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A Educação Física: da crise geral para

algumas crises particulares

Silvia Christina Madrid Finck1

RESUMO

O texto aborda alguns aspectos da crise da Educação Física, a qual


gerou a instalação da polêmica pela classe acadêmica e científica a partir da
década de oitenta. Evidencia-se que tal crise não é específica, mas também
encontra-se na escola, nos diferentes sistemas e na sociedade.

Palavras-chave: sociedade, educação, crise, escola, educação física, educa-


ção física escolar

A Sociedade é formada por dife- O sistema educacional, na sua


rentes sistemas, entre os quais, o edu- complexidade, depende dos sistemas
cacional, o econômico e o social e econômico e social que o geram e o
como um todo sofre constantes trans- determinam. Os problemas de cada
formações, em que ocorrem melho- um refletem-se nos demais, como uma
rias, mas também problemas. Tais sis- engrenagem, onde as partes têm que
temas estão inter-relacionados e de- estar em atividade para que o todo
pendem uns dos outros, tendo cada funcione. “A educação não pode ser
qual sua complexidade específica, as- analisada abstratamente, mas sim con-
sim como suas necessidades e dificul- dicionada e condicionante de uma so-
dades. ciedade determinada.”2

1
Mestre em Educação pela UNIMEP – Doutoranda em Ciência da Atividade Física e do Esporte
– Universidade de Léon – Espanha. Professora Assistente na área de Metodologia e Prática de
Ensino de Educação Física da UEPG. Professora de Educação Física da Rede Pública de Ensino
do Estado do Paraná no ensino fundamental e médio.
2
CUNHA, D. A. As utopias na educação. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra, 1985, p.15

Olhar de professor, Ponta Grossa, 2 (2):181-193, nov. 1999.


A Educação dos indivíduos de a família, a religião, a empresa, o clu-
uma sociedade interfere no seu desen- be, os partidos políticos e os meios
volvimento, sendo que, nos indicado- de comunicação - envolvem o siste-
res de desenvolvimento da O.N.U. ma educacional e interferem na sua
(Organização das Nações Unidas), é efetivação, sendo responsáveis pela
amplamente reconhecido que existe transformação da sociedade.
uma ligação estreita entre educação, Seria muita pretensão afirmar que
progresso econômico e social. é competência apenas da Escola e da
Educação a transformação da socie-
É falsa a afirmação de que nada é
dade, pois é ao conjunto da socieda-
possível fazer na educação en-
de que se confere esse poder. Porém,
quanto não houver uma transfor-
o que se pode e se deve fazer, enquan-
mação da sociedade, porque a
to educador compromissado, é sinto-
educação é dependente da socie-
nizar a escola com o movimento so-
dade. A educação não é, certamen-
cial mais amplo de transformação da
te, a alavanca da transformação
sociedade. “Se a escola é parte inte-
social. Porém, se ela não pode fa-
grante do todo social, agir dentro dela
zer sozinha a transformação, essa
é também agir no rumo da transfor-
transformação não se consolida-
mação da sociedade.”4
rá sem ela.3
Uma boa escolarização pode con-
tribuir para que o educando adquira
A ação educativa se dá nas relações
uma visão de mundo menos mística e
entre as pessoas, nas mais diferentes
formas, nos mais diferentes lugares, folclórica, tornando-se assim um pon-
acontecendo de forma constante na so- to de partida para um conhecimento
ciedade. Não se pode deixar de lado o crítico da sociedade. O profissional
fato de que não existe um modelo úni- da Educação desempenha um papel
co de Educação, a escola não é o úni- importante nesse sentido e sua com-
co lugar onde se educa e o professor petência (formação, consciência po-
não é o único educador. Independen- lítica, comprometimento com a mai-
temente de quem e onde se educa, é oria dos educandos) está diretamente
possível dizer que a Educação é uma relacionada com a garantia de uma
ação eminentemente humana e social. boa escolarização.
Considerando a Educação num A Educação, enquanto fenômeno
sentido amplo, uma multiplicidade de social, tem evidenciado duas funções
instâncias sociais legítimas entre elas: opostas: de um lado, a conservadora;

3 GADOTTI, Moacir. Educação e Poder: Introdução à Pedagogia do Conflito. São Paulo, SP :


Cortez : Autores Associados, 1984. p.63.
4 LIBÂNEO, José Carlos. A Democratização da Escola Pública: a pedagogia crítico-social dos

conteúdos. 9ªed. São Paulo: SP : Loyola, 1990, p.39

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de outro, a renovadora. A função con- toricamente), a qual se apresenta
servadora da Educação torna-se evi- constituída por classes com interes-
dente, consistindo num processo de ses divergentes.
transmissão das tradições ou da cul- A prática escolar apresenta
tura de um grupo, de uma geração à condicionantes sócio-políticos que
outra. Já a função renovadora da Edu- caracterizam e revelam diferentes
cação visa a promoção do ser huma- concepções de homem e de socieda-
no e, portanto, são suas necessidades de. Portanto, em cada formação soci-
que determinam os objetivos educa- al e em cada época, a prática educa-
cionais, as quais devem ser conside- cional apresenta características pró-
radas de forma concreta, pois a ação prias e cumpre funções específicas.
educativa é sempre desenvolvida num Para Freitag,
contexto existencial.5
Assim sendo, de acordo com a fun- todos os autores que tratam da
ção renovadora da Educação, as ne- educação num contexto social con-
cessidades e a realidade de cada co- cordam que ‘a educação sempre
munidade deveriam ser levadas em expressa uma doutrina pedagógi-
consideração, na elaboração e execu- ca, a qual, implícita ou explicita-
ção do planejamento educacional, para mente, se baseia em uma filosofia
que a Educação realmente tivesse de vida, concepção de homem e
significância e cumprisse sua função. sociedade.7
Tal função está relacionada com a
modificação e enriquecimento da rea- A Escola tem sofrido nas últimas
lidade do indivíduo, suprindo necessi- décadas inúmeras críticas, tanto por
dades diferenciadas e específicas. parte da sociedade quanto por parte
Segundo Dias, o sistema escolar dos educadores. Através de dados
“[...] cuida de um aspecto especial da comprovados, há evidencias de que
educação a que se poderia chamar não tem correspondido às necessida-
escolarização.”6 À Escola compete a des da sociedade. Aquilo que é trans-
maior parte da orientação para o sa- mitido e considerado como essenci-
ber sistematizado, cumprindo funções al, muitas vezes, está distante do que
que lhe são dadas pela sociedade (his- a comunidade escolar espera e preci-

5
AZEVEDO (1964), SAVIANI (1982). Apud, José Guilmar Mariz de OLIVEIRA, Mauro BETTI,
Wilson Mariz de OLIVEIRA. Educação Física e o Ensino de 1º grau: Uma abordagem crítica.
São Paulo, SP: EPU-EDUSP, 1988. p. 2-3.
6
DIAS, J. A. Apud, Ibid., p.5.
7
Apud, José Guilmar Mariz de OLIVEIRA, Mauro BETTI, Wilson Mariz de OLIVEIRA, op.cit.,
p.31.
8
José Guilmar Mariz de OLIVEIRA, Mauro BETTI, Wilson Mariz de OLIVEIRA, op. cit., p. 31.

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sa, certamente por não se considerar, decorrente da organização social no
modo de produção capitalista.
[...] que o processo educacional Tais fatos denunciam a crise da Es-
se dá numa situação concreta, di- cola. A Educação Física Escolar, que
rige-se a indivíduos particulares, não está alheia a essa realidade, co-
num determinado contexto histó- loca-se necessariamente em discus-
rico.8 são,

O enorme índice de evasão esco- a intelectualidade da Educação


lar, a repetência em massa, a péssima Física brasileira parece acordar
qualidade de ensino, o salário irrisório apenas a partir dos anos 70 para
dos professores, os milhões de brasilei- uma reflexão sobre a crise em suas
ros analfabetos, enfim, o caos da edu- áreas pedagógica e de pesquisa.9
cação brasileira revela que a escola não
está cumprindo sua função social. O amplo debate se instaura e
Constata-se que a escola não tem
cumprido de forma satisfatória seus Desde o início dos anos 80, qual-
objetivos. Enquanto instituição res- quer observador da área pode
ponsável pela transmissão do ensino constatar que em vários estados do
e da cultura, não tem correspondido país pululam núcleos empenhados
aos anseios, expectativas e necessida- na rediscussão de temas que vão
des da maioria dos indivíduos da so- desde a redefinição do papel da
ciedade na qual está inserida. Temos Educação Física brasileira até
ainda hoje, na iminência da entrada questões ligadas às mudanças ne-
de um novo milênio, a escola homo- cessárias ao nível da prática efe-
geneizadora, racionalista e disci- tiva nas quadras, ginásios e cam-
plinadora da década de 30. Parece que pos.10
a escola não acompanhou na mesma
velocidade o desenvolvimento de ou- Portanto, a Educação Física, en-
tros setores da sociedade, de certa quanto disciplina integrante do currí-
forma estagnou, sendo vista hoje culo escolar, tem sido avaliada e ques-
como uma instituição em crise. En- tionada pela sociedade, assim como
tretanto, é importante salientar que o discutida pela sua comunidade cien-
fracasso escolar é, de certa forma, tífica, que tenta encontrar sua identi-

9
MOREIRA, Wagner Wey. Por uma concepção sistêmica na pedagogia do movimento. In
MOREIRA (org.). Educação Física & Esportes: perspectivas para o século XXI. Campinas, SP:
Papirus, 1992. p.203.
10
GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Educação Física Progressista-A Pedagogia crítico-social dos
conteúdos e a Educação Física brasileira. São Paulo, SP: Loyola, 1988. p.15.

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dade. A última década foi marcada esportiva e detecção de talentos es-
pela chamada “crise” da Educação portivos (a famosa base da pirâ-
Física, quando se intensificou o mide); d) a Educação Física trata
questionamento sobre o ensino dessa de dimensões do comportamento
disciplina na escola brasileira. A par- humano que são básicas: o movi-
tir de então, procurou-se buscar uma mento e o jogo.11
identidade própria para a Educação
Física, que não se caracterizava nem A “crise” da Educação Física não
como disciplina, tampouco como área pode ser vista e analisada como algo
de conhecimento ou matéria essenci- isolado, uma vez que, de certa forma,
al, mas sim como atividade, embora está relacionada com a crise pela qual
regulamentada por lei. passa a sociedade e a escola, que é
As questões pertinentes à prática um dos principais campos de inter-
da Educação Física sempre tiveram venção da disciplina, sendo que a
suas bases em leis e decretos que a le- mediatização de seus conteúdos inter-
galizaram sem, no entanto, a legitima- fere no processo educacional de inú-
rem. A falta de legitimidade decorre, meras crianças e jovens.
também, da ausência de organização Da fase crítica que atravessa a Edu-
de uma matriz teórica que a identifi- cação Física, muitas perspectivas sur-
que, resgatando sua legitimidade soci- gem e conseqüentemente, muitos es-
al a partir de sua construção histórica tudos e algumas tentativas de colocá-
e da definição do corpo teórico que lhe las em prática, embora muitas vezes
seja próprio e específico. Para Bracht, sejam atuações pedagógicas isoladas.
Valores são questionados, práticas são
Em termos gerais procurou-se le- revistas, pesquisas realizadas, a polê-
gitimar a Educação Física via: a) mica instaurada. Esse esforço dos pro-
contribuição para o desenvolvi- fissionais da área significa um cresci-
mento da aptidão física para a mento qualitativo para a disciplina e
saúde; b) contribuição para o de- estarmos sintonizados com as discus-
senvolvimento integral da crian- sões relativas à Educação Física é de
ça e, neste sentido, a contribuição suma importância para que possamos
(específica) da Educação Física nos situar enquanto educadores.
era principalmente sobre o ‘domí-
nio psicomotor’ ou ‘motor’; c) [...] os períodos de crise são extre-
contribuição para a massi-ficação mamente férteis porque abrem no-

11
BRACHT, Valter. Educação Física e Aprendizagem Social. Porto Alegre, RS: Magister, 1992.
p.47.
12
BRANDÃO, Zaia (org.). A crise dos paradigmas e a educação. 2ª ed. São Paulo, SP: Cortez,
1995. Coleção questões da nossa época; v. 35. p. 28-29.

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vas possibilidades ao pensamento. Podemos verificar tal concepção de
Neste sentido, eles permitem o indivíduo ainda presente muitas ve-
surgimento de alternativas aos mo- zes na escola, colaborando para a
dos de pensar anteriores. Revelam desconsideração da Educação Física,
também que, muitas vezes, o ver- enquanto disciplina curricular compa-
dadeiro sentido do momento pelo rada às demais que compõem o uni-
qual passamos só pode ser estabe- verso escolar.
lecido e avaliado a posteriori, em Para Platão, o corpo era visto
retrospecto, quando e se, de acor- como instrumento e cárcere da alma;
do com a terminologia de Kuhn, se a doutrina da instrumentalidade do
instaurar um novo contexto de ‘nor- corpo apregoava o enaltecimento do
malidade’.12 campo das idéias e o menosprezo a
tudo que se referia ao corpo.
Historicamente, coube à Educação A partir de Descartes, a doutrina
Física o aspecto disciplinador, mili- acima referida foi substituída. Passou
tarista e homogeneizador. Entretanto, a prevalecer o conceito de que o cor-
seria injusto enfatizar tais aspectos po e a alma constituíam duas instân-
apenas à Educação Física, pois na cias diferentes e independentes – sen-
década de 30, a escola como um todo do a alma, por se tratar do mundo es-
tinha tais características, era também piritual – superior ao corpo, que por
profundamente nacionalista. sua vez pertence ao mundo material.
Para alguns estudiosos, a Educa- Assim, temos como herança histórica
ção Física correu paralela às tendên- para a Educação Física a dicotomia
cias e concepções que acompanharam corpo-mente.
a Educação no Brasil, as quais foram O dualismo cartesiano teve gran-
estudadas e classificadas, sendo de- de influência sobre o pensamento
nominadas com terminologias dife- ocidental, levando-se a atribuir ao
rentes, embora com leituras de certa trabalho mental um valor superior ao
forma semelhantes.13 do trabalho manual. Em relação a es-
A Educação Física surgiu num ses conceitos, vê-se a Educação Fí-
ambiente escolar que separava com- sica trazendo arraigada em si o es-
pletamente corpo e mente, como ele- tigma do trabalho manual, ainda hoje
mentos absolutamente distintos, onde menosprezado na sociedade por he-
os aspectos que diziam respeito ao rança dos tempos coloniais, quando
corpo eram menosprezados e aqueles o trabalho físico era destinado ape-
relacionados ao intelecto valorizados. nas aos escravos e o trabalho inte-

13
CASTELLANI FILHO, Lino. Educação Física no Brasil-a história que não se conta. 2ª ed.
Campinas, SP: Papirus, 1991. Paulo GHIRADELLI JÚNIOR, op. cit.

186
lectual à elite dominante. dos como componentes que inte-
Será que hoje tais conceitos são gram um só organismo. Ambos
diferentes na sociedade? Por outro devem ter assento na escola, não
lado, vê-se hoje a hipervalorização um (a mente) para aprender e o
do corpo, enquanto aparência. Pa- outro (o corpo) para transportar,
drões de imagem do corpo são vei- mas ambos para se emancipar. Por
culadas das mais diferentes formas, causa dessa concepção de que a
o dualismo corpo-mente continua escola só deve mobilizar a mente,
existindo às avessas, as mais diver- o corpo fica reduzido a um estor-
sas atividades físicas são praticadas vo que, quanto mais quieto estiver,
pelas pessoas, objetivando conseguir menos atrapalhará.[..] Sugiro
um corpo padronizado. que, a cada início de ano letivo,
Gonçalves declara: por ocasião das matrículas, tam-
bém o corpo das crianças seja
Essa separação se faz sentir na matriculado.15
Educação Física até os nossos
dias, tanto na sua prática peda- Na escola, de certa forma, a crian-
gógica como nas ciências que a ça e o jovem são destituídos de seus
embasam. Estas últimas se cons- poderes motores. Concorda-se com o
tituem em campos estanques, que autor no sentido de que a escola
não se intercomunicam; cada uma visualiza o educando dicotomi-
trata do corpo sob sua perspecti- camente, considerando que ou só sua
va, como se esta fosse absoluta, ig- mente aprende ou só o corpo, assim
norando a globalidade do ho- como valoriza mais o aspecto cog-
mem.14 nitivo em relação ao motor, ao social,
ao afetivo, no processo educacional.
Será que hoje, na entrada de um Moreira destaca essa valorização,
novo milênio, o educando é visto na ao afirmar:
escola de maneira diferente? Será que
é considerado em sua globalidade? A tradição educativa positivista,
Freire nos diz: hegemônica ainda hoje em nossas
escolas, advoga uma educação ra-
Corpo e mente devem ser entendi- cional, abstrata, individualizante,

14
GONÇALVES, Maria Augusta Salim. Sentir, Pensar, Agir. Corporeidade e Educação. Campi-
nas, SP: Papirus, 1994. p. 51.
15
FREIRE, João Batista. Educação de corpo inteiro-teoria e prática da Educação Física. São
Paulo, SP: Scipione, 1989. p. 13-14.
16
MOREIRA, Wagner Wey. Perspectivas da Educação Motora na Escola. Texto apresentado no
Iº Congresso Brasileiro de Educação Motora. Campinas, SP: FEF/UNICAMP, 1994. p. 3.

187
onde os educandos evoluem por cabe aqui a discussão), se diferencia
suas próprias potencialidades. En- das demais. O professor de Educa-
tenda-se ainda potencialidade ção Física é o “diferente”, proporci-
como capacidade de memorização ona “atividades e coisas diferentes”
dos conteúdos já ministrados e de- para os alunos, atividades que eles
finidos, numa ênfase à idéia, ao pri- experimentam movimentando-se, o
vilégio cognitivo, em detrimento do que é extremamente atrativo. A es-
corpo como um todo.16 cola é um tanto monótona e entedian-
te, pelo seu próprio aspecto formal;
Hoje se discute e perspectiva-se a a criança e o jovem nela passam o
educação escolar visualizando o edu- maior número de horas sentados. O
cando como um todo. Questões funda- professor de Educação Física acaba
mentais são abordadas, mas no cotidia- sendo uma das exceções na escola,
no percebem-se poucas mudanças, a pois as aulas de Educação Física
escola continua sendo homogenei- constituem talvez a maior chance que
zadora, racionalista e disciplinadora. os alunos têm para se movimentar.
A educação escolar precisa ser Entre os estudos que tratam da cri-
repensada. A Escola é vista atualmen- se da Educação Física, esta foi iden-
te como uma instituição, em crise que tificada de uma forma mais abran-gen-
é discutida e analisada pela comuni- te naqueles realizados por Par-lebas17 ,
dade científica. Portanto, a Educação que generaliza essa crise em todos os
Física não poderia estar bem numa seus setores: das suas técnicas (con-
escola que vai mal. teúdos transmitidos), da formação de
Quem é o professor de Educação futuros profissionais (faculdades e
Física nessa escola em crise? Quais universidades), da investigação (pes-
são os conteúdos da Educação Física quisa), de intervenção (aplicação).
Escolar (em crise) nela desenvolvi- Nos setores de intervenção, onde a
dos? De que forma o professor con- Educação Física é desenvolvida e
duz sua prática pedagógica escolar aplicada, o autor assim denomina e
cotidiana? Como tornar a Educação diferencia: a escola e a educação, o
Física Escolar significativa? esporte de competição, o imenso cam-
Temos que reconhecer que ape- po do esporte de lazer, a educação fí-
sar de a Escola e a Educação Física sica especial e a reeducação.
não estarem bem, ainda é esta que, Parlebas diz que a divisão das
enquanto disciplina ou atividade (não técnicas, dos conhecimentos e da for-

17
PARLEBAS, Pierre. Perspectivas para una Educacion Física Moderna. Andalucia: Quisport,
1988.
18
Idem, op.cit.

188
mação dos futuros profissionais evi- res. Precisa ser capaz de justifi-
dencia uma fragmentação da Educa- car-se a si mesma. Precisa procu-
ção Física em uma multidão de prá- rar a sua identidade. É preciso que
ticas e em uma quantidade enorme seus profissionais distinguam o
de concepções. À medida que essa educativo do alienante, o funda-
fragmentação aumenta, a Educação mental do supérfluo de suas tare-
Física vai perdendo sua identidade. fas. É preciso, sobretudo, discor-
Por não haver conseguido afirmar- dar mais, dentro, é claro, das re-
se com coerência científica, a disci- gras construtivas do diálogo. O
plina ficou submetida aos princípios progresso, o desenvolvimento, o
regentes das ciências biológicas e das crescimento advirão muito mais de
ciências humanas. Essas caracterís- um entendimento diversificado das
ticas de divisão e submissão repre- possibilidades da Educação Físi-
sentariam o destino da Educação Fí- ca do que através de certezas
sica. 18 Outros estudiosos abordam monolíticas que na verdade não
algumas dessas questões de maneira passam, às vezes, de superficiais
às vezes diversa, embora considerem opiniões ou hipóteses.19
que as mesmas não deixam de ter
uma certa relação com outras ques- Parlebas refere-se à crise dizendo
tões. Entre eles podemos citar
que a mesma se dá em vários setores
Medina, cuja abordagem se relacio-
da Educação Física. Embora o autor
na parcialmente com a de Parlebas.
a tenha identificado de forma mais
Para Medina, enquanto a crise
ampla, Medina faz uma abordagem
atinge quase todos os setores da soci-
edade, que clamam por desenvolvi- num sentido mais genérico.
mento, na Educação surgem os pri- Quando Medina fala ser preciso
meiros movimentos e inquietações distinguir nas tarefas da Educação
para se repensar toda a estrutura edu- Física o educativo e o fundamental
cacional. O autor diz que tudo isso (conteúdos significativos e contextua-
parece não estar perturbando muito a lizados), do alienante e do supérfluo
Educação Física, como se ela não fos- (conteúdos reproduzidos sem refle-
se um processo educativo. Nesse sen- xão), pode-se fazer a relação com a
tido, ele declara: crise que existe nos campos das téc-
nicas (conteúdos e métodos de ensi-
A Educação Física precisa entrar no) e da intervenção (entre eles, a es-
em crise urgentemente. Precisa cola) a que Parlebas se refere. Medina
questionar criticamente seus valo- afirma que o formando ou já profissi-

19
MEDINA, João Paulo Subirá. A educação física cuida do corpo...e “mente”: bases para a
renovação e transformação da educação física. 4ª ed. Campinas, SP: Papirus, 1985. p. 35.

189
onal, ao encontrar seu espaço no mer- dos anos 80, configurou-se a neces-
cado de trabalho, procura atender as sidade de uma mudança de rumos
exigências desse mercado, adaptando- na Educação Física brasileira.
se a ele sem questionar ou refletir. Aumentou significativamente o nú-
Podemos dizer que tal procedimento mero de profissionais da área em-
está relacionado com o tipo de for- penhados na discussão de ‘práti-
mação acadêmica desse profissional cas alternativas’, para a Educação
e, de certa forma, com a crise no cam- Física. Cresceu também o número
po da investigação (pesquisa), refle- de encontros regionais de profissi-
tindo-se assim em todos os outros onais da área preocupados com a
procedimentos. É preciso, pois, ava- conquista de uma ‘Educação Físi-
liarmos o que se têm feito, investigar- ca Crítica’ etc.20
mos para detectarmos problemas,
para então perspectivarmos mudan- Um amplo debate, desde a época
ças. citada, envolve a Educação Física e a
A crise, ao mesmo tempo que, de- escola, numa perspectiva crítica, tra-
tecta e traz à tona problemas que per- tando da crise escolar que se desen-
turbam o desenvolvimento de algo, volve de forma paralela ao debate so-
ocasionando a desestabilização, pos- bre a Educação. Têm sido realizados
sibilita a perspectiva de novos cami- vários congressos, encontros, debates
nhos que poderão contribuir para a e trabalhos científicos, que objetivam
romper com algumas visões da Edu-
evolução e crescimento do objeto em
cação Física como: “convencional”,
questão. Ela nos faz refletir, obriga-nos
“biológica”, “biologizante” entre ou-
a buscar novos caminhos, é um ponto
tras.21 A Educação Física vem sendo
de transição que tanto pode ocorrer,
alvo da crítica, principalmente por
entre uma época de prosperidade e
visualizar no indivíduo apenas seu as-
outra de depressão, como o contrário.
pecto biológico, objetivando a perfor-
Estarmos cientes de que a crise existe,
mance e o rendimento motor.
já é o começo, o primeiro passo.
Estudos foram realizados (Betti,
Por conseguinte, o momento de cri-
Bracht, Carmo, Castellani Filho, Ca-
se pela qual a Educação Física passa,
valcanti, Ferreira, Freire, Ghiraldelli,
pode e deve ser um momento de busca
Medina, Moreira, Oliveira, Santin...)
e de construção de sua identidade.
e a literatura ganhou novas colabora-
ções: questionadoras, divergentes, po-
No final da década de 70 e início lêmicas. Alguns preocupados com a

Paulo GHIRALDELLI JÚNIOR, op. cit., p. 45-46.


20

21
Os referidos termos são utilizados respectivamente por: João Paulo Subirá MEDINA, 1983;
Valter BRACHT, 1986; Lino CASTELLANI FILHO, 1988.

190
necessidade de uma identidade para a quanto fenômeno humano, que con-
Educação Física, outros tentando sidere
encontrá-la, havendo ainda aqueles que
destacam a urgência de uma maior [...] o princípio de uma aprendi-
significância da Educação Física en- zagem humana e humanizante,
quanto disciplina escolar. onde em sua complexidade estru-
Com a crítica, muitas questões são tural, o homem pode ser fisiológi-
levantadas, tais como: Qual a identi- co, biológico, psicológico e antro-
dade da Educação Física? O Esporte pológico. Só que o corpo do ho-
educa? O Tecnicismo promove uma mem não é um simples corpo, mas
seletividade? A Educação Física ape- necessariamente um corpo huma-
nas reproduz os valores dominantes? no, que só é compreensível atra-
Dessas e outras questões e inter- vés de sua integração na estrutu-
pretações surgem muitas conclusões, ra social.22
algumas das quais ganham destaque.
Bracht (1988) diz que a ideologia bur- Freire, em algumas de suas abor-
guesa é veiculada pela Educação Fí- dagens, critica severamente os proce-
sica, que acaba não se configurando dimentos utilizados na Escola, na
em propostas em nível da prática pe- aprendizagem de crianças; em outras,
dagógica. Ferreira (1984) fala sobre denuncia as dualidades existentes em
a não-diretividade do ensino, e o estí- nossa tradição intelectual e cultural,
mulo à crítica e à criatividade. Há procurando superar a idéia do sensí-
aqueles que dizem da necessidade da vel versus inteligível. Diz que ambos
Educação Física estar voltada à mai- são alojados no corpo, e se um dos
oria da população (Castellani Filho, dois faltar, é o mesmo que faltar o
1988 e Carmo, 1988). Betti (1988), todo.23
Oliveira (1988), Freire (1989), Mo- Os referidos autores focalizam
reira (1991, 1992) fazem diferentes questões fundamentais relacionadas à
abordagens críticas em relação à Edu- Educação, ao movimento e ao homem
cação Física Escolar. como um todo, ressaltando que o edu-
Alguns estudos, como os de cador precisa estar atento a essas
Moreira, não ficam só numa análise questões.
crítica da Educação Física Escolar Apesar do esforço empreendido
observada, mas procuram alertar os por pesquisadores na área, há uma
educadores de forma geral, para a carência em turmas de prática peda-
necessidade de uma Educação en- gógica escolar da Educação Física.

22
MOREIRA, Wagner Wey. Perspectivas da Educação Motora na Escola. p. 3-4.
23
Ver João Batista FREIRE, op. cit. Idem, De corpo e alma: o discurso da motricidade. São
Paulo, SP: Summus, 1991.

191
Parece que aqueles que atuam na es- cional. Os alunos não chegam “vazi-
cola diretamente com a prática da dis- os” na escola, trazem consigo proble-
ciplina têm dificuldades na compre- mas, expectativas e conhecimento.
ensão da crise escolar e, por decor- Freire declara:
rência, da própria Educação Física. A
Educação Física Escolar cotidiana A criança não chega na escola
parece estar alheia a toda problemá- zerada. É agressiva, amorosa, in-
tica, continua acontecendo da mesma vejosa, tímida ou violenta. Pode
forma, como se teoricamente estives- ter muitas virtudes e defeitos, mas
sem sendo discutidas questões que se teria que aparecer do jeito que é.
referem a uma outra Educação Física A partir disso, a escola faria um
que não ela. trabalho de educação. Se não se
considera a individualidade da
Apesar de algumas tentativas iso- criança, a culpa é da escola. Por
ladas, o quadro da Educação Fí- isso precisa mudar. Não se pode
sica escolar, no momento, assim se ter medo de ver a criança como
apresenta: sem identidade, ela é. Um dos maiores problemas
acrítica, transmitindo e controlan- da criança, na escola, é a
do o ritmo das atividades mecâni-
agressividade. Para tratar essa
cas, desenvolvendo conteúdos ao
agressividade é preciso admiti-la.
sabor dos modismos, buscando a
Tratar uma criança ‘ideal’ resul-
perfeição do gesto e
tará em frustração.25
descompromissada com o indiví-
duo e com a sociedade.24
Portanto, nos parece que tentar
buscar soluções para a Educação Fí-
A crise da Educação Física é uma
sica Escolar apenas no interior da pró-
parte da crise da escola; logo, para
pria escola, sem a compreensão de
entendê-la não podemos nos ater ape-
elementos integrantes da realidade, é
nas às suas particularidades. É neces-
um tanto utópico.
sário, analisarmos seus determinantes
na sociedade na qual está inserida.
A crise da escola é a manifestação
da maioria dos problemas presentes na
crise da sociedade, que os alunos tra-
zem para dentro da instituição educa-

24
MOREIRA, Wagner Wey. Por uma concepção sistêmica na pedagogia do movimento. p. 204.
25
FREIRE, João Batista. A escola desobediente. Revista da Fundação de Esporte e Turismo 1(3),
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