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setembro de 20030

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The importance of being reidy (1)


Edson da Cunha Mahfuz

Edson da Cunha Mahfuz é arquiteto, professor titular da UFRGS,


diretor regional da Padovano e Associados Arquitetura S/C Ltda
(leia versão em espanhol)

Ainda que de um modo caricatural, podemos falar de dois caminhos que


foram se abrindo na arquitetura moderna brasileira a partir dos seus
inícios na década de 1930. De um lado, um caminho silencioso, de síntese
entre a arquitetura moderna européia, as tradições construtivas e urbanas
locais, e os problemas reais do país. Lúcio Costa é o representante mais
ilustre deste caminho. Por outro lado, uma via que, especialmente no
período pós-Brasilia, opta pela concentração na aparência do objeto
arquitetônico, reivindica como valores fundamentais sua originalidade e
ineditismo, e resulta mais preocupada em afirmar a “artisticidade” do
projeto do que em resolver os reais problemas arquitetônicos de um país
em desenvolvimento. Esta via, crescentemente egocêntrica e Conjunto Residencial Pedregulho, RJ, 1946
auto-expressiva, tem como representante máximo Oscar Niemeyer,
arquiteto cujo objetivo máximo ainda é, aos 95 anos de idade, causar
espanto e assombrar os usuários dos seus edifícios. O estado indigente
da arquitetura brasileira neste início de século pode ser parcialmente
explicado pelo abandono do caminho aberto por Lúcio Costa, em benefício
da opção “artística” ou da pura importação de modas estrangeiras (2).

A obra de Affonso Eduardo Reidy não apenas faz parte da vertente


silenciosa da arquitetura brasileira como é um dos seus principais

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representantes. Talvez o esquecimento a que Reidy foi relegado por um


longo tempo se deva exatamente ao fato de praticar uma arquitetura
discreta e nada preocupada em deixar marcas ou criar impacto. Apenas
recentemente seu trabalho começou a receber a atenção que merece,
mas qualquer exame superficial da arquitetura produzida no Brasil durante
o século vinte é suficiente para que se reconheça a importância de Reidy,
infelizmente falecido no auge da sua capacidade produtiva.

Como a de muitos arquitetos brasileiros que desenvolveram sua prática a


partir dos anos 1930, a arquitetura de Reidy se desenvolve a partir de
duas origens importantes: a influência intelectual de Lúcio Costa, e a
absorção de elementos da obra de Le Corbusier, notadamente
combinando os “5 pontos para uma nova arquitetura” com alguns tipos ou
estruturas formais extraídas da sua obra. No entanto, não é a afiliação
corbusiana que define a importância da sua obra, mas o modo em que
esta é desenvolvida e transcendida. Muitos, em várias partes do mundo,
também usaram como ponto de partida o sistema formal criado por Le
Corbusier, mas poucos foram capazes de ir além do seu uso como
imagen aggiornata e adaptá-lo tão bem às realidades locais quanto Reidy.

Nos seus projetos aparece um número restrito de elementos que vão


sendo recombinados de modo diferente a cada nova situação. O elemento
universal desse repertório é o edifício linear, usualmente um bloco
retangular que aparece em vários tamanhos e alturas, utilizado de modo
isolado, combinado com outros, dobrado ou curvado para adaptar-se ao
programa ou ao sítio. Também é evidente a presença de um número de
estruturas formais derivadas de Le Corbusier como, por exemplo: Edifício Viação férrea do Rio Grande do Sul, 1944

O esquema Pavilhão Suíço: uma placa de vários pisos que abriga a


parte repetitiva de um programa, acompanhada de um corpo mais
baixo, de configuração simples ou complexa, que abriga os
componentes especiais do programa (empregado por Reidy no
projeto para a Prefeitura do Rio de Janeiro);
A torre tripartida, de planta retangular ou hexagonal, com elementos
especiais na planta baixa e na cobertura (presente no projeto para
a Viação Férrea do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre);
O edifício linear curvo, talvez derivado do projeto de Le Corbusier
para o Rio de Janeiro, e evidente nos conjuntos do Pedregulho e
Marquês de São Vicente;
Solução seccional para terrenos em declive, com um pilotis no nível
da rua e vários andares abaixo e acima dele, utilizado também nos
dois conjuntos citados acima, e originado no arranha-céu que Le Sede da Prefeitura do Distrito Federal, RJ, 1938
Corbusier projetou para Argel..

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Mas a importância de Affonso Eduardo Reidy no panorama da arquitetura


moderna brasileira reside no fato de que o repertório herdado de Le
Corbusier vai gradualmente se refinando e ampliando na medida em que
enfrenta cada encargo específico. Em cada projeto, o significado não
emana dos elementos componentes, mas das relações estabelecidas
entre eles, cuja lógica é parcialmente decorrente do sítio e do programa,
mas não se resume a isso. Parece claro que o passo crucial em cada
projeto é o estabelecimento de relações formais e funcionais entre as
partes, assim como entre o todo e os elementos do entorno circundante.
Na obra de Reidy, as exceções formais ao sistema geral nunca são
resultado de um capricho pessoal, mas respostas à potencialidades
latentes no programa ou sítio, como bem ilustram as barras curvas
presentes nos conjuntos do Pedregulho e Marquês de São Vicente. Conjunto Residencial Marquês de São Vicente, RJ, 1952

Ao contrário de muitos arquitetos modernos da segunda ou terceira


geração, para Reidy o diálogo com a cidade tradicional era sempre um
aspecto fundamental do processo criativo, não apenas quando projetava
no casco histórico do Rio de Janeiro, mas também quando tinha que criar
uma nova condição urbana em áreas periféricas da cidade.

As características evolutiva, relacional e urbana da obra de Reidy são


lições que deveriam ser bem estudadas por aqueles preocupados em
recuperar o bom nível geral que a arquitetura brasileira apresentava até a
década de 1960. Elas aparecem com clareza nos dois principais conjuntos
residenciais que ele projetou, Pedregulho e Marquês de São Vicente.
Embora o primeiro, de 1946, seja muito mais conhecido (talvez porque foi
o único construído na sua totalidade), o segundo, de 1952, apresenta uma
evolução considerável em relação ao Pedregulho, pois pela maior
proximidade dos seus componentes logra criar espaços abertos com
maior definição espacial, criando uma versão moderna dos espaços
abertos da cidade tradicional.

Talvez não seja arriscado afirmar que Reidy atingiu tal domínio da escala
urbana porque todos os problemas arquitetônicos eram abordados com as
mesmas ferramentas projetuais. Ou seja, um interior, uma casa ou um
conjunto habitacional era visto como problemas análogos que requeriam
igualmente uma estrutura formal, por constituírem apenas diferentes
escalas de um mesmo problema.

Outra lição importante que podemos extrair dessa obra precocemente Conjunto Residencial Marquês de São Vicente, RJ, 1952, corte típico
interrompida é sua sistematicidade, ou seja, o desenvolvimento de um
modo de projetar que possa resolver o maior número possível de temas

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arquitetônicos. O procedimento sistemático de Reidy é o oposto do modo


sintomático de operar de muitos dos arquitetos de hoje, pois tratam os
problemas como se fossem únicos e requeressem soluções especiais do
ponto de vista formal. Mesmo quando a obra de Reidy evolui e muda em
termos das soluções que passa a empregar, a tendência é fazer com que
uma solução para um problema especial gere uma nova série, como é o
caso da íntima relação existente entre o Colégio Brasil-Paraguai e o MAM,
cuja solução estrutural e volumétrica é análoga. Tivesse ele continuado sua
carreira, esta série não teria sido interrompida no segundo caso. Colégio Brasil-Paraguai, Assunção, Paraguai, 1952.

Fonte das imagens: BONDUKI, Nabil. Affonso Eduardo Reidy.


Num momento de desorientação da prática arquitetônica em todas as Editorial Blau / Instituto Bardi, Porto / São Paulo, 2000.
partes, as lições oferecidas pela arquitetura de Affonso Eduardo Reidy
podem ser de extrema utilidade. Sistematicidade, descrição e espírito
público são qualidades que dão crédito a qualquer prática arquitetônica.

Notas

1
Texto originalmente publicado em DPA, 19, Barcelona, maio 2003, p. 12-15. O título é um jogo de
palavras, onde o nome de Reidy substitui a palavra ready na frase the importance of being ready, que
pode ser traduzida para o português como a importância de estar pronto, no sentido de atento.

2
Embora existam no Brasil arquitetos da importância de um Paulo Mendes da Rocha, Lelé, Eduardo
de Almeida e outros, suas obras são raras exceções entre milhares de obras de baixíssima
qualidade.

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