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Universidade Federal de Mato Grosso Faculdade de Direito

Especialização em Direito Ambiental À Distância NEPA\UAB

O MEIO AMBIENTE E O NOVO INDICADOR DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL (FIB)

Tiago de Sousa Afonso da Silva

Cuiabá-MT

2010

II

“O que mais surpreende é que o homem, pois, perde a saúde para juntar dinheiro, depois perde o dinheiro para recuperar a saúde. Vive pensando ansiosamente no futuro, de tal forma que acaba por não viver nem o presente nem o futuro. Vive como se nunca fosse morrer e morre como se nunca tivesse vivido.” (Dalai Lama)

III

Para Larissa, João Paulo e Gabriel

IV

AGRADECIMENTOS

Diante da iminência da conclusão deste Curso de Especialização À Distância, o presente trabalho nada mais representa do que um extrato das experiências vivenciadas por este acadêmico com outros alunos, professores, tutores e orientadores em ambiente físico e virtual, desde o mês de agosto de 2009.

O muito que se pôde assimilar com essa interação e a congregação de ideais sobre os mais variados ramos da ciência que guardam pertinência com o Meio Ambiente, e o pouco que se conseguiu aqui externar através da presente peça monográfica é forçosamente, pois, um resultado do esforço envidado por todos: docentes e discentes.

É absolutamente oportuno e justo, portanto, que se rendam louvores, inclusive, a toda equipe de apoio técnico e científico provida pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso, com apoio da Universidade Aberta do Brasil (UAB), sem cuja dedicação, por certo, as valorosas lições aplicadas ao longo do curso restariam incompreendidas em toda a sua plenitude.

À tutora Kátia Gobatti Calça e ao orientador Luiz Alberto Esteves Scaloppe, com quem mais se teve contato durante toda essa trajetória acadêmica, são prestados aqui sinceros agradecimentos, e através deles também se homenageiam todos os profissionais de ensino, por terem, em cada módulo do curso, optado por compartilhar abnegadamente seus vastos conhecimentos, com paciência e didática irreparáveis.

V

Por óbvio, teve a Família papel igualmente essencial para que esse curso fosse concluído a bom termo. Desde as fases pré- monográficas momentos eram rotineiramente reservados para que as leituras e atividades de aprendizagem propostas pudessem ser realizadas a contento, não faltando compreensão por parte dos familiares para que esse tempo pudesse ser investido em prol do aprimoramento do conhecimento.

Nesse particular, menção especial merecer ser feita em relação à minha esposa, pois não foi senão em virtude de seu próprio incentivo que a temática explorada neste trabalho foi escolhida, tendo sido justamente ela, em razão do ineditismo da matéria, quem mais trouxe esclarecimentos sobre como e onde informações relevantes poderiam ser acessadas.

Em meio a alívio e satisfação por finalmente concluir em tempo hábil este trabalho, já que é sabidamente difícil conciliar as rotinas profissionais e pessoais diárias com o afã de buscar novos aprendizados, agradece-se a todos, enfim, imensamente!

VI

ÍNDICE

-Epígrafe

 

II

-Dedicatória

III

-Agradecimentos

 

IV

-Introdução

 

01

1.

O FIB (Conceito, Origem e Princípios Doutrinários)

 

04

2.

O FIB e o rompimento de paradigmas

 

06

3.

As

bases

filosóficas

do

FIB

(a

interdependência

e

o

pensamento

sistêmico)

 

09

4. O FIB no Ocidente e a falência dos indicadores de desenvolvimento . 12

5. O indicador FIB no Brasil

15

6. Fatores que importam ao FIB

18

7. A Resiliência Ecológica (fator preponderante ao FIB) e o Tratamento

dos Recursos Naturais

8. FIB e sustentabilidade (ponto nodal de divergência com a maioria dos

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indicadores socioeconômicos)

28

9.

Sustentabilidade ambiental: um caminho à felicidade?

31

10. O

FIB

em

Mato Grosso

e

a

sustentabilidade

ambiental

(entrevista)

35

Considerações finais

40

Bibliografia

43

1

INTRODUÇÃO

Desde o momento em que os povos passaram a delegar a terceiros a incumbência de disciplinarem as suas relações sociais e atenderem aos seus interesses mais caros, consubstanciou-se o que modernamente se convencionou denominar de Estado, permanecendo concentrada nesse ente uma série de poderes e prerrogativas que, em regra, somente poderiam existir enquanto meio de promover o bem-estar comum.

De acordo com o sistema que compõe hoje a maioria desses entes políticos, em que há a participação democrática nas escolhas de suas lideranças, as finalidades do Estado somente podem ser consideradas legítimas se estiverem em sintonia com os anseios gerais, não merecendo censura, portanto, a assertiva de que ele (Estado), em termos teóricos, nada mais deve ser do que a representação daquilo a que aspira a coletividade.

E tomando-se por base a premissa de que o ser humano, ainda que não conscientemente, sempre age de modo tendente a conquistar a satisfação interior, é absolutamente lícito ilacionar que nossos governantes têm por missão estabelecerem políticas públicas que jamais se afastem desse propósito. No entanto, mesmo naqueles países onde os detentores dos poderes políticos pautam as suas ações pelo bem-estar geral, o que se tem percebido mundialmente, há décadas, é a impotência dos gestores de estabelecerem diretrizes que efetivamente alcancem os resultados desejados.

É obrigação do Estado, portanto, zelar também pela aplicação qualitativa dos recursos públicos, na medida em que o investimento de somas vultosas em setores que desimportam à satisfação da

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coletividade representará o fracasso da função precípua do Estado de viabilizador de condições capazes de conferir ao indivíduo a tão pretendida qualidade de vida.

Não é de hoje que os governos, em todo o mundo, têm lançado mão de medidores de ordem puramente econômica para avaliar o nível de desenvolvimento de suas nações. E alicerçados na falsa premissa de que o progresso econômico traz consigo o bem-estar social, permanecem eles alheios ao fato de seus próprios administrados são ainda indivíduos infelizes, notadamente porque a boa performance do setor produtivo advém, não raras vezes, justamente da exploração da mão de obra, da degradação ambiental e de toda sorte de iniquidades com a quais a qualidade de vida se torna meta absolutamente inatingível.

Nesse contexto, em que a maioria dos medidores socioeconômicos mostra-se incapaz de avaliar com eficácia o grau de satisfação do indivíduo, surge o indicador FIB (Felicidade Interna Bruta) com uma proposta absolutamente inovadora, sustentando o entendimento de que muitos dos fatores que fazem alavancar os índices de desempenho produtivos dos países são, em verdade, os que mais distanciam as pessoas de uma condição efetiva de bem-estar.

Este singelo trabalho se propõe a expor, em poucas páginas, os princípios que informam o FIB, bem como a sua origem e as suas bases filosóficas, sendo apresentado também um breve histórico da civilização moderna ocidental desde que passou a emprestar acentuada importância aos níveis do PIB (Produto Interno Produto) para aferir seu desenvolvimento socioeconômico e ordenar as suas políticas públicas.

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Pouco adiante, serão relatadas algumas das principais experiências realizadas no Brasil visando à implantação do ideário sustentado pelo FIB e os esforços que entidades não governamentais têm encetado para convencer os Poder Públicos da premência de se institucionalizar medidores socioeconômicos mais humanizados em território nacional.

A seguir, serão apresentados os principais pontos de dissonância entre o FIB e a maior parte dos indicadores que se propõem a mensurar o progresso social das nações, chamando especial atenção para os fatores que são tomados positivamente pelo PIB e por outros índices largamente utilizados e que, entretanto, são os que mais comprometem a satisfação do ser humano.

Nesse cenário, apresenta-se o meio ambiente como um dos mais prejudicados pela adoção indiscriminada desses indicadores pelos governantes, na medida em que as degradações impostas a ele em nome da assunção de uma posição destacada no contexto econômico são totalmente relevadas na elaboração de seus cálculos, em que pese a qualidade de vida do homem esteja a depender necessariamente de sua relação harmoniosa com a própria natureza.

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1. O FIB (CONCEITO, ORIGEM E PRINCÍPIOS DOUTRINÁRIOS)

O FIB (Felicidade Interna Bruta 1 ), em poucas palavras, nada mais representa do que um programa de mudança social e econômica baseado na assertiva de que o desenvolvimento da população deve exprimir, necessariamente, o seu próprio estado de felicidade.

Passível de ser mensurado e apresentado através de índice, como assim o são o PIB (Produto Interno Bruto), IDH

(Índice de Desenvolvimento Humano) e o IOPDH (Iniciativa de Oxford sobre

a Pobreza e Desenvolvimento Humano), o FIB é considerado

consequentemente como um indicador que visa primordialmente a avaliar o

nível de bem-estar social, pois esta condição, segundo seus princípios, deve

ser sempre o mais importante objetivo a ser perseguido pelas nações e seus governantes.

O FIB, conforme se pode depreender, distingue-se da maioria dos indicadores exatamente por apresentar uma proposta mais humanizada e menos voltada a questões negociais como produtividade e economia, na medida em que tenciona valorizar o indivíduo em sua essência, buscando efetivamente avaliar seu nível de satisfação consigo mesmo, seus afins e com o ambiente onde vive.

No início do século XX, como é consabido, alastrou-se mundialmente algumas ideologias contrárias às sustentadas pelo homem durante a Idade Moderna. Nessa época, os pensamentos que se opuseram aos princípios capitalistas, capitaneados especialmente por países do Leste Europeu, iam de encontro com os advindos da Revolução Industrial

1 Em inglês: Gross National Happiness (GNH).

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e da sociedade burguesa, instituidores do ideário de que a satisfação dos anseios do homem decorria da incrementação de suas atividades de consumo. Eles apregoavam, ao revés, que o efetivo bem-estar do indivíduo somente seria alcançado se lhes fossem oferecidas condições iguais de existência, o que somente poderia ser alcançado por intermédio da ingerência efetiva do Estado nas relações sociais e econômicas.

No entanto, as ideias socialistas e comunistas, conquanto sedutoras em seus aspectos teóricos, mostrarem-se igualmente incapazes de proporcionar a satisfação do ser humano, tamanhas que eram as restrições impostas pelo poder estatal às atividades exercidas pelas pessoas, sendo igualmente enormes as dificuldades encontradas por elas para compatibilizarem a sua tarefa produtiva com o desejo de agregação própria de riquezas.

A derrocada da filosofia comunista/socialista propiciou que houvesse, bem ou mal, a reafirmação dos pensamentos sufragados pelo sistema econômico capitalista, por cujas bases, contudo, ainda não conseguiu o homem atingir a sua missão de prover seu próprio bem-estar. E não tardou muito para que alguns pensadores percebessem que a produção de riquezas e o crescimento econômico, comumente mensurados pelo PIB (Produto Interno Bruto), não traziam a reboque a efetiva felicidade (assim compreendida como a sensação íntima de prazer consigo mesmo e com o seu meio).

A par disso e consciente da incumbência cometida aos governantes de auxiliar na promoção do bem-estar de seus administrados, tratou então um pequeno do sul do continente asiático de por em prática estudos tendentes a elaborar um indicador que verdadeiramente tivesse o condão de avaliar o nível de felicidade do indivíduo.

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Até então, os índices pelos quais se pautavam as administrações nacionais para o estabelecimento de suas políticas públicas eram arraigados basicamente nos mesmos princípios econômicos e produtivistas que norteavam os pensamentos da sociedade a partir da Revolução Industrial Inglesa do século XVIII, sendo frequentes as discrepâncias anotadas entre as indicações do PIB e o grau de satisfação da população com sua própria vida. Por vezes, altos índices do PIB contrastavam com uma sociedade pouco feliz consigo mesma e, por outras tantas, baixos índices de avaliação socioeconômica trazia apenas uma falsa impressão de que o bem-estar dessas pessoas era completamente inexistente.

Exsurge o FIB, então, como um mecanismo de avaliação mais precisa do nível de desenvolvimento humano, instituído tendo sido ele, pela primeira vez em 1972 no Reino do Butão, localizado entre a China e a Índia: consequência justamente da inquietante preocupação de seu monarca Jigme Singye Wangchuck com a felicidade de seus súditos e com a sua tarefa de cooperar com a melhoria da qualidade de vida de cada um deles.

2. O FIB E O ROMPIMENTO DE PARADIGMAS

Nenhuma surpresa causa o fato de o PIB, como a maioria dos indicadores econômicos, ser incapaz de mensurar o nível de bem-estar da população.

O PIB, em verdade, desde quando passou a ser largamente utilizado pelas nações como um indicador de prosperidade da sociedade, alguns estudiosos da economia, inclusive o seu principal

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idealizador, o ucraniano Simon Kuznets, vencedor em 1971 do Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, já tratava de advertir os governantes de que esse indicador, apesar de importante, não se prestava para medir a qualidade de vida do indivíduo 2 .

Outros economistas de capacidade igualmente reconhecida também se pronunciaram, depois, a respeito da utilização de indicadores como o PIB para a avaliação do bem-estar social, havendo entre eles o consenso, desde o final do século passado, de que os seus números não

são uma boa métrica, já que não medem as mudanças em bem-estar; e se os líderes estão tentando maximizar o PIB, e o PIB não é uma boa métrica, estamos

maximizando a coisa errada.” 3 Segundo os critérios de mensuração do PIB - índice de progresso que soma todas as transações econômicas de uma nação - até mesmo as atividades que sabidamente comprometem o bem-estar do indivíduo, como a criminalidade, o divórcio, jogatina, obesidade, acidentes automobilísticos, são fatores que alavancam o progresso da economia, e consequentemente para a maioria dos líderes políticos, o tão desejado desenvolvimento social.

Àquela ocasião, os próprios profissionais da Economia nos Estados Unidos da América punham em xeque a confiabilidade do PIB para a medição da intensidade de qualidade de vida de seu povo. E com o advento da gravíssima crise financeira que fulminou há poucos anos a nação norte-americana e estabeleceu um colapso econômico de proporções mundiais, vários desses estudiosos disseram que não foram realmente colhidos de surpresa. Essa ruína, segundo eles, apenas teria demonstrado “que

os números do PIB estavam totalmente errados. O crescimento era baseado numa

2 Segundo ele o bem-estar de uma nação poderia apenas ser levemente inferido a partir da mensuração da

Metas para “mais” crescimento deveriam ser especificadas do quê e para quê

(Relatório ao Congresso Americano de 1934). 3 Ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2001 e Professor da Unidade de Columbia/NY, o estadunidense Joseph Stiglitiz.

renda nacional (

)

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miragem. Muitas pessoas olharam para o crescimento do PIB nos EUA na década de 2000 e diziam: „Como vocês estão crescendo! Precisamos imitar vocês!‟ Mas não era crescimento sustentável ou equitativo. Mesmo antes do crash, a maioria das pessoas estava pior do que estavam em 2000. Foi uma década de declínio para a maioria dos americanos.” 4

Movimentos estimulados pela própria classe de socioeconomistas têm agora chamado a atenção dos países para a imprestabilidade do PIB como ferramenta de medição da felicidade e dos custos sociais e ambientais implícitos decorrentes das atividades produtivas. Reafirmam esses profissionais que a verdadeira prosperidade somente será factível a partir do instante em que for cessada a utilização indiscriminada de indicadores como esses, que aferem apenas quantitativa e não qualitativamente o desenvolvimento social e econômico. Daí se segue a premente necessidade da instituição de novos indicadores para melhor balizar as políticas públicas, proposta esta que é justamente a do FIB.

Resultados já podem hoje ser percebidos no cenário político mundial decorrentes dos esforços dessa corrente socioeconomista que sustenta a necessidade de revisão dos critérios de avaliação do bem-estar da população por parte dos governantes. O Reino da Tailândia, por exemplo, também localizado na porção sul da Ásia, fez implantar recentemente um novo indicador do nível de satisfação de sua população o denominado Índice de Progresso Nacional (IPN), com critérios de avaliação bem similares aos utilizados pelo FIB.

Entretanto, um caminho longo ainda precisa ser trilhado a fim de que medidores mais eficazes da qualidade de vida sejam

4 Idem, em pronunciamento a acadêmicos. Revista Financial Times, 2009.

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utilizados em larga escala, aceitos e institucionalizados na maioria dos países, tanto o Oriente quanto do Ocidente.

Apesar da tentativa da Organização das Nações Unidas de humanizar esses indicadores econômicos com a implantação do IDH (Indicador de Desenvolvimento Humano), é forçoso admitir que os relatórios contendo as classificações das nações segundo os seus critérios de apuração de bem-estar, publicados anualmente desde o ano de 1993, demonstram ser ainda incapazes de espelhar a grau de satisfação pessoal de seus habitantes, já que ainda considera como fatores benéficos algumas situações indesejadas decorrentes do progresso econômico (poluição, desagregação familiar e criminalidade). Peca o IDH, também, por considerar como fatores unicamente representativos da qualidade de vida a renda econômica, a educação e a longevidade, ignorando, por completo, dentre outras coisas, a qualidade da relação que as pessoas mantêm com o meio ambiente.

3. AS BASES FILOSÓFICAS DO FIB (A INTERDEPENDÊNCIA E O PENSAMENTO SISTÊMICO)

Consectário da lei física universal da Ação e Reação, a interdependência é um ditame lógico e intuitivamente assimilável, pois é justamente em decorrência dela que as ações, reações e omissões praticadas pelo homem se manifestam perante ele mesmo e suas gerações vindouras, a depender de quão bem ou mal esteja se portando em relação aos seus pensamentos e atos.

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A interdependência decorre da conclusão

insofismável de que todo fato, seja ele natural (fenômeno) ou provocada pela ação do indivíduo, repercute em tudo o mais que o circunda, assim como todas as alterações no ambiente natural ou artificial que o cerca, sejam elas espontâneas ou provocadas, haverão de influir em sua própria vida cedo ou tarde. “Os fenômenos existem não de um modo autônomo por si, mas numa relação de dependência com outros fenômenos” 5 .

Logo, é impositiva a conclusão de que a interdependência pode acontecer estritamente entre dois ou mais fenômenos, entre fatos naturais e o homem, ou, por que não, entre o homem e o seu semelhante. Como consequência, ao se internalizar essa noção de inter- relação, nós indivíduos temos a chance e a sabedoria necessárias para passarmos a partir de então a pautar as nossas condutas não apenas pelos nossos próprios desejos, mas também pelos anseios daqueles que nos estão próximos, visando, inclusive, à qualidade e a sustentabilidade do próprio meio ambiente onde vivemos.

Por força dessa teia na qual estão naturalmente

conectadas as nossas ações e reações (as causas e efeitos), é fácil também depreender que a conquista da felicidade verdadeira passa, inexoravelmente, pela aceitação por parte do homem de seu papel de corresponsável pelo bem- estar e equilíbrio de todos e de tudo aquilo com que(m) coabitamos 6 .

Corolário da noção de interdependência, o que se entende por Pensamento Sistêmico não é senão o entendimento de que as

5 Monge e Líder Oficial do Governo Tibetano, S.S. Dalai Lama. 6 CAPRA, Fritjof, As Conexões Ocultas Ciência para uma Vida Sustentável (2005).

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modificações realizadas em locais, coisas ou objetos aparentemente isolados, afetam invariavelmente o universo circunvizinho.

A partir dessa compreensão, os problemas que afligem a sociedade, manifestem-se eles em qualquer sistema (natural, científico, humano, engenhado ou conceitual), somente podem ser solucionados se primeiramente for compreendido o que o foco da problemática representa para toda a estrutura que o abriga ou que com ele se inter-relaciona (é necessária a compreensão da parte defeituosa em relação ao todo). A análise isolada de uma situação ou a sua avaliação puramente mecanicista, derivada do pensamento cartesiano, é fator que dificulta o seu entendimento, enquanto que a sua compreensão contextual, segundo a filosofia sistêmica, tende a favorecer a sua compreensão e resolução.

Em suma, segundo Fritjof Capra, físico austríaco Diretor da unidade de educação ecológica Center for Ecoliteracy, em Berkeley/CA (EUA), a explicação de coisas considerando o seu contexto implica esclarecê-las considerando o seu meio ambiente; daí se pode afirmar, assim, que todo pensamento sistêmico nada mais é do que um pensamento

ambientalista. A rigor, como a física quântica mostrou de maneira tão dramática não há partes, em absoluto. Aquilo que denominamos parte é apenas um padrão numa teia inseparável de relações. Portanto, a mudança das partes para o todo

) Para o

pensador sistêmico, as relações são fundamentais e as fronteiras dos padrões

também pode ser vista como uma mudança de objetos para relações (

discerníveis („objetos‟) são secundárias 7 .

7 A Teia da Vida (The Web of Life), Editoras Cultrix e Amana-key, São Paulo: 1996.

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4. O FIB NO OCIDENTE E A FALÊNCIA DE SEUS INDICADORES DE DESENVOLVIMENTO

A cultura ocidental tradicionalmente ainda mantém arraigada uma noção de felicidade e bem-estar deturpada, umbilicalmente ligada à satisfação de seus interesses precipuamente econômicos e patrimoniais. Não causa estranheza, portanto, o fato de a base filosófica implantada pelo FIB ter tardado bastante para arregimentar adeptos nessa porção do planeta, onde prevalece a falsa percepção de que a conquista da felicidade depende invariavelmente da acumulação de riquezas materiais.

Concebido e implementado mundialmente pela primeira vez no Butão, somente a partir do final do século passado é que o indicador FIB passou a ser estudado e vistos com bons olhos por psicólogos, sociológicos e socioeconomistas da Europa e das Américas.

Esses estudiosos pertencentes a países cujos indicadores econômicos eram dos mais elevados, de tanto observarem os baixos índices de bem-estar da sua população, finalmente concluíram que o crescimento da produção nacional e a assunção de uma posição de destaque na economia não revelavam a satisfação íntima de seus indivíduos: infelizes, frustrados, estressados e acometidos por toda gama de doenças psicossomáticas exatamente decorrentes da adoção de um padrão de pensamento contaminado pelo ideário consumista.

Economistas dos Estados Unidos, por exemplo, país onde mais a prosperidade está conectada à ideia de posse e riqueza, cada vez mais se puseram a observar a partir de 1990 como o apogeu econômico de

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seu país, evidenciado por indicadores como o PIB, não expressava verdadeiramente o grau de bem-estar de seus cidadãos.

Por consequência, notaram muitos desses pensadores quão imprópria era a adoção de indicadores essencialmente econômicos para a implantação de políticas públicas visando à qualidade de vida da sociedade. Com isso, despertaram-se para o fato de que os fatores que normalmente eram levados em conta para qualificar uma nação como economicamente pujante eram justamente os que mais comprometiam o bem- estar da coletividade.

A reparação de danos causados pela natureza ou pela ação antrópica, por exemplo, por mais absurdo que pareça, é situação considerada de maneira positiva nos cálculos do PIB. A reconstituição de um hábitat em virtude de um desastre ecológico, do mesmo modo, tem o potencial de gerar o aumento das atividades econômicas nessa região, ajudando, portanto, a alavancar os índices do PIB. Os gastos realizados pelo Poder Público com a conservação de seu sistema prisional, pelos critérios utilizados na determinação desse indicador, têm também o mesmo impacto positivo que os investimentos efetuados pelo governo em áreas tidas, estas sim, como essenciais ao bem-estar coletivo, como as do ensino e da saúde.

Segundo defende o advogado e escritor estadunidense Jonathan Rowe, com um quê de ironia, “o „herói‟ econômico das estatísticas do PIB seria um paciente em estado terminal que precisa usar medicamentos muito caros e passa por um divórcio custoso” e dispendioso. E arremata, com propriedade: “para estimular a economia, teremos que encorajar as pessoas a ficarem doentes para que a economia possa ficar saudável.”

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Entretanto, apesar de tudo isso, não veio da nação norte-americana a demonstração de que já era momento de serem revistos no Ocidente os critérios de avaliação de desenvolvimento social. Há pouco tempo, a República da França, integrante do grupo de nações mais ricas, industrializadas e influentes que se propõe a discutir os problemas mundiais (o denominado G8 8 ), deu evidentes mostras de sua preocupação com o efetivo desenvolvimento e bem-estar de sua população.

O presidente francês Nicolas Sarkozy, no início do ano de 2008, convidou uma série de renomados economistas, liderados pelos vencedores do Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz e Amartya Sen 9 , para elaborarem um novo método de avaliação da evolução social de sua nação, tamanha que era a disparidade verificada entre o que era apresentado em seus indicadores econômicos tradicionais e a realidade cotidiana de seus governados.

Esse grupo, intitulado Commission sur la Mesure de la Performance Économique et du Progrès Social 10 , realizou a sua primeira reunião plenária em 22 de abril de 2008, em Paris, tendo após sucessivos encontros e estudos, em setembro de 2009, apresentado ao presidente francês um minucioso relatório contendo várias recomendações e a conclusão, à qual muitos povos do Oriente já haviam chegado, de que a

qualidade de vida inclui uma série de fatores que fazem a vida satisfatória,

8 Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha, Itália, Japão e Rússia.

9 Economista indiano, atual Reitor da Faculdade de Cambridge, no Reino Unido, e autor do livro Desenvolvimento como Liberdade, editora Companhia das Letras (2000).

10 Comissão de Medição do Desempenho Econômico e do Progresso Social

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incluindo aqueles que não podem ser negociados no mercado ou mensurados através de indicadores monetários” 11 .

5. O INDICADOR FIB NO BRASIL

Obviamente não é necessário ter conhecimento aprofundado em sociologia ou economia para concluir que em poucos países a revisão dos critérios de direcionamento das políticas públicas se faz tão premente quanto no Brasil.

Ressalvadas as situações em que a aplicação de recursos públicos é comprometida em virtude de desvios criminosos e da corrupção, a inoperância dos atos da Administração Pública que visam ao bem-estar da coletividade comumente decorre da ausência de diretrizes capazes de informar de maneira precisa quais são (e onde estão) as principais demandas sociais.

As tentativas de implantação das bases filosóficas do FIB no Brasil tiveram início somente a partir do início deste século, capitaneadas pela psicóloga e antropóloga estadunidense Susan Andrews - residente no país há mais de dez anos e que exerce a coordenação da organização de caráter social intitulada Instituto Visão Futuro, sediada no município de Porangaba/SP.

O primeiro desafio dessa entidade é elaborar um aprofundado questionário dirigido à população que tenha o condão de efetivamente avaliar o nível de bem-estar de cada indivíduo, já que os instrumentos de medição da qualidade de vida dos cidadãos adotados pelos

11 Tradução livre para o português. Fonte: Sítio Eletrônico da Comissão de Medição do Desempenho Econômico e do Progresso Social (http://www.stiglitz-sen-fitoussi.fr/documents/rapport_anglais.pdf).

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governos brasileiros, a toda prova, não têm conseguido estabelecer políticas que diminuam tantas iniquidades sociais.

O Instituto Visão Futuro, por meio da

celebração de parcerias com entes públicos, já implementou projetos-piloto em alguns municípios do Estado de São Paulo.

No Bairro de Campo Belo I, setor periférico

localizado na cidade de Campinas, por exemplo, pesquisas realizadas com mais de quatrocentas pessoas, com o apoio da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), trouxeram algumas informações surpreendentes e notadamente valiosas, pois os seus moradores, apesar de viverem em condições de miséria e cercados de pouquíssima infraestrutura, apresentaram níveis de felicidade iguais ou superiores aos da própria população mais abastada.

Concluiu-se que fatores outros como o exercício da solidariedade, o apoio familiar e a religiosidade são diretamente responsáveis pela felicidade desses indivíduos; é uma constatação empírica que bem evidencia que a riqueza, tal qual considerada pela sociedade ocidental-capitalista, não conduz necessariamente à conquista da satisfação íntima.

Já em Itapetininga o projeto do FIB conseguiu, ainda em 2009, estabelecer uma importante aliança com o próprio Poder Executivo, graças ao interesse de seu gestor de obter informações mais fiéis sobre a qualidade de vida de seus munícipes e de aplicar mais eficazmente os recursos de que dispunha. Dessa feita, outras centenas de pessoas foram indagadas sobre situações relativas a seu cotidiano, tendo os seus resultados já

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se servido para balizar as decisões tomadas pelo governo em prol do bem comum 12 .

Outra entusiasta dos pensamentos propagados pelo FIB, a Senadora Marina Silva já manifestou publicamente em palestras realizadas em diversos lugares, inclusive na 5ª Conferência Internacional sobre Felicidade Interna Bruta (FIB), realizada em novembro de 2009 em Foz do Iguaçu/PR, a sua pretensão de institucionalizar os seus princípios, tornando-o um dos indicadores oficiais no país com vistas ao direcionamento das decisões administrativas.

Mais recentemente, em setembro de 2010, ainda foi celebrada uma parceria entre a Prefeitura Municipal de Goiânia/GO a e o Instituto Visão Futuro com a qual o poder público pretende ali também oficializar o FIB como medidor da qualidade de vida dos cidadãos. Um projeto ainda embrionário será implantado num dos bairros da Capital e, a depender de seus resultados, serão estendidos gradativamente a todos os setores da cidade 13 .

Já em território mato-grossense, agora em 2010 algumas iniciativas têm sido tomadas aos poucos também objetivando a propagação do ideário do FIB, inicialmente com foco na iniciativa privada. O SEBRAE (Serviço Nacional de Apoio à Empresa), encarregado que é de prestar auxílio técnico ao empresariado de médio e pequeno porte, já deu início ao estabelecimento de uma aliança com a mencionada organização

12 Na rede mundial de computadores estão disponíveis nos sítios do Instituto Visão Futuro e da empresa Icatu

Seguros questionários mais simplificados que visam a avaliar o nível de felicidade pessoal (http://www.felicidadeinternabruta.com.br/teste_felicidade.php; e http://www.felicidadeinternabruta.org.br/). O primeiro questionário foi reproduzido recentemente em âmbito nacional em matéria de capa publicada pela

Revista

Felicidade?”

Goiânia

IstoÉ,

intitulada

“Qual

é

o

seu

Índice

de

13

Segundo

noticiado

pelo

sítio

da

Prefeitura

Municipal

de

18

paulista com a qual pretende levar noções de qualidade de vida e de sustentabilidade ambiental ao empresariado local.

6. FATORES QUE IMPORTAM AO FIB

Por se tratar de um indicador que se propõe a medir com uma precisão até então inexistente o nível de qualidade de vida da coletividade, as situações que são capazes de interferir em seu cálculo, por óbvio, diferem-se em muito daquelas usualmente empregadas hoje pelo Poder Público para conhecer melhor a sua população.

Sendo o objetivo basilar desse indicador a disponibilização de meios aos gestores estatais para promoverem o bem-estar

do cidadão (propósito que o distingue radicalmente da maioria dos outros), o FIB se apega a fatores que se acredita estarem intimamente relacionados com

o prazer que o indivíduo sente com a sua própria existência.

Para o socioeconomista butanês Dasho Karma Ura 14 , a felicidade, apesar da abstratividade de seu conceito e da subjetividade de sua percepção, jamais pode deixar de ser classificada como um autêntico bem público, já que é inegável que todos os homens, de uma maneira ou outra, almejam alcançá-la. E, como tal, a responsabilidade pela

aquisição dessa riqueza não pode ser transferida toda ao próprio indivíduo ou

à iniciativa privada, pois se o planejamento governamental e as condições macroeconômicas do país forem adversos à felicidade, esse planejamento

14 Mestre em Política, Filosofia e Economia pela Universidade de Oxford, Inglaterra, Vice-Presidente do Conselho Nacional do Butão, e Presidente do Centro para os Estudos do Butão fundado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) para formular as análises estatísticas do FIB.

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fracassará enquanto uma meta coletiva. “Daí a necessidade de os governos

criarem condições conducentes à felicidade, na qual os esforços individuais possam ser bem sucedidos; as políticas públicas nascem justamente dos anseios da população e é orquestrada pelo poder executivo, sendo necessária para educar os cidadãos sobre a felicidade coletiva15 .

Ainda segundo esse economista, são vários os fatores primordialmente levados em conta por esse indicador de felicidade para determinar a sua gradação, quais sejam: (1) Estado de Saúde; (2) Educação; (3) Padrão de Vida; (4) Condição de Governança; (5) Diversidade Cultural; (6) Vitalidade Comunitária; (7) Uso Equilibrado do Tempo; (8) Bem-Estar Psicológico; e, por último, mas não menos importante, (9) a Resiliência Ecológica.

Antes de se aprofundar na análise do fator que mais guarda pertinência com o curso que ora se realiza, impõe-se a realização de uma explanação sintética acerca dos outros elementos que auxiliam na determinação do índice FIB:

Segundo os preceitos dos FIB, ao se avaliar o Estado de Saúde de um determinado agrupamento deve ser objeto de especial consideração o seu status, ou seja, os fatores demonstrativos da condição sanitária do indivíduo e do nível de qualidade do próprio sistema encarregado da prestação desse serviço. Lamentavelmente, já tivessem sido institucionalizadas as bases do FIB no Brasil, esse seria um fator que certamente preponderaria negativamente sobre os demais, tamanha a desqualificação das atividades executadas pelo Poder Público e a condição de insalubridade em que se insere boa parte da população brasileira.

15 URA, Dasho Karma, palestra realizada no Japão (2007).

20

Como não poderia deixar de ser, a avaliação do Padrão de Vida é, de igual forma, primordial para se determinar quão satisfatória é a qualidade de vida do ser humano. Quanto mais estável for a vida financeira do indivíduo e melhores forem as condições de sua própria moradia, mais condições terá ele consequentemente de alcançar uma condição de bem-estar. A se tomar como base a realidade da maioria dos brasileiros, este também seria um fator que muito contribuiria para fazer despencar os níveis de felicidade no país.

A Vitalidade Comunitária, por sua vez, nada mais é do que a análise das forças e das fraquezas dos relacionamentos e interações dentro das próprias comunidades. Acredita-se que, quanto maiores forem a confiança, a sensação de adequação social, a vitalidade das relações afetivas e a prática do voluntariado no seio da coletividade, maior tende a ser o grau de satisfação de seus integrantes. A Administração Pública, portanto, de posse de informações como essa, teria plenas condições de alocar seus recursos de modo a proporcionar a expansão dessas ações comunitárias, ciente podendo estar seu gestor de que, por assim agir, estaria contribuindo para a felicidade de seus administrados.

Além disso, a Condição de Governança, assim compreendida como a avaliação que a coletividade faz dos níveis de honestidade e eficiência de seus líderes políticos, também é fator que influencia diretamente na satisfação íntima do indivíduo. Disso se segue que a corrupção e a impunidade que campeiam Brasil a fora, além de ser prejudicial financeiramente ao cidadão enquanto contribuinte e financiador das políticas públicas, têm também indiretamente o condão de prejudicar o seu próprio

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bem-estar, pelo que informam os estudos que tem sido realizados há anos por socioeconomistas. Mais um motivo, portanto, para que a Justiça e os órgãos administrativos de controle interno e externo ajam com absoluto rigor contra todos os servidores e administradores ímpios.

Certamente, mais satisfeito também estará o indivíduo quanto mais conseguir ele empregar o seu Tempo de maneira a alternar o cumprimento de seus afazeres com momentos de descontração e lazer: a utilização do tempo de que se dispõe, ainda que pouco, para a prática de atividades de socialização com seus familiares e amigos, conforme os estudos, tem o poder de aumentar significativamente o grau de contentamento do ser humano.

A Cultura, como sói acontecer, também exerce

papel importante na determinação do nível de satisfação do indivíduo, na medida em que, através da preservação de suas tradições, consegue o homem melhor formar a sua própria identidade, valores e a base criativa, tão necessária para o direcionamento satisfatório de seu próprio futuro.

7. A RESILIÊNCIA ECOLÓGICA (FATOR PREPONDERANTE AO FIB) E A RELAÇÃO COM OS RECURSOS NATURAIS

A expressão resiliência pode ser compreendida

como a capacidade de um sistema (ecológico, econômico, social) de absorver as tensões criadas por perturbações externas, sem que haja alterações

(MUNN, 1979).

Transportando esse conceito para a seara ecológica, o termo é comumente definido como a capacidade de um sistema

22

suportar perturbações ambientais, de manter sua estrutura e seu padrão geral

de comportamento, mesmo quando modificada sua condição de equilíbrio.

(CNPq/ACIESP, 1987).

Conforme sustenta o socioeconomista brasileiro Marcos Arruda 16 , os problemas vivenciados hoje pela comunidade mundial, devido aos riscos de catástrofes ambientais de dimensões cada vez maiores, representam apenas o resultado da visão equivocada que ainda impera em nossa sociedade de que o desenvolvimento social seria uma decorrência natural do crescimento econômico e da produtividade.

Sob essa ótica distorcida que pretende justificar o aumento da produção de riquezas com a conquista da qualidade de vida, tem

o meio ambiente padecido cada vez mais, já que as atividades

economicamente importantes passaram a assumir papel essencial no direcionamento dos regramentos jurídico-sociais, acabando a sociedade e os poderes constituídos por agirem de maneira bastante licenciosa em relação aos autores das ações que ofendem o ecossistema. Com base nessa noção, que

alguns economistas, juristas e ambientalistas têm pelejado em extirpar atualmente da consciência coletiva, praticamente todo ato que visa ao progresso da economia é sócio e institucionalmente aceito, mesmo que cometido em detrimento do ambiente natural.

Esse pensamento tende, inclusive, a refletir na própria formação de preço dos produtos que são entregues a consumo a partir dessas atividades produtivas degradadoras. Evidentemente, no cômputo dos custos de produção comumente são levados em consideração apenas os gastos

16 Colaborador da Universidade da Paz (Unipaz), do Instituto Visão Futuro e da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, e sócio do Instituto Transnacional (Amsterdam), em palestra realizada no Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), no Rio de Janeiro (2009).

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materiais (imediatamente perceptíveis), tais como a aquisição de matéria- prima, insumos, energia, maquinário, equipamentos e a força de trabalho. Permanecem excluídos desse cálculo, por conseguinte, os custos ambientais e sociais desse investimento (cuja percepção é mediata) 17 ; “estes ficam

descartados como „externalidades‟, a serem bancadas pela população, pelos consumidores ou pelo Estado. Entre eles está a destruição de mananciais de água doce, o desmatamento, a erosão e a poluição dos solos, das águas e do ar, as emissões de gases de efeito-estufa e o aquecimento global, a produção desenfreada de lixos tóxicos e a sua exportação para países e comunidades mais débeis e vulneráveis.” 18

Alguns poderiam ponderar, e com boa dose de razão, que a elevação dos encargos sobre as atividades produtivas potencialmente ofensivas ao meio ambiente também causaria, em curto prazo,

o aumento dos preços dos produtos postos à disposição do consumidor final.

Entretanto, não podemos perder de vista que, diante das catástrofes climáticas perceptíveis hoje em decorrência de séculos de práticas exploratórias irresponsáveis, é mais do que hora de a população e

o próprio consumidor perceberem os efeitos que essas atividades causam em

seu próprio bolso. Além disso, o aumento dos preços dos produtos, notadamente os provenientes de fontes naturais não renováveis, teria o condão

de estimular as pessoas a reverem seus próprios hábitos de consumo, seja optando pelo uso de outras mercadorias seja por continuar a utilizar elas mesmas, porém de maneira mais racionalizada.

17 Vide o conteúdo audiovisual do Projeto “Estória das Coisas, promovido pela organização social estadunidense, sediada em Berkeley, Califórnia, denominada The Story of Stuffs Project:

http://www.storyofstuff.org/international/. 18 ARRUDA, Marcos, Texto da apresentação do autor no Curso para Comunicadores “PIB ou FIB? Felicidade Interna Bruta”, Instituto Visão Futuro Parque Ecológico, Porangaba, SP, 28-29/3/2009.

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Por outro lado, em relação ao empresariado os resultados da majoração dos encargos sobre a sua atividade se afigurariam ainda mais benéficos em médio e longo prazo, já que esses empreendedores, especialmente aqueles cujos lucros são auferidos à custa da devastação da natureza, se veriam obrigados a investir constantemente na busca de novas tecnologias que lhe permitissem obter a matéria-prima com cada vez menos impactos ao meio ambiente. Com o passar do tempo, a tendência seria de que esses empresários alterassem o seu próprio ramo de exploração econômica, passando a atender a outras demandas dos consumidores, podendo ainda conceber produtos ecologicamente mais amigáveis, que menos dependessem de recursos naturais em seu processo de produção ou cujos materiais fossem mais facilmente reciclados ou biodegradados.

Nos Estados Unidos, um dos países onde mais as atividades produtivas apresentaram reflexos negativos no bem-estar geral, há atualmente, inclusive, um franco processo de revisão de suas fontes geradoras de energia. Somente a partir do anúncio do esgotamento das reservas de petróleo em todo o mundo e inclusive em seu próprio território, é que o governo estadunidense se pôs a questionar a qualidade do combustível que era utilizado por sua frota automobilística (com substância basicamente composta por hidrocarbonetos).

São absolutamente consabidos os efeitos deletérios que provocam o processamento dessas substâncias por máquinas e veículos, devido à eliminação de dióxido e monóxido de carbono na atmosfera. Os resultados imediatos da utilização descomedida desses recursos energéticos são a queda da qualidade do ar e, por conseguinte, o aumento da incidência de distúrbios respiratórios e alérgicos, notadamente em idosos e

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crianças. Afora isso, em decorrência justamente do lançamento exacerbado desses combustíveis fósseis, sucedem-se também as chuvas ácidas e o agravamento do efeito estufa, o que contribui gradativamente para o superaquecimento global.

Assim, com o receio de que as indústrias e as famílias se vissem absolutamente privadas dos combustíveis derivados do petróleo para poder desenvolver normalmente os seus afazeres, finalmente tem o país dado mostras de que pretende aderir aos protocolos internacionais assinados em favor do meio ambiente, arrefecendo a emissão de gases poluentes e instituindo mecanismos que lhe permitirão a disponibilização de fontes enérgicas limpas e renováveis (biodiesel e o etanol), inclusive à base de tecnologia oriunda do Brasil.

Não por obra do acaso, foi desse país norte- americano (um dos que mais produzem e degradam) que provieram entendimentos jurídicos que contribuíram bastante para a mudança dos conceitos de nexo causal para fins de determinação da responsabilidade civil por danos ambientais.

Consolidada pela jurisprudência emanada de vários Estados a partir do ano de 1980 19 , hoje é bem aceito na maioria das cortes de justiça norte-americanas o argumento de que empresas exercentes de atividades capazes de gerar poluição devem se responsabilizar solidariamente por eventuais prejuízos causados por produtos oriundos do setor econômico onde ela atua, de acordo com a quota que possuem no mercado, mesmo que

19 Caso Sindell v. Laboratórios Abbott, julgado pela Suprema Corte da Califórnia em 20 de março de 1980.

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não tenha sido exatamente a mercadoria que ela pôs em circulação a causa da lesão experimentada 20 .

Entretanto, a economia brasileira também tem deixado muito a desejar no que diz respeito à forma como o setor produtivo lida com as fontes naturais, inclusive as consideradas renováveis. Apenas a título de ilustração, a própria água, bem coletivo da máxima valia à saúde e ao bem-estar, até há pouco tempo não era sequer reconhecida como bem de natureza econômica, sendo até então disponibilizada indiscriminadamente à coletividade, mesmo à de renda mais elevada, de maneira gratuita ou a preço vil.

Apenas com o advento de diploma legal instituindo a Polícia Nacional de Recursos Hídricos (Lei Federal n.º 9.433/97), é que efetivamente foi outorgada ao Poder Público a função de exigir contraprestação pecuniária daqueles que usam ou poluem quantidades significativas de água para o desenvolvimento de seu próprio empreendimento.

Ainda assim, atualmente em muitas localidades

a perfuração de poços artesianos e semiartesianos demandam aos seus

beneficiados apenas o pagamento de taxas de licenciamento aos órgãos de fiscalização ambiental, nenhum custo havendo, a partir daí, com a fruição da água. Comumente os muitos empresários que se valem de enormes volumes de água diariamente (ou que os polui) visando o seu próprio lucro, nos dias de hoje, também estão isentos do pagamento periódico de quaisquer espécies de taxas.

Assim ainda ocorre no Estado de Mato Grosso

e na maioria do território nacional, sendo poucas ainda as unidades da Federação que se deram o trabalho de estabelecer normas tendentes a

20 É o que ali se convencionou denominar Theory of Market Share Liability (Teoria da Responsabilidade por Quota de Mercado).

27

finalmente instituir essa espécie de tributação, merecendo destaque apenas São Paulo (em 2007) e Minas Gerais (2009).

De qualquer modo, foi preciso que cientistas e ambientalistas, nos últimos anos, alertassem sobre a iminência da escassez de água potável no mundo para que alguns gestores públicos finalmente repensassem as suas políticas de abastecimento e licenciamento, passando a onerar mais aqueles que dela economicamente se beneficiam.

De tudo isso se pode concluir, à evidência, que

a mudança do modo com que classificamos os bens naturais se faz

absolutamente premente nos dias de hoje, sendo altamente prejudicial à sustentabilidade e à própria qualidade de vida do indivíduo todo e qualquer pensamento ainda persistente que pretenda colocar os recursos ambientais numa situação de subserviência em relação às metas de crescimento econômico.

Quanto mais a sociedade se afastar da noção

imediatista e irrefletida de que os recursos naturais somente são importantes para (e enquanto) nos servir, menos estará ela contribuindo para que se persevere a premissa inválida de que o progresso econômico da nação induz

ao bem-estar coletivo.

Portanto, de acordo com os princípios que informam o FIB, os bens de consumo disponibilizados pela natureza, inclusive os tidos como infinitos, são passíveis, sim, de valoração econômica, muito embora sejam reconhecidamente de enorme relevância social e devam ser acessados indistintamente por todos os indivíduos. Além do mais, a cobrança pela fruição ou pelo comprometimento da qualidade do recurso natural, ao que tudo faz crer, constitui-se um mal necessário e inevitável à

28

humanidade, sem o qual a sustentabilidade ambiental e a verdadeira qualidade de vida se tornarão objetivos praticamente inalcançáveis.

8. FIB E SUSTENTABILIDADE (PONTO NODAL DE DIVERGÊNCIA COM A MAIORIA DOS INDICADORES SOCIOECONÔMICOS)

Conforme se expôs alhures, a utilização de indicadores como o PIB para estabelecer diretrizes governamentais, ao contrário do que imaginam muitos gestores, apenas estará a contribuir para que haja o incremento de injustiças sociais e a insustentabilidade de seu progresso econômico.

E é justamente no tocante ao meio ambiente que esse indicador mais se diverge do FIB, vez que o Produto Interno Bruto, para determinar os índices de crescimento econômico de uma região, toma como vantajosas várias situações comumente consideradas pelo FIB como severamente nocivas ao bem-estar humano.

Se tomarmos como exemplo a República Popular da China, é indiscutível a condição de opulência econômica atualmente experimentada pelo país, concentradas que estão nela quase todas as atividades produtivas de bens de consumo duráveis comercializadas mundialmente e desenvolvidas pelos grandes conglomerados empresariais, principalmente os oriundos das nações mais ricas europeias e norte- americanas.

Atraídas pela flexibilidade da legislação trabalhista e pelo baixo custo de mão de obra em relação a seus países de origem, várias dessas empresas migraram suas linhas de produção para China, onde ainda se beneficiam da permissividade de seus governantes em relação

29

ao trato com o meio ambiente para conseguirem os mesmos resultados obtidos em âmbito doméstico, porém, com muito menos gastos. O resultado disso: a introdução de seus produtos nos mercados internacionais com preços mais competitivos e com enorme aumento de suas margens de lucro.

Em que pese as reformas normativas realizadas em favor dos trabalhadores em 2008, o governo chinês ainda continua a tratar com menoscabo as situações que comprometem a proteção e a sustentabilidade ambientais, tudo em prol da conquista de uma posição de destaque econômico no cenário mundial de crescimento anual, desde 1991, que oscila entre 9% e 10% 21 .

Se a China, até mesmo por estar geograficamente próximo do país onde o FIB foi inicialmente concebido, já houvesse institucionalizado esse indicador socioeconômico em seu próprio território, o contraste entre a realidade exteriorizada pelo FIB e pelo PIB seria fatalmente indisfarçável.

Pelo primeiro indicador (PIB), altíssimo, seria lícito presumir que a China é um país econômica e socialmente próspero, com baixos índices de desigualdades sociais, patamar elevado de qualidade de vida e alto grau de resiliência ambiental; já em conformidade com segundo (FIB), provavelmente baixíssimo, a maioria maciça da população chinesa seria composta por trabalhadores explorados por seus empregadores, cumpridores de jornadas em muito superiores às estabelecidas em lei, incapazes de desfrutar de ocasiões de descanso e lazer, insatisfeitos com sua rotina diária e,

21 Fonte: Asian Development Bank (http://www.adb.org/Documents/Books/Key_Indicators).

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além de tudo, vítimas de uma política governamental que não preza pela preservação de suas próprias riquezas naturais.

Então, a partir disso se indagaria: em qual dos locais a maioria da humanidade optaria por viver, partindo-se do princípio comezinho de que o objetivo maior do ser humano é a conquista de seu bem- estar, na China ou em território butanês 22 ? Sem dúvida, embora o Butão ainda esteja longe de erradicar todas as suas mazelas sociais, a sua inédita e louvável iniciativa governamental de implantação do FIB como orientador de suas políticas públicas implica conduzir a nação, a passos largos, a uma situação bem próxima à ideal, em que exista qualidade de vida satisfatória a todos os seus cidadãos.

É bem verdade que, para o cômputo do PIB, são também levados em conta pelos economistas gastos que evidenciam investimento no bem-estar da população: despesas com ensino público e com o sistema preventivo de saúde, por exemplo, recrudescem os níveis do PIB. No entanto, falha clamorosamente esse sinalizador socioeconômico ao considerar positivamente despesas que demonstram justamente o insucesso das políticas estatais que visam ao bem comum.

Por conta disso, os custos da reparação de uma área dizimada por um vazamento de uma usina nuclear ou de um navio petrolífero, a título de exemplo, teria o mesmo peso que os aplicados para o custeio de fontes de energia ecologicamente sustentáveis, como a solar e a eólica. Ademais, a aquisição de armamentos e veículos para intensificar a repressão da criminalidade, igualmente elevaria os níveis do PIB de uma

22

onde

o

PIB

é

um

dos

menores

do

mundo,

segundo

dados

fornecidos

pelo

Banco

Mundial

31

determinada nação, à mesma medida que seriam especialmente valorizadas as despesas realizadas pelo Poder Público com seu sistema penitenciário, mesmo anacrônico e ineficaz.

9.

FELICIDADE?

SUSTENTABILIDADE

AMBIENTAL:

UM

CAMINHO

À

Como restou afirmado anteriormente, embora não conscientemente a busca do ser humano desde seus anos iniciais de vida é pela conquista de seu próprio bem-estar; e, em verdade, nada há de condenável nesse desejo.

A rigor, o cerne do problema reside no fato de que o homem, em nome de suprir essa necessidade, no mais das vezes envida todo o seu tempo e a sua energia física e mental em busca de conquistar algo que nada mais constitui do que um instrumento (ou caminho) para que seja obtida eventualmente uma condição de bem-estar. É cediço que a busca desenfreada pelo acúmulo de riquezas e o consequentemente desenvolvimento das atividades econômicas, embora comumente propiciem conforto ao indivíduo, necessariamente não lhe proporcionam a satisfação íntima.

Os bens que o homem se conquista ao longo de sua jornada de existência, de fato, constituem-se meros instrumentos que poderão viabilizar ou não a conquista da felicidade, a depender, é claro, da forma com que ele os empregará em sua rotina diária, em benefício de si mesmo e do seu meio.

Os indivíduos catalogados como vencedores e bem sucedidos nos países mais avançados e ricos são, paradoxalmente, os que

32

mais se utilizam da medicina psiquiátrica, por exemplo. Formam eles uma categoria de pessoas impecáveis segundo os padrões socialmente estabelecidos, entretanto são muitas vezes obcecados com a ideia de sucesso; são indivíduos que costumam pautar as suas atitudes por um incessante interesse de serem bem sucedidos aos olhos da coletividade, entretanto, embora aparentem ser a representação perfeita da felicidade, geralmente são homens e mulheres insatisfeitos.

Segundo relatório elaborado pela Organização Mundial de Saúde, distúrbios psiquiátricos como a depressão, ansiedade e a dependência alcoólica acometem tão severamente países ricos e dotados de satisfatória infraestrutura básica, como a Inglaterra, Alemanha e Holanda, quanto países reconhecidamente menos desenvolvidos econômica e socialmente 23 .

O equívoco maior ocorre, sobretudo, quando o desejo de obtenção dessas ferramentas capazes de proporcionar a qualidade de vida passa a ser perseguido pelo homem como se elas bastassem por si mesmas. Quantos indivíduos em todos os lugares do globo estão cercados de bens materiais em quantidade mais do que suficiente para lhe conferir conforto e estabilidade emocional, e ainda assim se mostram incapazes de canalizá-los para obter a sua plena satisfação interior? Por outro lado, quantos outros conseguem fazer do menor suporte material de que dispõem uma vida de gozo e felicidade verdadeira?

23 Fonte: Goldberg, DP e Lecrubier, Y 1995, Form and Frequency of Mental Disorders Across Centres. In Üstün TB, Santorius N, Orgs Mental Ilness in General Care: International Study. Chichester, John Wiley & Sons, para a OMS: 332-334 (http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=339&sec=29).

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A partir dessas assertivas, quer parecer que outras duas verdades podem ser extraídas e que muito valem àqueles a quem incumbe o direcionamento das políticas estatais:

(I) A boa aplicação de recursos públicos não acontece quando se investe muito, mas com qualidade: a efetuação de gastos bem alocados com educação, cultura, saúde preventiva e infraestrutura básica, ainda que em quantias moderadas, implica, em médio e longo prazo, a diminuição sensível de despesas com segurança pública, sistemas prisionais e com tratamentos de doenças crônicas e de distúrbios decorrentes da dependência química.

Afora isso, (II) a se tomar como parâmetro principalmente os resultados obtidos pelo Instituto Visão Futuro e pela Unicamp em suas pesquisas realizadas recentemente em Campinas, não se faz necessária a aplicação de recursos em patamares exorbitantes para a coletividade adquirir uma condição razoável de bem-estar, desde que se saibam quais fatores verdadeiramente importam para o alcance de sua qualidade de vida. É possível daí se inferir que o exercício de políticas eminentemente assistencialistas pelo Estado, além de dispendioso, comumente não trará com consequência a efetiva satisfação de seus beneficiários.

Se a conquista do conforto material não induz, em regra, o bem-estar psíquico, isso se dá comumente pelo desconhecimento que a população geral tem de fatores que constituem exatamente a base filosófica do FIB, em especial o conceito de interdependência.

Enquanto os indivíduos, mesmos os mais abastados financeiramente, continuarem a vivenciar as suas experiências

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emprestando pouca importância para a satisfação e o bem-estar do próprio meio que o envolve, a sua qualidade de vida continuará absolutamente comprometida, apesar da falsa impressão de felicidade causada pelo excesso de bens materiais, conforto e estabilidade econômica.

E ao se afastar a sociedade da noção imprópria de que o ambiente natural apenas tem razão de existir para atender às nossas (vis) necessidades, estar-se-á compreendendo finalmente o meio ambiente não como mero objeto de direito, mas como autêntico sujeito de direitos, merecendo tanto o cuidado dos indivíduos em suas ações cotidianas quanto merece cada ser humano.

Isso implica afirmar que, por mais rodeado que esteja de boa infraestrutura e recursos aptos a lhe proporcionar sua satisfação íntima, o homem dificilmente a obterá se não passar a adotar diariamente posturas favoráveis à preservação ambiental e à sustentabilidade. É exatamente por conta dessa premissa que o FIB apregoa ser a boa relação com o meio ambiente fator primordial para o alcance do efetivo bem-estar: o cuidado com a natureza representa zelar de si mesmo.

Logo, é fundamental que governantes e governados se engajem num processo de reaprendizagem dos princípios elementares da natureza, sobretudo para que se conscientizem todos da relevância de bem zelar do meio ambiente.

Esse processo, nominado por alguns de alfabetização ecológica, proporcionará à humanidade a capacidade de viver de acordo com esses primados, o que inegavelmente possui uma relação direta

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com a sua saúde e o seu bem-estar. Em virtude de suas próprias necessidades básicas de respirar, comer e beber, as pessoas estão sempre inseridas nos processos cíclicos da natureza: sua saúde depende da pureza do ar que se respira e da água que se bebe, à mesma medida que a qualidade de nossa alimentação imprescinde da saúde do solo gerador dos alimentos que se ingere 24 .

O Capitalismo global, embora pareça ser o sistema produtivo que melhor atende aos anseios individuais, tal qual praticado hodiernamente é absolutamente insustentável sob o ponto de vista social e ecológico, não apenas por excluir determinados setores da sociedade do acesso a recursos materiais básicos, mas também por permitir que se explorem inconsequentemente as riquezas coletivas naturais. Trata-se, pois, comprovadamente, de um sistema econômico que, a perdurar assim, tornar- se-á algo inviável em curto prazo, tamanha a rejeição social, cultural e política que insuflará na maioria das pessoas mundialmente, por ser um mecanismo cuja lógica ainda ignora ou desvaloriza a humanidade dos indivíduos 25 .

10.

AMBIENTAL

O

FIB

EM

MATO

GROSSO

E

A

SUSTENTABILIDADE

Em seção anterior deste trabalho, quando foram abordados os meios pelos quais o FIB tem sido introduzido em território brasileiro, foi feita menção ao auspicioso trabalho de aproximação desenvolvido recentemente aqui em Mato Grosso entre o FIB e o Serviço Nacional de Apoio à Micro e Pequena Empresa (SEBRAE-MT).

24 CAPRA (2005).

25 CASTELLS, Manuel, A Era da Informação (1998).

36

Surgido no país em 1972, essa entidade privada

de

interesse público sempre teve como missão estimular o empreendedorismo

e

o desenvolvimento no Brasil, considerando como pilares básicos da

economia o comércio, a indústria e o agronegócio. São sobre esses dois últimos segmentos da economia, por óbvio, que mais devem incidir os princípios de sustentabilidade do FIB, pois se os nossos recursos naturais forem irresponsavelmente explorados, tendo em mente tão somente o progresso produtivo, serão provocados efeitos ainda mais devastadores ao meio ambiente, comprometendo em escalas ainda maiores, por corolário, o bem-estar geral.

Muito embora essa entidade sem fins lucrativos tenha o propósito de promover o desenvolvimento nacional através da geração de emprego e renda, especialmente pela via do empreendedorismo, esclarece Fábio Rogério Apolinário da Silva, Consultor e Instrutor do SEBRAE em Mato Grosso 26 que a conquista desses objetivos advém necessariamente do estabelecimento de uma relação de sustentabilidade entre as atividades desempenhadas por esses empreendimentos e os recursos naturais. Entrevistado em 03 de novembro de 2010, em Cuiabá, respondeu a algumas indagações o Consultor dessa entidade.

Inicialmente, perguntou-se ao entrevistado o

que teria levado o SEBRAE a realizar parceria com o Instituto Visão Futuro

e, ainda, de que maneira a filosofia do FIB poderia auxiliar a entidade na

realização de seus objetivos. Soube-se, então, que o SEBRAE decidiu

26 Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Mato Grosso e pós-graduado em Controladoria e Finanças (UFMT). Atua na área de consultoria e acesso a serviços financeiros do SEBRAE em Mato Grosso desde 2001 e na formatação de novas metodologias, ministra cursos e palestras e elabora projetos de viabilidade econômico-financeira. É professor da disciplina de Administração Financeira e Orçamentária do Curso de Ciências Contábeis no ICE (Instituto Cuiabano de Educação) e tem experiência na área de Economia, com ênfase em Teoria Monetária e Financeira.

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inaugurar em 20 de outubro de 2010 o Espaço SEBRAE de Conhecimento, tendente justamente a atuar exclusivamente com negócios sustentáveis e inovadores, criando e disseminando ideias sustentáveis.

Segundo o entrevistado, ainda no ano de 2009, como parte dos trabalhos da equipe vinculada ao Espaço SEBRAE de Conhecimento, a entidade instituiu um grupo de trabalho tendente a tratar exclusivamente de ferramentas de medição de resultados não econômicos. E foi assim que aconteceu pela primeira vez a aplicação dos princípios do FIB dentro do SEBRAE, o qual tem necessariamente duas vertentes: uma, de ordem interna, buscando atuar perante os colaboradores da entidade promovendo o equilíbrio das nove dimensões do FIB; e outra, de ordem externa, promovendo o desenvolvimento local em comunidades onde já normalmente atua o SEBRAE, com o objetivo de atingir resultados focados

na felicidade e não apenas no aumento de renda das pessoas.

Além disso, considerando que a convivência harmônica entre o homem e o meio ambiente é uma das principais metas

perseguidas pelo FIB, necessário era saber do entrevistado como ele avaliaria

a qualidade dessa relação (homem x natureza) existente hoje no setor produtivo do Estado de Mato Grosso.

E pelo que foi respondido pelo Consultor do SEBRAE, o setor produtivo em Mato Grosso, como ocorre em todo o Brasil, ainda se baseia nos princípios da economia desenvolvida no século XX, a qual considera a proteção ambiental um verdadeiro empecilho ao desenvolvimento. Contudo, sob a ótica do entrevistado, tem se notado o crescimento da preocupação ambiental no meio empresarial e um aumento na

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promoção de negócios sustentáveis no Estado desde o ano de 2005, sobretudo por causa da realização de eventos que defendem a sustentabilidade e da pressão que esses homens de negócio têm sofrido ultimamente da própria sociedade e do Poder Público.

Foi citado, a título de exemplificação, o que tem acontecido com o setor madeireiro, que já tem experimentado importantes transformações que lhe tem permitido a utilização de manejos e o aumento significativo de ganhos sem provocar perdas significativas ao meio ambiente.

Ademais, outra indagação não poderia deixar de ser realizada ao entrevistado: afinal, seria possível conciliar a vocação empreendedora verificada tão acentuadamente neste Estado com a necessidade de preservação de seus recursos naturais? Como o FIB poderia auxiliar no estabelecimento de uma relação positiva de sustentabilidade?

No entender do Consultor, a conciliação entre produtividade e sustentabilidade não apenas seria possível, como também necessária, já que o empreendedorismo de sucesso do século XXI, segundo ele, deverá passar invariavelmente por um processo de mudança do paradigma ambiental. E, por conta disso, conforme dito pelo entrevistado, o FIB assumiria um papel primordial na efetivação dessa transformação, já que permitiria que os desafios econômicos enfrentados pelo empresariado fossem observados de maneira holística, levando-se em conta, inclusive, o fato de que o próprio lucro dos empreendedores tenderia naturamente a se esgotar à medida que os recursos do planeta fossem explorados de maneira inconsequente.

39

Enfim, pelo que restou evidenciado nos capítulos anteriores, é sabido que projetos-piloto do FIB têm sido realizados em algumas unidades da federação, tanto por iniciativa do Poder Público quanto por ações de entidades não governamentais. Logo, oportuno seria saber do entrevistado, diante de sua condição de economista e conhecedor das bases filosóficas do FIB, se as consequências da adoção desse indicador socioeconômico oficialmente em Mato Grosso seriam positivas ou negativas.

Com propriedade, afirmou o Consultor do SEBRAE que a institucionalização desse indicador socioeconômico em âmbito estadual constituiria, em verdade, uma inversão sem precedentes em seu modelo econômico de desenvolvimento. E não poderia ser diferente, na medida em que atualmente a atuação governamental apresenta um viés puramente racionalista, cartesiana e individualizada.

Nos termos respondidos pelo entrevistado, as medidas estatais hoje careceriam de efetividade porque as problemáticas são comumente analisadas sem considerar a sua inter-relação com outras variáveis. Portanto, segundo ele, teria o FIB o condão de avaliar o bem-estar humano em todas as suas (nove) dimensões, embora pudesse a sua incidência ocorrer de modo mais veemente exatamente nas áreas em que houvesse os menores índices.

40

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se a população mundial, mesmo as de países mais ricos e onde menos há desigualdades sociais, continuar a aceitar como válida a premissa de que seu nível de satisfação íntima está necessariamente a depender do bom ou mal desempenho de sua economia, certamente a instituição de indicadores socioeconômicos humanizados como o FIB nenhum efeito prático trará.

No entanto, a realidade que se afigura em quase

a

totalidade das nações é bem outra, na medida em que ricos e pobres, patrões

e

empregados, todos se queixam frequentemente da impotência deles mesmos

das políticas públicas de lhes proporcionar a verdadeira sensação de bem- estar. Muitos dos indivíduos, absorvidos pela estressante rotina diária consequente de uma busca pela sustentação de seus padrões de consumo, agora estão se apercebendo de que seu grau de satisfação com sua vida, não poucas vezes, são inferiores até mesmo ao dos segmentos sociais que não dispõem sequer de infraestrutura minimamente satisfatória.

e

O Estado, ente político organizado ao qual a civilização moderna confiou a missão de suprir as suas necessidades elementares, evidentemente não pode permanecer alheio a tudo isso, relegando ao próprio indivíduo ou ao setor privado a incumbência de promover o bem-estar; deve ele, sim, proporcionar meios para que essa condição de felicidade se manifeste plenamente.

De nada adianta a aplicação maciça de recursos públicos em estrutura e serviços que representam à coletividade apenas um paliativo ou que pretendem tão somente minimizar a agruras sociais que a sua

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própria incompetência na determinação de políticas públicas tratou de conceber.

Para tanto, é necessário que os governantes saibam, de fato, quais fatores têm o condão de influenciar (positiva ou negativamente) no estado de ânimo de seus administrados. O FIB, como indicador voltado essencialmente ao bem-estar social, propõe-se exatamente a proporcionar ao Poder Público lastro científico para aferir o grau de satisfação de sua população e a determinar em que setores melhor poderão ser realizados investimentos para que finalmente seja alcançada essa meta.

Com o domínio desse conhecimento e havendo efetiva vontade política de pô-los em prática, perceberão as lideranças estatais quão importante são, por exemplo, a fomentação do estreitamento das relações comunitárias e da conservação de suas identidades culturais e, notadamente, o incentivo da adoção de novas rotinas direcionadas à preservação do meio ambiente e a utilização racional dos recursos naturais.

Conforme abalizados estudos científicos, o ser humano, desde os seus primórdios, insere-se numa autêntica teia na qual inexoravelmente se refletem as atitudes por ele tomadas diariamente em relação a si mesmo e ao meio onde vive. Ainda que não aparentemente, todos os que no mundo coabitam encontram-se inter-relacionados, de tal modo que é impossível que alguém usufrua de um estado verdadeiro de bem-estar se os indivíduos que o cercam e a própria natureza forem alvos constantes de ofensas que ele mesmo provoca. A qualidade de vida, conquanto seja uma conquista individual, somente subjaz de um sistema hígido em seu conjunto.

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A assunção por parte de cada cidadão de sua parcela de responsabilidade pela promoção da sustentabilidade ambiental, segundo os preceitos do FIB, não traz apenas a vantagem indireta de garantir a subsistência dos recursos naturais e o atendimento de seus interesses e das gerações que o sucederão. Os seus efeitos benéficos vão além disso: os seus resultados incidem direta e imediatamente no indivíduo, como ocorre com aquele paciente que zela pela saúde de um órgão sem saber que faz ele parte de uma engrenagem que lhe assegura a cada segundo a qualidade de sua própria existência.

No Brasil, como bem se sabe, as mazelas sociais comprometem naturalmente o bem-estar da maioria da população, ao passo que os poucos que são providos financeiramente padecem dos mesmos males consumistas que atingem a população ocidental.

Já é tempo, pois, de serem revistos os indicadores socioeconômicos empregados para a determinação das políticas públicas em todas as escalas da federação; um país onde muito se arrecada, mesmo dos segmentos sociais mais pobres, e no qual boa parcela desses recursos ainda se desvirtua pelas mãos de administradores ímprobos ou ineptos, certamente não pode se dar o luxo de investir o que lhe resta em ações que não se traduzam, de fato, em melhoria da qualidade de vida da coletividade.

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