Capitulo 2 – Respostas educativas para Surdos

Introdução As últimas décadas tem sido palco de importantes alterações na forma como a sociedade em geral e, a escola em particular, vê a pessoa com deficiência. As políticas actuais apontam para uma sociedade democrática, onde o deficiente é um cidadão de plenos direitos e deveres, em igualdade de circunstâncias com os outros cidadãos. Como tal, deverão ser criados os recursos necessários para que possa usufruir dos bens de que a sociedade dispõe e, nela ser educado e integrado. Ver e aceitar a deficiência como fazendo parte da vida humana é incluí-la na tarefa educativa, onde é considerada e analisada na sua dimensão específica. Esta mudança de mentalidades tem, na sua essência, a Declaração de Salamanca elaborada em 1994, a qual norteia toda a organização e criação de condições, para que os deficientes se possam sentir cidadãos de plenos direitos (Rebelo, 2008). A escola tem um papel preponderante na aceitação de crianças portadoras de uma qualquer deficiência, podendo contribuir para a construção de uma sociedade mais aberta e responsável, pondo em igualdade de circunstâncias todos os alunos e tendo em conta as necessidades educativas específicas de cada um, dentro da sua deficiência. Cabe às escolas adequarem-se através duma pedagogia centrada na criança e capaz de ir ao encontro das suas necessidades educativas especiais. As escolas do ensino regular são “os meios mais capazes para combater as atitudes discriminatórias, criando comunidades abertas e solidárias, construindo uma sociedade inclusiva e atingindo a educação para todos” (Declaração de Salamanca, p. X) Dando expressão a este paradigma, tentamos, ao longo deste capítulo, abordar questões relacionadas com a inclusão no contexto escolar, no sentido de criar uma escola inclusiva para os alunos com necessidades educativas especiais, no nosso caso, para os alunos com surdez. Para falarmos sobre surdez e do indivíduo surdo, temos que recuar no tempo e considerar o modo como tem sido olhado e educado o indivíduo surdo ao longo da história. Dois conceitos geradores de controvérsia entre pessoas e organizações são, sem dúvida, os de Surdez e Surdo. Se por um lado, a pessoa surda possui um défice de audição que a impede de comunicar, oralmente, com as outras pessoas, por outro existe uma comunidade linguística que se debate, há séculos, pela defesa de uma comunicação alternativa visual e não auditiva que permita o seu desenvolvimento. Baptista (2008), na sua tese de Doutoramento, aborda a questão tentando responder à pergunta “serão os surdos, de facto, deficientes”? Para este investigador, a imagem social dos surdos tem sido, ao longo da história, pautada pelas concepções assentes na linguagem (entenda-se linguagem igual à produção de fala, de comunicação oral). Os surdos, são

de facto, os que não têm capacidade de usar a fala e como tal é difícil imaginá-los como seres pensantes. Diversos autores, (…..) têm defendido que sem linguagem não há pensamento e que esta é essencial para a lógica e dinâmica do mesmo. Falar de surdez, de surdos e dos seus problemas educacionais centrados apenas na ausência de fala, é extremamente redutor, mas esta convicção, atravessou e atravessa todos os sectores da sociedade incluindo a legislação produzida na área da educação dos surdos e o próprio aparelho que a aplica, o Ministério da Educação e as escolas (Baptista, 2008). O paralelismo entre a surdez e a incapacidade para a aprendizagem perdurou durante séculos. Oliver Sacks (2011:31), refere-se à situação dos surdos antes de 1750 como calamitosa: “Incapazes de aprender a falar, eram considerados «estúpidos» ou «mudos»; incapaz de gozar de uma comunicação livre mesmo com os pais e com os familiares, (…), privados de literacia e de educação, (…), o destino dos surdos era manifestamente horrível.” A educação dos surdos constitui-se num grande desafio aos sistemas educacionais em todo o mundo. Entendemos que para uma maior compreensão dessa temática, necessitamos fazer uma breve revisão histórica, destacando aspectos fundamentais na construção da realidade em que vivemos, entendendo-a como fruto da construção colectiva do homem ao longo do processo histórico. Parece-nos, agora, pertinente, referenciar como, no passado, a surdez e os surdos eram referenciados e quais os acontecimentos que levaram a que, assistamos hoje ……..a interpretações diferentes do conceito de surdez…..

2.1– Breve história da Educação dos Surdos.

A educação dos surdos é um problema inquietante pelas suas dificuldades e limitações. Ao longo da história, esse assunto tem sido polémico, gerando desdobramentos em várias vertentes com diferentes consequências. O objectivo deste ponto é dar a conhecer um pouco de sua história, focalizando principalmente o oralismo, a comunicação total e o bilinguismo como propostas educacionais e suas implicações. Não é nossa intenção fazer uma resenha histórica detalhada sobre a história do surdo, a sua educação e todos os aspectos que determinaram a sua actual condição, mas pensamos ser necessário, ter uma visão geral desta história, para que seja mais explicita a razão da preocupação com a procura de um modelo educacional efectivo, que garanta, de facto, a igualdade de oportunidades e o acesso de pleno direito à cidadania das crianças e jovens surdos. 2.1– “ Os primórdios”

Primeiramente o termo genérico utilizado para identificar os indivíduos que não ouviam era surdo-mudo. Classificação clínica redutora e equivoca, pois atribuía, aos indivíduos privados de audição, uma deficiência no aparelho fonador pelo facto da não existência de comunicação verbal. Desde a antiguidade, a surdez sempre foi vista como uma doença que impossibilitava o surdo de se tornar um cidadão responsável. Esta visão aproxima-se, segundo Ferreira (2006) das teorias de Platão e Aristóteles (século IV a. C.), que explicavam a não educabilidade dos surdos, uma vez que admitiam que, por não falarem não tinham capacidade de raciocinar. Durante a Idade Média, a Igreja condenou o infanticídio, mas no entanto atribuiu a surdez e outras deficiências ao poder da ira divina. Os surdos eram vistos como o testemunho vivo da constituição dos homens no pecado. A Igreja Católica acreditava que a alma dos surdos não atingia a imortalidade, uma vez que estes não celebravam a eucaristia. Os surdos foram impedidos de casar até ao século XII, (Carvalho, 2007).

2.2– A Idade Moderna A modernidade caracteriza-se pela racionalização e pela grande produção de novos saberes. Com a racionalização busca-se a supremacia da razão sobre as crenças irracionais e religiosas que figuravam o cenário da Idade Média, caracterizando-se desta forma o que chamamos de Idade das Luzes, o Iluminismo. A pretensão da modernidade era a de libertar o homem da irracionalidade, das desigualdades sociais e da ignorância. A educação deveria conduzir o homem a uma ruptura entre as crenças levando-o à autonomia, rejeitando a dependência e o conservadorismo. Nas ciências, a modernidade é marcada pelo positivismo, desenvolve-se o método experimental, que recorre à observação, a constatação e a experiência. Para conhecer um objecto é necessário recorrer aos factos reais, abstraindo-nos das suas subjectividades. Outros aspectos da modernidade são a multiplicidade e a fragmentação dos conhecimentos. Grandes teorias e novas técnicas marcam este período, a industrialização consolida-se na modernidade. Se por um lado houve grandes avanços tecnológicos que se pulverizaram pelo mundo, estes mesmos avanços e a evolução dos conhecimentos científicos não trouxeram o futuro melhor que tanto se almejava. Sá (2002) menciona que a modernidade foi sustentada até o final do século XX, período que começou a dar sinais de esgotamento, que se intensificaram com o avanço da tecnologia. Na medida em que os avanços trouxeram benefícios à humanidade os mesmos também ampliaram os danos, como por exemplo, no uso de artifícios usados nas guerras (armamentos, armas químicas, bomba atómica). Especificamente com relação às pesquisas relacionadas com os surdos, Skliar (1998) adverte que estudos antropológicos, sociológicos e linguísticos trazem uma nova abordagem sobre o que é surdez e sobre o

sujeito surdo. No entanto, corremos o risco de pensar o surdo como uma temática e não como um sujeito real e concreto, desconsiderando desta forma os saberes construídos ao longo da história. Não podemos confundir a temática “surdez” com o sujeito surdo, ou seja, “o outro”, um sujeito complexo, concreto, vivo, com uma história de vida, um sujeito que pertence a um grupo cultural. É no início do século XVI que se começa a admitir que os surdos podem aprender através de procedimentos pedagógicos sem que haja interferências sobrenaturais. Surgem relatos de diversos pedagogos que se dispuseram a trabalhar com surdos, apresentando diferentes resultados consoante a prática pedagógica utilizada. O propósito da educação dos surdos, então, era que estes pudessem desenvolver seu pensamento, adquirir conhecimentos e comunicar com o mundo ouvinte. Para tal, procurava-se ensiná-los a falar e a compreender a língua oral, mas a fala era considerada uma estratégia, um meio de se alcançar tais objectivos. A figura do preceptor era muito frequente em tal contexto educacional. Famílias nobres e influentes que tinham um filho surdo contratavam os serviços de professores/preceptores para que ele não ficasse privado da fala e consequentemente dos direitos legais, que eram subtraídos daqueles que não falavam. Os surdos que podiam beneficiar do trabalho desses professores eram muito poucos, somente os pertencentes a famílias abastadas beneficiavam dos seus serviços. Sem qualquer instrução ficava um grande número de surdos que, provavelmente, se vivessem agrupados, poderiam ter desenvolvido algum tipo de linguagem através da qual interagissem. Segundo Ferreira (2006), é somente a partir do século XVI, ainda sem propriamente uma preocupação educacional, que se encontram os primeiros registos de sucesso de cidadãos surdos, apesar das limitações de fala. Carvalho (2007), lembra que foi neste século que, o educador alemão Rodolfo Agricola distingue, pela primeira vez, surdez de mutismo. Girolamo Cardano (1501-1576) foi o primeiro a declarar que o surdo era capaz de pensar, compreender, estabelecer relações entre as coisas e fazer representações de objectos. As suas declarações eram fundeadas num método de aprendizagem, o qual consistia na associação de figuras desenhadas para representar a realidade, constituindo, assim, um sistema lógico que viabilizava construções coerentes e denotava a existência de uma mente racional capaz de analisar ideias e elaborar conceitos a partir delas (Carvalho, 2007). É consensual, na literatura consultada que é com Pedro Ponce de Leon (1520 – 1584), monge beneditino espanhol, que se inicia a verdadeira educação dos surdos a nível mundial. O seu trabalho serviu como ponto de referência para outros educadores de surdos. Desenvolveu uma metodologia de educação de surdos que incluía dactilologia, escrita e oralização. O espanhol Juan Pablo Bonet, seguidor de Pedro Ponce de Leon publica, em 1620, o primeiro manual de educação de surdos, intitulado Reduction de las letras y arte para enseñar a ablar a los mudos, o primeiro tratado de fonética espanhola e geral.

a língua gestual é concebida como a língua natural dos surdos e como veículo adequado para desenvolver o pensamento e a comunicação. então com 13 anos. Para De L'Epée. como um tratado de ensino da língua aos surdos. segundo Ferreira (2006). Jacob Rodrigues Pereira utiliza os gestos. encarregou-o da educação do seu filho surdo. oral ou gestual. na primeira escola pública para surdos (1755). Jacob Rodrigues Pereira. aos surdos. Ele tinha claras a diferença entre linguagem e fala e a necessidade de um desenvolvimento pleno de linguagem para o desenvolvimento normal dos sujeitos. educador de surdos. criando o sistema “Sinais Metódicos” (usava Língua Gestual na ordem gramatical do Língua Francesa). Apesar de usar o método oral. Nasce. sabia ler e escrever e tinha recebido instrução de um monge surdo através da língua gestual. ao fim de um ano. abandonando o ensino individual e o isolamento a que estavam destinados (Carvalho. resultou que. Embora tenha publicado algumas obras. o domínio de uma língua. A língua francesa devia por isso ser ensinada como língua estrangeira. é outro marco importante na história da educação de surdos. é concebido como um instrumento para o sucesso de seus objectivos e não como um fim em si mesmo. O rei acabou por atribuir a este educador o cargo de intérprete oficial do reino. o seu trabalho baseava-se na utilização de gestos. e o presidente da Academia. também. No século XVIII (1750). inicia um ensino colectivo de surdos. sendo este. o primeiro a reconhecer a utilidade dos signos gestuais do surdo. o abade francês Charles Michel de L’Epée inicia a instrução formal de crianças surdas. baseava-se na ideia de que cada configuração da . 2007). em França. refere o médico inglês John Bulwer (1614-1684) como o primeiro inglês a desenvolver um método para comunicar com os surdos e com os mudos. todos se renderam face aos resultados obtidos. o aluno já pronunciava e distinguia mais de mil palavras e algumas frases. do estatuto de humanos pois reconhece a existência da sua língua.Carvalho (2007). em Inglaterra. Acreditava que a linguagem produzida pelas mãos era a única linguagem natural dos surdos. mas defendeu sempre a oralização para os surdos. tendo apresentado na Academia de Ciências de Paris alguns dos seus melhores alunos. O primeiro. pela atribuição. Do seu trabalho com ele. O seu método. na aprendizagem da língua oral. assim. O principal objectivo desse método era aproximar o surdo da Língua Francesa. um jovem de dezoito anos que tinha nascido surdo. mais tarde o Instituto Nacional de Surdos e Mudos de Paris (1791). não teve grande influência na educação das pessoas surdas. espanhol de ascendência portuguesa. num sistema que incorporava a língua falada e gestos. do qual se sabe pouco. durante o século XVIII. Além disso. John Wallis (1616-1703). O seu sucesso na educação de jovens surdos espalhou-se rapidamente. que viveu em França. (Coelho e outros. a primeira tentativa de bilinguismo. 2004: 160). A importância de L’Epée na educação de surdos passa. Para ele. Na Academia. Saboreux de Fontenay. considerando que se devia partir da língua gestual para a aprendizagem do francês. publica De Loquela.

Em 1778 é criada a primeira escola para surdos-mudos Alemã.mão correspondia. . Os segundos. a posição e o movimento dos órgãos da fala e também as letras que a escrita necessitava para representar o som. gestualistas. A partir desse período podem ser diferenciadas. a criação de vários institutos em toda a França. nesse processo. tendo por fundador Heinicke. apenas modificou o alfabeto de Bonet. eram mais tolerantes. nas propostas educacionais vigentes. fazendo corresponder a cada configuração da mão um som. (Carvalho. ao mesmo tempo. importante educador de surdos. um dos maiores defensores do oralismo. em 1782 e veio a suceder ao Abade de L’Èpée na direcção do Instituto Nacional de Surdos-Mudos de Paris. aprender a falar e só depois a escrever. já abertamente encontradas no final do século XVIII. configuram-se duas orientações divergentes na educação de surdos. no campo da pedagogia dos surdos. foram capazes de ver que os surdos desenvolviam uma linguagem que. 2007). incluindo aquele dirigido para a língua oral. Defendia que os surdos deviam. existia um acordo unânime sobre a conveniência de que esses sujeitos aprendessem a língua que falavam os ouvintes da sociedade na qual viviam. encontrou na Língua Gestual Francesa o método ideal na educação de surdos. Com base nessas posições. primeiro. de certo modo. segundo Carvalho (2007). como as crianças ouvintes. ainda que diferente da oral. obrigando-os a organizarem-se de forma quase clandestina. já no começo do século XVIII. 2. Impuseram a oralização para que os surdos fossem aceitos socialmente e. que se mantiveram em oposição até a actualidade. Sicard. no meio dessa unanimidade. abade francês. iniciativas antecedentes do que hoje chamamos de "oralismo" e outras antecedentes do que chamamos de `"Gestualismo'". Segundo Carvalho (2007). a educação de surdos viveu uma época de grandes rivalidades entre os métodos oralistas e os métodos baseados na Língua Gestual. que se comportassem como se não fossem surdos. Os primeiros exigiam que os surdos se reabilitassem. desde a segunda metade do século XVIII até meados do século XIX. Os proponentes menos tolerantes pretendiam reprimir tudo o que fizesse recordar que os surdos não poderiam falar como os ouvintes. Na prática. números e pontuação. Apoiou ainda. apesar das mudanças havidas no desdobramento de propostas educacionais. porém. que superassem a surdez. Diante das dificuldades do surdo com a língua oral. de toda a possibilidade de desenvolvimento pessoal e de integração na sociedade. que falassem e. Fundou a escola de surdos de Bordéus. foi aberta uma brecha que se alargaria com o passar do tempo e que separaria irreconciliavelmente oralistas de gestualistas.3– A Idade Contemporânea Inicialmente. deixava-se a imensa maioria dos surdos de fora de toda a possibilidade educativa. era eficaz para a comunicação e lhes abria portas para o conhecimento.

com um número significativo. a partir dessa altura. No seu livro prova também que a Língua Gestual Francesa já existia antes do aparecimento das escolas para surdos.4– Congresso de Milão As realizações do VII Congresso da Sociedade Pedagógica Italiana (1873) e do I Congresso de Professores Italianos de Surdos influenciaram. gestos metódicos adaptados para o Inglês. O Surdo. De acordo com Marchesi (1987) os debates realizados entre L’Epée (defensor do método manual) e Heinicke (defensor do método oral). Aos poucos. gestos que os próprios alunos traziam para palavras que não eram representadas na Língua Gestual Francesa. o alfabeto digital francês e a forma como deviam ser ensinados aos alunos. Rio de Janeiro: Revinter). . Aos 27 anos de idade conhece um surdo italiano que lhe ensina esta Língua e. por outro. Segundo Moura (Moura. para fundar o que seria a primeira escola para surdos na América. 2000. o norte-americano Thomas Hopkins Gallaudet (1781 -1851). ligadas entre si por uma Língua e cultura comuns. a Língua Gestual Francesa foi sendo modificada e os sinais metódicos abandonados. Como. num primeiro momento. em França se defendia o método manual para a educação de surdos. passando toda a comunicação a ser feita em Língua Gestual Americana. no final do século XVIII. de surdos. abriam escolas e seguiam os mesmos ensinamentos e procedimentos da escola de Hartford. autor do primeiro livro escrito por uma pessoa surda (aos sete anos contraí varíola que lhe provoca surdez). Maria Cecilia. essa não era a realidade vivenciada em todos os países. o que levou a que se formasse uma comunidade. surdo de nascença. Laurent Clérc. estreitando laços entre os seus membros através do desenvolvimento de uma cultura e de uma língua própria. Em 1815. Caminhos para um Nova Identidade. que se foram instalando. 2. Se. “ The Connecticut Asylum for the education and Iinstruction of Deaf and Dumb Persons”em Hartford. Connecticut. seriam o início da polémica sobre os métodos educacionais para educar o surdo. Os professores contratados aprendiam Língua Gestual Francesa. que regressavam à sua terra natal. Anos mais tarde. frequenta a escola de Bordéus e vem a tornar-se num dos primeiros professor surdos em todo o mundo. por um lado. surdos de vários Estados eram aí matriculados. Outros. abrindo negócios. Contudo.Em 1747 nasce Pierre Desloges. em inglês escrito e alfabeto digital. Jean Massieu. a escola de Hartford foi a única escola pública para surdos dos Estados Unidos. ao concluí-los convidou um antigo aluno surdo dessa instituição. em alguns países da Europa ganhava força o método oral (sobretudo Alemanha e Inglaterra). realizou estudos no Instituto Nacional dos Surdos de Paris. que já actuava como professor. torna-se um defensor acérrimo do uso dos gestos. formando novas comunidades de surdos. descrevendo a comunidade surda que utiliza a Língua Gestual como uma comunidade que não tinha conhecimento da Língua francesa oral ou escrita.

O I Congresso de Professores Italianos de Surdos representou um passo importante em direcção ao Congresso de Milão de 1880. o mesmo autor identifica três períodos distintos. José Guerra. em 1880. segundo Snacks (2010). tanto a italiana como a francesa. o qual ficou. 2. ou ainda. sofreu desgaste da sua auto-imagem e foi perdendo as memórias das suas referências históricas e culturais. A partir do Congresso de Milão. comercialismo e orgulho familiar vigentes na época. elitismo. Nos anos que se seguiram aos congressos realizados em Veneza e em Siena. Mª. Lane (1989). A única oposição clara feita ao oralismo foi apresentada por Gallaudet que. um método misto. oficialmente proibido o uso da língua gestual nas escolas. foram dispensados. que continuam a não reconhecer ao surdo capacidade para educar e decidir. 2005. o oralismo foi o referencial assumido e as práticas educacionais vinculadas a ele foram amplamente desenvolvidas e divulgadas. uma vez que o oralismo. Segundo Campos. a que . Em Itália (Milão). defendido por Alexander Graham Bell saiu vitorioso. Ferreira (2006). praticamente. a língua gestual. neste último século. Essa abordagem não foi. extremamente dificultada. desenvolvia. a não-aceitação da presença de um educador surdo na sala de aula. a adopção do oralismo na educação de surdos.sem dúvida. tenta explicar este acontecimento pela confluência do nacionalismo. No primeiro (inicio do século XX até anos 50). um trabalho baseado nos sinais metódicos do abade De L'Epée e que discordava dos argumentos apresentados. revela o desejo de poder e controle por parte dos professores ouvintes. os professores surdos ficando assim. Para este autor. Nos estados Unidos. Relativamente a este. na história da educação de surdos. sendo esta ministrada nos diferentes graus de ensino. acontece o segundo Congresso Mundial sobre a educação de surdos. a educação e ensino dos surdos. sobretudo em França em que muitas escolas particulares adoptaram o método oral. prosseguem a divulgação do método gestual.5– Século XX Para Coutinho (…gesto1). reportando-se aos sucessos obtidos por seus alunos (Lane 1989). considerando que o surdo tem a sua língua natural. como um marco repressor da utilização da Língua Gestual e do afastamento dos profissionais surdos do ambiente escolar. nos Estados Unidos. questionada. As decisões tomadas no Congresso de Milão levaram a que a língua gestual fosse praticamente banida como forma de comunicação a ser utilizada por pessoas surdas no trabalho educacional. abrindo caminho para a integração e aceitação do bilinguismo. como aos surdos se refere. ganharam mais adeptos. as abordagens oralistas. (Campos. “Perscutar e escutar a surdez”) durante quase um século o povo surdo. seguidores de Hopkins Gallaudet. o qual era baseado no ensino da língua oral e da escrita. sendo. qualquer tentativa de protesto organizado contra o oralismo. das escolas públicas. segundo têm andado de mãos dadas com a evolução do conceito de surdez.

Os métodos orais sofrem uma série de críticas pelos limites que apresentam. mesmo com o incremento do uso de próteses. ainda que usando próteses. Somadas a isso estavam as dificuldades ligadas à aprendizagem da leitura e da escrita: sempre tardia. no entanto. sempre. com tecnologia adequada. que para a idade de um ano é. uma tarefa bastante complexa. cheia de problemas. uma palavra através da leitura labial. com o uso da palavra limitado a momentos em que a criança está sentada diante de desenhos. em termos cognitivos. os métodos educativos aplicados aos surdos foram. tornando a linguagem algo difícil e artificial.designa por período psicométrico. para não dizer impossível. esse desenvolvimento era parcial e tardio em relação à aquisição de fala apresentada pelos ouvintes. Tendo por base esta premissa. tão precocemente. Alguns métodos prevêem. A maior parte dos surdos profundos não desenvolveu uma fala socialmente satisfatória e. "A Comunicação Total é uma filosofia de . implicando um atraso de desenvolvimento global significativo. seja oral ou escrita. artificial. que de fato permitiriam o desenvolvimento do significado das palavras. oralistas. mostrava sujeitos. Outro aspecto a ser desenvolvido é a leitura labial. em geral. É neste período que se desenvolvem os testes psicométricos e se dá grande importância ao Coeficiente de Inteligência (QI). fora de contextos dialécticos propriamente ditos. período interaccionista (anos 70/80). Os resultados de muitas décadas de trabalho nessa linha. estas três concepções de surdez apresentam como denominador comum o facto de defenderem que. os surdos podem vir a ouvir. Entretanto. elas terão de entrar em contacto com essas palavras de modo descontextualizado de interlocuções efectivas. Para Coutinho. Limitar-se ao canal vocal significa limitar enormemente a comunicação e a possibilidade de uso dessa palavra em contextos apropriados. As críticas vêm. apenas parcialmente alfabetizados após anos de escolarização. e restringe as possibilidades do desenvolvimento global da criança. O segundo (anos 60/70). o período clínico. apresentado grande relevo a chamada comunicação total. por exemplo. reconhecer. que se ensinem palavras a crianças surdas de um ano. nos anos 70. O que ocorre praticamente não pode ser designado desenvolvimento de linguagem. mas sim o treino da fala organizado de maneira formal. Essa aprendizagem de linguagem é desvinculada de situações naturais de comunicação. a surdez é encarada como uma anormalidade. O descontentamento com o oralismo e as pesquisas sobre as línguas gestuais deram origem a novas propostas educacionais em relação à educação da pessoa surda tendo. principalmente. muitas vezes. não mostraram grandes sucessos. com sérias dificuldades de comunicação. Muitos estudos apontam para tais problemas. o mesmo cenário: sujeitos pouco preparados para o convívio social. considera a surdez como uma patologia de origem fisiológica e o terceiro. tornando claro o insucesso pedagógico dessa abordagem Baptista (2008). dos Estados Unidos. desenvolvidos em diferentes realidades e que acabam por revelar. É muito difícil para uma criança surda profunda. no qual a surdez é vista como um défice provocado pela falta de interacção social dos surdos. basicamente.

verificaram num estudo realizado em Portugal em 1986. quando aparecem os primeiros estudos feitos por diversos especialistas como antropólogos. . por Thomas Gallaudet. Tendo a filosofia oralista mantido uma posição dominante na Europa e na América durante a primeira metade do século XX. "quase interditados" aos surdos. praticavam a comunicação total com os seus alunos. 2005). em Hartford. Edouard Gallaudet funda o primeiro instituto universitário do mundo para surdos. dactilologia. que 41. mas uma das áreas trabalhadas para possibilitar a integração social do indivíduo surdo. de certa forma. 2. Além deste. os trabalhos de vários autores. 1984). em Washington. linguistas e sociólogos que se começa a produzir uma importante mudança na educação do surdo e na forma de encarar a surdez. O que se veio a verificar foi que.educação de surdos” (Niza 1995. A metodologia utilizada baseava-se nos gestos naturais. por reconhecer o valor da comunicação gestual (Delgado Martins. Os alunos não aprendiam a compreender os gestos como uma verdadeira língua. aberta pelo abade de L Epée. 1960). incluindo Stokoe (1960). assim. citado por Coutinho…). através do seu sistema de "signos metódicos". muitas vezes. 1984). é só a partir da década de 60.5. onde os cursos são ministrados em língua gestual. O objectivo é fornecer à criança a possibilidade de desenvolver uma comunicação real com seus familiares. em 1956. leitura. um apoio para a língua oral e continuavam. tornando-se a base da actual língua gestual (Stokoe. expressar-se nas modalidades preferidas. (Campos. o método gestual de L Epée. escrita e outros métodos de modo a fornecer inputs linguísticos aos estudantes surdos. podendo estes. foi difundido nos Estados Unidos. o que prova a capacidade da linguagem gestual para se adaptar a novas terminologias exigidas pelo desenvolvimento científico (Delgado Martins.1– O Gestualismo O Gestualismo foi a filosofia que presidiu à primeira verdadeira escola para surdos. Com ela é possível o uso do gesto espontâneo. foi L' Epée que enriqueceu e sistematizou a comunicação gestual. em Paris. Anos mais tarde.5% dos professores que trabalhavam com surdos. tendo-se fundado em 1817 a "American School for the Deaf. e do seu uso não decorria um efectivo desenvolvimento linguístico. De facto. professor inglês no Gallaudet College. embora já anteriormente se utilizasse em França a soletração pelos dedos para ensinar a linguagem a surdos. Os gestos constituíam. A oralização não é o objectivo em si da comunicação total. existem hoje mais duas instituições idênticas em Moscovo e Estocolmo. que começa a ser encarada por um modelo que assenta em pressupostos defendidos pela antropologia e a sociologia. os surdos atendidos segundo essa orientação comunicavam precariamente apesar do acesso aos gestos. língua gestual. Como se referiu anteriormente. Para tal contribuíram. Pinho e Melo (1986) citados por Coutinho. professores e colegas. fala. leitura labial.

Enquanto esta faz seguir sucessivamente os conceitos. sendo estes então os "traços distintivos" dos gestos. preenchendo em grande parte os requisitos que a linguística de então colocava para as línguas orais. Argumenta que. ainda. nada saberem sobre ela e levaram a uma nova tomada de consciência relativamente à própria língua. o que traduz a riqueza e rapidez da informação. Em Portugal a língua gestual permaneceu. A possibilidade de relacionar o gesto manual com o seu . poderão ser explicados pelo facto de os surdos considerarem a Língua gestual como algo indissociável à sua condição de ser humano e temerem que lhes fosse retirado a qualquer momento. Posteriormente os trabalhos de Bellughi e Klima (1979) que vieram corroborar as conclusões de Stokoe. embora fosse utilizada pela maioria da comunidade adulta surda do país. afirmando que a língua gestual apresenta a sua própria fonologia. Esses estudos iniciais e outros que vieram após o pioneiro trabalho de Stokoe revelaram que as línguas gestuais eram verdadeiras línguas. sintaxe e semântica. que o gesto pode ser decomposto em três parâmetros básicos: O lugar no espaço onde as mãos se movem. na língua gestual vários conceitos podem ser emitidos ao mesmo tempo.Ao estudar a Língua gestual Americana (ASL). de se assemelha à das línguas orais. Segundo estes autores. ignorada e até proibida em escolas de deficientes auditivos. Nos anos 70 foi feito o primeiro levantamento sobre a linguagem gestual portuguesa. provocaram nos surdos atitudes de hostilidade e desconfiança. despertaram a comunidade surda para o facto de. ao contrário do que seria de esperar. Curiosamente. Um dos aspectos menos compreendidos da língua gestual é o da iconicidade. que. posição e movimento das mãos. a postura e o movimento da cabeça e o corpo desempenham importantes funções gramaticais e linguísticas. assim como da combinação de um número restrito de sons (fonemas) se cria um vasto número de unidades dotadas de significado (palavras). Para uma gramática da LGP). Stokoe encontra uma estrutura que. morfologia. a língua gestual expressa-se principalmente através da configuração. segundo Sacks (1986). tanto por educadores e pedagogos como pelos próprios familiares de crianças surdas. com a combinação de um número restrito de unidades mínimas na dimensão gestual se pode produzir um grande número de unidades com significados (gestos). prosseguindo as investigações no sentido de se aprofundar e divulgar a gramática da língua gestual portuguesa (Amaral. estes estudos. praticamente. permitindo uma enorme riqueza expressiva aos utentes e possuindo também as suas variações dialectais. a configuração da (s) mão (s) e o seu movimento ao realizar o gesto. socioprofissionais e culturais. apesar de serem utilizadores naturais desta língua. A sintaxe da língua gestual é diferente da sintaxe da língua oral. Da sua análise conclui. …. para este autor. Também a expressão facial.

Johnson. 1991. e Alemanha (Dados referidos em Amaral. intitulado “Mãos que falam”. Amaral. nem sequer nas diferentes regiões e cidades de um mesmo país e que só 10 em 100 dos gestos são icónicos. Este estudo apresenta a LGP tanto como uma verdadeira língua digna de ser objecto de estudo por linguistas. como a leitura e a escrita. 1997). concretos e icónicos. Amaral. 1996 e 1997. o autor demonstrou que um mesmo objecto ou significado não é representado pelo mesmo gesto nos diferentes países. Marchesi (1987) exprime também a sua opinião quanto à aparente iconicidade da língua gestual.. sendo os restantes arbitrários. Gestuário da Língua Gestual Portuguesa. No prefácio desta obra. França. 1994. Coutinho e Delgado. vários autores reconhecem que as línguas gestuais.1995 e 2002. longe de serem sistemas icónicos. afirmando que é necessário ter em conta que iconicidade não é sinónimo de não convencional. claramente. permite o desenvolvimento cognitivo e de pensamento abstracto (Marschark. antes. Coutinho e Delgado-Martins (1994). que se debruçava já sobre o estatuto linguístico da língua gestual portuguesa e da sua importância na educação das crianças surdas afirmava. de modo efectivo. pode ler-se: “A criação de um documento escrito detalhando a estrutura e o conteúdo da LGP demonstra que esta língua é uma língua em si e por si. cujo léxico se caracteriza por símbolos abstractos e essencialmente arbitrários. mas. 1980. incapazes de funcionar como uma autêntica língua. em 1980. professor e investigador da Universidade de Gallaudet. Dinamarca. tal como esta. . que “Estes resultados demonstram. 1993. 2006) realizaram estudos sobre a Língua Gestual Portuguesa reconhecendo e comprovando o estatuto de língua da língua gestual e a sua importância no desenvolvimento linguístico e cognitivo das crianças surdas portuguesas. Hoje. Coutinho e Delgado-Martins publicaram em livro os resultados preliminares de uma investigação sobre a gramática da Língua Gestual Portuguesa que vinha desmistificar algumas ideias preconcebidas sobre a língua gestual e reafirmar o estatuto de língua da língua gestual portuguesa. que o uso precoce da linguagem gestual não impede a aquisição e o desenvolvimento da linguagem oral e das capacidades com ela relacionadas.Martins1994. 1993. Inglaterra. levando-os a afirmar que a língua gestual é uma colecção mal estruturada de gestos pantomínicos. essa aquisição. da autoria de Robert E. 1980: 61). Holanda. Suécia. Coutinho. facilita. Amaral. Em 1994. Bettencourt e Soares. Delgado Martins. O primeiro estudo científico realizado e publicado em Portugal.significado tem sido o principal argumento de que se servem os opositores do gestualismo. Delgado-Martins. à semelhança do que acontecia noutros países: Estados Unidos da América.” (Prata. A comprová-lo. são sistemas estruturados e abstractos ao mesmo nível da linguagem verbal e. Diversos investigadores nacionais (Prata. Itália. independente da Língua Portuguesa – ou mesmo de qualquer língua falada – quer na estrutura quer no vocabulário.

como uma língua a ser usada pela comunidade surda e na educação de surdos”. 1998). porém. a sua integração na sociedade dos ouvintes não passa pela aprendizagem "artificial" de uma linguagem que lhes é imposta . Para este investigador. Deste modo. a sua integração far-se-á por meios opostos aos preconizados pelos defensores da filosofia oralista. o primeiro Instituto para Surdos-Mudos e Cegos foi fundado por decisão do rei D. Valorizando o uso da comunicação gestual. 2.6 – Educação de surdos na América/Suécia 2. 1991). Par Aron Borg. a transmissão de conhecimentos e uma igualdade de oportunidades do cidadão surdo. o longo percurso do caracter asilar e assistencial das instituições de acolhimento de surdos. . Este chamou um especialista sueco. Sendo a língua gestual o meio de comunicação mais próximo e natural dos surdos. Tal como Wallis e L’Epée.7 . à semelhança do que se fazia no Instituo de surdos de Estocolmo. Aron Borg usava um alfabeto manual e a língua gestual na educação de surdos Fernandes (2004). Em Portugal. entre os 8 e os 14 anos. a criança surda deve adquirir a sua língua duma forma natural. na dependência da Casa Pia de Lisboa. os seus defensores preconizam que. As orientações para a educação de surdos em Portugal também não são muito diferentes das de outros países Europeus. a Infanta Dona Isabel Maria. constituindo-se os surdos como uma comunidade linguística e cultural. ficando Par Aron Borg e o seu irmão. João Borg. possui estatuto de língua. …….a língua dos ouvintes (Lane. Este instituto acolheu 12 surdos-mudos. convencional e colectiva (embora de uso mais restrito) tal como a língua oral. indigentes. (Op. relativamente às metodologias educativas e acompanham. defendendo a nível académico. sendo arbitrária. a escolarização em língua gestual desde a infância até à universidade e a existência de monitores e intérpretes de língua gestual que possam facilitar a aprendizagem da língua. com perdas de personalidade e de inteligência. responsáveis pela educação destas crianças. recorria-se a metodologias gestuais com suporte na escrita. Na sua tese de doutoramento. com o mesmo ritmo e prazer que a criança ouvinte (Ferreira. bem como o modelo médico. são responsáveis por conferir esta imagem negativa aos indivíduos surdos. para o orientar. 16). Esta filosofia abre uma nova tendência na educação dos surdos.O caso de Portugal Segundo Baptista (2008). a imagem do surdo em Portugal não difere da dos outros países. que entre os séculos XIX e XX. patológico da surdez. quase que linearmente a história da educação especial. este autor lembra o médico Bissaya-Barreto (1970) e Maria Gabriela Penha (1962) que consideram o surdo como diminuído sensorial. Podemos concluir que a língua gestual. João VI em 1823 durante a regência de sua filha. Salienta-se.cit: p.

2006). congregação que assume. é a partir desta data que se institui o método oral puro em Portugal. Entusiasmado com os resultados . económico e pedagógico. cria o Curso de Formação Especializada para Professores de Ensino de Deficientes Auditivos. dez anos depois. linguagem e desenho. Suíça. uma escola para o ensino de surdos dirigida. de cariz político. António Aurélio da Costa Ferreira (1913). sob a direcção de Nicolau Pavão de Sousa e de Cruz Filipe e. segundo Ferreira (2006). Holanda. que defendia o método da mímica e da escrita. as primeiras influências do método oralista da escola de paris. no qual participou Campos Tavares. A 21 de Abril de 1915. que estrutura o novo plano curricular para a educação de surdos e que inclui o ensino escolar e profissional. agora. em Bruxelas onde obtêm formação no método intuitivo oral puro. a direcção do Instituto de Surdos-mudos de Araújo Porto e que fixa as instalações do Porto destinadas a acolher as alunas do sexo feminino e as de Lisboa os alunos do sexo masculino. realiza-se um Congresso Internacional de Educadores de surdos em Groningen. Este método baseava-se na concepção de que as crianças surdas pré-linguísticas podiam aprender a falar a língua oral. o Instituto Municipal de Surdos é anexo à Casa Pia. aulas de articulação. então director da Casa Pia. onde era usada a língua gestual e a escrita como meios essenciais de educação de surdos. volta a existir em Lisboa. à data provedor da Casa Pia. Em 1942. método que continuou a ser usado por outros educadores. que regressa à Suécia. em 1947. 2011). perdendo o vínculo à Casa Pia e o seu mentor pedagógico. Bélgica. Emídio José de Vasconcelos funda o Instituto de Surdos de Lisboa (1880-1887). recorrendo à dactilologia. Em 1950. entre eles. O aumento de alunos levanta a necessidade de mais professores especializados. Em 1893. Coincidindo com a abolição das línguas gestuais a nível Europeu. o Instituto foi alvo de várias adversidades. O Prof. é inaugurado o Instituto de Surdos-Mudos de Araújo Porto. Em 1905. Cruz Filipe representante português no Bureau International d´Audiophonologie. vêse surgir em Portugal. em conjunto com alunos ouvintes. que substitui o método mímico pelo oralista (Ferreira. criado por Van Uden e aplicado em escolas de surdos na Holanda. à linguagem escrita e à articulação par o ensino de surdos. e após o encerramento da escola Normal de Guimarães (1872) e Porto (1877). O Instituto encerra definitivamente em 1860 (Carvalho. como língua materna. como método oficial e de excelência na educação de surdos. dirigido por Miranda de Barros. nomeadamente o método materno-reflexivo. o qual toma conhecimento de métodos de ensino oral mais modernos. é publicado o Decreto-lei nº 1522. Na década de 70. pelo padre Pedro Maria Aguilar.A partir de 1828. Em 1907 são enviados dois alunos para o Instituto Nacional de Surdos-Mudos de Paris. o ensino das meninas surdas é entregue à congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição que cria o Instituto de SurdosMudos da Imaculada Conceição. Inglaterra e França e que apresentava bons resultados.

criado por Guberina. Instituto de Surdos de Campanhã. Carlos Pinto de Ascensão substitui Campos Tavares na direcção do Instituto Jacob Rodrigues Pereira. tendo sido criada a Divisão do Ensino Especial da Divisão Geral do Ensino Básico do Ministério da Educação (DGEB/ME). Ao longo dos anos 60 assiste-se às primeiras tentativas de integração das crianças com deficiência. o Ministério da Educação passa a ter mais responsabilidades na área da educação destas crianças. Angélica (2000). propunha 1000 no 1º Ciclo e 100 no 2º. Em 1963. No caso dos surdos. segundo Correia citado por Ruella (2000:45). Campos Tavares cria a Associação Portuguesa para o Progresso do Ensino de Surdos que inicia a publicação de uma revista bianual “A Criança Surda”. Segundo Carvalho. O aluno surdo na . Ainda que esta integração não contemplasse as crianças consideradas inaptas para a aprendizagem. escolar e social. continuando. Criam-se as equipas de Ensino Integrado que. a Manchester para se especializar no ensino de surdos. as que apresentavam deficiência mas eram inteligentes e compreendiam os professores eram enviadas para as escolas regulares. o qual. Viseu (1968). Posteriormente. neste programa. vem a ser nomeado director do Instituto Jacob Rodrigues Pereira e do Curso de Formação especializada de professores. todos eles. Assim são criados os Colégio de S.com/2010/02/historia-dos-surdos-no-mundo-cont3. professor na Casa Pia. Assim seguiu o método maternoreflexivo.blogspot. o Instituto de Surdos de Bencanta (1964) e o Instituto de Surdos do Funchal (1965). porém. as primeiras experiências de integração colocaram 1 ou 2 alunos surdos. Francisco de Sales (1957). das crianças com deficiência”. in “Breve História dos Surdos no Mundo e em Portugal” (2007:XVI). têm como “objectivo fundamental dar cumprimento à integração familiar.supostamente obtidos com a sua aplicação. o método natural (treino de fala e auditivo) e o método verbotonal (treino da articulação das palavras e memorização de unidades mais longas na frase). Relativamente ao número de alunos a serem integrados. porém. Instituto de Surdos de Beja (1969). Instituto António Cândido (1970). Casa do Infante. previa também. das crianças surdas. a defender uma metodologia oralista. Esta divisão apresenta o programa de Compensação Educativa que previa que o ensino primário. Em 1970. em consequência deste programa assiste-se em 1974 “a uma renovação Pedagógica no campo da surdez”. a formação de professores era também contemplada sendo a proposta especializar um professor por cada 20 alunos no 1º Ciclo ou por cada 10 no 2º Ciclo (http://lingua-gestualportuguesa.html). os alunos seriam encaminhados para oficinas de treino profissional. (Ruella. fosse ministrado em escolas especiais sob a alçada do Ministério da Assistência Social (MAS) e tivesse uma duração média de oito anos. e envia António Gonçalves Amaral. estas continuavam em escolas especiais. no máximo. num período de 6 anos. em 1955. Por esta altura aparecem iniciativas concretas do interesse pela educação de surdos. Instituto de Surdos de Ponta Delgada (1968). Este programa. Porto (1968). em turma de ouvintes. inspirados no modelo oralista das escolas já existentes.

Legislação Nacional Ao longo da história de surdos em Portugal. coordenado por Isabel Prata. criados os Núcleos de Apoio a Crianças Deficientes Auditivas (NACDA) e os Núcleos de Apoio à Deficiência Auditiva (NADA). Lisboa: Instituto de Inovação Educacional).escola do regular: a importância do contexto familiar e escolar. Sendo que a nossa pergunta de partida se centra no decreto-lei 3/2008 de 7 de Janeiro. é criado o 1º curso de intérpretes de Língua Gestual Portuguesa.7. tendo-se realizado nos anos 80 a primeira experiência de ensino bilingue. com monitores surdos. a técnicos e futuros intérpretes de LGP e também a pessoas surdas.1 – Legislação 2. a qual. orientado por José Bettencourt e João Alberto Ferreira que ministram o ensino da LGP a docentes ouvintes. promovidas pela Divisão de Ensino Especial (DEE). editam o livro “Mãos que Falam”. resultado do programa de Cooperação Luso-Sueco. futuras formadoras de LGP.7. de 14 de Outubro – Lei de Bases do Sistema Educativo .  Lei nº 46/86. a DEE e o laboratório de Fonética da faculdade de letras de Lisboa. Após a reforma de Veiga Simão. abre portas a uma série de investigações sobre a língua Gestual Portuguesa. do Gestualismo e do Bilinguismo. facultam experiências ao longo do país sendo em 1978. Só no final da década de 70. resultado de um protocolo entre a DGEB e o Secretariado Nacional de Reabilitação (SNR) é publicada a primeira edição do Gestuário. a discussão em torno da Língua Gestual. consideramos pertinente efectuar uma compilação da legislação mais revelante relativa ao ensino de surdos. Aparecem os primeiros estudos sobre a Língua Gestual Portuguesa (LGP) (Prata e Delgado Martins 1979). muitas opções foram feitas em relação aos métodos escolhidos para o ensino de surdos. alterações que se tornam mais visíveis através dos benefícios pedagógicos resultantes do Programa de Cooperação Luso-Sueco. no nosso país. em Portugal. Passa então a adoptar-se a comunicação total. as alterações na Educação Especial. na escola de A-da-Beja. Em 1992. Também da responsabilidade do SNR. no Sul do país. a partir de 1974. que adopta metodologias enquadradas na filosofia da Comunicação total. Em 1980.2 . formalmente. emerge. 2. Vão surgindo.

2007). social e familiar futura (Vaz. • Lei 9/89 de 2 de Maio . tendo.Assiste-se a uma modificação no que respeita à concepção de Escola. Pretendia-se. com ressalva do exercício ou do cumprimento daqueles para os quais se encontrem incapacitados”. será preparando-o para uma vida autónoma que poderá abrir caminhos à vida profissional. a escola obriga-se a aceitar todas crianças/jovens. Apela-se. passando a valorizar as diferenças de cada aluno e entendendo-os como uma fonte de riqueza para um ensino aberto. p. Os alunos têm “direito à educação. nas estruturas regulares de ensino. condições adequadas ao seu desenvolvimento e pleno aproveitamento das suas capacidades” (Artigo 7º. do seu artigo 71º: “Os cidadãos física ou mentalmente deficientes gozam plenamente dos direitos e estão sujeitos aos deveres consignados na Constituição. um dos principais objectivos consagrados é “assegurar às crianças com necessidades educativas específicas. nomeadamente no que refere o ponto um. Em relação ao primeiro diploma. se não for no sentido da escolarização. então à promoção de um sistema educativo eminentemente democrático que contribua para o desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indivíduos. A escola deixou de ser vista como uma instituição voltada apenas para os alunos mais capacitados intelectualmente. qualquer aluno pode ter favorecido o seu desenvolvimento pessoal e social. Assim. em igualdade de circunstâncias. mas. • Lei 35/90 de 25 de Janeiro Define a obrigatoriedade da escolaridade obrigatória para os alunos com necessidades educativas especiais  Decreto-Lei 319/91 de 23 de Agosto Neste decreto-lei inscrevem-se as medidas de regime educativo especial a aplicar a alunos com necessidades educativas especiais no ensino básico e secundário. independentemente se têm ou não qualquer tipo de limitação física ou intelectual. dar representação aos princípios consagrados na Constituição Portuguesa. no meio menos restritivo possível. .Lei de Bases da Prevenção e da Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência Vem estabelecer que a pessoa surda é uma pessoa com deficiência. Deste modo. sempre que possível. com integral respeito pela liberdade de aprender e ensinar. alínea j). Por outro lado. é definido o regime de gratuitidade e escolaridade obrigatória para todas as crianças/jovens sem excepção. 158). devidas designadamente a deficiências físicas e mentais. direito à reabilitação. ao frequentar a escola. 1996. (Costa. aceita-se que. assim. Os alunos surdos não foram referidos especificamente. todos os alunos têm direito ao ensino básico de uma forma gratuita. ou seja. então.

As crianças surdas integradas numa turma de ouvintes nunca devem estar sós. o que pressupõe um conhecimento. Com a publicação decreto acima citado. Vejamos o artigo 5º. configurou-se na dinâmica das relações entre a comunidade e essa pessoa” (Mattos. pretendeu-se assegurar às crianças portadoras de problemas físicos ou intelectuais. . 2004. Este articulado levantava alguns problemas. este veio consagrar a lógica da ‘normalização’. O Decreto-lei 319/91. As suas necessidades prendem-se apenas com os meios de comunicação utilizados e sobretudo com as línguas de ensino. esta lei. p. da situação de cada aluno no seu contexto sócio-escolar e familiar. b) Participação dos encarregados de educação em todo o processo educativo. que no ponto 2 dizia:  As adaptações curriculares previstas no presente artigo não prejudicam o cumprimento dos objectivos gerais dos ciclos e níveis de ensino frequentados e só são aplicáveis quando se verifique que o recurso a equipamentos especiais de compensação não é suficiente. a sua capacidade intelectual é semelhante à de qualquer outra criança. Devido à natureza da sua língua e cultura. o mais completo possível. no ponto 2:  As classes ou turmas previstas no número anterior não devem incluir mais de dois alunos com necessidades educativas especiais. enquanto tentativa de integrar a pessoa com deficiência no meio social. “O movimento de normalização. para as pessoas da sua idade e meio envolvente. o factor de integração acaba por ter um efeito perverso de segregação (Baptista (2008)). a frequência em escolas de ensino regular. em alguns dos seus aspectos. perspectivando a integração pelos seguintes princípios: a) Adequação das medidas a aplicar às necessidades educativas individuais. Já manifestamos a nossa opinião de que estas adaptações curriculares põem em causa o conceito de ensino especial para os surdos.uma vez que integravam o regime educativo especial. também a eles diz respeito. o aluno surdo precisa de se encontrar entre pares para poder progredir academicamente. isto é. mas em grupos e de preferência em número superior. a propósito da “Adequação na organização de classes ou turmas” podia ler-se. salvo casos excepcionais adequadamente fundamentados. De contrário. Apesar da salvaguarda que é feita. sobre adaptações curriculares. O que se pretende não é reduzir ou aligeirar os currículos mas sim utilizar métodos de ensino adequados de modo a que estes alunos atinjam sucesso escolar. No artigo 9º. Caso a criança surda não apresente outras deficiências associadas. a ideia de que as pessoas com deficiência devem frequentar as valências sociais e comunitárias menos restritivas e o mais próximo possível do normal. sabemos que o recurso à adaptação e redução curricular no ensino dos surdos foi prática corrente na maioria das escolas portuguesas. 52).

publicam “Para uma Gramática da Língua Gestual Portuguesa”. pela orientação global da intervenção junto destes alunos. com todos os requisitos linguísticos comuns às diferentes línguas e em 1997. não basta consolidarmos a integração. alínea h. com vista ao pleno sucesso educativo de todos os alunos. tendo sempre presente uma perspectiva de integração. como expressão cultural e património de Portugal e como ferramenta que permite a muitos cidadãos aceder à educação conseguindo uma efectiva igualdade de oportunidades. na citada Declaração. Neste sentido. que não deverão ser encaradas como uma contradição em relação à escola inclusiva.» . pela Constituição da República Portuguesa. a LGP passa a ter o estatuto de disciplina. de modo a possibilitar uma planificação educativa flexível. no Artigo 74. garantindo-lhes a aquisição de competências universais facilitadoras do exercício de uma cidadania activa. Sobretudo após a Declaração de Salamanca (1994). É imperativo que todos os alunos se sintam verdadeiramente incluídos na dinâmica escolar. é possível que a sua educação possa ser ministrada de forma mais adequada em escolas especiais ou em unidades ou classes especiais nas escolas regulares. a LGP é reconhecida. mesmo daqueles que sejam portadores de uma qualquer deficiência. Tal conceito legitima a individualização e a personalização do ensino. A importância da linguagem gestual como o meio de comunicação entre os surdos. deverá ser reconhecida. lê-se no seu parágrafo 21 (capítulo “Política e Organização”. por exemplo. a mais recente investigação tem evidenciado a vantagem da frequência de escolas de referência. Maria Augusta Amaral e Amândio Coutinho.c)Responsabilização da escola do ensino regular (todos os profissionais envolvidos). Devido às necessidades particulares dos surdos e dos surdos/cegos. e garantir-se-á que os surdos tenham acesso à educação na linguagem gestual do seu país. no esforço que ela desenvolve em direcção ao atendimento adequado de todos os alunos. secção “Directrizes para a Acção Nacional”): «21. no Instituto Jacob Rodrigues Pereira. Em 1994. As políticas educativas devem ter em conta as diferenças individuais e as situações distintas. Aliás. Com o reconhecimento oficial da LGP. o conceito de escola inclusiva tem regido opções políticas bem como a acção de educadores. Mas. após anos de investigação linguística da língua gestual portuguesa. onde concluem e demonstram que a LGP se inscreve como uma autentica língua. No caso concreto dos alunos surdos. d) Diversificação das medidas a tomar para cada caso. o Decreto-Lei 319/91 era utilizado como instrumento de suporte da escola regular. e só neste.

o . um dos aspectos delicados desta legislação. aceitando a língua gestual como um sistema natural de comunicação e educação dos indivíduos com surdez. que formou uma comissão de trabalho. de jovens surdos. Estas escolas deveriam. em alguns casos de intérpretes de LGP. de professores e técnicos. de Terapeutas de Fala e. e admitindo a LGP como língua materna dos surdos. alínea H:  “Proteger e valorizar a língua gestual portuguesa enquanto expressão cultural e instrumento de acesso à educação e da igualdade de oportunidades. constituída por representantes de diferentes associações de surdos. preferencialmente com formação em língua gestual portuguesa. era a formação em língua gestual portuguesa. integrar docentes com formação especializada nas áreas da comunicação e linguagem e da deficiência auditiva. e não apenas “preferencial”. sob a designação de Comissão para o Reconhecimento e Protecção da Língua Gestual Portuguesa (CRPLGP). obrigatória para todos os professores que trabalhassem com surdos.” A inclusão deste reconhecimento na Constituição da República Portuguesa foi o resultado de uma luta da comunidade surda portuguesa. em nossa opinião. mas enfrentou algumas dificuldades na sua implementação. discutida e aprovada em 1997. reconhecendo a existência da “identidade surda” e de uma “cultura dos surdos”. igualmente. a legislação mais pertinente no âmbito da educação de alunos surdos foi o. • Despacho 7520/98 de 6 de Maio da Secretaria de Estado da Educação e Inovação Em Portugal. Este documento constituiu um passo importante para a educação bilingue de crianças e jovens surdos em Portugal. que define os princípios básicos de funcionamento das Unidades de Apoio a Alunos Surdos (UAAS). Ainda que o Despacho assentasse numa perspectiva baseada na filosofia humanista de carácter socioeducativo.(Artigo 23º)  Lei 1/97 de 20 de Setembro da Assembleia da República (Quarta Revisão Constitucional) Esta lei da Assembleia da República estabelece o reconhecimento oficial da Língua Gestual Portuguesa e corresponde à 4ª revisão constitucional. reconhecendo o direito à livre expressão das minorias culturais e linguísticas. As escolas onde se implementaram as UAAS eram providas de formadores surdos de LGP. A referência à língua gestual portuguesa surge na secção sobre “Educação” e diz no seu Artigo 47º. O que deveria ser de lei. a qual teve o importante papel de informar e sensibilizar a sociedade Portuguesa para a temática dos surdos em Portugal e para a importância da Língua Gestual Portuguesa. Este último ponto constituiu. de pais. nº 2.

É neste contexto que o decreto-lei nº3/2008. falado. o domínio do português escrito e. quer no acesso quer nos resultados. para os intérpretes de língua gestual. eventualmente. • Decreto-lei 3/2008 publicado a 7 de Janeiro Apoiado pelo aprofundamento das investigações académicas sobre as línguas gestuais e sobre a educação de surdos revoga o anterior documento legal (Decreto-lei 319/91). Os próprios professores que investiam na sua autoformação não tinham qualquer estabilidade. sendo que por esta se entende a garantia de igualdade. podemos ler: 1 — A educação das crianças e jovens surdos deve ser feita em ambientes bilingues que possibilitem o domínio da LGP. nem garantia de que o seu investimento continuasse a ser posto ao serviço dos alunos surdos. que o legislador entende por ensino bilingue toda a envolvência escolar que permita desenvolver e valorizar o desenvolvimento da Língua Gestual Portuguesa (LGP) e a Cultura da Comunidade Surda 2 . que definisse claramente as suas funções. bem como a sua situação de contratação. a qual se regia pelo disposto no despacho conjunto nº 105/97. para a adequação do processo de acesso ao currículo e para a inclusão escolar e social. Não existia uma carreira. competindo à escola contribuir para o crescimento linguístico dos alunos surdos. que estabelecia o regime aplicável à prestação de serviços de apoio educativo. sendo à LGP reconhecido o estatuto de língua materna (L1 ou LM) e ao Português o de língua segunda (L2). norteando o actual sistema de educação especial. No Artigo 23º do referido decreto-lei. reconhece aos encarregados de educação de alunos surdos o direito de optar pela educação bilingue. após a leitura deste primeiro ponto. por exemplo. refere que a “educação inclusiva visa a equidade educativa. inseridos numa comunidade linguística de referência e num grupo de socialização constituído por .Departamento do Ministério da Educação responsável pela elaboração de um programa oficial de LGP nunca procedeu à sua construção e a língua Gestual Portuguesa não passou de mero instrumento de acesso ao currículo regular. diz respeito à afectação de docentes e de outros técnicos às escolas com unidades de apoio à educação de alunos surdos. Entendemos. de 7 de Janeiro. acesso esse nem sempre conseguido por parte deste grupo de alunos. do artigo 23º. de 1 de Julho.A concentração dos alunos surdos. Outra falha encontrada nesta lei.

” resposta educativa prevê: Flexibilidade. A     .  Intérpretes de LGP.º 2 do artigo 4. iniciando-se este processo nas primeiras idades e concluindo-se no ensino secundário. foi criada uma rede nacional de escolas de referência.  Docentes surdos de LGP. em agrupamentos de escolas ou escolas secundárias que concentram estes alunos numa escola.º constituem uma resposta educativa especializada desenvolvida.As escolas de referência para a educação bilingue de alunos surdos a que se refere a alínea a) do n. participando em actividades desenvolvidas pela escola com os alunos ouvintes. promove condições adequadas ao desenvolvimento desta língua e possibilita o desenvolvimento do ensino e da aprendizagem em grupos ou turmas de alunos surdos. são criadas por despacho ministerial: a) Escolas de referência para a educação bilingue de alunos surdos. As escolas de referência para a educação bilingue de alunos surdos devem contemplar os seguintes técnicos (Decreto – Lei nº 3/ 2008):  Docentes (surdos e ouvintes em todos os níveis de educação e ensino) de educação especial especializados em surdez. crianças e jovens de diversas idades que utilizam a LGP. A formação de turmas de surdos do pré-escolar ao ensino secundário.  A introdução de áreas curriculares específicas: a língua gestual portuguesa (L1) e o português segunda língua (L2). com competência em LGP e formação e experiência no ensino bilingue destes alunos. e uma língua estrangeira escrita do 3º ciclo do ensino básico ao ensino secundário (Decreto – Lei nº 3/ 2008).  Terapeutas da fala. com carácter individual e dinâmico.Para garantir as adequações de carácter organizativo e de funcionamento referidas no número anterior.” (nº 2 do Artigo 4º) “3 . Participação da família.adultos. Avaliação sistemática do processo de ensino/ aprendizagem do aluno. em grupos ou turmas de alunos surdos.” (Artigo 23º De modo a facilitar a concentração de meios humanos e materiais capazes de propiciar uma resposta educativa de qualidade a estes alunos. do préescolar ao ensino secundário. tal como é preconizada no Decreto-lei acima citado: “2 .

que o Programa Educativo Individual é elaborado. Com esta nova legislação. Com esta nova lei. bem como a promoção da igualdade de oportunidades.No quadro da equidade educativa. em turmas só de alunos surdos. familiar ou numa instituição de carácter ocupacional”. a estabilidade emocional. obtidos por referência à Classificação Internacional da Funcionalidade. da Organização Mundial de Saúde. Assim. surge pela primeira vez a figura do Plano Individual de Transição. de 7 de Janeiro). exercendo o seu poder paternal nos termos da lei. vem definir que “os pais ou encarregados de educação têm o direito e o dever de participar activamente. a preparação para prosseguimento de estudos ou para uma adequada preparação para a vida pós-escolar ou profissional”. o acesso e o sucesso educativo. Incapacidade e Saúde. a introdução da língua gestual Portuguesa como disciplina curricular e da Língua Portuguesa . pelos encarregados de educação e sempre que necessário. para o exercício de uma actividade profissional com adequada inserção social. criando condições para a adequação do processo educativo às necessidades educativas especiais dos alunos com limitações significativas ao nível da actividade e da participação num ou vários domínios da vida de carácter permanente. ponto 1. a iniciar três anos antes da idade limite de escolaridade obrigatória – artigo 14º. que a “educação das crianças com necessidades educativas especiais é uma tarefa compartilhada por pais e profissionais” (p. nos seus pontos 1 e 2. pelo docente de educação especial. O artigo 3º. a autonomia. podemos ver que o referido decreto-lei define os apoios especializados a prestar desde a educação pré-escolar ao ensino secundário. em Janeiro de 2008 vem. no seu ponto 59. A sua participação activa passa também pelo processo de referenciação – artigo 6º. pelo docente do grupo ou turma (na educação pré-escolar e 1º ciclo) ou pelo director de turma (nos 2º/3º ciclos e ensino secundário). em tudo o que se relacione com a educação especial a prestar ao seu filho” (ponto – 1). ou seja. No seu ponto 2. servindo de base à elaboração do programa educativo individual” (artigo 6º. ponto 1 – c) e pela elaboração do programa educativo individual – artigo 10º que. o sistema e as práticas educativas devem assegurar a gestão da diversidade da qual decorrem diferentes tipos de estratégias que permitam responder às necessidades educativas dos alunos” (Decreto-lei 3/2008. segundo o Ministério da Educação “assumir inequivocamente uma educação bilingue uma vez que preconiza a concentração de alunos surdos em escolas de referência. A publicação do Decreto-lei n. ponto 3).º3/2008. conjunta e obrigatoriamente. dá-se um novo rumo ao processo de avaliação das necessidades educativas especiais das crianças. “destinado a promover a transição para a vida pós-escolar e. 37). expressa. sempre que possível. respectivamente. no artigo 1º. sendo que este inicia com a elaboração de um relatório técnico-pedagógico onde “constam os resultados decorrentes da avaliação. alterado pela Lei nº 21/2008 de 12 de Maio. por outros técnicos. aponta os objectivos da educação especial para “a inclusão educativa e social. consolidando a ideia já consignada na Declaração de Salamanca.

. dirigidas a alunos com necessidades educativas especiais. 2009). bem como a exigência de elevados níveis de competência em LGP por parte dos docentes” (Almeida D. (Não especificando a sua etiologia.) No seu artigo 10º.  Decreto-Lei 6/2001 de 18 de Janeiro. Cabral E.. aqueles que apresentem incapacidades devidas a deficiência de ordem sensorial (surdez e cegueira). mas também não exclui os alunos surdos. inclui no grupo de alunos com NEE.. não inclui. rectificado pela Declaração de Rectificação nº. 4-A/01 de 28 de Fevereiro Este decreto-lei aprova a reorganização curricular do ensino básico. No artigo 8º prevê-se o ensino da língua portuguesa como segunda língua para os alunos cuja língua materna não seja o português. in Educação Bilingue de alunos Surdos -Manual de Apoio à Prática. Prevê a regulamentação das medidas especiais de educação. Morgado M. Filipe I.como segunda língua.. portanto..

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Quando comparados desempenhos escolares de surdos. A importância da aquisição de uma língua como instrumento de comunicação é hoje inquestionável. dos primeiros em relação aos segundos. que a comunicação entre todos os membros da família tem de ser efectivamente entre todos e que o membro surdo só acede a ela se esta for na língua gestual. na criança surda do que àquelas que projecta no bebé ouvinte.1– Modelos na educação dos surdos Referimo-nos. a maioria das famílias ouvintes não deposita. Delgado Martins (1997) refere que embora privada de comunicação oral. 2000)). podemos verificar que existe uma diferença substancial. quando se nasce surdo numa família de ouvintes.à entrada da escola. “nascer surdo numa família de surdos não é problema”. mesmo as mais tolerantes. pois. exercem a sua influência. a família. é necessário que a criança surda siga um percurso equivalente às crianças ouvintes. Segundo a mesma autora. à pergunta levantada pelo Professor Afonso Baptista (2008). a criança surda precisa de desenvolver a sua relação afectiva e social. É imperioso. de modalidade visual na sua percepção e manual na sua produção".Opções linguísticas e respostas educativas para surdos 3. na introdução deste capítulo.32). as representações sociais dos surdos. como é o caso da maioria dos surdos em Portugal (90% das crianças surdas são filhas de pais ouvintes (Costa. porque o problema de partida do nosso trabalho é o de perceber se os surdos continuam não a ter uma educação adequada às suas características e necessidades ou se. filhos de pais surdos com surdos. estas crianças só sentirão …. a de saber se os surdos seriam mesmo deficientes.3 . com frequência. Pensamos que o sucesso ou insucesso escolar dos alunos surdos se desenha antes da entrada destas crianças na escola. desenvolver este sistema linguístico e comunicativo o mais precocemente possível. Mais uma vez. um dos seus membros surdo. as mesmas perspectivas. à partida. filhos de pais ouvintes. para melhor. estruturando o pensamento. que era. a língua gestual portuguesa (Delgado Martins. pois. através de uma comunicação gestual. Ao ver nascer. nunca esquecendo a sua estreita ligação com a imagem social dos surdos. p. Segundo Baptista (2008: ). O verdadeiro problema acontece. cidadãos de pleno direito. partindo "não de uma língua oral mas de uma língua diferente. se esta continuar a recusar a língua e a cultura dos surdos. relembramos. E voltamos a ela. foram e estão a ser dados os passos necessários para o modelo de educação que preconizamos como detentor de potencialidades de tornar estes cidadãos. Lembrámos um pouco a sua história da educação. envolvendo todos os intervenientes no processo. face à legislação em vigor. Monreal (1995) referiu que a tomada de consciência da existência de uma . encara este acontecimento como “um problema” esquecendo.

o que leva a mãe a adoptar. Parece que o facto de terem um filho surdo. Esta ligação entre mãe e filho é igualmente importante na relação entre uma mãe e a sua criança surda. (Schlesinger. com a sua criança a partir do momento do diagnóstico da surdez. Em vez de se deixarem desanimar pelas dificuldades e pelos fracos resultados divulgados por alguns estudos. O choro ou balbucio começam a adquirir uma importância comunicativa para o bebé. 1996: 284-285) uma psiquiatra que trabalha com crianças surdas e com os seus pais. podem exercer uma influência muito . nas suas interacções com a criança. tristeza. Um primeiro obstáculo que se verifica é o facto de a mãe não conseguir obter prazer em interagir. realizou um estudo onde enfatiza a importância do input linguístico dos pais na aprendizagem de uma língua por estas crianças. Segundo este autor. Para Leopot (1996) algumas dificuldades são susceptíveis de prejudicar a espontaneidade da relação da mãe com a sua criança surda. culpa. fundamentais para o processo de vinculação. incluindo sofrimento. esta investigadora conclui que os melhores leitores são aqueles cujas mães demonstraram menor ansiedade: Este estudo reforça a importância da sensibilização e aconselhamento dados aos pais de crianças surdas para os ajudar a adquirir estratégias que permitam um melhor desenvolvimento global dos seus filhos surdos. Um segundo obstáculo relaciona-se com os sentimentos que se tornam imperiosos ter devido à sua responsabilidade educativa. Esta interacção entre bebé e mãe marca o início dos processos mentais. Para Vygotsky a linguagem é um factor fundamental para o desenvolvimento do conhecimento a partir dos conceitos. confusão. Ora é através de interacções que se constroem os diálogos inter-objectivos. O bebé. Não há dúvida que o diagnóstico de uma perda auditiva profunda numa criança filha de pais ouvintes produz nestes pais emoções complexas. por exemplo quando o amamenta ou acarinha para o acalmar.deficiência auditiva na criança e da sua irreversibilidade pode perturbar profundamente o desenrolar das cenas habituais entre pais e filhos. mas também demonstra como este input pode ser modificado pela atitude psicológica da mãe e da sua reacção perante a surdez do seu filho. 2000). Ao comparar os níveis de leitura de crianças surdas com as atitudes positivas das mães em relação aos seus filhos surdos e às suas capacidades. os pais de crianças surdas devem sentir-se encorajados e encararem o desafio de poderem eles próprios contribuir para que os seus filhos atinjam bons níveis de literacia. ao reagir aos estímulos do bebé. começa a atribuir significações às respostas da mãe ao seu choro. a construção deste conhecimento tem início nas trocas comunicativas entre mãe e filho. um estilo mais directivo do que lúdico. que inicialmente tem um comportamento instintivo. A mãe. Hilde Schlesinger. fala com ele e propicia-lhe um ambiente favorável ao desenvolvimento da sua fala. Os pais e outros membros da família. limita a espontaneidade da interacção e da actividade lúdica. potenciados pelo uso da linguagem. raiva e um desejo enorme de fazer a coisa certa para ajudar a criança (Calderon & Greenberg. aos pais ouvintes.

mas. no entanto. informação sobre o seu desenvolvimento linguístico e cognitivo. (Stokoe. Os serviços de saúde deveriam proporcionar o devido aconselhamento aos pais de crianças surdas . isso sim. nomeadamente. todavia. aprendizagem do Português Oral pela criança e da . bem como informação sobre a comunidade surda. através de uma abordagem interdisciplinar proporciona à criança com deficiência auditiva os cuidados médicos e audiofonológicos adequados. mas. deve ser a verdadeira língua. àquilo que se faz com a criança surda. em língua gestual. que fazem parte do legado histórico dessa criança. mas sobretudo. através de diversas formas – aparelhamento auditivo para o melhor aproveitamento possível dos resíduos auditivos. o efeito prejudicial sobre a cognição da criança surda não é tanto devido à falta de audição. não um código artificial inventado. é muito pouco frequente entre os meios médicos. É fundamental que exista um aconselhamento aos pais que tenha em conta os outros aspectos não clínicos da surdez. É importante alertar os pais e a família de que a falta deste ambiente propício e acolhedor do novo ser poderá constituir. com utentes da consulta de Grupo de Surdez Infantil do Hospital de Santa Maria. que se ocupa dos possíveis tratamentos a seguir ou do devido diagnóstico para o uso de aparelhos que recuperem ou melhorem os resíduos auditivos existentes. passado esse momento inicial. em Portugal. há algumas excepções. 2002: 7) Quando a surdez é detectada. Segundo este autor.a par do acompanhamento médico. A comunicação estabelecida entre os pais e os seus filhos surdos. contudo. “Surdez infantil e comportamento parental”. Esta atitude. um factor causador de deficiência e de problemas de desenvolvimento linguístico e cognitivo. como é o caso da consulta de surdez infantil do Hospital de Santa Maria em Lisboa que. é essencial para um bom desenvolvimento cognitivo e linguístico. o problema coloca-se pelo facto de apenas 5% das crianças surdas beneficiarem naturalmente deste ambiente linguístico: aquelas que são filhas de pais surdos e ainda aquelas que estão inseridas em programas “genuinamente bilingues”.significativa no modo como as suas crianças surdas fazem as suas aprendizagens e muitas das crianças surdas que atingem níveis de sucesso têm pais que optimizaram o ambiente linguístico em casa. de acordo com Stokoe (2002). verificou-se que a preocupação central dos pais entrevistados é a de tentar diminuir as consequências da surdez na comunicação. deverão ser apoiados no sentido de iniciarem de imediato uma intervenção precoce conducente à criação de um ambiente facilitador do seu total desenvolvimento linguístico. O desenvolvimento da criança surda num ambiente onde interaja com falantes de língua gestual é tão normal como o de uma criança ouvinte (Stokoe. logo desde o início. os pais de crianças surdas sofrem um choque emocional profundo ao tomarem conhecimento da condição física da sua criança. cognitivo e sócio-emocional. Num estudo realizado por Ana Filipa Rodrigues e António Pires (2002) intitulado. A interacção com a criança em língua gestual promove o seu desenvolvimento cognitivo. a sua língua e a sua cultura. 2002).

As interacções foram filmadas no domicílio em situações de refeição. quer ouvintes. a utilização complementar das modalidades vocais e gestuais. A análise destas filmagens realçou a riqueza das trocas estabelecidas com a criança e a diversidade dos meios de comunicação utilizados pelas mães: vocalizações e palavras. observaram as interacções entre diádes pais (representadas sobretudo pelas mães) e a sua criança. . Constata-se também uma certa influência da variabilidade dos estilos de interacção.Língua Gestual por ela e pelos pais/cuidadores. Rodrigues e António Pires. desde os primeiros meses de vida. de publicado na revista Análise Psicológica ( jul. episódios no decurso dos quais a mãe e a criança realizam simultaneamente a mesma expressão facial. Por exemplo. que podem estar dependentes quer das mães. citado por Marschark (1993). um envolvimento comunicativo estimulante. Outras constatações de Erting e seus colaboradores realçam a importância das componentes visuais da comunicação. ISSN 0870-8231). a importância do contacto físico e do tocar na comunicação entre as mães surdas e a sua criança surda. da autoria de A. etc.3. também. p. quer dos contextos de actividade com a criança. que num quadro de um estudo de larga escala (dirigido pela Universidade de Gallaudet) registaram em vídeo as interacções entre mães surdas e o seu bebé surdo com menos de 6 meses. Mas além desta variabilidade destaca-se. ou seja. durante a maior parte do tempo de interacção (70 a 80%). o apoio directo de familiares e de outras pessoas. e a ansiedade relativa à vida futura em sociedade. Por outro lado. que a preocupação de minimização da surdez assume maior ou menor dimensão consoante o grau de aceitação da surdez. Esta última observação foi verificada por Erting (1990). banho e de jogo. vol. (“Surdez infantil e comportamento parental”. Os trabalhos de Moores (1990) baseados em observações longitudinais a 7 famílias compostas por pais surdos e com crianças quer surdas. isto é. 2002. As observações feitas levaram estes autores a deduzir que a comunicação precoce representa o alicerce apropriado da comunicação linguística futura. as mães surdas utilizam as suas expressões faciais com o fim de estabelecer com o seu bebé episódios de "duos co-activos". revela que as mães surdas apresentam expressões faciais afectivas positivas. gestos. F. Concluíram ainda. permite à mãe fornecer ao bebé. Esta percentagem é menor do que 50% no caso das interacções entre mãe e criança ouvintes.20. no. Estes "duos co-activos" representam o equivalente às "vocalizações em uníssono" (com coincidência da intensidade e dos contornos prosódicos das vocalizações dos dois parceiros) que se pode observar nas interacções entre a mãe e o bebé ouvintes. a análise das interacções face a face com a criança quando esta tem entre os 3 meses e meio e os 6 meses. Os autores constataram que as mães surdas mantêm um contacto físico com a sua criança durante a maior parte das interacções e que elas exploram comportamentos tácteis variados.389-400. Segundo Bouvet (1982) a abordagem comunicativa total praticada pela mãe.

A criança ouvinte tem acesso ao código linguístico. Estudos de Goldin-Meadow e Morford (1985) citados por Schaffer (1996). no conteúdo e na forma com o sistema de fala desenvolvido pelas crianças ouvintes. as crianças surdas estabeleceram uma comunicação ainda mais precoce que as crianças ouvintes. 1991). Parece-nos pertinente a análise ao Decreto-lei …que cria o Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância. os autores constataram que as crianças surdas desenvolviam um sistema gestual comparável. Neste estudo. com vista a garantir condições de desenvolvimento das crianças com funções ou estruturas do corpo que limitam o crescimento pessoal. vem criar um Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância (SNIPI). da Saúde e da Educação.5 meses. e a sua participação nas actividades típicas para a idade. através do meio envolvente nas trocas comunicacionais estabelecidas com os que a rodeiam. refere que numa amostra de crianças surdas filhas de pais surdos. o processo de aprendizagem da língua gestual seria muito mais rápido. Privada de audição. A aprendizagem da língua envolve uma série de processos que passam pela diferenciação e o domínio do material fonético. Estes autores levantam a hipótese que se a criança surda paralelamente à sua vontade de comunicar. referem que a necessidade que as crianças surdas têm em comunicar as leva a construir espontaneamente o seu próprio sistema gestual.A linguagem tem uma função de comunicação e uma função simbólica. social. Comparativamente as crianças ouvintes aprenderam a falar dois ou três meses mais tarde. o décimo sinal aos 13. no entanto estas produções vocais cessam. O SNIPI é desenvolvido através da actuação coordenada dos Ministérios do Trabalho e da Solidariedade Social. Com um modelo correcto como imitação. Estes estudos apontam para a importância da comunicação gestual e seu reflexo no desenvolvimento cognitivo da criança. na sequência dos princípios vertidos na Convenção das Nações Unidas dos Direitos da Criança e no âmbito do Plano de Acção para a Integração das Pessoas com Deficiência ou Incapacidade (2006-2009).2 meses e a primeira combinação de sinais aos 17 meses. levando posteriormente à aquisição das formas semânticas e gramaticais (Rocha. na fase que se estabelecem para as crianças ouvintes o “palrar”. Este Decreto-Lei. os sons que emite não ganham significado e a criança precisa de encontrar outra forma de comunicação. o primeiro sinal reconhecível foi detectado aos 8. Parece tratar-se de um simples exercício motor que não depende da audição. com . ao investigarem um grupo de crianças surdas incapazes de comunicarem oralmente e isoladas de qualquer sinal convencional de língua gestual. A audição e a descriminação de formas sonoras são essenciais para a percepção da palavra no entanto o bebé surdo tal como o bebé ouvinte produz inicialmente produções vocais. agora aprovado na generalidade. tivesse um modelo para imitar. bem como das crianças com risco grave de atraso no desenvolvimento. Schaffer (1996) baseado em investigações de Orlansky e Novack (1983).

a sua educação e todos os aspectos que determinaram a sua actual condição. bem como das crianças com risco grave de atraso no desenvolvimento. ter uma visão geral desta história. d) Apoiar as famílias no acesso a serviços e recursos dos sistemas da segurança social.2. c) Intervir. 1. b) Detectar e sinalizar todas as crianças com risco de alterações ou alterações nas funções e estruturas do corpo ou risco grave de atraso de desenvolvimento. e) Envolver a comunidade através da criação de mecanismos articulados de suportes . consistindo num conjunto organizado de entidades institucionais e de natureza familiar com vista a garantir condições de desenvolvimento das crianças [entre os 0 e os 6 anos de idade] com funções ou estruturas do corpo que limitam o crescimento pessoal. social. .envolvimento das famílias e da comunidade. após a detecção e sinalização nos termos da alínea anterior. que .História da Educação de Surdos Não é nossa intenção fazer uma resenha histórica detalhada sobre a história do surdo. e a sua participação nas actividades típicas para a idade. da saúde e da educação. mas pensamos ser necessário. Tem os seguintes objectivos: a) Assegurar às crianças a protecção dos seus direitos e o desenvolvimento das suas capacidades. através de acções de Intervenção Precoce na Infância (IPI) em todo o território nacional. em função das necessidades do contexto familiar de cada criança elegível. para que seja mais explicita a razão da preocupação com a procura de um modelo educacional efectivo. de modo a prevenir ou reduzir os riscos de atraso no desenvolvimento.

constituindo. lembra que foi neste século que. Amaral. A exclusão pela inclusão”. 2007). de facto. Girolamo Cardano (1501-1576) foi o primeiro a declarar que o surdo era capaz de pensar. Isabel Maria. Maria Raquel Delgado. Desde a antiguidade. a igualdade de oportunidades e o acesso de pleno direito à cidadania das crianças e jovens surdos. compreender. O espanhol Juan Pablo Bonet. por não falarem não tinham capacidade de raciocinar. Afonso José (2008) “Os surdos na escola.garanta. Durante a Idade Média. um sistema lógico que viabilizava construções coerentes e denotava a existência de uma mente racional capaz de analisar ideias e elaborar conceitos a partir delas (Carvalho. o educador alemão Rodolfo Agricola distingue. Segundo Ferreira (2006). o qual consistia na associação de figuras desenhadas para representar a realidade. Carvalho (2007). É consensual. mas no entanto atribuiu a surdez e outras deficiências ao poder da ira divina. em 1620. monge beneditino (Espanha) que se inicia a verdadeira educação dos surdos a nível mundial. na literatura consultada que é com Pedro Ponce de Leon (1520 – 1584). Martins. escrita e oralização. uma vez que admitiam que. A Igreja Católica acreditava que a alma dos surdos não atingia a imortalidade. a Igreja condenou o infanticídio. Situação educativa em Portugal”Baptista. Para tal. Acreditava que a linguagem produzida pelas mãos . apesar das limitações de fala. pela primeira vez. O seu trabalho serviu como ponto de referência para outros educadores de surdos.). ainda sem propriamente uma preocupação educacional. que explicavam a não educabilidade dos surdos. Rogério (2004). assim. estabelecer relações entre as coisas e fazer representações de objectos. C. (1986) “A Criança Deficiente auditiva. surdez de mutismo. seguidor de Pedro Ponce de Leon publica. Esta visão aproxima-se. servimo-nos. (Carvalho. é somente a partir do século XVI. segundo Ferreira (2006) das teorias de Platão e Aristóteles (século IV a. que se encontram os primeiros registos de sucesso de cidadãos surdos. o primeiro tratado de fonética espanhola e geral. Maria de Lurdes Duarte. o primeiro manual de educação de surdos. Carvalho (2007). Paulo Vaz (2007) em “História dos surdos no Mundo e em Portugal”. “nas origens do «ensino especial»: o primeiro Instituto Português de surdos-mudos e Cegos”. 2007). Os surdos foram impedidos de casar até ao século XII. Os surdos eram vistos como o testemunho vivo da constituição dos homens no pecado. a surdez sempre foi vista como uma doença que impossibilitava o surdo de se tornar um cidadão responsável.Ferreira. Desenvolveu uma metodologia de educação de surdos que incluía dactilologia. uma vez que estes não celebravam a eucaristia. silva. António Vieira (2006) “Subsídios para o estudo da história da educação de surdos em Portugal”in O Gesto e a palavra I – antologia de textos sobre a surdez e Carvalho. As suas declarações eram fundeadas num método de aprendizagem. intitulado Reduction de las letras y arte para enseñar a ablar a los mudos. em especial dos textos de Fernandes. refere o médico inglês John Bulwer (1614-1684) como o primeiro inglês a desenvolver um método para comunicar com os surdos e com os mudos.

o aluno já pronunciava e distinguia mais de mil palavras e algumas frases. (Carvalho. Apesar de usar o método oral. O principal objectivo desse método era aproximar o surdo da Língua Francesa. é outro marco importante na história da educação de surdos. 2004: 160). Do seu trabalho com ele. tendo apresentado na Academia de Ciências de Paris alguns dos seus melhores alunos. inicia um ensino colectivo de surdos. encarregou-o da educação do seu filho surdo. na primeira escola pública para surdos (1755). e o presidente da Academia. publica De Loquela. do estatuto de humanos pois reconhece a existência da sua língua. então com 13 anos. Embora tenha publicado algumas obras. Na Academia. abandonando o ensino individual e o isolamento a que estavam destinados (Carvalho. num sistema que incorporava a língua falada e gestos. sendo este. do qual se sabe pouco. também. 2007). como as crianças ouvintes. segundo Carvalho (2007). mais tarde o Instituto Nacional de Surdos e Mudos de Paris (1791). não teve grande influência na educação das pessoas surdas. mas defendeu sempre a oralização para os surdos. apenas modificou o alfabeto de Bonet. Além disso. um dos maiores defensores do oralismo. durante o século XVIII. pela atribuição. Na prática. O rei acabou por atribuir a este educador o cargo de intérprete oficial do reino. segundo Ferreira (2006). criando o sistema “Sinais Metódicos” (usava Língua Gestual na ordem gramatical do Língua Francesa). O seu sucesso na educação de jovens surdos espalhou-se rapidamente. ao mesmo tempo. A importância de L’Epée na educação de surdos passa. baseava-se na ideia de que cada configuração da mão correspondia. a posição e o movimento dos órgãos da fala e também as letras que a escrita necessitava para representar o som. 2007). Jacob Rodrigues Pereira. o primeiro a reconhecer a utilidade dos signos gestuais do surdo. o seu trabalho baseava-se na utilização de gestos. Jacob Rodrigues Pereira utiliza os gestos. (Coelho e outros. . tendo por fundador Heinicke. a primeira tentativa de bilinguismo. Nasce. em Inglaterra. Saboreux de Fontenay. um jovem de dezoito anos que tinha nascido surdo. números e pontuação. educador de surdos.era a única linguagem natural dos surdos. espanhol de ascendência portuguesa. todos se renderam face aos resultados obtidos. fazendo corresponder a cada configuração da mão um som. A língua francesa devia por isso ser ensinada como língua estrangeira. John Wallis (1616-1703). Em 1778 é criada a primeira escola para surdos-mudos Alemã. primeiro. como um tratado de ensino da língua aos surdos. O seu método. considerando que se devia partir da língua gestual para a aprendizagem do francês. aos surdos. assim. na aprendizagem da língua oral. sabia ler e escrever e tinha recebido instrução de um monge surdo através da língua gestual. resultou que. O primeiro. aprender a falar e só depois a escrever. Defendia que os surdos deviam. que viveu em França. o abade francês Charles Michel de L’Epée inicia a instrução formal de crianças surdas. ao fim de um ano. No século XVIII (1750). em França.

Segundo Carvalho (2007). Contudo. a partir dessa altura. o norte-americano Thomas Hopkins Gallaudet (1781 -1851). Jean Massieu. tanto a italiana como a francesa. Ferreira (2006). Apoiou ainda. essa não era a realidade vivenciada em todos os países. O I Congresso de Professores Italianos de Surdos representou um passo importante em direcção ao Congresso de Milão de 1880. desde a segunda metade do século XVIII até meados do século XIX. ganharam mais adeptos. De acordo com Marchesi (1987) os debates realizados entre L’Epée (defensor do método manual) e Heinicke (defensor do método oral). sem dúvida. . em França se defendia o método manual para a educação de surdos. um método misto. sobretudo em França em que muitas escolas particulares adoptaram o método oral. O I Congresso de Professores Italianos de Surdos representou um passo importante em direcção ao Congresso de Milão de 1880. autor do primeiro livro escrito por uma pessoa surda (aos sete anos contraí varíola que lhe provoca surdez). a adopção do oralismo na educação de surdos. realizou estudos no Instituto Nacional dos Surdos de Paris.As realizações do VII Congresso da Sociedade Pedagógica Italiana (1873) e do I Congresso de Professores Italianos de Surdos influenciaram. Aos 27 anos de idade conhece um surdo italiano que lhe ensina esta Língua e. torna-se um defensor acérrimo do uso dos gestos. Sicard. por outro. No seu livro prova também que a Língua Gestual Francesa já existia antes do aparecimento das escolas para surdos. encontrou na Língua Gestual Francesa o método ideal na educação de surdos. abade francês. surdo de nascença. Nos anos que se seguiram aos congressos realizados em Veneza e em Siena. Laurent Clérc. para fundar o que seria a primeira escola para surdos na América. no final do século XVIII. ao concluí-los convidou um antigo aluno surdo dessa instituição. ou ainda. Em 1815. a adopção do oralismo na educação de surdos. em 1782 e veio a suceder ao Abade de L’Èpée na direcção do Instituto Nacional de Surdos-Mudos de Paris. Anos mais tarde. Ferreira (2006). a educação de surdos viveu uma época de grandes rivalidades entre os métodos oralistas e os métodos baseados na Língua Gestual. Em 1747nasce Pierre Desloges. por um lado. outro importante educador de surdos. As realizações do VII Congresso da Sociedade Pedagógica Italiana (1873) e do I Congresso de Professores Italianos de Surdos influenciaram. descrevendo a comunidade surda que utiliza a Língua Gestual como uma comunidade que não tinha conhecimento da Língua francesa oral ou escrita. sem dúvida. que já actuava como professor. as abordagens oralistas. Fundou a escola de surdos de Bordéus. o qual era baseado no ensino da língua oral e da escrita. frequenta a escola de Bordéus e vem a tornar-se num dos primeiros professor surdos em todo o mundo. em alguns países da Europa ganhava força o método oral (sobretudo Alemanha e Inglaterra). seriam o início da polémica sobre os métodos educacionais para educar o surdo. Se. a criação de vários institutos em toda a França.

sendo esta ministrada nos diferentes graus de ensino. o seu poder reivindicativo. Em Itália (Milão).. Perseguidos. como Stokoe. fazendo renascer o orgulho de ser surdo e a crescente consciência dos seus direitos. acontece o segundo Congresso Mundial sobre a educação de surdos. seguidores de Hopkins Gallaudet. um método misto.Nos anos que se seguiram aos congressos realizados em Veneza e em Siena. Neste congresso. é declarado que o método oral puro deve ser adoptado de forma oficial e definitiva. o que eliminou completamente a possibilidade de os gestos continuarem a ser usados. Este facto veio fortalecer a comunidade surda americana e esta força foi-se estendendo a outras comunidades europeias. que a primeira deveria constituir. Posteriormente os trabalhos de Bellughi e Klima (1979) vieram corroborar a ideia de que a língua gestual apresenta a sua própria fonologia. da leitura labial e da precisão das ideias. os trabalhos de vários autores. abrindo caminho para a integração e aceitação do bilinguismo. Com o deflagrar das duas guerras mundiais. não patológicos. se não impossibilitado e continuaram a ser olhados como deficientes. muitas escolas de surdos foram encerradas e esterilizadas as pessoas com surdez genética. logo incapazes. com excepção dos Estados Unidos. diminuídos. como minoria linguística. a educação dos surdos. tendo para tal contribuído. ainda que como simples suporte (ibidem). Durante a governação de Hitler. passasse a ser considerada uma língua de pleno direito. independente e não uma versão da língua oral ou uma imitação dela. na Europa. a língua gestual. a língua gestual é reconhecida como verdadeira língua. todas as minorias sociais foram afectadas e alvo das mais variáveis discriminações.. como se tem dito. considerados deficientes. decretando-se que os gestos são nefastos para a educação de surdos proclamando o método oral como o mais adequado. as abordagens oralistas. Nos estados Unidos. Os professores surdos acabaram por ser banidos das escolas. no qual a utilização simultânea da fala e dos gestos é considerada como uma desvantagem que impede o desenvolvimento da fala. o qual era baseado no ensino da língua oral e da escrita. que contribui decisivamente para que a Língua Gestual Americana (ASL). De acordo com Skliar e outros (1995:86). Por volta dos anos 60. não tendo sido diferente com os surdos. mais uma vez. segundo Carvalho (2011). possuindo os mesmos níveis gramaticais que a língua verbal. considerando que o surdo tem a sua língua natural. e decretou. Devido às decisões tomadas no Congresso de Milão.) impôs a superioridade da língua falada com respeito a Língua de Sinais. o único objecto de ensino". em 1880. sobretudo em França em que muitas escolas particulares adoptaram o método oral. apesar de fortes correntes adversas. ou ainda. o congresso de Milão (1880): "(. tanto a italiana como a francesa. prosseguem a divulgação do método gestual. As decisões do Congresso prevalecem na maioria dos países. . ganharam mais adeptos. sem fundamentação científica alguma. os surdos viram. onde o uso da linguagem gestual é prática corrente na educação de surdos. encontrava-se periclitante. no início do século XX.

Esforço-me o tempo todo. que a fala e a escrita são as vias legítimas de comunicação para o surdo. Desta flexibilização surge. O oralismo visa capacitar a pessoa surda a utilizar a língua da comunidade ouvinte na modalidade oral como única possibilidade linguística. É pois. – Comunicação Total e Bimodalismo Com o reconhecimento dos fracos resultados obtidos pela educação oralista e com a evolução do conhecimento. entre eles. eles não muito. por considerar seu uso um obstáculo para a aquisição da língua oral pelo surdo. premissa básica do oralismo. dentro das metodologias orais (o ‘verbo-tonal’. e outros. a aprendizagem de qualquer língua oral e leva o surdo a integrar-se na comunidade ouvinte. sintaxe e semântica. Ou seja. que fala e que rejeite a surdez. Queria que se esforçassem” (Labourit. 1. segundo esta corrente. meio e fim dos processos educativo e de integração social. ‘oral modelo’ ‘materno reflexivo’.2.terapêutico e propósitos da educação oralista “Quero entender o que dizem. p. deixaram de ser. de modo a que seja possível o uso da voz e da leitura labial tanto nas relações sociais como em todo o processo educacional.1. este recurso é usada dentro das orais. as posições radicais entre oralistas e gestualistas. leitura labial. é necessário que ele se comporte como se não fosse surdo. Esta abordagem educacional. Estou enjoada de ser prisioneira desse silêncio que eles não procuram romper. requer do surdo uma adaptação ao mundo ouvinte. tão evidentes. 1994. que se aculture. permitindo uma enorme riqueza expressiva aos utentes e possuindo também as suas variações dialectais. ‘perdoncini’) como por exemplo o recurso ao treino da fala. desde o século XVIII. fazer uma reabilitação do surdo em direcção à "não surdez" e aos padrões de normalidade preconizados pela sociedade industrial contemporânea em que ele vive. Os defensores dessa abordagem combatem a língua gestual. Os ouvintes não se esforçam. O oralismo defende.- 2. socioprofissionais e culturais. Muitos recursos foram utilizados na educação dos surdos. 39). Tal estimulação viabiliza. A língua na modalidade oral é.morfologia.2. O oralismo concebe a surdez como um deficit que deve ser minorado por meio da estimulação dos resquícios auditivos. e entre outros. por volta dos anos 70 e segundo Hansen (1980) citado por Royo (2001).Modelo médico . a . portanto.

visam criar um clima propício ao desenvolvimento da linguagem. À semelhança de outros estudos. dizem que o maior problema é a mistura de duas línguas. citado por Coutinho 2006). tudo o que facilite a aprendizagem da língua oral (Niza 1995. aponta que o ensino ministrado às crianças surdas não lhes proporcionou a aquisição de meios que lhes permitisse a integração no mundo ouvinte uma vez que. Segundo Marchesi (1987). não são conhecidos estudos avaliativos de qualquer dos métodos referidos. VER 10 ANOS DE LGP Segundo Coutinho (2006). O facto de a comunicação total incluir a possibilidade da utilização de gestos. Na opinião de Delgado-Martins (1985). citado por Coutinho (2006). não um método de comunicação ou de aprendizagem.filosofia. opondo-se assim. o mesmo autor. leitura e escrita. permitir a escolha livre do meio de comunicação mais idóneo em qualquer situação. da dactilologia. mas apresenta-se como um sistema de comunicação complementar”. Os princípios defendidos por esta filosofia levam á criação de diferentes métodos de comunicação dos quais salientamos o bimodalismo. ao oralismo puro. realizados noutros países. “… a comunicação total não está em oposição à utilização da língua oral. uma vez que se utilizam gestos e fala e garantir o desenvolvimento da identidade e auto respeito da pessoa surda. os surdos apresentavam graves problemas de comunicação. pela transmissão de valores e significados. num estudo realizado em 1992. 2004). por um longo período de tempo. da Comunicação Total: “É uma filosofia que incorpora as modalidades de comunicação auditiva. Vários autores publicados pronunciam criticamente dessa modalidade mista. no entanto. o sistema bimodal. Com esta filosofia. manual e oral apropriadas para assegurar uma comunicação efectiva com e entre as pessoas deficientes auditivas” – Conferencia dos Directores de Escolas Americanas de Surdos (1976 in Martins. a língua portuguesa e a língua gestual resultando numa terceira modalidade que é o ‘português gestualizado’. através de uso constante. utiliza os gestos submetendo-os às regras gramaticais da língua oral. de aparelhos da ampliação sonora. igualmente conhecido por Método Simultâneo ou como «línguas codificadas gestualmente» utiliza para a comunicação o recurso simultâneo do gesto da língua gestual e da fala. leituras orofaciais. universalizar a linguagem. dos gestos. pois defende a valorização da família da criança surda como principal responsável. A Comunicação Total incorpora o desenvolvimento de quaisquer restos de audição para a melhoria das habilidades de fala ou de leitura orofaciais. não significa que estas duas filosofias sejam contrárias. tendo por base a língua oral. os seus seguidores. A Comunicação Total fundamenta-se na ideia de que a comunicação se deve iniciar antes da linguagem e inclui todo o espectro dos modos linguísticos: utilização da fala. .

. tudo estava na mesma linha de espaço-tempo. Creio que não havia rigorosamente nada no meu cérebro durante esse período.” (Laborit 1994:19). Para Skliar (1998) a comunicação total veio desordenar e desvalorizar a hierarquia e a sequência das aprendizagens linguísticas. Refere que a sujeição e a descaracterização da língua gestual. esta filosofia. pois pais e professores viram o seu trabalho facilitado. argumentando que a tradução da palavra a palavra ou de frase a frase de uma língua oral para uma língua gestual e vice-versa é impossível. as recordações são estranhas. Depoimentos de adultos surdos. negam à pessoa surda o reconhecimento da sua condição bilingue. criar condições para que o seu uso e conhecimento tenham um nível aceitável. Sacks (2002). A este respeito. Por um lado. Como flash-backs. resultou num desastre educacional para as crianças surdas. principalmente.os surdos portugueses apresentavam fraco domínio da língua oral e escrita. a sua língua materna. passado. grandes espaços perdidos. contudo. Afonso (2008) afirma existirem algumas contradições nesta filosofia educacional. Futuro. como no conhecimento dos conteúdos curriculares o que acarretava graves problemas no seu desenvolvimento social. são usados os gestos como instrumentos à incorporação da língua oral na modalidade falada e escrita. como sequências de um filme montadas umas atrás das outras. tanto na leitura e na escrita. com longas tiras negras. cognitivas e culturais. a língua gestual. hoje. Laborit escreve: …”Da minha infância. como os de Laborit (1994). Um caos na minha cabeça. imagens de que ignoro a cronologia. a minha vida está cheia de lacunas. Por outro. vêem corroborar esta realidade. continuavam a apresentar desempenhos que ficavam acém do apresentado pelos alunos ouvintes. adquirida de forma espontânea na comunidade surda. Ainda referente a esta corrente. privilegia a modalidade oral sem. Goldfeld (2002) critica esta modalidade pois não atende ao facto de a língua gestual ser uma língua natural. Para este autor. Lane (1992) refere que a utilização da linguagem oral. “ O grito da gaivota”. diz discordar com este modelo. uma sequência de imagens sem relação entre si. apenas veio servir a população ouvinte. falada ou escrita. No seu livro. à aquisição da primeira língua. afectivo e cognitivo. Só tenho recordações visuais. Parece. pois as estruturas são diferentes. em vez de ser utilizada como trampolim para a autonomia linguística dos surdos. consensual que para o desenvolvimento global da criança surda é essencial a importância que é posta no seu desenvolvimento linguístico e. Entre os zero e os sete anos.

a meu ver. ou. As pesquisas têm mostrado que essa proposta é a mais adequada para o ensino de crianças surdas.2. Se se toma por base que língua materna é a primeira língua aprendida por uma pessoa na infância. a primeira língua a que essas crianças são expostas é a língua oral. A questão. Outra questão merece ser aqui apontada: não há clareza quanto ao conceito de língua materna que está sendo utilizado para se referir à língua de sinais como sendo a primeira língua do surdo. sim. de ouvintes filhos de pais surdos. Na verdade.” Perante (Revista Querubim – revista electrónica de trabalhos científicos nas áreas de Letras. Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 01 Nº 01 – 2005 ISSN 1809-3264 206) tais argumentos. Questiono a retórica presente nos argumentos dos debates em prol de uma educação bilingue para o surdo. Uma discussão desse tipo seria salutar se o surdo à entrada da escola dominasse a língua gestual. na mais tenra idade e. de surdos filhos de pais surdos.. os surdos filhos de pais ouvintes não têm a língua de sinais como materna. quando o assunto em foco é o bilinguismo para surdos. p. não é discutir se o surdo vai adquirir a língua oficial do país. em geral ligada ao seu ambiente. 39) ”… tem como pressuposto básico que o surdo deve ser bilingue. a criança surda não tem sequer a primeira língua (LG)? É desejável que ele aprenda a língua gestual. não é a pertinência desta modalidade na educação dos surdos mas sim o conceito da aquisição de duas línguas pelo surdo: a língua gestual como língua materna e a língua oficial do seu país como segunda língua. quer na modalidade oral. ou ainda.. tendo em vista que. Podemos nós falar em aquisição de segunda língua se. que é considerada a língua natural dos surdos e. uma vez que seus pais são usuários dessa língua. posteriormente aprenda a língua portuguesa na escola. geralmente a de sua mãe. o que se observa constantemente nas discussões presentes na área da surdez. A língua de sinais é a língua materna. a primeira língua que o indivíduo aprende. ou seja deve adquirir como língua materna a língua gestual. O problema que se verifica nas ideias expostas por Goldfeld é o que concerne à aquisição da segunda língua.). como afirma Goldfeld (1997. a língua oficial do seu país (. em grande parte das vezes. como segunda língua. se possível. .4 – Perspectiva sócio antropológico e pressupostos da educação bilingue A modalidade bilingue é uma proposta de ensino usada por escolas que se propõem dotar os sujeitos surdos de duas línguas no contexto escolar. quer na modalidade escrita.

Essas crianças não interagem regularmente por meio de um corpo compartilhado de signos quer gestuais. Nesse sentido. reconhecer que crianças surdas filhas de pais ouvintes. pois muitas não adquiriram ainda uma língua. de um modo geral. quer verbais. entendidos pelos professores como o trabalho pedagógico realizado na sala de aula.. contexto bilingue e condição bilingue. corrente. o que se entende por bilinguismo para surdos. maioritariamente. não histórica e despolitizada. no nosso caso o português. O cerne é: quando. surdo bilingue. quando os professores (ouvinte e surdo) nutrem a ilusão de que tornar o surdo bilingue é permitir o acesso aos gestos. formam uma comunidade linguística e vivenciam uma situação linguística bilingue não pode ser tomado como regra. a educação bilingue pode transformar-se numa 'metodologia' positivista. Acredito que o âmago da questão nas argumentações referentes ao bilinguismo não é simplesmente afirmar que essa abordagem educacional. reflictamos através de algumas indagações: Poder-seá falar que os surdos filhos de pais ouvintes vivenciam uma situação linguística bilingue? Nas palavras de Skliar (2001). por outro. Por outro lado. o aluno surdo. ou ainda. A questão passa por definir. não se deveria definir a educação bilingue para surdos apenas como um tipo de educação que proporciona o desenvolvimento de habilidades linguísticas em duas ou mais línguas: Esses debates. e que o único problema a ser resolvido diz respeito apenas à aquisição da segunda língua. A educação bilingue é um reflexo cristalino de uma situação e uma condição sociolinguística dos próprios surdos: um reflexo coerente que tem que . corre-se o risco de transformar a proposta bilingue em.intencional e/ou ingenuamente – de todo debate que exceda o plano estrito das línguas. o que é um surdo bilingue e.. que destacam a relevância do bilinguismo para o aluno surdo são. mais uma grande narrativa educacional que conserva as mesmas representações sobre a surdez e os surdos.. Como aponta Skliar (2001:91): “Se a tendência contemporânea é fugir . vai adquirir língua gestual como primeira língua.A sensação que se tem ao ler estas argumentações sobre o bilinguismo para o surdo é que os autores partem do pressuposto de que o surdo já adquiriu a língua gestual como língua materna. onde. na sala de aula. que fala duas línguas fluentemente podem ser vislumbrados no ensino de línguas.. os professores que tomam conhecimento desses debates e que trabalham com alunos surdos acreditam que o bilinguismo é uma proposta educacional que se restringe somente a tornar acessível ao surdo duas línguas: a língua gestual e o português. sobretudo. Ou seja. ao alfabeto manual e ao português. filosofia. como e com quem. dentre outras denominações assume a língua gestual como primeira língua. por um lado. A perspectiva de ensino a ser adoptada no âmbito educacional depende do modo como se concebe educação bilingue. Os efeitos de uma concepção que visualiza o bilinguismo como a situação de um sujeito que tem duas línguas.

pelo padre Pedro Maria Aguilar. entre os 8 e os 14 anos. João Borg. a articulação de políticas públicas etc. método que continuou a ser usado por outros educadores. agora. porém. para o orientar. o que está em jogo na educação bilingue para surdos. Tal como Wallis e L’Epée. dez anos depois. na dependência da Casa Pia de Lisboa. de forma massiva. Este chamou um especialista sueco. O Instituto encerra definitivamente em 1860 (Carvalho.” Nesta óptica. ao mundo do trabalho e a cultura dos surdos”. são responsáveis por conferir esta imagem negativa aos indivíduos surdos.encontrar seus modelos pedagógicos adequados. . A partir de 1828. relações de poder e conhecimento entre surdos e ouvintes. a Infanta Dona Isabel Maria. o Instituto foi alvo de várias adversidades. Aron Borg usava um alfabeto manual e a língua gestual na educação de surdos Fernandes (2004). de cariz político. Este instituto acolheu 12 surdos-mudos. uma escola para o ensino de surdos dirigida. perdendo o vínculo à Casa Pia e o seu mentor pedagógico. a meu ver. principalmente. que regressa à Suécia. à semelhança do que se fazia no Instituo de surdos de Estocolmo. económico e pedagógico. indigentes. bem como o modelo médico. João VI em 1823 durante a regência de sua filha. o primeiro Instituto para Surdos-Mudos e Cegos foi fundado por decisão do rei D. mas. ficando Par Aron Borg e o seu irmão. ideologias dominantes. 2007). 3. e após o encerramento da escola Normal de Guimarães (1872) e Porto (1877). a função da escola. Em Portugal. Na década de 70. patológico da surdez. que entre os séculos XIX e XX. Salienta-se.O caso Português assistencial das instituições de acolhimento de surdos. As orientações para a educação de surdos em Portugal não diferem muito das de outros países Europeus. responsáveis pela educação destas crianças. à identidade pessoal e social. uma questão de propiciar um debate mais abrangente que proponha directrizes para uma política educacional e linguística comprometida com a educação de minorias linguísticas apagadas nos bancos escolares. A escola bilingue deveria encontrar neste reflexo o modo de criar e aprofundar. Par Aron Borg. volta a existir em Lisboa.1 . que defendia o método da mímica e da escrita. Para Skliar (2001:90-91) “Uma primeira conclusão necessária neste sentido é a de entender que a educação bilingue constitui um ponto de partida para uma discussão política sobre as questões de identidades surdas. onde era usada a língua gestual e a escrita como meios essenciais de educação de surdos. discursos hegemónicos. movimentos de resistência dos surdos. não é uma questão de mero acesso a duas línguas no seio da sociedade. recorria-se a metodologias gestuais com suporte na escrita. relativamente às metodologias educativas. as condições de acesso à língua gestual e à segunda língua. à informação significativa.

cria o Curso de Formação Especializada para Professores de Ensino de Deficientes Auditivos. no qual participou Campos Tavares. em Bruxelas onde obtêm formação no método intuitivo oral puro. Coincidindo com a abolição das línguas gestuais a nível Europeu. Bélgica. é publicado o Decreto-lei nº 1522. o ensino das meninas surdas é entregue à congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição que cria o Instituto de SurdosMudos da Imaculada Conceição. A 21 de Abril de 1915. Em 1942. em 1947. que estrutura o novo plano curricular para a educação de surdos e que inclui o ensino escolar e profissional. recorrendo à dactilologia. o Instituto Municipal de Surdos é anexo à Casa Pia. a qual seria subdividida em formação em diferentes áreas de formação de professores. O aumento de alunos levanta a necessidade de mais professores especializados. à data provedor da Casa Pia. congregação que assume. Emídio José de Vasconcelos funda o Instituto de Surdos de Lisboa (1880-1887). como língua materna. vêse surgir em Portugal. as primeiras influências do método oralista da escola de paris. a direcção do Instituto de Surdos-mudos de Araújo Porto e que fixa as instalações do Porto destinadas a acolher as alunas do sexo feminino e as de Lisboa os alunos do sexo masculino. aulas de articulação. o qual toma conhecimento de métodos de ensino oral mais modernos. como método oficial e de excelência na educação de surdos. é a partir desta data que se institui o método oral puro em Portugal. Suíça. João José da Conceição Camoesas. Inglaterra e França e que apresentava bons resultados. em 1955. nomeadamente o método materno-reflexivo. a Manchester para se . Entusiasmado com os resultados supostamente obtidos com a sua aplicação.(saber onde li…) António Aurélio da Costa Ferreira (1913). enquanto ministro da Instrução Pública leva ao Parlamento uma proposta de Lei que pretendia fundir todas as escolas normais primárias e superiores numa Faculdade de Ciências da Educação. professor na Casa Pia. então director da Casa Pia. Em 1893. à linguagem escrita e à articulação par o ensino de surdos. 2006). Este método baseava-se na concepção de que as crianças surdas pré-linguísticas podiam aprender a falar a língua oral. Campos Tavares cria a Associação Portuguesa para o Progresso do Ensino de Surdos que inicia a publicação de uma revista bianual “A Criança Surda”. Em 1950. sob a direcção de Nicolau Pavão de Sousa e de Cruz Filipe e. criado por Van Uden e aplicado em escolas de surdos na Holanda. realiza-se um Congresso Internacional de Educadores de surdos em Groningen. Em 1905.O Prof. e envia António Gonçalves Amaral. Holanda. Cruz Filipe representante português no Bureau International d´Audiophonologie. em conjunto com alunos ouvintes. dirigido por Miranda de Barros. que substitui o método mímico pelo oralista (Ferreira. entre elas a formação de professores de escolas de anormais. é inaugurado o Instituto de Surdos-Mudos de Araújo Porto. linguagem e desenho. Em 1907 são enviados dois alunos para o Instituto Nacional de Surdos-Mudos de Paris. entre eles. segundo Ferreira (2006).

estas continuavam em escolas especiais. a partir de 1974. das crianças com deficiência”. Instituto de Surdos de Ponta Delgada (1968). Em 1970. Segundo Carvalho. Instituto de Surdos de Campanhã.blogspot. a formação de professores era também contemplada sendo a proposta especializar um professor por cada 20 alunos no 1º Ciclo ou por cada 10 no 2º Ciclo (http://lingua-gestualportuguesa. Este programa. propunha 1000 no 1º Ciclo e 100 no 2º. as que apresentavam deficiência mas eram inteligentes e compreendiam os professores eram enviadas para as escolas regulares. Por esta altura aparecem iniciativas concretas do interesse pela educação de surdos. o Ministério da Educação passa a ter mais responsabilidades na área da educação destas crianças. Criam-se as equipas de Ensino Integrado que. Ainda que esta integração não contemplasse as crianças consideradas inaptas para a aprendizagem. escolar e social. o Instituto de Surdos de Bencanta (1964) e o Instituto de Surdos do Funchal (1965). Instituto de Surdos de Beja (1969). tendo sido criada a Divisão do Ensino Especial da Divisão Geral do Ensino Básico do Ministério da Educação (DGEB/ME). alterações que se tornam mais visíveis através dos benefícios pedagógicos resultantes do Programa de . vem a ser nomeado director do Instituto Jacob Rodrigues Pereira e do Curso de Formação especializada de professores. criado por Guberina. em turma de ouvintes. Ao longo dos anos 60 assiste-se às primeiras tentativas de integração das crianças com deficiência. Esta divisão apresenta o programa de Compensação Educativa que previa que o ensino primário. Posteriormente. previa também. o qual.html). Assim seguiu o método maternoreflexivo. Vão surgindo. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional). segundo Correia citado por Ruella (2000:45). neste programa. Carlos Pinto de Ascensão substitui Campos Tavares na direcção do Instituto Jacob Rodrigues Pereira. Viseu (1968). no máximo. a defender uma metodologia oralista. Porto (1968). O aluno surdo na escola do regular: a importância do contexto familiar e escolar. o método natural (treino de fala e auditivo) e o método verbotonal (treino da articulação das palavras e memorização de unidades mais longas na frase). têm como “objectivo fundamental dar cumprimento à integração familiar. em consequência deste programa assiste-se em 1974 “a uma renovação Pedagógica no campo da surdez”. continuando. Assim são criados os Colégio de S. as primeiras experiências de integração colocaram 1 ou 2 alunos surdos. todos eles. Casa do Infante. Francisco de Sales (1957). in “Breve História dos Surdos no Mundo e em Portugal” (2007:XVI). Relativamente ao número de alunos a serem integrados. os alunos seriam encaminhados para oficinas de treino profissional.com/2010/02/historia-dos-surdos-no-mundo-cont3. Em 1963. das crianças surdas. inspirados no modelo oralista das escolas já existentes. No caso dos surdos. porém. Angélica (2000). fosse ministrado em escolas especiais sob a alçada do Ministério da Assistência Social (MAS) e tivesse uma duração média de oito anos. porém. Instituto António Cândido (1970).especializar no ensino de surdos. num período de 6 anos. (Ruella.

a LGP passa a ter o estatuto de disciplina. formalmente. promovidas pela Divisão de Ensino Especial (DEE). da reabilitação e da equiparação de . em Portugal.Cooperação Luso-Sueco.  Lei 9/89 de 2 de Maio . é criado o 1º curso de intérpretes de Língua Gestual Portuguesa. com todos os requisitos linguísticos comuns às diferentes línguas. pela Constituição da República Portuguesa. editam o livro “Mãos que Falam”. Após a reforma de Veiga Simão. coordenado por Isabel Prata. Só no final da década de 70. Em 1994. a qual. onde concluem e demonstram que a LGP se inscreve como uma autentica língua. facultam experiências ao longo do país sendo em 1978. aqui. na escola de A-da-Beja. ligadas à comunidade surda e à educação das crianças e jovens surdos. alínea h. futuras formadoras de LGP.1 . Aparecem os primeiros estudos sobre a Língua Gestual Portuguesa (LGP) (Prata e Delgado Martins 1979). a DEE e o laboratório de Fonética da faculdade de letras de Lisboa. publicam “Para uma Gramática da Língua Gestual Portuguesa”. Em 1992. Também da responsabilidade do SNR. do Gestualismo e do Bilinguismo. resultado de um protocolo entre a DGEB e o Secretariado Nacional de Reabilitação (SNR) é publicada a primeira edição do Gestuário. do tratamento. a LGP é reconhecida. referidas e analisadas algumas das leis que interessa conhecer porque estão. no Instituto Jacob Rodrigues Pereira. Passa então a adoptar-se a comunicação total. no Sul do país. Com o reconhecimento oficial da LGP. Em 1980. orientado por José Bettencourt e João Alberto Ferreira que ministram o ensino da LGP a docentes ouvintes.Revisão da legislação pertinente para a educação de surdos em Portugal Serão. com monitores surdos. a discussão em torno da Língua Gestual. 2. resultado do programa de Cooperação Luso-Sueco. e só neste. directa ou indirectamente. emerge. abre portas a uma série de investigações sobre a língua Gestual Portuguesa. Em 1997. a técnicos e futuros intérpretes de LGP e também a pessoas surdas.Lei de Bases da Prevenção e da Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência Tem como objectivos “promover e garantir o exercício dos direitos que a Constituição da República Portuguesa consagra nos domínios da prevenção da deficiência. as alterações na Educação Especial. Maria Augusta Amaral e Amândio Coutinho. tendo-se realizado nos anos 80 a primeira experiência de ensino bilingue. criados os Núcleos de Apoio a Crianças Deficientes Auditivas (NACDA) e os Núcleos de Apoio à Deficiência Auditiva (NADA). após anos de investigação linguística da língua gestual portuguesa. que adopta metodologias enquadradas na filosofia da Comunicação total. no Artigo 74. como expressão cultural e património de Portugal e como ferramenta que permite a muitos cidadãos aceder à educação conseguindo uma efectiva igualdade de oportunidades.

as condições necessárias não só à realização daquele objectivam como também à continuação de um real sucesso escolar. constituída por representantes de diferentes associações de surdos. como tal. Esta lei constitui que a pessoa surda é uma pessoa com deficiência e. A inclusão deste reconhecimento na Constituição da República Portuguesa foi o resultado de uma luta da comunidade surda portuguesa. alínea H:  Proteger e valorizar a língua gestual portuguesa enquanto expressão cultural e instrumento de acesso à educação e da igualdade de oportunidades. à obtenção das qualificações mínimas que as adestrem a prosseguir os estudos ou a seguir uma actividade profissional. nos quais se incluem as crianças surdas. discutida e aprovada em 1997.oportunidades da pessoa com deficiência” e define como pessoa com deficiência aquela que. sob a designação de Comissão para o Reconhecimento e Protecção da Língua Gestual Portuguesa (CRPLGP). congénita ou adquirida. fisiológica ou anatómica susceptível de provocar restrições de capacidade. que todas as crianças têm acesso à escola. “por motivo de perda ou anomalia. a qual teve o importante papel de informar e sensibilizar a sociedade Portuguesa para a temática dos surdos em Portugal e para a importância da Língua Gestual Portuguesa. bem como. de professores e técnicos. Decreto-lei 35/90 de 25 de Janeiro de 1990  Vem definir a obrigatoriedade da escolaridade básica para os alunos com necessidades educativas especiais. nº 2. pressupondo assim.  Despacho 7520/98 de 6 de Maio da Secretaria de Estado da Educação e Inovação. pode estar considerada em situações de desvantagem para o exercício de actividades consideradas normais tendo em conta a idade. intelectual. de pais. o sexo e os factores sócioculturais dominantes”. A referência à língua gestual portuguesa surge na secção sobre “Educação” e diz no seu Artigo 47º. de jovens surdos. do Ministério da Educação . que formou uma comissão de trabalho. tem o direito à reabilitação. de estrutura ou função psicológica.  Lei 1/97 de 20 de Setembro da Assembleia da República (Quarta Revisão Constitucional) Esta lei da Assembleia da República estabelece o reconhecimento oficial da Língua Gestual Portuguesa e corresponde à 4ª revisão constitucional.

por exemplo. veja-se: 6. Os próprios professores que investiam na sua autoformação não tinham qualquer estabilidade. reconhecendo o direito à livre expressão das minorias culturais e linguísticas. que definisse claramente as suas funções. igualmente. o Departamento do Ministério da Educação responsável pela elaboração de um programa oficial de LGP nunca procedeu à sua construção e a língua Gestual Portuguesa não passou de mero instrumento de acesso ao currículo regular. em nossa opinião. diz respeito à afectação de docentes e de outros técnicos às escolas com unidades de apoio à educação de alunos surdos. o legislador. e admitindo a LGP como língua materna dos surdos.3 . Estas escolas deveriam. constatamos ainda:  . era a formação em língua gestual portuguesa. nem garantia de que o seu investimento continuasse a ser posto ao serviço dos alunos surdos. e não apenas “preferencial”. mas enfrentou algumas dificuldades na sua implementação. As escolas onde se implementaram as UAAS eram providas de formadores surdos de LGP. ora esses apoios nunca são referidos. integrar docentes com formação especializada nas áreas da comunicação e linguagem e da deficiência auditiva. Ainda que o Despacho assentasse numa perspectiva baseada na filosofia humanista de carácter socioeducativo. bem como a sua situação de contratação. acesso esse nem sempre conseguido por parte deste grupo de alunos. Este documento constituiu um passo importante para a educação bilingue de crianças e jovens surdos em Portugal. que define os princípios básicos de funcionamento das Unidades de Apoio a Alunos Surdos (UAAS). Quando incluído numa turma de ouvintes vai necessitar de apoios à comunicação. Outra falha encontrada nesta lei. Não existia uma carreira. de Terapeutas de Fala e. preferencialmente com formação em língua gestual portuguesa. o seu percurso em turmas de alunos ouvintes. Parece-nos que se esqueceu.Os surdos pós-linguísticos realizam preferencialmente. Ora. a qual se regia pelo disposto no despacho conjunto nº 105/97. devendo contudo evitar-se a sua inserção isolada em turmas de alunos ouvintes. obrigatória para todos os professores que trabalhassem com surdos. Existem ainda outros aspectos do despacho menos claros que nunca chegaram a ser esclarecidos. um dos aspectos delicados desta legislação.Em Portugal. aceitando a língua gestual como um sistema natural de comunicação e educação dos indivíduos com surdez. a legislação mais pertinente no âmbito da educação de alunos surdos foi o despacho 7520/98 de 6 de Maio da Secretaria de Estado da Educação e Inovação. para os intérpretes de língua gestual. reconhecendo a existência da “identidade surda” e de uma “cultura dos surdos”. O que deveria ser de lei. que estabelecia o regime aplicável à prestação de serviços de apoio educativo. de 1 de Julho. Este último ponto constituiu. Continuando a análise do referido despacho. mas continua a ser surdo. que um surdo pós-linguístico pode ter adquirido uma língua. em alguns casos de intérpretes de LGP.

4-A/01 de 28 de Fevereiro Este decreto-lei aprova a reorganização curricular do ensino básico. refere-se a presença de um intérprete na sala.5 . se o fazemos como é que os alunos surdos podem prosseguir estudos?   Decreto-Lei 6/2001 de 18 de Janeiro. mas.  6. No artigo 8º prevê-se o ensino da língua portuguesa como segunda língua para os alunos cuja língua materna não seja o português. preferencialmente em turmas de alunos surdos de forma a poderem desenvolver e estruturar melhor a língua gestual portuguesa e receber todo o ensino nesta língua. sem prejuízo da sua participação com os alunos ouvintes em actividades lúdicas e culturais.4 . (Não especificando a sua etiologia. esta lei. com a presença de um intérprete de língua gestual portuguesa. mas também não exclui os alunos surdos.) No seu artigo 10º. No ponto 6. rectificado pela Declaração de Rectificação nº.  Decreto-Lei 319/91 de 23 de Agosto Neste decreto-lei estavam definidas medidas de regime educativo especial a aplicar a alunos com necessidades educativas especiais no ensino básico e secundário. A quem cabe a definição destes currículos? As alterações curriculares são. outro erro que se tem cometido ao longo dos anos. Reduzem-se os currículos para que os alunos surdos a eles acedam com sucesso. uma vez que integravam o regime educativo especial. inclui no grupo de alunos com NEE. sobre adaptações curriculares. estar inseridos em turmas de ouvintes.Os alunos surdos pré-linguísticos realizam o seu percurso no 1º ciclo. bem como em áreas curriculares específicas. podendo também frequentar turmas de alunos surdos sempre que daí resulte maior benefício para o cumprimento do currículo. portanto. aqueles que apresentem incapacidades devidas a deficiência de ordem sensorial (surdez e cegueira).Os alunos surdos pré-linguísticos que frequentam o 2º e 3º ciclo do ensino básico e o ensino secundário devem. que no ponto 2 dizia:  As adaptações curriculares previstas no presente artigo não prejudicam o cumprimento dos objectivos gerais dos ciclos e níveis . também a eles dizia respeito. Os alunos surdos não foram referidos especificamente. mas apenas quando os conteúdos curriculares o permitam.6. dirigidas a alunos com necessidades educativas especiais. (…)  7 – e) Proceder às modificações curriculares necessárias. sempre que os conteúdos curriculares o permitam. mas. Vejamos o artigo 5º. não inclui. a nosso ver. em alguns dos seus aspectos.5. Prevê a regulamentação das medidas especiais de educação. preferencialmente.

Na abordagem que fazemos. o factor de integração acaba por ter um efeito perverso de segregação (Baptista (2008)). participando em actividades desenvolvidas pela escola com os alunos ouvintes. Caso a criança surda não apresente outras deficiências associadas. As suas necessidades prendem-se apenas com os meios de comunicação utilizados e sobretudo com as línguas de ensino.  Avaliação sistemática do processo de ensino/ aprendizagem do aluno. com carácter individual e dinâmico. do pré- . Este articulado levantava alguns problemas. sabemos que o recurso à adaptação e redução curricular no ensino dos surdos foi prática corrente na maioria das escolas portuguesas.  A formação de turmas de surdos do pré-escolar ao ensino secundário.  Participação da família. salvo casos excepcionais adequadamente fundamentados. No artigo 9º. de 7 de Janeiro Com o Decreto – Lei nº 3/ 2008. a propósito da “Adequação na organização de classes ou turmas” podia ler-se. deste modo. Já manifestamos a nossa opinião de que estas adaptações curriculares põem em causa o conceito de ensino especial para os surdos. A resposta educativa prevê:  Flexibilidade.  Decreto – Lei nº 3/ 2008. prevê a criação de escolas de referência sendo o bilinguismo a proposta educativa apresentada por estas escolas. é revogado o Decreto-lei 319791 de 23 de Agosto bem como o Despacho 7520/ 98.de ensino frequentados e só são aplicáveis quando se verifique que o recurso a equipamentos especiais de compensação não é suficiente. focalizamos a nossa atenção nos aspectos relacionados com a surdez e naqueles que divergem do Despacho 7520/98 de 6 de Maio da Secretaria de Estado da Educação e Inovação. Assim. o aluno surdo precisa de se encontrar entre pares para poder progredir academicamente. De contrário. as suas aspirações pessoais e sociais. possibilitando-lhes o domínio da língua gestual portuguesa (LGP) e do português escrito e falado (se apresentarem capacidades para aceder à oralidade). a sua capacidade intelectual é semelhante à de qualquer outra criança. de 6 de Maio. do Ministério da Educação. no ponto 2:  As classes ou turmas previstas no número anterior não devem incluir mais de dois alunos com necessidades educativas especiais. atribuindo à escola. Apesar da salvaguarda que é feita. O que se pretende não é reduzir ou aligeirar os currículos mas sim utilizar métodos de ensino adequados de modo a que estes alunos atinjam sucesso escolar.  A introdução de áreas curriculares específicas: a língua gestual portuguesa (L1) e o português segunda língua (L2). As crianças surdas integradas numa turma de ouvintes nunca devem estar sós. mas em grupos e de preferência em número superior. elevando. de 7 de Janeiro. a competência de promover linguisticamente os alunos surdos. Devido à natureza da sua língua e cultura.

de 6 de Maio. O Decreto – Lei nº 3/ 2008 também especifica os equipamentos considerados fundamentais para atender esta população.. . segundo o Ministério da Educação “assumir inequivocamente uma educação bilingue uma vez que preconiza a concentração de alunos surdos em escolas de referência. in Educação Bilingue de alunos Surdos -Manual de Apoio à Prática..º3/2008. bem como a exigência de elevados níveis de competência em LGP por parte dos docentes” (Almeida D.escolar ao ensino secundário. alguns deles já referidos no Despacho 7520/ 98.. A publicação do Decreto-lei n.  Intérpretes de LGP. Morgado M. As escolas de referência para a educação bilingue de alunos surdos devem contemplar os seguintes técnicos (Decreto – Lei nº 3/ 2008):  Docentes (surdos e ouvintes em todos os níveis de educação e ensino) de educação especial especializados em surdez. e uma língua estrangeira escrita do 3º ciclo do ensino básico ao ensino secundário (Decreto – Lei nº 3/ 2008). 2009). Filipe I.  Docentes surdos de LGP.  Terapeutas da fala. em Janeiro de 2008 vem. a introdução da língua gestual Portuguesa como disciplina curricular e da Língua Portuguesa como segunda língua. Cabral E. com competência em LGP e formação e experiência no ensino bilingue destes alunos.. em turmas só de alunos surdos.

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