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OPINIÃO

Uma política cultural asfixiante


Rui Matoso A realização da democracia cultural exige a existência de condições
de produção e de meios para que a participação cultural seja mais
autónoma e menos dependente de paternalismos e hegemonias
externas.
3 de Junho de 2020, 6:24

Num tempo em que respirar em público é quase um acto


de rebeldia, usar os mesmos remédios para novas
adversidades é a fórmula certeira para a catástrofe,
todavia é isto que está a acontecer com as propostas do
Governo/Ministério da Cultura (MC) no âmbito da nova
linha de apoios de emergência ao sector cultural na época
da pandemia.

Os 30 milhões que António Costa anunciou para entregar


NEWSLETTER O
QUE (ÀS VEZES) às autarquias e que resulta da reprogramação
LHE ESCAPA intempestiva de fundos comunitários afectos a projectos
OCASIONALMENTE já aprovados no âmbito do programa Cultura para Todos,
Os melhores
trabalhos dos
servem, nas palavras do Governo, o intuito de minimizar
últimos dias. o impacto negativo no setor da cultura, “um dos mais
Para que nunca duramente atingidos por esta crise”, através do
lhe escape
nada. favorecimento da animação das economias locais através
do turismo.
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Tomei Após os desastrosos resultados da linha de apoio de


conhecimento
que as emergência às artes que apoiou através do Fundo de
newsletter Fomento Cultural (FFC), 311 projetos de um total de
editoriais
poderão 1025 candidatos, sem que se conheça a lista com a
conter
seriação dos mesmos e as fundamentações que levaram a
publicidade.
OBRIGATÓRIO essa decisão, um procedimento de excepção que não faz
jus a outros concursos da administração pública cultural.
Neste âmbito chega-se ao nível do insólito quando o
GEPAC (entidade responsável pela gestão do FFC)
mantém inactivo no seu website um link sobre “COVID19
- Linha de apoio de emergência ao setor das Artes” desde
pelos menos a data de saída dos resultados. Para além
disso o GEPAC não responde aos candidatos que se
pronunciaram acerca dos resultados pedindo alguma
justificação acerca dos mesmos. Esta situação é anómala
e lamentável no seio da administração pública do Estado
central, e é totalmente oposta da clareza e do
investimento que alguns municípios disponibilizam para
colmatar a deficiente intervenção do MC, veja-se o caso
de Lisboa. É incompreensível como é que o MC lança um
apoio com o valor de 1 milhão de euros a nível nacional e
Lisboa um montante de 1,25 milhões para artistas e
outros profissionais da cultura residentes no município.

Na raiz da desorientação nas políticas culturais do


Governo do Partido Socialista está a incapacidade de
levantar do chão um Ministério da Cultura digno dos
seus antecessores após a destituição efectuada pelo
Governo de Passos Coelho. Nas legislativas de 2015,
apoiado pela “geringonça”, por artistas e agentes
culturais de relevo, António Costa defendia a
importância da cultura para o desenvolvimento do país.
Contudo, até hoje, o elenco ministerial (João Soares, Luís
Filipe Castro Mendes e Graça Fonseca) não tem estado à
altura de um pensamento estratégico adequado às
exigências da cultura contemporânea. Se João Soares e
Luís Mendes adoptaram uma postura voluntarista mas
sem os conhecimentos e as ferramentas necessárias,
Graça Fonseca limita-se a mobilizar os seu pergaminhos
de gestora de startups para tentar colá-los a um sector
que tem no seu núcleo duro as artes e o património, e
cujo paradigma de funcionamento não se rege pela lei do
mercado livre e, antes pelo contrário, carece de uma
compreensão profunda do que seja um serviço público de
cultura no séc. 21, irredutível à dialética da oferta-
procura.

Voltando à celeuma da nova linha de apoios de 30


milhões para as autarquias, Graça Fonseca veio agora
explicitar um pouco melhor o anúncio espontâneo de
Costa, afinal a nova linha de financiamento versará a
modalidade de Programação Cultural em Rede. Assim, O
Governo “entende que a Programação Cultural em Rede
trará renovadas possibilidades a um sector que precisa
de apoio com urgência, com iniciativas que incrementem
o turismo cultural; que mantenham emprego e riqueza,
valorizando o património cultural e natural; alarguem os
potenciais beneficiários e a captação de fluxos turísticos,
dinamizando os espaços culturais existentes através de
uma programação em rede, utilizando espaços abertos
e/ou recorrendo a recursos tecnológicos”.

Nas ultimas décadas a noção de “programação cultural


em rede” tem-se estabelecido muito por via do incentivo
dos Planos Operacionais Regionais (nomeadamente no
QREN 2007-2013). A constituição de redes tem
emergido como resposta a oportunidades de
financiamento que criam as condições iniciais, mas que
requerem um trabalho de articulação entre instituições e
agentes culturais com uma base comum de entendimento
e partilha de experiências e projetos agregados “em torno
objetivos programáticos e de uma ideia de cooperação
interinstitucional para a programação e a criação
artísticas”. Foi assim com a rede 5 sentidos, e é assim
também com a Artemrede, por exemplo.

Se programar em rede é uma tarefa pouco dada a


espontaneidades, não se vislumbra a racionalidade nem a
eficácia desta medida se o objectivo principal é realmente
o de viabilizar apoio urgente ao sector artístico – em
situação de desestruturação acelerada. Atingir este
objectivo através da cooperação intermunicipal
(programação em rede) requer um historial de
conhecimento e de experiências anteriores, reivindica a
realização de parcerias entre instituições e agentes
culturais, mas também a definição de objectivos
programáticos comuns, a construção de sinergias, a
afinidade entre as diversas lógicas, a confiança e
filosofias de programação dos directores artísticos dos
equipamentos, entre outras necessidades. Ou seja, não se
percebe como vai ser exequível alcançar três objectivos
tão dispares entre si: i) apoio de emergência; ii)
alavancar o turismo e iii) programar em rede.
Por outro lado, esta proposta do Governo/MC assenta
em hipóteses que o sector da cultura vem condenando há
muito, tais como a turistificação da cultura e a sua
correspondente comodificação/mercantilização. Dito de
outra forma, esta nova medida vem uma vez mais
reforçar propositadamente a confusão entre o sector
nuclear das artes (“core arts field” - KEA 2005) e as
industrias culturais e criativas. Esta mistificação só
interessa a quem pretenda operar a instrumentalização
directa das práticas artísticas no intuito de gerar
impactos económicos e outras externalidades positivas
em mercados dominados pelo individualismo neoliberal -
leia-se consumo de experiências de lazer, de
entretenimento ou escapismo.

A obrigação de nutrir o ecossistema cultural e artístico do


país não dá o direito ao Estado de transformar à força o
sector artístico em animador turístico. Em suma, o papel
do Estado na economia das artes performativas é o de
garantir que a criação artística contemporânea tenha
uma efectiva existência plural e vigorosa,
independentemente da sua vetusta incapacidade para
gerar receitas próprias suficientes, quer pela dificuldade
em competir com a cultura do entretenimento
massificado na captação de públicos, mas também pelo
conhecido efeito da “doença dos custos” no incremento
dos custos de produção.

O pressuposto de que o Estado deve garantir um sistema


de mercado cultural assistido como forma de colmatar as
falhas do mercado livre (oferta-procura) onde este não
funciona - devido à ainda escassa procura de bens
artísticos da cultura cultivada -, fundamenta-se no
entendimento da cultura como um bem público: garantir
a diversidade cultural e criativa; promover a
democratização e a democracia cultural; diminuir as
barreiras e as assimetrias no acesso; criar condições de
apoio à criação artística e à produção cultural; favorecer
a vitalidade cultural dos territórios; o desenvolvimento
do tecido artístico e cultural sustentável, participado e
duradoiro.

A falta de coerência e de visão estratégia não é uma


novidade, se regressarmos ao ano 2000 podemos
verificar como a tão propalada Estratégia de Lisboa e a
disseminação das industrias criativas é ainda uma
miragem na maior parte do território português. Que
políticas culturais existem no âmbito municipal para o
favorecimento das economias culturais e criativas? Na
realidade, apesar de décadas a fio de propaganda,
lamentavelmente, não se verifica a sua existência plena
ancorada nos territórios, porque, tal como noutros
sectores, a mentalidade da governação vigente espelha-se
nas aparências e nas modas lançadas por alguns gurus de
serviço. Richard Florida foi um deles, veio a Portugal
lançar umas dicas sobre a “classe criativa”, e uns anos
depois assumiu que estava errado.

Na prática, apesar da retórica da “programação cultural


em rede” o que vamos ter é uma disputa entre os vários
municípios para a obtenção de maior visibilidade
mediática e de “vantagens competitivas” para a captação
de turistas. Mas se quer apoiar o turismo cultural porque
é que não se apoia diretamente essa indústria,
classificada aliás no domínio das industrias culturais
segundo o estudo de Augusto Mateus (A economia
criativa em Portugal, ADDICT, 2016)?

Se no contexto das organizações artísticas o paradigma


de produção assenta no primado da oferta – ao contrário
da orientação para o mercado ancorado no primado da
procura - por que razão se há-de humilhar o tecido
artístico nesta fase tão deprimente da sua existência, com
a retórica do apoio urgente subordinado a uma função
mercantil?

Ao fim e ao cabo isto é tudo o que o sector cultural não


precisa, o que seria urgente e já vai tarde é a definição de
políticas culturais - e orçamentos condignos -
fundamentadas no valor intrínseco e institucional da
produção cultural e artística. Enquanto que o valor
intrínseco promove o reconhecimento da cultura como
factor inerente ao desenvolvimento estético e cognitivo
dos cidadãos, o valor institucional deve ser medido
enquanto parte da contribuição da cultura (das
instituições públicas) para a criação de uma sociedade
democrática e que funcione corretamente.

Ninguém nega o efeito multiplicador (spill-over) das


actividades culturais e artísticas, mas devemos criticar a
visão neoliberal que insiste em domesticar e
mercantilizar a criação artística para fins de
entretenimento e animação turística das massas. A
avaliação de impacto económico baseia-se no conceito de
“efeito multiplicador”, analise-se pois os efeitos mas sem
subverter as causas. Contabilize-se os gastos dos turistas
em receitas de bilheteira, gastos em restauração, em
alojamento ou em comércio, mas sem instrumentalizar e
colonizar os paradigmas da liberdade de criação artística
e o funcionamento especifico do mundo das artes.

Tal como na natureza, na cultura nada se cria, nada se


perde, tudo se transforma. Respeitem-se pois os
princípios que regem os ecossistemas culturais e
artísticos na sua diversidade e pluralismo. A realização
da democracia cultural exige a existência de condições de
produção e de meios para que a participação cultural seja
mais autónoma e menos dependente de paternalismos e
hegemonias externas. A cultura não tem
obrigatoriamente de ser instrumentalizada para gerar
economias e cidades criativas, antes pelo contrário. A
existência de meios urbanos criativos não se produz se
não existirem amenidades, condições e incentivos
adequados e inteligentes.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Docente na Escola Superior de Teatro e Cinema

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