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UMA CONTRIBUIÇÃO AO CONGRESSO

CONSTITUINTE
Analisando o papel do Congresso Nacional na
Legislação do Ensino, esta obra permite situar,
com conhecimento de causa, o grau em que o
Congresso Constituinte pode contribuir para que
passemos da educação que temos para a educação
que queremos. .+
"

UMA CONTRIBUIÇÃO À DISCIPLINA


ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO DO
ENSINO
Além de oferecer aos professores uma análise
I'
razoavelmente detalhada e ao mesmo tempo
sucinta do processo legislativo que resultou nas
principais leis que regem a organização escolar
brasileira, este livro reúne, nos apêndices, os
próprios textos das leis em vigor.

UMA CONTRIBUIÇÃO À msTÓRIA DA


EDUCAÇÃO BRASILEIRA
Abordando o lugar do Congresso Nacional na
educação brasileira desde a independência do
Brasil, esta obra culmina com um exame'
circunstanciado do papel do Parlamento na fase
mais recente da História da Educação Brasileira.
• •

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L000002421O
DERMEVAL SAVIANl

Dados de Catalogação na Publicação (CIP) lnternacional


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Saviani, Dermeval, 1944 -


S278p Política e educação no Brasil : o papel do Congresso
Nacional na legislação do ensino I Dermeval Saviani.
_ São Paulo Cortez: Autores Associados, 1988.
(Coleção educação contemporânea)
Bibliografia.
ISBN 85-249-0078-4
I. Poder legislativo - Brasil 2. Política e educação
Brasil L Título. 11. Título : O papel do Congresso
Nacional na legislação do ensino.
87-0058 CDD-379.81

lndices para catálogo sistemático:


I. Brasil Congresso Nacional e educação 379.81
2. Brasil Educação e política 379.81
3. Brasil Poder legislativo e educação 379.81
4. Brasil Política e educação 379.81

2! edição

CORTEZ @
L. @ EDITORA
E EDITORf"I
H AUTORES
ASSOCIADOS

•• ---------------- c1t.Z•••• •••••••••••••• ~t


POLlTICA E EDUCAÇÃO NO BRASIL:
O Papel do Congresso Nacional na legislação do ensino
Dermeval Saviani

Conselho editorial: Antonio Joaquim Severino, Casemiro dos Reis Filho, Dermeval
Saviani; Gilberta S. de Martino Jannuzzi, Joel Martins, Maurício Tragten-
berg, Miguel de La Puente, Milton de Miranda, Moacir Gadotti e Walter
Esteves Garcia.
Capa: Paulo Leite
Produção editorial: José A. Cardoso
Produção gráfica: Ciça Corrêa
Revisão: Suely Bastos
.- . Antonio cl•• Pa ulo Silva
BIBLIOTECA CENTRAL
Universidade do Sudoeste
Vitória da Conquista. Bahia
REG. DATA
I.-( Y3J b( .. \ I I
.-


A
Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização
expressa do autor e dos editores. Maria Aparecida,
© 1987 by Dermeval Saviani com ternura.
Direitos para esta edição
. __ .-----------------------------
CORTEZ EDITORA! AUTORES ASSOCIADOS
Rua Bartira, 387 - Te!. (011) 864-0111
05009 - São Paulo - SP

Impresso no Brasil
1988
I
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I I

,.
SUMARIO

I I
Prefácio . 9
Prefácio à 2.a edição . 15
Introdução . 17

CAPITULO I

CONGRESSO NACIONAL, POUTICA E EDUCAÇÃO 27


1. O Congresso Nacional na política brasileira 27
2. O Congresso Nacional na educação brasileira .. . . . . . . . . . . . . 40

CAPíTULO 11

O CONGRESSO NACIONAL E A LEI N.O 4.024/61: A estraté-


gia da "conciliação" na "democracia restrita" 47
1. O projeto original.... ....................... ..... 47
2. Um novo projeto 52
3. O projeto aprovado 57
4. Significado político do texto convertido em lei ., . . . . . . . . bU
4
Apêndice 65

CAPITULO 111

O CONGRESSO NACIONAL E A LEI N,o 5.540/68: A estraté


gia do "autoritarismo desmobilizador" na instalação da .•democra
cia excludente" 81
1. O projeto original 81
2. A tramitação do projeto 87
3. Significado político do texto aprovado 93
Apêndice 101
I'
J CAPITULO, N
I 1
.o Cq.JGRESSO NACIONAL E A LEI N.o 5.692171: A estraté-
gia do "autoritarismo triunfante" na consolidação da "democracia
excludente" 1 15
I. O projeto original 115 PREFÁCIO
2. A tramitação do projeto ,..... 120
r
3. Significado político do texto aprovado
Apêndice (texto da Lei n.? 5.692/71)
126
137 I I
Conclusão (49
Este trabalho foi originalmente apresentado como tese de livre-
Bibliografia 160 docência em História da Educação junto ao Departamento de Filosofia
e História da Educação da Faculdade de Educação .da Universidade
Estadual de Campinas - UNICAMP. Integraram a banca examinadora
os professores: Alfredo Bosi, livre-docente em Letras e professor titular
da Universidade de São Paulo (USP); Antonio Muniz de Rezende,
livre-docente em Filosofia da Educação e professor titular da Universi-
dade Estadual de Campinas (UNICAMP); Evaldo Amaro Vieira, livre-
docente em História da Educação e professor adjunto da Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP); Francisco Correa Weffort, livre-
docente em Ciência Política e professor titular da Universidade de São
Paulo (USP); e Maria Aparecida Vígianí Bicudo, Iivre-docente em
Filosofia da Educação da Universidade Estadual Paulista (UNESP).
A eles sou sinceramente grato pelas referências positivas, a· mim sobre-
maneira gratificantes, pois se constituíram num reconhecimento público
do trabalho que venho desenvolvendo no campo da educação. Sou-lhes,
ainda, agradecido pelos comentários pertinentes que muito valorizaram
minha pesquisa, assim como pelas sugestões que motivaram as conside-
rações que, a seguir, passo a expor.
O assunto específico de que trata este livro é o significado político
da ação do Congresso Nacional na Legislação do Ensino, o que foi
explicitado tomando-se como objeto principal de análise as Leis 4.024/61
(Diretrizes e Bases da Educação Nacional), 5.540/68 (Reforma Univer-
sitária) e 5.692/7~ (Diretrizes e Bases do Ensino de 1.0 e 2.° Graus).
Como está indicado na Introdução, o foco da análise recaiu não sobre
o produto massobre o processo. Conseqüentemente, em lugar do con-
teúdo admínístratívo ou pedagógico, a ênfase foi posta na ação desem-
penhada pelo Congresso Naoional quando do exame dos projetos das
leis mencionadas. Por esta razão não se teve a preocupação de fazer
estudo sistemático dos textos legais ou do teor das propostas apresentadas.

9-
·=.~------

/
/
Em lugar do palco, se procurou focalizar os bastidores a fim de trazer Nesse contexto, como foi registrado na Conclusão do presente tra-
à tona as motivações políticas a partir das queis as diferentes propostas balho, compreende-se que, embora as Lei 5.540/68 e 5.692/71. em
foram sendo formuladas. decorrência das estratégias do "autoritarismo desmobilizador" e "auto-
Em conseqüência do acima exposto, o item "significado político ritarismo triunfante". tenham pretendido (e conseguido com relativo
do texto convertido em lei" (ou "do texto aprovado") com o qual se êxito) a desmobilização de professores e alunos, contrariamente àquela
concluem os Capítulos lI, III e IV buscou evidenciar o grau em que despolitização ocorreu também uma crescente politização tanto nos de-
a estratégia política dominante no seio do regime político vigente em bates como nas práticas pedag6gicas em todos os níveis, desde a pré-
cada um dos períodos examinados determinou, pela ação dos parlamen- escola à pós-graduação.
tares, a conformação final do texto que acabou por se converter em lei. Assim é que sob a égide da Lei 5.540/68 regulamentou-se, estimu-
Tal não deve, porém, ser confundido com o sentido político que a lei lou-se e se expandiu o sistema de pós-Graduação no país; tal sistema,
acabou assumindo "a posteriori" no processo de sua implantação já que ao mesmo tempo que produziu grande número de estudos enquadrados
aí ela tem que se haver com forças que, ainda que não representadas . nos ditames do regime político então vigente, foi capaz de gerar em
ou não majoritárias no Parlamento, se fazem presentes na organização seu interior, em número cada vez maior, estudos críticos de denúncia
escolar como expressão social significativa. Aliás, tal problema já fora da política educacional do regime e anúncio de novas perspectivas. Do
por mim assinalado em estudo anterior cuja redação original data de mesmo modo a Lei 5.692/71, fruto da estratégia do "autoritarismo
1976, quando afirmei: triunfante", talvez mesmo pelo seu caráter triunfalista, acabou por
"Nessa perspectiva resulta perfeitamente compreensível que determinadas incorporar dispositivos, como a instituição da escola básica e obrigatória
proclamações devam integrar os textos legais e, ao mesmo tempo, não de oito anos assim como a abertura para a autonomia das escolas e a
sejam incorporadas na estrutura escolar. A organização escolar não é obra ênfase na flexibilidade organizacional e curricular, que inegavelmente
da legislação. Ambas interagem no seio da sociedade que produz uma e
outra. O exame do contexto nos permite inferir, por exemplo, que a expan- se situam na linha do processo de democratização do ensino em nosso
são quantitativa do ensino brasileiro, após 1964, com todas as conseqüências país.
daí advindas, teria ocorrido com ou sem a reforma da legislação; seu fator
de terminante está na forma como vinha evoluindo a sociedade brasileira. A
Por não ter se dedicado àaná.Jise do conteúdo da legislação, o
legislação constitui o instrumento através do qual o Estado regula, acen- presente trabalho supõe um certo grau de familiaridade com os textos
tuando ou amenizando as tendências em marcha. Assim, à luz do contexto, legais sem o que a sua leitura pode ficar um tanto dificultada. Para
revelam-se ao mesmo tempo a falácia e a eficácia da legislação. A falácia contornar tal dificuldade organizei apêndices que colocam os leitores
diz respeito às esperanças nela depositadas e que ela não pode realizar. A
em contato direto com os principais produtos do processo legislativo
eficácia consiste nas conseqüências, esperadas ou não, que ela acarreta. No
caso do Brasil, a esperança de que as reformas operariam mudanças pro- examinado.
fundas resultou falaz. Como poderia ser de outra maneira se não houve O Apêndice ao Capítulo lI, após sugerir uma análise comparativa
mudanças so~iais proflAdas? Em contrapartida, elas se revelaram eficazes
para ajustar a estrutura escolar à ruptura política levada a cabo pela Re- entre o projeto original, o substitutivo Lacerda e o texto da Lei 4.024/61,
volução de 1964. A tendência tecnicista à luz da qual se buscou efetuar o transcreve integralmente os Títulos I, Il, 111 e IV das três versões, o
ajustamento acima mencionado teve que proclamar as virtudes da eficiência Título V da Lei 4.024/61 acrescidos do Título que trata dos recursos
e produtividade mas, ao mesmo tempo, não pôde se furtar às proclamações para a educação o qual reoebeu respectivamente os números X, XIV e
ainda que amplas do "humanísrno tradicional" de orientação liberal. Essa
contradição exprime a contradição objetiva vivida no seio da organização
XII no projeto original, no substitutivo Lacerda e na Lei 4.024/61. Não
escolar. E, enquanto expressão, ao mesmo tempo que é reflexo dela, age vi necessidade de reproduzir os demais títulos não apenas porque a
sobre ela. acentuando-a. Sua quase totalidade já foi revogada pela legislação posterior, mas fun-
Em suma: o estudo da legislação se revela um instrumento privilegiado para damentalmente porque o espírito que presidiu o conteúdo desses dispositi-
a análise crítica da organização escolar porque, enquanto mediação entre a
vos é aquele explicitado nos títulos que consubstanciam as diretrizes, isto
situação real e aquela que é proclamada como desejável. reflete as contradi-
ções objetivas que, uma vez captadas, nos permitem detectar os fatores é, aqueles em relação aos quais tomei a iniciativa de comentar e de trans-
condicionantes da nossa ação educativa" (Saviani, 1985:154-5). crever. Com isso obteve-se a vantagem adicional de não sobrecarregar

10 11
--------_ __ ._
.. _-

I desnecessariamente o presente volume. Completa o Apêndice ao Capí- u I~st~í-vos, porque teremos necessidade de toda a neua inteli.encia.
tulo 11 um quadro que permite ao leitor visualízar imediatamente os Agitaí-vos, porque teremos necessidade de todo o noNO cntuaiumo.
Organizal-vos, porque teremos necessidade de toda a no••a força-.
artigos mantidos e os revogados da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (Lei 4.024/61). Esta obra pretende ser uma contribuição na ingente tarefa de ins-
O Apêndice do Capítulo 111 reproduz o texto da Lei 5.540/68 trução de nossa inteligência, de modo a tomar mais consistente o entu-
acrescido do Decreto-Lei 464, de 11/02/69, que regulamenta a aplica- siasmo de nossa mobilização e aumentar a força de nossa organização.
ção da referida Lei. J! importante o texto do Decreto uma vez que, além Como tal. penso que este livro interessa indistintamente a todos os educa-
de complementar, ele altera alguns dispositivos da Lei 5.540 e estabelece dores que buscam colocar a educação a serviço daquilo que Marx cha-
as normas de organização e funcionamento do ensino superior. mou, por oposição à emancipação política burguesa, de emancipação
humana pura e simplesmente.
Por fim, o Apêndice ao Capítulo IV reproduz integralmente o texto
da Lei 5.692/71.
São Sepé (RS), 28 de dezembro de 1986
Assim, não apenas em relação à Lei 4.024/61 mas também no caso
das Leis 5.540/68 e 5.692/71, através dos apêndices o leitor poderá, o AUTOR
por si mesmo, conferir o grau em' que as estratégias de ação política
deixaram sua marca nas leis de ensino.
Ao tomar tais medidas acredito estar colocando nas mãos dos pro-
fessores da disciplina Estrutura e Funcionamento do Ensino um mate-
rial de grande utilidade para o desenvolvimento de seus trabalhos junto
aos alunos. Com efeito, além de colocar a seu alcance, reunidos, os
textos dos principais diplomas legais que regem a organização escolar
brasileira, a mesma obra lhes oferece uma análise razoavelmente deta-
lhada e ao mesmo tempo sucinta do processo legislativo que resultou nos
textos legais mencionados.
Espero ainda, com a divulgação deste trabalho, estar dando uma
contribuição aos professores de História da Educação, já que após abor-
dar o lugar do Congresso Nacional na educação brasileira desde o perío-
do do Império, esta obra 4 efetua um exame mais detido do papel do
Parlamento na fase mais recente da História da Educação Brasileira.
Finalmente, penso que este livro é uma contribuição importante ao
Congresso Constituinte que se instalou no dia 1.° de fevereiro de 1987,
pois permite situar, com conhecimento de causa, o grau em que o Par-
lamento pode intervir para que passemos da educação que temos para
a educação que queremos.
Em suma, reitero aq,ui o que registrei na Introdução:
O atual momento brasileiro exige que coloquemos em prática os
seguintes lemas gramscíanos:

12 13
I I

PREFÁCIO À 2: EDIÇÃO

I I
Este livro foi lançado em maio de 1987 quando o Congresso Cons-
tituinte estava ainda na fase inicial do processo de elaboração da nova
Constituição brasileira. Nesse contexto, registramos na Introdução:
"Ã luz do comportamento do Congresso Nacional, qual o significado
político da hora presente? Vencerão as forças interessadas na eterniza-
ção da 'verticalidade das desigualdades brasileiras' ou será lícito vislum-
brar, sem ingenuidades e euforias fáceis, o triunfo das tendências que se
empenham na superação daquela verticalidade?".
Os trabalhos das comissões temáticas e sua consolidação posterior
na Comissão de Sistematização projetavam alguma esperança na supe-
ração das desigualdades que marcam a sociedade brasileira. O final de
1987 assistiu, porém, à rearticulação das forças conservadoras aglutina-
das no chamado "Centrão", esse aglomerado amorfo de parlamentares
convertidos em instrumento da "eternização das desigualdades brasilei-
ras". Agora, quando o Congresso Constituinte entra na fase das delibe-
rações em Plenário, mais do que nunca é necessário estar vigilante.
Fiquemos de olho no "Centrão", atentos às suas manobras e exercendo
pressão organizada para evitar que se inscrevam na nova Constituição
medidas que acabem por legitimar as injustiças sociais que vêm viti-
mando o povo brasileiro.
E, promulgada a nova Constituição, terão início os trabalhos de
elaboração da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
Para que a nova LDB se constitua num mecanismo efetivo de adequa-
ção da estrutura educacional às reais necessidades da população, nós,
educadores, já começamos a nos mobilizar. Em tais circunstâncias espe-
ramos que este livro, combinado com Educação Brasileira: estrutura e
sistema, cuja 6. a edição lançamos recentemente, continue auxiliando,
pelos esclarecimentos que proporciona, a aumentar nosso poder de mo-
bilização e a força da nossa organização.

15

"
,
I
~!
1. Nesta 2.a edição, o Apêndice ao Capítulo III foi enriquecido com
a transcrição do teor dos dispositivos da Lei 5.5.40/68 ve~ados. pelo
I I
então presidente da República Arthur da Costa e SIlva. ~sse e mais u~

I elemento através do qual o leitor poderá constatar a açao da estratégia


do "autoritansmo desmobilizador" na implantação da "dem~cracl.a
excludente". 'Com efeito, mesmo a pequena margem de autononna Uni-
versitária admitida pela "reforma consentida" aprovada pelo Con~esso
INTRODUçAO
I
acabou sendo extirpada pelo exercício do poder de veto do Presidente
da República. I 1
São Paulo, 8 de feverein de 1988 o problema objeto deste estudo se originou de pesquisas anteriores
que desenvolvemos sobre as Leis n." 4.024/61 (Lei de Diretrizes e Bases
o AUTOR da Educação Nacional), n." 5.540/68 (Lei da Reforma Universitária)
e n." 5.692/71 (Diretrizes e Bases do Ensino de 1.0 e 2.° graus) (cf.
Saviani, 1983 e 1985: 133-55).
Nessas pesquisas chamou-nos atenção o fato de que as três leis
tiveram origem em projetos oriundos do Poder Executivo. Como isso
parece ser regra na tradição da legislação do ensino no Brasil, colocamo-
nos diante da seguinte indagação: Qual o papel do Congresso Nacional
na legislação do ensino? Pelo estudo anteriormente feito, ficava evidente
que o poder do Congresso Nacional se exercia basicamente através das
emendas. Por esse meio ele poderia interferir no projeto do Executivo,
alterando-o adjetiva ou substantivamente. Nesse sentido, ainda que a
origem do dispositivo legal não estivesse no Poder Legislativo, o pro-
duto. ou seja. o texto legal. poderia ser obra efetivamente sua.
Ora. a constatação supra sugere. pois. que as emendas constituem
a contribuição específica do Poder Legislativo aos projetos de lei oriun-
dos do Executivo. Portanto. são elas o caminho para se compreender o
papel do Congresso Nacional na legislação do ensino. Entretanto, para-
lelamente àquela constatação, verificou-se também que. via de regra,
as emendas não têm merecido a atenção dos estudiosos da educação
brasileira em geral e da legislação do ensino, em particular. Com efeito,
os comentários tendem a se concentrar na análise do produto final,
fazendo. quando muito. comparações com o texto do projeto original.
São raros os estudos que se dedicam a reconstituir a gênese da lei.
E mesmo esses. por limitações da perspectiva teórica de análise. tendem
a privilegiar o plano descritivo, (cf. Villalobos, 1969). Com isso, per-
dem a possibilidade de iluminar a compreensão do produto pela via do
exame do modo como foi produzido.

17
Daí, nosso interesse em retomar as referidas leis, analisando cui- formalmente o Estado, o Legislativo se revela aquele que se 'fincula mais
dadosamente as emendas apostas pelos congressistas ao texto original. diretamente à sociedade civil:
de modo a captar, com esse procedimento, o papel desempenhado pelo
Congresso Nacional na gestação do texto final que, em última instância, ..Unidade do Estado na distinção dos poderes: o Parlamento mais ligado
à sociedade civil, o Poder Judiciário entre Governo e Parlamento, repre-
nos termos da Constituição, é decretado por ele (Congresso Nacional)
senta a continuidade da lei escrita (inclusive contra o Governo). Natural.
e sancionado pelo Presidente da República, com o que se converte em mente todos os três poderes são também órgãos da hegemonia política,
lei. Encetado tal estudo, um primeiro esboço foi apresentado na XXIX mas em diversa medida: 1) Parlamento; 2) Magistratura; 3) Governo"
Reunião Anual da SBPC realizada em São Paulo, em 1977 (cf. Saviani, (Grarnsci, 1975, Il:752). .
1985: 157·9). Ali enunciamos o seguinte resultado geral decorrente do
Dada a maior representatividade do Parlamento em relação ao con-
exame das emendas:
junto da sociedade, pode-se compreender por que, por pressões da socie-
"A conclusão a que se chegou indica claramente que, em relação à Lei
dade civil, se possa chegar à aprovação de leis de interesse da população
4.024/61, a função desempenhada pelo Congresso Nacional foi de deforma- sem que, entretanto, como tem ocorrido freqüentemente no Brasil, tais
ção da coerência do projeto original elaborado por uma comissão de edu- leis ganhem plena vigência. Isto pode ocorrer porque, embora a lei,
cadores designada pelo então Ministro da Educação, Clemente Mariani. tendo sido aprovada, esteja, de direito, em vigor, de fato ela pode se
Já em relação às Leis 5.540/68 e 5.692/71, a função desempenhada foi a tornar letra morta seja passivamente (incúria administrativa ou judicial),
de preservação da coerência dos projetos originais" (Saviani, 1985:157).
seja ativamente (empenho governamental em ignorar a lei ou herme-
Mas, naquele mesmo esboço, perguntávamos: nêutica jurídica e sentenças protelatórias, condenatórias ou absolutórias
"Por que essa diferenciação de funções? Quais as suas causas?" (Saviani, proferidas nos tribunais). Parece residir aí a base explicativa de slogans
1985: 157). que passaram a integrar o nosso folclore político, tais como: "a lei
E sugeríamos o modo de respondê-Ias: é boa; pena que não é aplicada": ou, "aos amigos, tudo; aos inimigos,
a lei".
"A resposta a essas perguntas deve ser buscada nu~a. análise do modo de
funcionamento do regime político brasileiro" (Saviani, 1985: 157·8). Nas condições próprias da estrutura social de classes, a sociedade
se encontra dividida em uma multiplicidade de grupos com interesses
No presente estudo retomamos essa trajetória: Pretende~~s com- não apenas diferentes, mas antagônicos; este é o caso dos grupos sociais
preender o papel desempenhado pelo Congresso Nacional n.a política edu- fundamentais, nascidos "no terreno originário de uma função essencial
cacional. Para tanto, precisaremos levar em conta o movlme~~o da p~- no modo da produção econômica" (Grarnsci, 1975, 11: 1.513 e 1977b:3).
lítica brasileira. Com efeito, as estratégias de sustentação pohtlc~ domi- Em conseqüência, as organizações constitutivas da sociedade civil assu-
nantes na país envolvem o Congresso Nacional e não deixam de influen- mem dominantemente a forma de partidos".
U Com efeito, trata-se efe-
ciar (senão, mesmo determinsc) os rumos da questão educacional quando tivamente de partes da sociedade que constituem agrupamentos com
esta é objeto de regulamentação jurídico-política. interesses comuns que se organizam para a defesa e ampliação de seus
interesses.
Do ponto de vista do enfoque a ser adotado, consideramo~ relevante
a "teoria ampliada do Estado", segundo a qual" Estado =
soc~edade tIPo, Entretanto, para que a noção de "partido" cubra todo o espectro
lítica+ sociedade civil" (Gramsci, 1975, 11:763-4). Entendida a so- da sociedade civil é necessário, da mesma forma que se fez em relação
ciedade política" como o aparelho governament~l. propriame~te dit? (Es- ao conceito de "Estado", considerá-lo em sentido ampliado. Daí a im-
tado em sentido restrito), que detém o monopólio da coerçao aceita so- portância da distinção entre "partidos políticos" e "partidos ideoló-
cialmente como legítima, e como" sociedade civil" o conjunto dos ap!- gicos".
"
relhos privados de hegemonia, conclui-se q~e o Estado, _n~~sa acepça? o partido político constitui uma "organização prática (ou tendên-
ampliada, é, em síntese, "hegemonia revestida de coerçao (Gr~mscl,
cia prática), ou seja, um instrumento para a solução de um proble-
1975, II:764). Nesse contexto, considerados os poderes que constítuem
ma ou de um grupo de problemas da vida nacional e internacional"

19
(Grarnsci, 1975, II: lJ52 e 1977a:220). Em contrapartída, o partido episódicos, enquanto que o "liberalismo" geralmente não tem ultrapassa-
ideológico é o partido como ideologia geral, superior aos vários agru-
U do o plano dos "valores proclamados".
pamentos mais imediatos" (Gramsci, 1975, 11: 1.353 e 1977a:221).
Daí, segundo o autor, a reiteração cansativa de determinados temas:
Dessa forma, sob O conceito de "partido ideológico" se agrupa o con-
junto dos aparelhos e organizações intelectuais, tais como a imprensa, ·~ssa mo~otonia temática procura ser a imagem de uma realidade política
as editoras, círculos, clubes, igrejas, associações culturais, profissionais v~sta, sen~o como estagnada, como capaz de uma auto-reprodução indefl-
ou comunitárias, entidades de benemerência, as escolas públicas e priva- nida, mediante o uso de alguns mecanismos seculares de dominação que
das de diferentes tipos e níveis etc. até o momento, se revezaram no palco do poder" (Debrun, 1983:13). '

O partido político é o organismo da sociedade civil que se relaciona


, . Essa "auto-reprodução indefinida" foi explicitamente formulada por
diretamente com a sociedade política, visando a posse, controle ou
teóricos conservadores, como, por exemplo, Oliveira Vianna (cf. 1956 e
fiscalização do aparelho governamental. Já os partidos ideológicos formam
a própria base da sociedade civil, relacionando-se indiretamente com a 1974) e o general Golbery do Couto e Silva, através do dilema entre
sociedade política através dos partidos políticos. Em conseqüência, centralização e descentralização, consideradas como dois pólos que, à
os partidos políticos estão diretamente representados no Parlamento, semelhança do "autoritarismo desmobilizador" em relação à "concilia-
enquanto que os partidos ideológicos aí se fazem representar de modo ção", se alternariam no poder indefinidamente.
mediato, ou seja, pela mediação dos partidos políticos. Em discurso proferido em 1975, por ocasião da recepção aos go-
Ora, a ação dos partidos, sejam eles políticos ou ideológicos, se vernadores eleitos, o presidente Ernesto Geisel exaltou a visão de
dá, via de regra, através de determinadas estratégias que podem variar Oliveira Vianna rios seguintes termos:
amplamente conforme as conjunturas ou revestir-se de um caráter de
relativa permanência. Como se põe essa questão no caso brasileiro? "O Brasil, desde a implantação da República, é uma nação federativa em
que se respeita e cultiva a autonomia dos Estados, como se proclamam e
Não é objetivo deste trabalho efetuar uma análise das diferentes reconhecem as vantagens do municipalismo criador. Não se conseguiria,
estratégias de sustentação política levadas a efeito na história da socie- e?tretanto, esgotar, nessa fórmula, necessariamente abstrata e genérica, o
dade brasileira. Entretanto, cumpre reter os elementos principais para dIle.ma, _sempre presente e de equilíbrio continuamente mutável entre cen-
tralização e descentralização administrativas. Mestre Oliveira Vianna em
efeitos do exame do objeto específico deste livro: o papel do Congresso estudos da evolução das instituições políticas brasileiras mostrou bem a
Nacional na legislação do ensino. eterna os~i1aç~o en!re ~ss~s dois pólos da centralização 'mais rígida e da
Michel Debrun considera que os eixos da política brasileira não
U
des~entrahz!çao .mais elástica que teria balizado períodos sucessivos da vida
nacional. . . (SIlva, 1981: 5).
mudaram fundamentalmente desde a independência" (Debrun, 1983:13).
Daí porque as estratégias vim sendo fundamentalmente as mesmas, Golbery do Couto e Silva, partindo dessa mesma formulação de
como está indicado textualmente: Olivei~a Vianna, irá também eternizar o referido movimento pendular,
"Face li grande diversidade das conjunturas, as forças dominantes reagiram traduzido por ele através da expressão "sístoles e diástoles na vida dos
lançando mão de um número limitado de estratégias políticas, sempre as Estados", enunciada na célebre conferência pronunciada na Escola Su-
mesmas. Situação essa que permanece ainda hoje, em que pesem os arra- perior de Guerra em 1980. Nessa conferência, Golbery procurou exata-
nhões que vêm sofrendo de modo crescente" (Debrun, 1983:13).
mente defender a "abertura democrática" ensaiada a partir do governo
As referidas estratégias se reduzem a quatro modalidades que são Geisel, a qual pode ser entendida como uma tática no âmbito da estratégia
as seguintes: "conciliação", "autoritarismo desmobilizador", "autorlta- da "conciliação", cujas linhas mestras para a ação do Poder Executivo
rísmo mobilizador" e "liberalismo". Entre elas se destaca a "concilia- o general procurou fixar na referida conferência. Era a "conciliação"
ção", que vem se revezando no poder com o autoritarismo desmobí-
U que começava a ocupar o lugar do "autoritarismo desmobilizador" até
lizador", reduzindo-se o "autoritarismo mobilizador" a débeis ensaios então dominante.

20 21
Essa eternização das relações políticas é processada por Golbery como tipicamente presente. Em razão disso, fomos levados a cunhar
através de uma dialética que explicitamente exclui Marx: uma outra categoria, a do "autoritarismo triunfante", que nos parece
traduzir adequadamente a fase referida. A análise do objeto (papel do
"Apelamos, agora, a uma visão dialética, Marx excluso se quiserem. Imbri- Congresso no processo de aprovação das Leis n.0 4.024/61, 5.540/68 e
5

cados como são, verso e anverso de um mesmo processo único apreciado 5.692/71), a ser feita respectivamente nos capítulos 11, Hl e IV, permi-
em sentidos opostos, tese e antítese imersas numa síntese que é o que lhes
tirá - é o que se espera - uma compreensão mais precisa do conteúdo
assegura, através de si mesma, a existência de ambas, a centralização como
a descentralização estão presentes, as duas, a cada momento, o processo
e significado das estratégias apontadas.
evolutivo de qualquer delas acarretando, inexoravelmente, o surgimento de Considerando-se que quando falamos em "estratégias de sustenta-
fatores intrínsecos da outra que assim nasce da primeira, em seu seio é
ção política" estamos, na verdade, falando dos mecanismos de manuten-
gerada e dela se alimenta, crescendo até afirmar-se e inverter, afinal, os
termos da equação de equilíbrio permanente em que se traduz a coexis- ção de determinado regime político, foi necessário fazer referência aos
tência de ambas em sua imanente oposição" (Silva, 1981: 18). regimes vigentes no período analisado. Para tanto, lançou-se mão das
categorias de "democracia restrita" e "democracia excludente".
Como se vê, trata-se de um "equilíbrio permanente", vale dizer, Por "democracia restrita" estamos entendendo o regime que mantém
eterno numa dialética mistificada que remete ao idealismo hegeliano e abertas as franquias democráticas cujos canais de participação, entre-
que, por ser posterior a Marx, sente a necessidade, para se manter, de tanto, só são alcançados por uma determinada e restrita parcela da
excluí-lo.
sociedade, parcela essa constituída pelas chamadas elites, seja do ponto
Debrun, diferentemente dos autores conservadores acima citados, de vista sócio-econômico, seja do ponto de vista cultural. Tal expressão
considera que, embora a constatação do fenômeno em pauta possa aparece, também em Florestan Fernandes, no seguinte contexto:
"sugerir a existência de arquétipos políticos brasileiros", trata-se, em
verdade, de um evento histórico, portanto, em nada eterno, mas sim "Esse desfecho mostra aonde leva a aceleração do desenvolvimento capi-
talista dependente, concebida e posta em prática pela dominação burguesa
decorrente de uma determinada forma datada de estruturação das rela- como um fim em si e para si, e em condições nas quais o resto da sociedade
ções sociais, por ele denominada de "verticalidade das desigualdades não pode impedir o monopólio exclusivo do poder do Estado por um
brasileiras" : conglomerado de classes privilegiadas. A democracia se equaciona, como
realidade histórica viva, ao nível dos privilégios econômicos, sociais e polí-
"Não s6 a verticalidade das desigualdades brasileiras favorece as varias ticos dessas classes, ou seja, como uma democracia restrita, da qual só
políticas que revistamos, como estas, por sua vez, contribuem cada uma participam efetivamente os membros de tais classes (ou, conforme as cir-
a seu modo para a manutenção dessa verticalidade. E quase que um círculo cunstâncias, s6 as suas elites)" (Fernandes, 1977:263-4).
vicioso, do qual só agora está se vislumbrando a superação" (Debrun,
1983: 16). Por "democracia excludente " estamos compreendendo um regime

Conseqüentemente, a situação descrita, por ser histórica, não s6
que deliberada e sistematicamente exclui da participação política amplos
setores da sociedade civil, entre eles as chamadas "elites dissidentes".
pode como deve ser superada. E a questão que nos ocorre diz respeito Obviamente, "democracia excludente" é eufemismo de "ditadura". En-
ao papel que o Congresso Nacional e a educação teriam a desempenhar tretanto, preferimos usar aquela expressão para caracterizar o regime
nesse processo de' superação. Esperamos que o presente estudo venha a implantado no Brasil em decorrência do golpe militar de 1964, porque
contribuir, senão para responder, pelo menos para colocar mais preci- tal golpe fora justificado como necessário para salvar a democracia,
samente a referida questão. proclamando-se, por sua vez, o referido regime, não apenas como demo-
crático mas como guardião da democracia. Ora, tal situação diverge
. '
Em nosso estudo detectamos. a presença das estratégias do "libera-
lismo", "conciliação" e "autoritarismo desmobilizador" de forma bem
significativamente daquela do Estado Novo, já que os dirigentes deste,
como o ilustra o depoimento de Gustavo Capanema registrado no Capí-
caracterizada. Quanto ao "autoritarismo mobilizador", apenas alguns
tulo 11. não se pejavam de utilizar o termo "ditadura" para deriominar
de seus traços se manifestaram na última fase do período abrangido no
o regime por eles implementado e exaltado.
presente trabalho. não podendo, entretanto, ser o mesmo considerado

22 23
Em síntese, o referencial teórico que orientará e ordenará as análises lumbrar, sem ingenuidades e euforias fáceis, o triunfo das tendências
que constituem o presente trabalho compõe-se do seguinte feixe de que se empenham na superação daquela verticalidade?
categorias: "Estado", em sentido ampliado, abarcando, portanto, a "so- O atual momento brasileiro exige que coloquemos em prática os
ciedade política" e a "sociedade civil", organicamente articuladas entre seguintes lemas gramscianos:
si. "Partido", também em sentido ampliado, distinguindo-se, assim, em
"I~st~í.vos, porque teremos necessidade de toda a nossa inteligência.
seu interior, os "partidos políticos" e os "partidos ideológicos". "Libe- Agitai-vos, porque teremos necessidade de todo o nosso entusiasmo.
ralismo", "conciliação", "autoritarismo desmobilizador" e "autoritaris- Organizai-vos, porque teremos necessidade de toda a nossa força" (Grisoni
mo triunfante" que traduzem as estratégias básicas que vigoraram no pe- & Maggiori, 1973:47).
ríodo analisado. "Democracia restrita" e "democracia excludente ", que Este estudo pretende ser uma pequena contribuição na ingente
designam os regimes políticos correspondentes às estratégias referidas. tarefa de instrução de nossa Inteligência de modo a tomar mais consis-
E, obviamente, "Parlamento", órgão da sociedade política mais direta- tente o entusiasmo de nossa mobilização e aumentar a força de nossa
mente ligado à sociedade civil. organização.
Importa, ainda, nesta íntrodução.. esclarecer que este trabalho não Para objetívar a contribuição pretendida, o texto foi estruturado
tem a pretensão de esgotar toda a probletnática relativa às relações entre de acordo com os seguintes procedimentos:
o Congresso Nacional e a educação brasileira. Delimitou-se o estudo de Após esta Introdução, que procurou apresentar e justificar a escolha
modo a abarcar o período compreendido entre 1946 e 1971, incidindo a do tema bem como do enfoque adotado, o primeiro capítulo cuidará
análise sobre o papel desempenhado pelo Parlamento brasileiro no pro- de explicitar sucintamente as relações gerais entre o Congresso Nacional,
cesso de discussão e aprovação dos projetos oriundos do Poder Executi- a política e a educação. Aí procurar-se-é evidenciar o lugar do Congresso
vo, que culminaram nas três principais leis de ensino em vigor no Bra- Nacional na política e na educação brasileiras.
sil: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, n." 4.024/61, par-
O segundo capítulo terá por objeto o Congresso Nacional em face
cialmente alterada pelas Leis n.O 5.540/68 e 5.692/71, que reformaram,
S

da Lei n." 4.024/61, abordando o projeto original, sua tramitação e o


respectivamente, o ensino superior e o ensino de 1.0 e 2.° graus. Por significado político do texto aprovado.
outro lado, as referidas leis não serão examinadas exaustivamente nos
diferentes aspectos que comportam. Em lugar do conteúdo administra- A mesma trajetória será seguida pelos terceiro e quarto capítulos,
tivo ou pedagógico, a ênfase será posta no significado político que assu- que cuidarão, respectivamente, do papel desempenhado pelo Congresso
miu a ação do Congresso quando se dedicou ao exame dos projetos de Nacional em relação à Lei n·.O5.540/68 e à Lei n." 5.692/71.
lei mencionados. Por esta razão, não serão feitas análises dos textos A Conclusão enfeixará, sinteticamente, os principais resultados e
legais ou do teor das propostas apresentadas. Em lugar do palco, pro- fará uma incursão, à guisa de problema aberto, no momento brasileiro
curar-se-á focalizar os bastidores, a fim de trazer à tona as motivações atual, tentando evidenciar a necessidade de se articular o Congresso
políticas a partir das quais :s diferentes propostas foram sendo formu- Nacional com as forças empenhadas em superar as profundas desigual-
ladas. dades sociais e, logo, educacionais, que marcam a vida brasileira.
A importância e atualidade do problema em pauta resultam, a Quanto às fontes utilizadas, cabe observar que o primeiro capítulo,
nosso ver, evidentes. Com efeito, nesse momento considerado de implan- não incidindo sobre nosso objeto específico, mas apenas sobre os seus
taçãoda chamada "Nova República", às vésperas da instalação de um antecedentes, foi construído à base de fontes secundárias. Já o segundo,
Congresso Constituinte, faz sentido indagar sobre o papel do Congresso terceiro e quarto capítulos, uma vez que versam sobre o tema central
Nacional e as conseqüências de sua ação nos diferentes campos da prá- aqui delimitado, foram elaborados a partir de fontes primárias consti-
tica social e, especialmente, no nosso caso, no âmbito da prática educa- tuídas, fundamentalmente, pelo Diário do Congresso Nacional. As fontes
tiva. A luz do comportamento do Congresso Nacional, qual o significado secundárias foram acionadas apenas na medida em que julgadas perti-
político da hora presente? Vencerão as forças interessadas na eterniza- nentes para reforçar os achados decorrentes da manipulação das fontes
ção da verticalidade das desigualdades brasileiras" ou será lícito vis-
U
primárias.

24 25
r Capitulo I 1

CONGRESSO NACIONAL,
POÚOCA E EDUCAÇÃO

Pretende-se, neste capítulo, esboçar um quadro geral do lugar do


l
I
Congresso Nacional na política e educação brasileiras, destacando os
principais elementos que constituem os antecedentes da ação desempe-
nhada pelo Congresso Nacional em relação aos projetos das Leis n.os
4.024/61, 5.540/68 e 5.692/71. Justifica-se tal empreendimento por se
acreditar que a referência a esses antecedentes facilitará a compreensão
do significado político que assumiu a intervenção do Congresso Nacional
no processo de elaboração, discussão e votação das três leis educacionais
citadas que constituem o objeto específico deste trabalho e, como tal,
serão examinadas nos próximos capítulos.

1. O Congresso Nacional na política brasileira


As Constituições brasileiras têm sistematicamente consagrado a
distinção, harmonia e independência entre os três poderes fundamentais
que alicerçam a organização da vida política: o Executivo, o Judiciário
e o Legislativo. No caso da Constituição imperial, além desses três
poderes, tinha vigência o Poder Moderador, conforme estabelecido no
artigo 10: "Os Poderes Políticos reconhecidos pela Constituição do
Império do Brasil são quatro: o Poder Legislativo, o Poder Moderador,
o Poder Executivo, e o Poder Judicial" (Carnpanhole & Campanhole,
]983:633). Com exceção da Constituição de 1937, as demais definem
explicitamente as atribuições do Congresso Nacional.
A Constituição Política do Império do Brasil, jurada a 25 de março
de 1824, relaciona, em seu artigo 15, dezessete atribuições acometidas
à Assembléia Geral que reunia a Câmara de Deputados e o Senado
(Campanhole & Campanhole, 1983:634): Re.gistre-se ~ue nenhuma das Constituição secundarizava nitidamente o Legislativo hipertrofiando o
atribuições refere-se explicitamente a legislação educacional. Poder Executivo, que enfeixava em suas mãos grande parte das funções
legislativas exercidas através da emissão de decretos. Isto é compreensível
A primeira Constituição republi~ana, pr?muIgad.a :~ 24 ~e f~ve-
uma vez que, através da mencionada Carta, foi instituído um regime
reiro de 1891, fixa no capítulo IV tnnta e cinco atribuições pnvatrvas ditatorial.
i-, do Congresso e quatro não-privativas, sendo, a terceira, "criar institui-
ções de ensino superior e secundário nos Estados" e, a quarta, "prover A Constituição promulgada a 18 de setembro de 1946 retoma a
à instrução secundária no Distrito. Federal" (Campanhole & Campa- tradição republicana definindo nove atribuições do Congresso Nacional
nhole, 1983:575-8). sujeitas a sanção presidencial e dez de sua competência exclusiva, con-
forme estipulado nos artigos 65 e 66 da seção IV (Campanhole & Cam-
Por sua vez, a segunda Constituição da República, de 16 de julho
panhole, 1983:226). Dentre as atribuições dependentes de sanção figura
de 1934 ao tratar na seção 11 das atribuições do Poder Legislativo,
a de legislar sobre todas as matérias de competência da União, entre
distingue as competências privativas sujeitas à sanção presidencial, em
elas a legislação sobre diretrizes e bases da educação nacional de acordo
número de doze, e as competências exclusivas, que atingem o total de
com o disposto no artigo 5.°, inciso XV, alínea d (Campanhole &
onze. Entre as primeiras está a de legislar sobre "todas as matérias de Campanhole, 1983:213).
competência da União, constantes do art. 5.°", cuja alínea XIV estabe-
lece .como competência privativa da União "traçar as diretrizes da A Constituição de 24 de janeiro de 1967, assim como a Emenda
educação nacional" (Campanhole & Campanhole, 1983:515-6 e 505). Constitucional n,? 1 de 17 de outubro de 1969, baixadas ambas já na
vigência do regime militar implantado com o golpe de Estado de 1964,
Co~o já foi dito; aConstituiçãe de 10 de novembro de 1937, que
mantêm, no fundamental, os dispositivos da Constituição de 1946 no
instituiu o "Estado Novo", não define explicitamente as atribuições do
tocante ao Poder Legislativo, conforme se pode constatar através da
Congresso Nacional. Entretanto, ao tratar do "Poder Legislativo", .esta-
seção IV do capítulo VI tanto da redação de 1967 como de 1969
belece no artigo 38 que o mesmo é exercido pelo Parlamento Nacional
(cf. Campanhole & Campanhole, 1983:139-40 e 29).
e que este se compõe de duas Câmaras: a Câmara dos Deputados e ?
Conselho Federal (Campanhole & Campanhole, 1983:425). E, no artí- O registro supra é importante porque está em consonância, como
go 49, define que "compete à Câmara dos Deputados iniciar a discussão veremos nos Capítulos Ill e IV, com a pretensão do regime pós-64 de
e votação das leis de impostos e fixação das forças de terra e mar, bem se autoproclamar "democrático".
como todas as que importarem aumento de despesa" (Campanhole &
Entretanto, o mesmo registro mostra que o exame das funções do
Campanhole, 1983:427). O artigo 55, por sua vez, teve a seguinte
Congresso Nacional não pode se limitar ao estabelecido através da letra
redação:
dos textos legais. Com efeito, apesar de os textos constitucionais de 1967
••Art. 55. Compete ainda ao Conselho Federal: e 1969 serem, no que diz respeito ao Parlamento Nacional, muito seme-
a) aprovar as nomeações ~ ministros do Supremo Tribunal Federal e ~o lhantes ao texto de 1946, as funções desempenhadas pelo Congresso
Tribunal de Contas, dos representantes diplomáticos, exceto os envia- Nacional numa e noutra situação foram, como veremos nos próximos
dos em missão extraordinária;
capítulos, claramente diferenciadas em razão da natureza diversa dos
b) aprovar os acordos concluídos entre os Estados" (Campanhole & Cam-
panhole, 1983:428).
regimes políticos vigentes num e noutro caso.

Observe-se que a fórmula "compete ainda" se deve ao .fato de que Assim é que, além do ponto de vista legal, as funções do Legislativo
o artigo 53 estabelecia que "ao Conselho Federal cabe. leglsl~r para o podem ser abordadas, como o fez Sérgio Abranches, de um ponto de
Distrito Federal e para os Territórios, no que se refenr aos interesses vista teórico. Afirma o referido autor:
peculiares dos mesmos" (Campanhole & Campanhole, 1983:427).
"As funções que o Legislativo cumpre, no interior de cada sistema polí-
O que foi acima transcrito é tudo o que a Constituição de 1~37 tico, são variáveis. Contudo, há uma certa invariância, quanto aos tipos
prescreve como competência do Parlamento. Vê-se, assrm, que a refenda possíveis de funções que ele pode cumprir, e que são relevantes, do ponto

28 29
de vista do sistema. Claro está que o Legislativo não tem por única, e nem g) Função de recrutamento, através da qual o legislativo atua "for-
por mais importante, a função legislativa" (Abranches, 1973:15).
necendo elementos politicamente habilitados para a formação
E conclui, com Hutington, que, "para existir e ser importante, o de Gabinetes, para o Executivo Federal, para os Executivos
Legislativo não precisa legislar" (Abranches, 1973: 15). estaduais etc. etc." (Abranches, 1973: 16).

Arrola, a seguir, as seguintes funções atribuídas com "uma inva- Ao concluir a exposição das funções, o autor justifica o caráter
esquemático da apresentação afirmando que não são as referidas funções
riância" ao Poder Legislativo:
que determinam a posição do Legislativo no sistema político; ao con-
a) Função legislativa. Sua maior ou menor amplitude no âmbito trário, são elas que decorrem da posição ocupada pelo Poder Legislativo.
do Parlamento é inversamente proporcional à maior ou menor Daí o caráter variável das mesmas conforme variam os contextos, seja
força do Poder Executivo; no âmbito mais abrangente do sistema político, seja no nível partidário,
b) Função de fiscalização. Esta é também uma função que ~stá seja, ainda, no âmbito específico da própria instituição legislativa. E,
na dependência das relações entre o Legislativo e o Executivo. sobre o modo como são determinadas as funções do Legislativo, conclui
"Em geral, admite-se que, no Estado contemporâneo, esta é a da seguinte maneira:
função que deve pertencer, intrinsecamente, ao Legislativo, e
não a de legislar" (Abranches, 1973: 15). Apoiando-se em Finer, "Sua determinação, pretende-se, é urna questão ernpmca, mais que teórica.
Abranches afirma "que o problema principal do Estado atual O que importa é a análise da posição do Legislativo no sistema político e
social, o efeito da estrutura partidária no seu interior, e o grau de solida-
é o controle da atividade do governo e da administração coti-
riedade interna. Suas funções serão determinadas pelas relações entre estes
diana" (Abranches, 1973: 15); níveis, não por preceitos formais existentes" (Abranches, 1973:16).
c) Função de legitimação. Trata-se do reconhecimento por parte
de grupos politicamente significativos no âmbito da sociedade Não é objetivo deste estudo efetuar exaustivamente a comprovação
civil de que o .Legislativo constitui instrumento adequado no empírica reclamada pelo autor em relação às funções do Congresso
encaminhamento de suas reivindicações, o que tende a tornar enunciadas no plano teórico. Aliás, o próprio Abranches cuida dessa
aceitável determinado regime político ainda que o mesmo esteja comprovação com certa minúcia, embora parcialmente, ao analisar o
fortemente marcado pelo caráter autoritário; processo legislativo na República Velha, no período de 1946 a 1966 e
d) Função de mobilização. Implica a aceitação por parte dos prin- de 1967 a 1973. De nossa parte, pretendemos indicar apenas os ele-
cipais agentes políticos de que cabe ao Legislativo coordenar mentos mais significativos para efeitos de facilitar a localização do
tanto as ações oposicionistas como as situacionistas em face do objetivo específico deste trabalho a ser examinado nos próximos capí-
regime em vigor. Neste ponto lembra o autor que essas duas tulos.
últimas funções, de legitimação e de mobilização, "podem assu- O Parlamento, sendo o órgão da sociedade política mais diretamente
mir conteúdos que as tornem incompatíveis entre si" (Abran- ligado à sociedade civil, o lugar por ele ocupado bem como sua impor-
ches, 1973:15); tância política estão na razão direta do grau de organização da sociedade
e) Função clientelística. Aqui está em jogo a busca de manuten- civil, que, por sua vez, é determinada pela forma de produção material
ção do prestígio dos parlamentares junto a seu eleitorado .a.trav~s dominante.
da manipulação de cargos e verbas bem como pela agilização Assim é que no período imperial, cuja economia se centrava na
dos interesses de seus eleitores perante a burocracia dos 'órgãos agricultura de exportação com destaque para o café, dominavam a vida
públicos; civil os proprietários de terra, que se faziam representar não apenas
f) Função de socialização política, pela qual o Legislativo se cons- hegemonicamente, mas, via de regra, com exclusividade no Parlamento.
titui numa espécie de escola prática de formação de quadros Eis por que já antes da Independência, em 19-06-1822, foram defi-
políticos de diferentes tipos e níveis: nidas as condições para a composição do eleitorado que iria eleger os

30 31
"Se olharmos mais de perto o projeto de lei e OS argumehtos daqueles que
membros da Constituinte, ficando de fora os assalariados e, obviamente, o defenderam na Clmara dos Deputados, toma-se óbvio que 08 legisladores
os escravos. queriam fomentar o desenvolvimento do sistema de pllntatioa, que cons-
tituía a base da economia brasileira. Eles estavam dispostos a dar ao ,over-
E o projeto da Constituição, formulado em seguida, estabelecia que
no o poder para controlar a terra e o trabalho, apenas ,para usegurar o
as eleições seriam de dois graus. Para se votar nas assembléias primá- sucesso da economia tipo plutatloa. Em relação à terra, o governo nio
rias, que escolhiam os eleitores, exigia-se um mínimo de renda líquida era visto como um mero proprietário, mas como um representante do povo,
no valor de 150 alqueires de farinha de mandioca. Para os eleitores de quem derivava seu poder para controlar a terra e o trabalho. De acordo
de 2.° grau, a quem cabia eleger os deputados e senadores, a renda com as modernas idéias de lucro e produtividade, os legisladores deram
vários passos para forçar o proprietário rural a usar a terra de uma ma-
mínima se elevava a 250 alqueires de farinha. Para se aspirar a ser neira mais racional. Conscientes da necessidade de um novo tipo de trabalho
deputado exigiam-se 500 alqueires. A postulação ao Senado ficava re- para substituir o escravo, 'éies recorreram à imigração come fonte de tra.
servada àqueles cuja renda líquida atingia, no mínimo, 1.000 alqueires balho. Finalmente, supondo que num país onde a terra era disponível em
de farinha de mandioca. Daí a denominação "constituição da mandioca" grandes quantidades o imigrante poderia se tomar proprietário rural aO
com que ficou conhecido o projeto (cf. Mendes et alii, 11,1982:177-8). invés de trabalhar numa fazenda, eles tentaram tomar mais difícil o acesso
à terra, a fun de forçar os imigrantes a trabalharem nas fazenda,- (Costa,
Não obstante as restrições supra, o projeto era considerado mais 1979:136).
democrático do que a Constituição outorgada por D. Pedro I em 1824,
uma vez que nesta "se adotou o critério censitário estipulando taxas Eis como se aplicou no Brasil a ••teoria da colonização sistemática li

relativamente elevadas para qualificação de votantes, eleitores e depu- de Wakefield. Tal é a teoria da colonização que, no dizer de Marx, "a
tados" (Costa, in Mota, 1985:115). Inglaterra procurou por algum tempo pôr em prática através de leis",
Além de excluir do processo político as demais classes, os senhores tendo "por objetivo fabricar assalariados nas col6nias" (Marx, 11, 1968:
de terra também se empenharam em defender os seus privilégios, dificul- 884).
tando o acesso à propriedade, como demonstra a Lei de Terras aprovada E nesse quadro que se compõe o perfil parlamentar, como sintetiza
em 1850 em decorrência de projeto formulado pelo Conselho de Estado com toda clareza Francisco Iglésías, referindo-se ao período de 1848 a
em 1842 e encaminhado à Câmara dos Deputados em 1843. Emília 1868:
Viotti assim descreve o teor da proposta:
• A composição do Parlamento é a mesma de antes e a que ser' a regra
"O projeto- baseava-se nas teorias de Wakefield e inspirava-se na suposição no Brasil imperial e mesmo em parte do republicano: o predomínio do
bacharel, expressio dos ideais educativos da sociedade patriarcal, com o
de que, numa região onde o acesso à terra era fácil, seria impossível obter
culto dos valores retõrícos. O p-ande apate clu elelç6e1 , o aenhor de
pessoas para trabalhar nas fazendas, a não ser que elas fossem compelidas
terrál, que domina o Interior: o fazendeiro envia o filho a estUdar, príncí-
pela escravidão. A única maneira de obter trabalho livre, nessas circunstân-
palmente em Olinda e Sio Paulo,. nas Faculdades de Direito, a fim de
cias, seria criar obstáculos 41 propriedade rural. de modo que o trabalhador
obter o título e o neoessáriopreparo para a vida pública, vista entlo como
livre, incapaz de adquirir terras, fosse forçado a trabalhar nas fazendas.
campo de atlvídade reservado eminentemente ao bacharel- (Igléslas, to
Portanto, os tradicionais meios de acesso à terra - ocupação, formas de
Holanda, 11, 1972:16-7, grifos nossos).
arrendamento, meação - seriam proscritos" (Costa, 1979: 133).

Em conseqüência, a Lei de Terras aprovada em 1850 estabelecia a Mais adiante o mesmo autor afirma que o senhor de terras quer
compra como a única forma de aquisição de terras públicas. E o preço ele próprio ser bacharelou então faz do filho advogado para que possa
ir brilhar na Corte:
destas seria fixado a um nível tal que praticamente inviabilizava a sua
aquisição por aqueles que não dispunham de altas rendas, só sendo,
"O jovem bacharel, portanto, é para a cidade e para a tribuna: o fazen.
assim, acessíveis aos já proprietários. deiro, para o interior e para a lavoura; um dá a base eleitoral ampla' e
Emília Viotti resume sua apreciação da referida lei nos seguintes polida, o outro deve fazer a política em consonância com o interesle do
srando eleitor- (Iglésiu, Ül Holanda. lI, 1972:17).
termos:

32 33
Excluída a maioria da população e limitado o jogo político. às eli- proprietários de terras. Na verdade os liberais expressavam, via de
tes dominantes, as disputas então travadas se circunscreveram às dife- regra, a tendência modernizante, ao passo que os conservadores represen-
rentes tendências da classe dominante. São dessa ordem os debates leva- tavam o setor tradicional das oligarquias rurais.
dos a efeito na Assembléia assim como o conflito entre a Assembléia e A relativa prosperidade econômica usufruída pelo país na década
o imperador. Delineia-se, já a partir daí, a diferença entre liberais e con- de 1850 forneceu as bases para o surgimento da proposta explícita de
servadores que posteriormente irá assumir a forma de partidos. Segundo uma política de conciliação.
Afonso Arinos, "a formação do Partido Liberal coincide com a elabora-
Com efeito, a prática da conciliação é uma constante nos registros
ção do Ato Adicional e a do Conservador com a feitura da lei de inter-
dos historiadores desde a Independência até os dias atuais. Entretanto,
pretação" (Franco, 1980:31). Quer dizer, o Partido Liberal se organiza
desde a Abdicação, assumindo forma estável com a vitória do Ato na década de 50 do século passado ensaia-se a formulação expressa da
Adicional de 1834. Ainda segundo o mesmo autor, o Partido Conserva- política de conciliação provavelmente como tradução dos anseios de
dor se constitui 3 partir das eleições de 1836, consolidando-se com a perpetuação das condições existentes. O período da conciliação propria-
lei de interpretação do Ato Adicional editada em 1840 (cf. Franco. mente dita vai de 1853 a 1858 (cf. Iglésias, in Holanda, Il, 1972:69-70).
t 980:36) . A partir daí retoma-se o revezamento no controle político por parte de
conservadores e liberais, tão característico do período imperial, haja
É mister, porém, observar que o liberalismo assume nesse período
vista o sucesso da frase de Holanda Cavalcanti: "Não há nada mais
diferentes matizes. Emília Viotti, analisando apenas o Primeiro Império
e o período regencial, identifica cinco modalidades que vão desde o parecido com um 'saquarema' (conservador) do que um 'luzia' (liberal)
liberalismo "heróico" até a vitória do liberalismo regressista, passando no poder".
pelo liberalismo antidemocrático dos constituintes, o liberalismo mode- Nos embates que ao longo do Império os principais setores da
rado e o liberalismo radical dos primeiros anos da Regência (cf. Costa, sociedade civil travaram pelo controle da sociedade política, além dos
1979: 109-26) . partidos políticos que visavam diretamente o exercício do poder governa-
O conflito entre a Assembléia e D. Pedro I foi a forma em que mental, não faltaram também os partidos ideológicos configurados não
se manifestou o conflito entre o Legislativo e o Executivo no Primeiro apenas na presença da Igreja e da imprensa, registrando-se igualmente
Império. a existência concomitante e sucessiva de ligas e sociedades secretas de
Tal conflito se iniciou já nas discussões da Assembléia Consti- diferentes matizes, tais como a Sociedade Defensora da Liberdade e
tuinte, onde os "liberais" procuravam alargar o âmbito de competência Independência Nacional, a Sociedade Federal, a Sociedade Conservadora
do Poder Legislativo restringindo, em conseqüência, o poder do impe- da Constituição Brasileira, a Sociedade Militar, a Sociedade Promotora
rador, processo que culminou na aparente vitória do Executivo através do Bem Público, a Sociedade Secreta" Apostolado" e as lojas maçônicas
da dissolução da Assembléja Constituinte em 1823. Depois disso a Câ- como "Os Cavaleiros da Luz" e "Grande Oriente".
mara dos Deputados só veio a ser convocada em 1826, reacendendo-se Mas o Segundo Império se desenrolou sobre a base do desenvolvi-
o conflito que irá culminar na abdicação de D. Pedro I, portanto, na mento da economia cafeeira, que trouxe consigo o predomínio do setor
vitória do Legislativo sobre o Executivo. moderno representado fundamentalmente pelos cafeicultores do Oeste
A Abdicação, em 7 de abril de 1831, significou também, de certa Paulista sobre o setor tradicional compartilhado sobretudo pelos fazen-
forma, a vitória dós "liberais" que, entretanto, cederá lugar ao domínio deiros fluminenses e do vale do Paraíba. Tal predomínio veio a reforçar
conservador com a lei de interpretação do Ato Adicional de 12 de maio os ideais republicanos materializados na criação do Partido Republicano
de 1840. Cabe registrar, porém, que as reivindicações dos liberais não em 1870 e tendo como desfecho a Proclamação da República. Com o
eram muito diferentes daquelas dos representantes mais conservadores, regime republicano, consolidou-se o domínio político dos fazendeiros
o que se compreende pelo que já foi assinalado, isto é, tanto uns como do Oeste Paulista sobre a base do poder econômico que de fato já exer-
outros assentavam, na mesma base sócio-econômica constituída pelos ciam. Seus aliados principais passaram a ser os fazendeiros da Zona da

34 35
Mata e Sul de Minas, onde a cultura do café também se desenvol~ia à impacto das novas condições sócio-econômicas, o próprio bloco no poder
base das novas condições produtivas. . cindiu-se, dando origem ao "movimento tenentista", à dissidência do
Já o Manifesto do Partido Republicano definia em 1870 a idéia PRP consubstanciada no Partido Democrático fundado em 1926 e à
federalista defendendo como "princípio cardeal e solene" a autonomia constituição da "Aliança Liberal" decorrente da articulação do Rio
das, ~roví~c~as a serem elevadas à categoria de Estados. Tal orientação Grande do Sul com Minas, .que rompera com São Paulo, aliança esta
política fOI íncrementada por Prudente de Morais, do interior paulista e que contou também com o apoio da Paraíba.
republic~o da primeira hora, e consolidada por Campos Sales, natural Sérgio Abranches resume seus estudos sobre o processo legislativo
de Campinas e também republicano de primeira' hora, através do fenô- na Primeira República nos seguintes termos:
meno que f!co~ conhecido como "política dos governadores". Eis por
que. a ~epubhca .Velha ~ caracterizou pela inexistência de partidos "O Legislativo, longe de ser uma instituição submissa ao Executivo oligár-
quico, era um instrumento afinado de manutenção do poder das oligarquias
n~clonals, tendo Sido dominada pelo Partido Republicano Paulista em.
estaduais e da descentralização federativa. Como tal era o mais eficaz
aliança com o Partido Republicano Mineiro.
mecanismo de vigilância ao Executivo, impedindo que este se tomasse o
Entretanto, a Primeira República se caracteriza também por um agente poderoso da centralização do poder da União, ameaçando, assim, a
hegemonia estadual. Se o Legislativo, na maior parte das vezes, apoiou as
processo de relativo desenvolvimento urbano e industrial que traz con-
medidas do Executivo, não foi por submissão ou irrelevância, mas porque
sigo a constituição de um proletariado incipiente mas combativo influen- ambos representavam a mesma área de igualdade, estando comprometidos
c~ado ?as du~s ~rimeiras décadas deste século pelas idéias a;arquistas com a mesma vontade e os mesmos interesses: o da oligarquia dominante,
difundidas principalmente por operários imigrantes. crucialmente vinculada à economia agro-exportadora e à estrutura latífun-
dista, consubstanciada nas explorações tipo plaDtation" (Abranches, 1973':
Dado o caráter da ideologia que professavam, os anarquistas não 179-80).
organizaram partidos políticos (cf. Fausto, 1977). Constituíram, entre-
tanto, partidos ideológicos de diferentes tipos. Desenvolveram uma im- A revolução de outubro de 1930 conduziu ao poder Getúlio Var-
prensa operária combativa, editando grande número de jornais tanto gas, candidato da Aliança Liberal derrotado nas eleições de março, que
em português como em italiano e em espanhol (cf. Ferreira, 1978). foram consideradas fraudulentas. Exercendo a Presidência em caráter
Organizar~ sindicatos, fundaram várias "escolas modernas" inspiradas provisório, em cujo período foi eleita uma Assembléia Nacional Cons-
na pedagogia do educador espanhol Francisco Ferrer e criaram biblio- tituinte que elaborou .uma nova Constituição promulgada em 1934,

, tecas populares.
. E~ 1922 é fun?ado o Partido Comunista do Brasil (PCB) que,
Getúlio Vargas foi eleito pela própria Assembléia, então transformada
em Congresso Nacional, para um período presidencial de quatro anos
durante o qual o Congresso Nacional funcionou regularmente, operando,
~mpu!sl~nado pela vitória da Revolução Russa, tende a suplantar a
inclusive, como órgão legitimador das medidas de exceção que Vargas
influência a~arqU1sta no meio operário, destacando a importância e,
ia instituindo progressivamente, sob o pretexto de combater ações sub-
~esmo, o primado da luta ~lítica sobre as lutas econômica e ideolõ-
versivas.
gica. ~m 1927 ~s comunistas criam o Bloco Operário-Camponês (BOC) ,
O mandato constitucional de Vargas deveria se encerrar com as
que tinha o cara ter de um partido dos trabalhadores destinado a travar
eleições diretas do novo presidente, marca das para janeiro de 1938,
a luta política também no âmbito parlamentar (cf. Decca, 1981).
nas quais Getúlio estava impedido de se candidatar à reeleição.Entre-
O poder oligárquico, de seu lado, respondia com a repressão a tanto, em 10 de novembro de 1937, Vargas institui o Estado Novo,
todas essas tentativas de mobilização dos trabalhadores, mantendo-os outorga uma nova Constituição e continua no poder, agora na condição
afasta?os do jo~o político i.nstitucional, consoante a célebre expressão de de ditador.
Washington LUISque considerava a questão social caso de polícia.
Em conseqüência, o Poder Legislativo foi absorvido pelo Executivo.
Durante todo esse período, o Poder Legislativo desempenhou impor- Com efeito, em sua mensagem radiofônica do mesmo dia 10 de novem-
tante papel na manutenção do sistema de dominação. Entretanto, sob o bro, Getúlio afirma que o Brasil devia abandonar a "democracia dos
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partidos", entendida como um regime que "ameaça a unidade pátria",
levou ao crescimento real da representação trabalhista, cada vez mais for-
e considera "desaconselhável" a continuidade do Congresso que é carac- mada de elementos reformistas. Assim, também dentro do Legislativo con-
terizado como um "aparelho inadequado e dispendioso". Em suma, substanciava-se o conflito entre reformistas e conservadores, disciplinado,
cabia ao Brasil instaurar um "regime forte, de paz, de justiça e de entretanto, pelas regras do jogo parlamentar e pelos compromissos deri-
trabalho para reajustar o organismo político às necessidades econômi- vados do 'pacto de dominação'. Corno resultado desta situação, a ação
política do Legislativo oscilou, sempre, entre o conflito e a conciliação, sem
cas do país" (cf. Skidmore, 1969:50).
contudo deixar de ser, em qualquer momento, conservadora" (Abranches,
Com a queda do Estado Novo em 1945 o novo Congresso eleito 1973:70).
em 2 de dezembro assumiu o caráter de Assembléia Constituinte e em
setembro de 1946 aprovou a nova Constituição. Como veremos no próximo capítulo, a República populista con-
sistiu num regime de "democracia restrita" sustentada pela estratégia
Durante o período da chamada República populista o Legislativo da "conciliação". Com efeito, se a República Velha tratou a questão
desempenhou importante papel na defesa do "pacto de dominação" social como um caso de polícia e o Estado Novo a considerou uma ques-
decorrente da correlação de forças que viabilizou a derrubada do Estado tão legal equacionada através da legislação trabalhista, a República
Novo. Gozando de relativa estabilidade e tranqüilidade e estabelecendo populista admitiu o seu caráter de questão política restringindo, porém,
relações harmoniosas com o Executivo, como nos governos de Dutra e os trabalhadores à condição de massa de manobra dos interesses elei-
[uscelino; ou agitado por relações conflituosas e antagonizado pelo Exe- torais das elites dominantes. Não se permitiu, portanto, que a classe
cutivo, como nos períodos de Getúlio, Iânio e Goulart, o Congresso trabalhadora integrasse o pacto político. De fato, em se tratando de um
Nacional, através da formulação das regras do jogo, da ação destacada
pacto de dominação, esta se exercia exatamente sobre os trabalhadores,
na solução das crises políticas, da apresentação de impeachments e de não sendo, pois, possível a sua participação no referido pacto.
diferentes mecanismos de resistência à mudança, foi fator decisivo na
manutenção do referido pacto. Expressão dessa restriçãc à classe trabalhadora foi o fechamento,
já em 1947, do Partido Comunista Brasileiro, considerada a impratica-
E importante destacar a função de resistência às mudanças por-
bilidade da sua inclusão no "pacto de dominação". Concomitantemente,
que, como assinala Abranches, por uma espécie de distorção das ciên-
o Partido Trabalhista Brasileiro, criado por Getúlio exatamente para
cias sociais, os estudos têm privilegiado os fatores que atuam positiva-
afastar os trabalhadores da influência comunista, foi utilizado como ins-
mente nos processos de mudança. Aqueles que operam negativamente,
trumento de manipulação das classes trabalhadoras. Entretanto, no de-
isto é, como elementos que inviabilizam as mudanças, têm sido negli-
correr do processo, a relação tende a se inverter, passando os trabalha-
genciados. Em conseqüência, sendo o Legislativo considerado conser-
dores a utilizar o PTB como um instrumento de pressão por reformas
vador e, portanto, obstáculo ao desenvolvimento, sua análise é descon-.
estruturais no sistema. Em conseqüência, a crescente participação das
siderada nos estudos sobre o processo de desenvolvimento. Entretanto,
massas populares no jogo político se traduz no crescimento da força
cabe considerar a participação efetiva dessa instituição nos processos
do PTB. Assim, enquanto o PSD reduz o número de cadeiras na Câma-
de mudança, enquanto fator4 impeditivo das mesmas.
ra dos Deputados de 52,8% em 1945 para 28,8% em 1963 e a UDN
Ainda segundo Abranches, o Congresso, por refletir em seu inte- passa de 27,0% para 22,2% no mesmo período, o PTB evolui de
rior a composição de forças do pacto, é responsável pela vigilância 7,7% em 1945 para 28,4% em 1963 (TSE, Dados Estatísticos Eleitorais,
necessária à sua manutenção e, ao mesmo tempo, funciona como um apud Abranches, 1973:66). As pressões cada vez mais insisten:es p~r
A
limitador das ações externas, em especial do Executivo, que possam reformas de base oriundas da área trabalhista colocaram em evidência
ameaçar o equilíbrio de forças vigente: os limites do "pacto de dominação". O Congresso Nacional agiu no
sentido de prolongar ao máximo a existência do regime então vigente:
"Este duplo aspecto na composição do Legislativo é fundamental, pois.
embora o mecanismo de manutenção do poder interno de grupos conser-
vadores tenha funcionado eficientemente, o fato de esta composição refletir. "Ao formular o quadro institucional, responsável pela organização supe:e~-
necessariamente, a evolução das forças políticas, externas ao Legislativo. trutural do sistema de poder, o Legislativo criou mecanismos que possibi-
litassem, ao máximo, a sobrevivência deste sistema, criou instâncias para
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39
a intervenção militar, restrita, no entanto, a um papel moderador,. ficando Caiu, porém, no esquecimento, não voltando mais ao plenário (cf,
assim com a responsabilidade da solução política e institucional das crises. Xavier, 1980:22-9).
Deste modo, consolidou um sistema de relações entre os' diversos parceiros.
através do qual ele poderia restringir a ação reformista do Executivo e, Sorte bem diversa teve o segundo projeto, o da criação de uni-
sempre que a pressão das áreas de igualdade mais reformistas ameaçasse versidades. Propunha ele a criação de duas universidades, uma em
a estabilidade do 'pacto de dominação', dar partida a um processo de crise, São Paulo e outra em Olinda. Apresentado à Assembléia pela Co-
com acíonamento dos dispositivos militares e políticos, na reestruturação missão de Instrução em 19 de agosto de 1823, "foi requerida urgên-
de um modus vivendi mais aceitável entre os componentes do 'pacto de
dominação' " (Abranches, 1973: 180-1).
cia e venci da unanimemente,· sem discussão; e fazendo-se logo a segun-
da leitura, venceu-se também que era objeto de deliberação, e mandou-
A última crise, entretanto, implicou a desarticulação do próprio se imprimir para ser debatido" 1.
pacto, o que se efetivou com o golpe militar de 1964. Discutido em algumas sessões nas quais as divergências principais
No novo contexto o Congresso a princípio entrou em conflito com consistiam em se se deveria criar duas, três ou apenas uma universi-
o Executivo em defesa dos interesses internos à instituição (1964-1968), dade e onde deveriam estar elas localizadas; o projeto foi aprovado em
passando a desempenhar o papel de legitimação do regime autoritário 4 de novembro, prevalecendo, no fundamental, os termos do projeto
(1969-1974) e participando ativamente do processo de "distensão lenta, original formulado pela Comissão de Instrução Pública. Entretanto, em
gradual e segura", bem como da "abertura democrática" que desem- 12 de novembro de 1823, D. Pedro I dissolveu a Assembléia Consti-
bocou na "Nova República". tuinte e Legislativa, não sendo, pois, promulgado o único projeto sobre
instrução pública elaborado e aprovado pela Assembléia (cf. Xavier,
2. O Congresso Nacional na educação brasileira 1980:30-6) .
Indicada em suas linhas básicas a localização política do Congres- Se levarmos em conta o que foi registrado no item anterior sobre
so Nacional no contexto brasileiro, destacando, de modo especial, as a composição do Parlamento no período imperial, fica clara a razão
suas relações com o Executivo, cabe agora apontar, de forma muito do diferente tratamento dispensado pela Assembléia aos dois projetos.
sumária, o sentido geral da presença da educação na ação parlamentar Com efeito, os parlamentares eram, via de regra, bacharéis e represen-
enfocada, também, sob o prisma das relações com o Executivo. tantes dos senhores de terra. Nessas circunstâncias, compreendem-se os
Proclamada a Independência, já ao inaugurar a Assembléia Cons- inúmeros discursos acompanhados de desinteresse real pela questão
tituinte e Legislativa,em 3 de maio de 1823, D. Pedro t chamou a da instrução popular e, por outro lado, o interesse real, bastante ágil
atenção para a necessidade de uma legislação específica sobre a instrução. e prático, pela criação de universidades. Eis por que o projeto apro-
vado, além de prever, em seu artigo 1.0, a criação de duas universi-
Abertos os trabalhos e eleita uma Comissão de Instrução Pública, dades, antevendo já as dificuldades para tal empreendimento, estabe-
ao longo dos seis meses de funcionamento da Assembléia Constituinte leceu no artigo 4: "Entretanto, haverão desde já dois cursos jurídicos,
vieram à luz dois projetos relativos à instrução pública: projeto do Tra- um na cidade de São Paulo e outro na de Olinda ... " (Xavier, 1980:35).
tado de Educação para a Mocidade Brasileira e projeto de Criação de
Universidades (cf. Xavier, 1980:22). Eis, pois, a conclusão: a educação popular podia não apenas espe-
rar por um "Tratado de Educação para a Mocidade Brasileira", mas
O primeiro projeto foi apresentado pela Comissão à Assembléia
este mesmo tratado podia ser adiado síne die. Já a formação dos bacha-
em 16 de junho de 1823 e propunha a concessão de prêmio a quem
réis não podia esperar um só instante; sua criação tinha que ser ime-
apresentasse o melhor tratado de educação física, moral e intelectual
diata. De fato, a motivação básica para a criação de universidades foi
da mocidade brasileira. O referido projeto foi objeto de muitos e aca-
lorados debates no decorrer de seis sessões, a última delas realizada em
11 de agosto. Entretanto, em virtude da grande quantidade de emendas 1. Annaes do Parlamento Brazileiro: Assemblea Constituinte.. 1823, 2.' voI.
o projeto teve sua votação adiada até que se elaborasse nova redação: tomo IV, sessão de '19-8-1823, p. 132, apud Xavier (1980:31).

40 41
claramente expressa por José Feliciano Fernandes Pinheiro, deputado Sobre a referida lei, assim se manifestou Geraldo Bastos Silva, refe-
pelo Rio Grande do Sul, na sessão de 14 de junho de 1823: rindo-se à denominação de "escolas de primeiras letras" em lugar de
"Uma porção escolhida da grande família brasileira, a mocidade a quem "escolas primárias", como previsto na Constituição:
um nobre estímulo levou à Universidade de Coimbra, geme ali debaixo
dos mais duros tratamentos e opressão, não se decidindo, apesar de tudo, "Se a denominação de escola primária representaria, política e pedagogica-
a interromper e a abandonar a sua carreira, já incertos de como será seme- mente, a permanência da idéia de um ensino público suficientemente difun-
ít lhante conduta avaliada por seus pais, já desanimados por não haver ainda
no Brasil institutos onde prossigam e rematem seus encetados estudos". 2
didoe realmente formativo, a
simbolizava, antecipadamente,
classificação de 'escolas de primeiras letras'
a tibieza congênita que irá marcar a maior
t
parte dos esforços de educação popular durante o Império, e até mesmo na
"! Maria Elizabete Xavier assim comenta o referido discurso: República" (Silva. 1969: 193).
"E é em consideração à 'amarga conjuntura' em que se encontram esses
jovens, 'voltados para a pátria por quem suspiram', que pede seja encami- E, após considerar tanto a "falta de uma genuína necessidade de
nhada para a Comissão de Instrução a indicação de criação de 'pelo menos educação escolar", dado o caráter agrário e escravista da sociedade bra-
uma Universidade'" (Xavier, 1980:30).
sileira no período imperial, como também "a limitação das idéias do-
O Parlamento só foi reaberto em 1826, iniciando-se os trabalhos minantes em relação à educação elementar" na Alemanha e França,
em 3 de maio, tendo surgido, nos primeiros meses, várias manifestações em contraste com o prestígio do ensino secundário, observa o mesmo
e propostas relativas à instrução popular. As manifestações se referiam autor:
à necessidade de um plano geral de instrução, mas, no todo, as pro-
postas solicitavam a criação de escolas nesta ou naquela província, "Não é de admirar, portanto, que, entre nós, as preocupações educacionais
conforme a origem dos deputados que as apresentavam. Foram, porém, também se deslocassem do problema mais amplo da organização completa
de um sistema nacional de educação, que predominara na Constituinte e
apresentados pela Comissão de Instrução dois projetos de cunho geral. na fase imediatamente posterior, para aqueles outros que, de modo mais
O primeiro, que ficou conhecido como "Projeto de Reforma Januário restrito, respondiam a necessidades fragmentárias e específicas: o de um
'da Cunha Barbosa", era bastante ambicioso e propunha fosse organizada sumário ensino de 'primeiras letras', para as camadas populares das aglome-
a instrução pública no Império em quatro graus: pedagogias, liceus, rações urbanas, e os do ensino superior profissional e da criação de algu-
ginásios e academias, abrangendo, portanto, desde a escola primária, mas instituições de tipo secundário, onde fosse feita a indispensável prepa-
ração a esse ensino superior" (Silva, 1969: 193).
passando pelo ensino profissional e formação científica, até o ensino
superior. Tal projeto, porém, nem chegou a entrar em discussão, não
sendo registrada qualquer justificativa para seu abandono. Com o Ato Adicional de 1834, conforme estipulado no artigo 10,
atribui-se às Assembléias Legislativas Provinciais a competência para
O outro projeto da Comissão era bem mais modesto e propunha
legislar sobre ensino, excluído o nível superior. Assim, a partir daí,
apenas a criação de escolas df primeiras letras. Apresentado à Câmara
o governo central reteve a incumbência relativa ao ensino superior em
dos Deputados em 9 de junho de 1827, após muitas discussões o projeto
todo o país, limitando sua ação nos demais níveis ao município da
foi aprovado com algumas emendas em 30 de julho e encaminhado ao
Corte. Às províncias cabia a responsabilidade pelo ensino primário e
Senado Federal. Ao retornar à Câmara para apreciação das emendas
secundário nos respectivos territórios.
apresentadas pelo Senado, o projeto foi aprovado sem discussões em
18 de setembro e transformado em decreto imperial em 15 de outubro. Sobre esse dispositivo do Ato Adicional, observou Maria Luísa
Ficou conhecido como a Lei de 15 de outubro de 1827, tendo sido nossa Ribeiro:
primeira lei nacional sobre instrução pública, além de se constituir na
única lei geral sobre o ensino primário até 1946. "O curioso é que pelo art. 83 da Constituição de 1824, ficava vedado às
Assembléias Provinciais a proposição e deliberação sobre assuntos de inte-
resse geral da nação. Isto parece indicar que a instrução, em seus níveis
2. Annaes do Parlamento Brazileiro: Assemblea Constituinte, 1823, 1.° vol.
elementar e secundário, não era considerada como 'assunto de interesse
tomo I l, sessão de 14 de junho de 1823, p. 63, apud Xavier (1980:30).
geral da nação'" (Ribeiro, 1978:28).
42 43
Estado Novo, por iniciativa do ministro GustavoCapanema, fo~m
Em consequencia, o Parlamento brasileiro só veio a se ocupar, a decretadas as Leis Orgânicas do Ensino Industrial (1942), do Ensmo
nível nacional, do ensino primário e secundário por ocasião da Lei Secundário (1942) e do Ensino Comercial (1943), além das Leis Or-
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, aprovada em 1961. Com gânicas do Ensino Primário, do Ensino Normal e do Ensino Agrícola,
efeito, a organização geral do ensino secundário, integrante das refor- decretadas em 1946, portanto, imediatamente após a queda do Estado
mas Francisco Campos, fora baixada por decreto (Decreto n," 19.890, Novo. Com isso, procedendo por partes, foram reorganizados t~do.s
de 18 de abril de 1931 e n," 21.241, de 4 de abril de 1932), o mesmo os ramos do ensino primário e médio. Após o Estado Novo, as pnnci-
ocorrendo com a Lei Orgânica do Ensino Primário, integrante da reforma pais leis de ensino são aquelas que' constituem o objet~ específico do
Capanema, instituída através do Decreto-lei n," 8.529, promulgado em presente trabalho e cujo significado político será exammado nos prõ-
2 de janeiro de 1946 (cf. Romanelli, 1978:134 e 159). ximos capítulos.
Em todo esse período, desde o final do Primeiro Império até nossos
dias, ressalta a primazia da iniciativa do Executivo sobre o Legislativo
em matéria de educação. Isso é evidenciado inclusive pelo fato de
que a maioria das reformas ficaram conhecidas pelos nomes de seus
proponentes, em geral ministros de Estado.
< -.:';

Assim, no Segundo Império, temos a reforma Couto Ferraz,


que apresentara um projeto na condição de deputado em 1851, projeto
esse aprovado pela Assembléia Geral Legislativa (cf. Paiva, 1973:70),
mas só transformado em reforma ao ser regulamentado em 1854, quando
Couto Ferraz já era ministro. O mesmo se diga da reforma Leôncio de
Carvalho, cujo projeto fora por ele apresentado à Assembléia em 1878
mas decretada em 1879, com Leôncio de Carvalho na condição de
ministro. Além disso, foram propostos os projetos Paulino de Souza
(1870) e Barão de Mamoré (1887), ambos também ministros, acres-
centando-se o de João Alfredo (1874) e, em 1882, o de Almeida e
Oliveira (cf. Moacyr, 1937 lI). Registre-se que todas essas reformas
e projetos referiam-se ao município da Corte.
No período republicano, o ciclo de reformas se inicia com o minis-
tro Benjamin Constant, cuj~ reforma foi decretada em 1890 e posta
em prática em 1891, prosseguindo com o Código Epitácio Pessoa
(1901), seguido das reformas Rivadávia Corrêa (1911), Carlos Maxí-
miliano (1915) e Luiz Alves/Rocha Vaz (1925). Durante a Primeira
República, como informa Jorge Nagle, o Poder Executivo solicitava
autorização ao Poder Legislativo para reorganizar a instrução pública,
continuando a "tradição de incluir nas leis orçamentárias dispositivos
autorizando o Poder Executivo a reformar a instrução pública" (Nagle,
1974:338 e 142, nota 23).
Com a Revolução de 1930, como já se disse, foram baixadas por
decreto as reformas Francisco Campos, que abrangiam os ensinos médio
'" com validade para todo o território nacional. E durante o
e superior,
45
44
I Capítulo II
I

CONGRESSO NACIONAL
E A LEI N~ 4.024/61
A estratégia da "conciliação
na "democracia .restrita"

1. O projeto original

O projeto de lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional decor-


reu da exigência do art. 5.°, XV, d, da Constituição Federal de 18 de
setembro de 1946. Para dar -cumprimento a esse dispositivo constitu-
cional, que concedeu à União competência para fixar as "diretrizes e
bases da educação nacional", o ministro da Educação, Clemente Ma-
riani, constituiu uma comissão composta por educadores de variadas
tendências. A referida comissão foi instalada em 29 de abril de 1947.
Dos trabalhos da comissão resultou um anteprojeto de lei que,
alterado em alguns aspectos pelo ministro, deu origem ao projeto de lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O referido projeto, acom-
panhado por Exposição de Motivos do ministro da Educação e Saúde,
pelo anteprojeto elaborado pela comissão designada pelo governo e
por dois relatórios, sendo um da comissão e outro da subcomissão
do ensino médio, foi encaminhado pelo presidente da República à
Câmara Federal em 29 de outubro de 1948, data em que se comemo-
rava o aniversário da queda de Getúlio Vargas e do Estado Novo,
sob a forma de Mensagem que recebeu o n,? 605.
Para se compreender as vicissitudes pelas quais passou o projeto
em questão no Congresso Nacional, é necessário levar em conta as
vinculações políticas dos principais atores envolvidos no processo de
tramitação do mesmo projeto.
Cumpre, pois, registrar que Clemente Mariani, ministro da Educa-
ção e Saúde, era membro da UDN. Eis por que, dirigindo-se ao pre-

47
sidente Eurico Gaspar Dutra, do PSD, em sua Exposição de Motivos, Insistindo nessa tecla, o líder da maioria na Câmara Federal rela-
assim se manifestou o ministro: ciona a orientação pedagógica do projeto com a intenção política 'de
denegrir a ditadura do Estado Novo:
"Porque considero que as alterações por mim introduzidas no antepro-
jeto ( ... ) mantiveram-se estritamente dentro dos princípios gerais que nor-
":e que o projeto não tem intenção pedagógica mas política ... Estou em.
tearam os trabalhos da Comissão e que são os mesmos esposados por Vossa
pregando intenção política rio mau sentido do termo... justamente no sen-
Excelência na sua plataforma de governo, bem como pelo candidato do tido com que desejo condenar o andamento do projeto, que esteve sepul-
meu partido, no desenrolar da grande campanha democrática em que foi
tado todo esse tempo, porque nasceu com a tremenda infelicidade de' não
seu leal e valoroso antagonista" (Diário do Congresso Nacional - DCN,
ter uma intenção pedagógica, educacional, mas de pretender ser, na His-
12-2-57:8).
tória do Brasil, uma revolução - foi a palavra empregada naquele dia pelo
Ministro - contra 011 princípios pedagógicos, filosóficos e políticos da
E, mais adiante, já próximo do final de sua Exposição de Motivos, ditadura. O projeto era apresentado como uma revolução que se fazia contra
o ministro afirma: o Presidente deposto, precisamente no terreno da educação que era aquele
terreno em que, segundo os reformadores, a ditadura se tinha expressado
"O regime instituído no projeto é, portanto, como eu o anunciava, sob de maneira mais viva, mais eloqüente e mais durável" (DCN, 12-2-57:128,
este e muitos outros aspectos, menos uma reforma do que uma revolução. grifos meus).
Mas uma revolução que nos integra nas fortes e vivas tradições de que
fomos arrancados pela melancólica experiência da ditadura. Uma revolu- E como ficava a posiçao do presidente Dutra, do PSD, que en-
ção por cujos ideais propugnaram Vossa Excelência e o Brigadeiro Eduardo
viara o projeto ao Congresso e portanto o assumiu, diante do combate
Gomes, simultaneamente inscrevendo nas suas plataformas de governo os
princípios que se consubstanciariam nos dispositivos constitucionais" (DCN, sem tréguas que travou contra o projeto o seu representante na Câmara
12-2-57:9). de Deputados?
I Respondendo a uma interpelação de Lopo Coelho, que lhe pedira
A referência supra é importante porque aponta na direção de um para isentar Outra, o próprio Capanema esclarece a questão:
dos principais motivos que levaram o deputado Gustavo Capanema,
do PSD, a se insurgir contra o projeto das Diretrizes e Bases da "O Presidente Outra declarou-me naquela época, quando lhe falei a respeito
Educação. Isto porque o referido projeto foi visto por Capanema como da educação e das diretrizes contidas no projeto que entre o Presidente
que apresentava a Mensagem e o antigo colega de Ministério havia grande
produto e expressão da posição política antigetulista, como atestam distância simplesmente que, como Presidente, ele tinha encaminhado o
essas suas palavras: projeto, mas que eu, seu amigo, seu correligionário e homem que o apoiava
no Congresso, estava livre para combatê-lo aqui dentro" (DCN, 12-2-57:128).
"Não se iniciou ela (a proposta de lei) com intenções pedagógicas, como
era tão natural que a nação desejasse e esperasse. :e infeliz o projeto, porque As falas de Gustavo Capanema, até agora transcritas, foram pro-
nele não se contém apenas matéria de educação mas uma atitude política.
Foi lançado num certo dia. de 29 de outubro quando o então Ministro da nunciadas no discurso em que, como líder da maioria, contraditava o
Educação, o eminente, o ilustre Clemente Mariani reuniu, no Palácio do requerimento de urgência para o projeto das Diretrizes e Bases da
Catete, os festejos do Governo Federal, com os aparelhos da propaganda, Educação, encaminhado por Prado Kelly, da UDN, na sessão de 2-8-56.
com os ruídos do civismo e da política de então, para comemorar, com a
apresentação deste projeto, a queda do Presidente Getúlio Vargas" (DCN, Vê-se, portanto, como o aspecto político-partidário foi decisivo
12·2·57:128). no posicionamento tomado pelos deputados' diante do projeto. Assim,
além de Prado Kelly, líder do bloco de oposição e autor do requeri-
E mais adiante acrescenta que o projeto não nasceu "com inten- mento de urgência, que falou para encaminhar a votação, manifestaram-
ções educacionais, pedagógicas, frias e serenas, mas como uma atitude se também, interrompendo o discurso de Capanema com seguidos "não
política" (DCN, 12-2-57:128). Segundo o deputado, o projeto reuniu apoiado" e outras intervenções, Adauto Cardoso, Nestor Duarte, Ruy
no Palácio do Catete "a fina flor dos inimigos da ditadura que para Santos, Aliomar Baleeiro, Herbert Levy e Coelho de Souza, todos
lá foram sob os holofotes dos fotógrafos e dos dips" (DCN, 12-2-57: 128). da UDN.

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Se PSD e UDN se posicionaram, respectivamente, e de modo "Se aprovada a urgencia, examinaremos o mérito da proposiçao. Desde já,
claro, contra e a favor do regime de urgência, como se situou no episó- Sr. Presidente. dou meu voto pessoal de homenagem àquele líder, libertando
dio o PTB, partido que mediante coligação com o PSD integrava o totalmente meus liderados de se conduzirem em igual sentido" (DCN, 12-2-57:
130).
governo?
Na condição de partido que integrava minoritariamente o bloco Em síntese, o projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
no poder, o PTB tendeu a utilizar a medida como instrumento de ne- Nacional deu entrada no Congresso em 29 de outubro de 1948, tendo
gociação, condicionando o seu apoio à aprovação de propostas de sido distribuído às comissões de Educação e Cultura (onde foi desig-
interesse direto do partido. nado relator Eurico Salles) e de Finanças. Em 8 de dezembro foi
Dessa forma, Fernando Ferrari, então líder do Partido Trabalhista remetido ao Senado para ser submetido à apreciação da Comissão
Brasileiro na Câmara Federal, ao se manifestar sobre o pedido de Mista de Leis Complementares, onde foi indicado relator o deputado
urgência, afirmou: Gustavo Capanema. Em longo e erudito parecer emitido em 14 de
julho de 1949, Capanema, após discorrer sobre o "sentido constitucio-
" . .. tive oportunidade de contraditar questão de ordem do honrado Líder nal das diretrizes e bases da educação nacional", sobre os "sistemas
do Bloco Parlamentar da Oposição, afirmando a S. Excia. que nada tinha
de ensino locais", a "tendência centralizadora das federações", o "cará-
a opor, pessoalmente, às suas urgências, mas que exigia, em primeiro lugar,
respeito ao compromisso da Mesa em relação a requerimento por mim ter nacional da educação" e a "dispersão da ordem pedagógica", conclui
anteriormente apresentado" (DCN, 12-2-57:129). que o projeto deveria ser refundido ou emendado. À luz desse parecer,
diversas emendas foram apresentadas na Comissão Mista de Leis Com-
Salienta, em seguida, que assumira espontaneamente compromisso plementares.
perante Prado Kelly, embora considerasse que o "desejo sincero" de
Entretanto, a conseqüência do Parecer Capanema foi o arquiva-
votar a favor do pedido de urgência deveria incidir sobre outra urgência mento do projeto.
que sintetizasse, inclusive, os interesses do partido "e não esta contra
a qual tinha que se opor, inclusive, minha bancada, porque discordava Em 17 de julho de 1951, a Câmara solicita o desarquivamento
do mérito do projeto" (DCN, 12-2-57: 130, grifos meus). E acrescentou da Mensagem n." 605 e, como o Senado respondera que o processo fora
haver sugerido ao líder da oposição que substituísse esse pedido por extraviado, determina a reconstituição do processo.
outro de autoria do udenista Rondon Pacheco, que guardava certa Desarquivada a Mensagem, o processo tramita na Comissão de
semelhança com a reforma agrária. E encaminha a conclusão nos se- Educação e Cultura por cerca de cinco anos e meio. Somente na
guin tes termos: reunião de 14-11-56 é apresentado o relatório da subcomissão encarre-
gada de estudar o projeto das Diretrizes e Bases, cujo redator foi o
": .. darei meu voto pessoal4ao requerimento de urgência, permitindo que deputado Lauro Cruz. E finalmente, na sessão do dia 29-5-57, inicia-se,
o problema seja considerado objeto de deliberação. Entretanto, quanto ao no plenário da Câmara, a discussão do projeto que recebeu o n,"
mérito do projeto, -peço vênia para dele discordar frontalmente" (DCN,
2.222/57.
12-2-57: 130).
Como vimos, desde sua entrada no Congresso, o projeto original
Em seguida mostra que o projeto "quebra todo o sistema da das Diretrizes e Bases da Educação esbarrou na correlação de forças
unidade de ensino nacional" e afirma que, se for aprovada a urgência, representada pelas diferentes posições partidárias que tinham lugar no
ocupará a tribuna para debater com a oposição suas teses, desejando Congresso Nacional.
que os deputados da União Democrática Nacional se empenhem real-
Oriundo de uma comissão cujo relator geral, o prof. Almeida
mente em fazer obra de mérito, abandonando "esses projetos até certo
[únior, era filiado à UDN e encaminhado ao Congresso por um minis-
ponto arcaicos, brotados, por assim dizer, da noite para o dia, como
tro, também da UDN, enfrenta as críticas do bloco ma'ori .
cogumelos, sem nenhuma consistência técnica maior". E encerra:
Parlamento. Assim é que o líder do PSD, com o MBemTECÀ~ftlfiAl
59··
UESB
que era majoritária, fulmina o projeto tachando-o de infeliz, incons- De fato, isto ocorreu na reunião de 26-11-58 da Comissão de Educação
titucional e incorrigível, enquanto os deputados da UDN se empenham e Cultura, quando Perilo Teixeira encaminhou à subcomissão relatora
na defesa do mesmo, acusando Capanema de boicote à proposta. substitutivo ao projeto n," 2.222/57, que ficou conhecido com a deno-
minação de "substitutivo Lacerda".
2. Um novo projeto O referido substitutivo representou uma inteira mudança de rumos
O projeto cuja discussão se miciara no plenário da Câmara no na trajetória do projeto. Seu conteúdo incorporava as conclusões do Hl
final de maio de 1957 já n20 era o mesmo que dera entrada naquela Congresso Nacional dos Estabelecimentos Particulares de Ensino, ocorri-
Casa em 29 de outubro de 1948. Na verdade, o projeto original, agora do em janeiro de 1948. Conseqüentemente, os representantes dos in-
identificado pelo número 2.222/57, chegava ao Plenário consideravel- resses da escola particular tomavam a dianteira do processo.
mente emendado. De fato, consistia, pois, numa nova versão decorrente Tudo indica que o interesse de Carlos Lacerda no projeto de lei
das modificações previamente aprovadas pela Comissão de Educação e de Diretrizes e Bases da Educação Nacional se deu, inicialmente, por
Cultura. Àquela altura, o primeiro projeto já havia perdido muito de motivação tipicamente partidária. Com efeito, os deputados da União
sua organicidade e coerência iniciais. Comprova esta constatação o dis- Democrática Nacional, partido a que pertencia Carlos Lacerda, com
curso de Coelho de Souza proferido na sessão de 4-6-57. Ele historia o freqüência se manifestavam no plenário da Câmara reivindicando a
problema, explicando por que o projeto ficou tanto tempo na Comissão'
agilização do andamento do projeto. E o faziam inequivocamente como
de Educação e Cultura e mostra que o projeto, como estava, não po-
membros da oposição, contra aquilo que consideravam como medidas
deria ser aprovado, devendo voltar à Comissão para ser reformulado.
E denuncia as contradições a que a Comissão foi obrigada a cair por protelatórias tomadas pelos representantes da situação. E nesse contexto
causa dos obstáculos políticos surgidos com o boicote do líder da maio- que Lacerda toma a iniciativa, em 1955, de reconstituir o projeto origi-
ria: Gustavo Capanema (cf. DCN, 6-6-57:3.617) .. nal. Assim, na sessão de 2-5-55 Carlos Lacerda apresenta questão de
ordem pedindo esclarecimentos sobre como poderia incluir o projeto
O projeto supra durou pouco em plenário. Já na sessão de 31-5-57,
das Diretrizes e Bases na ordem do dia, recebendo a resposta de que
Abguar Bastos pede que o projeto volte à Comissão de Educação e
Cultura e seja totalmente refeito. De fato, após receber cinco emendas, isso só poderia acontecer depois de receber parecer da Comissão de Edu-
conforme registra o Diário do Congresso Nacional, S. L, de 7-6-57, a cação e Cultura onde, conforme esclarecimento de Afonso Arinos, o proje-
proposição retoma para exame da Comissão de Educação e Cultura. to estava sendo reelaborado devido a divergências surgi das (cf. DCN,
ReeIÍcaminhado ao plenário, o projeto entra em segunda discussão, quan- 3-5-55:3.138). E na sessão de 3-6-55 volta a levantar nova questão
do recebe três novas emendas e por isso volta à Comissão de Educação de ordem, desta vez para se instruir a respeito de como transformar
e Cultura em 8-11-58. E~ 4-12-58, Coelho de Souza, presidente da a mensagem presidencial de 1948 em projeto de lei. Esclarecido a res-
Comissão de Educação e Cultura, solicita prazo de 24 horas para que peito, ele promete assumir a mensagem, assinando-a e apresentando-a
a subcomissão relatora possa se pronunciar sobre as emendas e em 9-12 à Mesa da Câmara (cf. DCN, 4-6-55:3.069).
do mesmo ano, por falta de tempo e por não terem sido publicadas Tais medidas eram tomadas, ao que parece, porque Lacerda via
as emendas, pede a retirada do projeto da ordem do dia. Apesar da no projeto das Diretrizes e Bases da Educação um instrumento útil
teritativa de Aurélio Vianna, na sessão de 10-12, de impedir a retirada para, da oposição, fustigar as posições do bloco no poder. Como assi-
do projeto da ordem do dia, o projeto é retirado, medida que o deputa- nala Villalobos,
do padre Fonseca e Silva agradece e justifica.
Na verdade, como denunciara Aurélio Vianna na referida sessão de " . .. mal poderia suspeitar então, o combativo deputado, que o projeto
pelo qual se empenhava - não tivera ele como principais responsáveis
10-12-58, a retirada do projeto da ordem do dia, embora contra o re- homens de seu partido? - traduzia uma filosofia política e pedagógica
gimento da Câmara, se deveu à apresentação à subcomissão relatora, inteiramente diversa daquela que, num futuro já não muito distante. iria
através de um de seus membros, do substitutivo de Carlos Lacerda. tê-lo como o grande defensor na Câmara" (Villalobos, 1969:69).

52 53
se colocavam, de um lado, os parlamentares padres Fonseca e Silva
De fato, cerca de três anos e meio depois, Carlos Lacerda apre-
Ponciano dos Santos, Arruda Câmara, Calazans, acompanhados pelos
sentava o seu substitutivo e se tomava o principal porta-voz, no Con-
deputados Carlos Lacerda, convertido ao catolicismo (cf. Lacerda
gresso, dos interesses das escolas particulares.
1978:50), Medeiros Neto, Daniel Faraco, José Humberto, Ferro Costa',
Na verdade, o substitutivo Lacerda coroa um processo cujas origens Menezes Cortes, Paulo de Tarso, Edilson Távaro, Paulo Freire e Me-
remontam ao 111 Congresso Nacional dos Estabelecimentos Particula- deiros Neto (cf. DCN, 3, 5, 18 e 20-6-59, 14-10-59, 26-2-60 e 12-5-60).
res de Ensino, realizado em janeiro de 1948. E, natramitação do pro- De outro lado ficaram parlamentares tais como Luiz Vianna, Campos
jeto, detecta-se, já em 1952, nas "sugestões da Associação Brasileira Vergal, Celso Brant, Femando Santana, Nestor [ost, Clidenor Freitas,
de Educação" encaminhadas à Comissão de Educação e Cultura, que Nestor Duarte, Aurélio Vianna e Nogueira da Gama (cf. DCN, 4, 6,
se começava a ceder às pressões. das escolas particulares (cf. DCN, 13, 19 e 25-6-59, 7-7-59, 20-10-59 e 10-2-60). Os primeiros se coloca-
12-5-55:2.333) . . vam incondicionalmente a favor do substitutivo Lacerda, invocando
Entretanto, é a partir do final de 1956 que os defensores da inicia- argumentos baseados fundamentalmente no arrazoado ideológico que
tiva privada em matéria de educação, à testa a Igreja Católica, se vinha sendo formulado e difundido pelos representantes da Igreja Ca-
mostram decididos a fazer valer hegemonicamente os seus interesses tólica. Os segundos marcaram sua atuação muito mais pelas críticas
no texto da futura Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. ao substitutivo Lacerda do que pela defesa de uma posição diversa.
Marco desse movimento é o discurso do padre deputado Fonseca e Este registro é importante porque põe em evidência o deslocamento do
Silva, na sessão de 5-11-56, onde ele se insurge contra a orientação eixo das discussões, que passou a girar em tomo do projeto apresentado
filosófica do INEP, que era dirigido por Anísio Teixeira, além de por ~arl.os Lacerda. Dessa forma, ficava camuflado o fato de que o
atacar também o I Congresso Estadual de Educação Primária, realizado substitutivo que se lhe contrapunha, elaborado por uma subcomissão
de 16 a 23 de setembro de 1956 em Ribeirão Preto e presidido por de redação constituída pela Comissão de Educação e Cultura, já havia
Almeida [únior (cf, DCN, 6-11-56 e 7-11-56). Essas críticas são reite- incorporado, mediante seguidas concessões, vários dos dispositivos de-
radas pelo mesmo Fonseca e Silva nas sessões de 27-11-56, de 8-12 e fendidos na proposta de Lacerda. Na verdade, do projeto original o
14-12-56, quando acusa Anísio Teixeira de comunista e aproxima o texto da subcomissão guardava apenas a estrutura formal, isto é, a
pragmatismo de Dewey do marxismo (cf. DCN, 28-11-56, 8 e 15-12-56). disposição dos títulos; seu conteúdo já era outro.
Desencadeia-se, assim, o conflito entre escola pública e escola par- Em razão do que se acaba de expor, vários daqueles que se posi-
ticular que irá polarizar a opinião pública do país até ~961. A análise cionaram contra o substitutivo Lacerda, o fizeram implicitamente, já
desse conflito não é objeto do presente trabalho, tendo sido já efetuado na linha da estratégia da conciliação, buscando uma posição interme-
em outras oportunidades por outros autores (cf. Villalobos, 1969 e diária que conciliasse e harmonizasse as diferenças. Entretanto, houve
Buffa, 1979). aqueles que explicitamente se manifestaram no plenário da Câmara nessa
4
Do ponto de vista do presente estudo, interessa registrar que a perspectiva da conciliação. Entre estes, se situam, por exemplo, Yuki-
emergência do conflito acima referido deslocou o eixo das preocupações shigue Tamura que, na sessão de 5-6-59, ao falar no encaminhamento
do âmbito político-partidário, mais próximo da esfera da "sociedade da votação, depois de fazer várias teorizações, tenta uma conciliação
política", para o âmbito de uma luta ideológica que envolveu ampla- em que a iniciativa pública e privada seriam ambas importantes, salien-
mente a "sociedade civil". Dir-se-ia que a partir desse momento entram tando a importância de preservar as tradições (cf, DCN, 6-6-59:2.709);
em cena importantes "partidos ideológicos", tais como a Igreja, a igualmente Aderbal Jurema que, em discurso proferido na sessão ex-
imprensa, além de associações dos mais diferentes matizes. traordinária de 17-6-59, procurava um denominador comum entre os
vários substitutivos e volta a ocupar a tribuna no pequeno expediente
A referida mudança de rumos, como era de esperar, se mani- da sessão de 8-8-61 para se congratular com o Senado pela forma como
festou fortemente no Congresso Nacional. Dessa forma, a correlação de aprovou o projeto, que recebeu mais de cem emendas e inclusive um
forças passou a se definir mais pelos partidos ideológicos do que pelos substitutivo (o de Nogueira da Gama) que vieram aperfeiçoâ-lo: na
partidos políticos, como ocorrera até então. Assim é que, no Congresso,
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.. 4
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mesma direção manifesta-se também Dirceu Cardoso, enaltecendo o UDN, tendendo ao rompimento da aliança com o PTB que crescia à
trabalho da comissão do Senado que concluiu o exame das emendas medida que se expandia o ideário do nacionalismo desenvolvimentista.
(cf. DCN, 18-6-59:14; 9-8-61:5.498 e 17-11-61). Ambos, PSD e UDN, faziam causa comum contra as reformas de base
Cumpre, ainda, registrar que uma outra tendência, mais ou menos que começavam a ser propostas pelos prôceres do PTB, sob inspiração
eqüidistante da polarização referida, também se esboçou na fase final nacionalista desenvolvimentista.
da tramitação do projeto. Trata-se da tendência que considerava insu- Essa tendência foi detectada nas discussões sobre as Diretrizes e
ficientes todas as propostas até então formuladas porque não davam Bases da Educação na Câmara Federal. Villalobos, referindo-se à ma-
atenção à vinculação da educação ao desenvolvimento brasileiro. A raiz nifestação de Aurélio Vianna que, ao chamar a atenção para o procedi-
dessa posição era a ideologia do nacionalismo desenvolvimentista, que mento anti-regimental da Mesa, criticou os "poderosos líderes das gran-
vinha se dífundindo e, a partir de 1959, já prenunciava a hegemonia, des bancadas", formulou o seguinte comentário:
embora efêmera, de que iria desfrutar junto ao aparelho governamental
nos anos iniciais da década de 60. O representante' mais destacado "Em fins de 1958, portanto, os grandes partidos já se entendiam no tocante
às diretrizes e bases e desse entendimento resultaria, em janeiro de 1960,
dessa tendência foi, sem dúvida, Santiago Dantas, que propôs várias
a aprovação de um projeto que não iria diferir essencialmente, entretanto,
emendas também subscritas por outros deputados. Em discurso pro- do segundo substitutivo adotado pela Comissão de Educação e Cultura"
ferido na sessão de 4-6-59, o referido parlamentar salienta a necessidade (Villalobos, 1969:177, nota 30).
de o projeto criar as condições para a construção de um sistema de
ensino voltado para a realidade e as necessidades do desenvolvimento 3. O projeto aprovado
brasileiro e critica o projeto por ser apenas uma consolidação das leis
do ensino. Afirma que a Lei de Diretrizes e Bases não pode ser uma Em 29 de setembro de 1959 a subcomissão relatora apresentou
moldura jurídica, mas deve fixar os objetivos, os meios e as condições o substitutivo cuja redação final veio à luz em 10 de dezembro do
de planejamento, através dos quais possa o poder público coordenar mesmo ano. O texto era acompanhado de parecer e relatório e fora
os esforços da nação no campo educativo. Acrescenta que o substi- assinado por Aderbal Iurema, Carlos Lacerda, Dirceu Cardoso, Manuel
tutivo, de Almeida, Paulo Freire, Santiago Dantas 1 e pelo relator geral, depu-
tado Lauro Cruz. Já a redação final, aprovada em 10 de dezembro, é
"longe de conduzir o sistema da educação brasileira a uma visao de assinada por Coelho de Souza, presidente da Comissão de Educação
unidade e a um objeto de conjunto, ele, por assim dizer, agrava o fragmen-
tarismo do nosso sistema de educação, procurando acentuar as facilidades e Cultura, Lauro Cruz e Aderbal Iurema, que foi encarregado da revisão
para o crescimento espontâneo da educação no país, e retirando ao con- geral.
junto da atividade educacional brasileira a possibilidade de uma ação E este texto que, mantendo a estrutura do projeto original, en-
coordenadora do Poder Público Federal" (DCN, 5-6-59:2.664).
4
xertou-lhe um conteúdo que contrariava a orientação de fundo que
A posição supra, entretanto, não dispunha de forças suficientes presidira a formulação do primeiro projeto.
para alterar os rumos que tomou a tramitação do projeto das Diretrizes Como já foi assinalado no item anterior, a fase de chegada à versão
e Bases da Educação Nacional. Sua importância reside no fato de que final correspondeu ao momento em que a discussão das questões edu-
expressa uma alteração na composição de forças que começava a tomar cacionais extravasou do seu âmbito específico para empolgar a opinião
corpo no final do governo de Juscelino Kubitschek. Nessa fase, a coli- pública em geral. Entram em cena, como já se disse, os "partidos ideo-
gação PSD-PTB, sob a hegemonia do PSD, começa a apresentar sinais lógicos". A Igreja mobiliza todos os seus quadros na defesa de deter-
de crise. O crescimento eleitoral do PTB o conduz a aspirar a uma minada posição que consultava os interesses privatistas. A imprensa se
inversão de posições em que ele passaria a ser a força hegemônica da
aliança, o que de fato ocorreu no governo de João Goulart (cf. Bene- 1. Como se vê, nem mesmo Santiago Dantas escapou às malhas da estratégia
vides, 1976). O PSD, por sua vez, se aproximava cada vez mais da da conciliação.

56 57
Manifesto do Grêmio da Faculdade de Filosofia da Universi-
mobiliza, posicionando-se alguns órgãos a favor da escola priv.ada e
dade de São Paulo, sob o título "Fixação das Diretrizes e Ba-
outros a favor da escola pública. A revista Vozes, órgão da Igreja Ca- ses da Educação Nacional" (cf. DCN, 9-6-59:2.738).
tólica, perfi lha obviamente a posição desta. Entre janeiro d~ .1957 e ~e-
vereiro de 1962 publica em torno de oitenta e quatro matérias relacio- - Ofício da Associação dos Professores de Educação Física do
nadas com o problema das Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Distrito Federal, apresentando considerações em torno do pro-
A revista Anhembi, por sua vez, empalma a campanha em defesa da jeto de lei n.? 2.222-A e seus substitutivos (cf. DCN,
escola pública pondo em circulação, entre março de 1957 e setembro 1-7-59:3.683) .
de 1961, cerca de trinta artigos. A mesma posição é assumida pelo Manifesto de sessenta e seis educadores, encabeçado por Fer-
jornal O Estado de S. Paulo, que na verdade se colocou à frente da nando de Azevedo, sob o título: "Mais uma vez convocados"
campanha em defesa da escola pública com mais de sessenta matérias (cf, DCN, 1-7-59:3.691).
divulga das sobre o assunto entre janeiro de 1957 e março de 1962. O - Moção da Câmara Municipal de Itirapina (São Paulo) no sen-
Correio Paulistano, de São Paulo, e a Tribuna da Imprensa, do Rio de tido de ser discutido e votado o projeto de lei do ensino (cf.
Janeiro, colocam-se ao lado da corrente privatista, ao passo que A Tri- DCN, 1-7-59:3.684).
buna de Santos e também, de certo modo, a Folha da Manhã (Folha de
- Ofício da Câmara de Campinas (SP) pedindo para que seja
S. Paulo), Jornal do Brasil e Correio da Manhã, embora não monoliti-
discutido e votado o projeto de lei de reforma do ensino (cf.
camente, engrossam a campanha da escola pública. Praticamente todos DCN, 24-7-59:4.444).
os jornais brasileiros publicaram no período alguma matéria sobre o
assunto. Telegrama de Colatina (ES) em que se protesta contra a con-
ferência do Inspetor Seccional de Vitória, que teria criticado
Os órgãos de imprensa acima referidos divulgaram manifestos, mo-
a LDB de modo faccioso e indigno (cf, DCN, 6-5-61 :3.003).
ções e sugestões cujo endereço era o Congresso Nacional. De fato, o
Diário do Congresso registra a comunicação em sessões sucessivas da Ofício do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviá-
Câmara de diversos desses documentos. rias do Rio de Janeiro, em que consta a reforma do ensino
como uma de suas aspirações (cf. DCN, 28-9-61:7).
Entretanto, a mobilização não se restringiu aos organismos até
Em meio a esse clima de pressões, a Câmara dos Deputados inicia
agora mencionados. Como já se assinalou, os mais diferentes agrupa- a discussão do substitutivo final.
mentos da "sociedade civil" se fizeram presentes na discussão das Di-
retrizes e Bases da Educação. Apenas como ilustração, mencionam-se a Retomemos a trajetória dos acontecimentos.
seguir algumas das manifestações registradas no Diário do Congresso Retirado da ordem do dia em 10-12-58, para publicação, o pro-
Nacional: jeto foi imediatamente publicado e já em 11 de dezembro de 1958
iniciava-se a discussão única do projeto n." 2.222, que se prolongaria
Ofício do secretâriõ da Educação do Estado de São Paulo, en-
por duas sessões consecutivas. Estiveram presentes os mais expressi-
caminhando a título de sugestão o estudo feito pelo Conselho
vos representantes dos diferentes partidos, que travaram animados de-
Técnico daquela Secretaria, referente ao projeto das Diretrizes bates.
e Bases (cf. DCN, 19-11-57:9.685).
Na referida sessão de 11 de dezembro de 1958, CarIos Lacerda
Emendas encaminhadas pela União Nacional dos Estudantes, endereçou ao substitutivo em discussão críticas contundentes e conclui
pelas Escolas de Engenharia e pela USP (cf. DCN, 11-12-58:23). , seu discurso
Aviso do Ministério da Guerra, em que os professores-militares "depositando suas esperanças no Senado, que poderia reconstituí-lo, atri-
e técnicos de ensino, ao concluir Seminário de Estudos na Aca- buindo-lhe o sentido fundamental de lei básica e dando conseqüência
demia de Agulhas Negras, enviam moção no sentido de que às próprias premissas em que ele alegava alicerçar-se: liberdade de ensino
e 'descentralização" (VilIalobos, 1969:116).
seja aprovada com brevidade a LDB (cf. DCN, 31-3-59:1.171).

58 59
rr
I

No intervalo entre as duas sessões do dia 11 de dezembro de 1958 No Senado o projeto recebeu 238 emendas, além do substitutivo
parece bem provável que Lacerda, avaliando melhor a correlação de de Nogueira da Gama. Apenas algumas emendas foram aprovadas. O
forças do Senado, tenha resolvido retirar as esperanças de que aquela substitutivo Nogueira da Gama foi rejeitado em sessão realizada no
Casa pudesse reformular o projeto na direção por ele desejada. A ver- dia 3 de agosto de 1961.
dade é que, logo no início da segunda sessão, Lacerda se apressa em A Comissão de Educação e Cultura do Senado emitiu parecer sobre o
solicitar a retirada do projeto da ordem do dia por 48 horas. Tratava-se projeto chegado da Câmara, cujo relator foi o senador Mem de Sá.
de um expediente acionado para ganhar tempo. Com efeito, como sa- Este considerou a propositura aprovada pela Câmara como caracteri-
lientou Nestor [ost, pretendia-se na verdade protelar a discussão por zada pela tr~nsigência -das diferentes facções interessadas na questão.
mais alguns meses, de vez que dentro das 48 horas requeri das ocorreria Por essa razao, representava o mesmo um denominador comum admi-
a última sessão ordinária daquela legislatura. Respondendo a uma ava- tido por todos.
lanche de questões de ordem, o presidente da Câmara, Ranieri Mazzili,
Essa ten~ência conciliadora, já detectada no texto aprovado pelos
garantiu que o que se adiaria era apenas o início da votação, não po-
deputados, fOI acentuada no Senado que, com ,as emendas introduzidas
dendo a proposição ser alterada. O requerimento chegou à mesa con-
na lei, realizou a "média" de todas as correntes (cf. VilIalobos
tendo também as assinaturas de Nestor Duarte, Femando Ferrari e
1969:169). •
Armando Falcão, que eram líderes de bloco. Observe-se, de passagem,
como a estratégia da conciliação operava unindo os líderes dos princi- Em síntese, pode-se concluir que o texto convertido em lei repre-
pais partidos. E, em que pese o caráter anti-regimental da medida, o sentou uma solução de compromisso" entre as principais correntes
U

requerimento foi aprovado e o projeto retirado da ordem do dia. em disputa. Prevaleceu, portanto, a estratégia da conciliação.
Não obstante os esclarecimentos do presidente da mesa da Câmara, Entretanto, é preciso registrar que essa estratégia foi acionada no
o projeto não foi votado ao término das 48 horas, tendo surgido, ao quadro daquilo que poderíamos chamar de "democracia restrita".
arrepio do regimento, um novo substitutivo. E o projeto só voltaria a Com efeito, desde a queda do Estado Novo até 1964, o país viveu
ser discutido em maio-junho de 1959. A votação, propriamente dita, 56
um clima de "abertura democrãtíca". Contudo, era uma experiência
iria ocorrer em janeiro de 1960, portanto, mais de um ano depois de
democrática da qual estavam ainda distantes as massas populares. Tra-
concedido o adiantamento por (apenas) 48 horas.
tava-se, pois, de uma democracia restrita às elites.
Nesse intervalo de tempo a Comissão de Educação e Cultura tra-
balhou na elaboração de um novo substitutivo cuja redação final se A primeira estratégia acionada pelas elites após a derrubada do
completou em 10-12-59. E este ficou sendo o texto que a Câmara apro- regime de Vargas foi aquilo que poderíamos chamar, na esteira de
vou na sessão realizada em 22 de janeiro de 1960, com a rejeição em Debrun, de "liberalismo" (cf. Debrun, 1983: 16). De um modo geral,
votação destacada de apenas o § 3.° do art. 10, relativo à composição principalmente os prõceres da UDN empenharam-se na defesa das idéias
dos Conselhos Estaduais ele Educação.ê liberais, procurando utilizá-Ias como instrumento para fustigar a cor-
tente varguista. .
4. Significado político do texto convertido em lei J! nesse quadro da estratégia do liberalismo que foi gestado pelos
O projeto finalmente aprovado pela Câmara dos Deputados foi en- membros da comissão constituída por Clemente Mariani, à testa os
caminhado ao Senado através do Ofício n," 293, de 25 de fevereiro militantes da UDN, o projeto original da Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional.
de 1960.
Entretanto, nas condições próprias da "democracia restrita", o lí-
2. O § 3." do art. 10, rejeitado, tinha o seguinte teor: "Na escolha dos
representantes será observado o critério da proporcionalidade entre estabeleci-
beralismo se revela uma estratégia ambígua, uma vez que seu ideário
mentos públicos e privados, assegurada a representação de professores e de dire- acena para uma democracia plena. Esta. no entanto, tende a ser vista
tores de estabelecimentos dentro dos diferentes graus de ensino". pelas elites como uma ameaça. Por aí talvez se possa compreender

60 61
r- por que os pai'tidários da UDN, ao mesmo tempo que se apresentavam Limitamo-nos a defender idéias e princípios que deixaram de ser matéria
como paladinos das idéias liberais, defendendo eleições livres e limpas, de discussão política nos países adiantados. Tudo se passa como se o Brasil
retrocedesse quase dois séculos, em relação à história contemporânea da-
se prestavam também a toda sorte de manobras, visando aliciar as For- queles países, e como se fôssemos forçados a defender, com unhas e
ças Armadas para golpearem as instituições. dentes, os valores da Revolução Francesa! E uma situação que seria cômica,
não fossem as conseqüências graves que dela poderão advir. A nossa posi-
Michel Debrun, ao tratar das diferentes estratégias que tiveram (e
ção pessoal pesa-nos como incômoda. Apesar de socialista, somos forçados
têm) lugar na política brasileira, assim se manifestou: a fazer a apologia de medidas que nada têm a ver com o socialismo e que
são, sob certos aspectos, retrógrada'. Coisa análoga ocorre com outros com-
"O líberalísmo também teve sua vez. S6 que se tratou quase sempre de panheiros. por diferentes motivos" t Fernandes. in Barros, 1960:220).
um liberalismo ambíguo. Contestava o predomínio das estruturas arcaicas
do campo sobre ai aspirações modemizantes das cidades. Ou advog/lva a
necessidade de eleições limpas, de instituições como o habeu corpus ou o Entretanto, enquanto no calor da campanha se disseminavam pela
mandado de segurànça. Enaltecia as virtudes da livre competição, sdja ela imprensa, no bom estilo da estratégia do liberalismo, as críticas ao
econômica ou política. No entanto menos cultivava a liberdade do que era mesmo tempo contundentes e inócuas dos liberais, no Congresso Na-
o produto dela. Ou seja: produto de certas situações favoráveis, el/ls pró- cional já marchava celeremente a estratégia da conciliação através do
prias ligadas às extremas desigualdades da sociedade brasileira. Situações pacto entre as principais lideranças partidárias. Eis por que Villalobos,
essas que franqueavam aos seus ocupantes. além de oportunidades espe-
cífícas de lazer e de cultura, o exercício de lima crítica - na imprensa, como um liberal conseqüente, concluiu seu estudo sobre o assunto
nas assembléias legislativas, nos tribunais - ao mesmo tempo ímptedose afirmando
e inócua em relação à estrutura de autoridade vigente na sociedade brasi-
·leira. Mesmo porque a existência dos próprios liberais e, portanto, a con- "que se não prevaleceu por fim a vontade geral, eticamente manifestada,
dicão de possibilidade da sua crítica assentavam nessa estrutura" (Debrun, como queria Rousseau, prevaleceu a vontade de todos. Resta saber se, para
1983:16). o caso brasileiro, a melhor solução para os problemas de ensino é a que
procura atender à média das opiniões, ao invés de se definir por um pro-
Na tramíteção do projeto das Diretrizes e Bases, os libetais pro- grama estribado numa idéia clara e coerente a respeito do que deva ser a
educação" (Villalobos, 1969:169).
cederam mais ou menos na linha acima descrita. Assim, exercitaram
a crítica (impiedosa e in6cua) primeiramente no Parlamento e depois,
Esse caráter de "média das opiniões" ou a prevalência da estraté-
amplamente. na imprensa. Entretanto, em virtude dos limites aponta-
gia da "conciliação" foi documentado pelas reações dos principais líderes
dos da estratégia do liberalismo, acabou-se por acionar o pacto das
do movimento, de ambos os lados. Assim, aprovada a lei, em depoimento
elites (conciliação pelo alto) através do qual se toma possível preser-
concedido ao Diário de Pemambuco, Anísio Teixeira afirmou: "Meia
var os interesses dos grupos privilegiados econômica, social e cultural-
vitória, mas vitória". Tal depoimento foi depois publicado na Revista
mente, adiando-se para um futuro indefinido a realização das aspira- Brasileira de Estudos Pedagógicos na forma de artigo cujo título foi
ções das massas populares. 4 formulado exatamente nesses termos: "Meia vitória, mas vitória" (Tei-
Na campanha em defesa da escola pública, desencadeada na fase xeira, 1962:222-3).
final da tramitação do projeto das Diretrizes e Bases da Educação, a Por sua vez, Carlos Lacerda, que se colocara em posição diame-
hegemonia esteve nas mãos dos liberais, representados principalmente tralmente oposta à de Anísio Teixeira, interrogado a respeito do resul-
pelo grupo ligado ao jornal O Estado de São Paulo e à Universidade de tado obtido. respondeu: "Foi a lei a que pudemos chegar" (Lacerda,
São Paulo. Ainda que a liderança principal tenha sido incontestavel- in Fontoura, 1968:11).
mente do professor Florestan Femandes, não eram suas idéias as bege-
Portanto, o texto aprovado não correspondeu plenamente às ex-
mônicas, mas sim aquelas correspondentes à estratégia do liberalismo. pectativas de nenhuma das partes envolvidas no processo. Foi, antes,
Isto é reconhecido pelo pr6prio Florestan Fernandes e atestado por uma solução de compromisso, uma resultante de concessões mútuas
estas suas palavras: prevalecendo, portanto, a estratégia da conciliação. Daí por que não
(,2
63
r
ri deixou de haver também aqueles que consideraram a lei entlo apro-
, vada pelo Congresso Nacional como inócua, tão inócua como o eram Apêndice
as críticas estribadas na estratégia do "líberalísmo", Ilustra essa posi-
ção a definição espirituosa enunciada por Álvaro Vieira Pinto: -n
uma lei com a qual ou sem a qual tudo continua tal e qual" (apud Fon-
toura, 1968: 16).
I
I
i

A) Introdução
Para que o leitor possa visualizar mais claramente a resultante da estratégia
da conciliação traduzida no texto da Lei 4.024/61, propomos uma comparação
entre o projeto de 1947-8, o substitutivo Lacerda, de 1958-9 e a Lei 4.024/61.
Confrontando-se os principais títulos nas três versões é possível perceber como a
lei aprovada configurou uma solução intermediária entre os extremos representa-
dos pelo projeto original e pelo substitutivo Lacerda.
Assim, o título que trata "Do direito à educação" estabelece, no projeto ori-
ginal, a res.ponsabilidade do poder público "de instituir escolas de todos os graus,
garantindo a gratuidade imediata do ensino primário e estendendo-a progressiva-
mente aos graus ulteriores e mesmo às escolas privadas. Já o substitutivo Lacerda
define que a educação é direito da família, não passando a escola de prolonga-
mento da própria instituição familiar. Ao Estado cabe oferecer recursos para que
a família possa desobrigar-se do encargo da educação. O texto da Lei 4.024/61
conciliou os dois. projetos garantindo à família o direito de escolha sobre o tipo
de educação que deve dar a seus filhos e estabelecendo que o ensino é obrigação
do poder público e livre à iniciativa privada.
O título referente aos "fins da educação", como se pode observar nas três
versões, mantém um conteúdo basicamente equivalente. Entretanto, a redação que
prevaleceu no texto da lei combina no caput do artigo primeiro a formulação do
projeto original com a formulação do substitutivo Lacerda que foi incorporada
nas alíneas do mesmo artigo.
O título "Da liberdade do ensino" não constava do projeto original. Foi
introduzido pelo substitutivo - Lacerda e mantido, embora com redação alterada,
no texto da lei. Em contrapartida, o título "Dos sistemas de ensino", que constava
do projeto original, fora eliminado no substitutivo Lacerda mas mantido no texto
da lei. Tal fenômeno também traduz a intervenção da estratégia da "conciliação"
uma vez que o título da liberdade de ensino era uma reivindicação da iniciativa
privada, ao passo que o título referente aos sistemas de ensino implicava a pre-
cedência da iniciativa do 'poder público.
O título "Da administração da educação" do projeto original estabelecia íne-
quivocamente que a educação é matéria de competência do Estado, ao qual caberia
garantir, nos termos da lei, o direito à educação. O título equivalente foi deno-
minado, no substitutivo Lacerda, de "Competência do Estado em relação ao
ensino" e estabelecia que compete ao Estado "dar, quando solicitada, assistência

64 65",," /-> .
IV - pela gratuidade escolar, desde continuidade histórica da nação e o
técnica e material às escolas", cabendo-lhe "fundar e manter escolas oficiais" já estabeleci da para o ensino primá- amor à paz, e coibirá o tratamento de-
apenas em "caráter supletivo nos estritos limites das deficiências locais". O texto rio oficial, e extensível aos graus ul- sigualpor motivo de convicção religio-
da Lei 4.024/61 mantém o título "Da administração do ensino", mas se limita a teriores e às escolas privadas, me- sa, filosófica ou política, bem como os
afirmar que "o Ministério da Educação e Cultura exercerá as atribuições do Poder diante: preconceitos de classe e de raça.
Público Federal em matéria de educação", cabendo-lhe "velar pela observância
a) redução progressiva até a final extin-
das leis do ensino e pelo cumprimento das decisões do Conselho Federal de Edu-
ção das taxas e emolumentos das es- TtTULO. III
cação". Os demais artigos desse título cuidam de regular a constituição e atribui-
ções do CFE prevendo, o último artigo, a criação dos Conselhos Estaduais de colas oficiais; Da administração da educação
Educação. b) outorga de vantagens aos estabele-
cimentos que admitam alunos gra- Art. 3.° - Compete ao poder público
Finalmente, o título "Dos recursos para educação" regula no projeto original
tuitos ou de contribuição reduzida; federal e aos poderes locais assegurar
a aplicação de recursos para o desenvolvimento do sistema público de ensino,
o direito à educação, nos termos desta
enquanto que o substitutivo Lacerda estabelece que além dos recursos destinados c) assistência aos alunos que dela ne-
lei, promovendo, estimulando e auxl-
ao ensino oficial, "o Fundo Nacional do Ensino Primário, o do Ensino Médio e o cessitarem, sob forma de forneci-
liando o desenvolvimento do ensino e
do Ensino Superior proporcionarão recursos, previamente fixados, para a coope- mento gratuito, ou a preço reduzi-
da cultura.
ração financeira da União com o ensino de iniciativa privada em seus diferentes do, de material escolar, vestuário,
graus"; em seguida, institui a cooperação financeira tanto da União como dos alimentação e serviços médicos e Art. 4.° - As atribuições da União,
Estados e Municípios que passariam a financiar, com recursos públicos, a inicia- dentários; em matéria de educação e cultura, se-
tiva privada em matéria de ensino. O texto da Lei 4.024/61 numa clara posição rão exerci das pelo Ministério da Edu-
d) concessão de bolsas para estimular
conciliatória, estabelece que os recursos públicos "serão aplicados preferencialmen- cação. ressalvados os estabelecimentos
estudos especializados de interesse
te na manutenção e desenvolvimento do sistema público de ensino". E em seguida de ensino militar.
geral. ou assegurar a continuação
regula a concessão de bolsas bem como a cooperação financeira da União com Art. 5: - Ao Ministério da Educação,
dos estudos a pessoas de capacida-
Estados, Municípios e iniciativa privada sob a forma de subvenção, assistência corno responsável pela administração
de superior, em instituições públi-
técnica e financeira "para compra, construção ou reforma de prédios escolares e federal do ensino, incumbe velar pela
cas ou particulares;
respectivas instalações e equipamentç", observância desta lei e promover a rea-
V - pela gratuidade do ensino oficial
Realmente, Carlos Lacerda tinha razão ao afirmar, após a aprovação da lização dos seus objetivos, coadjuvado
ulterior ao primário, para quantos, re-
lei: "foi a lei 2 que pudemos chegar". Mas também estava coberto de razão pelo Conselho Nacional de Educação e
velando-se aptos, provarem falta ou in-
Anísio Teixeira ao afirmar, na mesma ocasião: "meia vit6ria, mas vitória". pelos departamentos e serviços instituí.
suficiência de recursos.
dos para esse fim.
A seguir, transcreve-se o teor completo dos títulos mencionados a fim de
que o leitor possa, por si mesmo, mediante confrontação das três versões, conferir Art. 6: - Cabe ao Conselho Nacional
o sentido ccnciliatôrio presente no texto que se converteu na Lei 4.024/61. TtTULO 11 de Educação:
Dos fins da educação a) assistir o Ministro da Educação no
estudo dos assuntos relacionados
B) Principais títulos do Projeto de Lei sobre as DIRETRIZES E BASeS com as leis federais do ensino e
Art. 2.° - A educação nacional inspi-
bem assim no dos meios que assegu-
DA EDUCAÇÃO NACIONAL .laborado em 1947 e 1948 por uma comissão de ra-se nos princípios de liberdade e nos
rem a sua perfeita aplicação;
especialistas. e por iniciativa do então Ministro da Educação, Oro Clemente Mariani. ideais de solidariedade humana.
b) emitir parecer sobre as consultas
I - no sentido da liberdade, favore-
que os poderes públicos lhe endere-
cerá as condições de plena realização
TITULO I por todos os meís ao seu alcance, às çarem, por intermédio do Ministro
da. personalidade humana. dentro de
crianças e jovens sob sua responsabi- da Educação;
Do direito à educação um clima democrático, de modo a as.
lidade: segurar o integral desenvolvimento do . c) opinar sobre a concessão de auxí-
Art. 1.0 - A educação é direito de lios e subvenções federais aos es-
indivíduo e seu ajustamento social;
todos, e será dada no lar e na escola. 11 - pela instituição de escolas de tabelecimentos de ensino e outraa
todos os graus, por parte do poder pú- 11 - no sentido da solidariedade hu-
Parágrafo único - O direito à educa- instituições culturais;
blico ou iniciativa particular; mana, incentivará a coesão da família
ção será assegurado: d) sugerir aos poderes públicos, por in-
e a formação de vínculos culturais e
I - pela obrigação, imposta aos paiS 111 - pela variedade dos cursos e fle- ~ efetivos, fortalecerá a consciência da termédio do Ministro da Educação,
de proporcícnã-la,
ou responsáveis, xibilidade dos currículos;
I 67
66
I
;J
r
I medidas convenientes à solução dos
problemas educacionais;
instituições educatívas, devendo, porém,
os últimos dar preferência ao desenvol-
tempo, cassar, por inobservâncía dos
preceitos desta lei, o registro de reco-
e supletivo, dos sistemas locais, inclusi-
ve o dos Territ6rios.
e) baixar instruções sobre a execução vimento do ensino primáriO e médio. nhecimento concedido pelo Estado ou
I § 1.0 - Os recursos do Fundo Na-
de programas de ensino a que se Art. 11 - ~ da competência dos Es- Distrito Federal a escolas médias, fican-
cional de Ensino Primário serão distri-
refere o art. 27, n.· VII; tados e do DistritO Federal estabelecer, do sem nenhum valor os certificados e
buídos entre as unidades da Federação,
em seus territórios, as condições de re- diplomas que desde então emitirem.
f) elaborar o seu regimento interno e na proporção das suas necessidades,
exercer as demais atribuições que a eonheclmentc das escolas primárias, e, atendendo-se diretamente à população
lei lhe conferir. acima dos padrões mínimos fixados pe- TtTULO X do Estado e inversamente à sua renda
lo C.N.E., as do ensino médio, assim per capita.
Parágrafo único - As decisões do Con- como orientá-Ias e inspecioná-Ias, salvo Dos recursos para educação
selho Nacional de Educação dependem se .se tratar de estabelecimentos mantí- § 2: - A concessão de auxílio, pela
de homologação do Ministro da Educa. dos pela União. União, para desenvolvimento dos siste-
ção para que produzam efeito legal. Art. 54 - Anualmente, a União apli- mas locais dependerá de parecer do
§ 1." - O reconhecimento das esco- cará nunca menos de 10%, e os Esta. Conselho Nacional de Educação verífi-
Art. 7.· - O Conselho Nacional de dos, o Distrito Federal e os Municípios
las de grau médio pelos governos dós cada, em cada caso, a observância dos
Educação, cujo presidente nato será o nunca menos de 20% da renda resul-
Estados e dó Distrito Federal será co- dispositivos desta lei por parte da res-
Ministro da Educação, terá quinze mem- tante dos impostos, na manutenção e
municado ao Ministério da Educação, pectiva administração.
bros, nomeados pelo Presidente daRe- desenvolvimento do ensino.
e nele registrado, para o .efeíto da vali-
pública, por seis anos, dentre pessoas Art. 56 - A União poderá estabele-
dade dos certificados e dos diploma. Art. 55 - O Fundo Nacional de En-
de not6rio saber e experiência em ma. cer com os Estados e o Distrito Fede-
que expedirem. sino Primário, formado pela. parte da
téria de educação, dos tluais três serlio ral convênios destinados a facilitar ou
especializados em ensino primário, três § 2: - Os serviços educacionais dos receita federal destinada especialmente orientar a aplicação das verbas de edu-
em ensino de grau médio e três em en- Estados e. do .Dístríto Federal pro- a esse fim, por outras dotações que lhe cação, e a tornar mais eficientes os sis-
sino superior. ~ moverão a i êlasslficaçio das escolas par- sejam atribuídas e pelo saldo verifica- temas escolares locais, bem como auxí-
Parágrafo .único - De dois em dois ticulares incorporadas ao seu sistema, do ao fim de cada exercício nas dota- liar ou participar de fundações nacio-
anos cessará o mandato de um terço dos sobre a base de satisfação dos requísí- ções orçamentárias para fins educativos, nais, ou locais, que tenham por fim a
membros do Conselho, permitida a re- tos exigiêlos 'para o seu funcionamento, será aplicado no desenvolvimento dos manutenção de escolas ou cursos de en-
condução por umas6 vez. Em caso de fazendo-a publicar para conhecimento sistemas federais de ensino primário e sino médio, ou a distribuição de bolsas
vaga, o substituto terminará o prazo dó dos pais e responsáveis. em auxíllo ao ensino primário regular de estudo.
substituído. Art. 12 - São condições mínimas para
o reconhecimento:
TITULO IV a) idoneidade moral e profissional do
C) Principais títulos do substitutivo ao projeto de DIRETRIZES E BASES
Dos sistemas de ensino diretor e do corpo docente;
DA EDUCAÇÃO NACIONAL apresentado à Câmara dos Deputados pelo Depu-
b) existência de instalações satísfató-
Art. 8.· - A União, os Estados e o rias: tado Carlos Lacerda a 15 de janeiro de 1959.
Distrito Federal organizarão os seus. sis-
temas de ensino, com observância da c) plano de escrituração escolar e de
presente lei. arquivo, .que assegure a verificação
da identidade de cada aluno e da TtTULO I Art. 2: - As diretrizes da educação
Art. 9: - A União organizará e mano regularidade de sua vida escolar; visam assegurar:
terá os sistemas de ensino dos Ter- Fins da educação
d) garantias de remuneração condigna a) a compreensão dos direitos e deve-
ritórios, e bem assim o da ação federal
aos professores, e de estabilidade Art. 1.0 - A educação é a formação res da criatura humana, da família,
supletiva, que se estenderá a todo o do cidadão e dos grupos sociais que
país, nos estritos limites das defícíên- enquanto bem servirem; integral da personalidade segundo uma:
concepção da vida que, respeitando os integram a comunidade;
elas locais. e) observância dos demais preceitos
desta lei. direitos fundamentais e a liberdade do b) as liberdades fundamentais do ho-
Art. 10 - O sistema federal e os sis- mem;
homem, sempre orientada para o bem
temas locais poderio abranger todos os Art. 13 - O Conselho Nacional de comum, promova o progresso da pátria c) a unidade nacional e a solidariedade
graus de ensino e todos os tipos de Educação poderá negar ou, a qualquer
e da humanidade. internacional;
68 69
d) o respeito à dignidade da. pessoa, b) pela distribuição das verbas consig- a) quanto à idoneidade: do Ensino Primário, o do Ensino Médio
e) idênticas oportunidades educacionais e o do Ensino Superior proporcionarão
nadas para a educação entre as esco- I - constitua a escola empreendimentc
para atender aos mais capazes, aos recursos,previamente fixados, para a
las oficiais e as particulares propor- no qual, acima de quaisquer finalida-
menos favorecidos economicamente, cooperação financeira da União com o
cionalmente ao número de alunos des. prevaleça o propósito de educar; ensino de iniciativa. privada em seus
às diferenças individuais reconheci- atendidos, 11 - mantenha na efetiva direção
das pela psicologia, ao direito à mul- diferentes graus.
pessoa cuja integridade moral e capaci-
tiplicidade das experiências pedagógi- c) pelo reconhecimento, para todos os Art. 71 - A cooperação financeira
dade profissional sejam incontestáveis e
cas e didáticas, tendentes à maior fins, dos estudos realizados nos esta- comprovadas; da União, dos Estados e dos Munící-
eficiência do processo educativo. belecimentos particulares. pios se fará:
111 - filie-se o estabelecimento esco-
Art. 8.· - Excetuam-se das dísposl- lar à associação autônoma de escolas a) sob a forma de financiamento de
TITULO 11 ções dos arts, 6.· e 7.° a fundação e li cujo fim precípuo seja o aprimoramen- estudos através de bolsas, concedi-
O direito de educar manutenção pelo Estado, de Escolas MI- to da consciência profissional dos edu- das a alunos, na forma da presente
litares. cadores; lei;
Art. 3,· - A educação da prole é Art. 9.· - Ao Estado compete, ain- b) quanto às condições materiais: b) mediante empréstimos para construo
direito inalienável e imprescritível da da, fixar as normas gerais para a edu- ção, reforma e extensão de prédios
I - preencha a escola um mínimo de
família, cação cívica, cabendo aos estabeleci- escolares e respectivas instalações e
condições de higiene e conforto, variá-
mentos de ensino específicã-las e orien- equipamentos.
Art. 4.° - A escola é, fundamental- vel segundo as possibilidades e necessi-
mente, prolongamento e delegação da tar-lhes a execução. dades relativas da região, Art. 72 - A bolsa de estudos se define
família. como auxílio financeiro, total ou par-
11 - sejam tais condições verificadas cial, com finalidade educativa, conce-
Art. 5.· - Para que a família, por si TITULO IV e revistas de três em três anos, pelo dida a educandos que demonstrem ap-
ou por seus mandatários, possa deso- menos, por delegados escolhidos pelo
Competência do Estado em relaçio tidão e capacidade para os estudos a
brigar-se do encargo de educar a prole, Conselho Regional de Educação.
ao ensino que se propõem.
compete ao Estado oferecer-lhe os su-
Art. 12 - Compete à União estabele-
primentos de recursos técnicos e finan- Parágrafo único - A bolsa custeará
ceiros indispensáveis, seja estimulando cer as diretrizes gerais da educação
Art, 10 - Competem ao Estado as se- no todo ou em parte esses estudos con-
a iniciativa particular, seja proporcio- nacional.
guintes funções: forme possa o candidato custear ou não
nando ensino oficial gratuito ou de con- Art. 13 - Compete aos Estados e ao uma parte deles.
tribuição reduzida. a) dar, quando solicitada, assiitência' Distrito Federal .• organízação dos sis-
Art. 73 - Caberá aos Conselhos Regio-
técnica e material às escolas, a fim temas locais e da rede escolar, no que
nais de Educação conceder, sem caráter
TITULO III de lhes assegurar, em benefício da diz respeito ao ensino oficial, sendo
competitivo, bolsas de estudo aos alu-
comunidade, o mais extenso e inten- essa competência atribuída à União nos
A liberdade de ensino nos de curso primário que, por falta
so rendimento de trabalho, Territórios Federais e, com caráter su-
de vagas, não puderem ser atendidos
pletivo, onde e enquanto não. possam
Art. 6.· - ~ assegurado o direit~ pa- b) verificar se a escola preenche as fi- nos estabelecimentos oficiais.
os Estados se desincumbir plenamente
temo de promover com prioridade âbso- nalídades a que se propõe, dessa função. Art, 74 - Além das do Poder Público,
luta a educação dos filhos, e o dos par- c) fundar e manter escolas oficiais ein constituirão serviço meritório as que
ticulares, de comunicarem a outros os forem instituídas por pessoa ou entí-
seus conhecimentos, vedado ao Estado caráter supletivo nos estritos limites TrTIJLO XIV
dade benemerente. A distribuição destas
exercer ou, de qualquer modo, favore- das deficiências locais, onde e quan- Recursos da educação bolsas será feita a critério dos seus
cer o monopólio do ensino. do necessário ao pleno atendimento instituidores.
Art. 7,° _ O Estado outorgará igual- da população em idade escolar. ! CAPITULO I Art, 75 - As bolsas custeadas com
dade de condições às escolas oficiais Art. 11 - Na verificação das condi- .~( o. fundo. e u boJ••• recursos orçamentários serão concedi-
e às particulares: ções mínimas para o funcionamento dos ~ das diretamente pelos Conselhos Re-
a) pela representação adequada das íns- estabelecimentos de ensino, o Estado '1 Art. 70 - Além dos recursos orça- gionais de Educação, estes poderão,
tituições educa.cionais nos órgãos de estipulará normas fque atendam às se-.~ mdJ.ernotáreinOsSJ'ndoestoifnJ.aCdJ'aols,
oamFuanndteor porém, delegar funções, em cada loca-
NeaecxJ'oPnanal-
direção do ensino; guintes condições undamentaia: .~. lidade, a uma Comissão Educacional de

l.••
7.0 •••• 11 71__ ~g
sua criaçao e responsabilidade, constí- ou instituição escolar que escolhe- D) Principais títulos da LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO
tuída de pelo menos 5 membros desig- rem; NACIONAL (Lei n." 4.024/61, de 20 de dezembro de 1961).
nados entre pessoas de reconhecida
integridade moral e domiciJiadas na c) julgar dos casos em que a ajuda fi-
localidade em que as bolsas forem apli- nanceira de fim educacional, conce- Fixa as Diretrizes c Bases da Parágrafo único - À família cabe esco-
cadas. dida pelo poder público, possa ou Educação Nacional lher o gênero de educ-ação que deve
deva Ser completada com recursos da dar a seus filhos.
Art. 76" - A malversação ou aplí- O Presidente da República:
economia familiar. Art. 3.° - O direito à educação é asse-
cação de fundos destinados a bolsistas, Faço saber que o Congresso Nacional
Art. 80 - O auxílio que possa vir a gurado:
segundo critérios diferentes dos fixados decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
ser concedido sob a forma de material I - Pela obrigação do poder público
na presente lei, constitui falta grave e e pela liberdade da iniciativa particular
escolar, vestuário, transporte, assistência TITULO I
importa em censura pública, pelo Con- de ministrarem o ensino em todos os
médica ou dentária, deverá ser objeto
selho Regional de Educação, sem pre- Dqs fins da educação graus, na forma da lei em vigor;
de legislação especial que estabelecerá
juízo de sanções previstas na lei penal.
critérios prõprios para à realização des- 11 - Pela obrigação do Estado de for-
Art. 77 - O valor de cada bolsa não Art. 1.0 - A educação nacional, inspi-
tas outras finalidades assistenciais. necer recursos indispensáveis para que
ultrapassará, em caso "algum, a impor- rada nos princípios de liberdade e nos
a família e, na falta desta, os demais
tância correspondente ao custo per- ideais de solidariedade humana, tem
CAPItULO 11 membros da sociedade se desobriguem
capita do ensino oficial, na mesma re- por fim:
Financlalllentol a amllrútlllloa dos encargos da educação, quando pro-
gião, no mesmo ano letivo. a) a compreensão dos direitos e deve- vada a insuficiência de meios, de modo
res da pessoa humana, do cidadão, que sejam asseguradas iguais oportuni-
Art. 78 - Será levada em conta, no Art. 81 - O Ministério da Educação do Estado, da família e dos demais dades a todos.
custo de cada bolsa, a necessidade de e o Conselho Nacional de Educação grupos que compõem a comunidade;
equiparar o salário do professor par- estabelecerão, periodicamente, institui. b) o respeito à dignidade e às líberda- TITULO III
ticular ao do magistério público na ções de crédito, acordos e planos de des fundamentais do homem;
mesma região. Financiamentos Escolares. Da liberdade do ensino
c) o fortalecimento da unidade nacio-
Art. 79 - Ao Conselho Regional de Art. 82 - Entende-se por Financíamen, nal e da solidariedade internacio-
Art. 4.° - E assegurado a todos, na for-
Educação e às Comissões locais que to Escolar aquele destinado a propor. nal;
ma da lei, o direito de transmitir seus
dele receberem os poderes previstos cionar recursos para construção de pré- d) o desenvolvimento Integral da per-
conhecimentos.
neste capítulo, compete: dios, ajustamento de aluguéis, expansão sonalidade humana e a sua partici-
Art. 5.° - São assegurados aos estabe-
de instalações, compra de equipamento, pação na obra. do bem comum;
a) estabelecer as condições de outorga lecimentos de ensino público e parti-
reforma, etc. a estabelecimentos não- e) o preparo do indivíduo e da socie- culares legalmente autorizados, adequa.
e renovação anual de cada bolsa de oficiais. dade para o domínio dos recursos da representação nos conselhos esta-
estudos, pela observância dos crité- científicos e tecnológicos que lhes
Art. 83 - Os planos de Fínanciamen, duais de educação, e o reconhecimento,
rios de justiça social e oportunidade permitam utilizar as possibilidades e
to Escolar estabelecerão os critérios para para todos os fins, dos estudos neles
individual, levando em conta a falta vencer as dificuldades do meio;
de vagas nas escolas oficiais, I ca- julgamento do interesse social, conve- realizados.
niência educativa e idoneidade moral, f) a preservação e expansão do patri-
rência de recursos da família, a apti.
pedagõgica e financeira das instituições mônio cultural;
dão e interesse demonstrado 'Pelo TITULO IV
responsáveis pelos projetos submetidos g) a condenação a qualquer tratamento
candidato, o bom aproveitamento Da administração do ensino
à consideração do Conselho e do Minis- desigual por motivo de convicção
escolar demonstrado pelo bolsista;
tério. filosófica, política ou religiosa, bem
b) garantir a plena liberdade do bolsis- como a quaisquer preconceitos de Art. 6.° - O Ministério da Educação e
Art. 84 - Os Planos sé serão válidos
ta ou sua família no uso e emprego classe ou de raça. Cultura exercerá as atribuições do Po-
com a aprovação da maioria dos mem-
que fizerem da bolsa quanto ao gê- der Público Federal em matéria de edu-
bros do Conselho Nacional de Educa.
nero de educação, tipo de estudos ção. TITULO 11 cação.
Parágrafo único - O ensino militar se-
Do direito à educação
rá regulado por lei especial.
Art. 2: - A educação é direito de to- Art. 7.° - Ao Ministério da Educação
dos e será dada no lar e na escola. e Cultura incumbe velar pela observân-

72
73
.'
cia das leis do ensino e pelo cumpri- de sobre o de quaisquer cargos públi-
belecimentos de ensino, sempre que Jul- TITULO V
mento das decisões do Conselho Fede- cos de que sejam titulares os conse-
ral de Educação. lheiros. Estes terão direito a transpor- gar conveniente, tendo em vista o fiel Dos si,stemas de ensino
te, quando convocados, e às diárias ou cumprimento desta lei;
Art. 8.' - O Conselho Federal de Edu-
cação será constituído por vinte e qua- "jeton" de presença a serem fixados h) elaborar seu regimento a ser apro- Art. 11 - A União, os Estados e o
tro membros nomeados pelo Presidente pelo Ministro da Educação e Cultura, vado pelo Presidente da República; Distrito Federal organizarão os seus
da República, por seis anos, dentre durante o período das reuniões. sistemas de ensino, com observância da
i) conhecer dos recursos interpostos
pessoas de notável saber e experiência, Art. 9.' - Ao Conselho Federal de pelos candidatos ao magistério federal presente lei.
em matéria de educação. Educação, além de outras atribuições e decidir sobre eles; Art. 12 .:..- Os sistemas de ensino
§ 1.' - Na escolha dos membros do conferi das por lei, compete: atenderão à variedade dos cursos, à fle-
j) sugerir medidas para organização e
Conselho, o Presidente da República a) decidir sobre o funcionamento dos xibilidade dos currículos e à articula-
funcionamento do sistema federal de
levará em consideração a necessidade estabelecimentos isolados de ensino su- ção dos diversos graus e ramos.
ensino;
de nele serem devidamente representa- perior, federais e particulares; Art. 13 - A União organizará o en-
das as diversas regiões do País, os di- 1) promover e divulgar estudos sobre o
b) decidir sobre o reconhecimento das sino público dos territórios e estenderá
versos graus do ensino e o magistério sistema federal de ensino; .a ação federal supletiva a todo o país,
universidades, mediante a aprovação
oficial e particular, dos seus estatutos e dos estabelecimen- m) adotar ou propor modificações e nos estritos limites das deficiências lo-
§ 2.' - De dois em dois anos, cessará tos isolados de ensino superior, de- medidas que visem à expansão e ao cais.
o mandato de um. terço dos membros pois de um ·prazo de funcionamento re- aperfeiçoamento do ensino;
Art. 14 - ~ da competência da União
do Conselho, permitida a recondução gular de, no mínimo, dois anos; n) estimular a assistência social escolar: reconhecer e inspecionar os estabeleci-
por uma s6 vez. Ao ser constituído o '
c) pronunciar-se sobre os relatõrios o) emitir pareceres sobre assuntos e mentos particulares de ensino superior ..
Conselho, um terço de seus membros
anuais dos Institutos referidos nas 4lí- questões de natureza pedagógica e edu- Art. 15 - Aos Estados que, durante 5
terá mandato, apenas, de dois anos, e
neas anteriores; cativa que lhe sejam submetidos pelo anos mantiverem universidade própria
um terço de quatro anos.
d) opinar sobre a incorporação de es- Presidente da República ou pelo Minis- com' funcionamento regular, serão con-
§ 3.· - Em caso de vaga, a nomeação
colas ao sistema federal de ensino, após tro da Educação e Cultura; feridas as atribuições a que se refere
do substituto será para completar o
verificação da existência de recursos or- .p) manter interclmbio com os conse- a letra b do art. 9.', tanto quanto aos
prazo de mandato do substituído.
çamentârics: lhos estaduais de educação; estabelecimentos por eles mantidos, co-
§ 4.' - O Conselho Federal de Edu- q) analisar anualmente as estatísticas do mo quanto aos que posteriormente se-
cação será dividido em câmaras para e) indicar disciplinas obrigatórias para
os sistemas de ensino médio (artigo 35, ensino e os dados complementares; jam criados.
deliberar sobre assuntos pertinentes ao Art. 16 - ~ da competência dos Esta-
ensino primário, médio e superior, e § 1.') e estabelecer a duração e o cur- § 1.' - Dependem de homologação do
rículo mínimo dos cursos de ensino su- Ministro da Educação e Cultura os atos dos e do Distrito Federal autorizar o
se reunirá em sessão plena para deci-
perior, conforme o disposto no art. 70; compreendidos nas letras a. b, d, e, f, funcionamento dos estabelecimentos de
dir sobre matéria de caráter geral. h e i. ensino primário e médio não pertencen-
f) Vetado."
§ 5.' - As funções de conselheiro são § 2." - A autorização e a fiscalização tes à União, bem como reconhecê-íos e
consideradas de relevante interesse na- g) promover sindicâneías, por meio de dos estabelecimentos estaduais isolados inspecioná-los.
cional, e o seu exercício tem pridrida- comissões especiais, em quaisquer esta- de ensino superior caberão aos conse- § I,' - São condições para o reconhe-
lhos estaduais de educação na forma da Cimento:
• RAZAO DO VETO - Letra "t" - ArtilO 9.· - .Iaborar anullmente o pleno d. al>llcaçlo lei estadual respectiva.
dOI recursos feclerals destinldos • oducoçio (artigo 93) e os qUlntltltlvos globaiS dH bolsH de a) idoneidade moral e profissional do
estudo e dos finlncilmentol Plra os div.rsos grlus de .nslno, ••• r.m Itrlbuldos I clda unidldl Art. 10 - Os Conselhos Estaduais de diretor e do corpo docente; .
dI Fe<leraçio (Irt. 94, I 2.'). Educação organizados pelas leis esta-
O projeto se ref.r •• el.boraçio de pllnos de Ipllclcio de recursos orçomenUrios, o que iml>orta
duais, que se constituírem com mem- b) instalações satisfat6rias;
em tarifa Idministrltlva altlmente complexa, s6 execu"vel pelos órgios especltlcos de Codl •• tor
d. atividade do Minist"'io, sob a coordenaçio do Ministro d. Estodo. bros nomeados pela autoridade compe- c) escrituração escolar e arquivo que
E.SI tlr.fl Ixige trabllho. pr.pant6rlos d. til vulto que, pari s.r ex.rcida com ind.pendlncla tente, incluindo representantes dos di- . assegurem a verificação da idoneidade
pelo Conlllho Fed.rll de Educaçlo, obrigaria a uml dupllcaçlo dos órglos t«nico. do Mlnist6rio. versos graus de ensino e do magistério de cada aluno, e da regularidade e au-
Orl. o • 2.· do Irt. 92 J' incumbll o C.F.E. de ellborar O Plano de Educaçlo r••••• nt. a cada
um do. trts Fundos, Itribuiçio que permitir' .quele órglo fixar. as norma. e 01 crit6rio. diKiplln ••
oficial e particular, de notório saber e tenticidade de sua vida escolar;
dor.. dos planos de apllcdo II1I1I antrlr em pormenores desnecess'rlo.. • alndl d. • •• Inalar que experiência, em matéria de educação,
o veto vir' usegurar 10. provaml. d. açlo do Mini.t6rio a conveni.nte flexibilidade para que exercerão as atribuições que esta lei d) garantia de remuneração condigna
POSllm .ofrer modltlcaç5el decorrentes de problemH .urgldos na axacuçlo. aos professores:
lhes consigna.
74 75
e) observância dos demais preceitos em vista as peculiaridades da região T1TULO XII a) as de manutenção e expansão do
desta lei. e de grupos sociais; ensino;
Dos recursos para a educação
§ 2.· - Vetado" b) ao estímulo de experiências pedagó- b) as de concessão de bolsas de estudo;
§ 3.· - As normas para observância gicas com o fim de aperfeiçoar os pro- c) as de aperfeiçoamento de professo-
Art. 92 - A União aplicará, anual-
deste artigo e 'parágrafos serão fixadas cessos educativos. res, incentivo à pesquisa e realização
mente, na manutenção e desenvolvimen-
pelo Conselho Estadual de Educação. de congressos e conferências;
Art. 21 - O ensino, em todos os graus, to do ensino, 12% (doze .por cento).
pode ser ministrado em escolas públi- d) as de administração federal, esta-
Art. 17 - A instituição e o reconheci- no mínimo, de Sua receita de impostos,
cas, mantidas por fundações cujo patri- dual ou municipal de ensino, inclusive
mento de escolas de grau médio pelos e os Estados, o Distrito Federal e os
mônio e dotações sejam provenientes as que se relacionem com atividades
Estados, pelo Distrito Federal e pelos Municípios, 20% (vinte por cento), no
do Poder Público, ficando o pessoal extra-escolares,
Territórios, serão comunicados ao Mi- mínimo.
nistério da Educação e Cultura para que nelas servir sujeito, exclusivamen- § 1.° - Com nove décimos dos recur- § 2,· - Não são consideradas despesas
fins de registro e validade dos certifi- te, às leis trabalhistas. sos federais destinados à educação, se- com o ensino:
cados ou diplomas que expedirem. § L" - Estas escolas, quando de ensi- rão constituídos, em parcelas iguais, o a) as de assistência social e hospitalar,
i
i no médio ou superior, podem cobrar Fundo Nacional do Ensino Primário, o mesmo quando ligadas ao ensino;
Art. 18 - Nos estabelecimentos oficiais
anuidade ficando sempre sujeitas à Fundo Nacional do Ensino Médio e
de ensino médio e superior, será recu- b) as realizadas por conta das verbas
prestação de contas, perante o Tribunal o Fundo Nacional do Ensino Superior.
sada a matrícula ao aluno reprovado previstas nos arts. 199, da Constituição
de Contas, e à aplicação, em melhora-
I mais de uma vez em qualquer série ou § 2.° - O Conselho Federal de Educa- Federal e 29 do Ato das Disposições
mentos escolares, de qualquer saldo ve-
conjunto de disciplinas. ção elaborará, para execução em prazo Constitucionais Transitórias;
rificado em seu balanço anual.
Art. 19 - Não haverá distinção de di- determinado, o Plano de Educação re- c) os auxílios e subvenções para fins
§ 2." - Em caso de extinção da fun-
rei tos.. .. vetado... entre os estudos ferente a cada Fundo. de assistência e cultura (Lei n." 1.493,
dação, o seu patrimônio reverterá _o
realizados em estabelecimentos oficiais Estado. § 3.° - Os Estados, o Distrito Federal de 13-12-1951).
e os realizados em estabelecimentos par- e os municípios, se deixarem de apli- Art. 94 - A União proporcionará re-
§ 3." - Lei especial fixará as normas
ticulares reconhecidos.·· car a percentagem prevista na Consti- cursos a educandos que demonstrem
da contribuição destas fundações, orga-
Art. 20 - Na organização do ensino tuição Federal para a manutenção e de- necessidade e aptidão para estudos,
nização de seus conselhos diretores e
primário e médio, a lei federal ou es- demais condições a que ficam sujeitas. senvolvimento do ensino, não poderão sob duas modalidades:
tadual atenderá: solicitar auxílio da União para esse a) bolsas gratuitas para custeio total
Art. 22 - Será obrigatória a prática
da educação física nos cursos primário fim. ou parcial dos estudos;
a) à variedade de métodos de ensino e
formas de atividade escolar, tendo-se e médio, até a idade de 18 anos. Art. 93 - Os recursos a que se refere b) funcionamento para reembolso den-
o art. 169 da Constituição Federal se- tro de prazo variável, nunca superior
rão aplicados preferencialmente na ma- a quinze anos,
• R. do V. - o § 2,· cio artigo 11, nutenção e desenvolvimento do sistema § 1.0 - Os recursos a serem concedi-
"A inspeçio dos estabelecim.ntos particulares se limitar' a ass-aurar o cumprim.nto du .xl-
gincl.. legais". ". público de ensino de acordo com os dos, sob a forma de bolsas de estudo,
Entretanto. o artigo 65 exige, planos estabelecidos pelo Conselho Fe- poderão ser aplicados em estabelecimen-
"O inspetor d. ensino. .scolhido 'or concurso públiCO de tltulos e prova. ou por promoçlo deral e pelos conselhos estaduais de tos de ensino reconhecido, escolhidos pe-
n. carreira, deve possuir conhecimentos técnicos e pedag6gicos, de pr.f.rincia, no exercfcio d. func56 educação, de sorte que se assegurem:
d. magistério, da luxiliar de Idministraçio escolar ou na dlreçio d. estabeleclm.nto. d. .nslno",
lo candidato ou seu representante legal.
H6 evidente incongruincia entre os dois textos, i6 que o prim.lro restringe u tunç60s··.t. 1.° - O acesso à escola do maior nú- § 2.· - O Conselho Federal de Edu-
Inspeçio ;, simpl •• veriticoçio do cumprimento da lei, .nquanto o s-aundo, ao d.tlnlr u qualltlca-
ç60s do inspetor. u caract.rlza mais amplamenta, t ••• ndo supor que o obJ.tlvo dOI l-aislodoru' mero possível de educandos: cação determinará os quantitativos glo-
seja dar a esta atividade maior responsobilidade na tor.ta educacional. 2." - a melhoria progressiva do ensino bais das bolsas de estudo e funciona-
Sendo indispens6vel int.lra clareza nessa matéria, Impõe-se o v.to 10 prlm.lro, a fim d. dar mento para os diversos graus de ensi-
a essa tunçio. da maior r.levlncia educacional, o car'tar e a amplitude que realm.nta lho d.vam
e o aperfeiçoamento dos serviços de
•• r atribuídos .
• * R, do V, - Art_ 1. -
estudos realizados em estabelecimentos
uNlo haver' distlnçlo de direitos para qualqu.r fim entro a.
oticiais e o. r.alizado. .m •• tab.leclm.nto. particular ••
educação;
3.· - o desenvolvimento do ensino téc-
no, que atribuirá aos Estados, ao Dis-
trito Federal e aos Territórios,
reconhecidos." nico-científico; § 3.° - Os conselhos estaduais de edu-
I! v.tada o .xpr.ssão ••••••.• qualquer fim" com o obJ.tivo d. .vltar • Indat.rmlnaçlo do dispo- 4.° - o desenvolvimento das ciências, cação, tendo em vista esses recursos e
sitivo que. tal como est' r.digldo, pod.rla .ignitlcar uma proibição d. se reconhec.r.m u dlf.r.nçu
de qualidade do ensino, seja .m estabelecimentos partlcula... .eJa .m .stabaleclm.ntol polbllcOl, letras e artes. os estaduais:
li! sabido qu., embora oquivalont... tal. estudo. pod.m •• r dl.tinguidos quanto • quaÍldod. § 1," - São consideradas despesas com a) fixarão o número e os valores 'das
e. ~ .tic'cia., bolsas, de acordo com o custo médio
o ensino:

76 77
do ensino nos municípios e com o grau
de escassez de ensino oficial em rela-
pelos estabelecimentos para que é feita
a solicitação de crédito;
r E) Quadro demonstrativo dos artigos mantidos e revogados da Lei 4.024/61.

ção .à .população em idade escolar; b) a existência de escrita contábil fi- Revogados


Títulos Mantidos
b) organizarão as provas de capacida- dedigna, e a demonstração da possibi-
de a serem prestadas pelos candidatos, lidade de liquidação do empréstimo art. 1.°
I - Dos Fins da Educação
sob condições de autenticidade e im- com receitas próprias do estabelecimen-
parcialidade que assegurem oportunida- to ou do mutuário, no prazo contra- 11 - Do Direito à Educação arts. 2.° e 3.°
des iguais para todos; tual;
.c) .estabelecerão as condições de reno- c) a vinculação, ao serviço de juros e III - Da Liberdade do Ensino arts. 4.° e 5.°
vação anual das bolsas, de acordo com amortização do empréstimo, de uma
parte suficiente das receitas do estabe- IV - Da Administração do Ensino arts. 6.° a 10
o aproveitamento escolar demonstrado
pelos ..'bolsistas., lecimento; ou a instituição de garan- arts. 11 a 17; 19; arts. 18 e 21
tias reais adequadas, tendo por objeto v - Dos Sistemas de Ensino (pela Lei 5.692)
§. 4.° - Somente serão concedidas bol- 20; 22
outras receitas do mutuário; ou bens
sas a alunos de curso primário quande,
cuja penhora não prejudique direta ou art. 30 de 23 a 29;
por falta de vagas, não puderem ser VI - Da Educação de Grau
indiretamente o funcionamento do es- 31 a 32
matriculados em estabelecimentos ofi- Primário
tabelecimento de ensínor . (Lei 5.692)
ciais.
d) o funcionamento regular do estabe-
§ 5.° - Não se inclui nas bolsas de de 33 a 61
lecimento, com observância das leis de VII - Da Educação de Grau Médio
que trata o presente artigo o auxílio (Lei 5.692)
ensino.
que o Poder Público concede a edu-
candos sob a forma de alimentação, § 2.° - Os estabelecimentos particula- de 62 a 65
material escolar, vestuário, transporte, res de ensino, que receberem subven- VIII - Da Orientação Educativa (Lei 5.692)
assistência médica ou dentária, O qual ção ou auxílio para sua manutenção, eda Inspeção
será objeto de normas especiais. ficam obrigados a conceder matrículas de 66 a 87
gratuitas a estudantes pobres, no valor IX - Da Educação de Grau (D-Lei 464)*
Art. 95 - A União dispensará a sua Superior
correspondente ao montante recebido.
. cooperação financeira ao ensino sob a
forma de: § 3.° - Não será concedida subvenção X - Da Educação de Excepcionais 88 e 89
a) subvenção, de acordo com as leis nem financiamento ao estabelecimento
de ensino que, sob falso pretexto, re- XI Da Assistência Social e 90 e 91
especiais em vigor;
cusar matrícula a alunos, por motivos Escolar
b) assistência técnica, mediante convê- de raça, cor ou condição social.
nio visando ao aperfeiçoamento do ma- 96 de 92 a 95
Art. 96 - O Conselho Federal de Edu- XII - Dos Recursos para a
gistério à pesquisa pedag6gica e à (Lei 5.692)
promoção de congressos e seminários; cação e os conselhos estaduais de edu- Educação
cação, na esfera de suas respectivas 97 a 99;
c) financiamento a estabelecim\ntos XIII - Disposições Gerais e 100; 104;
competências, envidarão esforços para 101 a 105;
mantidos pelos Estados, municípios ou Transitórias 106 a 108;
melhorar a qualidade e elevar os índi- 103; 105; 109;
particulares, para a compra, construção 112; 114;
ces de produtividade do ensino em re- 110; 113; 116
ou reforma de prédios escolares 'e res- 115; 120
lação ao seu custo: (Lei 5.692)
pectivas instalações e equipamentos de a) promovendo a publicação anual das 117 e 118
acordo com as leis especiais em vigor. (D-Lei 464)
estatísticas do ensino e dados comple-
§ 1.0 - São condições para a conces- mentares, que deverão ser utilizados na
são de financiamento a qualquer esta- elaboração dos planos de aplicação de
belecimento de ensino, além de outras recursos para o ano subseqüente;
que venham a ser fixadas pelo Conse- b) estudando a composição e o custo
lho Federal de Educação: do ensino público e propondo medidas (.) o Decreto-Lei 464 d. 11/2/69 estabeleceu as norma. complement."K à L.i 5.540 d.
28/11/68.
a) a .idoneidade moral é pedagógica adequadas para ajustã-lc ao melhor ní-
das pessoas ou entidades responsáveis vel de produtividade.
79
78
Capltulom

CONGRESSO NACONAL
E A LFJ N~ 5.540/68

A estratégia do ~~8Utorltarlsmodesmobl1lzador"
JJ8 lnstalapo da "democ:rada adudeate"

1. O projeto original
O projeto que deu origem à Lei n," 5.540/68 resultou dos estudos
desenvolvidos por um Grupo de Trabalho, criado para esse fim, por
decreto do então presidente da República, marechal Arthur da Costa
e Silva.
O decreto presidencial foi baixado em 2 de julho de 1968 e esti-
pulava o prazo de trinta dias para que o Grupo de Trabalho concluísse
os estudos e apresentasse uma proposta de reforma universitária. O
decreto estabelecia, ainda, que os referidos estudos tinham por objetivo
garantir a "eficiência, modernização e flexibilidade administrativa" da
universidade brasileira, tendo em vista a "formação de recursos huma-
nos de alto nível para o desenvolvimento do país".
Na mesma data de sua criação, o próprio presidente da República
designou os membros do Grupo de Trabalho da Reforma Universitária.
O Grupo ficou constituído por Fernando Bastos de Ávila, Fernando
Ribeiro do Vai, João Lyra Filho, João Paulo dos Reis Velloso, Newton
Sucupira, Roque Spencer Maciel de Barros e Valnir Chagas, aos quais
se juntou posteriormente o deputado Haroldo Leon Peres. O ato de
nomeação incluía também os nomes dos estudantes João Carlos Moreira
e Paulo Bouças. Entretanto, em que pesem os esforços do governo,
como ressaltou o ministro da Educação Tarso Dutra em agosto de 1968,
para obter a participação oficial de estudantes, estes se recusaram a
participar.

81
Para compreender a razão da recusa dos estudantes seria neces- do risco de perder o promissor mercado 'brasileiro, considera-
sário levar em conta o contexto s6cio-econômico-político dos fatos men- ram preferível negociar a instalação de suas indústrias no país.
cionados. Não é, entretanto, escopo do presente trabalho enveredar por E, considerando-se os incentivos fiscais bem como a doação das
uma análise do contexto em referência, o que já foi feito pelo autor áreas necessárias à instalação das referidas indústrias, as nego-
deste trabalho em outra publicação (cf, Saviani, in Garcia, 1978: 174-94). ciações se revelavam altamente vantajosas aos empresários in-
Serão dadas aqui apenas as indicações principais relativas ao contexto ternacionais.
da recusa estudantil, através da retomada de alguns aspectos do texto b) A produção de bens junto às fontes de matérias-primas e aos
citado. locais de consumo propiciava grande economia de fretes, evi-
I)

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, abordada no tando-se o transporte de matérias-primas para a matriz, bem
capítulo anterior, resultou de uma longa gestação que teve inicio em como de bens manufaturados para o mercado consumidor.
'1946 e s6 se completou em 1961. A esta época no Brasil estava em plena c) A enorme redução dos custos de produção nas filiais em relação
vigência o modelo econômico que os economistas convencionaram cha- à matriz, em razão da possibilidade de se contar com uma
mar de "substituição de importações", modelo este que se configurou mão-de-obra barata, porque abundante.
após a Revolução de 1930. A crise do café, como conseqüência da crise
Os fatores supra mencionados faziam da inserção no processo de
mundial da economia capitalistas nos colocou diante da necessidade de
industrialização do Brasil um mecanismo bastante lucrativo para os
produzir as manufaturas até então importadas. E essa mesma crise do
empresários estrangeiros.
café torna obsoleta a ideologia do "agriculturalísmo", que se baseava
na crença numa suposta "natural vocação agrícola do Brasil". As camadas médias, por sua vez, também tinham interesse na in-
dustrialização, pois vislumbravam aí um instrumento de ampliação das
A industrialização surge, então, como uma bandeira em torno da
possibilidades de concretização de suas aspirações de ascensão social.
qual se unem as diferentes forças sociais. Industrialização e afirmação
nacional se confundem. Em conseqüência, industrialismo se torna, prati- Finalmente, o operariado e as incipientes forças de esquerda apoia-
camente, sinônimo de nacionalismo. vam a industrialização porque a viam como um fator de desenvolvi-
mento do país e condição necessária à libertação nacional. Em 1945,
Ora, a vigência do modelo de "substituição de importações" e seu
quando se reabre o processo democrático, essas diferentes forças vão
relativo êxito deveu-se à conjugação de uma série de fatores favoráveis.
lutar não pró ou contra a industrialização, mas pelo controle do pro-
Assim, a crise do café, combinada com a crise geral da economia capi-
cesso que a desencadeara.
talista, permitiu que as diferentes forças se unissem em torno da ban-
I deira da industrialização. A referida conjugação de forças era possível porque os interesses
I 4 externos não chegavam ainda a se contrapor de modo antagônico aos
Nesse quadro, os empresários nacionais (burguesia nacional), com
I exceção das oligarquias rurais mais aferradas ao tradicionalismo mas
interesses nacionais. O antagonismo, porém, vai se acentuando, de modo
a fazer emergir, já na fase final do processo de substituição de impor-
'I que haviam perdido a hegemonia com a Revolução de 1930, evidente-
mente estavam interessados na industrialização, já que seriam os seus
tações (Governo Kubitschek), uma contradição que irá constituir-se no
f centro da crise do início da década de 60. Trata-se da contradição entre
! beneficiários diretos e imediatos, dado que lhes caberia a condução do
o modelo econômico e a ideologia política vigentes. Como emergiu essa
processo.
contradição já a partir do governo de Juscelino?
Os empresários internacionais (burguesia internacional) também O governo Kubitschek logrou relativa calmaria política dando livre
tinham interesse nesse processo, pelas seguintes razões: curso às franquias democráticas, graças a um equilíbrio que repousava
a) Tendo em vista as medidas protecionistas do governo em rela- na seguinte contradição: ao mesmo tempo que estimulava uma ideologia
ção à indústria nacional, a competição tornava-se difícil. Diante política nacionalista (o nacionalismo desenvolvimentista), no plano eco-

83
nômico levava a cabo a industrialização do país através de uma progres- De fato, se os empresariados nacional e internacional, as camadas
siva desnacionalização da economia. médias, o operariado e as forças de esquerda se uniram em torno da
bandeira da industrialização, as razões que os levaram a isso eram
Recorde-se, com efeito, que por ocasião do primeiro e segundo go-
divergentes. Assim, enquanto para a burguesia e as camadas médias a
vernos de transição entre a morte de Getúlio e a posse de Juscelino, a
industrialização era um fim em si mesmo, para o operariado e as
UDN estava no poder. Café Filho, embora não filiado à UDN, tendo em
forças de esquerda ela era apenas uma etapa. Por isso, atingida a meta,
vista que esse partido havia liderado a conspiração, constituíra um mi-
enquanto a burguesia busca consolidar seu poder, as forças de esquerda
nistério predominantemente udenista. Foi assim que Eugênio Gudin,
levantam nova bandeira: trata-se da nacionalização das empresas estran-
ministro da Fazenda, fez baixar a Portaria 113, da SUMOC, que con-
geiras, controle da remessa de lucros, de dividendos e as reformas de
cedia grandes vantagens ao capital estrangeiro.
base (reformas tributária, financeira, agrária, educacional etc.). Tais
Ora, Juscelino, tendo assumido o governo, não revogou essa por- metas, entretanto, eram decorrentes da ideologia política do nacionalis-
taria. Ao contrário, utilizou-a como instrumento para completar o pro- mo desenvolvimentista, entrando em conflito com o modelo vigente.
cesso de substituição de importações, atraindo as empresas estrangeiras
A contradição acima apontada estava no centro da crise vivida
para implantar, desta vez, as indústrias de consumo durável, principal-
pelo Brasil nos inícios dos anos 60. Sair da crise implicava resolver essa
mente as automobilísticas. Tais indústrias, sendo do tipo capital inten-
contradição. Daí a alternativa: ajustar a ideologia política ao modelo
sivo, exigiam grandes somas de investimentos. Conseqüentemente, sua
econômico ou vice-versa. A revolução de 1964, como se sabe, resolveu
implantação imediata só foi possível a partir das poderosas empresas
o conflito em termos da primeira opção (cf. Pereira, 1970: capo 4). Em
internacionais. Estas tenderiam, em seguida, a dominar o panorama eco-
conseqüência, a ideologia do nacionalismo desenvolvimentista foi subs-
nômico do país, absorvendo ou colocando sob sua órbita boa parte das
tituída pela doutrina da interdependência, elaborada no seio da Escola
empresas nacionais; contudo, essa tendência era incompatível com a
Superior de Guerra.
ideologia do nacionalismo desenvolvimentista. O Brasil viu-se, então,
diante da seguinte opção: ou compatibilizava o modelo econômico com a Em termos educacionais, foi exatamente no período em que aflora
ideologia nacionalizando a economia, ou renunciava ao nacionalismo a contradição antes referida que se ensaiou uma abertura maior na
desenvolvimentista ajustando a ideologia política à tendência que se direção das aspirações populares, surgindo iniciativas como o Movi-
manifestava no plano econômico. Eis como afIorou a contradição entre mento de Educação de Base (MEB), as campanhas de alfabetização de
modelo econômico e ideologia política. adultos, os Centros de Cultura Popular etc. Isso, porém, ocorreu à
margem da organização escolar regular, constituindo uma espécie de
Foi dito afIorou e não surgiu porque, na verdade, essa contradição
"sistema paralelo" para onde os estudantes universitários canalizavam
se encontrava latente em todo o processo. Ela vai se tipificando à me-
seus anseios de reforma, compensando, assim, o não-atendimento de
dida que a industrialização avança, até emergir como contradição prin-
suas reivindicações pela reforma da própria universidade.
cipal, quando se esgota o n1odelo de substituição de importações.
Após 1964, cortadas aquelas alternativas e agravados os problemas
Com efeito, por volta de 1960 já não dependíamos da importação
em decorrência da adaptação do modelo econômico que, com o esgota-
de manufaturas. Produziam-se no país não apenas os bens de consumo
não-duráveis, tais como alimentos e tecidos, cujas indústrias se insta- mento do processo, d~ substituiçã? ~e importações, assume progressiva-
mente as caractenstícas de capitalismo de mercado associado-depen-
laram na primeira fase de vigência do modelo, mas também os bens de
dente 1, torna-se a própria universidade o palco e o alvo das reivindi-
consumo duráveis, correspondentes à última fase do referido modelo.
A meta da industrialização tinha sido, pois, atingida. Conseqüente-
mente, não fazia mais sentido lutar por ela. Desse modo, aquilo que 1. A literatura sobre o "modelo econômico brasileiro" p6s-64 é abundante
e, a?~sar das diferentes tendências, os diversos autores concordam, Implícita ou
estava oculto sob o objetivo comum da industrialização, desempenhan- explicitamente, em caracterizá-lo como "cepitalísmo de mercado assocíado-depen-
do no decorrer do processo papel secundário, assume caráter principal, dente". Ver, por exemplo, Furtado (197-2), Simonsen & Campos (1974), Tevates
emergindo na crista dos acontecimentos quando o objetivo é atingido. (1972) e Femandes (1973).

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cações reformistas. Em contrapartida, o governo tomava algumas medi- governamentais, de modo especial nos âmbitos político e econômico
das visando enquadrar o movimento estudantil e a universidade nas (cf. Dreifuss, 1981).
diretrizes do novo regime. É o caso da Lei n," 4.464/65, que regula- E a educação também não deixou de entrar na esfera de preocupa-
mentava a organização, o funcionamento e a gestão dos órgãos de repre- ções do IPES. Assim é que, já em 1964, nos meses de agosto, setembro,
sentação estudantil, bem como a assinatura dos chamados "acordos outubro e novembro, se dedicou à preparação de um "simpésío sobre a
MEC-USAID". Tais medidas, orientadas que eram pela doutrina da reforma da educação", realizado em dezembro do mesmo ano (cf. Souza,
interdependência, obviamente entravam em conflito com a orientação 1981), culminando com a realização, em outubro e novembro de 1968,
nacional-desenvolvimentista seguida pelas reivindicações estudantis. A em colaboraçêo com a PUC do Rio de Janeiro, de um "Fórum de Edu-
Universidade transformou-se, assim, no único foco de resistência mani- cação" (cf. IPES, 1969). Registre-se que participaram desse Fórum
festa ao regime, desembocando na crise de 1968. dois integrantes do Grupo de Trabalho da Reforma Universitária: Fer-
Nessas circunstâncias, os estudantes, levando ao extremo as suas nando Bastos de Ávila e João Lyra Filho.
pretensões, decidiram fazer a reforma pelas próprias mãos. No mês de Portanto, ao iniciar seus trabalhos, o Grupo da Reforma Universi-
junho de 1968 eles ocuparam as universidades e instalaram cursos-pi- tária já dispunha de um conjunto de subsídios que vinha desde o Rela-
loto, ficando algumas escolas sob o controle dos alunos durante o mês tório Atcon, passando pelo relatório da Equipe de Assessoramento ao
de julho e praticamente todo o segundo semestre. E nesse quadro que Planejamento do Ensino Superior e pelo Relatório Meira Matos, até OS
o governo, como que raciocinando em termos de "façamos a reforma estudos patrocinados pelo IPES (cf. Vieira, 1982).
antes que outros a façam", apressou-se a desencadear o processo bai- Os resultados dos estudos do Grupo de Trabalho foram consubs-
xando, em 2 de julho, portanto no auge da crise estudantil, o Decreto tanciados no Relatório Geral do GTRU, encaminhando-se as propostas
n." 62.937, que instituiu o Grupo de Trabalho da Reforma Universi- para um grupo de nível ministerial, integrado pelos ministros Antonio
tária. Estava, assim, declarado o confronto entre o movimento estu- Delfim Netto, da Fazenda, João Paulo dos Reis Velloso, do Planeja-
dantil e o governo militar (cf. Sanfelice, 1986). mento, Luiz Antônio da Gama e Silva, da Justiça e Tarso Dutra, da
A partir desse contexto, compreende-se por que os estudantes se Educação.
recusaram a participar do Grupo de Trabalho então criado. Finalmente, em 7 de outubro de 1968 entrava na ordem do dia do
O Grupo funcionou, portanto, sem nenhuma representação estu- Congresso Nacional a Mensagem Presidencial n," 36, contendo o projeto
dantil. Dados os fatos acima expostos, o governo tinha pressa. Por de lei n,? 32, destinado a fixar as "normas de organização e funciona-
isso concedeu ao Grupo de Trabalho apenas trinta dias para concluir mento do ensino superior e sua articulação com a escola média e dar
os trabalhos. outras providências".

Contudo, não foi apenas nesse momento que o governo se voltou
explicitamente para essa questão. Os fatos narrados simplesmente apres- 2. A tramitação do projeto
saram o desfecho de algo que estava nas cogitações do governo militar
desde sua instalação. Com efeito, além dos Acordos MEC-USAID já A referida Mensagem n.? 36 integrou um pacote de sete mensagens
mencionados, importa lembrar que em 1961, deflagrada a crise antes que deram entrada no Congresso no mesmo dia para serem discuti~àS
apontada, foi criado o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e votadas em regime de urgência, portanto, pelo prazo de quarenta dias,
por iniciativa de um grupo de empresários de São Paulo e do Rio de findo o qual seriam aprovadas por decurso de prazo. Além disso, esta-
Janeiro. Tal instituto funcionou até 1971 como um verdadeiro partido belecido o regime de urgência pela legislação então em vigor, as men-
ideológico doempresariado. Segundo Dreifuss, essa instituição teve papel sagens deveriam ser examinadas ao mesmo tempo pelo Senado e .pela
fundamental na deflagração do golpe de 1964, exercendo influência Câmara em sessões conjuntas. Em conseqüência, o estudo dos projetoa
decisiva na estruturação do novo regime e na formulação de diretrizes seria feito em comissões mistas, composta por senadores e deputados.

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há no Senado e na Câmara quem esteja preocupado em defender as prer-
No Congresso que recebeu as mensagens já não figuravam mais rogativas do Congresso. a soberania de suas deliberações, a regularidade de
os partidos que desenharam o cenário político brasileiro entre 1945 e seus trabalhos" (DCN, 9-10-68:950).
1964. Esses partidos haviam sido extintos pelo Ato Institucionaln.? 2,
de 27 de outubro de 1965. Em seu lugar foram criados, pela mesma E, após se insurgir contra a recepção passiva de imposição arbitrá-
iniciativa do governo militar, a Arena (Aliança Renovadora Nacional), ria do Poder Executivo, chama a atenção para a necessidade de que o
definida como o partido da situação, e o MDB (Movimento Democrático Congresso, à vista da independência dos poderes, decida soberanamente,
Brasileiro), que desempenharia o papel de oposição. Portanto, dadas as dando às mensagens um encaminhamento regular e evitando o tumulto
suas origens, o MDB teve, de início, o caráter de oposição consentida. que certamente acarretaria a leitura simultânea das sete mensagens. E ar-
remata: "Isto não é legislar. Isto será apenas, dolorosamente para o Con-
Assim que o presidente do Congresso Nacional, Pedro Aleixo (à
gresso, homologar o arbítrio do Poder Executivo" (DCN, 9-10-68:950).
época o Congresso era presidido pelo vice-presidente da República),
abriu a sessão e anunciou a leitura do expediente, foi interrompido por Em seguida o presidente passa a palavra ao líder da maioria para
uma questão de ordem do senador [osaphat Marinho, líder do MDB, contraditar a questão de ordem levantada.
que, após mencionar que o expediente constaria da leitura das mensa- O deputado Geraldo Freire, líder da Arena, defende a leitura con-
gens encaminhadas pelo presidente da República, pondera que das junta das sete mensagens, afirmando que seis delas se referem ao mesmo
sete mensagens, uma diz respeito ao restabelecimento de representações assunto e argumentando a favor do regime de urgência:
no Conselho Nacional de Telecomunicações. E prossegue:
"Trata-se de matéria educacional, da reforma universitária tão reclamada
"Todas as outras seis mensagens são referentes a ensino, vale dizer, repre- pela juventude e pelos homens maduros .deste País. De há muito se fala
sentam parte do que se tem chamado a 'reforma universitária'. Só uma das neste assunto, que, assim, assumiu o máximo relevo. Cumpria ao Governo,
mensagens, a de n," 36, contém um projeto que fixa normas de organiza- depois dos estudos necessários, enviá-lo ao Congresso. ainda em tempo útil,
ção e funcionamento do ensino superior, e sua articulação com a escola para que fosse solucionado no final deste ano de 1968" (DCN, 9·10-68:950).
-rnédia, desdobrado em 45 artigos" (DCN, 9·10-68:950).
Pedro Aleixo, invocando alguns antecedentes, sustenta, contra a
Considera, em seguida, que, desde a aplicação dos atos institucio- argumentação de [osáphat Marinho, que a praxe tecomenda o exame
nais, vinha-se entendendo que caberia a leitura de não mais que uma conjunto e decide a questão de ordem nesses termos.
mensagem por sessão. E observa que, se fossem lidas todas as sete Entretanto, o deputado Mário Covas, líder do MDB na Câm~ra,
mensagens, conforme constava da ordem do dia, como todas foram volta à carga e indaga da data de encerramento do prazo para a dehb~-
encaminhadas em regime de urgência, "o Congresso deverá decidir a ração sobre os projetos, obtendo em resposta que o prazo se encerrana
respeito no prazo de quarenta dias" (DCN, 9-10-68:950). quarenta dias após a data da leitura das mensagens, isto é, 16 de novem-
E o parlamentar pede a ~enção do presidente do Congresso para bro de 1968.
a gravidade do assunto, considerando que das sete mensagens uma tem Diante disso, Mário Cevas solicita que seja anunciado o calendári?
"caráter manifestamente político" sendo, portanto, "suscetível de graves para que possa formular uma questão. de ?rdem. E traY~ com o pre~l-
divergências" no Congresso. Quanto às outras, que se referem à Refor- dente do Congresso um debate bizantino, Já que o presidente entendia
ma Universitária, lembrou o senador que o "Governo levou ano e meio que o calendário só deveria ser anunciado após a leitura das mensag,:n~,
a estudar a matéria", criando grupos de trabalho e implementando estu- enquanto que o deputado argumentava que sua. questão de ordem disia
dos de todo o tipo que se consubstanciaram nos projetos em questão. E, respeito precisamente à leitura e que s6 poderia ser for~ulada com o
depois disso tudo, "remete-os todos de uma vez e para que o Congresso conhecimento prévio do calendário. Finalmente, o presidente cede e
delibere em regime de urgência". E retira a seguinte conclusão: anuncia:
"O calendário próposto pelo serviço competente da Assessoria da Presi-
"Ora, o fato é tão grave que uma de duas: ou o Governo não consultou os dência é o 'seguinte: nos dias 8 e 9 de outubro deverão ser instaladas as
dirigentes do Congresso e os seus líderes na Câmara e no Senado, ou não
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Geraldo Freire começa por afirmar que Mário Covas não levantou
comissoes: nos dias 10, 11, 14, 15.e 16 serão apresentadas as emendas; até
o dia 31 de outubro serão apresentados os pareceres. A convocação de propriamente uma questão de ordem, já que não invocou nenhuma
sessões para discussão e votação da matéria ficará na dependência da apre- norma regimental, nenhum dispositivo constitucional e nem mesmo a
sentação dos pareceres" (DCN, 9-10-68:951). praxe parlamentar, aproveitando-se da oportunidade simplesmente para
fazer, na condição de oposiocionista, alguns ataques ao governo. O depu-
A partir dessa informação, Mário Covas tece considerações sobre tado situacionista prossegue considerando injustos os ataques e afirmando
as datas, argumentando que, se fossem lidas as sete mensagens, seriam que o Poder Executivo jamais teve intenção de menosprezar o Con-
necessárias vinte e uma sessões entre os dias 5 e 14 de novembro, o gresso. O que ele pretendeu foi, tal como proclamou solenemente, que
que seria materialmente impossível de ser realizado. Conclui, pois, que os congressistas participassem com seus estudos e emendas, colaborando
"não há qualquer possibilidade de se esgotar, regimentalmente, a dis- assim "para que se resolvesse este assunto de tanta importância nacío-
cussão e a votação dessas matérias dentro desses prazos" (DCN, nal" (DCN, 9-10-68:952). E, ap6s afirmar que a data foi determinada
9-10-68:951). Insiste, assim, nà inconveniência da discussão conjunta das não pelo Executivo mas pelo pr6prio Congresso, através de escolha livre
sete mensagens: do presidente do Senado, explicita melhor as razões do encaminhamento
,
.'i das mensagens naquele instante:
UPois o Governo nos manda sete projetos sobre problemas como a refonna
universitária; sete projetos interligados em seis mensagens (aie). E os envia • Afinal de contas, as mensagens deveriam ser enviadas agora mesmo, por-
ao Congresso, e não às duas Casas em separado, criando esse problema que, se não o fossem, não o seriam mais no ano em curso, e seriam
de uma Comissão Mista que, em geral, se organiza política e não tecnica- atrasadas cada vez mais. E, com isto, quem perderia seria a Nação mesma,
mente, desvalorizando o trabalho parlamentar das Comissões Técnicas" porque há muito se (ala em reforma universitária. De há muito tem sido
(DCN, 9-10-68:951). proclamado, desta mesma Tribuna e por elementos da Oposição, a neces-
sidade de que se elabore uma legislação nova a respeito" (DCN, 9-10-68:
Mário Covas prossegue em seu discurso procurando evidenciar a 952).
impraticabilidade de se seguir o calendário proposto, de modo especial
Obviamente, era crucial para o governo a solução da questão ainda
nas circunstâncias do momento que o Parlamento estava vivendo. Com
naquele ano de 1968, uma vez que o problema estava posto de modo
efeito, era um período pré-eleitoral no qual. além do mais, o Congres-
agudo com a iniciativa dos alunos de assumirem o controle das facul-
so estaria recebendo a rainha da Inglaterra, o que implicaria a realiza-
dades, forçando a sua reforma. Eis, pois, o problema que, nas palavras
ção de sessões especiais de homenagem à visitante. E, exatamente nesse
do líder do governo, deveria ser resolvido ainda "no ano em curso":
momento, "um problema cujo estudo custou ao Governo muito tempo,
desalojar os alunos do controle das escolas e restabelecer a ordem. Para
muitas bombas, muitos cassetetes, é encaminhado para ser discutido e
isso era imprescindível uma nova legislação que, a partir dos anseios de
votado desta maneira" (DCN, 9-10-68:952).
reforma, imprimisse às escolas superiores rumos compatíveis com o pro-
E fulmina: jeto político de que era guardião o regime instalado em 1964.
••A ninguém de bom senso passa despercebido que essas mensagens estão' Nessas condições, as sete mensagens foram lidasiniciando-se a
sendo encaminhadas, neste instante, desta forma, com um único objetivo: contagem irreversível dos quarenta dias em que tudo deveria ser dis-
ver esses projetos aprovados por decurso de prazo. O observador que possua cutido e votado pelo Congresso se se quisesse evitar a aprovação dos
um mínimo de bom senso e o máximo de isenção tem de concordar em projetos nos termos propostos pelo Executivo, por decurso de prazo.
que a única razão pela qual estas mensagens foram encaminhadas desta
maneira é exatamente a de atingir esse objetivo: a aprovação da matéria Lidas as mensagens, na mesma sessão foi designada a Comissão
por decurso de prazo" (DCN, 9-10-68:952). Mista, composta por 14 parlamentares (7 senadores e 7 deputados) da
Arena e 8 do MDB (4 senadores e 4 deputados).
Novamente o presidente do Congresso passa a palavra ao deputado No dia 31 de outubro, como previa o calendãrío," a Comissão'
Geraldo Freire, líder da maioria, para contraditar a questão de ordem
Mista apresentou seu parecer cujo relator foi o deputado Lauro Cruz.
formulada pelo líder da oposição.
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o projeto recebeu 133 emendas às quaís se acrescentaram mais 9 que a oposição consenti da consentiu na aprovação do projeto do go-
apresentadas pelo relator, perfazendo um total de 142. Das 133 emen- verno 2.
das; 77 foram sumariamente rejeitadas pelo relator, 3 foram em parte
rejeitadas e em parte subemendadas, 37 foram subemendadas e apenas 3. Significado político do texto aprovado
16 foram acolhidas integralmente (cf. DCN, 5-11-68:7.833-39).
Os trabalhos realizados pelo relator, deputado Lauro Cruz, sobre o A Lei n." 5.540/68 é um produto típico do regime político instau-
projeto original e sobre as emendas a ele apresentadas foram consolida- rado com o golpe militar de 1964. Assim é que Florestan Fernandes, na
dos num substitutivo oferecido pelo relator à Comissão Mista no dia introdução do texto sobre "os dilemas da reforma universitária consen-
30 de outubro de 1968. Nesse mesmo dia, os membros da Comissão tida", registra que o Grupo de Trabalho enfrentava três obstáculos gra-
propuseram 12 subemendas ao substitutivo do relator. Tais subemendas ves.,O primeiro era o tempo extremamente exíguo em face dós objetivos
tiveram a característica de retocar a redação em aspectos adjetivos, pretendidos. O terceiro dizia respeito à heterogeneidade dos intelectuais,
tendo sido todas elas aceitas, ainda que alterando-se o enunciado de que o compunham. ~ o segundo, porém, que nos interessa aqui mais de
quatro delas (cf. DCN, 5-11-68:7.842). perto; consiste no seguinte:

I O substitutivo aprovado pela Comissão Mista entrou na ordem do


dia da sessão realizada em 6-11-68. Usaram da palavra o deputado "O GT recebia seu mandato de um Governo destituído de legitimidade
política e que não encarna a vontade da Nação, mas dos círculos conser-
Último de Carvalho e o senador Eurico Rezende pela Arena e o senador
I [osaphat Marinho e o deputado Mário Maia pelo MDB, seguidos de
vadores que empalmaram o poder, através de um golpe de Estado militar.
Por mais respeitáveis ou bem-intencíonados que sejam os seus componentes,
sucessivos apartes de Lauro Cruz que, na condição de relator do subs- eles se converteram, individual e coletivamente, em delegados dos deten-
titutivo em discussão, procurava rebater as poucas e irrelevantes tenta- tores do poder e em arautos de uma reforma universitária consentida"
tivas de introduzir algum tipo de alteração no texto. Falou também, (Fernandes, 1975:202).
servindo-se de um aparte ao senador Iosaphat Marinho, o deputado
Martins Rodrigues, do MDB. Sua fala se caracterizou como um protesto
Florestan desenvolve em seguida aquilo que chama de "elogio e
da oposição àquilo que ele chamou de insinuação do relator, que teria
crítica da consciência farisaica", entendendo com tal expressão a capi-
afirmado que "a Bancada do Movimento Democrático Brasileiro havia
tulação dos intelectuais integrantes do Grupo de Trabalho que, através
aceito, tranqüilamente, todas as emendas, todas as sugestões propostas"
de um "verbalismo crítico" e de um "radicalismo simulado", empreende-
(DCN, 7-11-68: 1.087). Contrariamente a essa "insinuação", o deputado
ram "uma tentativa de empulhação que confunde a juventude e a Nação"
considera que a bancada oposicionista «se rebelou contra vários dispositi-
(Fernandes, 1975:210). Apesar disso reconhece que o relat6rio contém
vos e apresentou várias emendas"; entretanto, essa tentativa de propiciar
"o melhor diagnóstico que o Governo já tentou, tanto dos problemas
"alguma abertura democrática" foi rejeitada obstinadamente pela maio-
estruturais com que se defronta o ensino superior. quanto das soluções
ria. "Nada se quis alterar que modificasse, profundamente, o espírito
que eles exigem" (Fernandes, 1975:205). E aponta o que considera
de desconfiança do Governo." E conclui com as seguintes palavras:
avanços para depois destacar as "limitações da reforma universitária
"De modo que, em todas aquelas ocasiões em que a representação do consentida" (Femandes, 1975:210-38). Em suma, considera Florestan que
MDB teve ocasião de sugerir emendas liberais (. .. ) ou combater disposi- o Grupo de Trabalho permaneceu "fiel às disposições do Governo Mili-
ções do projeto que lhe pareceram de caráter autoritário, sempre encontrou tarista no poder. " aparecendo diante da Nação como adepto e fiador
a resistência obstinada da maioria a qualquer modificação que importasse
em sacrificar ( ... ) o espírito do projeto do governo" (DCN, 7-11-68:1.087).
2. Já estava concluída a redação deste capítulo quando chegou às nossas
Em que pese esse pãlído protesto, a verdade é que o projeto foi mãos uma dissertação de mestrado defendida recentemente onde se reitera o con-
aprovado pacificamente, com a anuência, portanto, da minoria. Dir-se-ia sentimento da oposição na aprovação do projeto. Ver Nicolato (1986:340-2).

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de uma constituição outorgada da vida universitária" (Fernandes, o que é atestado, além de outros numerosos indicadores, pelo simples
1975:224). E resume sua posição através do seguinte parágrafo: fato da permanência dos militares no poder, caso inédito na história
da política brasileira. Aliás, com essa conclusão (ausência de "revolução
"E preciso que fique bem claro, de antemão, que entendemos a reforma social", de um lado, e "mudança política radical", de outro) concordam
universitária consentida como uma manifestação de tute1agem política e
os analistas das mais variadas tendências (cf. Stepan, 1975: 10 e 138-54).
como mera panacéia. Não podemos aceitá-Ia porque ela não flui de nossa
vontade, não responde aos anseios que animam as nossas lutas pela recons- A mudança política acima referida se deu através de uma crescente
trução da universidade e não possui fundamentos democráticos legítimos. centralização e desproporcional fortalecimento da sociedade política em
Complemento de dois decretos-leis de um Governo militar autoritário e
expressão perfeita do poder que engendrou a constituição outorgada à
detrimento da sociedade civil, como, aliás, veio a reconhecer, em 1980,
Nação em janeiro de 1967, ela representa uma contrafação de nossos ideais o próprio general Golbery do Couto e Silva:
e de nossas esperanças. A ela devemos opor a autêntica reforma univer-
sitária, que nasce dos escombros de nossas escolas e da ruína de nossas "Ora, como já referimos, o Brasil, com a revolução de 1964, ingressou,
vidas mas carrega consigo a vocação de liberdade, de igualdade e de quase sem o perceber, numa fase de centralização acelerada que iria per-
independência do povo brasileiro" (Fernandes, 1975:203-4). mear todos os campos e setores da atividade do Estado, do político ao
econômico e deste ao primeiro em reforço recíproco, extravasando-se, aos
Se a Lei n,? 5.540/68 constitui expressão típica do regime decor- poucos, a todos os recantos da sociedade nacional em manifestações psicos-
sociais telecondicionadas, senão até mesmo comandadas, desde o Governo
rente do golpe militar de 1964, convém, para compreendê-Ia, explicitar central.
o sentido político do referido golpe bem como a natureza do regime
por ele instaurado. Em franca escalada cumulativa, a centralização administrativa e polí-
Como já se indicou no primeiro tópico deste capítulo, o movimento tica- acabaria por centrar na União e, dentro desta, no Poder Executivo a
militar de 1964 traduziu a opção pelo ajustamento da ideologia política suma do poder público, ao qual nem poderiam atingir pequenas rebeldias
distantes, muitas delas até simplesmente ignoradas, enquanto desafios mais
ao modelo econômico. Conseqüentemente, o referido movimento foi fortes ou próximos encontrariam sempre ágil e decisiva repressão" (Silva,
feito para garantir a continuidade da ordem sócio-econômica. Para tanto 1981:22).
foi necessário, porém, operar uma ruptura política, já que a persistência
dos grupos que então controlavam o poder político formal tendia a uma Assim, no Brasil p6s-64 assistiu-se à crescente hipertrofia da so-
ruptura no plano sócio-econômico. Portanto, o movimento militar vitorioso ciedade política (setor governamental) em relação à sociedade civil (con-
em 1.° de abril de 1964 se configurou inequivocamente como uma contra- junto das formas de organização dos diferentes setores da população da
revolução, ainda que assumisse a forma de qual emana a legitimidade do poder exercido). Em conseqüência, a
sociedade política, que detém o monopólio do uso da força (mecanismos
"uma contra-revolução cônscia do seu significado e inconformada com ele,
que sentiu a necessidade vic"ia de se autodenominar 'revolução'" (Jagua- repressivos), perdeu o apoio da sociedade civil, que opera na base do
ribe, in Furtado, 1968:25-47). consenso (mecanismos persuasivos), emergindo daí o caráter ilegítimo
do poder exercido pelo setor governamental. Eis por que, nos últimos
Aliás, esse caráter contra-revolucionário, malgrado os arautos do anos, se difundiu a distinção entre legalidade e legitimidade. Quer dizer,
golpe o terem eufemisticamente denominado de movimento revolucio- o governo é legal porque estribado nas leis que ele próprio patrocinou;
nário, foi constantemente proclamado nos discursos políticos proferidos não é, porém, legítimo, já que não conta com o consentimento ativo dos
por ocasião das comemorações cívico-militares a partir de 1964. Nesses governados. Igualmente, as diferentes mobilizações sociais, as greves,
discursos a seguinte temática tem sido constante: as Forças Armadas por exemplo, tendiam a ser consideradas ilegais pelo governo, mas eram
se levantaram para salvaguardar as tradições, restaurar a autoridade, definidas como legítimas pelos governados. Está aí, cremos, o funda-
manter a ordem, preservar as instituições e defender a democracia contra mento da ação social denominada "desobediência civil" (cf. Vieira,
as ameaças da desordem, da subversão e do totalitarismo. E essa ação 1984). Já que o grupo que empolgou o poder se arvorou em intérprete
contra-revolucionária requereu uma "mudança radical" no plano político, infalível das aspirações da sociedade sem a prévia delegação desta, tal
94 95
poder é ilegítimo, podendo, em conseqüência, ser legitimamente do desenvolvimento centrado na ação das empresas multinacionais, estrei-
contestado. tavam-se cada vez mais os canais de ascensão social, que são o meio
Ancorado na "doutrina da segurança nacional", cognome da "ideo- através do qual se ampliam os setores médios. Desta forma, a moderni-
logia política da interdependência", o poder militar-tecnocrático, auto- zação da economia fazia da escolarização, senão a única, pelo menos a
denominado de "poder nacional", acionou mecanismos preventivos, re- principal via de ascensão social. Daí a forte pressão das camadas médias
pressivos e opera tivos que iam desde ações psicossociais de propaganda, no sentido da "democratização" da universidade, evidenciada pela mobi-
passando pela repressão localizada de movimentos contestatórios, até à Iização estudantil. .
montagem de verdadeiras operações militares destinadas a eliminar fisi- Todavia, se a questão do ensino superior estava em linha de conti-
camente os adversários 3. Procedeu-se, assim, à instalação da "demo- nuidade com o processo sócio-econômico, as manifestações dos estudantes
cracia excludente". tinham por base uma continuidade também no plano político, razão
A denominação supra nos parece sugestiva porque o regime militar pela qual se orientavam, ainda, pela ideologia nacional-desenvolvimen-
implantado em 1964, em nome da democracia, isto é, proclamando tista. Contudo, do mesmo modo que em termos gerais, também no plano
constantemente pretensões democráticas e mantendo os canais formais educacional era necessária uma ruptura política para manter a continui-
básicos do regime democrático, como o funcionamento do Congresso, dade social, o que implicava o ajustamento da política educacional à
operou a exclusão deliberada e sistemática de amplos setores da socie- nova ideologia política (a doutrina da interdependência) atrelada ao
dade civil do processo político. E o fez pondo em movimento a estratégia modelo econômico desnacionalizante.
do "autoritarismo desmobilizador", procedendo a cassações, intervenções Com vistas ao ajustamento referido, foram tomadas várias medidas,
em órgãos representativos, extinção dos mesmos, execuções e banimentos tais como a Lei n," 4.464/65, que regulamentava a organização e fun-
de cidadãos brasileiros. O poder central estendia seus tentáculos até os cionamento dos órgãos de representação estudantil e as gestões em torno
mais longínquos rincões do território nacional, sufocando a sociedade da celebração dos chamados "Acordos MEC-USAID". Entretanto, esse
civil, desmantelando as incipientes organizações populares através do tipo de medida entrava em conflito com a orientação seguida pelas
império onipresente de seu aparato repressivo. Desencadeava-se, assim, reivindicações estudantis, conduzindo ao confronto entre o movimento
um processo amplo de desmobilização social pela via autoritária, alicer- estudantil e o governo militar que desembocou na crise de 1968. Assim,
çada primordialmente no exercício discricionário da violência institucio- com a Lei n," 5.540 de 28 de novembro de 1968, seguida, após a decre-
nalízada,
tação do Ato Institucional .n.? 5, de 13 de dezembro de 1968, pelos
Como se traduziu na Lei n.? 5.540/68 a estratégia do "autoritarismo decretos-leis n. 464 e 477, de fevereiro de 1969, consumou-se a ruptura
OS

desmobilizador"? política, também no âmbito educacional, tendo em vista a manutenção da


O impasse da universidade se situava numa linha de continuidade ordem s6cio-econômica em nome da defesa da democracia. E o setor
com o processo s6cio-econômA:o. Com efeito, a tendência já esboçada estudantil foi, também ele, excluído deliberadamente do regime que se
pela economia nos anos 50, principalmente a partir do último qüinqüênio, autoproclamou democrático.
exigia relativa ampliação e fortalecimento dos setores médios para com- A referida estratégia do "autoritarismo desmobilizador" aplicada à
patibilizar a demanda com a expansão da produção de bens de consumo educação refletiu-se, inclusive, na estrutura do ensino superior preconi-
duráveis. Entretanto, ao mesmo tempo, por um mecanismo interno que zada pela reforma. Com efeito, a lei instituiu a departamentalização e a
acelerava a concentração da renda, bem como pelo caráter dependente matrícula por disciplina com o seu corolário, o regime de créditos,
generalizando a sistemática do curso parcelado. Ora, tais dispositivos,
. 3. Ver, a respeit.o, coletânea de textos da ADESG (Associação dos Estagiá-
aparentemente apenas administrativos e pedagógicos, tiveram, no entanto,
nos da Escola Superior de Guerra), especialmente ° opúsculo "Segurança Inter- o significado político de provocar a desmobilização dos alunos que, não
na", de autoria dos coronéis Antônio Duarte Miranda, Germano Seidl Vidal e o mais organizados por turmas que permaneciam coesas durante todo o
tenente-coronel José Ramos de Alencar. curso, ficaram impossibilitados de se constituírem em grupos de pressão
96 97
capazes de reivindicar a adequação do ensino ministrado aos objetivos
mente Mariani, ministro da Educação e Saúde do governo Dutra, de
do curso, bem como a consistência e relevância dos conteúdos transmi- desencadear, através do projeto das Diretrizes e Bases da Educação Na-
tidos. Além disso, a adoção do vestibular unificado e classificatório cional, "uma revolução contra os princípios pedagógicos, filosóficos e
aliado ao ciclo básico tiveram o condão de desarmar, ao eliminar artifi- políticos da ditadura". E frisa que tal tentativa ocorreu exatamente no
cialmente a figura dos excedentes, as pressões organizadas por mais vagas campo da educação, que constituía nada mais nada menos o
globalmente oferecidas pela universidade, como também as reivindicações
pela ampliação das vagas nas carreiras especificamente mais procuradas. "terreno em que, segundo os refonnadores, a ditadura se tinha expressado
de maneira mais viva, mais eloqüente e mais durável" (DCN, 12-2-57:128,
Ora, como já se viu, as medidas acima apontadas integram um, grifos meus).
conjunto de iniciativas tomadas no âmbito do regime autoritário caracte-
rizado pelo fechamento político. As modificações introduzidas na orga- Tratava-se, pois, de uma ditadura reconhecida explicitamente pelos
nização educacional brasileira visavam, fundamentalmente, ajustar a edu- seus próprios agentes e por isso não apenas realizada, mas também pro-
cação à ruptura política operada em 1964, assestando, assim, um rude clamada como tal. Em contrapartida, o regime autoritário resultante do
golpe nas aspirações populares que implicavam a luta pela transformação golpe militar de 1964 constituiu uma ditadura envergonhada de si mesma,
da estrutura sócio-econômica do país. sentindo, em conseqüência, a necessidade de se autoproclamar democra-
Em oposição às referidas aspirações, os grupos vitoriosos em 1964, cia. Democracia exc1udente, podemos conceder.
em lugar do desejado desenvolvimento nacional, empenharam-se no pro- Resulta, portanto, perfeitamente compreensível a ausência da socie-
cesso de modernização acelerada segundo um modelo desnacionalizante. dade civil no processo de tramitação do projeto que resultou na Lei
Adotou-se, em conseqüência, no campo educacional, a diretriz segundo n." 5-.540/68. Contrastando com a mobilização ocorrida por ocasião da
a qual as decisões relativas à educação não competem aos educadores. discussão e aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
A estes caberia apenas executar de modo eficiente as medidas destinadas quando diferentes organismos da sociedade civil se manifestaram junto
a enquadrar a educação nos objetivos da modernização acelerada. Quanto ao Congresso Nacional pressionando-o na direção do atendimento de
às decisões sobre tais medidas, ficavam as mesmas circunscritas ao grupo seus interesses específicos, como registramos no Capítulo 11, no caso da
militar-tecnocrático que havia tomado de assalto o poder (cf. Saviani, Lei n," 5.540/68, o Diário do Congresso Nacional do período não regis-
1986:87-94). tra manifestação alguma dos órgãos da sociedade civil, quaisquer que
Eis como a Lei n," 5.540/68 cumpriu o seu papel de reformular o sejam eles. Tratava-se de um Congresso já amputado por várias cassações
ensino superior brasileiro definindo-se pela aplicação, nesse campo par- de mandatos parlamentares e constituído artificialmente a partir do
ticular, da estratégia do "autoritarismo desmobilizador" acionada em arbítrio do Poder Executivo para manter a máscara democrática do regi-
função da implantação da "democracia exc1udente". me, destinado, portanto, a legitimar formalmente as medidas de fato
ilegítimas do poder governamental.
Além das razões já apresentadas para a preferência pela expressão
"democracia excludente" para designar o regime político implantado no Assim, de um órgão que nas democracias está mais diretamente
Brasil na segunda metade da década de 60, queremos aduzir, antes de ligado à sociedade civil, o Parlamento foi transformado em apêndice da
concluir, o contraste entre a posição de Gustavo Capanema, ministro sociedade política, cuja função já não era mais a de legislar, mas, como
da Educação e Saúde do Estado Novo, sobre esse regime com o qual afirmara o líder da oposição, senador [osaphat Marinho, "apenas, dolo-
rosamente para o Congresso, homologar o arbítrio do Poder Executivo" I
ele se identificava, e a posição assumida pelos arautos do regime militar
pós-64 nos discursos já lembrados. Capanema definia sem rebuços o (DCN, 9-10-68:950). Era, portanto, um Congresso que, pelas próprias
!
regime do Estado Novo como ditadura, por ele defendida entusiastica- exclusões que o definiam, se constituía num espelho fiel do regime que
mente, como está documentado através do discurso, por nós já registrado o havia instituído: a "democracia exc1udente". Nessas condições, a
no início do Capítulo 11 deste trabalho, proferido por ele na sessão de ' oposição se devia limitar, como o fez no caso da Lei n.? 5.540/68, a
3-8-56 na Câmara dos Deputados. Nesse discurso, Capanema acusa Cle- chancela r, inclusive pelos seus tímidos protestos, a vontade do Executivo.
O mais leve deslize em relação ao papel que lhe fora reservado poderia

., ••• 98•••••••••••••••••• •••


Jl 99
1
significar o seu fechamento, como ocorreu no "episódio Márcio Moreira
Alves". Com efeito, nesse episódio, a banal recusa em permitir que, por
A~m~
[ Lein~ 5.540 - de 28 de novembro de 1968
mero capricho do governo militar, o deputado fosse processado, implicou
o fechamento do Congresso decretado através do Ato Institucional n," 5, ----
de 13 de dezembro de 1968. . Fixa normas de organização e funcio- § 3." - Vetado.
namento do ensino superior e sua artí- a) vetado;
Mas como justificar uma democracia sem Parlamento? Em conse- culaçâo com a escola média, e dá outl'as b) vetado;
qüência, aquilo que estava inscrito na própria natureza do regime, sendo- providências. c) vetado;
lhe, portanto, estrutural, foi interpretado pelo governo como um simples d) vetado.
O Presidente da República
acidente de percurso, de caráter conjuntural, provocado por agentes § 4.· - Vetado.
Faço saber que o Congresso Nacional
contumazes infiltrados no Parlamento com o desígnio de subverter a decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 4.° - As universidades e os esta-
democracia brasileira. E o Congresso foi reaberto não sem antes se pro- belecimentos de ensino superior isola-
cessarem novas e numerosas cassações. Dessa intervenção cirúrgica resul- CAPITULO I
dos constituir-se-ão, quando oficiais,
tou um Congresso ainda mais amputado e manietado, inteiramente dócil Do ensino superior em autarquias de regime especial ou
aos desejos do Poder Executivo. Consumava-se, assim, o caráter exclu- em fundações de direito público e,
Art. 1.0 - O ensino superior tem por quando particulares, sob a forma de
dente dessa exótica democracia brasileira. A "democracia excludente" objetivo a pesquisa, o desenvolvimen- fundações ou associações.
estava plenamente instalada e pronta para produzir os seus frutos mais to das ciências, letras e artes e a for-
mação de profissionais de nível univer- Parágrafo único - O regime especial
maduros nos mais diferentes setores da vida nacional. Seus reflexos no
sitário. previsto obedecerá às peculiaridades ín-
âmbito educacional serão objeto de exame no próximo capítulo. dicadas nesta lei, inclusive quanto ao
Art. 2.° - O ensino superior, indisso-
pessoal docente de nível superior, ao
ciável da pesquisa, será ministrado em
qual não se aplica o disposto no art.
universidades e, excepcionalmente, em
35, do Decreto-lei n.· 81, de 21 de de-
estabelecimentos isolados, organizados
zembro de 1966.
como instituições de direito público ou
privado. Art. 5.· - A organização e o funcio-
Art. 3.° - As universidades gozarão namento das universidades serão discí-
de autonomia didático-científica, disci- plinados em estatutos e em regimentos
plinar, administrativa e financeira, que das universidades que as constituem,
será exercida na forma da lei e dos os quais serão submetidos à aprovação
seus estatutos. do Conselho de Educação competente.
§ 1: - Vetado. Parágrafo único - A aprovação . dos
regimentos das unidades universitárias
a) vetado;
• b) vetado;
c) vetado;
passará à competência da universidade
Quando esta dispuser de Regimento Ge-
d) vetado; ral aprovado na forma deste artigo.
e) vetado; Art. 6.° - A organização e o funcio-
f) vetado; namento dos estabelecimentos isolados
g) vetado. de ensino superior serão disciplinados
§ 2.° - Vetado. em regimentos, cuja aprovação deverá
a) vetado; ser submetida ao Conselho de Educa-
b) vetado; ção competente.
c) vetado; Art. 7.° - As universidades organí-
d) vetado; zar-se-ão diretamente ou mediante a
e) vetado; reunião de estabelecimentos já reconhe-
f) vetado. cidos, sendo, no primeiro caso, sujei-

100 101

i.
tos a autorização e reconhecimento e, cimentos humanos, estudados em si de professores classificados em deter- IV - O Diretor da unidade universitá-
no segundo, apenas a reconhecimento. mesmos ou em razão de ulteriores apli- minado nível. ria ou estabeleoimento isolado, quando
Art. 8.° - Os estabelecimentos isola- cações ou de uma área ou mais áreas Parágrafo único - Nos órgãos a que se oficial, será escolhido conforme estabe-
dos de ensino superior deverão, sem- técnico-profissionais; refere este artigo haverá obrigatoria- lecido pelo respectivo sistema de ensino,
pre que possível, incorporar-se a uni- mente representantes da comunidade, salvo nos casos previstos no § 1.° deste
f) flexibilidade de métodos e critérios,
versidades ou congregar-se com estabe- incluindo as classes produtoras. artigo.
com vistas às diferenças individuais dos
lecimentos isolados da mesma localida- alunos, às peculiaridades regionais e às Art. 15 - Em cada universidade sob § 1.0 - Os Reitores. Vice-Reitores, Di-
de ou de localidades próximas, cons- possibilidades de combinações dos co- forma de autarquia especial ou estabe- retores e Vice-Diretores das institui-
tituindo, neste último caso, federação nhecimentos para novos cursos e pro- lecimento isolado de ensino superior, ções de ensino superior mantidas pela
de escolas, regi das por uma adminis- gramas de pesquisa; mantido pela União, haverá um Con- União, salvo o disposto no § 3.° deste
tração superior e com regimento unifi- g) vetado. selho de Curadores, ao qual caberá a artigo, serão indicados em listas de seis
cado que lhes permita adotar critérios fiscalização econômico-financeira. nomes pelos respectivos colegiados e
Art. 12 - Vetado.
comuns de organização e funciona- nomeados pelo Presidente da República.
§ 1.0 - Vetado. Parágrafo único - Farão parte do Con-
mento.
selho de Curadores, na proporção de § 2.° - Serão de quatro anos o manda-
Parágrafo único - Os programas de § 2.° - Vetado.
um terço deste, elementos estranhos ao to dos Reitores, Vice-Reitores, Diretores
financiamento do ensino superior con- § 3.° - O Departamento será a me- corpo docente e ao discente da univer- e Vice-Díretores, vedado o exercício de
siderarão o disposto neste artigo. nor fração da estrutura universitária sidade ou estabelecimento isolado, entre dois mandatos consecutivos.
Art. 9.° - Vetado. para todos os efeitos de organização os quais representantes da indústria, de-
§ 3.° - Vetado.
Art. 10 - O Ministério da Educação e administrativa, didático-científica e de vendo o respectivo estatuto ou regimen-
Cultura, mediante proposta do Conse- distribuição de pessoal, e compreende- to dispor sobre sua escolha, mandato e § 4.° - Ao Reitor e ao Diretor caberá
lho Federal de Educação, fixará os dis- rá disciplinas afins. atribuições na esfera da sua compe- zelar pela manutenção da ordem e dis-
tritos geoeducacionais 'para agIu tina- tência. ciplina no âmbito de suas atribuições,
Art. 13 - Na administração superior
ção, em universidades ou federação de respondendo por abuso ou omissão.
da universidade haverá órgãos cen- Art. 16 - A nomeação de Reitores e
escolas, dos estabelecimentos isolados trais de supervisão de ensino e de pes- .5. Více-Reitores de universidades e Direto- Art. 17 - Nas universidades e nos
de ensino superior existentes no país. quisa, com atribuições deliberativas, res e Vice-Diretores de unidades univer- estabelecimentos isolados de ensino su-
Parágrafo único - Para efeito do dis- dos quais devem participar docentes sitárias ou estabelecimentos isolados Iar- perior poderão ser ministradas as se-
posto neste artigo, será livre a asso- dos vários setores básicos e de forma- se-á com observância dos seguintes prin- guintes modalidades de cursos:
ciação de instituições oficiais ou par- ção profissional. cípios: a) de graduação, abertos à matrícula de
ticulares de ensino superior na mesma candidatos que hajam concluído o ciclo
entidade de nível universitário ou fe- § 1.° - A universidade poderá, tam- I - O Reitor e o Vice-Reitor da univer-
colegial ou equivalente e tenham sido
deração. bém, criar órgãos setoriais, com fun- sidade oficial serão nomeados pelo res-
classificados em concurso vestibular;
ções delíberativas e executivas, destina- pectivo Governo e escolhidos de listas
Art. 11 - As universidades organizar- b) de pós-graduação, abertos à matrícu-
dos a coordenar unidades afins para de nomes indicados pelo Conselho Uni-
se-ão com as seguintes características: la de candidatos diplomados em cursos
integração de suas atividades. versitário ou colegiado equivalente.
a) unidade do patrimônio e adminis- de graduação que preencham as condi-
tração: § 2.° - A coordenação didática de 11 - Quando, na administração supe-
ções prescritas em cada caso;
cada curso ficará a cargo de um cole- rior universitária, houver órgão delibe-
b) estrutura orgânica com base e1n de- rativo para as atividades de ensino e c) de especialização e aperfeiçoamento,
giado, constituído de representantes
partamentos reunidos ou não em uni- pesquisa, principalmente se constituído abertos à matrícula de candidatos diplo-
das unidades que participem do res-
dades .mais amplas; pectivo ensino. de elementos escolhidos pelos Departa- mados em cursos de graduação ou que
c) unidades de funções de ensino e mentos, a lista a que se refere o item apresentem títulos equivalentes;
Art. 14 - Na forma do respectivo es-
pesquisa, vedada a duplicação de anterior será organizada em reunião d) de extensão e outros, abertos a can-
tatuto ou regimento, o colegiado a que
meios para fins idênticos ou equiva- conjunta desse órgão e do Conselho didatos que satisfaçam os requisitos
esteja afeta a administração superior
lentes; Universitário ou colegiado equivalente. exigidos.
da universidade ou estabelecimento
d) racionalidade de organização, com isolado incluirá seus membros, com di- III - O Reitor e o Diretor da Univer- Art. 18 - Além dos cursos correspon-
plena utilização dos recursos materiais reito a voz e voto, representantes ori- sidade, unidade universitária ou estabe- dentes a profissões reguladas em lei, as
e humanos; ginários de atividades, categorias ou lecimentos isolados, de caráter par- universidades e os estabelecimentos iso-
e) universidades de campo, pelo culti- órgãos distintos de modo que não sub- ticular, serão escolhidos na forma dos lados poderão organizar outros para
vo das áreas fundamentais dos conhe- sista. necessariamente, a preponderância respectivos estatutos e regimentos. atender às exigências de sua programa-

102 103

_______________________
l _
ção específica e fazer face a peculiarí- Art. 24 - O Conselho Federal de Edu- do, serão registrados nessa Universi- independentes da vontade do corpo dis-
dades de mercado de trabalho regional. cação conceituará os cursos de pós-gra- cente.
dade.
Art. 19 - Vetado. duação e baixará normas gerais para Art. 30 - A formação de professores
Art. 28 - Vetado.
Art. 20 - As universidades e os esta. sua organização, dependendo sua vali- para o ensino de segundo grau, de di •.
dade, no território nacional, de os estu- § 1.0 - Vetado.
belecimentos isolados de ensino supe- ciplinas gerais ou técnicas. bem como o
rior estenderão à comunidade, sob for. dos neles realizados terem os cursos § 2.° - Entre os períodos letivos regu- preparo de especialistas destinados aO
ma de cursos e serviços especiais, as respectivos, credenciados por aquele lares, conforme disponham os estatutos trabalho de planejamento. supervisão,
atividades de ensino e os resultados de órgão. e regimentos, serão executados progra- administração, inspeção e orientação no
pesquisa que lhes serão inerentes. Parágrafo único - Vetado. mas de ensino e pesquisa que assegu- âmbito de escolas e sistemas escolares,
rem o funcionamento contínuo das ins- far-se-ã em nível superior.
Art. 21 - O concurso vestibirlar refe- Art. 25 - Os cursos de especialização.
tituições de ensino superior. § 1.° - A formação dos professores C
rido na letra "a" do art. 17, abr~ngerã aperfeiçoamento, extensão e outros se-
os conhecimentos comuns às diversas rão ministrados de acordo com os planos Art. 29 - Será obrigatória, no ensino especialistas, previstos neste artigo, rea-
formas de educação do segundo grau traçados e aprovados pelas universida- superior, a freqüência de professores e lizar-se-á nas universidades mediante a
sem ultrapassar este nível de complexi- des e pelos estabelecimentos isolados. alunos, bem como a execução integral cooperação das unidades responsáveis
dade para avaliar a formação recebida dos programas de ensino. pelos estudos incluídos nos currículos
Art. 26 - O Conselho Federal de Edu-
pelos candidatos e sua aptidão intelec- dos cursos respectivos.
cação fixará o currículo mínimo e a § 1.0 - Na forma dos estatutos e regi-
tual para estudos superiores. § 2.° - A formação a que se refere este
duração mínima dos cursos superiores mentos será passível de sanção discipli-
Parágrafo único - Dentro do prazo de correspondentes a profissões reguladas nar o professor que, sem motivo aceito artigo poderá concentrar-se em um sÓ
três anos, a contar da vigência desta em lei e de outros necessários ao desen- como justo pelo órgão competente, dei- estabelecimento isolado ou resultar da
lei,o concurso vestibular será idêntico volvimento nacional. xar de cumprir programa a seu cargo cooperação de vários, devendo. na ~Il'
em seu conteúdo para todos os cursos ou horário de trabalho a que esteja gunda hipótese, obedecer à coordenação
Art. 27 - Os diplomas expedidos por que assegure a unidade dos estudos na
ou áreas de conhecimentos afins e uni. obrigado. importando a reincidência nas
universidade federal ou estadual nas forma regimental.
ficado em sua execução na mesma uni- faltas previstas neste artigo em motivo
condições do art. 15 da Lei n," 4.024,
versidade ou federação de escolas ou bastante para exoneração ou dispensa,
de 20 de dezembro de 1961, correspon-
no mesmo estabelecimento isolado de caracterizando-se o caso COJIlO de aban- CAPITULO 11
dentes a cursos reconhecidos 'pelo Con-
organização pluricurricular, de acordo dono do cargo ou emprego.
selho Federal de Educação, bem como Do corpo docente
com os estatutos e regimentos.
os dos cursos credenciados de pós-gra- § 2: - A aplísação do disposto no pa-
Art. 22 - Vetado. duação serão registrados na própria uni- rágrafo anterior far-se-â mediante repre- Art. 31 - O regime do magistério su-
a) vetado. versidade, importando em capacitação sentação da instituição ou de qualquer perior será regulado pela legislação
b) vetado. para o exercício profissional, na área interessado. própria dos sistemas de ensino e pelos
c) vetado. abrangi da pelo respectivo currículo, Com estatutos ou regimentos das universida-
§ 3: - Se a representação for consi-
validade em todo o território nacional. des e dos estabelecimentos isolados.
Art. 23 - Os cursos profissionais po- derada objeto de deliberação, o profes-
derão, segundo a área abrangida, apre- § 1.0 - O Ministério da Educação e
sor ficará desde logo afastado de suas Art. 32 - Entendem-se como ativida-
sentar modalidades diferentes quanto Cultura designará as universidades fe-
[unções. na forma do estatuto ou regi- des de magistério superior, para efeitos
ao número e.~ duração, a fim d~ cor- derais que deverão proceder ao registro
mento. desta Lei:
responder às condições do mercado de de diplomas correspondentes aos cursos
trabalho. referidos neste artigo. expedidos por § 4: - Considerar-se-à reprovado o a) as que, pertinentes ao sistema indis-
Universidades particulares ou por esta- aluno que deixar de comparecer a um sociável de ensino e pesquisa, se exer-
§ 1.° - Serão organizados cursos pro- mínimo. previsto em estatuto ou regi- çam nas universidades e nos estabeleci-
belecimentos isolados de ensino supe-
fissionais de curta duração, destinados a mento, das atividades programadas para mentos isolados, em nível de graduação,
rior, importando o registro em idênticos
proporcionar habilitações intermediárias direitos. cada disciplina. ou mais elevado, para fins de transmis-
de grau superior. são e ampliação de saber;
§ 2.° - Nas unidades da Federação em § 5: - O ano letivo poderá ser pror-
§ 2.° - Os estatutos e regimentos dis- que haja universidade estadual, nas con- rogado por motivo de calamidade públi- b) as inerentes à administração escolar
ciplinarão o aproveitamento dos estu- dições referidas neste artigo, os diplo- e universitária exercida por professores.
ca. guerra externa. convulsão interna e,
dos dos ciclos básicos e profissionais, mas correspondentes aos mesmos cursos, I § I: - Haverá apenas uma carreira
a critério dos órgãos competentes da
inclusive os de curta duração, entre si expedidos por estabelecimentos isolados docente. obedecendo ao princípio da in-
Universidade e estabelecimentos isola-
e em outros cursos. do ensino superior mantidos pelo Esta- tegração de ensino e pesquisa.
dos. por outras causas excepcionais,
104 I
I 105

•••••••••••••••••••••••••••••••••••••••• __ •• db•••••• ••••••••••••••••••••••••••••••••••


§ 2.° - Serão considerados, em caráter pacidade apurados segundo as normas § 3: - O diretório cuja ação não esti- União, as atividades técnicas poderão
preferencial 'para o ingresso e a promo- 'próprias de ensino; ver em consonância com os objetivos ser atendidas mediante a contratação de
ção na carreira docente do magistério para os quais foi instituído será passível pessoal na forma da legislação do traba-
~I - a aposentadoria compulsória, por
superior, os títulos universitários e o das sanções previstas nos estatutos ou lho, de acordo com as normas a serem
implemento de idade, extingue a rela-
teor científico dos trabalhos dos candi- regimentos. estabelecidas nos estatutos e regimentos.
datos. ção do emprego, independente de inde-
nização, cabendo à instituição comple- § 4: - Os diretórios são obrigados a Art. 43 - Os vencimentos dos servi-
Art. 33 - Os cargos e funções do ma- mentar os proventos da aposentadoria prestar contas de sua gestão financeira dores públicos federais de nível univer-
gistério, mesmo os já criados ou provi- concedida pela instituição da Previdên- aos órgãos da administração universitá- sitário são desvinculados do critério de
dos, serão desvinculados de campos cia Social se estes não forem integrais. ria ou escolar, na forma dos estatutos duração dos cursos.
específicos de conhecimentos. e regimentos. Art. 44 - Vetado.
§ 1.0 - Vetado. Art. 40 - As instituições de ensino
CAPíTULO III Art. 45 - Vetado.
§ 2.° - Nos departamentos, poderá superior:
Do corpo discente Art. 46 - O Conselho Federal de Edu-
haver mais de um professor em cada a) por meio de suas atividades de ex- cação interpretará, na jurisdição admi-
nível de carreira. tensão, proporcionarão aos corpos dis-
Art. 38 - O corpo discente terá repre- nistrativa, as disposições desta e das de-
§ 3.° - Fica extinta a cátedra ou ca- centes oportunidades de participação mais leis que fixem diretrizes e bases
sentação, com direito a voz e voto, nos
deira na organização do ensino superior em programas de melhoria das condi- da educação nacional. ressalvada a com-
órgãos colegiados das universidades e
do País. ções de vida da comunidade e no pro- petência dos sitemas estaduais de ensi-
dos estabelecimentos isolados de ensino
cesso geral do desenvolvimento; no, definida na Lei n," 4.024, de 20 de
Art. 34 - As universidades deverão, superior, bem como em comissões insti-
progressivamente e na medida do seu tuídas na forma dos estatutos e regi- b) assegurarão ao corpo discente meios dezembro de 1961.
interesse ou de suas possibilidades, mentos. para a realização dos 'programas cultu- Art. 47 - A autorização ou o reconhe-
estender a seus docentes o Regime de rais, artísticos, cívicos e desportivos; cimento de universidade ou estabeleci-
§ 1.° - A representação estudantil terá
Dedicação exclusiva às atividades da por objetivo a cooperação entre admi- c) estimularão as atividades de educa- mento isolado de ensino superior será
universidade. nistradores, professores e alunos, no tra- ção cívica e de desportos, mantendo, tornado efetivo, em qualquer caso, por
balho universitário. para o cumprimento desta norma, orien- decreto do Poder Executivo após prévio
Art. 35 - O regime a que se refere o
§ 2.° - A escolha dos representantes tação adequada e instalações especiais; parecer favorável do Conselho Federal
artigo anterior será prioritariamente
estendido às áreas de maior importância estudantis será feita por meio de elei- d) estimularão as atividades que visem de Educação, observado o disposto no
ções do corpo discente e segundo crité- à formação cívica, considerada indispen- art. 44 desta Lei.
para a formação básica e profissional.
rios que incluam o aproveitamento esco- sável à criação de uma consciência de Art. 48 - O Conselho Federal de Edu-
Art. 36 - Os programas de aperfei- cação, após inquérito administrativo, po-
lar dos candidatos, de acordo com os direitos e deveres do cidadão e do pro-
çoamento de pessoal docente deverão estatutos e regimentos. derá suspender o funcionamento de
fissional.
ser estabelecidos pelas universidades, qualquer estabelecimento isolado de
dentro de uma política nacional e regio- § 3: - A representação estudantil não Art. 41 - As universidades deverão
poderá exceder de um quinto do total ensino superior ou a autonomia de qual-
nal definida pelo Conselho Federal de criar as funções de monitor para alunos
dos membros dos colegiados e comis- quer universidade, por motivo de infrin-
Educação e promovida através da do curso de graduação que se subme-
sões. gência da legislação de ensino ou de
CAPES e do Conselho Nacional de terem a provas específicas, nas quais
Art. 39 - Em cada universidade ou preceito estatutário ou regimental, de-
Pesquisas. • demonstrem capacidade de desempenho
signando-se Diretor ou Reitor pró-tem-
estabelecimento isolado de ensino supe- em atividades técnico-didáticas de de-
Art. 37 - Ao pessoal do magistério rior poderá ser organizado diretório pore.
terminada disciplina.
superior, admitido mediante contrato de para congregar os membros do respecti- Art. 49 - As universidades e os esta-
trabalho, aplica-se exclusivamente a le- Parágrafo único - As funções de mo-
vo corpo discente. belecimentos isolados reconhecidos fi-
nitor deverão ser remuneradas e consi-
gislação trabalhista, observadas as se- cam sujeitos à verificação periódica pelo
§ I: - Além do diretório do âmbito deradas título 'para posterior ingresso
guintes regras especiais: Conselho de Educação competente, ob-
universitário poderão formar-se diretó- em carreira de magistério superior.
I - a aquisição de estabilidade é con- rios setoriais de acordo com a estrutura servado o disposto no artigo anterior.
dicionada à natureza efetiva da admis- interna de cada universidade. CAPíTULO IV Art. 50 - Das decisões adotadas pelas
são, não ocorrendo nos anos de interi- § 2: - Os regimentos elaborados pe- Disposições gerais instituições de ensino superior, após
nidade ou substituição, ou quando a los diretórios serão submetidos à apro- esgotadas as respectivas instâncias, ca-
permanência no emprego depender da vação da instância universitária ou esco- Art. 42 - Nas universidades e nos berá recurso, por estrita argüição de
satisfação de requisitos especiais de ca- lar competente. estabelecimentos isolados, mantidos pela ilegalidade:

106 107

~)
•••••••••••••••••••••••••• ••db•• •••••••••••••••••
r
I
I
a). para os Conselhos Estaduais de Edu-
cação, quando se tratar de estabeleci-
mentos isolados mantidos pelo respecti-
vo Estado ou universidades incluídas na
ma localidade
ximas.
ou em localidades

Parágrafo único - Verificada, dentro


pró-
dendo aos preceitos
(vetado ).
legais vigentes;

d) firmar contratos, acordos e convê-


§ 1.0 - As unidades dividir-se-ão em
subunidades denominadas Departamen-
tos, que elaborarão seus planos de tra-
hipótese do art. 15 da Lei n.? 4.024, de d~ doze meses a partir da data de pu- nios; (vetado). balho, atribuindo encargos de ensino e
20 de dezembro de 1961; bhcação desta Lei, a juízo do Conselho
e) aprovar e executar planos, progra- pesquisa aos seus docentes, segundo as
Federal de Educação, a impossibilidade especializações. (vetado).
b) para o Conselho Federal de Educa- do disposto neste artigo, as universida- mas e projetos de investimentos referen-
ção, nos demais casos. tes a obras, serviços e aquisições em § 2.0 - Quando abranjam mais de uma
des rurais serão incorporadas às federais
Art. 5 I - O Conselho Federal de Edu- existentes na mesma região. geral; (vetado). área de conhecimentos, as unidades uni-
cação fixará as condições para revalida- f) admitir e demitir quaisquer funcio- versitárias poderão dividir-se em su-
Art. 53 - Vetado.
ção de diplomas expedidos por estabele- nários, dispor sobre regime de trabalho bunidades e estas em departamentos
CImentos de ensino superior estrangeiros Art. 54 - Vetado. e remuneração dentro de suas dotações tendo em vista descentralizar e facilitar
tendo em vista o registro da repartição Art. 55 - Vetado. orçamentárias e outros recursos finan- a atividade didática e administrativa.
competente e o exercício profissional Art. 56 - Vetado. ceiros; (vetado). (vetado).
no País. Art. 57 - Vetado. § 3.° - A autonomia financeira con- M. 16, § 3.° - Nas universidades man-
siste na faculdade de: lidas por fundações instituídas pelo Po-
Art. 58 - Ficam revogadas as disposi-
CAPITULO V der Público, a nomeação dos respectivos
ções em contrário. a) administrar os rendimentos próprios
e o seu patrimônio e dele dispor, na Reitores e Vice-Reitores, bem como
Disposições transitórias Art. 59 - A presente Lei entra em vi-
forma prevista no ato de constituição, dos Diretores e Vice-Diretores das uni-
gor na data de sua publicação. dades universitárias, se fará na forma
A~t. 52 - As atuais universidades ru- nas leis e nos estatutos respectivos; (ve-
Brasília, 28 de novembro de 1968; 147.0 que estabelecerem seus estatutos.
rais, mantidas pela União, deverão reor- tado).
da Independência e 80.° da República. Art. 19 - As universidades poderão
g~lzar-se de acordo com o disposto no b) receber subvenções, doações, heran-
instituir colégios universitários destina-
artrgo I I desta Lei, podendo, se neces- A. COSTA E SILVA ças, legados e cooperação financeira
resultante de convênios com entidades dos a ministrar o ensino da terceira
sar~o e conveniente, incorporar estabe- TARSO OUTRA
série do ciclo colegial, assim como co-
lecirnentos de ensino e pesquisa também públicas ou privadas; (vetado).
(0.0., n.o 231, de 29 de novembro de légios técnicos universitários, quando
mantidos pela União, existentes na rnes- 1968.) c) realizar operações de crédito ou de nelas existir curso superior em que se-
financiamento, com aprovação do Poder jam desenvolvidos os mesmos estudos.
competente, para aquisição de bens imó-
TEO~ nos I>ISl'osrnvos I>AI.EI S.S..If)/tiP; Art. 22 - Nas Universidades e estabe-
veis, instalações e equipamentos; (ve-
tado). lecimentos isolados com diferentes cur-
\ETADOS I'EI.O I'REsmENTE DA REI'Ün.H ''\:
sos, precedendo os ciclos de estudos
d) organizar e executar o orçamento básicos e profissionais, haverá um ciclo
CAPITULO I, ARTIGO 3.0
e) fixar os critérios para admissão se- total de sua receita e despesa, devendo inicial de duração não superior a seis
leção, promoção e habilitação de 'alu- os responsáveis pela aplicação dos re- meses, com os seguintes objetivos:
§ 1.0 - A autonomia didático-cien- nos; (vetado). cursos prestar contas anuais; (vetado).
tífica e disciplinar consiste na facul- a) correção de insuficiências eviden-
dade de: f) confe~r .graus, diplomas, títulos e § 4.° - Os estatutos das universidades ciadas pelo concurso vestibular na for-
outras dlgmdades universitárias; (ve- poderão prever outras atribuições, além
a). criar, organizar e modificar e extin- mação dos alunos;
tado) . das constantes do presente artigo.
guir cursos, atendendo à legislação vi- b) orientação para escolha de carreira;
g) elaborar o próprio código disciplinar Art. 9.0 - Não poderão ser incluídas
gente. e. às exigências do meio focial, em plano de contenção ou economia, c) ampliação de conhecimentos básicos
economrco e cultural; (vetado). para o corpo docente, o discente e o para estudos posteriores.
técnico-administrativo. (vetado). nem colocadas em fundos de reserva,
b) fixar os currículos de seus cursos mesmo para pagamentos como restos a Art. 24, § único - O Conselho Federal
observadas as bases mínimas estabeleci- § 2.° - A autonomia administrativa pagar, as dotações orçamentárias que de Educação deverá pronunciar-se den-
das pelo Conselho Federal de Educa- consiste na faculdade de: vieram a ser consignadas ao Ministério tro de doze meses sobre os conceitos e
ção; (vetado). a) elaborar a reforma, submetendo à da Educação e Cultura. normas gerais dos cursos que requerem
c) estabelecer planos e projetos de in- aprovação do Conselho de Educação Art. 11 - g) Fidelidade à natureza da sua apreciação, os quais, findo esse pra-
vestrgação científica em qualquer área competente, os próprios estatutos e os universidade como obra de cultura, zo, se considerarão credenciados.
de sua competência; (vetado). regimentos de suas unidades; (vetado). instrumento de transmissão do saber e Art. 28 - No ensino superior, o ano
d) estabelecer o calendário escolar e re- b) indicar o Reitor, o Vice- Reitor e fator de transformação social. letivo, escolar, independente do ano ci-
gimes de trabalho didático e científico outros eleme~tos da direção, segundo as Art. 12 - As universidades serão cons- vil, abrangerá, no mínimo, duzentos e
~e ~ua~ diferentes unidades, sem outras normas previstas nesta Lei; (vetado). tituídas por unidades universitárias, de- dez dias de trabalho escolar efetivo.
limitações a não ser as previstas em finidas como órgão simultaneamente § 1.0 - As provas e exames destina-
c) contratar professores e auxiliares de
lei; (vetado). de ensino e pesquisa no seu campo de dos a aferir o aproveitamento escolar,
ensino ou promover sua nomeação aten-
conhecimento. que podem ser realizados conjuntarnen-
108
109

.-------- s _
te com aulas, não deverão ocupar tempo sido observado o disposto no artigo 72 ra funcionamento de universidade insti- Art. 7.° - No ensino superior, o ano
superior a 1/7 do ano letivo. da Lei n.? 4.024, de 20 de dezembro de tuída diretamente ou estabelecimento letivo regular, independente do ano civil,
1961, o ano letivo poderá ser prorroga- isolado de ensino superior quando, sa- abrangerá, no mínimo, cento e oitenta
CAPITULO 11 do, a juizo dos órgãos competentes, até tisfeitos embora os mínimos requisitos dias de trabalho escolar efetivo, não in-
* 1.0 - O número de cargos efetivos o cumprimento da exigência nele esta-
belecida.
prefixados à sua criação, não corres-
ponda à exigência do mercado de tra-
cluindo o tempo reservado a exames.
Art. 8.° - O Conselho Federal de Edu-
com funções de magistério, em cada
unidade universitária poderá variar en- balho, em confronto com as necessida- cação, ao baixar as normas previstas
Art. 54 - Aos filhos dos ex-cornbaten-
tre um mínimo e um máximo, dentro des do desenvolvimento nacional ou no artigo 24 da Lei n.? 5.540, de 28 de
tes da Força Expedicionária Brasileira,
do quadro total fixado e aprovado para regional. novembro de 1968, poderá admitir que,
da Força Aérea Brasileira, da Marinha
toda a Universidade. de Guerra e Marinha Mercante do § 1.° - Não se aplica a disposição excepcionalmente, .instituições creden-
Art. 44 - A letra a e o * 2.° do arti- Brasil, que hajam participado efetiva- deste artigo nos casos em que a InICIa-
tiva apresente um alto padrão, capaz de
ciadas expeçam títulos de doutor, direta-
mente por defesa de tese, a candidatos
go 9.° e os artigos 14 e 15 da Lei mente de operações bélicas na Segunda
n.? 4.024, de 20 de dezembro de 1961 Guerra Mundial, quando aprovados em contribuir, efetivamente, para o aperfei- de alta qualificação científica, cultural
passam a ter a seguinte redação. concurso vestibular para ingresso nas çoamento do Ensino e da Pesquisa nos ou profissional, apurada mediante exa-
"Art, 9.° - . universidades e estabelecimentos de en- setores abrangidos. me dos seus títulos e trabalhos.
a) decidir sobre o funcionamento dos sino superior mantidos pela União, é
assegurado número suficiente de vagas.
* 2.° - O reconhecimento das univer- Art. 9.° - O registro de diplomas em
universidades oficiais far-se-á por de-
estabelecimentos de ensino superior, fe- sidades e dos estabelecimentos isolados
derais, municipais e particulares. Art. 55 - Aos graduados por estabe- de ensino superior deverá ser renovado legação do Ministério da Educação e
§ 2.° - A autorização e fiscalização lecimentos de ensino superior, devida- periodicamente, de acordo com as nor- Cultura, na forma do que dispõe o
dos estabelecimentos isolados de ensino mente registrados, que, na data da mas fixadas pelo Conselho Federal de art. 102 da Lei n.? 4.024, de 20 de
superior, mantidos pelos Estados, cabe- publicação desta Lei estiverem lecio- Educação. dezembro de 1961.
rão aos Conselhos Estaduais de Edu- nando no mínimo dois anos em cursos Art. 3.° - A faculdade prevista no Parágrafo único - Os diplomas corres-
cação. de pós-graduação que atendem ao dis- parágrafo único do art. 10 da Lei pondentes a cursos criados de confor-
posto no artigo n.? 24 desta Lei, será n.? 5.540, de 28 de novembro de 1968, midade com o art. 18 da Lei n.? 5.540,
Art. 14 - É da competência da União
conferido diploma de pós-graduação, deverá ser exercida, quando se tratar de 28 de novembro de 1968, estarão
reconhecer e inspecionar os estabeleci-
segundo instruções a serem baixadas de universidade com observância do sujeitos a registro e terão validade nos
mentos municipais e particulares de en-
pelo Conselho Federal de Educação. disposto no artigo 11 da mesma lei. termos do art. 27 da mesma Lei.
sino superior.
Art. 56 - Os cargos de professor ca-
Art. 15 - Aos Estados que, durante Art. 4.° - O Ministro da Educação e Art. 10 - Os cargos de professor cate-
tedrático transformam-se, para todos
5 anos, mantiverem universidade própria Cultura atuará junto às instituições de drático transformam-se, para todos os
os efeitos, nos que correspondem ao
com funcionamento regular, serão con- ensino superior, visando à realização, efeitos, inclusive denominação, nos que
nível final de carreira docente, ressalva-
feridas as atribuições estabelecidas na mediante convênio, de concursos vesti- correspondam ao nível final da carreira
dos os direitos dos atuais ocupantes
letra b do artigo 9.°, quer quanto à sua bulares unificados em âmbito regional. docente, em cada sistema de ensino.
desses cargos em caráter efetivo.
Universidade, quer quanto aos estabele- Art. 5.° - Nas instituições de ensino Art. 11 - Aos membros do magistério
cimentos isolados, por eles mantidos". Art. 57 - Dentro do prazo de cento
e vinte dias, a contar da data da publi- superior que mantenham diversas mo- superior, admitidos no regime da legis-
Art. 45 - Os membros do Conselho dalidades da habilitação, os estudos pro- lação trabalhista, a Justiça do Trabalho
Federal de Educação serão nomeados cação desta Lei, cada universidade fe-
deral submeterá à aprovação do Con- fissionais de graduação serão precedidos aplicará também as normas constantes
mediante prévia aprovação do Senado de um primeiro ciclo, comum a todos das leis do ensino e dos estatutos e re-
Federal. selho Federal de Educação o seu Esta-
os cursos ou a grupo de cursos afins, gimentos universitários e escolares.
CAPITULO V • tuto adaptado às disposições da presente
Lei, estabelecendo, se necessário, nor-
mas de transição que precedam à plena
c<;>mas seguintes funções: .
a) recuperação de insuficiências eviden-
Art. 12 - Nas universidades e nos es-
tabelecimentos isolados de ensino supe-
Art. 53 - Nos estabelecimentos em que vigência do seu novo regime de orga- ciadas, pelo concurso vestibular, na for- rior, o regime disciplinar de professores
em 31 de dezembro de 1968, não tiver nização e funcionamento. mação de alunos; e alunos, regulado pelas normas cons-
b) orientação para a escolha de carreira; tantes dos estatutos e regimentos, será
c) realização de estudos básicos para da competência dos reitores e diretores,
DHIU.TU-I.EI :\~ -tll.,l, DE 11 DE FEVEREIRO DE I'JII'I ciclos ulteriores.
na jurisdição das respectivas instituições.
Art. 6.° - Nas instituições oficiais de
Estabelece normas complementares à ensino superior, será recusada nova ma- Art. 13 - A disposição constante do
de 13 de dezembro de 1958, decreta:
Lei n.? 5.540, de 28 de novembro de Art. \.0 - A Lei n.? 5.540, de 28 de trícula ao aluno reprovado em discipli- artigo 16 § 2.°, da Lei n.? 5.540, de 28
1968, e dá outras providências. novembro de 1968, será executada com nas que ultrapassem, quanto às horas de novembro de 1968, aplica-se aos rei-
O Presidente da República, usando da as disposições complementares estabe- prescritas de trabalho escolar, um quin- tores que se encontrarem no exercício
atribuição que lhe confere o § \.0 do lecidas no presente Decreto-lei. to (115) do primeiro ciclo ou um déci- de seus mandatos na data de publicação
art. 2.° do Ato Institucional n.? 5, Art. 2.° - Sr rá negada autorização pa- mo (1/10) do curso completo. da mesma lei.

110 111
Art, 14 - Dependem de homologação pelo Conselho Federal de Educação em exercicio na data da publicação da Parágrafo único - O prazo para adap-
do Ministério da Educação e Cultura os e promovida por meio de uma Co- Lei n.? 5.540, de 28 de novembro de tação dos regimentos das unidades uni-
pronunciamentos do Conselho Federal missão Executiva em cuja composi- 1.968, sem preencher os respectivos mí- versitárias, quando não houver regimen-
de Educação previstos na Lei n.? 5.540, ção deverão incluir-se representantes nimos para o exercício de magistério em to geral, será de noventa (90) dias a
de 28 de novembro de 1968, e neste do Conselho Nacional de Pesquisa, nível superior, deverão regularizar a sua contar da aprovação dos respectivos
Decreto-lei. da Coordenação do Aperfeiçoamen- situação no prazo de cinco anos. estatutos.
§ 1.° - O Ministro da Educação e Cul- to de Pessoal de Nível Superior, do Art. 17 - A fiscalização dos estabele- Art. 19 - Ficam revogados os artigos
tura poderá devolver, para reexame, Conselho Federal de, Educação, do cimentos isolados de ensino superior, de n.o. 66 a 87, 117 e 118 da Lei n.?
qualquer parecer ou decisão do Conse- Ministério do Planejamento e Coor- mantidos pelos Estados e Municípios, 4.024, de 20 de dezembro de 1961, bem
lho Federal de Educação, que deva ser denação Geral, do Fundo de De- caberá aos sistemas estaduais de ensino. como as disposições em contrário ao
por ele homologado. senvolvimento Técnico Científico, presente Decreto-lei.
do Fundo Nacional de Desenvolvi- Art. 18 - Dentro do prazo de noventa
11 2.° - Na hipótese do artigo 48 da Lei (90) dias, a contar da vigência deste Art. 20 - Este Decreto-Iei entrará em
mento da Educação e das Univer-
ri,o 5,540, de 28 de novembro de 1968,
sidades. Decreto-lei, as universidades e os esta- vigor na data de sua publicação.
a-homologação do parecer do Conselho, belecimentos isolados de ensino superior Brasília, 11 de fevereiro de 1969; 147.°
em que propuser a suspensão da auto- Art, 40 submeterão aos Conselhos de Educação da Independência e 81.° da República.
nomia de universidade ou de funciona- competentes os seus estatutos e regi-
c) estimularão as atividades de edu-
mente de estabelecimento isolado de mentos, adaptados às prescrições da Lei (a) A. COSTA E SILVA
cação física e dos desportos, man-
eneino. superior, será seguida da desig- n.? 5.540, de 28 de novembro de 1968 TARSO DUTRA
tendo, para cumprimento desta nor-
riação. de Reitor ou Diretor pro tempore, e do presente Decreto-lei. HÉLIO BELTRÃO.
ma, orientação adequada e instala-

f
pelo Ministro da Educação e Cultura.
ções especiais.
§ 3,° - Sem prejuízo do disposto no
art, 48 da Lei n.? 5.540, a supervisão Art. 52 - As atuais universidades
ministerial do sistema federal de ensino rurais, mantidas pela União, deve-
superior será exercida nos termos e ca- rão reorganizar-se de acordo com
sos legalmente previstos. o disposto no artigo li da Lei
n.? 5.540, de 28 de novembro de
Art. 15 - O parágrafo uruco do art. 1968, ou ser incorporadas, por ato
I $, os artigos 31 e 36 e a letra "c" do executivo, às universidades existen-
art. 40, e o art. 52 e seu parágrafo tes nas regiões em que estejam
único, da Lei n.? 5.540, de 28 de no- instaladas.
vembro de 1968, passam a vigorar com
a seguinte redação: Parágrafo único - Para efeito do
disposto na segunda parte do artigo,
"Art. 15
a reorganização da escola poderá
Parágrafo único - Na composiçao ser iniciada com a aglutinação de
do Conselho de Curadores, a ser re- estabelecimentos de ensino superior,
gulada nos estatutos e regimentos, mantidos pela União, existentes na
deverão incluir-se, além dos mem- mesma, ou em localidades próximas".
bros pertencentes à própria institui-
ção, representantes da corngnidade Art. 16 - Enquanto não houver, em
e do Ministério da Educação' e Cul- número bastante, os professores e espe-
tura, em número correspondente a cialistas a que se refere o art. 30 da Lei
um terço do total. n.? 5.540, de 28 de novembro de 1968,
Art. 31 - O regime jurídico do ma- a habilitação para as respectivas funções
gistério superior será regulado pela será feita mediante exame de suficiên-
legislação própria dos sistemas, de cia realizado em instituições oficiais de
ensino e pelos estatutos e, regimen- ensino superior, indicadas pelo Conse-
tos das universidades, das federações lho Federal de Educação.
de escolas e dos estabelecimentos Parágrafo único - Nos cursos destina-
isolados. dos à formação de professores de dis-
Art. 36 - A formação e o aperfei- ciplinas específicas no ensino médio
çoamento do pessoal docente do en- técnico, bem como de administradores e
sino superior obedecerá a uma polí- demais especialistas para o ensino pri-
tica nacional e regional, definida mário, os docentes que se encontravam

112 113

t•••• = •
r

I Capítulo IV I

CONGRESSO NACIONAL
E A LEI N~ 5.692/71
A estratégJa do ~~autoritarismotriunfante"
na coJJSOlidaplo da "democracia exdudente"

1. O projeto original

o projeto que deu origem à Lei n,? 5.692/71, que veio a fixar as
"diretrizes e bases para o ensino de 1.0 e 2.° graus", decorreu dos estudos
elaborados por um Grupo de Trabalho instituído pelo então presidente
da República general Emílio Garrastazu Médici através do Decreto n,"
66.600, de 20 de maio de 1970. O referido decreto registrava na sua
ementa: "Cria Grupo de Trabalho no Ministério da Educação e Cultura
para estudar, planejar e propor medidas para a atualização e expansão
do Ensino Fundamental e do Colegial" e era composto de quatro artigos.
O primeiro estipulava que o Grupo seria composto por nove membros;
o segundo, que seus componentes seriam designados pelo ministro da
Educação e Cultura; o terceiro estabelecia o prazo de sessenta dias, a
• contar da data de sua instalação, para a conclusão dos trabalhos; e o
quarto estabelecia que o decreto entraria em vigor na data de sua publi-
cação e revogava as disposições em contrário (cf. Atos do Poder Executi-
vo, 1970:224).
O ministro da Educação, coronel Iarbas Gonçalves Passarinho,
designou para compor o Grupo de Trabalho os seguintes membros: padre
José de Vasconcellos (presidente), Valnir Chagas (relator), Aderbal Jure-
ma, Clélia de Freitas Capanema, Eurides Brito da Silva, Geraldo Bastos
da Silva, Gildásio Amado, Magda Soares Guimarães e Nise Pires.
O Grupo de Trabalho foi instalado no dia 15 de junho de 1970 e
iniciou as atividades no dia seguinte, na Faculdade de Educação da

115
Universidade "de Brasüia. Trabalhou inicialmente em tempo integral, uti- t .2. Integração horizontal:
lizando-se posteriormente de outros regimes de trabalho (cf. Vasconcel- a) dos ramos de ensino;
los, 1972: 12). b) das áreas de estudo e disciplinas entre si (em sentido sincrô-
Em 14 de agosto de 1970, portanto, rigorosamente dentro do prazo nico).
estabelecido no decreto de sua criação, o Grupo encaminhou ao ministro Através desse princípio de integração visava-se a unificação dos
da Educação o seu relatório, acompanhado de um anteprojeto de lei. antigos ensino primário e médio, eliminando-se a diferença entre ramos
tais como o secundário, agrícola, industrial, comercial e normal, e arti-
Após uma apresentação em que se registra a instalação e se recorda
culando-se as diferentes ações curriculares no interior de cada série e
o sentido da tarefa que lhe fora acometida pelo decreto que O' instituiu,
ao longo das séries desde o início do 1.0 até o final do 2.° grau. ...•
o Grupo de Trabalho desdobra seu relatório em sete partes, seguidas de " .

uma breve conclusão.


1.3. Continuidade (ensino geral) e terminalidade (ensino especial) :
A primeira parte trata da estrutura preconizada, abordando os pres-
supostos e as soluções adotadas. A segunda parte cuida da concepção de A combinação do binômio continuidade-terminalidade tinha a pre-

currículo que orientou a elaboração do anteprojeto. Ali se levanta a tensão de superar o dilema entre o ensino geral, de caráter propedêu-
tico, organizado em função do ensino superior, e o ensino profissional,
questão da determinação dos 'conteúdos curriculares, distinguindo-se o
de caráter terminal.
"conteúdo comum" e o "conteúdo diversificado", e explicitam-se as
noções de currículo pleno, ordenação e seqüência dos conteúdos, bem
1.4. Racionalização:
como a fixação do tempo de duração dos cursos de 1.° e 2.° graus. A
terceira parte versa sobre a organização e funcionamento dos estabeleci- a) concentração de esforços;
mentos de ensino, discorrendo sobre os seguintes aspectos: períodos leti- b) concentração de recursos materiais e humanos.
vos, matrícula, avaliação do aproveitamento e assiduidade, orientação
Este princípio representava a pedra de toque da reforma, uma vez
educacional e transferência de alunos de um para outro estabelecimento
que era a condição para se atingir a eficiência e produtividade gerando
de ensino.\Q tema da quarta parte é o ensino supletivo, onde se distin-
um máximo de resultados com um mínimo de custos.
guem suprimento e suplên~Tá:-proPõe-se uma" soluçã~-{nie&!"adado ensino
~ple!~~~ _c~lll_o ensino regular e se justifica aexistência dos cursos de 1.5. Flexibilidade:
aprendizagem e qualificação profissionais. Aqti1hta parte tem por objet&
a formação e regime de trabalho dós professores e especialistas, ficando a) variedade de currículos;
para a sexta a questão do fina41ciamento do ensino. Finalmente, a sétima b) utilização de metodologias apropriadas a cada tipo e nível
parte estabelece e justifica as condições previstas para a implantação da de ensino;
reforma proposta.
c) aproveitamento dos estudos realizados;
A seguir apresentamos resumidamente as características principais d) combinação do binômio continuidade-terminalidade, de
da reforma proposta pelo Grupo de Trabalho. acordo com:
idade dos alunos;
1.1. Integração vertical:
- interesse dos alunos;
a) dos graus, níveis e séries de ensino; aptidões dos alunos;
b) das atividades, áreas de estudo e disciplinas (em sentido dia- capacidade do estabelecimento de ensino;
crônico). nível sócio-econômico da região;

116 117

t.- ~<
e) possibilidade de adoção do regime de matrícula por disci- . .As medidas supra configuram aquilo que o relatório do Grupo de
plina no 2.° grau. Trabalho considerou como o "primeiro esboço de uma política mais
Esse princípio foi louvado como a grande inovação e uma conquista '/ agressiva de valorização do magistério" (Vasconcellos, 1972:40).
inestimável da nova legislação. Como se conciliou o autoritarismo que
c;lefinia o regime então vigente com este postulado de ampla flexibi- 1.8. Sentido próprio para o ensino supletivo:
lidade? Pretendemos abordar esse assunto no último item deste capítulo.
o ensino supletivo mereceu um tratamento especial na Lei n,"
5.692/71, cabendo-Ihe um capítulo inteiro (o IV). Ali foram defini-
1.6. Gradualidade de implantação: das as suas funções de suprimento e de suplência, ao mesmo tempo
que se consagrou a possibilidade de sua articulação com o ensino,
Diferentemente das leis até então promulgadas, que simplesmente regular.
definiam uma data a partir da qual entrariam em vigor todos os seus Está aí, de forma resumida, o conjunto de princípios que orientou
dispositivos, a Lei n," 5.692 estabelece, nas Disposições Transitórias, um
a reforma proposta pelo Grupo de Trabalho e que estão justificados
processo de implantação gradual, conforme estipulado. no artigo 72 e
em seu relatório. Tal orientação foi traduzi da num anteprojeto de lei
seu parágrafo único:
contendo sessenta e seis artigos distribuídos pelos oito capítulos se-
"Art. 72 - A implantação do regime instituído na presente lei far-se-á, guintes:
progressivamente, segundo as peculiaridades, possibilidades e legislação de
Capo I Do ensino de 1.° e 2.° graus;
cada sistema de ensino, com observância do Plano Estadual de Implanta-
ção que deverá seguir-se a um planejamento prévio elaborado para fixar Capo 11 Do ensino de 1.0 grau;
as linhas gerais daquele, e disciplinar o que deva ter execução imediata. Capo 111 Do ensino de 2.° grau;
Parágrafo único - O planejamento prévio e o Plano Estadual de Implan-
tação referidos neste artigo deverão ser elaborados pelos órgãos próprios Capo IV - Do ensino supletivo;
do respectivo sistema de ensino, dentro de 60 dias o primeiro e 120 o Capo V - Dos professores e especialistas;
segundo, a partir da vigência desta lei" (Vasconcellos, 1972:83-4).
Capo VI - Do financiamento;
Capo VII - Disposições gerais;
1.7. Valorização do professorado:
Capo VIII - Disposições transitórias.
- estudos para a formação, aperfeiçoamento, treinamento e re- Recebido o documento elaborado pelo Grupo de Trabalho..o minis-
treinamento de professores e especialistas; tro da Educação e Cultura submeteu-o à apreciação do Conselho Fede-
- profissionalização do jrofessor pelo Estatuto do Magistério; ral de Educação, que apresentou emendas consideradas pelo ministro
- critérios para fixação dos padrões de vencimentos à base da como "bastante oportunas e enriquecedoras", tendo sido por ele "aco-
capacitação do professor e não pelo nível de ensino que esteja lhidas em sua maior parte" (DCN, 30-6-71:820). Posteriormente, ainda
ministrando; segundo informações do ministro, "o assunto foi discutido em reunião
conjunta do Conselho Federal com os conselhos estaduais de Educação,
tratamento especial para os professores não-titulados;
daí resultando já poucas modificações que igualmente aceitei" (DCN,
aproveitamento de graduados do ensino superior como profes- 30-6-71 :820). De posse desses elementos, o ministro os reuniu num
sores das disciplinas de formação profissional; "texto integrado" no qual consignou também as suas "próprias opções
- capacitação do magistério para as suas responsabilidades poli- para manter a coerência geral da proposição e ajustá-Ia à política geral
valentes na escola; do Governo" (DCN, 30-6-71 :820).
co-responsabilidade dos professores na ministração do ensino Do processo acima apontado resultou uma ampliação do antepro-
e verificação da eficiência da aprendizagem dos alunos. jeto do Grupo de Trabalho de sessenta e seis para oitenta e
seis arti-
118 119 .
~r··
, I

gos. Os acrescimos ocorreram dominantemente no capítulo "Do finan- 6. leitura da Mensagem em plenário e designação de comissão
ciamento". que passou de nove para vinte e quatro artigos. mista (com representantes do Senado e da Câmara) para estu-
O "texto integrado" acima referido constituiu o projeto de lei que, dar o conteúdo da Mensagem, bem como as emendas apresen-
acompanhado da "Exposição de Motivos" D.O 273, foi encaminhado tadas pelos parlamentares e apresentar parecer seguido, se for
pelo ministro da Educação e Cultura, coronel Iarbas Passarinho, ao o caso, de substitutivo;
presidente da República em 30 de março de 1971. O presidente Médicí,
7. discussão e votação em plenário do resultado dos trabalhos da
por sua vez, encaminhou em 25 de junho de 1971 os referidos documen-
comissão mista;
tos ao Congresso Nacional através da Mensagem n." 209, que no Con-
gresso recebeu o n.? 55/71 (CN). 8. o documento resultante dos trabalhos do Congresso Nacional
é encaminhado ao presidente da República para apreciação e
2. A tramitação do projeto eventual aposição de vetos;
O projeto da lei que fixou as diretrizes e bases para o ensino de 9. o documento retoma ao Congresso para exame e votação dos
1.° e 2.° graus, da mesma forma que o projeto da lei de reforma uni- vetos presidenciais;
ver~itá~ia, deu entrada no Congresso para ser apreciado em regime de
10. a lei é editada e publica da no Diário Oficial da União (cf.
urgencia, portanto, em sessões conjuntas do Senado e da Câmara dos
Deputados, e no prazo de quarenta dias, findo o qual, não havendo Saviani, 1985: 150).
deliberação dos parlamentares, o projeto estaria aprovado por decurso As etapas de um a cinco foram objeto de consideração no iter.n
de prazo. anterior. No presente tópico procurar-se-á descrever as etapas de seis
A sistemática adotada em relação à Lei n.? 5.692/71 foi, pois, a dez.
a mesma que vigorou para a Lei n,? 5.540/68. A referida sistemática Na sessão de 28-6-71 foi lido o Ofício n." 50 do pr:s~dente ~o
incluiu as seguintes etapas: Senado convocando sessão conjunta para apreciação da matena no dia
I. decreto presidencial instituindo junto ao Ministério da Educa- 29-6 (cf. DCN, 29-6-71 :2.337).
ção e Cultura Grupo de Trabalho encarregado de elaborar o A sessão de 29-6 foi aberta às 10 horas e, uma vez lida a men-
anteprojeto (com prazo de trinta dias no caso da Lei n." 5.540 sagem, foram designados os membros da comissão mista, que ficou
e sessenta dias no caso da Lei n," 5.692); constituída por 22 parlamentares, sendo 10 senadores da Arena e 1 do
2. designação dos membros e instalação do Grupo de Trabalho MDB, e 8 deputados da Arena e 3 do MDB. Em seguida foi anunciado
pelo ministro da Educação e Cultura; o calendário dos trabalhos e a sessão se encerrou às 10:25h. Portanto,
3. dese~volvimento das 4 atividades do Grupo de Trabalho que em menos de meia hora estava tudo acertado e concertado.
culminam na apresentação do anteprojeto precedido de "Rela- O calendário definido pela presidência do Congresso foi o seguinte:
tório do GT";
Em 29-6-71, leitura da mensagem.
4. exposição de Motivos do ministro da Educação e Cultura enca-
Em 30-6, instalação da Comissão, eleição do presidente, do vice-
minhando ao presidente da República o anteprojeto e respec-
tivo relatório; presidente e designação do relator.

5. mensagem do presidente da República encaminhando ao Con- De 1.0 a 8-7, apresentação de emendas por parte dos parlamentares
gresso Nacional o anteprojeto e documentos complementares perante a Comissão. .
para discussões conjuntas (Senado e Câmara dos Deputados) Em 15-7. apreciação na Comissão do parecer elaborado pelo
em regime de urgência (prazo de quarenta dias);' relator.
120 121
Também o deputado Aureliano Chaves deu a sua contribuição atra-
Em 19-7, apresentação do parecer por parte da Comissão. Ime-
vés da emenda 89, nos seguintes termos: "substitua-se o verbo prepon-
diatamente após a publicação do parecer da Comissão, a presidência
derar na 3.a pessoa do singular: 'prepondera' por 'preponderão'" (sic) ,
do Congresso convocará sessão conjunta para apreciar a matéria. A vota-
do art. 13, § 1.°_Eis a justificativa: "Trata-se de erro tipográfico" (DCN,
ção deverá ocorrer até o dia 8-8-71, quando se completam os quarenta
13-7-71:3.055-6). A grafia "preponderão" em lugar de "prepondera-
dias previstos no dispositivo constitucional relativo ao "regime de
rão" seria decorrência da persistência do erro tipográfico?
urgência" (cf. DCN, 3-7-71:2.859 e 2-7-71:2.394).
A emenda 108, assinada por onze deputados, propõe a supressão
A primeira reunião da Comissão Mista foi realizada no dia 30-6-71
da expressão "conjunto de disciplinas" do art, 15.
tendo sido eleitos para presidente o senador Wilson Gonçalves e para
vice-presidente o deputado Brígido Tinoco, Na mesma sessão foi desig- O senador lo;é· Lindoso, por sua vez, através da emenda 164,
nado para relator o deputado Aderbal Iurema. propõe a substituição da palavra "adicionais" por "suplementares", dos
Os parlamentares apresentaram um número razoavelmente grande parágrafos 1.0 e 2.° do artigo 29.
de emendas. Talvez em razão disso, na sessão de 14-7-71, Wilson Gon- E o último exemplo, a emenda 188, propõe que no § 2.° do artigo
çalves apresentou solicitação, que foi deferida, no sentido de que os 35, a expressão "das leis do trabalho", seja sub~tituída por ".da Conso-
trabalhos da Comissão fossem prorrogados até o dia 24-7 (cf. DCN, lidação das Leis do Trabalho", trazendo, também ela, a assinatura de
15-7-71:951) . José Lindoso.
Se o grande número de emendas, que atingiu o total de 357, exi- Exemplos de emendas visivelmente descabidas são as de número
giu do relator muito trabalho para tomar conhecimento do seu con- 50 e 357. A primeira propõe que seja acrescentado aq.artigo 6.° um pará-
teúdo, a reduzida qualidade das mesmas certamente facilitou-lhe a tare- grafo com a seguinte redação:
fa. Com efeito, grande parte delas era inócua e outras chegavam mesmo
a ser esdrúxulas. Exemplos do primeiro tipo são as de n." 53, 62, 63, § 1.0 _ Dentre as matérias constantes do c~rrí~ulo do 2.° grau será mi~is-
trada a disciplina complementar de memorizaçao, de acordo com as dl!e-
66, 89, 108, 164 e 188, para citar apenas algumas. Vejamos, pois, o
renças individuais de capacidade dos alunos e de matrícula semestral opero-
seu conteúdo:
nal" (DCN, 13-7-71 :3.049).
A emenda 53, do deputado Bezerra de Mello, propõe a substitui-
ção do verbo "ensejem" por "assegurem". E apresenta a seguinte jus- Seu proponente, o deputado Passos Porto, justifica a emenda con-
tificação: siderando a importância da memorização para o homem moderno como
"A lei, .em se tratando de um ponto tão vital, qual seja a profissionalização meio de acompanhamento do avanço tecnológico.
do ensino de 2.° grau, deve usar expressões que não deixem margem a Já a emenda 357, apresentada pelo deputado Adhemar de Barros
escamoteações e interpretações duvidosas" (DCN, 13-7-71:3.049). Filho, preconiza a introdução do aprendizado do jogo. de. ~adr.ez a P~r-

A emenda 62, do mesmo deputado, propõe "Deslocar a preposi- tir da 3.a série do ensino de 1.0 grau. E traz como )ustlflcatlVa, alem
ção (sic) 'e' para depois de 'família' e acrescentar 'comunidade'''. da alegação de que "em alguns países europeus, e mesmo na Amér~c~,
já se ministra o ensino de xadrez aos alunos dos cursos funda~enta)s_ '
O deputado Flexa Ribeiro apresentou a emenda 63, do seguinte
ensino esse que "aperfeiçoa o raciocínio do estudante", a consl~eraçao
teor: "Substitua-se no caput do artigo 8.° a expressão: 'Na escola regu-
de que "o nosso popular Mequinho, hoje considerado mestre interna-
lar' por 'No ensino' ", sob a alegação de que se trata de "expressão
cional, propugna pela introdução do ensino do xadrez em nossas esco-
ambígua e sem tradição no vocabulário de educação no Brasil" (DCN,
13-7-71: 3.051). las" (DCN, 13-7-71:3.105).
O relator, deputado Aderbal [urema, examinou o. conjunto das
De autoria do senador Franco Montoro, a emenda 66 propõe:
emendas às quais acrescentou outras cinco, de sua autona, perfazendo,
"Onde se lê: 'instituída a orientação educacional ... ', leia-se: 'insti-
tuído o serviço de orientação educacional. .. '" (DCN, 13-7-71:3.052). pois, o total de 362 emendas.
123
122
Do exame pormenorizado das emendas resultou E prossegue, mais ou menos no mesmo tom:
!oram aceitas integralmente e 5 parcialmente. Quanto q~: d?~:~s ~~
"Em seguida a visão cabralina do monte e da enseada. Terra firme. O
.o;a.m subemen~~das, 28 foram consideradas prejudicadas e 207 f~ram
lenho de Cristo plantado na terra, pelos rudes marinheiros 'que têm por
m eiramente reieítadas (DCN, 24-7-71:3.173-80).
mestra a longa experiência', é o marco da descoberta.
Do estudo das emendas resultou o substitutivo do relator a resen Domingo da Pascoela. Comungam marujos e fidalgos na alegria do
tado e a~r~vado na segunda reunião da Comissão, realizada e~ 2~-7-71- achado e do encantamento da terra que se oferece no mistério de sua
virgindade tropical. A índia - não entende, mas contempla a cena" (DCN,
::~~r;~~lz~:t ap~esentação de destaques e subemendas. Suspensa ~ 24-7-71 :3.172).
subemendas, a :e:~~to; .para bque fossem f?rmulados os destaques e
emendas' 01 rea erta, tendo sido aprovadas as 17 sub- o discurso continua, agora assumindo um ar de paródia épica:
aperfeiço:re~enta~as,. as quais, entretanto, se referiam basicamente ao
"Seguem-se, alongando-se para o sul e para o norte, os anos difíceis da
tes exemplo:~ o re acíonal, como pode ser ilustrado através dos seguin-
posse da terra. Outras naus sem bandeiras definidas, aqui aportam. Sa-
queiam. Matam. Roubam, Mas a gente lusa resiste. Luta. Mata. Morre,
Subemenda n,? 1 " b .
ganizados'''. : su stItua-se a palavra 'reestruturados' por 'reor- porém não cede um palmo de terra virgem a esses flibusteiros dos mares
atlânticos, antes se organizam e levam de arrasto o Tratado de Tordesilhas
Subemenda n." 2' "S b tit no desbravamento viril das entradas e das bandeiras.
sagem' ". '. u SI ua-se a palavra 'entrosamento' por 'entro- Depois a escola, o jesuíta catequizador, Nóbrega o primeiro adminis-
trador escolar e Anchieta, o criador da lírica brasileira, E os anos se perdem
Subemenda n° 3' "S . nos séculos na conquista da terra e na gestação heróica da Pátria que
. . upnma-se a expressão 'em seu conteúdo'''.
nasce" (DCN, 24-7-71:172).
Su~em;nda n." 4: "Suprimam-se no início dos arti os 0

expressoes ~o ensino de 1.0 e 2.0 graus'''. g (8. e 9.°) as Na seqüência, o discurso recapitula de forma superficial e de certo
Subemenda n ° 5' "S' , modo fantasiosa alguns aspectos da história do Brasil, referindo-se ao
. . upnma-se o parágrafo único (do artigo 17)".
Subemenda n°. 6'. "S upnma-se
. marquês de Pombal, à vinda de Dom João VI, à Constituição de 1824,
a expressão ' , d ao Ato Adicional de 1834, à criação do Colégio Pedro 11 e apenas men-
constante do artigo 19. no peno o etário' ",
ciona as reformas educacionais, da Reforma Benjamin Constant de
Subemenda n.? 7:' "Substitua-se a expressa-o ' 1891 à LDB de 1961.
, . ,nas técnicas básicas'
por no ensino de''', relativas ao art. 24.
E o discurso se encerra com a referência à constituição do Grupo
As nove subemendas restantes são do mesmo teor N- h de Trabalho e com a transcrição de grande parte da Mensagem Presi-
pois, subemenda alguma de caráter substantivo (cf. DCN, 24-7-;~ :3.~~;~: dencial para, após algumas considerações genéricas, entrar "na paciente
discu~~ pa:ecer do :elator, 4> exame das emendas é precedido de um e exaustiva análise das emendas".
literário, ~~ag:~~cap~r:~erborra,gi.a int~res~ada mais na busca de efeito Essa referência mais demorada ao discurso do relator, deputado
Aderbal Jurema, pareceu pertinente porque se trata de uma fala reve-
tanto longa ,.con;ém dodu~~n~;I~o co:s~~~~:~ãoA~::::; ;~~,~aç!~sl~mm ladora do clima político da época, estando em sintonia com a estraté-
começa o dtscurso: .
gia do "autoritarismo triunfante", com o ideal de "Pátria Grande"
" " " e a quarta-feira seguinte pel h- e a euforia do "milagre brasileiro", como se pretende evidenciar no pró-
de fura-buchos' A ' a man a, topamos aves, a que chamam
, ssrm escreve Pero Vaz C 'h '1 ximo item.
dos pássaros na descoberta E amm a assina ando a presença
fradinhos, os estapagados' os o~ calca-;are~, ~s gaivotões, as garcinas, os Uma vez aprovado na Comissão Mista o parecer com o substitu-
nau tas do ar, saudavam os' nautas ~ngas- e-ve;\ o, as catrais de alto-mar, tivo do relator, o presidente da Comissão autorizou a sua publicação,
do que a bússola e o astr 1íbi o mar, _onentadores líricos mais seguros
, , o a 10 porque nao davam confiança ' '- estando pois preenchidos os requisitos para que a matéria entrasse na
magnetIcas nem às incertezas do sol" (DCN, 24-7-71:3.172), as vanaçoes ordem do dia para discussão e votação em sessão conjunta do Con-
124

~ L 125

d
gresso Nacional. Tal sessão foi convoca da para o dia 27-7-71, às 21
Assim, se procedermos a uma comparação entre os objetivos da
horas, conforme o Ofício CN/66 do presidente do Senado (cf. DCN,
27-7-71 :3.274). Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n," 4.024/61) e os
da Lei de Diretrizes e Bases do Ensino de 1.° e 2.° graus (Lei n,?
Na referida sessão do dia 27-7, toda a matéria, isto é, o projeto, 5.692/71), veremos que eles são coincidentes na sua formulação. Com
as emendas e o substitutivo, é colocada em discussão em turno único. efeito, no que diz respeito aos objetivos gerais da educação, a Lei n,"
Aberta a discussão, falam quatro oradores e, não havendo outros inscri- 5.692 não trata do assunto. Entretanto, já que não revogou o artigo 1.0
tos, é encerrada a discussão. Foram solicitados dois irrelevantes desta- da Lei n," 4.024 (Dos fins da educação), ela, de fato, o incorporou,
~ues por iniciativa. do "deputad? Geraldo Freire, referentes à expressão sintetizando-o em termos do ensino de 1.0 e 2.° graus através do seu
p~ra todos os efeitos do artigo 84 e ao parágrafo único do mesmo artigo 1.0, onde estabelece como objetivos gerais do ensino de 1.0 e 2.°
artigo. graus os seguintes:
Em razão de preferência regimental, foi colocado em discussão o 1. auto-realização do educando;
substitutivo. Ressalvados os destaques, foi aprovado tanto na Câmara 2. qualificação para o trabalho;
como no Senado. Postos os destaques em votação, foram ambos rejei- 3. preparo para o exercício consciente da cidadania.
tados na Câmara, deixando, portanto, de ser submetidos ao Senado. Eis por que o senador João Calmon, através da emenda n." 5,
Estava, assim, aprovado no Congresso Nacional o texto que iria propôs que se incluísse como parágrafo do artigo 1'.° do projeto de
se converter na Lei de Diretrizes e Bases do Ensino de 1.° e 2.° graus, Lei n." 5.692, o disposto no artigo 1.° da Lei n," 4.024. E apresentou
o qual, em seguida, foi encaminhado à Comissão de Redação, para que como justificação:
fosse formulada a sua versão final. Posta em discussão a referida reda-
çã~ final,. não houve quem quisesse usar da palavra. Em conseqüência, "Conforme salientou em sua exposição de motivos ao Exmo. Sr. Presidente
Emílio Garrastazu Médici o eminente Ministro Iarbas Passarinho, o Projeto
fOI anunciado o encerramento da discussão, passando-se à votação do de Lei n," 9, de 1971, 'marcará uma fase importante do desdobramento do
texto que foi imediatamente aprovado na Câmara e no Senado (cf. processo histórico do Brasil'.
DCN, 29-7-71: 1.029-44).
Nessas condições, efigura-se-nos de todo oportuno e mesmo necessário
que em diploma de tal magnitude seja reproduzida a definição lapidar dos
Concluídos os trabalhos no Congresso Nacional, o projeto foi enca-
objetivos previstos no art. 1.0 da Lei n," 4.024, de 20 de dezembro de 1961,
minhado à sanção presidencial. E em 11 de agosto de 1971 era pro- o que nada obsta do ponto de vista da técnica legislativa.
mulgada a Lei n.? 5.692/71, ressaltando-se a ausência de vetos por parte Muito embora este artigo não tenha sido revogado pelo projeto em
do presidente da República, fato raro na história da legislação educa- exame, a manutenção ou inserção nele daquelas finalidades parece-nos indis-
cional em nosso país. Com efeito, mesmo a Lei n." 5.540/68 recebera pensável, como solene confirmação dos elevados fins que devernter os
ensinos de 1.0 e 2.• graus" (DCN, 13-7-71:3.040).
vários vetos do então presidente Arthur da Costa e Silva
• Essa emenda, é verdade, foi rejeitada pelo relatar, porém, sob a
3. Significado político do texto aprovado justificativa de que ela "repete desnecessariamente o artigo 1.° da Lei
n.? 4.024, de 20-12-61, que não foi revogado" (DCN,24-7-71:3.173).
A Lei n." 5.692/71 completa o ciclo de reformas educacionais des-
Quanto ao objetivo do ensino de 1.° grau, a Lei n,? 5.692 apenas
tinadas ~.ajustar a educação brasileira à ruptura política perpetrada pelo
optou por uma formulação condensada (formação da crian~a e do .~ré-
golpe militar de 1964. E, como já registramos no capítulo anterior tal
adolescente) registrada no artigo 17, em lugar da redaçao descritiva
ruptura política constituíra uma exigência para a continuidade da ordem
da Lei n.? 4.024, deixando as especificações para o Conselho Federal de
sócio-econômica. Considerando-se essa continuidade no âmbito sócio-
Educação através do disposto no artigo 4.°, § 1.°, item I ("O Conselho
econômico, é compreensível que haja uma continuidade também no
Federal de Educação fixará para cada grau as matérias relativas ao
que diz respeito à educação. E isto está refletido na legislação.
núcleo comum, definindo-lhes os objetivos e amplitude"). Efetivamente,
126
127

~----------------_i d
manecem em vigor. Ora, são exatamente esses títulos que consubsta.,
o Conselho Federal de Educação, através da Resolução n." 8, de 1.° ciam as diretrizes, isto é, a orientação fundamental da organização
de dezembro de 1971, fixou as matérias do núcleo comum: Comuni-
cação e Expressão, Estudos Sociais e Ciências (inclusive Matemática). escolar brasileira.
E definiu, como objetivo da área de Ciências, o desenvolvimento do Entretanto, se a proclamação dos objetivos revela continuidade
pensamento lógico, além de estipular que as referidas matérias deve- entre ambas as leis. é preciso considerar que, no que diz respeito à
riam ser ministradas nas primeiras quatro séries, portanto, na etapa estrutura e funcionamento dos sistemas de ensino, ocorreu uma ruptura.
correspondente ao antigo curso primário, predominantemente sob a for- E isto é compreensível porque, se a continuidade da ordem sócio-eco-
ma de atividade. Conseqüentemente, a formulação analítica da Lei n.? nômica só pôde ser garantida através da ruptura política, na educação
4.?24. ("desenvolvimento do raciocínio e das atividades de expressão da a continuidade das funções dela demandadas pelas condições sociais e
criança ~ ~ sua int~g~ação no meio físico e social") contida no artigo 25, econômicas exigiu uma ruptura no âmbito da política edu.cacional, ou
que definiu o objetivo do ensino primário, foi reconstituída integral- seja, nos rumos que deveria tomar a forma de organizar e operar os
m~nt~. Em relação à inclusão do "pré-adolescente" na definição do serviços educacionais.
objetivo do ensino de 1.° grau, cabe observar que ela se explica pelo
Eis por que já havíamos chamado a atenção em outro estudo (cf.
fato de que a Lei n,? 5.692 estendeu o ensino de 1.° grau para oito
Saviani, in Garcia, 1978: 187-8) sobre a importância de se distinguir,
anos, abrangendo, em conseqüência, também a faixa dos onze aos qua-
torze anos. na legislação educacional, entre os objetivos proclamados e os objetivos
reais. Com efeito, dizíamos, os objetivos proclamados indicam as finali-
No que diz respeito ao objetivo do ensino de 2.° grau compa- dades gerais e amplas, as intenções últimas. Estabelecem, pois, um hori-
r~tivamente ao do ensino médio, constata-se que as formulações con-
zonte de possibilidades, situando-se num plano ideal onde o consenso,
tidas em ambas as leis coincidem. Assim, o art. 35 da Lei n," 4.024
a identidade de aspirações e interesses, é sempre possível. Em contra-
estabelece como objetivo do ensino médio a formação do adolescen-
partida, os objetivos reais indicam os alvos concretos da ação, aqueles
te; o artigo 17 da Lei n." 5.692, por sua vez, define como objetivo
aspectos dos objetivos proclamados em que efetivamente está empenhada
do ensino de 2.° grau a formação integral do adolescente. Ora, cumpre
a sociedade; implicam, pois, a definiçã.o daquilo que se está buscando
lembrar que o adjetivo "integral" não constava do anteprojeto. Foi
preservar ou mudar. Portanto, diferentemente dos objetivos prcx:lamados,
acrescentad_o em virtude de emenda, desta vez acatada pelo relator, do
os objetivos reais situam-se num plano onde se defrontam mter_esses
senador Ioão Calmon, que a justificou nos seguintes termos: "A inclu-
divergentes e, por vezes, antagônicos, determinando o curso da açao as
são da palavra 'integral' se impõe para que se dê perfeito entrosamento
forças que controlam o processo. Compreende-se, então, que: enquanto
com o que dispõe a Lei n." 4.024, em seu art. 1.°, afirmando que a
educação nacional deve visar ao desenvolvimento integral da persona- os objetivos proclamados coincidem exatamente com aquilo que se
lidade hu.ma~a" (~N, 13-:-71:3.061, emenda n,? 124). Portanto, aquilo explicita em termos de objetivos na letra da lei, os. ob~etivos reais se
que à pnmeira VIsta parecia constituir uma diferença, na verdade tra- revelam antes na forma de funcionamento da orgamzaçao escolar pre-
duz uma identidade ainda r!ais perfeita. vista em lei e, dialeticamente, nos meios preconizados.
Portanto, o próprio enunciado explícito dos objetivos nas leis n."" e possível entender, então, por que os objetivos proclamados ~a
4.024 e 5.692 revela uma continuidade entre ambas, continuidade que Lei n." 4.024 não foram revogados pelas LeÍ3 n." 5.540 e 5.692. Nao
reflete no âmbito educacional a continuidade da ordem sócio-econômica cabe, porém. inferir daí que os objetivos reais tenham permanecido os
de que foi avalista o golpe de 64. mesmos. Dado que a continuidade sócio-econômica exigiu uma ruptura
política, esta, inevitavelmente, marcou as duas últimas leis. Conseqüente-
Aliás, a referida continuidade pode ser imediatamente constatada
mente, a inspiração liberalista que caracterizava a Lei n," 4.024 cede~
pelo simples fato de que os cinco primeiros títulos da Lei n,? 4.024,
lugar a uma tendência tecnicista tanto na Lei n." 5.692 como na Lei
que tratam dos fins da educação, do direito à educação, da liberdade
do ensino, da administração do ensino e dos sistemas de ensino per- n," 5.540, examinada no capítulo anterior.
129
128
Essa diferença de orientação, como assinaláramos ainda no texto para propor-lhes, a todos ou apenas aos setores potencialmente '.dinlimicos'
da sociedade, 'projetos nacionais' - de redenção, de desenvolvunento, de
referido, se caracteriza pelo fato de que, enquanto o liberalismo põe a
'Pátria Grande' etc. - em tomo dos quais deveriam congregar-se as von-
ênfase na qualidade em lugar da quantidade; nos fins (ideais) em detri- tades. E, desta vez, teríamos o autoritarismo 'mobilizador'" (Debrun,
mento dos métodos (técnicas); na autonomia em oposição à adaptação; 1983: 15).
nas aspirações individuais antes que nas necessidades sociais; e na
cultura geral em detrimento da formação profissional, cotrl o tecnicismo Ora, se a Lei n," 5.540 foi aprovada num momento de crise nacio-
ocorre o inverso. E isso pode ser observado no caso das leis citadas de nal e após manifestações veementes de protesto dos estudantes em geral
modo bastante claro. Com efeito, enquanto os princípios da Lei n." 4.024 e de grande parte dos professores, a Lei n," 5.692 foi ?r?mulga~a em
acentuavam o primeiro elemento dos pares de conceitos acima enuncia- meio ti euforia do governo Médici e do "milagre braslleuo". ~l~ ?or
dos, os princípios das Leis n.ot 5.540 e 5.692 inegavelmente fazem a que Evaldo A. Vieira (1983:213) assinala que "na época de Médici, a
balança pender para o segundo. Assim, os princípios de não-duplicação preocupação governamental dirigia-se para os louvores à~ Refo:mas .de
de meios para fins idênticos com seus corolários, tais como a integração Ensino, então já concretizadas". E após mencionar o carater relteratt:o
(vertical e horizontal), a racionalização-concentração, a intercomplemen- dos temas educacionais, apesar das louvadas reformas, prossegue afir-
taridade, a flexibilidade, a continuidade-terminalidade, o aproveitamento mando que "o Presidente da República ressaltava a modernidade e a
de estudos etc., do mesmo modo que medidas tais como a departa- profundidade das reformas realizadas, elogiando os princípios pedagó-
mentalização, a matrícula por disciplina, o "sistema de créditos", a pro- gicos nelas introduzidos". Assim é que a ~ei n.o.5:6.92 foi saudad~ como
fissionalização do 2. grau, o detalhamento curricular e tantas outras
0
uma verdadeira panacéia, como a redençao definitiva da educaçao bra-
indicam uma preocupação com o aprimoramento técnico, com a eficiên- sileira. E para essa cruzada foram ruidosamente convocados to~os os
cia e produtividade em busca do máximo de resultado com o mínimo brasileiros, os quais acorreram entusiasticamente em grande quantidade.
de dispêndios. . Não faltou pois, a convocação de todos para participar da construção
Ora, se a Lei n," 5.692 complementa a Lei n," 5.540 na ambição do "projet~ nacional" de red~nção, de desen_volvim,~nto,.de ':Pá~r!~
de haver reformado toda a organização escolar brasileira segundo as Grande" o então chamado projeto de construçao do Brastl-Potencla.
exigências de continuidade sócio-econômica e ruptura política já referidas, Estaria, então, em ação a estratégia do "autoritarismo mobilizador"?
segue-se que o significado político da Lei n." 5.692 é fundamentalmente A possível resposta afirmativa à questão ~upra a~resenta, ,~ntret~n-
aquele mesmo já apontado em relação à Lei na 5.540. to, um complicador. Assim é que Debrun, apos referir-se ao autonta-
Entretanto, há nuances que diferenciam politicamente ambas as rismo mobilizador", afirma:
leis que importa destacar.
"~ verdade que, neste último caso, os projetos de auto-afirmação nacional
Com efeito, verificamos que a tramitação da Lei n," 5.540 se deu foram em geral veiculados por elites dissidentes, e não pela elite no poder.
sob o signo da estratégia política do "autoritarismo desmobilizador". Procuramos, aliás, mostrar que as tentativas de autoritarismo 'mobilizador'
foram sempre circunscritas e neutralizadas pelos donos do p~er,. ~e b~n.!
Teria sido idêntico o caso d~ Lei n," 5.692?
que certos dissidentes tenham sido por eles recuperados e conciliados
Michel Debrun, ao discutir as estratégias básicas postas em ação (Debrun, 1983:15).
na história da política brasileira, afirma:
Ora, no caso do período relativo à presidência Médici, ?s projetos
"Se a 'conciliação' serviu para reforçar o poder dos que já tinham poder, "Pátria Grande" e "Brasil-Potência" foram induzidos a partir dos pró-
é lógico supor que esse potencial disponível tinha a possibilidade de se prios "donos do poder". Por isso preferimos a expressão "autoritari~mo
investir em outras estratégias, capazes, elas também, de promover o auto- triunfante" para nomear a estratégia política então posta em .prá~lca.
reforço do poder, mas em moldes diferentes da 'conciliação'. O mesmo
Com efeito, naquele período o regime autoritário não apenas havia tnun-
poder prévio, suscetível de ser utilizado para cooptar e amaciar certas
categorias de dominados (ou de elites dissidentes), estava também à mão fado como fora acometido de uma visão triunfalista, marchando, seguro
para esmagá-Ios. E aqui teríamos o autoritarismo 'desmobilizador'. Ou então de sua força, para a consolidação da "democracia excludente" instalada
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130
na fase anterior do regime militar. De fato, o processo de exclusão havia na direção da quebra da lógica do projeto original ou que revelasse
se consumado através da censura à imprensa, proibição de greves, arro- algum tipo de discordância em relação a ela .. Seria_por demais cansa:i~o,
cho salarial, inúmeras cassações, fechamento das entidades que não além de desnecessário, documentar essa afirmação através da analtse
consentiam e escalada da repressão impulsionada a partir de organis- de cada uma' das emendas. Basta tão-somente o exame das emendas
mos paramilitares e paragovemamentais, como o esquadrão da morte e relativas à questão da profissionalização do 2.e grau para demonstrar
os serviços de inteligência da Marinha, Exército e Aeronáutica, além cabalmente o papel de apedeiçoamento do espírito do projeto original
dos DOPS dos diferentes Estados. desempenhado pelo Congresso Nacional.
0
Dir-se-ia que a partir de 1970 o regime autoritário não apenas agia A profissionalização universal e compulsória do 2. grau, marca
na defensiva, desmantelando todas as organizações que representavam distintiva da reforma proposta na Lei n,? 5.692, foi explícita e inequi-
uma ameaça real ou possível, mas passara para a ofensiva, procedendo vocamente preconizada através do artigo 5.° da referida lei. O ante-
0
a uma ampla mobilização pelo alto, visando criar uma consciência na- projeto prescrevia na alínea a do parágrafo 2. do artigo 5. "A parte
0
:

cional incondicionalmente favorável aos desígnios do grupo no poder. de formação especial do currículo terá o objetivo de sondagem de apti-
Portanto, não apenas se desmobilizou a "sociedade civil", amordaçan- dões e iniciação para o trabalho, no ensino de 1. grau, e de habilitação
0

do-a e sujeitando-a inteiramente à "sociedade política", como se tentou profissional ou aprofundamento em determinadas ordens de estudos
mobilizar amplamente a sociedade brasileira a partir da própria "socie- gerais, no ensino de 2.° grau". E notável a diligência com que os parla-
dade política". mentares advertiram que a fórmula "ou aprofundamento em determina-
das ordens de estudos gerais", no plural e como forma alternativa à
Nesse quadro pode-se compreender por que no processo de trami-
tação do projeto da Lei n.? 5.692 no Congresso Nacional não apenas profissionalização, poderia frustrar o objetivo principal pretendido pela
não se detectou manifestação alguma por parte da sociedade civil como reforma. Nesse sentido várias emendas foram apresentadas, como será
sequer foi possível constatar os "pálidos protestos da oposição" ocor- evidenciado a seguir.
ridos por ocasião da discussão e aprovação da Lei n," 5.540/68. Êque As emendas n." 38, do senador Antonio Carlos, n," 42, assinada
a oposição estava desbaratada e silenciada, restando escassos elementos por oito deputados da bancada federal de São Paulo, e n," 43, do
que cumpriam o papel de legitimar o regime, que assim podia manter senador José Lindoso, propõem que se exclua da referida alínea a do
sob disfarce formal seu caráter ditatorial insistindo em se proclamar parágrafo 2.° do artigo 5. a expressão "ou aprofundamento em deter-
0

democrático ainda que a preservação da democracia só tenha sido pos- minadas ordens de estudos gerais". E apresentam as seguintes justi-
sível pela sua conversão em "democracia excludente". ficativas:
A própria discussão (que na verdade nem houve) e aprovação da "A expressão, no contexto doutrinário da reforma proposta ( ... ) é total-
Lei n," 5.692 reflete nitidamente a situação política acima referida. Com mente descabida.
efeito, dos 22 parlamentares pesignados para integrar a Comissão Mista Esta oração intercalada, sutil e ardilosa, contraria toda a doutrina e
encarregada de apreciar o projeto encaminhado pelo Poder Executivo, abre caminho para a manutenção daquilo que, justamente, o projeto visa
18 eram da Arena e apenas 4 do MDB. O relator na Comissão Mista a extirpar: a educação descompromissada com a vida individual e com o
foi o deputado Aderbal [urema, obviamente da Arena e, além disso, futuro do país" (DCN, 13-7-71:3.047).
membro do Grupo de Trabalho constituído pelo Ministério da Educação
para elaborar o anteprojeto da lei. Sua função como relator era, pois, A emenda n," 42, por sua vez, é justificada da seguinte maneira:
nitidamente a de garantir não apenas a preservação, mas o próprio aper-
"Parece-nos inaceitável a alternativa oferecida aos estabelecimentos de
feiçoamento do espírito do projeto emanado do Poder Executivo. E o ensino quanto ao segundo objetivo. Está claro que devem eles se dedicar,
exame das emendas evidencia quão diligentemente o Congresso soube como regra, à habilitação profissional e, somente como exceção, me~iante
corresponder a essa expectativa nele depositada pelo governo federal. dependência de autorização superior, ao aprofundamento em determmadas
Assim é que não surgiu sequer uma emenda cuja justificativa apontasse ordens de estudos gerais.

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\i,

1 1
A opção certamente estimularia a manutenção dos cursos 'clássicos' e
'científicos', o que haveria de representar a total frustração dos intentos E, mais à frente, após referir-se à situação então vigente na qual
do legislador" (DCN, 13-7-71:3.048). a profissionalização constituía exceção. afirma:

Mas a emenda que veio a prevalecer foi a de n," 39, de autoria "O caminho a trilhar não é outro senão o de converter a exceção em regra,
do deputado Bezerra de Mello, que apresentou a seguinte justificativa: fazendo que o segundo grau sempre se conclua por uma formação espe-
cífica" (Vasconcellos, 1972:20).
"Toda a filosofia do projeto está voltada para as necessidades do desen-
volvimento, que dia a dia exige mais técnicos de nível médio para a em- E O relator, que tendo sido membro do Grupo de Trabalho co-
presa privada e para a empresa pública. nhecia muito bem o espírito que o orientou. obviamente teve o bom
J! necessário fechar, de uma vez por todas, a porta das escolas acostu- senso de acolher a emenda que traduzia esse espírito de forma ainda
madas ao ensino verbalístico e academizante, que não forma nem para o mais perfeita e acabada do que a letra do texto do anteprojeto. E não
trabalho nem para a vida. deixa de ser admirável a fidelidade com gue o Congresso buscou aten-
A alternativa 'ou aprofundamento em determinadas ordens de estudos
gerais' seria, sem dúvida. a grande brecha por onde resvalariam as escolas
der a essa orientação. Aperfeiçoando o texto (a letra), os congressis-
e os sistemas avessos à formação profissional do jovem" (DCN, 13-7-71: tas preservaram o espírito do projeto original oriundo do Poder Exe-
3.047). cutivo.
Eis como os princípios que orientaram a elaboração da Lei n."
E O deputado conclui sua justificativa apoiando-se na Exposição
de Motivos do ministro J arbas Passarinho, onde este afirma que a 5.692 estiveram em perfeita sintonia com a estratégia do "autoritaris-
reforma proposta "implica abandonar o ensino verbalístico e academi- mo triunfante", contribuindo assim para o objetivo governamental de
zante, para partir vigorosamente para um sistema educativo de 1.° e consolidação da "democracia excludente".
2.° graus, voltado para as necessidades do desenvolvimento" (DCN, Cumpre frisar que todos os princípios da referida lei expressaram
13-7-71:3.047). a perfeita sintonia acima indicada, inclusive o de ':flexibilidade~.' em
A emenda em pauta, além de excluir a expressão "OU" em deter- que pesem as proclamações de liberdade e autonomia a ele frequente-
minadas ordens de estudos gerais", propõe o acréscimo de um pará- mente associadas. Na verdade, ousaríamos mesmo afirmar que tal prin-
grafo 3.° ao artigo 5.° nos seguintes termos: cípio constituía uma faca de dois gumes, já que tanto poderia ser in-
vocado por professores e alunos como pelas autoridades. E, no con-
"§ 3.· - Excepcionalmente a parte especial do currículo poderá assumir, texto descrito, o princípio de flexibilidade foi um instrumento impor-
no ensino de 2.° grau, o caráter de aprofundamento em determinada ordem' tante para preservar no âmbito educacional o arbítrio que caracterizava
de estudos gerais, para atender à aptidão específica do estudante, em face
o poder então exercido. Com efeito. pela flexibilidade as autoridades
de indicação dos professores e do serviço de orientação do estabelecimento"
(DCN, 13-7-71:3.047). governamentais evitavam se sujeitar a definições legais mais precisas
que necessariamente imporiam limites à sua ação. ficando livres para
Observe-se que, nessa &enda, acolhida pelo relator, "aprofun- impor à nação os programas educacionais de interesse dos donos do
damento em determinada ordem ... " aparece no singular e nitidamente poder. E com a vantagem de facilitar a busca de adesão e apoio da-
como exceção. Ora, essa atitude do Congresso Nacional teve o evidente queles mesmos sobre os quais eram impostos os referidos programas.
sentido de preservar o espírito do anteprojeto que ele considerou amea- Aliás. esse tom triunfalista pode ser detectado também nos dis-
çado pela redação original. De fato, podemos ler no relatório do Grupo cursos do próprio presidente Médici. Assim é que, no discurso de posse
de Trabalho: proferido em 30-10-69, Médici afirmava: "Creio em que, passados os
"A verdadeira terminalidade, ao longo de toda a escolarização dos 7 aos dias difíceis dos anos 60, amanhecerá. na década de 70. a nossa hora"
18 anos, encontra-se de fato no ensino de 2.· grau, ministrado como é no (Médici, 1970:40). E assim concluía o referido discurso: "E, com a
período etário em que as aptidões efetivamente existentes tendem a estio- ajuda de Deus e dos homens, haverei de pôr na mão do pov~ tudo
lar-se quando não são cultivadas com oportunidade" (Vasconcellos, 1972:20). aquilo em que mais creio" (Médici .. 1970:40). Esse mesmo sentImento
135
f
I
I bonapartista é evidente também no discurso pronunciado por ocasião
da convenção da Arena, de 20 de novembro de 1969:
Apêndice
"Desejo proclamar que esta filiação partidária é um ato de comando, que Lei. D~ 5.692 • ele 11 de agosto de 1971
não transfiro nem delego a ninguém, as responsabilidades superiores de
condução dos problemas nacionais" (Médici, 1970:46).

E, no mesmo discurso, definia o seu projeto:

"Compreendo nacional, o que supera as ambições provincianas e as ques-


tiúnculas de campanário, para compor, na diversidade dos regionalismos e
nas legítimas aspirações da gente de toda parte, um projeto integrado de Fixa Diretrizes c Bases para o ensino cada estabelecimento do ensino será
Brasil potência" (Médici, 1970:47). de 1.. e 2: graus, e dá outras reguladà no respectivo regi~ento, a. ser
providências aprovado pelo órgão próprio do. siste-
Em suma, governando à moda do duce, Médici dirigiu o país uti- ma com observância de normas fixadas
lizando-se de projetos de impacto que eram decididos autoritária e ar- o Presidente da República pel~ respectivo Conselho de Educação.
bitrariamente em virtude da ampla flexibilidade de que desfrutava a sua Faço saber que o Congresso. Nacio~al Art. 3.° - Sem prejuízo de outras so-
decreta e eu sanciono a seguinte Lei: luções que venham a ser adotadas, os
administração, projetos esses que eram ufanisticamente anunciados atra-
sistemas de ensino estimularão, no mes-
vés de rede de televisão e rádio a toda a nação, antes mesmo de ser mo estabelecimento, a oferta de moda-
CAPITULO I
apreciado, conforme a Constituição, pelo Congresso Nacional. J! que lidades diferentes de estudos integradas
de antemão sabia-se que o Congresso só tinha uma possibilidade: ho- Do ensino de I. e 0 2: graus por uma base comum, e na mesma lo-
mologar o projeto do Executivo. Compreende-se agora por que Médici calidade:
Art. 1: - O ensino de 1.. e 2.° graus
se vangloriava de não ter assinado nenhum decreto de cassação durante a) a reunião de pequenos estabeleci-
tem por objetivo geral proporcionar ao
todo o seu mandato presidencial. J! que sua ampla margem de flexi- mentos em unidades mais amplas;
. educando a formação ·necessária ao
desenvolvimento de suas potencialída- b) a entrosagem e a intercomplementa-
bilidade tomava inviável o surgimento até mesmo de pretextos para
eventuais cassações. des como elemento de auto-realização, ridade dos estabelecimentos de ensino
qualificação para o trabalho e prep.ar'p entre si ou com outras instituições so-
para o exercício consciente da Cida- ciais a fim de aproveitar a capacidade
dania. ocio~a de uns para suprir deficiências
§ 1.0 - Para efeito do que dispõem de outros;
os arts. 176 e 178 da Constituição, en- c) a organização de centros in!er~sc.ola-
tende-se por ensino primário a educa- res que reúnam serviços e discíplinas
ção correspondente ao ensino de pri- ou áreas de estudo comuns a vários es-
meiro grau e por ensino médio, o de tabelecimentos.
• segundo grau.
§ 2: - O ensino de 1.0 e 2.° graus
Art. 4.° - Os currículos do ensino de
I." e 2: graus terão um núcleo comum,
será ministrado obrigatoriamente na lín- obrigatório em imbito nacional, e uma
gua nacional. parte diversificada para a~e~~er, confor-
Art. 2.° - O ensino de 1.0 e 2: graus me as necessidades e possibilidades con-
será ministrado em estabelecimentos cretas, as peculiaridades locais, a~s pla-
criados ou reorganizados sob critérios nos dos estabelecimentos e às diferen-
que assegurem a plena utilização dos ças individuais dos alunos.
seus recursos materiais e humanos, sem § 1.0 - Observar-se-ão as segui,ntes
duplicação de meios para fins idênticos prescrições na definição dos conteudos
ou equivalentes. curriculares:
Parágrafo único - A org~n~za~ão ad- I - O Conselho Federal de Educação
ministrativa, didática e disciplinar de fixará para cada grau as matérias rela-
136 \) 137

e ri
'I
~."
•" --dV" .0 núd,o comum, ddinindo-Ih"
os objetivos e a amplitude.
- 11 - Os Conselhos de Educação rela-
b) no ensino de segundo grau, predomi.
ne a parte de formação especial.
inclusão de opções que atendam às di-
ferenças individuais dos alunos. e, no
ensmo. de 2·. grau , ensejem vanedade
§ 2: - Na zona rural, o eS,tabeleci-
mento poderá organizar os .penodos, le-
tivos, com prescrição de férias nas epo-
cionarão, para os respectivos sistemas § 2: - A parte de formação especial de habilitações. . _ cas do plantio e colheita de safras, con-
do currículo: '
de ensino, as matérias dentre as quais § I: - Admitir-se-à a or~amzaçao forme plano aprovado pela competente
poderá cada estabelecimento escolher as a) terá o objetivo de sondagem de semestral no ensino de I.· e 2. g~au.s~, autoridade de ensino.
que devam constituir a parte dlversifí- aptidões e iniciação para o trabalho, no no de 2: grau, a matrícula por discipli-
cada. Art. 12 - O regimento esco~ar. r~gu-
ensino de I.· grau, e de habilitação pro- na sob condições que assegurem ~.rel~- lará a substituição de uma disciplina,
III - Com aprovação do competente fissional, no ensino de 2.° grau; cionamento, a ordenação e a sequencia área de estudo ou atividade po.r outra
Conselho de Educação, o estabelecimen_ b) será fixada, quando se destine à ini- dos estudos. a que se atribua idêntico ou equivalente
to poderá incluir estudos não decorren- ciação e habilitação profissional, em § 2: - Em qualquer grau, poderão valor formativo, excluídas as que, r~sul-
tes de matérias relacionadas de acordo consonância com as necessidades do organizar-se classes que reúna~ alunos tem d o nuc
áclec comum e dos mimmos f .
com o inciso anterior. mercado de trabalho local ou regional, de diferentes séries e de equivalentes fixados para as habilitações pro ISSIo-
§ 2.· - No ensino de I.· e 2.· graus à vista de levantamentos periodicamen_ níveis de adiantamento, para o ~n~m?
te renovados. nais. C
dar-se-ã especial relevo ao estudo dalín- de línguas estrangeiras e outras discipli-
Parágrafo único - .Caberá aos on:
gua nacional, como instrumento de co- § 3.· - Excepcionalmente, a parte es- nas. áreas de estudo e atividades em que selhos de Educação fixar, para os ~sta
municação e como expressão da cultura pecial do currículo ,poderá assumir, no tal solução se aconselhe.
belecimentos situados nas. respectivas
brasileira. ensino de 2: grau. o caráter de apro- Art. 9: - Os alunos que ~presentem jurisdições. os critérios gerais que deve-
fundamento em determinada ordem de deficiências físicas ou mentais, os que
§ 3.· - Para o ensino de 2.· grau, o rão 'presidir ao aproveitamento de estu-
estudos gerais. para atender a aptidão se encontrem em atraso consi?erável dos definido neste artigo.
Conselho Federal de Educação fixará,
específica do estudante, por indicação quanto à idade regular de matricula e
além do núcleo comum, o mínimo a ser Art. 13 - A transferênc~a do aluno d~
de professores e orientadores. os superdotados deverão receber trata-
exigido em cada habilitação profissio- um para outro estabelecimento ~ar-s~-a
nal ou conjunto de habilitações afins. Art. 6.· - As habilitações profissionais mento especial de acordo com as normas
pelo núcleo comum fixado em âmbito
poderão ser realizadas em regime de fixadas pelos competentes Conselhos de
§ 4.° - Mediante aprovação do Conse- . I e quando for o caso, pelos
cooperação com as empresas. Educação. . naciona , h bilit
lho Federal de Educação, os estabeleci_ mínimos estabelecidos para as a I I a-
Parágrafo único - O estágio não acar- Art. 10 - Será instituída ?bnga!o- ções profissionais, conforme normas
mentos de ensino poderão oferecer ou- iamente a Orientação Educacional
tras habilitações profissionais para as retará para as empresas nenhum vínculo ri . I m- baixadas pelos competentes Conselhos
quais não haja mínimos de currículo de emprego, mesmo que se remunere o c1uindo aconselhamento vocaciona e~ de Educação.
aluno estagiário, e suas obrigações se. cooperação com os professores, a famí-
previamente estabelecidos por aquele A 14 - A verificação do rendimen-
rão apenas as especifícadas no convê- lia e a comunidade. . rt. . tal
órgão, assegurada a validade nacional to escolar ficará, na forma regimen ,
dos respectivos estudos. nio feito com o estabelecimento. Art. 11 - O ano e o semest~e. leti- a cargo dos estabelecimentos, c~mpreen-
Art. 7.° - Será obrigatória a inclusão vos, independentemente do ~no CIVil, te-
dendo a avaliação do aproveitamento
Art. 5.° - As disciplinas, áreas de es- de Educação Moral e Cívica, Educação ão no mínimo, 180 e 90 dias de traba-
r , escolar e a apuração da assiduidade. .
tudo e atividades que resultem das ma- Física, Educação Artística e Programas lho efetivo, respec tiiva mente ,
térias fixadas na forma do artigo ante- excluído o tempo reservado às provas § 1.0 - Na avaliação do aproveita-
de Saúde nos currículos plenos dos es-
rior, com as disposições necessárias ao finais, caso estas sejam adotadas. mento a ser expressa em notas ou me~-
tabelecimentos de I: e 2: graus, obser- ções ~reponderarão os aspectos quali-
seu relacionamento, ordenação e se- vado quanto à primeira o disposto no § 1: - Os estabelecimentos ~e ensi-
qüência, constituirão para cada grau o tati;os sobre os quantitativos ,e os r~-
Decreto-lei n," 869, de 12 de setembro no d e. 1 ° e 2·. graus funcionarao entre I' sultados obtidos durante o penodo leti-
currículo pleno do estabelecimento. de 1969. . os períodos letivos regulares ?ara, a em
vo sobre os da prova final. caso esta
§ I.· - Observadas as normas de cada Parágrafo UnICO - O ensino religioso, de outras atividades. proporcronar estu-
seja exigi da.
sistema de ensino, o currículo pleno de matrícula facultativa, constituirá dis- dos de recuperação aos alun.o~ de apro-
veitamento insuficiente e mmIS!rar, em § 2 0 - O aluno de aproveitamento
terá uma parte de educação geral e ou- ciplina dos horários normais dos estabe. . - e
caráter intensivo. disciplinas, areas de insuficiente poderá ohter aprovaçao m -
tra de formação especial, sendo organí- lecimentos oficiais de I: e 2.° graus.
zado de modo que: estudo e atividades planejadas com du- diante estudos d e recu peração propor- h _
Artigo 8: - A ordenação do currículo cionados obrigatoriamente pelo esta e
ração semestral, bem corno desenvolver
a) no ensino de primeiro grau, a parte será feita por séries anuais de discipli- lecimento.
nas ou áreas de estudo organizadas de programas de aperfeiçoamento ~e. pro;
de educação geral seja exclusiva nas sé- § 3: - Ter-se-a, com o aprovado quanto
forma a permitir, conforme o plano e fessores e realizar cursos especiais d
ries iniciais e predominante nas finais;
natureza supletiva. à assiduidade:
as possibilidades do estabelecimento, a
138 139
a! o aluno de freqüência igualou supe-
e métodos segundo as fases de desen-
~Ior a 75% na respectiva disciplina, volvimento dos alunos.
area de estudo ou atividade; 2.900 horas de trabalho escolar efeti- até o estudo intensivo de disciplinas
Art. 18 - O ensino de 1.0 grau terá vo, respectivamente. do ensino regular e a atualização de
b) o aluno de freqüência inferior a 75%
a duração de oito anos letivos e com- Parágrafo único - Mediante aprova- conhecimentos.
que tenha tido aproveitamento superior
preenderá, anualmente, pelo menos ção dos respectivos Conselhos de Edu- § L' - Os cursos supletivos terão es-
a 80% da escala de notas ou menções
720 horas de atividades. cação, os sistemas de ensino pederão trutura, duração e regime escolar que
adotadas pelo estabelecimento;
Art. 19 - Para o ingresso no ensino admitir que, no regime de matrícula se ajustem às suas finalidades próprias
c) o aluno que não se encontre na hi-
de 1.° grau, deverá o aluno ter a ida- por disciplina, o aluno possa concluir e ao tipo especial de aluno a que se
pótese da alínea anterior, mas com fre-
de mínima de sete anos. em dois anos no mínimo, e cinco no destinam.
qüência igualou superior ao mínimo
§. I: :- As normas de cada sistema máximo, os estudos correspondentes a § 2.' - Os cursos supletivos serão
estabelecido em cada sistema de ensino
disporão sobre a possibilidade de in- três séries da escola de 2: grau. ministrados em classes ou mediante a
pelo respectivo Conselho de Educação,
e que demonstre melhoria de aprovei- gresso no ensino de primeiro grau de Art. 23 - Observado o que sobre o utilização de rádio, televisão, corres-
ta~ento após estudos a título de recupe- ~Iunos com menos de sete anos de assunto conste da legislação própria: pondência e outros meios de comuni-
raçao. Idade. a) a conclusão da 3.' série do ensino cação que permitam alcançar o maior
de 2.° grau, ou do correspondente no número de alunos.
§ 4.° - Verificadas as necessárias con- § 2: - Os sistemas de ensino velarão
diçõ~~, os sistemas de ensino poderão para que as crianças de idade inferior regime de matrícula por disciplinas, Art. 26 - Os exames supletivos com-
a~mltlr a adoção de critérios que per- a s~te anos recebam conveniente edu- habilitará ao prosseguimento de estu- preenderão a parte do currículo resul-
mitam avanços progressivos dos alunos ~açAao.em escolas maternais, jardins de dos em grau superior; tante do núcleo comum, fixado pelo
pela conjugação dos elementos de idade infância e instituições equivalentes. b) os estudos correspondentes à 4.' sé- Conselho Federal de Educação, habili-
e aproveitamento. rie do ensino do 2: grau poderão, tando ao prosseguimento de estudos
Art. 20 - O ensino de I: grau será
quando equivalentes, ser aproveitados em caráter regular, e poderão, quando
Art '. ~5 - O regimento escolar poderá obrigatório dos 7 aos 14 anos, caben-
em curso superior da mesma área ou realizados para o exclusivo efeito de
admitir que no regime seriado, a partir do aos Municípios promover, anual-
de áreas afins. habilitação profissional de 2.' grau,
da 7.' série, o aluno seja matriculado mente, o levantamento da população
abranger somente o mínimo estabeleci-
com dependência de uma ou duas dis- que alcance a idade escolar e proce-
CAPfTULO IV do pelo mesmo Conselho.
ciplinas, áreas de estudo ou atividades der à sua chamada para matrícula.
de série anterior, desde que preservada § I.' - Os exames a que se refere este
P~rá~rafo único - Nos Estados, no Do ensino supletivo
a seqüência do currículo. artigo deverão realizar-se:
Distriro Federal, nos Territórios e nos
Art. 1.6 - Caberá aos estabelecimentos Art. 24 - O ensino supletivo "terá por a) ao nível de conclusão de ensino de
Mu~icípi~s, d.everá a administração do
expedir os certificados de conclusão de ensino fiscalizar o cumprimento da finalidade: I.' grau, para os maiores de 18 anos;
série, conjunto de disciplinas ou grau obrigatoriedade escolar e incentivar a a) suprir a escolarização regular para b) ao nível de conclusão do ensino de
escolar e os diplomas ou certificados freqüência dos alunos. os adolescentes e adultos que não a 2: grau, para os maiores de 21 anos.
c~rre~pondentes às habilitações profis- tenham seguido ou concluído na idade § 2.' - Os exames supletivos ficarão
SIOnaiS de todo o ensino de 2.' grau, ou CAPfTULO 1II própria; a cargo de estabelecimentos oficiais ou
de parte deste. b) proporcionar, mediante repetida vol- reconhecidos, indicados nos vários sis-
Do ensino de 2: grau temas, anualmente, pelos respectivos
Parágrafo único - Para que tenaam ta à escola, estudos de aperfeiçoamen-
validade nacional, os diplomas e certifi- to ou atualização para os que tenham Conselhos de Educação.
Art. 21 - O ensino de 2: grau desti- seguido o ensino regular no todo ou
cados relativos às habilitações profissio- § 3.' - Os exames supletivos pode-
na-se à formação integral do adoles- em parte.
nais deverão ser registrados em órgão cente. rão ser unificados na jurisdição de to-
local do Ministério da Educação e Cul- Parágrafo único - O ensino supletivo do um sistema de ensino, ou parte
tura. Parágrafo unico Para ingresso no abrangerá cursos e exames a serem deste, de acordo com normas especiais
ensino de 2.° grau, exigir-se-à a con- organizados nos vários sistemas, de baixadas pelo respectivo Conselho de
CAPfTULO 11 clusão do ensino de 1.' grau ou de es-
acordo com as normas baixadas pelos Educação.
Do ensino de 1: grau tu dos equivalentes. respectivos Conselhos de Educação. Art. 27- Desenvolver-se-ão, ao nível
A~t. 22 - O ensino de 2: grau terá Art. 25 - O ensino supletivo abran- de uma ou mais das quatro últimas sé-
~rt. 17 - O ensino de I: grau des-
tres ou quatro séries anuais conforme gerá, conforme as necessidades a aten- ries do ensino de 1.' grau, cursos de
tina-se à formação da criança e do
previsto para cada habilit~ção, com- der, desde a iniciação do ensino de aprendizagem ministrados a alunos de
pré-adolescente, variando em conteúdo
preendendo, pelo menos, 2.200 ou ler, escrever e contar e a formação 14 a 18 anos, em complementação da
140 profissional definida em lei específica escolarização regular e, a esse nível ou

141
cos, entre os professores e especialistas Parágrafo único - Respondem, na for-
ao de 2: grau, cursos intensivos de te estudos adicionais correspondentes a subordinados ao regime das leis do tra- ma da lei, solidariamente com o Poder
qualificação profissional. um ano letivo que incluirão, quando balho e os admitidos no regime do ser- Público, pelo cumprimento do preceito
Parágrafo único - Os cursos de apren- for o caso, formação pedagógica. viço público. constitucional da obrigatoriedade esco-
dizagem e os de qualificação darão di- § 2: - Os professores a que se refere Art. 36 - Em cada sistema de ensino. lar, os 'pais ou responsáveis e os empre-
reito a prosseguimento de estudos a letra "b" poderão alcançar, no exercí- haverá um estatuto que estruture a car- gadores de toda natureza de que os
quando incluírem disciplinas, áreas de cio do magistério, a 2.' série do ensino reira de magistério de 1.0 e 2: graus, mesmos sejam dependentes.
estudo e atividades que os tomem equi- de 2: grau mediante estudos adicionais com acessos graduais e sucessivos, regu- Art. 42 - O ensino nos diferentes graus-
valentes ao ensino regular, conforme correspondentes no mínimo a um ano lamentando as disposições específicas será ministrado pelos podereapüblícos
estabeleçam as normas dos vários siste- letivo. da presente Lei e complementando-as e, respeitadas as leis que o regulam, é
mas. ~ I
no quadro da organização própria do livre à iniciativa particular.
§ 3." - Os estudos adicionais referidos D
Art. 28 - Os certificados de aprova- sistema. Art. 43 - Os recursos públicos desti-
nos parágrafos anteriores poderão ser
ção em exames supletivos e os relati- Art. 37 - A admissão e a carreira de nados à educação serão aplicados pre-
objeto de aproveitamento em cursos
vos à conclusão de cursos de aprendi- ulteriores. professores e especialistas, nos estabele- ferencialmente na manutenção e.__de-
zagem e qualificação serão expedidos cimentos particulares de ensino de 1.0 senvolvimento do ensino oficial, de
Art. 31 - As licenciaturas de 1.° grau
pelas instituições que os mantenham.
e os estudos adicionais referidos no §
e 2: graus, obedecerão às disposições modo que se assegurem:
específicas des ta Lei, às normas cons- a) maior número possível de oportuni-
CAPíTULO V
2: do artigo anterior serão ministrados tantes obrigatoriamente dos respectivos dades educacionais;
nas universidades e demais instituições
Dos professores e especialistas regimentos e ao regime das Leis do b) a melhoria progressiva do ensino, o
que mantenham cursos de duração
Trabalho. aperfeiçoamento e a assistência ao ma-
plena.
Art. 29 - A formação de professores Art. 38 - Os sistemas de ensino esti- gistério e aos serviços de. educação;
e especialistas para o ensino de 1.°- e Parágrafo único - As licenciaturas de c) o desenvolvimento científico e tece
mularão, mediante planejamento apro-
2.° graus será feita em níveis que se I:grau e os estudos adicionais, de prefe- priado, o aperfeiçoamento e atualização nológico.
elevem progressivamente, ajustando-se rência nas comunidades menores, po-
constantes dos seus professores e espe- Art. 44 - Nos estabelecimentos ofi-
derão também ser ministrados em facul-
às diferenças culturais de cada região cialistas de Educação. ciais, o ensino de I: grau é gratuito
do País, e com orientação que atenda dades, centros, escolas, institutos e ou-
Art. 39 - Os sistemas de ensino devem dos 7 aos 14 anos, e o de níveis ulte-
aos objetivos específicos de cada grau, tros tipos de estabelecimentos criados
fixar a remuneração dos professores e riores sê-lo-á 'para quantos provarem
ou adaptados para esse fim, com auto-
às características' das disciplinas, áreas especialistas de ensino de I: e 2.° graus falta ou insuficiência de recursos e não
de estudo ou atividades e às fases de rização e reconhecimento na forma da
Lei. tendo em vista a maior qualificação em tenham repetido mais de um ano letivo
desenvolvimento dos educandos. cursos e estágios de formação, aperfei- ou estudos correspondentes no regime
Art. 32 - O pessoal docente do ensi- çoamento ou especialização, sem dis- de matrícula por disciplinas.
Art. 30 . - Exigir-se-à como formação
no supletivo terá preparo adequado às tinção de graus escolares em que atuem.
mínima para o exercício do magistério: Art. 45 - As instituições de ensino
características especiais desse tipo de
a) no ensino de 1.0 grau, da L" à 4." Art. 40 - Será condição para exercício mantidas pela iniciativa particular me-
ensino, de acordo com as normas esta-
série, habilitação específica de 2: grau; belecídas pelos Conselhos de Educação.
de magistério ou especialidade pedagó- recerão amparo técnico e financeiro
gica o registro profissional, em órgão do Poder Público, quando suas condi-
b) no ensino de I: grau, da 1." à 8." Art. 33 - A formação de administra- do Ministério da Educação e Cultura, ções de funcionamento forem julgadas
série, habilitação específica d~ grau dores, planejadores, orientadores, ins- dos titulares sujeitos à formação de satisfatórias pelos órgãos de fiscaliza-
superior, ao nível de graduação, repre- petores, supervisores e demais especia- grau superior. ção, e a suplementaçãc de seus recur-
sentada por licenciatura de I: grau ob- listas de educação será feita em curso sos se revelar mais econômica para o
tida em curso de curta duração; superior de graduação com duração ple- CAPITULO VI
atendimento do objetivo.
c) em todo o ensino de I: e 2.° graus, na ou curta, ou de pós-graduação. Do financiamento Parágrafo único - O valor dos auxí-
habilitação específica obtida em curso Art. 34 - A admissão de professores
Art. 41 - A educação constitui dever lios concedidos nos termos deste arti-
superior de graduação correspondente e especialistas no ensino oficial de I:
da União, dos Estados, do Distrito Fe- go será calculado com base no núme-
à licenciatura plena. e 2: graus far-se-á por concurso público
deral, dos Territórios, dos Municípios, ro de matrículas gratuitas e na moda-
§ I:- Os professores a que se refere de provas e títulos. obedecidas para ins- Iidadedos respectivos cursos, obedeci-
das empresas, da família e da comuni-
a letra "a" poderão lecionar 11a 5." e crição as exigências de formação cons- dos padrões mínimos de eficiência es-
dade em geral, que entrosarão recursos
6.' séries do ensino de 1.0 grau se a sua tan tes desta lei. colar previamente estabelecidos e ten-
e esforços para promovê-Ia e incentí-
habilitação houver sido obtida em qua- Art. 35 - Não haverá qualquer dis- do em vista o seu aprimoramento.
.vá-Ia.
tro séries ou, quando em três, median- tinção, para efeitos didáticos e técni-
143
142
Art. 46 - O amparo do Poder Públi- o respectivo sistema e dentro das pe- pulação a ser escolarizada, o respecti- no e do Distrito Federal será prestada
co J1 quantos demonstrarem aproveita- culiaridades locais, receptores de rádio vo estatuto do magistério, bem como pelos órgãos da administração do Mi-
mento e provarem falta ou insuficiên- e televisão educativos para o seu pes- a remuneração condigna e pontual dos nistério da Educação e Cultura e pelo
cia de recursos far-se-á sob forma de soal. professores e 9 progresso quantitativo Conselho Federal de Educação.
concessão de bolsas de estudo. Parágrafo UDlCO - As entidades par- e qualitativo dos serviços de ensino ve- Parágrafo único - A assistência téc-
Parágrafo único - Somente serãg con- ticulares que recebam subvenções ou rificado no biênio anterior. nica incluirá colaboração e suprimento
cedidas bolsas de estudo gratuitas no auxílios do Poder Público deverão co- § 2.· - A concessão do auxílio finan- de recursos financeiros para prepara-
ensino de 1.. grau quando não houver laborar, mediante solicitação deste, no ceiro aos sistemas estaduais e ao siste- ção,acompanhamento e avaliação dos
vaga em estabelecimento oficial que o ensino supletivo de adolescentes e ma do Distrito Federal far-se-á median- planos e projetos educacionais que ob-
aluno possa freqüentar com assidui- adultos, ou na promoção de cursos e te convênio. com base em planos e jetivam o atendimento das prescrições
dade. outras atividades com finalidade edu- projetos apresentados pelas respectivas do plano setorial de educação da
cativo-cultural, instalando postos de administrações e aprovados pelos Con- União.
Art. 47 - As empresas comerciais, in-
dustriais e .agrícolas são obrigadas a rádio ou televisão educativos. selhos de Educação.
Art. 58 - A legislação estadual su-
manter o ensino de 1.° grau gratuito
para seus empregados e o ensino dos
filhos destes entre os sete e os quator-
ze anos ou a concorrer para esse fim
Art. 52 - A União prestará assistên-
cia financeira aos Estados e ao Dis-
trito Federal para o desenvolvimento
de seus sistemas de ensino e organi-
f § 3.· - A concessão de auxílio finan-
ceiro aos programas de educação dos
Municípios integrados nos planos esta-
duais Iar-se-á mediante convênio, com
pletiva, observado o disposto no arti-
go 15 da Constituição Federal, estabe-
lecerá as responsabilidades do próprio
Estado e dos seus Municípios no de-
mediante a contribuição do salário-edu- zará O sistema federal, que terá cará- base em planos e projetos apresentados
senvolvimento dos diferentes graus de
cação, .na forma estabelecída por lei. ter supletivo e se estenderá por todo pelas respectivas administrações e
ensino e disporá sobre medidas que vi-
o país, nos estritos limites das defi- aprovados pelos Conselhos de Educa-
Art. 48 - O salário-educação instituí- sem tomar mais eficiente a aplicação
ciências locais. ção.
do pela Lei n," 4.440, de 27 de outu- dos recursos públicos destinados à edu-
bro de 1964, será devido por todas as Art. 53 - O Governo Federal esta- Art. 55 - Cabe à União organizar e cação.
empresas e demais entidades públicas belecerá e executará planos nacionais financiar os sistemas de ensino dos Ter-
de educação que, nos termos do artigo ritórios. segundo o planejamento setorial Parágrafo único - As providências de
ou' privadas vinculadas à Previdência
52, abrangerão os programas de inicia- que trata este artigo visarão à pro-
Social, ressalvadas as exceções previs- da educação.
tiva própria e os de concessão de au- gressiva passagem para a responsabili-
tas na legislação específica. Art. 56 - Cabe à União destinar re-
xílios. dade municipal de encargo e serviços
Art. 49 - As empresas e os proprie- cursos para a concessão de bolsas de
Parágrafo único - O planejamento se- de educação, especialmente de I:
tários rurais, que não puderem manter estudo.
torial da educação deverá atender às grau, que pela sua natureza possam ser
em suas glebas ensino para os seus § I.· - Aos recursos federais, os Es- realizados mais satisfatoriamente pelas
diretrizes e normas do Plano-Geral do
empregados, e os filhos destes, são tados, o Distrito Federal e os Municí- administrações locais.
Governo, de modo que a programação
obrigados, sem prejuízo do disposto no pios acrescerão recursos próprios para
a cargo dos órgãos da direção supe- Art, 59 - Aos municípios que não
artigo 47, a facilitar-lhes a freqüência o mesmo fim .
. rior do Ministério da Educação e Cul- aplicarem, em cada ano, pelo menos
à escola mais próxima ou a propiciar § 2.· - As normas que disciplinam a
tura se integre harmonicamente nesse 20% da receita tributária municipal no
a instalação e o funcionamento de es- Plano-Geral. concessão de bolsas de estudo decor-
colas gratuitas em suas propriedades. ensino de I: grau, aplicar-se-á o dis-

Art. 50 - As empresas comerciais e • Art. 54 - Para efeito de concessão de


auxílios, os planos dos sistemas de en-
rentes dos recursos federais seguirão
as diretrizes estabelecidas pelo Minis-
posto no art. 15, § 3.·, alínea f, da
Constituição.
industriais são ainda obrigadas a as- sino deverão ter a duração de quatro tério da Educação e Cultura, que po-
segurar, em cooperação, condições de anos, ser aprovados pelo respectivo J derá delegar a entidades municipais de Parágrafo único - Os municípios des-
aprendizagem aos seus trabalhadores assistência educacional, de que trata o tinarão ao ensino de I: grau pelo me-
Conselho de Educação e estar em con-
menores e a promover o preparo de sonância com as normas e critérios do § 2.· do art. 62, a adjudicação dos au- nos 20% das transferências que lhes
seu pessoal qualificado. planejamento nacional da educação. xílios. couberem no Fundo de Participação.
Art. 51 - Os sistemas de ensino atua- § 1.. - A concessão de auxílio fe- § 3: - O Programa Especial de Bol- Art. 60 - E vedado ao Poder Público
rão junto às empresas de qualquer na- deral aos sistemas estaduais de ensino sas de Estudo (PEBE) reger-se-á por e aos respectivos órgãos da adminis-
tureza, urbanas ou agrícolas, que te- e ao sistema do Distrito Federal visa- normas estabeleci das pelo Ministério do tração indireta criar ou auxiliar finan-
nham empregados residentes em suas rá corrigir as diferenças regionais de Trabalho e Previdência Social. ceiramente estabelecimentos ou servi-
dependências, no sentido de que ins- desenvolvimento sócio-econômico, ten- Art. 57 - A assistência técnica da ços de ensino que constituam duplica-
talem e mantenham, conforme dispuser do em vista a renda pet capita e a po- União aos sistemas estaduais de ensi- ção desnecessária ou dispersão prejudi-

144 145
cial de recursos humanos a juízo do CAPITULO VII
competente Conselho de Educação, cação que se organizem nos municípios [11 - Os novos estabelecimentos de-
Das disposições gerais onde haja condições para tanto. verão, para fins de autorização, indicar
Art. 61 - Os sistemas de ensino esti-
Art. 72 - A implantação do regime nos planos respectivos a forma pela
mularão as empresas que tenham em
Art. 64 - Os Conselhos de Educação instituído na presente lei far-se-á, pro- qual pretendem desenvolv~r, imediata
seus serviços mães de menores de sete
poderão autorizar experiências pedagó- gressivamente, segundo as peculiarida- ou progressivamente, o ensino comple-
anos a organizar e manter, diretamente
ou em cooperação, inclusive com o Po- gicas, com regimes diversos dos pres- des, possibilidades e legislação de cada to de 1: grau.
critos na presente lei, assegurando a sistema de ensino, com observância do Art. 76 - A iniciação para o trabalho
der Público, educação que preceda o
ensino de I: grau. validade dos estudos assim realizados. Plano Estadual de Implantação que e a habilitação profissional poderão ser
Art. 65 - Para efeito de registro e deverá seguir-se a um planejamento antecipadas:
Art. 62 - Cada sistema de ensino com-
exercício profissional, o Conselho Fe- prévio elaborado para fixar as linhas a) ao nível da série realmente alcança-
preenderá, obrigatoriamente, além de
deral de Educação fixará as normas de gerais daquele, e disciplinar o que da pela gratuidade escolar em cada
serviços de assistência educacional que
revalidação dos diplomas e certificados deva ter execução imediata. sistema, quando inferior à oitava;
assegurem aos alunos necessitados con-
das habilitações, correspondentes ao Parágrafo único - O planejamento
dições de eficiência escolar, entidades b) para a adequação às condições in-
ensino de 2: grau, expedidos por ins- prévio e o Plano Estadual de Implan-
que congreguem professores e pais de dividuais, inclinações e idade dos alu-
tituições estrangeiras.
alunos, com o objetivo de colaborar tação, referidos neste artigo, deverão nos.
para o eficiente funcionamento dos es- Art. 66 - Ficam automaticamente rea- ser elaborados pelos órgãos próprios do
justadas, quanto à nomenclatura, as ;"1'
respectivo sistema de ensino dentro de Art. 77 - Quando a oferta de profes-
tabelecimentos de ensino.
disposições da legislação anterior que 60 dias o primeiro e 210 o segundo, a sores, legalmente habilitados, não bas-
§ L' - Os serviços de assistência edu- permaneçam em vigor após a vigência tar para atender às necessidades do en-
partir da vigência desta lei.
cacional de que trata este artigo des- da presente lei. sino, perrnitir-se-á que lecionem, em
tinar-se-ão, de preferência, a garantir Art. 73 - O Ministro da Educação e caráter suplementar e a título precá-
Art. 67 - Fica mantido o regime es- Cultura, ouvido o Conselho Federal de
o cumprimento da obrigatoriedade es- rio:
pecial para os alunos de que trata o Educação, decidirá das questões susci-
colar e incfuirão auxílios para a aqui-
Decreto-lei n.' 1.044, de 21 de outubro a) no ensino de 1: grau, até a 8.' sé-
sição de material escolar, transporte, tadas pela transição do regime ante-
de 1969. ' rie os diplomados com habilitação pa-
vestuário, alimentação, tratamento mé- rior, para o que se institui na presente
ra 'o magistério ao nível da 4.' série
dico e dentário e outras formas de as- Art. ~8 - O ensino ministrado nos lei, baixando os atos que a tanto se
estabelecimentos militares é regulado de 2.° grau;
sistência familiar. façam necessários.
por legislação específica. b) no ensino de L' grau, até a 6.' sé-
§ 2: - O Poder Público estimulará a Art. 74 - Ficam integrados nos res-
rie os diplomados com habilitação pa-

I
I
organização de entidades locais de as-
sistência educacional, constituídas
pessoas de comprovada idoneidade, de-
de
Art. 69 - O Colégio Pedro 11 integra-
rá o sistema federal de ensino.
Art. 70 - As administrações dos sis-
pectivos sistemas estaduais os. estab~-
lecimentos particulares
dio até agora vinculados
de ensino me-
ao sistema
ra 'o magistério ao nível da 3.' série
de 2.° grau;
votadas aos problemas sócio-educacio- federal. c) no ensino de 2: grau, até a serie
temas de ensino e as pessoas jurídicas
final, os portadores de diploma relati-
nais que. em colaboração com a co- de direito privado poderão instituir, Art. 75 - Na implantação do regime
vo à licenciatura de 1.0 grau.
munidade, possam incumbir-se da exe- para alguns ou todos os estabelecimen- instituído pela presente lei, observar-
cução total ou parcial dos serviçCf' de tos de 1.' e 2.' graus por elas mantí- se-ão as seguintes prescrições em rela- Parágrafo único - Onde e quando
que trata este artigo, assim como da tidos, um regimento comum que, as- ção a estabelecimentos oficiais e par- persistir a falta real de professores,
adjudicação de bolsas de estudo. segurando a unidade básica estrutural ticulares de L' grau: após a aplicação dos critérios estabe-
Art. 63 - A gratuidade da escola ofi- e funcional da rede, preserve a neces- I - As atuais escolas primárias deve- lecidos neste artigo, poderão ainda le-
sária flexibilidade didática de cada es- rão instituir, progressivamente, as sé- cionar:
cial e as bolsas de estudo ~oferecidas
pelo Poder Público serão progressiva- cola. ries que Ihes faltam para alcançar o a) no ensino de 1: grau, até a 6.' sé-
mente substituídas, no ensino de 2: ensino completo de I: grau. rie, candidatos que hajam concluído a
grau, pela concessão de bolsas sujeitas CAPITULO VIII 8.' série e venham a ser preparados em
II - Os atuais estabelecimentos que
a restituição. cursos intensivos;
Das disposições transitórias mantenham ensino ginasial poderão
Parágrafo único - A resnrurçao de continuar a ministrar apenas as séries b) no ensino de 1.0 grau, até a 5.' sé-
que trata este artigo poderá fazer-se que lhes correspondem: redefin~d~s rie candidatos habilitados em exames
Art. 71 - Os Conselhos Estaduais de
em espécie ou em serviços profissio- quanto à ordenação e a composlç~o de' capacitação regulados. nos vários
Educação poderão delegar parte de
nais, na forma que a lei determinar. curricular, até que alcancem as oito sistemas, pelos respectivos Conselhos
suas atribuições a Conselhos de Edu-
da escola completa de l ." grau. de Educação;
146
147
,
c) nas demais serres do ensino de L"
grau e. no de 2.° grau, candidatos ha-
bilitados em exames de suficiência re-
mas expedidas
sistemas.
Art. 82 -
pela administração

Os atuais inspetores fe-


dos ( I I
gulados pelo Conselho Federal de Edu-
derais de ensino poderão ser postos à
cação e realizados em instituições ofi-
ciais de ensino superior indicados pe-
disposição dos sistemas que necessitem •
de sua colaboração, preferencialmente
lo mesmo Conselho.
daqueles em cuja jurisdição estejam 10- CONCLUSÁO
Art. 78 - Quando a oferta de pro- tados.
fessores licenciados não bastar para I
atender às necessidades do ensino, os
profissionais diplomados em outros
Art. 83 - Os concursos para cargos
do magistério, em estabelecimentos ofi-
ciais, cujas inscrições foram encerradas
I I
cursos de nível superior poderão ser
até a data da ·publicação desta lei, se- Feita a análise do objeto específico deste trabalho, qual seja, o
registrados no Ministério da Educação
rão regidos pela legislação citada nos
e Cultura, mediante complementação significado político do papel desempenhado pelo Congresso Nacional
respectivos editais.
de seus estudos, na mesma área ou em na elaboração das Leis n.OS 4.024/61, 5.540/68 e 5.692/71, podemos
áreas afins, onde se inclua a formação Art. 84 - Ficam ressalvados os direi-
tos dos atuais diretores, inspetores,
<I retomar as conclusões preliminares formuladas, portanto, à guisa de hi-
pedagógica, observados os critérios es-
tabelecidos pelo Conselho Federal de orientadores e administradores de es- pótese de trabalho, quando da realização de um estudo apresentado na
Educação. tabelecimentos de ensino, estáveis no forma de comunicação na Reunião Anual da SBPC, (cf. Saviani,
serviço público, antes da vigência da 1985:158-9).
Art. 79 - Quando a oferta de profis-
presente lei.
sionais legalmente habilitados para o
Art. 85 - Permanecem, para todo o 1. As emendas, apesar de não terem merecido a atenção dos estu-
exercício das funções de direção dos
estabelecimentos de um sistema, ou corrente ano, as exigências de idade e diosos da educação brasileira, constituem peça importante para a com-
parte deste, não bastar para atender às os critérios de exame supletivo cons- preensão da legislação do ensino e, conseqüentemente, da política edu-
suas necessidades, permitir-se-à que as tantes da legislação vigente, na data cacional. Com efeito, se a única maneira eficaz de esclarecer o sig-
respectivas funções sejam exerci das da promulgação desta lei.
nificado do produto é examinar o modo como foi produzido, cabe ana-
por professores habilitados para o Art. 86 - Ficam assegurados os direi-
tos dos atuais professores, com regis- lisar o processo de elaboração das leis de ensino para se compreender
mesmo grau escolar, com experiência
de magistério. tro definitivo no Ministério da Educa- o seu significado político e edúcativo. Ora, as emendas constituem
Art. 80 - Os sistemas de ensino de- ção, antes da vigência desta lei. parte integrante e destacada do processo de elaboração e discussão dos
verão desenvolver programas especiais Art. 87 - Ficam revogados os artigos projetos suscetíveis de serem convertidos em lei. O presente trabalho
de recuperação para os professores de números 18, 21, 23 a 29, 31 a 65, 92 tornou patente esse fenômeno ao procurar deslindar o sentido político
sem a formação prescrita no art. 29 a 95, 97 a 99, 101 a 103, 105, 109,
110, 113 e 116 da Lei n.' 4.024, de 20
das emendas e substitutivos apresentados pelos congressistas aos pro-
desta lei, a fim de que possam atingir
gradualmente a qualificação exigídâ. de dezembro de 1961, bem como as jetos de lei examinados.
Art, 81 - Os sistemas de ensino es- disposições de leis gerais e especiais 2. As emendas, por representarem a contribuição específica do
tabelecerão prazos, a contar da apro- que regulem em contrário ou de forma
Congresso Nacional aos projetos oriundos do Poder Executivo, consti-
vação do Plano Estadual referido no diversa a matéria contida na presente
lei. tuem a chave para compreender a função do Congresso Nacional na
artigo 72, dentro dos quais deverão os
estabelecimentos de sua jurisdição Art. 88 - Esta lei entrará em vigor legislação do ensino. Isto releva de importância no caso brasileiro
apresentar os respectivos regimentos na data de sua publicação. quando se constata, como o fez este estudo, que as reformas educacio-
adaptados à presente lei. Brasília, 11 de agosto de 1971; ISO: da nais têm, como regra, sido formuladas por iniciativa do Executivo.
Parágrafo único - Nos três primeiros Independência e 83.° da República.
,
anos de vigência desta lei, os estabe-
3. A compreensão da função do Congresso Nacional na legislação
lecimentos oficiais de 1.° grau, que não EMIL10 G. M~DlCI do ensino abre uma perspectiva inédita para os estudos de política
tenham regimento próprio, regularmen- [arbas G. Passarinho educacional. Isto porque, como se pretendeu demonstrar, torna-se pos-
te aprovado, deverão reger-se por nor- Júlio Barata. sível articular internamente as propostas educacionais com as suas de-
148 149
f
I
terminações políticas mais amplas. Com isto superam-se tanto os estu-
dos de política educacional que privilegiam a análise da legislação nos
aspectos administrativos e pedagógicos, como aqueles que privilegiam
o plano sócio-político servindo-se dos textos legais apenas como ilus-
de ascensão social, legitimação das diferenças e justificação dos prIVI-
légios, fazia-se necessário ajustá-Ia às novas condições políticas impon-
do-se, portanto, a reforma da organização escolar em seu conjunto, o
que veio a ser institucionalizado através da nova legislação educacio-
nal. Um indicador da continuidade do valor social da educação é a
trações das tendências políticas gerais.
manutenção em vigor das diretrizes gerais definidas pela Lei n,"
4. Na política educacional brasileira podem-se distinguir, a partir 4.024/61 nos cinco primeiros títulos, onde está consubstanciada a orien-
de 1945, duas fases nitidamente diferenciadas no que diz respeito à tação fundamental que deveria presidir a organização da educação es-
função do Congresso Nacional na legislação do ensino: colar brasileira em seu conjunto. Por seu turno, a nova estrutura fun-
cional, financeira e didático-pedagógica, preconizada para os ensinos de
a) A primeira fase corresponde à gênese da Lei n," 4.024/61 (Lei
1.0, 2.° e 3.° graus, constitui indicador do ajustamento da educação à
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), quando a função
ruptura política levada a cabo pelo movimento militar de 1964.
desempenhada foi de deformação, desfigurando o projeto ori-
ginal. No Capítulo 11 foram patenteadas as vicissitudes pelas 6. A primeira fase se desenrolou no quadro da "democracia res-
quais passou o projeto Mariani no decorrer de sua longa tra- trita". Embora circunscrita às elites, o jogo democrático se deu de
mitação no Congresso Nacional, apontando-se as alterações modo aberto, possibilitando uma crescente participação da sociedade
mais significativas nele introduzidas, assim como o sentido po- civil no processo político. Tal regime implicou um "pacto de domina-
lítico das mesmas. ção" entre diferentes setores sociais, nenhum dos quais se revelando
capaz, isoladamente, de exercer a hegemonia sobre o conjunto da so-
b) A segunda fase é marcada pela gênese das Leis n. 5.540/68
OS
ciedade. Em conseqüência, estribou-se na estratégia da "conciliação",
(Lei de Reforma Universitária) e 5.692/71 (Diretrizes e Bases
mediante a qual os diferentes setores, através de concessões mútuas,
do Ensino de 1.° e 2.° Graus), com a função de preservação
garantiam a continuidade do sistema de dominação. O referido pacto
garantindo e aperfeiçoando a orientação impressa aos projetos
previa a presença política da classe trabalhadora como massa de ma-
originais. O Capítulo 111 chamou a atenção para o empenho
nobra eleitoral, sendo-lhe, porém, vedado compartilhar do "condomínio
dos congressistas em preservar o espírito do projeto governa-
do poder". O regime em questão atingiu seu limite quando as pressões
mental contando, para isso, com a colaboração, ainda que tá-
dos setores não integrados no pacto exigiam a sua transformação, mo-
cita, da própria oposição. Por sua vez, o Capítulo IV pôs em
mento em que a defesa dos interesses nele albergados também já não
relevo a colaboração integral e irrestrita dos parlamentares
i. não apenas na preservação, mas no áperfeiçoamento do texto
mais podia ser feita sem alterã-lo radicalmente.
em consonância com o espírito que presidiu a elaboração do A educação expressou esse fenômeno à medida que as pressões po-
projeto original. Foram registradas a fidelidade e solicitude com pulares forçavam o modelo elitista a se abrir e a defesa do seu caráter
que diferentes membros do Congresso se empenharam em emen- elitista implicava, por sua vez, a alteração do próprio modelo. Assim
dar dispositivos do projeto que poderiam contrariar ou dar é que a Reforma Universitária possibilitou o deslocamento do chamado
margem a interpretações divergentes da orientação proveniente padrão de excelência para os cursos de pós-graduação e para a gradua-
do Poder Executivo. ção das grandes escolas, em geral, públicas, deixando a tarefa de ab-
sorver os novos contingentes de alunos para as escolas privadas, em
5. As duas fases mencionadas correspondem respectivamente aos geral institutos isolados, caracterizadas por duvidoso padrão de quali-
períodos pré e pós-1964, ilustrando eloqüentemente a ruptura política
dade. E a reforma do ensino de 1.° e 2.° graus acenou para uma aber-
li
levada a efeito pela Revolução de 1964. Tal ruptura política, é o que
tura ampla ao propor a universalização do ensino profissional a nível
se procurou mostrar, foi necessária em vista do objetivo que prevaleceu
de 2.° grau em nome do combate à fórmula "ensino secundário para
de garantir a continuidade da ordem sócio-econômica. Em conseqüência,
os nossos filhos e ensino profissional para os filhos dos outros". Entre-
para preservar o sentido social da educação enquanto mecanismo
151
150
tanto, ao diferenciar a terminalidade ideal ou legal, coincidente com a b) A função de "preservação" decorreu da cooptação exercida
conclusão do 2.° grau, da terminalidade real mediante a qual o ensino pelo Executivo em relação aos membros do Poder Legislativo.
profissional poderia ser antecipado para os alunos, as regiões ou as Fora excluída a possibilidade de contestação ao regime já que
escolas que não tivessem condições de ultrapassar a B.a, a 6.a ou mesmo o Ato Institucional n," 1 afirmava textualmente que "a revo-
a 4.a série do 1.° grau, a reforma acabou por converter a velha fór- lução não procura legitimar-se através do Congresso. Este é
mula nesta outra: "Terminalidade legal para os nossos filhos e termi- que recebe deste Ato Institucional, resultante do exercício de
ualidade.real para os filhos dos outros". Com isso a discriminação se Poder Constituinte, inerente a todas as revoluções, a sua legi-
manteve, conciliando-se, por essa via, a defesa dos interesses elitistas timação". Em conseqüência, os que insistiam em não consentir,
com a exigência de ampliação do sistema de ensino. E se a força da convertiam-se em alvos de medidas repressivas. Nessas condi-
quantidade marcou a uniformização do padrão de qualidade nas esco- ções, as demonstrações de força do Executivo eram comple-
las públicas, as grandes escolas privadas já tradicionais nesses níveis de mentadas pelo processo de cooptação dos membros do Legis-
ensino, bem como outras que surgiram em moldes semelhantes vieram lativo, restando à oposição, como se mostrou no Capítulo Il l,
em socorro do modelo anterior, garantindo a oferta do padrão diferen- a formulação de pálidos protestos, acabando, porém, por dar
ciado demandado pelas elites; inverteu-se, assim, no ensino de 1.0 e
seu consentimento à iniciativa do Executivo. Em relação à Lei
2.° graus, a relação público-privado estabelecida ao nível de 3.° grau. n." 5.692/71, o Capítulo IV evidenciou que sequer os "páli-
7. A segunda fase se desenrolou no quadro da "democracia exclu- dos protestos" tiveram lugar; ocorreu, portanto, um processo
dente", quando amplos setores da sociedade civil são deliberada e sis-- de cooptação integral. Na verdade nesse período o Legislativo
tematicamente excluídos do processo político. Para tanto, acionou-se a estava inteiramente submetido ao Executivo que acertava as
estratégia do "autoritarismo desmobilizador" mediante a qual se mar- decisões do Congresso com líderes destacados por antecipação
ginalizou compulsória e coercitivamente do processo político tanto as pelo presidente da República.
camadas trabalhadoras como as elites dissidentes.
No âmbito educacional a "democracia excludente" se expressou 9. Encarando-se o Estado como um conjunto constituído pela so-
através da adoção e difusão da ideologia tecnicista e do controle tecno- ciedade política e pela sociedade civil (cf. Gramsci, 1976: 149), con-
crático cujo pressuposto era a consideração da educação como uma clui-se que:
questão técnica e não política. Daí o processo de desmobilização maciça a) Na primeira fase, a sociedade civil ganhava crescente repre-
e também compulsória dos estudantes e intelectuais.
sentatividade perante a sociedade política. Em decorrência, o
8. O papel desempenhado pelo Congresso Nacional refletiu com Congresso, sendo o órgão da sociedade política mais direta-
fidelidade, nos dois casos, o processo político. Com efeito: mente ligado à sociedade civil, ganhava projeção e era inten-

a) A função de "deformação" decorreu da representação no Con- samente mobilizado, participando ativamente das grandes de-
gresso Nacional de diferentes grupos da sociedade civil com cisões da política nacional.
interesses conflitantes. O Capítulo 11 registrou a presença in-
b) Na segunda fase ocorreu uma hipertrofia da sociedade política
sistente de diferentes partidos ideológicos pressionando os par-
em detrimento da sociedade civil. A primeira sufocou a se-
lamentares no tocante aos rumos que caberia imprimir às dire-
trizes e bases da educação nacional. Os interesses conflitantes gunda no âmbito da organização e funcionamento do Estado.
foram harmonizados mediante a busca de um denominador co- Nessas condições o Legislativo se absteve de legislar e fiscali-
mum, o que significou a intervenção da estratégia da "conci- zar, evitando entrar em atrito com o Executivo. Caiu, portanto,
liação" sob cuja égide chegou-se ao texto finalmente conver- numa posição de imobilismo, agindo apenas por exigência e
tido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. em atendimento às necessidades do Executivo.

152 153

, !
10. No regime da "democracia excludente" o aparelho escolar foi
reorganizado no sentido de garantir, prolongar e perpetuar a hegemo- sonância com a nova fisionomia assumida pela sociedade brasileira ao
nia da sociedade política. Entretanto, a sociedade política, numa mani- longo das duas últimas décadas. Eis o sentido da palavra de ordem
festação determinada, não pode subsistir por muito tempo senão na dos governantes atuais: "transição ordeira e pacífica para a democra-
medida em que retira a sua força da representatividade que exerce em cia".
relação à sociedade civil. Tal fenômeno foi captado pelo próprio regime Entretanto, do ponto de vista da classe dominada, a referida tran-
autoritário que, a partir de 1974, ensaia o progressivo abandono da sição não se fará sem ruptura, isto é, sem romper o impasse que tem
estratégia autoritária buscando retomar a estratégia da conciliação, sen- caracterizado a questão da democracia na história da sociedade brasi-
sível ao fato de que os próprios mecanismos por ele acionados para leira. Sobre isso pondera Florestan Fernandes:
sua perpetuação colocavam contraditoriamente a exigência de sua trans-
formação. Com efeito, no plano educacional, contrariamente à despoli- "Nesse plano, não há O que conciliar e só existe uma estratégia - a da
tização pretendida, ocorreu uma crescente politização tanto nos deba- luta firme e intransigente por uma forma política de democracia que não
tes como nas práticas pedagógicas em todos os níveis, desde a pré-es- seja excludente e exclusiva, que assegure à massa popular dos mais ou
menos espoliados e excluídos e aos trabalhadores como classe o direito à
cola à pós-graduação.
revolução (dentro da ordem e .contra a ordem)" (Fernandes, 1986:89, grifos
11. Conseqüentemente, a crise política e, por decorrência, educa- no original).

cional que atingiu a "democracia excludente", deriva da falta de te-


presentatividade da sociedade política. A sociedade civil, através dos Dado que a expressão corrente nos círculos políticos atuais é
diferentes grupos que a compõem, reivindica uma mudança política ne- "transição democrática", a questão "de que mudança se trata?", antes
formulada, se converte nesta outra: "de que transição democrática se
cessária para garantir o lugar que lhe pertence no seio do Estado.
está falando?".
De que mudança se trata? Eis a questão.
Com efeito, a marca distintiva da referida expressão é a ambi-
A resposta dos grupos dominantes coincide com o encaminhamento güidade. E é no interior dessa ambigüidade que reside o potencial de
dado pelo próprio poder autoritário e já apontado no Capítulo I. Tra- retorno à estratégia da conciliação. Importa, pois, alertar para a ambi-
ta-se da "distensão lenta, gradual e segura" formulada em 1974 no güidade tanto lingüística como sociológica da expressão "transição de-
governo Geisel, seguida da "abertura democrática" a partir de 1979 no mocrática" .
governo Figueiredo, processo esse que desembocou na "Nova Repú-
A expressão é ambígua do ponto de vista da linguagem porque
blica" em 1985.
pode significar tanto "transição para a democracia" como uma "transi-
Até aí está se desenhando a volta da "conciliação pelo alto" me- ção que é feita democraticamente". E neste segundo caso a ambigüida-
diante a qual as elites di~igentes preservam seus privilégios adiando de se agrava porque a expressão silencia sobre o ponto de partida e
I: para um futuro remoto e indefinido a realização das aspirações popu- o ponto de chegada. Com efeito, transição significa passagem, movimen-
to de um ponto a outro. Cabe, então, perguntar: transição (democrá-
I lares.
tica) de que para quê?
Portanto, o problema político por execelência da classe dominante
I •
é, agora como antes, acionar as estratégias que garantam a continui- A pergunta supra pode ser respondida na medida em que se dis-
I dade da ordem sócio-econômica. Antes, quando a "democracia relativa"
sipa a ambigüidade sociológica, isto é, o sentido diverso decorrente da
diversidade dos grupos sociais que empunham essa mesma bandeira.
se inviabilizou, instalou-se a "democracia excludente" através de uma
Assim, os grupos dominantes, em especial a burguesia, tendem a inter-
ruptura política. Agora, diante da crise da "democracia excludente"
pretar a "transição democrática" na linha da estratégia da conciliação
procura-se, pela via da "transição democrática", retornar ao leito da
pelo alto, reduzindo-a a um mecanismo de preservação, numa forma
"democracia restrita" revestida, é óbvio, de nova roupagem, em con-
que incorpora o consentimento dos dominados, dos privilégios de que
154
155
Poder Legislativo não tem contado, salvo raras exceções, com represen-
desfrutam. Já os grupos dominados, em especial o proletariado, ten- tantes das camadas trabalhadoras. Tal constatação, à vista do caráter
dem, por seu lado, a considerar a "transição democrática" como um do Parlamento, que o define como o órgão da sociedade política mais
processo de libertação da sua condição de dominados. Como, porém, diretamente ligado à sociedade civil, significa que a organização dos
a expressão oculta essas diferenças sociológicas, ela acaba por desem- aparelhos privados de hegemonia tem sido predominantemente, senão
penhar mais freqüentemente o papel de camuflar os antagonismos que exclusivamente, uma prerrogativa decorrente dos interesses burgueses.
objetivamente caracterizam as relações entre as classes; camuflagem Nessas condições, compreende-se que a "transição democrática", vista
esta que abre espaço para a obtenção do consentimento dos dominados da perspectiva dos interesses dominantes, não passe de um processo
à transição conservadora transacionada pelas elites dirigentes. através do qual a sociedade política ganha legitimidade perante a so-
Ora, a palavra democracia traduz a idéia de liberdade e igualdade ciedade civil hegemonizada pela burguesia.
política. Cumpre, pois, considerar que, se a democracia é o horizonte Entretanto, na medida em que as classes trabalhadorNs ganham
natural da burguesia, ela não pode ser o horizonte da classe trabalhadora.
força no âmbito da sociedade civil organizando-se nos mais diferente~
Com efeito, para essa classe a libertação política pode não passar de um
tipos de associações, nos sindicatos e nos partidos políticos, cabe-lhes
mecanismo de legitimação da dominação econômica, social e cultural
conquistar espaço também no âmbito do Parlamento. Tal colocação,
a que está submetida. Portanto, não basta a democracia, isto é, a li-
bertação política. A meta é a libertação humana total que abrange, além acreditamos, pode ser articulada com a exigência a que se referiu FIo-
do aspecto político, os aspectos econômico, social e cultural em seu restan:
conjunto. Só assim será possível atingir a libertação política real, isto é,
"E preciso que a vanguarda dos oprimidos e dos proletários, que abriu o
a democracia real e não apenas formal. Vale dizer, com Marx:
seu caminho com dificuldades incontáveis e sacrifícios extremos, forneça
os quadros dos intelectuais orgânicos da massa popular insatisfeita e da
"Toda emancipação é a recondução do mundo humano, das relações, ao classe trabalhadora organizada. E que, por essa via, sindicatos, partidos
próprio homem. e organizações populares de contraviolência conquistem novos meios de
A emancipação política é a redução do homem, de um lado, a membro autonomia intelectual e política diante das classes burguesas e de seu siste-
da sociedade burguesa, a indivíduo egoísta independente e, de outro, a cidadão ma de poder" (Fernandes, 1986:88-9).
do Estado, a pessoa moral.
Somente quando o homem individual real recupera em si o cidadão Entre os meios a serem conquistados figuram, em nosso entender,
abstrato e se converte, como homem individual, em ser genérico, em seu
trabalho individual e em suas relações individuais; somente quando o
a escola e o Parlamento. Trata-se de espaços que, entre outros, neces-
homem tenha reconhecido e organizado suas forces propres como forças sitam ser ocupados pelos "intelectuais orgânicos da massa popular insa-
sociais e quando, portanto, já não separa de si a força social sob a forma tisfeita e da classe trabalhadora organizada". Aliás, ambos se encon-
de força política, somente então se processa a emancipação humana" (Marx,
tram em relação recíproca. Com efeito, se "a escola é o instrum~nto
s.d.:38, grifos no original) .•
para elaborar intelectuais de diversos níveis" (Gramsci, 1968:9), os
Como articular o Congresso Nacional e, através dele, a educação representantes da população no Parlamento necessitarão de certo grau
com a perspectiva das classes trabalhadoras em direção à libertação de elaboração que exigirá, em alguma medida, o concurso da escola.
humana total? Por outro lado, a abertura do sistema escolar, de modo a acolher os
membros das camadas populares e se ajustar às exigências de elabo-
Evidentemente, esse é um problema em aberto cuja abordagem
ração de seus intelectuais orgânicos, poderá ser agilizada através de
extrapola os limites fixados para o presente trabalho. Entretanto, pare-
decisões tomadas no âmbito do Poder Legislativo. Obviamente, tais
ce-nos oportuno lembrar que o encaminhamento da questão supra im-
decisões dependerão, se não da presença desse tipo de intelectual no
,. plica a exigência de pelo menos dois requisitos.
Parlamento, da pressão que sobre ele sejam capazes de exercer os orga-
O primeiro diz respeito à necessidade de alteração da composição nismos da sociedade civil representativos das camadas trabalhadoras.
do Parlamento. Com efeito, desde as suas origens até os dias atuais, o
157
156
Em conseqüência, é preciso que as lideranças dos movimentos
Propõe-se, em suma, que o Congresso Nacional considere a edu-
populares deixem de considerar a escola como um instrumento exclu-
cação nos mesmos termos com que Gramsci se referiu ao folclore:
sivo de dominação burguesa, deixando também de interpretar o inte-
resse da população pela escola como mero efeito da ideologia da as- (A educação) "não deve ser concebida como algo bizarro, mas como algo
censão social. Cabe-Ihes, ao contrário, considerar tal interesse como muito sério e que deve ser levado a sério. Somente assim o ensino será
expressão do desejo de libertação e do reconhecimento, ainda que in- mais eficiente e determinará realmente o nascimento de uma nova cultura
entre as grandes massas populares, isto é, desaparecerá a separação entre
tuitivo, de que a escola não deixa de ser um instrumento importante
cultura moderna e cultura popular ou folclore" (Gramsci, 1978b:186-7).
no processo de libertação da dominação. Em decorrência, cumpre tomar
a questão da escola pública como um tema de interesse central da po- Eis como, não em termos conclusivos, mas apenas indicativos,
pulação trabalhadora discutindo sua natureza, seu caráter e seu papel acredita-se ser possível articular a ação do Congresso Nacional em ma-
social e político de modo a aumentar entre os trabalhadores a capaci- téria de educação com a perspectiva das classes trabalhadoras em di-
dade de controle da escola bem como a capacidade de pressão sobre reção à libertação humana total.
os órgãos decisórios em matéria de educação, aí incluído o Congresso
Nacional.
O segundo requisito incide sobre a necessidade de que a questão
da educação popular ganhe maior importância no âmbito do Parla-
mento, passando os parlamentares a tratá-Ia de modo mais sistemático
e fundamentado. Com efeito, as soluções para os problemas educacio-
nais são, de certa forma, relativamente simples; a complexificação fre-
qüentemente decorre mais da tergiversação em torno das soluções. Isto
porque, na medida em que as soluções impliquem uma democratização
mais radical, elas acabam mexendo com os quadros de estratificação
da sociedade, atingindo,.em conseqüência, interesses à luz dos quais
todo um conjunto de reinterpretações da questão educacional é mobili-
zado. E o resultado dessas reinterpretações é o obscurecimento daque-
les pontos fundamentais que teriam que ser recuperados e garantidos
contra todos esses mecanismos de desvio.
Decorre daí a exigência de se desbastar o cipoal das diferentes
visões de educação que por \rezes se enredam, dificultando a fixação
do que é essencial. Por conseguinte, o que em si mesmo é relativamente
simples acaba exigindo uma certa atenção, um certo cuidado, um es-
tudo mais detido do conjunto das questões educacionais, a fim de que
possamos fixar com clareza os alvos a atingir e tomar as providências
cabíveis para torná-Ias realidade. Daí a necessidade de que os parla-
mentares modifiquem o modo de encarar as questões educacionais de-
dicando-se a elas com seriedade e espírito público, o que remete nova-
mente ao primeiro requisito, isto é, a necessidade de alteração da com-
posição do Parlamento.

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