qualidade.346 ”
A CUT, entretanto, participava ainda da constru„…o de atos pelo paˆs. Em
26 de agosto de 1999 ocorreu uma grande Marcha • Brasˆlia, com “a participa„…o de
milhares de trabalhadores, empregados e desempregados, militantes de partidos
polˆticos e do movimento popular, (...) para exigir do Governo gera„…o de emprego,
Reforma AgrŽria, respeito aos direitos sociais e rompimento com o FMI. A chamada
Marcha dos Cem Mil conseguiu sacudir a popula„…o brasileira e mostrar ao Governo
que ‹ preciso mudar jŽ”347 . Em sete de Setembro ocorreu o Grito dos Excluˆdos, com
atos em 1.300 cidades, com forte participa„…o da CUT. E em seis de Outubro de 1999, a
Coordena„…o Nacional dos Trabalhadores em Educa„…o (CNTE) organizou um grande
ato em defesa da Educa„…o P“blica em Brasˆlia, sendo o maior ato nacional de um ramo
especˆfico. Segundo o Presidente da CNTE, Carlos Augusto Abicalil, “O presidente da
Rep“blica (FHC) nos respondeu que n…o ser…o (sic) aos gritos que se resolver…o os
problemas. N†s afirmamos que os sussuros do FMI e do BIRD – talvez mais agradŽveis
aos seus ouvidos – n…o s…o capazes de apagar as vozes roucas das ruas e n…o estancam a
vontade de parcelas cada vez maiores da popula„…o e da opini…o p“blica – t…o cara aos
gestores e mandatŽrios contempor‘neos – de gritar: BASTA!”348 .
Ainda em 1999 ocorreu a 1‡ ConferŠncia de Polˆtica Nacional de
Forma„…o da CUT, impulsionada pela Secretaria Nacional de Forma„…o (SNF-CUT).
Nela participaram 717 pessoas, provenientes da CUT, de ONG•s, de Universidades e
AgŠncias, e de Centrais Sindicais de 12 paˆses da Europa, –frica, Am‹rica do Norte e
Am‹rica Latina. Segundo Almir Tortelli, SecretŽrio Nacional de Forma„…o da CUT, as
principais quest•es que permearam a conferŠncia foram:
“A estrat‹gia e o horizonte do movimento sindical cutista com os
projetos de forma„…o profissional em curso; articula„…o da
implementa„…o de tais projetos com a luta em defesa da educa„…o p“blica
para todos; a compreens…o que temos do processo de disputa de
hegemonia em curso na sociedade brasileira; as contradi„•es presentes na
luta pela democratiza„…o da gest…o das polˆticas p“blicas entre o processo
de desresponsabiliza„…o do estado e o papel da sociedade civil; as tarefas
prioritŽrias que cabem na polˆtica Nacional de Forma„…o da CUT”349 .

346
CUT. Informa CUT- Novembro/1999 pŽg 12
347
CUT. Informa CUT- Novembro/1999 pŽg 3
348
CUT. Informa CUT- Dezembro/1999 pŽg 339
349
CUT. Revista da Secretaria Nacional de Forma„…o No 9 – Dezembro de 1999.

190
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3.7 - 1• Confer‚ncia da Pol€tica Nacional de Formaƒ„o da CUT

A 1‡ ConferŠncia da Polˆtica Nacional de Forma„…o da CUT (1999) foi


resultado de um processo de discuss•es em 17 ConferŠncias, Estaduais e Regionais, as
quais contaram com a participa„…o de 1500 pessoas de todo o paˆs. Nas ConferŠncias
Estaduais, al‹m dos sindicalistas da CUT, participaram tamb‹m representantes de
Universidades Estaduais e Federais, e de ONG•s. Para organiza„…o da ConferŠncia
foram constituˆdas 11 equipes: Equipe de Sistematiza„…o, de Comunica„…o, Secretaria
Geral do Evento, Monitores/Apoio, Recep„…o de Convidados Internacionais, Recep„…o
de Convidados Nacionais, Credenciamento, Translado, Cultural, Coordena„…o,
Enfermaria e Creche. Na ConferŠncia Nacional em si ocorreram trŠs grandes debates,
21 oficinas e 18 seminŽrios. Entre as conclus•es dos Grupos de Trabalho, destaca-se
aquele que definia a concep„…o de “forma„…o cutista”, a qual deixava de lado a
forma„…o polˆtico-ideol†gica, ou mesmo preocupa„•es instrumentais; o centro seria a
formula„…o de “novos saberes” atrav‹s da “prŽtica cultural” jŽ existente:
“A forma„…o cutista ‹ entendida como uma prŽtica cultural, onde as
experiŠncias reais de trabalhadores e trabalhadoras constituem as bases
para a constru„…o de novos saberes, daˆ ‹ que fazem parte de suas
preocupa„•es as rela„•es ‹ticas, raciais, de gŠnero, entre outras, na busca
de disputa de hegemonia na sociedade.”

Esta era um concep„…o muito diferente daquela realizada na Forma„…o


Polˆtica da CUT no inˆcio de sua implementa„…o. Como exemplo emblemŽtico de outra
vis…o temos a atua„…o da SecretŽria da Secretaria Nacional de Forma„…o eleita no I
CONCUT em agosto de 1984, Ana L“cia da Silva, a qual defendia que “a polˆtica de
forma„…o da CUT tinha que se estruturar a partir dos princˆpios de cria„…o da Central e
que indicavam uma CUT classista, de luta, de massa, uma CUT anticapitalista, que se
entendia como instrumento na luta pela destrui„…o do capitalismo e cria„…o de uma
sociedade socialista.350 ”
Nesta ConferŠncia Nacional, os Grupos de Trabalho tamb‹m deliberaram
o “aprofundamento da coopera„…o e do intercambio internacional na forma„…o cutista”,
e a disposi„…o em pensar formas de utiliza„…o do “Ensino • distancia”, jŽ que “de certa

350
Entrevista de Ana L“cia da Silva • Paulo Sergio Tumolo. TUMOLO, Paulo Sergio. Da Contesta„…o •
Conforma„…o – A Forma„…o Sindical da CUT e a Reestrutura„…o Capitalista. S…o Paulo, Ed Unicamp,
2001.PŽg 144.

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forma, a CUT jŽ desenvolve Educa„…o • Dist‘ncia, com metodologia pr†pria, atrav‹s de


diversas atividades formativas que as Escolas sindicais desenvolvem”351 . O GT sobre
“Forma„…o Profissional” avaliou “positivamente as experiŠncias de Forma„…o
Profissional no interior da Central”, pois essas tŠm contribuˆdo para a “disputa de
hegemonia da sociedade”, apesar de ainda existirem polŠmicas que necessitariam de
“reflex…o contˆnua”, como a rela„…o com o FAT:

“A Forma„…o Profissional tem contribuˆdo para a disputa da hegemonia


na sociedade. Neste sentido, avalia-se positivamente as experiŠncias de
Forma„…o Profissional no interior da Central, pois contribuem para a
constru„…o da estrat‹gia da CUT, contudo, muitos aspectos se
demonstraram polŠmicos e merecem reflex…o continua, dentre eles a
quest…o metodol†gica, a necessŽria crˆtica ao conceito de
empregabilidade, a rela„…o com o FAT (quem usa, quem fiscaliza?) e a
articula„…o da Forma„…o Profissional com a defesa da escola p“blica e a
democratiza„…o da gest…o do Sistema “S”352 ”.

O Grupo de Trabalho que se tornou uma “novidade” nessa ConferŠncia


foi o nominado “A Constru„…o de Alternativas no Campo da Gera„…o de Emprego e
Renda e a Forma„…o da CUT”. A partir de 1999, a CUT iniciou sua trajet†ria na atua„…o
em torno de servi„os assistenciais de intermedia„…o de m…o-de-obra e cooperativismo,
numa perspectiva de amplia„…o de um “Sistema P“blico de Emprego”. Para a Central,
as mudan„as recentes no capitalismo, como a globaliza„…o e a reestrutura„…o produtiva,
trouxeram novos desafios para o movimento sindical. Dentre os desafios:
“(...)temos o da discuss…o de um modelo de desenvolvimento que, al‹m
da crˆtica ao modelo hegem—nico, aponte outras dimens•es. Incluem-se aˆ
o associativismo, o cooperativismo, o desenvolvimento sustentŽvel e
solidŽrio, desde que articulados com um projeto estrat‹gico que combine
o desenvolvimento local e regional, e tamb‹m aponte para a perspectiva
de mudan„as macroecon—micas, com destaque para as polˆticas
distributivas, de financiamento, tributŽrias, fiscal, de c‘mbio, entre
outras”353 .

No final do Encontro foi aprovada a “Carta de Belo Horizonte” que


dentre diversas afirma„•es (em geral gen‹ricas), defendia que a “a experiŠncia
construˆda pela Polˆtica Nacional de Forma„…o da CUT-PNF constitui-se em uma

351
CUT. Revista da Secretaria Nacional de Forma„…o No 9 – Dezembro de 1999. PŽg 23
352
Idem. PŽg 23
353
Idem, ibidem. PŽg 24

192
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significativa referŠncia para a constru„…o de projetos alternativos de polˆticas p“blicas


que articule educa„…o bŽsica e educa„…o profissional, o que credencia a CUT como
importante interlocutora neste debate p“blico nacional”354 .
Em rela„…o aos participantes da 1‡ ConferŠncia da Polˆtica Nacional de
Forma„…o da CUT, 32% eram de sindicatos ou federa„•es estaduais, 26,8%
participavam de base municipal ou regional, 18% de CUT•s estaduais, 16,1% de
sindicato, federa„…o ou confedera„…o nacional, 2% de Universidades e entidades de
consultoria, e 2,2% de ONG’s. › importante destacar que apesar de serem
numericamente pequenos nesta ConferŠncia, o setor de “entidades de consultoria,
universidades e ONG•s” tinha papel fundamental na organiza„…o e estrutura„…o da
Polˆtica de Forma„…o da CUT, tanto em rela„…o a pesquisas quanto na proposta de
metodologias355 . Al‹m disso, quase dos participantes da ConferŠncia eram ligados •
Žrea de Educa„…o (24%), como tamb‹m mais de 50% dos ativistas presentes tinham
gradua„…o completa; 19% do total dos sindicalistas presentes tinham p†s-gradua„…o.
Isso indica que a Central incorporou o processo de assessoria e pesquisa nas novas
‰reas da pol€tica de formaƒ„o (formaƒ„o profissional, capacitaƒ„o de conselheiros,
cooperativismo e intermediaƒ„o de m„o-de-obra) atravˆs da seleƒ„o de um grande
n‹mero de profissionais especialistas no interior do “mundo cutista”. Desde os
primeiros projetos financiados pelo FAT, a Polˆtica de Forma„…o da CUT n…o era mais
vista como algo de “amadores”. Muita coisa estava em jogo. E a ades…o a este novo
projeto no interior daqueles que atuavam na “forma„…o” era muito grande, pois apenas
13,7% dos presentes na ConferŠncia declararam que a Polˆtica Nacional de Forma„…o da
CUT n…o estaria “respondendo adequadamente •s novas demandas sindicais”356 . Al‹m
disso, ap†s a ConferŠncia, em dezembro de 1999, o Conselho Deliberativo do FAT
(CODEFAT) deliberou um novo carŽter das Parcerias Nacionais, as quais s† poderiam
utilizar 4% dos recursos para projetos especiais (como a Capacita„…o de Conselheiros),
al‹m da supervis…o e avalia„…o/acompanhamento externo. Todo o restante do montante
de recursos (96%) deveria ser utilizado exclusivamente para “a„•es em qualifica„…o
profissional”. Esta delibera„…o aprofunda ainda mais a rela„…o da CUT com o FAT no
que tange a capta„…o de recursos para a Forma„…o Profissional, jŽ que, a partir daquele
momento, quase que a totalidade da verba deveria ser utilizada para este fim.

354
CUT. Revista da Secretaria Nacional de Forma„…o No 9 – Dezembro de 1999. PŽg 25
355
Um exemplo dessa import‘ncia era a atua„…o da UNITRABALHO, que veremos a seguir.
356
CUT. Revista da Secretaria Nacional de Forma„…o No 9 – Dezembro de 1999. PŽg 38

193
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3.8 – Unitrabalho: construindo a rede de assessoria e pesquisa da CUT


em formaƒ„o profissional

Dentre esta rede de assessoria e pesquisa em torno da forma„…o polˆtica


da CUT, destacava-se a Unitrabalho. Segundo a pr†pria funda„…o, a “Unitrabalho ‹ uma
rede universitŽria nacional que agrega 92 universidades e institui„•es de ensino superior
de todo o Brasil. Constitui-se juridicamente na forma de funda„…o de direito privado e
sem fins lucrativos e tem com o objetivo contribuir para o resgate da dˆvida social que
as universidades brasileiras tŠm com os trabalhadores. Sua miss…o se concretiza por
meio da parceria em projetos de estudos, pesquisas e capacita„…o”357 . A Unitrabalho n…o
produz pesquisas e parcerias exclusivamente com a CUT, apesar de a rela„…o ser muito
pr†xima: como exemplo temos a fundamental participa„…o Jorge Lorenzetti, que foi
SecretŽrio Nacional de Forma„…o da CUT durante oito anos (1986-1994), como um dos
fundadores da Unitrabalho em 1996. A Unitrabalho ‹ um tema que deve ser melhor
pesquisado, jŽ que seus vˆnculos com a CUT, a magnitude dos recursos que recebe, e
seu papel na formula„…o de programas na Žrea de cooperativismo e intermedia„…o de
m…o-de-obra s…o complexos. N…o temos dados suficientes para analisar mais
amplamente qual foi a influŠncia da Unitrabalho neste processo, o que impossibilita
afirma„•es conclusivas.
A Funda„…o possuˆa quatro programas de ‘mbito nacional: Economia
SolidŽria e Desenvolvimento SustentŽvel, Emprego e Rela„•es de Trabalho, Trabalho e
Educa„…o e Sa“de do Trabalhador.
O programa “Trabalho e Educa„…o” tinha como centro de sua
estrutura„…o a Forma„…o Profissional, que procurava “articular as necessidades dos
trabalhadores brasileiros e o conhecimento acumulado pelas universidades agregadas •
Rede”, tendo em vista “as rŽpidas e profundas transforma„•es nas rela„•es de trabalho
que vŠm produzindo um cenŽrio s†cio-econ—mico caracterizado por altos ˆndices de
desemprego e trabalho informal”358 . Este programa foi um dos pilares do processo de
pesquisa e elabora„…o em torno do “Integrar”, projeto pioneiro de Forma„…o

357
UNITRABALHO. Programa de Economia SolidŽria e Desenvolvimento SustentŽvel
Rede de Incubadoras de Empreendimentos Econ—micos SolidŽrios. PŽg 3
358
UNITRABALHO – Programa “Trabalho e Educa„…o”. Disponˆvel em
http://www.unitrabalho.org.br/paginas/programas/trabalhoeducacao.html Acessado em 20/12/2008

194
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Profissional produzido pela Confedera„…o Nacional dos Metal“rgicos em 1996. Foi a


Unitrabalho quer realizou uma pesquisa nacional voltada diretamente ao diagn†stico da
Forma„…o Profissional no ramo metal“rgico, que deu resultado ao livro “Diagn†stico da
Forma„…o Profissional – Ramo Metal“rgico” (1999), em conjunto com a CNM, como
tamb‹m o “Programa de Forma„…o e Requalifica„…o para o Trabalho de 1997 e 1998,
em conjunto com o “Integrar” do Rio Grande do Sul. Foi tamb‹m a Unitrabalho que
produziu em parceria com a CUT Nacional e a Escola Sindical Sul, os cadernos de
apoio polˆtico-pedag†gico •s atividades de “Forma„…o de Formadores para Educa„…o
Profissional” e de “Conselheiros das Comiss•es Estaduais e Municipais de Trabalho em
Emprego”, de 1997 a 1999, e os manuais dos pr†prios Conselheiros. Ou seja, todo o
processo de consolidaƒ„o do Integrar na Confederaƒ„o Nacional dos Metal‹rgicos,
como tambˆm da pol€tica Nacional na Formaƒ„o Profissional da CUT entre 1997 e
1999, foi realizado atravˆs da assessoria direta da Unitrabalho na pesquisa,
formulaƒ„o e organizaƒ„o desses programas.
Em que tange ao “Programa Nacional de Economia SolidŽria e
Desenvolvimento SustentŽvel” da Unitrabalho, esse seria constituˆdo “como um espa„o
plural de pesquisa e atividade prŽtica de extens…o consubstanciado na luta pela
constru„…o de novas rela„•es de trabalho, que promovam o desenvolvimento sustentŽvel
e a autonomia dos trabalhadores por meio de empreendimentos econ—micos
solidŽrios” 359 . Este programa atuaria “por meio das universidades integradas • rede
junto a segmentos da comunidade, com os centros de pesquisa, informa„…o, forma„…o,
produ„…o e planejamento no campo da economia solidŽria, contribuindo para a cria„…o
de consciŠncia empreendedora e, conseqšente, transforma„…o social com melhoria na
qualidade de vida dos trabalhadores”360 .
Foi baseando-se nesta concep„…o que a Unitrabalho participou, em
conjunto com a ONG Holandesa ICCO e o Dieese, no Grupo de Trabalho sobre
economia solidŽria aprovado pela Executiva Nacional da CUT, em 1998. Este GT deu
origem, em setembro de 1999, a AgŠncia de Desenvolvimento SolidŽrio (ADS-CUT)361 .
No material produzido por esse Grupo de Trabalho, temos os princˆpios orientadores da
AgŠncia, que seriam:

359
UNITRABALHO - Programa de Economia SolidŽria e Desenvolvimento SustentŽvel
Rede de Incubadoras de Empreendimentos Econ—micos SolidŽrios. PŽg 3
360
Idem. PŽg 3
361
ZARPELON, Sandra Regina. A esquerda n…o socialista e o novo socialismo ut†pico: aproxima„•es
entre a atua„…o das ONG•s e o Cooperativismo da CUT. Mestrado em CiŠncia Polˆtica. UNICAMP,
Campinas: 2003. PŽg 50

195
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“a gest…o democrŽtica e solidŽria do trabalho e da produ„…o; a


distribui„…o de renda; o desenvolvimento social e sustentŽvel; a educa„…o
permanente dos trabalhadores e o respeito • diversidade ‹tnica, cultural e
regional, ambiental e de gŠnero. O objetivo geral da AgŠncia de
Desenvolvimento SolidŽrio ‹ gerar novas oportunidades de trabalho e
renda em organiza„•es de carŽter solidŽrio e contribuir com a constru„…o
de alternativas de desenvolvimento social e sustentŽvel”362 .

3.9 A CUT e a atuaƒ„o na ‰rea do cooperativismo: a fundaƒ„o da Ag‚ncia de


Desenvolvimento Solid‰rio

A AgŠncia de Desenvolvimento SolidŽrio iniciou suas atividades com a


estrutura de um escrit†rio nacional e de escrit†rios regionais e estaduais, desenvolvendo
atividades em parceria com a Unitrabalho e o Dieese. Existia o objetivo de ampliar
essas parcerias, atrav‹s do processo de diŽlogo crescente com outras entidades, como a
Anteag, a Fase, a Abong e a CŽritas363 . No ‘mbito internacional, o objetivo era construir
parcerias com a ICCO e a Agriterra (Ongs da Holanda), o Instituto de Estudos Sociais
(Universidade da Holanda) e o Rabobank (Banco Cooperativo da Holanda). A ADS
baseava seu processo de estrutura„…o atrav‹s de um plano trienal, composto pelos
programas: 1)Programa de Cr‹dito SolidŽrio; 2)Programa de Educa„…o; 3)Programa de
Pesquisa; 4) Programa de Incuba„…o e Forma„…o de Redes de Economia SolidŽria;
5)A„…o Institucional.
O objetivo do Programa de Cr‹dito SolidŽrio era “organizar meio para
facilitar e ampliar o acesso dos trabalhadores ao cr‹dito. Este programa deve iniciar-se
por um processo de organiza„…o de uma rede nacional de cr‹dito solidŽrio, buscando
integrar as institui„•es existentes entre si e • AgŠncia, e construir uma estrat‹gia
nacional de a„…o na Žrea de cr‹dito solidŽrio”. Para a ADS, a polˆtica de microcr‹dito
deveria ser executada atrav‹s de “convŠnio com †rg…os p“blicos e privados, brasileiros
e do exterior, para fazer o repasse de recursos para o financiamento dos
empreendimentos solidŽrios”364 . O objetivo era a conforma„…o de cooperativas de

362
“Grupo de Trabalho de Economia SolidŽria da CUT – A AgŠncia de Desenvolvimento SolidŽrio” In:
CUT. Sindicalismo e Economia SolidŽria – Reflex•es sobre o projeto da CUT. PŽg 61
363
Idem, ibidem. PŽg 62
364
Idem, ibidem. PŽg 63

196
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economia e cr‹dito m“tuo, cooperativas de cr‹dito rural, e sociedade de cr‹dito,


financiamento e investimento.
O “Programa de Educa„…o” da ADS tinha o objetivo de articular os
programas de “economia solidŽria” baseados no cooperativismo, e a forma„…o
profissional realizada no ‘mbito da CUT, atrav‹s da Secretaria Nacional de Forma„…o.
Segundo o documento, o Programa de Educa„…o em Economia SolidŽria deveria
“proporcionar a forma„…o de agentes na constru„…o da economia solidŽria e a forma„…o
profissional voltada para a amplia„…o de autonomia e da capacidade de gest…o.” Existia
o objetivo tamb‹m de cria„…o de cursos de p†s-gradua„…o, em parceria com
Universidades brasileiras e com o Instituto de Estudos Sociais (ISS-Holanda), para a
“forma„…o de agentes, analistas e formuladores de polˆticas em economia solidŽria e
gestores de empreendimento solidŽrios”. Al‹m disso, haveria uma polˆtica de
interc‘mbio com as Universidades Holandesas ISS e Wangeningen.
Nesse sentido, a formaƒ„o profissional em economia solid‰ria estava
sendo implementada atravˆs da parceria direta com a Secretaria Nacional de
Formaƒ„o da CUT. A ADS nascia de forma articulada “com os projetos de forma„…o
profissional da CUT, financiados por recursos p“blicos do FAT (Fundo de Amparo ao
Trabalhador)365 . Na Regi…o Sul, as atividades de forma„…o profissional da ADS/CUT
para Žrea rural eram desenvolvidas atrav‹s do projeto Terra SolidŽria; na Regi…o
Nordeste, estavam articuladas com o “Projeto Regional de Desenvolvimento
SustentŽvel e SolidŽrio”, como tamb‹m com os Projetos Estaduais do CearŽ, Bahia e
Pernambuco; na regi…o Norte, as polˆticas de forma„…o profissional e pesquisa estavam
imbricadas com o “Projeto Regional Vento Norte” e com o “Projeto Raˆzes” nos
Estados do ParŽ, Acre, Rond—nia, Roraima, e Amazonas.
Em rela„…o ao Programa voltado para Pesquisa, em parceria com a
Unitrabalho, o fundamental era “construir novos conhecimentos no campo da economia
solidŽria e realizar estudos que orientem a defini„…o de estrat‹gias e polˆticas da
AgŠncia (ADS)”, com vistas a “subsidiar a caracteriza„…o de iniciativas solidŽrias e
desenvolver metodologias aplicadas ao acompanhamento e • avalia„…o permanente da
transforma„…o dessas experiŠncias em paradigmas para o desenvolvimento da
ADS/CUT”366 . O Programa de Pesquisa ainda estava orientado para “contribuir na
defini„…o das estrat‹gias de cr‹dito de incuba„…o e de mercado”, como tamb‹m na

365
Idem, ibidem. Pag 63
366
Idem, ibidem. PŽg 64

197
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elabora„…o de materiais sobre “as institui„•es de apoio ao desenvolvimento tecnol†gico,


gerencial e organizacional aplicadas aos empreendimentos solidŽrios”. A ADS tamb‹m
tinha pesquisas especˆficas para a Žrea legislativa referente • cria„…o, solvŠncia e
incentivos fiscais para o cooperativismo.
O “Programa de Incuba„…o e Forma„…o de Rede de Economia SolidŽria”
tinha o intuito de implantar projetos pilotos na Žrea, especialmente no interior da rede de
incubadoras universitŽrias. Buscava-se um “processo de mobiliza„…o, forma„…o em
economia solidŽria, legaliza„…o e organiza„…o do empreendimento e acompanhamento
(assistŠncia t‹cnica, jurˆdica, financeira e administrativa)”367 . O primordial era apoiar a
cria„…o de empreendimentos em economia solidŽria e viabilizŽ-los atrav‹s da
constitui„…o de redes articuladas. Era tamb‹m estrat‹gia do programa o processo de
cria„…o do selo de produtos e servi„os em Economia SolidŽria, em conjunto com uma
polˆtica de marketing no mercado brasileiro368 .
Por fim, o Programa de “A„…o Institucional” tinha como objetivo
“realizar o acompanhamento permanente do andamento dos debates parlamentares
sobre as quest•es relativas • economia solidŽria, • formula„…o de propostas para a
legisla„…o (....) e ao acompanhamento, anŽlise e formula„…o de propostas de polˆticas
p“blicas para a economia solidŽria (polˆticas de cr‹dito, tecnologia, polˆtica fiscal,
polˆticas regionais e setoriais e abertura comercial, etc)”369 .
A ADS teve o inˆcio de sua constru„…o no final de 1999, colocando-se
enquanto iniciativa “piloto” de um grande projeto cutista na Žrea de economia solidŽria,
que progressivamente fortaleceu-se, chegando ao ano de 2003 a atuar em 27 complexos
cooperativos, totalizando 197 “empreendimentos na Žrea de economia solidŽria”,
envolvendo 16.274 trabalhadores diretamente370 . Enquanto AgŠncia, seu norte era
assessorar as cooperativas, atrav‹s da constru„…o de encontros e projetos de a„…o
comum, como tamb‹m incentivar a constitui„…o, fortalecimento e articula„…o de
empreendimentos em “economia solidŽria”, baseados no cooperativismo. Al‹m disso, a

367
Idem,ibidem. PŽg 64
368
Idem,ibidem. PŽg 64
369
Idem,ibidem. PŽg 64
370
ZARPELON, Sandra Regina. A esquerda n…o socialista e o novo socialismo ut†pico: aproxima„•es
entre a atua„…o das ONG•s e o Cooperativismo da CUT. Mestrado em CiŠncia Polˆtica. UNICAMP,
Campinas: 2003 PŽg 52. Os trabalhadores envolvidos eram divididos nas Žreas de: Agricultura (8.159),
Alimenta„…o (143), Artesanato (128), Com‹rcio Varejista (800), Confec„•es (30), Ind“stria de M†veis
(1.500), Ind“stria de PlŽstico (178), Ind“stria Metal“rgica (222), Ind“stria tŠxtil (426), Maricultura
(1818), Pesca (2.000), e Reciclagem (16.274). Estas referŠncias futuras s…o consideradas enquanto
exemplos para o leitor da magnitude que ganhou a “economia solidŽria” no ‘mbito do sindicalismo CUT,
jŽ que o recorte de nossa pesquisa tem o ano de 2000 enquanto marco final.

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CUT queria tamb‹m constituir uma rede pr†pria de cooperativismo: em paralelo a


iniciativa de constitui„…o da ADS, a Central formou a Uni…o e Solidariedade das
Cooperativas e Empreendimentos de Economia Social do Brasil (UNISOL), atrav‹s do
apoio do Sindicato dos Metal“rgicos do ABC e do Sindicato dos Quˆmicos do ABC.

3.10 A CUT e a fundaƒ„o da Uni„o e Solidariedade das Cooperativas e


Empreendimentos de Economia Social do Brasil (UNISOL)

A UNISOL teve iniciada a sua constru„…o ainda em 1999, mas foi


fundada em mar„o de 2000. A necessidade de sua cria„…o parte da tentativa de extens…o
para al‹m do ABC, das experiŠncias vividas desde os meados da d‹cada de 1990 junto a
empresas da regi…o que estavam com fortes dificuldades financeiras e administrativas,
nas quais ocorreram iniciativas de co-gest…o com os trabalhadores, baseadas no
cooperativismo. Teve como parte de sua gesta„…o a delibera„…o do 2Œ Congresso do
Sindicato dos Metal“rgicos do ABC, em 1996, quando foi decidido que os
trabalhadores cooperadores poderiam ser s†cios do sindicato, esvaziando a
diferencia„…o que existia entre assalariado formal e cooperativado371 . A partir deste ano,
o Sindicato tamb‹m passou a manter rela„•es com cooperativas italianas. Esta inser„…o
do Sindicato dos Metal“rgicos do ABC no mundo dos cooperativados teve influŠncia
direta da conforma„…o da co-gest…o na Conforja S/A Conex•es de A„o. Em meados de
1995 foi implantado o projeto de co-gest…o na empresa, que duraria at‹ o inˆcio do
segundo semestre de 1997, como alternativa para contornar a crise econ—mico-
financeira e de descontrole gerencial da fŽbrica. Essa saˆda deu-se devido ao aumento
crescente do endividamento da empresa, que em 1994 teve como receita bruta 40,613
milh•es de d†lares, com prejuˆzo na ordem de 3,796 milh•es de d†lares. No mesmo
ano, o ativo da empresa era avaliado em US$ 128 milh•es e seus d‹bitos totalizavam
cerca de US$ 111 milh•es (90%)372 . A empresa teve sua falŠncia decretada em mar„o
de 1998, gerando a constitui„…o de quatro cooperativas que mantinham a gest…o da
empresa: Copertratt (Cooperativa Industrial de Trabalhadores em Tratamento T‹rmico e
Transforma„…o de Metais), Cooperlafe (Cooperativa Industrial de Trabalhadores em
Lamina„…o de An‹is e Forjados Especiais), Coopercon (Cooperativa Industrial de

371
Idem, Ibidem. pŽg 56
372
ODA, Nilson Tadashi. Gest…o e trabalho em cooperativas de produ„…o: Dilemas e Alternativas •
participa„…o. Disserta„…o de mestrado da Escola Polit‹cnica da Universidade de S…o Paulo-USP, S…o
Paulo abril/2001.PŽg 59

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Trabalhadores em Conex•es Tubulares) e da Cooperfor (Cooperativa Industrial de


Trabalhadores em Forjaria)373 . Estas quatro cooperativas constituˆram-se o “carro chefe”
da UNISOL.
No plano nacional, a constitui„…o de cooperativas na Žrea metal“rgica
teve influŠncia tˆmida a partir do 3Œ Congresso Nacional da Confedera„…o Nacional dos
Metal“rgicos (CNM) em 1995, no qual temos a resolu„…o que apontava para a
realiza„…o de um “seminŽrio sobre sistema de auto-gest…o, a partir das experiŠncias
vividas pelos trabalhadores”, considerando “que nos “ltimos anos vŽrias empresas tŠm
sido desativadas”, colocando-se como alternativa aos trabalhadores dessas empresas a
possibilidade “de assumi-las no sistema de auto-gest…o”374 . Foi a partir de 1999, no 5Œ
Congresso Nacional, que o cooperativismo come„ou a ser fortemente impulsionado pela
CNM, pois em seu caderno de resolu„•es constava um diagn†stico da situa„…o do
cooperativismo no Brasil, explicitando sua tendŠncia de expans…o, exaltando a
coopera„…o internacional, defendendo que a expans…o do cooperativismo “precisa ser
estimulada e valorizada em termos estrat‹gicos pela CUT, inclusive pelo fato de as
cooperativas de trabalhadores [representarem] uma forma concreta de organizar a
produ„…o e a distribui„…o de bens em oposi„…o aos fundamentos da economia
capitalista, apoiada na explora„…o da mais-valia do lucro burguŠs”. Entretanto, ao
mesmo tempo em que defendia uma certa “radicalidade classista” em suas propostas
sobre cooperativismo, a CNM-CUT enfatizava a necessidade de forma„…o profissional
especˆfica para este novo campo de atua„…o, atrav‹s da “conquista da cidadania”:

“7Œ) Intensificar a forma„…o dos trabalhadores cooperados, objetivando


mudar as suas prŽticas culturais numa perspectiva de conquista de
cidadania e de envolvimento dos sindicatos no trabalho de requalifica„…o
de m…o-de-obra”375 .

A UNISOL tornou-se ent…o um dos pilares fundamentais da polˆtica de


cooperativismo e “economia solidŽria” da “rede CUT”, nacionalizando as experiŠncias
neste campo realizadas pelo Sindicato dos Metal“rgicos do ABC, tornando-as
“exemplo” para novos programas que seriam realizados pelo paˆs. A pol€tica de
cooperativismo cutista, assim como antes ocorreu com a formaƒ„o profissional e o
373
As empresas do grupo Conforja atuavam em diversos ramos de atividades, sendo o mais importante
o fornecimento de conex•es e an‹is de a„o • Petrobras.
374
CNM-CUT. 4 Congressos Nacional dos Metal“rgicos. Retirado de: ZARPELON, Sandra Regina. A
esquerda n…o socialista ... Op. cit. PŽg 56
375
Idem, ibidem. PŽg 58

200
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projeto “Integrar” da Confederaƒ„o Nacional dos Metal‹rgicos em 1996, teve grande


parte de sua implementaƒ„o baseada nas experi‚ncias realizadas pelo Sindicato dos
Metal‹rgicos do ABC. Para al‹m dos metal“rgicos do ABC, outro grande “farol” da
atua„…o no cooperativismo pela CUT eram os programas de cooperativas agrˆcolas da
CONTAG (como demonstram os projetos da AgŠncia de Desenvolvimento
SolidŽrio/ADS), possivelmente a Žrea que detinha maior montante de recursos e
projetos no interior da “rede cutista de economia solidŽria”.
Dessa forma, para alˆm de sua pol€tica de Formaƒ„o Profissional
financiada por recursos dos fundos p‹blicos, a CUT construiu gradativamente uma
grande rede de execuƒ„o de serviƒos assistencialistas. Atrav‹s da Central de Trabalho e
Renda (CTR), da Unitrabalho, da AgŠncia de Desenvolvimento SolidŽrio (ADS) e da
UNISOL, a Central impulsionou a constitui„…o de um conglomerado que tinha como
principal sentido de existŠncia a capta„…o de recursos, na perspectiva da expans…o da
“esfera p“blica” atrav‹s da co-responsabiliza„…o pela oferta de “servi„os p“blicos n…o
estatais”. Assim como ocorreu com a emergŠncia da Forma„…o Profissional, as polˆticas
do Sindicato dos Metal“rgicos do ABC tiveram influŠncia primordial no
redirecionamento da Central para as Žreas de intermedia„…o de m…o-de-obra e
cooperativismo, irradiando suas experiŠncias para que se tornassem o par‘metro da
atua„…o da CUT. Ou seja, grande parte das mudanƒas ocorridas na CUT na perspectiva
de um sindicalismo social-liberal foi impulsionada por sindicatos de sua base e de suas
confederaƒŠes: o processo de burocratizaƒ„o n„o partia apenas de “cima”, mas em
grande medida da pr•pria base. N…o existiu uma dicotomia entre uma CUT
burocratizada e social-liberal, que for„ava a mudan„a dos sindicatos, e uma base
“combativa” que resistia •s mudan„as, mas, ao contrŽrio, transforma„•es que ocorreram
na base de certos sindicatos e confedera„•es que tinham grande peso na CUT acabaram
por impulsionar a mudan„a de rumos da Central como um todo. A Central recebia ent…o
recursos do FAT para al‹m daqueles vinculados • Forma„…o Profissional, aumentando o
atrelamento em rela„…o ao governo. Como exemplo, temos o crescimento dos recursos
doados pelo FAT • CUT para a„•es de intermedia„…o de emprego:

201
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Tabela 28 - Recursos do FAT transferidos para a CUT para aƒŠes de


intermediaƒ„o de emprego (1999-2000) (em reais R$)

Apoio Operacional para o Intermedia„…o Total •ndice=100


Pagamento de Seguro de emprego
Desemprego
1998 - - - -
1999 1.064.601 1.064.601 2.192.202 100
2000 2.152.452 1.430.914 3.583.366 163

Fonte: CUT. Emprego e Renda No 3 – Maio de 2000. Elabora„…o Pr†pria.

Ocorreu um crescimento de 63% dos recursos do FAT doados • CUT


para a„•es de intermedia„…o de m…o de obra entre 1999 e 2000376 . › importante destacar
que a CUT come„ou a receber recursos apenas no ano de 1999, enquanto a For„a
Sindical, al‹m de contar com recursos desde 1998 (R$900.000,00 recebidos pelo
Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Paulo), recebeu no ano de 1999 R$2.135.700,00 e no
ano de 2000 R$3.330.000,00, montantes sempre maiores do que os da CUT. Al‹m
disso, o Sindicato dos Metal“rgicos de S…o Paulo, vinculado • For„a Sindical, recebeu
em 1999 R$12.722.600,00 e em 2000 R$11.471.700,00, um valor muito superior ao
recebido pela CUT. Ou seja, apesar de iniciar sua atua„…o em intermedia„…o de emprego
e seguro desemprego nesses anos, a CUT n…o estava sozinha: a For„a Sindical ainda
mantinha uma influŠncia muito superior nesta Žrea377 . No mais, precisarˆamos de uma
maior serie hist†rica para realizarmos afirma„•es conclusivas sobre o tema.
Em 21 de mar„o de 2000 a Executiva Nacional da CUT reuniu-se, e teve,
entre outras delibera„•es, a indica„…o de uma “Jornada Nacional de Lutas”, que deveria
culminar em um grande ato no dia 1Πde maio. Esta jornada deveria priorizar como eixo
estrat‹gico de campanha a den“ncia das amea„as de retirada dos direitos estabelecidos
no Artigo 7Œ da Constitui„…o Federal, a luta pela valoriza„…o dos salŽrios, especialmente
o salŽrio mˆnimo, e a campanha pela redu„…o da jornada de trabalho de 44 horas para 40
horas semanais, como instrumento de combate ao desemprego378 . Al‹m disso, a CUT
nacional tamb‹m deliberou o lan„amento da “Campanha Nacional em Defesa dos

376
Para al‹m desses valores, a Confedera„…o Nacional dos Metal“rgicos (CNM/CUT) recebeu do FAT
R$2.370.978,00 em 1999 e R$1.562.780,00 para o ano de 2000 para a„•es de intermedia„…o de m…o-de-
obra, constituindo-se uma verba “a parte” daquela que era destinada diretamente para CUT Nacional.
Fonte: Minist‹rio do Trabalho – SumŽrio Executivo do CODEFAT. Abril 2000.
377
Idem, ibidem.
378
CUT – Informa Cut – Abril de 2000 – PŽg 5

202
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Servi„os P“blicos”. E no segundo semestre do mesmo ano, ocorreu o 7Œ Congresso


Nacional da CUT, o VII CONCUT.
3.11 O VII CONCUT: a CUT social-liberal

O VII CONCUT foi realizado na cidade de Serra Negra, em SP, de 15 a


19 de agosto de 2000, contando com a presen„a de 2.309 delegados, sendo 1609
homens (69,77%) e 697 mulheres (30,23%). Como nos diz Roberto V‹ras379 , as
principais polŠmicas estabelecidas neste Congresso traziam as marcas das divergŠncias
hist†ricas. O conflito e a disputa interna na CUT eram muito grandes, especialmente
porque as a„•es encaminhadas pela dire„…o majoritŽria eram baseadas, em grande
medida, por uma concep„…o de sindicalismo social-liberal. Por‹m, atuaƒŠes cotidianas
da CUT ainda traziam contigo lutas contra o governo de FHC e o ajuste neoliberal.
Este CONCUT trazia consigo tamb‹m a marca das contra-reformas
neoliberais, as quais conseguiram avan„ar na diminui„…o dos direitos e na flexibiliza„…o
da legisla„…o trabalhista. Como exemplos dessas medidas tivemos a institui„…o do
trabalho por tempo determinado pela lei 9.601/1998, a quebra do regime jurˆdico “nico
dos servidores p“blicos pela Emenda Constitucional 19/1998, a legaliza„…o do banco de
horas e do trabalho por tempo parcial pela Medida Provis†ria 1.709/1998, a suspens…o
do contrato individual de trabalho permitida atrav‹s da Medida Provis†ria 1726/1998,
dentre outras380 .A Central, em sua delibera„…o sobre “Conjuntura Nacional” avaliava o
Governo FHC como express…o de “uma nova alian„a das elites conservadoras
tradicionais, que hŽ d‹cadas controlam as decis•es, a renda, a propriedade e as
institui„•es no paˆs”381 . Seu Governo tinha como polˆtica o aprofundamento da agenda
neoliberal, “seguindo o receituŽrio imposto pelo FMI e impondo uma polˆtica
econ—mica de desmonte do Estado e redesnacionaliza„…o da economia, resultando na
extin„…o de setores produtivos inteiros, gerando cada vez mais desemprego, o
individualismo e a cultura antiassociativa para minar a organiza„…o e a resistŠncia dos
setores populares”382 . Assim, para a CUT “os anos 1990 ser…o lembrados pela fome, a
mis‹ria, o desemprego, a violŠncia, o arrocho salarial (com o caso extremo do
379
OLIVEIRA, Roberto V‹ras de. Sindicalismo e Democracia no Brasil: Atualiza„…o - Do novo
Sindicalismo ao Sindicato Cidad…o. Tese apresentada ao Programa de P†s Gradua„…o em Sociologia-
USP. S…o Paulo, 2002.PŽg 453
380
FERRAZ, Marcos. Da Cidadania Salarial • AgŠncia de Desenvolvimento SolidŽrio. O Sindicalismo-
CUT e os desafios para enfrentar uma nova cidadania. Tese de Doutorado. S…o Paulo, USP, pŽg 114
381
CUT. Resolu„•es do VII Congresso Nacional da CUT (2000). In: CUT 20 anos – 1983 a 2003. CD-
ROM
382
Idem, ibidem.

203
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funcionalismo p“blico com cinco anos sem reajuste de salŽrios), a degrada„…o dos
servi„os p“blicos, a concentra„…o da riqueza e da renda, a desnacionaliza„…o da
economia, a perda do que sobrava de soberania nacional, a transferŠncia de patrim—nio
p“blico para o grande capital (sobretudo internacional)”. Dessa forma, entre as
delibera„•es tˆnhamos o avan„o na polˆtica do “Fora FHC”:
“Conscientes de que a crise n…o tem solu„…o nos marcos do
neoliberalismo, que s† pode agravŽ-la, a CUT deve erguer com firmeza a
bandeira do “Fora FHC”, aprovada pela 7a PlenŽria Nacional, e tamb‹m
lutar por um novo modelo de desenvolvimento econ—mico nacional, que
contemple as necessidades e os interesses dos trabalhadores e do povo e
aponte para uma solu„…o mais definitiva dos problemas econ—micos e
sociais” 383 .

A CUT continuava com a perspectiva de oposi„…o de esquerda • FHC,


organizando atividades de mobiliza„…o contra seu programa. Mas, apesar de ainda se
constituir enquanto uma frente “nica dos trabalhadores, a Central consolidou neste
Congresso uma concep„…o sindical assistencialista e conciliadora. Na delibera„…o
“Estrat‹gias para as a„•es polˆticas da CUT”, a Central via a “Economia SolidŽria”
como uma estrat‹gia inovadora para o combate ao desemprego e a exclus…o social, pois
“diante do aumento do desemprego e da informalidad