Você está na página 1de 15

Desempenho relativo das argamassas

de argila expandida na execução de


camadas de forma

Ana Sofia Ferreira (IST)


Jorge de Brito (IST)
Fernando Branco (IST)
2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007
Estrutura da apresentação
Objectivo:

As camadas de forma realizam-se com a constituição base do


betão. No entanto, devido à ausência de função macro-estrutural, as
camadas de enchimento são normalmente constituídas por
materiais mais leves.
leves

Esta comunicação aborda a argila expandida, o seu processo de


fabrico, as suas características e propriedades. Dentro da argila
expandida, faz-se a distinção entre a argamassa doseada em obra e
a pré-doseada e as respectivas caracterizações identificando as
vantagens e desvantagens destes dois modos de aplicação de
argila expandida. Pretende-se também comparar o agregado de
argila expandida com os agregados de EPS e granulado de cortiça e
com o betão celular.

2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007


1. Introdução
Camadas de forma com betão leve
A introdução do agregado na pasta de cimento prende-se
principalmente com a função económica, uma vez que o cimento é
um material caro (devido à energia consumida na sua produção). A
incorporação do agregado numa pasta cimentícia também tem a
função de estabilização, visto que reduz a fluência e a retracção

O agregado corresponde a cerca de 70 a 80% do volume do betão e


influi directamente no seu comportamento, deste modo, existe uma
relação directa entre a verificação das propriedades do agregado e
a qualidade do betão produzido
Existem dois tipos de betões de agregados:
▪ betão de granulometria óptima - mistura optimizada de agregados
de modo a obter maior compacidade e o espaço entre eles é
totalmente preenchido por ligante;
▪ betão de estrutura porosa - com agregados do mesmo tamanho e
sem preenchimento dos vazios por eles gerados, sendo que o
ligante faz apenas uma fina envolvência e contacto por pontos.
2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007
2. Tipos de agregados para
camadas de enchimento
Argila expandida
Os enchimentos realizam-se a partir da constituição base do betão;
devido à ausência de função macro-estrutural, as camadas de
enchimento são normalmente constituídas por materiais mais leves.
É permitido aos agregados terem uma menor capacidade resistente
em função da diminuição da sua massa volúmica

A argila expandida é obtida por cozedura a alta temperatura (cerca


de 1000 a 1250 ºC) de grânulos de argila previamente formados por
moldagem ou fragmentação

Compacidade: para o efeito de camada de forma, o betão


usado é de estrutura porosa, onde a resistência
depende apenas da argila expandida, com
compacidades inferiores a 0,750 (excluindo-se do
cálculo os vazios do próprio agregado).

2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007


2. Tipos de agregados para
camadas de enchimento
Argila expandida
Vantagens: boas características de isolamento térmico e de
resistência ao fogo (material incombustível, classe M0),
favorecendo o seu balanço energético. A redução do
peso próprio permite novas soluções estruturais para
as propostas arquitectónicas e induz um menor esforço
ao nível das fundações
Desvantagens: baixa capacidade resistente à compressão e
sobretudo à tracção e ao corte; a necessidade de
incorporar areia na argamassa com agregados de
argila, quando se pretende aumentar a resistência;
menor adequação para betão armado do que os
agregados de densidade normal; as superfícies
carecem de uma argamassa de revestimento.
Quadro I - Comparação das características entre a Leca ® doseada em obra e a pré-doseada
Térmica Massa
Condutibilidade Resistência Massa
Revestimentos Espessura Massa
térmica térmica volúmica
m W/mºC m2ºC/W kg/m3 kg/m2
Betão Leca ® em obra 0,12 0,2 0,6 900 108
Leca Mix 0,12 0,15 0,8 450 54
2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007
2. Tipos de agregados para
camadas de enchimento
Síntese comparativa de agregados
Quadro II - Características dos agregados leves
Argila Granulado de Granulado
expandida EPS de cortiça
Massa volúmica (kg/m³) 340 a 700 10 a 15 70 a 80
Resistência à compressão (MPa) 0,7 a 2,2 --- ---
Coeficiente de condutibilidade térmica (W/m ºC) 0,1 a 0,13 0,035 a 0,044 0,044
Resistência ao fogo Classe A1 Classe E Classe E
Absorção de água às 24 h (% volume) < 36 <1a<5 <5
Preço (€/m³) 46 a 67 22,5 55

Quadro III - Análise comparativa dos betões leves


Betão com Betão com
Betão com
granulado de granulado de
argila expandida
EPS cortiça
Massa volúmica 3 1 2
Resistência à compressão 1
Coeficiente de condutibilidade térmica 3 1 1
Resistência ao fogo 1 2 2
Absorção de água às 24 h 3 1 2
Preço 2 1 2
Classificação: 1 situação mais favorável, 3 situação mais desfavorável. Esta classificação resulta da análise das características dos respectivos betões
2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007
3. Concepção de enchimento com
agregados leves
Materiais constituintes
Materiais constituintes dos enchimentos com agregados leves:
▪ cimento: segundo a NP ENV 206 de 1993, a escolha do betão deve
satisfazer as referências normativas da ENV 197 e/ou da
especificação LNEC E 378;
▪ agregados: a norma NP EN 13055-1 de 2005 especifica todos os
requisitos dos agregados leves para argamassas;
▪ água de amassadura: segundo a NP ENV 206 de 1993, a água para
amassadura deve satisfazer a especificação LNEC E 372, sendo
que, de um modo geral, a água potável da rede de abastecimento
pública é adequada para o fabrico de betão;
▪ adjuvantes: segundo a NP ENV 206 de 1993, os adjuvantes devem
satisfazer a especificação LNEC E 374, não podendo conter
constituintes capazes de afectar o betão;
▪ adições: segundo a NP ENV 206 de 1993, as adições devem
satisfazer as seguintes referências normativas: NP 4243; NP 4220;
LNEC E 375, LNEC E 376, LNEC E 377.
2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007
4. Processo de fabrico
Procedimentos de execução
A execução da camada de forma ocorre depois da construção das
lajes (estrutura) e posteriormente à colocação de toda a tubagem
necessária para as diversas especialidades e o seu consequente
revestimento com pasta ligante de modo a fixá-las ao suporte.

O suporte deve estar seco, limpo e isento de quaisquer substâncias


prejudiciais à aderência da camada de forma.

Nos pisos elevados e nas coberturas, a camada de forma pode ser


colocada directamente sobre o tosco das lajes.

Nos pisos térreos, é de considerar uma barreira pára-vapor sobre a


laje e colocar posteriormente a camada de forma. Esta solução não
é necessária se a barreira pára-vapor for considerada entre o
enrocamento e a laje térrea.

2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007


4. Processo de fabrico

Doseamento dos materiais constituintes: devido à ausência de


função estrutural das camadas de forma, a medição dos materiais
constituintes pode ser realizada sem recurso ao equipamento de
precisão, pode substituir-se o método do peso, pelo do volume, ou
mais frequentemente o do saco no caso dos materiais embalados.
Amassadura: o objectivo da amassadura é revestir a superfície de
todas as partículas de agregado com pasta de cimento e formar
com todos os componentes das argamassas uma mistura
homogénea, pode ser manual ou mecânica, O tempo de amassadura
varia conforme o tipo de agregado e a trabalhabilidade pretendida.
Metodologia: o cimento nunca deve ser o primeiro componente a
entrar na betoneira pois, se esta estiver seca, o desperdício será
grande e, por outro lado, se estiver húmida, a betoneira ficará
revestida com a pasta, normalmente, introduz-se uma pequena
quantidade de água a que se segue o agregado grosso, o cimento, a
areia e a restante água.
2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007
4. Processo de fabrico
Procedimentos de aplicação
Espessuras: variam consoante as propriedades que se pretende
obter da camada de forma. Para um piso elevado com tubagem
normal, a camada de forma deve ter entre 3 a 4 cm de argamassa
com agregado leve e 2 a 4 cm de argamassa de revestimento

Condições atmosféricas: as argamassas não devem ser aplicadas


quando a temperatura for superior a 35 ºC ou inferior a 5 ºC,
evitando assim problemas de aderência ou de endurecimento. Em
pisos expostos à intempérie e sempre que chova nas 48 h
seguintes, não é aconselhável a aplicação de qualquer material
constituinte da camada de forma

Tempo de secagem: varia com as condições atmosféricas e de


acordo com os teores de humidade que o revestimento aceita. O
tempo de secagem de qualquer argamassa deveria ser de 3
semanas no mínimo aconselha-se 3 a 4 dias.

2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007


4. Processo de fabrico

Compactação: não é aconselhável, pois provoca segregação dos


agregados. No caso das espessuras das camadas de forma e se a
amassadura e a bombagem decorrerem dentro dos padrões da
normalidade, não há necessidade de qualquer tipo de compactação

Cura: nas camadas de forma, deve realizar-se ao ar livre sempre que


as condições atmosféricas o permitam, durante as primeiras 24
horas, deve-se evitar o acesso de pessoas e outros. Não há
necessidade de adicionar água, nem de colocar membranas de
cura, apenas de proteger da chuva caso esta ocorra

2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007


5. Conclusões

Apresenta-se no Quadro IV a comparação entre camadas de forma


constituídas com agregados diferentes. No entanto, convém
salientar os seguintes aspectos:
▪ a comparação depende fortemente das formulações das
argamassas;
▪ os valores obtidos não provêm todos da mesma fonte, sendo que
alguns deles são de proveniência comercial;
▪ os ensaios, para obterem credibilidade, devem ser provenientes
de um laboratório acreditado, idóneo e independente;
▪ não é possível estabelecer uma comparação directa entre as
diversas camadas de forma, uma vez que estas possuem
posologias diferentes; por exemplo, quando se avalia o teor de
humidade de uma composição que utiliza inicialmente mais água
que outra, certamente que a primeira terá um valor de humidade
superior.
2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007
5. Conclusões
Quadro IV - Características dos betões leves em função do tipo de agregado
Betão com Betão com Betão com
Betão com Betão
argila doseada argila pré- granulado de
EPS celular
em obra doseada cortiça
40016; 50017;
Massa volúmica aos 8001
506 3
200 a 1000 630 90018; 110019;
28 dias (kg/m³) 9002
140020
0,216; 0,62517;
Tensão de rotura à 4,61 0,894
0,8 a 2,9 4,925 1,118; 1,719;
compressão (MPa) 5,12 0,905
4,5221; 5,1922
Tensão de rotura ao 0,706 0,3516; 0,517;
esmagamento / 0,987 1,2 0,618; 0,719;
flexão (MPa) 1,348 1,6421; 2,0322
Coeficiente de
condutibilidade 0,16 a 0,3427 0,1569 0,03726a 0,7 0,20 0,1328 a 0,3720
térmica (W/mºC)
Teor de humidade a 0,9510 10,412
(%) 2,311 17,813
Não inflamável,
M0 M0 M0 a partir de M1
Resistência ao fogo
incombustível24 incombustível 250 kg de (NF P 92-501)
cimento
3614
Acústica (dB) 35 - 3827 2423
5 - 715
Preço (€/m³) 70 a 80 85 20 a 40 12 a 15 60 a 80

2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007


5. Conclusões
Quadro IV - Análise comparativa dos betões leves
Betão com Betão com Betão Betão com
Betão
argila doseada argila pré- com granulado de
celular
em obra doseada EPS cortiça
Massa volúmica 4 2 1 3 5
Resistência à compressão 1 3 5 1 4
Resistência à tracção 2 1 3
Isolamento térmico 2 2 1-3 3 2
Isolamento acústico 1 1 2
Resistência ao fogo 1 1 2 1 2
Preço 3 4 2 1 5
Durabilidade intrínseca 2 2 4 1 5
Classificação: 1 situação mais favorável, 3 situação mais desfavorável. Esta classificação resulta da análise das características dos respectivos betões

o betão celular apresenta excelente performance nas categorias de


massa volúmica e resistência mecânica;
a grande vantagem do betão com regranulado de cortiça é o
isolamento térmico;
o betão com argila expandida tem como vantagens as boas
relações entre a massa volúmica e a resistência mecânica, o
isolamento acústico e a resistência ao fogo.
2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007
Bibliografia
[1] COUTINHO, A. de Sousa - Fabrico e propriedades do betão. Lisboa: LNEC, 1974;

[2] LOURENÇO, Jorge; JÚLIO, Eduardo; MARANHA, Paulo - Betões de agregados leves de
argila expandida. Lisboa: APEBP, 2004. ISBN: 972-9071-30-6;

[3] Granulado de cortiça para betões, sua utilização em blocos de alvenaria. Lisboa:
Relatório 164/87 - NPC, LNEC, 1987;

[4] VIEIRA, Manuel Gomes - Betões de elevado desempenho com agregados. Lisboa: IST,
2000.

2º Congresso Nacional de Argamassas de Construção - 22 e 23 de Novembro de 2007