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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Título: “GUIA DA ADOÇÃO – o guia definitivo


para quem pensa em adotar”

2ª. Edição – REVISADA E ATUALIZADA - MAIO 2021

Autoria: Instituto Geração Amanhã


Coordenação Geral : Sandra Sobral
Redação: Heloisa Andrade

Atualização, revisão e comentários pelos especialistas


convidados
Angélica Gomes da Silva
José Roberto Poiani
Sara Vargas
Suzana Sofia Moeller Schettini

Conheça melhor os especialistas na página de


Apresentação.

Fotos: Bancos de imagem com direito de uso livre

E-mail: contato@geracaoamanha.org.br

Direitos Autorais
Instituto Geração Amanhã: todos os direitos reservados

Você concorda que não irá copiar, redistribuir,


compartilhar ou explorar qualquer parte deste e-
book sem a permissão expressa do autor.

I n s t i t u t o Geraç ão Amanhã Todos os direitos r e s e r v a d o s


Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

ÍNDICE
APRESENTAÇÃO DA 2ª EDIÇÃO ...................................................................................... 7

MENSAGEM ESPECIAL ........................................................................................................ 9

01 - VISÃO GERAL DA ADOÇÃO ...................................................................................... 11

02 - OS PRIMEIROS PASSOS EM DIREÇÃO À ADOÇÃO........................................23

a.IDENTIFICAR AS MOTIVAÇÕES ...................................................................... 24

b.RECONHECER SUAS CARACTERÍSTICAS PESSOAIS ....................... 29

c.COMPREENSÃO DO PAPEL DE PAI/MÃE ................................................ 31

d.AS 9 QUALIDADES DAS ADOÇÕES BEM SUCEDIDAS ..................... 33

03 - TESTE SEUS CONHECIMENTOS ............................................................................ 38

a.QUIZZ ............................................................................................................................. 39

b.RESPOSTAS COMENTADAS ............................................................................ 40

04 - ESTÁ DECIDIDO: QUERO ADOTAR!...................................................................... 41

a. PASSO A PASSO - INFOGRÁFICO ................................................................ 42

b. PASSO A PASSO - DETALHAMENTO .........................................................43

I. INÍCIO DO PROCESSO ............................................................43

II. FASE PREPARATÓRIA ...........................................................43

III. HABILITAÇÃO ............................................................................. 44

IV. CONEXÃO .................................................................................... 45

V. PASSOS FINAIS ......................................................................... 47

05 - APRECIAR A ESPERA ................................................................................................48

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

ÍNDICE
]

06 - APRENDER NO TEMPO DE ESPERA ................................................................... 53

a. ASSUNTOS DA PARENTALIDADE ............................................................. 54

AS FASES DO DESENVOLVIMENTO HUMANO ...................... 54

PRIMEIRA INFÂNCIA .............................................................................54

b. ASSUNTOS DA PARENTALIDADE NA ADOÇÃO ............................... 56

A IMPORTÂNCIA DOS GRUPOS DE APOIO .............................. 56

ATITUDE ADOTIVA .................................................................................56

ADOÇÃO TARDIA .................................................................................... 56

EXPECTATIVAS E REALIDADE......................................................... 57

AS DEVOLUÇÕES NA ADOÇÃO ...................................................... 58

c. DESENVOLVIMENTO DE HABILIDADES E POTENCIAS ....................... 59

07 - ADOTEI. E AGORA? ............................................................................................................ 66

a. A IMPORTÂNCIA DO ACOMPANHAMENTO PÓS-ADOÇÃO ........... 67

b. DEPRESSÃO PÓS-ADOÇÃO........................................................................ 69

c. RESPEITAR O TEMPO E A HISTÓRIA DA CRIANÇA ........................ 70

d. CONTAR SOBRE A ORIGEM ......................................................................... 71

08 - MAIS PERGUNTAS FREQUENTES ......................................................................... 73

09 – SUGESTÕES DE CONTEÚDOS ............................................................................... 80

10 - DEPOIMENTOS – HISTÓRIAS VIVIDAS ................................................................84


DEPOIMENTO 1 ............................ ................................................................................. 85
DEPOIMENTO 2............................ ................................................................................. 86
11 - FONTES DE CONSULTA .............................................................................................. 95

12 – CONHEÇA O IGA ........................................................................................................... 97


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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

INSTITUTO GERAÇÃO AMANHÃ


O Instituto Geração Amanhã – IGA - é uma Organização da Sociedade
Civil (OSC), sem fins lucrativos, que luta pelo direito de toda criança
e adolescente viver em família. Para isso, realizamos inúmeras
atividades que visam incentivar e promover o acolhimento familiar,
a adoção, a convivência familiar e comunitária, com ênfase na
Primeira Infância.

Temos como foco a produção de informações e conteúdos


aprofundados e de qualidade sobre esses temas, porque acreditamos
que para mudar é preciso conscientização. E que não se pode exigir
conscientização se não houver acesso à informação.

4 EIXOS DE ATUAÇÃO DO IGA

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

SAIBA MAIS SOBRE ADOÇÃO EM:

BLOG GERAÇÃO AMANHÃ


Informações sobre adoção, acolhimento familiar e
Primeira Infância, do ponto de vista de especialistas.
Notícias, artigos e conteúdos sempre atualizados.

SITE ADOCAO PASSO A PASSO


Dicas e orientações para quem quer adotar e não sabe por
onde começar. Orientações em passos simples e diretos
para quem pretende adotar.

CANAL DO YOUTUBE

Centenas de vídeos. Acesse às playlists “Adoção – A Voz do


Especialista”, “Especial Adoção” e “Série Saber Mais”

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

APRESENTAÇÃO - 2ª. EDIÇÃO


REVISADA E ATUALIZADA
É com muita satisfação que apresentamos a 2ª. Edição do Guia da
Adoção – o guia definitivo para quem pensa em adotar.

Para essa 2a edição, além de atualizações necessárias, convidamos quatro


importantes especialistas para darem suas contribuições. Dessa forma,
apresentamos um conteúdo ainda mais rico com novas dúvidas
respondidas, detalhamentos mais minuciosos em diversas questões e
reflexões sobre questões éticas, emocionais, sócio-culturais e jurídicas que
abrangem o tema da adoção.

Além da parte escrita, temos vídeos dos especialistas em nosso canal do


Youtube.

Conheça um pouco melhor a trajetória profissional de cada um:

Angélica Gomes da Silva


Assistente social no Tribunal de Justiça de Minas
Gerais de Uberaba, doutora em Serviço Social pela
Unesp/Franca, assessora de Serviço Social da
ANGAAD.

José Roberto Poiani


Juiz da Vara de Infância e Juventude da Comarca
de Uberlândia – MG

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Sara Vargas
Graduada em direito, especialista em Terapia Sócio-
Construtivista e Psicodramática de Famílias e Casais,
presidente da ANGAAD de junho de 2017 a junho de
2021, escritora, fundadora e diretora técnica da
Associação Pontes de Amor, além de representante
da Christian Alliance for Orphans e World Without
Orphans no Brasil.

Suzana Sofia Moeller Schettini


Mestre em Psicologia Clínica, psicoterapeuta,
professora universitária, ex-presidente da ANGAAD,
Diretora Técnica da Associação Pernambucana
dos Grupos de Apoio à Adoção- APEGA;
Coordenadora do NAPA (Núcleo de Apoio no Pós
Adoção) do GEAD Recife.

SOBRE ESSE E-BOOK


O GUIA DA ADOÇÃO – o guia definitivo para quem pensa em adotar.
explora todos os passos para quem está começando a pensar no caminho
da parentalidade pela via da adoção, passa pelas questões práticas para
quem já decidiu e agora quer conhecer melhor os procedimentos para
adotar até chegar na fase da pós adoção, que também requer
conhecimento, preparo e suporte.

Ao longo dos capítulos trazemos notas e exercícios com questões que


poderão ser pensadas, respondidas e reavaliadas por você mesmo.
Sugerimos que separe um caderno ou arquivo para anotações e vá
registrando suas impressões, sentimentos e dúvidas que eventualmente
poderá discutir em seus cursos preparatórios ou com especialistas para
fundamentar melhor sua decisão. E até mesmo usar como “diário da
adoção”, para recordações futuras.

Ao final da leitura, seja qual for sua decisão – pode sair ainda mais seguro
sobre o desejo de adotar ou pode ter chegado à conclusão de que não é o
momento ou o caminho certo para você – o que importa é ter uma
decisão consciente e amadurecida sobre o desejo de exercer a
parentalidade pela via da adoção.

Bom trabalho e uma ótima jornada!

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

MENSAGEM ESPECIAL
A adoção pode ser a resposta a inúmeras crianças que atualmente vivem
institucionalizadas, privadas de seu direito constitucional de viver em
família. No entanto, de aproximadamente 31 mil crianças que vivem em
acolhimento atualmente no Brasil, apenas cerca de 5 mil estão
disponíveis para adoção, e dessas, muitas não conseguirão ingressar em
uma família pois não correspondem aos perfis mais desejados pelos
pretendentes. Observação: além das 5 mil crianças disponíveis, outras
4.250 aproximadamente estão com seus processos já em andamento –
Dados do SNA em maio 2021.

O Instituto Geração Amanhã foi criado para lutar pelo direito de toda
criança e adolescente viver em família. Seja pela colocação em famílias
acolhedoras enquanto esperam que sua situação seja resolvida ou
colocação em família adotiva, quando não houver possibilidade de
reintegração na própria família.

Nas últimas três décadas, muito tem sido feito pelo direito de crianças e
adolescentes serem respeitados como sujeitos de direito, deixando para
trás a antiga posição de “objetos de direito” pela qual os indivíduos
menores de 18 anos eram tratados. Mas sempre colocamos que ainda há
muito a ser feito, junto ao poder público e também na sociedade civil.

Com o artigo 227 da Constituição Federal, promulgada em 1988 e


posteriormente, a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente em
julho de 1990, muitos avanços têm ocorrido.

Um deles é a mudança de paradigma em relação ao sistema de proteção


integral da criança e adolescente. Ao longo da história brasileira, no
passado muitas famílias acolhiam crianças e adolescentes com objetivos
diversos, especialmente como mão-de-obra, os quais foram identificados
como “filhos de criação”.

Agora, pela nova ótica, há que se encontrar uma família que atenda às
necessidades da criança e não mais uma criança para atender o desejo de
adultos que querem formar sua família.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Uma diferença que pode parecer sutil na gramática, mas que tem
enorme impacto no trabalho de toda a rede de proteção que visa à
promoção e o atendimento integral das necessidades das crianças e
adolescentes.

A partir dessa perspectiva, os trabalhos das equipes técnicas, dos grupos


de apoio à adoção, das organizações da sociedade civil, associações,
instituições e do próprio poder público, são dirigidos para informar e
formar uma sociedade que se responsabilize por essas crianças, utilizando
diversas ferramentas que ajudem a cumprir tão desafiadora tarefa.

Nós do Instituto Geração Amanhã defendemos adoções humanizadas,


ágeis, legais e que respeitam o tempo da criança. Acreditamos que para
atingir essa meta, uma das ferramentas é a informação. Uma maneira de
incentivar as adoções e zelar para que sejam bem-sucedidas é fornecer
informações de qualidade, fáceis de entender e acessíveis para os mais
diferentes setores da sociedade.

É nessa perspectiva que lançamos essa 2ª Edição do GUIA DA ADOÇÃO –


o guia definitivo para quem pensa em adotar. Esperamos, com isso,
oferecer contribuições efetivas para todos que pensam na parentalidade
pela via da adoção. Boa leitura!

Sandra Sobral
Presidente do Instituto Geração Amanhã

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#01
visão geral
da adoção

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Para uma visão inicial do que é e como funciona a adoção no Brasil,


separamos as perguntas e dúvidas mais frequentes que recebemos em
nossos canais de comunicação. Essas breves respostas fornecerão um
panorama geral da situação e dos procedimentos da adoção em nosso
país.

O que é adoção?
A palavra adoção vem do latim ADOPTARE, que significa perfilhar, dar o
seu nome a, escolher, ajuntar.

Juridicamente podemos definir adoção como “procedimento legal que


transfere todos os direitos e deveres dos pais biológicos para uma família
adotiva” ou “decisão legal a partir da qual uma criança ou adolescente não
gerado biologicamente pelo adotante torna-se seu filho de modo
definitivo e irrevogável”.

Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é direito da


criança permanecer com sua família biológica, por isso considera a
adoção uma medida a ser aplicada “excepcionalmente” (art. 19), para
assegurar o direito constitucional à convivência familiar e comunitária,
somente quando o juiz concluir ser impossível a manutenção das crianças
ou adolescentes na família de origem ou extensa.

Quem pode adotar?


Qualquer pessoa maior de 18 (dezoito) anos pode adotar,
independentemente do estado civil, orientação sexual ou classe social. O
pretendente deverá apresentar uma diferença mínima de 16 (dezesseis)
anos em relação à idade da criança ou adolescente que for adotado.

Quem não pode adotar?


• Parentes em linha reta ascendente (avós) e irmão, chamados
juridicamente de família extensa. Nesses casos é possível a concessão
de guarda ou tutela. Obs: tios podem adotar. O impedimento legal à
adoção é somente para ascendentes e irmãos do adotando – ECA
Art.42
• Tutores não podem adotar tutelados, enquanto não der conta de sua
administração e saldar o seu alcance.
• Pessoas que não gozam plenamente de suas faculdades mentais.
• Pessoas com antecedentes criminais.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Duas pessoas podem adotar a mesma criança?


Sim, desde que sejam casados ou vivam em regime de união estável,
comprovada a estabilidade familiar.

Uma pessoa solteira pode adotar?


Sim, a lei não prevê nenhuma restrição em função do estado civil. É o que
se chama de adoção monoparental. Durante a fase de habilitação, tanto
solteiros quanto casados postulantes à adoção passarão por avaliações
das equipes técnicas da Vara de Infância e Juventude, para que seja
verificada a capacidade de acolher e de cuidar de uma criança ou de um
adolescente. Com o parecer da equipe técnica, o magistrado terá a
responsabilidade de conceder ou indeferir o pedido de habilitação para o
pretendente à adoção.

Um casal homoafetivo pode adotar?


Sim, não há impedimento ou restrição legal. E desde o reconhecimento
do casamento civil entre indivíduos do mesmo sexo, em 2013, essa
composição familiar tem se tornado cada vez mais comum entre os
pretendentes.

Tenho que pagar alguma taxa? Vou precisar de um advogado?


Todo o processo é gratuito e pode ser realizado sem a contratação de um
advogado (desde que os pais do adotando forem falecidos, tiverem sido
destituídos ou suspensos do poder familiar, ou houverem aderido
expressamente ao pedido de colocação em família substituta – ECA, art.
166). Mas não há impedimentos de contratação, caso deseje um suporte
jurídico personalizado.

Existe limite máximo de idade para poder adotar?


Não, qualquer pessoa em pleno gozo de suas faculdades mentais
e capacidades civis poderá ser aprovada como pretendente à adoção.

O que é guarda?
O mecanismo jurídico através do qual regulariza-se a posse de fato de
uma criança ou adolescente que não esteja e não pode ficar com seus
pais, por curto ou longo período; A guarda obriga a prestação de
assistência material, moral e educacional a seu detentor, que poderá
opor-se a terceiros, inclusive aos pais biológicos. Sem prejuízo, restam
preservados o poder familiar e os vínculos com a família de origem,
podendo a medida ser revogada a qualquer tempo. Também pode haver

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

renúncia ao exercício da guarda sem impedimento legal. A guarda pode


ser deferida nos procedimentos de acolhimento familiar e com vias à
adoção. Nesta última decisão, a guarda deve estar registrada com a
expressão “para fins de adoção”.

O que é tutela?
Em caso de falecimento dos pais, sendo estes julgados ausentes, ou ainda
em caso de perderem o poder familiar, pode se dar a nomeação de tutor
a quem incumbirá, quanto à pessoa da criança ou do adolescente que
possuir bens administrá-los, dirigir-lhe a educação, defendê-lo, dentre
outros, conforme seus haveres e condição. Tutores poderão ser nomeados
por testamento ou documento autêntico pelos pais detentores do poder
familiar, ou então, quando necessário, na falta do tutor testamentário ou
legitimo, quando excluídos aqueles quem incumbiria o encargo ou, ainda,
se removidos por não idoneidade.

O que é o SNA – Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento?


O Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) foi criado em 2019 e
nasceu da união do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) e do Cadastro
Nacional de Crianças Acolhidas (CNCA). Desenvolvido pelo Conselho
Nacional de Justiça (CNJ), o novo sistema abrange milhares de crianças e
adolescentes em situação de vulnerabilidade, com uma visão global da
criança, focada na doutrina da proteção integral prevista na Constituição
Federal e no Estatuto da Criança e Adolescente (ECA). Uma vez habilitado
pela Vara da Infância e Juventude, o pretendente é inserido no sistema
SNA e sua inscrição será válida em todo o território nacional (caso opte
por adotar em outros Estados). O sistema fará uma procura da
criança/adolescente por meio do perfil indicado no momento da
habilitação, lembrando que a busca sempre se dá a partir da criança, ou
seja procura-se uma família para ela e não o contrário. A novidade é que
agora o pretendente poderá realizar um pré-cadastro diretamente no
site www.cnj.jus.br/sna. Veja mais detalhes no Capitulo 04.

O que é adoção inter-racial?


Adoção Inter-racial ou transracial refere-se à adoção da criança de um
grupo racial ou étnico por pais adotivos de outro grupo racial ou étnico.
Por exemplo, crianças negras, índias ou asiáticas adotadas por pais
brancos. Ou qualquer adoção entre diferentes etnias, que divirjam entre o
grupo racial do adotante e do adotado.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

O que é adoção internacional?


A adoção internacional é a forma de colocação da criança ou adolescente
em lar adotivo quando esgotadas todas as possibilidades de colocação
em famílias pretendentes residentes habitualmente no Brasil. Na
legislação brasileira, considera- se adoção internacional aquela na qual os
pretendentes, ainda que sejam brasileiros, tenham residência ou domicílio
habitual fora do Brasil. Mais detalhes sobre os procedimentos para a
adoção internacional ver Capítulo 08.

Quem são as crianças disponíveis para adoção?


Apresentamos a seguir, alguns dados referentes às adoções realizadas a
partir de janeiro de 2019, o perfil das crianças e adolescentes disponíveis
para adoção e as características gerais dos pretendentes.

Fonte: CNJ Mai/2021

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

HISTÓRICO DAS ADOÇÕES

Dados SNA em
20/05/2021

PARA VER OS
DADOS SNA,
ATUALIZADOS
DIARIAMENTE
CLIQUE AQUI

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

PERFIL DAS CRIANÇAS DISPONÍVEIS PARA ADOÇÃO

Dados SNA em
20/05/2021

PARA VER OS
DADOS SNA,
ATUALIZADOS
DIARIAMENTE
CLIQUE AQUI

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

CARACTERÍSTICAS GERAIS DOS PRETENDENTES À ADOÇÃO

Dados SNA em
20/05/2021

PARA VER OS
DADOS SNA,
ATUALIZADOS
DIARIAMENTE
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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

O que é adoção à brasileira?


A expressão “adoção à brasileira” serve para designar o procedimento
ILEGAL de registrar como filho biológico uma criança sem que ela tenha
sido concebida como tal. Além de ser considerado crime, expresso nos
artigos 242 e 297 do Código Penal, quem utiliza esse procedimento pode
perder o filho assim registrado como se biológico fosse, a qualquer
momento que os pais biológicos se arrependam e queiram reaver a
criança, ou se houver denúncias, uma vez que não foi oficializada a
Destituição do Poder Familiar.

O que é adoção intuitu personae ?


A adoção intuitu personae, também chamada de adoção direta ou
dirigida, é aquela adoção em que o pretendente, estando ou não
habilitado no SNA, procura diretamente a família biológica da criança e se
aproxima sem nenhuma autorização judicial. Com o tempo, vai criando
vínculos com essa criança e depois que esses vínculos já se consolidaram
procura a Vara da Infância para solicitar a adoção. Normalmente, isso
acontece com bebês ou crianças pequenas.

O argumento – e esse é o fundamento para a concessão deste tipo de


adoção – é que, mesmo sendo realizado em desrespeito à ordem jurídica
vigente, a criança já criou vínculos de afinidade e afetividade com essa
nova família. E, de acordo com essa justificativa, embora a posse tenha
acontecido sem o consentimento da justíça, se a criança for retirada desta
família ela acabaria sendo penalizada. Portanto, ao se buscar o melhor
interesse da criança é que se defere, em algumas situações, este tipo de
adoção.

Mas vale ressaltar que a adoção intuitu personae gera muita insegurança
até ser concedida. Primeiro, porque a família que tem a posse irregular de
uma criança, como nestes casos de adoção direta, pode ficar “refém” da
família biológica, que a qualquer momento pode se arrepender, pode
surgir um pai ou parente que deseja aquela criança, a mãe pode mudar
de opinião, ou até mesmo fazer chantagem financeira e emocional. Ou
seja, não existe nenhuma segurança jurídica até para a própria criança,
pois ela pode ser devolvida para a família biológica ou encaminhada para
o serviço de acolhimento, criando novas rupturas de vínculos.

Também é inseguro para o adotante, porque ele não tem preparação


nem acompanhamento psicossocial e jurídico adequado para esse
projeto familiar. De acordo com o ECA e, conforme explicamos
detalhadamente neste ebook, todo pretendente que deseja adotar deve
passar por formação específica, avaliação psicossocial e, somente após ter
sua habilitação concedida, entrará para o cadastro do SNA.
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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Quanto tempo demora para que eu seja considerado habilitado para


adotar?
O prazo máximo para conclusão da habilitação à adoção é de 120 dias,
prorrogável por igual período, mediante decisão fundamentada pela
autoridade judiciária (art. 197-F, ECA). Saiba mais no Capítulo 04. Contudo,
na prática, reconhecemos que há distinção conforme realidade de
trabalho em cada comarca.

Quanto tempo demora para meu filho chegar após minha habilitação
ser aprovada?
Essa é uma pergunta que não tem resposta precisa e definitiva. Pode
demorar mais ou menos, conforme o perfil da criança escolhido na fase
de habilitação (ver infográficos nas páginas anteriores), da disponibilidade
regional definida no momento da habilitação (se você deseja adotar uma
criança que seja de sua cidade, de seu Estado ou de qualquer lugar do
país), da aceitação ou não por parte do adotante de grupos de irmãos ou
crianças com problemas de saúde, entre outros fatores. Uma explicação
simples é: quanto mais restrições forem feitas no perfil desejado, maior
será o tempo de espera.

É comum ouvirmos relatos que o prazo entre o pedido de habilitação até


o momento da chegada da criança foi de anos. Esse prazo não é uma
regra, mas segundo levantamento recente do SNA, o tempo médio entre
a data do pedido de habilitação e a data de sentença de adoção dos
pretendentes que adotaram foi de 4 anos e 3 meses – tanto pode levar
menos quanto mais tempo. Ou seja, desde que habilitado, o pretendente
à adoção deverá estar sempre pronto, mas também precisa de equilíbrio
para não deixar a ansiedade da espera prejudicar a sua vida normal
cotidiana. Ver mais sobre isso no Capítulo 05.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

O que é busca ativa?


O conceito de busca ativa refere-se à uma estratégia planejada e legal
para que serviços, informações, benefícios, programas e projetos cheguem
aos interessados espalhados pelo país. Na adoção, a busca ativa visa
exclusivamente viabilizar a adoção de crianças e adolescentes
considerados “de difícil colocação” em famílias que estão dispostas a
aceitar diferentes perfis, tais como crianças mais velhas, adolescentes,
crianças com problemas de saúde, com deficiências físicas e/ou
intelectuais, além de grupos de irmãos.

Essa estratégia é considerada legal e constitucional, para os pretendentes


à adoção que já estão devidamente habilitados e que buscam
crianças/adolescentes que de outra forma, dificilmente seriam adotados
por não terem seus perfis entre os mais procurados pela fila de
pretendentes.

Existem vários órgãos e instituições legalmente habilitados a fazer busca


ativa como a ANGAAD e o aplicativo A.dot. Veja uma sugestão de
programas que incentivam adoções em nosso site.

É fundamental os pretendentes informarem na Vara da Infância e


Juventude, formalmente, as mudanças referentes ao perfil do filho
esperado, conforme processo de reflexão, amadurecimento e decisão
construídos no processo de espera.

Entendi essa parte. O que faço agora?


O processo de adotar um filho é tão rico quanto desafiador. Nos próximos
capítulos apresentaremos questões importantes que vão além do passo a
passo para a habilitação. Falaremos sobre motivações, autoconhecimento,
habilidades, sobre a importância do preparo e do suporte nos momentos
pré e pós-adoção, e muito mais.

Acreditamos que um bom começo é ter a disposição de se comprometer


com um filho por toda a vida, exatamente como deveria ser na decisão de
ter um filho biológico.

Com entendimento, paciência e muito amor, ter um filho pela via da


adoção vai transformar não só a vida daquela criança/adolescente, quanto
de toda a família. E essa é uma decisão que deverá estar amadurecida e
acolhida sincera e totalmente pelo adotante.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

As dúvidas acima são as


mais frequentes que observamos
diariamente no contato com
pessoas que começaram a
pensar na possibilidade da
adoção.

Para outros questionamentos,


consulte o Capítulo 08.

22
#02
os
primeiros
passos em
direção
à adoção

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

A – IDENTIFICAR AS MOTIVAÇÕES
É saudável e relevante nesse momento entender as motivações que
levam você a querer exercer a parentalidade pela via da adoção. Também
consideramos importante falar um pouco sobre quais NÃO deveriam ser
essas motivações.

Começando por uma das motivações mais comuns, encontramos a


impossibilidade de exercer a parentalidade de forma biológica, por
questões de infertilidade.

Sobre esse tema é recomendável fazer reflexões e estar aberto para


encontrar dentro de si (e junto com seu parceiro/parceira se for o caso)
uma abordagem que seja a mais aberta e sincera possível.

Neste sentido, ressaltamos a importância de se buscar orientações


técnicas e informações sobre tratamentos para infertilidade oferecidos
pelos serviços particulares, bem como pelo Sistema Único de Saúde,
conforme contexto socioeconômico dos pretendentes. E, sobretudo,
participar dos Grupos de Apoio à Adoção (GAAs), enquanto espaço
fundamental ao diálogo, reflexão, troca de conhecimento e experiencia
entre pessoas que compartilham questões em comum.

Apresentamos abaixo um trecho adaptado do artigo “Impacto nos pais


adotivos”, publicado originalmente pela organização americana Child
Welfare Information Gateway, que traz boas colocações para nos ajudar a
refletir:

“Algumas pessoas adotam porque não podem ter uma criança


biológica. Nesses casos, os possíveis pais adotivos podem já ter
experimentado sentimentos de perda e decepção. Alguns terão
passado por múltiplas perdas e sofrimentos durante os tratamentos,
alguns deles bem invasivos.

É bastante natural que os adultos respondam dolorosamente a essas


perdas. Eles também podem experimentar sentimentos de culpa,
vergonha, inadequação (“por que eu?”), falta de controle e até ciúme das
pessoas que foram capazes de ter filhos biológicos, incluindo pais
biológicos de seu futuro filho. (Goldberg, Downing Richardson, 2009;
Kupecky e Anderson, 2001).

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Independentemente dos detalhes particulares de cada caso é comum


que, casais e indivíduos que buscam a parentalidade pela via da adoção
por causa da infertilidade, já tenham enfrentado uma montanha russa de
emoções.

Os sentimentos devem ser respeitados e cuidados para que possam


oferecer um bom apoio às crianças adotadas no futuro. Eles precisam
elaborar as suas próprias perdas para poder lidar bem com as eventuais
dores da adoção de seus filhos.

Para pais que precisam de ajuda para lidar com a dor da infertilidade,
existem grupos de apoio e aconselhamento especializado, e Grupos de
Apoio à Adoção.

É importante lembrar que, cada indivíduo pode resolver sua dor de


formas e em tempos diferentes. E, portanto, a decisão de adotar pode
acontecer também em momentos diferentes para cada um. É necessário
alinhar essas questões a dois, para tomar uma boa decisão
conjuntamente.”

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

OUTRAS MOTIVAÇÕES RELATADAS COM FREQUÊNCIA

• Adoção que vai ao encontro do sonho de aumentar a família, mesmo


depois de já terem seus filhos biológicos – algumas vezes quando
esses já estão crescidos;

• Adoção para realizar o desejo de exercer a parentalidade sem um


parceiro;

• Adoção para realizar o desejo de exercer a parentalidade em uma


relação homoafetiva;

• Adoção como forma de cuidar e dar amor à outras pessoas;

• Adoção em famílias onde há filhos adotivos: o indivíduo cresce com


a consciência da beleza e do valor de ter um filho pela via da
adoção. Ao se tornar adulto, também busca a paternidade
/maternidade por esse caminho.

Em todos os casos há o desejo de amar e de cuidar. Essas são algumas


das motivações mais comuns. Você se identificou com uma ou com
algumas delas?

Se quiser pare um pouco a leitura e anote


quais são as suas motivações iniciais.

Agora vamos falar sobre quais NÃO deveriam ser as motivações do


postulante à adoção:

• Querer adotar para salvar um casamento em crise;

• Querer adotar pensando que o filho servirá para você não ficar
sozinho na velhice;

• Querer adotar para acompanhar outros casais de amigos que estão


aparentemente felizes por ter filhos;

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

• Adotar para substituir o lugar de um filho falecido;

• Adotar para fazer caridade;

• Adotar como alternativa para oferecer um irmão ao filho;

• Adotar para ter herdeiros;

• Adotar para oferecer um filho ao parceiro (a).

Para te ajudar a identificar com clareza as suas motivações, deixamos aqui


algumas perguntas. Com elas você poderá refletir pontualmente sobre os
diversos aspectos que envolvem a decisão de ter um filho pela via da
adoção.

Registre suas respostas atuais. Essas anotações


poderão ser úteis no futuro, quando estiver
frequentando cursos preparatórios e Grupos de
Apoio à Adoção.

• Quando e como nasceu em você o desejo de ser pai/mãe?

• Por que ter um filho?

• Como acha que a chegada de um filho se encaixará em sua vida e


relações sociais?

• Já pensou no perfil que está disposto a aceitar? Só uma pessoa ou


grupo de irmãos? Em que condições de saúde? Fatores como etnia e
origem regional são restritas? Qual a faixa etária?

• Como um novo filho afetará a dinâmica familiar, especialmente se


sua família já tem filhos?

• Que mudanças você está disposto a fazer na sua atual rotina para
facilitar a adaptação de uma criança ou adolescente?

• Como você elabora suas próprias histórias de eventuais traumas e


perdas?

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

• Você já considerou como a adoção de uma criança, com uma


história semelhante à alguma que você tenha vivido, poderá afetá-lo
emocionalmente?

• Você sente que está preparado para lidar com algo complexo na
história da criança, por exemplo, histórico de trauma, abuso sexual,
uma condição médica delicada que não tenha sido identificada
previamente?

• Existem comportamentos específicos que uma criança poderia


manifestar, que causaria dificuldade em ser aceito pela sua família?

• Sua família está aberta para aceitar uma criança adotiva?

• Nos casos de adoção inter-racial ou intercultural (ou seja, adoção de


um filho de uma raça ou cultura diferente da sua), como você se
sentiria em satisfazer, ajudar e promover a identidade cultural e
racial positiva da criança?

• E a pergunta que sintetiza as demais para você sempre fazer:


entendo claramente o quanto estou disposto a adotar?

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

B – RECONHECER SUAS CARACTERÍSTICAS PESSOAIS

Uma das grandes preocupações (e fator de ansiedade para quem


pretende adotar) é sobre a ilusão da perfeição na parentalidade.

Muitos autores indicam que, um caminho para reduzir essa pressão que o
próprio postulante à adoção coloca sobre si, é ter a consciência de que
não existem pais perfeitos – o que encontramos são pais maduros,
amorosos e dispostos exercer a parentalidade da melhor forma possível.

Ainda assim, sempre haverá algo novo, com o que ainda não sabe lidar e
precisará ser aprendido.

E no final das contas, as crianças não precisam de pais perfeitos. Elas


precisam apenas de adultos amorosos, dispostos a enfrentar os desafios
únicos da paternidade/maternidade e que se comprometam a cuidar dos
filhos ao longo da vida.

Podemos destacar algumas características importantes para quem


pretende ser pai ou mãe pela via da adoção. Com isso em mente, você
mesmo poderá saber se está pronto para dar os próximos passos na sua
tomada de decisão.

Tome um tempo para pensar bem em suas respostas


e se quiser, faça anotações sobre as suas características.

1. Acreditar na beleza da adoção e ter capacidade de se comprometer;

2. Ser paciente, persistente e perseverante;

3. Possuir um bom senso de humor e talento para manter a vida em


perspectiva;

4. Acreditar na sua capacidade de aceitar sem julgar e de amar


incondicionalmente;

5. Entender a importância da atitude adotiva - consulte o Capítulo 06:


29
Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

6. Ter consciência de que nas relações humanas, a cura emocional nem


sempre é rápida; exige tempo e amorosidade;

7. E caso pretenda fazer a adoção juntamente com um parceiro/a, é


importante trabalhar bem em equipe e ambos estarem comprometidos
com a adoção;

8. Ser capaz de aceitar o outro em sua singularidade, acolher o filho como


ele é;

9. Superar comportamentos rígidos e autoritários.

Você pode concluir que sim, quer seguir e dar o próximo passo. Ou achar
que não; pensar que a adoção não é para você nesse momento. E tudo
bem se essa for a sua conclusão. Afinal essa é uma decisão com a qual
você e seu futuro filho viverão pelo resto de suas vidas.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

C – COMPREENSÃO DO PAPEL DE PAI/MÃE

Se você continuou interessado, já está consciente de suas características


pessoais e encontrou algumas pistas sobre o que precisará desenvolver ou
melhorar, agora vamos às questões da preparação emocional em termos
mais práticos.

Compreender os papéis de mãe e pai, com suas responsabilidades e


necessidade de suporte é uma tarefa que já está no campo da
preparação, mesmo antes da sua habilitação ser aprovada. Essa etapa
poderá ser realizada com o apoio de outras pessoas que já passaram por
essa fase, ou seja, já estiveram nesse lugar ou com profissionais
competentes nesta área.

Uma boa dica é procurar o Grupo de Apoio à Adoção (GAA) de sua região
e conversar. Lá você conhecerá pessoas que possuem uma rica
experiência e que estão abertas a compartilhá-las com você. Para
encontrar o GAA mais próximo da sua região, consulte o site da ANGAAD.

Fazer um curso preparatório é um requisito que será solicitado no


momento de sua habilitação – que podem ser realizados pelos Grupos de
Apoio à Adoção (GAAs) ou pela própria Vara da Infância e Juventude. Mas
você pode se antecipar e conhecer um GAA antes da sua decisão final,
exatamente para ajudar a entender melhor o processo.

Também poderá buscar apoio numa ajuda especializada de profissionais


como psicólogos e terapeutas. E você também pode começar a fazer suas
pesquisas em materiais como esse livro e diversas fontes de especialistas
em adoção. Leia o Capítulo 09, com sugestões de materiais que podem
complementar sua busca.

Se possível, faça uso de todos esses apoios. Com certeza, preparação


nunca é demais e fará toda a diferença ao enfrentar os desafios comuns à
adoção.

Para finalizar essa etapa, deixamos aqui mais algumas perguntas que o
ajudarão com questões específicas, sendo que algumas delas poderão
fazer parte do seu cotidiano no pós-adoção.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Pegue suas anotações e reflita:

• Quais são seus sonhos, fantasias e expectativas para o futuro do seu


filho e família?

• Como você costuma reagir quando a realidade não atinge sua


expectativa? É tolerante a frustrações?

• Como vai contar sobre a adoção para o seu meio social (parentes
e amigos) e como vai lidar com perguntas de familiares, amigos e
estranhos sobre as questões da adoção?

• Como você responderá às perguntas de seu filho sobre a adoção,


sobre o histórico dele, da família de origem e de suas razões para
adotá-lo?

• Quão disposto você está para aprender novas técnicas e estratégias,


que funcionam melhor para crianças que eventualmente sofreram
perdas, traumas e podem apresentar problema em relação à
vinculação, afeto, apego?

• Quão disposto você está em procurar ajuda para você ou seu filho
quando necessário?

• Quais são seus principais medos e dúvidas sobre ser pai/mãe e sobre
adotar uma criança/adolescente como seu filho?

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

D – AS 9 QUALIDADES DAS ADOÇÕES BEM SUCEDIDAS

Quando chegar o momento da habilitação para adoção, você precisará


definir o perfil de criança ou adolescente que será capaz de cuidar e amar
incondicionalmente. Para isso, é necessário ter clareza sobre os seus limites

– quais são intransponíveis, quais poderão ser revistos, quais as suas forças e
quais as suas potencialidades adormecidas. Podemos chamar isso de
autoconhecimento.

Como mãe ou pai em potencial, você está disposto a fazer a diferença na


vida de uma criança ou adolescente (ou mais de um se considerar adotar
um grupo de irmãos). Então a sua estrutura emocional contará muito.

No item anterior falamos um pouco sobre as características pessoais


desejáveis. Agora vamos falar sobre qualidades, aquelas que podem ser
desenvolvidas utilizando técnicas e estratégias corretas.

Para isso, apresentamos o trabalho da norte-americana Linda Katz,


Doutora em Psicologia e Mestre em Desenvolvimento Infantil e Familiar,
que identificou nove qualidades presente nos pais e mães considerados
bem-sucedidos na parentalidade pela via da adoção.

Pais e Mães adotivos bem-sucedidos apresentam:


1. CAPACIDADE de encontrar a felicidade em pequenos passos.
Em vez de focar nos objetivos finais grandiosos projetando nos filhos suas
maiores ambições, os pais bem-sucedidos ficam felizes com o papel de
ajudar os filhos a alcançar o sucesso em pequenas etapas, começando
com as tarefas diárias. Esses pais vivem no presente e ajudam seus filhos a
realizar cada tarefa. Eles não vivem no futuro nem pressionam a si mesmos
ou às crianças para alcançar o resultado final. Eles comemoram pequenos
sucessos com seus filhos e os ajudam a apreciar o efeito acumulativo de
cada esforço.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

2. CONFIANÇA NO PROCESSO: não se sentem rejeitados pelo filho e


podem adiar a satisfação de suas necessidades.
Os pais de sucesso persistem em seu papel de pais diante da rejeição.
Crianças com passado difícil, especialmente crianças mais velhas e
adolescentes, geralmente afastam aqueles que tentam se aproximar
delas. Um pai ou mãe bem-sucedido vê esse comportamento como uma
tática de sobrevivência para impedir que qualquer adulto os decepcione,
machuque ou rejeite novamente. Os pais de sucesso são teimosos e se
recusam a aceitar que o resultado final do relacionamento será
determinado pelo filho. Eles também são capazes de colocar suas
próprias necessidades em espera e adiar suas recompensas por semanas,
meses e até anos. Eles não aceitam pessoalmente a rejeição inicial da
criança e entendem que isso tem a ver com as decepções, medos e
traumas do passado - não é pessoal. Eles se veem como pais terapêuticos
e estão dispostos a esperar, trabalham bem com a rejeição.

3. TOLERÂNCIA com sua própria ambivalência e/ou sentimentos negativos


fortes.
Crianças que passaram por acolhimento institucional – especialmente as
mais velhas, as que viveram a Primeira Infância numa casa de
acolhimento ou que estiveram lá por longos anos – costumam apresentar
na fase de adaptação uma profunda dor do passado, comportamentos
destrutivos ou violentos, dificuldades de relacionamento, entre outros
comportamentos. Essas crianças tendem a despertar sentimentos
negativos em seus pais adotivos, geralmente paralelos ao que elas
próprias sentem. Pais adotivos bem-sucedidos são capazes de sentir esses
sentimentos negativos, processá-los e separar aqueles que vêm da
criança.

Eles não se julgam duramente por sentir raiva, são capazes de sentir raiva
e não agir sobre ela, e sabem que seus sentimentos vão passar. Esses
adultos também são capazes de usar o humor para neutralizar suas
emoções reativas e podem conversar sobre seus sentimentos com outros
pais, terapeutas ou seus pares nos grupos de apoio.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

4. FLEXIBILIDADE na função dos pais.


Quando a adoção é feita por um casal, um fator que distingue os
adotantes bem-sucedidos (sobretudo nas adoções tardias) é a capacidade
de um dos pais perceber os sinais de desgaste no outro e assumir o papel
de cuidador enquanto o parceiro estressado se recupera. Um padrão
estabelecido de flexibilidade de papéis aumenta consideravelmente a
probabilidade de sucesso de uma família, pois um parceiro fica aliviado
de absorver toda sobrecarga emocional.

A flexibilização também pode acontecer na monoparentalidade, se existir


uma pessoa próxima que possa fazer esse revezamento.
Pais solteiros podem encontrar resultados semelhantes quando:
o Constroem uma rede de suporte por meio da associação em um
grupo de outros pais adotivos;
o Encontram amigos que possam ouvir e oferecer intervalos informais
para suas responsabilidades;

o Estabelecem uma relação de confiança com cuidadores, para que


possam sair e se divertir algum dia na semana, alternando períodos
desgastantes com momentos de descanso.

5. VISÃO SISTÊMICA da família.


As famílias que tendem a rotular uma pessoa como o problema ou
procuram o "mocinho" e o "vilão" em uma situação tendem a procurar um
“bode expiatório” na família. Quando os pais veem a família como um
sistema - com interrelações complexas entre todos os membros -, eles
tendem a analisar mais profundamente as razões por trás dos
comportamentos, enxergam melhor as dificuldades entre irmãos e as
interações com os pais. E procuram maneiras de melhorar os
relacionamentos. Esses pais estão dispostos a ver como cada membro
afeta o outro e tendem a mobilizar todos os seus recursos para lidar
melhor com o novo filho adotivo

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

6. CAPACIDADE DE ASSUMIR O CONTROLE de seu papel parental.


Os pais que obtêm sucesso são capazes de fazer rapidamente a transição
de uma postura provisória para a plena "propriedade" de seu papel como
pais e incorporar as muitas diferenças e a história da criança em sua
família. Seu próprio conforto em ser pai ou mãe os ajuda a superar
quaisquer circunstâncias ou irregularidades incomuns e são capazes de se
encarregar do relacionamento. Assim como os pais dos recém-nascidos
começam “agindo como pais” e depois “transformam-se em pais”, o
mesmo acontece com os pais adotivos. Assumir o papel de pai não
significa dominar, mas tomar a iniciativa do relacionamento, estabelecer
limites, atender às necessidades da criança, nutrir e estabelecer as bases
para construir a intimidade. Em resumo, os pais devem sempre lembrar
que eles são os adultos da relação e não o contrário.

7. PERSISTÊNCIA EM DESENVOLVER um relacionamento com a criança.


Os pais adotivos bem-sucedidos de crianças mais velhas sabem que
precisam tomar a iniciativa no contato. Ao mesmo tempo em que
entendem que é preciso tranquilidade e paciência, assumem que são
responsáveis por ajudar a criança a internalizar que o relacionamento com
um adulto pode ser saudável, estável e seguro. Pais eficazes são ativos e
fazem o mesmo que os pais de bebês e crianças pequenas: “eles assumem
o controle, tentam antecipar comportamentos, interrompem as espirais de
comportamento, fornecem muitos elogios, reforço positivo e afeto físico…
[eles] assumem a liderança no relacionamento e não são impedidos pelo
protesto ou pela resistência da criança.” (Jernberg, 1979). Esses pais podem
parecer intrusivos, mas o fazem de maneira cuidadosa. Eles compensam o
tempo perdido e tentam estabelecer contato e ser proativos, como os pais
de bebês, fazendo contato visual e tendo proximidade física para criar
intimidade e confiança.

8. PRÁTICA do autocuidado e uso do humor.


Os pais com um estilo de vida equilibrado, contam com estratégias de
autocuidado e humor em suas vidas diárias, são capazes de estabelecer
um padrão saudável e se recusam a aceitar o martírio como o preço da
maternidade. Noites regulares de sono e folgas ocasionais nos finais de
semana, ajudam os pais a ter uma perspectiva, a se reagrupar e a voltar à
família com energia renovada.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

9. ABERTURA para aceitar ajuda.


Quando as famílias decidem adotar crianças com problemas severos ou
necessidades especiais, precisam estar abertas a aceitar ajuda de várias
fontes: outros pais, professores, terapeutas, assistentes sociais etc. As
famílias bem-sucedidas aceitam receber ajuda de pessoas de fora da
unidade familiar como um ganho e não como uma ameaça.

29

37
#03
teste seus
conhecimentos

38
Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

A – QUIZZ
Para checar se você está pronto para seguir adiante
e entender o passo a passo para se habilitar à adoção,
colocamos aqui um pequeno quizz.

ATENÇÃO: o quizz não tem pontuação ou validação científica.


Ele serve apenas para você avaliar seu próprio conhecimento.
Veja nossos comentários na próxima página.

1 - Quanto tempo leva para concluir o processo de habilitação para o


postulante à adoção:
A. 60 dias úteis
B. 120 dias prorrogáveis por mais 120 dias
C. 90 dias prorrogáveis por mais 120 dias

2 - Pessoas que podem ser habilitadas para adoção precisam:


A. Estar casadas
B. Ter um diploma universitário
C. Ser estáveis e maduras sobre a decisão em tornar-se pai/mãe pela adoção

3 - Os pais adotivos bem-sucedidos sabem que:


A. Eles podem fazer isso por conta própria
B. Eles devem procurar apoio e informações
C. Eles não devem contar a ninguém que seu filho é adotado

4 - Maioria de crianças disponíveis para adoção no brasil, com


percentual de 66,9%:
A. 0 a 3 anos
B. 3 a 6 anos
C. Maiores de 6 anos

5 – Cite 5 das 9 qualidades que contribuem para que as adoções sejam


bem-sucedidas:
Resposta aberta. Descreva as que você se lembra mais prontamente e
se quiser, faça um exercício de associação entre a qualidade
comentada e eventuais situações que você já tenha vivido e utilizado
a habilidade em questão.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

B – RESPOSTAS COMENTADAS

1 - Quanto tempo leva para concluir o processo de habilitação para o


postulante à adoção:
O prazo estipulado por lei é de 120 dias, prorrogáveis por mais 120 dias.

2 - Pessoas que podem ser habilitados para adoção precisam ser


estáveis e maduras:
As pessoas podem formar uma família com um filho adotivo se forem
solteiras ou casadas, se morarem de aluguel ou em casa própria, se já
tiverem outros filhos ou não. Esses não são fatores que definem o sucesso
de uma adoção. Muitos pais adotivos possuem recursos modestos e
trabalham fora de casa. Muitos não foram para a faculdade. Muitos são
casais homoafetivos ou solteiros. O que mais conta nas avaliações para a
habilitação e para a estabilidade da família com a chegada do filho, é o
grau de maturidade e estabilidade emocional dos pretendentes.

3 - Os pais adotivos bem-sucedidos sabem que devem procurar apoio e


informações:
Os pais adotivos bem-sucedidos entendem que precisam de treinamento,
de apoio de seus amigos/familiares e de conselhos de outras famílias
adotivas experientes para fazer o melhor trabalho possível. Ao considerar
a adoção é importante avaliar como desenvolverá suas habilidades e
criará uma rede de apoio para você e as crianças de quem cuidará.

4 - Maioria disponível para adoção no Brasil, com percentual de 66,9%:


Crianças acima de 6 anos, ou seja, as que já saíram da chamada Primeira
Infância são as mais disponíveis para adoção no cadastro do SNA. Em
contrapartida, se somarmos as porcentagens de pretendentes que
aceitam crianças acima de 6 anos, não chegamos a 17%.

5– As 9 qualidades que contribuem para que as adoções sejam bem-


sucedidas:
• CAPACIDADE de encontrar a felicidade em pequenos passos
• CONFIANÇA no processo: não se sentem rejeitados pelo filho,
podem adiar a própria satisfação
• TOLERÂNCIA com sua própria ambivalência e / ou sentimentos negativos
• FLEXIBILIDADE na função dos pais
• VISÃO SISTÊMICA da família
• CAPACIDADE de assumir o controle de seu papel parental
• PERSISTÊNCIA em desenvolver um relacionamento com a criança
• PRÁTICA do autocuidado e uso do humor
• ABERTURA para aceitar ajuda
Quizz adaptado do site adoptuskids.org
40
#04
está decidido
quero adotar!

41
3
Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

A - PASSO A PASSO - INFOGRÁFICO


No capítulo inicial apresentamos os requisitos necessários para ser um
pretendente à adoção, bem como esclarecemos as principais dúvidas sobre os
parâmetros para a habilitação. Agora chegou o momento de entrarmos na parte
prática do Cadastro no SNA – Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento.
Veja um resumo do passo a passo nesse infográfico e nas páginas seguintes
confira o detalhamento de cada fase:

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

B - PASSO A PASSO – DETALHADO

INÍCIO DO PROCESSO
1. CADASTRO
Dirija-se à Vara da Infância e da Juventude ou ao Fórum mais próximo da
sua residência (no mesmo município onde mora atualmente) levando um
documento de identidade e o comprovante de residência. Agora com o
novo SISTEMA NACIONAL DE ADOÇÃO E ACOLHIMENTO (SNA), já é
possível fazer um pré-cadastro online. Acesse www.cnj.jus.br/sna

Se quiser adiantar a documentação, em geral as Varas ou Fóruns de todas


as comarcas pedem uma lista básica de documentos, mas em alguns
casos pode ser requerida documentação específica - no Fórum eles darão
a orientação completa.

Lista da documentação básica:


o Cópia autenticada de documentos pessoais;
o Atestado ou declaração médica de sanidade física e mental emitida
por psiquiatra;
o Comprovante de residência (conta recente de água, luz etc);
o Comprovante de rendimentos ou declaração equivalente;
o Certidões negativas de antecedentes criminais;
o Certidão de casamento ou nascimento; de união estável.

Após a entrega dos documentos, é só aguardar o contato da Equipe


Técnica da Vara da Infância e da Juventude, formada por psicólogas (os) e
assistentes sociais.

FASE PREPARATÓRIA

2. CURSO PREPARATÓRIO
A realização de um curso preparatório é uma exigência da Vara da Infância
e da Juventude, que poderá indicar um Grupo de Apoio à Adoção mais
próximo na sua região para a realização.
Algumas Varas da Infância e da Juventude realizam uma palestra
introdutória e seu próprio curso.
OBS: em algumas comarcas o curso preparatório é exigido antes mesmo
da apresentação da documentação completa.

3. DEFINIÇÃO DO PERFIL DA CRIANÇA E AVALIAÇÃO DO CANDIDATO


Paralelo ou após a realização do curso (depende da vara), serão agendadas
entrevistas com psicólogos e assistentes sociais, em que a equipe poderá
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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

conhecer de forma aprofundada sua história de vida pessoal, profissional e


familiar, dinâmica conjugal quando casal, realidade socioeconômica,
contexto cultural, motivações para adoção, medos, angústias, mitos,
dúvidas, bem como dialogar sobre as particularidades que há na trajetória
da criança/adolescente encaminhados para adoção e o processo de
construção e fortalecimento dos vínculos afetivos.

Também é comum a realização de visita domiciliar, para um


conhecimento mais aprofundado sobre a dinâmica da família no
ambiente em que vive.

Ao final da avaliação, o pretendente descreverá em detalhes o perfil da


criança desejada: sexo, faixa etária, estado de saúde, se aceita irmãos
(quando a criança tem irmãos, a lei prevê que o grupo não seja separado)
etc. Esta identificação é importante para o cadastro dos pretendentes
junto ao Sistema Nacional de Adoção (SNA), o qual realiza a vinculação
das crianças/adolescentes às famílias, por meio de dados objetivos.

O curso para pretendentes à adoção não possui um padrão único, mas é


organizado conforme a realidade de cada comarca, e tem como objetivo
ampliar a troca de conhecimentos e experiências importantes ao processo
de construção e fortalecimento dos vínculos afetivos na adoção.

Quando a equipe conclui o trabalho de avaliação, elabora-se um laudo


técnico (social e psicológico), que é anexado ao processo, para contribuir
com o parecer do Ministério Público e a decisão judicial, a qual poderá ser
favorável ou desfavorável à inclusão dos pretendentes no Sistema
Nacional de Adoção, naquele momento.

Ao final das entrevistas e da conclusão do curso preparatório, o laudo das


avaliações será encaminhado ao Ministério Público e ao juiz da Vara de
Infância.

HABILITAÇÃO

4. CERTIFICADO DE HABILITAÇÃO
A partir do laudo da equipe técnica da Vara da Infância e do parecer
emitido pelo Ministério Público, o juiz dará sua sentença. Com seu pedido
aprovado, seu nome será inserido no Sistema Nacional de Adoção e
Acolhimento (SNA) e você entrará para a fila de adoção. O tempo de
duração do processo é variável e depende de cada Vara.
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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Conforme já dissemos, pela legislação em vigor esse prazo é de 120 dias,


prorrogáveis por mais 120. Ou seja, tenha paciência pois estamos falando
de meses de espera.

DICA: É fundamental manter seus dados atualizados, para que consigam


localizá-lo quando for consultado sobre uma criança!

CONEXÃO

5. CONHECER
Através do cruzamento entre os seus dados, o perfil de preferência e as
crianças aptas à adoção, os assistentes sociais vão buscar os pretendentes
que mais se encaixam no perfil das crianças. Esse é um ponto
superimportante do processo. Eles não buscam filhos para quem quer
adotar e sim, o contrário, famílias que mais se encaixam no perfil das
crianças.

Quando essa “conexão” acontece, a Vara da Infância e da Juventude irá


entrar em contato para informar o perfil da criança. Se houver interesse, o
primeiro encontro de aproximação é promovido, no Fórum ou na
instituição de acolhimento (conhecida como abrigo) conforme decisão
das equipes técnicas do serviço de acolhimento e da Vara da Infância e
Juventude.

Esta etapa pode gerar dúvida ao pretendente: e se o perfil da criança não


for o escolhido na habilitação, e se não houver afinidade com a criança?
É possível dizer não? Sim, não há nenhum impedimento legal, mas
é importante ter claro que repetidas respostas negativas podem levar
a uma revisão de sua habilitação e até mesmo a seu descredenciamento.
E também é importante lembrar que o amor de mãe/pai e filho não
acontece em um clique, que é uma relação que vai sendo construída com
o tempo.

Ao longo do processo de habilitação e espera do filho pela adoção, os


pretendentes precisarão dizer alguns Sim e Não e é fundamental que o
façam a partir de profundo exercício refletivo, emocional e racional,
individualmente e enquanto casal, conforme as condições objetivas e
subjetivas de cada um.

Neste sentido, o primeiro contato da equipe técnica da Vara da Infância e


Juventude para apresentar uma criança/adolescente será geralmente por
telefone, conforme o perfil indicado no SNA.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Contudo, para decidir seguir os próximos passos, os pretendentes têm


direito de acesso não apenas aos dados do perfil, mas, sobretudo, à
informações importantes referentes à história de vida da
criança/adolescente, condições de saúde física e emocional,
desenvolvimento cognitivo, vínculos e rupturas vividos em sua família de
origem e serviço de acolhimento, além de dados do processo judicial.
Neste momento, é comum o pretendente ter vontade de conhecer a
criança/adolescente por uma fotografia, mas o mais importante são os
dados que mostram cada um em sua singularidade, com foco na
realidade, desafios, potencialidades e esperança. Este diálogo sincero com
a equipe contribuiu para a decisão responsável sobre a criança/
adolescente que eu desejo me aproximar e assumir a construção dos
vínculos para torná-lo meu filho.

6. ADAPTAR
Na maioria dos casos, existe o que se chama de período de adaptação ou
aproximação, que consiste em algumas visitas e períodos breves de
convivência (geralmente finais de semana), autorizados judicialmente.
Passada esta fase, o pretendente deve se manifestar se concorda ou não
com a adoção. Conforme a idade, a criança também será entrevistada e
dirá se quer continuar o processo. Vale a mesma recomendação anterior.

Após ouvir as informações por telefone, e pessoalmente no Setor Técnico,


o pretendente dizer sim, a equipe irá construir o momento do primeiro
encontro, o qual poderá ocorrer no próprio serviço de acolhimento ou no
Fórum, conforme melhor compreensão, a fim de atender a proteção
emocional da criança/adolescente. Avaliamos a importância de um novo
sim, após o primeiro encontro, a fim de se construir o plano de
convivência, a partir de momentos gradativos, organizados
conjuntamente com as equipes técnicas.

Primeiramente, no serviço de acolhimento e, aos poucos, com saídas


externas em locais públicos, como praças, parques, atividades ao ar livre;
depois visitas na casa da família durante o dia, seguindo com pernoites.
Enfim uma experiência que permita a decisão para um novo sim, ou seja,
o pedido de guarda com fins de adoção e a ida da criança/adolescente
para a casa da nova família. Este momento geralmente se apresenta com
muita expectativa e ansiedade por parte de todos, mas respeitar o tempo
e o processo são pontos determinantes à vinculação.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

PASSOS FINAIS

7. GUARDA PROVISÓRIA

Se o relacionamento inicial for bom, de acordo com a avaliação


psicossocial e existir o interesse dos dois lados, o juiz dará a guarda
provisória com vias à adoção, que terá validade até a conclusão do
processo.

Nesse momento, a criança passa a morar com a família, que será


acompanhada pela equipe técnica com visitas e entrevistas periódicas e a
avaliação conclusiva. Essa fase é chamada de “estágio de convivência”.
O prazo desta etapa varia de acordo com a Vara da Infância e da
Juventude. Há juízes e promotores que entendem a necessidade de uma
avaliação aprofundada, mas que sabem da angústia que esse período
gera e por isso fazem um processo mais ágil.
OBS.: De acordo com o art. 46, do ECA, o estágio de convivência, na
adoção nacional, é de no máximo 90 dias, prorrogáveis (de forma
justificada) por igual período. Assim o prazo é de 3 meses, prorrogável
uma vez.

8. ADOÇÃO “DEFINITIVA”
O juiz profere a sentença de adoção e determina a lavratura do novo
registro de nascimento, já com o sobrenome da nova família. Existe a
possibilidade também de trocar o nome da criança, mas isso não é a
regra. O juiz dará uma ordem para cancelamento do registro de
nascimento original. O novo registro de nascimento do adotado, a pedido
dos adotantes, poderá ser lavrado na cidade onde a família estiver
morando no momento da adoção.

OBS.: A adoção é sempre “definitiva”. Para fins didáticos, colocamos a


palavra DEFINITIVA entre aspas, para deixar claro que estamos falando de
uma adoção onde já houve uma sentença com trânsito em julgado.

47
#05
aprecia r
a espera

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

No processo de adoção, embora a gestação não seja física, há que se fazer


um preparo psicológico, pois entre as primeiras providências na Vara da
Infância e da Juventude até a efetiva chegada do seu filho em casa,
haverá um longo percurso a percorrer. Um caminho de ansiedades,
espera, trabalho, dedicação e amor.

Além dos hormônios, existe outra diferença marcante entre as duas


esperas: na gestação física, conhecemos o tempo máximo de espera,
contado em semanas ou meses. Já na preparação para a chegada do filho
pela via da adoção não há uma data limite no horizonte, ou seja, o
pretendente à adoção tem que estar preparado, porém não pode
congelar sua vida enquanto o dia não chega. Essa é uma equação
delicada, mas possível.

Para atravessar essa fase com mais tranquilidade existem algumas


ferramentas que podem contribuir para tornar esse tempo de espera algo
natural, para ser encarado como parte do processo na chamada “gestação
adotiva”. Apresentamos algumas dessas ferramentas no próximo capítulo.

Outro fator que pode deixar sua espera menos ansiosa é compreender os
porquês da morosidade. Não queremos justificar ou defender os
processos burocráticos, mas acreditamos que, ao vermos uma questão
por outros ângulos podemos ampliar nossa compreensão sobre os fatos
que não estão sob nosso controle.

A pergunta mais comumente feita por quem está envolvido na espera da


adoção é: “por que o processo é tão demorado se há cerca de cinco vezes
mais pretendentes à adoção do que crianças esperando uma família?! Ou,
ainda, “por que tanta demora e há tantas crianças carentes no Brasil?”

A resposta mais direta levaria à incompatibilidade da maioria dos perfis


desejados com a maioria dos perfis disponíveis – veja infográficos no
Capítulo 01.

Outra questão é que existem bem menos crianças e adolescentes para


adotar do que se imagina. A maior parte das crianças acolhidas não estão
disponíveis para adoção, ou seja, estão em instituições de acolhimento ou
em acolhimento familiar enquanto aguardam que sua situação seja
resolvida. As crianças e adolescentes disponíveis para adoção são apenas
os que já estão destituídos do Poder Familiar (ver a seguir).

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Um outro ponto diz respeito à falta de entendimento, ainda existente,


sobre o tempo da criança e da lei, que evidentemente são diferentes. Isso
se evidencia pelo direito constitucional de toda criança conviver com sua
família de origem. A adoção é explicitada pelo ECA como sendo o último
recurso e aí, até que se esgotem todos as possibilidades de retorno à
família de origem ou encaminhamento à família extensa, muito tempo
pode decorrer.

Para entendermos melhor essa questão precisamos compreender o que é


e como se dá a Destituição do Poder Familiar.

O que é poder familiar


O poder familiar se configura como o conjunto de responsabilidades e
deveres inerentes aos pais em relação à pessoa e bens de seus filhos
menores de 18 anos de idade ou não emancipados, com intuito de
assegurar-lhes um bom desenvolvimento. O poder familiar pressupõe
direitos e deveres dos pais, que possuem seus nomes na certidão de
nascimento dos filhos.

O que é Destituição do Poder Familiar


A Destituição (ou perda) do Poder Familiar é a medida mais grave imposta
pela legislação brasileira nos casos de descumprimento de relevantes
deveres que foram incumbidos aos pais em relação aos filhos menores de
18 anos não emancipados, destituindo os genitores de todas as
prerrogativas decorrentes da autoridade parental.

Essa é uma questão complexa, que merece muita reflexão. Para nos
ajudar, reproduzimos abaixo o que diz a Associação dos Magistrados
Brasileiros (AMB), em sua Cartilha sobre Adoção – Mude um Destino:

“Este tema é difícil porque nos defrontamos com crianças/adolescentes


cujas famílias não puderam exercer suas funções, gerando ruptura ou
esgarçamento destes vínculos primordiais, que remetem a importantes
experiências psíquicas de cunho universal, ligadas ao desamparo.

Quando tratamos desse tema estamos lidando com o que de mais


primitivo, irresoluto e humano que carregamos em nossas vidas,
reativando as nossas vivências relacionadas a esta questão. Por isso, é
sempre complexo lidar com a destituição do Poder Familiar e muitos
esforços são exigidos para se evitar que, paradoxalmente, os protagonistas
do cenário da adoção se vejam, sob várias perspectivas, desamparados:
família de origem, crianças e adolescentes, cuidadores, candidatos a pais
adotivos e profissionais envolvidos.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

É fundamental que, não apenas no âmbito da decisão do juiz, tomada


caso a caso, mas, em todas as instâncias relacionadas com a destituição,
que as equipes técnicas estejam bem capacitadas e assessoradas para
lidar com a questão com base no reconhecimento de que todos os
profissionais também são afetados por esta problemática.

Sem a consciência dessa inescapável vicissitude humana, corre-se o risco


de comprometer as tomadas de decisões como, por exemplo, disparar
uma certa urgência em dar respostas para evitar ou contornar o
desamparo, que nem sempre seriam as melhores. Na busca por retirar
apressadamente as crianças de situações de desproteção, corre-se o risco
de promover efeitos paradoxais e contraditórios àquilo mesmo que se
deseja alcançar.

É o que acontece quando se deixa de exercer políticas fundamentais de


apoio a famílias em situação de desamparo; quando se realizam
abrigamentos e desabrigamentos abruptos; quando se registra
ilegalmente uma criança como sendo filho biológico; quando se
desconsidera os desejos e necessidades de postulantes a adoção, para
citar apenas algumas ações movidas por uma apressada e contraditória
intenção de romper e formar novos vínculos afetivos.

Embora não tenhamos uma fórmula que nos indique com precisão o
destino a dar para todas as situações, temos a capacidade de, no caso a
caso, analisar e construir muito cuidadosamente a melhor alternativa
possível. Uma delas poderá ser a interrupção definitiva da convivência
comprovadamente perniciosa entre crianças e seus familiares e oferecer,
a medida de proteção mais plausível, sendo que uma delas poderá ser a
adoção.”

Como podemos perceber, há um longo caminho para que o seu futuro


filho esteja disponível para adoção. Todos os trâmites para conceder a
habilitação aos pretendentes, os cruzamentos adequados de perfis e as
fases de adaptação, buscam o melhor interesse da criança e do
adolescente, para prevenir que, ao ser destituído de sua família de origem,
não sofra com novos abandonos, negligências e rejeições.

Essas não são decisões fáceis de se tomar. Por isso a paciência e a fé no


processo é um dos requisitos fundamentais, que falamos logo no começo
da nossa conversa.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

É importante a compreensão de que a Destituição do Poder Familiar


pressupõe um conjunto de avaliações fundamentadas em compromisso
ético e competência técnica, as quais avaliam o contexto em que a família
vive para além das questões econômicas.

Ou seja, a miséria não é motivo legal para que uma família perca seu
poder familiar. Neste sentido, destacamos a relevância dos vínculos de
proteção, cuidado e afeto. A família tem o dever de cuidar e para tanto é
fundamental o papel do Estado no processo de garantia de direitos sociais
efetivos.

Crianças e adolescentes são prioridades absolutas!

Para fechar esse capítulo, vamos propor


um exercício de amor para iniciar
o seu tempo de espera

Crie um álbum de futuros pais, para mostrar ao seu filho quando ele tiver
uma idade de entendimento. Nele você pode:

• Colocar fotos de como vocês eram enquanto esperavam – o casal, a


pessoa solteira se for o caso, sozinhos e também com a família e os
amigos com quem vocês partilharam a informação de que estavam
aguardando o filho chegar;

• Colocar a letra de uma canção que fazia você imaginar como seria
o momento da chegada do seu filho;

• Uma notícia sobre como estava o mundo, a natureza, algum fato positivo
no tempo de espera;

• Um prato delicioso que você gostava de comer;

• Outras sugestões: você também pode fazer páginas com colagens de


imagens de revistas, desenhar se você gostar, colar uma pétala de alguma
flor...

Enfim, deixe sua imaginação solta e aproveite o momento para vivenciar


a sua própria história que, em breve, se entrelaçará com a de outra
pessoa.
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#06
aprender
no
tempo de
espera

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

No capítulo anterior, falávamos sobre a parte emocional da espera. Agora


vamos falar em como tornar essa espera produtiva: usar seu tempo para
entender as questões da maternidade/paternidade, no que diz respeito
ao desenvolvimento humano em geral e nas questões específicas da
adoção. Vamos lá?

A – ASSUNTOS DA PARENTALIDADE
AS FASES DO DESENVOLVIMENTO HUMANO
Uma recomendação para todos os futuros pais, independentemente da
forma como o filho chegará, refere-se ao entendimento das fases do
desenvolvimento humano. Vários estudiosos publicaram trabalhos, nos
campos da psicologia, pedagogia, neurociência entre outros.

Conhecer as diversas teorias e estudar os pontos sinérgicos e divergentes


entre elas proporciona uma base de conhecimento para os futuros pais e
mães. Se quiser começar seus estudos nesse campo, sugerimos um
material complementar que está disponível em nosso site para download
gratuito. Acesse nesse link.

PRIMEIRA E PRIMEIRÍSSIMA INFÂNCIA


Você sabe a diferença entre os termos Primeira e Primeiríssima Infância?
Crianças dos 0 aos 6 anos estão na Primeira Infância, mas faz-se um
destaque na faixa entre os 0 aos 2 anos por sua importância no
desenvolvimento neuronal. Esse período é chamado de Primeiríssima
Infância, quando acontece a maior parte das sinapses que teremos ao
longo da vida.

Está provado cientificamente que a Primeira Infância é de fundamental


importância para o desenvolvimento do indivíduo. Diversos estudos
psicológicos, sociais e da neurociência demonstram que o cuidado, o
afeto, a criação de vínculos seguros e estáveis, a socialização e estímulos
nessa fase da vida vão ajudar na formação psicomotor, social e emocional
dos indivíduos. Ou seja, o que acontece nos primeiros anos terá impacto
ao longo de toda a vida.

Como esse não é o tema desse livro, não vamos nos aprofundar nessas
argumentações, mas deixamos abaixo uma série de materiais sobre
Primeira Infância que poderão ser consultados, baixados e assistidos.
Acesse os materiais clicando nos respectivos links:
Primeiros Mil Dias
Princípios da Primeira Infância
O que é estresse tóxico
Playlist “Primeira Infância” no Canal do IGA no Youtube
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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Apesar de ser muito relevante termos um conhecimento das


especificidades de cada fase de desenvolvimento do ciclo vital,
precisamos também ter em mente que as crianças adotadas maiores e
adolescentes, muito frequentemente, apresentarão aspectos regressivos
importantes no seu desenvolvimento global, especialmente do ponto de
vista psicológico.

Isto deve-se ao fato da falta de estímulos e afeto sempre constantes no


período anterior à adoção. Assim, como exemplo, será comum
adolescentes adotados aos 14-15 anos apresentarem comportamentos
compatíveis com crianças de 8-10 anos de idade.

Essas defasagens são recompostas à medida que as crianças e


adolescentes são inseridos em lares afetivos onde existam pais com as
características desejáveis listadas acima.

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B – ASSUNTOS DA PARENTALIDADE NA ADOÇÃO

A IMPORTÂNCIA DOS GRUPOS DE APOIO À ADOÇÃO


Já falamos sobre os Grupos de Apoio à Adoção e sobre a Associação
Nacional de Grupos de Apoio à Adoção (ANGAAD) e sobre a
obrigatoriedade do curso preparatório para a aprovação de sua
habilitação no Capítulo 01.

No entanto, os Grupos de Apoio à Adoção (GAAs) vão muito além. A troca


de experiências entre os pretendentes e os que já adotaram se mostra
muito rica e efetiva no momento da espera e nas fases pós-adoção.

Sobre isso, temos um vídeo e um artigo esclarecedores, onde a Presidente


da ANGAAD, Sara Vargas, fala da importância da preparação na pré-
adoção e do acompanhamento no pós-adoção, Para assistir basta clicar
nesse link ou para ler o artigo clique aqui.

ATITUDE ADOTIVA
Quem já adotou ou começa a considerar o tema, provavelmente vai
encontrar o termo Atitude Adotiva, na voz de especialistas que defendem
essa forma de ver o mundo e os filhos. Nasce na família adotiva, mas
deveria ser abraçada por todos, uma vez que se refere ao amor cuidadoso,
à aceitação de diferenças, ao respeito pelo outro indivíduo.

Uma das autoridades para falar sobre o tema, a Diretora de Relações


Públicas da ANGAAD Suzana Schettini, explica que a atitude adotiva é
um fenômeno essencialmente amoroso, que é a afiliação por afeto.

O afeto por alguém cujo DNA não conhecemos, sobre quem sabemos
pouco ou quase nada, sobre alguém que desconhecemos a genética ou a
ancestralidade. E ainda assim, é uma relação extremamente amorosa,
capaz de transformar crianças ou adolescentes em nossos próprios filhos.

Ela defende que a atitude adotiva deveria estar na fundamentação de


todas as sociedades. Que se conseguíssemos olhar para o outro com este
olhar de atitude adotiva, tudo seria possível e o mundo seria um lugar
melhor.

Para saber mais sobre atitude adotiva e como ela é importante na


composição das famílias, sobretudo aquelas que optaram pela
parentalidade pela adoção, assista o vídeo completo, clicando nesse link.

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ADOÇÃO TARDIA / ADOÇÕES NECESSÁRIAS


Você está familiarizado com os termos “Adoção Tardia” ou “Adoções
Necessárias”? Estas definições não têm sido mais utilizadas, uma vez que
importantes avanços na área da adoção têm contribuído para a
superação destes termos. Atualmente, compreendemos que sempre é
tempo de uma criança e um adolescente tornarem-se filhos, por isso
nunca a adoção é tardia.

Contudo, se no seu perfil de pretendente à adoção você sinalizou que


aceita crianças maiores de 2 ou 3 anos, ou seja, crianças que já possuem
um desenvolvimento parcial por conta da idade, você já está, de certa
forma, envolvido/a com esse tema.

Para fins didáticos utilizamos o termo Adoção Tardia como forma de


facilitar a localização de referências já publicadas sob esse título, que
apresentam as principais características e as fases comuns nas crianças
que chegam em suas novas famílias quando são um pouco maiores.

Para mais informações e análises sobre o tema, indicamos a leitura de


artigos diversos produzidos para o blog do Instituto Geração Amanhã e
do site Adoção Passo a Passo, nos links abaixo:

O que é adoção tardia


As fases da adoção tardia
Adoção tardia – mitos e verdades
Fases da adoção tardia – como lidar
Adoção tardia – sentimentos e desafios

E quanto ao termo “adoções necessárias”? Não seriam todas as adoções


necessárias? No entanto, quando o termo aparece, normalmente se
refere às adoções de crianças mais velhas, adolescentes ou pessoas com
necessidades especiais.

EXPECTATIVAS E REALIDADE
Muitos pretendentes à adoção idealizam os filhos de forma inflexível e
quando a realidade se apresenta, eles se sentem perdidos e até frustrados,
pois o filho que chegou não condiz com suas fantasias e projeções.

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Por outro lado, se não houvesse imaginação e idealização, provavelmente


não seria possível chegar até aqui. Toda realização é precedida por um
desejo, por uma ideia, por algo imaginado.

Para proporcionar uma reflexão sobre o desejo em contraponto com o


alinhamento da possível realidade, contamos com as explanações dos
excelentes especialistas em adoção Luiz Schettini e Angélica Gomes.

Vale muito a pena assistir os vídeos nos links abaixo:

Família ideal x Família real – Angélica Gomes


A construção pela convivência - Luiz Schettini

AS DESISTÊNCIAS E DEVOLUÇÕES NA ADOÇÃO


Outro ponto pouco comentado, mas que infelizmente é uma realidade,
são as desistências e devoluções na adoção.

Pais que não se preparam emocional e/ou socialmente, que não se


estruturam, que não abrem mão das altas expectativas projetadas no filho
que chegará, ou por inúmeros outros motivos, muitas vezes não
conseguem lidar com problemas que surgem.

Em geral se desesperam com a rejeição da criança, com o seu


comportamento considerado inadequado, ou não se consideram
competentes para ajudar aquela criança ou adolescente. E acabam
descobrindo que, quem precisa de ajuda primeiro são eles próprios.

Dessa forma, esses “pais” agem de maneira semelhante aos pais biológicos
do adotando/adotado, colocando este em situação de rejeição, abandono,
vulnerabilidade, causando o que se chama de revitimização.

A especialista em adoção Angélica Gomes da Silva tem um vídeo


esclarecedor, que coloca o assunto de forma clara e sem tabus. Assista
clicando nesse link.

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C – DESENVOLVIMENTO DE HABILIDADES E POTENCIALIDADES

Para encerrar esse capítulo, vamos propor um exercício prático de


autoconhecimento e desenvolvimento de habilidades interpessoais, que
poderão ajudar em momentos e situações novas, que potencialmente
acontecerão com a chegado de um filho.

Apresentamos a seguir um rico material, adaptado do site do North


American Council on Adoptable Children, com uma lista de habilidades e
algumas dicas sobre como desenvolvê-las.

“Muitas crianças que chegam à suas novas famílias possuem histórico de


abuso e negligência, o que os deixam inseguros, reativos e até raivosos.
A riqueza de informações práticas que outros pais adotivos podem
fornecer a você nos grupos de apoio, juntamente com a compreensão dos
problemas que os filhos adotivos enfrentam, não é apenas inestimável
para os pais em potencial, como também para os seus futuros filhos.
Devido a um início de vida negligenciada e muitas vezes
institucionalizadas, algumas crianças apresentam problemas de
aprendizado, raciocínio, comportamento – como apresentado nos
materiais sobre a Primeira Infância – e às vezes, condições médicas que
requerem tratamento e cuidados especiais. É comum (mas não é
regra!) essas crianças apresentarem transtorno de déficit de atenção

(TDAH), Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) e desafios de apego*.


Essas crianças precisam de pais amorosos, mas também precisam de pais
dispostos a se comprometer com o trabalho de criar um filho. Elas
precisam de pais que estejam dispostos a desenvolver as habilidades que
os ajudarão a ser pais de sucesso para crianças que sofreram traumas e
que podem ter problemas não resolvidos de luto e raiva.
Mais do que tudo, essas crianças precisam de pais que estejam dispostos a
aceitá-las como são e de ajudá-las a se curar para que possam crescer e
alcançar seu potencial.”

*Para saber mais sobre apego leia o material O poder do vínculo clicando
nesse link.

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Anote quais dessas habilidades você considera


já dominadas e quais acredita valer a pena
desenvolver e/ou aperfeiçoar. Bom trabalho e
aproveite bem seu tempo de espera!

1. CALMOS E PACIENTES Aprenda técnicas para ajudá-lo a


desenvolver a paciência.
As crianças que viveram em
lares caóticos ou abusivos estão Algumas pessoas contam até 10
familiarizadas com adultos que antes de reagir durante o
resolvem problemas e conflito, ou como diz a
enfrentam conflitos com presidente da ANGAAD, Sara
indiferença, raiva ou violência. Vargas no vídeo sobre a
importância do preparo na
As crianças que passaram por adoção (clique aqui para
uma instituição, que sofreram assistir), é bom aprender a
abuso ou negligência, precisam chamar os 7 anões pelo nome
de cuidadores que sejam antes de responder
pacientes e mantenham a impulsivamente à criança.
calma em situações
estressantes. Outros dedicam tempo para
correr, caminhar, mergulhar na
Ou seja, pais que resolvam os banheira, exercitar-se, meditar,
problemas de várias maneiras, trabalhar no jardim ou ouvir
sem recorrer a ameaças ou música.
violência.
Mais tarde, quando necessário,
eles tiram a calma interior que
obtêm dessas atividades e
respondem com maior
paciência. Procure maneiras que
funcionem para você.

À medida que aumenta sua


capacidade de ser paciente e
manter a calma, você será capaz
de ensinar esses
comportamentos para as
crianças através do exemplo.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

2. CAPAZES DE FORNECER UM Faça uma auditoria de


AMBIENTE SEGURO E ACOLHEDOR segurança em sua casa e
procure por coisas que possam
As crianças que não estavam machucar ou assustar uma
protegidas no passado criança.
aprendem a assumir a
responsabilidade por sua Faça uma lista das regras da
própria segurança, muitas vezes sua família de um jeito
vivendo em alerta máximo e simples, específico e fácil de
esperando que ocorram perigos entender.
a qualquer momento.
Algumas crianças aprendem
Limites claramente definidos e ouvindo, outras observando ou
regras simples, podem ajudar a fazendo e outras pelos três
criança a se sentir segura em métodos; a maioria precisará
sua casa. de ajuda para praticar regras
antes de internalizá-las e
As crianças também precisam torná-las um hábito.
de adultos que cumpram as
regras de maneira justa, Pense em maneiras de se
demonstrem que honrarão suas comunicar e viver com
necessidades e ofereceram segurança, respeitando a
proteção. prática das regras, conforme o
jeito da criança aprender.

3. ABERTOS A APRENDER Tire um tempo para buscar


NOVAS MANEIRAS DE informações - faça aulas e
GERENCIAR O perguntas sobre crianças com
COMPORTAMENTO situações especiais de traumas,
negligência e abandono.
A maioria das crianças que sofreu
abuso ou negligência, aprendeu Aprender porque as crianças às
técnicas de sobrevivência desde vezes se comportam
cedo. negativamente pode ajudá-lo a
desenvolver estratégias mais
Essas técnicas costumam ser eficazes para ensinar
intrigantes para pais adotivos, comportamentos construtivos.
porque tendem a ser
contraproducentes para formar Participe de Grupos de Apoio
um vínculo entre pais e antes de adotar. Você aprenderá
filhos. Muitas coisas que com outras experiências, sobre as
funcionam para um filho não vão diferenças nas crianças e
funcionar para outro. conhecerá novas estratégias de
gerenciamento de
comportamento.
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4. CONFIÁVEIS

Muitas crianças Demonstre confiança em todos


institucionalizadas ou os seus relacionamentos.
negligenciadas apresentam
dificuldade de confiar nos Você pode acreditar que é
adultos. confiável, mas uma criança o
julgará por suas ações.
Com o tempo, as crianças Demonstre esse comportamento
podem aprender a confiar em para a criança: faça o que você
seus novos pais quando diz que fará, honre seus
prestam cuidados diários compromissos, cumpra suas
consistentes, que incluam promessas e suas
comida, cuidados, afeto, amor. responsabilidades com leveza.

As crianças também Observe como as crianças que


desenvolvem confiança quando você conhece definem a
observam seus novos pais confiança e esteja aberto a
persistentemente provendo conversas e opiniões sobre esse
suas necessidades, quando assunto.
recebem incentivo e quando
seus pais estão comprometidos
com as promessas que fizeram.

5. CAPAZES DE CUIDAR DE Permaneça conectado a


SUAS PRÓPRIAS pessoas de apoio (família,
NECESSIDADES amigos); pessoas que o
conheçam há muito tempo e se
Às vezes, as crianças preocupam com você. Também
disponíveis para adoção já é recomendável participar de
sofreram uma inversão de um grupo de apoio à adoção.
papéis em suas famílias de
origem, em que foram Fale com eles sobre suas
obrigadas a cuidar física ou preocupações e procure o
emocionalmente de seus pais conselho daqueles que
e/ou irmãos mais novos. respeitam o seu momento.

As crianças que passaram por


isso precisam de pais que se
apoiem em outros adultos
quando tiverem problemas e
não passem essa preocupação
para o novo filho.

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6. CAPAZES DE APOIAR
CRIANÇAS COM ATRASOS NO
DESENVOLVIMENTO E OUTRAS Faça aulas, assista a vídeos, leia
NECESSIDADES ESPECÍFICAS livros, ouça e aprenda sobre o
desenvolvimento infantil. Será
As crianças que estão importante para você aprender
esperando por uma família como ajudar seus filhos a
provavelmente terão atrasos superar problemas e poder
sociais, emocionais e de reconhecer quando eles
aprendizado. Por exemplo, uma progridem.
criança de nove anos pode
exibir alguns comportamentos Ofereça-se para trabalhar como
típicos de uma criança de voluntário/a com crianças que
quatro anos. têm necessidades especiais em
uma escola local ou entidade.
Não é incomum que as crianças Saiba mais sobre tópicos como
regridam, ainda mais depois de transtorno de déficit de atenção
sofrer um trauma ou uma (TDAH), síndrome alcoólica fetal
mudança. E algumas também (SAF) e apego.
apresentam problemas com o
apego. À medida que as crianças
crescem, seus diagnósticos
Os pais devem ter em mente médicos, físicos e emocionais
que pode levar um tempo podem mudar e sua
relativamente longo para os compreensão da variedade de
filhos se ajustarem e se possíveis problemas será útil.
relacionarem com uma nova
família.

7. PERSISTENTES EM Reunir informações sobre quais


ENCONTRAR RECURSOS tipos de serviços estão
PARA CRIANÇAS E FAMÍLIAS disponíveis para as crianças que
chegarão e descobrir como
Com o tempo, as necessidades acessar melhor esses serviços.
específicas de uma criança são
reveladas aos pais. Informe-se com a equipe
técnica que está cuidando de
Pais adotivos precisam ter sua habilitação, peça ajuda a
conhecimento e assertividade outros pais adotivos experientes
sobre encontrar ajuda e informe-se nos grupos de
profissional para seus filhos, apoio quais os serviços
incluindo fisioterapia, recomendados na sua região.
atendimento psicológico ou
psiquiátrico e aulas de
educação especial.

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8. CAPAZES DE ACEITAR QUE Verifique com os pais de um


SERÁ NECESSÁRIO MAIS DO Grupo de Apoio à Adoção local
QUE AMOR PARA AJUDAR A ou pergunte à equipe técnica
CURAR AS DORES DOS FILHOS que está acompanhando seu
processo, se eles podem
As crianças que vieram de encontrar uma família, que já
situações de negligência severa adotou, que esteja disposta a te
ou abusos, precisam de amor, conhecer e eventualmente
mas também precisam de pais deixar que você a acompanhe
que estejam preparados para durante um dia, ou troque
fases de altos e baixos. ideias.

Isso implica em estarem Saiba mais sobre seu papel


dispostos a se comprometer a potencial como mãe ou pai
longo prazo. Os filhos precisam adotivo, ao observar pais mais
de pais com expectativas experientes exercendo essa
adaptáveis e flexibilidade para função.
recomeçar quando surgem
problemas, por exemplo
quando os comportamentos
de uma criança regridem. Isso
não é incomum e quando
acontece é um pedido de
ajuda inconsciente da criança.

9. CAPAZES DE RECONHECER Faça uma lista de seus pontos


PONTOS FORTES EM UMA fortes pessoais e das áreas que
CRIANÇA COM VÁRIOS precisam ser aprimoradas.
PROBLEMAS
Começar com o reconhecimento
Os pais devem ter a capacidade dos pontos fortes de seu filho é vital
de perceber os pontos fortes de para que ele se perceba aceito e
seu filho, especialmente quando acolhido. Por outro lado,
ele começa a apresentar extremamente importante para o
problemas como urinar na cama, resgate de sua autoestima.
brigar na escola etc.
A capacidade de nomear seus
É importante que reconheçam pontos fortes, conhecer e aceitar
os pontos fortes de cada criança as áreas que precisam de
e a ajudem a acreditar eles. Pais aprimoramento é um sinal de
e filhos terão sucesso em equipe auto-aceitação. Busque forças
quando usarem os pontos fortes em todos que encontrar. Você
da criança para determinar o aprenderá em breve a se
curso de ação apropriado para concentrar e a desenvolver
resolver os problemas. pontos fortes em si e nos outros.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

10. CONHECEDORES DAS Aprenda com os recursos


DIFERENÇAS CULTURAIS E SOBRE disponíveis em sua comunidade
DIFERENTES RAÇAS EETNIAS e no mundo virtual

Os pais que estão considerando O Brasil é um país com grande


uma adoção inter-racial miscigenação, mas grupos ou
precisam aprender sobre o comunidades específicas
contexto racial e cultural das podem lidar de formas
crianças que desejam adotar. diferentes com a
transracionalidade de uma
O conhecimento e o família.
entendimento sobre diferenças
raciais e culturais únicas podem Informe-se e esteja preparado
ser uma ferramenta poderosa para responder aos
para os pais que estão tentando questionamentos de estranhos,
construir um relacionamento dos adultos para você e das
com uma criança de um próprias crianças para o seu
contexto diferente. filho.

As adoções inter-raciais são


mais evidentes e, muitas vezes,
geram curiosidade. É preciso
maturidade e atitude adotiva
para não interpretar todas as
perguntas como manifestação
de preconceito social.

11. CAPAZES DE VER HUMOR E Procure humor em sua vida


EXPERIMENTAR ALEGRIA EM diária.
MEIO AO CAOS
Quando você tem a capacidade
Muitos pais adotivos experientes de ver o lado engraçado de um
dizem que um senso de humor problema, geralmente tem
bem desenvolvido é uma força para enfrentá-lo.
ferramenta necessária para a
sobrevivência da família. Observe as maneiras únicas e
muitas vezes divertidas pelas
A capacidade de colocar as quais as crianças veem a vida e
coisas em perspectiva e celebram a riqueza que trazem
agradecer por pequenos ganhos ao mundo.
é importante.

65
#07
adotei,
e agora?

66
Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por

A – A IMPORTÂNCIA DO ACOMPANHAMENTO PÓS-ADOÇÃO


Seu filho chegou e agora começa a adoção de fato. A chegada do filho na
família inaugura os pais.

A adaptação ocorrerá em duas vias: da criança com a nova família e da


família que recebe esse filho.

Esse momento de adaptação pode ser tão feliz quanto assustador para
ambas as partes. Questões como “será que serei um bom pai, uma boa
mãe” ou, “será que vou saber lidar com as questões novas que surgirem a
partir de hoje” são inevitáveis e até saudáveis, pois reflete a preocupação
em se fazer o melhor.

Pelo lado da criança, ela pode sentir-se apreensiva e insegura com a nova
situação e isso também é compreensível e até esperado. Mesmo que a
criança seja pequena, poderá estranhar o ambiente, as vozes, a
mamadeira, sentir falta do colo de algum cuidador anterior. Toda
mudança causa algum tipo de desconforto inicial.

Então para começar, lembre-se de que muita preparação foi feita e que
seu amor por aquele filho vai crescendo a cada dia. Celebre o momento,
afinal agora sim começa a jornada tão desejada e aguardada.

A partir de agora, será construído um vínculo forte entre a família e o novo


filho. Lembre-se de que o vínculo é um processo que se consolida
diariamente, através de confiança, presença, trabalho e amor. E que cada
indivíduo reage de uma forma, na construção desse processo.

Algumas crianças serão dóceis por medo da rejeição e outras poderão ser
agressivas, exatamente pelo mesmo motivo: para testar os pais e serem
rejeitadas antes que se envolvam emocionalmente e sofram.

Ou esse comportamento pode se alternar rapidamente entre docilidade e


agressividade. Isso dependerá de vários fatores tais como sua história
pregressa, seu estágio de desenvolvimento, suas condições físicas e
psíquicas, etc.

Algumas crianças adotadas maiores e adolescentes parecem que resistem


ao afeto dos novos pais e tentam, inclusive, sabotá-lo, prejudicando o
processo de vinculação. É preciso compreender que alguns filhos ainda
mantêm vínculos de afeto com as suas famílias de origem, ou mesmo
com pessoas de sua referência nos serviços de acolhimento.
67
Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por

Dito de outra forma, elas mantêm um pacto psicológico de lealdade em


relação a essas pessoas. Na sua interioridade, sentem que não podem
render-se ao afeto dos pais adotivos, porque estariam traindo os pais
biológicos ou os cuidadores que amam.

Com maturidade e tranquilidade, os pais adotivos precisam auxiliar seus


filhos a compreender essa situação e mostrar-lhes que não precisam
eliminar essas pessoas de seus afetos, pois foram importantes e tiveram
um papel crucial na sua história anterior. Mas isto não invalidará a
construção de um novo amor com os pais adotivos que estão disponíveis
para amá-los, cuidá-los e protegê-los para o resto de suas vidas.
Reconhecer o papel dos pais biológicos na vida dos filhos é confortador e
tranquilizador, sendo de extrema importância para a consolidação dos
novos vínculos.

As questões de aceitação e rejeição, traumas e vínculos são mecanismos


complexos e inconscientes, que não caberia nos aprofundar aqui. O que
gostaríamos de deixar como mensagem é a imensurável importância de
permanecer com suporte nessa fase pós adoção. Porque apesar de cada
história ser única, muitas das situações que você passará são semelhantes
as quais outros pais adotivos já passaram.

Neste sentido é importante a compreensão de que há questões peculiares


à fase do desenvolvimento do filho, bem como particularidades comuns
ao contexto da adoção, diante da trajetória sociofamiliar de cada um no
processo de rompimento de vínculos.

Trocar informações com quem já passou pelas mesmas experiências pode


dar aos novos pais a segurança de que os desafios enfrentados compõem
o processo de renascimento da criança e adolescente adotados como seu
filho, pois retrata um contexto de “feridas” importantes para serem
acolhidas e ressignificadas. E ajuda a lembrar que, com preparo,
tranquilidade, paciência e amor, cada minuto de ansiedade ou espera
pelo qual passou terá valido a pena.

Ouça a experiência da psicóloga, mãe por adoção e Diretora de Relações


Públicas da ANGAAD, Suzana Schettini. Com sua vasta experiência ela
traz considerações sobre o uso da atitude adotiva na chegada da criança
à família, sobre a importância dos grupos de apoio, e também sobre o
papel dos pais adotivos junto às escolas, à sociedade e sobretudo com a
criança a ser cuidada. Assista clicando nesse link.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

B – DEPRESSÃO PÓS-ADOÇÃO
“Existem relatos de uma fase, que os especialistas chamam de Depressão
Pós Adoção, que ocorre em uma pequena porcentagem de pais (Foli,
2010; Senecky et al., 2009).

Ela ocorre quando, depois de meses ou anos de ansiedade sobre como


seria exercer essa parentalidade, a emoção da adoção em si dá lugar a um
sentimento de "decepção" ou tristeza.

Semelhante à depressão pós-parto e ocorrendo em mesma taxa, a


depressão pós-adoção pode aparecer durante as semanas após a
conclusão da adoção. As realidades da parentalidade, incluindo falta de
sono (para pais de bebês ou crianças com problemas comportamentais
ou de sono) e o peso das responsabilidades dos pais podem ser
esmagadoras.

Os pais podem ter dificuldade em formar laços afetivos com o novo filho e
podem questionar suas competências parentais. Em alguns casos, esses
sentimentos se resolvem por conta própria, à medida que os pais se
ajustam à sua nova rotina de vida.

Mas se esses sentimentos persistirem por algumas semanas ou


começarem a interferir na sua capacidade de criar seu filho, é
fundamental buscar ajuda profissional com um terapeuta que tenha
experiência em questões de adoção ou mesmo nos Grupos de Apoio à
Adoção, que vão ajudá-lo a resolver os problemas que estão causando
depressão, possibilitando seu retorno ao papel de pai / mãe com mais
confiança”
Texto adaptado do material “Impact of Adoption on Adoptive Parents” do Child
Welfare Information Gateway.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

C – RESPEITAR O TEMPO E A HISTÓRIA DA CRIANÇA

Lançamos essa 2ª Edição Revisada e Atualizada mais de um ano depois


do início da pandemia do Covid-19. Estamos vivendo num contexto de
severa crise econômica e social, que impactou diretamente na vida das
crianças e adolescentes vulneráveis. Portanto, as famílias que estão
vivendo a chegada de filhos nesse momento, tem ainda maiores desafios.

E ainda que muitas famílias estejam cansadas, sobrecarregadas pelo


excesso de tarefas e inseguras quanto ao futuro, vale lembrar que o
convívio afetuoso, o apoio emocional e o estabelecimento de vínculos
seguros são fundamentais para a construção de um ambiente saudável
para qualquer criança e adolescente.

A atitude adotiva ajuda a construir esses vínculos e consolidar uma


unidade enquanto família. E respeitar a história que já veio com a criança,
que a partir de agora passará a se intercalar com a da nova família, é uma
das belezas da adoção.

Entretanto, às vezes a ansiedade para fazer tudo dar certo, acaba tirando
um pouco o gostinho dessa celebração. Precisamos viver nossos próprios
lutos, superar a expectativa pelo filho idealizado. E olhar o nosso filho
como único, descobrindo com ele os laços possíveis no tempo,
celebrando as conquistas, respirando diante dos desafios e renovando a
cada manhã a fé e a certeza de que construiremos juntos os caminhos.

A Doutora em Serviço Social, especialista em adoção Angélica Gomes da


Silva, tem um vídeo lindo onde coloca a questão do tempo de maneira
muito sensível e tranquilizadora para os pais que estão passando por essa
ansiedade, especialmente aos que adotaram crianças maiores.

Leia a seguir um pouco do que ela diz e assista o vídeo completo nesse
link. É bastante inspirador!

70
Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

“Algo que a gente percebe muito presente entre nós,


pais por adoção, é que não temos paciência.
Queremos fazer com que tudo aconteça no agora!
Queremos cuidar, colocar na melhor escola.
Queremos que aprendam a usar o banheiro, que aprendam
a usar o talher, a se comportar num restaurante.
Que aprendam a cumprimentar as pessoas que chegam....
Não é preciso que leiam tudo, que aprendam o inglês...
E entender tudo isso, exige a gente se rever!
Rever a nossa própria paciência.
É respeitar o tempo da criança,
E entender que o nosso tempo está muito acelerado.
Entender que guardamos tanta coisa para a chegada
do filho
E quando o filho chega abrimos a caixa e colocamos
tudo pra fora.
Então vamos abrir a caixa devagar e botar uma coisa de cada
vez, uma peça de cada vez.”

D – CONTAR SOBRE A ORIGEM


Há muito tempo é consenso entre os especialistas que é saudável e
necessário contar ao filho adotivo sobre sua história, sua origem e sobre
como se deu a ligação com aquela família, que não é sua família
biológica. Mas esse é um fator que gera dúvidas, ansiedade e insegurança
em muitos pais e mães por adoção.

Do ponto de vista legal, os pais não deveriam ter essa dúvida, uma vez
que o Artigo 48 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) assegura
que é direito do indivíduo saber que foi adotado e conhecer suas origens.

71
Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

“Art. 48. O adotado tem direito de conhecer sua origem biológica, bem
como de obter acesso irrestrito ao processo no qual a medida foi
aplicada e seus eventuais incidentes, após completar 18 (dezoito) anos.
(Redação dada pela Lei nº 12.010, de 2009) Vigência

Parágrafo único. O acesso ao processo de adoção poderá ser também


deferido ao adotado menor de 18 (dezoito) anos, a seu pedido,
assegurada orientação e assistência jurídica e psicológica. (Incluído
pela Lei nº 12.010, de 2009) Vigência. ‘

Do ponto de vista psicológico também há inúmeros argumentos para


afirmar que devemos sim contar à criança sobre sua origem o mais cedo
possível. Estudos demonstram que, ao esconder de uma criança fatos
importantes tais como sua própria origem, cria-se problemas na
confiança, estabelece-se uma atmosfera de “segredo” e tabu, gerando
prejuízos e sofrimentos emocionais para a criança e para a família.

Se estiver enfrentando essa questão – dúvidas sobre o que contar, como


contar e quando contar – procure ajuda especializada, como terapeutas,
assistente sociais, pedagogos, psicólogos e/ou Grupos de Apoio à Adoção.
Esconder a origem seria como tomar da criança o direito de se
autoconhecer. Os pais devem se fortalecer emocionalmente, para dar o
suporte que a criança necessita. Em muitos momentos, os medos são
mais nossos do que dos nossos filhos.

Mesmo que a motivação principal seja o receio de magoar a criança ao


deixá-la tomar conhecimento de uma realidade triste sobre seu passado,
há maneiras de mitigar e acolher esse sofrimento. Dessa forma permitirá
que as sensações de perda e dor possam ser elaboradas e trabalhadas,
dando a oportunidade da criança começar a construir um sentimento de
identidade consistente.

Sabemos que esse é um tema delicado e desafiador. Para nos ajudar a


refletir sobre essas questões, o Psicólogo, Escritor, Professor e Especialista
em adoção Luiz Schettini Filho, autor de oito livros sobre adoção, discorre
sobre o assunto no livro “As Dores da Adoção”.

Ele concedeu uma entrevista para o Instituto Geração Amanhã em que


fala sobre o tema com sabedoria e profundidade. Assista o vídeo
clicando aqui

72
#08
mais
perguntas
frequente s

73
A família biológica pode conseguir seu filho de volta depois da adoção?
Não. Uma vez que a sentença de Destituição do Poder Familiar tenha sido
proferida e transitada em julgado (ou seja, quando há mais prazo pra
apresentação de recurso contra essa sentença) ela é irreversível e a família
biológica perde todo e qualquer direito sobre aquela criança.

A criança adotada perde o vínculo com os pais biológicos?


Sim, na legislação brasileira a adoção desliga o filho de qualquer vínculo
com pais e parentes biológicos, permanecendo, contudo, os
impedimentos matrimoniais. Nem a morte do adotante restabelece os
vínculos com os pais biológicos. No entanto, é importante compreender
que esta família compõe a história do filho por adoção, com questões que
estão para além dos vínculos legais rompidos.

Como um brasileiro pode iniciar um processo de adoção internacional?


Os pretendentes à adoção internacional residentes no Brasil,
primeiramente, devem requerer a habilitação na comarca de sua
residência, ou seja, devem estar habilitados no SNA.

Realizada a habilitação, a comarca, a pedido dos pretendentes,


encaminhará cópia do processo de habilitação para CEJA do seu Estado
(Comissão Estadual Judiciária de Adoção/Adoção Internacional),
acompanhada do pedido de adoção internacional indicando o país de
origem da criança (este país deve ser ratificante da Convenção de Haia).

A Autoridade Central Brasileira enviará o pedido para a Autoridade Central


do país estrangeiro, requerendo orientações quanto à possibilidade da
adoção, os documentos exigidos e procedimentos a serem seguidos, bem
como quanto à legislação específica daquele país. Atendidos todos os
requisitos e aprovado pela Comissão, o processo será habilitado.

ATENÇÃO: Os documentos apresentados em português deverão estar


traduzidos por tradutor público juramentado para o idioma do país de
origem da criança e apostilados (originais e traduções) conforme a
Convenção da Apostila da Haia.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

O que é apadrinhamento afetivo?


É uma prática solidária de apoio afetivo às crianças/adolescentes que
vivem em instituições de acolhimento – em geral que pertencem ao perfil
considerado de “difícil colocação em família adotiva” ou que estão por
longo tempo em instituições ou ainda adolescentes com idade próxima ao
desligamento.

Os padrinhos podem visitar seu afilhado na instituição de acolhimento,


levá-lo a passeios nos fins de semana, levá-lo para seus lares nas férias,
em feriados, orientar seus estudos, dar suporte e orientação quanto às
questões de formação quando esse afilhado é adolescente etc.

O apadrinhamento afetivo, como qualquer outra medida de proteção à


infância e à juventude, deve ser cuidadosamente acompanhado por um
programa cuja iniciativa pode ser de Conselhos Municipais dos Direitos da
Criança, de Secretarias de Estado ou Município, Varas da Infância e
da Juventude, Tribunais de Justiça etc, em parceria com instituições tais
como organizações da sociedade civil (OSCs), universidades,
associações de moradores, entidades de apoio à infância.

É bom lembrar que, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente


(ECA, art. 19-B, § 2º), o padrinho afetivo não pode estar inscrito ou
habilitado para adoção no SNA. Isso porque, em regra, o apadrinhamento
afetivo não é um “atalho” para adoção.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

O que é acolhimento familiar?


O Acolhimento Familiar é uma medida protetiva, temporária e
excepcional, constituída enquanto política pública, em que uma criança
ou adolescente é retirado de sua família de origem por alguma questão
de risco ou vulnerabilidade (abuso, negligência, violência, abandono etc.),
por ordem judicial, e encaminhada a uma família acolhedora –
previamente selecionada e capacitada – a quem é concedida a guarda
provisória.
Previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Acolhimento
Familiar é PREFERENCIAL ao acolhimento INSTITUCIONAL (abrigo ou casa-
lar). Ou seja, pela lei a criança deve ser preferencialmente encaminhada a
uma família acolhedora, até que sua situação seja resolvida: voltar para a
família biológica ou ser colocada para adoção.
É importante observar que uma das regras para ser família acolhedora é
não estar inscrito no cadastro de adoção (SNA), conforme art. 34, § 3º, do
ECA. O motivo dessa proibição é o mesmo do apadrinhamento afetivo, ou
seja, o acolhimento familiar também não é um atalho para a adoção.

O que é e como fazer a Entrega Legal?


A Entrega Legal busca enfrentar a problemática do abandono de recém-
nascidos e consiste no direito da gestante ou puérpera entregar
voluntariamente seu bebê para adoção por meio de um processo judicial.

Essa possibilidade está prevista no ECA (Estatuto da Criança e do


Adolescente), artigo 13, parágrafo único, que diz: “As gestantes ou mães que
manifestem interesse em entregar seus filhos para adoção serão
obrigatoriamente encaminhadas, sem constrangimento, à Justiça da
Infância e da Juventude.”

A mulher poderá manifestar sua motivação para um profissional na rede


de atendimento (unidade de saúde, CRAS, CREAS, maternidade), o qual
informará o juiz da Vara da Infância e Juventude por meio de ofício, ou ir
diretamente ao Setor Técnico (assistente social e psicóloga) no fórum.

Nesta oportunidade, ela terá acesso a informações importantes para sua


decisão responsável, seja pela permanência ou pela entrega do bebê, bem
como aos encaminhamentos necessários na área da saúde e assistência
social. Se a decisão for pela entrega, será realizada audiência até dez dias
após o nascimento da criança, quando o Poder Familiar é extinto e o bebê
encaminhado para pretendente devidamente habilitado no SNA, com a
brevidade que esta fase do desenvolvimento exige.
76
Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Mãe adolescente pode entregar seu filho para adoção sem o consentimento
dos seus pais ou responsáveis?
Não. Para entregar o filho para adoção, a mãe adolescente precisa de
autorização dos pais, ou na ausência deles por morte ou paradeiro
ignorado, será necessária a anuência de um responsável – tutor, parente ou
curador nomeado pelo juiz como responsável. Havendo conflito entre os
interesses da adolescente e seus responsáveis, a justiça nomeará um
curador especial para defender seus interesses. Além disso, nos processos
em que não for o autor, o Ministério Público zelará pelos interesses dessa
adolescente.

A pessoa que encontra um bebê abandonado pode adotá-lo?


Um bebê encontrado em situação de abandono não está
automaticamente disponível para adoção. O fato de ter encontrado esse
bebê abandonado não credencia quem o encontrou a ter preferência em
sua eventual adoção. Caso esse bebê seja colocado em adoção, a justiça
seguirá a ordem cronológica do cadastro do SNA.

Nesse caso, o procedimento adequado é procurar os órgãos competentes


(delegacia, Vara da Infância e da Juventude, Conselho Tutelar) para
localizar os pais e saber se o bebê foi, de fato, abandonado.

Mesmo que isso tenha acontecido, seus pais biológicos ainda podem
requerer o direito de paternidade. Somente se os pais estiverem
desaparecidos ou forem destituídos do Poder Familiar, por um
procedimento judicial, é que esse bebê poderá ser adotado.

Deve-se considerar, ainda, que a pessoa que o encontrou não terá


garantia de poder adotá-lo. A Vara da Infância e da Juventude, que
mantém um cadastro de pessoas que estão aguardando a chegada de
uma criança, é quem irá avaliar o que será melhor para tal bebê,
respeitando a fila do SNA.

77
Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Em que condições um cônjuge pode adotar o filho do outro?


Casais que tenham uma união estável podem adotar filhos de seus
parceiros desde que essas crianças/adolescentes se encontrem sem o
reconhecimento de paternidade ou maternidade, quando o pai ou mãe
biológico do filho do(a) companheiro(a) tiver sido destituído (a) do Poder
Familiar ou, ainda, concordar com a adoção, prestando depoimento
judicial.

Mesmo que o pai/mãe biológico desse infante não concorde com essa
adoção unilateral, o adotante poderá ingressar com ação de adoção
cumulada com destituição do poder familiar. No entanto, durante esse
processo de adoção, será verificada a existência de vínculos de afinidade e
afetividade entre adotante e adotando, para se constatar a formação de
vínculos de filiação.

A mulher que adota um filho, tem direito à licença-maternidade?


SIM. Pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a mãe que adota tem
direito a 120 dias, de acordo com a Lei 12.873 sancionada em outubro de
2013, que entrou em vigor em janeiro de 2014. Para os trabalhadores em
geral, está previsto no Artigo 392-A.

Segundo este dispositivo, a trabalhadora com registro em carteira que


adotar ou obtiver guarda judicial para fins de adoção de criança de até 12
anos incompletos, terá direito à licença-maternidade no mesmo prazo da
trabalhadora que der à luz um filho.

Mesma situação se aplica à servidora pública. Para os demais


contribuintes da Previdência Social (contribuinte individual, trabalhador
avulso, empregado doméstico, contribuinte individual, contribuinte
facultativo e segurado especial rural) é o INSS quem paga e aplica-se a
Lei 8213/91.

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Existe “licença-adotante” para pais?


SIM, desde que a mãe não esteja usufruindo do benefício. Atualmente a
regra equipara homem e mulher no direito ao benefício em caso de
adoção. Por exemplo, se em um casal adotante, a mulher não é segurada
da Previdência Social, mas o marido é, ele pode requerer o benefício e ter
o direito ao salário-maternidade reconhecido pela Previdência Social,
sendo afastado do trabalho durante a licença para cuidar da criança.

A mesma regra vale para casais adotantes do mesmo sexo. Vale lembrar
que a nova legislação determina que apenas um dos guardiões da criança
terá direito à licença maternidade, independentemente de a mãe
biológica ter recebido o mesmo benefício quando do nascimento da
criança.

O prazo da licença-adotante é o mesmoque na licença-maternidade


(parto)?
SIM, de 120 dias, respeitadas as regras citadasanteriormente.

79
#09
sugestões
de conteúdos

80
6
Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

A. LIVROS E PUBLICAÇÕES DIVERSAS

Disponibilizamos diversas publicações, livros, leis e manuais em


nossa biblioteca. Atualizada constantemente, lá você poderá
encontrar mais informações para complementar suas pesquisas.
Basta acessar esse link:

www.geracaoamanha.org.br/biblioteca/

B. DICAS DE FILMES, SÉRIES E DOCUMENTÁRIOS

Apresentamos a seguir uma lista de filmes, séries e documentários,


com temas ligados à adoção, parentalidade, busca pela origem e
lugar no mundo etc, com estilos variados entre drama, comédia,
documentários e muito mais!

OBS: a disponibilidade nas plataformas informadas refere-se à abril de


2021 e precisam ser confirmadas, uma vez que há constantes
atualizações de catálogo.

FILMES

He Even Has Your Eyes – Netflix

Lion: Uma Jornada Para Casa – Netflix

Os Irmãos Willoughby – Netflix

O Contador de Histórias – Youtube

Thi Mai – Netflix

Um Sonho Possível – Telecine Play

De Repente Uma Família - Netflix

A Estranha Vida de Timothy Green – Disney+

Bogus: Meu Amigo Secreto – Amazon Prime

Três Estranhos Idênticos – Youtube

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O menino que não nasceu da barriga da mãe (curta-metragem) –
Youtube

Luce – Youtube

Philomena – Telecine

A Fabulosa Gilly Hopkins – Netflix/ Globoplay

Teste de Paternidade – Netflix

Como Estrelas na Terra: Toda Criança é Especial – Netflix

Rosa e Momo – Netflix

Ensinando a Viver

Lições Para Toda a Vida – HBO/ Apple TV

Duas Vidas – Disney+

Um Presente Especial

Relatos do Mundo – Netflix

Capitão Fantástico - Youtube

SÉRIES

Anne with an E – Netflix

This Is Us – Amazon Prime

Parenthood – Amazon Prime

Modern Family - Netflix

DOCUMENTÁRIOS

Eu Quero Ir Pra Casa – Youtube

My Own Man – Netflix

Todos Nós, Cinco Milhões – Youtube

ReMoved - Youtube
82
C. VÍDEOS

Ao longo da nossa conversa, indicamos diversos vídeos como apoio aos


temas abordados. Deixamos abaixo a lista completa com os respectivos
links.

Importância do preparo na adoção (Sara Vargas)

Grupos de Apoio à Adoção (Paulo Sérgio)

Atitude adotiva (Suzana Schettini)

Adaptação da criança adotiva (Suzana Schettini)

As dores da adoção (Luiz Schettini Filho)

A construção pela convivência (Luiz Schettini Filho)

Adotar é mais que bonito (Luiz Schettini Filho)

Desafios da adoção (Angelica Gomes da Silva)

Família ideal x família real (Angelica Gomes da Silva)

As devoluções na adoção (Angelica Gomes da Silva)

O papel dos grupos de apoio à adoção (Angelica Gomes da Silva)

O amor que a gente sente (Angelica Gomes da Silva)

Playlist com vídeos com foco na Primeira Infância

D. LINKS UTEIS

www.geracaoamanha.org.br

www.adoçãopassoapasso.com.br

www.eadgeracaoamanha.com.br

www.angaad.org.br

www.cnj.jus.br/sna

www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/pacto-nacional-pela-primeira-infancia
83
#10
depoimentos
histórias
vividas

84
DEPOIMENTO 1
Você vai ler a seguir um depoimento sensível e comovente de uma das
especialistas convidadas para essa edição: a Sara Vargas.

Sara é mãe de 4 filhos - 3 deles adotivos - e seu depoimento tem uma


importância especial, em razão de sua história como mãe e sua relevância
como profissional no universo da adoção. Presidente da ANGAAD de
junho de 2017 a junho de 2021, e diretora técnica da Associação Pontes de
Amor, seu depoimento representa um pouco da história de várias famílias,
com suas dores, desafios e superações.

Importante lembrarmos que, nos últimos anos, o processo de adoção evoluiu muito e hoje o
cadastro é nacional, não sendo mais necessário levar cópias do processo a várias comarcas,
como Sara relatou em seu depoimento. A justiça também entendeu que o prazo do estágio
de aproximação e de convivência deve ser cuidadoso, mas bem mais acelerado, exatamente
para evitar os traumas relatados aqui neste depoimento, com tantas expectativas e frustações.

“O sonho de ser mãe fazia parte de mim desde a infância. Apesar de ser
uma menina muito moleca, eu achava que ter um filho, ter uma filha,
seria extremamente transformador para minha vida, uma experiência que
eu tinha que viver.

E quanto mais eu crescia, mais esse desejo também era aumentado


dentro do meu coração. Aos 25 anos me casei com o Rodrigo e desde
quando éramos namorados, já sonhávamos em ter um filho ou uma filha
por adoção. Entendíamos que tínhamos amor suficiente para podermos
amar uma criança que precisava de família. Então, nosso desejo era ter
filhos biológicos, mas também ter um filho por adoção.

Depois de um ano de casada, engravidei pela primeira vez - era uma


menina, a Larissa. Ficamos extremamente gratos a Deus pelo bebê que
estava a caminho. No entanto, quando eu estava com seis meses de
gestação, não estava me sentindo muito bem... fomos à médica e
descobrimos que a nossa bebê tinha partido. Eu precisei fazer o parto
induzido de um bebê que não ajudava, pois já estava morto.

Não foi fácil, mas a nossa fé, o suporte da família e o apoio dos amigos
mais próximos, foram fundamentais para vencermos aquela situação de
tanta dor. Fizemos todos os exames, inclusive cariótipo do feto. Mas não
havia nada de errado, parecia mesmo uma fatalidade.

85
Quatro meses depois engravidei novamente e com quatro meses de
gestação, descobrimos que o segundo bebê também não tinha mais vida.
O ponto de interrogação cresceu, a dor ficou um pouco mais apertada.
Mas nós críamos piamente que Deus nos daria um filho. Logo em seguida
eu engravidei e, dessa vez claro, foi uma gestação de risco. De novo
fizemos todos os exames e não descobríamos nada de errado, nem
comigo nem com meu marido.

Fiquei quietinha durante aquela gestação – quem me conhece sabe que


sou uma pessoa bem agitada –, mas sou também obediente e fiz tudo o
que os médicos orientaram. Com sete meses e meio de gestação, nosso
filho nasceu. Prematuro, mas graças a Deus um menino saudável.

Superando todas as expectativas, no dia seguinte ao seu nascimento, ele


foi para casa junto comigo. O Lucas veio trazer muita, muita alegria. Era
uma criança saudável, linda e esperta.

Quando o Lucas estava com dois anos e meio, pensamos que estava na
hora de tentarmos ter outro filho. Logo em seguida engravidei do Breno,
que agora traria alegria não só para nós, os avós e tios, como também
para o Lucas, que tinha uma expectativa grande com o irmãozinho.

Mas, infelizmente, aos seis meses de gestação descobrimos também que


o Breno tinha partido. Esse momento foi muito difícil para todos... eu
cheguei a adoecer de tanta tristeza, por não entender direito o que estava
acontecendo. Cheguei a pensar em abrir mão do sonho de ser mãe de
mais filhos... Pensava “quem sabe Deus já nos agraciou com o Lucas e a
gente deve parar por aqui”. Mas interromper o desejo de ter mais filhos
não me trazia paz, não tinha a ver com o nosso sonho, com o nosso
projeto. E desistir de sonhos que são tão sólidos e importantes, vai
matando a esperança, vai matando o ânimo e pode nos adoecer. Um
grande amigo e conselheiro nos disse: “se daqui a dez anos tudo o que
conseguirem ver ao olhar para trás forem três bebês mortos, realmente
vocês terão vivido três abortos. Mas se daqui a dez anos vocês
conseguirem contemplar toda a vida, as ferramentas, o que ganharam ao
longo dessa caminhada, será que vocês realmente terão vivido três
abortos?”

Fizemos então novos exames, dessa vez com um grande especialista em


Campinas, SP. Nosso geneticista falou “não tenham muita esperança,
porque eu acho que esse exame não vai dar nada”. Mas como nós
estávamos indo passar as férias lá perto, decidimos fazer.

86
Qual não foi a nossa surpresa quando o médico disse que havia
descoberto a razão de nós não podemos ter filhos e que havia um
tratamento, que poderia aumentar nossas chances em 60%.

- Como o senhor explica o Lucas? perguntamos.


- Quem é Lucas? ele nos perguntou.
- Lucas é o nosso filho.
- Filho de vocês dois?
- Sim, graças a Deus ele é a cara do pai.
Então, ele falou:
- Olha, eu atesto para qualquer um que o Lucas é um milagre. A chance
de vocês terem um filho sem tratamento seria de uma em um milhão.

Ficamos ainda mais felizes em saber que o Lucas era realmente um


grande presente de Deus, um grande milagre para a nossa família. No
entanto, a possibilidade de fazer um tratamento, não nos pareceu ser
o caminho certo a seguir. De novo meu coração começou a ficar inquieto
e me lembrei de nossos sonhos antigos, de termos um filho por adoção.

Resolvemos conversar abertamente sobre o assunto, fazer todas as


perguntas, das mais bobas às mais inteligentes um para o outro,
e decidimos colocar aquilo em oração diante de Deus. Foi incrível, porque
a cada lugar que passávamos tinha uma referência à adoção: um outdoor,
o carro que parava à nossa frente no semáforo tinha um adesivo falando
sobre a importância da adoção, quando abríamos a Bíblia para ler um
trecho, falava do cuidado com o órfão, da história de alguém adotado.
Então percebemos que realmente era o momento para nos abrirmos
a esse caminho.

Falamos com a nossa família e a maioria nos apoiou. Sempre tem um ou


outro que fica mais resistente, porém tínhamos a convicção de que era
esse o caminho. Nosso filho Lucas tinha dois amigos, filhos por adoção, e
quando ele entendeu que teria um irmãozinho ou uma irmãzinha como
esses dois amigos, ele falou “eu quero, eu quero muito ter um irmão como
eles”. Fomos adiante e falamos a nossos familiares que não precisavam
nos apoiar, mas que deveriam respeitar a nossa decisão. E foi importante
termos essa conversa com aqueles que achavam que adoção não era um
bom caminho.

Demos início ao processo, em 2001/2002. Fizemos o processo jurídico de


habilitação para adoção. Naquela época o processo judicial ainda era
diferente, não era um sistema centralizado – enviamos então a cópia da

87
sentença para várias comarcas diferentes para aumentarmos a chance de
recebemos esse filho ou filha. Nós estávamos habilitados para adotar
uma criança de até quatro anos, porque o Lucas já tinha essa idade e não
queríamos que essa criança fosse mais velha do que ele.

Um dia, estávamos indo novamente para São Paulo e um casal de amigos


que morava lá e tinha adotado naquela cidade, solicitou que levássemos
um documento no abrigo em que os filhos deles haviam sido adotados.
Agendamos uma visita nessa unidade de acolhimento, que era
especializada em crianças com problemas de saúde. Passamos uma
manhã inteira lá: o diretor nos recebeu com muito carinho e fomos
conhecendo as crianças e a instituição.

E foi incrível porque nos chamaram a atenção duas crianças, gêmeas,


tanto para mim quanto para o Rodrigo, sem que tivéssemos
conversarmos previamente sobre isso. Naquele momento, ficamos meio
constrangidos, porque até então, queríamos adotar apenas uma criança,
mas o fato foi que as gêmeas dispararam algo diferente em nossos
corações. No mesmo dia entramos com o processo de adoção das
meninas e todos os meses íamos à São Paulo visitar “as nossas meninas”,
que já amávamos como se fossem nossas filhas.

Passamos dois anos visitando-as, todos os meses... já era tempo demais


para a situação não se resolver. Nesse momento, a família biológica
mudou de endereço e um processo que já estava praticamente
concluído, começou praticamente do zero numa nova comarca. E a coisa
foi se estendendo, se estendendo e só depois de dois anos e meio que
começamos esse contato, fomos chamados para uma audiência de
instrução e julgamento em que seria decidido se haveria ou não a
Destituição do Poder Familiar. O juiz acabou decidindo reaproximar as
meninas da família biológica, mesmo sendo muito desestruturada (já
existiam inclusive outros filhos que haviam sido retirados, porque sofriam
situações graves de negligência e violência).

Este foi o pior de todos os “abortos”, porque nossas filhas estavam indo
para uma realidade muito desfavorável (acreditamos que os nossos filhos
que partiram foram para uma realidade melhor, assim é a nossa fé). Mas
as nossas gêmeas não. Foi muito doído e por um tempo eu tentei não
saber mais dessa história, até conseguir processar esse luto.

A família biológica começou a visitá-las, depois começou a levá-las para


passar o final de semana com eles. E, apesar de todos os relatórios da
equipe técnica da instituição de acolhimento terem sido contrários à
88
reintegração familiar, quando as meninas já estavam com quatro anos e
seis meses, os pais biológicos ganharam a guarda delas.

Eu vou abrir um parênteses aqui... depois que nós vivemos a separação da


Kelly e da Kethleen, recebemos uma ligação de uma comarca próxima à
Uberlândia, dizendo que havia uma menina e que tinha chegado a nossa
vez na fila de adoção.

A alegria foi imensa. Meu marido estava nos Estados Unidos e eu fui
conhecer a menina sozinha. Mas disseram que tínhamos que tomar uma
decisão rapidamente, pois o juiz sairia de férias e não havia uma
instituição de acolhimento disponível - ela estava provisoriamente com
uma família. Então eles precisavam encaminhar aquela menina para
adoção com urgência. Era uma menina de quase quatro anos e eu fui
conhecê-la.

Esse encontro foi a coisa mais linda. Ela brincou comigo e enquanto eu
conversava com a assistente social, ela sorria e puxava o meu rosto em
direção aos seus olhinhos, porque queria atenção total. Na hora meu
coração se derreteu e eu falei “eu quero essa menina como minha filha”.
Mas eu não conseguia falar com o Rodrigo, porque ele estava fazendo um
curso e estava incomunicável naquele momento.

Quando conseguimos falar, mais tarde, eu já havia conhecido a Jéssica. O


Rodrigo me fez algumas perguntas e falou “que loucura, há quase quatro
anos estamos tentando ter esse filho por adoção e agora a temos que
decidir em 15 minutos?! Pede para esperarem até amanhã cedo, para eu
orar e processar tudo isso”. Mas não passou 10 minutos e meu marido
ligou novamente – ele tinha entrado num elevador e tinha um versículo
na parede escrito “eu trarei pessoas de outros povos, de outras nações e
farei de vocês um só povo, uma só nação, uma só família”. Então ele me
chamou e disse que não tinha mais dúvidas. “Quando estamos grávidos,
não sabemos se essa criança vai se parecer com a gente ou com um
tataravô que nem conhecemos. Nós estamos grávidos e nossa filha está
nascendo”.

Foi uma alegria tremenda e no dia seguinte eu já fui buscar a Jéssica.


Quando ela chegou em casa foi uma festa: a família e nossos amigos
estavam esperando para nos receber e foi muito lindo. Ela conheceu o pai
pelo computador e as primeiras palavras dela para ele foram “papai você
é lindão”.

No dia anterior, a Jéssica estava com duas pulseirinhas, uma branca


89
e uma azul de bolinhas e eu brincava com ela, “dá uma pulseirinha para
mim”... ela apenas fazia um não com a cabeça, mas não falava nem uma
palavra. Só que na tarde em que fui buscá-la, ela me deu um beijo, um
abraço, tirou a pulseirinha branca do braço e disse “é pra você”. Foram as
primeiras palavras dela e essa pulseirinha é o símbolo da nossa aliança, eu
guardo isso com muita alegria, até hoje.

Voltando ao caso das gêmeas, após quatro meses com a família biológica,
elas foram abandonadas numa construção à noite. Então foram acolhidas
novamente e, por fim, depois de tanto tempo, fomos chamadas pelo
Poder Judiciário, que nos perguntou se ainda tínhamos interesse. “Claro,
temos sim, nós sempre amamos a Kelly e a Kethleen como filhas”. A
nossa maior alegria foi quando elas chegaram em casa.

Ao longo dessa caminhada e com tantas vivências, com tantas situações


difíceis, traumáticas e rupturas, muitas marcas foram ficando na vida
delas. Então, quando as gêmeas chegaram, além de serem duas, elas
trouxeram comportamentos bem mais desafiadores. Por isso, nós fomos
buscando referências literárias, referências de pessoas e descobrimos que
em outros lugares do Brasil existiam Grupos de Apoio à Adoção (GAAs).
Mas aqui em Uberlândia, onde moramos, não existia nenhum Grupo de
Apoio.

Decidimos começar um grupo de apoio, pois entendíamos que era


necessário. No entanto, naquele momento, nos sentimos frágeis.
Pensamos “aqui em casa ainda nem nos organizamos direito, como
vamos ajudar outras famílias?” Mas todas as vezes que a gente pensava
em desistir, alguém do fórum nos ligava pedindo para que fôssemos
contar o nosso depoimento ou um jornalista pedia para fazer uma
reportagem sobre adoção conosco. Parecia que essa chama não podia ser
apagada.

Então em 2012, exatos dez anos depois que tínhamos perdido nosso
último bebê, demos início à Pontes de Amor, um Grupo de Apoio à
Adoção que funciona em Uberlândia, MG, e que tem transformado a
história de milhares de pessoas, de centenas de crianças que precisam de
família.

A Pontes de Amor é um grupo de apoio à adoção e à convivência familiar


e comunitária, que desenvolve vários projetos de preparação para adoção,
de apoio às famílias adotivas, de apoio aos acolhidos.

90
Hoje somos muito gratos. Nossa história tem altos e baixos, tem alegrias
e tristezas, a nossa parentalidade com nossos quatro filhos, assim como
em toda família, tem altos e baixos, tem alegrias e frustrações, mas não há
maior alegria para nós, porque entendemos que Deus fez de nós uma
família de verdade e que não há diferença nesse vínculo que existe com
o Lucas, a Jéssica, a Kelly e a Kethleen.

Os quatro são nossos filhos, os quatro são nossos filhos de verdade. Os


quatros são amados, cada um do jeito que precisa ser amado e eles
preenchem a nossa vida e o nosso coração.”

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

DEPOIMENTO 2
“AH, SE EU SOUBESSE...”

Por uma mãe real, que adotou um lindo garotinho aos 4 anos

“O acaso vai me proteger


enquanto eu andar distraído.
O acaso vai me proteger
enquanto eu andar...”

Dizem que a intenção é sempre o que conta. E no caso da adoção do


meu filho, foi o que nos salvou, o desejo de dar e receber amor.

Quando o adotei, cinco anos atrás, achava que estava preparada. Tinha
feito terapia, esperado longos três anos, contava com muita
autoconfiança. Mas, olhando em retrospectiva, o que nos ajudou foram
exatamente as dificuldades que tivemos.

Hoje, ao me perguntar se faria novamente, a resposta é SIM para a


adoção. Porém com vários ajustes no processo. Quando me pediram um
texto para fechar o GUIA DA ADOÇÃO, pensei naquele bestseller “Ah, se
eu soubesse...” Aqui vão minhas dicas:

 PREPARO: de verdade, nunca é demais. Ter um filho pela via da


adoção não é melhor nem mais difícil do que gerar na própria
barriga; só é diferente. E, exatamente por isso, fez muita falta eu não
ter participado de um Grupo de Apoio à Adoção, antes e depois; ter
lido mais sobre o tema. Fez falta trocar com quem passou o mesmo
que eu e perceber que muitas das minhas angústias não eram
únicas;

 AMOR SE CONSTRÓI: o medo interno de toda mãe é “e se meu filho


não me amar?”. No caso da maternidade pela via da adoção isso é
ainda mais assustador, afinal aquele serzinho não nasceu de você.
Mas aqui se prova o que parece um clichê e, de fato, é uma verdade.
A gente não nasce amando, nem sabendo amar, e em várias
situações vai até sentir raiva daquela criança. E, principalmente, vai
odiar a si mesma por tal sentimento. O gostar, o sentir falta, o não
viver sem, vem aos poucos, bem devagar, de ambos os lados, e
cresce com os desafios;
92
Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

 DÓI: dói, e muito. Ser mãe adotiva exige ainda mais esforço, você vai
ouvir muitas vezes que a “mãe do passado” (é assim que ele se refere)
é melhor, vai ser dureza enfrentar os preconceitos (sim, eles existem!)
da família, dos amigos da escola, de outras mães, não saber o que
fazer quando seu filho te rejeita, agride, tem comportamentos
inadequados;

 NADA SERÁ COMO ANTES, PRA MELHOR: lembro que antes de


adotar, via meu irmão com sua filhinha fazendo bagunça na cama,
ao acordar nas manhãs de domingo e pensava “um dia farei igual”.
Sim, hoje meu filho às vezes me acorda de surpresa, dizendo que
sou a melhor mãe do mundo. Ou como dias atrás, quando disse que
também “me adotou”, aliás, tudo a ver com Atitude Adotiva (para
saber mais, assista o vídeo Atitude Adotiva clicando aqui). É como
aquele comercial, “isso não tem preço...”. O que dizer do orgulho de
quando começou a ler e escrever, de ser um companheirão nas
viagens, tagarelando o tempo todo, entre alguns exemplos;

 NADA SERÁ COMO ANTES, PRA PIOR: isso vale para qualquer tipo
de maternidade. Aceitar esse fato e procurar manter o equilíbrio faz
toda a diferença. Muitas vezes vai ser pior do que sua vida anterior:
não é fácil ter que se privar, por anos, de poder ficar na cama até
tarde; muitos amigos irão sumir porque simplesmente não dão
conta de uma amiga-mãe; dizer adeus às viagens de última hora (só
quem é mãe sabe como é difícil preparar uma viagem, mesmo que
de fim de semana) e por aí vai, a depender do seu estilo de vida
anterior;

 RELAXAR: pode parecer estranho, mas senti falta de ter rido mais.
Passei boa parte desses anos tensa em tentar fazer o melhor, acertar,
levar meu filho a todos os médicos e terapias possíveis, que nem
sempre tive tempo para mim mesma (algo em comum com todas
as mães de primeira viagem?);

 VOCÊ VAI ERRAR MUITO: e tudo bem, isso vai acontecer muitas
vezes. Ouvi um dia desses que a “a gente não acorda pensando ‘Hoje
eu vou errar’. A gente quer sim, que tudo dê certo”. Então, faça o
melhor que puder, com preparo, ajuda e consciência, mas sem
culpas;

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

 TODA MUDANÇA É SEMPRE PRA MELHOR, “mesmo que na hora


não pareça”: esse é meu lema de vida, na verdade. Sair da zona de
conforto não é agradável, tampouco fácil. Tem um momento inicial
que tudo parece pior, errado, mas com o tempo as coisas vão se
encaixando, numa nova normalidade. E às vezes é preciso anos, pra
gente perceber os resultados de nossas escolhas e que a vida mudou
pra melhor. Abri mão de muitas viagens e amizades, perdi um
tempo só meu, passeios de última hora, almoços de sábado... Mas
também cresci em aprendizados e ganhei vários outros amigos, que
adotei e me adotaram, o que sem dúvida não teria acontecido se
não tivesse feito essa grande mudança de vida;

 VOCÊ VAI MUDAR: complementando a ideia anterior, tenha em


mente que muitos dos seus valores e comportamentos irão virar do
avesso. Eu doei boa parte do meu guarda-roupa, dos sapatos, mudei
o cabelo, engordei, emagreci, mudei de profissão. Ser mãe, seja
biológica ou pela via da adoção, faz a gente se rever por fora e por
dentro. Cada uma, tem seus próprios caminhos e tempo. Mas a
perspectiva nunca será a mesma, isso sim é verdade;

 ESPIRITUALIDADE: independentemente da sua orientação religiosa,


muitas vezes acreditar em Deus e orar foi a única coisa que me
manteve em pé e equilibrada;
 COMPENSA: afinal, pra que todo esse trabalho se não for pra melhor
� ? A balança na maior parte das vezes estará
desequilibrada, pra um lado ou pra outro, mas nunca tive dúvida
sobre essa questão. Talvez esta tenha sido minha automotivação
diária, de conseguir reconhecer que, mesmo que eu considere
que ainda tenho muito o que aprender como mãe, já vale a pena
AGORA!

Obrigada pela leitura e que


você adote e seja adotada(o)

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#11
fontes
de consulta

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

FONTES NACIONAIS DE CONSULTA

https://www.adocaopassoapasso.com.br

https://www.angaad.org.br

https://www.geracaoamanha.org.br

https://www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/adocao/

https://www.justica.gov.br/sua-protecao/cooperacao-internacional/adocao-
internacional/adocao-por-residentes-no-brasil

https://www.justica.gov.br/sua-protecao/cooperacao-internacional/adocao-
internacional/procedimentos-de-adocao

https://www.justica.gov.br/sua-protecao/cooperacao-internacional/adocao-
internacional/organismos-de-adocao

http://www.previdencia.gov.br/2013/10/beneficio-lei-garante-120-dias-de-salario-
maternidade-para-homens-e-mulheres-adotantes/

https://www.senado.gov.br/noticias/Jornal/emdiscussao/adocao/contexto-da-
adocao- no-brasil.aspx

http://www.oabsp.org.br/comissoes2010/gestoes-anteriores/direito-
adocao/cartilhas/cartilha_adocao_internet.pdf

http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/amb/cartilha_passo_a_passo_
2008. pdf

FONTES INTERNACIONAIS DE CONSULTA E ADAPTAÇÃO DE TEXTOS

https://www.childwelfare.gov

https://www.nacac.org

https://www.adoptuskids.org

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#12
Conheça
o IGA

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA

Manifesto IGA

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www.acolhimentofamiliar.com.br
Site com informações detalhadas para quem
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Acolhe Brasil
www.acolhebrasil.com.br
Plataforma de gestão e formação para
acolhimento familiar

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Guia da Adoção: o guia definitivo para quem pensa em adotar - por IGA
Acolhimento Familiar – Características, vantagens e como funciona. Saiba tudo!

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