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  O patolÓGICO

O PATOLÓGICO
Centro Acadêmico Adolfo Lutz - Medicina Unicamp - ano mmix - abril

HOSPITAL UNIVERSITÁRIO repensando


o jÁ
PASSADO
DANIELA DANTAS
p. 8

SAÚDE E
ESPIRITUALIDADE
Veja os textos trazidos por Francis-
co Abramides e Ricardo Kores.
» leia mais, p. 6

PATOCULTURAL
Veja o texto de Henrique Sater
a respeito do vencedor de Me-

O QUE MUDAR NO HC? p. 4


lhor Filme 2009, em Cannes,
“Entre os muros da escola”
» leia mais, p. 3

Prof. Dr. Gastão Wagner de Souza Campos(UNICAMP)

A crise dos Hospitais Universitários p.5


Bernardo Pilotto(HC-UFPR) SPASMO!
SAIU NA MÍDIA p. 4 Confira o poema “O Tombo”, de
Fabricio Costa e o conto “Frag-
mentos” de Eliel Faber.
CAISM(UNICAMP) eleita melhor maternidade pública de SP » leia mais, p. 7 E 8
2  O patolÓGICO abril de 2009

Balancete
MARÇO
Dia Descrição Saldo
Débito Crédito
Saldo Mês Anterior R$ 43.659,54
02/03/2009 Camisetas Calourada R$ 155,50 R$ 43.504,04
02/03/2009 Gastos Vivência Calourada R$ 1.400,00 R$ 42.104,04
02/03/2009 Pagamento Faixas Calourada R$ 273,00 R$ 41.831,04
02/03/2009 Gastos Happy Hour do CAAL R$ 350,00 R$ 41.481,04
02/03/2009 Ônibus Vivência R$ 780,00 R$ 40.701,04
02/03/2009 Gastos Vivência Calourada R$ 159,58 R$ 40.541,46
03/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 700,00 R$ 41.241,46
03/03/2009 Gastos Papelaria R$ 43,84 R$ 41.197,62
03/03/2009 Espuma Calourada R$ 840,00 R$ 40.357,62
03/03/2009 Compra de Carnes Calourada R$ 500,00 R$ 39.857,62
03/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 100,00 R$ 39.957,62
03/03/2009 Patrocínio Calourada R$ 85,00 R$ 40.042,62
03/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 100,00 R$ 40.142,62
03/03/2009 Gastos Choppada Calourada R$ 2.400,00 R$ 37.742,62
03/03/2009 Pagamento Alarme Siemens R$ 315,46 R$ 37.427,16
04/03/2009 Pagamento Funcionários R$ 2.361,80 R$ 35.065,36
04/03/2009 Patrocínio Calourada R$ 60,00 R$ 35.125,36
04/03/2009 Pagamento Camisetas Calourada R$ 623,00 R$ 34.502,36
04/03/2009 Pagamento Ônibus Calourada + Gastos
Churrasco R$ 1.030,00 R$ 33.472,36
04/03/2009 Pagamento Contador R$ 1.400,00 R$ 32.072,36
04/03/2009 Pagamento Manual do Calouro R$ 500,00 R$ 31.572,36
04/03/2009 Gastos Choppada Calourada R$ 1.480,00 R$ 30.092,36
04/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 4.700,00 R$ 34.792,36
04/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 995,00 R$ 35.787,36
05/03/2009 Pagamento Espuma Calourada R$ 840,00 R$ 34.947,36
05/03/2009 Pagamento Camisetas Calourada R$ 350,40 R$ 34.596,96
05/03/2009 Venda de Convites Choppada R$ 810,00 R$ 35.406,96
05/03/2009 Venda de Convites Churrasco R$ 4.572,50 R$ 39.979,46
05/03/2009 Reembolso COBREM R$ 855,00 R$ 39.124,46
06/03/2009 Pagamento Telefone Telefônica R$ 498,76 R$ 38.625,70
06/03/2009 Pagamento Tenda Calourada R$ 1.200,00 R$ 37.425,70
06/03/2009 Compra de Carnes Calourada R$ 855,00 R$ 36.570,70
06/03/2009 Gastos Churrasco Calourada R$ 3.055,00 R$ 33.515,70
06/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 150,00 R$ 33.665,70
06/03/2009 Gastos Almoço Calourada R$ 15,00 R$ 33.650,70
06/03/2009 Venda de Convites Churrasco R$ 120,00 R$ 33.770,70
06/03/2009 Venda de Canecas Oktober R$ 20,00 R$ 33.790,70
09/03/2009 Gastos Churrasco Calourada R$ 2.180,40 R$ 31.610,30
09/03/2009 Gastos Choppada Calourada R$ 1.097,40 R$ 30.512,90
09/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 400,00 R$ 30.912,90
09/03/2009 Reembolso COBREM R$ 1.995,00 R$ 28.917,90

JOGO RÁPIDO
09/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 410,00 R$ 29.327,90
nenhuma conclusão sem antes discutirmos 10/03/2009 Provedor de Internet R$ 9,90 R$ 29.318,00

todos como anda das pernas nosso HC e 10/3/209


10/03/2009
Gastos Churrasco Calourada
Reembolso Reunião da Regional
R$ 315,00
R$ 45,00
R$ 29.003,00
R$ 28.958,00
quais as possibilidades de melhora. Assim,
Foca (43) - OMBUDSMAN
10/03/2009 Reembolso Reunião da Vivência R$ 15,00 R$ 28.943,00

é importante que esse seminário seja bem 10/03/2009


11/03/2009
Venda de Pasta CASU
Financiamento Funcamp
R$ 5,00
R$ 1.650,00
R$ 28.948,00
R$ 30.598,00

É com prazer que falo novamente a todos divulgado e que tenha bastante público, 11/03/2009 Reembolso COBREM R$ 286,00 R$ 30.312,00
11/03/2009 Gastos Choppada Calourada R$ 140,00 R$ 30.172,00
da Med UNICAMP. E desta vez vou direto ao tendo-se em vista que será discutido o nosso 12/03/2009 Assinatura Correio Popular R$ 44,90 R$ 30.127,10

ponto, sem enrolações. A qualidade do texto futuro acadêmico. 13/03/2009


13/03/2009
Pagamento Mochilas Calourada
Venda de Kit do Calouro
R$ 2.173,60
R$ 100,00
R$ 27.953,50
R$ 28.053,50
desta coluna depende fundamentalmente da Do mais, só me resta destacar a repercussão 13/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 100,00 R$ 28.153,50

qualidade e variedade dos temas abordados do texto anterior do Ombudsman, atingindo 13/03/2009
13/03/2009
Venda de Kit do Calouro
Patrocínio Calourada
R$ 100,00
R$ 266,67
R$ 28.253,50
R$ 28.520,17
nos outros textos d’O Patológico e, como sou esferas mais altas da nossa faculdade. Ora, 13/03/2009 Patrocínio Calourada R$ 175,00 R$ 28.695,17
13/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 50,00 R$ 28.745,17
o último a escrever neste periódico, vejo- creio que transmiti não só a minha opinião 13/03/2009 Patrocínio Calourada R$ 90,00 R$ 28.835,17
me hoje diante de um dilema: sobre o que sobre a semana da calourada e o trote, mas de 13/03/2009 Patrocínio Calourada R$ 30,00 R$ 28.865,17
13/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 50,00 R$ 28.915,17
escrever? Esta edição contém vários textos muitos outros (quem sabe esse seja o motivo 16/03/2009 Tarifa Conta Corrente R$ 37,00 R$ 28.878,17
poéticos e, por que não, literários, mas não da preocupação), por isso sempre deixo claro 16/03/2009 Pagamento Patológico R$ 448,36 R$ 28.429,81
16/03/2009 Gastos ROEX R$ 1.434,00 R$ 26.995,81
encontro bem o mote central de tudo isso, que é preciso ainda discussões efetivas sobre 16/03/2009 Pagamento Camisetas Calourada R$ 822,30 R$ 26.173,51

imaginando ser a reforma dos Hospitais o assunto e outros pontos de vista, como o 16/03/2009 Reembolso COBEM e Reunião da Regional R$ 185,00 R$ 25.988,51
16/03/2009 Pagamento Transporte Funcionário R$ 100,00 R$ 25.888,51
Universitários. da Dani, colocados na mesa para que todos 17/03/2009 Reembolsos Calourada R$ 73,00 R$ 25.815,51

Bom, sendo assim, é importante tenham oportunidade de formar sua própria


17/03/2009 Reembolso COBEM R$ 160,00 R$ 25.655,51
17/03/2009 Reembolso Reunião da Regional R$ 48,20 R$ 25.607,31
rediscutirmos a estrutura de nosso HC, as opinião baseados em suas experiências e não 17/03/2009
Compra de refrigerantes Grupo de
R$ 20,00 R$ 25.587,31
Discussão
condições que oferece a seus funcionários, só pelo que é dito por um grupo de pessoas, 17/03/2009 Venda de Bebidas R$ 10,00 R$ 25.597,31
pacientes e alunos de graduação e pós- seja ele de “esquerda, direita ou centro”. 17/03/2009 Reembolso Reunião da Regional R$ 45,00 R$ 25.552,31
18/03/2009 Venda de Kit do Calouro R$ 60,00 R$ 25.612,31
graduação de vários cursos da saúde. Mas Calouros, tenham uma opinião sobre isso, 20/03/2009 Patrocínio Calourada R$ 50,00 R$ 25.662,31

não acho que uma discussão adequada seja ela qual for, e não se deixem levar pela 20/03/2009 Transferência para a Poupança R$ 380,00 R$ 25.282,31
20/03/2009 Pagamento Telefone Embratel R$ 72,23 R$ 25.210,08
sobre isso deva resumir-se a um texto do experiência ou discurso de outrem, inclusive 20/03/2009 Reembolsos Calourada R$ 355,00 R$ 24.855,08

Prof. Gastão e de um outro trabalhador(...?) pelo meu, que não sou o dono da verdade 20/03/2009
23/03/2009
Compra de Passagem para Roex
Tarifa Extrato Inteligente
R$ 165,20
R$ 3,90
R$ 24.689,88
R$ 24.685,98
da UFPR, sem outros pontos de vista sobre o mas vivo a faculdade há 5 anos, do mesmo 26/03/2009 Inscrição ROEX R$ 120,27 R$ 24.565,71

assunto, de pessoas com opiniões diferentes modo que outros que estão nesse meio há 26/03/2009
27/03/2009
Assinatura Folha da Manhã
Reembolso NUDU
R$ 90,50
R$ 326,00
R$ 24.475,21
R$ 24.149,21
das apresentadas. Esses dois, no entanto, muito mais tempo que eu têm opiniões 27/03/2009 Compra de Lanche Grupo de Discussão R$ 30,00 R$ 24.119,21

são de fundamental importância para o totalmente discordantes. Avaliem como foi


Confraternização de Despedida do
27/03/2009 R$ 56,45 R$ 24.062,76
Patrulheiro

entendimento do momento que passam a calourada e agora têm outra oportunidade 31/03/2009
31/03/2009
Impressão do Livro Caixa
Pagamento Alarme Siemens
R$ 39,00
R$ 309,08
R$ 24.023,76
R$ 23.714,68
HCs, inclusive o nosso, mas são insuficientes na Pré-Intermed. Defendam sua opinião 31/03/2009 Financiamento R$ 1.252,10 R$ 24.966,78

quando se tem em vista que este é o tema e saibam que a Medicina UNICAMP não é 31/03/2009 Pagamento Anual Hospedagem Site
Saldo Final do Mês
R$ 191,40 R$ 24.775,38
R$ 24.775,38
central do jornal e que, em última instância, igual para todos, mas é feita pelo empenho e
eles foram apenas para “levantar a bola” dedicação de calouros e veteranos, sejam eles
Poupança do CAAL R$ 17.232,82

para um seminário que será feito sobre pró ou contra o “trote”, tenha ele a definição Saldo Total do CAAL R$ 42.008,20

o assunto ainda este mês. Não se tirará que for. Em suma, sejam felizes... e ponto!
  O patolÓGICO abril de 2009 3

a crítica pela crítica


“Covarde sei que me podem chamar foi Adolfo Lutz, aquele que dá nome ao nosso Enganam-se aqueles que acreditam que ser
Porque não calo no peito dessa dor CA? um bom estudante de medicina limita-se a fre-
Um centro acadêmico é um órgão represen- quentar as aulas e estudar pra valer. Enquanto
Atire a primeira pedra, ai, ai, ai
tativo dos estudantes de um curso superior. estamos dentro do hospital, da sala de aula ou
Aquele que não sofreu por amor Neste ano, nós, honrosos membros da Medici- de nossos quartos, o mundo continua a girar,
na Unicamp, elegemos a chapa Roda Viva – úni- e não é possível manter-se alheio a tudo isso.
Eu sei que vão censurar Sendo assim, as horas podem e devem ser uti-
O meu proceder lizadas para exercitar nossos corpos, agradar
Eu sei, mulher, nossas almas e atualizar nossas mentes.
Além da crise mundial, do colapso ambiental
Que você mesma vai dizer
e da exploração espacial, muitos outros temas
Que eu voltei pra me humilhar estão sendo discutidos atualmente: a reforma
É, mas não faz mal do nosso currículo, o exame do Cremesp, o
Você pode até sorrir SUS, o movimento estudantil, etc. Para aqueles
Perdão foi feito pra gente pedir”* que acham que estes últimos assuntos não lhe

P
dizem respeito ou que formar uma opinião so-
ara julgar algo ou alguém, não bas- bre eles é caretice/perda e tempo, é complica-
ta considerar que a qualidade da- do compreender a importância de um centro
quilo/daquele deixou a desejar; é acadêmico...
preciso, principalmente, ter conhe- Podemos usar as pedras que nos são
cimento o bastante sobre o que se fala. Atire ca candidata durante a eleição –, formada por atiradas como material para construção de
a primeira pedra aquele que não condenou o cerca de trinta alunos, a maioria dos segundo e uma estrutura forte, e não apenas esquivar-se
que desconhecia. terceiro anos da graduação. dos arremessos ou tentar lançar as pedras de
Um dos grandes alvos de críticas (negativas) É fácil falar que o CAAL “é uma bosta”. Mas volta.
em nosso meio é o CAAL. Mas quem de nós en- se essa é a opinião de muitos, o que eles têm a
tende o que é um centro acadêmico, quais suas sugerir à gestão atual? O que eles esperam de Ximênia Souza(XLIV)
* Atire a primeira pedra, por Ataulfo Alves e Mário Lago
funções? Antes disso, quantos sabem quem um centro acadêmico?

Patocultural
Entre os muros da escola possui trilha sonora, não possui
iluminação artificial, foi gravado
um drama banal, porém, conclui
sendo uma importante elucida-
hierárquica e ditadora da relação
(não)pedagógica entre os inte-

V
apenas com 3 câmeras, se passa ção do ensino público na Europa grantes de uma sala de aula.
encedor da Palma
inteiramente dentro de uma esco- e também no resto do mundo. Não há herói, nem vilão, e mes-
de Ouro no Festival
la e todos os atores, além de ama- Durante o filme, é com muita mo o professor protagonista, que
de Cannes, em 2008,
dores, possuem o mesmo nome sutileza e profundidade que as muitas vezes tenta ser diferencia-
“Entre os muros da es-
do e quebrar a lógica já consagra-
cola” é de longe o filme mais real
da no método de ensino comum,
que já assisti. Baseado no livro de
não é um professor bem visto pe-
mesmo nome, de François Bégau-
los alunos, sendo alvo de muitas
deau, que inclusive protagoniza o
críticas e desrespeito, que é inclu-
longa, faz do que seria um docu-
sive mútuo(o professor chega a
mentário complexo e cansativo,
chamar duas alunas de “vagabun-
128 minutos de muita intensida-
das”, durante uma discussão).
de cinematográfica.
O mais importante para o fil-
Longe de um filme hollywoo-
me é como a vida daqueles ado-
diano, no estilo “Mentes Perigo-
lescentes se converge dentro dos
sas”, com alunos inicialmente
muros da escola e como as experi-
indisciplinados e no final cons-
ências externas necessariamente
cientizados e próximos da figu-
implicam no aprendizado.
ra do professor, o filme não tem
Não espere um filme edifica-
por objetivo te convencer que há
dor como “Sociedade dos Poetas
exceções(bem no estilo clássico
Mortos”, não era intenção do dire-
“filme de professor”), mas quer
tor mostrar que há formas do nos-
te mostrar a realidade do ensino
so atual sistema de ensino, prin-
público em uma França multirra-
cipalmente público, chegar à tão
cial, multiétnica, eminentemente
sonhada construção coletiva do
confusa em suas origens afro-eu-
da vida real. “briguinhas” entre aluno e profes- conhecimento. O filme não quer
ropéias.
Conflitos étnicos, sociais e cul- sor e aluno com aluno não tentam mostrar a possibilidade, porém a
O diretor Laurent Cantet esco-
turais são mostrados em um con- mostrar o lado certo, da “boa mo- realidade.
lhe minunciosamente a estrutura
texto, que inicialmente parece ral”, e sim na mais crua realidade
de filmagem do longa: o filme não Henrique Sater(Abrealas)- XLV
hospital UNIVERSITÁRIO
4  O patolÓGICO abril de 2009

O que mudar no HC da Unicamp? incluindo critérios de risco e de encaminhamento. Personalizar a relação


entre especialistas com o método do Apoio Matricial (os alunos que cur-

O
saram SC no quinto ano sabem do que estou falando). Os ambulatórios
s hospitais brasileiros necessitam reformar-se. Mudar o mo- precisam, urgente, de uma reforma radical, transformar as dezenas de
delo clínico e de gestão. Nosso HC é considerado um hospi- serviços em 20 ou 30 unidades integradas e dinâmicas: com capacidade
tal com “excelência”. O conhecimento acumulados de suas para realizar procedimentos diagnósticos e terapêuticos, lidar com clien-
equipes e a incorporação razoável de tecnologia justificam tela adscrita, coortes de pacientes e combinar clínica com prevenção.
essa classificação. Entretanto, mesmo assim, há problemas. Pesquisa re- É urgente consolidar um modelo de gestão democrático, que au-
cente no INCOR/USP, com 1800 pacientes, demonstrou que, se a quali- mente a comunicação entre os profissionais e destes com familiares e
dade do procedimento cirúrgico era adequada no serviço público (SUS), pacientes. Colegiados, equipes interprofissionais. Ao mesmo tempo,
perdia-se 38% a mais de pacientes do que outros serviços congêneres contudo, criar uma cultura de avaliar resultados das intervenções, bem
durante o seguimento (follow up). Acredito que teríamos resultado se- como de se fazer a gestão com base em metas, tudo isto de forma par-
melhante se aplicássemos o estudo em vários dos programas em nosso ticipativa, envolvendo as equipes responsáveis por cada caso. Outro de-
HC. Em nosso hospital há filas (dificuldade de acesso) em vários serviços, safio é a reforma organizacional do HC, mediante a criação de Unidades
ao mesmo tempo há indicadores de ociosidade no Centro Cirúrgico, mé- de Produção, novos departamentos com composição interdisciplinar
dia de permanência alta em enfermarias, etc. Há utilização excessiva de e comando único por cada área de trabalho: oncologia, saúde mental,
exames e falta de recursos. Os custos, provavelmente, estarão acima de pronto-socorro, terapia intensiva, etc.
outros hospitais semelhantes em outros países. Durante a formação dos Acredito, com base em experiências concretas (outros hospitais, em
alunos há dificuldade em horizontalizar o atendimento (acompanhar todo o mundo, que se reorganizaram segundo estas diretrizes, tem al-
um caso em seus vários estádios), pela fragmentação do currículo e do cançado resultados surpreendentes), que estas mudanças terão mais
modelo de atendimento. impacto e são mais urgentes do qualquer alteração do estatuto do HC:
Urge enfrentar estes desafios. Para isto há que se reorganizar a clínica. devolver o HC à Secretaria de Estado não promoverá estas reformas au-
A principal medida é instituírem-se mecanismos claros de responsabi- tomaticamente. Somente alterará a relação entre FCM/Unicamp e o HC.
lização clínica, definir quem se encarrega de “quem” e do “quê”: como Aliás, esse é um tema que merece aprofundamento: debater a relação
organizar o atendimento para que nenhum paciente do HC esteja sem entre HC e Universidade.
médico ou profissional responsável pelo caso (definir profissional de re- Trata-se de um momento delicado em nossa vida institucional, que
ferência para cada caso)? Valorizar o vínculo médico e paciente. Para isto, somente será levado a bom termo, se docentes, alunos e técnicos tiver-
organizar equipes de diaristas (que atendam os mesmos casos ao longo mos uma postura democrática e generosa, colocando o paciente e a
da semana) em enfermarias, ambulatório, UTI, PS, etc. Envolver equipe, saúde acima de nossos interesses, vaidade e outras idiossincrasias.
residentes e alunos com a discussão e elaboração de Projetos Terapêuti- Prof. Dr. Gastão Wagner de Sousa Campos, Medicina Preventi-
cos Singulares para os casos complexos, discutir protocolos ampliados – va e Social FCM/UNICAMP

Saiu na mÍDIA
CAISM é eleita melhor Entre as maternidades o Caism/Hospital da Mulher conseguiu a nota média
8,904, seguido pelo Hospital Universitário de São Paulo, com 8,843. Todos os 15
hospitais receberam uma placa especial da Secretaria, em reconhecimento ao ní-

maternidade pública de SP
vel de excelência do atendimento que prestam à população.
O “provão” do SUS tem como objetivo monitorar a qualidade de atendimen-
to e a satisfação do usuário, reconhecer os bons prestadores, identificar possíveis

O
irregularidades e ampliar a capacidade de gestão eficiente da saúde pública. Na
Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher/Caism, o Hospital da pesquisa foram avaliados o grau de satisfação com o atendimento recebido pelos
Mulher da Unicamp, conquistou ná última sexta-feira (6) o primeiro pacientes, nível do serviço e dos profissionais que prestaram o atendimento, qua-
lugar entre os melhores hospitais-maternidade públicos do Estado lidade das acomodações e tempo de espera para a internação. Para a classificação
de São Paulo na avaliação dos usuários do (Sistema Único de Saúde). das maternidades também foram incluídas perguntas específicas sobre humani-
A premiação foi entregue pelo governador José Serra ao diretor-executivo do zação do parto.
Caism-Hospital da Mulher, professor Oswaldo Grassioto. Para o diretor-executivo “Esses hospitais são motivo de orgulho para o SUS paulista, e quem atesta isso
o prêmio reflete uma política de qualidade e atenção à saúde da mulher da insti- são os próprios usuários. Essa pesquisa de satisfação foi fundamental para avaliar
tuição que permeia todos os serviços prestados pelo hospital. “Temos certeza que o que vem sendo bem feito na área de assistência hospitalar e o que precisa ser
o impacto das atividades assistenciais do Caism são extremamente pujantes para aperfeiçoado. É um instrumento de gestão extremamente im-
a região de Campinas, o interior do Estado e até para outros portante”, afirma o secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto
estados”, comenta Grassioto. Barradas Barata.
Considerada a maior unidade hospitalar de atenção à As cinco melhores maternidades
saúde da mulher do interior do Estado de São Paulo, o Caism Hospital da Mulher/Caism (Centro Integral de Atendimento
dispõe de 139 leitos distribuídos entre as sub-especialidades à Saúde) Campinas – média geral 8,904
da Obstetrícia, Neonatologia, Ginecologia, Oncologia Gineco- Hospital Universitário: São Paulo – média geral 8,843
lógica e Mastologia, por onde já passaram mais de 1,5 milhão Hospital Estadual de Vila Alpina: São Paulo – média geral
de pacientes. Em 23 anos de atividades, o Caism/Hospital da 8,800
Mulher já realizou mais de 60 mil partos, a maioria de risco. Hospital Santa Marcelina: São Paulo – média geral 8,717
O evento promovido pela Secretaria de Estado da Saúde Hospital Geral de Pedreira: São Paulo – média geral 8,714
revelou em uma pesquisa, pela primeira vez na história, o Os dez melhores hospitais do SUS de São Paulo
ranking dos 10 melhores hospitais e as cinco melhores ma- Hospital do Rim e Hipertensão: São Paulo – média geral
ternidades públicas do Estado de São Paulo na avaliação dos 9,349
usuários do SUS. O levantamento ouviu 60,2 mil pacientes que passaram por in- Hospital das Clínicas: Ribeirão Preto – média geral 9,344
ternações e exames em cerca de 500 estabelecimentos de saúde conveniados à Hospital das Clínicas – Unidade Materno Infantil: Marília – média geral 9,342
rede pública paulista nos meses de novembro e dezembro de 2007 e abril e junho Hospital Amaral Carvalho: Jaú – média geral 9,334
de 2008. Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia: São Paulo – média geral 9,332
Foram eleitos vencedores os hospitais que tiveram maior pontuação média en- Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (Centrinho): Bauru – média
tre as unidades que tiveram mais de 100 respostas encaminhadas pelos usuários. geral 9,330
Os pacientes receberam o formulário da pesquisa pelo correio, depois do trata- Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas: São Paulo – média geral
mento a que se submeteram, e puderam responder gratuitamente pela internet, 9,299
carta-resposta ou por telefone. Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC): São Paulo – média geral
O primeiro colocado na categoria internação foi o Hospital do Rim e Hiperten- 9,296
são, na capital paulista, com nota média de 9,349. Em segundo lugar, com nota Hospital Estadual de Vila Alpina: São Paulo – média geral 9,289
9,344, ficou o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, ligado à Secretaria, e, em Hospital Beneficência Portuguesa: São Paulo – média geral 9,288
terceiro, a unidade materno-infantil do Hospital das Clínicas de Marília, com nota [9/3/2009] - http://www.unicamp.br/unicamp/divulgacao/2009/03/10/caism-e-a-melhor-mater-
9,342 (veja lista completa abaixo). nidade-publica-do-estado-de-sao-paulo
  O patolÓGICO abril de 2009 5

A crise dos Hospitais Universitários universidades, já que o Ministério da Educação (MEC) não considera a função de
“assistência” como sendo papel do MEC. Essa proposta surgiu no Projeto de Lei

D
7200/05, chamado de “Reforma Universitária”, que hoje se encontra em tramitação
esde a metade dos anos 90, existe um debate, oriundo do Ministério no Congresso.
da Educação e de alguns “especialistas em gestão da saúde”, de que Em 2007, o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG) apresenta
os Hospitais Universitários (HU’s) estão em uma crise e que é necessá- a idéia de criação da “Fundação Estatal de Direito Privado”, entidades que fariam a
rio mudar radicalmente o formato da sua gestão. gestão da saúde, previdência, turismo, assistência social, etc. Ambas as propostas
Sendo assim, é necessário fazer um histórico da origem desta “crise” e as propos- foram rejeitadas pelas entidades que se articulam na defesa do projeto histórico
tas dos trabalhadores e usuários do SUS para que isto seja superado. do SUS e a ducha de água fria se deu na Conferência Nacional de Saúde no fim de
Origem dos HU’s 2007, que rejeitou por maioria de delegados a proposta da Fundação Estatal.
Até a década de 80, os hospitais universitários tinham a única missão de serem Para Peterson de Paula Pereira, procurador da República, a proposta de Funda-
hospitais-escola. O foco do atendimento eram as pessoas que não eram credencia- ção Estatal de Direito Privado fere o artigo 37 da Constituição Federal. Ele considera
das no INAMPS (Instituto Nacional de Medicina e Previdência Social). Nesta época, que o regime de direito público é mais apropriado para o Estado brasileiro do que
só aqueles que tinham carteira-assinada eram atendidos pelo INAMPS. o regime de direito privado. Neste sentido, a Fundação seria a inversão da lógica
A luta do movimento pela Reforma Sanitária influenciou na construção da garantida na Constituição: ao invés do setor privado atuar em complementação,
Constituição de 1988 e a saúde passou a ser um direito de todos e dever do Estado. seria o setor público que atuaria desta forma.
Dessa forma, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem como uma de suas diretrizes a Por conta da polêmica gerada pelo Projeto de Lei das Fundações Estatais de Di-
universalidade, eqüidade, integralidade, gratuidade e controle social. Os HU’s a par- reito Privado, o governo federal resolveu continuar o processo de desvinculação
tir de então passam a integrar a rede de assistência do SUS e a ser referência para a dos hospitais através de portarias, com pequenas medidas, como a recente Portaria
atenção secundária e terciária, além da função de ensino e assistência. nº4 do MEC, editada em 30 de abril de 2008. Essa portaria autoriza os Hospitais
O financiamento do HU seria feito então por 4 partes. Cada procedimento ali Universitários a criarem Unidades Pagadoras próprias para seus recursos humanos,
executado deveria ser assim financiado: o recurso humano pago pelo Ministério da sendo um primeiro passo para esta idéia da desvinculação.
Educação, a estrutura do hospital paga pelo Ministério da Saúde, a pesquisa embu- Conseqüências
tida naquele procedimento paga pelo Ministério de Ciência e Tecno- Caso essas propostas sejam implementadas, as conseqüên-
logia e o procedimento em si pago pela prefeitura (com dinheiro cias a curto e médio prazo para trabalhadores, usuários e estu-
que é recebido do Ministério da Saúde). dantes são graves.
Porém, esse financiamento vai ser quebrado em diversos pon- Trabalhadores do SUS: a proposta de contratação via CLT (re-
tos: gime privado) é prejudicial aos trabalhadores por conta da pre-
1)Em 1996, é congelado os valores da tabela de procedimentos cariedade deste contrato e da instabilidade do contrato. Longe
do SUS; de garantir qualidade, esse sistema permite alta rotatividade de
2)A falta de concurso público para contratação, pelo MEC, dos funcionários, que é claramente prejudicial ao serviço e caro ao
recursos humanos vai gerar uma enorme terceirização. Os custos serviço público, já que há todo momento são necessários novos
da terceirização são pagos pelo dinheiro que deveria ser usado na treinamentos.
estrutura. Hoje, segundo Arquimedes Ciloni, presidente da ANDI- Usuários do SUS: uma proposta que pode gerar leitos pri-
FES , quase 45% do financiamento é usado para pagamento de vados dentro de um hospital público é claramente prejudicial
pessoal terceirizado (celetista) e são necessárias 5 mil novas vagas aos usuários do SUS, já que acarretaria ainda mais demora nos
para quadro técnico-administrativo; procedimentos que o hospital realiza. Teríamos a situação das
3)Com a diminuição do financiamento via governo federal, os “duas portas”: uma dos convênios privados, onde o atendimen-
Hospitais buscam mais dinheiro via SUS, assumindo para isso me- to é rápido e outra porta do SUS, sucateada e demorada. Essa
tas impossíveis de serem cumpridas. Começa também a busca de situação, infelizmente, já existe em importantes hospitais, como
financiamento através de doações (Amigos do HC, conta de luz, o Hospital Universitário Pedro Ernesto da UERJ e o Hospital Uni-
etc.) e demais fontes de financiamento não-estatais. versitário Clementino Fraga Filho da UFRJ.
Desta forma, fica evidente que nos últimos anos, com a crise da falta de finan- Estudantes da área da saúde: um prejuízo imediato seria, devido a falta de fun-
ciamento do SUS, os HU’s, por conta da sua grande capacidade e qualidade, ficaram cionários, um aumento da exploração dos estudantes e residentes da área. Isso hoje
sobrecarregados. Assim, a crise colocada é uma crise de financiamento e de uma já ocorre e fruto disso foram duas greves de residentes nos últimos anos, que de-
grande dívida acumulada por estes hospitais. Para a ANDIFES, a dívida dos hospitais nunciavam jornadas de até 80 horas semanais. Além disso, a desvinculação tiraria
seria, em 2003, de R$303 milhões e, para o MEC/MS, seria de R$230 milhões. Segun- dos estudantes um ótimo campo de estudo: ao terem de estabelecerem “contratos
do a ANDIFES, em outubro de 2007 os Hospitais vivem uma situação de “equilíbrio de gestão” com universidades, os hospitais poderiam estabelecer melhores con-
estável” com a dívida chegando a R$440 milhões. É sempre válido lembrar que em tratos com universidades particulares, deixando os estudantes das universidades
2007 os gastos governamentais com a dívida pública, externa e interna, foram de federais a “ver navios”.
R$237 bilhões. No mesmo ano, o investimento em saúde foi de R$40 bilhões . Propostas
Ainda assim, os Hospitais Universitários, que representam 2,3% dos hospitais, Fica claro então que não existe solução milagrosa para a atual crise dos Hospitais
respondem por 10% dos leitos e 12% das internações . Universitários. É preciso muito mais do que simplesmente mudar o “ente jurídico” e
Por conta da dívida e do quadro acima apresentado, hoje os Hospitais Universi- o modelo de gestão atual.
tários apresentam: quadro de servidores insuficientes, fechamento de leitos e ser- É fundamental que seja garantido um maior financiamento público para os
viços, sucateamento, contratação de pessoal via fundação de apoio (terceirizados, Hospitais e necessário que os demais prestadores da rede de saúde sejam fortaleci-
quarteirizados e estagiários) e a subutilização da capacidade instalada para alta dos, para que não haja sobrecarga em cima dos Hospitais Universitários.
complexidade. Neste momento, é preciso que os setores historicamente incluídos na defesa do
Propostas “alternativas” SUS estejam de novo lado a lado, tanto para rejeitarem as atuais propostas gover-
Diante deste quadro problemático, é quase consenso entre trabalhadores e namentais como também para formular soluções e proposições ao atual sistema,
gestores que é necessário mudar a situação atual. Porém, as propostas dos gestores que se encontra sim num momento de crise.
vêm basicamente exigir que haja flexibilidade para captar recursos onde for possí-
vel e necessário, mesmo que isso “seja caro ao SUS”. Um exemplo foi a proposta feita Bernardo Pilotto é trabalhador do Hospital de Clínicas da UFPR ediretor do
no ano de 2001, que previa a venda de 25% dos leitos dos hospitais universitários. Sinditest-PR – Sindicato dos Trabalhadores da UFPR, UTFPR e FUNPAR/HC.
Esta privatização geraria ainda mais sucateamento para as áreas do hospital que ANDIFES é a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, reúne os reitores das universida-
des federais e dirigentes dos CEFET’s. Portanto, esses dados são relativos aos hospitais universitários federais e foram colocados no
continuassem públicas. A proposta foi barrada depois de uma greve de mais de seminário “Hospitais Universitários: Concepção, Papel e Missão”, realizado em Brasília, em 29 e 30 de outubro de 2007, promovido
100 dias, organizada por trabalhadores técnico-administrativos, estudantes e do- pelo Ministério da Educação e pela FASUBRA-Sindical, entidade que representa os trabalhadores dos hospitais universitários.
Dados do Orçamento Geral da União (Sistema Access da Câmara dos Deputados – 31/12/2007). Esses dados podem ser ob-
centes. servados no site www.divida-auditoriacidada.org.br .
Outra idéia surgida foi de que houvesse uma desvinculação dos Hospitais das Dados da ABRAHUE – Associação Brasileira dos Hospitais Universitários e de Ensino.
6  O patolÓGICO abril de 2009

Saúde e Espiritualidade
N
a atualidade, nos atemos à máxima de buscar as respostas em não?
fontes confiáveis, de preferência indexadas, deixando de lado Por que a ciência ainda tenta andar na contramão da espiritualidade (e
algumas idéias tidas como não religião), se há evidências (que serão retoma-
fantasiosas ou mágicas... é a das em outra oportunidade) de sua existência?
era da informação. O nosso curso – e fu- Não seria mais fácil absorver aquilo que é plausí-
tura profissão – caminha a passos largos vel, lógico e complementar às teorias científicas,
nessa vertente, com crescentes pesquisas unificando os dois tipos de estudo? Sem dogmas,
científicas e exclusão de qualquer prática nem imposições, mas com a utilização da razão.
não contida em uma boa publicação da Lembremos que espiritualidade é um concei-
área médica. to muito mais abrangente e menos dogmático
É claro que os avanços alcançados pela que religião. E também que está enraizada na
ciência, em especial na área da saúde, fo- humanidade, desde povos primitivos até os atu-
ram e são fundamentais para a melhoria ais. Não é de se pensar que algo que está dentro
na sobrevida e qualidade de vida. A histó- do homem é, de fato, verdade?
ria da saúde nos mostra isso. Mas algumas Voltando à nossa futura profissão... parece
explicações permanecem obscuras: por que o ritmo de estudo e trabalho (e treinos, fes-
que foi justamente aquela pessoa que de- tas etc.) impedem uma reflexão mais profunda
senvolveu aquele tipo de câncer? O que sobre os conceitos e relações espirituais. Mas
fazer quando não há mais esperanças de somos investigadores, curiosos pela verdade.
cura? Por que motivo aquela criança em Devemos então procurá-la de fato, onde quer
especial nasceu com malformação, sendo que esteja e, para isso, torna-se necessária a dis-
que não havia fatores de risco? E as per- cussão espiritual, transcendental. Assim podere-
guntas não param por aí. mos obter as respostas que parecem distantes
Nessas situações limites da nossa futu- ou resultado do acaso. Mas que acaso? Mesmo
ra profissão, a espiritualidade apresenta um gênio da ciência, como Einstein, dizia que o
respostas e soluções. É aquele jargão: pare acaso não existe, que há leis que regulam todo o
de procurar as respostas fora de você, pro- universo. Leis originárias de uma força maior, so-
cure dentro de si, na sua espiritualidade! mente acessada se o ser humano se voltar para
Alguns dirão que “as respostas estão na seu lado espiritual.
genética”, ou “foi o acaso que levou a tal quadro”, ou “a ciência saberá um
dia”. Mas, se existe uma explicação que leve em consideração a espirituali-
dade, começam a contrariá-la, pois não tem respaldo científico. Paradoxal, Francisco Barucco Abramides - Chicão(XLV)

Um dia, um anjo passou por mim...


A experiência de profissionais que vivenciaram todo o processo de formação e Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus he-
atuação na medicina são bastante valiosos do ponto de vista do nosso entusiasmo róis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei: - E o que morte
e aprendizado. Aqui gostaria de divulgar o trabalho de um colega com toda a sua representa para você, minha querida?
experiência e vivência em um campo bastante complexo da medicina: a oncologia Olha tio, quando agente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nos-
pediátrica. so pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não
Ricardo (Sylar) XLVI é?
(Lembrei minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, costumavam dormir
Um dia, um anjo passou por mim... no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim).
No inicio da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar crianças, me - É isso mesmo, e então?
entusiasmei com a oncologia infantil. Tinha, e tenho ainda hoje, um carinho mui- - Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos, nosso
to grande por crianças. Elas nos enternecem e nos surpreendem com suas ma- pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?
neiras simples e diretas de ver o mundo, sem meias verdades. - É isso mesmo querida, você é muito esperta!
Nós médicos somos treinados para nos sentirmos “deuses”. Só que não o so- - Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu pai vem
mos! Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim, se bem dosado. É me buscar. Vou acordar na casa dele, na minha vida verdadeira!
este sentimento que nos impulsiona, que nos ajuda a vencer desafios, a se re- Boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anji-
belar contra a morte e a tentar ir sempre mais além. Se mal dosado, porém, este nho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grande espiri-
sentimento será de arrogância e prepotência, o que não é bom. Quando perde- tualidade desta criança fiquei parado, sem ação.
mos um paciente, voltamos à planície, experimentamos o fracasso e os limites - E minha mãe vai ficar com muitas saudades minha, emendou ela.
que a ciência nos impõe e entendemos que não somos deuses. Somos forçados Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço, per-
a reconhecer nossos limites! guntei ao meu anjo:
Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei - E o que saudade significa para você, minha querida?
meus primeiros passos como profissional. Nesse hospital, comecei a freqüentar - Não sabe não tio? Saudade é o amor que fica!
a enfermaria infantil, e a me apaixonar pela oncopediatria. Mas também come- Hoje aos 53 anos de idade, desafio qualquer um dar uma definição melhor,
cei a vivenciar os dramas dos meus pacientes, particularmente os das crianças, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica!
que via como vítimas inocentes desta terrível doença que é o câncer. Um anjo passou por mim... Foi enviado para me dizer que existe muito mais
Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o entre o céu e a terra, do que nos permitimos enxergar. Que geralmente, absolu-
sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim. tizamos tudo que é relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto
Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada, porém, por relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência.
2 longos anos de tratamento os mais diversos, hospitais, exames, manipulações, Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas me deixou uma grande lição, vin-
injeções, e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias do de alguém que jamais pensei, por ser criança e portadora de grave doença, e
e radioterapia. Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas ve- a quem nunca mais esqueci. Deixou uma lição que ajudou a melhorar a minha
zes, mas não via fraqueza em seu choro. Via medo em e seus olhinhos algumas vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus
vezes, e isto é humano! Mas via confiança e determinação. Ela entregava o bra- valores. Hoje, quando a noite chega e o céu esta limpo, vejo uma linda estrela a
cinho à enfermeira, e com lágrimas nos olhos dizia: - Faça tia, é preciso para eu quem chamo “meu anjo”, que brilha e resplandece no céu. Imagino ser ela, fulgu-
ficar boa. rante em sua nova e eterna casa.
Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que ensinastes, pela
no quarto. Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir uma resposta que ainda hoje ajuda que me destes. Que bom que existe saudade! O amor que ficou eterno.
não consigo contar sem vivenciar profunda emoção. Meu anjo respondeu: - Tio,
disse-me ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corre- Dr. Rogério Brandão
dores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas Médico Oncologista Clínico
eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida! Recife/PE
SPASMO!
  O patolÓGICO abril de 2009 7

Fragmentos camente adequado àquela melancolia. Permaneceria


ali, por horas a fio? Divagava sobre sua sexualidade e
as relações de poder que permeavam sua vida singela?
Quem era aquele rapaz, há cinqüenta e dois anos?
mente enquanto seus lábios voluptuosos remexiam-se
tentando pedir clemência...
Calmamente deixou ali o corpo, farto, vermelho ago-
ra. O vento parara, as árvores calaram, o pássaro voara,
A idéia mais comum que temos do tempo é a ima- Não, não você! Você é um velho estúpido, que dei- a água escondera-se e ele se libertava do animal que ha-
gem mental de uma linha reta cujo caminho só pode xou seus caprichos nos conduzir ao abismo. Você é ridi- via nela. Honra?
ser percorrido num único sentido, sem qualquer pos- culamente nobre demais, mas sua nobreza nos custou O mundo parece indiferente à sua dor, acho até
sibilidade ou alternativa diferente. Acontece que hoje, muita lágrima. Quero me livrar de você. Você não tinha que as folhas se pintam com gotinhas d’água pra co-
Ave! Como sofri hoje! Hoje notei que minha vida cami- esse direito. O que vai pensar quando partir? Talvez memorar com você essa tristeza. Chove também, re-
nha como a idéia de tempo. Não sei o que fazer para nem tenha o coração em paz. pare, chove sempre quando a vida da gente também
mudar isso. Iria dizer tudo, escancarar todas as entra- Preciso sair daqui. Debrucei-me sobre a cama. O cai, de repente, no chão duro. Servi-me de um bom
nhas do meu coração. cheiro forte de gente, de maçã podre me atordoou. grito, guinei para a direita, urrei, sacudi os olhos e vol-
Não, não, não; digo que você, ah, quero me livrar de Aperto o lençol imundo querendo descontar nele o tei pisando firme para o hospital.
você! Mas não consigo, não consigo porque você sabe meu ódio; sangue, urina, suor... Aperto. A cabeça baixa, Enquanto meus dedos perfilavam por entre as fo-
me usar. Conhece muito bem o que acontece comigo e de joelhos, aos pés de meu pai, um homem que sempre tos quase verdes da nossa memória, a virtude flamava
tem um controle fatal sobre tudo isso. Mas, recuso-me. amei e que jamais conheci. Nunca me deu um beijo no por campos longínquos, perdidos entre um rapaz que
Resigno-me e continuo ermo. Tento imaginar que final- rosto, nunca me olhou nos olhos, nunca vi nele o pai não tinha forma, encostado ao muro, perfilante dian-
mente consigo lhe dizer adeus, que vá mesmo embora. que via nos cinemas, o pai que as novelas mostravam. te de sua juventude, confiante em sua beleza. Beleza
Tenho mais para lhe dizer, mas a linha. Cataplasma! A Existe um pai assim? Por que você tinha que ser assim? que desperdiçou. Juventude que errou. Reparei que
linha continua igual. eu também estou encostado sobre o muro, os pés
Não posso ficar pensando nisso. Não agora. Cruzei a como atados, a cabeça caída, apoiada. Era a vida, o
esquina escura, três jovens conversavam com risinhos meu tempo e a minha dor. Essa maldita linha que
abafados, as silhuetas denunciando uma intenção se- não me deixa pensar diferente. Não posso repetir o
creta e pervertida. O prédio velho, mal cuidado, de ja- rapaz do muro. Não sou o rapaz do muro. Não me
nelas largas que pouco vento traziam, era mais refúgio escondi de mim mesmo. Sofro, mas sou apenas o
do que nossa própria casa. Pelo menos ali os móveis espelho dos meus sonhos. Ele não, seu espelho se
não tinham as memórias violentas do pai que nunca quebrou. Azar! Tudo tão rápido. Tudo tão ontem.
conheci. Às vezes olhava para ele com piedade, às ve- Não tinha o que levar, ajeitou a pequena trouxa
zes, ódio. A cabeça baixa, forte, grande, o cabelo negro, na mala, pegou o menino embrulhadinho no berço, o
escasso, agressivo na sua sombra. Ficava olhando a dinheiro no paletó, uma caixa de sapatos, as fotos e as
própria mão, como se estive a tirar os dedos de dentro cartas dentro. Apenas um destino: o esquecimento. Foi
de uma luva, um por um, como se estivesse a limpá-los o que fez. Nem lavou as mãos.
de uma sujeira teimosa. Dedos grossos, a mão calejada. Minutos mais tarde, quando voltei ao quarto
“Você precisa descansar”, dizia. Eu não saía dali. Quem agonizante, a enfermeira, de pé ao leito, parecia
tinha que partir era ele. Quero me livrar de você. acariciar os cabelos dele. “Trouxe mais remédio,
A tarde vestia-se trêfega. O moinho de ventos frescos deve acalmá-lo”. Peguei na sua mão, ainda forte. Pai?
confundia-se com o aroma de canela e dor. Os pinheiros Achei que pelo menos meu, sim.
do jardim gemiam e cantavam baixinho, junto com as Não, você nunca foi. E pior, eu nem sabia por
borboletas inquietas e as cigarras tagarelas. O rapaz, sen- quê. Agora entendo quando quis me jogar na cal-
tado na cama de seu mísero e fétido quarto, folhava de- çada. Posso imaginar porque não confiava em mim.
satento um livreto antigo. Podia-se dizer que mergulhara Ele deve saber que a dor vinha toda vez que me des-
na profunda ilusão da ópera da vida quando se tentava prezava quando chegava a casa. Deve saber o quan-
o quinto ato. Na forma de uma alegoria servil aos seus to era frustrante querer contar algo e do outro lado
pesadelos, conheceu a fortuna e o ódio dos despossuídos. não ter quem ouvir, não saber, não poder ouvir. Ahh,
Notou então que o seu pesar era menos valoroso do que a ele sabia que era horrível, por isso era quieto demais,
oportunidade de subir ao corpo as astúcias do espírito. Foi Uma vez me disseram que ele pediu pra mamãe me por isso falava aos resmungos, quase nem sorria.
assim que, enquanto desfrutava sua parcial viagem deitou colocar na calçada, queria dormir e eu gritava de dor Você não era obrigado a ficar. Podia simplesmen-
ao gramofone um disco de Liszt. O piano soava violento de ouvido... Calçada... Nas margens...Foi assim que você te partir. Deixá-la. Por que quis ficar? Amor? Você me
e vivo, tal qual o oposto de seu ouvinte. As notas frescas sempre me deixou desde aquele dia, nas margens de contou algumas vezes a história de quando se conhe-
e trespassadas com sabores de baunilha lhe traziam um toda uma verdade... Precisava atravessar a rua. ceram. A declaração com a rosa na boca, depois do
fulgor de gostosura completa, embora fosse apenas servo Não havia outra saída. Ficou consolado, e aturdiu que trabalho, no portão de casa. Mais rosas no chão do
de sua tarde sobre os pinheiros. Tudo isso sofria quando não haveria outra função para aquele pinheiro. Imaginou- quarto, o aniversário em que fez a surpresa de viagem.
ouviu murmurar do alto que a vida era mesmo assim, que se ali, no abraço úmido da terra fértil, tecendo suas ener- Sorrio quando me lembro disso, das cartas que têm
os miseráveis haviam nascido para o labor, para as gotas gias e alcançando a luz. Quando por fim, ganhava respei- guardadas, de algumas fotos e daquele livro, aquele
d`águas mais rapinantes da tempestade. to e estatura de pinheiro velho, sentia-se forte e no auge livro grosso, com a dedicatória dela. Sorrio. Mas aperta
Noite difícil. Dia difícil. Chuva não vem mais. Dor de seus ventos suaves e amenos, balouçava as folhas colo- muito quando junto vem você me dizendo, os olhos
que enfraquece a gente. Alegria que estanca feroz e ridamente, exalando certo preceito de novos abraços para ficando pequenos, a boca debochando, das coisas
não corre como rio. Noite sem sono, céu sem sombra. a posteridade. Mas ora, o pinheiro. O pinheiro seria o cabo mais simples da vida que eu não ia conseguir. Que era
Pássaro sem volta. Caminho de pedras. Deserto de so- do machado, que não menos piedoso o faria também pia- muito pra mim. Você nunca me deu uma gota de con-
nhos. Senhores risonhos. Batendo palmas para o estra- no, O piano não existiria senão para sofrer o ataque dos fiança. Deve ter doído demais ouvir a homenagem na
nho. Fogo que consome. Homem sem nome. Vida sem mestres. Os gritos ora mais suaves, ora mais exautados, formatura, posso sentir e agora fica fácil, você bebeu
margem. Viagem, estiagem com imagem de água sem enfim, os gritos almiscarados que banhavam a tarde do como nunca havia visto. Insuportável.
vaso. Amor que não tem. Sentido que foge. Velhinho rapaz sem denúncia. Legítima defesa da honra. Não fui o rapaz de cabeça no muro, não estou de
que passa dizendo: “Vaidade seu moço. Que a terra é O sol não nascera naquele dia, preferira ficar quieto, olho apenas em minha vida. Eu quero mais, quero
pra mór de sofrer mesmo que nem tatu em chão de ultrajante, observador elíptico da eternidade, as formas caráter que não recebi, quero ser pai de verdade, um
pedra”! Patife! Porque a gente vive mesmo com dor de bem definidas daquele rapaz da foto amarela; cabeça dia... Não há fotos dele... Será que ela o amava? Acho
saudade que não tem fim. encostada no muro, aquele rapaz que não tinha for- que não.
Pare de gritar! Pare de gemer! Pare, não adianta, sua ma nem humor. Mas que droga, você não pode tentar explicar. E
dor não é do seu corpo. Ela pertence á sua alma, a tudo Saí dali, um pouco triste por encontrar de volta porque só agora? Porque esconder isso? Logo vai aca-
aquilo que você não foi. Ela pertence a tudo o que você aquele mesmo árduo respirar, o mesmo balançar das bar. Nunca vou entender o seu silêncio. E agora tenho
tirou de nós, a tudo o que você destruiu. Não adianta, folhas nas árvores. que conviver com o amor fracassado de um pai que
você não pode sair. Em casa? Pra quê? Pra você ficar Tornou-se um animal... A arquejar, a sofrer, a gritar, a foi uma mentira para mim. Insuportável. De repen-
me olhando como se folhasse um livro de memórias? rastejar, a caçar, a matar, febrilmente a matar. Tornou- te a vida da gente, que nunca foi fácil, se torna uma
Jamais! Já chega eu ter que estar aqui. Por que fico? se aquilo que realmente era: matéria a “estar no mundo”. grande mentira. Sempre achei que tivesse algo erra-
Por que acho que o respeito. Acho que você é antes de Saiu correndo pelos arredores da casa, farejando sua do, mas você sempre foi muito quieto mesmo. Nunca
tudo, muito humano e sua vida foi é muito real. vítima. As árvores respiravam consigo a agitação fra- aprovou minhas decisões, nunca me disse faça isso ou
Hoje o sol não nasceu. Aquele rapaz que via na galhosa dos seus pulsos. Ao longe, um pássaro sôfrego, aquilo. Ahhh, eu poderia lhe contar tanta coisa, dividir
foto parecia um tanto amorfo, psicologicamente amor- reclamava, do alto de sua morada inconstante, a altivez com você tantos medos, incertezas, dúvidas, alegrias,
fo. Os pés juntos, em perfil, a cabeça encostada no muro de sua existência. O dourado dos telhados confundia- decisões que teria tomado. Mas por sorte que não o
conferiam-lhe uma forma exata, precisa demais. No que se com escarlate trêfego das paredes rachadas. Um fio fiz. Somos assim mesmo, a verdade nos liberta. É che-
pensava aquele rapaz? Cuido que essa posição trouxe- de água, tímido, trazia sua voz, suave, escorrendo par- gada a minha hora.
me a lembrança estranha de um certo religioso, pros- camente, até morrer na imundície de um assoalho mal Peguei as fotos, as cartas, a mesma caixa de sapa-
trado diante do Muro das Lamentações, em Jerusalém. construído. Saiu pela rua, tropeçando na balbúrdia da tos. Olhei mais atentamente, tentando encontrar um
Mas aquele rapaz parecia ir além da lamentação, ele civilização. amassado de ódio, um rasgo num canto. Nada, intac-
olhava para si e dizia que o mundo era seu, ou melhor, Entrou logo pela esquerda, dando defronte com a ta. Igualzinho do jeito que a tirou do guarda-roupas,
que ele poderia moldar o mundo como quisesse, afinal, casa de portão azul. Os morros do fundo atrapalhavam com certeza. Cheguei mais perto do seu rosto. Passei
comprara essa idéia de uma modernidade dilacerante a lua que insistia em mostrar o podre do telhado negro. a mão pelos cabelos negros...Tão lisinhos...Seus olhos
e incisiva. Mas esse mundo, que ele construiria, teria Estavam sentados, um defronte ao outro, o rapaz sem se abriram. Sem expressão. Apenas fitava os meus.
como força sua arrogância, seu autoritarismo, seu nada camisa, as mãos úmidas nas pernas morenas da rapa- Obrigado, disse eu baixinho. Ele piscou os olhos, va-
psicológico. Teria sido melhor se ele pensasse em outra riga. Fraco, o corpo mirrado, o olhar azul de pássaro, garosamente. Saí, sem chorar agora. Era tempo de re-
coisa. Talvez refletisse uma voz em si, uma forma, agora quase inteligente. Deve ter batido na nuca, com o cabo. encontrar a vida real.
dentro de sua mediocridade. Por isso encostava a cabe- E depois, avançado sobre o vestido amarelo, sem deixar
ça no muro, para ver seu umbigo, para ver a si mesmo, tempo para que pudesse socorrer, rasgou-lhe o peito
matéria e forma, em sua mente tão estranhos, simetri- arfante com uma fissura profunda, suspirando autiva- Eliel Faber (XLV)
8  O patolÓGICO abril de 2009

O tombo Repensando
as mudanças que o CAAL vem propondo são
reflexas, penso numa demanda contrária que
surgiu de um grupo de estudantes a partir de
um momento de angústia com o que vinha
ocorrendo na faculdade e esse sentimento fez

o já passado
Andava pelas ruas, com que a diretoria, os professores e os es-
com minhas amarras, tudantes se sentissem pressionados a mudar
sandálias de vento, algo. Foi feito da melhor forma? Não sei, algu-
mas atitudes sim, outras não, mas há espaço
cujos passos e rasteiras,
para que as pessoas se coloquem contra ou a
em intermitentes permutas,
favor e comecem a querer discutir os por quês
me conduzem ao chão. das coisas serem como são.
Escrevo esse texto na intenção de proble-
Quando caio, matizar (e buscar esclarecimentos) o texto Outra questão é a aceitação das festas en-
levo as mãos ao solo, do Ombudsmam publicado no Patológico de tre os calouros, ninguém tem dúvidas de que
um piso que não me reconhece, março de 2009. as festas são os eventos melhor avaliados na
em seu concreto traço, Primeiramente é válido dizer que é mui- calourada, mas talvez a diferença, pequena
de fragilidade disfarçado. to importante a existência do texto de meu mas existente, entre as notas da chopada e do
Quando caio, colega de turma, pois trata-se de um registro churrasco e a nota do Happy Hour do CAAL
olho ao redor da cena. escrito por alguém que se posiciona a favor possa ser explicada pela ausência do “trote
Desejo-me invisível do trote e da semana de calourada na forma violênto” no Happy Hour. E isso por si só apon-
aos olhos humanos, como elas acontecem hoje, importante por- taria para o fim desse tipo de comportamen-
que mostra um caminho para um debate mais to. Não é porque eu não gostei da “cusparada
tão aplicados nas comparações do tormento.
profundo e produtivo sobre o assunto, dado na cara” que eu vou esquecer o veterano que
Quando caio,
que existem pelo menos dois pontos de vista me pôs pra brincar e dançar com meus ami-
finjo-me de morto por alguns instantes. gos, embora tudo teria sido melhor se eu não
sobre o tema.
E aos poucos, Mesmo sendo a milionésima vez neste pe- tivesse ganhado uma “cusparada”.
do susto e dos risos riódico quero expor a minha definição pessoal Concordo com meu ex-companheiro de
faço percepção. sobre o que é “trote violento”. O “trote violen- CAAL quando ele diz que é hora de fazer uma
Olho para meu interior, to” é tudo o que se faz com uma pessoa con- reflexão diferente, mas não no sentido de es-
Estrela em retração, tra sua vontade e con-
d e r
“Se muito vale o já feito,
vejo meu reflexo, sem o seu conhe-
nítido ao espelho da vergonha, cimento prévio, u m a
ou seja, omitir in- práti-

mais vale o que será


e de mim,
de um eu que só me visita formações sobre ca re-
um evento e den- cente
em súbitos acessos de teimosia,
tro dele submeter e que
lembro dos tempos em que cair
era a forma de dar passos mais longos,
pessoas a agres-
sões físicas (socos, E o que foi feito é preciso conhecer v e m
p e r -

para melhor prosseguir”*


e apoiar-se, pontapés, chutar mane-
era fazer da força alicerce. tênis na cabeça cendo
E assim, bato as mãos, das pessoas...) e nos úl-
antes confeitadas psicológicas (hu- timos
com o pó do medo milhações, cuspir no rosto das pessoas, fazer anos, mas no sentido de explicar porque essa
e as plumas do asfalto, com que beijem seus pés...) é trote violento, prática acontece. Será que todo mundo que
ergo-me das profundezas do vacilo, pois muitas pessoas se sentem negativamen- deixa de ser primeiro ano vira uma pessoa
até o próximo local, te afetadas quando submetidas a esse tipo de maldosa, hostil e agressiva que quer matar
em que o cadarço do destino, situação. todos os calouros? É claro que não. Uma vez
Dada a minha opinião pessoal sobre um perguntei a um residente porque os vetera-
Se desata ao convite de um encontro,
tema qualquer, posso passar a falar sobre po- nos mais velhos tendem a tratar seus calouros
Inesperado e doloroso,
sicionamento, não colocando sobre ele um de maneira violenta? Ele me respondeu que
Entre a carne e o solo, todo mundo só pergunta porque o residente
juízo de valor dizendo se é correto ou não,
O corpo e a alma, mas apontando qual a sua origem para que as deu um soco no calouro, mas ninguém per-
Entre o caminho e a pedra, pessoas possam se posicionar ao meu lado ou gunta para esse residente como ele foi trata-
Entre a marionete e suas cordas, de forma diferente de mim. Sabendo que em do no internato e que tipo de pressão ele pas-
Entre o fim e o ponto. algumas festas de nossa faculdade acontece sa todos os dias na sua residência. Ninguém
Fabricio Costa-Bambu(XLV) o “trote violento” sou contra a realização das pergunta aos mais velhos o quão agredido eles
mesmas nos moldes atuais, então, encontro o são e o quanto exigem que façamos a mesma

FALÁCIAS
primeiro ponto de discordância com o texto coisa. Parei para pensar e percebi que enquanto
do Ombudsman. Ser favorável a manutenção não acabarmos com essa opressão institucional,
do formato atual de nossas festas é ser cúm- não acabaremos com a violência nas relações
plice do “trote violento”, que apesar de não entre as pessoas, sejam elas estudantes, docen-
acontecer com todos os calouros e nem partir tes, funcionários, comunidade... Como faremos
de todos os veteranos tem espaço garantido isso? Continuaremos numa luta de egos nos
“Qual a melhor zona de SP?” na chopada e no churrasco da calourada. nomeando pelo número de anos que temos
Henrique Tellini (45) perguntando qual o melhor Quanto a necessidade de discussão so- dentro da faculdade ou construíremos espaços
bairro em SP para se morar. bre mudanças propostas, vale lembrar que o para que todos se divirtam, para que todos tra-
“Tem muita coisa errada que não tá certa” CAAL, que é atualmente o responsável pela balhem bem, para que todos se sintam parte de
organização da calourada, tem reuniões se- algo nomeado Faculdade de Ciências Médicas e
Noel (45) na prova de endócrino sobre as ques-
manais com pauta aberta todas as segundas- se sintam felizes em contribuir para a melhoria
tões de verdadeiro ou falso.
feiras. Sendo assim, qualquer estudante da desse espaço da maneira que puderem.
“Você usa óculos?” nossa faculdade (e até mesmo de fora dela) Penso que em nome de tradições e elemen-
Jéssica (45) para um paciente, que estava usando pode mandar um e-mail para a gestão solici- tos que não podiam ser mudados muitas pesso-
óculos, durante a anamnese. tando um tópico de discussão, pode ir a reu- as já foram oprimidas e exploradas, não só aqui,
“Vamos parar de gozar no ônibus? Eu só nião apresentar esse tópico e propor outras mas em toda a sociedade. E se for o momento
gozo em lugares apropriados!” formas para que mudanças ocorram ou não na de perpetuar o que há de melhor e deixar para
Bambu (45) no ônibus de Ações tentando acal- faculdade. Se não reivindicamos nossas pos- trás as coisas ruins que nos pintam como neces-
mar os ânimos dos colegas para a professor conse- turas junto ao nosso representante institucio- sárias? Não tenho um caminho certo, nem uma
guir falar. nal não podemos culpá-lo pela forma como forma absoluta, mas pensar sobre o que vemos
“Professor, o paciente está em êxtase ju- as coisas acontecem, temos que discordar das já é uma maneira de mudar o que é injusto.
gular?” posturas em lugares onde elas possam ser
Daniela(45) interroga ao professor de Semio que- discutidas e não usar a hierarquia para decidir Daniela Donação Dantas (XLIII)
sobre os rumos da faculdade. Não penso que
rendo se referir a estase jugular *Milton Nascimento