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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO – MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS

A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE TRIGUEIRINHO


SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES

Porto Alegre
2007
MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS

A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE TRIGUEIRINHO


SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES

Dissertação apresentada como requisito


parcial para a obtenção do grau de Mestre em
Ciências Sociais, pelo Programa de Mestrado
em Ciências Sociais, área de concentração
“Organizações e Sociedade”, da Faculdade de
Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Orientador: Prof. Dr. Léo Peixoto Rodrigues

Porto Alegre
2007
MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS

A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE TRIGUEIRINHO


SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES

Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de


Mestre em Ciências Sociais, pelo Programa de Mestrado em Ciências Sociais, área
de concentração “Organizações e Sociedade”, da Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Aprovada em: ________ de ____________ de __________.

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________
Orientador: Prof. Dr. Léo Peixoto Rodrigues

_________________________________________
Prof. Dr. Airton Luiz Jungblut – PUCRS

_________________________________________
Prof. Dr. José Rogério Lopes – UNISINOS

Porto Alegre
2007
Dedico esta dissertação aos meus
pais, Daniel e Eny, aos quais devo
tudo, aos quais amo
profundamente, e a meu sobrinho e
afilhado, Marcelo, na esperança de
despertar seu interesse pela
pesquisa.
AGRADECIMENTOS

Ao Prof. Dr. Roberto Ramos, professor do Doutorado da Faculdade de


Comunicação Social - PUCRS (Famecos-PUCRS), que me recomendou ao
Mestrado de Ciências Sociais – PUCRS;

À Profª. Dra. Merli Leal Silva, professora coordenadora do Curso de


Publicidade e Propaganda da Universidade Metodista – IPA, da Escola Superior de
Propaganda e Marketing (ESPM) e do PGCOM-PUCRS, que me incentivou a fazer o
mestrado e me indicou ao PGCS-PUCRS;

Ao Prof. Me. Eduardo Pedro Corsetti, professor de Ciências Políticas da


UFRGS, que me recomendou ao PGCS;

Ao Prof. Dr. Glênio Nicola Povoas, professor da Famecos, pela cópia do filme
de Trigueirinho “Bahia de todos os Santos” (1960) e pelas cópias da revista
“Anhembi” de crítica de cinema editada pela USP;

Ao Prof. Dr. Hélio R.S. Silva, professor convidado do PGCS, por ter
despertado em mim a admiração por Erving Goffman e pelo interacionismo
simbólico, além de suas ricas orientações extra-oficiais;

Ao Prof. Dr. João Luís Medeiros, ex-professor convidado do PGCS, pelo


incentivo, consideração e orientações;

Ao Prof. Dr. Ricardo Mariano, professor permanente do PGCS, excelente


ouvidor, mediador e coordenador;

Ao Prof. Dr. Édson Gastaldo, professor do PGCS–UNISINOS, pelas


orientações e por seu parecer sobre as alterações requeridas pela Banca, mesmo
sem termos nos conhecido pessoalmente;
Agradeço ao ex-colega, ex-vice reitor da UNISC, Me. Marcos Moura Batista
dos Santos, atual Coordenador do Departamento de Antropologia da UNISC, por
seu parecer sobre as alterações requeridas pela Banca;

Agradeço ao ex-colega, Me. João Paulo Cunha, professor de política da


graduação da UFRGS, por seu parecer das alterações sugeridas pela Banca;

À professora Dra. Mª Suzana Arrosa Soares, professora do PGCS-UFRGS,


pelo seu parecer e consultoria em relação as alterações sugeridas pela Banca;

Ao Prof. Me. Celso Dias, professor da FACCAT, pela orientação providencial


e apoio emocional;

À Profª. Me. Ivone Bengochea, professora da Faculdade São Judas Tadeu,


por sua ajuda metodológica e didática na apresentação oral;

Ao Prof. Dr. José Rogério Lopes, professor do PGCS-UNISINOS, pela


disposição em contribuir, mesmo sem nos conhecermos pessoalmente até o
momento da Banca. Ele é um mestre que não só transmite conhecimento, mas
ensina pelo próprio exemplo. Esta é a verdadeira maestria, uma vocação que me re-
encantou pelo ofício do educador;

Agradeço ao Professor Dr. Léo Peixoto Rodrigues, pela sua re-orientação em


relação as alterações sugeridas pela Banca;

Ao tempo, o melhor dos mestres, senhor da razão e da justiça;

AO MEU MESTRE, MESTRE DOS MESTRES, MESTRE DOS ANJOS E DOS


HOMENS.
A escolha do Mestre

Um mestre guiado pelo 'ego' atua


de maneira mental: retém
informações, dá ordens, exige,
testa, escolhe por você, aprisiona,
quer que você dependa dele,
impõe, pressiona, exclui, dá
importância ao status, insiste na
obediência, afirma ser autoridade
máxima, busca reconhecimento
pessoal.

Um mestre guiado pelo altruísmo:


ensina sem reservas, sugere,
orienta, incentiva, deixa que você
faça suas escolhas, confere poder,
quer que você seja independente,
respeita, apóia, inclui, está
disponível para todos, incentiva o
crescimento pessoal.
LISTA DE QUADROS

QUADRO 1 - AXIOMAS QUE DEFINEM A TEORIA DO INTERACIONISMO


SIMBÓLICO........................................................................................................172
QUADRO 2 - AXIOMAS SOCIOLÓGICOS DA INTERAÇÃO FACE A FACE..173
QUADRO 3 – CATEGORIAS DAS INTITUIÇÕES TOTAIS-GOFFMAN...........197
QUADRO 4 - CATEGORIAS DE ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO....198
QUADRO 5 - CATEGORIAS DE ANÁLISE DOS RITOS DA INTERAÇÃO
DIMENSIONADAS COMO CATEGORIAS CONVERGENTES.........................214
RESUMO

A presente pesquisa teve como objetivo estudar “Figueira”, uma comunidade


fechada, onde residem aproximadamente trezentas pessoas. A principal meta dessa
instituição é ser uma escola de formação e instrução espiritual. “Figueira” localiza-se
nas áreas rural e urbana da cidade de Carmo da Cachoeira, Estado de Minas
Gerais. Foi fundada em 1987 pelo ex-cineasta do período Cinema Novo, José
Hipólito Trigueirinho Netto, mais conhecido por Trigueirinho. Ele escreveu dezenas
de livros com profecias do fim do mundo e sobre o resgate da terra com ajuda de
extraterrestres. A grande predição de Trigueirinho trata da operação resgate da raça
humana, que salvará o seu grupo do fim do mundo. Para os membros da
comunidade serem resgatáveis precisam mudar o comportamento, o que implica
sujeitar-se a uma purificação até chegar à santidade, à perfeição moral do ser
humano. A possibilidade de resgate é um incentivo à mudança de padrão de
personalidade. A finalidade é torná-los humildes, sem liberdade de escolha, sem
livre-arbítrio para acatar ordens e funções alheias à natureza deles, assim podendo
atender aos objetivos coletivos de “Figueira”. Trigueirinho reuniu seguidores. As
relações dele com seus guiados estão estreitamente ligadas as suas qualidades
proféticas. Grupos de pessoas internas e externas de “Figueira” cumprem suas
normas, seguem regras quotidianas e trabalham em atividades gratuitas e
voluntárias. A fim de tornar os seres humanos que transitam por “Figueira”
resgatáveis há também redes de serviço no Brasil e no mundo. O perfil desses
colaboradores assemelha-se ao dos estigmatizados, divergentes, outsiders,
liminares, retraídos, marginais, deslocados, rebeldes, perdidos, desenraizados,
minorias, artistas, etc.
Com o objetivo de contextualizar, compreender e explicar a comunidade
“Figueira”, o referencial teórico e metodológico utilizado é o interacionismo simbólico.
Este estudo sobre o mundo dos atores sociais, denominados hóspedes e/ou
visitantes itinerantes de “Figueira”, tem como um dos seus interesses principais
fornecer uma versão sociológica do “eu” (self) em interação neste ambiente.
Enfocamos o mundo do ator social não-internado, isto é, os hóspedes e/ou visitantes
itinerantes que se hospedam em “Figueira”. Apresentamo-nos como colaboradores e
ficamos hospedados. Colocamos-nos no próprio espaço das interações para
observar participativamente como a integração faz a vida social naquele espaço.
Procuramos nos integrar à vida cotidiana e não chamar a atenção. Não pudemos
usar gravadores, filmadoras nem fotografar. Estes equipamentos são proibidos no
local. Tampouco foram feitos questionários. Não pesquisamos as características
macrossociológicas. Não levamos em conta o tempo e a história. Procuramos
examinar as ações e relações impessoais. Foram seis observações participantes no
campo da pesquisa. O estudo foi feito buscando compreender os atores sociais
denominados hóspedes e/ou visitantes itinerantes que permanecem
temporariamente e que, ao interagirem com os residentes ou internos, sejam
auxiliares ou coordenadores, entram em conflito em função da sujeição hierárquica.
Isto gera um clima de tensão permanente, pois as disciplinas, normas, regras e
tarefas impostas pelo grupo de “Figueira”, liderado por Trigueirinho, interferem no
“eu” (self) ou personalidade deles. Buscamos, também na obra de Goffman, trazer à
luz a relevância sociológica das pesquisas das instituições totais, porque
condicionam os atores sociais. Regras e normas estipulam, modelam, determinam o
comportamento e o que devem pensar coletivamente em virtude de pertencerem ou
não àquele grupo específico. Nossa hipótese é que “Figueira” possa ser classificada,
parcialmente, como uma instituição total por possuir muitas características
semelhantes a esse fenômeno. O mais importante é a percepção da sua influência
sobre o “eu” (self), sobre o comportamento, o pensamento e até os sentimentos dos
que estão ligados a ela direta ou indiretamente.

Palavras-chaves: Instituição total; Interação face a face; Interacionismo simbólico.


RESUMEN

La presente investigación tuvo como objetivo estudiar “Figueira”, una


comunidad cerrada, donde viven cerca de trescientas personas, teniendo como meta
principal ser una escuela de formación e instrucción espiritual. “Figueira” está
ubicada en el área rural y urbana de la ciudad Carmo da Cachoeira, Estado de
Minas Gerais. Fue fundada en 1987, por el ex-cineasta del período Cinema Novo,
José Hipólito Trigueirinho Netto, más conocido por Trigueirinho, que escribió
decenas de libros con profecías del fin del mundo y el rescate de la tierra con ayuda
de extraterrestres. La gran profecia de Trigueirinho habla sobre la operación rescate
de la raza humana, la cual salvará su grupo del ‘fin del mundo’, pero para que estas
personas puedan ser rescatadas necesitan pasar por un cambio de comportamiento,
y para que eso ocurra es necesario sujetarse a una purificación hasta llegar a la
santidad, a la perfección moral del ser humano. Ese rescate y cambio de patrón de
personalidad tienen la finalidad de hacerlos humildes, sin libertad de elección, sin
libre albedrío, para que acaten ordenes y funciones ajenas a su naturaleza
individual, para así poder atender los objetivos colectivos de “Figueira”. Las
relaciones del Trigueirinho con el grupo que guía están estrechamente unidas a sus
calidades proféticas. De ese modo, Trigueirinho unió un grupo de seguidores, logra
hacer que grupos de personas internas y externas de “Figueira” cumplan sus
normas, reglas cotidianas y trabajen en actividades gratuitas y voluntarias, con el fin
colectivo último de transformación de los seres humanos rescatables que transitan
por “Figueira”, ellos son los colaboradores externos o itinerantes que forman parte
de las Cadenas de Servicios en Brasil y en el mundo. El perfil de estos
colaboradores es semejante al de los estigmatizados divergentes, outsiders,
liminares, recogidos, marginales, desplazados, rebeldes, perdidos, desarraigados,
minorías, artistas, etc. Con el objetivo de contextualizar, comprender y explicar la
comunidad “Figueira” utilizamos, como referencial teórico y metodológico, el
“Interaccionismo Simbólico”. Este estudio de la comunidad “Figueira”,
particularmente, el mundo de los actores sociales, denominados por nosotros como
huéspedes y/o visitantes itinerantes de la comunidad “Figueira”, tiene entonces
como uno de sus intereses principales, procurar la mayor aproximación posible con
una versión sociológica del “yo” (self) en interacción, destacamos en esta
investigación, el mundo del actor social no internado, de los huéspedes y/o visitantes
itinerantes que son huéspedes en “Figueira”. Nos presentamos como colaboradores
y quedamos como huéspedes en “Figueira”. Nos colocamos en el propio espacio de
las interacciones para hacer una observación participante en las interacciones, para
observar como la integración hace la vida social en “Figueira”. Buscamos integrarnos
a la vida cotidiana de “Figueira” para poder observar, sin llamar la atención sobre
nosotros. Por eso no pudimos utilizar grabadores, filmadoras, ni fotografías, se
prohíbe estos instrumentos en “Figueira”. También no hicimos cuestionarios.
Utilizamos la técnica de observación participante de las interacciones ocurridas en la
comunidad “Figueira”. No investigamos las características macro sociológicas de la
comunidad “Figueira”, no, no consideramos el tiempo, la historia, buscamos
examinar las interacciones más interpersonales que pueden ocurrir en la comunidad
por divergencia entre relaciones de poder. Utilizamos el método de investigación
creado por Goffman, para observar de forma participativa las interacciones. Fueron
seis observaciones participantes en el campo de investigación, la cual fue hecha
buscando la comprensión presentada por los actores sociales denominados de
huéspedes y/o visitantes itinerantes, los cuales viven, temporalmente, en “Figueira” y
que al relacionarse con los actores sociales denominados residentes o internos,
como auxiliares o coordinadores, entran en conflicto en función de la sujeción
jerárquica generando un clima de tensión permanente por la interferencia al su “yo”
(self) o personalidad, debido a las disciplinas, normas, reglas y tareas impuesta por
el grupo de “Figueira”, a su vez, liderados por Trigueirinho. Buscamos, también en la
obra de Goffman traer a la luz la relevancia sociológica de las investigaciones de las
Instituciones Totales, porque son locales de condicionamiento de los actores
sociales, donde reglas y normas de interacción social estipulan, modelan,
condicionan, determinan el comportamiento interaccional de aquellos que
pertenecen al grupo en interacción. Hay un interés sociológico en las investigaciones
sobre Instituciones Sociales, porque en estos espacios, las reglas y normas
condicionan como los actores sociales deben pensar, comportarse e interaccionar
colectivamente, en virtud de haceren parte o no de aquel grupo específico. Nuestra
hipótesis es que “Figueira” pueda ser clasificada, parcialmente, como una Institución
Total por poseer muchas características semejantes a las de Instituciones Totales,
pero, lo más importante es la percepción de su influencia sobre el ‘yo’ (self), sobre el
comportamiento, el pensamiento y incluso los sentimientos de los que están unidos
a ella directa o indirectamente.

Palabras Clave: Institución total; Interacción cara a cara; Interaccionismo simbólico


SUMÁRIO

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL...................1


PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL.............1
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS.............................................1
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS....................................1
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO – MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS........1
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO – MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS1
MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS........................................................................1
MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS...............................................................1
A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE
TRIGUEIRINHO SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES.....................1
A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE
TRIGUEIRINHO SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES....................1
PORTO ALEGRE...............................................................................................................1
PORTO ALEGRE..................................................................................................1
2007 1
2007.......................................................................................................................1
MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS........................................................................1
MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS...............................................................1
A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE
TRIGUEIRINHO SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES.....................1
A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE
TRIGUEIRINHO SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES....................1
ORIENTADOR: PROF. DR. LÉO PEIXOTO RODRIGUES............................................1
ORIENTADOR: PROF. DR. LÉO PEIXOTO RODRIGUES.................................1
PORTO ALEGRE...............................................................................................................1
PORTO ALEGRE..................................................................................................1
2007 1
2007.......................................................................................................................1
MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS........................................................................3
MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS...............................................................3
A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE
TRIGUEIRINHO SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES.....................3
A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE
TRIGUEIRINHO SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES....................3
DISSERTAÇÃO APRESENTADA COMO REQUISITO PARCIAL PARA A
OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM CIÊNCIAS SOCIAIS, PELO
PROGRAMA DE MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS, ÁREA DE
CONCENTRAÇÃO “ORGANIZAÇÕES E SOCIEDADE”, DA FACULDADE DE
FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE
CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL.................................................................3
APROVADA EM: ________ DE ____________ DE __________.......................3
BANCA EXAMINADORA................................................................................................3
BANCA EXAMINADORA.....................................................................................3
ORIENTADOR: PROF. DR. LÉO PEIXOTO RODRIGUES............................................3
ORIENTADOR: PROF. DR. LÉO PEIXOTO RODRIGUES.................................3
PROF. DR. AIRTON LUIZ JUNGBLUT – PUCRS .........................................................3
PROF. DR. AIRTON LUIZ JUNGBLUT – PUCRS ..............................................3
PROF. DR. JOSÉ ROGÉRIO LOPES – UNISINOS .........................................................3
PROF. DR. JOSÉ ROGÉRIO LOPES – UNISINOS ............................................3
PORTO ALEGRE...............................................................................................................3
PORTO ALEGRE..................................................................................................3
2007 3
2007.......................................................................................................................3
5
..............................................................................................................................5
AGRADECIMENTOS........................................................................................................7
AGRADECIMENTOS............................................................................................7
AO PROF. DR. ROBERTO RAMOS, PROFESSOR DO DOUTORADO DA
FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL - PUCRS (FAMECOS-PUCRS),
QUE ME RECOMENDOU AO MESTRADO DE CIÊNCIAS SOCIAIS – PUCRS; 7
À PROFª. DRA. MERLI LEAL SILVA, PROFESSORA COORDENADORA DO
CURSO DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA DA UNIVERSIDADE
METODISTA – IPA, DA ESCOLA SUPERIOR DE PROPAGANDA E
MARKETING (ESPM) E DO PGCOM-PUCRS, QUE ME INCENTIVOU A FAZER
O MESTRADO E ME INDICOU AO PGCS-PUCRS;.............................................7
AO PROF. ME. EDUARDO PEDRO CORSETTI, PROFESSOR DE CIÊNCIAS
POLÍTICAS DA UFRGS, QUE ME RECOMENDOU AO PGCS;..........................7
AO PROF. DR. GLÊNIO NICOLA POVOAS, PROFESSOR DA FAMECOS,
PELA CÓPIA DO FILME DE TRIGUEIRINHO “BAHIA DE TODOS OS
SANTOS” (1960) E PELAS CÓPIAS DA REVISTA “ANHEMBI” DE CRÍTICA
DE CINEMA EDITADA PELA USP;.......................................................................7
AO PROF. DR. HÉLIO R.S. SILVA, PROFESSOR CONVIDADO DO PGCS,
POR TER DESPERTADO EM MIM A ADMIRAÇÃO POR ERVING GOFFMAN E
PELO INTERACIONISMO SIMBÓLICO, ALÉM DE SUAS RICAS
ORIENTAÇÕES EXTRA-OFICIAIS;.......................................................................7
AO PROF. DR. JOÃO LUÍS MEDEIROS, EX-PROFESSOR CONVIDADO DO
PGCS, PELO INCENTIVO, CONSIDERAÇÃO E ORIENTAÇÕES;......................7
AO PROF. DR. RICARDO MARIANO, PROFESSOR PERMANENTE DO
PGCS, EXCELENTE OUVIDOR, MEDIADOR E COORDENADOR;....................7
AO PROF. DR. ÉDSON GASTALDO, PROFESSOR DO PGCS–UNISINOS,
PELAS ORIENTAÇÕES E POR SEU PARECER SOBRE AS ALTERAÇÕES
REQUERIDAS PELA BANCA, MESMO SEM TERMOS NOS CONHECIDO
PESSOALMENTE;..................................................................................................7
AGRADEÇO AO EX-COLEGA, EX-VICE REITOR DA UNISC, ME. MARCOS
MOURA BATISTA DOS SANTOS, ATUAL COORDENADOR DO
DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DA UNISC, POR SEU PARECER
SOBRE AS ALTERAÇÕES REQUERIDAS PELA BANCA;.................................8
AGRADEÇO AO EX-COLEGA, ME. JOÃO PAULO CUNHA, PROFESSOR DE
POLÍTICA DA GRADUAÇÃO DA UFRGS, POR SEU PARECER DAS
ALTERAÇÕES SUGERIDAS PELA BANCA;.......................................................8
À PROFESSORA DRA. Mª SUZANA ARROSA SOARES, PROFESSORA DO
PGCS-UFRGS, PELO SEU PARECER E CONSULTORIA EM RELAÇÃO AS
ALTERAÇÕES SUGERIDAS PELA BANCA;.......................................................8
AO PROF. ME. CELSO DIAS, PROFESSOR DA FACCAT, PELA
ORIENTAÇÃO PROVIDENCIAL E APOIO EMOCIONAL; ..................................8
À PROFª. ME. IVONE BENGOCHEA, PROFESSORA DA FACULDADE SÃO
JUDAS TADEU, POR SUA AJUDA METODOLÓGICA E DIDÁTICA NA
APRESENTAÇÃO ORAL;......................................................................................8
AO PROF. DR. JOSÉ ROGÉRIO LOPES, PROFESSOR DO PGCS-
UNISINOS, PELA DISPOSIÇÃO EM CONTRIBUIR, MESMO SEM NOS
CONHECERMOS PESSOALMENTE ATÉ O MOMENTO DA BANCA. ELE É
UM MESTRE QUE NÃO SÓ TRANSMITE CONHECIMENTO, MAS ENSINA
PELO PRÓPRIO EXEMPLO. ESTA É A VERDADEIRA MAESTRIA, UMA
VOCAÇÃO QUE ME RE-ENCANTOU PELO OFÍCIO DO EDUCADOR;.............8
AGRADEÇO AO PROFESSOR DR. LÉO PEIXOTO RODRIGUES, PELA SUA
RE-ORIENTAÇÃO EM RELAÇÃO AS ALTERAÇÕES SUGERIDAS PELA
BANCA;...................................................................................................................8
AO TEMPO, O MELHOR DOS MESTRES, SENHOR DA RAZÃO E DA
JUSTIÇA;................................................................................................................8
AO MEU MESTRE, MESTRE DOS MESTRES, MESTRE DOS ANJOS E DOS
HOMENS.................................................................................................................8
LISTA DE QUADROS.....................................................................................................11
LISTA DE QUADROS.........................................................................................11
QUADRO 1 - AXIOMAS QUE DEFINEM A TEORIA DO INTERACIONISMO
SIMBÓLICO 172...................................................................................................11
QUADRO 2 - AXIOMAS SOCIOLÓGICOS DA INTERAÇÃO FACE A FACE
173.........................................................................................................................11
QUADRO 3 – CATEGORIAS DAS INTITUIÇÕES TOTAIS-GOFFMAN 197....11
QUADRO 4 - CATEGORIAS DE ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO 198
...............................................................................................................................11
QUADRO 5 - CATEGORIAS DE ANÁLISE DOS RITOS DA INTERAÇÃO
DIMENSIONADAS COMO CATEGORIAS CONVERGENTES 214....................11
RESUMO.............................................................................................................12
RESUMO.............................................................................................................12
A PRESENTE PESQUISA TEVE COMO OBJETIVO ESTUDAR “FIGUEIRA”,
UMA COMUNIDADE FECHADA, ONDE RESIDEM APROXIMADAMENTE
TREZENTAS PESSOAS. A PRINCIPAL META DESSA INSTITUIÇÃO É SER
UMA ESCOLA DE FORMAÇÃO E INSTRUÇÃO ESPIRITUAL. “FIGUEIRA”
LOCALIZA-SE NAS ÁREAS RURAL E URBANA DA CIDADE DE CARMO DA
CACHOEIRA, ESTADO DE MINAS GERAIS. FOI FUNDADA EM 1987 PELO
EX-CINEASTA DO PERÍODO CINEMA NOVO, JOSÉ HIPÓLITO
TRIGUEIRINHO NETTO, MAIS CONHECIDO POR TRIGUEIRINHO. ELE
ESCREVEU DEZENAS DE LIVROS COM PROFECIAS DO FIM DO MUNDO E
SOBRE O RESGATE DA TERRA COM AJUDA DE EXTRATERRESTRES. A
GRANDE PREDIÇÃO DE TRIGUEIRINHO TRATA DA OPERAÇÃO RESGATE
DA RAÇA HUMANA, QUE SALVARÁ O SEU GRUPO DO FIM DO MUNDO.
PARA OS MEMBROS DA COMUNIDADE SEREM RESGATÁVEIS PRECISAM
MUDAR O COMPORTAMENTO, O QUE IMPLICA SUJEITAR-SE A UMA
PURIFICAÇÃO ATÉ CHEGAR À SANTIDADE, À PERFEIÇÃO MORAL DO
SER HUMANO. A POSSIBILIDADE DE RESGATE É UM INCENTIVO À
MUDANÇA DE PADRÃO DE PERSONALIDADE. A FINALIDADE É TORNÁ-
LOS HUMILDES, SEM LIBERDADE DE ESCOLHA, SEM LIVRE-ARBÍTRIO
PARA ACATAR ORDENS E FUNÇÕES ALHEIAS À NATUREZA DELES,
ASSIM PODENDO ATENDER AOS OBJETIVOS COLETIVOS DE “FIGUEIRA”.
TRIGUEIRINHO REUNIU SEGUIDORES. AS RELAÇÕES DELE COM SEUS
GUIADOS ESTÃO ESTREITAMENTE LIGADAS AS SUAS QUALIDADES
PROFÉTICAS. GRUPOS DE PESSOAS INTERNAS E EXTERNAS DE
“FIGUEIRA” CUMPREM SUAS NORMAS, SEGUEM REGRAS QUOTIDIANAS
E TRABALHAM EM ATIVIDADES GRATUITAS E VOLUNTÁRIAS. A FIM DE
TORNAR OS SERES HUMANOS QUE TRANSITAM POR “FIGUEIRA”
RESGATÁVEIS HÁ TAMBÉM REDES DE SERVIÇO NO BRASIL E NO
MUNDO. O PERFIL DESSES COLABORADORES ASSEMELHA-SE AO DOS
ESTIGMATIZADOS, DIVERGENTES, OUTSIDERS, LIMINARES, RETRAÍDOS,
MARGINAIS, DESLOCADOS, REBELDES, PERDIDOS, DESENRAIZADOS,
MINORIAS, ARTISTAS, ETC. .............................................................................12
COM O OBJETIVO DE CONTEXTUALIZAR, COMPREENDER E EXPLICAR A
COMUNIDADE “FIGUEIRA”, O REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO
UTILIZADO É O INTERACIONISMO SIMBÓLICO. ESTE ESTUDO SOBRE O
MUNDO DOS ATORES SOCIAIS, DENOMINADOS HÓSPEDES E/OU
VISITANTES ITINERANTES DE “FIGUEIRA”, TEM COMO UM DOS SEUS
INTERESSES PRINCIPAIS FORNECER UMA VERSÃO SOCIOLÓGICA DO
“EU” (SELF) EM INTERAÇÃO NESTE AMBIENTE. ENFOCAMOS O MUNDO
DO ATOR SOCIAL NÃO-INTERNADO, ISTO É, OS HÓSPEDES E/OU
VISITANTES ITINERANTES QUE SE HOSPEDAM EM “FIGUEIRA”.
APRESENTAMO-NOS COMO COLABORADORES E FICAMOS
HOSPEDADOS. COLOCAMOS-NOS NO PRÓPRIO ESPAÇO DAS
INTERAÇÕES PARA OBSERVAR PARTICIPATIVAMENTE COMO A
INTEGRAÇÃO FAZ A VIDA SOCIAL NAQUELE ESPAÇO. PROCURAMOS
NOS INTEGRAR À VIDA COTIDIANA E NÃO CHAMAR A ATENÇÃO. NÃO
PUDEMOS USAR GRAVADORES, FILMADORAS NEM FOTOGRAFAR.
ESTES EQUIPAMENTOS SÃO PROIBIDOS NO LOCAL. TAMPOUCO FORAM
FEITOS QUESTIONÁRIOS. NÃO PESQUISAMOS AS CARACTERÍSTICAS
MACROSSOCIOLÓGICAS. NÃO LEVAMOS EM CONTA O TEMPO E A
HISTÓRIA. PROCURAMOS EXAMINAR AS AÇÕES E RELAÇÕES
IMPESSOAIS. FORAM SEIS OBSERVAÇÕES PARTICIPANTES NO CAMPO
DA PESQUISA. O ESTUDO FOI FEITO BUSCANDO COMPREENDER OS
ATORES SOCIAIS DENOMINADOS HÓSPEDES E/OU VISITANTES
ITINERANTES QUE PERMANECEM TEMPORARIAMENTE E QUE, AO
INTERAGIREM COM OS RESIDENTES OU INTERNOS, SEJAM AUXILIARES
OU COORDENADORES, ENTRAM EM CONFLITO EM FUNÇÃO DA
SUJEIÇÃO HIERÁRQUICA. ISTO GERA UM CLIMA DE TENSÃO
PERMANENTE, POIS AS DISCIPLINAS, NORMAS, REGRAS E TAREFAS
IMPOSTAS PELO GRUPO DE “FIGUEIRA”, LIDERADO POR TRIGUEIRINHO,
INTERFEREM NO “EU” (SELF) OU PERSONALIDADE DELES. BUSCAMOS,
TAMBÉM NA OBRA DE GOFFMAN, TRAZER À LUZ A RELEVÂNCIA
SOCIOLÓGICA DAS PESQUISAS DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, PORQUE
CONDICIONAM OS ATORES SOCIAIS. REGRAS E NORMAS ESTIPULAM,
MODELAM, DETERMINAM O COMPORTAMENTO E O QUE DEVEM PENSAR
COLETIVAMENTE EM VIRTUDE DE PERTENCEREM OU NÃO ÀQUELE
GRUPO ESPECÍFICO. NOSSA HIPÓTESE É QUE “FIGUEIRA” POSSA SER
CLASSIFICADA, PARCIALMENTE, COMO UMA INSTITUIÇÃO TOTAL POR
POSSUIR MUITAS CARACTERÍSTICAS SEMELHANTES A ESSE
FENÔMENO. O MAIS IMPORTANTE É A PERCEPÇÃO DA SUA INFLUÊNCIA
SOBRE O “EU” (SELF), SOBRE O COMPORTAMENTO, O PENSAMENTO E
ATÉ OS SENTIMENTOS DOS QUE ESTÃO LIGADOS A ELA DIRETA OU
INDIRETAMENTE. ...............................................................................................12
RESUMEN...........................................................................................................14
RESUMEN...........................................................................................................14
SUMÁRIO.........................................................................................................................16
SUMÁRIO............................................................................................................16
CAPÍTULO 1.....................................................................................................114
INTRODUÇÃO...............................................................................................................114
INTRODUÇÃO..................................................................................................114
1 INTRODUÇÃO................................................................................................115
ESTA DISSERTAÇÃO TEM COMO OBJETIVO APRESENTAR O ESTUDO
DA COMUNIDADE “FIGUEIRA”. PARA TANTO FORAM ORGANIZADOS
CINCO CAPÍTULOS. A INTRODUÇÃO É O PRIMEIRO. .................................115
NO SEGUNDO HÁ O HISTÓRICO DE “FIGUEIRA”. TRAÇAMOS A
TRAJETÓRIA PESSOAL DO FUNDADOR DA COMUNIDADE, TRAZENDO À
LUZ ALGUNS DADOS DA SUA BIOGRAFIA, SUA FORMAÇÃO DE DIRETOR
DE CINEMA NO BRASIL E NO EXTERIOR, SEUS TRABALHOS E OBRAS NA
ÁREA, SEUS SUCESSOS E FRACASSOS PROFISSIONAIS ATÉ A
DESISTÊNCIA DA CARREIRA DE CINEASTA E A POSTERIOR FUNDAÇÃO
DA COMUNIDADE “NAZARÉ”, DE ONDE FOI EXCLUÍDO PELO PRÓPRIO
GRUPO DEVIDO À SUA FORMA DE ADMINISTRÁ-LA. APÓS SAIR DA
“NAZARÉ”, TRIGUEIRINHO FUNDA A COMUNIDADE “FIGUEIRA”, UMA
ORGANIZAÇÃO AINDA MAIS FECHADA QUE A “NAZARÉ”.
CONCOMITANTEMENTE À ADMINISTRAÇÃO DE “FIGUEIRA”,
TRIGUEIRINHO ESCREVEU DEZENAS DE LIVROS COM PROFECIAS DO
FIM DO MUNDO E O RESGATE DA TERRA COM AJUDA DE
EXTRATERRESTRES. HOJE VIVE ISOLADO.................................................115
DEPOIS, APRESENTAMOS A COMUNIDADE “FIGUEIRA”,
PROPRIAMENTE DITA, SUA LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA, O NÚMERO
APROXIMADO DE RESIDENTES, OBJETIVO PRINCIPAL, EXTENSÃO
TERRITORIAL, SUA FAUNA E FLORA, UM PANORAMA GERAL DAS
ATIVIDADES COTIDIANAS E OS PERFIS DAS PESSOAS QUE PODEM
PARTICIPAR DAS ROTINAS E TAREFAS. .....................................................115
A ESTRUTURA FÍSICA DA COMUNIDADE, A UTILIZAÇÃO DO ESPAÇO
GEOGRÁFICO TEM RELAÇÃO COM A ORGANIZAÇÃO ESPIRITUAL E
HIERÁRQUICA. A ORGANIZAÇÃO HIERÁRQUICA SEGUE O MODELO DE
PIRÂMIDE. O LÍDER VITALÍCIO TRIGUEIRINHO FICA NO TOPO (O
PROFETISMO TORNOU-SE SUA FORMA DE ASCENDÊNCIA), OS GRUPOS
EXTERNOS E ITINERANTES NA BASE E, INTERMEDIANDO AMBOS, OS
COORDENADORES MAIS PRÓXIMOS DO LÍDER. ........................................115
DESCREVEMOS A SEDE, AS ATIVIDADES E FUNÇÕES DAS CASAS NA
ÁREA URBANA, DOS SETORES E MONASTÉRIOS NAS ÁREAS RURAIS E
DOS GRUPOS ITINERANTES DO BRASIL E EXTERIOR QUE SE HOSPEDAM
E PARTICIPAM DAS ATIVIDADES DA COMUNIDADE “FIGUEIRA”. ...........115
A DIVISÃO DE TRABALHO, DE TAREFAS E DE ATIVIDADES, DESCRITA
NESTE TRABALHO, É CONSEQÜÊNCIA DO DESENVOLVIMENTO DA
ORGANIZAÇÃO. UMA CARACTERÍSTICA A SE DESTACAR SÃO OS
CONFLITOS DECORRENTES DO CHOQUE DE VALORES DO GRUPO DE
RESIDENTES INTERNOS E DO GRUPO EXTERNO ITINERANTE. OUTRO
FATOR QUE DESENCADEIA DIVERGÊNCIAS É O INTERESSE DO GRUPO
ESTAR ACIMA DAS INDIVIDUALIDADES. TAMBÉM O MODO COMO AS
TAREFAS DEVEM SER EXECUTADAS E O TEMPO DE DURAÇÃO DAS
MESMAS SÃO PREVISTOS PELO GRUPO DE COORDENADORES
INTERNOS, SEM ESPAÇO PARA CRIATIVIDADE, LIBERDADE DE ESCOLHA
E LIVRE-ARBÍTRIO, AOS GRUPOS DE EXTERNOS ITINERANTES. ...........116
238.....................................................................................................................117
TAMBÉM APRESENTAMOS AS FORMAS DE SUBSISTÊNCIA DA
COMUNIDADE: PRODUÇÃO AGRÍCOLA PARA SUBSISTÊNCIA; TROCA DO
EXCEDENTE; DOAÇÕES DE ALIMENTOS, REMÉDIOS, EQUIPAMENTOS,
ROUPAS, DINHEIRO, ETC.; MÃO-DE-OBRA VOLUNTÁRIA E GRATUITA;
VENDA DE LIVROS, FITAS K-7, CDS, FITAS DE VÍDEO (VHS). ...................116
DESCREVEMOS A CULTURA ESPIRITUAL DE “FIGUEIRA”, O
EREMITÉRIO, ONDE VIVEM OS EREMITAS EM RECLUSÃO; SEUS
MONASTÉRIOS FEMININOS E MASCULINOS, RECLUSOS E SEMI-
RECLUSOS; AS REGRAS, NORMAS, DISCIPLINAS E HÁBITOS ADVINDOS
DA ATIVIDADE ESPIRITUAL; A FORMAÇÃO OU REQUISITOS DOS
MONGES, OBLATOS, ZELADORES, SACERDOTES, SERES-ESPELHOS,
RESIDENTES, ASPIRANTES E INSTRUTORES SÃO OUTRAS
PECULIARIDADES AQUI ESCLARECIDAS. ...................................................116
ESTIVEMOS PESSOALMENTE EM “FIGUEIRA”, E CONSTATAMOS QUE
LÁ RESIDEM MAIS OU MENOS TREZENTAS PESSOAS. SUA BASE É A
VIDA GRUPAL, HÁ PESSOAS DE TODAS AS IDADES E NACIONALIDADES
COM DIFERENTES VIVÊNCIAS. “FIGUEIRA” TEM COMO PRINCIPAL
OBJETIVO SER UMA ESCOLA DE FORMAÇÃO E INSTRUÇÃO ESPIRITUAL.
COMO UM CENTRO ESPIRITUAL, CULTIVA O SERVIÇO E A VIDA
ESPIRITUAL. .....................................................................................................116
AS TERRAS DE “FIGUEIRA” LOCALIZAM-SE NA CIDADE DE CARMO DA
CACHOEIRA, INTERIOR DE MINAS GERAIS, REGIÃO SUDESTE DO
BRASIL. SUA ÁREA GEOGRÁFICA É, ATUALMENTE, UMA FAZENDA DE
UNS CEM HECTARES. “FIGUEIRA” POSSUI FAUNA E FLORA
ABUNDANTES, PLANTAÇÕES PARA SUBSISTÊNCIA, CASAS PARA
ALOJAMENTO DOS VISITANTES, BIBLIOTECAS PARA ESTUDO, LOCAIS
PARA CURAS ALTERNATIVAS, LABORATÓRIOS ARTESANAIS E OFICINAS
DE TRABALHO, OBRAS E MANUTENÇÃO. OS ALOJAMENTO SÃO
SIMPLES, TANTO NAS CASAS DA CIDADE, QUANTO NAS DA FAZENDA, E
SÃO DISTRIBUÍDOS AOS VISITANTES PELA SECRETARIA GERAL
CONFORME A DISPONIBILIDADE E NECESSIDADES DAS TAREFAS
INTERNAS..........................................................................................................116
NÃO ERA E NÃO É PERMITIDO, NO PERÍODO EM QUE NOS
HOSPEDAMOS ALI, CHAMADAS TELEFÔNICAS E CONTATOS EXTERNOS
CONSIDERADOS DESNECESSÁRIOS POR PARTE DA ADMINISTRAÇÃO.
NÃO SÃO PERMITIDOS TELEFONES CELULARES, FILMADORAS,
MÁQUINAS FOTOGRÁFICAS OU GRAVADORES. OS RESIDENTES
OPTARAM PELO CELIBATO. OS HÓSPEDES OU VISITANTES SÃO
OBRIGADOS A ASSUMIR ESSA CONDIÇÃO ENQUANTO PERMANECEM NO
LOCAL. ENQUANTO OS VISITANTES ESTÃO OCUPANDO OS QUARTOS,
SÃO PROIBIDAS VISITAS AO RECINTO ÍNTIMO. EM “FIGUEIRA” NÃO SE
ESTIMULAM INTIMIDADES E VÍNCULOS EMOCIONAIS...............................117
O ALIMENTO É DISPONIBILIZADO, DE ACORDO COM AS ESTAÇÕES DO
TEMPO, É PLANTADO EM “FIGUEIRA” ORGANICAMENTE E SEM
AGROTÓXICOS. OS FRUTOS DA TERRA NÃO SÃO COMERCIALIZADOS E
NENHUM DOS VOLUNTÁRIOS QUE PARTICIPAM DESSAS TAREFAS É
REMUNERADO. AS REFEIÇÕES SÃO VEGETARIANAS E INTEGRAIS, SEM
LATICÍNIOS, AÇÚCAR REFINADO, SAL, ALHO, CEBOLA, TEMPEROS,
CAFÉ, BEBIDAS ALCOÓLICAS OU REFRIGERANTES. NÃO SÃO USADAS
BEBIDAS ALCOÓLICAS, DROGAS OU FUMO...............................................117
OS QUE SE HOSPEDAM EM “FIGUEIRA” DEVEM LEVAR ROUPAS
SIMPLES PARA TRABALHOS, AGASALHOS PARA TRABALHOS
NOTURNOS OU MATINAIS, RELÓGIO PARA CUMPRIR A AGENDA DE
TAREFAS, DESPERTADOR PARA ACORDAR CEDO, LANTERNA PARA
TRABALHOS NOTURNOS E PARA FALTA DE LUZ E DEMAIS OBJETOS
PESSOAIS. O VESTUÁRIO DEVE SER DISCRETO. ......................................117
AS TAREFAS COMPÕEM-SE DE LIMPEZA DE CASA, PREPARO DE
ALIMENTOS, DESIDRATAÇÃO DE LEGUMES E FRUTAS, TRABALHOS NA
PADARIA, LAVANDERIA, MARCENARIA E MANUTENÇÃO,
HORTICULTURA, JARDINAGEM, PLANTIOS E COLHEITAS EM GERAL.
MUTIRÕES PARA ABERTURAS DE ESTRADAS, RADIOAMADORISMO
PARA CONTATOS DE EMERGÊNCIA, APICULTURA, EDIÇÃO E DIFUSÃO
DE LIVROS, FOLHETOS, BOLETINS E GRAVAÇÕES, RECEPÇÃO DE
HÓSPEDES, ALÉM DE ATENDIMENTO A PESSOAS NECESSITADAS.......117
TODAS AS ATIVIDADES SÃO GRUPAIS, OS ESTUDOS E AS TAREFAS
SÃO DESENVOLVIDOS NAS ÁREAS DE TRABALHO. AOS SEMI-INTERNOS,
HÓSPEDES, VISITANTES ITINERANTES SÃO DISTRIBUÍDOS TAREFAS
QUE DEVEM SER REALIZADAS NOS SEUS DEVIDOS SETORES. AS
TAREFAS COMEÇAM ANTES QUE O DIA AMANHEÇA E SEGUEM ATÉ À
TARDINHA. BEM CEDO, O GRUPO TODO COOPERA NA LIMPEZA BÁSICA
DOS AMBIENTES. SÓ DEPOIS É QUE É SERVIDO O CAFÉ DA MANHÃ. HÁ
REFEIÇÕES AO MEIO-DIA E À NOITE. O RECOLHIMENTO PARA O SONO
DEVE INICIAR-SE ÀS 20H30MIN. O SILÊNCIO DEVE SER RESPEITADO A
PARTIR DAS 21H30MIN. ..................................................................................117
AS PALESTRAS COM TRIGUEIRINHO ACONTECEM SEMANALMENTE, EM
ESPECIAL, NO DIA DA VIGÍLIA MENSAL, NOS ENCONTROS DE ORAÇÃO E
NAS REUNIÕES DOS MONASTÉRIOS. OS ENCONTROS DO SETOR SAÚDE
(MÉDICOS E TERAPEUTAS) REALIZAM-SE TAMBÉM SEMANALMENTE. OS
ENCONTROS DE ORAÇÃO OCORREM TRÊS VEZES AO ANO. .................118
COMO FOMOS, POR VÁRIAS VEZES, À “FIGUEIRA”, CONSTATAMOS QUE
HÁ UMA ORGANIZAÇÃO FÍSICA POR SETORES. SÃO DUAS ÁREAS, UMA
URBANA E UMA RURAL NA FAZENDA. A URBANA SITUA-SE
GEOGRAFICAMENTE NA CIDADE DE CARMO DA CACHOEIRA, INTERIOR
DE MG. ENCONTRA-SE ALI A CASA 1, QUE FOI A PRIMEIRA SEDE NO
INÍCIO EM 1987. ELA É DESIGNADA SECRETARIA GERAL DE “FIGUEIRA”,
COORDENA E DISTRIBUI TAREFAS. NA ÁREA RURAL, HÁ UMA FAZENDA
DE MAIS OU MENOS CEM HECTARES E HÁ UM SETOR QUE CHAMA-SE
“VIDA CRIATIVA”, ONDE SÃO FEITOS PLANTIO DE HORTAS, COLHEITA E
ARMAZENAMENTO...........................................................................................118
EM “FIGUEIRA” HÁ, ATUALMENTE, SETE MONASTÉRIOS. ALGUNS SÃO
REAIS, FÍSICOS, COM LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA PRECISA, ONDE
VIVEM OS RESIDENTES INTERNOS; OUTROS SÃO VIRTUAIS, AINDA NÃO
SE MATERIALIZARAM FISICAMENTE, NÃO TÊM LOCALIZAÇÃO
GEOGRÁFICA, SÃO CONSIDERADOS UM “MODO DE VIDA”, UMA
FILOSOFIA, SEM PRECISAR DE UM LOCAL FÍSICO CONCRETO
PROPRIAMENTE DITO: ....................................................................................118
O MONASTÉRIO 1 É FEMININO, SEMI-RECLUSO. LOCALIZA-SE NA
FAZENDA E É CHAMADO FIGUEIRA 1 OU F1. ALI HÁ O PÁTIO COM UMA
ÁREA ABERTA E OUTRA RECLUSA, SENDO ESTA ÚLTIMA O LOCAL
ONDE RESIDEM MONJAS, QUE SÃO DESESTIMULADAS A TER
QUALQUER CONTATO SOCIAL COM O GRUPO SEMI-INTERNO E COM O
PRÓPRIO GRUPO INTERNO. ..........................................................................118
O MONASTÉRIO 2 É MASCULINO, SEMI-RECLUSO. LOCALIZA-SE NA
FAZENDA E É CHAMADO DE FIGUEIRA 2 OU F2. HÁ UMA ÁREA RECLUSA,
ONDE FICAM OS MONGES. ............................................................................118
O MONASTÉRIO 3 É MISTO, EREMÍTICO (RECLUSO).FIGUEIRA 3 OU F3
LOCALIZA-SE NA FAZENDA. É DESIGNADO EREMITÉRIO, ONDE
ATUALMENTE RESIDE TRIGUEIRINHO E MAIS DUAS PESSOAS. ESTE
TRIO VIVE COMO EREMITA E NÃO TEM CONTATO SOCIAL COM O GRUPO
INTERNO, MUITO MENOS COM O GRUPO EXTERNO OU SEMI-INTERNO.
DOS TRÊS, APENAS TRIGUEIRINHO PODE TRANSITAR LIVREMENTE POR
QUALQUER SETOR OU TER CONTATO SOCIAL COM QUEM BEM LHE
APROUVER. SÃO PERMITIDOS RETIROS EREMÍTICOS EM “FIGUEIRA”. O
INTERESSADO DEVE LEVAR UMA BARRACA E SUA PRÓPRIA
ALIMENTAÇÃO, POIS FICARÁ NO EREMITÉRIO SEM CONTATO COM
NINGUÉM............................................................................................................118
O MONASTÉRIO 4 É MISTO, EXTERNO. LOCALIZA-SE NA CASA 4, QUE
FICA NA CIDADE DE CARMO DA CACHOEIRA. ...........................................119
O MONASTÉRIO 5 É MISTO, EXTERNO. LOCALIZA-SE EM F1 NA
FAZENDA. .........................................................................................................119
O MONASTÉRIO 6 É MISTO, DOMICILIAR. LOCALIZA-SE EM CIDADES
DISTANTES DA FAZENDA “FIGUEIRA”. ........................................................119
O MONASTÉRIO 7 É MISTO, ITINERANTE. LOCALIZA-SE EM CIDADES
DISTANTES DA FAZENDA “FIGUEIRA”. ........................................................119
A ORGANIZAÇÃO “FIGUEIRA” ESTÁ ABERTA PARA PESSOAS
ABNEGADAS E ÚTEIS QUE FORMAM GRUPOS QUE PODERIAM SER
DENOMINADOS DE SEMI-INTERNOS OU ITINERANTES, HÓSPEDES,
VISITANTES, SIMPATIZANTES, COLABORADORES, ADEPTOS,
DISCÍPULOS OU REDES DE SERVIÇO. HOSPEDAM-SE EM “FIGUEIRA”
PARA OUVIR AS PALESTRAS DE TRIGUEIRINHO. COMPRAM LIVROS,
EXECUTAM TAREFAS, EM TROCA, “FIGUEIRA” FORNECE COMIDA PARA
O CORPO E “ALIMENTO” PARA O ESPÍRITO. .............................................119
PERCEBEMOS, NAS VEZES EM QUE VISITAMOS “FIGUEIRA”, QUE
TRIGUEIRINHO, DEVIDO À SUA PERSONALIDADE FORTE E A SEU
CARISMA, POSSUI ASCENDÊNCIA SOBRE O GRUPO, ESTÁ, PORTANTO,
NO TOPO DA PIRÂMIDE HIERÁRQUICA. TRIGUEIRINHO, POR SER
CINEASTA, POR VIAJAR PELO MUNDO, TEVE UMA VIDA INTELECTUAL,
UMA CULTURA MAIS VASTA QUE OS INTEGRANTES DE SEU GRUPO,
ADQUIRIU MAIS CONHECIMENTOS, MAIS PODER INTELECTUAL. A
“PODER DO SABER”, DE MAIOR SOMA DE CONHECIMENTOS, LEVOU-O
A SE TORNAR LÍDER, SUPERIOR EM RELAÇÃO ÀS PESSOAS DO SEU
GRUPO, PODENDO ASSIM ATRAIR, EM TORNO DE SI, QUANTIDADE DE
SIMPATIZANTES E A ORGANIZAR COMUNIDADES. ...................................119
A GRANDE PROFECIA DE TRIGUEIRINHO, HOJE CONSIDERADO UM
PROFETA PELO SEU GRUPO, FALA SOBRE A “OPERAÇÃO RESGATE” DA
RAÇA HUMANA. ELA SALVARÁ O SEU GRUPO DO FIM DO MUNDO.
PORÉM PARA QUE ESSAS PESSOAS SEJAM RESGATÁVEIS PRECISAM
PASSAR POR UMA MUDANÇA DE COMPORTAMENTO. ESSA MUDANÇA
DE PADRÃO DE PERSONALIDADE TÊM COMO FINALIDADE TORNÁ-LO
HUMILDE, SEM LIBERDADE DE ESCOLHA, SEM LIVRE-ARBÍTRIO. DESSA
FORMA PASSAM A ACEITAR, ACATAR ORDENS E FUNÇÕES ALHEIAS À
SUA NATUREZA INDIVIDUAL EGOÍSTA E A ATENDER AOS OBJETIVOS DO
COLETIVO, DO GRUPO, E NÃO AOS DA SUA INDIVIDUALIDADE. ...........119
PERCEBEMOS QUE OS INTERNOS DE “FIGUEIRA” NÃO LIDAM COM
DINHEIRO, NEM CONHECEM O VALOR A MOEDA NACIONAL. A
ORGANIZAÇÃO “FIGUEIRA”, POR SUA VEZ, DISPÕE DE MEIOS PARA A
OBTENÇÃO DE RECURSOS PARA A CONSECUÇÃO DE SUAS METAS.
UMA DAS FORMAS DE ARRECADAR RECURSOS É ATRAVÉS DE MÃO-DE-
OBRA VOLUNTÁRIA E GRATUITA, ALÉM DE CONTRIBUIÇÕES
VOLUNTÁRIAS. OUTRA MANEIRA É O CULTIVO AGRÍCOLA PARA
SUBSISTÊNCIA PRÓPRIA. A PRODUÇÃO EXCEDENTE É TROCADA NA
CIDADE DE CARMO DA CACHOEIRA POR GÊNEROS ALIMENTÍCIOS QUE
ESTEJAM FALTANDO. .....................................................................................120
HÁ, ATUALMENTE, POUCOS RESIDENTES EM “FIGUEIRA”. NÃO HÁ UM
NÚMERO MAIOR PORQUE, SEGUNDO TRIGUEIRINHO, NO ATUAL
MOMENTO DA CIVILIZAÇÃO, POUCAS PESSOAS CONSEGUEM LIBERTAR-
SE, LIBERAR-SE DO COMPROMISSO COM A SOCIEDADE. A ESTRUTURA,
A ENGRENAGEM DA PRESENTE CIVILIZAÇÃO CONTINUA EXERCENDO
GRANDE INFLUÊNCIA. ALGUMAS TÊM, PORTANTO, QUE SE DESPOJAR
DE ENCARGOS E DESVINCULAR-SE DE TENDÊNCIAS RETRÓGRADAS E
ANTIQUADAS, SEGUNDO TRIGUEIRINHO, PARA CORRESPONDER AO
QUE É EXIGIDO DO RESIDENTE. ESTA POSTURA EMERGIRÁ DA
RENÚNCIA DAS AMBIÇÕES E SATISFAÇÕES PESSOAIS EM FUNÇÃO DA
COLETIVIDADE. ................................................................................................120
OS QUE ASPIRAM À VIDA NO LOCAL SÃO CHAMADOS ASPIRANTES.
ELES DEVEM TER UMA DISPOSIÇÃO PARA SEGUIR, SEM RESERVAS,
COM ABNEGAÇÃO, COM DESAPEGO, DE FORMA ALTRUÍSTA E
IMPESSOAL, O CAMINHO DO SERVIÇO. O ASPIRANTE DEVE DEIXAR DE
LADO O ORGULHO E O PRECONCEITO PARA SERVIR À HUMANIDADE.
DEVE APRENDER QUE A SUJEIÇÃO A UMA ORGANIZAÇÃO, A UMA
ORDEM, ÀS REGRAS, ÀS NORMAS, A DETERMINADAS CONDUTAS É
NECESSÁRIA PARA UM TRABALHO EVOLUTIVO E QUE, IMPOSTAS NUM
AMBIENTE, SERVEM DE EXEMPLO AOS DEMAIS. ......................................120
O TERCEIRO CAPÍTULO TEM O OBJETIVO DE CONTEXTUALIZAR,
COMPREENDER E EXPLICAR A ORGANIZAÇÃO “FIGUEIRA”. PARA
TANTO UTILIZAMOS, COMO REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO,
O INTERACIONISMO SIMBÓLICO. NESTE VIÉS ESTÃO AS PESQUISAS DE
ERVING GOFFMAN, AUTOR QUE ENFOCA AS INTERAÇÕES ENTRE
ATORES SOCIAIS..............................................................................................120
NUM PRIMEIRO MOMENTO, HÁ A BIOGRAFIA DE ERVING GOFFMAN, O
EXPLICA E JUSTIFICA TEMAS E CONCEITOS TEÓRICOS PRÓPRIOS.
ASSIM, ALGUNS DADOS BIOGRÁFICOS AJUDAM A ENTENDER COMO A
OBRA DESTE AUTOR REPRODUZ O STATUS SOCIAL DELE. UMA
PESQUISA CIENTÍFICA NUNCA É TOTALMENTE DISSOCIADA DA
FORMAÇÃO DE CLASSE QUE LHE PREEXISTE, DE TAL MANEIRA QUE A
OBRA ENCERRA SEMPRE A MARCA DA TRAJETÓRIA SOCIAL DO SEU
AUTOR. ..............................................................................................................120
TRAÇAMOS OS PRINCÍPIOS E PARADIGMAS DO INTERACIONISMO
SIMBÓLICO, DANDO ESPECIAL RELEVÂNCIA AOS CONCEITOS TEÓRICOS
DO LIVRO “A REPRESENTAÇÃO DO EU NA VIDA COTIDIANA”. A
ABORDAGEM DINÂMICA CONSTITUI UMA PREOCUPAÇÃO DOS
SOCIÓLOGOS E ANTROPÓLOGOS, POR ISTO OPTAMOS POR EMBASAR
O PRESENTE ESTUDO NESTE REFERENCIAL TEÓRICO. JOAS (1999)
SUSTENTA QUE A TEORIA DEVE SER DESENVOLVIDA A PARTIR DAS
OBSERVAÇÕES DAS INTERAÇÕES DOS ATORES SOCIAIS NA VIDA REAL.
A FINALIDADE DESTA PESQUISA É MOSTRAR O QUE OS ATORES
SOCIAIS REALMENTE FAZEM EM DETERMINADOS CONTEXTOS, EM
PROCESSOS OBSERVÁVEIS DE INTERAÇÃO. ............................................121
O INTERACIONISMO SIMBÓLICO É UMA ESCOLA DA
MICROSSOCIOLOGIA E INTRODUZ UM OBJETO NOVO, A SITUAÇÃO DE
INTERAÇÃO. DENTRO DESTA VISÃO, A SOCIOLOGIA DAS
ORGANIZAÇÕES SUGERE QUE O FUNCIONAMENTO DE UMA
ORGANIZAÇÃO TORNA-SE VIÁVEL COM A EXISTÊNCIA DE UM
PROCESSO FLEXÍVEL E PERMANENTE DE NEGOCIAÇÃO ENTRE OS
VÁRIOS ATORES SOCIAIS INTERESSADOS NA FORMA DE DIVISÃO DO
TRABALHO. A PRINCIPAL TAREFA DA SOCIOLOGIA DAS
ORGANIZAÇÕES, DENTRO DA VISÃO DO INTERACIONISMO SIMBÓLICO, É
A RECONSTITUIÇÃO DOS PROCESSOS INTERACIONAIS, DEFINIDOS E
DESDOBRADOS NO TEMPO. A TESE CENTRAL QUE O SUSTENTA É A DA
CONVERSAÇÃO DIPLOMÁTICA, O QUE MANTÉM A INSTITUIÇÃO
CONTÍNUA DA SOCIEDADE. O QUE TEM POR OBJETIVO MANTER A
CONTINUIDADE DA INSTITUIÇÃO DA SOCIEDADE. (JOAS, 1999) ............121
REFERIMO-NOS À MICROSSOCIOLOGIA PARA APONTAR DIFERENTES
VERTENTES TEÓRICAS QUE SURGEM APÓS A CRISE DOS CLÁSSICOS,
SOBRETUDO DURKHEIM E WEBER NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO
SÉCULO XX. A MICROSSOCIOLOGIA DESENVOLVEU-SE SOBRETUDO NO
INTERIOR DA ESCOLA DE CHICAGO ONDE SURGIRAM VERTENTES TAIS
COMO O EVOLUCIONISMO PSICOLÓGICO, QUANTATIVISMO,
CONDUTIVISMO.................................................................................................121
SEGUNDO JOAS (1999), A INTERAÇÃO SOCIAL É UM PROCESSO QUE
CONDICIONA O COMPORTAMENTO HUMANO. O ATOR SOCIAL TEM UM
“EU” (SELF), QUE SE TORNA OBJETO PARA SI MESMO, COMUNICA-SE
CONSIGO PRÓPRIO E AGE EM RELAÇÃO A SI. O “EU” (SELF) PRECISA DE
UMA VISÃO REFLEXIVA; O ATOR SOCIAL, ATRAVÉS DE UM PROCESSO
DE SELF-INTERACTION, INTERAGE COM O MUNDO E COM OUTROS.
NESSA INTERAÇÃO, DEFINE O SIGNIFICADO DAS COISAS. POR ISSO HÁ
INFLUÊNCIA DAS PESQUISAS DESSA CORRENTE NA ANTROPOLOGIA E
NA SOCIOLOGIA. SUA TAREFA CENTRAL É IDENTIFICAR O QUE NA
SOCIEDADE CONDICIONA OS COMPORTAMENTOS INDIVIDUAIS DO ATOR
SOCIAL, O QUE NELE FAZ DIFERENÇA PARA ASPECTOS COLETIVOS DA
SOCIEDADE. O QUANTO O COMPORTAMENTO INDIVIDUAL, A
INTERAÇÃO SOCIAL E O ATOR SOCIAL SÃO AFETADOS PELA
ESTRUTURA SOCIAL E TAMBÉM COMO OS ATORES SOCIAIS PODEM,
ATRAVÉS DE SEUS COMPORTAMENTOS, INDIVIDUAL E COLETIVO,
ALTERAR AS ESTRUTURAS EM QUE ATUAM. NÃO É POSSÍVEL
CONCEBER O ATOR SOCIAL SEM A SOCIEDADE E A SOCIEDADE SEM O
ATOR SOCIAL. OS DOIS SÃO GERADOS NA INTERAÇÃO. HÁ INFLUÊNCIA
DO ATOR SOCIAL NA SOCIEDADE E VICE-VERSA. A PARTIR DA
INTERAÇÃO, A NATUREZA DUAL DA RELAÇÃO ATOR SOCIAL E
SOCIEDADE GERA O PROCESSO DE INDIVIDUALIZAÇÃO QUE É
DERIVADO DA SOCIALIZAÇÃO (JOAS, 1991). .............................................121
GOFFMAN DELIMITA UM CAMPO DE ESTUDO PROPRIAMENTE
SOCIOLÓGICO CENTRADO NAS SITUAÇÕES, NA ANÁLISE DAS
RELAÇÕES SOCIAIS EM TERMOS DE AÇÕES RECÍPROCAS. EM SEU
ESTUDO SOBRE OS RITUAIS DE INTERAÇÃO, EXAMINA O TRABALHO DE
CONSTRUÇÃO DA FACE (GOFFMAN, 1999). O TERMO FACE É
DETERMINADO PELOS VALORES PERCEBIDOS NUMA INTERAÇÃO COM
O ATOR SOCIAL. A FACE DÁ INDÍCIOS DA IDENTIDADE, DO SELF
FORMADO POR CARACTERÍSTICAS SOCIAIS RECONHECIDAS E ACEITAS
PELO GRUPO DE ATORES SOCIAIS. AS REGRAS DO GRUPO
DETERMINAM AS FACES APRESENTADAS EM INTERAÇÃO.....................122
O LIVRO “A REPRESENTAÇÃO DO EU NA VIDA COTIDIANA” SERVE DE
ORIENTAÇÃO PARA ESTUDAR A VIDA SOCIAL SOB O PONTO DE VISTA
DA MANIPULAÇÃO DA IMPRESSÃO APLICÁVEL A QUALQUER
ESTABELECIMENTO SOCIAL CONCRETO, PODERIA SERVIR COMO UMA
REFERÊNCIA A SER UTILIZADA NO ESTUDO DE CASOS DA VIDA SOCIAL
INSTITUCIONAL. ...............................................................................................122
UM ESTABELECIMENTO SOCIAL É QUALQUER LUGAR NO QUAL SE
REALIZA REGULARMENTE UMA FORMA PARTICULAR DE ATIVIDADE.
NESSE ESPAÇO HÁ UMA EQUIPE DE ATORES QUE, EM CONJUNTO,
APRESENTA-SE À PLATÉIA UTILIZANDO REGRAS DE
COMPORTAMENTOS SOCIAL. HÁ UMA REGIÃO ONDE É PREPARADA A
REPRESENTAÇÃO. TAMBÉM HÁ UMA ÁREA ONDE ESSA ENCENAÇÃO É
APRESENTADA. A ENTRADA NESSAS REGIÕES É VIGIADA PARA EVITAR
QUE A PLATÉIA OU O AUDITÓRIO VEJA OS BASTIDORES. ENTRE OS
MEMBROS DA EQUIPE HÁ CERTA CONIVÊNCIA, FIDELIDADE, LEALDADE,
VIGILÂNCIA PARA QUE OS SEGREDOS QUE POSSAM PREJUDICAR A
REPRESENTAÇÃO NÃO VENHAM A PÚBLICO. ...........................................122
O PONTO DE VISTA DO LIVRO “A REPRESENTAÇÃO DO EU NA VIDA
COTIDIANA” É O DE UMA REPRESENTAÇÃO TEATRAL, NA QUAL SE
UTILIZAM PREMISSAS, AXIOMAS, PRINCÍPIOS DE CARÁTER
DRAMATÚRGICO. NO PALCO SE APRESENTAM SIMULAÇÕES. O ATOR
SOCIAL SE APRESENTA SOB UMA MÁSCARA DE UM PERSONAGEM
SOCIAL PARA PERSONAGENS SOCIAIS, PROJETADOS POR OUTROS
ATORES SOCIAIS, A PLATÉIA SOCIAL. ........................................................122
EM QUARTO LUGAR, BUSCAMOS NA OBRA DE GOFFMAN, PUBLICADA
NO LIVRO “PRISÕES, MANICÔMIOS E CONVENTOS”, TRAZER À LUZ AS
CATEGORIAS DE ANÁLISES QUE PODERIAM DEFINIR AS INSTITUIÇÕES
TOTAIS. A CARACTERÍSTICA MARCANTE DE UMA INSTITUIÇÃO TOTAL É
O CONDICIONAMENTO DA VIDA DOS INDIVÍDUOS ATRAVÉS DA
IMPOSIÇÃO DE REGRAS INTERNAS PARA AS INTERAÇÕES. NESTE
AMBIENTE INSTITUCIONALIZADO, A FACE, O “EU”, O SELF, A
IDENTIDADE É AMEAÇADA OU DETERIORADA, PODENDO SER
ESTIGMATIZADA POR PARTE OU POR TODOS OS MEMBROS DO GRUPO
DO QUAL O ATOR SOCIAL FAZ PARTE, MESMO QUE NÃO APRESENTE
CARACTERÍSTICAS FÍSICAS QUE INCENTIVEM TAIS ATITUDES. ............122
EM TERMOS CONCEITUAIS MAIS DETALHADOS, LIMITAM SUAS
PRÓPRIAS ATIVIDADES NUM ÚNICO ESPAÇO FÍSICO, É UM MESMO
LOCAL DE MORADIA E TRABALHO, E AS REGRAS DE COMPORTAMENTO
CONDICIONAM A IDENTIDADE IDEOLÓGICA E FILOSÓFICA DO GRUPO.
EXISTE UM FECHAMENTO EM RELAÇÃO À SOCIEDADE. GOFFMAN (1999)
DIZ QUE HÁ IMPORTÂNCIA SOCIOLÓGICA NAS PESQUISAS DAS
INSTITUIÇÕES TOTAIS, PORQUE SÃO LOCAIS DE CONDICIONAMENTO
DOS ATORES SOCIAIS. NORMAS COLETIVAS E COMPULSÓRIAS
CONDICIONAM O COMPORTAMENTO INTERACIONAL DAQUELES QUE
PERTENCEM AO GRUPO.................................................................................123
TAMBÉM É UM OBJETIVO DA INSTITUIÇÃO TOTAL TRANSFORMAR O
ATOR SOCIAL NUM SER O MAIS PRÓXIMO POSSÍVEL DA PERFEIÇÃO
IDEALIZADA. GOFFMAN (1999) EXPLICA QUE AS NORMAS CULTURAIS
CONDICIONAM COMO OS ATORES SOCIAIS DEVEM AGIR QUANDO
INSERIDOS NUM DETERMINADO GRUPO SOCIAL. ....................................123
AO SE FAZER PARTE DE UMA INSTITUIÇÃO QUALQUER, UM NOVO
PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO É INICIADO, PORQUE COMEÇA UM
PROCESSO DE ADAPTAÇÃO COM CARÁTER PERMANENTE A SEUS
PADRÕES DE INTERAÇÃO. PODEMOS OBSERVAR COMO UM ATOR
SOCIAL CONDICIONA SUA CONDUTA DE ACORDO COM AS
CIRCUNSTÂNCIAS. ISTO SE EXPLICA PELO FATO DE O ATOR SOCIAL
SER FLEXÍVEL E TER A CAPACIDADE DE SE ADAPTAR AO MEIO SOCIAL
E CULTURAL. O CONTEXTO E A CONJUNTURA SOCIAL CONDICIONAM A
ATITUDE E ATÉ O PENSAMENTO, PORQUE A INSTITUIÇÃO EXERCE
DOMÍNIO SOBRE O “EU” (SELF) OU PERSONALIDADE DOS SEUS
MEMBROS, CONDICIONANDO SUA IDEOLOGIA, CULTURA, COSTUMES,
HÁBITOS, CONDUTA E POSTURA..................................................................123
POR ÚLTIMO, BUSCAMOS DELINEAR, SUPERFICIALMENTE, O PERFIL
DAQUELES QUE SE IDENTIFICAM COM COMUNIDADES DESVIANTES, OS
ESTIGMATIZADOS, DIVERGENTES, OUTSIDERS, LIMINARES, RETRAÍDOS,
MARGINAIS, DESLOCADOS, REBELDES, PERDIDOS, DESENRAIZADOS,
MINORIAS, ARTISTAS, ETC. DURANTE A MUDANÇA DO SÉCULO XX PARA
O XXI, HOUVE UM PERÍODO DE TRANSIÇÃO. DENTRO DESSE CONTEXTO
SURGIU TRIGUEIRINHO RE-ANUNCIANDO A ERA DE AQUÁRIO, UM
MOVIMENTO TÃO DIVERSO QUANTO A CONTRACULTURA DA DÉCADA
DE 1960, E COM RAÍZES NA NEW AGE. TRIGUEIRINHO ANUNCIAVA EM
SUAS PROFECIAS QUE A TRANSIÇÃO PARA O MILÊNIO AQUARIANO, DE
AMOR E FRATERNIDADE, SERIA PLENA DE VIOLÊNCIA E RISCOS PARA
OS ESPIRITUALMENTE DESPREPARADOS. POR OUTRO LADO, OS QUE
ESTIVESSEM EM HARMONIA COM A OPERAÇÃO RESGATE, LIDERADA
POR ELE, INGRESSARIAM NUMA NOVA ERA DE ILUMINAÇÃO ESPIRITUAL
E SERIAM ORIENTADOS POR SERES INTRA-TERRENOS, SUPERIORES E
AVANÇADOS, EMISSÁRIOS DE UMA CIVILIZAÇÃO EXTRA-TERRESTRE,
CUJAS ESPAÇONAVES ERAM OS OVNIS, AJUDARIAM A CRIAR UMA
NOVA CIVILIZAÇÃO. ........................................................................................123
CONTEMPORANEAMENTE NÃO EXISTE MAIS A IDENTIFICAÇÃO FÍSICA
DO ESTIGMA, MAS EXISTEM OS ESTIGMATIZADOS. SÃO AQUELES QUE
POR ALGUM MOTIVO NÃO SÃO ACEITOS EM DETERMINADA
COMUNIDADE, PORQUE SE AFASTAM DAS EXPECTATIVAS SOCIAIS,
CULTURAIS, ECONÔMICAS, INTELECTUAIS, FÍSICAS, ETC.SUAS
RESIGNAÇÕES SOCIAIS PODEM SE MANIFESTAR COMO UM MECANISMO
DE FUGA E ABANDONO DA SOCIEDADE, CONVERGINDO PARA
COMUNIDADES DESVIANTES (GOFFMAN, 1988), ONDE ENTRAM EM
CONTATO COM SEUS SEMELHANTES FORMANDO UMA SUB-CULTURA.
.............................................................................................................................124
OS DESVIANTES SOCIAIS, DESCREVE GOFFMAN (1988), ORGULHAM-SE
DE SUA REBELDIA E EVITAM AS DIVERGÊNCIAS (VELHO, 1974),
RESTRINGINDO-SE À PROTEÇÃO AUTO-DEFENSIVA DE VIVEREM
ISOLADOS NUMA SUB-COMUNIDADE. ALI NÃO SE SENTEM MAIS
DESLOCADOS COMO NA SOCIEDADE ABERTA. SENTEM-SE MELHORES,
SUPERIORES, EXEMPLOS E MODELOS DE VIDA PARA OS ATORES
SOCIAIS DA SOCIEDADE ABERTA, ASSIM ATRAEM MAIS
SIMPATIZANTES. TURNER (1974) DIZ QUE A COMMUNITAS É FORMADA
POR UM CONJUNTO DE ATORES SOCIAIS CONCRETOS E
IDIOSSINCRÁSICOS QUE, APESAR DE SEREM DIFERENTES QUANTO AO
FÍSICO E ÀS PERSONALIDADES, SÃO IGUAIS DO PONTO DE VISTA DA
HUMANIDADE COMUM A TODOS. BUSCAM UMA TRANSFORMAÇÃO E
ENCONTRAM ALGO PROFUNDAMENTE COMUNAL E COMPARTILHADO:
SUA ALMA OU HUMANIDADE, SUA ‘COMUM UNIDADE’.............................124
NO QUARTO CAPÍTULO, DESCREVEMOS O MÉTODO DE PESQUISA,
CRIADO POR GOFFMAN, PARA OBSERVAR DE FORMA PARTICIPATIVA
AS INTERAÇÕES. EM PRIMEIRO LUGAR, DESCREVEMOS O
PROCEDIMENTO TEÓRICO-METODOLÓGICO GOFFMINIANO UTILIZADO
NA PESQUISA DE CAMPO EM “FIGUEIRA”. EM SEGUNDO LUGAR,
TOMAMOS CIÊNCIA DESTA COMUNIDADE POR INTERMÉDIO DA CADEIRA
DE CINEMA, DA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA PUCRS
(FAMECOS-PUCRS). TRIGUEIRINHO FOI UM DIRETOR PREMIADO NA
FASE DO CINEMA NOVO BRASILEIRO, EM 1960, COM O FILME “BAHIA DE
TODOS OS SANTOS”. EM TERCEIRO LUGAR, É IMPORTANTE RESSALTAR
QUE ESTA PESQUISA É PIONEIRA. NÃO EXISTIAM ESTUDOS, ENSAIOS,
ARTIGOS, TEXTOS ACADÊMICOS ANTERIORES SOBRE ESTA
ORGANIZAÇÃO. TIVEMOS, POIS, QUE DESBRAVAR UM NOVO CAMINHO
DE PESQUISA E CONSTRUIR UM NOVO SABER, UM NOVO
CONHECIMENTO. O INEDITISMO TORNOU-A TRABALHOSA. LEVAMOS
SEIS ANOS PARA REALIZÁ-LA. TIVEMOS PARADAS QUE FORAM MUITO
FRUTÍFERAS, POIS PROCURAMOS PÔR EM PRÁTICA O QUE O
SOCIÓLOGO DOMENICO DE MASI CHAMOU DE ÓCIO CRIATIVO, ISTO É,
UTILIZAR O TEMPO DE LAZER, O TEMPO RECREATIVO PARA CRIAR,
PRODUZIR SEM PRESSÃO, SEM ESTRESSE. ..............................................124
POR CURIOSIDADE, UM EXEMPLO DO ESFORÇO QUE FIZEMOS: HÁ UM
LIVRO CHAMADO “INTERNADOS”, DE GOFFMAN, EDITADO EM BUENOS
AIRES, PELA AMORRORTU EDITORES. NA ÉPOCA, ESTAVA ESGOTADO
NA EDITORA, NÃO FOI ENCONTRADO NA FEIRA INTERNACIONAL DO
LIVRO DE PORTO ALEGRE EM NOVEMBRO DE 2006. NÃO ESTAVA
DISPONÍVEL NA BIBLIOTECA DA PUCRS, UFRGS, ULBRA NEM UNISINOS.
NENHUM DOS PROFESSORES DO PGCS, NEM OS SEBOS DE PORTO
ALEGRE, RS, POSSUÍAM UM EXEMPLAR ORIGINAL OU CÓPIA DE TAL
LIVRO. SOMENTE ENCONTRAMOS UM EXEMPLAR, DE 1972, EM UM SEBO
DE SÃO PAULO, SP, ATRAVÉS DA INTERNET E ENVIADO VIA SEDEX. . .125
ESPERAMOS QUE ESTA DISSERTAÇÃO POSSA SERVIR DE REFERÊNCIA
PARA POSTERIORES ESTUDOS E APROFUNDAMENTOS SOBRE O
MESMO TEMA. PODÍAMOS TER OPTADO PELO VIÉS DO ‘MESSIANISMO’,
OU, PELO VIÉS DO ‘PODER’, ESTUDADO POR FOUCAULT, OU, AINDA, DO
MESMO AUTOR , O VIÉS DE ‘VIGILÂNCIA E PUNIÇÃO’. AINDA,
PODERÍAMOS TER OPTADO, PELO PONTO DE VISTA DO ‘LÍDER
CARISMÁTICO’, DE ‘COMMUNITAS E LIMINARIDADE’ ESTUDADO POR
VICTOR TURNER, PELO RECORTE DO ‘DESVIO DE DIVERGÊNCIA’ DE
GILBERTO VELHO, ETC, MAS ESCOLHEMOS O INTERACIONISMO
SIMBÓLICO E A TRILOGIA DE GOFFMAN QUE TRATA DAS INSTITUIÇÕES
TOTAIS, DA REPRESENTAÇÃO DO “EU” NA VIDA COTIDIANA E DO
ESTIGMA. .........................................................................................................125
GOFFMAN, EM SUA TESE DE DOUTORADO NA COMUNIDADE DAS
ILHAS SHETLAND, CONSTRUIU SUA PRÓPRIA METODOLOGIA.
APRESENTOU-SE AOS MORADORES DAS ILHAS COMO UM ESTUDANTE
UNIVERSITÁRIO QUE DESEJAVA OBTER INFORMAÇÃO DIRETA SOBRE A
ECONOMIA INSULAR. ELE SE COLOCOU NO PRÓPRIO ESPAÇO DA
PESQUISA DE CAMPO, OU SEJA, NO ESPAÇO DAS INTERAÇÕES DOS
MORADORES. ALI PÔDE PERCEBER O INFINITAMENTE PEQUENO, O
EVIDENTE E O ÓBVIO. NÃO UTILIZOU QUESTIONÁRIOS, GRAVADOR,
CÂMERA DE FILMAR. TOMAVA ALGUMAS NOTAS ESCONDIDAS. MAIS
TARDE, JÁ CONHECIDO E MAIS “PARTICIPANTE OBSERVADOR” DO QUE
“OBSERVADOR PARTICIPANTE”, VAI SIMPLESMENTE REVIVER AS
INTERAÇÕES E RELATÁ-LAS NO SEU DIÁRIO ELABORADO À NOITE NO
SILÊNCIO DO SEU QUARTO............................................................................125
GOFFMAN TEVE A OPORTUNIDADE DE OBSERVAR AS CRISES
INTERACIONAIS QUE SURGEM, POR VEZES, NO MEIO DE PEQUENOS
GRUPOS DE ATORES SOCIAIS. ELE PARTICIPAVA DE ATIVIDADES MAIS
INFORMAIS E OBSERVOU AS INTERAÇÕES EM FORMA DE CONVERSA. A
INTERAÇÃO, OBJETO DA ATENÇÃO DE GOFFMAN, DENOMINAVA-SE
CONVERSACIONAL. GOFFMAN OBSERVOU A INTERAÇÃO QUE
OCORREM NOS ESPAÇOS COTIDIANOS E EXCLUIU A PREOCUPAÇÃO
COM AS CARACTERÍSTICAS MACROSSOCIOLÓGICAS DA COMUNIDADE.
EXCLUIU TRAÇOS QUE DISTINGUIAM ESTA ILHA DE UMA OUTRA E
EXAMINOU AS INTERAÇÕES QUE SE ASSEMELHAVAM ÀS DOS LUGARES
MAIS IMPESSOAIS DA VIDA MODERNA. GOFFMAN REJEITOU O TEMPO E
O ESPAÇO, ANULOU A TRADIÇÃO DA HISTÓRIA. DESSA FORMA ISOLOU
AS CARACTERÍSTICA DO HOMEM INTERACIONAL PURO. ELE OBSERVOU
AS INTERAÇÕES MAIS IMPESSOAIS DAS ILHAS SHETLAND, O RESTO
NÃO LHE INTERESSAVA. ISTO JUSTIFICAVA SUA POSIÇÃO, DE QUE O
SEU ESTUDO SE DESENROLOU NA COMUNIDADE DAS ILHAS SHETLAND,
MAS NÃO ERA UM ESTUDO DA COMUNIDADE DAS ILHAS SHETLAND. 126
ATRAVÉS DE INDÍCIOS SUTIS DAS INTERAÇÕES, GOFFMAN CAPTOU A
LÓGICA DO ATO DE ENCENAÇÃO, O CONJUNTO DE ESTRATÉGIAS PARA
EXIBIR UMA IMAGEM SOCIAL QUE VALORIZAVA O ATOR, QUE CAUSAVA
UMA BOA IMPRESSÃO, QUE DISTINGUIA UM DO OUTRO, ASPECTOS POR
VEZES DESPERCEBIDOS PELOS LEIGOS E QUE NÃO ERAM
CONSIDERADOS RELEVANTES PELA MAIORIA DOS SOCIÓLOGOS. NO
ENTANTO, ESSES DETALHES MODIFICARAM O PENSAR SOCIOLÓGICO
NO MUNDO. .......................................................................................................126
SUA PESQUISA ETNOGRÁFICA DO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO PARA
DOENTES MENTAIS SANTA ELIZABETH COLABOROU PARA DEFLAGRAR
A LUTA ANTIMANICOMIAL NO MUNDO. A JUNÇÃO DO SOCIÓLOGO E DO
ETOLOGISTA SERVIU COMO UMA VANTAGEM A MAIS PARA GOFFMAN. A
LINGUAGEM DO CORPO ,EM INTERAÇÃO, QUE SE OBSERVAVA NAS
RUAS ESTAVA CONECTADA AOS CONTEXTOS ANTROPOLÓGICOS DE
TODAS AS INTERAÇÕES SOCIAIS E ISSO SE TORNOU UM CRITÉRIO DE
JULGAMENTO DAS FORMAS INSTITUCIONAIS DE CONTROLE SOCIAL E
DOS ESQUEMAS EXPLICATIVOS DA SOCIALIZAÇÃO. ..............................126
ESTE ESTUDO DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS E, PARTICULARMENTE, DO
MUNDO DOS ATORES SOCIAIS, DENOMINADOS POR NÓS COMO
HÓSPEDES E/OU VISITANTES ITINERANTES DA COMUNIDADE
“FIGUEIRA”, TEM COMO UM DOS SEUS INTERESSES PRINCIPAIS
AVALIAR, O MAIS POSSÍVEL, A VERSÃO SOCIOLÓGICA DO “EU” (SELF)
EM INTERAÇÃO NA ORGANIZAÇÃO “FIGUEIRA”. AO CONTRÁRIO DE
GOFFMAN, ACENTUAMOS NESTA PESQUISA O MUNDO DO ATOR SOCIAL
NÃO-INTERNADO, DOS HÓSPEDES E/OU VISITANTES ITINERANTES QUE
SE HOSPEDAM EM “FIGUEIRA” E QUE, AO INTERAGIREM COM OS
ATORES SOCIAIS OU RESIDENTES PERMANENTES – FAZENDO PARTE
OU NÃO DA EQUIPE DIRIGENTE –, ENTRAM EM CONFLITO EM FUNÇÃO
DE DIFERENTES PERSONALIDADES, COMPORTAMENTOS, INTERESSES,
OBJETIVOS, HÁBITOS, COSTUMES, USOS, CRIANDO-SE, ASSIM, UM
CLIMA CONSTANTE DE CONFLITO, DISCÓRDIA, ETC................................126
APRESENTAMO-NOS COMO COLABORADORES E FICAMOS
HOSPEDADOS COMO ALGUÉM QUE SIMPATIZAVA COM A CULTURA
ESPIRITUAL PROPOSTA NO LOCAL, MAS EVITAMOS A INTIMIDADE E A
AMIZADE, ATÉ PORQUE ESTA CONDUTA É CONDENADA. COLOCAMOS-
NOS NO PRÓPRIO ESPAÇO DAS INTERAÇÕES, NO CAMPO DE PESQUISA
PROPRIAMENTE DITO, PARA FAZER UMA OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
DAS INTERAÇÕES, PARA VERIFICAR COMO A INTEGRAÇÃO FAZ A VIDA
SOCIAL ACONTECER. PROCURAMOS NOS INTEGRAR À VIDA COTIDIANA
PARA OBSERVAR AS INTERAÇÕES. NÃO PUDEMOS USAR
GRAVADORES, FILMADORAS, NEM FOTOGRAFAR. ESTES
INSTRUMENTOS SÃO PROIBIDOS. TAMBÉM NÃO FIZEMOS
QUESTIONÁRIOS, PORQUE CHAMARIA MUITA ATENÇÃO E TIRARIA A
ESPONTANEIDADE, A NATURALIDADE DAS PESSOAS ANALISADAS.
TOMÁVAMOS, INICIALMENTE, PEQUENAS NOTAS AQUI E ACOLÁ
ESCONDIDAS. MAIS TARDE, TOMÁVAMOS NOTAS, NO QUARTO, MESMO
ESTANDO, QUASE SEMPRE, EM QUARTOS COLETIVOS. HOSPEDADOS E
VIVENDO NO MEIO DELES, TIVEMOS A OPORTUNIDADE E O PRIVILÉGIO
DE PRESENCIAR COMUNICAÇÕES, INTERAÇÕES E CONVERSAS
COTIDIANAS INTERESSANTES E BASTANTE ELUCIDATIVAS DA SUA
CULTURA ÍMPAR OU SINGULAR. ..................................................................127
QUEREMOS INFORMAR QUE FIZEMOS UMA OBSERVAÇÃO
PARTICIPANTE DAS INTERAÇÕES QUE SE PASSAM NA COMUNIDADE
“FIGUEIRA”, PORTANTO NÃO REALIZAMOS UM ESTUDO,
PROPRIAMENTE DITO, DA COMUNIDADE “FIGUEIRA." POR ESTA RAZÃO,
NÃO PESQUISAMOS AS CARACTERÍSTICAS MACROSSOCIOLÓGICAS,
NÃO LEVAMOS EM CONTA O TEMPO, A HISTÓRIA, MAS SOMENTE
ESTUDAMOS O ESPAÇO E OS TRAÇOS QUE CARACTERIZAM ESTA
COMUNIDADE. PROCURAMOS EXAMINAR AS INTERAÇÕES IMPESSOAIS
QUE PODEM OCORRER POR DIVERGÊNCIAS NAS RELAÇÕES DE PODER.
PORTANTO, COLETAMOS INFORMAÇÕES DA ORGANIZAÇÃO “FIGUEIRA”
SEGUINDO, PASSO A PASSO, O MÉTODO CRIADO POR GOFFMAN. ......127
FORAM SEIS OBSERVAÇÕES PARTICIPANTES AO TODO NO CAMPO DE
PESQUISA. O TEMPO DE PERMANÊNCIA É DETERMINADO POR ELES. A
PRIMEIRA FOI NAS FÉRIAS ACADÊMICAS DE VERÃO, PORQUE,
OBVIAMENTE, TÍNHAMOS MAIS TEMPO E PORQUE NESTA ÉPOCA
AFLUEM MAIS ATORES SOCIAIS À “FIGUEIRA”. REALIZOU-SE NO
PRIMEIRO SEMESTRE DE 2001, EM JANEIRO, POR DEZ DIAS
CONSECUTIVOS; A SEGUNDA, NAS FÉRIAS ACADÊMICAS DE INVERNO,
TAMBÉM POR TERMOS MAIS TEMPO, E TAMBÉM POR IREM MAIS
PESSOAS PARA LÁ NESSA OCASIÃO, PORTANTO REALIZOU-SE NO
PRIMEIRO SEMESTRE DE 2001, EM JULHO, POR QUINZE DIAS
CONSECUTIVOS; A TERCEIRA OBSERVAÇÃO FOI NO PRIMEIRO
SEMESTRE DE 2002, EM JULHO, TAMBÉM NAS FÉRIAS ACADÊMICAS DE
INVERNO, POR SETE DIAS CONSECUTIVOS; A QUARTA, NO PRIMEIRO
SEMESTRE DE 2004, NAS FÉRIAS ACADÊMICAS DE VERÃO, EM
FEVEREIRO, POR QUINZE DIAS CONSECUTIVOS; A QUINTA FOI NO
PRIMEIRO SEMESTRE DE 2006, EM FEVEREIRO, NAS FÉRIAS
ACADÊMICAS DE VERÃO, POR SETE DIAS CONSECUTIVOS. A SEXTA E
ÚLTIMA FOI NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2006, EM JULHO, POR CINDO
DIAS. ALÉM DISSO, FIZEMOS DUAS PESQUISAS DE CAMPO NA
COMUNIDADE NAZARÉ, SITUADA NA CIDADE DE NAZARÉ PAULISTA,
INTERIOR DO ESTADO DE SÃO PAULO, AS QUAIS SE REALIZARAM NAS
FÉRIAS DE VERÃO DO ANO 2003, MAIS PRECISAMENTE EM JANEIRO,
POR UMA SEMANA, RETORNANDO NOVAMENTE EM FEVEREIRO POR
QUINZE DIAS. ...................................................................................................127
FIZEMOS VÁRIAS OUTRAS PESQUISAS DE CAMPO NOS SUBGRUPOS
OU REDE DE SERVIÇO DE PORTO ALEGRE. REALIZAMOS REUNIÕES
COM ATORES SOCIAIS DO GRUPO E FIZEMOS ALGUMAS OBSERVAÇÕES
PARTICIPATIVAS NAS AUDIÇÕES PÚBLICAS. TAMBÉM PESQUISAMOS A
BIBLIOGRAFIA, EXCLUSIVAMENTE UTILIZADA PARA CONSULTA
INTERNA, DO GRUPO DE “FIGUEIRA” E DAS REDES DE SERVIÇO,
PESQUISAMOS A BIBLIOGRAFIA DAS OBRAS PUBLICADAS POR
TRIGUEIRINHO, ALGUMAS INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS APONTADAS
PELO PRÓPRIO TRIGUEIRINHO EM SEUS ESCRITOS TAIS COMO:
‘REVISTAS DE SINAIS’, ‘JORNAIS DE SINAIS’, ‘BOLETIM DE SINAIS’,
TEXTOS E ARTIGOS NA INTERNET, SEU FILME “BAHIA DE TODOS OS
SANTOS”, SEUS VHS, CDS, FITAS K-7, SEUS ARTIGOS CRÍTICOS
PUBLICADOS NA REVISTA “ANHEMBI”, EDITADA PELA USP, ALGUMAS
CRÍTICAS ESPECIALIZADAS EM CINEMA SOBRE SUA OBRA. QUASE
TODAS AS FONTES CITADAS ESTÃO ANEXADAS PARA FUTURAS
CONSULTAS, JÁ QUE SERIA MUITO DISPENDIOSO EM TERMOS DE
TEMPO E MUITO ONEROSO DESLOCAR-SE ATÉ “FIGUEIRA”, ALÉM DE
TODA UMA BUROCRACIA PARA ENTRAR LÁ..............................................128
CONFORME BECKER (1977) ACONSELHA, ESCLARECEMOS QUE A
PESQUISA FOI FEITA SOB O PONTO DE VISTA DE HÓSPEDES E/OU
VISITANTES. ESTE AUTOR ENFATIZA QUE A NEUTRALIDADE IDEAL NAS
PESQUISAS CIENTÍFICAS DIFICILMENTE É ATINGIDA, TORNANDO ASSIM
NECESSÁRIO INFORMAR DE QUAL PONTO DE VISTA NOS SITUAMOS. A
PRESENTE PESQUISA, PORTANTO, FOI FEITA BUSCANDO
COMPREENDER OS ATORES SOCIAIS DENOMINADOS HÓSPEDES E/OU
VISITANTES ITINERANTES QUE PERMANECEM TEMPORARIAMENTE EM
“FIGUEIRA” E QUE, AO INTERAGIREM COM OS RESIDENTES OU
INTERNOS, SEJAM AUXILIARES OU COORDENADORES, ENTRAM EM
CONFLITO EM FUNÇÃO DA SUJEIÇÃO HIERÁRQUICA. ISTO GERA UM
CLIMA DE TENSÃO PERMANENTE, POIS AS DISCIPLINAS, NORMAS,
REGRAS E TAREFAS IMPOSTAS PELO GRUPO DE “FIGUEIRA”,
LIDERADO POR TRIGUEIRINHO, CONDICIONAM O SEUS “EUS” (SELF) OU
PERSONALIDADES...........................................................................................128
QUANTO ÀS INSTITUIÇÕES TOTAIS, GOFFMAN (1999) SALIENTA QUE HÁ
UM INTERESSE SOCIOLÓGICO NO ESTUDO DELAS, PORQUE
CONDICIONAM OS ATORES SOCIAIS. REGRAS E NORMAS CONDICIONAM
O COMPORTAMENTO E O QUE DEVEM PENSAR COLETIVAMENTE EM
VIRTUDE DE PERTENCEREM OU NÃO ÀQUELE GRUPO ESPECÍFICO.
NOSSA TESE É QUE “FIGUEIRA” PODE SER CLASSIFICADA,
PARCIALMENTE, COMO UMA INSTITUIÇÃO TOTAL POR POSSUIR MUITAS
CARACTERÍSTICAS INERENTES A ESSE FENÔMENO. O MAIS
IMPORTANTE É A PERCEPÇÃO DO SEU CONDICIONAMENTO SOBRE O
“EU” (SELF), SOBRE O COMPORTAMENTO, O PENSAMENTO E ATÉ OS
SENTIMENTOS DOS QUE ESTÃO LIGADOS A ELA DIRETA OU
INDIRETAMENTE. .............................................................................................129
NUMA TERCEIRA INSTÂNCIA, DEFINIMOS AS CATEGORIAS DE ANÁLISE
DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO E DOS DA INTERAÇÃO, AS QUAIS FORAM
EXTRAÍDAS DO REFERENCIAL TEÓRICO. AS CATEGORIAS DEFINIDAS NA
“REPRESENTAÇÃO DOS ATORES SOCIAIS” SÃO CONVERGENTES ÀS
CATEGORIAS ABSORVENTES DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS. A SEGUIR,
FIZEMOS UM QUADRO DE CATEGORIAS DE ANÁLISES FUNDAMENTADAS
NO LIVRO “A REPRESENTAÇÃO DO EU NA VIDA COTIDIANA”, TAIS
COMO: MANIPULAÇÃO DA IMPRESSÃO; REPRESENTAÇÃO; REGIÕES E
COMPORTAMENTO REGIONAL/ESTABELECIMENTOS SOCIAIS; REGIÃO
FRONTAL/REGIÃO DE FACHADA; REGIÃO
POSTERIOR/FUNDO/BASTIDORES; EQUIPE; PLATÉIA/OBSERVADOR;
SEGREDOS; PAPÉIS DISCREPANTES; PRINCÍPIO NORTEADOR. AS
INTERAÇÕES DOS ATORES SOCIAIS FORAM EXAMINADAS TOMANDO
POR BASE A INTERPRETAÇÃO TEATRAL, A REPRESENTAÇÃO, O
DESEMPENHO DE UM PAPEL E/OU SIMULAÇÃO DE CARÁTER
DRAMATÚRGICO. .............................................................................................129
A “REPRESENTAÇÃO DOS ATORES SOCIAIS” E AS CARACTERÍSTICAS
DA INSTITUIÇÃO TOTAL, NO CONTEXTO DO INTERACIONISMO
SIMBÓLICO, PRESSUPÕEM QUE A SITUAÇÃO DA INTERAÇÃO, A
CIRCUNSTÂNCIA, O ESPAÇO DAS CONTROVÉRSIAS (OS QUAIS TÊM
MUITA IMPORTÂNCIA PARA A SOCIOLOGIA) NÃO DEVERIAM DISSOCIAR
OS RITOS DE INTERAÇÃO E OS DA INSTITUIÇÃO. NO CASO ESTUDADO
DA COMUNIDADE DE “FIGUEIRA”, NÃO SE OBSERVOU TAL
DISSOCIAÇÃO ENTRE OS RITOS. ALGUNS ASPECTOS FORAM
APRESENTADOS SEPARADAMENTE APENAS PARA FINS ANALÍTICOS.
.............................................................................................................................129
EM QUARTO LUGAR, LISTAMOS O MATERIAL EMPÍRICO E O
CLASSIFICAMOS EM CATEGORIAS. POR FIM, ANALISAMOS AS
OBSERVAÇÕES DE CAMPO QUE ESTÃO DIVIDIDAS EM RITOS DA
INSTITUIÇÃO E RITOS DE INTERAÇÃO E FAZEMOS ALGUMAS
CONSIDERAÇÕES FINAIS EM FORMA DE ANÁLISE DO MATERIAL
RELACIONADO ÀS CATEGORIAS..................................................................129
MESMO CONHECENDO O FATO DE QUE EXISTEM MUITAS CRÍTICAS ÀS
INSTITUIÇÕES TOTAIS NESTA CONTEMPORANEIDADE, A IMPORTÂNCIA
DESTE ESTUDO, VINCULA-SE AO FATO DE QUE: AINDA EXISTEM
INSTITUIÇÕES TOTAIS NO ÂMBITO DAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS QUE
PODEM SER CONSIDERADAS, MESMO QUE PARCIALMENTE, OU EM
ALGUMA MEDIDA, EM INSTITUIÇÕES TOTAIS. NESTE SENTIDO, É O
INTERACIONISMO SIMBÓLICO DE ERVING GOFFMAN QUE PODE E DEVE
SER UTILIZADO COMO REFERÊNCIA TEÓRICA PARA O CONHECIMENTO
DE TAIS INSTITUIÇÕES EM DETRIMENTO DOS ESTUDOS
CONTEMPORÂNEOS SOBRE RELIGIÃO........................................................130
CAPÍTULO 2.....................................................................................................131
A COMUNIDADE “FIGUEIRA”...................................................................................131
A COMUNIDADE “FIGUEIRA”........................................................................131
2 A COMUNIDADE “FIGUEIRA”......................................................................132
O PRESENTE CAPÍTULO TEM COMO OBJETIVO APRESENTAR A
COMUNIDADE “FIGUEIRA”, PARA TANTO FORAM ORGANIZADOS
SUBCAPÍTULOS................................................................................................132
PRIMEIRO, TRAÇAMOS A TRAJETÓRIA PESSOAL DO FUNDADOR,
MOSTRANDO ALGUNS DADOS DA SUA BIOGRAFIA, SUA FORMAÇÃO DE
DIRETOR DE CINEMA NO BRASIL E NO EXTERIOR, SEUS TRABALHOS E
OBRAS NA ÁREA, SEUS SUCESSOS E FRACASSOS PROFISSIONAIS ATÉ
A DESISTÊNCIA DA CARREIRA DE CINEASTA E A POSTERIOR
FUNDAÇÃO DA COMUNIDADE “NAZARÉ”, DE ONDE FOI EXCLUÍDO
DEVIDO À SUA FORMA ABSOLUTISTA DE ADMINISTRÁ-LA. APÓS SAIR
DA “NAZARÉ”, TRIGUEIRINHO FUNDA A COMUNIDADE “FIGUEIRA”, UMA
ORGANIZAÇÃO AINDA MAIS FECHADA QUE A “NAZARÉ”. ......................132
EM SEGUNDO LUGAR, APRESENTAMOS A COMUNIDADE “FIGUEIRA”,
SUA LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA, O NÚMERO APROXIMADO DE
RESIDENTES, SEU OBJETIVO PRINCIPAL, SUA EXTENSÃO TERRITORIAL,
SUA FAUNA E FLORA, UM PANORAMA GERAL DE SUAS ATIVIDADES,
SEU COTIDIANO, SUAS ROTINAS E TAREFAS, QUAIS SÃO OS PERFIS
DAS PESSOAS QUE PODERIAM PARTICIPAR DESSAS ATIVIDADES
DIÁRIAS. ............................................................................................................132
A ESTRUTURA FÍSICA DA COMUNIDADE E A UTILIZAÇÃO DO ESPAÇO
GEOGRÁFICO TÊM RELAÇÃO COM A ORGANIZAÇÃO ESPIRITUAL E
HIERÁRQUICA. A ORGANIZAÇÃO HIERÁRQUICA SEGUE O MODELO DE
PIRÂMIDE. O LÍDER VITALÍCIO TRIGUEIRINHO NO ÁPICE (O PROFETISMO
TORNOU-SE SUA FORMA DE PODER), OS GRUPOS EXTERNOS E
ITINERANTES NA BASE E, INTERMEDIANDO AMBOS, OS DISCÍPULOS, OS
ADEPTOS E OS COORDENADORES MAIS PRÓXIMOS DO LÍDER. ...........132
DESCREVEMOS A SEDE, AS ATIVIDADES E FUNÇÕES DAS CASAS NA
ÁREA URBANA, DOS SETORES E MONASTÉRIOS NAS ÁREAS RURAIS E
DOS GRUPOS ITINERANTES DO BRASIL E EXTERIOR QUE SE HOSPEDAM
E PARTICIPAM DAS ATIVIDADES DA COMUNIDADE “FIGUEIRA”. ...........132
A DIVISÃO DE TRABALHO, DE TAREFAS E DE ATIVIDADES, DESCRITA
NESTE TRABALHO, É CONSEQÜÊNCIA DO AUMENTO DA ORGANIZAÇÃO.
UMA CARACTERÍSTICA A SE DESTACAR SÃO OS CONFLITOS
DECORRENTES DO CHOQUE DE VALORES DO GRUPO DE RESIDENTES E
DO GRUPO EXTERNO ITINERANTE. OUTRO FATOR QUE DESENCADEIA
DIVERGÊNCIAS É O INTERESSE DO GRUPO ESTAR ACIMA DAS
INDIVIDUALIDADES. O MODO COMO AS TAREFAS OBRIGATÓRIAS
DEVEM SER EXECUTADAS E O TEMPO DE DURAÇÃO DAS MESMAS SÃO
IMPOSTOS PELA ADMINISTRAÇÃO E PELO GRUPO DE RESIDENTES AOS
GRUPOS DE EXTERNOS ITINERANTES SEM ESPAÇO PARA
CRIATIVIDADE, LIBERDADE DE ESCOLHA E LIVRE-ARBÍTRIO. ...............132
TAMBÉM APRESENTAMOS AS FORMAS DE SUBSISTÊNCIA DE
“FIGUEIRA”: PRODUÇÃO AGRÍCOLA PARA SUBSISTÊNCIA; TROCA DO
EXCEDENTE; DOAÇÕES DE ALIMENTOS, REMÉDIOS, EQUIPAMENTOS,
ROUPAS, DINHEIRO, ETC.; MÃO-DE-OBRA VOLUNTÁRIA E GRATUITA;
VENDA DE LIVROS, FITAS K-7, CDS, FITAS DE VÍDEO (VHS). ...................133
NUMA TERCEIRA PARTE, FOCALIZAMOS A CULTURA ESPIRITUAL DE
“FIGUEIRA”, O EREMITÉRIO, ONDE VIVEM OS EREMITAS EM RECLUSÃO;
SEUS MONASTÉRIOS, FEMININO E MASCULINO, RECLUSOS E SEMI-
RECLUSOS; AS REGRAS, NORMAS, DISCIPLINAS E HÁBITOS ADVINDOS
DA ATIVIDADE ESPIRITUAL; A FORMAÇÃO OU REQUISITOS DOS
MONGES, OBLATOS, ZELADORES, SACERDOTES, SERES-ESPELHOS,
RESIDENTES, ASPIRANTES E INSTRUTORES. POR ÚLTIMO,
APRESENTAMOS A CONCLUSÃO. ................................................................133
2.1 A COMUNIDADE “FIGUEIRA” E ASPECTOS DA TRAJETÓRIA DO SEU
LÍDER......................................................................................................................133
“FIGUEIRA” É UMA ORGANIZAÇÃO LIDERADA POR JOSÉ HIPÓLITO
TRIGUEIRINHO NETTO. ELE NASCEU EM SÃO PAULO, NO ANO DE 1929.
SEU PAI ERA UM CORONEL DO EXÉRCITO E PROFESSOR DE
PORTUGUÊS. ....................................................................................................133
SEGUNDO JOSÉ INÁCIO DE MELO SOUZA (2003), PESQUISADOR DA
CINEMATECA BRASILEIRA, TRIGUEIRINHO INICIOU A CARREIRA DE
DIRETOR NA COMPANHIA VERA CRUZ COMO AUXILIAR DO PRODUTOR
ALBERTO CAVALCANTI. COSTUMAVA FREQÜENTAR A CASA DE
CAVALCANTI EM SÃO BERNARDO DO CAMPO - SP, ONDE ELE E VÁRIOS
INTELECTUAIS CONVERSAVAM SOBRE O DESTINO DO CINEMA
BRASILEIRO. SEU ESTUDO DE CINEMA FOI NO CENTRO DE ESTUDOS
CINEMATOGRÁFICOS DO MUSEU DE ARTES DE SÃO PAULO. ................133
TRIGUEIRINHO AUXILIOU O DIRETOR ADOLFO CELI NO FILME
“CAIÇARA”. FOI CRÍTICO DE CINEMA E ESCREVIA ARTIGOS PARA A
REVISTA “ANHEMBI” ESPECIALIZADA EM CINEMA (EDITADA PELA
FACULDADE DE COMUNICAÇÃO E ARTES DA USP). NAS CRÍTICAS DE
CINEMA QUE ESCREVIA PARA A REVISTA, SEMPRE SE COLOCAVA
CONTRA O IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO E SUA INDÚSTRIA
CINEMATOGRÁFICA. AJUDOU EM ROTEIROS DE DOCUMENTÁRIOS;
ESCREVEU UM ROTEIRO DE PROPAGANDA PARA O JOCKEY CLUBE DE
SÃO PAULO. EM 1953, GANHOU UMA BOLSA DE ESTUDOS DO INSTITUTO
CULTURAL ÍTALO-BRASILEIRO PARA O CENTRO SPERIMENTALE DE
CINEMATOGRAFIA, EM ROMA. ......................................................................133
TRIGUEIRINHO MOROU NA ITÁLIA DE 1953 A 1958, CINCO ANOS,
PORTANTO, EMBORA APENAS TRÊS FOSSEM SUFICIENTES PARA
OBTER O DIPLOMA DE DIRETOR DE CINEMA. EM 1956, COLABOROU NOS
“ARGUMENTOS CINEMATOGRÁFICOS” DA EQUIPE BRASILEIRA DE
PRODUÇÃO INTERNACIONAL COORDENADA POR JORIS IVENS, DIE
WINDROSE. .......................................................................................................134
ESCREVEU UM “ARGUMENTO CINEMATOGRÁFICO” PARA “ROMA DE
NOTTE”, OUTRO PARA “ESTATE ROMANA”, E FEZ O ROTEIRO DE
“EPOCA BELLA”. O ROTEIRO DE “BAHIA DE TODOS OS SANTOS”
(1959/1960), SEU LONGA-METRAGEM PREMIADO, FOI ESCRITO NESSA
MESMA ÉPOCA, CONCORRENDO AO PRÊMIO FÁBIO PRADO, ENQUANTO
TRIGUEIRINHO REALIZAVA NA ITÁLIA O DOCUMENTÁRIO “NASCE UN
MERCATTO”. ....................................................................................................134
VISANDO AO PRÊMIO FÁBIO PRADO, EM 1958, PARA MELHOR ROTEIRO
DO FILME “BAHIA DE TODOS OS SANTOS”, TRIGUEIRINHO RETORNOU
AO PAÍS PARA FINALIZAÇÃO DO FILME. NO SEGUNDO SEMESTRE,
TRABALHOU NA REX FILME. “BAHIA DE TODOS OS SANTOS” FOI
FILMADO COM JURANDIR PIMENTEL (ATOR QUE COMETEU SUICÍDIO
APÓS SUA ATUAÇÃO EM “BAHIA”). .............................................................134
EM QUATRO DE SETEMBRO DE 1958, TRIGUEIRINHO SOLICITOU
FINANCIAMENTO DE DOIS MILHÕES DE CRUZEIROS AO BANCO DO
ESTADO DE SÃO PAULO (BANESPA), QUE FOI NEGADO. EM QUATORZE
DE MAIO DE 1959, FOI PEDIDO, DIRETAMENTE AO PRESIDENTE DO
BANCO BANESPA, O REEXAME DO ROTEIRO. A COMISSÃO DE MORAL E
COSTUMES DA CONFEDERAÇÃO DAS FAMÍLIAS CRISTÃS, QUE ERA UMA
ESPÉCIE DE COMISSÃO DE CENSURA, COLABOROU NO REEXAME DO
ROTEIRO E CONCLUIU QUE O MESMO NÃO DEVERIA SER CENSURADO,
MAS SALIENTAVA O FATO DE O FILME PODER SE TORNAR GROSSEIRO
SE NÃO FOSSEM SUBTRAÍDAS ALGUMAS PALAVRAS TAIS COMO: “QUE
MERDA; TEM AINDA BONS PEITOS; AS BRANCAS GOSTAM DE IR PRA
CAMA COM NEGRO; MAS É VIRGEM?; ESPERA QUE EU VOU MIJAR”.
PARA FAZER ESSAS MODIFICAÇÕES, ERA NECESSÁRIA A
CONCORDÂNCIA DE TRIGUEIRINHO, A QUAL SE DEU POR CARTA EM
NOVE DE JUNHO DE 1959: .............................................................................134
DESNECESSÁRIO SERIA DIZER QUE, SENDO A MINHA INTENÇÃO
REALIZAR UM DOCUMENTO CINEMATOGRÁFICO LIMPO, DESPIDO DE
QUALQUER INTUITO MENOS LIMPO, CAPAZ DE VIR A REPRESENTAR, EM
VERDADE, UMA PELÍCULA DE CUNHO ALTAMENTE SOCIAL, ESTOU
DISPOSTO A EXIBIR, DE ACORDO COM A SUGESTÃO DA
CONFEDERAÇÃO DAS FAMÍLIAS CRISTÃS, OS ‘RUSHES ’(TOMADAS), NA
PROPORÇÃO EM QUE A FITA FOR RODADA (TRIGUEIRINHO APUD
SOUZA, 2003, P. 7). ..........................................................................................135
UMA SEMANA APÓS A CARTA DE TRIGUEIRINHO, O BANESPA
CONCEDEU-LHE O EMPRÉSTIMO DE DOIS MILHÕES DE CRUZEIROS. COM
O GOVERNO DA BAHIA, TRIGUEIRINHO CONSEGUIU PASSAGENS DE
AVIÃO GRATUITAS PARA O ELENCO E TÉCNICOS, BEM COMO A
COOPERAÇÃO DA POLÍCIA MILITAR PARA ACOMODAÇÃO DO GRUPO E,
AINDA, SUPORTE NOS TRANSLADOS NA CIDADE E ARREDORES. AS
FILMAGENS FORAM FEITAS EM SALVADOR ENTRE NOVEMBRO DE 1959
E JANEIRO DE 1960. ........................................................................................135
O CUSTO FINAL DO FILME FOI QUATRO MILHÕES DE CRUZEIROS. POR
ESSE MOTIVO FOI NECESSÁRIO UM PEDIDO DE EMPRÉSTIMO
SUPLEMENTAR DE UM MILHÃO. A NECESSIDADE DE MAIS RECURSOS
DEVIA-SE, TAMBÉM, AO CONVITE PARA EXIBIÇÃO DO FILME NA XXI
MOSTRA INTERNACIONAL DE VENEZA, QUE COMEÇARIA EM AGOSTO
DO MESMO ANO. ESTA PARTICIPAÇÃO EM VENEZA NÃO SE
CONCRETIZOU. TRIGUEIRINHO PRETENDIA ENVIAR O FILME PARA OS
FESTIVAIS DE SÃO FRANCISCO, BERLIM E KARLOVY-VARY, MAS A
DIVISÃO CULTURAL VETOU SUA PARTICIPAÇÃO NO EXTERIOR. EM
NOVEMBRO DE 1961, O BANCO DO ESTADO ENVIOU A TRIGUEIRINHO A
COBRANÇA DO TÍTULO DE DOIS MILHÕES DE CRUZEIROS, VENCIDO EM
DOZE DE SETEMBRO DE 1960. “BAHIA DE TODOS OS SANTOS” SOMOU-
SE À LISTA DE EMPRÉSTIMOS INSOLVENTES DA CARTEIRA DE CINEMA
NACIONAL. “BAHIA DE TODOS OS SANTOS” ATRAIU CERCA DE
TREZENTOS MIL ESPECTADORES SOMENTE NA CIDADE DE SÃO PAULO,
MAS ERAM NECESSÁRIOS NOVECENTOS MIL PARA NÃO HAVER
PREJUÍZO. A DEMORA PARA SALDAR A DÍVIDA COM O BANCO ERA
CONSEQÜÊNCIA DA ESPERA POR VAGA NOS CINEMAS PARA
VEICULAÇÃO DE FILMES NÃO-COMERCIAIS, ROTULADOS COMO CULT
PELOS EXIBIDORES. “BAHIA DE TODOS OS SANTOS” ESTREOU EM
SETEMBRO DE 1960, EM SALVADOR, MAS SOMENTE EM MARÇO DE 1961
ENTROU EM CARTAZ EM SÃO PAULO. NO CIRCUITO DE BELO
HORIZONTE, SEIS MESES DEPOIS. ...............................................................135
TRIGUEIRINHO ERA TIDO NO MEIO CINEMATOGRÁFICO COMO UM
CINEASTA PROMISSOR, ALGUNS CRÍTICOS CINEMATOGRÁFICOS,
PROFESSORES, PRODUTORES APOSTAVAM NA SUA CARREIRA. POR
ANOS, ELE FOI IDENTIFICADO COMO UM DISCÍPULO DO MESTRE
CAVALCANTI. OS ESTUDOS DE TRIGUEIRINHO NO CENTRO
SPERIMENTALE FORNECERAM-LHE KNOWHOW TEÓRICO. ELE ERA UM
INTELECTUAL AFINADO COM A VANGUARDA CINEMATOGRÁFICA, O
VIÉS ROSSELLINIANO. TRIGUEIRINHO SEGUIU, NO FILME “BAHIA DE
TODOS OS SANTOS”, AS MESMAS PREOCUPAÇÕES COM A ESTÉTICA
BARROCA DE ROBERTO ROSSELLINI E FREDERICO FELLINI. SEGUNDO
CONFIRMA EM SUAS PALAVRAS, EM 1961: ................................................135
[...] ESSES HOMENS (CAVALCANTI E ROSSELLINI) CONTRIBUÍRAM
PARA QUE EU ME DEDICASSE DE CORPO E ALMA AO CINEMA. MAS, SE
SUA LINGUAGEM FOSSE RECONHECIDA EM MINHA FITA, ISSO
SIGNIFICARIA FALTA DE PERFEITA ASSIMILAÇÃO DE MINHA PARTE.
CULTURA É EXATAMENTE APRENDER O MÁXIMO, MANIFESTANDO-SE
EM SEGUIDA ATRAVÉS DE RECURSOS PRÓPRIOS. SERIA ABSURDO
IMITAR ROSSELINI E CAVALCANTI, JÁ QUE, NO QUE SE PROPUSERAM
EXPRIMIR, ELES FORAM COMPLETOS (TRIGUEIRINHO APUD SOUZA,
2003). ..................................................................................................................136
O ROTEIRO TRANSCORRIA NO PERÍODO DITATORIAL, SALIENTANDO O
CANDOMBLÉ, O SINDICALISMO, A GREVE E A QUESTÃO RACIAL. TINHA
UM CUNHO SOCIOLÓGICO AO CAPTAR O HOMEM BAIANO EM SUAS
RAÍZES, LEVANTANDO O PROBLEMA DA MISCIGENAÇÃO,
CONTEXTUALIZANDO A QUESTÃO DO HOMEM E DO HUMANISMO,
DESENVOLVENDO UMA VERTENTE DO CINEMA MODERNO: O
DOCUMENTÁRIO SOCIAL (SALLES, 1988). ENQUANTO FILMANDO, CRIOU
UM NOVO PARADIGMA PARA ALGUNS CRÍTICOS E FUTUROS CINEASTAS
EM SALVADOR, PARA OS QUAIS “BAHIA DE TODOS OS SANTOS” SE
TORNARIA INSPIRAÇÃO. ................................................................................136
O DIRETOR TRIGUEIRINHO TENDE A UM EXISTENCIALISMO. A BUSCA
DO HOMEM ROSSELLINIANO DE PROFUNDAS RAÍZES RELIGIOSAS. EM
TERMOS DE RELIGIÃO, TRIGUEIRINHO NÃO SE DECLARAVA CATÓLICO,
TINHA INTERESSE PELO HINDUÍSMO. FOI ADMINISTRADOR DE UM
ASHRAM (COMUNIDADE ESPIRITUAL HINDUÍSTA FORMADA EM TORNO
DE UM GURU) DO INDIANO SRI AUROBINDO, EM SALVADOR. TAMBÉM
NÃO ERA PARTIDÁRIO DOS CULTOS AFRO-BRASILEIROS. ....................136
TRADUZIA UM REALISMO SOCIAL NA SUA CONCEPÇÃO DO HOMEM
ILUSTRADA EM OBRAS COMO “FRANCISCO, ARAUTO DE DEUS” E
“ROMANCE NA ITÁLIA”. TAMBÉM EXPRESSAVA UMA MODERNIDADE EM
OUTROS ASPECTOS. SEGUIA A ESCOLA NEO-REALISTA, A
IMPROVISAÇÃO COM ATORES NÃO-PROFISSIONAIS, O QUE FAVORECIA
UMA MAIOR CRIAÇÃO ARTÍSTICA. NO ROTEIRO, APARECIAM CENAS DE
HOMOSSEXUALISMO, RELAÇÕES ILÍCITAS, DIÁLOGOS CHULOS, CENAS
REALISTAS (MISS COLLINS EM CAMISOLA). ERAM FILMES PROIBIDOS
PARA MENORES DE DEZOITO ANOS. PARA OS ADULTOS, TALVEZ
FOSSEM UMA CONTRIBUIÇÃO INTELECTUAL. PARA OS CULTOS, TALVEZ
FORNECESSEM UMA VISÃO REAL DA BAHIA E PARA OS INCULTOS,
MOSTRAVAM A PROBLEMÁTICA DO MULATO, DA MISCIGENAÇÃO. .....136
TRIGUEIRINHO PROMETEU A FILMAGEM DO ROMANCE DE MÁRIO DE
ANDRADE “AMAR VERBO INTRANSITIVO”, MAS PAROU EM UM ÚNICO
LONGA-METRAGEM: .......................................................................................137
COM O ABANDONO DA CARREIRA POR TRIGUEIRINHO, VÁRIAS
PERGUNTAS FICARAM SEM SER RESPONDIDAS, COMO, POR EXEMPLO,
QUAL O PAPEL DO HOMOSSEXUALISMO NA CONSTRUÇÃO DE UM
PERSONAGEM COMO TONIO, ATOR PROTAGONISTA DO FILME “BAHIA
DE TODOS OS SANTOS”? O COMPLEXO SEXUAL PODERIA SER UM
SENTIMENTO DE DIVISÃO NA IDENTIDADE NACIONAL DO CINEASTA,
DIVIDIDO ENTRE DOIS PAÍSES, O BRASIL E A ITÁLIA... (SOUZA, 2003). .137
APÓS DESISTIR DO CINEMA, TRIGUEIRINHO GERENCIOU GRUPOS DE
RECURSOS HUMANOS EM HOTÉIS, ONDE FOI TREINADOR DE ‘MAÎTRES’
NO SENAC/SP, FOI ADMINISTRADOR DO ASHRAM-COMUNIDADE DO
GURU INDIANO SRI AUROBINDO EM SALVADOR. TRIGUEIRINHO AINDA
FUNDOU COMUNIDADES ALTERNATIVAS. PRIMEIRO, A COMUNIDADE
“NAZARÉ PAULISTA”, DEPOIS “FIGUEIRA”. CONCOMITANTEMENTE,
ESCREVEU DEZENAS DE LIVROS COM PROFECIAS DO FIM DO MUNDO E
O RESGATE DA TERRA COM AJUDA DE EXTRATERRESTRES. ...............137
2.1.1 A Fundação da Comunidade “Nazaré”..................................................137
ANTES DE FUNDAR “FIGUEIRA”, TRIGUEIRINHO CRIOU A COMUNIDADE
“NAZARÉ”, ONDE ESTIVEMOS PESSOALMENTE POR DUAS VEZES, NA
CIDADE DE NAZARÉ PAULISTA, INTERIOR DE SÃO PAULO. ...................137
INICIALMENTE, O CENTRO DA COMUNIDADE “NAZARÉ”, CONSTRUÍDO
EM TERRENO DOADO A TRIGUEIRINHO EM COMODATO, FOI CHAMADO
DE COMUNIDADE NAZARÉ (ANEXO A) E ERA UM LOCAL DE RETIRO
ESPIRITUAL (SILVEIRA, 2003).........................................................................137
PARA ORGANIZAR “NAZARÉ”, TRIGUEIRINHO UTILIZOU COMO BASE O
MESMO MODELO DE ORGANIZAÇÃO DA FUNDAÇÃO “FINDHORN”, A
QUAL FICA AO NORTE DA ESCÓCIA. ELE CONVIDOU SARA MARRIOT,
ESCRITORA AMERICANA, QUE RESIDIA EM “FINDHORN”, PARA
CONHECER A COMUNIDADE “NAZARÉ”. SARA PERMANECEU MAIS UMA
TEMPORADA, SOMENTE EM 1983, DECIDIU FIAR E MORAR NA
COMUNIDADE “NAZARÉ”. ASSIM, “NAZARÉ” PASSOU A CONTAR COM
UMA CO-ADMINISTRADORA QUE SEGUIA TAMBÉM O MODELO DE
“AUROVILLE”, COMUNIDADE CRIADA POR SRI AUROBINDO NA CIDADE
DE PONDICHERRY, ÍNDIA. ORGANIZAÇÃO ESTA QUE FOI, TAMBÉM, CO-
ADMINISTRADA PELA ARTISTA PLÁSTICA FRANCESA MIRA ALFHASSA.
.............................................................................................................................137
A COMUNIDADE “NAZARÉ” É UMA ORGANIZAÇÃO NÃO-
GOVERNAMENTAL (ONG). CONTA COM MÃO-DE-OBRA E
CONTRIBUIÇÕES VOLUNTÁRIAS (GOHN, 2000). A ONG TEM UM CENTRO
DE VIVÊNCIAS ONDE SE REALIZAM WORKSHOPS E PALESTRAS
TERCEIRIZADOS, PARTE DO LUCRO DESTAS TERCEIRIZAÇÕES SERVE
PARA A AUTO-MANUTENÇÃO. ......................................................................138
A COMUNIDADE “NAZARÉ” LOCALIZA-SE NUMA ÁREA DE PROTEÇÃO
AMBIENTAL(APA), PORQUE HAVIA PROBLEMAS AMBIENTAIS
EXISTENTES NA REGIÃO, ESTA ERA UMA ÁREA DE DEVASTAÇÃO
PERMANENTE.MAS APESAR DISSO, PODE-SE ENCONTRAR UMA
VARIEDADE DE ANIMAIS E PLANTAS. HÁ POUCOS ANOS, A
COMUNIDADE “NAZARÉ EMPRESTOU PARTE DE SUAS TERRAS PARA O
INSTITUTO DE PESQUISAS ECOLÓGICAS (IPÊ) OBJETIVANDO
CONTRIBUIR PARA A SUSTENTABILIDADE ECOLÓGICA LOCAL (PÁDUA,
2003)....................................................................................................................138
“NAZARÉ” TAMBÉM É UM CENTRO ECUMÊNICO. POR LÁ CIRCULAM
PESSOAS DE VÁRIAS RELIGIÕES, COR, RAÇA, SEXO, IDADE, STATUS
SOCIAL OU ECONÔMICO E PROVENIENTES DE VÁRIAS CIDADES DO
BRASIL E DE VÁRIAS NACIONALIDADES. ...................................................138
NA COMUNIDADE, HÁ HORTA E POMAR, ONDE SÃO PLANTADAS
VERDURAS, LEGUMES E FRUTAS SEM AGROTÓXICOS. A ALIMENTAÇÃO
É VEGETARIANA E NATURAL. HÁ UM JARDIM DE ERVAS COM ESTUFA
PARA SECAGEM DAS MESMAS QUE SERVIRÃO PARA TINTURAS DE
CHÁS MEDICINAIS. NESTA ÁREA, HÁ FLORES DE DIVERSAS ÁREAS
GEOGRÁFICAS DO MUNDO E UM JARDIM DE INVERNO. NA PARTE
CONSTRUÍDA, HÁ COPA E COZINHA INDUSTRIAL, UMA PADARIA QUE
ABASTECE O LOCAL, SALA DE VÍDEO, SALA DE ARTES E COSTURA,
ALÉM DE LAVANDERIA. TAMBÉM UMA SALA DE CURA PARA
MASSAGENS, UMA SALA DE MÚSICA E OUTRA DE ESTUDOS. AINDA HÁ
UMA OFICINA DE FERRAMENTAS, UMA DESPENSA E UM CENTRO
COMUNITÁRIO ONDE AS PESSOAS SE REÚNEM. OS QUARTOS SÃO
INDIVIDUAIS, ALGUNS COM BANHEIROS PRIVATIVOS A MAIORIA DOS
BANHEIROS É COLETIVA. HÁ UMA SALA ZEN ESPECIAL PARA
MEDITAÇÕES QUE SÃO FEITAS EM CONJUNTO TRÊS VEZES AO DIA E,
FINALMENTE, UMA BIBLIOTECA ESOTÉRICA COM VÁRIOS TÍTULOS EM
INGLÊS, POIS A MESMA FOI ORGANIZADA POR SARA MARRIOT. .........138
SEGUNDO ALGUNS INTEGRANTES ANTIGOS DO GRUPO, HOUVE UMA
REBELIÃO, COM O APOIO DE SARA MARRIOT, CONTRA A
ADMINISTRAÇÃO RADICAL E CENTRALIZADORA DE TRIGUEIRINHO, NÃO
LHE RESTANDO OUTRA OPÇÃO QUE A DE SE RETIRAR. ASSIM, EM 1987,
TRIGUEIRINHO CRIA E FUNDA A COMUNIDADE“FIGUEIRA”, SITUADA EM
CARMO DA CACHOEIRA - MG, SAI DEFINITIVAMENTE DE “NAZARÉ”.
QUEM FICARÁ À TESTA DA ADMINISTRAÇÃO DE “NAZARÉ” SERÁ SARA
MARRIOT ATÉ ABRIL DE 1999, QUANDO ESTA RETORNA AO SEU PAÍS DE
ORIGEM, ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. EM DOIS DE NOVEMBRO DE
2000, COM NOVENTA E CINCO ANOS DE IDADE, FALECEU......................138
DESDE SUA FUNDAÇÃO, “NAZARÉ” RECEBE PESSOAS DE VÁRIAS
CIDADES DO BRASIL E DO EXTERIOR. A SUA FINALIDADE É SER UMA
ESCOLA DE EDUCAÇÃO INFORMAL. HOJE, A COMUNIDADE TORNOU-SE
UMA UNIVERSIDADE DA LUZ, A UNILUZ, E CONTINUA PRESTANDO
SERVIÇOS ATRAVÉS DE DIVERSOS WORKSHOPS, CURSOS E VIVÊNCIA,
A PRINCIPAL VIVÊNCIA É A DE RESIDÊNCIA TEMPORÁRIA, QUE
POSSIBILITA EXPERIENCIAR, RESIDIR E ESTUDAR NO SEU CAMPUS.. 139
A UNILUZ É UM LABORATÓRIO EXPERIMENTAL DE CONVIVÊNCIA
GRUPAL, COLETIVA E COOPERATIVA, A EXPERIÊNCIA DE VIVER
VALORES HUMANOS NO COTIDIANO ESTIMULA O TRABALHO
VOLUNTÁRIO, EXERCITAR-SE A RESPONSABILIDADE SOCIAL. A
INTERAÇÃO SE DÁ DE FORMA SAUDÁVEL, PROPICIANDO-SE UMA
VIVÊNCIA E EXPERIÊNCIA ECOLÓGICA INTERNA E EXTERNA. “NAZARÉ
UNILUZ” É UMA ONG QUE PRATICA A SUSTENTABILIDADE DO VIVER EM
COLETIVO, EM GRUPO. AS INTERAÇÕES SE CONSTROEM E SÃO
POTENCIALIZADAS NOS ENCONTROS TEÓRICOS-EXPERENCIAIS,
COMPROMETENDO-SE DESSA FORMA COM A SUSTENTABILIDADE
ECOLÓGICA DO PLANETA (SILVEIRA, 2003)................................................139
2.2 A ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DE “FIGUEIRA”, ASPECTOS
LOGÍSTICOS, MATERIAIS, ETC. .......................................................................139
ESTIVEMOS PESSOALMENTE EM “FIGUEIRA” E CONSTATAMOS QUE LÁ
RESIDEM APROXIMADAMENTE TREZENTAS PESSOAS, TENDO COMO
PRINCIPAL OBJETIVO A FORMAÇÃO E INSTRUÇÃO ESPIRITUAL. .........139
AS TERRAS DE “FIGUEIRA” LOCALIZAM-SE NA CIDADE DE CARMO DA
CACHOEIRA, INTERIOR DE MINAS GERAIS, REGIÃO SUDESTE DO
BRASIL. SUA ÁREA GEOGRÁFICA ERA ORIGINALMENTE UMA FAZENDA
DE UNS CEM HECTARES. RECENTEMENTE, TRIGUEIRINHO ADQUIRIU
MAIS TERRAS. ..................................................................................................139
“FIGUEIRA” POSSUI BOSQUES, LAGOS, MATAS NATURAIS,
PLANTAÇÕES, CASAS PARA ALOJAMENTO, ESTUDOS, CURA,
LABORATÓRIOS ARTESANAIS E OFICINAS DE TRABALHO. NÃO ESTÁ
LIGADA A DOUTRINAS, SEITAS, RELIGIÕES NEM INSTITUIÇÕES. SUA
BASE É A VIDA GRUPAL. CULTIVA O SERVIÇO E A VIDA ESPIRITUAL. LÁ
ENCONTRAMOS PESSOAS DE TODAS AS IDADES E NACIONALIDADES
COM DIFERENTES VIVÊNCIAS. AS TAREFAS DO DIA-A-DIA SÃO VISTAS
COMO SAGRADAS. NÃO ERA E NÃO É PERMITIDO, NO PERÍODO EM QUE
NOS HOSPEDAMOS ALI, CHAMADAS TELEFÔNICAS E CONTATOS
EXTERNOS CONSIDERADOS DESNECESSÁRIOS POR PARTE DA
ADMINISTRAÇÃO. ............................................................................................139
NÃO ESTIMULAM INTIMIDADES E VÍNCULOS EMOCIONAIS. POR ESSA
RAZÃO, PARENTES E AMIGOS, EM GERAL, FICAM HOSPEDADOS EM
ÁREAS DISTINTAS. EXISTEM POUQUÍSSIMAS CRIANÇAS, PORQUE
DEVEM ESTAR PRONTAS PARA CUIDAR DE SI MESMAS SEM A
PRESENÇA DOS PAIS E SEM DAR MUITO TRABALHO. SÃO
ACOMPANHADAS COM ATENÇÃO PELOS ENCARREGADOS DAS ÁREAS.
ELES ATÉ PERMITEM QUE MENORES DE IDADE HOSPEDEM-SE EM
“FIGUEIRA” E PARTICIPEM DOS TRABALHOS, DESDE QUE COM O
CONHECIMENTO E A AUTORIZAÇÃO ESCRITA DOS RESPONSÁVEIS. OS
RESIDENTES OPTARAM PELO CELIBATO. OS HÓSPEDES OU VISITANTES
SÃO OBRIGADOS A ASSUMIR ESSA CONDIÇÃO ENQUANTO
PERMANECEM NO LOCAL. .............................................................................140
AS ACOMODAÇÕES SÃO SIMPLES E RÚSTICAS, TANTO NAS CASAS DA
CIDADE QUANTO NAS DA FAZENDA, E SÃO DESIGNADAS AOS
VISITANTES PELA SECRETARIA GERAL DE “FIGUEIRA” CONFORME AS
NECESSIDADES DAS TAREFAS INTERNAS E A DISPONIBILIDADE DE
ALOJAMENTOS. ENQUANTO OS VISITANTES ESTÃO OCUPANDO OS
QUARTOS, PROÍBEM-SE VISITANTES AO RECINTO ÍNTIMO. ....................140
O ALIMENTO SERVIDO É DISPONIBILIZADO, DE ACORDO COM AS
ESTAÇÕES DO ANO, É CULTIVADO ORGANICAMENTE E SEM
AGROTÓXICOS. AS REFEIÇÕES SÃO VEGETARIANAS E INTEGRAIS, SEM
LATICÍNIOS, AÇÚCAR REFINADO, SAL, ALHO, CEBOLA, TEMPEROS,
CAFÉ OU REFRIGERANTES. NÃO SÃO USADAS BEBIDAS ALCOÓLICAS,
NEM DROGAS, NEM FUMO. OS PRODUTOS DA TERRA NÃO SÃO
COMERCIALIZADOS E NENHUM DOS COLABORADORES QUE
COMPARTILHAM DE SUAS METAS É REMUNERADO. COME-SE AO REDOR
DE BUFETES E SENTA-SE FORA DA MESA EM BANCOS OU CADEIRAS,
EM SILÊNCIO. DEPOIS, CADA UM LAVA OS UTENSÍLIOS UTILIZADOS. . 140
PARA SOLICITAR UMA TEMPORADA, PARTICIPAR DE ALGUM
TREINAMENTO OU SEMINÁRIO, OU EM QUALQUER ESTUDO, OU MESMO
PARA UMA SIMPLES VISITA É PRECISO SEGUIR CERTA BUROCRACIA:
AVISÁ-LOS COM ANTECEDÊNCIA PRÉVIA E AGUARDAR RESPOSTA, POIS
NÃO PERMITEM A PRESENÇA DE PESSOAS SEM A DEVIDA
AUTORIZAÇÃO. ................................................................................................140
OS QUE SE HOSPEDAM EM “FIGUEIRA” DEVEM LEVAR ROUPAS DE
BANHO, ROUPAS SIMPLES PARA TRABALHOS NA LAVOURA, HORTA,
POMAR, ESTRADAS, AGASALHOS PARA TRABALHOS NOTURNOS OU
MATINAIS, RELÓGIO PARA CUMPRIR A AGENDA DE TAREFAS,
DESPERTADOR PARA ACORDAR CEDO, LANTERNA PARA TRABALHOS
NOTURNOS E PARA FALTA DE LUZ E DEMAIS OBJETOS PESSOAIS. O
VESTUÁRIO É SÓBRIO E DISCRETO. NÃO SE PERMITEM MAQUIAGENS,
DECOTES, SAIAS CURTAS, VESTIDOS CURTOS, ROUPAS
TRANSPARENTES, SHORTS, CALÇA DE CINTURA BAIXA, MINIBLUSA,
SALTOS ALTOS, ETC. NÃO SE PERMITE USO DE PERFUMES, INCENSOS,
TELEFONES CELULARES, FILMADORAS OU MÁQUINAS FOTOGRÁFICAS.
TAMBÉM NÃO SE PODEM USAR GRAVADORES. .......................................141
TODAS AS ATIVIDADES SÃO GRUPAIS, OS ESTUDOS E AS TAREFAS
SÃO DESENVOLVIDOS NAS ÁREAS DE TRABALHO. AOS SEMI-INTERNOS,
HÓSPEDES, VISITANTES SÃO DISTRIBUÍDOS TRABALHOS
COMPULSÓRIOS DIVERSOS, FEITOS NOS SETORES (SERÃO
EXPLICADOS POSTERIORMENTE). AS TAREFAS COMEÇAM ANTES QUE
O DIA AMANHEÇA E SEGUEM ATÉ 17H30MIN. COMPÕEM-SE DE LIMPEZA
DE CASA, PREPARO DE ALIMENTOS, DESIDRATAÇÃO DE LEGUMES E
FRUTAS, TRABALHOS NA PADARIA, LAVANDERIA, MARCENARIA E
MANUTENÇÃO, HORTICULTURA, JARDINAGEM E PLANTIOS E
COLHEITAS EM GERAL, MUTIRÕES PARA ABERTURAS DE ESTRADAS,
RADIOAMADORISMO PARA CONTATOS DE EMERGÊNCIA, APICULTURA,
EDIÇÃO E DIFUSÃO DE LIVROS, FOLHETOS, BOLETINS E GRAVAÇÕES,
RECEPÇÃO DE HÓSPEDES, ALÉM DE ATENDIMENTO A PESSOAS
NECESSITADAS. ÀS SEIS HORAS, O GRUPO TODO EM CONJUNTO
COOPERA NA LIMPEZA BÁSICA DOS AMBIENTES. O CAFÉ DA MANHÃ É
ÀS 7H30MIN. HÁ REFEIÇÕES ÀS DOZE E DEZOITO HORAS. O
RECOLHIMENTO PARA O SONO TEM INÍCIO ÀS 20H30MIN. O SILÊNCIO
DEVE SER FEITO EM ESPECIAL A PARTIR DAS 21H30MIN. ......................141
PALESTRAS COM TRIGUEIRINHO REALIZAM-SE ÀS QUARTAS-FEIRAS E
AOS SÁBADOS, ÀS DEZESSETE HORAS; AOS DOMINGOS, ÀS 11H30MIN;
NO DIA DA VIGÍLIA MENSAL ÀS DEZESSETE HORAS; NOS ENCONTROS
DE ORAÇÃO E NAS REUNIÕES DOS MONASTÉRIOS ÀS SEIS HORAS E ÀS
13H30MIN. OS ENCONTROS DO SETOR SAÚDE REALIZAM-SE ÀS
QUARTAS-FEIRAS ÀS NOVE HORAS PELOS MÉDICOS E TERAPEUTAS.
OS ENCONTROS DE ORAÇÃO OCORREM TRÊS VEZES AO ANO. NESTES
ENCONTROS, HÁ UMA PALESTRA COM ARTHUR (NOME ESPIRITUAL DO
“BRAÇO DIREITO” DE TRIGUEIRINHO), ÀS SEIS HORAS. AS REUNIÕES
DO MONASTÉRIO SÃO FEITAS NO SEGUNDO FIM DE SEMANA DO MÊS.
ÀS VEZES, SÃO REALIZADOS, DURANTE O ANO, TREINAMENTOS E
SEMINÁRIOS NA ÁREA DA SAÚDE, ALIMENTAÇÃO, SOCORRO E
SOBREVIVÊNCIA EM MOMENTOS DE CATÁSTROFES. .............................141
HÁ EM “FIGUEIRA” UMA VIGÍLIA PERMANENTE, UMA ESPÉCIE DE
MEDITAÇÃO, QUE É FEITA DIA E NOITE NUM BOSQUE DE EUCALIPTOS.
OS PARTICIPANTES REVEZAM-SE DE DUAS EM DUAS HORAS. TAMBÉM,
UMA VIGÍLIA MENSAL REALIZADA POR TODO O GRUPO NA ÚLTIMA
QUARTA-FEIRA DO MÊS, OCASIÃO EM QUE SE DEDICAM AO SILÊNCIO
REFLEXIVO. NESTE DIA, ACONTECE UMA PALESTRA ÀS NOVE HORAS
COM ARTHUR E UMA COM TRIGUEIRINHO ÀS DEZESSETE HORAS. EM
OCASIÕES ESPECIAIS, MANTRAS SÃO ENTOADOS (ANEXO B), SONS
SEM LÓGICA OU SENTIDO. O ÚNICO LAZER E ATIVIDADE CULTURAL É O
CORAL (ANEXO C), COM EXECUÇÃO DE PEÇAS CRIADAS PELO PRÓPRIO
GRUPO. CRIOU-SE UM NOVO IDIOMA, CHAMADO POR ELES DE IRDIN. É
MÂNTRICO, SEM SIGNIFICAÇÃO, O QUE IMPORTA É O SOM UTILIZADO
EM REPETIÇÕES ORAIS E NO CORAL QUE HÁ EM “FIGUEIRA”. SEGUNDO
TRIGUEIRINHO: ................................................................................................142
IRDIN, IDIOMA CÓSMICO, USADO NOS UNIVERSOS CONFEDERADOS.
REVESTIDO DE FORMA ADEQUADA AO ESTADO DE CONSCIÊNCIA DO
PLANETA ONDE SE MANIFESTA. EXPRIME A ESSÊNCIA CRIADORA E
ARQUÉTIPOS DA EVOLUÇÃO. COMO VIBRAÇÃO, ESTÁ NA ORIGEM E NA
BASE DE TODOS OS IDIOMAS. PALAVRAS E SÍMBOLOS EM IRDIN
UNIFICAM CONSCIÊNCIAS, MUNDOS E CICLOS EVOLUTIVOS. PODEM
SURGIR ESPONTANEAMENTE NO INTERIOR DO HOMEM EM
DECORRÊNCIA DA SUA SINTONIA COM A LEI E COM A
SUPRACONSCIÊNCIA. É UMA COMUNICAÇÃO COM A VIDA MAIOR, A VIDA
CÓSMICA, E APRESENTA-SE A NÓS NESTA ÉPOCA EM ESPECIAL À
MEDIDA QUE TRANSCENDEMOS AS FRONTEIRAS DA MENTE. EM
“FIGUEIRA”, A MAIORIA DOS MANTRAS FOI CONCEBIDA EM IRDIN
(TRIGUEIRINHO, 1997, P. 220). .......................................................................142
TAMBÉM HÁ EM “FIGUEIRA” TRATAMENTOS PARA REVITALIZAÇÃO E
CURA POR MEIO DE MEDICAMENTOS SUTIS, HOMEOPATIA, FLORAIS,
CHÁS DE ERVAS E PROCEDIMENTOS TERAPÊUTICOS COMO
COMPRESSAS, ENEMAS (COLONTERAPIA), DESINTOXICAÇÃO,
CUIDADOS COM A COLUNA, ETC. ESSES TRATAMENTOS SÃO
DISPONIBILIZADOS AOS QUE NECESSITAM DE CUIDADOS MÉDICOS
LEVES. HÁ UMA UNIDADE ESPECÍFICA, CHAMADA “ABRIGO”, QUE
ATENDE PESSOAS TRAUMATIZADAS OU EXCLUÍDAS PELO CAOS
SOCIAL, PESSOAS QUE PROCURAM EQUILÍBRIO E PAZ. “FIGUEIRA” NÃO
É CLÍNICA MÉDICA, MAS LÁ HÁ MÉDICOS VOLUNTÁRIOS QUE TAMBÉM
SE HOSPEDAM E PRESTAM SERVIÇOS COM SUA ESPECIALIDADE.
“FIGUEIRA” NÃO É UM CENTRO DE REABILITAÇÃO, POR ESTE MOTIVO
NÃO ALOJA DEPENDENTES DE ÁLCOOL, FUMO OU DROGAS. ELES
TAMPOUCO TÊM ESTRUTURA PARA ATENDER CASOS PSIQUIÁTRICOS
(ANEXO D). ........................................................................................................142
2.2.1 Estrutura Física: Sede, Casas, Setores, Monastérios, Redes de Serviço
no Brasil e no Exterior............................................................................143
CONSTATAMOS QUE EXISTE UMA ORGANIZAÇÃO FÍSICA POR
SETORES, A QUAL SE DIVIDE EM DUAS ÁREAS, UMA URBANA,
LOCALIZADA NA CIDADE DE CARMO DA CACHOEIRA, INTERIOR DE MG;
E UMA RURAL, NA FAZENDA. ........................................................................143
NA ÁREA URBANA SITUA-SE, GEOGRAFICAMENTE, A CASA 1,
PRIMEIRA SEDE EM 1987 E CHAMA-SE SECRETARIA GERAL, POIS
COORDENA E DISTRIBUI TAREFAS; A CASA 2 É UMA ESPÉCIE DE
AMBULATÓRIO; A CASA 3 É UM LOCAL PARA HÓSPEDES; A CASA 4, OU
CENTRAL DE ATENDÊNCIA (ANEXO E), RECEBE E DISTRIBUI DOAÇÕES
DE REMÉDIOS, GÊNEROS E ROUPAS E COORDENA O ABRIGO, QUE
ATENDE PESSOAS NECESSITADAS; A CASA 5 É O APIÁRIO. .................143
NA ÁREA RURAL, HÁ UMA FAZENDA DE APROXIMADAMENTE CEM
HECTARES. NO SETOR DA “VIDA CRIATIVA” SÃO FEITOS O PLANTIO E
COLHEITA, HÁ UMA LAVANDERIA, PADARIA, COZINHA E MARCENARIA,
SETOR DE MANUTENÇÃO, SILO PARA ARMAZENAMENTO DE
ALIMENTOS, ESTUFA PARA SEMENTES E SETOR DE FERRAMENTAS
PARA HORTA E POMAR. HÁ TAMBÉM UM LABIRINTO DE PEDRA, ONDE
AS PESSOAS FAZEM CAMINHADAS REFLEXIVAS E TERAPÊUTICAS. ...143
EM “FIGUEIRA” HÁ, ATUALMENTE, SETE MONASTÉRIOS, ALGUNS SÃO
REAIS, FÍSICOS, LOCALIZAM-SE GEPGRAFICAMENTE EM “FIGUEIRA”
MESMO, ONDE VIVEM OS RESIDENTES INTERNOS; OUTROS SÃO
VIRTUAIS, NÃO ESTÃO MATERIALIZADOS, NÃO POSSUEM UMA
EXISTÊNCIA CONCRETA, NÃO TEM LOCALIZAÇÃO FÍSICA, NEM
GEOGRÁFICA, POIS SÃO UM MODO DE VIDA, UMA FILOSOFIA, SÃO UM
ESTADO DE CONSCIÊNCIA, SEGUNDO TRIGUEIRINHO, SEM PRECISAR DE
UM LOCAL FÍSICO E/OU GEOGRÁFICO PROPRIAMENTE DITO: ...............143
O MONASTÉRIO 1 É FEMININO, SEMI-RECLUSO. ALI HÁ A PRÁTICA DO
YOGA (SIGNIFICA RELIGARE OU RELIGAÇÃO NA LÍNGUA HINDI) DA
ENTREGA, AGREGA PERSONALIDADES COM PERFIL ESPIRITUAL OU
LINHAGEM DOS SERES-ESPELHOS, SERES QUE DEVEM ESPELHAR NA
MATÉRIA O ARQUÉTIPO ESPIRITUAL PURO. LOCALIZA-SE NA FAZENDA
E É CHAMADO FIGUEIRA 1 OU F1. TAMBÉM NO F1 EXISTE, COM A
COLABORAÇÃO DE MÉDICOS E DENTISTAS SEMI-INTERNOS, UM
LABORATÓRIO QUE PRODUZ REMÉDIOS HOMEOPÁTICOS E FLORAIS,
UM CONSULTÓRIO DENTÁRIO E UM AMBULATÓRIO. ALI HÁ UM PÁTIO,
TIPO UM JARDIM DE INVERNO, COM UMA ÁREA ABERTA E OUTRA
RECLUSA, SENDO ESTA ÚLTIMA O LOCAL ONDE RESIDEM MONJAS, QUE
SÃO DESESTIMULADAS A TER QUALQUER CONTATO SOCIAL COM O
GRUPO SEMI-INTERNO E COM O PRÓPRIO GRUPO INTERNO..................143
O MONASTÉRIO 2 É MASCULINO, SEMI-RECLUSO, ONDE SE PRATICA O
YOGA DA IGUALDADE. AGREGA PESSOAS COM O PERFIL ESPIRITUAL
OU LINHAGEM DOS SACERDOTES. LOCALIZA-SE NA FAZENDA E É
CHAMADO DE FIGUEIRA 2 OU F2. HÁ UMA ÁREA RECLUSA, ONDE FICAM
OS MONGES DO SEXO MASCULINO E UMA ÁREA ABERTA, ONDE SE
REALIZA PLANTIO E COLHEITA DE ERVAS AROMÁTICAS, TEMPEROS,
VERDURAS, LEGUMINOSAS E CEREAIS. .....................................................144
O MONASTÉRIO 3 É MISTO, EREMÍTICO (RECLUSO). NESTE PRATICA-SE
O YOGA DA TOTALIDADE. AGREGA PESSOAS COM O PERFIL
ESPIRITUAL OU LINHAGEM DOS CONTEMPLATIVOS. ‘FIGUEIRA 3’ OU F3
LOCALIZA-SE NA FAZENDA. É DESIGNADO EREMITÉRIO, ONDE
ATUALMENTE RESIDE TRIGUEIRINHO E MAIS DUAS PESSOAS, UMA EX-
FREIRA CATÓLICA JÁ ACOSTUMADA COM A CLAUSURA E/OU VIDA
RECLUSA E ARTHUR. LÁ NINGUÉM POSSUI SOBRENOME, TODOS FORAM
REBATIZADOS COM NOVOS NOMES. ESTE TRIO VIVE COMO EREMITA E
NÃO TEM CONTATO SOCIAL COM O GRUPO INTERNO, MUITO MENOS
COM O GRUPO EXTERNO OU SEMI-INTERNO. DOS TRÊS, APENAS
TRIGUEIRINHO PODE TRANSITAR LIVREMENTE POR QUALQUER SETOR
OU TER CONTATO SOCIAL COM QUEM BEM LHE APROUVER. SÃO
PERMITIDOS RETIROS EREMÍTICOS EM ÁREAS DE SILÊNCIO, JUNTO À
NATUREZA. A PESSOA DEVE LEVAR UMA BARRACA E SUA PRÓPRIA
ALIMENTAÇÃO, POIS FICARÁ NO EREMITÉRIO SEM CONTATO COM
NINGUÉM............................................................................................................144
ARTHUR SAI, ESPORADICAMENTE, PARA DAR PALESTRAS INTERNAS.
NINGUÉM DO GRUPO DE INTERNOS PODE ENTRAR NO EREMITÉRIO. SE
QUISEREM MORAR LÁ, DEVERÃO VIVER UMA VIDA ISOLADA DO GRUPO
PRINCIPAL. .......................................................................................................144
O MONASTÉRIO 4 É MISTO, EXTERNO, PRATICA-SE O YOGA DA AÇÃO
ABNEGADA. AGREGA PESSOAS COM O PERFIL ESPIRITUAL OU
LINHAGEM DOS GUERREIROS. LOCALIZA-SE NA CASA 4, QUE FICA NA
CIDADE DE CARMO DA CACHOEIRA. ...........................................................144
O MONASTÉRIO 5 É MISTO, EXTERNO, PRATICA O YOGA DA CURA.
AGREGA PESSOAS COM O PERFIL ESPIRITUAL OU LINHAGEM DOS
CURADORES. LOCALIZA-SE EM F1 NA ÁREA RURAL DA FAZENDA. .....144
O MONASTÉRIO 6 É MISTO, DOMICILIAR, PRATICA O YOGA DO
CORAÇÃO. AGREGA PESSOAS COM O PERFIL ESPIRITUAL OU
LINHAGEM DOS INSTRUTORES. LOCALIZA-SE EM CIDADES DISTANTES
DA FAZENDA “FIGUEIRA”. .............................................................................144
O MONASTÉRIO 7 É MISTO, ITINERANTE, PRATICA O YOGA DO FOGO.
AGREGA PESSOAS COM O PERFIL ESPIRITUAL OU LINHAGEM DOS
GOVERNANTES. LOCALIZA-SE EM CIDADES DISTANTES DA FAZENDA
“FIGUEIRA”. (ANEXO F). .................................................................................145
A ORGANIZAÇÃO “FIGUEIRA” ESTÁ ABERTA PARA QUEM SE
COMPORTE DE MANEIRA ADEQUADA, DÓCIL, OBEDIENTE, ABNEGADA,
SUBMISSA, SUBSERVIENTE, SUBALTERNA, SUBORDINADA E, AINDA,
MOSTRE-SE ÚTIL. ESSES GRUPOS PODEM SER DENOMINADOS SEMI-
INTERNOS OU ITINERANTES. ELES SE HOSPEDAM PARA OUVIR AS
PALESTRAS DE TRIGUEIRINHO QUE SÃO CHAMADAS DE PARTILHA.
COMPRAM LIVROS E, EM TROCA, “FIGUEIRA” FORNECE COMIDA E
“ALIMENTO” PARA O ESPÍRITO. O GRUPO VISITANTE EXECUTA
TAREFAS COMPULSÓRIAS, NA MAIORIA BRAÇAIS, DESIGNADAS
CONFORME AS NECESSIDADES E SEM PRÉVIO ACORDO COM A
COORDENAÇÃO GERAL. “FIGUEIRA” CONTA COM UMA EQUIPE DE
SUPERVISORES QUE COORDENA OS SETORES E ZELA PELO EXATO
CUMPRIMENTO (EM TEMPO E PERFEIÇÃO) DESSAS TAREFAS (ANEXO G).
.............................................................................................................................145
O SOMATÓRIO DOS GRUPOS DE VISITANTES OU ITINERANTES COMPÕE
UMA “REDE DE SERVIÇOS” NO BRASIL E NO EXTERIOR QUE TENDEM A
MULTIPLICAR-SE. PARA PARTICIPAR DE UMA, É NECESSÁRIO DEDICAR-
SE VOLUNTARIAMENTE A ASSUNTOS PRÁTICOS E OPERACIONAIS.
TRABALHOS GRUPAIS DÃO ORIGEM ÀS REDES QUE NAS HORAS DE
CAOS E CATÁSTROFES ESTARÃO PREPARADOS PARA SE DEFRONTAR
COM SITUAÇÕES QUE OS LEVARÃO A UMA ATUAÇÃO PRÁTICA DE
SOCORRO. PRECISARÃO CONTRIBUIR PARA A SOBREVIVÊNCIA
COLETIVA, MINIMIZAR O SOFRIMENTO ALHEIO E, SEGUNDO ELES,
AUXILIAR MUITOS SERES A PASSAREM EM HARMONIA PARA OUTROS
MUNDOS OU PLANOS DE EXISTÊNCIA. .......................................................145
OS MEMBROS DE UMA “REDE DE SERVIÇOS” SÃO DAS MAIS DIVERSAS
ORIGENS. SÃO ESTIMULADOS A INTERIORIZAR-SE E A BUSCAR
CONHECIMENTO ATRAVÉS DO ESTUDO ESPIRITUAL. CADA UM TEM
TAREFAS ESPECÍFICAS A CUMPRIR COMO, POR EXEMPLO, A
SINTONIZAÇÃO DE MANTRAS, ETC., MAS FORMA COM OS DEMAIS UM
CONJUNTO. NEM SEMPRE DEVEM SE TORNAR NUMEROSAS. NÃO SÃO
CRIADAS PARA ENTRAR EM DISPUTAS, DISCUSSÕES OU POLÊMICAS.
SÃO CAMPOS DE PRÁTICA PARA AUTOCONHECIMENTO E PARA
TRANSFORMAÇÕES PESSOAIS E, PORTANTO, COLETIVAS (ANEXO H).
.............................................................................................................................145
NO BRASIL, SÃO EXTENSÕES E/OU PROLONGAMENTOS DE “FIGUEIRA”
E ESTÃO SUBORDINADAS À ADMINISTRAÇÃO DA COMUNIDADE. É
PRINCIPALMENTE COM A MÃO-DE-OBRA, VOLUNTÁRIA E GRATUITA
DESSES GRUPOS EXTERNOS, SEMI-INTERNOS OU ITINERANTES QUE
“FIGUEIRA” SE MANTÉM PRODUTIVA, POIS SEGUIDAMENTE SÃO
CONVOCADOS PARA MUTIRÕES E REUNIÕES EM REGIME DE
INTERNATO EM CARMO DA CACHOEIRA. AS NECESSIDADES INTERNAS
SÃO SUPRIDAS COM O DINHEIRO DE DOAÇÕES DESTAS PESSOAS. COM
O EXCEDENTE, ELES AJUDAM PESSOAS CARENTES COM DOAÇÕES DE
REMÉDIOS, ROUPAS E ALIMENTOS. ............................................................145
A REDE DE SERVIÇOS DE “FIGUEIRA” TEM PROLONGAMENTOS E/OU
GRUPOS NO CÉU AZUL, RUA ASTOLFO BUENO, 20, EM BELO
HORIZONTE, MINAS GERAIS - CEP 31545-350; GRANJA VIANNA, RUA
OTELO ZELONI, 333 - CEP 06351-160 CARAPICUÍBA, SP; SÃO CARLOS,
RUA ABRAHÃO JOÃO, 1114, JD. BANDEIRANTES, SÃO CARLOS, SP
(ANEXO H)..........................................................................................................146
“FIGUEIRA” TEM CONTATOS PARA INFORMAÇÕES NO BRASIL EM
ATIBAIA (SP); BELO HORIZONTE (MG); BRASÍLIA (DF); CAMPINAS (SP);
CAMPO GRANDE (MS); CURITIBA (PR); FORTALEZA (CE); GOV.
VALADARES (MG); JUNDIAÍ (SP); LONDRINA (PR); MONTES CLAROS
(MG); PORTO ALEGRE (RS); RECIFE (PE); RIBEIRÃO PRETO (SP); RIO DE
JANEIRO (RJ); SALVADOR (BA); SÃO CARLOS (SP); SÃO PAULO (SP);
VITÓRIA (ES). ....................................................................................................146
EM PORTO ALEGRE, HÁ CINCO GRUPOS: A) GRUPO DE AUDIÇÕES
PÚBLICAS QUINZENAL – ÀS SEGUNDAS-FEIRAS, ÀS 19H30MIN B) GRUPO
DE SINTONIA (MANTRAS) SEMANAL – ÀS TERÇAS-FEIRAS, ÀS 18H30MIN;
C) GRUPO DE SINTONIA (ATRIBUTOS DO MONASTÉRIO) SEMANAL, ÀS
QUARTAS-FEIRAS, ÀS 15H30MIN; D) GRUPO DE ESTUDOS SEMANAL, ÀS
QUINTAS-FEIRAS, ÀS 20H; E) GRUPO DE AUDIÇÕES PÚBLICAS
QUINZENAL, AOS SÁBADOS, ÀS 14H30MIN. O GRUPO PRINCIPAL EM
PORTO ALEGRE SITUA-SE NA RUA SÃO BENEDITO, 815, LOJA 05 -
BAIRRO JARDIM DO SALSO (ANEXO I). .......................................................146
AS REDES DE SERVIÇO NO EXTERIOR ESTÃO LOCALIZADAS EM
VÁRIAS CIDADES DA ARGENTINA – CIUDAD DE BUENOS AIRES; BUENOS
AIRES, MAR DEL PLATA; CHACO-FONTANA; CORRIENTES; CÓRDOBA;
MENDONZA; FORMOSA; MISIONES - POSADAS; RIO NEGRO - VIEDMA;
SANTA FÉ-SANTO TOMÉ. ...............................................................................146
HÁ REDE DE SERVIÇOS NA AUSTRÁLIA – CIDADE DE SIDNEY; CANADÁ
– CIDADE DE VICTÓRIA; AS REDES DE SERVIÇO DO CHILE ESTÃO
CENTRALIZADAS EM SANTIAGO; EQUADOR –CIDADE DE QUITO;
ESPANHA – CIDADE DE BARCELONA E CÁCERES; ESTADOS UNIDOS –
CIDADE DE TAHLEQUAH E TRUMANSBURG; INGLATERRA – CIDADE DE
BERKS; PARAGUAI – CIDADE DE ASSUNÇÃO; PORTUGAL – CIDADE DE
COLARES, CIDADE DE OEIRAS, CIDADE DO PORTO; SUÉCIA – CIDADE DE
ESTOCOLMO; URUGUAI – CIDADE DE MONTEVIDÉU; VENEZUELA –
CIDADE DE CARACAS. ....................................................................................146
2.2.2 Organização Administrativa, Hierarquia, Categoria de Membros,
Atividades, etc. .......................................................................................147
PERCEBEMOS, NAS VEZES EM QUE VISITAMOS “FIGUEIRA”, QUE
TRIGUEIRINHO, DEVIDO SUA PERSONALIDADE FORTE E CARISMA QUE
LHE OUTORGA PODER (WEBER, 1979), ALCANÇOU ASCENDÊNCIA
SOBRE SEU GRUPO, PORTANTO, ESTÁ NO TOPO DA PIRÂMIDE
HIERÁRQUICA. TEVE UMA VIDA MAIS VARIADA QUE OS INTEGRANTES
DE SEU GRUPO, ADQUIRIU MAIOR SOMA DE CONHECIMENTOS, MAIS
PODER INTELECTUAL, MAIS ORATÓRIA. ERA CINEASTA, VIAJOU PELO
MUNDO. A POSSE DE MAIS CONHECIMENTOS LEVOU-O A SE TORNAR
LÍDER, LEVOU-O A UM LUGAR SUPERIOR AO COMUM DAS PESSOAS DO
SEU GRUPO, REUNINDO EM TORNO DE SI SIMPATIZANTES E
ORGANIZANDO COMUNIDADES HÁ VINTE ANOS(DESDE 1987), COMO O
CASO DE “FIGUEIRA”. JÁ “NAZARÉ” TEM VINTE E CINCO ANOS(DESDE
1982). ..................................................................................................................147
A GRANDE PROFECIA DE TRIGUEIRINHO, HOJE CONSIDERADO UM
PROFETA COM VÁRIOS LIVROS ESCRITOS, FALA SOBRE A OPERAÇÃO
RESGATE DA RAÇA HUMANA, QUE SALVARÁ O SEU GRUPO DO FIM DO
MUNDO. PARA QUE ESSAS PESSOAS SEJAM RESGATÁVEIS PRECISAM
PASSAR POR UMA MUDANÇA DE COMPORTAMENTO E SUJEITAREM-SE
A UM RITUAL DE PASSAGEM (TURNER, 1974), A UMA DISCIPLINA, A UM
TREINAMENTO, A UM ADESTRAMENTO, A UM CONDICIONAMENTO, A
UMA SUBORDINAÇÃO, A UMA REEDUCAÇÃO, A UMA DESCONSTRUÇÃO,
A UMA DESPROGRAMAÇÃO, A UMA DESPERSONALIZAÇÃO, A UMA
PURIFICAÇÃO, A UMA MORTIFICAÇÃO, A UMA DOMESTICAÇÃO, A UMA
HOMOGENEIZAÇÃO, A UM DESPOJAMENTO, A UM NIVELAMENTO, A UMA
MODELAGEM, A UMA UNIFORMIDADE, A UMA IGUALDADE, ATÉ CHEGAR
À SANTIDADE, À PERFEIÇÃO MORAL DO SER HUMANO. O RESGATE E
MUDANÇA DE PADRÃO DE PERSONALIDADE TÊM COMO FINALIDADE
TORNÁ-LOS HUMILDES, MODESTOS, DÓCEIS (FOUCAULT, 1979), ÚTEIS,
MALEÁVEIS, OBEDIENTES, SUBMISSOS, SUBSERVIENTES, FLEXÍVEIS,
SEM LIBERDADE DE ESCOLHA, SEM LIVRE-ARBÍTRIO, PARA QUE
ACEITEM, ACATEM ORDENS E FUNÇÕES ALHEIAS À SUA NATUREZA
VOCACIONAL E ATENDAM AOS OBJETIVOS DO COLETIVO E NÃO DA SUA
INDIVIDUALIDADE. ...........................................................................................147
AS RELAÇÕES DE TRIGUEIRINHO COM O GRUPO QUE DIRIGE ESTÃO
ESTREITAMENTE LIGADAS ÀS SUAS QUALIDADES CARISMÁTICAS E
PROFÉTICAS (QUEIROZ, 1977). DESSE MODO, CONSEGUE QUE OS
INTERNOS E EXTERNOS DE “FIGUEIRA” CUMPRAM SUAS NORMAS,
REGRAS QUOTIDIANAS, E TRABALHEM EM ATIVIDADES GRATUITAS E
VOLUNTÁRIAS COM O FIM COLETIVO DE TRANSFORMAÇÃO DOS QUE
TRANSITAM POR ALI EM SERES HUMANOS RESGATÁVEIS. SÃO OS
COLABORADORES SEMI-INTERNOS, EXTERNOS, ITINERANTES,
AUTOCONVOCADOS OU VISITANTES QUE FAZEM PARTE DAS REDES DE
SERVIÇO. ..........................................................................................................147
OS GRUPOS EXTERNOS, VISITANTES, ITINERANTES SÃO
SUPERVISIONADOS, VIGIADOS (FOUCAULT, 1984), CONTROLADOS POR
UM GRUPO DE SUPERVISORES, POR COORDENADORES DE SETORES E
POR COLABORADORES INTERNOS COM O INTUITO DE SUJEITÁ-LOS,
SUBMETÊ-LOS, CONDICIONÁ-LOS, DOMINÁ-LOS PARA QUE SEJAM
OBEDIENTES, DÓCEIS E ÚTEIS ÀS ATIVIDADES E TAREFAS
NECESSÁRIAS À MANUTENÇÃO DE “FIGUEIRA”. OBVIAMENTE, HÁ UM
PERMANENTE CONFLITO (VELHO, 1989) ENTRE OS DESEJOS, HÁBITOS,
NECESSIDADES, CARACTERÍSTICAS E COMPORTAMENTOS
RESULTANTES DA INTERAÇÃO ENTRE COLABORADORES INTERNOS E
EXTERNOS. O INTERESSE DO GRUPO ESTÁ ACIMA DAS
INDIVIDUALIDADES. O INDIVÍDUO ENCONTRA-SE SUBORDINADO A
DETERMINAÇÕES COLETIVAS, SENÃO HAVERÁ SANÇÕES PRIVANDO
SUA INDEPENDÊNCIA, SEU LIVRE-ARBÍTRIO. ............................................148
OS SUPERVISORES OU COLABORADORES SÃO OS INDIVÍDUOS MAIS
CHEGADOS A TRIGUEIRINHO. AJUDAM ATIVAMENTE E, EM GERAL,
TAMBÉM SÃO DOTADOS DE CERTAS VIRTUDES CARISMÁTICAS.
TAMBÉM MINISTRAM PALESTRAS E SERVEM DE INTERMEDIÁRIOS
ENTRE TRIGUEIRINHO E O RESTANTE DO GRUPO, PORTANTO DISPÕEM
DE CERTO PODER: SÃO RECONHECIDAMENTE DISCÍPULOS DE
TRIGUEIRINHO DR. JOSÉ MARIA CLEMENTE (MÉDICO) E ARTHUR.
TRIGUEIRINHO E OS COORDENADORES PROCURAM ORGANIZAR OS
COLABORADORES INTERNOS E EXTERNOS, CONSTITUINDO-OS EM UMA
SOCIEDADE COM DIREITOS E OBRIGAÇÕES ESTABELECIDOS DE
ACORDO COM AS INSTRUÇÕES DADAS POR TRIGUEIRINHO, QUE
MODELA, DE CERTA FORMA, A COMUNIDADE QUE O CERCA. ...............148
A QUANTIDADE DE FUNÇÕES IMPÕE DIVISÃO DE TRABALHO E,
CONSEQÜENTEMENTE, O APARECIMENTO DE UMA SÉRIE DE
COLABORADORES INTERNOS E EXTERNOS. COMO NÃO PODE ASSUMIR
SOZINHO AS MÚLTIPLAS TAREFAS DO SETOR ESPIRITUAL E TEMPORAL,
TRIGUEIRINHO DIVIDE-AS COM OS COORDENADORES. ASSIM, HÁ UM
TIPO ÚNICO DE ESTRUTURA SOCIAL, COM TRÊS CAMADAS
SUPERPOSTAS, COM TRIGUEIRINHO NO ÁPICE, OS EXTERNOS OU SEMI-
INTERNOS OU REDES DE SERVIÇO NA BASE. INTERMEDIÁRIO A AMBOS,
ESTÁ UM GRUPO DE COORDENADORES INTERNOS MAIS CHEGADOS,
ESCOLHIDOS POR TRIGUEIRINHO, PESSOAS DE CONFIANÇA. A DIVISÃO
DO TRABALHO É CONDIÇÃO INDISPENSÁVEL PARA QUE A COMUNIDADE
SE DISCIPLINE E POSSA PARTIR PARA O RESGATE DO MUNDO,
ATRAVÉS DA “OPERAÇÃO RESGATE”. .......................................................148
OS COORDENADORES DOS SETORES DE “FIGUEIRA”, POR SUA VEZ,
ESTÃO CONSTANTEMENTE SENDO MUDADOS POR TRIGUEIRINHO. HÁ
UMA ROTATIVIDADE, UM RODÍZIO DE FUNÇÕES (GOFFMAN, 1999) COM O
INTUITO DE EVITAR APEGO ÀS TAREFAS, CULTIVAR O DESAPEGO
ENTRE OS COLABORADORES E NÃO PERMITIR A POSSÍVEL FORMAÇÃO
DE CLÃS, COMO OS QUE SURGIRAM NA COMUNIDADE NAZARÉ,
RESULTANDO NA EXCLUSÃO DE TRIGUEIRINHO. A CENTRALIZAÇÃO
(CROZIER,1981) DAS DECISÕES DE TRIGUEIRINHO ACARRETAM A FALTA
DE COMUNICAÇÃO INTERNA. HÁ UMA BARREIRA ENTRE TRIGUEIRINHO
E O GRUPO MENOS PRÓXIMO DE FORMA A NÃO SE DESENVOLVER
CLÃS QUE VENHAM A SE INSURGIR CONTRA A LIDERANÇA DELE. SUAS
ORDENS NÃO PODEM SER, PORTANTO, CRITICADAS E/OU
CONTRARIADAS. OS COLABORADORES SÃO CONDICIONADOS A NÃO
SE COMUNICAREM. UMA DAS MAIORES REGRAS EM “FIGUEIRA” É O
SILÊNCIO. TAMBÉM HÁ UM ISOLAMENTO QUE PRIVA OS
COLABORADORES DE INICIATIVA E CRIATIVIDADE, PORQUE ESTÃO
SUBMETIDOS ÀS REGRAS IMPOSTAS QUE REGULAM A FUNÇÃO, O
COMPORTAMENTO, AS OPERAÇÕES E A FORMA DE REALIZÁ-LA, SEU
MODO OPERATIVO ÚNICO AO QUAL DEVEM CONFORMAR-SE. A ORDEM
DO SEU DESENVOLVIMENTO JÁ ESTÁ ESPECIFICADA. TUDO ESTÁ
PREVISTO COM BASTANTE EXATIDÃO, PORTANTO NÃO HÁ ESPAÇO
PARA A INICIATIVA PESSOAL OU PARA O LIVRE-ARBÍTRIO. PARA
TRIGUEIRINHO, O LIVRE-ARBÍTRIO GERA UM ESTADO CAÓTICO,
EGOÍSTA. OS COLABORADORES, PARA SEREM SALVOS E
RESGATADOS, DEVEM CEDER E ENTREGAR SEU LIVRE-ARBÍTRIO À SUA
AUTORIDADE (HOBBES, 1974). .....................................................................149
TRIGUEIRINHO TORNA OS LIMITES DE “FIGUEIRA” MUITO PRECISOS EM
FUNÇÃO DE EXPERIÊNCIAS NEGATIVAS PASSADAS QUE O EXCLUÍRAM
DA COMUNIDADE “NAZARÉ”. POR ISSO, OS INDECISOS NÃO PODEM SER
ACEITOS. TODOS OS MEMBROS DEVEM MANIFESTAR ZELO NO
DESEMPENHO DOS DEVERES. SE UM MEMBRO RECUSA OBEDIÊNCIA, A
SALVAÇÃO DO GRUPO TODO É POSTA EM PERIGO, EM JOGO. ASSIM,
UMA DAS GRANDES PREOCUPAÇÕES DE TRIGUEIRINHO É DAR ÊNFASE
AOS LIMITES DO GRUPO, PRESERVANDO OS INTEGRANTES DO
CONTATO NOCIVO COM AS PESSOAS COM IDEAIS CONTRÁRIOS. ISTO,
EM PARTE, DETERMINA A SEGREGAÇÃO DO GRUPO EM RELAÇÃO À
SOCIEDADE GLOBAL. .....................................................................................149
“FIGUEIRA”, SOB A ÉGIDE DE UM NOVO CÓDIGO CULTURAL,
SUBVERTE A ORDEM SOCIAL ESTABELECIDA, FAZENDO NORMAS QUE
CONTRARIAM A SOCIEDADE ESTRUTURADA. COM ISSO, O GRUPO
INTERNO, QUE POSSUI IDÉIAS QUE CONFLITAM COM OS VALORES DA
SOCIEDADE MAIOR, GERA TENSÃO E DISCORDÂNCIA PERMANENTES
COM O GRUPO DE EXTERNOS QUANDO INTERAGEM
(JOAS,1999;MERTON,1968). ...........................................................................149
2.2.3 Forma de Subsistência, Trabalho Voluntário e Gratuito.....................150
PERCEBEMOS, NAS VEZES EM QUE VISITAMOS “FIGUEIRA”, QUE OS
INTERNOS NÃO CONHECEM O VALOR DO DINHEIRO, NÃO LIDAM COM
ELE, NEM CONHECEM A MOEDA NACIONAL ATUAL. SÓ ALGUNS
POUCOS ADMINISTRAM CONTAS BANCÁRIAS. SÃO OS QUE TRABALHAM
NA SECRETARIA, QUE FICA NA CASA 1, NA ÁREA URBANA. ELES
PRECISAM, EVENTUALMENTE, SAIR PARA REALIZAR COMPRAS PARA
OS QUE PERMANECEM NA FAZENDA, OS QUAIS NÃO PODEM SAIR
NUNCA, NEM EM FERIADOS, NEM DE FÉRIAS, ETC. ..................................150
EMBORA OS INTERNOS DESCONHEÇAM VALORES MONETÁRIOS, A
ORGANIZAÇÃO, POR SUA VEZ, DISPÕE DE MEIOS PARA A OBTENÇÃO
DE RECURSOS PARA A CONSECUÇÃO DE SUAS METAS. UMA DAS
FORMAS DE ARRECADÁ-LOS É ATRAVÉS DE MÃO-DE-OBRA
VOLUNTÁRIA E GRATUITA, ALÉM DE CONTRIBUIÇÕES VOLUNTÁRIAS.
OUTRA FORMA SÃO OS CULTIVOS AGRÍCOLAS PARA SUBSISTÊNCIA
PRÓPRIA. A PRODUÇÃO EXCEDENTE É TROCADA NA CIDADE DE CARMO
DA CACHOEIRA POR GÊNEROS ALIMENTÍCIOS QUE ESTEJAM
FALTANDO. .......................................................................................................150
PARA SE MANTER ECONOMICAMENTE “FIGUEIRA” TEM, TAMBÉM,
COMO UM DE SEUS MEIOS DE VIDA, A VENDA DE LIVROS. POSSUI UMA
EDITORA PRÓPRIA – IRDIN EDITORA LTDA. (ANEXO J) - SÃO PAULO -
CGC 01303476/0001-64, SEM FINS LUCRATIVOS. ATUALMENTE, ESTÃO
EM CIRCULAÇÃO, DOIS MILHÕES – SEGUNDO TRIGUEIRINHO – DE
EXEMPLARES NO BRASIL, EM PORTUGUÊS, PELAS EDITORAS
PENSAMENTO, NOVA CULTURAL, CÍRCULO DO LIVRO E IRDIN; E EM
ESPANHOL, NA ARGENTINA, PELA EDITORA KIER. PARTE DESSA OBRA
COMEÇA A SER LANÇADA EM INGLÊS PELA IRDIN EDITORA, E EM
FRANCÊS PELA ÉDITIONS VESICA PISCIS. A IRDIN TAMBÉM
COMERCIALIZA 572 GRAVAÇÕES FEITAS AO VIVO DE PALESTRAS DE
TRIGUEIRINHO. EM TODOS OS SETORES, HÁ EXPOSITORES E PREÇOS À
MOSTRA, INDUZINDO À COMPRA POR IMPULSO DE LIVROS. ABAIXO,
ESTÁ TRANSCRITO UM PEDIDO DE COLABORAÇÃO PARA O SETOR DE
DIFUSÃO DE LIVROS E FITAS (ANEXO K): ...................................................150
O SETOR DE DIFUSÃO DE LIVROS E FITAS DE “FIGUEIRA” TEM COMO
META (...) A VENDA DE LIVROS E FITAS (...) NOSSA PROPOSTA PARA O
CORRENTE ANO DE 2001 É A SEGUINTE: LEVANTAR RECURSOS PARA
VENDAS POR PREÇOS SIMBÓLICOS DE 14.500 LIVROS DE
TRIGUEIRINHO, CUJO TOTAL É R$ 64.000,00; 1.350 LIVROS DO DR. JOSÉ
MARIA CAMPOS (CLEMENTE), CUJO CUSTO TOTAL É DE R$15.000,00.
FORMAS DE PARTICIPAR: COMPRAR LIVROS E DOÁ-LOS POR INICIATIVA
INDIVIDUAL (...) QUALQUER QUANTIA É BEM-VINDA. ...............................150
TAMBÉM SÃO VENDIDOS EM “FIGUEIRA” FITAS DE VÍDEO (VHS), CDS,
FITAS K-7 COM GRAVAÇÕES AO VIVO DAS PALESTRAS DE
TRIGUEIRINHO PARA DIVULGAÇÃO DA OBRA DELE. ALÉM DISSO, TÊM
SIDO ORGANIZADAS AUDIÇÕES DESSAS FITAS EM OUTRAS CIDADES,
COMPLEMENTANDO ESSA DIVULGAÇÃO. TAMBÉM HÁ, ÀS DEZESSETE
HORAS, AOS DOMINGOS, UMA PARTILHA DE TRIGUEIRINHO NUMA
RÁDIO DA INTERNET, CHAMADA RÁDIO MUNDIAL FM 95. 7 AM 660. PODE-
SE ESCUTÁ-LA NO SITE WWW.RADIOMUNDIAL.COM.BR (ANEXO L). ....151
238.....................................................................................................................134
OUTRA FORMA DE “FIGUEIRA” MANTER-SE PRODUTIVA DÁ-SE PELA
PRESENÇA DOS MEEIROS (ANEXO N). OS RESIDENTES INTERNOS E OS
GRUPOS DE ITINERANTES NÃO CONHECEM PROFUNDAMENTE AS
TÉCNICAS DE AGRICULTURA. OS MEEIROS CONHECEM E FAZEM UM
TRABALHO COOPERATIVO. OS PARTICIPANTES DESSAS FRENTES DE
TRABALHO, EM GERAL CAMPONESES, REÚNEM-SE COM OS
RESPONSÁVEIS PELO SETOR DE PLANTIOS PARA O PLANEJAMENTO DO
ANO AGRÍCOLA. A PARTIR DAÍ, CADA UM ASSUME A SUA PARTE. A
MAIORIA ENCONTRA NESSA COOPERAÇÃO UMA FORMA DE
COMPLEMENTAR SEUS MEIOS DE SUBSISTÊNCIA, ENQUANTO OUTROS
SE COLOCAM COMO VOLUNTÁRIOS PELA SIMPLES OPORTUNIDADE DE
AJUDAR O PRÓXIMO. USAM TÉCNICAS NATURAIS DE CULTIVO E
ABASTECEM-SE DE ALIMENTOS SADIOS, SEM CIRCULAÇÃO DE
DINHEIRO. DEVIDAMENTE PROCESSADAS, FRUTAS DA REGIÃO SÃO
CONSERVADAS PARA CONSUMO DURANTE O ANO TODO. PARTE DO
GRUPO DE “FIGUEIRA” DEDICA-SE AO TRATO DAS ÁRVORES
FRUTÍFERAS, AO PASSO QUE AS FAMÍLIAS DOS MEEIROS ELABORAM
OS PRODUTOS E OS EMBALAM PARA ARMAZENAGEM. GRÃOS COMO
ARROZ, MILHO E FEIJÃO SÃO SEMEADOS APÓS O DEVIDO PREPARO DA
TERRA FEITO POR TRATORES, ENQUANTO MUTIRÕES FORMADOS POR
MEEIROS E MEMBROS DO GRUPO DE RESIDENTES E VISITANTES
ENCARREGAM-SE DAS CAPINAS E COLHEITAS. ABÓBORA, AMENDOIM,
BATATA, INHAME, MANDIOCA E MILHO FORAM INCLUÍDOS NESSES
PLANTIOS A PEDIDO DOS PRÓPRIOS MEEIROS. RECENTEMENTE,
OUTRAS ATIVIDADES SÃO OFERECIDAS A ELES NOS MESMOS MOLDES,
TAIS COMO A PRODUÇÃO DE LEITE DE SOJA E A CONFECÇÃO E
CONSERTO DE ROUPAS. O SETOR DE PLANTIOS E SEMENTES, COM A
AJUDA DOS COLABORADORES, RESIDENTES OU VISITANTES QUE SE
APRESENTAM, CUIDA DO CULTIVO DE ALIMENTOS NÃO APENAS PARA
HÓSPEDES E MORADORES, MAS TAMBÉM PARA FAMÍLIAS CARENTES
DA REGIÃO. O VOLUME DE TAREFAS REALIZADAS POR ESSE SETOR É
CONSIDERÁVEL, E NELAS PROCURA-SE PRESERVAR AS SEMENTES
ORIGINAIS, RESPEITAR A VIDA DO SOLO E DA NATUREZA EM GERAL. EM
2002, FORAM PRODUZIDAS 77 TONELADAS DE GRÃOS, ALÉM DE
HORTALIÇAS E FRUTAS DE MODO NATURAL E SEM AGROTÓXICOS. . .151
AINDA, PARA MANTER SUA FAZENDA PRODUTIVA, “FIGUEIRA” CONTA
COM A MÃO-DE-OBRA VOLUNTÁRIA DE GRUPOS URBANOS DE SERVIÇO.
SÃO GRUPOS ROTATIVOS PROVENIENTES DE CIDADES PRÓXIMAS
CHAMADOS TAMBÉM DE REDES DE SERVIÇO. ELES FAZEM MUTIRÕES
PARA TAREFAS VARIADAS, COMO CONSTRUÇÕES E ABERTURAS DE
ESTRADAS E PRODUÇÃO ORGÂNICA. ........................................................152
NÃO HÁ PAGAMENTO DE TAXAS PARA NENHUMA ATIVIDADE NEM
PARA HOSPEDAGEM. ISSO PODE OCORRE DEVIDO AO TRABALHO
VOLUNTÁRIO E GRATUITO DE TODOS OS GRUPOS QUE TAMBÉM FAZEM
DOAÇÕES ESPONTÂNEAS EM DINHEIRO, ROUPAS, GÊNEROS
ALIMENTÍCIOS, REMÉDIOS OU EQUIPAMENTOS, ETC. COM RELAÇÃO ÀS
DOAÇÕES, APRESENTAMOS TRANSCRIÇÃO DE CARTA-ABERTA (ANEXO
N) DIRIGIDA AOS COLABORADORES, SOLICITANDO CONTRIBUIÇÕES
E/OU DOAÇÕES: ..............................................................................................152
AOS COLABORADORES DE “FIGUEIRA” (...) FAZ-SE NOTAR QUE
ALGUMAS PROVIDÊNCIAS DEVEM SER TOMADAS PARA QUE A ÁGUA
NÃO VENHA A FALTAR EM “FIGUEIRA” (...) A AMPLIAÇÃO DO SISTEMA
DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA PRESSUPÕE, ENTRE OUTROS ITENS: A
CONSTRUÇÃO DE UM NOVO RESERVATÓRIO COM CAPACIDADE DE 500
MIL LITROS, PARA SUPRIR F1 (FIGUEIRA 1 – MONASTÉRIO FEMININO) E
F3 (FIGUEIRA 3 –EREMITÉRIO), NO VALOR APROXIMADO DE R$ 80.000,00
(2001). A INSTALAÇÃO DE QUATRO RODAS DE ÁGUA, COM SUAS
RESPECTIVAS BARRAGENS, PARA COMPLETAR O BOMBEAMENTO SEM
USO DE ELETRICIDADE. BOMBAS E 4.500 M DE TUBULAÇÕES E
CONEXÕES, TANTO PARA INTERLIGAR A REDE DE ABASTECIMENTO
DAS ÁREAS RECÉM-INCORPORADAS COM A JÁ EXISTENTE, QUANTO
PARA REDIMENSIONAR A REDE ATUAL. A CONCRETIZAÇÃO DESSE
IMPORTANTE PROJETO CUSTARÁ APROXIMADAMENTE R$ 250.000,00
(2001). ESTAMOS, POIS, LEVANDO AO CONHECIMENTO DE TODO O
GRUPO ESSAS NECESSIDADES PREMENTES. QUALQUER
COLABORAÇÃO É PRECIOSA E PODE EXPRESSAR-SE DE VÁRIAS
FORMAS: APOIO INTERNO, PARTICIPAÇÃO NA EXECUÇÃO DAS
TAREFAS DO SETOR ÁGUA, APRESENTAÇÃO DE IDÉIAS E SOLUÇÕES
TÉCNICAS OU AJUDA FINANCEIRA. PARA REMESSA DE DINHEIRO,
PODE-SE USAR A CONTA 01139-3, BANCO ITAÚ, AGÊNCIA 3204, DE
CARMO DA CACHOEIRA/MG, EM NOME DE BERKMAN MENDONÇA
SANTOS E/OU VERA LÚCIA PEREIRA. .........................................................152
2.3 CULTURA ESPIRITUAL DE “FIGUEIRA”............................................................152
SOUBEMOS, A PARTIR DE ENTREVISTAS INFORMAIS COM
TRIGUEIRINHO, QUE O DESENVOLVIMENTO DOS MONASTÉRIOS (ANEXO
O) DEVERIA PASSAR POR TRÊS ETAPAS DISTINTAS: ..............................152
A FASE INICIAL, FUNDAÇÃO PARA A ENERGIA ESPIRITUAL SE
MATERIALIZAR EM NÍVEL FÍSICO;.................................................................152
A FASE INTERMEDIÁRIA, EXPANSÃO DA ENERGIA ESPIRITUAL JÁ
ESTABELECIDA. ESSA É A ETAPA VIVIDA NO MOMENTO, A DE
CAPTAÇÃO DE NOVOS COLABORADORES; ...............................................153
A FASE DE REALIZAÇÃO, ELEVAÇÃO DA ENERGIA ESPIRITUAL, QUE
TRANSLADA A ATIVIDADE ESPIRITUAL PARA OS PLANOS INTERIORES
DA VIDA. ............................................................................................................153
ESTÃO PREVISTOS SETE MONGES, SETE OBLATOS E SETE
ZELADORES PARA CADA MONASTÉRIO. NA ETAPA INICIAL, FOI CRIADO
O GRUPO DE OBLATOS (ANEXO F), QUE PROSSEGUE COLABORANDO
NA CONSTRUÇÃO E NO DESENVOLVIMENTO DOS MONASTÉRIOS EM
TODOS OS SEUS NÍVEIS. OS OBLATOS PRATICAM A VIDA ESPIRITUAL
EM MEIO AOS AFAZERES DO MUNDO E NA VIDA COTIDIANA. OBLATOS
SÃO LEIGOS QUE SE OFERECEM PARA SERVIR EM ORDEM MONÁSTICA,
ABNEGADAMENTE, SEM SE ATER A ESTRUTURAS RÍGIDAS, NEM A
FORMALIZAÇÕES SUPÉRFLUAS. UM OBLATO DEVE TER COMO FUNÇÃO
COLABORAR DIRETAMENTE NA CONSTRUÇÃO E NO
DESENVOLVIMENTO DE UM MONASTÉRIO. OBLATO NÃO É SÓ UM
POSTO, TÍTULO OU POSIÇÃO DENTRO DA DIVISÃO DE TRABALHO
GRUPAL, É UMA TAREFA. AUTO-AFIRMAÇÃO, ORGULHO,
IDIOSSINCRASIAS E VAIDADE NÃO DEVEM INTERFERIR NA SUA TAREFA,
CUJAS BASES SÃO O ALTRUÍSMO, DESPOJAMENTO, O DESAPEGO E A
PRONTIDÃO AO SERVIÇO IMPESSOAL PARA ATENDER AOS OBJETIVOS
ESPIRITUAIS DO GRUPO. ANONIMATO E SILÊNCIO SÃO AS
CARACTERÍSTICAS REQUERIDAS À PERSONALIDADE DO OBLATO.
TAMBÉM O RECATO, A SIMPLICIDADE NO FALAR E NO AGIR E A
ALEGRIA SÃO QUALIDADES QUE NELE DEVEM SER INCENTIVADAS. . .153
NA ATUAL ETAPA INTERMEDIÁRIA, FOI CRIADO O GRUPO DE
ZELADORES (ANEXO P). CADA MONASTÉRIO CONTARÁ COM SETE
ZELADORES. UM ZELADOR PODE SERVIR A VÁRIOS MONASTÉRIOS AO
MESMO TEMPO. ELE É UM DEFENSOR DO PLANO ESPIRITUAL. DE
MANEIRA ESPECIAL, SEGUE A VIA DO DESPOJAMENTO E DEDICA-SE A
SUPRIR TUDO E TODOS INCONDICIONALMENTE. O ZELADOR DEVE
INSPIRAR-SE NOS QUE SE DEVOTAM INCONDICIONALMENTE À VIDA DE
SERVIÇO. NA SUA TAREFA, DESCOBRE A DIFERENÇA ENTRE O VAZIO
HUMANO E A PALAVRA VIVA QUE PROVÉM DA ALMA. PROFERIR A
PALAVRA É PARA ELE UM OBJETIVO MAIOR, O QUAL VAI
DESENVOLVENDO AO PRATICAR A AÇÃO CORRETA. .............................153
“FIGUEIRA” ACOLHE SERES COM VOCAÇÃO SACERDOTAL. A
ATIVIDADE SACERDOTAL (ANEXO Q), PARA ELES, É INTERIOR E
DESVINCULADA DE ORGANIZAÇÕES CRISTALIZADAS E FORMALIZADAS.
POR ISSO, QUASE SEMPRE TRABALHAM LIVRE DE INSTITUIÇÕES E
RARAMENTE SUA OBRA É PERCEBIDA PELOS SENTIDOS EXTERNOS
DOS DEMAIS. ELA É SILENCIOSA E DISCRETA. A ORDENAÇÃO
SACERDOTAL NÃO É UM FATO EXTERNO. NÃO SE USA UM HÁBITO,
REFERE-SE À VIDA DO ESPÍRITO. O SACERDÓCIO NÃO PODE SER
ENSINADO EM SEMINÁRIOS ESPIRITUAIS DA CIVILIZAÇÃO PROFANA E
SECULAR, TAMPOUCO PODE SER OUTORGADO PELOS HOMENS. .......153
OS DENOMINADOS SERES-ESPELHOS (ANEXO R) QUE ALI SE
ENCONTRAM DEVEM CAPTAR E REFLETIR AS ENERGIAS E LEIS
ESPIRITUAIS. O SER-ESPELHO CAPTA OS ARQUIVOS DO AKASHA, O
INCONSCIENTE COLETIVO, IMAGINÁRIO OU ARQUÉTIPOS. TODO SER-
ESPELHO CHEGA À REVELAÇÃO DA EXISTÊNCIA DESSE ARQUIVO. NO
AKASHA ESTÃO REGISTRADAS AS INFORMAÇÕES SOBRE O UNIVERSO.
TERESA D’ÁVILA OU SANTA TERESA DE JESUS, CARMELITA NATURAL
DA CIDADE DE ÁVILA NA ESPANHA, FUNDADORA DOS CARMELITAS
DESCALÇAS, É CONSIDERADA, POR TRIGUEIRINHO E PELO SEU GRUPO,
UM SER-ESPELHO E NELA MUITOS TÊM, EM “FIGUEIRA”, SE
ESPELHADO, SE INSPIRADO, COMO MODELO DE UM SER ESPIRITUAL
PERFEITO, UM CAMINHO DE PERFEIÇÃO COMO DIZIA ELA EM SUAS
OBRAS. ..............................................................................................................154
HÁ, ATUALMENTE, POUCOS RESIDENTES NO LOCAL. NÃO HÁ UM
NÚMERO MAIOR PORQUE, SEGUNDO TRIGUEIRINHO, NO ATUAL
MOMENTO DA CIVILIZAÇÃO POUCAS PESSOAS CONSEGUEM
LIBERTAREM-SE, LIBERAREM-SE DO COMPROMISSO COM A
SOCIEDADE. A ESTRUTURA, A ENGRENAGEM DA PRESENTE
CIVILIZAÇÃO CONTINUA EXERCENDO GRANDE INFLUÊNCIA SOBRE AS
PESSOAS. ALGUNS TÊM, PORTANTO, QUE SE DESPOJAREM DE
ENCARGOS E DESVINCULAREM-SE DE TENDÊNCIAS RETRÓGRADAS E
ANTIQUADAS, SEGUNDO TRIGUEIRINHO, PARA AJUDAR NO QUE É
EXIGIDO AO RESIDENTE DE “FIGUEIRA”. ESTA POSTURA EMERGIRÁ DA
RENÚNCIA A AMBIÇÕES E SATISFAÇÕES PRÓPRIAS EM FUNÇÃO DA
COLETIVIDADE. O RESIDENTE (ANEXO S) DEVE VIVER SUAS PROVAS DE
RENÚNCIA, HUMILDADE, HUMILHAÇÃO, ABNEGAÇÃO EM SILÊNCIO, SEM
TAGARELICE, SEM CHORO, SEM EMOÇÕES, SEM DOR. AO CULTIVAR O
SILÊNCIO, PERCEBERÁ QUE TANTO AS EXPERIÊNCIAS POSITIVAS COMO
AS NEGATIVAS SÃO FONTES DE APRENDIZADO E EVOLUÇÃO. O
RESIDENTE DEVE VIVER COM SIMPLICIDADE E EM SIMPLICIDADE.
TAMBÉM DEVE ORDENAR E ORGANIZAR-SE NO DIA-A-DIA DE TAL
FORMA QUE NÃO TENHA DISPERSÕES DE ENERGIA. PARA O
RESIDENTE, AS ATIVIDADES DIÁRIAS E AS PROVAS QUE ADVÊM DO SEU
CUMPRIMENTO SÃO OPORTUNIDADES DE TRANSFORMAÇÃO, POR ISSO
DEVE IMPRIMIR UMA ENERGIA OU QUALIDADE DE DESAPEGO E
RENÚNCIA EM TUDO O QUE FAZ, REALIZANDO AS TAREFAS QUE LHE
CABEM COM DEDICAÇÃO, ABNEGAÇÃO E LIVRE DE PREOCUPAÇÃO
COM OS RESULTADOS. O RESIDENTE DEVE SER UM APOIO.
TRABALHANDO EM GRUPO, REALIZA O NECESSÁRIO À VIDA
ESPIRITUAL E PRESTA SERVIÇOS EM CONJUNTO COM MUITOS
COLABORADORES. NO GRUPO DE “FIGUEIRA”, AMPLO E
DIVERSIFICADO, O RESIDENTE REPRESENTA UM CATALISADOR, UMA
FORÇA CONJUNTA VOLTADA PARA O SERVIÇO AO MUNDO. UM
RESIDENTE DEVE RENUNCIAR ÀS DELÍCIAS, AO CONFORTO, AOS
PRAZERES DA VIDA. NÃO DEVE SE ENVOLVER COM AS COISAS
MATERIAIS. NÃO DEVE SE APEGAR AO SONO. DEVE SER GRATO PELO
ALIMENTO QUE RECEBE E PELO QUAL TRABALHA, POR PIOR QUE SEJA,
E DEIXAR DE LADO A MURMURAÇÃO, A QUEIXA, A LAMÚRIA. DEVE
EMPREGAR BEM O SEU TEMPO E PRESCINDIR DE CONSOLO. ..............154
VÁRIOS TRABALHOS GRUPAIS SERVEM A TODOS OS REINOS (ANEXO
T), SEJA ANIMAL, VEGETAL, MINERAL, HUMANO, ANGELICAL, ETC.
TRABALHOS DE PLANTIOS, CUIDADOS COM ANIMAIS, ATENDIMENTOS
ÀS PESSOAS NECESSITADAS, CURA, PUBLICAÇÕES, ENTRE MUITOS
OUTROS, REALIZAM-SE DESSA MANEIRA ALTRUÍSTICA E ABNEGADA.
ESSAS ATIVIDADES, EM GERAL, SÃO FEITAS EM RODÍZIO, SEGUNDO AS
NECESSIDADES DO MOMENTO. COLABORADORES (ANEXO U) QUE
MORAM EM DIVERSOS LUGARES VÊM PARTICIPAR DELAS. MÉDICOS,
DENTISTAS E OUTROS PROFISSIONAIS PRESTAM ASSISTÊNCIA AO
GRUPO DE MODO GRATUITO. TODOS COMPARTILHAM O MESMO RITMO
DIÁRIO DE TRABALHO E ESTUDOS. .............................................................155
O “ABRIGO” (ANEXO V) ESTÁ A CARGO DA COORDENAÇÃO DA CASA 4,
OU CENTRAL DE ATENDÊNCIA. PRESTA SERVIÇO AOS QUE FORAM
EXCLUÍDOS OU QUEREM SE EXCLUIR DA SOCIEDADE COMUM. A
ENERGIA DO LOCAL POSSIBILITA PRESTAR SERVIÇO ALTRUÍSTICO,
LIVRE DOS APEGOS QUE LIMITAM O TRABALHO EM GRUPO. NO
“ABRIGO”, DEVE-SE TRABALHAR COM DINAMISMO, MAS SEM ESTRESSE
E SEM INTERFERIR NO CAMINHO DOS OUTROS. TAMBÉM NÃO SE DEVE
BUSCAR RECONHECIMENTO PARA NÃO REFORÇAR O EGOÍSMO,
PORQUE ESTA ATITUDE TORNA-SE UM OBSTÁCULO À VIDA GRUPAL. A
COLABORAÇÃO É NECESSÁRIA, POIS A TAREFA DEVERÁ CUMPRIR-SE
CONFORME PLANEJADA PELO GRUPO. A FUNÇÃO DO “ABRIGO” É
AJUDAR TODOS A SE LIBERTAREM, DESVENCILHAREM-SE,
DESAPEGAREM-SE DA SOCIEDADE. MUITOS DOS QUE SE APROXIMAM
ESTÃO PARA SE LIBERTAREM E NECESSITAM DE CORAGEM, AJUDA E
REFORÇO. OS QUE SERVEM DEVEM ESTAR PRONTOS PARA APOIAR OS
QUE PASSAM POR TRAGÉDIAS COLETIVAS, PORQUE A CONTAMINAÇÃO
DO PLANETA SE AGRAVA, SEGUNDO TRIGUEIRINHO, E O EFEITO DAS
ATUAIS EXPLOSÕES NUCLEARES PODE TIRAR O PLANETA DE SUA
ÓRBITA GRAVITACIONAL NÃO FOSSE A INTERVENÇÃO DAS
TEMPESTADES E DOS FORTES VENTOS. AS FORÇAS DA NATUREZA SE
ATIVARÃO PARA FACILITAR O TRABALHO DE TRANSFORMAÇÃO DA
TERRA. ALTO É O NÍVEL DE RADIAÇÃO NUCLEAR QUE A ENVOLVE, E AS
CIDADES JÁ ESTÃO SE TORNANDO INABITÁVEIS. ...................................155
OS QUE ASPIRAM À VIDA EM “FIGUEIRA” SÃO CHAMADOS DE
ASPIRANTES (ANEXO W). ELES DEVEM TER DISPOSIÇÃO PARA SEGUIR,
SEM RESERVAS, COM ABNEGAÇÃO E DESAPEGO, DE FORMA
ALTRUÍSTICA E IMPESSOAL, O CAMINHO DO SERVIÇO. O ASPIRANTE
DEVE DEIXAR DE LADO O ORGULHO E O PRECONCEITO PARA SERVIR A
HUMANIDADE. DEVE APRENDER QUE A SUJEIÇÃO A UMA
ORGANIZAÇÃO, A UMA ORDEM, ÀS REGRAS, ÀS NORMAS, A
DETERMINADAS CONDUTAS É NECESSÁRIA A UM TRABALHO
EVOLUTIVO E QUE, IMPOSTA NUM AMBIENTE, SERVE DE EXEMPLO AOS
DEMAIS. PERCEBER QUE SEM ELAS, O TRABALHO ESPIRITUAL NÃO
PODE SOBREVIVER AOS FREQÜENTES ATAQUES DE FORÇAS
CONTRÁRIAS, DESTRUTIVAS. O ASPIRANTE DEVE RECONHECER QUE O
CONDICIONAMENTO A UMA DISCIPLINA HIERÁRQUICA (ANEXO X) É
IMPRESCINDÍVEL PARA A TRANSCENDÊNCIA DO EGOÍSMO E DAS
PREFERÊNCIAS DE NATUREZA MENTAL E EMOCIONAL INDIVIDUAIS EM
DETRIMENTO DAS COLETIVAS E GRUPAIS. QUANDO O EGOÍSMO É
TRANSCENDIDO E AS PREFERÊNCIAS INDIVIDUAIS SUPERADAS, SURGE
A DISCIPLINA GRUPAL E COLETIVA. AS REGRAS EXTERNAS TORNAM-SE
ENTÃO MENOS CONFLITANTES. ENQUANTO O EGOÍSMO EXISTIR, O
ASPIRANTE SABE QUE O ABANDONO DA OBEDIÊNCIA EM MUITO
PREJUDICARIA O SEU SERVIÇO E COLABORAÇÃO. ORDEM, DISCIPLINA
E OBEDIÊNCIA DEVEM FAZER PARTE DA VIDA DO ASPIRANTE,
REVELANDO UMA MANEIRA FLEXÍVEL, MEIGA E CORDATA DE VIVER.
ELE DEVE TRATAR A NATUREZA, AS CASAS, OS OBJETOS E SERES
VIVOS COM CUIDADO, MAS SEM OBJETIVO DE POSSE OU
PROPRIEDADE. MESMO NÃO SENDO DONO, NÃO DEVE DESPERDIÇAR.
DEVE SABER QUE CADA COISA TEM SEU LUGAR E VALOR E USÁ-LAS
COM BOM SENSO. A DESORDEM E A MÁ UTILIZAÇÃO SÃO
INCORREÇÕES, IMPERFEIÇÕES INACEITÁVEIS. ........................................155
A VIGÍLIA (ANEXO Y) É UM RITUAL PARA PROMOVER A ATITUDE DE
MEDITAÇÃO, REFLEXÃO OU CONTEMPLAÇÃO. PERÍODOS DE VIGÍLIA
CRIAM INTENSA CONCENTRAÇÃO DE FORÇA QUE ALINHA O PROPÓSITO
DA CONSCIÊNCIA OU PERSONALIDADE COM O DA ALMA. CALMA, PAZ,
HARMONIA E RELAXAMENTO SE ESTABELECEM NO SER EM VIGÍLIA,
PORQUE A ANSIEDADE POR RESULTADOS DESAPARECE, AS DÚVIDAS
DA MENTE DISSOLVEM-SE. OS RESIDENTES E COLABORADORES
REVEZAM-SE VOLUNTARIAMENTE DE DUAS EM DUAS HORAS DURANTE
AS 24 HORAS DO DIA PARA REALIZÁ-LA. NA ÚLTIMA QUARTA-FEIRA DO
MÊS, O GRUPO TODO, DURANTE O DIA INTEIRO, DEDICA-SE À VIGÍLIA,
AO SILÊNCIO INTERNO E EXTERNO. NESSE DIA, HÁ DUAS PARTILHAS
REFLEXIVAS A CARGO DE TRIGUEIRINHO. ................................................156
EM “FIGUEIRA”, HÁ POR PARTE DE ALGUNS POUCOS, TRIGUEIRINHO,
ARTHUR E CLEMENTE, A TAREFA DE INSTRUÇÃO (ANEXO Z), QUE VEM A
SER UMA EDUCAÇÃO ADEQUADA ÀS NECESSIDADES. DEVE LEVAR EM
CONSIDERAÇÃO A GLOBALIDADE DO SER E O UNIVERSO EM QUE ELE
SE ENCONTRA (TRIGUEIRINHO É CONSIDERADO UM INSTRUTOR). O
INSTRUTOR DEVE SABER QUE O SEU TRABALHO É AJUDAR OS DEMAIS
A REALIZAREM SEUS POTENCIAIS, SUAS VOCAÇÕES, SUAS
CAPACIDADES LATENTES, SEUS PROPÓSITOS EXISTENCIAIS, SEUS
DESTINOS. A CADA INSTRUTOR CORRESPONDE UM GRUPO QUE, PARA
EVOLUIR, USUFRUI DA ENERGIA QUE É CANALIZADA POR SEU
INTERMÉDIO. A INSTRUÇÃO NÃO É UMA ATIVIDADE ACADÊMICA,
RESTRITA E LIMITADA, MAS DIZ RESPEITO A TODOS OS QUE QUEREM
EVOLUIR TRANSCENDENDO OS PARADIGMAS IMPOSTOS PELA
SOCIEDADE. ENQUANTO A EDUCAÇÃO DIZ RESPEITO AOS NÍVEIS DA
PERSONALIDADE, A INSTRUÇÃO DIZ RESPEITO À ALMA E AO ESPÍRITO.
INSTRUÇÃO NÃO É SOMENTE DOUTRINAÇÃO, MAS DEVE ESTIMULAR
QUE CADA UM ENCONTRE O CONHECIMENTO DENTRO DE SI MESMO.
.............................................................................................................................156
2.4 CONCLUSÃO............................................................................................................157
“FIGUEIRA” ROMPEU COM OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA
SOCIEDADE, ABOLINDO A PROPRIEDADE, O CASAMENTO E A FAMÍLIA.
TORNOU-SE UM ESPAÇO COMUNITÁRIO SINGULAR, INDIFERENTE AO
ESTADO. É UMA COMUNIDADE COMPOSTA DE INDIVÍDUOS
SEMELHANTES QUE FORMAM UMA SUBCULTURA. A COMUNIDADE
EVOLUIU PARA UM ESTADO MONÁSTICO COM O TEMPO E O AUMENTO
DO NÚMERO DE RESIDENTES........................................................................157
EM “FIGUEIRA” SE CONFUNDE SUBMISSÃO COM SANTIDADE,
HUMILHAÇÃO COM HUMILDADE, POIS DEVE SE SUJEITAR À
AUTORIDADE DE TRIGUEIRINHO E DEMAIS COORDENADORES. O
ASPIRANTE QUE DESEJA VIVER EM “FIGUEIRA”, PORTANTO PELAS
SUAS REGRAS, DEVE DEVOTAR-SE INTEIRAMENTE AO SERVIÇO PELA
AUTODISCIPLINA, ORAÇÃO E TRABALHO. DEVEM VIVER UMA VIDA EM
COMUNHÃO, DESAPEGAR-SE DA FAMÍLIA, CONDICIONAR-SE À
POBREZA, DESAPEGAR-SE DO DINHEIRO E DA PROPRIEDADE PRIVADA,
ABSTER-SE DO SEXO, CONSEQÜENTEMENTE DO CASAMENTO, E DE
ALIMENTOS DE ORIGEM ANIMAL. OBEDECER AOS SUPERIORES,
RESTRINGIR A CONVERSA E OBSERVAR O SILÊNCIO. A LIBERDADE, O
LIVRE-ARBÍTRIO E A PRIVACIDADE SÃO SUPRIMIDOS EM FAVOR DA
COLETIVIDADE..................................................................................................157
CAPÍTULO 3.....................................................................................................158
ERVING GOFFMAN - O INTERACIONISMO SIMBÓLICO COMO MARCO PARA
A ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO E DOS RITOS DA INTERAÇÃO
158
ERVING GOFFMAN - O INTERACIONISMO SIMBÓLICO COMO MARCO
PARA A ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO E DOS RITOS DA
INTERAÇÃO.......................................................................................................158
3 ERVING GOFFMAN - O INTERACIONISMO SIMBÓLICO COMO MARCO
PARA A ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO E DOS RITOS DA
INTERAÇÃO.......................................................................................................159
O PRESENTE CAPÍTULO TEM O OBJETIVO DE CONTEXTUALIZAR,
COMPREENDER E EXPLICAR A ORGANIZAÇÃO “FIGUEIRA”. PARA
TANTO, UTILIZAMOS, COMO REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO,
O INTERACIONISMO SIMBÓLICO, PORQUE NESTE VIÉS SITUAM-SE AS
PESQUISAS DE ERVING GOFFMAN, AUTOR ELEITO EM FUNÇÃO DO SEU
FOCO NAS INTERAÇÕES ENTRE ATORES SOCIAIS...................................159
NUM SEGUNDO MOMENTO, HÁ A BIOGRAFIA DE ERVING GOFFMAN E A
SUA CRIAÇÃO DE TEMAS E CONCEITOS TEÓRICOS PRÓPRIOS.............159
EM TERCEIRO LUGAR, TRAÇAMOS OS CONCEITOS, OS PRINCÍPIOS E
PARADIGMAS DO INTERACIONISMO SIMBÓLICO, DANDO ESPECIAL
RELEVÂNCIA AOS CONCEITOS TEÓRICOS DA INTERAÇÃO SOCIAL
ESCRITOS NO LIVRO “A REPRESENTAÇÃO DO EU NA VIDA COTIDIANA”.
.............................................................................................................................159
EM QUARTO LUGAR, BUSCAMOS NA OBRA DE GOFFMAN “PRISÕES,
MANICÔMIOS E CONVENTOS”, TRAZER AS CATEGORIAS DE ANÁLISES
QUE PODEM DEFINIR AS INSTITUIÇÕES TOTAIS: UM MESMO LOCAL DE
MORADIA E TRABALHO; FECHAMENTO EM RELAÇÃO À SOCIEDADE;
REGRAS, NORMAS; COAÇÃO, CONTROLE, VIGILÂNCIA; LIBERDADE,
LIVRE-ARBÍTRIO; DESPOJAMENTO, NIVELAMENTO; PAPEL SUBALTERNO
HUMILHANTE; INCOMPATIBILIDADE COM A VIDA FAMILIAR;
DESCONSTRUÇÃO DO EU (SELF); DESCULTURAÇÃO; PURIFICAÇÃO;
ACOMODAÇÃO, SUJEIÇÃO. ...........................................................................159
POR ÚLTIMO, BUSCAMOS DELINEAR, SUPERFICIALMENTE, O PERFIL
DAQUELES QUE SE IDENTIFICAM COM COMUNIDADES DESVIANTES,
ESTIGMATIZADOS, DIVERGENTES, OUTSIDERS, LIMINARES, RETRAÍDOS,
MARGINAIS, DESLOCADOS, REBELDES, PERDIDOS, DESENRAIZADOS,
MINORIAS, ARTISTAS, ETC.............................................................................159
3.1 ERVING GOFFMAN - UMA VIDA MESCLADA COM SUA VISÃO TEÓRICA
160
O HISTÓRICO DA CONSTRUÇÃO DA PERSONALIDADE DE UM AUTOR É
FUNDAMENTAL PARA A COMPREENSÃO DA SUA OBRA. ASSIM, ALGUNS
DADOS BIOGRÁFICOS AJUDAM A ENTENDER A FORMAÇÃO
INTELECTUAL DE ERVING GOFFMAN: “(...) A RECONSTITUIÇÃO DAS
‘FORÇAS FORMADORAS DE HÁBITOS’ DE UM AUTOR É ESSENCIAL
PARA COMPREENSÃO DA SUA OBRA” (WINKIN, 1999, P.7)......................160
“A OBRA DE GOFFMAN É UMA AUTOBIOGRAFIA” (WINKIN, 1999, P. 13),
POIS ELE REPRODUZ NOS SEUS ESCRITOS O SEU STATUS SOCIAL. UMA
PESQUISA CIENTÍFICA NUNCA É TOTALMENTE DISSOCIADA DA
FORMAÇÃO DE CLASSE QUE LHE PREEXISTE, DE TAL MANEIRA QUE
UMA OBRA CIENTÍFICA ENCERRA SEMPRE A MARCA DA TRAJETÓRIA
SOCIAL DO SEU AUTOR:.................................................................................160
(...) PODE-SE CONSIDERAR CONJUNTAMENTE OS RECURSOS
RETÓRICOS CARACTERÍSTICOS DA OBRA DE GOFFMAN E OS
ESQUEMAS PREDOMINANTES NA SUA RECEPÇÃO POR UM PÚBLICO
CIENTÍFICO. ESSA CONSIDERAÇÃO CONJUNTA PERMITIRIA VER MAIS DE
PERTO, NO DETALHE, O JOGO DAS FIGURAS DO AUTOR QUE FAZEM
SUA APARIÇÃO NO LANCE DE LEITURA. TALVEZ ESSA ATENÇÃO AO
DETALHE POSSA CONTRIBUIR PARA COMPREENDERMOS MELHOR AS
SUPOSIÇÕES QUE FAZEMOS, NA NOSSA SOCIEDADE, SOBRE ESSE
DEUS OCULTO, O AUTOR, JÁ TANTAS VEZES BANIDO, MAS QUE
RETORNA SEMPRE, COM A FORÇA REDOBRADA DOS MITOS (MALUFE,
1992, P. 134).......................................................................................................160
A BIOGRAFIA DE GOFFMAN SUGERE UM ESTUDO DE CASO QUE
ELUCIDARIA A HISTÓRIA DA SOCIOLOGIA AMERICANA NOS ANOS QUE
SUCEDERAM A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL. INICIALMENTE, É A
HISTÓRIA DE UM OUTSIDER (BECKER, 1977) GEOGRÁFICA E
SOCIALMENTE, DE UM INTELECTUAL QUE NA SUA GERAÇÃO SUBIU AO
TOPO DA SUA ÁREA, TANTO INSTITUCIONAL (FACULDADES DE
RENOME, FOI PRESIDENTE DA “AMERICAN SOCIOLOGICAL
ASSOCIATION”), QUANTO CIENTIFICAMENTE. ESTEVE NO ROL, POR
ANOS, DOS DEZ AUTORES MAIS CITADOS DO SOCIAL SCIENCE
CITATION INDEX: “A OBRA DE GOFFMAN SERÁ, TAL COMO A DE FREUD,
A HISTÓRIA AUTOBIOGRÁFICA DE UMA ASCENSÃO SOCIAL” (WINKINN,
1999, P.16)..........................................................................................................160
ERVING GOFFMAN NASCEU DIA 11 DE JUNHO DE 1922, EM MANNVILLE,
ALBERTA. PASSOU SUA INFÂNCIA E OS PRIMEIROS ANOS DE
ADOLESCÊNCIA EM DAUPHIN, AO NORTE DE WINNIPEG. SEUS PAIS, MAX
E ANN, NASCERAM NA RÚSSIA, UCRÂNIA. DAUPHIN É UMA DAS
PRIMEIRAS COLÔNIAS UCRANIANAS DE MANITOBA, CONSTITUI-SE, NA
SUA MAIOR PARTE, DE UMA COMUNIDADE DE MERCADORES JUDEUS
QUE SÃO, AO MESMO TEMPO, ACOLHIDOS E DISCRIMINADOS. GOFFMAN
CRESCEU NESSE AMBIENTE DE OPOSIÇÃO CAMUFLADA. .....................160
A FAMÍLIA DE GOFFMAN MANTÉM RELAÇÃO COM A COMUNIDADE
JUDAICA DA METRÓPOLE DE WINNIPEG. A IRMÃ DE GOFFMAN, DE NOME
FRÂNCES, DESTACA-SE, EM WINNIPEG, NA CARREIRA TEATRAL.
GOFFMAN REÚNE-SE A ELA EM 1936, COM QUATORZE ANOS, QUANDO É
ADMITIDO NA “SAINT JOHN’S TECHNICAL HIGH SCHOOL”, UMA ESCOLA
PROGRESSISTA QUE ACOLHIA EM SEU ESTABELECIMENTO OS FILHOS
DE IMIGRANTES JUDEUS. ..............................................................................161
GOFFMAN, NA “SAINT JOHN’S”, É UM BRILHANTE E MAU ALUNO,
CONCOMITANTEMENTE. EM 1939 ELE FOI ADMITIDO NA UNIVERSIDADE
DE MANITOBA, EM WINNIPEG. COMO MATÉRIA PRINCIPAL, ELEGE A
QUÍMICA. A SOCIOLOGIA AINDA NÃO EXISTIA NA UNIVERSIDADE DE
MANITOBA NAQUELA ÉPOCA........................................................................161
O QUE NOS PARECEU MAIS RELEVANTE NA SUA BIOGRAFIA FOI SUA
EXPERIÊNCIA DE CINEMA, EM 1943, NA “NATIONAL FILM BOARD” (NFB),
PRODUTORA DE DOCUMENTÁRIOS EM OTAWA, COORDENADA POR
JOHN GRIERSON. NESSA OCASIÃO, ELE APRENDEU AS TÉCNICAS DOS
ESPECIALISTAS NA ARTE DE REPRESENTAR. NESTA FASE, FORMAM-SE
OS PRIMEIROS HÁBITOS, A BASE INTELECTUAL DO GOFFMAN,
OBSERVADOR DE PLANOS, SUA COMPREENSÃO CINEMATOGRÁFICA DA
REALIDADE. DESVENDA A ARTE DE ILUDIR, PERCEBE QUE A VIDA
SOCIAL NÃO É TANTO UM TEATRO, MAS UMA CENA DRAMATÚRGICA,
UM FILME EM MONTAGEM. ASSIM ELE DECODIFICARÁ A VIDA
COTIDIANA EM CENAS, EM GRANDES PLANOS DE UM DETALHE, EM
JOGOS DE CAMPO/CANTRACAMPO ENTRE OBSERVADOR E
OBSERVADO, COMO SE ESTIVESSE REALIZANDO FILMES
DOCUMENTAIS. ALIÁS, ELE PRODUZIU, ATRAVÉS DA ESCRITA,
DOCUMENTÁRIOS NA SUA VIDA RESTANTE. .............................................161
GOFFMAN TEM UMA FORMA DE OBSERVAR MUITO VISUAL, BASEADA
NO DETALHE QUE REVELA O CONJUNTO OU O TODO. FAZ-SE
NECESSÁRIO TER UM SENSO DE OBSERVAÇÃO, TER UM “OLHO
CLÍNICO” PARA PRATICAR A SOCIOLOGIA ETNOGRÁFICA, E A VIVÊNCIA
NO “NATIONAL FILM BOARD” LHE OPORTUNIZOU ESSE TREINAMENTO E
CONHECIMENTO. GOFFMAN BASEIA TODAS AS SUAS PESQUISAS,
ENSAIOS, ESTUDOS, INSPIRADO PELO CINEMA. SUAS OBRAS SÃO,
FUNDAMENTALMENTE, VISUAIS. ..................................................................161
ENCONTRAMOS NA OBRA, O GOFFMAN DO “NATIONAL FILM BOARD”,
AQUELE QUE ADORA IR AO CINEMA, O CINÉFILO, QUE ILUSTRA AS
SUAS PALESTRAS COM DIAPOSITIVOS QUE COLECIONOU NA SUA VIDA
COTIDIANA, QUANTIDADES DE FOTOGRAFIAS, RETIRADAS DE
REVISTAS. GOFFMAN REVELOU-SE CINÉFILO, NUM LONGO ARTIGO DE
1975, O QUAL SE TORNOU UM LIVRO EM 1979: GENDER
ADVERTISEMENTS. O LIVRO FOI FUNDAMENTADO NUM CONJUNTO DE
FOTOGRAFIAS DE PUBLICIDADE QUE MOSTRAM AS POSIÇÕES NAS
QUAIS AS MULHERES SÃO, SISTEMATICAMENTE, EXPOSTAS AO
CONSUMIDOR....................................................................................................161
A APRENDIZAGEM RACIONAL DA PROFISSÃO DE SOCIÓLOGO É UMA
SEGUNDA VERTENTE INTELECTUAL DE GOFFMAN, QUE SE TORNOU
AMIGO DE UM JOVEM PRODUTOR DO “NATIONAL FILM BOARD”, NO
DECORRER DO VERÃO DE 44, DENNIS WRONG. ESTE TERMINA, NA
UNIVERSIDADE DE TORONTO, A LICENCIATURA EM SOCIOLOGIA. ELE
CONVIDA GOFFMAN PARA VISITÁ-LO. GOFFMAN ACEITA O CONVITE. FOI
EXATAMENTE NA ÉPOCA DE INÍCIO DAS AULAS. APROVEITOU A
OCASIÃO E CONSEGUIU UMA AUTORIZAÇÃO PARA FREQÜENTAR
DISCIPLINAS ISOLADAS, COM AS QUAIS, TALVEZ, PODERIA OBTER UM
DIPLOMA DE SOCIOLOGIA. ............................................................................162
MARCARAM A SUA VOCAÇÃO DE SOCIÓLOGO DOIS PROFESSORES E
UMA JOVEM ESTUDANTE. O SLOGAN DE CHARLES WILLIAM NORTON
HART, “TUDO É SOCIALMENTE DETERMINÁVEL”, NÃO MAIS O
ABANDONARÁ. ELE ERA COORDENADOR DOS CURSOS DE SOCIOLOGIA
DA UNIVERSIDADE, ANTROPÓLOGO FORMADO POR RADCLIFF-BROWN
EM SIDNEY, VIVEU ENTRE 1928 E 1930, NUMA TRIBO ABORÍGENE, OS
TIWIS, QUE HABITAVAM A ILHA BATHURST, NORTE DA AUSTRÁLIA. ELE
ERA MEIO EXÓTICO E EXCÊNTRICO, TINHA UMA UNHA COMPRIDA NO
DEDO MINDINHO DIREITO, COMO SINAL DA SUA INICIAÇÃO NA
COMUNIDADE TRIBAL. GOFFMAN O ADMIROU. NÃO SÓ A SUA UNHA,
MAS TODO O SEU ESTILO PEDAGÓGICO FASCINOU O JOVEM GOFFMAN.
APROFUNDOU-SE, DE 1944-1945, NA LEITURA DO “SUICIDO” DE
DURKHEIM, QUE NÃO ESTAVA AINDA TRADUZIDO. É ASSIM QUE
GOFFMAN SE INICIOU NA SOCIOLOGIA.......................................................162
RAY BIRDWHISTELL, O SEGUNDO PROFESSOR, O INICIA NA
ANTROPOLOGIA. É UM JOVEM ANTROPÓLOGO DE VINTE E SEIS ANOS
QUE, APÓS TERMINAR SUA TESE, DEU O CURSO “RELAÇÃO ENTRE
CULTURA E PERSONALIDADE”, NA UNIVERSIDADE DE CHICAGO. ELE
INCENTIVOU OS ALUNOS A LEREM MUITOS LIVROS. A SINGULARIDADE
DA SUA PEDAGOGIA ESTAVA NA MANEIRA COMO ELE LHES FAZIA
COMPREENDER QUE A INSTÂNCIA ENTRE A CULTURA E A
PERSONALIDADE É O CORPO. A CULTURA É ALGO QUE SE INCORPORA
AO CORPO NOS TREJEITOS, NO SEU MODO DE PORTAR E COMPORTAR.
.............................................................................................................................162
DESSA FORMA, OS ALUNOS VIAM-NO E OUVIAM-NO ANDAR,
CAMINHAVA COMO UM ATOR, IMITAVA O MODO DE FALAR DO SUL, DO
NORTE, IMITAVA UM CAWBOY DO OESTE. ELE FAZIA UM SHOW À PARTE
DA SUA AULA – COM O ÚNICO INTUITO DE ENSINAR E FAZER COM QUE
OS ALUNOS COMPREENDESSEM QUE O SOCIAL SE INFILTRA, SE
IMISCUI NAS MÍNIMAS ATITUDES, NAS AÇÕES CORRIQUEIRAS,
COTIDIANAS. POR ISSO, ATÉ OS GESTOS SÃO SUSCETÍVEIS DE ANÁLISE
SOCIOLÓGICA SIMILAR À DAS INSTITUIÇÕES. ..........................................162
A OBSERVAÇÃO DE ÍNDICES CORPORAIS PERMITEM CLASSIFICAR OS
SEUS PORTADORES SEGUNDO A TIPOLOGIA WARNERIANA, É ISTO O
QUE ENSINAVA BIRDWHISTELL AOS ESTUDANTES, LEVANDO-OS A UM
PUB PERTO DO CAMPO UNIVERSITÁRIO E PEDINDO-LHES QUE
DETERMINASSEM A CLASSE SOCIAL DOS CLIENTES ATRAVÉS DO MODO
COMO ANDAVAM E ATRAVÉS DA SUA MANEIRA DE BEBER E FUMAR.
GOFFMAN APAIXONOU-SE POR ESTA PEDAGOGIA DIDÁTICA................163
CONCOMITANTEMENTE, A ESTA ACULTURAÇÃO INTELECTUAL,
GOFFMAN VIVEU UMA VIDA BOÊMIA E POLÍTICA INTENSA JUNTO A UM
GRUPO DE ESTUDANTES VINDOS DO OESTE DO CANADÁ. NESTE MEIO
CONHECEU ELIZABETH (LIZ) BOTT, UMA ESTUDANTE DE PSICOLOGIA
QUE SE INTERESSAVA POR ANTROPOLOGIA. LIZ E ERVING FORAM
AMIGOS INSEPARÁVEIS. A FAMA DE INTELECTUAL DE GOFFMAN
COMEÇOU A REPERCUTIR NO MEIO ESTUDANTIL. ACHAVAM-NO UM
GÊNIO ESTRANHO, SURPREENDENTE, TAMBÉM PELA INTELIGÊNCIA
VIVAZ DE SUAS OBSERVAÇÕES LÓGICAS. ERA UMA PESSOA
ILUMINADA, COM PRESENÇA DE ESPÍRITO E, ISSO, POR VEZES,
INCOMODAVA MUITO, PROVOCAVA CIÚMES E INVEJA. ...........................163
UMA OUTRA CARACTERÍSTICA PRESENTE NA SUA BIOGRAFIA:
GOFFMAN LIA BASTANTE. LICENCIOU-SE EM JUNHO DE 1945, EM
SOCIOLOGIA, ÉPOCA EM QUE ESTAVA EM DESENVOLVIMENTO A ETAPA
INTELECTUAL DE GOFFMAN, A DO APRENDIZADO RACIONAL DA
PROFISSÃO. JÁ ESTAVAM ADQUIRIDAS AS MOTIVAÇÕES PARA A
LEITURA INTENSIVA, ESSENCIAL PARA UM FUTURO INVESTIGADOR. OS
LIVROS-FETICHE APARECERAM: “BUSCA DO TEMPO PERDIDO”, POR
EXEMPLO. SURGIRAM OS MESTRES DO PENSAMENTO TAMBÉM:
DURKHEIM, RADCLIFFE-BROWN, WARNER. MAS, TAMBÉM, MAIS
SUTILMENTE, FREUD E PARSONS. ...............................................................163
GOFFMAN NÃO ERA CASADO, AINDA, E SEUS PAIS FINANCIAVAM-LHE
OS ESTUDOS, NÃO PRECISAVA TRABALHAR, AO CONTRÁRIO DE
MUITOS DOS SEUS COLEGAS. DESSA FORMA, ELE PÔDE ENTRAR PARA
A UNIVERSIDADE DE CHICAGO, PARA O DEPARTAMENTO DE
SOCIOLOGIA, EM SETEMBRO DE 1945, ONDE FOI SUBMETIDO A UMA
IMENSA QUANTIDADE DE MAIS OU MENOS DUZENTOS ESTUDANTES..163
A UNIVERSIDADE DE CHICAGO CENTRAVA-SE NO MESTRADO E
DOUTORADO. ERA ESSENCIALMENTE UMA UNIVERSIDADE DE
INVESTIGAÇÃO. OS CURSOS ERAM EM FORMA DE SEMINÁRIOS. O
OBJETIVO PROPOSTO AOS ESTUDANTES ERA PASSAR NOS EXAMES
GERAIS, PARA TANTO, TODOS OS MEIOS ERAM AUXILIARES: OS
CURSOS, NO DEPARTAMENTO OU FORA, AS CONFERÊNCIAS
OFERECIDAS AQUI E ALI, E, SOBREMANEIRA, AS LEITURAS PESSOAIS E
AS DISCUSSÕES ENTRE COLEGAS. .............................................................163
OS ESTUDANTES EGRESSOS, QUE FORAM À GUERRA E RETORNARAM,
INGRESSANDO NA UNIVERSIDADE DE CHICAGO, QUERIAM QUEIMAR
ETAPAS. ERAM, NA SUA MAIOR PARTE, DE ORIGEM HUMILDE,
MADUROS, MAIS VELHOS E QUASE TODOS CASADOS. TINHAM ANOS A
RESGATAR ECONÔMICA E INTELECTUALMENTE......................................164
ESTE MEIO AMBIENTE, ESSE CONTEXTO E CIRCUNSTÂNCIAS DE
TRABALHO DESCONCERTARAM O JOVEM GOFFMAN QUE NÃO TINHA
NENHUMA EXPERIÊNCIA DA GUERRA E DO MUNDO, TINHA APENAS 23
ANOS. POR ISSO, OS DOIS PRIMEIROS ANOS EM CHICAGO FORAM
MUITO DUROS PARA ELE. ESTAVA ANGUSTIADO, ESCREVIA COM MUITA
DIFICULDADE, ENTREGAVA OS SEUS TRABALHOS FORA DE PRAZO E
FALTAVA ÀS AULAS. OS SEUS PROFESSORES NÃO ESTAVAM MUITO
SATISFEITOS COM ELE, ALGUNS DESEJAVAM AFASTÁ-LO. NO
ENTANTO, ELE PARECEU ULTRAPASSAR A CRISE E IMPÔS-SE, POUCO A
POUCO, JUNTO AOS COLEGAS E PROFESSORES, A PARTIR DE 1947.
QUASE TODOS OS SEUS CONHECIDOS ERAM JUDEUS QUE, EM QUASE
SUA TOTALIDADE, VIRIAM A SE TORNAR NOMES DA SOCIOLOGIA
AMERICANA CONHECIDOS NACIONAL, SENÃO INTERNACIONALMENTE.
.............................................................................................................................164
NAQUELA ÉPOCA, SEUS COLEGAS ESTAVAM AINDA LONGE DE
PREVER SEU SUCESSO PROFISSIONAL, MAS QUANDO, DURANTE UM
ENCONTRO, ALGUÉM PERGUNTOU: “QUEM SERÁ CÉLEBRE DAQUI A
VINTE ANOS?”, RESPONDERAM, SEM DÚVIDA, COM UNANIMIDADE:
“ERVING!” A FRASE QUASE PROFÉTICA TRADUZIU BEM A IMPRESSÃO
QUE OS AMIGOS TINHAM DE GOFFMAN. O SEU INTELECTO,
APARENTEMENTE, IMPRESSIONOU-OS DE UMA MANEIRA OU OUTRA. OS
AMIGOS TORNARAM-SE OS PRIMEIROS PROFESSORES DE GOFFMAN EM
CHICAGO. TODOS LIAM MUITO. ....................................................................164
GUSTAV ICHHEISER DEU UM CURSO DE SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO EM
CHICAGO E TORNOU-SE UMA DAS FONTES DE INSPIRAÇÃO DE
GOFFMAN, QUE TAMBÉM SE ENTUSIASMOU PELO FILÓSOFO KENNETH
BURKE, DE QUEM APRENDEU O MODELO “DRAMATÚRGICO” DAS
RELAÇÕES HUMANAS DE QUE OS HOMENS ENCARNAM PAPÉIS,
MUDAM-NOS, PARTICIPAM NELES. GOFFMAN REFERIU-SE AO
PROFESSOR EVERETT CHERRINGTON HUGHES COMO TENDO SIDO O
SEU SANTO PATRONO EM CHICAGO, UMA DAS FILIAÇÕES
INTELECTUAIS DELE. COM ELE APRENDEU A IMPORTÂNCIA DOS
DADOS. ESSAS SÃO MAIS DUAS CHAVES PARA COMPREENDER A OBRA
DE GOFFMAN. ..................................................................................................164
POR VOLTA DE 1935, O PROFESSOR LLOYD WARNER ESTIMULOU
GOFFMAN A LER E UTILIZAR OS ESTUDOS DE HENRY MURRAY,
PSICÓLOGO JUNGUIANO QUE CONSTRUIU O TESTE DE APERCEPÇÃO
DE TEMAS (TAT), O QUAL, COM A AJUDA DE ANTROPÓLOGOS, TENTA
SEPARAR AS VARIAÇÕES CULTURAIS E SOCIAIS DOS DETERMINANTES
DA PERSONALIDADE. NO FINAL DE 1949, PERCEBEU-SE A CLARA
INFLUÊNCIA DESTA BIBLIOGRAFIA NA TESE DE MESTRADO, DE
GOFFMAN, COM O SEGUINTE TÍTULO: “ALGUMAS CARACTERÍSTICAS
DAS RESPOSTAS A EXPERIÊNCIAS REPRESENTADAS POR IMAGENS”.
ESTE FOI O PRIMEIRO TRABALHO ESCRITO DE GOFFMAN.....................165
ANTES DE TUDO, NA PRIMEIRA PARTE DA TESE PROVOU O SEU
CONHECIMENTO SOBRE O TAT: HISTÓRIA, OBJETIVOS,
POTENCIALIDADES E LIMITES DO TESTE FORAM ANALISADOS NUM
ESTILO SÓBRIO E DENSO. EXPLICOU, NA SEGUNDA PARTE, COMO
ENTROU EM CONTATO COM OS SEUS SUJEITOS POR TELEFONE,
SEGUNDO A TÉCNICA CLÁSSICA DA “BOLA DE NEVE”: UM NOME LEVA A
OUTRO. NA TERCEIRA PARTE HAVIA UMA SURPRESA: GOFFMAN
ESBOÇOU A SUA PRÓPRIA INTERPRETAÇÃO SOCIOLÓGICA, PÔS DE
LADO O QUADRO PSICOLÓGICO REALISTA NO QUAL SE ANALISAM
HABITUALMENTE AS RESPOSTAS ÀS IMAGENS DO TAT, FUNDAMENTOU-
SE EM WHORF, SAPIR, BURKE E CASSIRER, ENTRE OUTROS. ...............165
GOFFMAN PRETENDEU ABARCAR O “REAL”, COM SUAS TEORIAS DE
“PEQUENO ALCANCE”, O MOMENTO NO QUAL SE DILUEM OS
CONCEITOS, O REAL QUE SE ENCONTRA POR TRÁS DAS SITUAÇÕES
PARTICULARES QUE OS DADOS MOSTRAM, A REALIDADE DOS
MECANISMOS E ENGRENAGENS QUE ORIGINAM AS CONDUTAS E
COMPORTAMENTOS, QUE DARÃO ORIGEM A ORDEM SOCIAL...............165
O ANO DE 1949 FOI TAMBÉM O ANO DE PARTIDA PARA EDIMBURGO E
ILHAS SHETLAND. LLOYD WARNER ESTAVA, DE NOVO, POR TRÁS
DESTA VIAGEM. NA UNIVERSIDADE DE EDIMBURGO, AINDA EM 1949,
ABRIRAM UM DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA SOCIAL E SEU
DIRETOR PEDIU A UM DOS SEU VELHOS CONHECIDOS, QUE LHE
ENVIASSE UM BOM DOUTORANDO QUE PUDESSE DINAMIZAR A NOVA
ESTRUTURA. WARNER SUGERIU O NOME DE GOFFMAN, QUE ACEITOU O
CONVITE E AÍ CHEGOU EM OUTUBRO DE 1949...........................................165
GOFFMAN DESEMPENHOU TODAS AS TAREFAS QUE SE ESPERAVA DE
UM ASSISTENTE, OFICIALMENTE COLOCADO COMO MONITOR EM
ANTROPOLOGIA SOCIAL. MAIS TARDE, CHEGOU À UNIVERSIDADE DE
EDIMBURGO UM SOCIÓLOGO CHAMADO TOM BURNS QUE ESTAVA
ELABORANDO UMA TEORIA DAS “RELAÇÕES DE TROCA”, A HIPÓTESE
ERA DE QUE OS MEMBROS DE QUALQUER INTERAÇÃO MANTINHAM A
POLIDEZ ENTRE SI PARA EVITAR CHOQUES. ESSA POSSIBILIDADE
SEDUZIU GOFFMAN, QUE PENSANDO SOBRE ELA DIRIGIU-SE ÀS ILHAS
SHETLAND, NORTE DA ESCÓCIA, ONDE, ENTRE DEZEMBRO DE 1949 E
MAIO DE 1951, FEZ SEU CAMPO DE TESE DE DOUTORADO.....................165
PERCEBEU-SE, AINDA, NESTA PESQUISA, A INFLUÊNCIA DE LLOYD
WARNER, SEU ORIENTADOR. OBVIAMENTE, PORQUE O ESPECIALISTA
DAS PEQUENAS COMUNIDADES SEMI-RURAIS AMERICANAS NÃO TINHA
DESISTIDO DO SONHO DE QUALQUER ANTROPÓLOGO: ESTUDAR UMA
CULTURA INSULAR TAL COMO AS PESQUISADAS POR MALINOWSKI, AS
ILHAS TROBRIAND E, POR RADCLIFFE-BROWN, AS ILHAS ANDAMAN.. 166
GOFFMAN CONSTRUIU A SUA PRÓPRIA METODOLOGIA. ELE SE
APRESENTOU AOS MORADORES COMO UM ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO
QUE DESEJAVA APENAS OBTER INFORMAÇÕES SOBRE A ECONOMIA
DA AGRICULTURA INSULAR. ELE PROCURAVA TORNAR-SE SIMPÁTICO,
ASSIM TEVE O PRIVILÉGIO DE PODER OBSERVAR OS CONFLITOS
INTERACIONAIS QUE SURGIAM, POR VEZES, NO MEIO DESSES GRUPOS
DE ATORES SOCIAIS. PORÉM, OS LOCAIS DE OBSERVAÇÃO QUE
ESCOLHEU NÃO LHE PROPORCIONARAM ENTRAR NA ESTRUTURA
SOCIAL DA ILHA, SOMENTE ENTROU NAS ATIVIDADES DE LAZER
EXTRACOTIDIANAS RESERVADAS A ALGUNS PRIVILEGIADOS: A VIDA
NO HOTEL, AS PARTIDAS DE BILHAR, OS SERÕES. MAS É JUSTAMENTE
AÍ, NESSAS ATIVIDADES COTIDIANAS, QUE ELE VAI OBSERVAR AS
INTERAÇÕES EM FORMA DE CONVERSA.....................................................166
AS ATIVIDADES MAIS MUNDANAS DE UM UNIVERSO INTERACIONAL
ESSENCIALMENTE FAMILIAR SÃO O OBJETO DA ATENÇÃO DE
GOFFMAN, AS QUAIS ELE CHAMA DE CONVERSACIONAIS: “...ESSA
TÉCNICA ESTILÍSTICA DE GOFFMAN COMO A CAPACIDADE PARA FAZER
QUE UM INSTANTE BANAL E INSIGNIFICANTE NA VIDA DE UMA PESSOA
SE TRANSFORME EM UMA EXPERIÊNCIA MEMORÁVEL (PARA O LEITOR)”
(ANDACHT, 2004, P.130)...................................................................................166
O QUE GOFFMAN FEZ FOI OBSERVAR O DESENROLAR DA
COMUNICAÇÃO INTERATIVA NA ATMOSFERA DOS ESPAÇOS. A
EXPRESSÃO DE SI, QUE SE TORNAVA A IMPRESSÃO PARA O OUTRO,
ERA PASSÍVEL DE SER MANIPULADA PROPOSITALMENTE, COM O FIM
DE DESINFORMAR O SEU INTERLOCUTOR QUE PODIA AGIR DE MODO
SIMILAR. ............................................................................................................166
GOFFMAN PRETENDEU EXAMINAR AS INTERAÇÕES SOCIAIS QUE SE
ASSEMELHAVAM MAIS ÀS DOS LUGARES MAIS IMPESSOAIS DA VIDA
MODERNA. ASSIM, QUALQUER INTERAÇÃO, TORNA-SE UM CONSTANTE
JOGO DE DISSIMULAÇÃO E DE ENGANAR, DEMONSTRANDO UMA
SINTOMATOLOGIA SOCIAL:............................................................................166
O PROJETO DE GOFFMAN APARECE, ASSIM, COMO UMA
SINTOMATOLOGIA SOCIAL, COMO UMA DESMEDICALIZAÇÃO DESTES
SINTOMAS, CUJAS RAÍZES FREUD MERGULHARA NO INCONSCIENTE
DEIXANDO VER NELAS OS FUNDAMENTOS SOCIAIS E CULTURAIS.
QUANDO GOFFMAN INVOCA OS LAPSOS FREUDIANOS PARA DIZER QUE
‘NESTE JOGO QUEM DESCOBRE É FREQÜENTEMENTE MELHOR DO
QUEM DISSIMULA’, ESTÁ A DIALOGAR COM A PSICANÁLISE,
RECONHECENDO-LHE O PODER DE REVELAÇÃO, MAS PENSA
ACRESCENTAR-LHE UMA DIMENSÃO SOCIOLÓGICA (...) GOFFMAN FALA
DO SOCIAL ONDE FREUD FALA DO INCONSCIENTE (WINKIN, 1999, P. 70-
71)........................................................................................................................167
EM 1955 VIVEU AO RITMO DOS ACONTECIMENTOS QUOTIDIANOS EM
UM ENORME HOSPITAL PSIQUIÁTRICO, SANTA ELIZABETH, COM MAIS
DE SETE MIL CAMAS. DE CERTA MANEIRA RETOMA O PROCESSO
UTILIZADO NA SUA TESE DE DOUTORADO.................................................167
EM 1956, PUBLICOU UMA PRIMEIRA VERSÃO DE “A REPRESENTAÇÃO
DO EU NA VIDA COTIDIANA”. ORGANIZA O LIVRO, QUE SE TORNA UM
NOVO ALICERCE CONCEITUAL: A FAMOSA LINGUAGEM DO TEATRO
(CENÁRIO, REPRESENTAÇÃO, PAPEL, ETC.) O QUAL TORNOU GOFFMAN
CONHECIDO E QUE LHE VALEU A DENOMINAÇÃO DE PRIMEIRO
REPRESENTANTE DA ANÁLISE DRAMATÚRGICA. O LIVRO
POPULARIZOU-SE E DIFUNDIU-SE NAS MASSAS ESTUDANTIS. EM 1959,
GOFFMAN ESTAVA INTELECTUALMENTE AMADURECIDO; A SUA
INTELECTUALIDADE E CULTURA ESTAVAM NA SUA PLENITUDE.
PUBLICOU OBRAS NAS QUAIS CONSTATOU QUE É NA INTERAÇÃO COM
O OUTRO QUE SE SITUA A DIFICULDADE, NÃO NA PRÓPRIA PESSOA. EM
1961, PUBLICOU “ASYLUMS” E, EM 1963, “ESTIGMA”:..............................167
GOFFMAN PERMITE QUE OS LEITORES ‘VEJAM POR SI MESMOS’, QUE
DETECTEM POR SUA PRÓPRIA CONTA OS PADRÕES QUE ELE DESEJA
TORNAR NOTÁVEIS E SALIENTES.TAIS TÉCNICAS PERSUASIVAS OU DE
PREDISPOSIÇÃO TORNAM FÁCIL PARA OS LEITORES ‘CHEGAR AS SUAS
PRÓPRIAS CONCLUSÕES’ - CONCLUSÕES INTEIRAMENTE DE ACORDO
COM AQUELAS REQUERIDAS POR GOFFMAN. ESTA É A QUALIDADE
SEDUTORA DA PROSA DE GOFFMAN; É MUITO FÁCIL LER AS COISAS À
SUA MANEIRA (WATSON, 2004, P. 92)...........................................................167
SEGUNDO MALUFE (1992), ERVING GOFFMAM DESFRUTOU DE UM
PRIVILÉGIO DE SER RECONHECIDO EM VIDA. SEUS PRIMEIROS
ESCRITOS FORAM TIDOS COMO ALGO NOVO E VALIOSO. DENTRO E
FORA DOS CÍRCULOS PROFISSIONAIS DA SOCIOLOGIA, FOI FORTE O
IMPACTO DOS SEUS ESCRITOS. SUA ASCENSÃO PROFISSIONAL FOI
RÁPIDA E ESSE PRÓPRIO SUCESSO ACABOU POR TRANSFORMAR-SE
EM PROBLEMA PARA TODOS OS CRÍTICOS E RESENHADORES, PORQUE
ELE SEMPRE FOI POLÊMICO AO LONGO DOS SEUS TRINTA E TANTOS
ANOS DE VIDA ACADÊMICA...........................................................................167
MILHARES DE EXEMPLARES DOS SEUS LIVROS FORAM LIDOS EM
VÁRIOS IDIOMAS. O SEU SUCESSO POPULAR VEIO,
SURPREENDENTEMENTE, ASSOCIADO A UM INTERESSE ACADÊMICO,
UM TIPO DE ASSOCIAÇÃO MAIS COMUM DE SE VER NO CAMPO DA
LITERATURA DO QUE NO DAS CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS:.............168
SE A LEITURA DE GOFFMAN É, AO MESMO TEMPO, FASCINANTE E
DESCONCERTANTE É PORQUE, SEM JAMAIS SE AFASTAR DOS
PRINCÍPIOS DO OFÍCIO DO SOCIÓLOGO, ELE CONVIDA A COMPARAR O
INCOMPARÁVEL, A MUDAR CONSTANTEMENTE O VOCABULÁRIO
DESCRITIVO PARA QUE SE POSSA PERMANECER O MAIS PERTO
POSSÍVEL DA EXPERIÊNCIA INDIVIDUAL DA VIDA SOCIAL (JOSEPH, 2000,
P. 11)...................................................................................................................168
RECEBEU, EM 1961, UMA DAS MAIORES CONDECORAÇÕES NO MEIO
PROFISSIONAL, A MACIVER AWARD. FOI AUTOR DE ONZE LIVROS,
DENTRE OS QUAIS O MAIOR BEST-SELLER DA HISTÓRIA DA
SOCIOLOGIA, “A REPRESENTAÇÃO DO EU NA VIDA COTIDIANA”,
TRADUZIDO EM QUINZE IDIOMAS, COM VENDAGEM DE MAIS DE DOIS
MILHÕES DE EXEMPLARES. A DOENÇA O VITIMOU QUANDO ESTAVA
OCUPANDO O MAIS ALTO POSTO NA HIERARQUIA DA SOCIOLOGIA
ACADÊMICA - A PRESIDÊNCIA DA “AMERICAN SOCIOLOGICAL
ASSOCIATION”. MORREU EM 1982, AOS SESSENTA ANOS E NO APOGEU
DA CARREIRA...................................................................................................168
VELHO (2004) EXPLICA QUE AS PESQUISAS DE GOFFMAN COMEÇARAM
A SER MAIS DIVULGADAS NO BRASIL POR VOLTA DOS ANOS 60. A
SOCIOLOGIA, NO PAÍS, POSSUÍA NAQUELE MOMENTO O MARXISMO E O
ESTRUTURALISMO COMO REFERÊNCIA. O NACIONALISMO E O REGIME
MILITAR NÃO ESTIMULAVAM A DIVULGAÇÃO DE PESQUISADORES
NORTE-AMERICANOS. NOS ANOS QUE SE SUCEDERAM AO GOLPE DE
64, A TENDÊNCIA ERA DISCRIMINAR A PRODUÇÃO NORTE-AMERICANA,
TRATADA COMO EMPIRICISTA. ....................................................................168
ANTROPÓLOGOS E PROFISSIONAIS DA ÁREA PSICOLÓGICA PASSAM A
SE INTERESSAR POR GOFFMAN MAIS PARA O FIM DA DÉCADA DE
SESSENTA, A PARTIR DE MAIO DE 1968. HÁ UMA MUDANÇA E A
VALORIZAÇÃO DE OUTROS TIPOS DE CULTURA. É A ÉPOCA DA
CONTRACULTURA, DE ESTILOS ALTERNATIVOS, AUMENTANDO O
INTERESSE POR UMA ANÁLISE POLÍTICA DO COTIDIANO. ASSIM HÁ UMA
ABERTURA MAIOR EM RELAÇÃO A ESTUDOS CLASSIFICADOS DE
FORMA PEJORATIVA COMO MICROSSOCIOLOGIA. COMEÇAM A SER
EDITADOS ALGUNS DE SEUS LIVROS. CRESCE O INTERESSE POR
GOFFMAN, AUMENTANDO COM ISSO A APROXIMAÇÃO ENTRE
ANTROPÓLOGOS E A ÁREA PSICOLÓGICA. GOFFMAN DEMONSTROU UM
INTERESSE PELA VIDA COTIDIANA E A ANÁLISE DO COTIDIANO EM UMA
PERSPECTIVA SÓCIO-ANTROPOLÓGICA E DAS RELAÇÕES
INTERPESSOAIS, POR ISSO INCENTIVARAM-SE PESQUISAS E
INVESTIGAÇÕES INTERDISCIPLINARES... ”GOFFMAN E BECKER (...) NÃO
VIAM COMO BARREIRAS OS LIMITES ACADÊMICOS ENTRE SOCIOLOGIA
E ANTROPOLOGIA. ATRAVESSAVAM-NOS E CONSIDERAVAM-NOS
DESNECESSÁRIOS OU ATÉ FONTE DE MAL-ENTENDIDOS” (VELHO, 2004,
P.41)....................................................................................................................168
GOFFMAN TINHA INTERESSE POR SITUAÇÕES HUMANAS
PARTICULARMENTE PENOSAS E EMPREGAVA PROCEDIMENTOS NÃO-
CONVENCIONAIS DE PESQUISA OU RIGOR ANALÍTICO. NA SUA
PRODUÇÃO PERCEBE-SE A PRESENÇA MARCANTE DE UM DIÁLOGO
COM OS CLÁSSICOS ATRAVÉS DE ALUSÕES. SEM ASSUMIR UMA
POSTURA ERUDITA, POSSUI UMA LINGUAGEM ACESSÍVEL E
TRABALHADA:..................................................................................................169
A QUESTÃO RELATIVA AOS COSTUMES SOCIAIS DA LINGUAGEM FOI
IMPORTANTE PARA ELE EM TODO O SEU PERCURSO (...) SE A
LINGUAGEM É, PARA ELE, UM OBJETO DE ESTUDO FUNDAMENTAL, É
TAMBÉM O SEU PRINCIPAL INSTRUMENTO DE TRABALHO. É QUE
GOFFMAN ESCREVE DE UMA MANEIRA REQUINTADA, E ESTE REQUINTE
IRÁ AUMENTANDO À MEDIDA QUE A SUA OBRA SE CONSTRÓI. ELE
ESCULPE LITERALMENTE OS SEUS TEXTOS, NÃO POR PREOCUPAÇÃO
ESTÉTICA, MAS PARA EXPRIMIR COM A MAIOR CONCISÃO POSSÍVEL,
TODA A COMPLEXIDADE DA REALIDADE SOCIAL (WINKIN, 1999, P. 98).
.............................................................................................................................169
O TRABALHO DE GOFFMAN, SEGUNDO GASTALDO (2004),
EVIDENCIAVA ASPECTOS DA VIDA ROTINEIRA QUE NÃO ERAM
RELEVANTES PARA AS CIÊNCIAS SOCIAIS, MAS OFERECERAM UMA
CONTRIBUIÇÃO VALIOSA. “SUA DESCRIÇÃO ETNOGRÁFICA DE UM
HOSPITAL PARA DOENTES MENTAIS DEFLAGROU A LUTA
ANTIMANICOMIAL NO MUNDO” (GASTALDO, 2004, P. 9)...........................169
O PONTO DE VISTA DE GOFFMAN PASSAVA DESPERCEBIDO PARA OS
LEIGOS, MAS MODIFICOU O OLHAR E O PENSAR SOCIOLÓGICO SOBRE
AS INTERAÇÕES, “SOBRE O DESLOCAMENTO DOS PEDESTRES, SOBRE
A OCUPAÇÃO SOCIAL DOS ESPAÇOS PÚBLICOS, SOBRE A ATUAÇÃO DE
VIGARISTAS, MENDIGOS, LOUCOS, ESPIÕES E JOGADORES”
(GASTALDO, 2004, P.9)....................................................................................169
SUA OBRA CONTÉM FORÇA ATÉ OS DIAS ATUAIS. VINTE E QUATRO
ANOS DEPOIS DE SUA MORTE, OS TEMAS E OS CONCEITOS
DESENVOLVIDOS POR ELE AINDA ESTÃO EM VOGA: “(...) É PELO
ESTUDO DAS CIVILIDADES DA VIDA COTIDIANA QUE A SOCIOLOGIA DE
GOFFMAN IRROMPE NO DEBATE DAS CIÊNCIAS SOCIAIS” (JOSEPH,
2000, P.14). ........................................................................................................169
ATRAVÉS DAS INTERAÇÕES SOCIAIS, ELE PERCEBIA A LÓGICA DA
REPRESENTAÇÃO, CAPTAVA AS ESTRATÉGIAS QUE OS ATORES
SOCIAIS SIMULAVAM PARA MOLDAR SUA IMAGEM SOCIAL: OS
SUJEITOS SOCIAIS SE EXIBIAM, ENCENAVAM, PARA IMPRESSIONAR,
PARA SE VALORIZAR......................................................................................170
BORDIEUX (2004) AFIRMA QUE A PESQUISA DE GOFFMAN CONSISTIA
EM OLHAR DE PERTO A REALIDADE SOCIAL E DE SE COLOCAR NO
PRÓPRIO ESPAÇO DAS INTERAÇÕES. A TOTALIDADE PERFAZ A VIDA
SOCIAL. ELE FEZ COM QUE A SOCIOLOGIA VALORIZASSE O
INFINITAMENTE PEQUENO, O EVIDENTE E ÓBVIO, TORNANDO-SE, DESSA
FORMA, UMA REFERÊNCIA PARA SOCIÓLOGOS, PSICÓLOGOS,
PSICOSSOCIÓLOGOS E SOCIOLINGÜISTAS................................................170
3.2 INTERAÇÃO SOCIAL ............................................................................................170
COM O OBJETIVO DE INSERIR O INTERACIONISMO SIMBÓLICO NA
PERSPECTIVA DO CAMPO ORGANIZACIONAL E NO CONTEXTO DA
PESQUISA SOCIAL, UTILIZAMO-NO COMO REFERENCIAL TEÓRICO,
PORQUE SEU FOCO SÃO OS PROCESSOS DE INTER-AÇÃO SOCIAL.....170
A ABORDAGEM DINÂMICA CONSTITUI UMA PREOCUPAÇÃO DOS
SOCIÓLOGOS E ANTROPÓLOGOS. SEGUNDO JOAS (1999), O
INTERACIONISMO SIMBÓLICO SUSTENTA QUE A TEORIA DEVE SER
DESENVOLVIDA OBSERVANDO-SE AS INTERAÇÕES DOS ATORES
SOCIAIS NA VIDA REAL. A PARTIR DESSE PONTO DE VISTA, A
FINALIDADE DA PESQUISA SERÁ MOSTRAR O QUE OS ATORES SOCIAIS
REALMENTE FAZEM EM DETERMINADOS CONTEXTOS, EM PROCESSOS
OBSERVÁVEIS DE INTERAÇÃO ENTRE ELES:.............................................170
AO LADO DAS ENTIDADES CONSTITUTIVAS DA SOCIOLOGIA, QUE SÃO
O COLETIVO (GRUPO, CLASSE, POPULAÇÃO) E O INDIVÍDUO (ATOR,
AGENTE, SUJEITO), A MICROSSOCIOLOGIA INTRODUZ, POIS, UM
OBJETO NOVO, A SITUAÇÃO DE INTERAÇÃO (JOSEPH, 2000, P.11).......170
PARA ESTA TEORIA, AS ORGANIZAÇÕES NÃO SÃO REGIDAS POR
REGRAS ÚNICAS. AS AÇÕES QUE A ORGANIZAÇÃO REALIZA SÃO
PASSÍVEIS DA INTERFERÊNCIA DO ATOR SOCIAL. A REFLEXÃO E O
DIÁLOGO SÃO NECESSÁRIOS PARA A MODIFICAÇÃO DE REGRAS E
NORMAS E, TAMBÉM, PARA A SUA MANUTENÇÃO E REPRODUÇÃO. ...170
A CONTINUIDADE DAS ORGANIZAÇÕES, PARA O INTERACIONISMO,
ESTÁ ESTRITAMENTE LIGADA À SUA REPRODUÇÃO NA AÇÃO. SEUS
OBJETIVOS ORGANIZACIONAIS ESTÃO SUJEITOS A CONTRADIÇÕES,
APRESENTAM CARÁTER CONDICIONAL, TRANSITÓRIO E PODEM
ASSUMIR MUITAS FORMAS DIFERENTES: “A EXISTÊNCIA DAS
ORGANIZAÇÕES DEPENDE DE SUA CONTÍNUA RECONSTITUIÇÃO NA
AÇÃO; SE REPRODUZEM NA AÇÃO E POR MEIO DELA“ (JOAS, 1999, P.
162)......................................................................................................................171
DENTRO DESTA VISÃO, A SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES SUGERE
QUE O FUNCIONAMENTO DE UMA ORGANIZAÇÃO TORNA-SE VIÁVEL
COM A EXISTÊNCIA DE UM PROCESSO FLEXÍVEL E PERMANENTE DE
NEGOCIAÇÃO ENTRE OS VÁRIOS ATORES SOCIAIS INTERESSADOS NA
FORMA DE DIVISÃO DO TRABALHO. “(...) O PRINCÍPIO GERAL PROPOSTO
POR ESSA SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES: ELAS DEVEM SER
CONCEBIDAS COMO ‘SISTEMAS DE NEGOCIAÇÃO CONTÍNUA’” (JOAS,
1999, P. 162).......................................................................................................171
A PRINCIPAL TAREFA DE UMA SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES É A
RECONSTITUIÇÃO DOS PROCESSOS INTERACIONAIS, DEFINIDOS E
DESDOBRADOS NO TEMPO. A TESE CENTRAL É A DA CONVERSAÇÃO
DIPLOMÁTICA, A QUAL MANTÉM A INSTITUIÇÃO CONTÍNUA DA
SOCIEDADE. DE OUTRA FORMA, ESSE PROCESSO ENCONTRARIA O
OBSTÁCULO DE SER MAL-ENTENDIDO: “(...) DE MAIOR ALCANCE É A
TESE DE QUE PRATICAMENTE TODOS OS TIPOS DE ORDEM SOCIAL
SERÃO MAL-INTERPRETADOS SE O PAPEL DOS PROCESSOS DE
NEGOCIAÇÃO NÃO FOR CONSIDERADO.” (JOAS, 1999, P.163)................171
O PONTO DE VISTA TEÓRICO DO INTERACIONISMO SIMBÓLICO DE
JOAS (1999) É QUE A INTERAÇÃO SOCIAL É UM PROCESSO QUE MOLDA
O COMPORTAMENTO HUMANO. O ATOR SOCIAL TEM UM “EU” (SELF)
QUE SE TORNA OBJETO PARA SI, SE COMUNICA CONSIGO E AGE EM
RELAÇÃO A SI: “O SELF PARA MEAD SURGE E SE DESENVOLVE NO
PROCESSO DA EXPERIÊNCIA DOS INDIVÍDUOS E SUAS AÇÕES,
PORTANTO NO ESPAÇO DAS INTERAÇÕES SOCIAIS.” (BAZZILLI ET AL.,
1998, P. 59).........................................................................................................171
O “EU” (SELF) PRECISA DE UMA VISÃO REFLEXIVA; O ATOR SOCIAL,
ATRAVÉS DE UM PROCESSO DE SELF-INTERACTION, INTERAGE COM O
MUNDO, COM OUTROS E NESSA INTERAÇÃO DEFINE O SIGNIFICADO DE
COISAS: “EXIGE-SE REFLEXÃO E DIÁLOGO NÃO APENAS PARA
MODIFICAÇÃO DE REGRAS E NORMAS, MAS TAMBÉM PARA SUA
MANUTENÇÃO E REPRODUÇÃO” (JOAS, 1999, P. 162)..............................171
EXISTEM AXIOMAS QUE DEFINEM A TEORIA DO INTERACIONISMO
SIMBÓLICO, QUAIS SEJAM: ...........................................................................172
ESSAS PREMISSAS OFERECEM UMA PERCEPÇÃO DA SOCIEDADE
FORMADA POR ATORES SOCIAIS QUE SE ENGAJAM EM ATIVIDADES
E/OU FUNÇÕES AO INTERAGIREM UNS COM OS OUTROS. OS ATORES
ENGAJADOS EM AÇÕES DÃO INÍCIO À VIDA SOCIAL. A SOCIEDADE É
VISTA COMO EXISTINDO EM AÇÃO...............................................................172
AS PREMISSAS ANTERIORMENTE ELENCADAS CONFIGURAM-SE UMA
LINHA DE PENSAMENTO COM UM NÚCLEO TEÓRICO COMUM, COM UMA
IDENTIDADE ACADÊMICA: “GOFFMAN (...) FAZ DAS INTERAÇÕES
SOCIAIS O OBJETO DA SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIA ESPECÍFICA.”
(JOSEPH, 2000, P. 17).......................................................................................172
POR ISSO HÁ RELEVÂNCIA E INFLUÊNCIA DAS PESQUISAS DESSA
CORRENTE NA ANTROPOLOGIA E SOCIOLOGIA, POIS SUA TAREFA
CENTRAL É IDENTIFICAR O QUE NA SOCIEDADE CAUSA INFLUÊNCIA
NOS COMPORTAMENTOS INDIVIDUAIS DO ATOR SOCIAL, ASSIM COMO O
QUE NO ATOR SOCIAL FAZ DIFERENÇA PARA ASPECTOS COLETIVOS DA
SOCIEDADE. O QUANTO O COMPORTAMENTO INDIVIDUAL, A
INTERAÇÃO SOCIAL E O ATOR SOCIAL SÃO AFETADOS PELA
ESTRUTURA SOCIAL E TAMBÉM COMO OS ATORES SOCIAIS PODEM,
ATRAVÉS DE SEUS COMPORTAMENTOS, INDIVIDUAL E COLETIVO,
ALTERAR AS ESTRUTURAS EM QUE ATUAM. NÃO É POSSÍVEL
CONCEBER O ATOR SOCIAL SEM A SOCIEDADE E A SOCIEDADE SEM O
ATOR SOCIAL, OS DOIS SÃO GERADOS NA INTERAÇÃO. HÁ INFLUÊNCIA
DO ATOR SOCIAL NA SOCIEDADE E VICE-VERSA. A PARTIR DA
INTERAÇÃO, A NATUREZA DUAL DA RELAÇÃO ATOR SOCIAL E
SOCIEDADE GERA O PROCESSO DE INDIVIDUALIZAÇÃO, QUE É
DERIVADO DA SOCIALIZAÇÃO (JOAS, 1991)...............................................172
SMITH (2004, P. 56) DELINEIA OS AXIOMAS SOCIOLÓGICOS QUE
GOFFMAN DIZ SEREM NECESSÁRIOS PARA QUE A ORDEM SOCIAL DE
INTERAÇÃO FACE A FACE OCORRA (QUADRO 2):.....................................173
CONCLUI SMITH (2004, P. 56) QUE PARA QUE HAJA INTERAÇÃO FACE A
FACE, OS ATORES SOCIAIS DEVEM SER CAPAZES DE SONDAR,
MONITORAR OS OUTROS ATORES SOCIAIS, CAPTAR AS ATITUDES DOS
OUTROS ATORES SOCIAIS E CONTROLAR AS INFORMAÇÕES SOBRE SI
MESMOS. ...........................................................................................................173
EM SEU ESTUDO SOBRE OS RITUAIS DE INTERAÇÃO, GOFFMAN
EXAMINA O TRABALHO DE CONSTRUÇÃO DA FACE (GOFFMAN, 1999).
FACE SIGNIFICA OS VALORES PERCEBIDOS NUMA INTERAÇÃO COM O
ATOR SOCIAL. A FACE DÁ INDÍCIOS DA OBSERVAÇÃO DA IDENTIDADE,
DO SELF, O QUAL É FORMADO POR CARACTERÍSTICAS SOCIAIS
RECONHECIDAS E ACEITAS PELO GRUPO DE ATORES SOCIAIS. AS
REGRAS DO GRUPO DE ATORES SOCIAIS É QUE DETERMINAM A
ACEITAÇÃO DAS FACES EM INTERAÇÃO. NUMA INSTITUIÇÃO TOTAL, A
FACE, O “EU”, O SELF, A IDENTIDADE É AMEAÇADA OU DETERIORADA,
PODENDO SER ESTIGMATIZADA POR PARTE OU POR TODOS OS
MEMBROS DO GRUPO DE ATORES SOCIAIS, MESMO QUE A PESSOA
NÃO APRESENTE CARACTERÍSTICAS FÍSICAS QUE INDUZAM TAL
ESTADO. OS EGRESSOS DE UMA INSTITUIÇÃO TOTAL NÃO ESTÃO EM
CONDIÇÕES DE RECOMPOR A FACE EM FUNÇÃO DE UMA SITUAÇÃO
PSICOLÓGICA POUCO FAVORÁVEL QUE VIVERAM E TAMBÉM PELAS
CONDIÇÕES SOCIAIS A QUE ESTAVAM SUBMETIDOS..............................173
3.2.1 A persuasão entre atores sociais...........................................................174
O LIVRO “A REPRESENTAÇÃO DO EU NA VIDA COTIDIANA” PODE
SERVIR COMO UMA ORIENTAÇÃO. A PARTIR DELE É POSSÍVEL
ESTUDAR A VIDA SOCIAL DO PONTO DE VISTA SOCIOLÓGICO DA
MANIPULAÇÃO DA IMPRESSÃO, APLICÁVEL A QUALQUER
ESTABELECIMENTO SOCIAL CONCRETO. PODERIA SER UMA
REFERÊNCIA A SER UTILIZADA NO ESTUDO DE CASOS DA VIDA SOCIAL
INSTITUCIONAL.................................................................................................174
UM ESTABELECIMENTO SOCIAL É QUALQUER LUGAR NO QUAL SE
REALIZA REGULARMENTE UMA FORMA PARTICULAR DE ATIVIDADE.
NESSE ESPAÇO, HÁ UMA EQUIPE DE ATORES SOCIAIS QUE, EM
CONJUNTO, APRESENTA-SE À PLATÉIA UTILIZANDO REGRAS DE
COMPORTAMENTOS SOCIAIS COMO DECORO E POLIDEZ. HÁ UMA
REGIÃO ONDE É PREPARADA A REPRESENTAÇÃO, CHAMADA DE
FUNDOS. TAMBÉM HÁ UMA ONDE ESSA ENCENAÇÃO É APRESENTADA,
CHAMADA REGIÃO DE FACHADA. A ENTRADA NESSAS REGIÕES É
VIGIADA PARA EVITAR QUE A PLATÉIA OU AUDITÓRIO VEJA OS
BASTIDORES. ENTRE OS MEMBROS DA EQUIPE DE ATORES SOCIAIS HÁ
CERTA CONIVÊNCIA, FIDELIDADE, LEALDADE, VIGILÂNCIA PARA QUE
OS SEGREDOS QUE POSSAM PREJUDICAR A REPRESENTAÇÃO NÃO
VENHAM A PÚBLICO. HÁ CERTO CONSENSO ENTRE A EQUIPE DE
ATORES SOCIAIS E A PLATÉIA PARA MANTER CERTO NÍVEL DE
CONCORDÂNCIA. INCONSCIENTEMENTE PODE HAVER OPOSIÇÕES,
DISCORDÂNCIAS, APARECENDO ASSIM PAPÉIS DISCREPANTES COMO
ATORES SOCIAIS ‘ESTRANHOS’ AO GRUPO. ELES SÃO ACOLHIDOS
COMO SIMPATIZANTES, MAS NA REALIDADE VISAM APENAS OBTER
INFORMAÇÕES COMPROMETEDORAS DOS BASTIDORES. .....................174
O PONTO DE VISTA DO LIVRO ”A REPRESENTAÇÃO DO EU NA VIDA
COTIDIANA” É O DE UMA REPRESENTAÇÃO TEATRAL, NA QUAL SE
UTILIZAM PREMISSAS, AXIOMAS, PRINCÍPIOS DE CARÁTER
DRAMATÚRGICO. NO PALCO, SIMULAÇÕES SÃO APRESENTADAS. O
ATOR SOCIAL APRESENTA-SE SOB UMA MÁSCARA DE UM
PERSONAGEM SOCIAL PARA PERSONAGENS SOCIAIS, PROJETADOS
POR OUTROS ATORES SOCIAIS, A PLATÉIA SOCIAL................................174
UM ESTUDO SOBRE AS MANIFESTAÇÕES DRAMÁTICAS CERTAMENTE
PODERÁ SUGERIR UM MODELO DE EXPLICAÇÃO SOBRE OS MOMENTOS
EM QUE SE DEVE SORRIR, CHORAR, ENTONAR, GESTICULAR, ETC.,
COMO ATO DE SIGNIFICAÇÃO SOCIAL. A EXPRESSÃO DRAMÁTICA, DO
PONTO DE VISTA SOCIAL, NÃO SEGUE A NORMA DA RACIONALIDADE,
MAS A DE RECONHECIMENTO MÚTUO DOS ATORES SOCIAIS SOBRE
FORMAS DE VESTIR, GESTICULAR, ENTONAR, SORRIR, CHORAR E
ASSIM POR DIANTE. ........................................................................................175
A AÇÃO DRAMATÚRGICA ABRANGE OS SEGUINTES MOMENTOS: O
PALCO; ATOR (PAPÉIS SOCIAIS); O TEXTO; AS CENAS; OS MEIOS DE
EXPRESSÃO. TODOS, ATORES SOCIAIS, PLATÉIA E ESTRANHOS
UTILIZAM-SE DE TÉCNICAS PARA SALVAR O ESPETÁCULO, POR ESSA
RAZÃO É IMPORTANTE SELECIONAR MEMBROS LEAIS, DISCIPLINADOS,
DISCRETOS E UMA PLATÉIA SEM CRITICIDADE OU DISCERNIMENTO. . 175
INTERAÇÃO PARA GOFFMAN (1999) É A INFLUÊNCIA RECÍPROCA DOS
ATORES SOCIAIS SOBRE AS AÇÕES DOS OUTROS ATORES SOCIAIS. O
PAPEL SOCIAL PODE SER DEFINIDO COMO A PROMULGAÇÃO DE
DIREITOS E DEVERES LIGADOS A UMA DETERMINADA SITUAÇÃO
SOCIAL...............................................................................................................175
PARA GOFFMAN (1999), HÁ DUAS FONTES DE INFORMAÇÃO SOBRE O
OUTRO NA REPRESENTAÇÃO. UMA É QUANDO SE TEM ALGUMA IDÉIA
DE QUEM É A OUTRA PESSOA. A OUTRA VAI DEPENDER DA
COMUNICAÇÃO QUE FLUIR NA SITUAÇÃO – A PARTIR DE SUA CONDUTA
E APARÊNCIA, SUPONDO BASE NA EXPERIÊNCIA ANTERIOR,
CONFIANDO NO QUE ELE DIZ OU EM DOCUMENTOS................................175
GOFFMAN (1999) DIZ, EM SEUS ESTUDOS INTERACIONISTAS, QUE
TODO ATOR SOCIAL, EM QUALQUER INTERAÇÃO SOCIAL, REPRESENTA
UM PAPEL, EXIBE-SE AOS OUTROS ATORES SOCIAIS DE FORMA
ESTUDADA, PLANEJADA, ESTRATÉGICA, DOMINA AS OPINIÕES E
CONCEITOS QUE POSSAM TER DELE. PARA REALIZAR ESSE INTUITO,
UTILIZA-SE DE CERTOS MEIOS PARA REPRESENTAR SUA
PERFORMANCE, SEU PERSONAGEM DIANTE DE UM PÚBLICO. ELE
CONHECE A ARTE DA PERSUASÃO, DO CONTRÁRIO SEUS OBJETIVOS
VERDADEIROS SE DESMASCARAM, SE DESNUDAM, SE DESVELAM.....175
GOFFMAN (1999) DIZ QUE O MÉTODO DO DIRETOR OU ATOR SOCIAL EM
QUESTÃO, VISA GARANTIR O MÍNIMO DE DESLIZES DURANTE A
REPRESENTAÇÃO COMO, POR EXEMPLO, A HABILIDADE PARA
ENCARNAR O PERSONAGEM E SEU PAPEL DE FORMA ESPONTÂNEA,
EVITANDO GESTOS INVOLUNTÁRIOS, A PRESENÇA DE ESPÍRITO E DE
PALCO, O SABER INCITAR E ACOLHER BRINCADEIRAS DA PLATÉIA, SE
RESGUARDANDO EMOCIONALMENTE, ESSAS SÃO HABILIDADES QUE
SERVEM PARA PODER CONTORNAR AS SITUAÇÕES DE INTERAÇÃO
DRAMATÚRGICA QUE, OCASIONALMENTE, PODEM OCORRER DURANTE
A REPRESENTAÇÃO. O ATOR OU DIRETOR SOCIAL É TAMBÉM ALGUÉM
QUE POSSUI AUTOCONTROLE DRAMATÚRGICO, COM UM MÉTODO E/OU
METODOLOGIA QUE COMANDA A EXPRESSÃO DO ROSTO E DA VOZ,
DISSIMULA A EMOÇÃO REAL E SIMULA UMA EMOÇÃO FICTÍCIA...........175
GOFFMAN (1999) DIZ QUE A VIDA PREGRESSA DE UM LÍDER
ESPIRITUAL, POR EXEMPLO, PODE CONTER ALGUNS SEGREDOS,
MISTÉRIOS, QUE SE FOREM EXPOSTOS AO DOMÍNIO PÚBLICO,
DESACREDITARIAM OU, NO MÍNIMO, ENFRAQUECERIAM A
REPRESENTAÇÃO DO SEU PAPEL SOCIAL DE LÍDER E,
CONSEQÜENTEMENTE, AS PRETENSÕES RELATIVAS À SUA LIDERANÇA,
QUE COMO ATOR SOCIAL OU DIRETOR ESTAVA TENTANDO PROJETAR.
ESSES SEGREDOS PODEM ENVOLVER FATOS ESCUSOS, BEM
DISSIMULADOS OU ESTIGMAS QUE TODO MUNDO PERCEBE, MAS AOS
QUAIS NINGUÉM SE REFERE..........................................................................176
SEGUNDO GOFFMAN (1999), O ATOR SOCIAL OU DIRETOR PRUDENTE
SELECIONA, ESTRATEGICAMENTE, O TIPO DE PÚBLICO CRENTE, PURO,
SEM CRÍTICAS, SEM REFLEXÃO, SEM CONSCIÊNCIA, SEM INFORMAÇÃO,
SEM LÓGICA, SEM RACIONALIZAÇÕES, QUE NÃO TENHA PENSAMENTO
LIVRE E CRIATIVO, ENFIM, QUE NÃO PROVOQUE CONTRARIEDADES EM
TERMOS DA APRESENTAÇÃO QUE O ATOR SOCIAL OU DIRETOR
DESEJA ENCENAR. QUE NÃO LHE COLOQUE EM XEQUE, NÃO O
EXPONHA AO RIDÍCULO, NÃO O DESMASCARE, NÃO O DESMORALIZE,
ETC., SÓ ASSIM PODERÁ TER ÊXITO E ILUDIR, DO CONTRÁRIO, COMO
DIZ COHN, SERÁ DESMASCARADO:.............................................................176
SE FALHA O ÊXITO, SEU DOMÍNIO OSCILA (...) QUANDO DECAEM (...) A
FÉ DOS QUE CRÊEM EM SUAS QUALIDADES DE LÍDER, ENTÃO SEU
DOMÍNIO TAMBÉM SE TORNA CADUCO (...) A AUTORIDADE
CARISMÁTICA BASEIA-SE NA CRENÇA NO PROFETA (...) E COM ELES CAI
(COHN, 1979, P.136-7).......................................................................................176
GOFFMAN (1999) SALIENTA QUE, SE O PÚBLICO TIVER QUE ASSISTIR A
APENAS UMA LIGEIRA E BREVE PALESTRA, APRESENTAÇÃO,
ENCENAÇÃO, A POSSIBILIDADE DE UMA SITUAÇÃO CONSTRANGEDORA
SERÁ RELATIVAMENTE PEQUENA E SERÁ SEGURO, PARA O ATOR
SOCIAL OU DIRETOR MANTER UMA FACHADA FALSA. ...........................176
HÁ UMA TÉCNICA PADRONIZADA E DEFENSIVA DE PROTEÇÃO. ELA
NEUTRALIZA O RISCO OU PROBABILIDADE DE SE CRIAR CONDIÇÕES
QUE FAVOREÇAM A INTIMIDADE ENTRE ATORES SOCIAIS QUE
INTERAGEM (GOFFMAN, 1999).......................................................................176
OS SEGREDOS SÃO INFORMAÇÕES NEGATIVAS. O ‘ESPECIALISTA NUM
SERVIÇO’, COMO UM DIRETOR SOCIAL OU CINEASTA, POR EXEMPLO,
INFORMA-SE DO DRAMA PARTICULAR DOS ATORES SOCIAIS. ELE TEM
UMA VISÃO DA COXIA, DOS BASTIDORES, OBSERVA DE CAMAROTE O
QUE SE PASSA, REALMENTE, NA VIDA ÍNTIMA DE CADA UM. PERCEBE O
QUE ELES TENTAM CAMUFLAR, COM MÁSCARAS SOCIAIS
ENGENDRADAS ESTRATEGICAMENTE, ATÉ COMO DEFESA DOS SEUS
PONTOS FRACOS E VULNERÁVEIS. ELE SE INFORMA DE TUDO A
RESPEITO DOS OUTROS. ESSA INFORMAÇÃO É UM PODER, PORÉM OS
OUTROS NÃO CONHECEM A SUA REAL E VERDADEIRA
PERSONALIDADE.............................................................................................177
238.....................................................................................................................160
GOFFMAN (1999) DIZ QUE QUALQUER TIPO DE REPRESENTAÇÃO TERÁ
DIFERENTES IMPACTOS, DEPENDENDO DO MODO COMO É
DRAMATIZADA. PARA TANTO, ESTARÁ CAMUFLADA DE MEIOS
EFICIENTES DE EXIBIÇÃO. ASSIM, A FORMA MAIS OBJETIVA DE PODER
É, FREQÜENTEMENTE, UM MEIO EFICIENTE DE COMUNICAÇÃO QUE
FUNCIONA, PRINCIPALMENTE, COMO UMA REPRESENTAÇÃO PARA
ILUDIR O PÚBLICO...........................................................................................177
3.2.2 Instituições Totais....................................................................................177
GOFFMAN (1999) DIZ QUE HÁ RELEVÂNCIA SOCIOLÓGICA NAS
PESQUISAS DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, PORQUE SÃO LOCAIS DE
CONDICIONAMENTO DOS ATORES SOCIAIS, ONDE REGRAS E NORMAS
DE INTERAÇÃO SOCIAL COLETIVA E COMPULSÓRIA CONDICIONAM O
COMPORTAMENTO INTERACIONAL DAQUELES QUE PERTENCEM AO
GRUPO EM INTERAÇÃO COM OS ATORES SOCIAIS OU RESIDENTES
PERMANENTES. TAMBÉM É UM OBJETIVO DA INSTITUIÇÃO TOTAL A
TRANSFORMAÇÃO DO ATOR SOCIAL NUM SER MAIS PRÓXIMO DE UM
IDEAL DE PERFEIÇÃO... “JÁ SE SUGERIU TAMBÉM QUE UM FREQÜENTE
OBJETIVO OFICIAL É A REFORMA DOS INTERNADOS NA DIREÇÃO DE
ALGUM PADRÃO IDEAL” (GOFFMAN, 1999, P. 70).......................................177
SEGUNDO GOFFMAN (1999), AS NORMAS CULTURAIS CONDICIONAM
COMO OS ATORES SOCIAIS DEVEM AGIR, SOCIALMENTE, QUANDO
INSERIDOS NUM DETERMINADO GRUPO SOCIAL. AS INSTITUIÇÕES
TOTAIS LIMITAM SUAS PRÓPRIAS ATIVIDADES NUM ÚNICO ESPAÇO
FÍSICO, E AS REGRAS DE COMPORTAMENTO GARANTEM A IDENTIDADE
IDEOLÓGICA E FILOSÓFICA DO GRUPO:.....................................................177
A ADOÇÃO DAS ATITUDES GERAIS DE UM GRUPO CONSTITUI PARTE
ESSENCIAL DA ORGANIZAÇÃO DO SELF, EM SEU SENTIDO MAIS
COMPLEXO, POIS PROVOCA NO INDIVÍDUO O SENTIMENTO DE
PERTENCER A UMA COMUNIDADE AO SE APROPRIAR, EM SUA
EXPERIÊNCIA, DE VALORES INSTITUCIONALIZADOS POR ESSA
COMUNIDADE (BAZILLI ET AL., 1998, P. 68).................................................177
AO SE FAZER PARTE DE UMA INSTITUIÇÃO QUALQUER, UM NOVO
PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO É INICIADO, PORQUE ADERE-SE A SEUS
PADRÕES DE INTERAÇÃO. PODEMOS OBSERVAR COMO UM ATOR
SOCIAL MODIFICA SUA CONDUTA DE ACORDO COM AS
CIRCUNSTÂNCIAS. ISSO SE EXPLICA PELO FATO DE O ATOR SOCIAL
SER FLEXÍVEL E TER A CAPACIDADE DE SE ADAPTAR AO MEIO SOCIAL
E CULTURAL. O CONTEXTO, A CONJUNTURA SOCIAL INFLUENCIA A
ATITUDE E, ATÉ, O PENSAMENTO DO ATOR SOCIAL, PORQUE A
INSTITUIÇÃO EXERCE SEU DOMÍNIO SOBRE O “EU” (SELF) OU
PERSONALIDADE DOS SEUS MEMBROS, CONDICIONANDO SUA FORMA
DE PENSAR, SUA IDEOLOGIA, SUA CULTURA, SEUS COSTUMES, SEUS
HÁBITOS, SUA CONDUTA, SUA POSTURA: .................................................178
FREQÜENTEMENTE, PODE-SE OBSERVAR COMO UMA PESSOA MUDA
DE COMPORTAMENTO, DE ACORDO COM AS DIVERSAS SITUAÇÕES
DADAS. ISTO PODE SER EXPLICADO PELO FATO DE FAZER PARTE DO
INDIVÍDUO ASSUMIR PAPÉIS OU CONDUTAS ADAPTATIVAS AO
CONTEXTO SOCIAL (BAZILLI ET AL., 1998, P. 63).......................................178
A INSTITUIÇÃO É ORGANIZADA POR GRUPOS E CONSTITUÍDA PELAS
REAÇÕES DOS ATORES SOCIAIS EM RECIPROCIDADE COM AS
REAÇÕES IDÊNTICAS DOS OUTROS ATORES SOCIAIS, TAL COMO A LEI
DA FÍSICA “UMA AÇÃO PROVOCA UMA REAÇÃO NA MESMA
INTENSIDADE E SENTIDO CONTRÁRIO”. ELAS FORMARIAM AS REAÇÕES
EM CADEIA ENTRE ATORES SOCIAIS, OS QUAIS RECEBEM ESTÍMULOS
SOCIAIS E QUE, POR SUA VEZ, CONSTITUEM AS INSTITUIÇÕES SOCIAIS.
.............................................................................................................................178
PORTANTO, O DOMÍNIO OU CONTROLE SOCIAL NUMA INSTITUIÇÃO
TOTAL PODE ESMAGAR O “EU” (SELF) OU ANIQUILAR SUA
PERSONALIDADE, SUA AUTOCONSCIÊNCIA, PORQUE SE UTILIZA DE
NORMAS E REGRAS REACIONÁRIAS, OPRESSIVAS, ESTEREOTIPADAS E
ULTRACONSERVADORAS. POSSUI UMA FORMA ADMINISTRATIVA RÍGIDA
E INFLEXÍVEL. CONDICIONA OS “EUS” (SELFS) SUBMETIDOS À SUA
ORGANIZAÇÃO DE MANEIRA A INIBIR OU COIBIR QUALQUER INDÍCIO DE
COMPORTAMENTO E PENSAMENTOS CRIATIVOS DIFERENTES
DAQUELES POR ELAS INSTITUÍDOS. SOMENTE AS INSTITUIÇÕES TOTAIS
SUPRIMEM A DIVISÃO ENTRE AS DIFERENTES FACETAS DA VIDA
SOCIAL E CONDICIONAM A PARTICIPAÇÃO DO ATOR SOCIAL SOB UMA
ÚNICA E MESMA AUTORIDADE. ....................................................................178
TODAS AS INSTITUIÇÕES TÊM TENDÊNCIA AO ISOLAMENTO, UMAS
MAIS QUE OUTRAS. ALGUMAS ESTÃO ABERTAS PARA QUEM SE
COMPORTE DE MANEIRA SERVIL, OUTRAS RESTRINGEM A
FREQÜÊNCIA. ALGUMAS SÃO MAIS FECHADAS E NELAS HÁ UMA
OBSTACULIZAÇÃO À INTERAÇÃO SOCIAL COM O MUNDO ABERTO, COM
PROIBIÇÕES À SAÍDA DOS SEUS MEMBROS. TAIS LOCAIS GOFFMAN
(1999) DENOMINOU INSTITUIÇÕES TOTAIS:.................................................179
USANDO A LINGUAGEM NEUTRA QUE CONSTRÓI PARA DISCUTIR AS
INSTITUIÇÕES TOTAIS, GOFFMAN ISOLA UMA CLASSE DE OBJETOS
SOCIAIS QUE TÊM CARACTERÍSTICAS BEM DEFINIDAS EM COMUM,
CARACTERÍSTICAS ESSAS QUE SÃO EMPIRICAMENTE OBSERVÁVEIS E
QUE PODEM SER CONECTADAS UMAS ÀS OUTRAS EM PADRÕES
VERIFICÁVEIS. ELE SABE FAZER CIÊNCIA (BECKER, 2004, P. 109).........179
AS INSTITUIÇÕES TOTAIS PODEM SER CLASSIFICADAS EM CINCO
CATEGORIAS, SEGUNDO GOFFMAN (1999):................................................179
1º - AS QUE TÊM POR FINALIDADE CUIDAR DE PESSOAS INCAPAZES E
QUE NÃO APRESENTAM UMA AMEAÇA À SOCIEDADE: CASAS PARA
CEGOS, VELHOS, ÓRFÃOS E INDIGENTES;.................................................179
2º - AS QUE TÊM POR FINALIDADE CUIDAR DE PESSOAS INCAPAZES
QUE SÃO DE MANEIRA NÃO-INTENCIONAL UMA AMEAÇA À SOCIEDADE:
SANATÓRIOS PARA HANSENIANOS, TUBERCULOSOS, HOSPITAIS
PSIQUIÁTRICOS;...............................................................................................179
3º - AS QUE TÊM POR FINALIDADE ISOLAR PESSOAS QUE
INTENCIONALMENTE SÃO UMA AMEAÇA À SOCIEDADE: CADEIAS,
PENITENCIÁRIAS, CAMPOS DE PRISIONEIROS DE GUERRA, CAMPOS DE
CONCENTRAÇÃO;............................................................................................179
4º - AS QUE TÊM POR FINALIDADE FUNDAMENTALMENTE
INSTRUMENTAR, TREINAR PARA UMA TAREFA ESPECÍFICA OU
TRABALHO: QUARTÉIS, NAVIOS, ESCOLAS INTERNAS, CAMPOS DE
TRABALHO, COLÔNIAS, KIBUTZ;...................................................................179
5º - POR ÚLTIMO, AS QUE TÊM POR FINALIDADE INSTRUIR RELIGIOSOS.
SERVEM, TAMBÉM, DE REFÚGIO DO MUNDO: ABADIAS, MOSTEIROS,
CONVENTOS E OUTROS CLAUSTROS COMO MONASTÉRIOS,
COMUNIDADES ALTERNATIVAS, ETC...........................................................179
EM TODOS OS DIFERENTES TIPOS, O ATOR SOCIAL DIRECIONADO
PARA O TRABALHO NA SOCIEDADE ABERTA SERÁ DESMORALIZADO
PELO SISTEMA DA INSTITUIÇÃO TOTAL, PORQUE É INCOMPATÍVEL COM
A ESTRUTURA BÁSICA DE TRABALHO E PAGAMENTO DA SOCIEDADE
ABERTA E/OU EXTERNA A ELA:....................................................................179
EM ALGUMAS INSTITUIÇÕES, EXISTE UMA ESPÉCIE DE ESCRAVIDÃO, E
O TEMPO INTEGRAL DO INTERNADO É COLOCADO À DISPOSIÇÃO DA
EQUIPE DIRIGENTE. NESTE CASO, O SENTIDO DO EU DE POSSE DO
INTERNADO PODE TORNAR-SE ALIENADO EM SUA CAPACIDADE DE
TRABALHO (GOFFMAN, 1999, P. 21)..............................................................180
AS INSTITUIÇÕES TOTAIS TAMBÉM SÃO INCOMPATÍVEIS COM A
FAMÍLIA, UM PILAR FUNDAMENTAL DA SOCIEDADE ABERTA. HÁ VIDA
COMUNITÁRIA, MAS NÃO HÁ VIDA DOMÉSTICA, FAMILIAR: ...................180
INDEPENDENTEMENTE DO FATO DE DETERMINADA INSTITUIÇÃO
TOTAL AGIR COMO FORÇA BOA OU MÁ NA SOCIEDADE CIVIL,
CERTAMENTE TERÁ FORÇA, E ESTA DEPENDE EM PARTE DA
SUPRESSÃO DE UM CÍRCULO COMPLETO DE LARES REAIS OU
POTENCIAIS (GOFFMAN, 1999, P. 2)..............................................................180
A INSTITUIÇÃO TOTAL SUPRIME AS DISTÂNCIAS FÍSICAS DE LOCAIS
APROPRIADOS E SEPARADOS FISICAMENTE PARA LAZER, TRABALHO
OU FAMÍLIA. TODAS ESSAS INSTÂNCIAS DA VIDA COTIDIANA SÃO
REALIZADAS NUM MESMO ESPAÇO E SOB UMA MESMA E ÚNICA
AUTORIDADE.....................................................................................................180
AS ATIVIDADES COTIDIANAS SÃO FEITAS EM COMPANHIA DE GRUPOS,
E AS TAREFAS NÃO PERMITEM USAR CRIATIVIDADE. NÃO SE
RESPEITAM AS NECESSIDADES HUMANAS INDIVIDUAIS E TODAS AS
ATIVIDADES SÃO REALIZADAS EM CONJUNTO. ........................................180
O DESENVOLVIMENTO DAS TAREFAS É PLANEJADO E IMPOSTO,
HIERARQUICAMENTE, ATRAVÉS DE NORMAS, REGRAS, COM O FIM DE
ATENDER ÀS NECESSIDADES DA INSTITUIÇÃO. COMO HÁ UM
CONTINGENTE MUITO GRANDE DE ATORES SOCIAIS, FAZ-SE
NECESSÁRIO QUE HAJA SUPERVISÃO E/OU COORDENAÇÃO, COM O
INTUITO DE COAGIR TODOS A REALIZAREM, EM TEMPO E QUALIDADE, O
QUE FOI DETERMINADO PELA AUTORIDADE MENTORA. POR ISSO, AS
TAREFAS SÃO EXAMINADAS, VISTORIADAS, AVALIADAS. .....................180
O ATOR SOCIAL INTERNO É COMUMENTE CONDICIONADO POR UM
PROCESSO SOCIOLÓGICO DE DESPOJAMENTO DA IDENTIDADE, PARA
TANTO SOFRE CONSTANTES HUMILHAÇÕES, DEGRADAÇÕES,
PROFANAÇÕES DO SEU “EU” (SELF). A CARREIRA, A VIDA FAMILIAR, AS
OCUPAÇÕES TERAPÊUTICAS E A EDUCAÇÃO DO ATOR SOCIAL
INTERNO SÃO INTERROMPIDAS, CRIANDO-SE, ASSIM, UM ESTADO
ESTIGMATIZADO E NÃO HÁ ALÍVIO MOMENTÂNEO DE TENSÕES, COMO
UMA VIDA CULTURAL (ESTUDO, CINEMA, SHOW, TEATRO, CIRCO,
ESPETÁCULO), SOCIAL (BAILES, REUNIÕES, FESTIVIDADES), AFETIVA
(FAMÍLIA, AMIGOS, VIZINHOS, COLEGAS), SEXUAL (PARCEIRO(A)),
LAZER (RÁDIO, TV, INTERNET, TELEFONE), VIAGENS, PASSEIOS, LIVRE-
ARBÍTRIO, NECESSIDADES INDIVIDUAIS, CIDADANIA, DIRETOS
HUMANOS, DIGNIDADE, CRIATIVIDADE, COMUNICAÇÃO, INTERAÇÃO:.180
NAS INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS, PODEMOS ENCONTRAR TEORIAS
SOFISTICADAS DO PONTO DE VISTA SOCIOLÓGICO QUANTO À
NECESSIDADE DE PURIFICAÇÃO DA ALMA E PENITÊNCIA ATRAVÉS DA
DISCIPLINA DA CARNE (...) NOS CONVENTOS, ENCONTRAMOS TEORIAS
SOBRE A FORMA EM QUE O ESPÍRITO PODE SER FRACO E FORTE, E AS
FORMAS EM QUE SEUS DEFEITOS PODEM SER COMBATIDOS
(GOFFMAN, 1961, P. 72-309)............................................................................181
NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS HÁ SEMPRE UM GRUPO DE ATORES
SOCIAIS QUE TEM CONTATO RESTRITO COM O MUNDO EXTERNO. SÃO
OS SUPERVISORES QUE, PARCIALMENTE, POR QUESTÕES DE
TRABALHO, SÃO OBRIGADOS A TER CONTATO SUPERFICIAL COM O
MUNDO EXTERNO. ATÉ MESMO A INTERAÇÃO ENTRE OS GRUPOS DE
ATORES SOCIAIS INTERNOS RESIDENTES E OS SUPERVISORES É
RESTRITA...........................................................................................................181
A LACUNA, O VAZIO, O HIATO ENTRE OS DOIS GRUPOS DE ATORES
SOCIAIS É UM ASPECTO CENTRAL DA INSTITUIÇÃO TOTAL. NO
ENTANTO, GOFFMAN (1961) DIZ QUE HÁ UMA PERMEABILIDADE ENTRE
OS PADRÕES SOCIAIS DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS E OS DA SOCIEDADE
ABERTA, SENDO QUE AMBOS INFLUENCIAM-SE MUTUAMENTE............181
PARA SE DEFINIR UMA INSTITUIÇÃO COMO TOTAL, SEGUNDO
GOFFMAN (1999), ELA TEM QUE SER LOCAL DE RESIDÊNCIA E
TRABALHO, AO MESMO TEMPO, NUM ÚNICO ESPAÇO FÍSICO. DEVE
ABRIGAR E OBRIGAR A CONVIVÊNCIA ENTRE ATORES SOCIAIS EM
POSIÇÃO DE IGUALDADE, POR UM ESPAÇO DE TEMPO RAZOÁVEL. ELES
SÃO CONFINADOS, ENCLAUSURADOS, INTERNADOS, RECLUSOS,
FECHADOS E ISOLADOS E NÃO HÁ QUASE INTERAÇÃO SOCIAL ENTRE
SI E, MUITO MENOS, INTERAÇÃO COM O MUNDO ABERTO......................181
O NORMAL NA SOCIEDADE ABERTA É QUE OS ATORES SOCIAIS
TENHAM DIFERENTES LOCAIS PARA TRABALHAR, MOREM EM LOCAIS
DIFERENTES DO SEU TRABALHO E CONVIVAM COM SEUS FAMILIARES
EM OUTROS LOCAIS AINDA MAIS DIFERENCIADOS, TENHAM SEU LAZER
EM LOCAIS ESPECÍFICOS, ONDE POSSAM ENCONTRAR ATORES SOCIAIS
DIFERENTES. MAS NA INSTITUIÇÃO TOTAL, SEGUNDO GOFFMAN (1999),
ESSE ESPAÇO FÍSICO QUE DIVIDE OU SEPARA ESSAS DIFERENTES
ESFERAS OU ÁREAS DA VIDA DIÁRIA SÃO SUPRIMIDOS. TODAS AS
ATIVIDADES SÃO REALIZADAS NUM MESMO LOCAL E SOB UMA MESMA
ADMINISTRAÇÃO, PORTANTO ESSA É UMA DAS CARACTERÍSTICAS QUE
SERVE PARA DEFINI-LA. SEGUNDO GOFFMAN:.........................................181
UMA INSTITUIÇÃO TOTAL PODE SER DEFINIDA COMO UM LOCAL DE
RESIDÊNCIA E TRABALHO, ONDE GRANDE NÚMERO DE INDIVÍDUOS
COM SITUAÇÃO SEMELHANTE, SEPARADOS DA SOCIEDADE MAIS
AMPLA POR CONSIDERÁVEL PERÍODO DE TEMPO, LEVAM UMA VIDA
FECHADA E FORMALMENTE ADMINISTRADA (GOFFMAN, 1999, P.11)....182
AS TAREFAS DIÁRIAS SÃO OBRIGATÓRIAS E HIERARQUICAMENTE
IMPOSTAS. SÃO REALIZADAS EM CONJUNTO, OU SEJA, COM UM
CONTINGENTE DE ATORES SOCIAIS TRATADOS DE FORMA
PADRONIZADA, SEM LEVAR EM CONSIDERAÇÃO SUAS DIFERENÇAS,
CRIATIVIDADES E SEUS LIVRES-ARBÍTRIOS, ALÉM DE SE ESTABELECER
HORÁRIOS METICULOSOS PARA EXECUÇÃO DESSAS MESMAS
TAREFAS, QUE SÃO IMPOSTAS COM A FINALIDADE DE ATENDER AOS
OBJETIVOS E INTERESSES PLANEJADOS RACIONALMENTE PELA
DIREÇÃO DA INSTITUIÇÃO..............................................................................182
ATRAVÉS DE SEUS ESTUDOS, GOFFMAN (1999) PERCEBEU QUE,
HABITUALMENTE, PARECE HAVER UMA DIFERENÇA ENTRE AS NORMAS
E REGRAS INSTITUÍDAS PELA SOCIEDADE ABERTA E AS RESTRITIVAS
INSTITUÍDAS PELA INSTITUIÇÃO TOTAL. TALVEZ, O ATOR SOCIAL QUE
NÃO SE ADAPTE AO SISTEMA DE REGRAS INSTITUÍDAS POR UMA
INSTITUIÇÃO TOTAL POSSA NÃO SER CONSIDERADO INADAPTADO
PELA SOCIEDADE ABERTA, NA QUAL ELE AGIRÁ COMO UM ATOR
SOCIAL COMUM, PORQUE AS REGRAS LIMITADORAS INSTITUÍDAS POR
UMA INSTITUIÇÃO TOTAL QUALQUER NÃO SÃO COMUMENTE E/OU
UNIVERSALMENTE ACEITAS. ........................................................................182
AS RELAÇÕES NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS SÃO SEMPRE DE
SUPERIORIDADE E SUBORDINAÇÃO, ONDE HÁ A EXPECTATIVA SOCIAL
QUE O ATOR SOCIAL SUPERIOR EXERÇA CONTROLE SOBRE O
COMPORTAMENTO DO ATOR SOCIAL SUBORDINADO (POR ORDENS,
PROIBIÇÃO, ETC). ASSIM, A DESOBEDIÊNCIA AO COMANDO DE UMA
AUTORIDADE, NA INSTITUIÇÃO TOTAL, PODE RESULTAR EM SANÇÕES:
.............................................................................................................................182
(...) FAZER COM QUE TODOS FAÇAM O QUE FOI CLARAMENTE
INDICADO COMO EXIGIDO, SOB CONDIÇÕES EM QUE A INFRAÇÃO DE
UMA PESSOA TENDE A SALIENTAR-SE DIANTE DA OBEDIÊNCIA VISÍVEL
E CONSTANTEMENTE EXAMINADA DOS OUTROS (GOFFMAN, 1999, P. 18).
.............................................................................................................................182
AS NORMAS E REGRAS INSTITUÍDAS SÃO APLICADAS AOS ATORES
SOCIAIS LIGADOS A ELA MAIS OU MENOS CONTRA A SUA VONTADE E
SEM O SEU CONSENTIMENTO. A CAPACIDADE DE FAZER REGRAS E DE
APLICÁ-LAS A OUTROS ATORES SOCIAIS REPRESENTA
ESSENCIALMENTE UM PODER, UMA IMPOSIÇÃO, UM DOMÍNIO, UM
CONTROLE, PORQUE SÃO IMPOSTAS, HIERARQUICAMENTE, DE CIMA
PARA BAIXO......................................................................................................183
GOFFMAN (1999) DIZ QUE O CONTROLE, A VIGILÂNCIA, A
FISCALIZAÇÃO A QUE SÃO SUBMETIDOS OS ATORES SOCIAIS SÃO
CARACTERÍSTICAS DESSES ORGANISMOS. HÁ UMA COAÇÃO OU
COERÇÃO PERMANENTE NAS INTERAÇÕES DOS ATORES SOCAIS.
OBSERVA GOFFMAN (1999) QUE ESTES SÃO ESPAÇOS ÍMPARES ONDE
SE CRIAM FORMAS DE INTERAÇÕES SOCIAIS ‘SUI GENERIS’,
ADEQUADAS EXCLUSIVAMENTE A ESSE RESPECTIVO LOCAL: “O
CONTROLE DE MUITAS NECESSIDADES HUMANAS PELA ORGANIZAÇÃO
BUROCRÁTICA DE GRUPOS COMPLETOS DE PESSOAS (...) É O FATO
BÁSICO DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS” (GOFFMAN, 1999, P. 18).................183
AO CONTRÁRIO DO QUE ACONTECE NA SOCIEDADE ABERTA,
SALIENTA GOFFMAN (1999), AS COMODIDADES OU CONFORTO
MATERIAL COMO OBJETOS DE CONSUMO, UM BANHO QUENTE, UMA
CAMA MACIA, ROUPAS DE QUALIDADE, LAVADA E PASSADA,
PREFERÊNCIAS ALIMENTARES OU OBJETOS DE HIGIENE PESSOAL SÃO
SUPRIMIDOS AO SE RESIDIR, PERMANENTE OU TEMPORARIAMENTE,
NUMA INSTITUIÇÃO TOTAL OU FECHADA. O ATOR SOCIAL NÃO TEM
OPÇÃO DE ESCOLHA, NÃO TEM LIVRE-ARBÍTRIO, PORQUE NÃO TEM
PODER PARA TANTO:......................................................................................183
UM CONJUNTO DE BENS INDIVIDUAIS TEM UMA RELAÇÃO MUITO
GRANDE COM O EU. A PESSOA GERALMENTE ESPERA TER CERTO
CONTROLE DA MANEIRA DE APRESENTAR-SE DIANTE DOS OUTROS.
PARA ISSO PRECISA DE COSMÉTICOS E ROUPAS (...) EM RESUMO, O
INDIVÍDUO PRECISA DE UM ‘ESTOJO DE IDENTIDADE’ PARA O
CONTROLE DE SUA APARÊNCIA PESSOAL (GOFFMAN, 1999, P. 28)......183
O RESIDENTE DE UMA INSTITUIÇÃO TOTAL, SEGUNDO GOFFMAN
(1999), TEM SUA INTERAÇÃO SOCIAL RESTRINGIDA AO MUNDO
CONFINADO, ISOLADO, ENCLAUSURADO, RECLUSO DA INSTITUIÇÃO
FECHADA. ELE SE SUBMETE, ASSIM, A UMA DESPROGRAMAÇÃO, A UMA
DESPERSONALIZAÇÃO DE SUA IDENTIDADE ANTERIOR E É
PROGRAMADO E REEDUCADO PELO GRUPO DE ATORES SOCIAIS
COORDENADORES QUE O SUPERVISIONAM, VIGIAM, CONTROLAM,
FISCALIZAM. HÁ, COMO CONSEQÜÊNCIA, UM DESPOJAMENTO, UM
NIVELAMENTO, PORQUE O ATOR SOCIAL PERDE SUA REFERÊNCIA E
IDENTIDADE. HÁ UM PROCESSO QUE OBRIGA O RESIDENTE A EVITAR
PROBLEMAS MAIORES, OS QUAIS TERIA, CERTAMENTE, SE TENTASSE
IMPOR SUA VONTADE. ENTÃO ELE SE CALA, ABRE MÃO DOS SEUS
DIREITOS, VONTADES E PREFERÊNCIAS PARA SE PROTEGER DE
POSSÍVEIS SANÇÕES E REPRESÁLIAS........................................................183
NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, AINDA OBSERVA GOFFMAN (1999), HÁ UM
MÉTODO, UM PROCESSO, UM SISTEMA DE COAÇÃO OU COERÇÃO QUE
CONSTITUI FORMAS PARA OBRIGAR TODOS RESIDENTES REALIZAREM
TAREFAS SERVIÇAIS COMO AFAZERES DOMÉSTICOS, OBRIGANDO-OS A
SUBMETEREM-SE A UM PAPEL INDIGNO, SUBALTERNO, HUMILHANTE,
SUBSERVIENTE, ETC. .....................................................................................184
OUTRA CARACTERÍSTICA DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS É A ABOLIÇÃO
DA VIDA FAMILIAR. TURNER (1974) RATIFICA ESSA IDÉIA, POIS
SUBLINHA QUE A VIDA EM COMUNIDADES FECHADAS ROMPE COM AS
PREMISSAS, COM OS PILARES DA SOCIEDADE ABERTA, TAIS COMO O
CASAMENTO, O SEXO, A FAMÍLIA, A PROPRIEDADE PRIVADA, ETC. ....184
PARA GOFFMAN (1999) HÁ, NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, UM PROCESSO
DE VIOLAÇÃO AO “EU” (SELF), NO SENTIDO DE NÃO SE PERMITIR
LIBERDADE, PRIVACIDADE, LIVRE-ARBÍTRIO, PREFERÊNCIA, ESCOLHA
EM RELAÇÃO A SEUS BENS. O ATOR SOCIAL PERDE, ASSIM, SUA
IDENTIDADE, DIGNIDADE E CIDADANIA, SITUAÇÃO ESTA QUE TEM,
COMO CONSEQÜÊNCIA, UM ENFRAQUECIMENTO, ATÉ UMA INVOLUÇÃO
IRRECUPERÁVEL DO SEU PROCESSO DE APRENDIZAGEM MENTAL, DA
SUA EDUCAÇÃO INTELECTUAL, DA SUA VIDA PROFISSIONAL, DO SEU
AMADURECIMENTO EMOCIONAL, DA SUA AUTO-ESTIMA, DA SUA
VALORIZAÇÃO E AMOR PRÓPRIO:................................................................184
SEGUNDO A PERSPECTIVA ‘MEADIANA’, HÁ INSTITUIÇÕES SOCIAIS
OPRESSIVAS, ESTEREOTIPADAS E ULTRACONSERVADORAS. ESSAS
INSTITUIÇÕES, EM SUA FORMA RÍGIDA E INFLEXÍVEL, ATUAM SOBRE OS
SELFS ENVOLVIDOS COM OU SUBMETIDOS A SUA ORGANIZAÇÃO DE
MANEIRA A INIBIR QUALQUER EXPRESSÃO DE CONDUTAS E
PENSAMENTOS DIFERENTES DAQUELES POR ELAS INSTITUÍDOS
(BAZILLI ET AL., 1998, P. 95)...........................................................................184
O PROCESSO DESSOCIATIVO OU DE ASSOCIALIZAÇÃO DO ATOR
SOCIAL, DIZ GOFFMAN (1999), É TÃO PROFUNDO QUE A INTERAÇÃO
COM OS ATORES SOCIAIS DO MUNDO ABERTO GERA PROCESSOS DE
PÂNICO, ESTRESSE, ANGÚSTIA, ANSIEDADE, DEPRESSÃO E MEDO,
DIFICULTANDO SUA READAPTAÇÃO À SOCIEDADE, TORNANDO-SE,
PORTANTO, UM ATOR ANTI-SOCIAL.............................................................184
NORMALMENTE, AS INSTITUIÇÕES, PARA ALCANÇAREM SEUS
OBJETIVOS, PRECISAM IMPOR CERTAS NORMAS E REGRAS. O ATOR
SOCIAL, NO DECORRER DA SUA VIDA, PODE PERTENCER A VÁRIAS
INSTITUIÇÕES SOCIAIS FORMADAS POR ATORES SOCIAIS LIGADOS POR
PARENTESCO, POR INTERESSES MATERIAIS OU POR OBJETIVOS
ESPIRITUAIS. EM TODAS AS INSTITUIÇÕES SOCIAIS, ELE INGRESSA
VOLUNTARIAMENTE E DELAS SE RETIRA QUANDO BEM DESEJAR, SEM
QUE NINGUÉM POSSA COAGI-LO A PERMANECER, MAS DO ESTIGMA DE
TER FEITO PARTE DE UMA INSTITUIÇÃO TOTAL, O ATOR SOCIAL NÃO SE
LIBERTARÁ JAMAIS, PORQUE A INFLUÊNCIA SOBRE O SEU “EU” (SELF)
TORNA-O SUBSTANCIALMENTE MUITO DIFERENTE DOS DEMAIS ATORES
SOCIAIS DA SOCIEDADE ABERTA. PELO MENOS FOI ESSA UMA DAS
CONSTATAÇÕES DE GOFFMAN:....................................................................184
PODEMOS PASSAR AGORA PARA UMA CONSIDERAÇÃO DA ANGÚSTIA
DA LIBERAÇÃO (...) UM FATOR QUE TENDE A SER MAIS IMPORTANTE É A
DESCULTURAÇÃO, A PERDA OU IMPOSSIBILIDADE DE ADQUIRIR OS
HÁBITOS ATUALMENTE EXIGIDOS NA SOCIEDADE MAIS AMPLA
(GOFFMAN, 1999, P. 69)...................................................................................185
ALGUNS ATORES SOCIAIS QUE SEGUEM, POR VOCAÇÃO, A VIDA
RELIGIOSA E ENTRAM PARA UMA INSTITUIÇÃO ESPIRITUAL DE
CLAUSURA, SUBMETEM-SE, VOLUNTARIAMENTE, ÀS HUMILHAÇÕES DO
“EU” (SELF), PREFEREM UMA VIDA ASCÉTICA DE FLAGELAÇÃO, DE
MORTIFICAÇÃO COM FINS DE PURIFICAÇÃO ESPIRITUAL E
TRANSCENDÊNCIA DO EGO...........................................................................185
JÁ OS ATORES SOCIAIS QUE VIVEM NA SOCIEDADE ABERTA SE
INCOMODARIAM COM O FATO DE TEREM SEUS CABELOS RASPADOS.
ISSO SERIA TOMADO COMO UMA VIOLAÇÃO À SUA INTEGRIDADE
FÍSICA. MAS O MONGE PODE SE AGRADAR DISSO, MESMO QUE SEU
CORPO SEJA VIOLADO E SUA APARÊNCIA FIQUE DESFIGURADA. POR
ESTE E MUITOS OUTROS MOTIVOS, ALGUNS ATORES SOCIAIS
CONVERGEM PARA INSTITUIÇÕES TOTAIS QUE SERVEM DE REFÚGIO E
FUGA DO MUNDO, COMO ABADIAS, MOSTEIROS, CONVENTOS,
CLAUSTROS, ASHRAMS (COMUNIDADE LIDERADA POR UM GURU - NO
ORIENTE) E MONASTÉRIOS:...........................................................................185
(...) INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS QUE LIDAM APENAS COM AQUELES
QUE ACHAM QUE FORAM CHAMADOS E, DESTES VOLUNTÁRIOS, TOMAM
APENAS AQUELES QUE PARECEM OS MAIS ADEQUADOS E MAIS SÉRIOS
NAS INTENÇÕES. EM TAIS CASOS, A CONVERSÃO PARECE JÁ TER
OCORRIDO E APENAS RESTARÁ MOSTRAR AO NEÓFITO AO LONGO DE
QUE LINHAS PODERÁ MELHOR AUTODISICPLINAR-SE (GOFFMAN, 1961,
P. 328).................................................................................................................185
NUMA SOCIEDADE ABERTA, QUANDO UM ATOR SOCIAL TEM QUE
ACEITAR ORDENS QUE INVADEM SUA INDIVIDUALIDADE, SUA
PRIVACIDADE, LIBERDADE E LIVRE-ARBÍTRIO, ELE TEM CERTA
AUTONOMIA PARA REAGIR E DEFENDER-SE, NEM QUE SEJA SÓ EM
TERMOS DE EXPRESSÃO FACIAL. ELE TEM CERTA VÁLVULA DE
ESCAPE, PODE EXTERNAR MAL-HUMOR, REAGIR COM INDELICADEZA,
MOSTRAR MÁ VONTADE, AGIR COM FINGIMENTO, UTILIZAR-SE DE
CERTA HIPOCRISIA, TORNAR-SE CÍNICO, IRÔNICO, FAZER CARETAS
ESCONDIDAS, SUSSURRAR PALAVRÕES DITOS EM VOZ BAIXA. NAS
INSTITUIÇÕES TOTAIS, QUALQUER COMPORTAMENTO SEMELHANTE É
PASSÍVEL DE SANÇÕES E REPRESÁLIAS...................................................185
ESTE PODER DE PRESSÃO, COAÇÃO, ATRAVÉS DA REPRESENTAÇÃO,
É DRAMATIZADO POR MEIOS EFICAZES PARA SUA COMUNICAÇÃO E
TERÁ DIFERENTES EFEITOS, DEPENDENDO DO MODO COMO É
DRAMATIZADO. A FORMA DE PODER MAIS DIRETA ATUA,
PRINCIPALMENTE, COMO UMA REPRESENTAÇÃO PARA ILUDIR A
PLATÉIA E É, FREQÜENTEMENTE, UMA FORMA DE COMUNICAÇÃO.....186
3.2.3 Comunidade desviante............................................................................186
DURANTE A MUDANÇA DO SÉCULO XX PARA O SÉCULO XXI, HOUVE
UM PERÍODO DE TRANSIÇÃO (MORIN, 1996) E INCERTEZAS, QUANDO
SURGIU A DIALÉTICA ENTRE O PRESENTE E O FUTURO, UMA MUDANÇA
DE PARADIGMAS. FOI O FIM DAS CERTEZAS ATÉ NO CAMPO CIENTÍFICO,
COMO BEM SE REFERE ILYA PRIGOGINE NO TÍTULO DE UM LIVRO SEU
MUITO CONHECIDO NOS MEIOS CIENTÍFICOS, “O FIM DAS CERTEZAS”
(PRIGOGINE, 1996): “AS PESSOAS NECESSITAM DE ALGO QUE AS
TRANQÜILIZE COM RELAÇÃO ÀS INCERTEZAS DA VIDA” (WEBER, 2000,
P. 212).................................................................................................................186
DENTRO DESSE CONTEXTO SURGIU TRIGUEIRINHO RE-ANUNCIANDO A
ERA DE AQUÁRIO NUM MOVIMENTO TÃO DIVERSO QUANTO A
CONTRACULTURA DA DÉCADA DE 1960, QUE TINHA SUAS RAÍZES NA
NEW AGE. .........................................................................................................186
TRIGUEIRINHO ANUNCIAVA EM SUAS PROFECIAS QUE A TRANSIÇÃO
AO MILÊNIO AQUARIANO, DE AMOR E FRATERNIDADE, SERIA PLENA DE
VIOLÊNCIA E RISCOS PARA OS ESPIRITUALMENTE DESPREPARADOS.
MAS, POR OUTRO LADO, OS QUE ESTIVESSEM EM HARMONIA COM A
OPERAÇÃO RESGATE LIDERADA POR ELE INGRESSARIAM NUMA NOVA
ERA DE ILUMINAÇÃO ESPIRITUAL, ORIENTADOS POR SERES
INTRATERRENOS, SUPERIORES E AVANÇADOS, EMISSÁRIOS DE UMA
CIVILIZAÇÃO EXTRATERRESTRE, CUJAS ESPAÇONAVES ERAM OS
OVNIS, AJUDARIAM A CRIAR UMA NOVA CIVILIZAÇÃO:...........................186
SE DEZENAS DE ESCATOLOGISTAS MOSTRARAM ESTAR ERRADOS, A
RESPOSTA NÃO É QUE UM DELES MOSTRARÁ ESTAR CERTO UM DIA,
MAS QUE MUITOS DELES REVELARAM-SE INFLUENTES DEMAIS -
DESTRUTIVOS, CONSTRUTIVOS, INSPIRADORES, CONSOLADORES - E
QUE É TOLICE OS HISTORIADORES REJEITÁ-LOS OU, PIOR AINDA, NÃO
TOMAR CONHECIMENTO DELES (WEBER, 2000, P. 248)............................186
A CONFUSÃO, A INCERTEZA E A INSEGURANÇA NAS RELAÇÕES
SOCIAIS, SEGUNDO GILBERTO VELHO (1974), FEZ COM QUE ALGUNS
ATORES SOCIAIS SE SENTISSEM PERDIDOS. ELES PODERIAM TER
OPTADO POR UM COMPORTAMENTO DE ADAPTAÇÃO AOS VALORES
CULTURAIS, QUE NO ENTENDER DE MERTON (1968) CHAMAVA-SE
‘RETRAIMENTO’. ERAM ATORES SOCIAIS QUE SE ADAPTAVAM MAL AOS
OBJETIVOS CULTURAIS DA SOCIEDADE, NÃO COMPARTILHAVAM E
REPUDIAVAM A ESCALA COMUM DE VALORES, OS OBJETIVOS
CULTURALMENTE PREESTABELECIDOS. ESTAVAM À MARGEM.
‘OUTSIDER’ DE ACORDO COM BECKER (1977). OS SEUS
COMPORTAMENTOS NÃO SE AJUSTAVAM ÀS NORMAS SOCIAIS:.........187
(...) OS DESVIANTES INTRA-GRUPAIS, DESVIANTES SOCIAIS, OS
MEMBROS DE MINORIAS E AS PESSOAS DE CLASSE BAIXA ALGUMAS
VEZES, PROVAVELMENTE, SE VERÃO FUNCIONANDO COMO INDIVÍDUOS
ESTIGMATIZADOS, INSEGUROS SOBRE A RECEPÇÃO QUE OS ESPERA
NA INTERAÇÃO FACE A FACE, E PROFUNDAMENTE ENVOLVIDOS NAS
VÁRIAS RESPOSTAS A ESTA SITUAÇÃO (GOFFMAN, 1988, P. 157).........187
O TERMO ESTIGMA NA GRÉCIA DESCREVIA OS SINAIS NO FÍSICO
UTILIZADOS PARA IDENTIFICAR O ESCRAVO, O TRAIDOR OU O
CRIMINOSO. CONTEMPORANEAMENTE NÃO EXISTE MAIS A
IDENTIFICAÇÃO FÍSICA DO ESTIGMA, MAS EXISTEM OS
ESTIGMATIZADOS. SÃO AQUELES QUE POR ALGUM MOTIVO NÃO SÃO
ACEITOS EM DETERMINADA COMUNIDADE, PORQUE SE AFASTAM DAS
EXPECTATIVAS SOCIAIS, CULTURAIS, ECONÔMICAS, INTELECTUAIS,
FÍSICAS, ETC. OS SENTIMENTOS DESTES SÃO DE FRACASSO E
DERROTA. SUAS RESIGNAÇÕES SOCIAIS PODEM SE MANIFESTAR COMO
UM MECANISMO DE FUGA E ABANDONO DA SOCIEDADE, CONVERGINDO
PARA COMUNIDADES DESVIANTES (GOFFMAN, 1988), ONDE ENTRAM EM
CONTATO COM SEUS SEMELHANTES FORMANDO UMA SUBCULTURA.
“TEORICAMENTE, UMA COMUNIDADE DESVIANTE PODERIA VIR A
DESEMPENHAR PARA A SOCIEDADE EM GERAL ALGUMAS DAS
FUNÇÕES DESEMPENHADAS POR UM DESVIANTE INTRAGRUPAL PARA
O SEU GRUPO” (GOFFMAN, 1988, P. 156).....................................................187
SEGUNDO GOFFMAN (1988), OS QUE SE JUNTAM NUMA
SUBCOMUNIDADE PODEM SER CLASSIFICADOS COMO DESVIANTES
SOCIAIS E SUA VIDA EM COMUM, EM CONJUNTO, PODE SER
DENOMINADA COMUNIDADE DESVIANTE OU DESTOANTE. ATORES
SOCIAIS QUE NEGAM A ORDEM SOCIAL E SE ENGAJAM
COLETIVAMENTE NUMA SUBCOMUNIDADE FORMAM UMA SUBCULTURA.
ESTES ATORES NÃO POSSUEM MOTIVAÇÃO DE PROGREDIR SEGUNDO
OS VALORES APROVADOS PELA SOCIEDADE. POR EXEMPLO, UM ATOR
SOCIAL SOLTEIRO QUE NÃO DESEJA CONSTITUIR FAMÍLIA PODE
INGRESSAR NUMA SUBCOMUNIDADE QUE SE REBELA CONTRA O
SISTEMA FAMILIAR: “(...) OPTARAM FUGIR DA ORDEM SOCIAL LIGADA
AO STATUS E ADQUIRIRAM OS ESTIGMAS DOS MAIS HUMILDES (...) E
SUBALTERNOS EM QUALQUER OCUPAÇÃO CASUAL DE QUE SE
INCUMBAM. VALORIZAM MAIS AS RELAÇÕES PESSOAIS DO QUE AS
OBRIGAÇÕES SOCIAIS” (TURNER, 1974, P. 138):........................................187
O ESTRESSE DA VIDA INDUSTRIAL INDUZ UM NÚMERO CADA VEZ
MAIOR DE CIDADÃOS A ACALENTAR A IDÉIA DE UM RETORNO AO RITMO
LENTO DA SOCIEDADE RURAL, SEM O TRÁFEGO E AS CORRIDAS
FRENÉTICAS ENTRE A CASA, O ESCRITÓRIO, OS CURSOS E
SUPERMERCADO (DOMENICO DE MASI, 2006, P. 66).................................188
OS DESVIANTES SOCIAIS, DESCREVE GOFFMAN (1988), ORGULHAM-SE
DE SUA REBELDIA E EVITAM AS DIVERGÊNCIAS (VELHO, 1974),
RESTRINGINDO-SE À PROTEÇÃO AUTODEFENSIVA DE VIVEREM
ISOLADOS NUMA SUBCOMUNIDADE. ALI NÃO SE SENTEM MAIS
DESLOCADOS COMO NA SOCIEDADE ABERTA. SENTEM-SE MELHORES,
SUPERIORES, EXEMPLOS E MODELOS DE VIDA PARA OS ATORES
SOCIAIS DA SOCIEDADE ABERTA E ANGARIAM SIMPATIZANTES E
ADEPTOS: .........................................................................................................188
OS PROFETAS E OS ARTISTAS TENDEM A SER PESSOAS LIMINARES
OU MARGINAIS, ‘FRONTEIRIÇOS’ QUE SE ESFORÇAM COM VEEMENTE
SINCERIDADE POR LIBERTAR-SE DOS CLICHÊS LIGADOS ÀS
INCUMBÊNCIAS DA POSIÇÃO SOCIAL E À REPRESENTAÇÃO DE PAPÉIS
(TURNER, 1974, P. 155).....................................................................................188
TURNER (1974) DIZ QUE A ‘COMMUNITAS’ ERA FORMADA POR UM
CONJUNTO DE ATORES SOCIAIS CONCRETOS E IDIOSSINCRÁSICOS
QUE, APESAR DE SEREM DIFERENTES QUANTO AOS SEUS FÍSICOS E
PERSONALIDADES, ERAM IGUAIS DO PONTO DE VISTA DA HUMANIDADE
COMUM A TODOS. BUSCAVAM UMA TRANSFORMAÇÃO PROFUNDA,
ONDE ENCONTRAVAM ALGO PROFUNDAMENTE COMUNAL E
COMPARTILHADO: SUA ALMA OU HUMANIDADE, SUA ‘COMUM
UNIDADE’...........................................................................................................188
CAPÍTULO 4.....................................................................................................189
MÉTODO DE GOFFMAN E SUA APLICAÇÃO NA INTERAÇÃO SOCIAL DE
“FIGUEIRA”............................................................................................................189
MÉTODO DE GOFFMAN E SUA APLICAÇÃO NA INTERAÇÃO SOCIAL DE
“FIGUEIRA”........................................................................................................189
4 MÉTODO DE GOFFMAN E SUA APLICAÇÃO NA INTERAÇÃO SOCIAL DE
“FIGUEIRA”........................................................................................................190
NUM PRIMEIRO MOMENTO, DESCREVEMOS O MÉTODO DE PESQUISA
CRIADO POR GOFFMAN, PARA OBSERVAR DE FORMA PARTICIPATIVA
AS INTERAÇÕES. .............................................................................................190
EM SEGUNDO LUGAR, DESCREVEMOS O PROCEDIMENTO TEÓRICO-
METODOLÓGICO UTILIZADO NA PESQUISA DE CAMPO EM “FIGUEIRA”
DE ACORDO COM A METODOLOGIA GOFFMINIANA..................................190
NUMA TERCEIRA INSTÂNCIA, DEFINIMOS AS CATEGORIAS DE ANÁLISE
DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO E DOS RITOS DA INTERAÇÃO EXTRAÍDAS
DO REFERENCIAL TEÓRICO...........................................................................190
EM QUARTO LUGAR, LISTAMOS O MATERIAL EMPÍRICO E O
CLASSIFICAMOS EM CATEGORIAS. POR FIM, FAZEMOS ALGUMAS
CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................190
4.1 PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS............................................190
TOMAMOS CIÊNCIA DA COMUNIDADE “FIGUEIRA” POR INTERMÉDIO DA
CADEIRA DE CINEMA DA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA
PUCRS (FAMECOS). TRIGUEIRINHO É CONHECIDO NESTE MEIO, PORQUE
FOI UM DIRETOR PREMIADO NA FASE DO CINEMA NOVO BRASILEIRO,
EM 1960, COM O FILME “BAHIA DE TODOS OS SANTOS”. .......................190
É IMPORTANTE RESSALTAR QUE ESTA PESQUISA SOBRE “FIGUEIRA”
É PIONEIRA. NÃO EXISTIAM ESTUDOS, ENSAIOS, ARTIGOS, TEXTOS
ACADÊMICOS ANTERIORES SOBRE ESTA ORGANIZAÇÃO.
DESBRAVAMOS UM NOVO CAMINHO DE PESQUISA E CONSTRUÍMOS UM
NOVO SABER, UM NOVO CONHECIMENTO. O INEDITISMO TORNOU-A
TRABALHOSA. LEVAMOS SEIS ANOS PARA REALIZÁ-LA. TIVEMOS
PARADAS QUE FORAM MUITO FRUTÍFERAS, POIS PROCURAMOS PÔR
EM PRÁTICA O QUE O SOCIÓLOGO DOMENICO DE MASI CHAMOU DE
ÓCIO CRIATIVO, ISTO É, UTILIZAR O TEMPO DE LAZER, O TEMPO
RECREATIVO PARA CRIAR, PRODUZIR SEM PRESSÃO, SEM ESTRESSE.
ESPERAMOS QUE TODO ESSE TRABALHO SIRVA PARA AMENIZAR
POSTERIORES ESTUDOS E APROFUNDAMENTOS SOBRE O MESMO
TEMA. TALVEZ POR SER UMA PESQUISA PIONEIRA, ELA SIRVA DE
REFERÊNCIA.....................................................................................................190
PODERÍAMOS OPTAR PELO VIÉS DO ‘MESSIANISMO’ ESTUDADO PELA
MARIA QUEIROZ, PELO RECORTE DO ‘PODER’ OU ‘VIGILÂNCIA E
PUNIÇÃO’, ESTUDADO POR FOUCAULT, PELO VIÉS DO ‘LÍDER
CARISMÁTICO’ PESQUISADO POR MAX WEVER, PELO RECORTE DE
‘COMUNIDADE’ E ‘LIMINARIDADE’ ESTUDADO POR VICTOR TURNER,
PELO VIÉS DO ‘DESVIO DE DIVERGÊNCIA’, PESQUISADO POR GILBERTO
VELHO, PELO RECORETE DAS ORGANIZAÇÕES NÃO-GOVERNAMENTAIS
(ONGS), ESTUDAS PELA MARIA DA GLÓRIA GOHN, PELO VIÉS DA
PSICOLOGIA OU TEOLOGIA, ETC., MAS OPTAMOS PELO
INTERACIONISMO SIMBÓLICO E PELA TRILOGIA DE GOFFMAN QUE
TRATA DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, DA REPRESENTAÇÃO DO “EU” NA
VIDA COTIDIANA E DO ESTIGMA. .................................................................191
PROCURAMOS, ENTÃO, SEGUIR A METODOLOGIA DE PESQUISA
UTILIZADA POR GOFFMAN. WINKIN (1999) DISSE QUE GOFFMAN, EM SUA
TESE DE DOUTORADO NA COMUNIDADE DAS ILHAS SHETLAND,
CONSTRUIU SUA PRÓPRIA METODOLOGIA................................................191
NO TRABALHO DE ANÁLISE, A ABORDAGEM DRAMATÚRGICA É UM
MEIO DE ORDENAR AS INFORMAÇÕES (...) MÉTODO QUE POSSIBILITA
DESCREVER AS TÉCNICAS DE MANIPULAÇÃO DA IMPRESSÃO, COM
SUAS VÁRIAS INTER-RELAÇÕES DENTRO DO AMBIENTE, OBSERVANDO
OS POSSÍVEIS PROBLEMAS DE IDENTIDADE (BAZILLI ET AL., 1998, P.
126)......................................................................................................................191
GOFFMAN APRESENTOU-SE AOS MORADORES DAS ILHAS SHETLANDS
COMO UM ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO QUE DESEJAVA OBTER
INFORMAÇÃO DIRETA SOBRE A ECONOMIA INSULAR. ELE SE COLOCOU
NO PRÓPRIO ESPAÇO DA PESQUISA DE CAMPO, OU SEJA, NO ESPAÇO
DAS INTERAÇÕES DOS MORADORES. ALI PÔDE PERCEBER O
INFINITAMENTE PEQUENO, O EVIDENTE E O ÓBVIO. PROCUROU
TORNAR-SE TÃO ACEITÁVEL QUANTO POSSÍVEL AOS HABITANTES DAS
ILHAS, NÃO LHES COLOCANDO MUITAS QUESTÕES E NÃO OS
OBSERVANDO COM OS OLHOS ARREGALADOS. NÃO UTILIZOU
QUESTIONÁRIOS, GRAVADOR, CÂMERA DE FILMAR. TOMAVA ALGUMAS
NOTAS ESCONDIDAS DURANTES ALGUNS ACONTECIMENTOS
PÚBLICOS..........................................................................................................191
MAIS TARDE, JÁ CONHECIDO E MAIS PARTICIPANTE OBSERVADOR DO
QUE OBSERVADOR PARTICIPANTE, VAI SIMPLESMENTE REVIVER AS
INTERAÇÕES E RELATÁ-LAS NO SEU DIÁRIO ELABORADO À NOITE NO
SILÊNCIO DO SEU QUARTO. GOFFMAN TEVE A OPORTUNIDADE DE
OBSERVAR AS CRISES INTERACIONAIS QUE SURGEM, POR VEZES, NO
MEIO DESSES PEQUENOS GRUPOS DE ATORES SOCIAIS. ELE
PARTICIPAVA DAS ATIVIDADES MAIS INFORMAIS. DURANTE ESTAS
ATIVIDADES, OBSERVOU AS INTERAÇÕES EM FORMA DE CONVERSA.
.............................................................................................................................191
A INTERAÇÃO, QUE É OBJETO DA ATENÇÃO DE GOFFMAN, DENOMINA-
SE CONVERSACIONAL. ELE OBSERVOU O DESENROLAR DA
COMUNICAÇÃO NA ATMOSFERA DOS ESPAÇOS COTIDIANOS E
AFASTOU TODA A PREOCUPAÇÃO COM AS CARACTERÍSTICAS
MACROSSOCIOLÓGICAS DA COMUNIDADE. ELIMINOU TODO INTERESSE
PELOS TRAÇOS QUE DISTINGUIAM ESTA ILHA DE UMA OUTRA E
COMEÇOU A EXAMINAR AS INTERAÇÕES SOCIAIS QUE SE
ASSEMELHAVAM ÀS DOS LUGARES MAIS IMPESSOAIS DA VIDA
MODERNA. REJEITOU O TEMPO E O ESPAÇO, ANULOU A TRADIÇÃO DA
HISTÓRIA, EVITANDO A INTIMIDADE E A AMIZADE. COM ISTO, CRIOU AS
CONDIÇÕES DO HOMEM SOCIAL PURO, DO HOMEM INTERACIONAL
PURO. VERIFICOU AS CONDUTAS MAIS IMPESSOAIS DAS ILHAS
SHETLAND. O RESTO NÃO LHE INTERESSAVA. ISTO JUSTIFICAVA SUA
POSIÇÃO DE QUE O ESTUDO SE DESENROLOU NA COMUNIDADE DAS
ILHAS SHETLAND, MAS NÃO ERA UM ESTUDO DA COMUNIDADE DAS
ILHAS SHETLAND. ...........................................................................................192
ATRAVÉS DE INDÍCIOS SIMPLES NAS INTERAÇÕES, ESTE
PESQUISADOR CAPTOU A LÓGICA DO ATO DE ENCENAÇÃO, O
CONJUNTO DE ESTRATÉGIAS PARA EXIBIR UMA IMAGEM SOCIAL QUE
VALORIZAVA O ATOR, QUE CAUSAVA UMA BOA IMPRESSÃO, QUE
DISTINGUIA UM DO OUTRO. ELE TINHA ESPECIAL PREDILEÇÃO PELAS
INTERAÇÕES HUMANAS NO COTIDIANO, ASPECTOS POR VEZES
DESPERCEBIDOS PELOS LEIGOS E QUE NÃO ERAM CONSIDERADOS
RELEVANTES PELA MAIORIA DOS SOCIÓLOGOS. NO ENTANTO, ESSES
DETALHES MODIFICARAM O PENSAR SOCIOLÓGICO NO MUNDO. ........192
“GOFFMAN EMPREGA PROCEDIMENTOS NÃO-CONVENCIONAIS DE
PESQUISA OU RIGOR ANALÍTICO, POSSUI UMA LINGUAGEM ACESSÍVEL
E TRABALHADA LITERARIAMENTE” (MALUFE, 1992, P. 16). PELO MENOS
SUA DESCRIÇÃO ETNOGRÁFICA SOBRE O HOSPITAL PSIQUIÁTRICO DE
DOENTES MENTAIS SANTA ELIZABETH COLABOROU PARA DEFLAGRAR
A LUTA ANTIMANICOMIAL NO MUNDO:........................................................192
ELE DESCREVE E ANALISA PRÁTICAS SOCIAIS DE ENCARCERAMENTO
E DEGRADAÇÃO QUE REPELEM E MESMO ENOJAM MUITOS LEITORES, E
QUE NOS PROVOCAM SENTIMENTOS DE VERGONHA, POR VIVERMOS EM
UMA SOCIEDADE NA QUAL TAIS COISAS ACONTECERAM E CONTINUAM
A ACONTECER. SUAS DESCRIÇÕES DETALHADAS E COMPLETAS
TORNAM IMPOSSÍVEL IGNORAR A EXISTÊNCIA CONTINUADA DESSAS
ATIVIDADES ORGANIZADAS E SOCIALMENTE ACEITAS, E TÊM,
OCASIONALMENTE, INSTIGADO TENTATIVAS DE REFORMÁ-LAS
(BECKER, 2004, P. 103)....................................................................................192
”GOFFMAN REALIZOU UM DUPLO TRABALHO: O DO ETNÓGRAFO E O
DO SOCIÓLOGO” (JOSEPH, 2000, P. 35). A FUSÃO DO SOCIÓLOGO E DO
ETOLOGISTA SERVIU COMO UMA VANTAGEM A MAIS PARA O
SOCIÓLOGO, UMA VEZ QUE A LINGUAGEM DO CORPO QUE VIA NAS
RUAS ESTAVA CONECTADA COM OS CONTEXTOS ANTROPOLÓGICOS
DE TODAS AS INTERAÇÕES SOCIAIS. TORNAVA-SE, ASSIM, UM CRITÉRIO
DE JULGAMENTO DAS FORMAS INSTITUCIONAIS DE CONTROLE SOCIAL
E DOS ESQUEMAS EXPLICATIVOS DA SOCIALIZAÇÃO: ...........................193
A PROPOSTA DE GOFFMAN É QUE SE EXAMINE A ORGANIZAÇÃO DA
EXPERIÊNCIA SOCIAL, EM TERMOS DE CERTOS PRINCÍPIOS BÁSICOS
QUE ESTEJAM SIMULTANEAMENTE PRESENTES, TANTO NA
ORGANIZAÇÃO DOS PRÓPRIOS EVENTOS COMO NA ORGANIZAÇÃO DO
NOSSO ENVOLVIMENTO SUBJETIVO NELES - PRINCÍPIOS BÁSICOS AOS
QUAIS NÓS RECORREMOS SEMPRE QUE PROCURAMOS UMA RESPOSTA
PARA A PERGUNTA: ‘O QUE É ISTO QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?’
(MALUFE, 1992, P. 21).......................................................................................193
4.2 A PESQUISA DE CAMPO SEGUNDO O MÉTODO DE GOFFMAN..................193
ESTE ESTUDO DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS E, PARTICULARMENTE, DO
MUNDO DOS ATORES SOCIAIS, DENOMINADOS POR NÓS COMO
HÓSPEDES E/OU VISITANTES ITINERANTES DA COMUNIDADE
“FIGUEIRA”, TEM COMO UM DOS SEUS INTERESSES PRINCIPAIS
AVALIAR, O MAIS POSSÍVEL, A VERSÃO SOCIOLÓGICA DO “EU” (SELF)
EM INTERAÇÃO NESTA ORGANIZAÇÃO. .....................................................193
AO CONTRÁRIO DE GOFFMAN, ACENTUAMOS O MUNDO DO ATOR
SOCIAL NÃO-INTERNADO, DOS HÓSPEDES E/OU VISITANTES
ITINERANTES QUE SE HOSPEDAM EM “FIGUEIRA” E QUE, AO
INTERAGIREM COM OS ATORES SOCIAIS OU RESIDENTES
PERMANENTES – FAZENDO PARTE OU NÃO DA EQUIPE DIRIGENTE –,
ENTRAM EM CONFLITO EM FUNÇÃO DE DIFERENTES PERSONALIDADES,
COMPORTAMENTOS, INTERESSES, OBJETIVOS, HÁBITOS, COSTUMES,
USOS, CRIANDO-SE, ASSIM, UM CLIMA CONSTANTE DE CONFLITO,
DISCÓRDIA, ETC...............................................................................................193
APRESENTAMO-NOS COMO COLABORADORES E FICAMOS
HOSPEDADOS EM “FIGUEIRA” COMO ALGUÉM QUE SIMPATIZAVA COM
SUA CULTURA ESPIRITUAL, MAS EVITAMOS A INTIMIDADE E A AMIZADE,
ATÉ PORQUE ESTAS CONDUTAS SÃO CONDENADAS. COLOCAMOS-NOS
NO PRÓPRIO ESPAÇO DAS INTERAÇÕES, NO PRÓPRIO CAMPO DE
PESQUISA PROPRIAMENTE DITO, PARA FAZER UMA OBSERVAÇÃO
PARTICIPANTE DAS INTERAÇÕES, PARA VERIFICAR COMO A
INTEGRAÇÃO FAZ A VIDA SOCIAL ACONTECER. PROCURAMOS NOS
INTEGRAR À VIDA COTIDIANA SEM CHAMAR A ATENÇÃO E
ACOMPANHAR O ÓBVIO, O CORRIQUEIRO, O PEQUENO, O EVIDENTE, O
COTIDIANO, ETC. NÃO PUDEMOS USAR GRAVADORES, FILMADORAS,
NEM FOTOGRAFAR. ESTES INSTRUMENTOS SÃO PROIBIDOS. TAMBÉM
NÃO FIZEMOS QUESTIONÁRIOS, PORQUE CHAMARIA MUITA ATENÇÃO E
TIRARIA A ESPONTANEIDADE, A NATURALIDADE DAS PESSOAS
ANALISADAS. TOMÁVAMOS, INICIALMENTE, PEQUENAS NOTAS AQUI E
ACOLÁ ESCONDIDAS. MAIS TARDE, JÁ MAIS ACOSTUMADOS COM A
ROTINA, TOMÁVAMOS NOTAS À NOITE, NO QUARTO, MESMO ESTANDO,
QUASE SEMPRE, EM QUARTOS COLETIVOS. .............................................193
238.....................................................................................................................192
HOSPEDADOS E VIVENDO NO MEIO DELES, TIVEMOS A OPORTUNIDADE
E O PRIVILÉGIO DE PRESENCIAR COMUNICAÇÕES, INTERAÇÕES E
CONVERSAS COTIDIANAS INTERESSANTES E BASTANTE ELUCIDATIVAS
DA SUA CULTURA ÍMPAR OU SINGULAR. ...................................................194
QUEREMOS INFORMAR QUE FIZEMOS UMA OBSERVAÇÃO
PARTICIPANTE DAS INTERAÇÕES QUE SE PASSAM NA COMUNIDADE
“FIGUEIRA”, PORTANTO NÃO REALIZAMOS UM ESTUDO,
PROPRIAMENTE DITO, DA COMUNIDADE “FIGUEIRA." NÃO
PESQUISAMOS AS CARACTERÍSTICAS MACROSSOCIOLÓGICAS DA
COMUNIDADE, NÃO LEVAMOS EM CONTA O TEMPO, A HISTÓRIA, MAS
SOMENTE ESTUDAMOS O SEU ESPAÇO E TRAÇOS CARACTERÍSTICOS.
PROCURAMOS EXAMINAR AS INTERAÇÕES IMPESSOAIS QUE PODEM
OCORRER NUMA COMUNIDADE POR DIVERGÊNCIAS NAS RELAÇÕES DE
PODER. PORTANTO, COLETAMOS INFORMAÇÕES DA ORGANIZAÇÃO
“FIGUEIRA” SEGUINDO, PASSO A PASSO, O MÉTODO CRIADO POR
GOFFMAN. ........................................................................................................194
A COMUNIDADE “FIGUEIRA” LOCALIZA-SE NA ÁREA RURAL E URBANA,
NA CIDADE DE CARMO DA CACHOEIRA, ESTADO DE MINAS GERAIS.
FORAM SEIS OBSERVAÇÕES PARTICIPANTES AO TODO NO CAMPO DE
PESQUISA. O TEMPO DE PERMANÊNCIA EM “FIGUEIRA” É
DETERMINADO POR ELES. A PRIMEIRA FOI NAS FÉRIAS ACADÊMICAS
DE VERÃO, PORQUE, OBVIAMENTE, TÍNHAMOS MAIS TEMPO E PORQUE
NESTA ÉPOCA AFLUEM MAIS ATORES SOCIAIS AO LOCAL. REALIZOU-SE
NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2001, EM JANEIRO, POR DEZ DIAS
CONSECUTIVOS; A SEGUNDA, NAS FÉRIAS ACADÊMICAS DE INVERNO,
POR TERMOS MAIS TEMPO E POR IREM MAIS PESSOAS PARA LÁ NESTA
ÉPOCA, PORTANTO REALIZOU-SE NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2001, EM
JULHO, POR QUINZE DIAS CONSECUTIVOS; A TERCEIRA OBSERVAÇÃO
FOI NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2004, EM JULHO, TAMBÉM NAS FÉRIAS
ACADÊMICAS DE INVERNO, POR SETE DIAS CONSECUTIVOS; A QUARTA,
NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2005, NAS FÉRIAS ACADÊMICAS DE VERÃO,
EM FEVEREIRO, POR QUINZE DIAS CONSECUTIVOS; A QUINTA FOI NO
PRIMEIRO SEMESTRE DE 2006, EM FEVEREIRO, NAS FÉRIAS
ACADÊMICAS DE VERÃO, POR SETE DIAS CONSECUTIVOS. A SEXTA E
ÚLTIMA FOI NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2006, EM JULHO, POR CINDO
DIAS. ALÉM DISSO, FIZEMOS DUAS PESQUISAS DE CAMPO NA
COMUNIDADE NAZARÉ, SITUADA NA CIDADE DE NAZARÉ PAULISTA,
INTERIOR DO ESTADO DE SÃO PAULO, AS QUAIS SE REALIZARAM NAS
FÉRIAS DE VERÃO DO ANO 2003, MAIS PRECISAMENTE EM JANEIRO,
POR UMA SEMANA, RETORNANDO NOVAMENTE EM FEVEREIRO POR
QUINZE DIAS. FIZEMOS VÁRIAS OUTRAS PESQUISAS DE CAMPO NOS
SUBGRUPOS OU REDE DE SERVIÇO DE PORTO ALEGRE. REALIZAMOS
REUNIÕES COM ATORES SOCIAIS DO GRUPO E FIZEMOS ALGUMAS
OBSERVAÇÕES PARTICIPATIVAS NAS AUDIÇÕES PÚBLICAS. TAMBÉM
PESQUISAMOS A BIBLIOGRAFIA, EXCLUSIVAMENTE UTILIZADA PARA
CONSULTA INTERNA, DO GRUPO DE “FIGUEIRA” E DAS REDES DE
SERVIÇO, PESQUISAMOS A BIBLIOGRAFIA DAS OBRAS PUBLICADAS
PELO TRIGUEIRINHO, ALGUMAS INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS
APONTADAS PELO PRÓPRIO TRIGUEIRINHO EM SEUS ESCRITOS TAIS
COMO: ‘REVISTAS DE SINAIS’, ‘JORNAIS DE SINAIS’, ‘BOLETIM DE
SINAIS’, TEXTOS E ARTIGOS NA INTERNET, SEU FILME “BAHIA DE
TODOS OS SANTOS”, SEUS VHS, CDS, FITAS K-7, SEUS ARTIGOS
CRÍTICOS PUBLICADOS NA REVISTA ‘ANHEMBI’, EDITADA PELA USP,
ALGUMAS CRÍTICAS ESPECIALIZADAS EM CINEMA SOBRE SUA OBRA.
QUASE TODAS AS FONTES CITADAS ESTÃO ANEXADAS.
CONSIDERAMOS NECESSÁRIA SUA ANEXAÇÃO PARA FUTURAS
CONSULTAS DE PESQUISADORES QUE NÃO DISPONHAM DE TEMPO OU
CONDIÇÕES FINANCEIRAS PARA IR ATÉ “FIGUEIRA”...............................194
CONFORME BECKER (1977) ACONSELHA, ESCLARECEMOS QUE A
PESQUISA FOI FEITA COMO HÓSPEDES E/OU VISITANTES. ESTE AUTOR
ENFATIZA QUE A NEUTRALIDADE IDEAL NA PESQUISA DIFICILMENTE É
ATINGIDA, ASSIM SE TORNA NECESSÁRIO DIZER EM QUAL PONTO DE
VISTA NOS SITUAMOS: ...................................................................................195
NA VERDADE SERIA POSSÍVEL FAZER UMA PESQUISA QUE NÃO SEJA
CONTAMINADA POR SIMPATIAS PESSOAIS E POLÍTICAS? PROPONHO
ARGUMENTAR QUE ISSO NÃO É POSSÍVEL E, PORTANTO, QUE A
QUESTÃO NÃO É SE DEVEMOS OU NÃO TOMAR PARTIDO, JÁ QUE
INEVITAVELMENTE O FAREMOS, MAS SIM DE QUE LADO ESTAMOS NÓS
(BECKER, 1977, P. 122-36)...............................................................................195
A PRESENTE PESQUISA FOI REALIZADA BUSCANDO COMPREENDER
OS ATORES SOCIAIS DENOMINADOS HÓSPEDES E/OU VISITANTES
ITINERANTES QUE PERMANECEM TEMPORARIAMENTE EM “FIGUEIRA” E
QUE, AO INTERAGIREM COM OS RESIDENTES OU INTERNOS, SEJAM
AUXILIARES OU COORDENADORES, ENTRAM EM CONFLITO EM FUNÇÃO
DA SUJEIÇÃO HIERÁRQUICA. ISTO GERA UM CLIMA DE TENSÃO
PERMANENTE, POIS AS DISCIPLINAS, NORMAS, REGRAS E TAREFAS
IMPOSTAS PELO GRUPO DE “FIGUEIRA”, LIDERADO POR TRIGUEIRINHO,
INTERFEREM NO “EU” (SELF) OU PERSONALIDADE DELES....................195
GOFFMAN (1999) SALIENTA QUE HÁ UM INTERESSE SOCIOLÓGICO NAS
PESQUISAS SOBRE INSTITUIÇÕES TOTAIS, PORQUE NESTES ESPAÇOS,
AS REGRAS E NORMAS CONDICIONAM, OBRIGATÓRIA E
COMPULSORIAMENTE, COMO OS ATORES SOCIAIS DEVEM PENSAR,
COMPORTAR-SE E INTERAGIR COLETIVAMENTE, EM VIRTUDE DE
PERTENCEREM OU NÃO ÀQUELE GRUPO ESPECÍFICO............................196
NOSSA HIPÓTESE É QUE “FIGUEIRA” POSSA SER CLASSIFICADA
PARCIALMENTE COMO UMA INSTITUIÇÃO TOTAL POR POSSUIR MUITAS
CARACTERÍSTICAS SEMELHANTES ÀS DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS. O
MAIS IMPORTANTE É A PERCEPÇÃO DE QUE ESSA SUA FORMA DE
ADMINISTRAR PODE CONDICIONAR O “EU” (SELF), O COMPORTAMENTO,
O PENSAMENTO E ATÉ OS SENTIMENTOS DOS QUE ESTÃO LIGADOS A
ELA DIRETA OU INDIRETAMENTE. ................................................................196
4.3 CATEGORIAS DE ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO
DIMENSIONADAS COMO CATEGORIAS ABSORVENTES...........................196
AS CATEGORIAS ABSORVENTES DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS TENDEM A
ABSORVER EM SI OS SUJEITOS POR PROCESSOS DE SOCIALIZAÇÃO,
APARTAÇÃO, INCLUSÃO, IDENTIFICAÇÃO, ETC. ESTAS CATEGORIAS
ABSORVENTES BASEIAM-SE EM INTERAÇÕES QUE ANULAM A
INTERSUBJETIVIDADE NAS INTERAÇÕES...................................................196
(...) TODA INSTITUCIÓN ABSORBE PARTE DEL TIEMPO Y DEL INTERÉS
DE SUS MIEMBROS (...) LA TENDENCIA ABSORBENTE O TOTALIZADORA
ESTÁ SIMBOLIZADA POR LOS OBSTÁCULOS QUE SE OPONEN A LA
INTERACCIÓN SOCIAL CON EL EXTERIOR Y AL ÉXODO DE LOS
MIEMBROS (GOFFMAN, 1972, P. 17-18).........................................................196
AS INSTITUIÇÕES TOTAIS PODEM SER CLASSIFICADAS EM CINCO
CATEGORIAS, SEGUNDO GOFFMAN (1999):................................................196
A COMUNIDADE “FIGUEIRA”, QUE SERVE DE OBJETO PARA ESTA
PESQUISA2382382382382382382382382382382382382382382382382382382
3823823823823823823823823823823823823823823823823823823823823823
8238238238238238238238238238238238238238238238238238238238238238
2382382382382382382382382382382382382382382382382382382382382382
38238238238238238238238238238238238238238, PODE SER ENQUADRADA
TANTO NA QUARTA, QUANTO NA QUINTA DAS CATEGORIAS. NA
QUARTA, PELO FATO DE SE ORGANIZAR COMO UMA FAZENDA COM
PRODUÇÃO PRÓPRIA, QUE CONTA COM MÃO-DE-OBRA VOLUNTÁRIA E
GRATUITA PARA SUA OPERAÇÃO, ISTO É, SEMELHANTE AO QUE
ACONTECE EM UM KIBUTZ. ENQUADRA-SE DE MANEIRA MAIS ENFÁTICA
NA QUINTA, NA MEDIDA EM QUE NESTA HÁ UM MONASTÉRIO (UM
MASCULINO E UM FEMININO, UM EREMITÉRIO MISTO, COM A
FINALIDADE DE INSTRUIR RELIGIOSOS, TAMBÉM DE SERVIR DE
REFÚGIO DO MUNDO) SENDO, AO MESMO TEMPO, UMA COMUNIDADE
ALTERNATIVA...................................................................................................197
4.3.1 Anotações das observações de campo dos ritos da instituição já
categorizadas...........................................................................................198
OBSERVAMOS UMA HÓSPEDE VISITANTE, DE NACIONALIDADE
ARGENTINA, AFIRMAR QUE FICOU EM “FIGUEIRA” DURANTE VINTE DIAS.
TENTOU SAIR ANTES DO TEMPO ACORDADO, MAS NÃO CONSEGUIA
PASSAGEM DE RETORNO. DISSE QUE NÃO SENTIA MAIS SEU CORPO,
QUE ELE NÃO RESPONDIA MAIS AO SEU COMANDO DE TÃO CANSADA
QUE ESTAVA. JÁ NÃO TINHA MAIS REFLEXOS, PORQUE ERA OBRIGADA
A ACORDAR, ALGUMAS VEZES, ÀS QUATRO HORAS PARA IR
TRABALHAR NA HORTA E POMAR COM FRIO E CHUVA. ELA AFIRMOU,
TAMBÉM, QUE DOS VINTE ARGENTINOS QUE A ACOMPANHARAM EM
“FIGUEIRA”, TODOS SAÍRAM ANTES DO TEMPO ACORDADO COM O
SETOR DE HOSPEDAGEM, PORQUE NÃO AGÜENTARAM O REGIME DE
TRABALHO E HORÁRIOS ESTABELECIDOS. ..............................................198
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA, DE ACORDO COM A
TAXONOMIA ANTERIORMENTE APRESENTADA NA CATEGORIA “E”, A
QUAL DIZ O SEGUINTE: “AS INSTITUIÇÕES TOTAIS SÃO REACIONÁRIAS,
OPRESSIVAS, ESTEREOTIPADAS, ULTRACONSERVADORAS. ATRAVÉS
DO CONTROLE PODEM ESMAGAR O ATOR SOCIAL OU ANIQUILAR SUA
INDIVIDUALIDADE, PODENDO VIR A PERDER SUA CONSCIÊNCIA
REFLEXIVA.”......................................................................................................199
EM “FIGUEIRA”, CONFORME FOI OBSERVADO, E EM SINTONIA COM AS
CATEGORIAS DE GOFFMAN, PODE-SE PERCEBER UMA RIGIDEZ EM
TERMOS DE HORÁRIOS, NORMAS E REGRAS IMPOSTAS,
HIERARQUICAMENTE, PELO GRUPO DIRIGENTE. ESTE GRUPO É
COMPOSTO PELOS RESIDENTES AUXILIARES E PELOS RESIDENTE-
COORDENADORES, OBJETIVANDO ATENDER ÀS NECESSIDADES DE
“FIGUEIRA”. ......................................................................................................199
OBSERVAMOS NO DIA DA VIGÍLIA MENSAL – UM DIA DEDICADO AO
SILÊNCIO EXTERNO E INTERIOR, QUE TODOS ERAM OBRIGADOS A
PARTICIPAR –, TRIGUEIRINHO FALAR SOBRE A NECESSIDADE DE
LAVAR OS PECADOS NO RITUAL DE LAVA-PÉS. TAMBÉM SE OBSERVOU
UMA VISITANTE DIZER QUE ESTAVA ENTUSIASMADA, A QUAL FALOU AO
TRIGUEIRINHO QUE DESEJAVA LAVAR NÃO SÓ OS SEUS PÉS, MAS
TODO SEU CORPO E TODOS OS SEUS PECADOS. PRETENDIA FAZER
ISTO NA CACHOEIRA QUE EXISTIA NA ZONA RURAL DA CIDADE DE
CARMO DA CACHOEIRA. NO MESMO DIA, PORÉM MAIS TARDE, UMA DAS
COORDENADORAS, EX-PROFESSORA UNIVERSITÁRIA DO RIO DE
JANEIRO, DISSE-LHE QUE NÃO ERA PERMITIDO, IR TOMAR BANHO NA
CACHOEIRA OU IR À CIDADE, E FAZER ATIVIDADES INDEPENDENTES DO
GRUPO...............................................................................................................199
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER ENQUADRADA NA CATEGORIA “A” DAS
CLASSIFICAÇÃO APRESENTADA, A QUAL DIZ O SEGUINTE: “AS
INSTITUIÇÕES TOTAIS LIMITAM SUAS PRÓPRIAS ATIVIDADES, FUNÇÕES
E TAREFAS DENTRO DE UM MESMO ESPAÇO FÍSICO E AS NORMAS DE
CONDUTA GARANTEM A IDENTIDADE DO GRUPO”...................................199
ALÉM DAS REGRAS ESTABELECIDAS PELA COORDENAÇÃO, O
PRÓPRIO GRUPO ATUA COMO UM FATOR DE CONDICIONAMENTO DE
COMPORTAMENTO EM “FIGUEIRA”. ISTO SE DEVE AO FATO DE QUE O
INTERESSE DO GRUPO ESTÁ ACIMA DAS INDIVIDUALIDADES,
PORTANTO O ATOR SOCIAL ENCONTRA-SE SUBORDINADO AO
CONDICIONAMENTO COLETIVO, DO CONTRÁRIO TERIA CONFLITOS
PASSÍVEIS DE SANÇÕES QUE RESTRINGIRIAM SUA INDEPENDÊNCIA,
LIBERDADE E LIVRE-ARBÍTRIO. OS SUPERVISORES DE “FIGUEIRA”
TENTAM DIRIGIR AS ATIVIDADES DOS ATORES SOCIAIS SUBALTERNOS
POR MEIO DA PERSUASÃO, MANIPULAÇÃO, PUNIÇÃO, COERÇÃO E
AMEAÇA. DEMONSTRAM O QUE QUEREM IMPOR COMO PADRÃO, E
MOSTRAM, SUTIL E AMEAÇADORAMENTE, O QUE FARÃO CASO ISTO
NÃO SEJA CUMPRIDO EM TEMPO, QUALIDADE E QUANTIDADE.............200
PERCEBEMOS, EM DETERMINADO MOMENTO, UMA COLABORADORA
FALAR QUE JÁ NÃO AFLUÍAM MAIS PESSOAS, EM “FIGUEIRA”, COMO
ANTIGAMENTE. A MAIORIA DESISTIA DE RETORNAR, PORQUE NÃO
SUPORTAVA TANTAS NORMAS, REGRAS, HORÁRIOS, TRABALHOS
PESADOS E ALGUNS TRATAMENTOS HUMILHANTES POR PARTE DOS
RESIDENTES. ....................................................................................................200
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “G”:
“NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, HÁ UMA INVASÃO AO “EU” (SELF) DO
RESIDENTE, QUE É DESPROGRAMADO, DESPERSONALIZADO DE SEU
“EU” (SELF) ANTERIOR, REPROGRAMADO E REEDUCADO PELO GRUPO
DE RESIDENTES QUE O SUPERVISIONAM, VIGIAM, FISCALIZAM E
CONTROLAM.”..................................................................................................200
HÁ EM “FIGUEIRA” A ADOÇÃO DE REGRAS E NORMAS QUE SÃO MAIS
RESTRITIVAS EM RELAÇÃO ÀS DA SOCIEDADE ABERTA. ISTO SE
EXPRESSA, COMO JÁ FOI DESTACADO, EM HORÁRIOS E TAREFAS QUE
CONFLITAM COM O RITMO DA VIDA FORA DA COMUNIDADE. ALÉM DA
RIGIDEZ DAS NORMAS, OBSERVA-SE UMA DINÂMICA, PREVIAMENTE
ESTABELECIDA, QUE IMPEDE A FLEXIBILIZAÇÃO DA FORMA DE
REALIZAR AS COISAS DE FORMA CRIATIVA. COMO NAS DEMAIS
INSTITUIÇÕES TOTAIS, ESTAS ESTRATÉGIAS OBJETIVAM CONDICIONAR
OS PARTÍCIPES, SUBMETENDO-OS À VONTADE COLETIVA. ...................200
OBSERVAMOS UMA VISITANTE DIZER QUE ACHOU A COMIDA
HORRÍVEL, NÃO TINHA SAL, AÇÚCAR, TEMPERO. O CALDO DO FEIJÃO
ERA AGUADO, O ARROZ INTEGRAL ERA GRUDADO, O PÃO INTEGRAL
ERA DURO, ALGUNS LEGUMES NÃO ERAM COZIDOS E SERVIDOS CRUS
E COM CASCA, O CAFÉ DA MANHÃ ERA UM CALDO DE POLENTA
AGUADA, NÃO SERVIAM LEITE, MANTEIGA, IOGURTE, QUEIJO, NADA DE
ORIGEM ANIMAL. SERVIAM APENAS NO CAFÉ DA MANHÃ: CHÁ VERDE,
PÃO INTEGRAL COM UMA PASTA DE SOJA SALGADA, CHAMADA MISSÔ.
A DIETA DE “FIGUEIRA” É VEGETARIANA, SEM SAL, SEM AÇÚCAR, SEM
TEMPEROS, SEM ÓLEO, SEM CARNE, OVOS, LATICÍNIOS E CAFÉ PRETO.
NÃO SE PODE BEBER BEBIDA ALCOÓLICAS OU FUMAR. COMO NÃO
MASTIGAVAM, ALGUNS TIVERAM, EM FUNÇÃO DISTO, SEUS DENTES
AFROUXADOS. OS PARTICIPANTES FAZIAM AS REFEIÇÕES EM
SILÊNCIO, SENTADOS FORA DA MESA E COM OS PRATOS APOIADOS
NAS PERNAS. ...................................................................................................201
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER INSERIDA NA CATEGORIA “H”, QUE
DESCREVE O SEGUINTE: “NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, HÁ UM
PROCESSO DE DESCONSTRUÇÃO DO “EU” (SELF). NÃO SE PERMITE AO
ATOR SOCIAL TER UMA VIDA INDIVIDUAL. ELE É DESPOJADO DE SEUS
BENS, DE SUAS PREFERÊNCIAS, DE SEUS GOSTOS, DE SUAS
ESCOLHAS, DE SEU LIVRE-ARBÍTRIO, DE SUA LIBERDADE, DE SUA
IDENTIDADE, DE SUA PERSONALIDADE, DE SEUS DIREITOS HUMANOS,
DE SUA CIDADANIA, OCASIONANDO UMA INVOLUÇÃO NO SEU
DESENVOLVIMENTO EDUCACIONAL, PROFISSIONAL, EMOCIONAL, DE
SUA AUTO-ESTIMA, AUTOVALORIZAÇÃO E AMOR PRÓPRIO.”................201
O AMBIENTE NAS REFEIÇÕES COLETIVAS DIFERE BASTANTE DO DAS
NOSSAS REFEIÇÕES ROTINEIRAS. EM “FIGUEIRA”, AS PESSOAS NÃO
INTERAGEM, NÃO SE CUMPRIMENTAM, NÃO SE OLHAM, NÃO
CONVERSAM, NÃO SE COMUNICAM, OU SEJA, NÃO CONFRATERNIZAM.
COMEM SENTADOS EM BANCOS FORA DA MESA, APOIANDO OS
PRATOS NAS PERNAS, SEM A OPÇÃO DE ESCOLHA DO TIPO DE DIETA E
DA FORMA DE PREPARÁ-LA..........................................................................201
UMA OUTRA VISITANTE RELATOU QUE ESTAVA SAINDO DA CASA 1,
(LOCALIZADA NA CIDADE DE CARMO DA CACHOEIRA, ONDE FICA A
SECRETARIA GERAL), EM DIREÇÃO À CASA 4 (PRÉDIO DA CENTRAL DE
ATENDÊNCIA, OS DOIS PRÉDIOS LOCALIZAM-SE NA ESQUINA DO
MESMO QUARTEIRÃO), QUANDO DEPAROU-SE COM UMA VISÃO
CHOCANTE, SEGUNDO O PONTO DE VISTA DELA: VIU UM CAMINHÃO
ESTILO PAU-DE-ARARA, COM RESIDENTES VESTIDAS COM ROUPAS
RURAIS DE TRABALHO, EM SILÊNCIO, DE CABEÇA BAIXA,
ENFILEIRADAS NOS BANCOS LATERAIS DA CARROCERIA DO CAMINHÃO
COBERTO POR LONA. ASSEMELHAVAM-SE, SEGUNDO ELA, ÀQUELES
CAMINHÕES DO EXÉRCITO QUE CARREGAM SOLDADOS PARA
MANOBRAS MILITARES. ESTAVAM RUMANDO PARA O CAMPO. PARA A
HÓSPEDE VISITANTE, PARECIAM IR PARA UM ‘CAMPO DE
CONCENTRAÇÃO’ E DE ‘LAVAGEM CEREBRAL’. ELA AFIRMOU QUE
NUNCA ESQUECEU A IMAGEM, A QUAL FICOU GRAVADA NA SUA
RETINA. IMAGEM QUE A FEZ SE DAR CONTA DO QUE OCORRERIA EM
RELAÇÃO AO SEU FUTURO SE FICASSE ALI COMO RESIDENTE............201
ENQUADRAMOS ESTA OBSERVAÇÃO NA CATEGORIA “G”, A QUAL DIZ
O SEGUINTE: “NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, HÁ UMA INVASÃO AO “EU”
(SELF) DO RESIDENTE, QUE É DESPROGRAMADO, DESPERSONALIZADO
DE SEU “EU” (SELF) ANTERIOR, REPROGRAMADO E REEDUCADO PELO
GRUPO DE RESIDENTES QUE O SUPERVISIONAM, VIGIAM, FISCALIZAM E
CONTROLAM.”..................................................................................................202
OS ATORES SOCIAIS DE “FIGUEIRA”, EM QUASE TODOS OS
MOMENTOS SE MOVIMENTAM EM GRUPOS. ELES SÃO COORDENADOS
POR UMA EQUIPE SUPERVISORA, QUE NÃO SE PREOCUPA SOMENTE EM
AUXILIAR OU ORIENTAR, MAS CONTROLAR, VIGIAR, INTIMIDAR PARA A
REALIZAÇÃO DE TAREFAS COMPULSÓRIAS. ESTE COMPORTAMENTO
DE PASSIVIDADE PODE SER OBSERVADO NÃO SÓ NAS ATIVIDADES
LABORAIS, COMO EM MUITOS OUTROS MOMENTOS DO COTIDIANO....202
PERCEBEMOS QUE, EM “FIGUEIRA”, OS INTERNOS E OS VISITANTES
NÃO VÊEM TELEVISÃO, NÃO ASSISTEM A PEÇAS DE TEATRO,
ESPETÁCULOS OU SHOWS, NÃO LÊEM JORNAIS OU REVISTAS, NÃO
FREQÜENTAM UMA ESCOLA FORMAL, NÃO CONVIVEM COM PARENTES
OU AMIGOS. DEVEM OBSERVAR O SILÊNCIO, PORTANTO NÃO
COSTUMAM CONVERSAR ENTRE SI OU COMUNICAR-SE COM O GRUPO
DE SEMI-INTERNOS E COLABORADORES EXTERNOS. NÃO GANHAM
SALÁRIO, POR ISSO NÃO PODEM COMPRAR ROUPAS OU OBJETOS DE
HIGIENE PESSOAL. GANHAM-NOS POR DOAÇÕES SEM OPÇÃO DE
ESCOLHA. NÃO TÊM FÉRIAS, NÃO TÊM ACESSO À COMUNICAÇÃO POR
FAX, TELEFONE CELULAR OU INTERNET (ESSES APARELHOS SÃO
RESTRITOS À SECRETARIA E NÃO PODEM SER USADOS
PARTICULARMENTE). NÃO TÊM FERIADOS, MAS TÊM FOLGA UMA VEZ
POR SEMANA. APESAR DE TEREM UM ÚNICO DIA DE FOLGA, MESMO
ASSIM SÃO CONVOCADOS NESTE DIA PARA FAZER PLANTÕES.
ACRESCIDO A ISTO, ESTE DIA É DESTINADO AO ESTUDO OBRIGATÓRIO,
QUAL SEJA, PARTICIPAR DAS PALESTRAS DE TRIGUEIRINHO PELA
MANHÃ E OUTRA À TARDE À CARGO DO SETOR DE CURA. ..................202
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “C”, A
QUAL DIZ O SEGUINTE: “AO FAZER-SE PARTE DAS INSTITUIÇÕES
TOTAIS, ADERE-SE A NOVOS PADRÕES DE INTERAÇÃO. UM NOVO
PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO É INICIADO. O ATOR SOCIAL ASSUME O
NOVO CÓDIGO DE COMPORTAMENTO, PORQUE SE ADAPTA AO NOVO
CONCEITO INTERACIONAL”...........................................................................203
O INTERNO DE ‘FIGUEIRA’ PARECE TORNAR-SE MAIS VULNERÁVEL E
FRÁGIL POR NÃO TER INTERAÇÃO COM A SOCIEDADE ABERTA. FICA
SOLITÁRIO E ISOLADO DO QUE ACONTECE NO MUNDO, SEM APOIO DA
FAMÍLIA E PARENTES, SEM CONTATO COM SEU BAIRRO, VIZINHOS,
AMBIENTE DE TRABALHO, AMIGOS, ETC. ..................................................203
ESTA FORMA DE VIDA, MARCADA PELA RECLUSÃO, SINTETIZA A
TOTAL AUSÊNCIA DE CIDADANIA. OS INTERNOS NÃO POSSUEM
RELAÇÕES TRABALHISTAS E, ASSIM SENDO, NÃO PODEM FAZER
GREVE, NÃO TÊM SEGURO-DESEMPREGO, NÃO RECEBEM HORA EXTRA
OU APOSENTADORIA. TAMBÉM NÃO POSSUEM PROPRIEDADE PRIVADA,
DORMEM EM QUARTOS COMUNITÁRIOS E SÃO CELIBATÁRIOS. MAIS DO
QUE ISSO, ALGUMAS PRÁTICAS, SOB O PONTO DE VISTA DOS DIREITOS
HUMANOS, SÃO DESCONSIDERADAS..........................................................203
UMA VISITANTE INFORMOU-NOS QUE PERMANECEU TRINTA DIAS EM
“FIGUEIRA” E QUE QUASE ENLOUQUECEU SEM PODER FALAR, SEM
DIALOGAR, SEM SEXO. DISSE QUE QUANDO RETORNOU À SUA CASA,
QUASE NÃO CONSEGUIA SE COMUNICAR COM SUA PRÓPRIA FAMÍLIA.
.............................................................................................................................203
PODEMOS CLASSIFICAR ESTA OBSERVAÇÃO NA CATEGORIA “D”, QUE
AFIRMA O SEGUINTE: “AS INSTITUIÇÕES TOTAIS INFLUEM NA CONDUTA
DO ATOR SOCIAL. EXERCEM SEU CONTROLE SOBRE O
COMPORTAMENTO, TORNANDO-SE UM FATOR DETERMINANTE NO
PENSAMENTO DO ATOR SOCIAL”.................................................................203
A MAIOR REGRA EM “FIGUEIRA” É FAZER SILÊNCIO INTERNO E
EXTERNO. A INTERAÇÃO ENTRE MEMBROS É TOTALMENTE
DESESTIMULADA. ASSIM SENDO O PRÓPRIO DIÁLOGO – COMO FORMA
DE COMPREENSÃO DAS COISAS DO MUNDO – É TERMINANTEMENTE
REPRIMIDO. OUTRA FORMA DE INTERAÇÃO FUNDAMENTAL PARA O
CRESCIMENTO HUMANO, O SEXO, É PROIBIDO E MESMO O AFETO NÃO
É INCENTIVADO. ENFIM, A COMUNICAÇÃO ENTRE OS MEMBROS NÃO É
ESTIMULADA.....................................................................................................203
TAMBÉM OBSERVAMOS UMA OUTRA VISITANTE DIZER QUE TENTOU
VÁRIAS VEZES MORAR EM “FIGUEIRA”, MAS NÃO CONSEGUIU SE
ADAPTAR. AFIRMOU NÃO ESTAR PREPARADA, PSICOLOGICAMENTE,
PARA TANTO, POIS ALGUNS MUDAM DE NOME, SÃO REBATIZADOS.
TAMBÉM NÃO COMEMORAM DATAS HISTÓRICAS, FERIADOS CRISTÃOS,
ANIVERSÁRIOS, ETC. ......................................................................................204
ESTA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “F”, A
QUAL DIZ O SEGUINTE: “EXISTEM INSTITUIÇÕES TOTAIS COMO
ABADIAS, MOSTEIROS, CONVENTOS, CLAUSTROS, MONASTÉRIOS,
COMUNIDADES RELIGIOSAS QUE TÊM POR FINALIDADE INSTRUIR
RELIGIOSOS, SERVEM DE REFÚGIO DO MUNDO”......................................204
“FIGUEIRA” EXIGE UM COMPROMETIMENTO DE SEUS SIMPATIZANTES
OU ASPIRANTES MAIOR QUE O NORMAL NAS INSTITUIÇÕES COMUNS,
RESTRINGINDO-LHES A INTERAÇÃO SOCIAL EXISTENTE INTERNAMENTE
E COM O RESTANTE DA SOCIEDADE ABERTA. .........................................204
COMO PROVA DA RENÚNCIA A SUA PERSONALIDADE, IDENTIDADE
SOCIAL, ELES SÃO REBATIZADOS, RECEBENDO A PARTIR DE ENTÃO UM
NOVO NOME. OUTRAS MARCAS DA VIDA SOCIAL SÃO
NEGLIGENCIADAS, POIS NÃO COMEMORAM DATAS HISTÓRICAS,
FERIADOS CRISTÃOS, ANIVERSÁRIOS, ETC...............................................204
EM RELAÇÃO A ESTA COLABORADORA, ACIMA REFERIDA,OBSERVOU-
SE QUE ELA ERA MUITO LENTA AO MOVIMENTAR-SE, FALAVA BAIXO E
MUITO POUCO. PERCEBIA-SE NO SEU COMPORTAMENTO E NO DOS
DEMAIS, UMA MANEIRA SINGULAR DE SER. MUITAS VEZES, NO ÔNIBUS
QUE SE VIAJAVA DE SÃO PAULO A CARMO DA CACHOEIRA, ONDE OS
PASSAGEIROS EM GERAL NÃO SE CONHECIAM, QUE OS ATORES
SOCIAIS QUE IAM PARA “FIGUEIRA” SE RECONHECIAM ENTRE SI,
APENAS PELA FORMA DE SE COMPORTAR, PELAS ATITUDES, PELO
MODO DE FALAR, ANDAR, VESTIR, ETC. .....................................................204
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “C”, A
QUAL DIZ O SEGUINTE: “AO FAZER-SE PARTE DAS INSTITUIÇÕES
TOTAIS, ADERE-SE A NOVOS PADRÕES DE INTERAÇÃO. UM NOVO
PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO É INICIADO. O ATOR SOCIAL ASSUME O
NOVO CÓDIGO DE COMPORTAMENTO, PORQUE SE ADAPTA AO NOVO
CONCEITO INTERACIONAL”...........................................................................205
A FINALIDADE DE “FIGUEIRA”, JUNTAMENTE COM A INSTRUÇÃO
ESPIRITUAL, É FAZER COM QUE O SIMPATIZANTE OU ASPIRANTE À VIDA
ESPIRITUAL DESFAÇA-SE DAS SUAS ORIGENS CULTURAIS E SOCIAIS E
ASSUMA, TOTAL E INTEGRALMENTE, A CULTURA DO GRUPO. ISTO
TRANSPARECE NA FORMA DE PENSAR, FALAR, AGIR, TRAJAR DOS
SIMPATIZANTES DA IDEOLOGIA....................................................................205
OBSERVAMOS UM RESIDENTE, QUE HÁ SEIS ANOS VIVIA NA PRIMEIRA
COMUNIDADE FUNDADA POR TRIGUEIRINHO, “NAZARÉ”, AFIRMAR TER
SIDO MONGE ZEN-BUDISTA. MOROU POR UM TEMPO NUM MOSTEIRO
ZEN COM UM SISTEMA MUITO RIGOROSO. DISSE QUE ESTEVE, POR UNS
DIAS, EM “FIGUEIRA”, E QUE O COLOCARAM PARA LIMPAR CALHAS,
TELHADOS, COLHER GOIABAS. ESSAS TAREFAS NÃO O INCOMODARAM.
ACHOU A COMIDA HORRÍVEL E GOSTOU DAS PALESTRAS, OU MELHOR,
PARTILHAS DE TRIGUEIRINHO......................................................................205
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “F”, A
QUAL DIZ: “EXISTEM INSTITUIÇÕES TOTAIS COMO ABADIAS,
MOSTEIROS, CONVENTOS, CLAUSTROS, MONASTÉRIOS, COMUNIDADES
RELIGIOSAS QUE TÊM POR FINALIDADE INSTRUIR RELIGIOSOS. SERVEM
DE REFÚGIO DO MUNDO”: .............................................................................205
A INFORMALIDADE DE REGRAS QUE EXISTIAM NO INÍCIO DE SUA
FUNDAÇÃO, TAL COMO EM “NAZARÉ”, FOI SE ALTERANDO COM O
AUMENTO DO GRUPO E COM A CRIAÇÃO DE UM MONASTÉRIO. COM O
TEMPO E AUMENTO DE NÚMEROS DE SIMPATIZANTES, “FIGUEIRA”
TORNOU-SE UMA INSTITUIÇÃO MAIS ESTRUTURADA QUE “NAZARÉ”. 205
ASSIM “FIGUEIRA” NÃO REPRESENTA UM LUGAR DE PRIVAÇÕES PARA
AS PESSOAS QUE JÁ VIVERAM EM INSTITUIÇÕES SEMELHANTES. A
ADAPTAÇÃO A ESTE AMBIENTE, COMO DE “FIGUEIRA”, É MAIS FÁCIL
PARA AS QUE JÁ TIVERAM OUTRAS EXPERIÊNCIAS EM OUTRAS
COMUNIDADES FECHADAS OU, ENTÃO, APRESENTAM PREDISPOSIÇÃO
PARA ESTE MODO DE VIDA............................................................................205
ATRAVÉS DE PESQUISA DE CAMPO REALIZADA, NO GRUPO DE
“FIGUEIRA”, EM PORTO ALEGRE, UMA COLABORADORA ITINERANTE
DISSE-NOS QUE A PRIMEIRA E ÚLTIMA VEZ QUE FOI À “FIGUEIRA”,
COLOCARAM-NA PARA PEGAR LENHA EMPILHADA NO CHÃO E DEPOIS
COLOCÁ-LA NUM CAMINHÃO. ISSO DURANTE UMA JORNADA DE DEZ
DIAS CONSECUTIVOS, POR UM PERÍODO DE OITO HORAS POR DIA. ELA
DISSE QUE NÃO SE SENTIU HUMILHADA POR SER UMA TAREFA MENOR,
MAS FICOU PREOCUPADA PELAS CONSEQÜÊNCIAS FÍSICAS, UMA VEZ
QUE NÃO ESTAVA CONDICIONADA ÀQUELE TIPO DE ATIVIDADE. NÃO
ERA MÁ VONTADE SUA, MAS APENAS PRECAUÇÃO NO SENTIDO DE NÃO
PROVOCAR DORES MUSCULARES, O QUE PODERIA SER UMA
CONSEQÜÊNCIA NATURAL. ENTÃO COMUNICOU À COORDENAÇÃO, DO
SETOR RESPONSÁVEL PELA TAREFA, QUE PRETENDIA IR EMBORA
(PARA TANTO ERA NECESSÁRIO AUTORIZAÇÃO, NÃO SE PODIA
SIMPLESMENTE SAIR), TENDO EM CONTA QUE NÃO ERA BEM VISTO
SOLICITAR TROCA DE TAREFA, FATO ESTE QUE PODERIA PARECER UM
ATO DE REBELDIA. SURPREENDENTEMENTE, ELES RECUSARAM SUA
SAÍDA ANTECIPADA E A COLOCARAM EM OUTRAS TAREFAS
DOMÉSTICAS, TAIS COMO LIMPAR LATRINAS. EM POUCOS DIAS,
TROCARAM-NA DE VÁRIOS SETORES. ELA CUMPRIU TODAS AS SUAS
OUTRAS OBRIGAÇÕES, E ACHOU QUE TUDO HAVIA SE NORMALIZADO E
QUE O INCIDENTE DA TROCA HAVIA SIDO ESQUECIDO. PORÉM, ESTE
FATO FOI USADO COMO ARGUMENTO POSTERIOR PARA NEGAR-LHE
NOVOS PERÍODOS DE HOSPEDAGEM, ALEGANDO QUE A MESMA NÃO
SE ADAPTAVA AO SISTEMA...........................................................................206
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “B”, A
QUAL DIZ O SEGUINTE: “AS INSTITUIÇÕES TOTAIS SÃO ESPAÇOS DE
CONDICIONAMENTO DE ATORES SOCIAIS, ONDE NORMAS E REGRAS DE
INTERAÇÃO SOCIAL, SEGUIDAS DE FORMA COLETIVA E COMPULSÓRIA,
MODELAM O COMPORTAMENTO INTERACIONAL DAQUELES QUE FAZEM
PARTE DO GRUPO”..........................................................................................206
OS ATORES SOCIAIS LIGADOS AO GRUPO SÃO PRIVADOS DE
INICIATIVA E CRIATIVIDADE EM “FIGUEIRA”. ESTÃO SUBMETIDOS ÀS
REGRAS IMPOSTAS QUE REGULAM SUA FUNÇÃO, SEU
COMPORTAMENTO, SUA OPERACIONALIZAÇÃO, SUA FORMA DE
REALIZAÇÃO. JÁ ESTÃO ESPECIFICADOS O MODO OPERATIVO ÚNICO,
AO QUAL TÊM QUE SE CONFORMAR, E A ORDEM DO SEU
DESENVOLVIMENTO. TUDO ESTÁ PREVISTO COM BASTANTE EXATIDÃO.
NÃO HÁ ESPAÇO PARA INICIATIVA PESSOAL, CRIATIVIDADE OU O
LIVRE-ARBÍTRIO...............................................................................................206
OUTRO ASPECTO, ENFATIZADO POR ESTA INFORMANTE, É A
IMPOSIÇÃO DE TAREFAS FÍSICAS PESADAS, BEM COMO DE TAREFAS
CONSIDERADAS HUMILHANTES COMO, POR EXEMPLO, LIMPAR AS
LATRINAS DE USO COLETIVO. COM A IMPOSIÇÃO DESTAS TAREFAS,
PROCURA-SE CULTIVAR A HUMILDADE E A SUBSERVIÊNCIA.................207
OBSERVAMOS UMA VISITANTE DIZER QUE ESTRANHOU O AMBIENTE
AFETIVO FRIO E RESOLVEU, NUMA CERTA MANHÃ, NÃO TOMAR O CAFÉ.
FICOU NO QUARTO CHORAMINGANDO. SURPREENDEU-SE COM A
ENTRADA, INTEMPESTIVA, DA COORDENADORA NO SEU QUARTO,
DIZENDO QUE ALI NÃO HAVIA ESPAÇO PARA EMOCIONALISMOS, NEM
PARA MANIFESTAÇÕES DE CARÁTER INDIVIDUALIZADO. TODAS AS
ATIVIDADES ERAM OBRIGATÓRIAS E FEITAS EM GRUPO. A VISITANTE
ACHOU AQUELA ATITUDE, DA COORDENADORA, UMA INVASÃO À SUA
PRIVACIDADE, AO SEU LIVRE-ARBÍTRIO, À SUA LIBERDADE DE
ESCOLHA E UMA FALTA DE SENSIBILIDADE EM RELAÇÃO AOS SEUS
SENTIMENTOS. .................................................................................................207
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “H”, A
QUAL DIZ O SEGUINTE: “NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, HÁ UM PROCESSO
DE DESCONSTRUÇÃO DO “EU” (SELF). NÃO SE PERMITE AO ATOR
SOCIAL TER UMA VIDA INDIVIDUAL. ELE É DESPOJADO DE SEUS BENS,
DE SUAS PREFERÊNCIAS, DE SEUS GOSTOS, DE SUAS ESCOLHAS, DE
SEU LIVRE-ARBÍTRIO, DE SUA LIBERDADE, DE SUA IDENTIDADE, DE SUA
PERSONALIDADE, DE SEUS DIREITOS HUMANOS, DE SUA CIDADANIA,
OCASIONANDO UMA INVOLUÇÃO NO SEU DESENVOLVIMENTO
EDUCACIONAL, PROFISSIONAL, EMOCIONAL, DE SUA AUTO-ESTIMA,
AUTOVALORIZAÇÃO E AMOR PRÓPRIO.”....................................................207
NA SOCIEDADE ABERTA, OS ATORES SOCIAIS TÊM O DIREITO DE
ESCOLHER O QUE QUEREM TOMAR NO CAFÉ DA MANHÃ, OU ATÉ
LIBERDADE DE NÃO TOMÁ-LO. EM “FIGUEIRA”, SEGUNDO NOSSAS
OBSERVAÇÕES, ATÉ ESTA SIMPLES ESCOLHA PESSOAL É
PROBLEMATIZADA. OU SEJA, ATÉ NAS MAIS ROTINEIRAS ATIVIDADES,
AS PREFERÊNCIAS E GOSTOS PESSOAIS DEVEM SER SUBLIMADOS EM
PROL DO COLETIVO. TEORICAMENTE, TAL PROCEDIMENTO É
COMPREENSÍVEL, MAS PARA TANTO É NECESSÁRIO UM EXERCÍCIO DE
ENTREGA, DE APRENDIZADO, E DE PRÁTICA COTIDIANA, POR UM
LARGO PERÍODO DE TEMPO..........................................................................207
OBSERVAMOS TRIGUEIRINHO DIZER, EM VÁRIAS PARTILHAS, QUE É
MUITO SIMPLES TRABALHAR EM GRUPO. É FÁCIL SE HÁ DESAPEGO DO
CONFLITO. OS CONFLITOS SÃO DILUÍDOS EM FUNÇÃO DO SERVIÇO,
QUE O GRUPO PRESTA, DE TRANSMUTAÇÃO DOS CONFLITOS
PLANETÁRIOS. .................................................................................................208
A FORMA DE ESCREVER, EM “FIGUEIRA”, É GRUPAL. O GRUPO
ESPIRITUAL PODE SUPORTAR MAIS ENERGIA QUE UM INDIVÍDUO. O
GRUPO ESPIRITUAL NÃO É HORIZONTAL. O APEGO DENTRO DO GRUPO
ESPIRITUAL PODE IMPEDIR O INDIVÍDUO DE CONTATAR UMA ENERGIA
SUPERIOR IMPESSOAL, POR ISSO HÁ QUE SE VIVER, SEM CONFLITO,
UNS COM OS OUTROS. ISTO É CONSCIÊNCIA GRUPAL. O CUMPRIMENTO
DAS TAREFAS, NUM GRUPO ESPIRITUAL, PRECISA DE UM INDIVÍDUO
QUE COOPERE SEM CRÍTICA, SEM RESISTÊNCIA, SEM REJEIÇÃO. PARA
O GRUPO FUNCIONAR, É PRECISO QUE TODOS ESTEJAM AFINADOS
COM O PROPÓSITO DO GRUPO. NINGUÉM DEVERIA ESTAR NUM GRUPO
COAGIDO. DEVE ESTAR POR LIVRE VONTADE, E CUMPRIR ASSIM
INTEGRALMENTE A PROPOSTA. ..................................................................208
PARA QUE UM GRUPO COMO “FIGUEIRA” REALIZE SUAS TAREFAS É
PRECISO EVITAR CONTATOS FÍSICOS, ALIMENTAÇÃO CARNÍVORA,
CONTATO COM PESSOAS QUE NÃO ESTEJAM AFINADAS COM A
PURIFICAÇÃO DO GRUPO. DEVE-SE PRESERVAR O GRUPO DA
CURIOSIDADE E ATENÇÃO DOS OUTROS, PORQUE A ATITUDE, DAS
PESSOAS DO GRUPO, TORNA-SE ESTRANHA PARA OS QUE VÊM DE
FORA VISITÁ-LO. A MAIOR CHAVE PARA ESSA PRESERVAÇÃO É O
SILÊNCIO. HÁ UM ESFORÇO PARA QUE UMA NOVA CONSCIÊNCIA,
ESPIRITUAL FUTURA, VÁ SE IMPLANTANDO NA TERRA. CONSCIÊNCIA
ESTA QUE INSPIROU A CONSTRUÇÃO DE “FIGUEIRA". ...........................208
LEVA MUITOS ANOS PARA TRABALHAR E VIVER GRUPALMENTE. É
PRECISO NÃO TER SENSO DE POSSE INDIVIDUAIS, SEM NECESSIDADES,
SER FLEXÍVEL, AJUSTÁVEL. “FIGUEIRA” É PARA SER UM LABORATÓRIO
PARA TODO ESSE PROCESSO DE TRANSCENDER O LIVRE-ARBÍTRIO.
LIVRE-ARBÍTRIO É UMA CARACTERÍSTICA PURAMENTE MENTAL E
RACIONAL. COM A ESCOLHA, A MENTE VAI APRENDENDO A DISCERNIR.
SÓ DEPOIS DE BEM DESENVOLVIDA A MENTE É QUE ELA VAI ABRIR
MÃO DO LIVRE-ARBÍTRIO, PARA SER REGIDA POR UMA VONTADE
SUPERIOR, IMPESSOAL E TRANSCENDENTAL...........................................208
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “H”, A
QUAL DIZ O SEGUINTE: “NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, HÁ UM PROCESSO
DE DESCONSTRUÇÃO DO “EU” (SELF). NÃO SE PERMITE AO ATOR
SOCIAL TER UMA VIDA INDIVIDUAL. ELE É DESPOJADO DE SEUS BENS,
DE SUAS PREFERÊNCIAS, DE SEUS GOSTOS, DE SUAS ESCOLHAS, DE
SEU LIVRE-ARBÍTRIO, DE SUA LIBERDADE, DE SUA IDENTIDADE, DE SUA
PERSONALIDADE, DE SEUS DIREITOS HUMANOS, DE SUA CIDADANIA,
OCASIONANDO UMA INVOLUÇÃO NO SEU DESENVOLVIMENTO
EDUCACIONAL, PROFISSIONAL, EMOCIONAL, DE SUA AUTO-ESTIMA,
AUTOVALORIZAÇÃO E AMOR PRÓPRIO.”....................................................208
CONFLITOS EM FUNÇÃO DE DIVERGÊNCIAS FAZEM PARTE DA
NATUREZA HUMANA, PORÉM EM “FIGUEIRA”, ESTA NATUREZA HUMANA
É LAPIDADA DIARIAMENTE COM O INTUITO DE CONDICIONAR O
CARÁTER INDIVIDUAL, OBJETIVANDO HOMOGENEIZÁ-LO. ELES
PRETENDEM UMA MUTAÇÃO GENÉTICA; A CRIAÇÃO DE UMA NOVA
RAÇA SEM LIVRE-ARBÍTRIO, SEGUNDO PROFETIZA TRIGUEIRINHO NA
“OPERAÇÃO RESGATE”..................................................................................209
OBSERVAMOS UMA HÓSPEDE VISITANTE DIZER QUE, EM SEU HORÁRIO
LIVRE DAS TAREFAS DE “FIGUEIRA”, FOI PARA A BIBLIOTECA. OS
RESIDENTES NÃO LÊEM LIVROS QUE NÃO SEJAM ESPIRITUAIS, OS
QUAIS JÁ FORAM, PREVIAMENTE, SELECIONADOS POR TRIGUEIRINHO
NA MONTAGEM DA BIBLIOTECA, QUE SE LOCALIZA NA ÁREA URBANA,
NA CASA 1, ONDE FICA A SECRETARIA E A RECEPÇÃO. LÁ HAVIA UM
TAPETE COM ALMOFADAS PARA QUE OS HÓSPEDES SE DEITASSEM E
LESSEM RELAXADAMENTE. TAMBÉM HAVIA UM OUTRO HÓSPEDE
VISITANTE, DO SEXO OPOSTO, HETEROSSEXUAL, CONSULTANDO
LIVROS, LENDO, ETC. ESTA HÓSPEDE DISSE QUE SE DEITOU DE
BRUÇOS, NO TAPETE, FICANDO COM AS NÁDEGAS VOLTADAS PARA
CIMA. ERA UMA POSIÇÃO SENSUAL, EMBORA SUA ROUPA FOSSE
DISCRETA. ELA ESTAVA AO MESMO TEMPO RECOSTADA NAS
ALMOFADAS. PARA SUA SURPRESA, PERCEBEU QUE O COORDENADOR
(HOMOSSEXUAL) DA CASA 1 ENTROU E PERMANECEU LÁ ATÉ ELA SAIR.
ELE PARECIA TER O INTUITO DE VIGIÁ-LOS, NO SENTIDO DE NÃO
PERMITIR UMA APROXIMAÇÃO DE CARÁTER, AOS OLHOS DELE,
SEXUAL..............................................................................................................209
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “G”:
“NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, HÁ UMA INVASÃO AO “EU” (SELF) DO
RESIDENTE, QUE É DESPROGRAMADO, DESPERSONALIZADO DE SEU
“EU” (SELF) ANTERIOR, REPROGRAMADO E REEDUCADO PELO GRUPO
DE RESIDENTES QUE O SUPERVISIONAM, VIGIAM, FISCALIZAM E
CONTROLAM.”..................................................................................................209
EM RELAÇÃO À BIBLIOTECA, SÓ PODEM SER ENCONTRADOS LIVROS
ESPIRITUAIS ESOTÉRICOS PREVIAMENTE SELECIONADOS POR
TRIGUEIRINHO, EVITANDO ASSIM A PLURALIDADE DE PENSAMENTO E
OPINIÕES...........................................................................................................210
NA ATMOSFERA DE “FIGUEIRA”, HÁ CERTA REPRESSÃO DO DESEJO
SEXUAL. NESTE SENTIDO, HÁ UM COMPORTAMENTO QUE BUSCA
HOMOGENEIZAR OS SEXOS, EVITANDO QUALQUER MANIFESTAÇÃO
QUE POSSA DESPERTAR O DESEJO E O EROTISMO.................................210
UM DENTISTA, HOMOSSEXUAL, QUE SENTOU AO NOSSO LADO NO
ÔNIBUS, DE VOLTA DE CARMO DE CACHOEIRA PARA SÃO PAULO,
CONTOU-NOS QUE ERA CONSTANTEMENTE VIGIADO NO QUARTO, NAS
TAREFAS, NAS VIGÍLIAS, NAS PARTILHAS, NAS HORAS LIVRES, NAS
REFEIÇÕES. ELE PERCEBEU QUE HAVIA UMA REPRESSÃO, DE FORMA A
EVITAR CONTATOS, DE ORDEM AFETIVA OU SEXUAL..............................210
ESSA OBSERVAÇÃO PODE ENQUADRADA NA CATEGORIA “G”: “NAS
INSTITUIÇÕES TOTAIS, HÁ UMA INVASÃO AO “EU” (SELF) DO
RESIDENTE, QUE É DESPROGRAMADO, DESPERSONALIZADO DE SEU
“EU” (SELF) ANTERIOR, REPROGRAMADO E REEDUCADO PELO GRUPO
DE RESIDENTES QUE O SUPERVISIONAM, VIGIAM, FISCALIZAM E
CONTROLAM.”..................................................................................................210
ALGUNS SENTIMENTOS MAIS ÍNTIMOS DOS COLABORADORES,
VISITANTES OU ITINERANTES SÃO INCOMPREENSÍVEIS AO GRUPO DE
RESIDENTES. PARECE HAVER UM CONFLITO PERMANENTE ENTRE OS
DESEJOS, HÁBITOS, NECESSIDADES, CARACTERÍSTICAS E
COMPORTAMENTOS DOS COLABORADORES VISITANTES OU
ITINERANTES E OS INTERESSES DOS AUXILIARES RESIDENTES E
COORDENADORES RESIDENTES DE “FIGUEIRA” QUE REPRIMEM AS
MANIFESTAÇÕES EMOCIONAIS DOS COLABORADORES VISITANTES OU
ITINERANTES.....................................................................................................210
PARECE HAVER UM CONTROLE, INCLUSIVE, DOS HÁBITOS HIGIÊNICOS
DOS RESIDENTES. DENTRO DOS SANITÁRIOS, HÁ REGRAS ESCRITAS
SOBRE NÃO DAR DESCARGA À NOITE, PARA NÃO FAZER BARULHO;
JUNTAR OS FIOS DE CABELOS QUE CAEM NO RALO DO BOX DO
BANHEIRO; PASSAR RODO NO CHÃO DO BOX DO BANHEIRO, APÓS
UTILIZAR O CHUVEIRO; NÃO COLOCAR ABSORVENTE OU PAPEL NO
VASO SANITÁRIO. PARECE QUE NEM MESMO NA HORA DE SATISFAZER
SUAS NECESSIDADES BIOLÓGICAS, O RESIDENTE DE TEM TOTAL
PRIVACIDADE, LIVRE-ARBÍTRIO OU LIBERDADE. NÃO TEM PRIVACIDADE,
NÃO FICA A SÓS RELAXADAMENTE.............................................................210
“MINHA TIA O CONHECEU NA ASSOCIAÇÃO PALAS ATHENA EM SÃO
PAULO. ELE ERA CONTRA O HOMOSSEXUALISMO E ATÉ MESMO
CRITICAVA ESSA OPÇÃO SEXUAL”. ............................................................211
ESSE DEPOIMENTO PODE SER CLASSIFICADO NA CATEGORIA “H”, A
QUAL DIZ O SEGUINTE: “NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, HÁ UM PROCESSO
DE DESCONSTRUÇÃO DO “EU” (SELF). NÃO SE PERMITE AO ATOR
SOCIAL TER UMA VIDA INDIVIDUAL. ELE É DESPOJADO DE SEUS BENS,
DE SUAS PREFERÊNCIAS, DE SEUS GOSTOS, DE SUAS ESCOLHAS, DE
SEU LIVRE-ARBÍTRIO, DE SUA LIBERDADE, DE SUA IDENTIDADE, DE SUA
PERSONALIDADE, DE SEUS DIREITOS HUMANOS, DE SUA CIDADANIA,
OCASIONANDO UMA INVOLUÇÃO NO SEU DESENVOLVIMENTO
EDUCACIONAL, PROFISSIONAL, EMOCIONAL, DE SUA AUTO-ESTIMA,
AUTOVALORIZAÇÃO E AMOR PRÓPRIO.”....................................................211
OS RESIDENTES DE “FIGUEIRA” DEMONSTRAM ATITUDES E
COMPORTAMENTOS DOMINADORES, ENQUANTO NOS VISITANTES HÁ
UM COMPONENTE DE SUBMISSÃO AO SE SUJEITAREM A ALGUMAS
CONDUTAS IMPOSTAS PELOS RESIDENTES. ESTES, POR SUA VEZ,
TAMBÉM SOFREM HUMILHAÇÕES IMPOSTAS PELOS COORDENADORES
QUE SE SUJEITAM A TRIGUEIRINHO. AS HUMILHAÇÕES REPRESENTAM,
SIMBOLICAMENTE, UM RITUAL DE DESTRUIÇÃO DO “EU” (SELF), UMA
PURIFICAÇÃO PREPARATÓRIA À ENTRADA EM “FIGUEIRA”...................211
OUVIMOS TRIGUEIRINHO ACONSELHAR, EM UMA DE SUAS PARTILHAS,
QUE OS HOMOSSEXUAIS, QUE VISITAM “FIGUEIRA”, DEVERIAM DEIXAR
DE TER RELAÇÕES SEXUAIS E ADERIR AO CELIBATO. OS INTERNOS
SÃO CELIBATÁRIOS. TODOS FICAM EM QUARTOS COLETIVOS COM
PESSOAS DO MESMO SEXO, O QUE REPRIME INTIMIDADES E
ATIVIDADES SEXUAIS ENTRE ATORES SOCIAIS OU SOLITÁRIAS, POIS
NÃO HÁ PRIVACIDADE....................................................................................211
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “H”, A
QUAL DIZ O SEGUINTE: “NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS, HÁ UM PROCESSO
DE DESCONSTRUÇÃO DO “EU” (SELF). NÃO SE PERMITE AO ATOR
SOCIAL TER UMA VIDA INDIVIDUAL. ELE É DESPOJADO DE SEUS BENS,
DE SUAS PREFERÊNCIAS, DE SEUS GOSTOS, DE SUAS ESCOLHAS, DE
SEU LIVRE-ARBÍTRIO, DE SUA LIBERDADE, DE SUA IDENTIDADE, DE SUA
PERSONALIDADE, DE SEUS DIREITOS HUMANOS, DE SUA CIDADANIA,
OCASIONANDO UMA INVOLUÇÃO NO SEU DESENVOLVIMENTO
EDUCACIONAL, PROFISSIONAL, EMOCIONAL, DE SUA AUTO-ESTIMA,
AUTOVALORIZAÇÃO E AMOR PRÓPRIO.”....................................................211
DENTRO DE UM ÚNICO E MESMO GRUPO ESPIRITUAL, COMO O DE
“FIGUEIRA”, O RESIDENTE PERDE O PODER DE PENSAR COM VIGOR,
CRIATIVIDADE E ORIGINALIDADE. ELE É FORÇADO A CONFIGURAR-SE A
UM ÂMBITO ESTREITO, PRIVADO DOS RESULTADOS ESTIMULANTES DA
VIDA NO MUNDO. NÃO PODE TER DESEJO, NEM VONTADE DE SAIR DOS
LIMITES IMPOSTOS PELO SEU PRÓPRIO GRUPO DE ATORES SOCIAIS,
AVALIAR OUTRAS IDÉIAS E EXPERIMENTAR OUTROS IDEAIS. TAMBÉM
NÃO PODE BENEFICIAR-SE DE OUTROS INSIGHTS. HÁ CERTA
ACEITAÇÃO, SEM CRÍTICA, DAS IDÉIAS E IDEAIS DO GRUPO. SUAS
IDÉIAS FICAM CONGELADAS EM DOGMAS, E O GRUPO ESPIRITUAL
COMEÇA A GERAR CERTO FANATISMO E SECTARISMO..........................212
OBSERVAMOS QUE AS MULHERES, RESIDENTES DE “FIGUEIRA”, NÃO
PINTAM AS UNHAS, NÃO USAM VESTIDOS, SAIAS, BERMUDAS, SHORTS,
MINIBLUSAS OU CALÇAS DE CINTURA BAIXA. NÃO DEPILAM AS AXILAS
OU PERNAS, NÃO SE MAQUIAM, NÃO USAM BIJUTERIAS, NÃO SE
PERFUMAM, NÃO ARRUMAM O CABELO, O QUAL NÃO TÊM BRILHO PELA
AUSÊNCIA DE COSMÉTICOS. USAM O CABELO CURTÍSSIMO, QUASE
ZERO. .................................................................................................................212
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “C”, A
QUAL DIZ O SEGUINTE: “AO FAZER-SE PARTE DAS INSTITUIÇÕES
TOTAIS, ADERE-SE A NOVOS PADRÕES DE INTERAÇÃO. UM NOVO
PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO É INICIADO. O ATOR SOCIAL ASSUME O
NOVO CÓDIGO DE COMPORTAMENTO, PORQUE SE ADAPTA AO NOVO
CONCEITO INTERACIONAL.”..........................................................................212
OS RESIDENTES E OS COLABORADORES, ITINERANTES, DE
“FIGUEIRA” NÃO POSSUEM STATUS, PROPRIEDADES, ROUPA
INDICATIVA DE CLASSE SOCIAL OU PAPEL SOCIAL. NÃO HÁ NADA QUE
POSSA DISTINGUI-LOS UNS DOS OUTROS..................................................212
ASSIM, HÁ UM NIVELAMENTO, HOMOGENEIDADE, UNIFORMIDADE E
IGUALDADE. O QUE TORNA SEUS COMPORTAMENTOS SUBMISSOS,
SUBSERVIENTES. DEVEM OBEDECER E ACATAR A ORDENS E FUNÇÕES
ARBITRÁRIAS. ..................................................................................................213
PERDEM SEU “EU”, SEU SELF, SUA IDENTIDADE, SUA
PERSONALIDADE. MORREM PARA A VIDA MATERIAL E DEVERÃO
RENASCER, PARA O ESPÍRITO, COM NOVOS VALORES. .........................213
4.4 CATEGORIAS SOBRE OS RITOS DE INTERAÇÃO DIMENSIONADAS COMO
CATEGORIAS CONVERGENTES........................................................................213
AS CATEGORIAS DEFINIDAS NA REPRESENTAÇÃO DOS ATORES
SOCIAIS SÃO CONVERGENTES ÀS CATEGORIAS ABSORVENTES DAS
INSTITUIÇÕES TOTAIS. AS CATEGORIAS DA INTERAÇÃO FACE A FACE,
DENTRO DO PROJETO DE PESQUISA, CONVERGEM EM TORNO DAS
CATEGORIAS DA INSTITUIÇÃO. AS CATEGORIAS CONVERGENTES DAS
INTERAÇÕES FACE A FACE SÃO RESULTANTES DOS PROCESSOS DE
INTERAÇÃO E CONSTITUEM FATOS DE SOCIALIZAÇÃO, PORQUE
TENDEM A APROXIMAÇÕES, A PRODUZIR SENTIDOS...............................213
A SEGUIR FIZEMOS UM QUADRO DE CATEGORIAS DE ANÁLISES,
FUNDAMENTADAS NO LIVRO “A REPRESENTAÇÃO DO EU NA VIDA
COTIDIANA” TAIS COMO: MANIPULAÇÃO DA IMPRESSÃO;
REPRESENTAÇÃO (FACHADA PESSOAL, REALIZAÇÃO DRAMÁTICA,
IDEALIZAÇÃO, MANUTENÇÃO DO CONTROLE EXPRESSIVO,
MISTIFICAÇÃO, ATRIBUTOS E PRÁTICAS DEFENSIVAS); REGIÕES E
COMPORTAMENTO REGIONAL/ESTABELECIMENTOS SOCIAIS; REGIÃO
FRONTAL/REGIÃO DE FACHADA; REGIÃO
POSTERIOR/FUNDO/BASTIDORES; EQUIPE; PLATÉIA/OBSERVADOR;
SEGREDOS (INDEVASSÁVEIS, ESTRATÉGICOS, ÍNTIMOS); PAPÉIS
DISCREPANTES (DELATOR, FAROL/CÚMPLICE DO ATOR, AGENTE,
INTERMEDIÁRIO/MEDIADOR); PRINCÍPIO NORTEADOR (RUPTURA NA
INTERAÇÃO SOCIAL, RUPTURA NA ESTRUTURA SOCIAL, RUPTURA NA
PERSONALIDADE DO INDIVÍDUO). ................................................................213
AS CATEGORIAS ADVINDAS DAS INTERAÇÕES DOS ATORES SOCIAIS
TIVERAM POR BASE A INTERPRETAÇÃO TEATRAL, UMA
REPRESENTAÇÃO, UM DESEMPENHO DE UM PAPEL E/OU SIMULAÇÃO,
DE CARÁTER DRAMATÚRGICO......................................................................213
4.4.1 Roteiro dramático de uma instituição total...........................................215
DADA A ESCOLHA DO NOSSO REFERENCIAL TEÓRICO, BEM COMO O
TIPO DE OBSERVAÇÃO QUE REALIZAMOS NA NOSSA PESQUISA DE
CAMPO, ESTAMOS PREFERINDO – NESTE SENTIDO, SEGUIR MAIS
ADEQUADAMENTE, O PONTO DE VISTA DE GOFFMAN – CHAMAR AS
ANOTAÇÕES DA NOSSA OBSERVAÇÃO DE CAMPO DE “CENAS DE
INTERAÇÃO”.....................................................................................................215
QUANDO VÃO ASSISTIR ÀS PALESTRAS DE TRIGUEIRINHO, OS
RESIDENTES ADOTAM UMA CIRCUNSPEÇÃO DRAMATÚRGICA: FECHAM
OS OLHOS ENQUANTO ELE FALA, DEMONSTRANDO QUE SUAS
PALAVRAS TÊM PRIORIDADE SOBRE A IMAGEM, OU SEJA, TÊM PODER;
FICAM DE CABEÇA ABAIXADA POR TODO O TEMPO DA SUA PALESTRA
EM SINAL DE HUMILDADE; NÃO CONVERSAM ENTRE SI OU COM OS
VISITANTES ITINERANTES, OFERECEM UM MODELO DE CONDUTA A SER
SEGUIDO, DE SILÊNCIO, DE CIRCUNSPEÇÃO, OU MELHOR, DE
INTROSPECÇÃO. ELES PODERIAM SER CONSIDERADOS CO-ATORES,
COADJUVANTES, CONIVENTES OU COMPARSAS SOCIAIS. ....................215
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NAS SEGUINTES
CATEGORIAS: “1.”: “MANIPULAÇÃO DA IMPRESSÃO: CONTROLE DO
ATOR SOCIAL SOBRE AS IMPRESSÕES QUE OS OUTROS POSSAM TER
DELE.”; “2.5.”: “MISTIFICAÇÃO: PROTEGER O ATOR CRIANDO DISTÂNCIA
SOCIAL E UMA AURA DE MISTÉRIO.”; “2.1.”: “FACHADA PESSOAL:
CENÁRIO EM TORNO DO ATOR SOCIAL.”; OUTRO ENQUADRAMENTO
POSSÍVEL É NA CATEGORIA “2.6.”: “ATRIBUTOS E PRÁTICAS
DEFENSIVAS: A) FIDELIDADE DRAMATÚRGICA, NÃO REVELAR
SEGREDOS DA EQUIPE; B) DISCIPLINA DRAMATÚRGICA,
AUTOCONTROLE, DOMÍNIO DA VOZ E ROSTO, DISTÂNCIA EMOCIONAL;
C) CIRCUNSPEÇÃO DRAMATÚRGICA, PRUDÊNCIA NA ESCOLHA DA
PLATÉIA, NA ESCOLHA DE MEMBROS DA EQUIPE SOCIAL DE ATORES.”
.............................................................................................................................215
COM O INTUITO DE TRANSFORMAR O MUNDO COM A OPERAÇÃO
RESGATE, TRIGUEIRINHO E O GRUPO DE ATORES SOCIAIS DE
“FIGUEIRA” PRECISAM CONTAR COM O ESFORÇO DE SEUS
SIMPATIZANTES, POR ISSO DESEMPENHAM UM PAPEL ATIVO. COMO
SÃO RESPONSÁVEIS PELO SUCESSO, SÃO CO-ATORES SOCIAIS,
COADJUVANTES...............................................................................................215
EM “FIGUEIRA”, OBSERVAMOS QUE HÁ ATITUDES DIFERENTES DOS
ATORES SOCIAIS NOS BASTIDORES E NA REGIÃO DE FACHADA. UMA
DIFERENÇA COMPORTAMENTAL NA REGIÃO DOS BASTIDORES. DE UM
LADO, HÁ A SITUAÇÃO QUE É ENSAIADA E POR OUTRO, A QUE É
ENCENADA. A ENTRADA PARA AS REGIÕES MAIS ÍNTIMAS É PROIBIDA.
.............................................................................................................................216
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER ENQUADRADA NA CATEGORIA “3.1.”:
“REGIÃO FRONTAL/REGIÃO DE FACHADA: ONDE OCORRE A
REPRESENTAÇÃO DO ATOR/EQUIPE SOCIAL DE ATORES. TAMBÉM DIZ
RESPEITO À CATEGORIA “3.2.”: ”REGIÃO POSTERIOR/DE
FUNDO/BASTIDORES: LOCAL QUE O PÚBLICO NÃO TEM ACESSO, E O
ATOR PODE SER INFORMAL E RELAXAR, SEM REPRESENTAR UM
PAPEL”...............................................................................................................216
A FINALIDADE, PROVAVELMENTE, É IMPEDIR QUE OS EXPECTADORES
VEJAM OS ATORES SOCIAIS EM ATITUDES ESPONTÂNEAS E
COMPARTILHEM UMA INTIMIDADE QUE “FIGUEIRA” NÃO DESEJA
ESTIMULAR. HÁ UM CONTROLE, UM DOMÍNIO DOS BASTIDORES, ALÉM
DO DOMÍNIO, ÓBVIO, DA REGIÃO DE FACHADA.........................................216
AINDA OBSERVAMOS, NAS REGIÕES DE BASTIDORES, QUE ENTRE OS
ATORES SOCIAIS RESIDENTES DE “FIGUEIRA” PREVALECE A
FAMILIARIDADE E A SOLIDARIEDADE..........................................................216
A CATEGORIA “6” DESCREVE ESSA SITUAÇÃO: “SEGREDOS -
INFORMAÇÕES DESTRUTIVAS.” A “6.1.” EXPLICA ESSE
COMPORTAMENTO: “INDEVASSÁVEIS - FATOS INCOMPATÍVEIS COM A
IMAGEM QUE QUER PASSAR”. A OBSERVAÇÃO TAMBÉM PODE SER
CLASSIFICADA NA CATEGORIA “6.3.”, A QUAL DIZ O SEGUINTE:
“ÍNTIMOS - MARCA OU ESTIGMA OU CARIMBO OU RÓTULO QUE O
IDENTIFICA COMO ATOR SOCIAL DIFERENTE DA PLATÉIA.”...................216
OS RESIDENTES DE “FIGUEIRA” GUARDAM SEGREDOS, QUE SÃO
PARTILHADOS DE COMUM ACORDO ENTRE SI, QUE PODERIAM
ENFRAQUECER, DESVALORIZAR E MENOSPREZAR SUA
REPRESENTAÇÃO. ESTES SEGREDOS SÃO O SUPORTE DAS CRENÇAS
QUE MANTÊM A EXISTÊNCIA E O FUNCIONAMENTO DE "FIGUEIRA”,
CONFERINDO-LHE UMA AURA DE MISTÉRIO..............................................216
OBSERVAMOS QUE TRIGUEIRINHO, TALVEZ, EVITA O
CONSTRANGIMENTO COM POSSÍVEIS CRÍTICAS AO SELECIONAR,
PREVIAMENTE, AS PERGUNTAS QUE DESEJA RESPONDER. ELAS SÃO
COLOCADAS, ESTRATEGICAMENTE, NUM ESCANINHO ANTES DE
TRIGUEIRINHO INICIAR SUA PALESTRA, QUE SE DESENROLA SEMPRE
POR UM MESMO PERÍODO DE UMA HORA APENAS. .................................217
ESSA OBSERVAÇÃO PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “2.3.”, A
QUAL DIZ: “IDEALIZAÇÃO: TENTAR PARECER MELHOR DO QUE SE É”. A
OBSERVAÇÃO PODE TAMBÉM SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA
“2.4.”, QUE AFIRMA: “MANUTENÇÃO DO CONTROLE EXPRESSIVO:
CONTROLE DOS GESTOS INVOLUNTÁRIOS QUE POSSAM QUALIFICAR A
REPRESENTAÇÃO COMO FALSA, ATOS FALHOS, GAFES. A
OBSERVAÇÃO TAMBÉM PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA
“2.5.”, A QUAL MENCIONA: “MISTIFICAÇÃO: PROTEGER O ATOR
CRIANDO DISTÂNCIA SOCIAL E UMA AURA DE MISTÉRIO”. A
OBSERVAÇÃO TAMBÉM PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA
“2.6.”, QUE AFIRMA: “ATRIBUTOS E PRÁTICAS DEFENSIVAS: A)
FIDELIDADE DRAMATÚRGICA. NÃO REVELAR SEGREDOS DA EQUIPE; B)
DISCIPLINA DRAMATÚRGICA, AUTOCONTROLE, DOMÍNIO DA VOZ E
ROSTO, DISTÂNCIA EMOCIONAL; C) CIRCUNSPEÇÃO DRAMATÚRGICA,
PRUDÊNCIA NA ESCOLHA DA PLATÉIA, NA ESCOLHA DE MEMBROS DA
EQUIPE SOCIAL DE ATORES”........................................................................217
UMA REPRESENTAÇÃO BREVE E PERGUNTAS PREVIAMENTE
SELECIONADAS PODE EVITAR O DESCRÉDITO DOS LÍDERES
CARISMÁTICOS OU MESSIÂNICOS, CUJAS CRENÇAS E FÉ DOS SEUS
ADEPTOS DEPENDEM. ELAS NÃO PODEM OSCILAR, TÊM QUE SER
INABALÁVEIS. ESTA FORMA DE REPRESENTAÇÃO IMPEDE QUALQUER
TIPO DE DISSONÂNCIA QUE PODERIA ABALAR A CREDIBILIDADE E A
SUSTENTABILIDADE DA SUA ENCENAÇÃO. ...............................................217
UMA VISITANTE CONFIDENCIOU-NOS TER VISTO DOIS
COORDENADORES DE SETORES DIFERENTES DE “FIGUEIRA”
CONVERSAREM DESCONTRAIDAMENTE ENTRE SI. ESBOÇAVAM
EXPRESSÕES DE GRACEJO. PORÉM, QUANDO PERCEBERAM SUA
PRESENÇA NÃO CONSENTIDA, AUTOMATICAMENTE RETOMARAM SUAS
POSTURAS FORMAIS E REASSUMIRAM SEUS PAPÉIS COM ARES DE
CIRCUNSPEÇÃO. À NOITE, QUANDO TODOS ESTAVAM DORMINDO, OS
RESIDENTES IAM SORRATEIRAMENTE ATÉ A COZINHA PARA COMER E
CONVERSAR. ATITUDES CONTRÁRIAS ÀS REGRAS APLICADAS AOS
ATORES SOCIAIS VISITANTES OU ITINERANTES DE SILÊNCIO, DE
RESPEITAR E OBSERVAR OS HORÁRIOS DAS REFEIÇÕES.....................217
ESTA OBSERVAÇÃO PODE SER ENQUADRADA NAS SEGUINTES
CATEGORIAS “3.1.”: “REGIÃO FRONTAL/REGIÃO DE FACHADA: ONDE
OCORRE A REPRESENTAÇÃO DO ATOR/EQUIPE SOCIAL DE ATORES”;
“3.2”: “REGIÃO POSTERIOR/DE FUNDO/BASTIDORES: LOCAL ONDE O
PÚBLICO NÃO TEM ACESSO, E O ATOR PODE SER INFORMAL E
RELAXAR SEM REPRESENTAR UM PAPEL; “2.4”: “MANUTENÇÃO DO
CONTROLE EXPRESSIVO: CONTROLE DOS GESTOS INVOLUNTÁRIOS
QUE POSSAM QUALIFICAR A REPRESENTAÇÃO COMO FALSA: ATOS
FALHOS, GAFES; “6.”: “SEGREDOS: INFORMAÇÕES DESTRUTIVAS”;
“6.1.”: “INDEVASSÁVEIS: FATOS INCOMPATÍVEIS COM A IMAGEM QUE
QUER PASSAR”; “6.3”: “ÍNTIMOS: MARCA OU ESTIGMA OU CARIMBO OU
RÓTULO QUE O IDENTIFICA COMO ATOR DIFERENTE DA PLATÉIA”; “7.”:
“PAPÉIS DISCREPANTES: ATORES SOCIAIS COM INFORMAÇÕES
DESTRUIDORAS E COMPROMETEDORAS AO ESPETÁCULO.”.................218
É BEM NÍTIDA A SEPARAÇÃO ENTRE O LOCAL ONDE É
REPRESENTADO O DRAMA, A PEÇA, QUER DIZER, O PALCO DAS AÇÕES
E O LOCAL DA COXIA, ONDE HÁ UM RELAXAMENTO NA
REPRESENTAÇÃO DE UM PAPEL FORMAL. NOS MOMENTOS EM QUE A
OBSERVAÇÃO EXTERNA NÃO É VISÍVEL, A ENCENAÇÃO SE DESFAZ, E
ATÉ MESMO OS COORDENADORES PODEM SER SURPREENDIDOS EM
ATITUDES INFORMAIS.....................................................................................218
EM VÁRIAS INCURSÕES À “FIGUEIRA”, OBSERVAMOS QUE A
COORDENAÇÃO DOS SETORES ESTÁ CONSTANTEMENTE MUDANDO. HÁ
UM RODÍZIO DE PESSOAS NA COORDENAÇÃO, NAS FUNÇÕES, NOS
LOCAIS DE DORMITÓRIO. ISTO OCORRE COM O INTUITO DE EVITAR O
APEGO ÀS TAREFAS, A PROXIMIDADE ENTRE AS PESSOAS, O
RELACIONAMENTO, A INTEGRAÇÃO, A COMUNICAÇÃO, A INTIMIDADE
ENTRE OS RESIDENTES E OS ITINERANTES E, AO MESMO TEMPO,
CULTIVAR A IMPESSOALIDADE E O DESAPEGO ÀS PESSOAS. ..............218
AS SEGUINTES CATEGORIAS EXPLICAM ESTE COMPORTAMENTO: “1.”:
“MANIPULAÇÃO DA IMPRESSÃO: CONTROLE DO ATOR SOCIAL SOBRE
AS IMPRESSÕES QUE OS OUTROS POSSAM TER DELE”; “6.”:
“SEGREDOS: INFORMAÇÕES DESTRUTIVAS”; “7.”: “PAPÉIS
DISCREPANTES: ATORES SOCIAIS COM INFORMAÇÕES DESTRUIDORAS
E COMPROMETEDORAS AO ESPETÁCULO”; “7.1”: “DELATOR: FINGE
SER MEMBRO, TEM ACESSO AOS BASTIDORES E A INFORMAÇÕES
NEGATIVAS, PODENDO REVELAR A TRAMA DO ESPETÁCULO À
PLATÉIA”. .........................................................................................................218
A FORÇA DE TRABALHO, DE “FIGUEIRA”, SÓ É POSSÍVEL SE OS
ATORES SOCIAIS ESTIVEREM PRESOS NO SEU SISTEMA DE SUJEIÇÃO,
E OS SEUS CORPOS SE TORNEM SERVIS E SUBMISSOS. AS
NECESSIDADES, ATIVIDADES E TAREFAS SÃO INSTRUMENTAÇÕES
POLÍTICAS CUIDADOSAMENTE ORGANIZADAS, CALCULADAS E
UTILIZADAS DE FORMA A MASCARAR A REALIDADE. A SUJEIÇÃO É
OBTIDA PELA IDEOLOGIA RELIGIOSA ESTRATEGICAMENTE PENSADA,
AGINDO SOBRE OS SEUS CORPOS, SOBRE AS SUAS PERSONALIDADES
E ATÉ MESMO NAS SUAS ALMAS, NO SEU ÍNTIMO, SEM, NO ENTANTO,
FAZER USO DE VIOLÊNCIA OU DE ARMAS. ASSIM, OS RESIDENTES
CONDICIONAM OS VISITANTES PARA QUE AJAM DE FORMA IGUAL. OS
SEUS COMPORTAMENTOS SÃO PREVIAMENTE DECIDIDOS E HÁ,
PORTANTO, UMA FLEXIBILIDADE ADAPTATIVA DOS CORPOS................219
VARIAÇÃO CONTÍNUA, MUDANÇA CONSTANTE, ROTATIVA, PERIÓDICA
E PERMANENTE DE TAREFAS, FUNÇÕES, COORDENAÇÕES, SETORES,
ATIVIDADES, ETC., EVITANDO, COM ISSO, PROPICIAR MEIOS QUE
INDUZAM À INTIMIDADE, À INTERAÇÃO, À COMUNICAÇÃO, À AMIZADE,
AO RELACIONAMENTO DOS RESIDENTES COM OS VISITANTES E
ITINERANTES. HÁ UMA ROTATIVIDADE DO PÚBLICO ITINERANTE, DAS
TAREFAS E ATIVIDADES DESIGNADAS, DAS OCUPAÇÕES, DAS
FUNÇÕES DA COORDENAÇÃO E DE ESPAÇOS OU SETORES FÍSICOS
TANTO PARA RESIDENTES, COMO PARA OS ITINERANTES. A MUDANÇA
CONSTANTE DAS FUNÇÕES E LOCAIS DE ATUAÇÃO DOS
COORDENADORES SE DEVE À INTENÇÃO DE QUE ESTES NÃO CRIEM
CUMPLICIDADE ENTRE SI E COM OS VISITANTES. ISTO PODERIA
CONDICIONAR UM RELAXAMENTO NAS RELAÇÕES QUE DEVEM SER
PAUTADAS PELA AUSTERIDADE...................................................................219
A SEGUIR COMENTÁRIO DO CIPFANI, UM SITE DE PESQUISAS
UFOLÓGICAS, SOBRE O ARTIGO PUBLICADO EM SEU PRÓPRIO SITE,
“TRIGUEIRINHO EXPLORA A CREDULIDADE ALHEIA”, DE AUTORIA DO
HISTORIADOR COM TÍTULO DE MESTRE PELA FACULDADE DE CIÊNCIAS
E LETRAS DE ASSIS, CAMPUS LOCAL DA UNIVERSIDADE ESTADUAL
PAULISTA (UNESP), CLÁUDIO TSUYOSHI SUENAGA, ONDE EDITORES DO
CIPFANI IDENTIFICAM A TÉCNICA DE PROTEÇÃO DEFENSIVA PARA
EVITAR PERGUNTAS DE CUNHO CRÍTICO:..................................................219
POR DUAS OCASIÕES TIVEMOS CONTATO PESSOAL COM O
“PICARETÓLOGO” TRIGUEIRINHO. EM UMA DAS VEZES, DURANTE SUAS
PALESTRAS, PROFERIDA NO MINASCENTRO, ENCHEMOS DUAS FOLHAS
COM “DÚVIDAS”, POIS ELE RESPONDERIA A ELAS NO FINAL. AS
PERGUNTAS DEVERIAM SER POR ESCRITO, COLOCADAS EM UMA
CESTA. PARA NOSSA SURPRESA, NENHUMA DAS PERGUNTAS FOI
RESPONDIDA. TENTAMOS PERGUNTAR ORALMENTE, MAS ELE SE
RECUSOU A RESPONDER. TENTAMOS ABORDÁ-LO PESSOALMENTE NO
FINAL DA PALESTRA, E FOMOS REPELIDOS PELOS “FIÉIS” GORILAS
QUE O ACOMPANHAVAM (SITE DO CIPFANI, 17/06/2003)..........................220
ESSE ARTIGO ENQUADRA-SE EM VÁRIAS CATEGORIAS, A SABER:
“2.5”: “MISTIFICAÇÃO: PROTEGER O ATOR CRIANDO DISTÂNCIA SOCIAL
E UMA AURA DE MISTÉRIOS”; “2.4”: “MANUTENÇÃO DO CONTROLE
EXPRESSIVO: CONTROLE DOS GESTOS INVOLUNTÁRIOS QUE POSSAM
QUALIFICAR A REPRESENTAÇÃO COMO FALSA: ATOS FALHOS, GAFES;
“2.6”: “ATRIBUTOS E PRÁTICAS DEFENSIVAS: A) FIDELIDADE
DRAMATÚRGICA; NÃO REVELAR SEGREDOS DA EQUIPE; B) DISCIPLINA
DRAMATÚRGICA, AUTOCONTROLE, DOMÍNIO DA VOZ E ROSTO,
DISTÂNCIA EMOCIONAL; C) CIRCUNSPEÇÃO DRAMATÚRGICA,
PRUDÊNCIA NA ESCOLHA DA PLATÉIA, NA ESCOLHA DE MEMBROS DA
EQUIPE SOCIAL DE ATORES”........................................................................220
ALGUNS LÍDERES ESPIRITUAIS, CARISMÁTICOS, MESSIÂNICOS, NÃO
SE PREDISPÕEM A TRATAR COM DIFERENÇAS DE COMPORTAMENTO E
PENSAMENTO. ELES TENDEM A ENCARAR A DIVERGÊNCIA COMO UM
PERIGOSO ATAQUE ÀS SUAS CONVICÇÕES. ESTE TIPO DE LIDERANÇA
NÃO ACEITA A DIVERSIDADE E A DEMOCRACIA. POR ESTA RAZÃO,
EVITA O DIÁLOGO, A CRÍTICA E O QUESTIONAMENTO SOBRE SUAS
CONVICÇÕES E PREGAÇÕES.........................................................................220
CLÁUDIO TSUYOSHI SUENAGA, EM SEU ARTIGO PUBLICADO NO SITE
DO CIPFANI, INTITULADO “TRIGUEIRINHO NETTO EXPLORA A
CREDULIDADE ALHEIA” DENUNCIA A PERSUASÃO DE TRIGUEIRINHO
PARA COOPTAR MÃO-DE-OBRA VOLUNTÁRIA E OBTER LUCRO COM
ISTO: ..................................................................................................................220
A IDÉIA DE EXPLORAR A CREDULIDADE MÍSTICA E A FALTA DE SENSO
CRÍTICO DA MASSA SÓ VEIO MAIS TARDE, QUANDO JÁ HAVIA
ABANDONADO O CINEMA. NÃO OBSTANTE, OS CONHECIMENTOS
ADQUIRIDOS COM A TÉCNICA CINEMATOGRÁFICA CERTAMENTE LHE
FORAM ÚTEIS PARA QUE FRAUDASSE TODAS AS FOTOS DE DISCOS
VOADORES QUE ILUSTRAM SEUS LIVROS. SIM, PORQUE SUAS NAVES
ESPACIAIS NÃO PASSAM DE FONTES DE LUZ CONVENCIONAIS,
FOTOGRAFADAS COM LONGO TEMPO DE EXPOSIÇÃO OU MEDIANTE
MOVIMENTOS ALEATÓRIOS DE CÂMERA. TRIGUEIRINHO MANIPULA OS
FIÉIS COM A MESMA HABILIDADE COM QUE MANIPULA OS NEGATIVOS
DAS SUAS FOTOS FALSAS (ANEXO AAF) (SUENAGA, 2003)....................220
DENTRE AS CATEGORIAS DE ANÁLISE, ESTE ARTIGO ENQUADRA-SE
NAS SEGUINTES: “1.”: “MANIPULAÇÃO DA IMPRESSÃO: CONTROLE DO
ATOR SOCIAL SOBRE AS IMPRESSÕES QUE OS OUTROS POSSAM TER
DELE”; “2.1.”: “FACHADA PESSOAL: CENÁRIO EM TORNO DO ATOR
SOCIAL”; “2.”: “REPRESENTAÇÃO: ATIVIDADE, EXERCENDO INFLUÊNCIA
DE UM ATOR SOCIAL NOS OBSERVADORES”; “2.2”: “REALIZAÇÃO
DRAMÁTICA: EXAGERO NA REPRESENTAÇÃO OBJETIVANDO
IMPRESSIONAR A PLATÉIA”; ”2.5”: “MISTIFICAÇÃO: PROTEGER O ATOR
CRIANDO DISTÂNCIA SOCIAL E UMA AURA DE MISTÉRIO”; “6.2”:
“ESTRATÉGICOS: REVELADO EM HORA APROPRIADA DE FORMA A
SURPREENDER A PLATÉIA.”..........................................................................221
TRIGUEIRINHO, TENDO SIDO DIRETOR E CINEASTA, DISSE QUE OS
MESMOS CONHECEM MUITO BEM A NECESSIDADE DE SATISFAZER A
EXIGÊNCIA DE UM PÚBLICO DESORIENTADO, E O MEIO MAIS FÁCIL E
RÁPIDO PARA ISTO SERIA O DA CRIAÇÃO DE MITOS. PORTANTO, UM
ESPECIALISTA, UM EXPERT, UM CONNAISSEUR, UM DIRETOR, UM
CINEASTA CONHECE AS FERRAMENTAS E TÉCNICAS DE
AUTOCONTROLE DRAMATÚRGICO, DE DOMÍNIO DA EXPRESSÃO DO
ROSTO, DE DOMÍNIO DA VOZ, DE DISSIMULAÇÃO, DE COMO ESCONDER
A EMOÇÃO VERDADEIRA E SIMULAR UMA REPRESENTAÇÃO FALSA, DE
COMO MANIPULAR E PERSUADIR AS IMPRESSÕES DOS EXPECTADORES
DA PLATÉIA.......................................................................................................221
PROF. CLÁUDIO SUENAGA PERCEBEU A TÉCNICA DE PERSUASÃO DE
TRIGUEIRINHO: ................................................................................................221
TRIGUEIRINHO CONTINUA ARREBANHANDO MILHARES DE FIÉIS QUE,
ATRAVÉS DE SEUS LIVROS, CHEGAM A FORMAR GRUPOS QUE SE
DEDICAM A PROPALAR SEUS ENSINAMENTOS OU PREGAÇÕES. NADA
MAIS DO QUE UMA MISTURA BARATA DE LITERATURA MÍSTICA,
TEOSÓFICA E ESOTÉRICA DEVIDAMENTE DISTORCIDAS PARA QUE
ATENDAM A SEUS PROPÓSITOS, OU SEJA, CONTINUAR
ARREBANHANDO MILHARES DE FIÉIS QUE COMPRAM MAIS LIVROS,
FORMAM NOVOS GRUPOS E PROPALAM SEUS ENSINAMENTOS QUE
IRÃO CONTINUAR ATRAINDO MAIS INCAUTOS ENGORDANDO SEM
PARAR A CONTA BANCÁRIA DO GURU (SUENAGA, 2003)........................221
AS CATEGORIAS QUE EXPLICAM A OPINIÃO ACIMA SOBRE
TRIGUEIRINHO SÃO AS SEGUINTES: “1.”: “MANIPULAÇÃO DA
IMPRESSÃO: CONTROLE DO ATOR SOCIAL SOBRE AS IMPRESSÕES QUE
OS OUTROS POSSAM TER DELE”; “2.1”: “FACHADA PESSOAL: CENÁRIO
EM TORNO DO ATOR SOCIAL”; “2.5”: “MISTIFICAÇÃO: PROTEGER O
ATOR CRIANDO DISTÂNCIA SOCIAL E UMA AURA DE MISTÉRIO”; “4.0”:
“EQUIPE: QUALQUER GRUPO DE ATORES SOCIAIS QUE CONTRACENAM
UMA ROTINA PARTICULAR.”..........................................................................221
A IDÉIA DE FIM DE MUNDO QUE TRIGUEIRINHO PROFETIZA NÃO É
NOVA. FOI IMORTALIZADA NA OBRA DE TOMAS MORUS, “UTOPIA”. NA
CONCRETIZAÇÃO DA CIDADE SANTA E SAGRADA DE “FIGUEIRA”,
INICIA-SE UM PARAÍSO TERRENO, UMA ILHA PARADISÍACA, UMA
SOCIEDADE PERFEITA. PORÉM UMA COMUNIDADE PERFEITA PRECISA
CONTAR COM ATORES SOCIAIS PERFEITOS. POR ISSO OS QUE ASPIRAM
A ESSE MESMO IDEAL DEVEM SE SUBMETER, SE SUJEITAR A UM
CONDICIONAMENTO DE PURIFICAÇÃO, UMA SANTIFICAÇÃO, UMA
TRANSFORMAÇÃO PESSOAL. SEGUNDO TRIGUEIRINHO, SE APENAS
10% DA HUMANIDADE ACEITAR SE SACRIFICAR VOLUNTARIAMENTE
ATRAVÉS DA “OPERAÇÃO RESGATE”, PROFETIZADA POR ELE, ENTÃO A
HUMANIDADE, COMO UM TODO, SERÁ SALVA, RESGATADA..................222
(...) AFIRMA TRIGUEIRINHO, QUE SE DIZ CONTATADO POR ETS E
ESCOLHIDO PARA UMA MISSÃO IMPORTANTE: CONSCIENTIZAR A
HUMANIDADE A RESPEITO DE SEUS VIZINHOS(...)OS UFÓLOGOS
ORTODOXOS TORCEM O NARIZ E TÊM ARGUMENTOS PARA NÃO CRER
NAS PREDIÇÕES DE TRIGUEIRINHO, MAS ISSO NÃO O IMPEDE DE
CONTINUAR SUAS AFIRMAÇÕES(...)TRIGUEIRINHO FOI DURAMENTE
CRITICADO POR UFÓLOGOS DE TODO PAÍS, EM ESPECIAL OS DA
REVISTA UFO, EM 1995. NESSA OCASIÃO, NO AUGE DE SUA FAMA COMO
ESCOLHIDO DE ETS, JÁ TINHA VÁRIOS LIVROS PUBLICADOS E UM
VASTO ESQUEMA MERCADOLÓGICO DE PALESTRAS POR TODO O
BRASIL, ONDE APRESENTAVA SUAS TEORIAS. SEUS LIVROS FORAM
OBJETO DE SUSPEITA PRINCIPALMENTE POR TRAZEREM, EM SUAS
CAPAS, FOTOS COM LUZES NOTURNAS NÃO IDENTIFICADAS QUE
TRIGUEIRINHO DESCREVIA COMO SENDO EXTRATERRESTRES E
PERTENCENTES AOS SEUS AMIGOS DE OUTROS PLANETAS. AS
IMAGENS NÃO RESISTIRAM A UMA MERA ANÁLISE E RESULTARAM EM
FALSIFICAÇÕES GROSSEIRAS DE PONTOS DE LUZ URBANOS,
FLAGRADOS COM LENTES ESPECIAIS E EM CIRCUNSTÂNCIAS
EXTRAORDINÁRIAS. AS CAPAS DE SEU LIVRO SÃO BONITAS, MAS NÃO
SÃO UFOS, DECLAROU O UFÓLOGO PAULISTA E TAMBÉM CO-EDITOR
DE UFO MARCO ANTÔNIO PETIT (ANEXO AA) (SUENAGA, 2006).............222
ESSE ARTIGO PODE SER CLASSIFICADO NA CATEGORIA “2.3”:
“IDEALIZAÇÃO: TENTAR PARECER MELHOR DO QUE SE É”; E NA “2.5”
QUE MENCIONA: “MISTIFICAÇÃO: PROTEGER O ATOR CRIANDO
DISTÂNCIA SOCIAL E UMA AURA DE MISTÉRIO.”.......................................222
HISTORICAMENTE, MUITOS PROFETAS SÃO EMOCIONALMENTE
INSTÁVEIS, E ESTE DESEQUILÍBRIO CONTRIBUIU, EM GRANDE PARTE,
PARA SEU SUCESSO. MUITOS DELES REVELARAM-SE INFLUENTES
DEMAIS, TAL COMO ANTÔNIO VICENTE MACIEL, O “CONSELHEIRO”. SUA
IMAGEM FOI IMORTALIZADA POR EUCLIDES DA CUNHA NO CÉLEBRE
LIVRO ”OS SERTÕES”, ONDE ELE DESCREVE O LÍDER DE “CANUDOS”
COMO UM DEMENTE, UM DESEQUILIBRADO, UM MANIPULADOR, QUE
ARREBANHOU UM EXÉRCITO DE GENTE AVESSA AO TRABALHO.
TAMBÉM EM SUA VERSÃO ROMANCEADA DE “CANUDOS”, “A GUERRA
DO FIM DO MUNDO”, O PERUANO MARIO VARGAS LLOSA PINTA IMAGEM
SEMELHANTE, A DO BEATO ENLOUQUECIDO, PORQUE O
“CONSELHEIRO”, DE “CANUDOS”, COMEÇOU A PREGAR DEPOIS DA
DESILUSÃO COM A ESPOSA, QUE O ABANDONOU PARA MORAR COM
UM CABO DE MILÍCIA.......................................................................................223
UMA ENQUETE REALIZADA PELO GRUPO DE ESTUDOS UFOLÓGICOS
DA BAIXADA SANTISTA (GEUBS) REVELA A OPINIÃO DOS
PESQUISADORES DEDICADOS À UFOLOGIA NO BRASIL A RESPEITO DO
GRAU DE CREDIBILIDADE DE ALGUNS DOS CASOS MAIS FAMOSOS DE
CONTATOS COM OVNIS E EXTRATERRESTRES DA UFOLOGIA MUNDIAL.
FORAM CONSULTADOS CINQÜENTA PESQUISADORES, 10% DO TOTAL
DE UFÓLOGOS CONSIDERADOS ‘ATIVOS’ NO BRASIL. NA ENQUETE, OS
PESQUISADORES DERAM NOTAS DE 0 A 10...............................................223
ESCORE DE 0,00 A 1,99: CASOS SEM NENHUMA CREDIBILIDADE,
CONSIDERADOS AS GRANDES FRAUDES DA UFOLOGIA MUNDIAL.
SEGUNDO A PESQUISA, NÃO EXISTE ABSOLUTAMENTE NADA QUE SEJA
DIGNO DE CONFIABILIDADE NESTES CASOS. OS CASOS QUE
RECEBERAM NOTA ZERO ATÉ 1,99 NÃO SÃO CONSIDERADOS SÉRIOS.
.............................................................................................................................223
TRIGUEIRINHO AFIRMA ESTAR EM CONTATO COM SERES
INTRATERRENOS E EXTRATERRESTRES DE UNIVERSOS PARALELOS.
ELE TEVE UM ESCORE FINAL DE 1,36..........................................................223
ESSA ENQUETE PODE SER CLASSIFICADA NA CATEGORIA “6.”:
“SEGREDOS: INFORMAÇÕES DESTRUTIVAS”; TAMBÉM PODE SER
CLASSIFICADA NA CATEGORIA “6.1.”: “INDEVASSÁVEIS: FATOS
INCOMPATÍVEIS COM A IMAGEM QUE QUER PASSAR”; CATEGORIA “7.”:
“PAPÉIS DISCREPANTES: ATORES SOCIAIS COM INFORMAÇÕES
DESTRUIDORAS E COMPROMETEDORAS AO ESPETÁCULO.”.................223
A ENQUETE APRESENTADA ,E QUE ATRIBUI À UFOLOGIA DE
TRIGUEIRINHO OS MAIS BAIXOS ESCORES, PRENDE-SE AO FATO DE A
UFOLOGIA DESTE SER CONSIDERADA MÍSTICA, ISTO É, NÃO SE
ENQUADRA NOS PARÂMETROS MÍNIMOS DO RIGOR CIENTÍFICO..........224
4.4.2 Conclusão.................................................................................................224
O ELO ENTRE O VIÉS DA “REPRESENTAÇÃO DOS ATORES SOCIAIS” E
O DA “INSTITUIÇÃO TOTAL”, NO CONTEXTO DA TEORIA DO
INTERACIONISMO SIMBÓLICO, É QUE A SITUAÇÃO DA INTERAÇÃO, A
CIRCUNSTÂNCIA, O ESPAÇO DAS CONTROVÉRSIAS (OS QUAIS TÊM
MUITA IMPORTÂNCIA PARA A SOCIOLOGIA) NÃO DEVERIAM DISSOCIAR
OS RITOS DE INTERAÇÃO DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO...........................224
NO CASO ESTUDADO DA COMUNIDADE DE “FIGUEIRA”, NÃO SE
OBSERVOU TAL DISSOCIAÇÃO ENTRE OS RITOS DE INTERAÇÃO E OS
DA INSTITUIÇÃO. ALGUNS ASPECTOS FORAM APRESENTADOS
SEPARADAMENTE APENAS PARA FINS ANALÍTICOS................................224
CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................................225
CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................................226
CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................................226
O TEMA DESTA PESQUISA É PIONEIRO, INÉDITO E DESSA FORMA
ESPERAMOS QUE POSSA SERVIR DE PONTO DE PARTIDA PARA
POSTERIORES ESTUDOS E APROFUNDAMENTOS SOBRE TEMAS AFINS.
ESTE ESTUDO DA COMUNIDADE “FIGUEIRA” COMO EXEMPLO DE UMA
INSTITUIÇÃO TOTAL E, PARTICULARMENTE, O MUNDO DOS ATORES
SOCIAIS TINHA COMO UM DOS SEUS INTERESSES PRINCIPAIS
APRESENTAR UMA VERSÃO SOCIOLÓGICA DO “EU” (SELF) EM
INTERAÇÃO.......................................................................................................226
DIFERENTEMENTE DE ALGUNS PONTOS DE VISTA DE GOFFMAN,
ACENTUAMOS O MUNDO DO ATOR SOCIAL NÃO-INTERNADO QUE SE
HOSPEDA EM “FIGUEIRA”. ESTES, AO INTERAGIREM COM OS INTERNOS,
ENTRAM EM CONFLITO EM FUNÇÃO DE DIFERENTES
CONDICIONAMENTOS, CRIANDO-SE, ASSIM, UM CLIMA CONSTANTE
DISCÓRDIA. ELES ENTRAM EM DIVERGÊNCIA EM FUNÇÃO DA SUJEIÇÃO
HIERÁRQUICA DO GRUPO DE “FIGUEIRA”, POR SUA VEZ, LIDERADO
POR TRIGUEIRINHO. ELAS GERAM UMA ATMOSFERA DE DIVERGÊNCIA
PERMANENTE PELA INTERFERÊNCIA AO “EU” (SELF) DE CADA UM.....226
PORTANTO, HÁ UM INTERESSE SOCIOLÓGICO NAS PESQUISAS SOBRE
INSTITUIÇÕES TOTAIS, PORQUE NESTES ESPAÇOS, AS REGRAS E
NORMAS CONDICIONAM COMO OS ATORES SOCIAIS DEVEM INTERAGIR
COLETIVAMENTE EM VIRTUDE DE PERTENCEREM A UM GRUPO
ESPECÍFICO.......................................................................................................226
O FUNCIONAMENTO DE “FIGUEIRA” CONFIRMA NOSSA HIPÓTESE DE
QUE ESTA COMUNIDADE PODE SER CLASSIFICADA, PARCIALMENTE, EM
ALGUMA MEDIDA, COMO UMA INSTITUIÇÃO TOTAL POR POSSUIR
ALGUMAS CARACTERÍSTICAS SIMILARES ÀQUELAS ESTUDADAS POR
GOFFMAN. TAMBÉM SE VERIFICOU QUE A FORMA COMO É
ADMINISTRADA “FIGUEIRA” CONDICIONA O “EU” (SELF), O
COMPORTAMENTO, O PENSAMENTO E ATÉ OS SENTIMENTOS DOS QUE
ESTÃO LIGADOS A ELA DIRETA OU INDIRETAMENTE. .............................226
AS CATEGORIAS DEFINIDAS NA “REPRESENTAÇÃO DOS ATORES
SOCIAIS” SÃO CONVERGENTES ÀS CATEGORIAS ABSORVENTES DAS
INSTITUIÇÕES TOTAIS. AS CATEGORIAS DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS
CONVERGEM COM AS DAS CATEGORIAS DA INTERAÇÃO FACE A FACE,
SOBRETUDO PORQUE, AS TENDÊNCIAS ABSORVENTES DESTAS
INSTITUIÇÕES, FUNCIONAM NAS INTERAÇÕES E ANULAM A
INTERSUBJETIVIDADE POR PROCESSOS DE APARTAÇÃO OU
ISOLADAMENTE PRINCIPALMENTE. O ELO ENTRE ELAS É QUE A
SITUAÇÃO DA INTERAÇÃO(A QUAL TÊM MUITA IMPORTÂNCIA PARA A
SOCIOLOGIA) NÃO DEVERIA DISSOCIAR OS RITOS DE INTERAÇÃO DOS
RITOS DA INSTITUIÇÃO. NO CASO ESTUDADO DA COMUNIDADE DE
“FIGUEIRA”, NÃO SE OBSERVOU TAL DISSOCIAÇÃO ENTRE OS RITOS DE
INTERAÇÃO E OS DA INSTITUIÇÃO. ALGUNS ASPECTOS FORAM
APRESENTADOS ISOLADAMENTE APENAS PARA FINS ANALÍTICOS. AS
CATEGORIAS CONVERGENTES NAS INTERAÇÕES FACE A FACE SÃO
RESULTANTES DOS PROCESSOS DE INTERAÇÃO E CONSTITUEM FATOS
DE SOCIALIZAÇÃO. SÃO CONVERGENTES, PORQUE POSSIBILITAM
APROXIMAÇÕES. TODAS AS INSTITUIÇÕES TENDEM A ATRAIR PARA SI
OS SUJEITOS POR PROCESSOS DE SOCIALIZAÇÃO, APARTAÇÃO,
INCLUSÃO, IDENTIFICAÇÃO E OUTROS. NAS INSTITUIÇÕES TOTAIS,
ESSA ABSORÇÃO É MAIS ACENTUADA. .....................................................226
238.....................................................................................................................227
DENTRO DESSE CONTEXTO DA TRANSIÇÃO DO SÉCULO XX PARA O
SÉCULO XXI, SURGIU TRIGUEIRINHO RE-ANUNCIANDO A ERA DE
AQUÁRIO. ESTA TRANSIÇÃO PASSOUPOR UMA FASE EM QUE A
INSEGURANÇA NAS RELAÇÕES SOCIAIS FIZERAM COM QUE ALGUNS
ATORES SOCIAIS FICASSEM PERDIDOS, FRACASSADOS, DERROTADOS
E SUAS RESIGNAÇÕES SOCIAIS PODIAM SE MANIFESTAR EM FUGA E
ABANDONO DA SOCIEDADE, QUANDO CONVERGIAM PARA
COMUNIDADES DESVIANTES. ALI ENTRAVAM EM CONTATO COM SEUS
SEMELHANTES FORMANDO UMA SUB-CULTURA. OS DESVIANTES
SOCIAIS EVITAVAM AS DIVERGÊNCIAS, RESTRINGINDO-SE À PROTEÇÃO
AUTO-DEFENSIVA DE VIVEREM ISOLADOS NUMA SUB-COMUNIDADE,
ONDE NÃO SE SENTIAM MAIS DESLOCADOS COMO NA SOCIEDADE
ABERTA. SENTIAM-SE MELHOR QUE OS DA COMUNIDADE ABERTA,
SUPERIORES, EXEMPLOS E MODELOS DE VIDA, ANGARIANDO
SIMPATIZANTES. ..............................................................................................227
TRIGUEIRINHO ANUNCIAVA EM SUAS PROFECIAS QUE A TRANSIÇÃO
AO MILÊNIO AQUARIANO SERIA PLENA DE RISCOS PARA OS
ESPIRITUALMENTE DESPREPARADOS. MAS, POR OUTRO LADO, OS QUE
ESTIVESSEM EM HARMONIA COM A OPERAÇÃO RESGATE, LIDERADA
POR ELE, INGRESSARIAM NUMA NOVA ERA DE ILUMINAÇÃO
ESPIRITUAL, UMA NOVA CIVILIZAÇÃO.........................................................227
EM RELAÇÃO À “OPERAÇÃO RESGATE”, COMO JÁ DITO
ANTERIORMENTE, TINHA POR OBJETIVO SALVAR O GRUPO DE
“FIGUEIRA” DO FIM DO MUNDO. PORÉM PARA QUE CADA UM DELES
FOSSE RESGATÁVEL, PRECISARIA PASSAR POR UMA MUDANÇA DE
COMPORTAMENTO, ISTO É, TERIA QUE SE SUJEITAR A UM
CONDICIONAMENTO. ESSE RESGATE E CONDICIONAMENTO DA
PERSONALIDADE TERIAM COMO FINALIDADE TORNÁ-LO SEM LIVRE-
ARBÍTRIO, PARA QUE ACATASSEM ORDENS E FUNÇÕES ALHEIAS À SUA
NATUREZA VOCACIONAL E ATENDESSEM AOS OBJETIVOS DO
COLETIVO E NÃO AOS DA SUA INDIVIDUALIDADE.....................................227
CONCLUÍMOS QUE TRIGUEIRINHO EXERCE PODER, DEVIDO À SUA
PERSONALIDADE E CARISMA, O QUE DESPERTA O FASCÍNIO E O
DESLUMBRE NOS SIMPATIZANTES. ASSIM ADQUIRIU ASCENDÊNCIA
SOBRE UM GRUPO DE SIMPATIZANTES QUE AGRUPARAM EM TORNO
DELE E CONSEGUE COM QUE OS GRUPOS DE PESSOAS INTERNAS E
EXTERNAS DE “FIGUEIRA” TRABALHEM EM ATIVIDADES E TAREFAS
GRATUITAS E VOLUNTÁRIAS COM O FIM COLETIVO DE
TRANSFORMAÇÃO E RESGATE DOS SERES HUMANOS QUE TRANSITAM
POR “FIGUEIRA”. .............................................................................................228
NESSA “OPERAÇÃO RESGATE”, OSS SUPERVISORES OU
COORDENADORES SÃO OS INDIVÍDUOS MAIS PRÓXIMOS DE
TRIGUEIRINHO. AJUDAM ATIVAMENTE E EM GERAL TAMBÉM SÃO
DOTADOS DE CERTAS VIRTUDES CARISMÁTICAS. MINISTRAM
PALESTRAS E SERVEM DE INTERMEDIÁRIOS ENTRE TRIGUEIRINHO E O
RESTANTE DO GRUPO, PORTANTO DISPÕEM DE CERTO PODER.
PROCURAM ORGANIZAR OS COLABORADORES INTERNOS E EXTERNOS,
CONSTITUINDO-OS NUMA SOCIEDADE COM DIREITOS E OBRIGAÇÕES
ESTABELECIDOS DE ACORDO COM AS INSTRUÇÕES QUE CONDICIONAM
A COMUNIDADE. ..............................................................................................228
A QUANTIDADE DE TAREFAS FEZ COM QUE SURGISSE A DIVISÃO DE
TRABALHO E, CONSEQÜENTEMENTE, A NECESSIDADE DO
APARECIMENTO DE UMA SÉRIE DE COLABORADORES INTERNOS E
EXTERNOS. TRIGUEIRINHO NÃO PODE ASSUMIR SOZINHO A
COMUNIDADE, POR ISTO DIVIDE AS TAREFAS COM OS
COORDENADORES. ASSIM DESENVOLVEU-SE EM “FIGUEIRA UMA
HIERARQUIA, UM TIPO ÚNICO DE ESTRUTURA SOCIAL, COM TRÊS
CAMADAS SUPERPOSTAS. TRIGUEIRINHO NO TOPO, OS EXTERNOS OU
REDES DE SERVIÇO NA BASE, E INTERMEDIANDO A AMBOS UM GRUPO
DE COORDENADORES INTERNOS MAIS PRÓXIMOS: OS ESCOLHIDOS
POR TRIGUEIRINHO. A DIVISÃO DO TRABALHO É UMA CONDIÇÃO
NECESSÁRIA PARA QUE A COMUNIDADE SE DESENVOLVA E POSSA
PARTIR PARA O RESGATE DO MUNDO........................................................228
OS COORDENADORES DOS SETORES ESTÃO CONSTANTEMENTE
SENDO MUDADOS POR TRIGUEIRINHO. HÁ UMA ROTATIVIDADE, UM
RODÍZIO DE FUNÇÕES COM O OBJETIVO DE EVITAR APEGO ÀS
TAREFAS, CULTIVAR O DESAPEGO ENTRE OS COLABORADORES E
IMPEDIR A POSSÍVEL FORMAÇÃO DE FOCOS DE REBELDIA, COMO
SURGIRAM NA COMUNIDADE NAZARÉ, RESULTANDO NA EXCLUSÃO DE
TRIGUEIRINHO..................................................................................................228
A CENTRALIZAÇÃO DAS TOMADAS DE DECISÕES EM TRIGUEIRINHO
ACARRETA UMA FALTA DE COMUNICAÇÃO INTERNA. TRIGUEIRINHO
TORNA OS LIMITES DE “FIGUEIRA” MUITO PRECISOS EM FUNÇÃO DE
EXPERIÊNCIAS NEGATIVAS DO SEU PASSADO QUE O EXCLUÍRAM DA
COMUNIDADE NAZARÉ, POR ISSO OS INDECISOS NÃO PODEM SER
ACEITOS. TODOS OS MEMBROS DEVEM MANIFESTAR ZELO NO
DESEMPENHO DOS DEVERES. SE UM MEMBRO RECUSA OBEDIÊNCIA, A
SALVAÇÃO DO GRUPO TODO É POSTA EM PERIGO, EM JOGO. UMA DAS
GRANDES PREOCUPAÇÕES DE TRIGUEIRINHO É DAR ÊNFASE AOS
LIMITES DO GRUPO, PRESERVANDO OS INTEGRANTES DO CONTATO
NOCIVO COM PESSOAS COM IDEAIS CONTRÁRIOS. ISTO, EM PARTE,
CONDICIONA A SEGREGAÇÃO DO GRUPO EM RELAÇÃO À SOCIEDADE
GLOBAL. ASSIM, EM “FIGUEIRA”, HÁ UMA PERMANENTE DIVERGÊNCIA
RESULTANTES DA INTERAÇÃO ENTRE COLABORADORES INTERNOS E
EXTERNOS, PORQUE O INTERESSE DO GRUPO ESTÁ ACIMA DAS
INDIVIDUALIDADES. O INDIVÍDUO ENCONTRA-SE SUBORDINADO A UMA
DETERMINAÇÃO COLETIVA, AGINDO EM CONTRARIO A ELAS, PODERIA
HAVER SANÇÕES PRIVANDO SUA INDEPENDÊNCIA, LIBERDADE, LIVRE-
ARBÍTRIO. .........................................................................................................228
OS COLABORADORES SÃO CONDICIONADOS A NÃO SE
COMUNICAREM, COMO JÁ FOI DITO ANTERIORMENTE, UMA DAS
MAIORES REGRAS EM “FIGUEIRA” É O SILÊNCIO INTERNO E EXTERIOR.
POR ISSO, HÁ UM ISOLAMENTO QUE PRIVA OS COLABORADORES DE
INICIATIVA E CRIATIVIDADE, PORQUE ESTÃO SUBMETIDOS ÀS REGRAS,
ÀS OPERAÇÕES E A FORMA DE REALIZÁ-LAS QUE CONDICIONAM O SEU
COMPORTAMENTO. SEU MODO OPERATIVO ÚNICO AO QUAL DEVEM
CONDICIONAR-SE E A ORDEM DO SEU DESENVOLVIMENTO JÁ ESTÃO
ESPECIFICADOS. TUDO ESTÁ PREVISTO COM BASTANTE EXATIDÃO,
PORTANTO NÃO HÁ ESPAÇO PARA A INICIATIVA PESSOAL OU PARA O
LIVRE-ARBÍTRIO. PARA TRIGUEIRINHO, O LIVRE-ARBÍTRIO GERA UM
ESTADO CAÓTICO. OS COLABORADORES, PARA SEREM SALVOS E
RESGATADOS, DEVEM ENTREGAR-SE À SUA AUTORIDADE. .................229
VÁRIOS TRABALHOS GRUPAIS REALIZAM-SE DESSA MANEIRA
ABNEGADA: OBLATOS SÃO LEIGOS QUE SE OFERECEM PARA SERVIR
NO GRUPO DE “FIGUEIRA” ABNEGADAMENTE. AUTO-AFIRMAÇÃO,
ORGULHO, IDIOSSINCRASIAS E VAIDADE NÃO DEVEM INTERFERIR NA
SUA TAREFA, CUJAS BASES SÃO O DESPOJAMENTO, O DESAPEGO E A
PRONTIDÃO AO SERVIÇO IMPESSOAL PARA ATENDER AOS OBJETIVOS
COLETIVOS DO GRUPO...................................................................................229
O ZELADOR SEGUE A VIA DO DESPOJAMENTO E DEDICA-SE A SUPRIR
TUDO E TODOS INCONDICIONALMENTE. O ZELADOR DEVE SE INSPIRAR
NOS QUE SE DEVOTAM INCONDICIONALMENTE À VIDA DE SERVIÇO. . 229
HÁ, ATUALMENTE, POUCOS RESIDENTES EM “FIGUEIRA”, PORQUE,
SEGUNDO TRIGUEIRINHO, NO ATUAL CONTEXTO SOCIAL, POUCAS
PESSOAS CONSEGUEM LIBERAR-SE DO COMPROMISSO COM A
SOCIEDADE. A ESTRUTURA, A ENGRENAGEM DA SOCIEDADE CONTINUA
EXERCENDO GRANDE ATRAÇÃO SOBRE AS PESSOAS. ALGUNS DEVEM,
PORTANTO, SE DESPOJAREM DE ENCARGOS E DESVINCULAREM-SE DA
SOCIEDADE, SEGUNDO TRIGUEIRINHO, PARA AJUDAR NO QUE É
EXIGIDO AOS RESIDENTES DE “FIGUEIRA”. ESTA POSTURA RESULTARÁ
DA RENÚNCIA A AMBIÇÕES, DESEJOS E SATISFAÇÕES PRÓPRIAS EM
FUNÇÃO DA COLETIVIDADE. .........................................................................229
O RESIDENTE DEVE VIVENCIAR SUAS PROVAS DE RENÚNCIA,
HUMILDADE, HUMILHAÇÃO, ABNEGAÇÃO EM SILÊNCIO, SEM
TAGARELICE, SEM CHORO, SEM EMOÇÕES, SEM DOR. PARA O
RESIDENTE AS PROVAS, QUE ADVÊM DO CUMPRIMENTO DAS TAREFAS
DIÁRIAS, SÃO OPORTUNIDADES DE TRANSFORMAÇÃO, POR ISSO,
DEVEM CULTIVAR A VIRTUDE OU QUALIDADE DE DESAPEGO E
RENÚNCIA EM TUDO O QUE FAZ, REALIZANDO AS TAREFAS QUE LHE
CABEM COM ABNEGAÇÃO. UM RESIDENTE DEVE RENUNCIAR ÀS
DELÍCIAS, AO CONFORTO, AOS PRAZERES DA VIDA. DEVE DEIXAR DE
LADO A MURMURAÇÃO, A QUEIXA, A LAMÚRIA, DEVE PRESCINDIR DE
CONSOLO. ........................................................................................................230
HÁ EM “FIGUEIRA” UMA ATIVIDADE CHAMADA DE ABRIGO QUE
POSSIBILITA PRESTAR SERVIÇO LIVRE DOS APEGOS QUE LIMITAM O
TRABALHO EM GRUPO. TAMBÉM NÃO SE DEVE BUSCAR
RECONHECIMENTO PARA NÃO REFORÇAR O EGOÍSMO. ESTA ATITUDE
TORNA-SE UM OBSTÁCULO À VIDA GRUPAL. A COLABORAÇÃO É
NECESSÁRIA, POIS A TAREFA DEVERÁ CUMPRIR-SE CONFORME
PLANEJADA PELO GRUPO. A FUNÇÃO DO ABRIGO É DE AJUDAR TODOS
LIBERTAREM-SE, DESVENCILHAREM-SE E DESAPEGAREM-SE DA
SOCIEDADE. MUITOS DOS QUE SE APROXIMAM DO ABRIGO ESTÃO
PARA SE LIBERTAREM E NECESSITAM DE CORAGEM, AJUDA E
REFORÇO...........................................................................................................230
OS QUE ASPIRAM À VIDA EM “FIGUEIRA” SÃO CHAMADOS DE
ASPIRANTES E DEVEM TER UMA DISPOSIÇÃO PARA SEGUIR, SEM
RESERVAS, COM ABNEGAÇÃO, COM DESAPEGO, DE FORMA
IMPESSOAL, O CAMINHO DO SERVIÇO. O ASPIRANTE DEVE DEIXAR DE
LADO O ORGULHO E O PRECONCEITO PARA SERVIR À HUMANIDADE.
DEVE APRENDER QUE A SUJEIÇÃO A UMA ORGANIZAÇÃO, A UMA
ORDEM, ÀS REGRAS, ÀS NORMAS, A DETERMINADAS CONDUTAS SÃO
NECESSÁRIAS A UM TRABALHO EVOLUTIVO E QUE, IMPOSTAS NUM
AMBIENTE, SERVEM DE EXEMPLO AOS DEMAIS. O ASPIRANTE DEVE
RECONHECER QUE O CONDICIONAMENTO A UMA DISCIPLINA
HIERÁRQUICA É IMPRESCINDÍVEL PARA A TRANSCENDÊNCIA DO
EGOÍSMO E DAS PREFERÊNCIAS DE NATUREZA MENTAL E EMOCIONAL
INDIVIDUAIS EM DETRIMENTO DAS COLETIVAS E GRUPAIS. SÓ QUANDO
O EGOÍSMO É TRANSCENDIDO E AS PREFERÊNCIAS INDIVIDUAIS
SUPERADAS SURGE A DISCIPLINA GRUPAL E COLETIVA. ORDEM,
DISCIPLINA E OBEDIÊNCIA DEVEM FAZER PARTE DA VIDA DO
ASPIRANTE, REVELANDO UMA MANEIRA FLEXÍVEL, MEIGA E CORDATA
DE VIVER............................................................................................................230
”FIGUEIRA” COMO JÁ FOI DITO ANTERIORMENTE, É UM HÍBRIDO
SOCIAL, UMA ORGANIZAÇÃO FORMAL QUE ADMINISTRA UMA
COMUNIDADE ALTERNATIVA. OS MONGES NUNCA DEVEM ENTRAR EM
INTERAÇÃO COM O GRUPO DE COLABORADORES ITINERANTES E/OU
VISITANTES QUE SE HOSPEDAM EM “FIGUEIRA” E, EM HIPÓTESE
ALGUMA, ESTABELECEM INTERAÇÃO COM O RESTANTE DA SOCIEDADE
ABERTA. HÁ UM MONASTÉRIO FEMININO E OUTRO MASCULINO, SÃO
SEMI-RECLUSOS. VIVEM SEPARADOS FISICAMENTE SEM MUITA
INTERAÇÃO COM O GRUPO DE RESIDENTES. MAIS AFASTADOS E SEM
INTERAGIR COM OS ITINERANTES OU VISITANTES QUE SE HOSPEDAM
EM “FIGUEIRA”. ESTÃO SEM NENHUMA INTERAÇÃO COM A SOCIEDADE
ABERTA. ELES SÓ TÊM INTERAÇÃO COM O GRUPO DE RESIDENTES EM
RARAS REUNIÕES, EXCEPCIONALMENTE TÊM INTERAÇÃO COM O
GRUPO ITINERANTES OU VISITANTES E JAMAIS TÊM INTERAÇÃO COM A
SOCIEDADE ABERTA. ESSA FALTA DE INTERAÇÃO SÓ VÊM RATIFICAR O
ENQUADRAMENTO EM PARTE, EM ALGUMA MEDIDA, DE “FIGUEIRA”
COMO UMA INSTITUIÇÃO TOTAL, ONDE QUASE INEXISTE INTERAÇÃO.
.............................................................................................................................231
OS ATORES SOCIAIS QUE ALMEJAM MORAR EM “FIGUEIRA” DEVEM
VIVER EM COMUNIDADE, SEPARADOS DA FAMÍLIA, DESAPEGADOS DO
DINHEIRO, SEM POSSES OU PROPRIEDADE PRIVADA. DEVEM
CONDICIONAR-SE À POBREZA, SUBLIMAR O SEXO E,
CONSEQÜENTEMENTE, ABRIR MÃO DA INSTITUIÇÃO CASAMENTO,
ABSTER-SE DE ALIMENTOS DE ORIGEM ANIMAL, SER OBEDIENTES AOS
SEUS SUPERIORES, OBSERVAR O SILÊNCIO E RESTRINGIR A
CONVERSA AO ESTRITAMENTE NECESSÁRIO PARA O ANDAMENTO DAS
TAREFAS. ESSAS SÃO CARACTERÍSTICAS SIMILARES ÀS DAS
INSTITUIÇÕES TOTAIS ESTUDADAS POR GOFFMAN. ...............................231
A SEGUIR, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES BREVES SOBRE A INFLUÊNCIA
DOS ATORES SOCIAIS DE “FIGUEIRA” NO CONDICIONAMENTO ”EU”
(SELF) DOS SIMPATIZANTES. O EFEITO DÁ-SE SOBRE A REPRODUÇÃO
DOS SEUS VALORES ESPIRITUAIS, PADRONIZANDO GESTOS,
EXPRESSÕES E LINGUAGEM.........................................................................231
OS VALORES CULTURAIS DOS ATORES SOCIAIS DE “FIGUEIRA”
CONDICIONAM EM DETALHE O MODO COMO OS RESIDENTES PENSAM,
APARENTEMENTE, EM RELAÇÃO A MUITOS ASSUNTOS, ATÉ MESMO
ESTABELECEM UM QUADRO DE REFERÊNCIAS, DE PARÂMETROS, DE
PARADIGMAS....................................................................................................231
OS ATORES SOCIAIS ESTÃO ALICERÇADOS NUMA IDEOLOGIA QUE
MOLDA O COMPORTAMENTO DOS QUE ENTRAM EM CONTATO MAIS
DIRETAMENTE COM ELA, TORNANDO-OS SERVIS. ESSA MARCA OU
ESTIGMA TRANSPARECE NAS ATITUDES DOS SEUS ATORES SOCIAIS,
NA SUA MANEIRA DE INTERAGIR, DE SENTAR, DE ANDAR, NA SUA
FORMA DE COMER, DE FALAR, PORQUE ESTÃO CONDICIONADOS POR
UMA CULTURA ESPIRITUAL QUE SUBMETE O CORPO À PURIFICAÇÃO
MORAL, CULTURA BASEADA NAS VIRTUDES DO TIPO IDEAL DE
CARÁTER CRISTÃO SOBRE AS QUAIS DIZ O FILÓSOFO NIETZSCHE
SEREM VIRTUDES DO ESCRAVO...................................................................231
“FIGUEIRA” TEM COMO OBJETIVO PRINCIPAL A ESPIRITUALIDADE E
ESTÁ ALICERÇADA NUMA IDEOLOGIA QUE CONDICIONA UM
COMPORTAMENTO SERVIL QUE TRANSPARECE NA FORMA DE
INTERAGIR (SELF-INTERACTION), DE SENTAR, DE ANDAR, NOS GESTOS,
NAS EXPRESSÕES, NA LINGUAGEM E ATÉ NA FORMA DE COMER DOS
ATORES SOCIAIS, OS QUAIS REPRESENTAM UM “EU” (SELF) COTIDIANO
HUMILDE E MODESTO. ...................................................................................232
ATRAVÉS DA IMPOSIÇÃO DE REGRAS, NORMAS E DISCIPLINAS,
“FIGUEIRA” REPRODUZ SEUS VALORES NOS MÍNIMOS GESTOS,
EXPRESSÕES E LINGUAGEM DE FORMA A PADRONIZAR E
HOMOGENEIZAR OS COMPORTAMENTOS, NÃO PERMITINDO QUE AS
PESSOAS VIVAM COMO QUISEREM, COM LIBERDADE DE ESCOLHA, COM
LIVRE-ARBÍTRIO, ETC., CRIANDO, ASSIM, UMA COMUNIDADE DE ATORES
SOCIAIS CONDICIONADOS, AUTOMATIZADOS, FECHADOS E
SEGREGACIONISTAS, TAL COMO A FICÇÃO CIENTÍFICA DO LIVRO “O
ADMIRÁVEL MUNDO NOVO”. .........................................................................232
“FIGUEIRA” ROMPEU COM OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA
SOCIEDADE ABOLINDO A PROPRIEDADE, O CASAMENTO E A FAMÍLIA.
TORNOU-SE UM ESPAÇO COMUNITÁRIO SINGULAR, INDIFERENTE AO
ESTADO. É UMA COMUNIDADE COMPOSTA DE INDIVÍDUOS
SEMELHANTES QUE FORMAM UMA SUBCULTURA. A COMUNIDADE
EVOLUIU PARA UM ESTADO MONÁSTICO COM O TEMPO E O AUMENTO
DO NÚMERO DE RESIDENTES. HOJE LÁ SE CONFUNDEM SUBMISSÃO
COM SANTIDADE. TODOS DEVEM SE SUJEITAR À AUTORIDADE DE
TRIGUEIRINHO. OS QUE DESEJAM VIVER PELAS REGRAS DE “FIGUEIRA”
DEVEM QUERER DEVOTAR-SE INTEIRAMENTE AO SERVIÇO PELA
AUTODISCIPLINA, ORAÇÃO E TRABALHO. DEVEM VIVER UMA VIDA EM
COMUNHÃO, DESAPEGAR-SE DA FAMÍLIA, CONDICIONAR-SE À
POBREZA, DESAPEGAR-SE DO DINHEIRO E DA PROPRIEDADE PRIVADA.
DEVEM ABSTER-SE DO SEXO E CONSEQÜENTEMENTE DO CASAMENTO,
DEVEM OBEDECER AOS SUPERIORES, DEVEM ABSTER-SE DE
ALIMENTOS DE ORIGEM ANIMAL, DEVEM RESTRINGIR A CONVERSA E
OBSERVAR O SILÊNCIO. A LIBERDADE, O LIVRE-ARBÍTRIO E A
PRIVACIDADE SÃO SUPRIMIDOS EM FAVOR DA COLETIVIDADE............232
“FIGUEIRA”, SOB A ÉGIDE DE UM NOVO CÓDIGO CULTURAL,
SUBVERTE A ORDEM SOCIAL ESTABELECIDA, CRIANDO NORMAS QUE
CONTRARIAM A SOCIEDADE ABERTA. COM ISSO, O GRUPO POSSUI
IDÉIAS QUE CONFLITAM COM OS VALORES DA SOCIEDADE NA QUAL SE
INSERE, GERANDO UMA DIVERGÊNCIA PERMANENTES ENTRE O GRUPO
DE EXTERNOS E O DOS INTERNOS...............................................................232
REFERÊNCIAS.................................................................................................233
REFERÊNCIAS.................................................................................................234
REFERÊNCIAS.................................................................................................234
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RECOMEÇO) DE MUNDO. SÃO PAULO: EDITORA MERCURYO, 2000.......236
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RELÓGIO D´ÁGUA, 1999..................................................................................236
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(ORG) ERVING GOFFMAN - DESBRAVADOR DO COTIDIANO. PORTO
ALEGRE: TOMO EDITORIAL, 2004. ................................................................236
ANEXOS...........................................................................................................237
LISTA DE ANEXOS......................................................................................................237
LISTA DE ANEXOS..........................................................................................237
238.....................................................................................................................238
ANEXO A..........................................................................................................239
FOLDER “NAZARÉ PAULISTA”................................................................................239
FOLDER “NAZARÉ PAULISTA”.....................................................................239
ANEXO B..........................................................................................................240
MANTRAS DE “FIGUEIRA”........................................................................................240
MANTRAS DE “FIGUEIRA”.............................................................................240
ANEXO C..........................................................................................................241
FOLDER CORAL...........................................................................................................241
FOLDER CORAL..............................................................................................241
ANEXO D..........................................................................................................242
FOLDER DE “FIGUEIRA”............................................................................................242
FOLDER DE “FIGUEIRA”................................................................................242
ANEXO E..........................................................................................................243
CENTRAL DE “ATENDÊNCIA”..................................................................................243
CENTRAL DE “ATENDÊNCIA”.......................................................................243
ANEXO F1 & F2................................................................................................244
OPÚSCULO “OBLATOS”.............................................................................................244
OPÚSCULO “OBLATOS”................................................................................244
ANEXO G..........................................................................................................245
OPÚSCULO “REDES DE SERVIÇO” + BOLETIM DE SINAIS DE Nº 10 C/A
PROGRAMAÇÃO DOS ENCONTROS DAS “REDES DE SERVIÇO” EM 2006.
245
OPÚSCULO “REDES DE SERVIÇO” + BOLETIM DE SINAIS DE Nº 10 C/A
PROGRAMAÇÃO DOS ENCONTROS DAS “REDES DE SERVIÇO” EM 2006.
.............................................................................................................................245
ANEXO H..........................................................................................................246
BOLETIM DE “SINAIS” DE Nº 10, PG.2, RELAÇÃO DE ENDEREÇOS NO BRASIL
E EXTERIOR DOS GRUPOS DAS “REDES DE SERVIÇO”..............................246
BOLETIM DE “SINAIS” DE Nº 10, PG.2, RELAÇÃO DE ENDEREÇOS NO
BRASIL E EXTERIOR DOS GRUPOS DAS “REDES DE SERVIÇO”.............246
ANEXO I............................................................................................................247
MOSQUITINHO DE 2006 + DOIS CARTAZES DIVULGANDO AS AUDIÇÕES DE
FITAS K-7 DE TRIGUEIRINHO EM PORTO ALEGRE, RS...............................247
MOSQUITINHO DE 2006 + DOIS CARTAZES DIVULGANDO AS AUDIÇÕES
DE FITAS K-7 DE TRIGUEIRINHO EM PORTO ALEGRE, RS........................247
ANEXO J...........................................................................................................248
CATÁLOGO DA EDITORA IRDIN E FOLDER DA EDITORA IRDIN....................248
CATÁLOGO DA EDITORA IRDIN E FOLDER DA EDITORA IRDIN..............248
ANEXO K..........................................................................................................249
PANFLETO DO SETOR DE “DIFUSÃO DE LIVROS E FITAS”...............................249
PANFLETO DO SETOR DE “DIFUSÃO DE LIVROS E FITAS”.....................249
ANEXO L...........................................................................................................250
PROGRAMAÇÃO DA RÁDIO MUNDIAL..................................................................250
PROGRAMAÇÃO DA RÁDIO MUNDIAL........................................................250
ANEXO M..........................................................................................................251
CADERNOS DE SINAIS DE Nº 2 (1998) + BOLETIM DE SINAIS Nº10 (2006)
SOBRE MEEIROS..................................................................................................251
CADERNOS DE SINAIS DE Nº 2 (1998) + BOLETIM DE SINAIS Nº10 (2006)
SOBRE MEEIROS..............................................................................................251
ANEXO N..........................................................................................................252
CARTA CIRCULAR ABERTA DIRIGIDA AOS COLABORADORES.....................252
CARTA CIRCULAR ABERTA DIRIGIDA AOS COLABORADORES.............252
ANEXO O..........................................................................................................253
OPÚSCULOS “MONASTÉRIOS”.................................................................................253
OPÚSCULOS “MONASTÉRIOS”....................................................................253
ANEXO P..........................................................................................................254
OPÚSCULOS “ZELADORES”......................................................................................254
OPÚSCULOS “ZELADORES”.........................................................................254
ANEXO Q..........................................................................................................255
OPÚSCULOS “SACERDOTES”...................................................................................255
OPÚSCULOS “SACERDOTES”......................................................................255
ANEXO R..........................................................................................................256
OPÚSCULO “ESPELHOS”............................................................................................256
OPÚSCULO “ESPELHOS”..............................................................................256
ANEXO S..........................................................................................................257
OPÚSCULO “RESIDENTES”.......................................................................................257
OPÚSCULO “RESIDENTES”..........................................................................257
ANEXO T...........................................................................................................258
OPÚSCULO “REINOS”.................................................................................................258
OPÚSCULO “REINOS”....................................................................................258
ANEXO U..........................................................................................................259
OPÚSCULO COLABORADORES................................................................................259
OPÚSCULO COLABORADORES...................................................................259
ANEXO V..........................................................................................................260
OPÚSCULO “ABRIGO”................................................................................................260
OPÚSCULO “ABRIGO”...................................................................................260
ANEXO W.........................................................................................................261
OPÚSCULO “ASPIRANTES”.......................................................................................261
OPÚSCULO “ASPIRANTES”..........................................................................261
ANEXO X..........................................................................................................262
OPÚSCULO “HIERARQUIAS”....................................................................................262
OPÚSCULO “HIERARQUIAS”........................................................................262
ANEXO Y..........................................................................................................263
OPÚSCULO “VIGÍLIA”................................................................................................263
OPÚSCULO “VIGÍLIA”....................................................................................263
ANEXO Z...........................................................................................................264
OPÚSCULO “INSTRUÇÃO”........................................................................................264
OPÚSCULO “INSTRUÇÃO”............................................................................264
ANEXO AA........................................................................................................265
ARTIGO DA INTERNET + CÓPIAS XEROX DE ALGUMAS CAPAS DE LIVROS
DE TRIGUEIRNHO SOBRE OVNIS.....................................................................265
ARTIGO DA INTERNET + CÓPIAS XEROX DE ALGUMAS CAPAS DE
LIVROS DE TRIGUEIRNHO SOBRE OVNIS.....................................................265
Capítulo 1

INTRODUÇÃO
1 INTRODUÇÃO

Esta dissertação tem como objetivo apresentar o estudo da comunidade


“Figueira”. Para tanto foram organizados cinco capítulos. A introdução é o primeiro.

No segundo há o histórico de “Figueira”. Traçamos a trajetória pessoal do


fundador da comunidade, trazendo à luz alguns dados da sua biografia, sua
formação de diretor de cinema no Brasil e no exterior, seus trabalhos e obras na
área, seus sucessos e fracassos profissionais até a desistência da carreira de
cineasta e a posterior fundação da comunidade “Nazaré”, de onde foi excluído pelo
próprio grupo devido à sua forma de administrá-la. Após sair da “Nazaré”,
Trigueirinho funda a comunidade “Figueira”, uma organização ainda mais fechada
que a “Nazaré”. Concomitantemente à administração de “Figueira”, Trigueirinho
escreveu dezenas de livros com profecias do fim do mundo e o resgate da terra com
ajuda de extraterrestres. Hoje vive isolado.

Depois, apresentamos a comunidade “Figueira”, propriamente dita, sua


localização geográfica, o número aproximado de residentes, objetivo principal,
extensão territorial, sua fauna e flora, um panorama geral das atividades cotidianas e
os perfis das pessoas que podem participar das rotinas e tarefas.

A estrutura física da comunidade, a utilização do espaço geográfico tem


relação com a organização espiritual e hierárquica. A organização hierárquica segue
o modelo de pirâmide. O líder vitalício Trigueirinho fica no topo (o profetismo tornou-
se sua forma de ascendência), os grupos externos e itinerantes na base e,
intermediando ambos, os coordenadores mais próximos do líder.

Descrevemos a sede, as atividades e funções das casas na área urbana, dos


setores e monastérios nas áreas rurais e dos grupos itinerantes do Brasil e exterior
que se hospedam e participam das atividades da comunidade “Figueira”.
116

A divisão de trabalho, de tarefas e de atividades, descrita neste trabalho, é


conseqüência do desenvolvimento da organização. Uma característica a se destacar
são os conflitos decorrentes do choque de valores do grupo de residentes internos e
do grupo externo itinerante. Outro fator que desencadeia divergências é o interesse
do grupo estar acima das individualidades. Também o modo como as tarefas devem
ser executadas e o tempo de duração das mesmas são previstos pelo grupo de
coordenadores internos, sem espaço para criatividade, liberdade de escolha e livre-
arbítrio, aos grupos de externos itinerantes.

Também apresentamos as formas de subsistência da comunidade: produção


agrícola para subsistência; troca do excedente; doações de alimentos, remédios,
equipamentos, roupas, dinheiro, etc.; mão-de-obra voluntária e gratuita; venda de
livros, fitas k-7, cds, fitas de vídeo (VHS).

Descrevemos a cultura espiritual de “Figueira”, o eremitério, onde vivem os


eremitas em reclusão; seus monastérios femininos e masculinos, reclusos e semi-
reclusos; as regras, normas, disciplinas e hábitos advindos da atividade espiritual; a
formação ou requisitos dos monges, oblatos, zeladores, sacerdotes, seres-espelhos,
residentes, aspirantes e instrutores são outras peculiaridades aqui esclarecidas.

Estivemos pessoalmente em “Figueira”, e constatamos que lá residem mais


ou menos trezentas pessoas. Sua base é a vida grupal, há pessoas de todas as
idades e nacionalidades com diferentes vivências. “Figueira” tem como principal
objetivo ser uma escola de formação e instrução espiritual. Como um centro
espiritual, cultiva o serviço e a vida espiritual.

As terras de “Figueira” localizam-se na cidade de Carmo da Cachoeira,


interior de Minas Gerais, região sudeste do Brasil. Sua área geográfica é,
atualmente, uma fazenda de uns cem hectares. “Figueira” possui fauna e flora
abundantes, plantações para subsistência, casas para alojamento dos visitantes,
bibliotecas para estudo, locais para curas alternativas, laboratórios artesanais e
oficinas de trabalho, obras e manutenção. Os alojamento são simples, tanto nas
casas da cidade, quanto nas da fazenda, e são distribuídos aos visitantes pela
secretaria geral conforme a disponibilidade e necessidades das tarefas internas.
117

Não era e não é permitido, no período em que nos hospedamos ali,


chamadas telefônicas e contatos externos considerados desnecessários por parte
da administração. Não são permitidos telefones celulares, filmadoras, máquinas
fotográficas ou gravadores. Os residentes optaram pelo celibato. Os hóspedes ou
visitantes são obrigados a assumir essa condição enquanto permanecem no local.
Enquanto os visitantes estão ocupando os quartos, são proibidas visitas ao recinto
íntimo. Em “Figueira” não se estimulam intimidades e vínculos emocionais.

O alimento é disponibilizado, de acordo com as estações do tempo, é


plantado em “Figueira” organicamente e sem agrotóxicos. Os frutos da terra não são
comercializados e nenhum dos voluntários que participam dessas tarefas é
remunerado. As refeições são vegetarianas e integrais, sem laticínios, açúcar
refinado, sal, alho, cebola, temperos, café, bebidas alcoólicas ou refrigerantes. Não
são usadas bebidas alcoólicas, drogas ou fumo.

Os que se hospedam em “Figueira” devem levar roupas simples para


trabalhos, agasalhos para trabalhos noturnos ou matinais, relógio para cumprir a
agenda de tarefas, despertador para acordar cedo, lanterna para trabalhos noturnos
e para falta de luz e demais objetos pessoais. O vestuário deve ser discreto.

As tarefas compõem-se de limpeza de casa, preparo de alimentos,


desidratação de legumes e frutas, trabalhos na padaria, lavanderia, marcenaria e
manutenção, horticultura, jardinagem, plantios e colheitas em geral. Mutirões para
aberturas de estradas, radioamadorismo para contatos de emergência, apicultura,
edição e difusão de livros, folhetos, boletins e gravações, recepção de hóspedes,
além de atendimento a pessoas necessitadas.

Todas as atividades são grupais, os estudos e as tarefas são desenvolvidos


nas áreas de trabalho. Aos semi-internos, hóspedes, visitantes itinerantes são
distribuídos tarefas que devem ser realizadas nos seus devidos setores. As tarefas
começam antes que o dia amanheça e seguem até à tardinha. Bem cedo, o grupo
todo coopera na limpeza básica dos ambientes. Só depois é que é servido o café da
manhã. Há refeições ao meio-dia e à noite. O recolhimento para o sono deve iniciar-
se às 20h30min. O silêncio deve ser respeitado a partir das 21h30min.
118

As palestras com Trigueirinho acontecem semanalmente, em especial, no dia


da vigília mensal, nos encontros de oração e nas reuniões dos monastérios. Os
encontros do setor saúde (médicos e terapeutas) realizam-se também
semanalmente. Os encontros de oração ocorrem três vezes ao ano.

Como fomos, por várias vezes, à “Figueira”, constatamos que há uma


organização física por setores. São duas áreas, uma urbana e uma rural na fazenda.
A urbana situa-se geograficamente na cidade de Carmo da Cachoeira, interior de
MG. Encontra-se ali a Casa 1, que foi a primeira sede no início em 1987. Ela é
designada secretaria geral de “Figueira”, coordena e distribui tarefas. Na área rural,
há uma fazenda de mais ou menos cem hectares e há um setor que chama-se “Vida
Criativa”, onde são feitos plantio de hortas, colheita e armazenamento.

Em “Figueira” há, atualmente, sete monastérios. Alguns são reais, físicos,


com localização geográfica precisa, onde vivem os residentes internos; outros são
virtuais, ainda não se materializaram fisicamente, não têm localização geográfica,
são considerados um “modo de vida”, uma filosofia, sem precisar de um local físico
concreto propriamente dito:

O monastério 1 é feminino, semi-recluso. Localiza-se na fazenda e é


chamado Figueira 1 ou F1. Ali há o pátio com uma área aberta e outra reclusa,
sendo esta última o local onde residem monjas, que são desestimuladas a ter
qualquer contato social com o grupo semi-interno e com o próprio grupo interno.

O monastério 2 é masculino, semi-recluso. Localiza-se na fazenda e é


chamado de Figueira 2 ou F2. Há uma área reclusa, onde ficam os monges.

O monastério 3 é misto, eremítico (recluso).Figueira 3 ou F3 localiza-se na


fazenda. É designado eremitério, onde atualmente reside Trigueirinho e mais duas
pessoas. Este trio vive como eremita e não tem contato social com o grupo interno,
muito menos com o grupo externo ou semi-interno. Dos três, apenas Trigueirinho
pode transitar livremente por qualquer setor ou ter contato social com quem bem lhe
aprouver. São permitidos retiros eremíticos em “Figueira”. O interessado deve levar
uma barraca e sua própria alimentação, pois ficará no eremitério sem contato com
ninguém.
119

O monastério 4 é misto, externo. Localiza-se na casa 4, que fica na cidade de


Carmo da Cachoeira.

O monastério 5 é misto, externo. Localiza-se em F1 na fazenda.

O monastério 6 é misto, domiciliar. Localiza-se em cidades distantes da


fazenda “Figueira”.

O monastério 7 é misto, itinerante. Localiza-se em cidades distantes da


fazenda “Figueira”.

A organização “Figueira” está aberta para pessoas abnegadas e úteis que


formam grupos que poderiam ser denominados de semi-internos ou itinerantes,
hóspedes, visitantes, simpatizantes, colaboradores, adeptos, discípulos ou redes de
serviço. Hospedam-se em “Figueira” para ouvir as palestras de Trigueirinho.
Compram livros, executam tarefas, em troca, “Figueira” fornece comida para o corpo
e “alimento” para o espírito.

Percebemos, nas vezes em que visitamos “Figueira”, que Trigueirinho, devido


à sua personalidade forte e a seu carisma, possui ascendência sobre o grupo, está,
portanto, no topo da pirâmide hierárquica. Trigueirinho, por ser cineasta, por viajar
pelo mundo, teve uma vida intelectual, uma cultura mais vasta que os integrantes
de seu grupo, adquiriu mais conhecimentos, mais poder intelectual. A “poder do
saber”, de maior soma de conhecimentos, levou-o a se tornar líder, superior em
relação às pessoas do seu grupo, podendo assim atrair, em torno de si, quantidade
de simpatizantes e a organizar comunidades.

A grande profecia de Trigueirinho, hoje considerado um profeta pelo seu


grupo, fala sobre a “Operação Resgate” da raça humana. Ela salvará o seu grupo do
fim do mundo. Porém para que essas pessoas sejam resgatáveis precisam passar
por uma mudança de comportamento. Essa mudança de padrão de personalidade
têm como finalidade torná-lo humilde, sem liberdade de escolha, sem livre-arbítrio.
Dessa forma passam a aceitar, acatar ordens e funções alheias à sua natureza
individual egoísta e a atender aos objetivos do coletivo, do grupo, e não aos da sua
individualidade.
120

Percebemos que os internos de “Figueira” não lidam com dinheiro, nem


conhecem o valor a moeda nacional. A organização “Figueira”, por sua vez, dispõe
de meios para a obtenção de recursos para a consecução de suas metas. Uma das
formas de arrecadar recursos é através de mão-de-obra voluntária e gratuita, além
de contribuições voluntárias. Outra maneira é o cultivo agrícola para subsistência
própria. A produção excedente é trocada na cidade de Carmo da Cachoeira por
gêneros alimentícios que estejam faltando.

Há, atualmente, poucos residentes em “Figueira”. Não há um número maior


porque, segundo Trigueirinho, no atual momento da civilização, poucas pessoas
conseguem libertar-se, liberar-se do compromisso com a sociedade. A estrutura, a
engrenagem da presente civilização continua exercendo grande influência. Algumas
têm, portanto, que se despojar de encargos e desvincular-se de tendências
retrógradas e antiquadas, segundo Trigueirinho, para corresponder ao que é exigido
do residente. Esta postura emergirá da renúncia das ambições e satisfações
pessoais em função da coletividade.

Os que aspiram à vida no local são chamados aspirantes. Eles devem ter
uma disposição para seguir, sem reservas, com abnegação, com desapego, de
forma altruísta e impessoal, o caminho do serviço. O aspirante deve deixar de lado o
orgulho e o preconceito para servir à humanidade. Deve aprender que a sujeição a
uma organização, a uma ordem, às regras, às normas, a determinadas condutas é
necessária para um trabalho evolutivo e que, impostas num ambiente, servem de
exemplo aos demais.

O terceiro capítulo tem o objetivo de contextualizar, compreender e explicar a


organização “Figueira”. Para tanto utilizamos, como referencial teórico e
metodológico, o interacionismo simbólico. Neste viés estão as pesquisas de Erving
Goffman, autor que enfoca as interações entre atores sociais.

Num primeiro momento, há a biografia de Erving Goffman, o explica e justifica


temas e conceitos teóricos próprios. Assim, alguns dados biográficos ajudam a
entender como a obra deste autor reproduz o status social dele. Uma pesquisa
científica nunca é totalmente dissociada da formação de classe que lhe preexiste, de
tal maneira que a obra encerra sempre a marca da trajetória social do seu autor.
121

Traçamos os princípios e paradigmas do interacionismo simbólico, dando


especial relevância aos conceitos teóricos do livro “A representação do Eu na Vida
Cotidiana”. A abordagem dinâmica constitui uma preocupação dos sociólogos e
antropólogos, por isto optamos por embasar o presente estudo neste referencial
teórico. Joas (1999) sustenta que a teoria deve ser desenvolvida a partir das
observações das interações dos atores sociais na vida real. A finalidade desta
pesquisa é mostrar o que os atores sociais realmente fazem em determinados
contextos, em processos observáveis de interação.

O interacionismo simbólico é uma escola da microssociologia* e introduz um


objeto novo, a situação de interação. Dentro desta visão, a sociologia das
organizações sugere que o funcionamento de uma organização torna-se viável com
a existência de um processo flexível e permanente de negociação entre os vários
atores sociais interessados na forma de divisão do trabalho. A principal tarefa da
sociologia das organizações, dentro da visão do interacionismo simbólico, é a
reconstituição dos processos interacionais, definidos e desdobrados no tempo. A
tese central que o sustenta é a da conversação diplomática, o que mantém a
instituição contínua da sociedade. O que tem por objetivo manter a continuidade da
instituição da sociedade. (JOAS, 1999)

Segundo Joas (1999), a interação social é um processo que condiciona o


comportamento humano. O ator social tem um “eu” (self), que se torna objeto para si
mesmo, comunica-se consigo próprio e age em relação a si. O “eu” (self) precisa de
uma visão reflexiva; o ator social, através de um processo de self-interaction,
interage com o mundo e com outros. Nessa interação, define o significado das
coisas. Por isso há influência das pesquisas dessa corrente na antropologia e na
sociologia. Sua tarefa central é identificar o que na sociedade condiciona os
comportamentos individuais do ator social, o que nele faz diferença para aspectos
coletivos da sociedade. O quanto o comportamento individual, a interação social e o
ator social são afetados pela estrutura social e também como os atores sociais
podem, através de seus comportamentos, individual e coletivo, alterar as estruturas

*
Referimo-nos à microssociologia para apontar diferentes vertentes teóricas que surgem após a
crise dos clássicos, sobretudo Durkheim e Weber nas primeiras décadas do século xx. A
microssociologia desenvolveu-se sobretudo no interior da escola de Chicago onde surgiram
vertentes tais como o evolucionismo psicológico, quantativismo, condutivismo.
122

em que atuam. Não é possível conceber o ator social sem a sociedade e a


sociedade sem o ator social. Os dois são gerados na interação. Há influência do ator
social na sociedade e vice-versa. A partir da interação, a natureza dual da relação
ator social e sociedade gera o processo de individualização que é derivado da
socialização (JOAS, 1991).

Goffman delimita um campo de estudo propriamente sociológico centrado nas


situações, na análise das relações sociais em termos de ações recíprocas. Em seu
estudo sobre os rituais de interação, examina o trabalho de construção da face
(GOFFMAN, 1999). O termo face é determinado pelos valores percebidos numa
interação com o ator social. A face dá indícios da identidade, do self formado por
características sociais reconhecidas e aceitas pelo grupo de atores sociais. As
regras do grupo determinam as faces apresentadas em interação.

O livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” serve de orientação para


estudar a vida social sob o ponto de vista da manipulação da impressão aplicável a
qualquer estabelecimento social concreto, poderia servir como uma referência a ser
utilizada no estudo de casos da vida social institucional.

Um estabelecimento social é qualquer lugar no qual se realiza regularmente


uma forma particular de atividade. Nesse espaço há uma equipe de atores que, em
conjunto, apresenta-se à platéia utilizando regras de comportamentos social. Há
uma região onde é preparada a representação. Também há uma área onde essa
encenação é apresentada. A entrada nessas regiões é vigiada para evitar que a
platéia ou o auditório veja os bastidores. Entre os membros da equipe há certa
conivência, fidelidade, lealdade, vigilância para que os segredos que possam
prejudicar a representação não venham a público.

O ponto de vista do livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” é o de


uma representação teatral, na qual se utilizam premissas, axiomas, princípios de
caráter dramatúrgico. No palco se apresentam simulações. O ator social se
apresenta sob uma máscara de um personagem social para personagens sociais,
projetados por outros atores sociais, a platéia social.

Em quarto lugar, buscamos na obra de Goffman, publicada no livro “Prisões,


Manicômios e Conventos”, trazer à luz as categorias de análises que poderiam
123

definir as instituições totais. A característica marcante de uma instituição total é o


condicionamento da vida dos indivíduos através da imposição de regras internas
para as interações. Neste ambiente institucionalizado, a face, o “eu”, o self, a
identidade é ameaçada ou deteriorada, podendo ser estigmatizada por parte ou por
todos os membros do grupo do qual o ator social faz parte, mesmo que não
apresente características físicas que incentivem tais atitudes.

Em termos conceituais mais detalhados, limitam suas próprias atividades num


único espaço físico, é um mesmo local de moradia e trabalho, e as regras de
comportamento condicionam a identidade ideológica e filosófica do grupo. Existe um
fechamento em relação à sociedade. Goffman (1999) diz que há importância
sociológica nas pesquisas das instituições totais, porque são locais de
condicionamento dos atores sociais. Normas coletivas e compulsórias condicionam
o comportamento interacional daqueles que pertencem ao grupo.

Também é um objetivo da instituição total transformar o ator social num ser o


mais próximo possível da perfeição idealizada. Goffman (1999) explica que as
normas culturais condicionam como os atores sociais devem agir quando inseridos
num determinado grupo social.

Ao se fazer parte de uma instituição qualquer, um novo processo de


socialização é iniciado, porque começa um processo de adaptação com caráter
permanente a seus padrões de interação. Podemos observar como um ator social
condiciona sua conduta de acordo com as circunstâncias. Isto se explica pelo fato de
o ator social ser flexível e ter a capacidade de se adaptar ao meio social e cultural. O
contexto e a conjuntura social condicionam a atitude e até o pensamento, porque a
instituição exerce domínio sobre o “eu” (self) ou personalidade dos seus membros,
condicionando sua ideologia, cultura, costumes, hábitos, conduta e postura.

Por último, buscamos delinear, superficialmente, o perfil daqueles que se


identificam com comunidades desviantes, os estigmatizados, divergentes, outsiders,
liminares, retraídos, marginais, deslocados, rebeldes, perdidos, desenraizados,
minorias, artistas, etc. Durante a mudança do século XX para o XXI, houve um
período de transição. Dentro desse contexto surgiu Trigueirinho re-anunciando a Era
de Aquário, um movimento tão diverso quanto a contracultura da década de 1960, e
124

com raízes na New Age. Trigueirinho anunciava em suas profecias que a transição
para o milênio aquariano, de amor e fraternidade, seria plena de violência e riscos
para os espiritualmente despreparados. Por outro lado, os que estivessem em
harmonia com a operação resgate, liderada por ele, ingressariam numa nova era de
iluminação espiritual e seriam orientados por seres intra-terrenos, superiores e
avançados, emissários de uma civilização extra-terrestre, cujas espaçonaves eram
os OVNIS, ajudariam a criar uma nova civilização.

Contemporaneamente não existe mais a identificação física do estigma, mas


existem os estigmatizados. São aqueles que por algum motivo não são aceitos em
determinada comunidade, porque se afastam das expectativas sociais, culturais,
econômicas, intelectuais, físicas, etc.Suas resignações sociais podem se manifestar
como um mecanismo de fuga e abandono da sociedade, convergindo para
comunidades desviantes (GOFFMAN, 1988), onde entram em contato com seus
semelhantes formando uma sub-cultura.

Os desviantes sociais, descreve Goffman (1988), orgulham-se de sua rebeldia


e evitam as divergências (Velho, 1974), restringindo-se à proteção auto-defensiva de
viverem isolados numa sub-comunidade. Ali não se sentem mais deslocados como
na sociedade aberta. Sentem-se melhores, superiores, exemplos e modelos de vida
para os atores sociais da sociedade aberta, assim atraem mais simpatizantes.
Turner (1974) diz que a communitas é formada por um conjunto de atores sociais
concretos e idiossincrásicos que, apesar de serem diferentes quanto ao físico e às
personalidades, são iguais do ponto de vista da humanidade comum a todos.
Buscam uma transformação e encontram algo profundamente comunal e
compartilhado: sua alma ou humanidade, sua ‘comum unidade’.

No quarto capítulo, descrevemos o método de pesquisa, criado por Goffman,


para observar de forma participativa as interações. Em primeiro lugar, descrevemos
o procedimento teórico-metodológico Goffminiano utilizado na pesquisa de campo
em “Figueira”. Em segundo lugar, tomamos ciência desta comunidade por
intermédio da cadeira de cinema, da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS
(FAMECOS-PUCRS). Trigueirinho foi um diretor premiado na fase do Cinema Novo
brasileiro, em 1960, com o filme “Bahia de todos os Santos”. Em terceiro lugar, é
importante ressaltar que esta pesquisa é pioneira. Não existiam estudos, ensaios,
125

artigos, textos acadêmicos anteriores sobre esta organização. Tivemos, pois, que
desbravar um novo caminho de pesquisa e construir um novo saber, um novo
conhecimento. O ineditismo tornou-a trabalhosa. Levamos seis anos para realizá-la.
Tivemos paradas que foram muito frutíferas, pois procuramos pôr em prática o que o
sociólogo Domenico de Masi chamou de ócio criativo, isto é, utilizar o tempo de
lazer, o tempo recreativo para criar, produzir sem pressão, sem estresse.

Por curiosidade, um exemplo do esforço que fizemos: Há um livro chamado


“Internados”, de Goffman, editado em Buenos Aires, pela Amorrortu Editores. Na
época, estava esgotado na editora, não foi encontrado na Feira Internacional do
Livro de Porto Alegre em novembro de 2006. Não estava disponível na biblioteca da
PUCRS, UFRGS, Ulbra nem Unisinos. Nenhum dos professores do PGCS, nem os
sebos de Porto Alegre, RS, possuíam um exemplar original ou cópia de tal livro.
Somente encontramos um exemplar, de 1972, em um sebo de São Paulo, SP,
através da internet e enviado via sedex.

Esperamos que esta dissertação possa servir de referência para posteriores


estudos e aprofundamentos sobre o mesmo tema. Podíamos ter optado pelo viés do
‘messianismo’, ou, pelo viés do ‘poder’, estudado por Foucault, ou, ainda, do mesmo
autor , o viés de ‘vigilância e punição’. Ainda, poderíamos ter optado, pelo ponto de
vista do ‘líder carismático’, de ‘communitas e liminaridade’ estudado por Victor
Turner, pelo recorte do ‘desvio de divergência’ de Gilberto Velho, etc, mas
escolhemos o Interacionismo Simbólico e a trilogia de Goffman que trata das
instituições totais, da representação do “eu” na vida cotidiana e do estigma.

Goffman, em sua tese de doutorado na comunidade das Ilhas Shetland,


construiu sua própria metodologia. Apresentou-se aos moradores das Ilhas como um
estudante universitário que desejava obter informação direta sobre a economia
insular. Ele se colocou no próprio espaço da pesquisa de campo, ou seja, no espaço
das interações dos moradores. Ali pôde perceber o infinitamente pequeno, o
evidente e o óbvio. Não utilizou questionários, gravador, câmera de filmar. Tomava
algumas notas escondidas. Mais tarde, já conhecido e mais “participante
observador” do que “observador participante”, vai simplesmente reviver as
interações e relatá-las no seu diário elaborado à noite no silêncio do seu quarto.
126

Goffman teve a oportunidade de observar as crises interacionais que surgem,


por vezes, no meio de pequenos grupos de atores sociais. Ele participava de
atividades mais informais e observou as interações em forma de conversa. A
interação, objeto da atenção de Goffman, denominava-se conversacional. Goffman
observou a interação que ocorrem nos espaços cotidianos e excluiu a preocupação
com as características macrossociológicas da comunidade. Excluiu traços que
distinguiam esta ilha de uma outra e examinou as interações que se assemelhavam
às dos lugares mais impessoais da vida moderna. Goffman rejeitou o tempo e o
espaço, anulou a tradição da história. Dessa forma isolou as característica do
homem interacional puro. Ele observou as interações mais impessoais das Ilhas
Shetland, o resto não lhe interessava. Isto justificava sua posição, de que o seu
estudo se desenrolou na comunidade das Ilhas Shetland, mas não era um estudo da
comunidade das Ilhas Shetland.

Através de indícios sutis das interações, Goffman captou a lógica do ato de


encenação, o conjunto de estratégias para exibir uma imagem social que valorizava
o ator, que causava uma boa impressão, que distinguia um do outro, aspectos por
vezes despercebidos pelos leigos e que não eram considerados relevantes pela
maioria dos sociólogos. No entanto, esses detalhes modificaram o pensar
sociológico no mundo.

Sua pesquisa etnográfica do hospital psiquiátrico para doentes mentais Santa


Elizabeth colaborou para deflagrar a luta antimanicomial no mundo. A junção do
sociólogo e do etologista serviu como uma vantagem a mais para Goffman. A
linguagem do corpo ,em interação, que se observava nas ruas estava conectada aos
contextos antropológicos de todas as interações sociais e isso se tornou um critério
de julgamento das formas institucionais de controle social e dos esquemas
explicativos da socialização.

Este estudo das instituições totais e, particularmente, do mundo dos atores


sociais, denominados por nós como hóspedes e/ou visitantes itinerantes da
comunidade “Figueira”, tem como um dos seus interesses principais avaliar, o mais
possível, a versão sociológica do “eu” (self) em interação na organização “Figueira”.
Ao contrário de Goffman, acentuamos nesta pesquisa o mundo do ator social não-
internado, dos hóspedes e/ou visitantes itinerantes que se hospedam em “Figueira”
127

e que, ao interagirem com os atores sociais ou residentes permanentes – fazendo


parte ou não da equipe dirigente –, entram em conflito em função de diferentes
personalidades, comportamentos, interesses, objetivos, hábitos, costumes, usos,
criando-se, assim, um clima constante de conflito, discórdia, etc.

Apresentamo-nos como colaboradores e ficamos hospedados como alguém


que simpatizava com a cultura espiritual proposta no local, mas evitamos a
intimidade e a amizade, até porque esta conduta é condenada. Colocamos-nos no
próprio espaço das interações, no campo de pesquisa propriamente dito, para fazer
uma observação participante das interações, para verificar como a integração faz a
vida social acontecer. Procuramos nos integrar à vida cotidiana para observar as
interações. Não pudemos usar gravadores, filmadoras, nem fotografar. Estes
instrumentos são proibidos. Também não fizemos questionários, porque chamaria
muita atenção e tiraria a espontaneidade, a naturalidade das pessoas analisadas.
Tomávamos, inicialmente, pequenas notas aqui e acolá escondidas. Mais tarde,
tomávamos notas, no quarto, mesmo estando, quase sempre, em quartos coletivos.
Hospedados e vivendo no meio deles, tivemos a oportunidade e o privilégio de
presenciar comunicações, interações e conversas cotidianas interessantes e
bastante elucidativas da sua cultura ímpar ou singular.

Queremos informar que fizemos uma observação participante das interações


que se passam na comunidade “Figueira”, portanto não realizamos um estudo,
propriamente dito, da comunidade “Figueira." Por esta razão, não pesquisamos as
características macrossociológicas, não levamos em conta o tempo, a história, mas
somente estudamos o espaço e os traços que caracterizam esta comunidade.
Procuramos examinar as interações impessoais que podem ocorrer por divergências
nas relações de poder. Portanto, coletamos informações da organização “Figueira”
seguindo, passo a passo, o método criado por Goffman.

Foram seis observações participantes ao todo no campo de pesquisa. O


tempo de permanência é determinado por eles. A primeira foi nas férias acadêmicas
de verão, porque, obviamente, tínhamos mais tempo e porque nesta época afluem
mais atores sociais à “Figueira”. Realizou-se no primeiro semestre de 2001, em
janeiro, por dez dias consecutivos; a segunda, nas férias acadêmicas de inverno,
também por termos mais tempo, e também por irem mais pessoas para lá nessa
128

ocasião, portanto realizou-se no primeiro semestre de 2001, em julho, por quinze


dias consecutivos; a terceira observação foi no primeiro semestre de 2002, em julho,
também nas férias acadêmicas de inverno, por sete dias consecutivos; a quarta, no
primeiro semestre de 2004, nas férias acadêmicas de verão, em fevereiro, por
quinze dias consecutivos; a quinta foi no primeiro semestre de 2006, em fevereiro,
nas férias acadêmicas de verão, por sete dias consecutivos. A sexta e última foi no
primeiro semestre de 2006, em julho, por cindo dias. Além disso, fizemos duas
pesquisas de campo na comunidade Nazaré, situada na cidade de Nazaré Paulista,
interior do Estado de São Paulo, as quais se realizaram nas férias de verão do ano
2003, mais precisamente em janeiro, por uma semana, retornando novamente em
fevereiro por quinze dias.

Fizemos várias outras pesquisas de campo nos subgrupos ou rede de serviço


de Porto Alegre. Realizamos reuniões com atores sociais do grupo e fizemos
algumas observações participativas nas audições públicas. Também pesquisamos a
bibliografia, exclusivamente utilizada para consulta interna, do grupo de “Figueira” e
das redes de serviço, pesquisamos a bibliografia das obras publicadas por
Trigueirinho, algumas indicações bibliográficas apontadas pelo próprio Trigueirinho
em seus escritos tais como: ‘Revistas de Sinais’, ‘Jornais de Sinais’, ‘Boletim de
Sinais’, textos e artigos na internet, seu filme “Bahia de todos os Santos”, seus VHS,
cds, fitas k-7, seus artigos críticos publicados na Revista “Anhembi”, editada pela
USP, algumas críticas especializadas em cinema sobre sua obra. Quase todas as
fontes citadas estão anexadas para futuras consultas, já que seria muito dispendioso
em termos de tempo e muito oneroso deslocar-se até “Figueira”, além de toda uma
burocracia para entrar lá.

Conforme Becker (1977) aconselha, esclarecemos que a pesquisa foi feita


sob o ponto de vista de hóspedes e/ou visitantes. Este autor enfatiza que a
neutralidade ideal nas pesquisas científicas dificilmente é atingida, tornando assim
necessário informar de qual ponto de vista nos situamos. A presente pesquisa,
portanto, foi feita buscando compreender os atores sociais denominados hóspedes
e/ou visitantes itinerantes que permanecem temporariamente em “Figueira” e que,
ao interagirem com os residentes ou internos, sejam auxiliares ou coordenadores,
entram em conflito em função da sujeição hierárquica. Isto gera um clima de tensão
129

permanente, pois as disciplinas, normas, regras e tarefas impostas pelo grupo de


“Figueira”, liderado por Trigueirinho, condicionam o seus “eus” (self) ou
personalidades.

Quanto às instituições totais, Goffman (1999) salienta que há um interesse


sociológico no estudo delas, porque condicionam os atores sociais. Regras e
normas condicionam o comportamento e o que devem pensar coletivamente em
virtude de pertencerem ou não àquele grupo específico. Nossa tese é que “Figueira”
pode ser classificada, parcialmente, como uma instituição total por possuir muitas
características inerentes a esse fenômeno. O mais importante é a percepção do seu
condicionamento sobre o “eu” (self), sobre o comportamento, o pensamento e até os
sentimentos dos que estão ligados a ela direta ou indiretamente.
Numa terceira instância, definimos as categorias de análise dos ritos da
instituição e dos da interação, as quais foram extraídas do referencial teórico. As
categorias definidas na “representação dos atores sociais” são convergentes às
categorias absorventes das instituições totais. A seguir, fizemos um quadro de
categorias de análises fundamentadas no livro “A Representação do Eu na Vida
Cotidiana”, tais como: manipulação da impressão; representação; regiões e
comportamento regional/estabelecimentos sociais; região frontal/região de fachada;
região posterior/fundo/bastidores; equipe; platéia/observador; segredos; papéis
discrepantes; princípio norteador. As interações dos atores sociais foram
examinadas tomando por base a interpretação teatral, a representação, o
desempenho de um papel e/ou simulação de caráter dramatúrgico.

A “representação dos atores sociais” e as características da instituição total,


no contexto do Interacionismo Simbólico, pressupõem que a situação da interação, a
circunstância, o espaço das controvérsias (os quais têm muita importância para a
sociologia) não deveriam dissociar os ritos de interação e os da instituição. No caso
estudado da comunidade de “Figueira”, não se observou tal dissociação entre os
ritos. Alguns aspectos foram apresentados separadamente apenas para fins
analíticos.

Em quarto lugar, listamos o material empírico e o classificamos em


categorias. Por fim, analisamos as observações de campo que estão divididas em
130

ritos da instituição e ritos de interação e fazemos algumas considerações finais em


forma de análise do material relacionado às categorias.

Mesmo conhecendo o fato de que existem muitas críticas às instituições totais


nesta contemporaneidade, a importância deste estudo, vincula-se ao fato de que:
ainda existem instituições totais no âmbito das organizações sociais que podem ser
consideradas, mesmo que parcialmente, ou em alguma medida, em instituições
totais. Neste sentido, é o Interacionismo Simbólico de Erving Goffman que pode e
deve ser utilizado como referência teórica para o conhecimento de tais instituições
em detrimento dos estudos contemporâneos sobre religião.
Capítulo 2

A COMUNIDADE “FIGUEIRA”
2 A COMUNIDADE “FIGUEIRA”

O presente capítulo tem como objetivo apresentar a comunidade “Figueira”,


para tanto foram organizados subcapítulos.

Primeiro, traçamos a trajetória pessoal do fundador, mostrando alguns dados


da sua biografia, sua formação de diretor de cinema no Brasil e no exterior, seus
trabalhos e obras na área, seus sucessos e fracassos profissionais até a desistência
da carreira de cineasta e a posterior fundação da comunidade “Nazaré”, de onde foi
excluído devido à sua forma absolutista de administrá-la. Após sair da “Nazaré”,
Trigueirinho funda a comunidade “Figueira”, uma organização ainda mais fechada
que a “Nazaré”.

Em segundo lugar, apresentamos a comunidade “Figueira”, sua localização


geográfica, o número aproximado de residentes, seu objetivo principal, sua extensão
territorial, sua fauna e flora, um panorama geral de suas atividades, seu cotidiano,
suas rotinas e tarefas, quais são os perfis das pessoas que poderiam participar
dessas atividades diárias.

A estrutura física da comunidade e a utilização do espaço geográfico têm


relação com a organização espiritual e hierárquica. A organização hierárquica segue
o modelo de pirâmide. O líder vitalício Trigueirinho no ápice (o profetismo tornou-se
sua forma de poder), os grupos externos e itinerantes na base e, intermediando
ambos, os discípulos, os adeptos e os coordenadores mais próximos do líder.

Descrevemos a sede, as atividades e funções das casas na área urbana, dos


setores e monastérios nas áreas rurais e dos grupos itinerantes do Brasil e exterior
que se hospedam e participam das atividades da comunidade “Figueira”.

A divisão de trabalho, de tarefas e de atividades, descrita neste trabalho, é


conseqüência do aumento da organização. Uma característica a se destacar são os
conflitos decorrentes do choque de valores do grupo de residentes e do grupo
133

externo itinerante. Outro fator que desencadeia divergências é o interesse do grupo


estar acima das individualidades. O modo como as tarefas obrigatórias devem ser
executadas e o tempo de duração das mesmas são impostos pela administração e
pelo grupo de residentes aos grupos de externos itinerantes sem espaço para
criatividade, liberdade de escolha e livre-arbítrio.

Também apresentamos as formas de subsistência de “Figueira”: produção


agrícola para subsistência; troca do excedente; doações de alimentos, remédios,
equipamentos, roupas, dinheiro, etc.; mão-de-obra voluntária e gratuita; venda de
livros, fitas k-7, cds, fitas de vídeo (VHS).

Numa terceira parte, focalizamos a cultura espiritual de “Figueira”, o


eremitério, onde vivem os eremitas em reclusão; seus monastérios, feminino e
masculino, reclusos e semi-reclusos; as regras, normas, disciplinas e hábitos
advindos da atividade espiritual; a formação ou requisitos dos monges, oblatos,
zeladores, sacerdotes, seres-espelhos, residentes, aspirantes e instrutores. Por
último, apresentamos a conclusão.

2.1 A COMUNIDADE “FIGUEIRA” E ASPECTOS DA TRAJETÓRIA DO SEU


LÍDER

“Figueira” é uma organização liderada por José Hipólito Trigueirinho Netto.


Ele nasceu em São Paulo, no ano de 1929. Seu pai era um coronel do exército e
professor de português.

Segundo José Inácio de Melo Souza (2003), pesquisador da Cinemateca


Brasileira, Trigueirinho iniciou a carreira de diretor na Companhia Vera Cruz como
auxiliar do produtor Alberto Cavalcanti. Costumava freqüentar a casa de Cavalcanti
em São Bernardo do Campo - SP, onde ele e vários intelectuais conversavam sobre
o destino do cinema brasileiro. Seu estudo de cinema foi no Centro de Estudos
Cinematográficos do Museu de Artes de São Paulo.

Trigueirinho auxiliou o diretor Adolfo Celi no filme “Caiçara”. Foi crítico de


cinema e escrevia artigos para a revista “Anhembi” especializada em cinema
(editada pela Faculdade de Comunicação e Artes da USP). Nas críticas de cinema
134

que escrevia para a revista, sempre se colocava contra o imperialismo norte-


americano e sua indústria cinematográfica. Ajudou em roteiros de documentários;
escreveu um roteiro de propaganda para o Jockey Clube de São Paulo. Em 1953,
ganhou uma bolsa de estudos do Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro para o Centro
Sperimentale de Cinematografia, em Roma.

Trigueirinho morou na Itália de 1953 a 1958, cinco anos, portanto, embora


apenas três fossem suficientes para obter o diploma de diretor de cinema. Em 1956,
colaborou nos “argumentos cinematográficos” da equipe brasileira de produção
internacional coordenada por Joris Ivens, Die Windrose.

Escreveu um “argumento cinematográfico” para “Roma de Notte”, outro para


“Estate Romana”, e fez o roteiro de “Epoca Bella”. O roteiro de “Bahia de todos os
Santos” (1959/1960), seu longa-metragem premiado, foi escrito nessa mesma
época, concorrendo ao Prêmio Fábio Prado, enquanto Trigueirinho realizava na Itália
o documentário “Nasce un Mercatto”.

Visando ao prêmio Fábio Prado, em 1958, para melhor roteiro do filme “Bahia
de todos os Santos”, Trigueirinho retornou ao país para finalização do filme. No
segundo semestre, trabalhou na Rex Filme. “Bahia de todos os Santos” foi filmado
com Jurandir Pimentel (ator que cometeu suicídio após sua atuação em “Bahia”).

Em quatro de setembro de 1958, Trigueirinho solicitou financiamento de dois


milhões de cruzeiros ao Banco do Estado de São Paulo (Banespa), que foi negado.
Em quatorze de maio de 1959, foi pedido, diretamente ao presidente do banco
Banespa, o reexame do roteiro. A Comissão de Moral e Costumes da Confederação
das Famílias Cristãs, que era uma espécie de comissão de censura, colaborou no
reexame do roteiro e concluiu que o mesmo não deveria ser censurado, mas
salientava o fato de o filme poder se tornar grosseiro se não fossem subtraídas
algumas palavras tais como: “Que merda; tem ainda bons peitos; as brancas gostam
de ir pra cama com negro; mas é virgem?; espera que eu vou mijar”. Para fazer
essas modificações, era necessária a concordância de Trigueirinho, a qual se deu
por carta em nove de junho de 1959:
135

Desnecessário seria dizer que, sendo a minha intenção realizar um


documento cinematográfico limpo, despido de qualquer intuito menos limpo,
capaz de vir a representar, em verdade, uma película de cunho altamente
social, estou disposto a exibir, de acordo com a sugestão da Confederação
das Famílias Cristãs, os ‘rushes ’(tomadas), na proporção em que a fita for
rodada (TRIGUEIRINHO apud SOUZA, 2003, p. 7).

Uma semana após a carta de Trigueirinho, o Banespa concedeu-lhe o


empréstimo de dois milhões de cruzeiros. Com o governo da Bahia, Trigueirinho
conseguiu passagens de avião gratuitas para o elenco e técnicos, bem como a
cooperação da Polícia Militar para acomodação do grupo e, ainda, suporte nos
translados na cidade e arredores. As filmagens foram feitas em Salvador entre
novembro de 1959 e janeiro de 1960.

O custo final do filme foi quatro milhões de cruzeiros. Por esse motivo foi
necessário um pedido de empréstimo suplementar de um milhão. A necessidade de
mais recursos devia-se, também, ao convite para exibição do filme na XXI Mostra
Internacional de Veneza, que começaria em agosto do mesmo ano. Esta
participação em Veneza não se concretizou. Trigueirinho pretendia enviar o filme
para os festivais de São Francisco, Berlim e Karlovy-Vary, mas a Divisão Cultural
vetou sua participação no exterior. Em novembro de 1961, o Banco do Estado
enviou a Trigueirinho a cobrança do título de dois milhões de cruzeiros, vencido em
doze de setembro de 1960. “Bahia de todos os Santos” somou-se à lista de
empréstimos insolventes da Carteira de Cinema Nacional. “Bahia de todos os
Santos” atraiu cerca de trezentos mil espectadores somente na cidade de São
Paulo, mas eram necessários novecentos mil para não haver prejuízo. A demora
para saldar a dívida com o banco era conseqüência da espera por vaga nos cinemas
para veiculação de filmes não-comerciais, rotulados como cult pelos exibidores.
“Bahia de todos os Santos” estreou em setembro de 1960, em Salvador, mas
somente em março de 1961 entrou em cartaz em São Paulo. No circuito de Belo
Horizonte, seis meses depois.

Trigueirinho era tido no meio cinematográfico como um cineasta promissor,


Alguns críticos cinematográficos, professores, produtores apostavam na sua
carreira. Por anos, ele foi identificado como um discípulo do mestre Cavalcanti. Os
estudos de Trigueirinho no Centro Sperimentale forneceram-lhe knowhow teórico.
136

Ele era um intelectual afinado com a vanguarda cinematográfica, o viés


rosselliniano. Trigueirinho seguiu, no filme “Bahia de todos os Santos”, as mesmas
preocupações com a estética barroca de Roberto Rossellini e Frederico Fellini.
Segundo confirma em suas palavras, em 1961:

[...] esses homens (Cavalcanti e Rossellini) contribuíram para que eu me


dedicasse de corpo e alma ao cinema. Mas, se sua linguagem fosse
reconhecida em minha fita, isso significaria falta de perfeita assimilação de
minha parte. Cultura é exatamente aprender o máximo, manifestando-se em
seguida através de recursos próprios. Seria absurdo imitar Rosselini e
Cavalcanti, já que, no que se propuseram exprimir, eles foram completos
(TRIGUEIRINHO apud SOUZA, 2003).

O roteiro transcorria no período ditatorial, salientando o candomblé, o


sindicalismo, a greve e a questão racial. Tinha um cunho sociológico ao captar o
homem baiano em suas raízes, levantando o problema da miscigenação,
contextualizando a questão do homem e do humanismo, desenvolvendo uma
vertente do cinema moderno: o documentário social (SALLES, 1988). Enquanto
filmando, criou um novo paradigma para alguns críticos e futuros cineastas em
Salvador, para os quais “Bahia de todos os Santos” se tornaria inspiração.

O diretor Trigueirinho tende a um existencialismo. A busca do homem


rosselliniano de profundas raízes religiosas. Em termos de religião, Trigueirinho não
se declarava católico, tinha interesse pelo hinduísmo. Foi administrador de um
ashram (comunidade espiritual hinduísta formada em torno de um guru) do indiano
Sri Aurobindo, em Salvador. Também não era partidário dos cultos afro-brasileiros.

Traduzia um realismo social na sua concepção do homem ilustrada em obras


como “Francisco, Arauto de Deus” e “Romance na Itália”. Também expressava uma
modernidade em outros aspectos. Seguia a escola neo-realista, a improvisação com
atores não-profissionais, o que favorecia uma maior criação artística. No roteiro,
apareciam cenas de homossexualismo, relações ilícitas, diálogos chulos, cenas
realistas (Miss Collins em camisola). Eram filmes proibidos para menores de dezoito
anos. Para os adultos, talvez fossem uma contribuição intelectual. Para os cultos,
talvez fornecessem uma visão real da Bahia e para os incultos, mostravam a
problemática do mulato, da miscigenação.
137

Trigueirinho prometeu a filmagem do romance de Mário de Andrade “Amar


Verbo Intransitivo”, mas parou em um único longa-metragem:

Com o abandono da carreira por Trigueirinho, várias perguntas ficaram sem


ser respondidas, como, por exemplo, qual o papel do homossexualismo na
construção de um personagem como Tonio, ator protagonista do filme
“Bahia de todos os Santos”? O complexo sexual poderia ser um sentimento
de divisão na identidade nacional do cineasta, dividido entre dois países, o
Brasil e a Itália... (SOUZA, 2003).

Após desistir do cinema, Trigueirinho gerenciou grupos de recursos humanos


em hotéis, onde foi treinador de ‘maîtres’ no SENAC/SP, foi administrador do
ashram-comunidade do guru indiano Sri Aurobindo em Salvador. Trigueirinho ainda
fundou comunidades alternativas. Primeiro, a comunidade “Nazaré Paulista”, depois
“Figueira”. Concomitantemente, escreveu dezenas de livros com profecias do fim do
mundo e o resgate da terra com ajuda de extraterrestres.

2.1.1 A Fundação da Comunidade “Nazaré”

Antes de fundar “Figueira”, Trigueirinho criou a comunidade “Nazaré”, onde


estivemos pessoalmente por duas vezes, na cidade de Nazaré Paulista, interior de
São Paulo.

Inicialmente, o centro da comunidade “Nazaré”, construído em terreno doado


a Trigueirinho em comodato, foi chamado de Comunidade Nazaré (Anexo A) e era
um local de retiro espiritual (SILVEIRA, 2003).

Para organizar “Nazaré”, Trigueirinho utilizou como base o mesmo modelo de


organização da Fundação “Findhorn”, a qual fica ao norte da Escócia. Ele convidou
Sara Marriot, escritora americana, que residia em “Findhorn”, para conhecer a
comunidade “Nazaré”. Sara permaneceu mais uma temporada, somente em 1983,
decidiu fiar e morar na comunidade “Nazaré”. Assim, “Nazaré” passou a contar com
uma co-administradora que seguia também o modelo de “Auroville”, comunidade
criada por Sri Aurobindo na cidade de Pondicherry, Índia. Organização esta que foi,
também, co-administrada pela artista plástica francesa Mira Alfhassa.
138

A comunidade “Nazaré” é uma organização não-governamental (Ong). Conta


com mão-de-obra e contribuições voluntárias (GOHN, 2000). A Ong tem um centro
de vivências onde se realizam workshops e palestras terceirizados, parte do lucro
destas terceirizações serve para a auto-manutenção.

A comunidade “Nazaré” localiza-se numa área de proteção ambiental(APA),


porque havia problemas ambientais existentes na região, esta era uma área de
devastação permanente.Mas apesar disso, pode-se encontrar uma variedade de
animais e plantas. Há poucos anos, a comunidade “Nazaré emprestou parte de suas
terras para o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) objetivando contribuir para a
sustentabilidade ecológica local (PÁDUA, 2003).

“Nazaré” também é um centro ecumênico. Por lá circulam pessoas de várias


religiões, cor, raça, sexo, idade, status social ou econômico e provenientes de várias
cidades do Brasil e de várias nacionalidades.

Na comunidade, há horta e pomar, onde são plantadas verduras, legumes e


frutas sem agrotóxicos. A alimentação é vegetariana e natural. Há um jardim de
ervas com estufa para secagem das mesmas que servirão para tinturas de chás
medicinais. Nesta área, há flores de diversas áreas geográficas do mundo e um
jardim de inverno. Na parte construída, há copa e cozinha industrial, uma padaria
que abastece o local, sala de vídeo, sala de artes e costura, além de lavanderia.
Também uma sala de cura para massagens, uma sala de música e outra de
estudos. Ainda há uma oficina de ferramentas, uma despensa e um centro
comunitário onde as pessoas se reúnem. Os quartos são individuais, alguns com
banheiros privativos A maioria dos banheiros é coletiva. Há uma sala zen especial
para meditações que são feitas em conjunto três vezes ao dia e, finalmente, uma
biblioteca esotérica com vários títulos em inglês, pois a mesma foi organizada por
Sara Marriot.

Segundo alguns integrantes antigos do grupo, houve uma rebelião, com o


apoio de Sara Marriot, contra a administração radical e centralizadora de
Trigueirinho, não lhe restando outra opção que a de se retirar. Assim, em 1987,
Trigueirinho cria e funda a comunidade“Figueira”, situada em Carmo da Cachoeira -
MG, sai definitivamente de “Nazaré”. Quem ficará à testa da administração de
139

“Nazaré” será Sara Marriot até abril de 1999, quando esta retorna ao seu país de
origem, Estados Unidos da América. Em dois de novembro de 2000, com noventa e
cinco anos de idade, faleceu.

Desde sua fundação, “Nazaré” recebe pessoas de várias cidades do Brasil e


do exterior. A sua finalidade é ser uma escola de educação informal. Hoje, a
comunidade tornou-se uma Universidade da Luz, a Uniluz, e continua prestando
serviços através de diversos workshops, cursos e vivência, a principal vivência é a
de residência temporária, que possibilita experienciar, residir e estudar no seu
campus.

A Uniluz é um laboratório experimental de convivência grupal, coletiva e


cooperativa, a experiência de viver valores humanos no cotidiano estimula o trabalho
voluntário, exercitar-se a responsabilidade social. A interação se dá de forma
saudável, propiciando-se uma vivência e experiência ecológica interna e externa.
“Nazaré Uniluz” é uma Ong que pratica a sustentabilidade do viver em coletivo, em
grupo. As interações se constroem e são potencializadas nos encontros teóricos-
experenciais, comprometendo-se dessa forma com a sustentabilidade ecológica do
planeta (SILVEIRA, 2003).

2.2 A ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DE “FIGUEIRA”, ASPECTOS


LOGÍSTICOS, MATERIAIS, ETC.

Estivemos pessoalmente em “Figueira” e constatamos que lá residem


aproximadamente trezentas pessoas, tendo como principal objetivo a formação e
instrução espiritual.

As terras de “Figueira” localizam-se na cidade de Carmo da Cachoeira,


interior de Minas Gerais, região sudeste do Brasil. Sua área geográfica era
originalmente uma fazenda de uns cem hectares. Recentemente, Trigueirinho
adquiriu mais terras.

“Figueira” possui bosques, lagos, matas naturais, plantações, casas para


alojamento, estudos, cura, laboratórios artesanais e oficinas de trabalho. Não está
ligada a doutrinas, seitas, religiões nem instituições. Sua base é a vida grupal.
Cultiva o serviço e a vida espiritual. Lá encontramos pessoas de todas as idades e
140

nacionalidades com diferentes vivências. As tarefas do dia-a-dia são vistas como


sagradas. Não era e não é permitido, no período em que nos hospedamos ali,
chamadas telefônicas e contatos externos considerados desnecessários por parte
da administração.

Não estimulam intimidades e vínculos emocionais. Por essa razão, parentes e


amigos, em geral, ficam hospedados em áreas distintas. Existem pouquíssimas
crianças, porque devem estar prontas para cuidar de si mesmas sem a presença
dos pais e sem dar muito trabalho. São acompanhadas com atenção pelos
encarregados das áreas. Eles até permitem que menores de idade hospedem-se em
“Figueira” e participem dos trabalhos, desde que com o conhecimento e a
autorização escrita dos responsáveis. Os residentes optaram pelo celibato. Os
hóspedes ou visitantes são obrigados a assumir essa condição enquanto
permanecem no local.

As acomodações são simples e rústicas, tanto nas casas da cidade quanto


nas da fazenda, e são designadas aos visitantes pela secretaria geral de “Figueira”
conforme as necessidades das tarefas internas e a disponibilidade de alojamentos.
Enquanto os visitantes estão ocupando os quartos, proíbem-se visitantes ao recinto
íntimo.

O alimento servido é disponibilizado, de acordo com as estações do ano, é


cultivado organicamente e sem agrotóxicos. As refeições são vegetarianas e
integrais, sem laticínios, açúcar refinado, sal, alho, cebola, temperos, café ou
refrigerantes. Não são usadas bebidas alcoólicas, nem drogas, nem fumo. Os
produtos da terra não são comercializados e nenhum dos colaboradores que
compartilham de suas metas é remunerado. Come-se ao redor de bufetes e senta-
se fora da mesa em bancos ou cadeiras, em silêncio. Depois, cada um lava os
utensílios utilizados.

Para solicitar uma temporada, participar de algum treinamento ou seminário,


ou em qualquer estudo, ou mesmo para uma simples visita é preciso seguir certa
burocracia: avisá-los com antecedência prévia e aguardar resposta, pois não
permitem a presença de pessoas sem a devida autorização.
141

Os que se hospedam em “Figueira” devem levar roupas de banho, roupas


simples para trabalhos na lavoura, horta, pomar, estradas, agasalhos para trabalhos
noturnos ou matinais, relógio para cumprir a agenda de tarefas, despertador para
acordar cedo, lanterna para trabalhos noturnos e para falta de luz e demais objetos
pessoais. O vestuário é sóbrio e discreto. Não se permitem maquiagens, decotes,
saias curtas, vestidos curtos, roupas transparentes, shorts, calça de cintura baixa,
miniblusa, saltos altos, etc. Não se permite uso de perfumes, incensos, telefones
celulares, filmadoras ou máquinas fotográficas. Também não se podem usar
gravadores.

Todas as atividades são grupais, os estudos e as tarefas são desenvolvidos


nas áreas de trabalho. Aos semi-internos, hóspedes, visitantes são distribuídos
trabalhos compulsórios diversos, feitos nos setores (serão explicados
posteriormente). As tarefas começam antes que o dia amanheça e seguem até
17h30min. Compõem-se de limpeza de casa, preparo de alimentos, desidratação de
legumes e frutas, trabalhos na padaria, lavanderia, marcenaria e manutenção,
horticultura, jardinagem e plantios e colheitas em geral, mutirões para aberturas de
estradas, radioamadorismo para contatos de emergência, apicultura, edição e
difusão de livros, folhetos, boletins e gravações, recepção de hóspedes, além de
atendimento a pessoas necessitadas. Às seis horas, o grupo todo em conjunto
coopera na limpeza básica dos ambientes. O café da manhã é às 7h30min. Há
refeições às doze e dezoito horas. O recolhimento para o sono tem início às
20h30min. O silêncio deve ser feito em especial a partir das 21h30min.

Palestras com Trigueirinho realizam-se às quartas-feiras e aos sábados, às


dezessete horas; aos domingos, às 11h30min; no dia da vigília mensal às dezessete
horas; nos encontros de oração e nas reuniões dos monastérios às seis horas e às
13h30min. Os encontros do setor saúde realizam-se às quartas-feiras às nove horas
pelos médicos e terapeutas. Os encontros de oração ocorrem três vezes ao ano.
Nestes encontros, há uma palestra com Arthur (nome espiritual do “braço direito” de
Trigueirinho), às seis horas. As reuniões do monastério são feitas no segundo fim de
semana do mês. Às vezes, são realizados, durante o ano, treinamentos e seminários
na área da saúde, alimentação, socorro e sobrevivência em momentos de
catástrofes.
142

Há em “Figueira” uma vigília permanente, uma espécie de meditação, que é


feita dia e noite num bosque de eucaliptos. Os participantes revezam-se de duas em
duas horas. Também, uma vigília mensal realizada por todo o grupo na última
quarta-feira do mês, ocasião em que se dedicam ao silêncio reflexivo. Neste dia,
acontece uma palestra às nove horas com Arthur e uma com Trigueirinho às
dezessete horas. Em ocasiões especiais, mantras são entoados (Anexo B), sons
sem lógica ou sentido. O único lazer e atividade cultural é o coral (Anexo C), com
execução de peças criadas pelo próprio grupo. Criou-se um novo idioma, chamado
por eles de Irdin. É mântrico, sem significação, o que importa é o som utilizado em
repetições orais e no coral que há em “Figueira”. Segundo Trigueirinho:

Irdin, idioma cósmico, usado nos universos confederados. Revestido de


forma adequada ao estado de consciência do planeta onde se manifesta.
Exprime a essência criadora e arquétipos da evolução. Como vibração, está
na origem e na base de todos os idiomas. Palavras e símbolos em irdin
unificam consciências, mundos e ciclos evolutivos. Podem surgir
espontaneamente no interior do homem em decorrência da sua sintonia
com a Lei e com a supraconsciência. É uma comunicação com a vida maior,
a Vida Cósmica, e apresenta-se a nós nesta época em especial à medida
que transcendemos as fronteiras da mente. Em “Figueira”, a maioria dos
mantras foi concebida em irdin (TRIGUEIRINHO, 1997, p. 220).

Também há em “Figueira” tratamentos para revitalização e cura por meio de


medicamentos sutis, homeopatia, florais, chás de ervas e procedimentos
terapêuticos como compressas, enemas (colonterapia), desintoxicação, cuidados
com a coluna, etc. Esses tratamentos são disponibilizados aos que necessitam de
cuidados médicos leves. Há uma unidade específica, chamada “abrigo”, que atende
pessoas traumatizadas ou excluídas pelo caos social, pessoas que procuram
equilíbrio e paz. “Figueira” não é clínica médica, mas lá há médicos voluntários que
também se hospedam e prestam serviços com sua especialidade. “Figueira” não é
um centro de reabilitação, por este motivo não aloja dependentes de álcool, fumo ou
drogas. Eles tampouco têm estrutura para atender casos psiquiátricos (Anexo D).
143

2.2.1 Estrutura Física: Sede, Casas, Setores, Monastérios, Redes de Serviço


no Brasil e no Exterior

Constatamos que existe uma organização física por setores, a qual se divide
em duas áreas, uma urbana, localizada na cidade de Carmo da Cachoeira, interior
de MG; e uma rural, na fazenda.

Na área urbana situa-se, geograficamente, a casa 1, primeira sede em 1987 e


chama-se secretaria geral, pois coordena e distribui tarefas; a casa 2 é uma espécie
de ambulatório; a casa 3 é um local para hóspedes; a casa 4, ou central de
atendência (Anexo E), recebe e distribui doações de remédios, gêneros e roupas e
coordena o abrigo, que atende pessoas necessitadas; a casa 5 é o apiário.

Na área rural, há uma fazenda de aproximadamente cem hectares. No setor


da “vida criativa” são feitos o plantio e colheita, há uma lavanderia, padaria, cozinha
e marcenaria, setor de manutenção, silo para armazenamento de alimentos, estufa
para sementes e setor de ferramentas para horta e pomar. Há também um labirinto
de pedra, onde as pessoas fazem caminhadas reflexivas e terapêuticas.

Em “Figueira” há, atualmente, sete monastérios, alguns são reais, físicos,


localizam-se gepgraficamente em “Figueira” mesmo, onde vivem os residentes
internos; outros são virtuais, não estão materializados, não possuem uma existência
concreta, não tem localização física, nem geográfica, pois são um modo de vida,
uma filosofia, são um estado de consciência, segundo Trigueirinho, sem precisar de
um local físico e/ou geográfico propriamente dito:

O monastério 1 é feminino, semi-recluso. Ali há a prática do yoga (significa


religare ou religação na língua hindi) da entrega, agrega personalidades com perfil
espiritual ou linhagem dos seres-espelhos, seres que devem espelhar na matéria o
arquétipo espiritual puro. Localiza-se na fazenda e é chamado Figueira 1 ou F1.
Também no F1 existe, com a colaboração de médicos e dentistas semi-internos, um
laboratório que produz remédios homeopáticos e florais, um consultório dentário e
um ambulatório. Ali há um pátio, tipo um jardim de inverno, com uma área aberta e
outra reclusa, sendo esta última o local onde residem monjas, que são
desestimuladas a ter qualquer contato social com o grupo semi-interno e com o
próprio grupo interno.
144

O monastério 2 é masculino, semi-recluso, onde se pratica o yoga da


igualdade. Agrega pessoas com o perfil espiritual ou linhagem dos sacerdotes.
Localiza-se na fazenda e é chamado de Figueira 2 ou F2. Há uma área reclusa,
onde ficam os monges do sexo masculino e uma área aberta, onde se realiza plantio
e colheita de ervas aromáticas, temperos, verduras, leguminosas e cereais.

O monastério 3 é misto, eremítico (recluso). Neste pratica-se o yoga da


totalidade. Agrega pessoas com o perfil espiritual ou linhagem dos contemplativos.
‘Figueira 3’ ou F3 localiza-se na fazenda. É designado eremitério, onde atualmente
reside Trigueirinho e mais duas pessoas, uma ex-freira católica já acostumada com
a clausura e/ou vida reclusa e Arthur. Lá ninguém possui sobrenome, todos foram
rebatizados com novos nomes. Este trio vive como eremita e não tem contato social
com o grupo interno, muito menos com o grupo externo ou semi-interno. Dos três,
apenas Trigueirinho pode transitar livremente por qualquer setor ou ter contato social
com quem bem lhe aprouver. São permitidos retiros eremíticos em áreas de silêncio,
junto à natureza. A pessoa deve levar uma barraca e sua própria alimentação, pois
ficará no eremitério sem contato com ninguém.

Arthur sai, esporadicamente, para dar palestras internas. Ninguém do grupo


de internos pode entrar no eremitério. Se quiserem morar lá, deverão viver uma vida
isolada do grupo principal.

O monastério 4 é misto, externo, pratica-se o yoga da ação abnegada. Agrega


pessoas com o perfil espiritual ou linhagem dos guerreiros. Localiza-se na casa 4,
que fica na cidade de Carmo da Cachoeira.

O monastério 5 é misto, externo, pratica o yoga da cura. Agrega pessoas com


o perfil espiritual ou linhagem dos curadores. Localiza-se em F1 na área rural da
fazenda.

O monastério 6 é misto, domiciliar, pratica o yoga do coração. Agrega


pessoas com o perfil espiritual ou linhagem dos instrutores. Localiza-se em cidades
distantes da fazenda “Figueira”.
145

O monastério 7 é misto, itinerante, pratica o yoga do fogo. Agrega pessoas


com o perfil espiritual ou linhagem dos governantes. Localiza-se em cidades
distantes da fazenda “Figueira”. (Anexo F).

A organização “Figueira” está aberta para quem se comporte de maneira


adequada, dócil, obediente, abnegada, submissa, subserviente, subalterna,
subordinada e, ainda, mostre-se útil. Esses grupos podem ser denominados semi-
internos ou itinerantes. Eles se hospedam para ouvir as palestras de Trigueirinho
que são chamadas de partilha. Compram livros e, em troca, “Figueira” fornece
comida e “alimento” para o espírito. O grupo visitante executa tarefas compulsórias,
na maioria braçais, designadas conforme as necessidades e sem prévio acordo com
a coordenação geral. “Figueira” conta com uma equipe de supervisores que
coordena os setores e zela pelo exato cumprimento (em tempo e perfeição) dessas
tarefas (Anexo G).

O somatório dos grupos de visitantes ou itinerantes compõe uma “Rede de


serviços” no Brasil e no exterior que tendem a multiplicar-se. Para participar de uma,
é necessário dedicar-se voluntariamente a assuntos práticos e operacionais.
Trabalhos grupais dão origem às redes que nas horas de caos e catástrofes estarão
preparados para se defrontar com situações que os levarão a uma atuação prática
de socorro. Precisarão contribuir para a sobrevivência coletiva, minimizar o
sofrimento alheio e, segundo eles, auxiliar muitos seres a passarem em harmonia
para outros mundos ou planos de existência.

Os membros de uma “Rede de serviços” são das mais diversas origens. São
estimulados a interiorizar-se e a buscar conhecimento através do estudo espiritual.
Cada um tem tarefas específicas a cumprir como, por exemplo, a sintonização de
mantras, etc., mas forma com os demais um conjunto. Nem sempre devem se tornar
numerosas. Não são criadas para entrar em disputas, discussões ou polêmicas. São
campos de prática para autoconhecimento e para transformações pessoais e,
portanto, coletivas (Anexo H).

No Brasil, são extensões e/ou prolongamentos de “Figueira” e estão


subordinadas à administração da comunidade. É principalmente com a mão-de-obra,
voluntária e gratuita desses grupos externos, semi-internos ou itinerantes que
146

“Figueira” se mantém produtiva, pois seguidamente são convocados para mutirões e


reuniões em regime de internato em Carmo da Cachoeira. As necessidades internas
são supridas com o dinheiro de doações destas pessoas. Com o excedente, eles
ajudam pessoas carentes com doações de remédios, roupas e alimentos.

A rede de serviços de “Figueira” tem prolongamentos e/ou grupos no Céu


Azul, Rua Astolfo Bueno, 20, em Belo Horizonte, Minas Gerais - Cep 31545-350;
Granja Vianna, Rua Otelo Zeloni, 333 - Cep 06351-160 Carapicuíba, SP; São
Carlos, Rua Abrahão João, 1114, Jd. Bandeirantes, São Carlos, SP (Anexo H).

“Figueira” tem contatos para informações no Brasil em Atibaia (SP); Belo


Horizonte (MG); Brasília (DF); Campinas (SP); Campo Grande (MS); Curitiba (PR);
Fortaleza (CE); Gov. Valadares (MG); Jundiaí (SP); Londrina (PR); Montes Claros
(MG); Porto Alegre (RS); Recife (PE); Ribeirão Preto (SP); Rio de Janeiro (RJ);
Salvador (BA); São Carlos (SP); São Paulo (SP); Vitória (ES).

Em Porto Alegre, há cinco grupos: a) grupo de audições públicas quinzenal –


às segundas-feiras, às 19h30min b) grupo de sintonia (mantras) semanal – às
terças-feiras, às 18h30min; c) grupo de sintonia (atributos do monastério) semanal,
às quartas-feiras, às 15h30min; d) grupo de estudos semanal, às quintas-feiras, às
20h; e) grupo de audições públicas quinzenal, aos sábados, às 14h30min. O grupo
principal em Porto Alegre situa-se na Rua São Benedito, 815, loja 05 - Bairro Jardim
do Salso (Anexo I).

As redes de serviço no exterior estão localizadas em várias cidades da


Argentina – Ciudad de Buenos Aires; Buenos Aires, Mar Del Plata; Chaco-Fontana;
Corrientes; Córdoba; Mendonza; Formosa; Misiones - Posadas; Rio Negro - Viedma;
Santa Fé-Santo Tomé.

Há rede de serviços na Austrália – cidade de Sidney; Canadá – cidade de


Victória; as redes de serviço do Chile estão centralizadas em Santiago; Equador –
cidade de Quito; Espanha – cidade de Barcelona e Cáceres; Estados Unidos –
cidade de Tahlequah e Trumansburg; Inglaterra – cidade de Berks; Paraguai –
cidade de Assunção; Portugal – cidade de Colares, cidade de Oeiras, cidade do
Porto; Suécia – cidade de Estocolmo; Uruguai – cidade de Montevidéu; Venezuela –
cidade de Caracas.
147

2.2.2 Organização Administrativa, Hierarquia, Categoria de Membros,


Atividades, etc.

Percebemos, nas vezes em que visitamos “Figueira”, que Trigueirinho, devido


sua personalidade forte e carisma que lhe outorga poder (WEBER, 1979), alcançou
ascendência sobre seu grupo, portanto, está no topo da pirâmide hierárquica. Teve
uma vida mais variada que os integrantes de seu grupo, adquiriu maior soma de
conhecimentos, mais poder intelectual, mais oratória. Era cineasta, viajou pelo
mundo. A posse de mais conhecimentos levou-o a se tornar líder, levou-o a um lugar
superior ao comum das pessoas do seu grupo, reunindo em torno de si
simpatizantes e organizando comunidades há vinte anos(desde 1987), como o caso
de “Figueira”. Já “Nazaré” tem vinte e cinco anos(desde 1982).

A grande profecia de Trigueirinho, hoje considerado um profeta com vários


livros escritos, fala sobre a operação resgate da raça humana, que salvará o seu
grupo do fim do mundo. Para que essas pessoas sejam resgatáveis precisam passar
por uma mudança de comportamento e sujeitarem-se a um ritual de passagem
(TURNER, 1974), a uma disciplina, a um treinamento, a um adestramento, a um
condicionamento, a uma subordinação, a uma reeducação, a uma desconstrução, a
uma desprogramação, a uma despersonalização, a uma purificação, a uma
mortificação, a uma domesticação, a uma homogeneização, a um despojamento, a
um nivelamento, a uma modelagem, a uma uniformidade, a uma igualdade, até
chegar à santidade, à perfeição moral do ser humano. O resgate e mudança de
padrão de personalidade têm como finalidade torná-los humildes, modestos, dóceis
(FOUCAULT, 1979), úteis, maleáveis, obedientes, submissos, subservientes,
flexíveis, sem liberdade de escolha, sem livre-arbítrio, para que aceitem, acatem
ordens e funções alheias à sua natureza vocacional e atendam aos objetivos do
coletivo e não da sua individualidade.

As relações de Trigueirinho com o grupo que dirige estão estreitamente


ligadas às suas qualidades carismáticas e proféticas (QUEIROZ, 1977). Desse
modo, consegue que os internos e externos de “Figueira” cumpram suas normas,
regras quotidianas, e trabalhem em atividades gratuitas e voluntárias com o fim
148

coletivo de transformação dos que transitam por ali em seres humanos resgatáveis.
São os colaboradores semi-internos, externos, itinerantes, autoconvocados ou
visitantes que fazem parte das redes de serviço.

Os grupos externos, visitantes, itinerantes são supervisionados, vigiados


(FOUCAULT, 1984), controlados por um grupo de supervisores, por coordenadores
de setores e por colaboradores internos com o intuito de sujeitá-los, submetê-los,
condicioná-los, dominá-los para que sejam obedientes, dóceis e úteis às atividades
e tarefas necessárias à manutenção de “Figueira”. Obviamente, há um permanente
conflito (VELHO, 1989) entre os desejos, hábitos, necessidades, características e
comportamentos resultantes da interação entre colaboradores internos e externos. O
interesse do grupo está acima das individualidades. O indivíduo encontra-se
subordinado a determinações coletivas, senão haverá sanções privando sua
independência, seu livre-arbítrio.

Os supervisores ou colaboradores são os indivíduos mais chegados a


Trigueirinho. Ajudam ativamente e, em geral, também são dotados de certas virtudes
carismáticas. Também ministram palestras e servem de intermediários entre
Trigueirinho e o restante do grupo, portanto dispõem de certo poder: são
reconhecidamente discípulos de Trigueirinho Dr. José Maria Clemente (médico) e
Arthur. Trigueirinho e os coordenadores procuram organizar os colaboradores
internos e externos, constituindo-os em uma sociedade com direitos e obrigações
estabelecidos de acordo com as instruções dadas por Trigueirinho, que modela, de
certa forma, a comunidade que o cerca.

A quantidade de funções impõe divisão de trabalho e, conseqüentemente, o


aparecimento de uma série de colaboradores internos e externos. Como não pode
assumir sozinho as múltiplas tarefas do setor espiritual e temporal, Trigueirinho
divide-as com os coordenadores. Assim, há um tipo único de estrutura social, com
três camadas superpostas, com Trigueirinho no ápice, os externos ou semi-internos
ou redes de serviço na base. Intermediário a ambos, está um grupo de
coordenadores internos mais chegados, escolhidos por Trigueirinho, pessoas de
confiança. A divisão do trabalho é condição indispensável para que a comunidade se
discipline e possa partir para o resgate do mundo, através da “Operação resgate”.
149

Os coordenadores dos setores de “Figueira”, por sua vez, estão


constantemente sendo mudados por Trigueirinho. Há uma rotatividade, um rodízio
de funções (GOFFMAN, 1999) com o intuito de evitar apego às tarefas, cultivar o
desapego entre os colaboradores e não permitir a possível formação de clãs, como
os que surgiram na Comunidade Nazaré, resultando na exclusão de Trigueirinho. A
centralização (CROZIER,1981) das decisões de Trigueirinho acarretam a falta de
comunicação interna. Há uma barreira entre Trigueirinho e o grupo menos próximo
de forma a não se desenvolver clãs que venham a se insurgir contra a liderança
dele. Suas ordens não podem ser, portanto, criticadas e/ou contrariadas. Os
colaboradores são condicionados a não se comunicarem. Uma das maiores regras
em “Figueira” é o silêncio. Também há um isolamento que priva os colaboradores de
iniciativa e criatividade, porque estão submetidos às regras impostas que regulam a
função, o comportamento, as operações e a forma de realizá-la, seu modo operativo
único ao qual devem conformar-se. A ordem do seu desenvolvimento já está
especificada. Tudo está previsto com bastante exatidão, portanto não há espaço
para a iniciativa pessoal ou para o livre-arbítrio. Para Trigueirinho, o livre-arbítrio
gera um estado caótico, egoísta. Os colaboradores, para serem salvos e resgatados,
devem ceder e entregar seu livre-arbítrio à sua autoridade (HOBBES, 1974).

Trigueirinho torna os limites de “Figueira” muito precisos em função de


experiências negativas passadas que o excluíram da comunidade “Nazaré”. Por
isso, os indecisos não podem ser aceitos. Todos os membros devem manifestar zelo
no desempenho dos deveres. Se um membro recusa obediência, a salvação do
grupo todo é posta em perigo, em jogo. Assim, uma das grandes preocupações de
Trigueirinho é dar ênfase aos limites do grupo, preservando os integrantes do
contato nocivo com as pessoas com ideais contrários. Isto, em parte, determina a
segregação do grupo em relação à sociedade global.

“Figueira”, sob a égide de um novo código cultural, subverte a ordem social


estabelecida, fazendo normas que contrariam a sociedade estruturada. Com isso, o
grupo interno, que possui idéias que conflitam com os valores da sociedade maior,
gera tensão e discordância permanentes com o grupo de externos quando
interagem (JOAS,1999;MERTON,1968).
150

2.2.3 Forma de Subsistência, Trabalho Voluntário e Gratuito

Percebemos, nas vezes em que visitamos “Figueira”, que os internos não


conhecem o valor do dinheiro, não lidam com ele, nem conhecem a moeda nacional
atual. Só alguns poucos administram contas bancárias. São os que trabalham na
secretaria, que fica na Casa 1, na área urbana. Eles precisam, eventualmente, sair
para realizar compras para os que permanecem na fazenda, os quais não podem
sair nunca, nem em feriados, nem de férias, etc.

Embora os internos desconheçam valores monetários, a organização, por sua


vez, dispõe de meios para a obtenção de recursos para a consecução de suas
metas. Uma das formas de arrecadá-los é através de mão-de-obra voluntária e
gratuita, além de contribuições voluntárias. Outra forma são os cultivos agrícolas
para subsistência própria. A produção excedente é trocada na cidade de Carmo da
Cachoeira por gêneros alimentícios que estejam faltando.

Para se manter economicamente “Figueira” tem, também, como um de seus


meios de vida, a venda de livros. Possui uma editora própria – Irdin Editora Ltda.
(Anexo J) - São Paulo - CGC 01303476/0001-64, sem fins lucrativos. Atualmente,
estão em circulação, dois milhões – segundo Trigueirinho – de exemplares no Brasil,
em Português, pelas editoras Pensamento, Nova Cultural, Círculo do Livro e Irdin; e
em espanhol, na Argentina, pela Editora Kier. Parte dessa obra começa a ser
lançada em inglês pela Irdin Editora, e em francês pela Éditions Vesica Piscis. A
Irdin também comercializa 572 gravações feitas ao vivo de palestras de Trigueirinho.
Em todos os setores, há expositores e preços à mostra, induzindo à compra por
impulso de livros. Abaixo, está transcrito um pedido de colaboração para o setor de
difusão de livros e fitas (Anexo K):

O setor de Difusão de Livros e Fitas de “Figueira” tem como meta (...) a


venda de livros e fitas (...) Nossa proposta para o corrente ano de 2001 é a
seguinte: levantar recursos para vendas por preços simbólicos de 14.500
livros de Trigueirinho, cujo total é R$ 64.000,00; 1.350 livros do Dr. José
Maria Campos (Clemente), cujo custo total é de R$15.000,00. Formas de
participar: comprar livros e doá-los por iniciativa individual (...) Qualquer
quantia é bem-vinda.
151

Também são vendidos em “Figueira” fitas de vídeo (VHS), cds, fitas k-7 com
gravações ao vivo das palestras de Trigueirinho para divulgação da obra dele. Além
disso, têm sido organizadas audições dessas fitas em outras cidades,
complementando essa divulgação. Também há, às dezessete horas, aos domingos,
uma partilha de Trigueirinho numa rádio da internet, chamada Rádio Mundial FM 95.
7 AM 660. Pode-se escutá-la no site www.radiomundial.com.br (Anexo L).

Outra forma de “Figueira” manter-se produtiva dá-se pela presença dos


meeiros (Anexo N). Os residentes internos e os grupos de itinerantes não conhecem
profundamente as técnicas de agricultura. Os meeiros conhecem e fazem um
trabalho cooperativo. Os participantes dessas frentes de trabalho, em geral
camponeses, reúnem-se com os responsáveis pelo setor de plantios para o
planejamento do ano agrícola. A partir daí, cada um assume a sua parte. A maioria
encontra nessa cooperação uma forma de complementar seus meios de
subsistência, enquanto outros se colocam como voluntários pela simples
oportunidade de ajudar o próximo. Usam técnicas naturais de cultivo e abastecem-
se de alimentos sadios, sem circulação de dinheiro. Devidamente processadas,
frutas da região são conservadas para consumo durante o ano todo. Parte do grupo
de “Figueira” dedica-se ao trato das árvores frutíferas, ao passo que as famílias dos
meeiros elaboram os produtos e os embalam para armazenagem. Grãos como
arroz, milho e feijão são semeados após o devido preparo da terra feito por tratores,
enquanto mutirões formados por meeiros e membros do grupo de residentes e
visitantes encarregam-se das capinas e colheitas. Abóbora, amendoim, batata,
inhame, mandioca e milho foram incluídos nesses plantios a pedido dos próprios
meeiros. Recentemente, outras atividades são oferecidas a eles nos mesmos
moldes, tais como a produção de leite de soja e a confecção e conserto de roupas.
O setor de plantios e sementes, com a ajuda dos colaboradores, residentes ou
visitantes que se apresentam, cuida do cultivo de alimentos não apenas para
hóspedes e moradores, mas também para famílias carentes da região. O volume de
tarefas realizadas por esse setor é considerável, e nelas procura-se preservar as
sementes originais, respeitar a vida do solo e da natureza em geral. Em 2002, foram
produzidas 77 toneladas de grãos, além de hortaliças e frutas de modo natural e
sem agrotóxicos.
152

Ainda, para manter sua fazenda produtiva, “Figueira” conta com a mão-de-
obra voluntária de grupos urbanos de serviço. São grupos rotativos provenientes de
cidades próximas chamados também de redes de serviço. Eles fazem mutirões para
tarefas variadas, como construções e aberturas de estradas e produção orgânica.

Não há pagamento de taxas para nenhuma atividade nem para hospedagem.


Isso pode ocorre devido ao trabalho voluntário e gratuito de todos os grupos que
também fazem doações espontâneas em dinheiro, roupas, gêneros alimentícios,
remédios ou equipamentos, etc. Com relação às doações, apresentamos transcrição
de carta-aberta (Anexo N) dirigida aos colaboradores, solicitando contribuições e/ou
doações:

Aos colaboradores de “Figueira” (...) faz-se notar que algumas providências


devem ser tomadas para que a água não venha a faltar em “Figueira” (...) A
ampliação do sistema de abastecimento de água pressupõe, entre outros
itens: a construção de um novo reservatório com capacidade de 500 mil
litros, para suprir F1 (Figueira 1 – monastério feminino) e F3 (Figueira 3 –
eremitério), no valor aproximado de R$ 80.000,00 (2001). A instalação de
quatro rodas de água, com suas respectivas barragens, para completar o
bombeamento sem uso de eletricidade. Bombas e 4.500 m de tubulações e
conexões, tanto para interligar a rede de abastecimento das áreas recém-
incorporadas com a já existente, quanto para redimensionar a rede atual. A
concretização desse importante projeto custará aproximadamente R$
250.000,00 (2001). Estamos, pois, levando ao conhecimento de todo o
grupo essas necessidades prementes. Qualquer colaboração é preciosa e
pode expressar-se de várias formas: apoio interno, participação na
execução das tarefas do setor água, apresentação de idéias e soluções
técnicas ou ajuda financeira. Para remessa de dinheiro, pode-se usar a
conta 01139-3, Banco Itaú, Agência 3204, de Carmo da Cachoeira/MG, em
nome de Berkman Mendonça Santos e/ou Vera Lúcia Pereira.

2.3 CULTURA ESPIRITUAL DE “FIGUEIRA”

Soubemos, a partir de entrevistas informais com Trigueirinho, que o


desenvolvimento dos monastérios (Anexo O) deveria passar por três etapas
distintas:

− A fase inicial, fundação para a energia espiritual se materializar em nível


físico;
153

− A fase intermediária, expansão da energia espiritual já estabelecida. Essa


é a etapa vivida no momento, a de captação de novos colaboradores;

− A fase de realização, elevação da energia espiritual, que translada a


atividade espiritual para os planos interiores da vida.

Estão previstos sete monges, sete oblatos e sete zeladores para cada
monastério. Na etapa inicial, foi criado o grupo de oblatos (Anexo F), que prossegue
colaborando na construção e no desenvolvimento dos monastérios em todos os
seus níveis. Os oblatos praticam a vida espiritual em meio aos afazeres do mundo e
na vida cotidiana. Oblatos são leigos que se oferecem para servir em ordem
monástica, abnegadamente, sem se ater a estruturas rígidas, nem a formalizações
supérfluas. Um oblato deve ter como função colaborar diretamente na construção e
no desenvolvimento de um monastério. Oblato não é só um posto, título ou posição
dentro da divisão de trabalho grupal, é uma tarefa. Auto-afirmação, orgulho,
idiossincrasias e vaidade não devem interferir na sua tarefa, cujas bases são o
altruísmo, despojamento, o desapego e a prontidão ao serviço impessoal para
atender aos objetivos espirituais do grupo. Anonimato e silêncio são as
características requeridas à personalidade do oblato. Também o recato, a
simplicidade no falar e no agir e a alegria são qualidades que nele devem ser
incentivadas.

Na atual etapa intermediária, foi criado o grupo de zeladores (Anexo P). Cada
monastério contará com sete zeladores. Um zelador pode servir a vários
monastérios ao mesmo tempo. Ele é um defensor do plano espiritual. De maneira
especial, segue a via do despojamento e dedica-se a suprir tudo e todos
incondicionalmente. O zelador deve inspirar-se nos que se devotam
incondicionalmente à vida de serviço. Na sua tarefa, descobre a diferença entre o
vazio humano e a palavra viva que provém da alma. Proferir a palavra é para ele um
objetivo maior, o qual vai desenvolvendo ao praticar a ação correta.

“Figueira” acolhe seres com vocação sacerdotal. A atividade sacerdotal


(Anexo Q), para eles, é interior e desvinculada de organizações cristalizadas e
formalizadas. Por isso, quase sempre trabalham livre de instituições e raramente sua
obra é percebida pelos sentidos externos dos demais. Ela é silenciosa e discreta. A
154

ordenação sacerdotal não é um fato externo. Não se usa um hábito, refere-se à vida
do espírito. O sacerdócio não pode ser ensinado em seminários espirituais da
civilização profana e secular, tampouco pode ser outorgado pelos homens.

Os denominados seres-espelhos (Anexo R) que ali se encontram devem


captar e refletir as energias e leis espirituais. O ser-espelho capta os arquivos do
akasha, o inconsciente coletivo, imaginário ou arquétipos. Todo ser-espelho chega à
revelação da existência desse arquivo. No akasha estão registradas as informações
sobre o universo. Teresa d’Ávila ou Santa Teresa de Jesus, carmelita natural da
cidade de Ávila na Espanha, fundadora dos carmelitas descalças, é considerada, por
Trigueirinho e pelo seu grupo, um ser-espelho e nela muitos têm, em “Figueira”, se
espelhado, se inspirado, como modelo de um ser espiritual perfeito, um caminho de
perfeição como dizia ela em suas obras.

Há, atualmente, poucos residentes no local. Não há um número maior porque,


segundo Trigueirinho, no atual momento da civilização poucas pessoas conseguem
libertarem-se, liberarem-se do compromisso com a sociedade. A estrutura, a
engrenagem da presente civilização continua exercendo grande influência sobre as
pessoas. Alguns têm, portanto, que se despojarem de encargos e desvincularem-se
de tendências retrógradas e antiquadas, segundo Trigueirinho, para ajudar no que é
exigido ao residente de “Figueira”. Esta postura emergirá da renúncia a ambições e
satisfações próprias em função da coletividade. O residente (Anexo S) deve viver
suas provas de renúncia, humildade, humilhação, abnegação em silêncio, sem
tagarelice, sem choro, sem emoções, sem dor. Ao cultivar o silêncio, perceberá que
tanto as experiências positivas como as negativas são fontes de aprendizado e
evolução. O residente deve viver com simplicidade e em simplicidade. Também deve
ordenar e organizar-se no dia-a-dia de tal forma que não tenha dispersões de
energia. Para o residente, as atividades diárias e as provas que advêm do seu
cumprimento são oportunidades de transformação, por isso deve imprimir uma
energia ou qualidade de desapego e renúncia em tudo o que faz, realizando as
tarefas que lhe cabem com dedicação, abnegação e livre de preocupação com os
resultados. O residente deve ser um apoio. Trabalhando em grupo, realiza o
necessário à vida espiritual e presta serviços em conjunto com muitos
colaboradores. No grupo de “Figueira”, amplo e diversificado, o residente representa
155

um catalisador, uma força conjunta voltada para o serviço ao mundo. Um residente


deve renunciar às delícias, ao conforto, aos prazeres da vida. Não deve se envolver
com as coisas materiais. Não deve se apegar ao sono. Deve ser grato pelo alimento
que recebe e pelo qual trabalha, por pior que seja, e deixar de lado a murmuração, a
queixa, a lamúria. Deve empregar bem o seu tempo e prescindir de consolo.

Vários trabalhos grupais servem a todos os reinos (Anexo T), seja animal,
vegetal, mineral, humano, angelical, etc. Trabalhos de plantios, cuidados com
animais, atendimentos às pessoas necessitadas, cura, publicações, entre muitos
outros, realizam-se dessa maneira altruística e abnegada. Essas atividades, em
geral, são feitas em rodízio, segundo as necessidades do momento. Colaboradores
(Anexo U) que moram em diversos lugares vêm participar delas. Médicos, dentistas
e outros profissionais prestam assistência ao grupo de modo gratuito. Todos
compartilham o mesmo ritmo diário de trabalho e estudos.

O “Abrigo” (Anexo V) está a cargo da coordenação da casa 4, ou central de


atendência. Presta serviço aos que foram excluídos ou querem se excluir da
sociedade comum. A energia do local possibilita prestar serviço altruístico, livre dos
apegos que limitam o trabalho em grupo. No “Abrigo”, deve-se trabalhar com
dinamismo, mas sem estresse e sem interferir no caminho dos outros. Também não
se deve buscar reconhecimento para não reforçar o egoísmo, porque esta atitude
torna-se um obstáculo à vida grupal. A colaboração é necessária, pois a tarefa
deverá cumprir-se conforme planejada pelo grupo. A função do “Abrigo” é ajudar
todos a se libertarem, desvencilharem-se, desapegarem-se da sociedade. Muitos
dos que se aproximam estão para se libertarem e necessitam de coragem, ajuda e
reforço. Os que servem devem estar prontos para apoiar os que passam por
tragédias coletivas, porque a contaminação do planeta se agrava, segundo
Trigueirinho, e o efeito das atuais explosões nucleares pode tirar o planeta de sua
órbita gravitacional não fosse a intervenção das tempestades e dos fortes ventos. As
forças da natureza se ativarão para facilitar o trabalho de transformação da Terra.
Alto é o nível de radiação nuclear que a envolve, e as cidades já estão se tornando
inabitáveis.

Os que aspiram à vida em “Figueira” são chamados de aspirantes (Anexo W).


Eles devem ter disposição para seguir, sem reservas, com abnegação e desapego,
156

de forma altruística e impessoal, o caminho do serviço. O aspirante deve deixar de


lado o orgulho e o preconceito para servir a humanidade. Deve aprender que a
sujeição a uma organização, a uma ordem, às regras, às normas, a determinadas
condutas é necessária a um trabalho evolutivo e que, imposta num ambiente, serve
de exemplo aos demais. Perceber que sem elas, o trabalho espiritual não pode
sobreviver aos freqüentes ataques de forças contrárias, destrutivas. O aspirante
deve reconhecer que o condicionamento a uma disciplina hierárquica (Anexo X) é
imprescindível para a transcendência do egoísmo e das preferências de natureza
mental e emocional individuais em detrimento das coletivas e grupais. Quando o
egoísmo é transcendido e as preferências individuais superadas, surge a disciplina
grupal e coletiva. As regras externas tornam-se então menos conflitantes. Enquanto
o egoísmo existir, o aspirante sabe que o abandono da obediência em muito
prejudicaria o seu serviço e colaboração. Ordem, disciplina e obediência devem
fazer parte da vida do aspirante, revelando uma maneira flexível, meiga e cordata de
viver. Ele deve tratar a natureza, as casas, os objetos e seres vivos com cuidado,
mas sem objetivo de posse ou propriedade. Mesmo não sendo dono, não deve
desperdiçar. Deve saber que cada coisa tem seu lugar e valor e usá-las com bom
senso. A desordem e a má utilização são incorreções, imperfeições inaceitáveis.

A vigília (Anexo Y) é um ritual para promover a atitude de meditação, reflexão


ou contemplação. Períodos de vigília criam intensa concentração de força que alinha
o propósito da consciência ou personalidade com o da alma. Calma, paz, harmonia
e relaxamento se estabelecem no ser em vigília, porque a ansiedade por resultados
desaparece, as dúvidas da mente dissolvem-se. Os residentes e colaboradores
revezam-se voluntariamente de duas em duas horas durante as 24 horas do dia
para realizá-la. Na última quarta-feira do mês, o grupo todo, durante o dia inteiro,
dedica-se à vigília, ao silêncio interno e externo. Nesse dia, há duas partilhas
reflexivas a cargo de Trigueirinho.

Em “Figueira”, há por parte de alguns poucos, Trigueirinho, Arthur e


Clemente, a tarefa de instrução (Anexo Z), que vem a ser uma educação adequada
às necessidades. Deve levar em consideração a globalidade do ser e o universo em
que ele se encontra (Trigueirinho é considerado um instrutor). O instrutor deve saber
que o seu trabalho é ajudar os demais a realizarem seus potenciais, suas vocações,
157

suas capacidades latentes, seus propósitos existenciais, seus destinos. A cada


instrutor corresponde um grupo que, para evoluir, usufrui da energia que é
canalizada por seu intermédio. A instrução não é uma atividade acadêmica, restrita e
limitada, mas diz respeito a todos os que querem evoluir transcendendo os
paradigmas impostos pela sociedade. Enquanto a educação diz respeito aos níveis
da personalidade, a instrução diz respeito à alma e ao espírito. Instrução não é
somente doutrinação, mas deve estimular que cada um encontre o conhecimento
dentro de si mesmo.

2.4 CONCLUSÃO

“Figueira” rompeu com os princípios fundamentais da sociedade, abolindo a


propriedade, o casamento e a família. Tornou-se um espaço comunitário singular,
indiferente ao Estado. É uma comunidade composta de indivíduos semelhantes que
formam uma subcultura. A comunidade evoluiu para um estado monástico com o
tempo e o aumento do número de residentes.

Em “Figueira” se confunde submissão com santidade, humilhação com


humildade, pois deve se sujeitar à autoridade de Trigueirinho e demais
coordenadores. O aspirante que deseja viver em “Figueira”, portanto pelas suas
regras, deve devotar-se inteiramente ao serviço pela autodisciplina, oração e
trabalho. Devem viver uma vida em comunhão, desapegar-se da família,
condicionar-se à pobreza, desapegar-se do dinheiro e da propriedade privada,
abster-se do sexo, conseqüentemente do casamento, e de alimentos de origem
animal. Obedecer aos superiores, restringir a conversa e observar o silêncio. A
liberdade, o livre-arbítrio e a privacidade são suprimidos em favor da coletividade.
Capítulo 3

ERVING GOFFMAN - O INTERACIONISMO SIMBÓLICO COMO MARCO PARA A


ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO E DOS RITOS DA INTERAÇÃO
3 ERVING GOFFMAN - O INTERACIONISMO SIMBÓLICO COMO MARCO
PARA A ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO E DOS RITOS DA
INTERAÇÃO

O presente capítulo tem o objetivo de contextualizar, compreender e explicar


a organização “Figueira”. Para tanto, utilizamos, como referencial teórico e
metodológico, o interacionismo simbólico, porque neste viés situam-se as pesquisas
de Erving Goffman, autor eleito em função do seu foco nas interações entre atores
sociais.

Num segundo momento, há a biografia de Erving Goffman e a sua criação de


temas e conceitos teóricos próprios.

Em terceiro lugar, traçamos os conceitos, os princípios e paradigmas do


interacionismo simbólico, dando especial relevância aos conceitos teóricos da
interação social escritos no livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana”.

Em quarto lugar, buscamos na obra de Goffman “Prisões, Manicômios e


Conventos”, trazer as categorias de análises que podem definir as instituições totais:
um mesmo local de moradia e trabalho; fechamento em relação à sociedade; regras,
normas; coação, controle, vigilância; liberdade, livre-arbítrio; despojamento,
nivelamento; papel subalterno humilhante; incompatibilidade com a vida familiar;
desconstrução do eu (self); desculturação; purificação; acomodação, sujeição.

Por último, buscamos delinear, superficialmente, o perfil daqueles que se


identificam com comunidades desviantes, estigmatizados, divergentes, outsiders,
liminares, retraídos, marginais, deslocados, rebeldes, perdidos, desenraizados,
minorias, artistas, etc.
160

3.1 ERVING GOFFMAN - UMA VIDA MESCLADA COM SUA VISÃO TEÓRICA

O histórico da construção da personalidade de um autor é fundamental para a


compreensão da sua obra. Assim, alguns dados biográficos ajudam a entender a
formação intelectual de Erving Goffman: “(...) a reconstituição das ‘forças formadoras
de hábitos’ de um autor é essencial para compreensão da sua obra” (WINKIN, 1999,
p.7).

“A obra de Goffman é uma autobiografia” (WINKIN, 1999, p. 13), pois ele


reproduz nos seus escritos o seu status social. Uma pesquisa científica nunca é
totalmente dissociada da formação de classe que lhe preexiste, de tal maneira que
uma obra científica encerra sempre a marca da trajetória social do seu autor:

(...) pode-se considerar conjuntamente os recursos retóricos característicos


da obra de Goffman e os esquemas predominantes na sua recepção por um
público científico. Essa consideração conjunta permitiria ver mais de perto,
no detalhe, o jogo das figuras do autor que fazem sua aparição no lance de
leitura. Talvez essa atenção ao detalhe possa contribuir para
compreendermos melhor as suposições que fazemos, na nossa sociedade,
sobre esse deus oculto, o autor, já tantas vezes banido, mas que retorna
sempre, com a força redobrada dos mitos (MALUFE, 1992, p. 134).

A biografia de Goffman sugere um estudo de caso que elucidaria a história da


sociologia americana nos anos que sucederam a Segunda Guerra Mundial.
Inicialmente, é a história de um outsider (Becker, 1977) geográfica e socialmente, de
um intelectual que na sua geração subiu ao topo da sua área, tanto institucional
(faculdades de renome, foi presidente da “American Sociological Association”),
quanto cientificamente. Esteve no rol, por anos, dos dez autores mais citados do
Social Science Citation Index: “A obra de Goffman será, tal como a de Freud, a
história autobiográfica de uma ascensão social” (WINKINN, 1999, p.16).

Erving Goffman nasceu dia 11 de junho de 1922, em Mannville, Alberta.


Passou sua infância e os primeiros anos de adolescência em Dauphin, ao norte de
Winnipeg. Seus pais, Max e Ann, nasceram na Rússia, Ucrânia. Dauphin é uma das
primeiras colônias ucranianas de Manitoba, constitui-se, na sua maior parte, de uma
comunidade de mercadores judeus que são, ao mesmo tempo, acolhidos e
discriminados. Goffman cresceu nesse ambiente de oposição camuflada.
161

A família de Goffman mantém relação com a comunidade judaica da


metrópole de Winnipeg. A irmã de Goffman, de nome Frânces, destaca-se, em
Winnipeg, na carreira teatral. Goffman reúne-se a ela em 1936, com quatorze anos,
quando é admitido na “Saint John’s Technical High School”, uma escola progressista
que acolhia em seu estabelecimento os filhos de imigrantes judeus.

Goffman, na “Saint John’s”, é um brilhante e mau aluno, concomitantemente.


Em 1939 ele foi admitido na Universidade de Manitoba, em Winnipeg. Como matéria
principal, elege a química. A sociologia ainda não existia na Universidade de
Manitoba naquela época.

O que nos pareceu mais relevante na sua biografia foi sua experiência de
cinema, em 1943, na “National Film Board” (NFB), produtora de documentários em
Otawa, coordenada por John Grierson. Nessa ocasião, ele aprendeu as técnicas dos
especialistas na arte de representar. Nesta fase, formam-se os primeiros hábitos, a
base intelectual do Goffman, observador de planos, sua compreensão
cinematográfica da realidade. Desvenda a arte de iludir, percebe que a vida social
não é tanto um teatro, mas uma cena dramatúrgica, um filme em montagem. Assim
ele decodificará a vida cotidiana em cenas, em grandes planos de um detalhe, em
jogos de campo/cantracampo entre observador e observado, como se estivesse
realizando filmes documentais. Aliás, ele produziu, através da escrita, documentários
na sua vida restante.

Goffman tem uma forma de observar muito visual, baseada no detalhe que
revela o conjunto ou o todo. Faz-se necessário ter um senso de observação, ter um
“olho clínico” para praticar a sociologia etnográfica, e a vivência no “National Film
Board” lhe oportunizou esse treinamento e conhecimento. Goffman baseia todas as
suas pesquisas, ensaios, estudos, inspirado pelo cinema. Suas obras são,
fundamentalmente, visuais.

Encontramos na obra, o Goffman do “National Film Board”, aquele que adora


ir ao cinema, o cinéfilo, que ilustra as suas palestras com diapositivos que
colecionou na sua vida cotidiana, quantidades de fotografias, retiradas de revistas.
Goffman revelou-se cinéfilo, num longo artigo de 1975, o qual se tornou um livro em
1979: Gender Advertisements. O livro foi fundamentado num conjunto de fotografias
162

de publicidade que mostram as posições nas quais as mulheres são,


sistematicamente, expostas ao consumidor.

A aprendizagem racional da profissão de sociólogo é uma segunda vertente


intelectual de Goffman, que se tornou amigo de um jovem produtor do “National Film
Board”, no decorrer do verão de 44, Dennis Wrong. Este termina, na Universidade
de Toronto, a licenciatura em Sociologia. Ele convida Goffman para visitá-lo.
Goffman aceita o convite. Foi exatamente na época de início das aulas. Aproveitou a
ocasião e conseguiu uma autorização para freqüentar disciplinas isoladas, com as
quais, talvez, poderia obter um diploma de sociologia.

Marcaram a sua vocação de sociólogo dois professores e uma jovem


estudante. O slogan de Charles William Norton Hart, “tudo é socialmente
determinável”, não mais o abandonará. Ele era coordenador dos cursos de
sociologia da universidade, antropólogo formado por Radcliff-Brown em Sidney,
viveu entre 1928 e 1930, numa tribo aborígene, os Tiwis, que habitavam a ilha
Bathurst, norte da Austrália. Ele era meio exótico e excêntrico, tinha uma unha
comprida no dedo mindinho direito, como sinal da sua iniciação na comunidade
tribal. Goffman o admirou. Não só a sua unha, mas todo o seu estilo pedagógico
fascinou o jovem Goffman. Aprofundou-se, de 1944-1945, na leitura do “Suicido” de
Durkheim, que não estava ainda traduzido. É assim que Goffman se iniciou na
sociologia.

Ray Birdwhistell, o segundo professor, o inicia na antropologia. É um jovem


antropólogo de vinte e seis anos que, após terminar sua tese, deu o curso “Relação
entre Cultura e Personalidade”, na Universidade de Chicago. Ele incentivou os
alunos a lerem muitos livros. A singularidade da sua pedagogia estava na maneira
como ele lhes fazia compreender que a instância entre a cultura e a personalidade é
o corpo. A cultura é algo que se incorpora ao corpo nos trejeitos, no seu modo de
portar e comportar.

Dessa forma, os alunos viam-no e ouviam-no andar, caminhava como um


ator, imitava o modo de falar do sul, do norte, imitava um cawboy do oeste. Ele fazia
um show à parte da sua aula – com o único intuito de ensinar e fazer com que os
alunos compreendessem que o social se infiltra, se imiscui nas mínimas atitudes,
163

nas ações corriqueiras, cotidianas. Por isso, até os gestos são suscetíveis de análise
sociológica similar à das instituições.

A observação de índices corporais permitem classificar os seus portadores


segundo a tipologia warneriana, é isto o que ensinava Birdwhistell aos estudantes,
levando-os a um pub perto do campo universitário e pedindo-lhes que
determinassem a classe social dos clientes através do modo como andavam e
através da sua maneira de beber e fumar. Goffman apaixonou-se por esta
pedagogia didática.

Concomitantemente, a esta aculturação intelectual, Goffman viveu uma vida


boêmia e política intensa junto a um grupo de estudantes vindos do oeste do
Canadá. Neste meio conheceu Elizabeth (Liz) Bott, uma estudante de psicologia que
se interessava por antropologia. Liz e Erving foram amigos inseparáveis. A fama de
intelectual de Goffman começou a repercutir no meio estudantil. Achavam-no um
gênio estranho, surpreendente, também pela inteligência vivaz de suas observações
lógicas. Era uma pessoa iluminada, com presença de espírito e, isso, por vezes,
incomodava muito, provocava ciúmes e inveja.

Uma outra característica presente na sua biografia: Goffman lia bastante.


Licenciou-se em junho de 1945, em sociologia, época em que estava em
desenvolvimento a etapa intelectual de Goffman, a do aprendizado racional da
profissão. Já estavam adquiridas as motivações para a leitura intensiva, essencial
para um futuro investigador. Os livros-fetiche apareceram: “Busca do tempo
perdido”, por exemplo. Surgiram os mestres do pensamento também: Durkheim,
Radcliffe-Brown, Warner. Mas, também, mais sutilmente, Freud e Parsons.

Goffman não era casado, ainda, e seus pais financiavam-lhe os estudos, não
precisava trabalhar, ao contrário de muitos dos seus colegas. Dessa forma, ele pôde
entrar para a Universidade de Chicago, para o departamento de sociologia, em
setembro de 1945, onde foi submetido a uma imensa quantidade de mais ou menos
duzentos estudantes.

A Universidade de Chicago centrava-se no mestrado e doutorado. Era


essencialmente uma universidade de investigação. Os cursos eram em forma de
seminários. O objetivo proposto aos estudantes era passar nos exames gerais, para
164

tanto, todos os meios eram auxiliares: os cursos, no departamento ou fora, as


conferências oferecidas aqui e ali, e, sobremaneira, as leituras pessoais e as
discussões entre colegas.

Os estudantes egressos, que foram à guerra e retornaram, ingressando na


Universidade de Chicago, queriam queimar etapas. Eram, na sua maior parte, de
origem humilde, maduros, mais velhos e quase todos casados. Tinham anos a
resgatar econômica e intelectualmente.

Este meio ambiente, esse contexto e circunstâncias de trabalho


desconcertaram o jovem Goffman que não tinha nenhuma experiência da guerra e
do mundo, tinha apenas 23 anos. Por isso, os dois primeiros anos em Chicago foram
muito duros para ele. Estava angustiado, escrevia com muita dificuldade, entregava
os seus trabalhos fora de prazo e faltava às aulas. Os seus professores não
estavam muito satisfeitos com ele, alguns desejavam afastá-lo. No entanto, ele
pareceu ultrapassar a crise e impôs-se, pouco a pouco, junto aos colegas e
professores, a partir de 1947. Quase todos os seus conhecidos eram judeus que, em
quase sua totalidade, viriam a se tornar nomes da sociologia americana conhecidos
nacional, senão internacionalmente.

Naquela época, seus colegas estavam ainda longe de prever seu sucesso
profissional, mas quando, durante um encontro, alguém perguntou: “Quem será
célebre daqui a vinte anos?”, responderam, sem dúvida, com unanimidade: “Erving!”
A frase quase profética traduziu bem a impressão que os amigos tinham de
Goffman. O seu intelecto, aparentemente, impressionou-os de uma maneira ou
outra. Os amigos tornaram-se os primeiros professores de Goffman em Chicago.
Todos liam muito.

Gustav Ichheiser deu um curso de Sociologia da Religião em Chicago e


tornou-se uma das fontes de inspiração de Goffman, que também se entusiasmou
pelo filósofo Kenneth Burke, de quem aprendeu o modelo “dramatúrgico” das
relações humanas de que os homens encarnam papéis, mudam-nos, participam
neles. Goffman referiu-se ao professor Everett Cherrington Hughes como tendo sido
o seu santo patrono em Chicago, uma das filiações intelectuais dele. Com ele
165

aprendeu a importância dos dados. Essas são mais duas chaves para compreender
a obra de Goffman.

Por volta de 1935, o professor Lloyd Warner estimulou Goffman a ler e utilizar
os estudos de Henry Murray, psicólogo junguiano que construiu o Teste de
Apercepção de Temas (TAT), o qual, com a ajuda de antropólogos, tenta separar as
variações culturais e sociais dos determinantes da personalidade. No final de 1949,
percebeu-se a clara influência desta bibliografia na tese de mestrado, de Goffman,
com o seguinte título: “Algumas características das respostas a experiências
representadas por imagens”. Este foi o primeiro trabalho escrito de Goffman.

Antes de tudo, na primeira parte da tese provou o seu conhecimento sobre o


TAT: história, objetivos, potencialidades e limites do teste foram analisados num
estilo sóbrio e denso. Explicou, na segunda parte, como entrou em contato com os
seus sujeitos por telefone, segundo a técnica clássica da “bola de neve”: um nome
leva a outro. Na terceira parte havia uma surpresa: Goffman esboçou a sua própria
interpretação sociológica, pôs de lado o quadro psicológico realista no qual se
analisam habitualmente as respostas às imagens do TAT, fundamentou-se em
Whorf, Sapir, Burke e Cassirer, entre outros.

Goffman pretendeu abarcar o “real”, com suas teorias de “pequeno alcance”,


o momento no qual se diluem os conceitos, o real que se encontra por trás das
situações particulares que os dados mostram, a realidade dos mecanismos e
engrenagens que originam as condutas e comportamentos, que darão origem a
ordem social.

O ano de 1949 foi também o ano de partida para Edimburgo e Ilhas Shetland.
Lloyd Warner estava, de novo, por trás desta viagem. Na Universidade de
Edimburgo, ainda em 1949, abriram um departamento de antropologia social e seu
diretor pediu a um dos seu velhos conhecidos, que lhe enviasse um bom doutorando
que pudesse dinamizar a nova estrutura. Warner sugeriu o nome de Goffman, que
aceitou o convite e aí chegou em outubro de 1949.

Goffman desempenhou todas as tarefas que se esperava de um assistente,


oficialmente colocado como monitor em antropologia social. Mais tarde, chegou à
Universidade de Edimburgo um sociólogo chamado Tom Burns que estava
166

elaborando uma teoria das “relações de troca”, a hipótese era de que os membros
de qualquer interação mantinham a polidez entre si para evitar choques. Essa
possibilidade seduziu Goffman, que pensando sobre ela dirigiu-se às Ilhas Shetland,
norte da Escócia, onde, entre dezembro de 1949 e maio de 1951, fez seu campo de
tese de doutorado.

Percebeu-se, ainda, nesta pesquisa, a influência de Lloyd Warner, seu


orientador. Obviamente, porque o especialista das pequenas comunidades semi-
rurais americanas não tinha desistido do sonho de qualquer antropólogo: estudar
uma cultura insular tal como as pesquisadas por Malinowski, as Ilhas Trobriand e,
por Radcliffe-Brown, as Ilhas Andaman.

Goffman construiu a sua própria metodologia. Ele se apresentou aos


moradores como um estudante universitário que desejava apenas obter informações
sobre a economia da agricultura insular. Ele procurava tornar-se simpático, assim
teve o privilégio de poder observar os conflitos interacionais que surgiam, por vezes,
no meio desses grupos de atores sociais. Porém, os locais de observação que
escolheu não lhe proporcionaram entrar na estrutura social da ilha, somente entrou
nas atividades de lazer extracotidianas reservadas a alguns privilegiados: a vida no
hotel, as partidas de bilhar, os serões. Mas é justamente aí, nessas atividades
cotidianas, que ele vai observar as interações em forma de conversa.

As atividades mais mundanas de um universo interacional essencialmente


familiar são o objeto da atenção de Goffman, as quais ele chama de
conversacionais: “...essa técnica estilística de Goffman como a capacidade para
fazer que um instante banal e insignificante na vida de uma pessoa se transforme
em uma experiência memorável (para o leitor)” (ANDACHT, 2004, p.130).

O que Goffman fez foi observar o desenrolar da comunicação interativa na


atmosfera dos espaços. A expressão de si, que se tornava a impressão para o outro,
era passível de ser manipulada propositalmente, com o fim de desinformar o seu
interlocutor que podia agir de modo similar.

Goffman pretendeu examinar as interações sociais que se assemelhavam


mais às dos lugares mais impessoais da vida moderna. Assim, qualquer interação,
167

torna-se um constante jogo de dissimulação e de enganar, demonstrando uma


sintomatologia social:

O projeto de Goffman aparece, assim, como uma sintomatologia social,


como uma desmedicalização destes sintomas, cujas raízes Freud
mergulhara no inconsciente deixando ver nelas os fundamentos sociais e
culturais. Quando Goffman invoca os lapsos freudianos para dizer que
‘neste jogo quem descobre é freqüentemente melhor do quem dissimula’,
está a dialogar com a psicanálise, reconhecendo-lhe o poder de revelação,
mas pensa acrescentar-lhe uma dimensão sociológica (...) Goffman fala do
social onde Freud fala do inconsciente (WINKIN, 1999, p. 70-71).

Em 1955 viveu ao ritmo dos acontecimentos quotidianos em um enorme


hospital psiquiátrico, Santa Elizabeth, com mais de sete mil camas. De certa maneira
retoma o processo utilizado na sua tese de doutorado.

Em 1956, publicou uma primeira versão de “A Representação do Eu na Vida


Cotidiana”. Organiza o livro, que se torna um novo alicerce conceitual: a famosa
linguagem do teatro (cenário, representação, papel, etc.) o qual tornou Goffman
conhecido e que lhe valeu a denominação de primeiro representante da análise
dramatúrgica. O livro popularizou-se e difundiu-se nas massas estudantis. Em 1959,
Goffman estava intelectualmente amadurecido; a sua intelectualidade e cultura
estavam na sua plenitude. Publicou obras nas quais constatou que é na interação
com o outro que se situa a dificuldade, não na própria pessoa. Em 1961, publicou
“Asylums” e, em 1963, “Estigma”:

Goffman permite que os leitores ‘vejam por si mesmos’, que detectem por
sua própria conta os padrões que ele deseja tornar notáveis e salientes.Tais
técnicas persuasivas ou de predisposição tornam fácil para os leitores
‘chegar as suas próprias conclusões’ - conclusões inteiramente de acordo
com aquelas requeridas por Goffman. Esta é a qualidade sedutora da prosa
de Goffman; é muito fácil ler as coisas à sua maneira (WATSON, 2004, p.
92).

Segundo Malufe (1992), Erving Goffmam desfrutou de um privilégio de ser


reconhecido em vida. Seus primeiros escritos foram tidos como algo novo e valioso.
Dentro e fora dos círculos profissionais da sociologia, foi forte o impacto dos seus
escritos. Sua ascensão profissional foi rápida e esse próprio sucesso acabou por
168

transformar-se em problema para todos os críticos e resenhadores, porque ele


sempre foi polêmico ao longo dos seus trinta e tantos anos de vida acadêmica.

Milhares de exemplares dos seus livros foram lidos em vários idiomas. O seu
sucesso popular veio, surpreendentemente, associado a um interesse acadêmico,
um tipo de associação mais comum de se ver no campo da literatura do que no das
ciências humanas e sociais:

Se a leitura de Goffman é, ao mesmo tempo, fascinante e desconcertante é


porque, sem jamais se afastar dos princípios do ofício do sociólogo, ele
convida a comparar o incomparável, a mudar constantemente o vocabulário
descritivo para que se possa permanecer o mais perto possível da
experiência individual da vida social (JOSEPH, 2000, p. 11).

Recebeu, em 1961, uma das maiores condecorações no meio profissional, a


MacIver Award. Foi autor de onze livros, dentre os quais o maior best-seller da
história da sociologia, “A Representação do Eu na Vida Cotidiana”, traduzido em
quinze idiomas, com vendagem de mais de dois milhões de exemplares. A doença o
vitimou quando estava ocupando o mais alto posto na hierarquia da sociologia
acadêmica - a presidência da “American Sociological Association”. Morreu em 1982,
aos sessenta anos e no apogeu da carreira.

Velho (2004) explica que as pesquisas de Goffman começaram a ser mais


divulgadas no Brasil por volta dos anos 60. A sociologia, no país, possuía naquele
momento o marxismo e o estruturalismo como referência. O nacionalismo e o regime
militar não estimulavam a divulgação de pesquisadores norte-americanos. Nos anos
que se sucederam ao golpe de 64, a tendência era discriminar a produção norte-
americana, tratada como empiricista.

Antropólogos e profissionais da área psicológica passam a se interessar por


Goffman mais para o fim da década de sessenta, a partir de maio de 1968. Há uma
mudança e a valorização de outros tipos de cultura. É a época da contracultura, de
estilos alternativos, aumentando o interesse por uma análise política do cotidiano.
Assim há uma abertura maior em relação a estudos classificados de forma pejorativa
como microssociologia. Começam a ser editados alguns de seus livros. Cresce o
interesse por Goffman, aumentando com isso a aproximação entre antropólogos e a
169

área psicológica. Goffman demonstrou um interesse pela vida cotidiana e a análise


do cotidiano em uma perspectiva sócio-antropológica e das relações interpessoais,
por isso incentivaram-se pesquisas e investigações interdisciplinares... ”Goffman e
Becker (...) não viam como barreiras os limites acadêmicos entre sociologia e
antropologia. Atravessavam-nos e consideravam-nos desnecessários ou até fonte
de mal-entendidos” (VELHO, 2004, p.41).

Goffman tinha interesse por situações humanas particularmente penosas e


empregava procedimentos não-convencionais de pesquisa ou rigor analítico. Na sua
produção percebe-se a presença marcante de um diálogo com os clássicos através
de alusões. Sem assumir uma postura erudita, possui uma linguagem acessível e
trabalhada:

A questão relativa aos costumes sociais da linguagem foi importante para


ele em todo o seu percurso (...) Se a linguagem é, para ele, um objeto de
estudo fundamental, é também o seu principal instrumento de trabalho. É
que Goffman escreve de uma maneira requintada, e este requinte irá
aumentando à medida que a sua obra se constrói. Ele esculpe literalmente
os seus textos, não por preocupação estética, mas para exprimir com a
maior concisão possível, toda a complexidade da realidade social (WINKIN,
1999, p. 98).

O trabalho de Goffman, segundo Gastaldo (2004), evidenciava aspectos da


vida rotineira que não eram relevantes para as ciências sociais, mas ofereceram
uma contribuição valiosa. “Sua descrição etnográfica de um hospital para doentes
mentais deflagrou a luta antimanicomial no mundo” (GASTALDO, 2004, p. 9).

O ponto de vista de Goffman passava despercebido para os leigos, mas


modificou o olhar e o pensar sociológico sobre as interações, “sobre o deslocamento
dos pedestres, sobre a ocupação social dos espaços públicos, sobre a atuação de
vigaristas, mendigos, loucos, espiões e jogadores” (GASTALDO, 2004, p.9).

Sua obra contém força até os dias atuais. Vinte e quatro anos depois de sua
morte, os temas e os conceitos desenvolvidos por ele ainda estão em voga: “(...) é
pelo estudo das civilidades da vida cotidiana que a sociologia de Goffman irrompe
no debate das ciências sociais” (JOSEPH, 2000, p.14).
170

Através das interações sociais, ele percebia a lógica da representação,


captava as estratégias que os atores sociais simulavam para moldar sua imagem
social: os sujeitos sociais se exibiam, encenavam, para impressionar, para se
valorizar.

Bordieux (2004) afirma que a pesquisa de Goffman consistia em olhar de


perto a realidade social e de se colocar no próprio espaço das interações. A
totalidade perfaz a vida social. Ele fez com que a sociologia valorizasse o
infinitamente pequeno, o evidente e óbvio, tornando-se, dessa forma, uma referência
para sociólogos, psicólogos, psicossociólogos e sociolingüistas.

3.2 INTERAÇÃO SOCIAL

Com o objetivo de inserir o Interacionismo Simbólico na perspectiva do campo


organizacional e no contexto da pesquisa social, utilizamo-no como referencial
teórico, porque seu foco são os processos de inter-ação social.

A abordagem dinâmica constitui uma preocupação dos sociólogos e


antropólogos. Segundo Joas (1999), o Interacionismo Simbólico sustenta que a
teoria deve ser desenvolvida observando-se as interações dos atores sociais na vida
real. A partir desse ponto de vista, a finalidade da pesquisa será mostrar o que os
atores sociais realmente fazem em determinados contextos, em processos
observáveis de interação entre eles:

Ao lado das entidades constitutivas da sociologia, que são o coletivo (grupo,


classe, população) e o indivíduo (ator, agente, sujeito), a microssociologia
introduz, pois, um objeto novo, a situação de interação (JOSEPH, 2000,
p.11).

Para esta teoria, as organizações não são regidas por regras únicas. As
ações que a organização realiza são passíveis da interferência do ator social. A
reflexão e o diálogo são necessários para a modificação de regras e normas e,
também, para a sua manutenção e reprodução.
171

A continuidade das organizações, para o interacionismo, está estritamente


ligada à sua reprodução na ação. Seus objetivos organizacionais estão sujeitos a
contradições, apresentam caráter condicional, transitório e podem assumir muitas
formas diferentes: “A existência das organizações depende de sua contínua
reconstituição na ação; se reproduzem na ação e por meio dela“ (JOAS, 1999, p.
162).

Dentro desta visão, a sociologia das organizações sugere que o


funcionamento de uma organização torna-se viável com a existência de um
processo flexível e permanente de negociação entre os vários atores sociais
interessados na forma de divisão do trabalho. “(...) o princípio geral proposto por
essa sociologia das organizações: elas devem ser concebidas como ‘sistemas de
negociação contínua’” (JOAS, 1999, p. 162).

A principal tarefa de uma sociologia das organizações é a reconstituição dos


processos interacionais, definidos e desdobrados no tempo. A tese central é a da
conversação diplomática, a qual mantém a instituição contínua da sociedade. De
outra forma, esse processo encontraria o obstáculo de ser mal-entendido: “(...) de
maior alcance é a tese de que praticamente todos os tipos de ordem social serão
mal-interpretados se o papel dos processos de negociação não for considerado.”
(JOAS, 1999, p.163)

O ponto de vista teórico do interacionismo simbólico de Joas (1999) é que a


interação social é um processo que molda o comportamento humano. O ator social
tem um “eu” (self) que se torna objeto para si, se comunica consigo e age em
relação a si: “O self para Mead surge e se desenvolve no processo da experiência
dos indivíduos e suas ações, portanto no espaço das interações sociais.” (BAZZILLI
et al., 1998, p. 59).

O “eu” (self) precisa de uma visão reflexiva; o ator social, através de um


processo de self-interaction, interage com o mundo, com outros e nessa interação
define o significado de coisas: “Exige-se reflexão e diálogo não apenas para
modificação de regras e normas, mas também para sua manutenção e reprodução”
(JOAS, 1999, p. 162).
172

Existem axiomas que definem a teoria do Interacionismo Simbólico, quais


sejam:

Os atores sociais interagem tendo por referencial o significado que as coisas têm para
eles (casa, carro), até mesmo pessoas (colega ou porteiro), categorias de indivíduos
(simpático, antipático), instituições (faculdade ou prefeitura), virtudes (sinceridade,
integridade);

O significado destas coisas surge da interação social entre atores sociais. O mundo
simbólico (o simbólico não é resultado nem do sujeito consigo, nem do sujeito com o
objeto) é construído nas interações entre dois ou mais atores sociais. O momento no
qual surge o “eu”, ou self, é um processo social que envolve a interação de atores
sociais, o “eu”, ou self, surge através da relação com atores sociais. Os atores sociais
se condicionam mutuamente. A individualidade é baseada nas interações e aquilo que
o “eu”, ou self, faz é condicionado por aquilo que o ‘nós’ constrói socialmente;

Através de um processo interpretativo desenvolvido pelas pessoas em interação,


estes significados são modificados. Num primeiro momento, o ator social estabelece
para si mesmo os simbolismos com os quais tem relação, especifica os significados
que têm sentido para ele, depois seleciona, reagrupa e transforma-os de acordo com
o ponto de vista da situação na qual ele se encontra e que está relacionado com suas
ações;
Quadro 1 - Axiomas que definem a teoria do Interacionismo Simbólico

Essas premissas oferecem uma percepção da sociedade formada por atores


sociais que se engajam em atividades e/ou funções ao interagirem uns com os
outros. Os atores engajados em ações dão início à vida social. A sociedade é vista
como existindo em ação.

As premissas anteriormente elencadas configuram-se uma linha de


pensamento com um núcleo teórico comum, com uma identidade acadêmica:
“Goffman (...) faz das interações sociais o objeto da sociologia como ciência
específica.” (JOSEPH, 2000, p. 17)

Por isso há relevância e influência das pesquisas dessa corrente na


antropologia e sociologia, pois sua tarefa central é identificar o que na sociedade
causa influência nos comportamentos individuais do ator social, assim como o que
no ator social faz diferença para aspectos coletivos da sociedade. O quanto o
173

comportamento individual, a interação social e o ator social são afetados pela


estrutura social e também como os atores sociais podem, através de seus
comportamentos, individual e coletivo, alterar as estruturas em que atuam. Não é
possível conceber o ator social sem a sociedade e a sociedade sem o ator social, os
dois são gerados na interação. Há influência do ator social na sociedade e vice-
versa. A partir da interação, a natureza dual da relação ator social e sociedade gera
o processo de individualização, que é derivado da socialização (JOAS, 1991).

Smith (2004, p. 56) delineia os axiomas sociológicos que Goffman diz serem
necessários para que a ordem social de interação face a face ocorra (Quadro 2):

1º O ator social encontra-se na presença dos outros atores sociais, fornece


informações através da fala ou, de forma subjetiva, as transmite pela própria pessoa,
ou são incorporadas e evidentes para todos ou para alguns;

2º O ator social é um receptor e emissor ao mesmo tempo, delimitando a capacidade


de levar em consideração a atitude dos outros atores sociais presentes;

3º O ator social tentará filtrar a informação que fornece de forma a manipular,


influenciar e controlar a sua exibição.
Quadro 2 - Axiomas sociológicos da interação face a face

Conclui Smith (2004, p. 56) que para que haja interação face a face, os atores
sociais devem ser capazes de sondar, monitorar os outros atores sociais, captar as
atitudes dos outros atores sociais e controlar as informações sobre si mesmos.

Em seu estudo sobre os rituais de interação, Goffman examina o trabalho de


construção da face (GOFFMAN, 1999). Face significa os valores percebidos numa
interação com o ator social. A face dá indícios da observação da identidade, do self,
o qual é formado por características sociais reconhecidas e aceitas pelo grupo de
atores sociais. As regras do grupo de atores sociais é que determinam a aceitação
das faces em interação. Numa instituição total, a face, o “eu”, o self, a identidade é
ameaçada ou deteriorada, podendo ser estigmatizada por parte ou por todos os
membros do grupo de atores sociais, mesmo que a pessoa não apresente
174

características físicas que induzam tal estado. Os egressos de uma instituição total
não estão em condições de recompor a face em função de uma situação psicológica
pouco favorável que viveram e também pelas condições sociais a que estavam
submetidos.

3.2.1 A persuasão entre atores sociais

O livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” pode servir como uma


orientação. A partir dele é possível estudar a vida social do ponto de vista
sociológico da manipulação da impressão, aplicável a qualquer estabelecimento
social concreto. Poderia ser uma referência a ser utilizada no estudo de casos da
vida social institucional.

Um estabelecimento social é qualquer lugar no qual se realiza regularmente


uma forma particular de atividade. Nesse espaço, há uma equipe de atores sociais
que, em conjunto, apresenta-se à platéia utilizando regras de comportamentos
sociais como decoro e polidez. Há uma região onde é preparada a representação,
chamada de fundos. Também há uma onde essa encenação é apresentada,
chamada região de fachada. A entrada nessas regiões é vigiada para evitar que a
platéia ou auditório veja os bastidores. Entre os membros da equipe de atores
sociais há certa conivência, fidelidade, lealdade, vigilância para que os segredos que
possam prejudicar a representação não venham a público. Há certo consenso entre
a equipe de atores sociais e a platéia para manter certo nível de concordância.
Inconscientemente pode haver oposições, discordâncias, aparecendo assim papéis
discrepantes como atores sociais ‘estranhos’ ao grupo. Eles são acolhidos como
simpatizantes, mas na realidade visam apenas obter informações comprometedoras
dos bastidores.

O ponto de vista do livro ”A Representação do Eu na Vida Cotidiana” é o de


uma representação teatral, na qual se utilizam premissas, axiomas, princípios de
caráter dramatúrgico. No palco, simulações são apresentadas. O ator social
apresenta-se sob uma máscara de um personagem social para personagens sociais,
projetados por outros atores sociais, a platéia social.
175

Um estudo sobre as manifestações dramáticas certamente poderá sugerir um


modelo de explicação sobre os momentos em que se deve sorrir, chorar, entonar,
gesticular, etc., como ato de significação social. A expressão dramática, do ponto de
vista social, não segue a norma da racionalidade, mas a de reconhecimento mútuo
dos atores sociais sobre formas de vestir, gesticular, entonar, sorrir, chorar e assim
por diante.

A ação dramatúrgica abrange os seguintes momentos: o palco; ator (papéis


sociais); o texto; as cenas; os meios de expressão. Todos, atores sociais, platéia e
estranhos utilizam-se de técnicas para salvar o espetáculo, por essa razão é
importante selecionar membros leais, disciplinados, discretos e uma platéia sem
criticidade ou discernimento.

Interação para Goffman (1999) é a influência recíproca dos atores sociais


sobre as ações dos outros atores sociais. O papel social pode ser definido como a
promulgação de direitos e deveres ligados a uma determinada situação social.

Para Goffman (1999), há duas fontes de informação sobre o outro na


representação. Uma é quando se tem alguma idéia de quem é a outra pessoa. A
outra vai depender da comunicação que fluir na situação – a partir de sua conduta e
aparência, supondo base na experiência anterior, confiando no que ele diz ou em
documentos.

Goffman (1999) diz, em seus estudos interacionistas, que todo ator social, em
qualquer interação social, representa um papel, exibe-se aos outros atores sociais
de forma estudada, planejada, estratégica, domina as opiniões e conceitos que
possam ter dele. Para realizar esse intuito, utiliza-se de certos meios para
representar sua performance, seu personagem diante de um público. Ele conhece a
arte da persuasão, do contrário seus objetivos verdadeiros se desmascaram, se
desnudam, se desvelam.

Goffman (1999) diz que o método do diretor ou ator social em questão, visa
garantir o mínimo de deslizes durante a representação como, por exemplo, a
habilidade para encarnar o personagem e seu papel de forma espontânea, evitando
gestos involuntários, a presença de espírito e de palco, o saber incitar e acolher
brincadeiras da platéia, se resguardando emocionalmente, essas são habilidades
176

que servem para poder contornar as situações de interação dramatúrgica que,


ocasionalmente, podem ocorrer durante a representação. O ator ou diretor social é
também alguém que possui autocontrole dramatúrgico, com um método e/ou
metodologia que comanda a expressão do rosto e da voz, dissimula a emoção real e
simula uma emoção fictícia.

Goffman (1999) diz que a vida pregressa de um líder espiritual, por exemplo,
pode conter alguns segredos, mistérios, que se forem expostos ao domínio público,
desacreditariam ou, no mínimo, enfraqueceriam a representação do seu papel social
de líder e, conseqüentemente, as pretensões relativas à sua liderança, que como
ator social ou diretor estava tentando projetar. Esses segredos podem envolver fatos
escusos, bem dissimulados ou estigmas que todo mundo percebe, mas aos quais
ninguém se refere.

Segundo Goffman (1999), o ator social ou diretor prudente seleciona,


estrategicamente, o tipo de público crente, puro, sem críticas, sem reflexão, sem
consciência, sem informação, sem lógica, sem racionalizações, que não tenha
pensamento livre e criativo, enfim, que não provoque contrariedades em termos da
apresentação que o ator social ou diretor deseja encenar. Que não lhe coloque em
xeque, não o exponha ao ridículo, não o desmascare, não o desmoralize, etc., só
assim poderá ter êxito e iludir, do contrário, como diz Cohn, será desmascarado:

Se falha o êxito, seu domínio oscila (...) quando decaem (...) a fé dos que
crêem em suas qualidades de líder, então seu domínio também se torna
caduco (...) a autoridade carismática baseia-se na crença no profeta (...) e
com eles cai (COHN, 1979, p.136-7).

Goffman (1999) salienta que, se o público tiver que assistir a apenas uma
ligeira e breve palestra, apresentação, encenação, a possibilidade de uma situação
constrangedora será relativamente pequena e será seguro, para o ator social ou
diretor manter uma fachada falsa.

Há uma técnica padronizada e defensiva de proteção. Ela neutraliza o risco


ou probabilidade de se criar condições que favoreçam a intimidade entre atores
sociais que interagem (Goffman, 1999).
177

Os segredos são informações negativas. O ‘especialista num serviço’, como


um diretor social ou cineasta, por exemplo, informa-se do drama particular dos
atores sociais. Ele tem uma visão da coxia, dos bastidores, observa de camarote o
que se passa, realmente, na vida íntima de cada um. Percebe o que eles tentam
camuflar, com máscaras sociais engendradas estrategicamente, até como defesa
dos seus pontos fracos e vulneráveis. Ele se informa de tudo a respeito dos outros.
Essa informação é um poder, porém os outros não conhecem a sua real e
verdadeira personalidade.

Goffman (1999) diz que qualquer tipo de representação terá diferentes


impactos, dependendo do modo como é dramatizada. Para tanto, estará camuflada
de meios eficientes de exibição. Assim, a forma mais objetiva de poder é,
freqüentemente, um meio eficiente de comunicação que funciona, principalmente,
como uma representação para iludir o público.

3.2.2 Instituições Totais

Goffman (1999) diz que há relevância sociológica nas pesquisas das


instituições totais, porque são locais de condicionamento dos atores sociais, onde
regras e normas de interação social coletiva e compulsória condicionam o
comportamento interacional daqueles que pertencem ao grupo em interação com os
atores sociais ou residentes permanentes. Também é um objetivo da instituição total
a transformação do ator social num ser mais próximo de um ideal de perfeição... “Já
se sugeriu também que um freqüente objetivo oficial é a reforma dos internados na
direção de algum padrão ideal” (GOFFMAN, 1999, p. 70).

Segundo Goffman (1999), as normas culturais condicionam como os atores


sociais devem agir, socialmente, quando inseridos num determinado grupo social.
As instituições totais limitam suas próprias atividades num único espaço físico, e as
regras de comportamento garantem a identidade ideológica e filosófica do grupo:

A adoção das atitudes gerais de um grupo constitui parte essencial da


organização do self, em seu sentido mais complexo, pois provoca no
indivíduo o sentimento de pertencer a uma comunidade ao se apropriar, em
178

sua experiência, de valores institucionalizados por essa comunidade


(BAZILLI et al., 1998, p. 68).

Ao se fazer parte de uma instituição qualquer, um novo processo de


socialização é iniciado, porque adere-se a seus padrões de interação. Podemos
observar como um ator social modifica sua conduta de acordo com as
circunstâncias. Isso se explica pelo fato de o ator social ser flexível e ter a
capacidade de se adaptar ao meio social e cultural. O contexto, a conjuntura social
influencia a atitude e, até, o pensamento do ator social, porque a instituição exerce
seu domínio sobre o “eu” (self) ou personalidade dos seus membros, condicionando
sua forma de pensar, sua ideologia, sua cultura, seus costumes, seus hábitos, sua
conduta, sua postura:

Freqüentemente, pode-se observar como uma pessoa muda de


comportamento, de acordo com as diversas situações dadas. Isto pode ser
explicado pelo fato de fazer parte do indivíduo assumir papéis ou condutas
adaptativas ao contexto social (BAZILLI et al., 1998, p. 63).

A instituição é organizada por grupos e constituída pelas reações dos atores


sociais em reciprocidade com as reações idênticas dos outros atores sociais, tal
como a lei da física “uma ação provoca uma reação na mesma intensidade e sentido
contrário”. Elas formariam as reações em cadeia entre atores sociais, os quais
recebem estímulos sociais e que, por sua vez, constituem as instituições sociais.

Portanto, o domínio ou controle social numa instituição total pode esmagar o


“eu” (self) ou aniquilar sua personalidade, sua autoconsciência, porque se utiliza de
normas e regras reacionárias, opressivas, estereotipadas e ultraconservadoras.
Possui uma forma administrativa rígida e inflexível. Condiciona os “eus” (selfs)
submetidos à sua organização de maneira a inibir ou coibir qualquer indício de
comportamento e pensamentos criativos diferentes daqueles por elas instituídos.
Somente as instituições totais suprimem a divisão entre as diferentes facetas da vida
social e condicionam a participação do ator social sob uma única e mesma
autoridade.
179

Todas as instituições têm tendência ao isolamento, umas mais que outras.


Algumas estão abertas para quem se comporte de maneira servil, outras restringem
a freqüência. Algumas são mais fechadas e nelas há uma obstaculização à
interação social com o mundo aberto, com proibições à saída dos seus membros.
Tais locais Goffman (1999) denominou instituições totais:

Usando a linguagem neutra que constrói para discutir as instituições totais,


Goffman isola uma classe de objetos sociais que têm características bem
definidas em comum, características essas que são empiricamente
observáveis e que podem ser conectadas umas às outras em padrões
verificáveis. Ele sabe fazer ciência (BECKER, 2004, p. 109).

As instituições totais podem ser classificadas em cinco categorias, segundo


Goffman (1999):

1º - As que têm por finalidade cuidar de pessoas incapazes e que não


apresentam uma ameaça à sociedade: casas para cegos, velhos, órfãos e
indigentes;

2º - As que têm por finalidade cuidar de pessoas incapazes que são de


maneira não-intencional uma ameaça à sociedade: sanatórios para hansenianos,
tuberculosos, hospitais psiquiátricos;

3º - As que têm por finalidade isolar pessoas que intencionalmente são uma
ameaça à sociedade: cadeias, penitenciárias, campos de prisioneiros de guerra,
campos de concentração;

4º - As que têm por finalidade fundamentalmente instrumentar, treinar para


uma tarefa específica ou trabalho: quartéis, navios, escolas internas, campos de
trabalho, colônias, kibutz;

5º - Por último, as que têm por finalidade instruir religiosos. Servem, também,
de refúgio do mundo: abadias, mosteiros, conventos e outros claustros como
monastérios, comunidades alternativas, etc.

Em todos os diferentes tipos, o ator social direcionado para o trabalho na


sociedade aberta será desmoralizado pelo sistema da instituição total, porque é
180

incompatível com a estrutura básica de trabalho e pagamento da sociedade aberta


e/ou externa a ela:

Em algumas instituições, existe uma espécie de escravidão, e o tempo


integral do internado é colocado à disposição da equipe dirigente. Neste
caso, o sentido do eu de posse do internado pode tornar-se alienado em
sua capacidade de trabalho (GOFFMAN, 1999, p. 21).

As instituições totais também são incompatíveis com a família, um pilar


fundamental da sociedade aberta. Há vida comunitária, mas não há vida doméstica,
familiar:

Independentemente do fato de determinada instituição total agir como força


boa ou má na sociedade civil, certamente terá força, e esta depende em
parte da supressão de um círculo completo de lares reais ou potenciais
(GOFFMAN, 1999, p. 2).

A instituição total suprime as distâncias físicas de locais apropriados e


separados fisicamente para lazer, trabalho ou família. Todas essas instâncias da
vida cotidiana são realizadas num mesmo espaço e sob uma mesma e única
autoridade.

As atividades cotidianas são feitas em companhia de grupos, e as tarefas não


permitem usar criatividade. Não se respeitam as necessidades humanas individuais
e todas as atividades são realizadas em conjunto.

O desenvolvimento das tarefas é planejado e imposto, hierarquicamente,


através de normas, regras, com o fim de atender às necessidades da instituição.
Como há um contingente muito grande de atores sociais, faz-se necessário que haja
supervisão e/ou coordenação, com o intuito de coagir todos a realizarem, em tempo
e qualidade, o que foi determinado pela autoridade mentora. Por isso, as tarefas são
examinadas, vistoriadas, avaliadas.

O ator social interno é comumente condicionado por um processo sociológico


de despojamento da identidade, para tanto sofre constantes humilhações,
degradações, profanações do seu “eu” (self). A carreira, a vida familiar, as
181

ocupações terapêuticas e a educação do ator social interno são interrompidas,


criando-se, assim, um estado estigmatizado e não há alívio momentâneo de
tensões, como uma vida cultural (estudo, cinema, show, teatro, circo, espetáculo),
social (bailes, reuniões, festividades), afetiva (família, amigos, vizinhos, colegas),
sexual (parceiro(a)), lazer (rádio, TV, internet, telefone), viagens, passeios, livre-
arbítrio, necessidades individuais, cidadania, diretos humanos, dignidade,
criatividade, comunicação, interação:

Nas instituições religiosas, podemos encontrar teorias sofisticadas do ponto


de vista sociológico quanto à necessidade de purificação da alma e
penitência através da disciplina da carne (...) Nos conventos, encontramos
teorias sobre a forma em que o espírito pode ser fraco e forte, e as formas
em que seus defeitos podem ser combatidos (GOFFMAN, 1961, p. 72-309).

Nas instituições totais há sempre um grupo de atores sociais que tem contato
restrito com o mundo externo. São os supervisores que, parcialmente, por questões
de trabalho, são obrigados a ter contato superficial com o mundo externo. Até
mesmo a interação entre os grupos de atores sociais internos residentes e os
supervisores é restrita.

A lacuna, o vazio, o hiato entre os dois grupos de atores sociais é um aspecto


central da instituição total. No entanto, Goffman (1961) diz que há uma
permeabilidade entre os padrões sociais das instituições totais e os da sociedade
aberta, sendo que ambos influenciam-se mutuamente.

Para se definir uma instituição como total, segundo Goffman (1999), ela tem
que ser local de residência e trabalho, ao mesmo tempo, num único espaço físico.
Deve abrigar e obrigar a convivência entre atores sociais em posição de igualdade,
por um espaço de tempo razoável. Eles são confinados, enclausurados, internados,
reclusos, fechados e isolados e não há quase interação social entre si e, muito
menos, interação com o mundo aberto.

O normal na sociedade aberta é que os atores sociais tenham diferentes


locais para trabalhar, morem em locais diferentes do seu trabalho e convivam com
seus familiares em outros locais ainda mais diferenciados, tenham seu lazer em
locais específicos, onde possam encontrar atores sociais diferentes. Mas na
182

instituição total, segundo Goffman (1999), esse espaço físico que divide ou separa
essas diferentes esferas ou áreas da vida diária são suprimidos. Todas as atividades
são realizadas num mesmo local e sob uma mesma administração, portanto essa é
uma das características que serve para defini-la. Segundo Goffman:

Uma instituição total pode ser definida como um local de residência e


trabalho, onde grande número de indivíduos com situação semelhante,
separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo,
levam uma vida fechada e formalmente administrada (GOFFMAN, 1999,
p.11).

As tarefas diárias são obrigatórias e hierarquicamente impostas. São


realizadas em conjunto, ou seja, com um contingente de atores sociais tratados de
forma padronizada, sem levar em consideração suas diferenças, criatividades e seus
livres-arbítrios, além de se estabelecer horários meticulosos para execução dessas
mesmas tarefas, que são impostas com a finalidade de atender aos objetivos e
interesses planejados racionalmente pela direção da instituição.

Através de seus estudos, Goffman (1999) percebeu que, habitualmente,


parece haver uma diferença entre as normas e regras instituídas pela sociedade
aberta e as restritivas instituídas pela instituição total. Talvez, o ator social que não
se adapte ao sistema de regras instituídas por uma instituição total possa não ser
considerado inadaptado pela sociedade aberta, na qual ele agirá como um ator
social comum, porque as regras limitadoras instituídas por uma instituição total
qualquer não são comumente e/ou universalmente aceitas.

As relações nas instituições totais são sempre de superioridade e


subordinação, onde há a expectativa social que o ator social superior exerça
controle sobre o comportamento do ator social subordinado (por ordens, proibição,
etc). Assim, a desobediência ao comando de uma autoridade, na instituição total,
pode resultar em sanções:

(...) fazer com que todos façam o que foi claramente indicado como exigido,
sob condições em que a infração de uma pessoa tende a salientar-se diante
da obediência visível e constantemente examinada dos outros (GOFFMAN,
1999, p. 18).
183

As normas e regras instituídas são aplicadas aos atores sociais ligados a ela
mais ou menos contra a sua vontade e sem o seu consentimento. A capacidade de
fazer regras e de aplicá-las a outros atores sociais representa essencialmente um
poder, uma imposição, um domínio, um controle, porque são impostas,
hierarquicamente, de cima para baixo.

Goffman (1999) diz que o controle, a vigilância, a fiscalização a que são


submetidos os atores sociais são características desses organismos. Há uma
coação ou coerção permanente nas interações dos atores socais. Observa Goffman
(1999) que estes são espaços ímpares onde se criam formas de interações sociais
‘sui generis’, adequadas exclusivamente a esse respectivo local: “O controle de
muitas necessidades humanas pela organização burocrática de grupos completos
de pessoas (...) é o fato básico das instituições totais” (GOFFMAN, 1999, p. 18).

Ao contrário do que acontece na sociedade aberta, salienta Goffman (1999),


as comodidades ou conforto material como objetos de consumo, um banho quente,
uma cama macia, roupas de qualidade, lavada e passada, preferências alimentares
ou objetos de higiene pessoal são suprimidos ao se residir, permanente ou
temporariamente, numa instituição total ou fechada. O ator social não tem opção de
escolha, não tem livre-arbítrio, porque não tem poder para tanto:

Um conjunto de bens individuais tem uma relação muito grande com o eu. A
pessoa geralmente espera ter certo controle da maneira de apresentar-se
diante dos outros. Para isso precisa de cosméticos e roupas (...) em
resumo, o indivíduo precisa de um ‘estojo de identidade’ para o controle de
sua aparência pessoal (GOFFMAN, 1999, p. 28).

O residente de uma instituição total, segundo Goffman (1999), tem sua


interação social restringida ao mundo confinado, isolado, enclausurado, recluso da
instituição fechada. Ele se submete, assim, a uma desprogramação, a uma
despersonalização de sua identidade anterior e é programado e reeducado pelo
grupo de atores sociais coordenadores que o supervisionam, vigiam, controlam,
fiscalizam. Há, como conseqüência, um despojamento, um nivelamento, porque o
ator social perde sua referência e identidade. Há um processo que obriga o
residente a evitar problemas maiores, os quais teria, certamente, se tentasse impor
184

sua vontade. Então ele se cala, abre mão dos seus direitos, vontades e preferências
para se proteger de possíveis sanções e represálias.

Nas instituições totais, ainda observa Goffman (1999), há um método, um


processo, um sistema de coação ou coerção que constitui formas para obrigar todos
residentes realizarem tarefas serviçais como afazeres domésticos, obrigando-os a
submeterem-se a um papel indigno, subalterno, humilhante, subserviente, etc.

Outra característica das instituições totais é a abolição da vida familiar. Turner


(1974) ratifica essa idéia, pois sublinha que a vida em comunidades fechadas rompe
com as premissas, com os pilares da sociedade aberta, tais como o casamento, o
sexo, a família, a propriedade privada, etc.

Para Goffman (1999) há, nas instituições totais, um processo de violação ao


“eu” (self), no sentido de não se permitir liberdade, privacidade, livre-arbítrio,
preferência, escolha em relação a seus bens. O ator social perde, assim, sua
identidade, dignidade e cidadania, situação esta que tem, como conseqüência, um
enfraquecimento, até uma involução irrecuperável do seu processo de
aprendizagem mental, da sua educação intelectual, da sua vida profissional, do seu
amadurecimento emocional, da sua auto-estima, da sua valorização e amor próprio:

Segundo a perspectiva ‘meadiana’, há instituições sociais opressivas,


estereotipadas e ultraconservadoras. Essas instituições, em sua forma
rígida e inflexível, atuam sobre os selfs envolvidos com ou submetidos a sua
organização de maneira a inibir qualquer expressão de condutas e
pensamentos diferentes daqueles por elas instituídos (BAZILLI et al., 1998,
p. 95).

O processo dessociativo ou de associalização do ator social, diz Goffman


(1999), é tão profundo que a interação com os atores sociais do mundo aberto gera
processos de pânico, estresse, angústia, ansiedade, depressão e medo, dificultando
sua readaptação à sociedade, tornando-se, portanto, um ator anti-social.

Normalmente, as instituições, para alcançarem seus objetivos, precisam


impor certas normas e regras. O ator social, no decorrer da sua vida, pode pertencer
a várias instituições sociais formadas por atores sociais ligados por parentesco, por
interesses materiais ou por objetivos espirituais. Em todas as instituições sociais, ele
185

ingressa voluntariamente e delas se retira quando bem desejar, sem que ninguém
possa coagi-lo a permanecer, mas do estigma de ter feito parte de uma instituição
total, o ator social não se libertará jamais, porque a influência sobre o seu “eu” (self)
torna-o substancialmente muito diferente dos demais atores sociais da sociedade
aberta. Pelo menos foi essa uma das constatações de Goffman:

Podemos passar agora para uma consideração da angústia da liberação (...)


Um fator que tende a ser mais importante é a desculturação, a perda ou
impossibilidade de adquirir os hábitos atualmente exigidos na sociedade
mais ampla (GOFFMAN, 1999, p. 69).

Alguns atores sociais que seguem, por vocação, a vida religiosa e entram
para uma instituição espiritual de clausura, submetem-se, voluntariamente, às
humilhações do “eu” (self), preferem uma vida ascética de flagelação, de
mortificação com fins de purificação espiritual e transcendência do ego.

Já os atores sociais que vivem na sociedade aberta se incomodariam com o


fato de terem seus cabelos raspados. Isso seria tomado como uma violação à sua
integridade física. Mas o monge pode se agradar disso, mesmo que seu corpo seja
violado e sua aparência fique desfigurada. Por este e muitos outros motivos, alguns
atores sociais convergem para instituições totais que servem de refúgio e fuga do
mundo, como abadias, mosteiros, conventos, claustros, ashrams (comunidade
liderada por um guru - no oriente) e monastérios:

(...) instituições religiosas que lidam apenas com aqueles que acham que
foram chamados e, destes voluntários, tomam apenas aqueles que parecem
os mais adequados e mais sérios nas intenções. Em tais casos, a
conversão parece já ter ocorrido e apenas restará mostrar ao neófito ao
longo de que linhas poderá melhor autodisicplinar-se (GOFFMAN, 1961, p.
328).

Numa sociedade aberta, quando um ator social tem que aceitar ordens que
invadem sua individualidade, sua privacidade, liberdade e livre-arbítrio, ele tem certa
autonomia para reagir e defender-se, nem que seja só em termos de expressão
facial. Ele tem certa válvula de escape, pode externar mal-humor, reagir com
indelicadeza, mostrar má vontade, agir com fingimento, utilizar-se de certa
186

hipocrisia, tornar-se cínico, irônico, fazer caretas escondidas, sussurrar palavrões


ditos em voz baixa. Nas instituições totais, qualquer comportamento semelhante é
passível de sanções e represálias.

Este poder de pressão, coação, através da representação, é dramatizado por


meios eficazes para sua comunicação e terá diferentes efeitos, dependendo do
modo como é dramatizado. A forma de poder mais direta atua, principalmente, como
uma representação para iludir a platéia e é, freqüentemente, uma forma de
comunicação.

3.2.3 Comunidade desviante

Durante a mudança do século XX para o século XXI, houve um período de


transição (MORIN, 1996) e incertezas, quando surgiu a dialética entre o presente e o
futuro, uma mudança de paradigmas. Foi o fim das certezas até no campo científico,
como bem se refere Ilya Prigogine no título de um livro seu muito conhecido nos
meios científicos, “O fim das certezas” (PRIGOGINE, 1996): “As pessoas necessitam
de algo que as tranqüilize com relação às incertezas da vida” (WEBER, 2000, p.
212).

Dentro desse contexto surgiu Trigueirinho re-anunciando a era de Aquário


num movimento tão diverso quanto a contracultura da década de 1960, que tinha
suas raízes na New Age.

Trigueirinho anunciava em suas profecias que a transição ao milênio


aquariano, de amor e fraternidade, seria plena de violência e riscos para os
espiritualmente despreparados. Mas, por outro lado, os que estivessem em
harmonia com a operação resgate liderada por ele ingressariam numa nova era de
iluminação espiritual, orientados por seres intraterrenos, superiores e avançados,
emissários de uma civilização extraterrestre, cujas espaçonaves eram os ovnis,
ajudariam a criar uma nova civilização:

Se dezenas de escatologistas mostraram estar errados, a resposta não é


que um deles mostrará estar certo um dia, mas que muitos deles revelaram-
se influentes demais - destrutivos, construtivos, inspiradores, consoladores -
187

e que é tolice os historiadores rejeitá-los ou, pior ainda, não tomar


conhecimento deles (WEBER, 2000, p. 248).

A confusão, a incerteza e a insegurança nas relações sociais, segundo


Gilberto Velho (1974), fez com que alguns atores sociais se sentissem perdidos.
Eles poderiam ter optado por um comportamento de adaptação aos valores
culturais, que no entender de Merton (1968) chamava-se ‘retraimento’. Eram atores
sociais que se adaptavam mal aos objetivos culturais da sociedade, não
compartilhavam e repudiavam a escala comum de valores, os objetivos
culturalmente preestabelecidos. Estavam à margem. ‘Outsider’ de acordo com
Becker (1977). Os seus comportamentos não se ajustavam às normas sociais:

(...) os desviantes intra-grupais, desviantes sociais, os membros de minorias


e as pessoas de classe baixa algumas vezes, provavelmente, se verão
funcionando como indivíduos estigmatizados, inseguros sobre a recepção
que os espera na interação face a face, e profundamente envolvidos nas
várias respostas a esta situação (GOFFMAN, 1988, p. 157).

O termo estigma na Grécia descrevia os sinais no físico utilizados para


identificar o escravo, o traidor ou o criminoso. Contemporaneamente não existe mais
a identificação física do estigma, mas existem os estigmatizados. São aqueles que
por algum motivo não são aceitos em determinada comunidade, porque se afastam
das expectativas sociais, culturais, econômicas, intelectuais, físicas, etc. Os
sentimentos destes são de fracasso e derrota. Suas resignações sociais podem se
manifestar como um mecanismo de fuga e abandono da sociedade, convergindo
para comunidades desviantes (GOFFMAN, 1988), onde entram em contato com
seus semelhantes formando uma subcultura. “Teoricamente, uma comunidade
desviante poderia vir a desempenhar para a sociedade em geral algumas das
funções desempenhadas por um desviante intragrupal para o seu grupo”
(GOFFMAN, 1988, p. 156).

Segundo Goffman (1988), os que se juntam numa subcomunidade podem ser


classificados como desviantes sociais e sua vida em comum, em conjunto, pode ser
denominada comunidade desviante ou destoante. Atores sociais que negam a
ordem social e se engajam coletivamente numa subcomunidade formam uma
188

subcultura. Estes atores não possuem motivação de progredir segundo os valores


aprovados pela sociedade. Por exemplo, um ator social solteiro que não deseja
constituir família pode ingressar numa subcomunidade que se rebela contra o
sistema familiar: “(...) optaram fugir da ordem social ligada ao status e adquiriram os
estigmas dos mais humildes (...) e subalternos em qualquer ocupação casual de que
se incumbam. Valorizam mais as relações pessoais do que as obrigações sociais”
(TURNER, 1974, p. 138):

O estresse da vida industrial induz um número cada vez maior de cidadãos


a acalentar a idéia de um retorno ao ritmo lento da sociedade rural, sem o
tráfego e as corridas frenéticas entre a casa, o escritório, os cursos e
supermercado (DOMENICO DE MASI, 2006, p. 66).

Os desviantes sociais, descreve Goffman (1988), orgulham-se de sua rebeldia


e evitam as divergências (Velho, 1974), restringindo-se à proteção autodefensiva de
viverem isolados numa subcomunidade. Ali não se sentem mais deslocados como
na sociedade aberta. Sentem-se melhores, superiores, exemplos e modelos de vida
para os atores sociais da sociedade aberta e angariam simpatizantes e adeptos:

Os profetas e os artistas tendem a ser pessoas liminares ou marginais,


‘fronteiriços’ que se esforçam com veemente sinceridade por libertar-se dos
clichês ligados às incumbências da posição social e à representação de
papéis (TURNER, 1974, p. 155).

Turner (1974) diz que a ‘communitas’ era formada por um conjunto de atores
sociais concretos e idiossincrásicos que, apesar de serem diferentes quanto aos
seus físicos e personalidades, eram iguais do ponto de vista da humanidade comum
a todos. Buscavam uma transformação profunda, onde encontravam algo
profundamente comunal e compartilhado: sua alma ou humanidade, sua ‘comum
unidade’.
Capítulo 4

MÉTODO DE GOFFMAN E SUA APLICAÇÃO NA INTERAÇÃO SOCIAL DE


“FIGUEIRA”
4 MÉTODO DE GOFFMAN E SUA APLICAÇÃO NA INTERAÇÃO SOCIAL DE
“FIGUEIRA”

Num primeiro momento, descrevemos o método de pesquisa criado por


Goffman, para observar de forma participativa as interações.

Em segundo lugar, descrevemos o procedimento teórico-metodológico


utilizado na pesquisa de campo em “Figueira” de acordo com a metodologia
Goffminiana.

Numa terceira instância, definimos as categorias de análise dos ritos da


instituição e dos ritos da interação extraídas do referencial teórico.

Em quarto lugar, listamos o material empírico e o classificamos em


categorias. Por fim, fazemos algumas considerações finais.

4.1 PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

Tomamos ciência da comunidade “Figueira” por intermédio da cadeira de


cinema da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS (FAMECOS). Trigueirinho
é conhecido neste meio, porque foi um diretor premiado na fase do Cinema Novo
brasileiro, em 1960, com o filme “Bahia de todos os Santos”.

É importante ressaltar que esta pesquisa sobre “Figueira” é pioneira. Não


existiam estudos, ensaios, artigos, textos acadêmicos anteriores sobre esta
organização. Desbravamos um novo caminho de pesquisa e construímos um novo
saber, um novo conhecimento. O ineditismo tornou-a trabalhosa. Levamos seis anos
para realizá-la. Tivemos paradas que foram muito frutíferas, pois procuramos pôr em
prática o que o sociólogo Domenico de Masi chamou de ócio criativo, isto é, utilizar o
tempo de lazer, o tempo recreativo para criar, produzir sem pressão, sem estresse.
Esperamos que todo esse trabalho sirva para amenizar posteriores estudos e
191

aprofundamentos sobre o mesmo tema. Talvez por ser uma pesquisa pioneira, ela
sirva de referência.

Poderíamos optar pelo viés do ‘messianismo’ estudado pela Maria Queiroz,


pelo recorte do ‘poder’ ou ‘vigilância e punição’, estudado por Foucault, pelo viés do
‘líder carismático’ pesquisado por Max Wever, pelo recorte de ‘comunidade’ e
‘liminaridade’ estudado por Victor Turner, pelo viés do ‘desvio de divergência’,
pesquisado por Gilberto Velho, pelo recorete das organizações não-governamentais
(ongs), estudas pela Maria da Glória Gohn, pelo viés da psicologia ou teologia, etc.,
mas optamos pelo Interacionismo Simbólico e pela trilogia de Goffman que trata das
instituições totais, da representação do “eu” na vida cotidiana e do estigma.

Procuramos, então, seguir a metodologia de pesquisa utilizada por Goffman.


WINKIN (1999) disse que Goffman, em sua tese de doutorado na comunidade das
Ilhas Shetland, construiu sua própria metodologia.

No trabalho de análise, a abordagem dramatúrgica é um meio de ordenar as


informações (...) Método que possibilita descrever as técnicas de
manipulação da impressão, com suas várias inter-relações dentro do
ambiente, observando os possíveis problemas de identidade (BAZILLI et al.,
1998, p. 126).

Goffman apresentou-se aos moradores das Ilhas Shetlands como um


estudante universitário que desejava obter informação direta sobre a economia
insular. Ele se colocou no próprio espaço da pesquisa de campo, ou seja, no espaço
das interações dos moradores. Ali pôde perceber o infinitamente pequeno, o
evidente e o óbvio. Procurou tornar-se tão aceitável quanto possível aos habitantes
das ilhas, não lhes colocando muitas questões e não os observando com os olhos
arregalados. Não utilizou questionários, gravador, câmera de filmar. Tomava
algumas notas escondidas durantes alguns acontecimentos públicos.

Mais tarde, já conhecido e mais participante observador do que observador


participante, vai simplesmente reviver as interações e relatá-las no seu diário
elaborado à noite no silêncio do seu quarto. Goffman teve a oportunidade de
observar as crises interacionais que surgem, por vezes, no meio desses pequenos
192

grupos de atores sociais. Ele participava das atividades mais informais. Durante
estas atividades, observou as interações em forma de conversa.

A interação, que é objeto da atenção de Goffman, denomina-se


conversacional. Ele observou o desenrolar da comunicação na atmosfera dos
espaços cotidianos e afastou toda a preocupação com as características
macrossociológicas da comunidade. Eliminou todo interesse pelos traços que
distinguiam esta ilha de uma outra e começou a examinar as interações sociais que
se assemelhavam às dos lugares mais impessoais da vida moderna. Rejeitou o
tempo e o espaço, anulou a tradição da história, evitando a intimidade e a amizade.
Com isto, criou as condições do homem social puro, do homem interacional puro.
Verificou as condutas mais impessoais das Ilhas Shetland. O resto não lhe
interessava. Isto justificava sua posição de que o estudo se desenrolou na
comunidade das Ilhas Shetland, mas não era um estudo da comunidade das Ilhas
Shetland.

Através de indícios simples nas interações, este pesquisador captou a lógica


do ato de encenação, o conjunto de estratégias para exibir uma imagem social que
valorizava o ator, que causava uma boa impressão, que distinguia um do outro. Ele
tinha especial predileção pelas interações humanas no cotidiano, aspectos por
vezes despercebidos pelos leigos e que não eram considerados relevantes pela
maioria dos sociólogos. No entanto, esses detalhes modificaram o pensar
sociológico no mundo.

“Goffman emprega procedimentos não-convencionais de pesquisa ou rigor


analítico, possui uma linguagem acessível e trabalhada literariamente” (MALUFE,
1992, p. 16). Pelo menos sua descrição etnográfica sobre o hospital psiquiátrico de
doentes mentais Santa Elizabeth colaborou para deflagrar a luta antimanicomial no
mundo:

Ele descreve e analisa práticas sociais de encarceramento e degradação


que repelem e mesmo enojam muitos leitores, e que nos provocam
sentimentos de vergonha, por vivermos em uma sociedade na qual tais
coisas aconteceram e continuam a acontecer. Suas descrições detalhadas e
completas tornam impossível ignorar a existência continuada dessas
atividades organizadas e socialmente aceitas, e têm, ocasionalmente,
instigado tentativas de reformá-las (BECKER, 2004, p. 103).
193

”Goffman realizou um duplo trabalho: o do etnógrafo e o do sociólogo”


(JOSEPH, 2000, p. 35). A fusão do sociólogo e do etologista serviu como uma
vantagem a mais para o sociólogo, uma vez que a linguagem do corpo que via nas
ruas estava conectada com os contextos antropológicos de todas as interações
sociais. Tornava-se, assim, um critério de julgamento das formas institucionais de
controle social e dos esquemas explicativos da socialização:

A proposta de Goffman é que se examine a organização da experiência


social, em termos de certos princípios básicos que estejam
simultaneamente presentes, tanto na organização dos próprios eventos
como na organização do nosso envolvimento subjetivo neles - princípios
básicos aos quais nós recorremos sempre que procuramos uma resposta
para a pergunta: ‘O que é isto que está acontecendo aqui?’ (MALUFE, 1992,
p. 21).

4.2 A PESQUISA DE CAMPO SEGUNDO O MÉTODO DE GOFFMAN

Este estudo das instituições totais e, particularmente, do mundo dos atores


sociais, denominados por nós como hóspedes e/ou visitantes itinerantes da
comunidade “Figueira”, tem como um dos seus interesses principais avaliar, o mais
possível, a versão sociológica do “eu” (self) em interação nesta organização.

Ao contrário de Goffman, acentuamos o mundo do ator social não-internado,


dos hóspedes e/ou visitantes itinerantes que se hospedam em “Figueira” e que, ao
interagirem com os atores sociais ou residentes permanentes – fazendo parte ou
não da equipe dirigente –, entram em conflito em função de diferentes
personalidades, comportamentos, interesses, objetivos, hábitos, costumes, usos,
criando-se, assim, um clima constante de conflito, discórdia, etc.

Apresentamo-nos como colaboradores e ficamos hospedados em “Figueira”


como alguém que simpatizava com sua cultura espiritual, mas evitamos a intimidade
e a amizade, até porque estas condutas são condenadas. Colocamos-nos no próprio
espaço das interações, no próprio campo de pesquisa propriamente dito, para fazer
uma observação participante das interações, para verificar como a integração faz a
vida social acontecer. Procuramos nos integrar à vida cotidiana sem chamar a
194

atenção e acompanhar o óbvio, o corriqueiro, o pequeno, o evidente, o cotidiano,


etc. Não pudemos usar gravadores, filmadoras, nem fotografar. Estes instrumentos
são proibidos. Também não fizemos questionários, porque chamaria muita atenção
e tiraria a espontaneidade, a naturalidade das pessoas analisadas. Tomávamos,
inicialmente, pequenas notas aqui e acolá escondidas. Mais tarde, já mais
acostumados com a rotina, tomávamos notas à noite, no quarto, mesmo estando,
quase sempre, em quartos coletivos.

Hospedados e vivendo no meio deles, tivemos a oportunidade e o privilégio


de presenciar comunicações, interações e conversas cotidianas interessantes e
bastante elucidativas da sua cultura ímpar ou singular.

Queremos informar que fizemos uma observação participante das interações


que se passam na comunidade “Figueira”, portanto não realizamos um estudo,
propriamente dito, da comunidade “Figueira." Não pesquisamos as características
macrossociológicas da comunidade, não levamos em conta o tempo, a história, mas
somente estudamos o seu espaço e traços característicos. Procuramos examinar as
interações impessoais que podem ocorrer numa comunidade por divergências nas
relações de poder. Portanto, coletamos informações da organização “Figueira”
seguindo, passo a passo, o método criado por Goffman.

A comunidade “Figueira” localiza-se na área rural e urbana, na cidade de


Carmo da Cachoeira, Estado de Minas Gerais. Foram seis observações
participantes ao todo no campo de pesquisa. O tempo de permanência em “Figueira”
é determinado por eles. A primeira foi nas férias acadêmicas de verão, porque,
obviamente, tínhamos mais tempo e porque nesta época afluem mais atores sociais
ao local. Realizou-se no primeiro semestre de 2001, em janeiro, por dez dias
consecutivos; a segunda, nas férias acadêmicas de inverno, por termos mais tempo
e por irem mais pessoas para lá nesta época, portanto realizou-se no primeiro
semestre de 2001, em julho, por quinze dias consecutivos; a terceira observação foi
no primeiro semestre de 2004, em julho, também nas férias acadêmicas de inverno,
por sete dias consecutivos; a quarta, no primeiro semestre de 2005, nas férias
acadêmicas de verão, em fevereiro, por quinze dias consecutivos; a quinta foi no
primeiro semestre de 2006, em fevereiro, nas férias acadêmicas de verão, por sete
dias consecutivos. A sexta e última foi no primeiro semestre de 2006, em julho, por
195

cindo dias. Além disso, fizemos duas pesquisas de campo na comunidade Nazaré,
situada na cidade de Nazaré Paulista, interior do Estado de São Paulo, as quais se
realizaram nas férias de verão do ano 2003, mais precisamente em janeiro, por uma
semana, retornando novamente em fevereiro por quinze dias. Fizemos várias outras
pesquisas de campo nos subgrupos ou rede de serviço de Porto Alegre. Realizamos
reuniões com atores sociais do grupo e fizemos algumas observações participativas
nas audições públicas. Também pesquisamos a bibliografia, exclusivamente
utilizada para consulta interna, do grupo de “Figueira” e das redes de serviço,
pesquisamos a bibliografia das obras publicadas pelo Trigueirinho, algumas
indicações bibliográficas apontadas pelo próprio Trigueirinho em seus escritos tais
como: ‘Revistas de Sinais’, ‘Jornais de Sinais’, ‘Boletim de Sinais’, textos e artigos na
internet, seu filme “Bahia de todos os Santos”, seus VHS, CDS, fitas k-7, seus
artigos críticos publicados na Revista ‘Anhembi’, editada pela USP, algumas críticas
especializadas em cinema sobre sua obra. Quase todas as fontes citadas estão
anexadas. Consideramos necessária sua anexação para futuras consultas de
pesquisadores que não disponham de tempo ou condições financeiras para ir até
“Figueira”.

Conforme Becker (1977) aconselha, esclarecemos que a pesquisa foi feita


como hóspedes e/ou visitantes. Este autor enfatiza que a neutralidade ideal na
pesquisa dificilmente é atingida, assim se torna necessário dizer em qual ponto de
vista nos situamos:

Na verdade seria possível fazer uma pesquisa que não seja contaminada
por simpatias pessoais e políticas? Proponho argumentar que isso não é
possível e, portanto, que a questão não é se devemos ou não tomar partido,
já que inevitavelmente o faremos, mas sim de que lado estamos nós
(BECKER, 1977, p. 122-36).

A presente pesquisa foi realizada buscando compreender os atores sociais


denominados hóspedes e/ou visitantes itinerantes que permanecem
temporariamente em “Figueira” e que, ao interagirem com os residentes ou internos,
sejam auxiliares ou coordenadores, entram em conflito em função da sujeição
hierárquica. Isto gera um clima de tensão permanente, pois as disciplinas, normas,
196

regras e tarefas impostas pelo grupo de “Figueira”, liderado por Trigueirinho,


interferem no “eu” (self) ou personalidade deles.

Goffman (1999) salienta que há um interesse sociológico nas pesquisas sobre


instituições totais, porque nestes espaços, as regras e normas condicionam,
obrigatória e compulsoriamente, como os atores sociais devem pensar, comportar-
se e interagir coletivamente, em virtude de pertencerem ou não àquele grupo
específico.

Nossa hipótese é que “Figueira” possa ser classificada parcialmente como


uma instituição total por possuir muitas características semelhantes às das
instituições totais. O mais importante é a percepção de que essa sua forma de
administrar pode condicionar o “eu” (self), o comportamento, o pensamento e até os
sentimentos dos que estão ligados a ela direta ou indiretamente.

4.3 CATEGORIAS DE ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO


DIMENSIONADAS COMO CATEGORIAS ABSORVENTES

As categorias absorventes das instituições totais tendem a absorver em si os


sujeitos por processos de socialização, apartação, inclusão, identificação, etc. Estas
categorias absorventes baseiam-se em interações que anulam a intersubjetividade
nas interações.

(...) toda institución absorbe parte del tiempo y del interés de sus miembros
(...) la tendencia absorbente o totalizadora está simbolizada por los
obstáculos que se oponen a la interacción social con el exterior y al éxodo
de los miembros (GOFFMAN, 1972, p. 17-18).

As instituições totais podem ser classificadas em cinco categorias, segundo


Goffman (1999):
197

1ª - As que têm por finalidade cuidar de pessoas incapazes e que não apresentam
uma ameaça à sociedade: casas para cegos, velhos, órfãos e indigentes;
2ª - As que têm por finalidade cuidar de pessoas incapazes que são de maneira não-
intencional uma ameaça à sociedade: sanatórios para hansenianos, tuberculosos,
hospitais psiquiátricos;
3ª - As que têm por finalidade isolar pessoas que intencionalmente são uma ameaça
à sociedade: cadeias, penitenciárias, campos de prisioneiros de guerra, campos de
concentração;
4ª - As que têm por finalidade fundamentalmente instrumentar, treinar para uma
tarefa específica ou trabalho: quartéis, navios, escolas internas, campos de trabalho,
colônias, kibutz;
5ª - Por último, as que têm por finalidade instruir religiosos. Servem, também, de
refúgio do mundo: abadias, mosteiros, conventos e outros claustros como
monastérios, comunidades alternativas, etc.
Quadro 3 – Categorias das Intituições Totais-Goffman

Análise

A comunidade “Figueira”, que serve de objeto para esta pesquisa, pode ser
enquadrada tanto na quarta, quanto na quinta das categorias. Na quarta, pelo fato
de se organizar como uma fazenda com produção própria, que conta com mão-de-
obra voluntária e gratuita para sua operação, isto é, semelhante ao que acontece em
um kibutz. Enquadra-se de maneira mais enfática na quinta, na medida em que
nesta há um monastério (um masculino e um feminino, um eremitério misto, com a
finalidade de instruir religiosos, também de servir de refúgio do mundo) sendo, ao
mesmo tempo, uma comunidade alternativa.
198

a. As instituições totais limitam suas próprias atividades, funções e tarefas dentro


de um mesmo espaço físico, e as normas de conduta garantem a identidade do
grupo.
b. As instituições totais são espaços de condicionamento de atores sociais, onde
regras e normas de interação social, seguidas de forma coletiva e compulsória,
modelam o comportamento interacional daqueles que fazem parte do grupo.
c. Ao fazer-se parte das instituições totais, adere-se a novos padrões de
interação. Um novo processo de socialização é iniciado. O ator social assume o
novo código de comportamento, porque se adapta ao novo conceito
interacional.
d. As instituições totais influem na conduta do ator social, exercem seu controle
sobre o comportamento, tornando-se um fator determinante no pensamento do
ator social.
e. As instituições totais são reacionárias, opressivas, estereotipadas,
ultraconservadoras. Através do controle podem esmagar o ator social ou
aniquilar sua individualidade, podendo vir a perder sua consciência reflexiva.
f. Existem instituições totais como abadias, mosteiros, conventos, claustros,
monastérios, comunidades religiosas que têm por finalidade instruir religiosos,
servem de refúgio do mundo.
g. Nas instituições totais, há uma invasão ao “eu” (self) do residente, que é
desprogramado, despersonalizado de seu “eu” (self) anterior, reprogramado e
reeducado pelo grupo de residentes que o supervisionam, vigiam, fiscalizam e
controlam.
h. Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se
permite ao ator social ter uma vida individual. Ele é despojado de seus bens, de
suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livre-arbítrio, de
sua liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos
humanos, de sua cidadania, ocasionando uma involução no seu
desenvolvimento educacional, profissional, emocional, de sua auto-estima,
autovalorização e amor próprio.
Quadro 4 - Categorias de análise dos ritos da instituição

4.3.1 Anotações das observações de campo dos ritos da instituição já


categorizadas

1ª anotação de observação participativa

Observamos uma hóspede visitante, de nacionalidade Argentina, afirmar que


ficou em “Figueira” durante vinte dias. Tentou sair antes do tempo acordado, mas
não conseguia passagem de retorno. Disse que não sentia mais seu corpo, que ele
199

não respondia mais ao seu comando de tão cansada que estava. Já não tinha mais
reflexos, porque era obrigada a acordar, algumas vezes, às quatro horas para ir
trabalhar na horta e pomar com frio e chuva. Ela afirmou, também, que dos vinte
argentinos que a acompanharam em “Figueira”, todos saíram antes do tempo
acordado com o setor de hospedagem, porque não agüentaram o regime de
trabalho e horários estabelecidos.

Essa observação pode ser classificada, de acordo com a taxonomia


anteriormente apresentada na categoria “e”, a qual diz o seguinte: “As instituições
totais são reacionárias, opressivas, estereotipadas, ultraconservadoras. Através do
controle podem esmagar o ator social ou aniquilar sua individualidade, podendo vir a
perder sua consciência reflexiva.”

Análise

Em “Figueira”, conforme foi observado, e em sintonia com as categorias de


Goffman, pode-se perceber uma rigidez em termos de horários, normas e regras
impostas, hierarquicamente, pelo grupo dirigente. Este grupo é composto pelos
residentes auxiliares e pelos residente-coordenadores, objetivando atender às
necessidades de “Figueira”.

2ª anotação de observação participativa

Observamos no dia da vigília mensal – um dia dedicado ao silêncio externo e


interior, que todos eram obrigados a participar –, Trigueirinho falar sobre a
necessidade de lavar os pecados no ritual de lava-pés. Também se observou uma
visitante dizer que estava entusiasmada, a qual falou ao Trigueirinho que desejava
lavar não só os seus pés, mas todo seu corpo e todos os seus pecados. Pretendia
fazer isto na cachoeira que existia na zona rural da cidade de Carmo da Cachoeira.
No mesmo dia, porém mais tarde, uma das coordenadoras, ex-professora
universitária do Rio de Janeiro, disse-lhe que não era permitido, ir tomar banho na
cachoeira ou ir à cidade, e fazer atividades independentes do grupo.

Essa observação pode ser enquadrada na categoria “a” das classificação


apresentada, a qual diz o seguinte: “As instituições totais limitam suas próprias
200

atividades, funções e tarefas dentro de um mesmo espaço físico e as normas de


conduta garantem a identidade do grupo”.

Análise

Além das regras estabelecidas pela coordenação, o próprio grupo atua como
um fator de condicionamento de comportamento em “Figueira”. Isto se deve ao fato
de que o interesse do grupo está acima das individualidades, portanto o ator social
encontra-se subordinado ao condicionamento coletivo, do contrário teria conflitos
passíveis de sanções que restringiriam sua independência, liberdade e livre-arbítrio.
Os supervisores de “Figueira” tentam dirigir as atividades dos atores sociais
subalternos por meio da persuasão, manipulação, punição, coerção e ameaça.
Demonstram o que querem impor como padrão, e mostram, sutil e
ameaçadoramente, o que farão caso isto não seja cumprido em tempo, qualidade e
quantidade.

3ª anotação de observação participativa

Percebemos, em determinado momento, uma colaboradora falar que já não


afluíam mais pessoas, em “Figueira”, como antigamente. A maioria desistia de
retornar, porque não suportava tantas normas, regras, horários, trabalhos pesados e
alguns tratamentos humilhantes por parte dos residentes.

Essa observação pode ser classificada na categoria “g”: “Nas instituições


totais, há uma invasão ao “eu” (self) do residente, que é desprogramado,
despersonalizado de seu “eu” (self) anterior, reprogramado e reeducado pelo grupo
de residentes que o supervisionam, vigiam, fiscalizam e controlam.”

Análise

Há em “Figueira” a adoção de regras e normas que são mais restritivas em


relação às da sociedade aberta. Isto se expressa, como já foi destacado, em
horários e tarefas que conflitam com o ritmo da vida fora da comunidade. Além da
rigidez das normas, observa-se uma dinâmica, previamente estabelecida, que
impede a flexibilização da forma de realizar as coisas de forma criativa. Como nas
demais instituições totais, estas estratégias objetivam condicionar os partícipes,
submetendo-os à vontade coletiva.
201

4ª anotação de observação participativa

Observamos uma visitante dizer que achou a comida horrível, não tinha sal,
açúcar, tempero. O caldo do feijão era aguado, o arroz integral era grudado, o pão
integral era duro, alguns legumes não eram cozidos e servidos crus e com casca, o
café da manhã era um caldo de polenta aguada, não serviam leite, manteiga,
iogurte, queijo, nada de origem animal. Serviam apenas no café da manhã: chá
verde, pão integral com uma pasta de soja salgada, chamada missô. A dieta de
“Figueira” é vegetariana, sem sal, sem açúcar, sem temperos, sem óleo, sem carne,
ovos, laticínios e café preto. Não se pode beber bebida alcoólicas ou fumar. Como
não mastigavam, alguns tiveram, em função disto, seus dentes afrouxados. Os
participantes faziam as refeições em silêncio, sentados fora da mesa e com os
pratos apoiados nas pernas.

Essa observação pode ser inserida na categoria “h”, que descreve o seguinte:
“Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se
permite ao ator social ter uma vida individual. Ele é despojado de seus bens, de
suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livre-arbítrio, de sua
liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos humanos, de
sua cidadania, ocasionando uma involução no seu desenvolvimento educacional,
profissional, emocional, de sua auto-estima, autovalorização e amor próprio.”

Análise

O ambiente nas refeições coletivas difere bastante do das nossas refeições


rotineiras. Em “Figueira”, as pessoas não interagem, não se cumprimentam, não se
olham, não conversam, não se comunicam, ou seja, não confraternizam. Comem
sentados em bancos fora da mesa, apoiando os pratos nas pernas, sem a opção de
escolha do tipo de dieta e da forma de prepará-la.

5ª anotação de observação participativa

Uma outra visitante relatou que estava saindo da casa 1, (localizada na


cidade de Carmo da Cachoeira, onde fica a secretaria geral), em direção à casa 4
(prédio da central de atendência, os dois prédios localizam-se na esquina do mesmo
quarteirão), quando deparou-se com uma visão chocante, segundo o ponto de vista
202

dela: viu um caminhão estilo pau-de-arara, com residentes vestidas com roupas
rurais de trabalho, em silêncio, de cabeça baixa, enfileiradas nos bancos laterais da
carroceria do caminhão coberto por lona. Assemelhavam-se, segundo ela, àqueles
caminhões do exército que carregam soldados para manobras militares. Estavam
rumando para o campo. Para a hóspede visitante, pareciam ir para um ‘campo de
concentração’ e de ‘lavagem cerebral’. Ela afirmou que nunca esqueceu a imagem,
a qual ficou gravada na sua retina. Imagem que a fez se dar conta do que ocorreria
em relação ao seu futuro se ficasse ali como residente.

Enquadramos esta observação na categoria “g”, a qual diz o seguinte: “Nas


instituições totais, há uma invasão ao “eu” (self) do residente, que é desprogramado,
despersonalizado de seu “eu” (self) anterior, reprogramado e reeducado pelo grupo
de residentes que o supervisionam, vigiam, fiscalizam e controlam.”

Análise

Os atores sociais de “Figueira”, em quase todos os momentos se


movimentam em grupos. Eles são coordenados por uma equipe supervisora, que
não se preocupa somente em auxiliar ou orientar, mas controlar, vigiar, intimidar
para a realização de tarefas compulsórias. Este comportamento de passividade
pode ser observado não só nas atividades laborais, como em muitos outros
momentos do cotidiano.

6ª anotação de observação participativa

Percebemos que, em “Figueira”, os internos e os visitantes não vêem


televisão, não assistem a peças de teatro, espetáculos ou shows, não lêem jornais
ou revistas, não freqüentam uma escola formal, não convivem com parentes ou
amigos. Devem observar o silêncio, portanto não costumam conversar entre si ou
comunicar-se com o grupo de semi-internos e colaboradores externos. Não ganham
salário, por isso não podem comprar roupas ou objetos de higiene pessoal.
Ganham-nos por doações sem opção de escolha. Não têm férias, não têm acesso à
comunicação por fax, telefone celular ou internet (esses aparelhos são restritos à
secretaria e não podem ser usados particularmente). Não têm feriados, mas têm
folga uma vez por semana. Apesar de terem um único dia de folga, mesmo assim
são convocados neste dia para fazer plantões. Acrescido a isto, este dia é destinado
203

ao estudo obrigatório, qual seja, participar das palestras de Trigueirinho pela manhã
e outra à tarde à cargo do setor de cura.

Essa observação pode ser classificada na categoria “c”, a qual diz o seguinte:
“Ao fazer-se parte das instituições totais, adere-se a novos padrões de interação.
Um novo processo de socialização é iniciado. O ator social assume o novo código
de comportamento, porque se adapta ao novo conceito interacional”.

Análise

O interno de ‘Figueira’ parece tornar-se mais vulnerável e frágil por não ter
interação com a sociedade aberta. Fica solitário e isolado do que acontece no
mundo, sem apoio da família e parentes, sem contato com seu bairro, vizinhos,
ambiente de trabalho, amigos, etc.

Esta forma de vida, marcada pela reclusão, sintetiza a total ausência de


cidadania. Os internos não possuem relações trabalhistas e, assim sendo, não
podem fazer greve, não têm seguro-desemprego, não recebem hora extra ou
aposentadoria. Também não possuem propriedade privada, dormem em quartos
comunitários e são celibatários. Mais do que isso, algumas práticas, sob o ponto de
vista dos direitos humanos, são desconsideradas.

7ª anotação de observação participativa

Uma visitante informou-nos que permaneceu trinta dias em “Figueira” e que


quase enlouqueceu sem poder falar, sem dialogar, sem sexo. Disse que quando
retornou à sua casa, quase não conseguia se comunicar com sua própria família.

Podemos classificar esta observação na categoria “d”, que afirma o seguinte:


“As instituições totais influem na conduta do ator social. Exercem seu controle sobre
o comportamento, tornando-se um fator determinante no pensamento do ator social”.

Análise

A maior regra em “Figueira” é fazer silêncio interno e externo. A interação


entre membros é totalmente desestimulada. Assim sendo o próprio diálogo – como
forma de compreensão das coisas do mundo – é terminantemente reprimido. Outra
204

forma de interação fundamental para o crescimento humano, o sexo, é proibido e


mesmo o afeto não é incentivado. Enfim, a comunicação entre os membros não é
estimulada.

8ª anotação de observação participativa

Também observamos uma outra visitante dizer que tentou várias vezes morar
em “Figueira”, mas não conseguiu se adaptar. Afirmou não estar preparada,
psicologicamente, para tanto, pois alguns mudam de nome, são rebatizados.
Também não comemoram datas históricas, feriados cristãos, aniversários, etc.

Esta observação pode ser classificada na categoria “f”, a qual diz o seguinte:
“Existem instituições totais como abadias, mosteiros, conventos, claustros,
monastérios, comunidades religiosas que têm por finalidade instruir religiosos,
servem de refúgio do mundo”.

Análise

“Figueira” exige um comprometimento de seus simpatizantes ou aspirantes


maior que o normal nas instituições comuns, restringindo-lhes a interação social
existente internamente e com o restante da sociedade aberta.

Como prova da renúncia a sua personalidade, identidade social, eles são


rebatizados, recebendo a partir de então um novo nome. Outras marcas da vida
social são negligenciadas, pois não comemoram datas históricas, feriados cristãos,
aniversários, etc.

9ª anotação de observação participativa

Em relação a esta colaboradora, acima referida,observou-se que ela era


muito lenta ao movimentar-se, falava baixo e muito pouco. Percebia-se no seu
comportamento e no dos demais, uma maneira singular de ser. Muitas vezes, no
ônibus que se viajava de São Paulo a Carmo da Cachoeira, onde os passageiros em
geral não se conheciam, que os atores sociais que iam para “Figueira” se
reconheciam entre si, apenas pela forma de se comportar, pelas atitudes, pelo modo
de falar, andar, vestir, etc.
205

Essa observação pode ser classificada na categoria “c”, a qual diz o seguinte:
“Ao fazer-se parte das instituições totais, adere-se a novos padrões de interação.
Um novo processo de socialização é iniciado. O ator social assume o novo código
de comportamento, porque se adapta ao novo conceito interacional”.

Análise

A finalidade de “Figueira”, juntamente com a instrução espiritual, é fazer com


que o simpatizante ou aspirante à vida espiritual desfaça-se das suas origens
culturais e sociais e assuma, total e integralmente, a cultura do grupo. Isto
transparece na forma de pensar, falar, agir, trajar dos simpatizantes da ideologia.

10ª anotação de observação participativa

Observamos um residente, que há seis anos vivia na primeira comunidade


fundada por Trigueirinho, “Nazaré”, afirmar ter sido monge zen-budista. Morou por
um tempo num mosteiro zen com um sistema muito rigoroso. Disse que esteve, por
uns dias, em “Figueira”, e que o colocaram para limpar calhas, telhados, colher
goiabas. Essas tarefas não o incomodaram. Achou a comida horrível e gostou das
palestras, ou melhor, partilhas de Trigueirinho.

Essa observação pode ser classificada na categoria “f”, a qual diz: “Existem
instituições totais como abadias, mosteiros, conventos, claustros, monastérios,
comunidades religiosas que têm por finalidade instruir religiosos. Servem de refúgio
do mundo”:

Análise

A informalidade de regras que existiam no início de sua fundação, tal como


em “Nazaré”, foi se alterando com o aumento do grupo e com a criação de um
monastério. Com o tempo e aumento de números de simpatizantes, “Figueira”
tornou-se uma instituição mais estruturada que “Nazaré”.

Assim “Figueira” não representa um lugar de privações para as pessoas que


já viveram em instituições semelhantes. A adaptação a este ambiente, como de
“Figueira”, é mais fácil para as que já tiveram outras experiências em outras
206

comunidades fechadas ou, então, apresentam predisposição para este modo de


vida.

11ª anotação de observação participativa

Através de pesquisa de campo realizada, no grupo de “Figueira”, em Porto


Alegre, uma colaboradora itinerante disse-nos que a primeira e última vez que foi à
“Figueira”, colocaram-na para pegar lenha empilhada no chão e depois colocá-la
num caminhão. Isso durante uma jornada de dez dias consecutivos, por um período
de oito horas por dia. Ela disse que não se sentiu humilhada por ser uma tarefa
menor, mas ficou preocupada pelas conseqüências físicas, uma vez que não estava
condicionada àquele tipo de atividade. Não era má vontade sua, mas apenas
precaução no sentido de não provocar dores musculares, o que poderia ser uma
conseqüência natural. Então comunicou à coordenação, do setor responsável pela
tarefa, que pretendia ir embora (para tanto era necessário autorização, não se podia
simplesmente sair), tendo em conta que não era bem visto solicitar troca de tarefa,
fato este que poderia parecer um ato de rebeldia. Surpreendentemente, eles
recusaram sua saída antecipada e a colocaram em outras tarefas domésticas, tais
como limpar latrinas. Em poucos dias, trocaram-na de vários setores. Ela cumpriu
todas as suas outras obrigações, e achou que tudo havia se normalizado e que o
incidente da troca havia sido esquecido. Porém, este fato foi usado como argumento
posterior para negar-lhe novos períodos de hospedagem, alegando que a mesma
não se adaptava ao sistema.

Essa observação pode ser classificada na categoria “b”, a qual diz o seguinte:
“As instituições totais são espaços de condicionamento de atores sociais, onde
normas e regras de interação social, seguidas de forma coletiva e compulsória,
modelam o comportamento interacional daqueles que fazem parte do grupo”.

Análise

Os atores sociais ligados ao grupo são privados de iniciativa e criatividade em


“Figueira”. Estão submetidos às regras impostas que regulam sua função, seu
comportamento, sua operacionalização, sua forma de realização. Já estão
especificados o modo operativo único, ao qual têm que se conformar, e a ordem do
207

seu desenvolvimento. Tudo está previsto com bastante exatidão. Não há espaço
para iniciativa pessoal, criatividade ou o livre-arbítrio.

Outro aspecto, enfatizado por esta informante, é a imposição de tarefas


físicas pesadas, bem como de tarefas consideradas humilhantes como, por
exemplo, limpar as latrinas de uso coletivo. Com a imposição destas tarefas,
procura-se cultivar a humildade e a subserviência.

12ª anotação de observação participativa

Observamos uma visitante dizer que estranhou o ambiente afetivo frio e


resolveu, numa certa manhã, não tomar o café. Ficou no quarto choramingando.
Surpreendeu-se com a entrada, intempestiva, da coordenadora no seu quarto,
dizendo que ali não havia espaço para emocionalismos, nem para manifestações de
caráter individualizado. Todas as atividades eram obrigatórias e feitas em grupo. A
visitante achou aquela atitude, da coordenadora, uma invasão à sua privacidade, ao
seu livre-arbítrio, à sua liberdade de escolha e uma falta de sensibilidade em relação
aos seus sentimentos.

Essa observação pode ser classificada na categoria “h”, a qual diz o seguinte:
“Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se
permite ao ator social ter uma vida individual. Ele é despojado de seus bens, de
suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livre-arbítrio, de sua
liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos humanos, de
sua cidadania, ocasionando uma involução no seu desenvolvimento educacional,
profissional, emocional, de sua auto-estima, autovalorização e amor próprio.”

Análise

Na sociedade aberta, os atores sociais têm o direito de escolher o que


querem tomar no café da manhã, ou até liberdade de não tomá-lo. Em “Figueira”,
segundo nossas observações, até esta simples escolha pessoal é problematizada.
Ou seja, até nas mais rotineiras atividades, as preferências e gostos pessoais
devem ser sublimados em prol do coletivo. Teoricamente, tal procedimento é
compreensível, mas para tanto é necessário um exercício de entrega, de
aprendizado, e de prática cotidiana, por um largo período de tempo.
208

13ª anotação de observação participativa

Observamos Trigueirinho dizer, em várias partilhas, que é muito simples


trabalhar em grupo. É fácil se há desapego do conflito. Os conflitos são diluídos em
função do serviço, que o grupo presta, de transmutação dos conflitos planetários.

A forma de escrever, em “Figueira”, é grupal. O grupo espiritual pode suportar


mais energia que um indivíduo. O grupo espiritual não é horizontal. O apego dentro
do grupo espiritual pode impedir o indivíduo de contatar uma energia superior
impessoal, por isso há que se viver, sem conflito, uns com os outros. Isto é
consciência grupal. O cumprimento das tarefas, num grupo espiritual, precisa de um
indivíduo que coopere sem crítica, sem resistência, sem rejeição. Para o grupo
funcionar, é preciso que todos estejam afinados com o propósito do grupo. Ninguém
deveria estar num grupo coagido. Deve estar por livre vontade, e cumprir assim
integralmente a proposta.

Para que um grupo como “Figueira” realize suas tarefas é preciso evitar
contatos físicos, alimentação carnívora, contato com pessoas que não estejam
afinadas com a purificação do grupo. Deve-se preservar o grupo da curiosidade e
atenção dos outros, porque a atitude, das pessoas do grupo, torna-se estranha para
os que vêm de fora visitá-lo. A maior chave para essa preservação é o silêncio. Há
um esforço para que uma nova consciência, espiritual futura, vá se implantando na
Terra. Consciência esta que inspirou a construção de “Figueira".

Leva muitos anos para trabalhar e viver grupalmente. É preciso não ter senso
de posse individuais, sem necessidades, ser flexível, ajustável. “Figueira” é para ser
um laboratório para todo esse processo de transcender o livre-arbítrio. Livre-arbítrio
é uma característica puramente mental e racional. Com a escolha, a mente vai
aprendendo a discernir. Só depois de bem desenvolvida a mente é que ela vai abrir
mão do livre-arbítrio, para ser regida por uma vontade superior, impessoal e
transcendental.

Essa observação pode ser classificada na categoria “h”, a qual diz o seguinte:
“Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se
permite ao ator social ter uma vida individual. Ele é despojado de seus bens, de
suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livre-arbítrio, de sua
209

liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos humanos, de


sua cidadania, ocasionando uma involução no seu desenvolvimento educacional,
profissional, emocional, de sua auto-estima, autovalorização e amor próprio.”

Análise

Conflitos em função de divergências fazem parte da natureza humana, porém


em “Figueira”, esta natureza humana é lapidada diariamente com o intuito de
condicionar o caráter individual, objetivando homogeneizá-lo. Eles pretendem uma
mutação genética; a criação de uma nova raça sem livre-arbítrio, segundo profetiza
Trigueirinho na “Operação resgate”.

14ª anotação de observação participativa

Observamos uma hóspede visitante dizer que, em seu horário livre das
tarefas de “Figueira”, foi para a biblioteca. Os residentes não lêem livros que não
sejam espirituais, os quais já foram, previamente, selecionados por Trigueirinho na
montagem da biblioteca, que se localiza na área urbana, na casa 1, onde fica a
secretaria e a recepção. Lá havia um tapete com almofadas para que os hóspedes
se deitassem e lessem relaxadamente. Também havia um outro hóspede visitante,
do sexo oposto, heterossexual, consultando livros, lendo, etc. Esta hóspede disse
que se deitou de bruços, no tapete, ficando com as nádegas voltadas para cima. Era
uma posição sensual, embora sua roupa fosse discreta. Ela estava ao mesmo tempo
recostada nas almofadas. Para sua surpresa, percebeu que o coordenador
(homossexual) da casa 1 entrou e permaneceu lá até ela sair. Ele parecia ter o
intuito de vigiá-los, no sentido de não permitir uma aproximação de caráter, aos
olhos dele, sexual.

Essa observação pode ser classificada na categoria “g”: “Nas instituições


totais, há uma invasão ao “eu” (self) do residente, que é desprogramado,
despersonalizado de seu “eu” (self) anterior, reprogramado e reeducado pelo grupo
de residentes que o supervisionam, vigiam, fiscalizam e controlam.”
210

Análise

Em relação à biblioteca, só podem ser encontrados livros espirituais


esotéricos previamente selecionados por Trigueirinho, evitando assim a pluralidade
de pensamento e opiniões.

Na atmosfera de “Figueira”, há certa repressão do desejo sexual. Neste


sentido, há um comportamento que busca homogeneizar os sexos, evitando
qualquer manifestação que possa despertar o desejo e o erotismo.

15ª anotação de observação participativa

Um dentista, homossexual, que sentou ao nosso lado no ônibus, de volta de


Carmo de Cachoeira para São Paulo, contou-nos que era constantemente vigiado
no quarto, nas tarefas, nas vigílias, nas partilhas, nas horas livres, nas refeições. Ele
percebeu que havia uma repressão, de forma a evitar contatos, de ordem afetiva ou
sexual.

Essa observação pode enquadrada na categoria “g”: “Nas instituições totais,


há uma invasão ao “eu” (self) do residente, que é desprogramado, despersonalizado
de seu “eu” (self) anterior, reprogramado e reeducado pelo grupo de residentes que
o supervisionam, vigiam, fiscalizam e controlam.”

Análise

Alguns sentimentos mais íntimos dos colaboradores, visitantes ou itinerantes


são incompreensíveis ao grupo de residentes. Parece haver um conflito permanente
entre os desejos, hábitos, necessidades, características e comportamentos dos
colaboradores visitantes ou itinerantes e os interesses dos auxiliares residentes e
coordenadores residentes de “Figueira” que reprimem as manifestações emocionais
dos colaboradores visitantes ou itinerantes.

Parece haver um controle, inclusive, dos hábitos higiênicos dos residentes.


Dentro dos sanitários, há regras escritas sobre não dar descarga à noite, para não
fazer barulho; juntar os fios de cabelos que caem no ralo do box do banheiro; passar
rodo no chão do box do banheiro, após utilizar o chuveiro; não colocar absorvente
ou papel no vaso sanitário. Parece que nem mesmo na hora de satisfazer suas
211

necessidades biológicas, o residente de tem total privacidade, livre-arbítrio ou


liberdade. Não tem privacidade, não fica a sós relaxadamente.

16º depoimento de um médico psiquiatra que tinha uma parente que foi
amiga íntima de Trigueirinho

“Minha tia o conheceu na Associação Palas Athena em São Paulo. Ele era
contra o homossexualismo e até mesmo criticava essa opção sexual”.

Esse depoimento pode ser classificado na categoria “h”, a qual diz o seguinte:
“Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se
permite ao ator social ter uma vida individual. Ele é despojado de seus bens, de
suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livre-arbítrio, de sua
liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos humanos, de
sua cidadania, ocasionando uma involução no seu desenvolvimento educacional,
profissional, emocional, de sua auto-estima, autovalorização e amor próprio.”

Análise

Os residentes de “Figueira” demonstram atitudes e comportamentos


dominadores, enquanto nos visitantes há um componente de submissão ao se
sujeitarem a algumas condutas impostas pelos residentes. Estes, por sua vez,
também sofrem humilhações impostas pelos coordenadores que se sujeitam a
Trigueirinho. As humilhações representam, simbolicamente, um ritual de destruição
do “eu” (self), uma purificação preparatória à entrada em “Figueira”.

17ª anotação de observação participativa

Ouvimos Trigueirinho aconselhar, em uma de suas partilhas, que os


homossexuais, que visitam “Figueira”, deveriam deixar de ter relações sexuais e
aderir ao celibato. Os internos são celibatários. Todos ficam em quartos coletivos
com pessoas do mesmo sexo, o que reprime intimidades e atividades sexuais entre
atores sociais ou solitárias, pois não há privacidade.

Essa observação pode ser classificada na categoria “h”, a qual diz o seguinte:
“Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se
permite ao ator social ter uma vida individual. Ele é despojado de seus bens, de
212

suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livre-arbítrio, de sua


liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos humanos, de
sua cidadania, ocasionando uma involução no seu desenvolvimento educacional,
profissional, emocional, de sua auto-estima, autovalorização e amor próprio.”

Análise

Dentro de um único e mesmo grupo espiritual, como o de “Figueira”, o


residente perde o poder de pensar com vigor, criatividade e originalidade. Ele é
forçado a configurar-se a um âmbito estreito, privado dos resultados estimulantes da
vida no mundo. Não pode ter desejo, nem vontade de sair dos limites impostos pelo
seu próprio grupo de atores sociais, avaliar outras idéias e experimentar outros
ideais. Também não pode beneficiar-se de outros insights. Há certa aceitação, sem
crítica, das idéias e ideais do grupo. Suas idéias ficam congeladas em dogmas, e o
grupo espiritual começa a gerar certo fanatismo e sectarismo.

18ª observação participativa

Observamos que as mulheres, residentes de “Figueira”, não pintam as unhas,


não usam vestidos, saias, bermudas, shorts, miniblusas ou calças de cintura baixa.
Não depilam as axilas ou pernas, não se maquiam, não usam bijuterias, não se
perfumam, não arrumam o cabelo, o qual não têm brilho pela ausência de
cosméticos. Usam o cabelo curtíssimo, quase zero.

Essa observação pode ser classificada na categoria “c”, a qual diz o seguinte:
“Ao fazer-se parte das instituições totais, adere-se a novos padrões de interação.
Um novo processo de socialização é iniciado. O ator social assume o novo código
de comportamento, porque se adapta ao novo conceito interacional.”

Análise

Os residentes e os colaboradores, itinerantes, de “Figueira” não possuem


status, propriedades, roupa indicativa de classe social ou papel social. Não há nada
que possa distingui-los uns dos outros.
213

Assim, há um nivelamento, homogeneidade, uniformidade e igualdade. O que


torna seus comportamentos submissos, subservientes. Devem obedecer e acatar a
ordens e funções arbitrárias.

Perdem seu “eu”, seu self, sua identidade, sua personalidade. Morrem para a
vida material e deverão renascer, para o espírito, com novos valores.

4.4 CATEGORIAS SOBRE OS RITOS DE INTERAÇÃO DIMENSIONADAS COMO


CATEGORIAS CONVERGENTES

As categorias definidas na representação dos atores sociais são


convergentes às categorias absorventes das instituições totais. As categorias da
interação face a face, dentro do projeto de pesquisa, convergem em torno das
categorias da instituição. As categorias convergentes das interações face a face são
resultantes dos processos de interação e constituem fatos de socialização, porque
tendem a aproximações, a produzir sentidos.

A seguir fizemos um quadro de categorias de análises, fundamentadas no


livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” tais como: manipulação da
impressão; representação (fachada pessoal, realização dramática, idealização,
manutenção do controle expressivo, mistificação, atributos e práticas defensivas);
regiões e comportamento regional/estabelecimentos sociais; região frontal/região de
fachada; região posterior/fundo/bastidores; equipe; platéia/observador; segredos
(indevassáveis, estratégicos, íntimos); papéis discrepantes (delator, farol/cúmplice
do ator, agente, intermediário/mediador); princípio norteador (ruptura na interação
social, ruptura na estrutura social, ruptura na personalidade do indivíduo).

As categorias advindas das interações dos atores sociais tiveram por base a
interpretação teatral, uma representação, um desempenho de um papel e/ou
simulação, de caráter dramatúrgico.
214

1. Manipulação da impressão: controle do ator social sobre as impressões que os outros


possam ter dele.
2. Representação: atividade, exercendo influência, de um ator social nos observadores.
2.1. Fachada pessoal: cenário em torno do ator social.
2.2. Realização dramática: exagero na representação, objetivando impressionar a platéia.
2.3. Idealização: tentar parecer melhor do que se é.
2.4. Manutenção do controle expressivo: controle dos gestos involuntários que possam
qualificar a representação como falsa, atos falhos, gafes.
2.5. Mistificação: proteger o ator, criando distância social e uma ‘aura ‘ de mistério.
2.6. Atributos e práticas defensivas: a) fidelidade dramatúrgica, não revelar segredos da
equipe; b) disciplina dramatúrgica, autocontrole, domínio da voz e rosto, distância emocional;
c) circunspeção dramatúrgica, prudência na escolha da platéia, na escolha de membros da
equipe social de atores.
3. Regiões e comportamento regional/estabelecimentos sociais: lugar ou espaço onde se
realizam atividades de forma regular.
3.1. Região frontal/região de fachada: onde ocorre a representação do ator/equipe social de
atores.
3.2. Região posterior/de fundo/bastidores: local que o público não tem acesso, e o ator pode
ser informal e relaxar, sem representar um papel.
4. Equipe: qualquer grupo de atores sociais que contracenam uma rotina particular.
5. Platéia/observador: grupo de observadores da atuação dos atores sociais.
6. Segredos: informações destrutivas.
6.1. Indevassáveis: fatos incompatíveis com a imagem que quer passar.
6.2. Estratégicos: revelado em hora apropriada de forma a surpreender a platéia.
6.3. Íntimos: marca ou estigma ou carimbo ou rótulo que o identifica como ator diferente da
platéia.
7. Papéis discrepantes: atores sociais com informações destruidoras e comprometedoras ao
espetáculo.
7.1. Delator: finge ser membro, tem acesso aos bastidores e a informações negativas,
podendo revelar a trama do espetáculo à platéia.
7.2. Farol/cúmplice do ator: atores sociais que fingem ser platéia, mas fazem parte realmente
da equipe de atores sociais.
7.3. Agente: crítico que qualifica o nível da representação.
7.4. Intermediário/mediador: um ator social que finge ser fiel à platéia e, ao mesmo tempo, fiel
à equipe de atores sociais, mas só é fiel aos seus interesses próprios.
8. Princípio norteador: acordo tácito, um consenso entre atores e platéia.
8.1. Ruptura na interação social: embaraço nas interações das equipes sociais, criando um
clima insustentável.
8.2. Ruptura na estrutura social: comprometimento na representação social do ator que
compromete toda equipe social a qual pertence.
8.3. Ruptura na personalidade do indivíduo: descrédito na sua personalidade.
Quadro 5 - Categorias de análise dos ritos da interação dimensionadas como
categorias convergentes
215

4.4.1 Roteiro dramático de uma instituição total

Dada a escolha do nosso referencial teórico, bem como o tipo de observação


que realizamos na nossa pesquisa de campo, estamos preferindo – neste sentido,
seguir mais adequadamente, o ponto de vista de Goffman – chamar as anotações
da nossa observação de campo de “cenas de interação”.

1ª cena de interação:

Quando vão assistir às palestras de Trigueirinho, os residentes adotam uma


circunspeção dramatúrgica: fecham os olhos enquanto ele fala, demonstrando que
suas palavras têm prioridade sobre a imagem, ou seja, têm poder; ficam de cabeça
abaixada por todo o tempo da sua palestra em sinal de humildade; não conversam
entre si ou com os visitantes itinerantes, oferecem um modelo de conduta a ser
seguido, de silêncio, de circunspeção, ou melhor, de introspecção. Eles poderiam
ser considerados co-atores, coadjuvantes, coniventes ou comparsas sociais.

Essa observação pode ser classificada nas seguintes categorias: “1.”:


“Manipulação da impressão: controle do ator social sobre as impressões que os
outros possam ter dele.”; “2.5.”: “Mistificação: proteger o ator criando distância social
e uma aura de mistério.”; “2.1.”: “Fachada pessoal: cenário em torno do ator social.”;
Outro enquadramento possível é na categoria “2.6.”: “Atributos e práticas defensivas:
a) fidelidade dramatúrgica, não revelar segredos da equipe; b) disciplina
dramatúrgica, autocontrole, domínio da voz e rosto, distância emocional; c)
circunspeção dramatúrgica, prudência na escolha da platéia, na escolha de
membros da equipe social de atores.”

Análise

Com o intuito de transformar o mundo com a operação resgate, Trigueirinho e


o grupo de atores sociais de “Figueira” precisam contar com o esforço de seus
simpatizantes, por isso desempenham um papel ativo. Como são responsáveis pelo
sucesso, são co-atores sociais, coadjuvantes.
216

2ª cena de interação:

Em “Figueira”, observamos que há atitudes diferentes dos atores sociais nos


bastidores e na região de fachada. Uma diferença comportamental na região dos
bastidores. De um lado, há a situação que é ensaiada e por outro, a que é
encenada. A entrada para as regiões mais íntimas é proibida.

Essa observação pode ser enquadrada na categoria “3.1.”: “Região


frontal/região de fachada: onde ocorre a representação do ator/equipe social de
atores. Também diz respeito à categoria “3.2.”: ”Região posterior/de
fundo/bastidores: local que o público não tem acesso, e o ator pode ser informal e
relaxar, sem representar um papel”.

Análise

A finalidade, provavelmente, é impedir que os expectadores vejam os atores


sociais em atitudes espontâneas e compartilhem uma intimidade que “Figueira” não
deseja estimular. Há um controle, um domínio dos bastidores, além do domínio,
óbvio, da região de fachada.

3ª cena de interação:

Ainda observamos, nas regiões de bastidores, que entre os atores sociais


residentes de “Figueira” prevalece a familiaridade e a solidariedade.

A categoria “6” descreve essa situação: “Segredos - informações destrutivas.”


A “6.1.” explica esse comportamento: “Indevassáveis - fatos incompatíveis com a
imagem que quer passar”. A observação também pode ser classificada na categoria
“6.3.”, a qual diz o seguinte: “Íntimos - marca ou estigma ou carimbo ou rótulo que o
identifica como ator social diferente da platéia.”

Análise

Os residentes de “Figueira” guardam segredos, que são partilhados de


comum acordo entre si, que poderiam enfraquecer, desvalorizar e menosprezar sua
representação. Estes segredos são o suporte das crenças que mantêm a existência
e o funcionamento de "Figueira”, conferindo-lhe uma aura de mistério.
217

4ª cena de interação:

Observamos que Trigueirinho, talvez, evita o constrangimento com possíveis


críticas ao selecionar, previamente, as perguntas que deseja responder. Elas são
colocadas, estrategicamente, num escaninho antes de Trigueirinho iniciar sua
palestra, que se desenrola sempre por um mesmo período de uma hora apenas.

Essa observação pode ser classificada na categoria “2.3.”, a qual diz:


“Idealização: tentar parecer melhor do que se é”. A observação pode também ser
classificada na categoria “2.4.”, que afirma: “Manutenção do controle expressivo:
controle dos gestos involuntários que possam qualificar a representação como falsa,
atos falhos, gafes. A observação também pode ser classificada na categoria “2.5.”, a
qual menciona: “Mistificação: proteger o ator criando distância social e uma aura de
mistério”. A observação também pode ser classificada na categoria “2.6.”, que
afirma: “Atributos e práticas defensivas: a) fidelidade dramatúrgica. Não revelar
segredos da equipe; b) disciplina dramatúrgica, autocontrole, domínio da voz e rosto,
distância emocional; c) circunspeção dramatúrgica, prudência na escolha da platéia,
na escolha de membros da equipe social de atores”.

Análise

Uma representação breve e perguntas previamente selecionadas pode evitar


o descrédito dos líderes carismáticos ou messiânicos, cujas crenças e fé dos seus
adeptos dependem. Elas não podem oscilar, têm que ser inabaláveis. Esta forma de
representação impede qualquer tipo de dissonância que poderia abalar a
credibilidade e a sustentabilidade da sua encenação.

5ª cena de interação:

Uma visitante confidenciou-nos ter visto dois coordenadores de setores


diferentes de “Figueira” conversarem descontraidamente entre si. Esboçavam
expressões de gracejo. Porém, quando perceberam sua presença não consentida,
automaticamente retomaram suas posturas formais e reassumiram seus papéis com
ares de circunspeção. À noite, quando todos estavam dormindo, os residentes iam
sorrateiramente até a cozinha para comer e conversar. Atitudes contrárias às regras
218

aplicadas aos atores sociais visitantes ou itinerantes de silêncio, de respeitar e


observar os horários das refeições.

Esta observação pode ser enquadrada nas seguintes categorias “3.1.”:


“Região frontal/região de fachada: onde ocorre a representação do ator/equipe social
de atores”; “3.2”: “Região posterior/de fundo/bastidores: local onde o público não tem
acesso, e o ator pode ser informal e relaxar sem representar um papel; “2.4”:
“Manutenção do controle expressivo: controle dos gestos involuntários que possam
qualificar a representação como falsa: atos falhos, gafes; “6.”: “Segredos:
informações destrutivas”; “6.1.”: “Indevassáveis: fatos incompatíveis com a imagem
que quer passar”; “6.3”: “Íntimos: marca ou estigma ou carimbo ou rótulo que o
identifica como ator diferente da platéia”; “7.”: “Papéis discrepantes: atores sociais
com informações destruidoras e comprometedoras ao espetáculo.”

Análise

É bem nítida a separação entre o local onde é representado o drama, a peça,


quer dizer, o palco das ações e o local da coxia, onde há um relaxamento na
representação de um papel formal. Nos momentos em que a observação externa
não é visível, a encenação se desfaz, e até mesmo os coordenadores podem ser
surpreendidos em atitudes informais.

6ª cena de interação:

Em várias incursões à “Figueira”, observamos que a coordenação dos setores


está constantemente mudando. Há um rodízio de pessoas na coordenação, nas
funções, nos locais de dormitório. Isto ocorre com o intuito de evitar o apego às
tarefas, a proximidade entre as pessoas, o relacionamento, a integração, a
comunicação, a intimidade entre os residentes e os itinerantes e, ao mesmo tempo,
cultivar a impessoalidade e o desapego às pessoas.

As seguintes categorias explicam este comportamento: “1.”: “Manipulação da


impressão: controle do ator social sobre as impressões que os outros possam ter
dele”; “6.”: “Segredos: informações destrutivas”; “7.”: “Papéis discrepantes: atores
sociais com informações destruidoras e comprometedoras ao espetáculo”; “7.1”:
219

“Delator: finge ser membro, tem acesso aos bastidores e a informações negativas,
podendo revelar a trama do espetáculo à platéia”.

Análise

A força de trabalho, de “Figueira”, só é possível se os atores sociais estiverem


presos no seu sistema de sujeição, e os seus corpos se tornem servis e submissos.
As necessidades, atividades e tarefas são instrumentações políticas
cuidadosamente organizadas, calculadas e utilizadas de forma a mascarar a
realidade. A sujeição é obtida pela ideologia religiosa estrategicamente pensada,
agindo sobre os seus corpos, sobre as suas personalidades e até mesmo nas suas
almas, no seu íntimo, sem, no entanto, fazer uso de violência ou de armas. Assim,
os residentes condicionam os visitantes para que ajam de forma igual. Os seus
comportamentos são previamente decididos e há, portanto, uma flexibilidade
adaptativa dos corpos.

Variação contínua, mudança constante, rotativa, periódica e permanente de


tarefas, funções, coordenações, setores, atividades, etc., evitando, com isso,
propiciar meios que induzam à intimidade, à interação, à comunicação, à amizade,
ao relacionamento dos residentes com os visitantes e itinerantes. Há uma
rotatividade do público itinerante, das tarefas e atividades designadas, das
ocupações, das funções da coordenação e de espaços ou setores físicos tanto para
residentes, como para os itinerantes. A mudança constante das funções e locais de
atuação dos coordenadores se deve à intenção de que estes não criem
cumplicidade entre si e com os visitantes. Isto poderia condicionar um relaxamento
nas relações que devem ser pautadas pela austeridade.

7ª cena: comentário de artigo acessado em junho de 2003

A seguir comentário do Cipfani, um site de pesquisas ufológicas, sobre o


artigo publicado em seu próprio site, “Trigueirinho explora a credulidade alheia”, de
autoria do historiador com título de Mestre pela Faculdade de Ciências e Letras de
Assis, campus local da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Cláudio Tsuyoshi
Suenaga, onde editores do Cipfani identificam a técnica de proteção defensiva para
evitar perguntas de cunho crítico:
220

Por duas ocasiões tivemos contato pessoal com o “Picaretólogo”


Trigueirinho. Em uma das vezes, durante suas palestras, proferida no
Minascentro, enchemos duas folhas com “dúvidas”, pois ele responderia a
elas no final. As perguntas deveriam ser por escrito, colocadas em uma
cesta. Para nossa surpresa, NENHUMA das perguntas foi respondida.
Tentamos perguntar oralmente, mas ele se recusou a responder. Tentamos
abordá-lo pessoalmente no final da palestra, e fomos repelidos pelos “fiéis”
gorilas que o acompanhavam (SITE DO CIPFANI, 17/06/2003).

Esse artigo enquadra-se em várias categorias, a saber: “2.5”: “Mistificação:


proteger o ator criando distância social e uma aura de mistérios”; “2.4”: “Manutenção
do controle expressivo: controle dos gestos involuntários que possam qualificar a
representação como falsa: atos falhos, gafes; “2.6”: “Atributos e práticas defensivas:
a) fidelidade dramatúrgica; não revelar segredos da equipe; b) disciplina
dramatúrgica, autocontrole, domínio da voz e rosto, distância emocional; c)
circunspeção dramatúrgica, prudência na escolha da platéia, na escolha de
membros da equipe social de atores”.

Análise

Alguns líderes espirituais, carismáticos, messiânicos, não se predispõem a


tratar com diferenças de comportamento e pensamento. Eles tendem a encarar a
divergência como um perigoso ataque às suas convicções. Este tipo de liderança
não aceita a diversidade e a democracia. Por esta razão, evita o diálogo, a crítica e o
questionamento sobre suas convicções e pregações.

8ª cena: artigo acessado em junho de 2003

Cláudio Tsuyoshi Suenaga, em seu artigo publicado no site do Cipfani,


intitulado “Trigueirinho Netto explora a credulidade alheia” denuncia a persuasão de
Trigueirinho para cooptar mão-de-obra voluntária e obter lucro com isto:

A idéia de explorar a credulidade mística e a falta de senso crítico da massa


só veio mais tarde, quando já havia abandonado o cinema. Não obstante, os
conhecimentos adquiridos com a técnica cinematográfica certamente lhe
foram úteis para que fraudasse todas as fotos de discos voadores que
ilustram seus livros. Sim, porque suas naves espaciais não passam de
fontes de luz convencionais, fotografadas com longo tempo de exposição ou
mediante movimentos aleatórios de câmera. Trigueirinho manipula os fiéis
com a mesma habilidade com que manipula os negativos das suas fotos
falsas (ANEXO AAF) (SUENAGA, 2003).
221

Dentre as categorias de análise, este artigo enquadra-se nas seguintes: “1.”:


“Manipulação da impressão: controle do ator social sobre as impressões que os
outros possam ter dele”; “2.1.”: “Fachada pessoal: cenário em torno do ator social”;
“2.”: “Representação: atividade, exercendo influência de um ator social nos
observadores”; “2.2”: “Realização dramática: exagero na representação objetivando
impressionar a platéia”; ”2.5”: “Mistificação: proteger o ator criando distância social e
uma aura de mistério”; “6.2”: “Estratégicos: revelado em hora apropriada de forma a
surpreender a platéia.”

Análise

Trigueirinho, tendo sido diretor e cineasta, disse que os mesmos conhecem


muito bem a necessidade de satisfazer a exigência de um público desorientado, e o
meio mais fácil e rápido para isto seria o da criação de mitos. Portanto, um
especialista, um expert, um connaisseur, um diretor, um cineasta conhece as
ferramentas e técnicas de autocontrole dramatúrgico, de domínio da expressão do
rosto, de domínio da voz, de dissimulação, de como esconder a emoção verdadeira
e simular uma representação falsa, de como manipular e persuadir as impressões
dos expectadores da platéia.

9ª cena: artigo acessado em junho de 2003

Prof. Cláudio Suenaga percebeu a técnica de persuasão de Trigueirinho:

Trigueirinho continua arrebanhando milhares de fiéis que, através de seus


livros, chegam a formar grupos que se dedicam a propalar seus
ensinamentos ou pregações. Nada mais do que uma mistura barata de
literatura mística, teosófica e esotérica devidamente distorcidas para que
atendam a seus propósitos, ou seja, continuar arrebanhando milhares de
fiéis que compram mais livros, formam novos grupos e propalam seus
ensinamentos que irão continuar atraindo mais incautos engordando sem
parar a conta bancária do guru (SUENAGA, 2003).

As categorias que explicam a opinião acima sobre Trigueirinho são as


seguintes: “1.”: “Manipulação da impressão: controle do ator social sobre as
impressões que os outros possam ter dele”; “2.1”: “Fachada pessoal: cenário em
torno do ator social”; “2.5”: “Mistificação: proteger o ator criando distância social e
222

uma aura de mistério”; “4.0”: “Equipe: qualquer grupo de atores sociais que
contracenam uma rotina particular.”

Análise

A idéia de fim de mundo que Trigueirinho profetiza não é nova. Foi


imortalizada na obra de Tomas Morus, “Utopia”. Na concretização da cidade santa e
sagrada de “Figueira”, inicia-se um paraíso terreno, uma ilha paradisíaca, uma
sociedade perfeita. Porém uma comunidade perfeita precisa contar com atores
sociais perfeitos. Por isso os que aspiram a esse mesmo ideal devem se submeter,
se sujeitar a um condicionamento de purificação, uma santificação, uma
transformação pessoal. Segundo Trigueirinho, se apenas 10% da humanidade
aceitar se sacrificar voluntariamente através da “Operação resgate”, profetizada por
ele, então a humanidade, como um todo, será salva, resgatada.

10ª cena: artigo do Mestre Suenaga sobre a técnica de persuasão de


Trigueirinho acessada em outubro de 2006

(...) afirma Trigueirinho, que se diz contatado por ets e escolhido para uma
missão importante: conscientizar a humanidade a respeito de seus
vizinhos(...)Os ufólogos ortodoxos torcem o nariz e têm argumentos para
não crer nas predições de Trigueirinho, mas isso não o impede de continuar
suas afirmações(...)Trigueirinho foi duramente criticado por ufólogos de todo
país, em especial os da revista UFO, em 1995. Nessa ocasião, no auge de
sua fama como escolhido de ets, já tinha vários livros publicados e um vasto
esquema mercadológico de palestras por todo o Brasil, onde apresentava
suas teorias. Seus livros foram objeto de suspeita principalmente por
trazerem, em suas capas, fotos com luzes noturnas não identificadas que
Trigueirinho descrevia como sendo extraterrestres e pertencentes aos seus
amigos de outros planetas. As imagens não resistiram a uma mera análise e
resultaram em falsificações grosseiras de pontos de luz urbanos, flagrados
com lentes especiais e em circunstâncias extraordinárias. As capas de seu
livro são bonitas, mas não são ufos, declarou o ufólogo paulista e também
co-editor de UFO Marco Antônio Petit (ANEXO AA) (SUENAGA, 2006).

Esse artigo pode ser classificado na categoria “2.3”: “Idealização: tentar


parecer melhor do que se é”; e na “2.5” que menciona: “Mistificação: proteger o ator
criando distância social e uma aura de mistério.”
223

Análise

Historicamente, muitos profetas são emocionalmente instáveis, e este


desequilíbrio contribuiu, em grande parte, para seu sucesso. Muitos deles
revelaram-se influentes demais, tal como Antônio Vicente Maciel, o “Conselheiro”.
Sua imagem foi imortalizada por Euclides da Cunha no célebre livro ”Os Sertões”,
onde ele descreve o líder de “Canudos” como um demente, um desequilibrado, um
manipulador, que arrebanhou um exército de gente avessa ao trabalho. Também em
sua versão romanceada de “Canudos”, “A Guerra do Fim do Mundo”, o peruano
Mario Vargas Llosa pinta imagem semelhante, a do beato enlouquecido, porque o
“Conselheiro”, de “Canudos”, começou a pregar depois da desilusão com a esposa,
que o abandonou para morar com um cabo de milícia.

11ª cena: enquete publicada na internet, no site


geocities.com/vitaluxbrasil/relatório, editor Aldo Novak, edição nº 2000,
acessado em 06 de outubro de 2006; e, também, no site
vigilia.com.br/sessão.php°categ=0&id=342, editado pela Revista Vigília,
editorial Nova Onda Comunicação, acessado em 06/10/006

Uma enquete realizada pelo Grupo de Estudos Ufológicos da Baixada


Santista (GEUBS) revela a opinião dos pesquisadores dedicados à ufologia no Brasil
a respeito do grau de credibilidade de alguns dos casos mais famosos de contatos
com ovnis e extraterrestres da ufologia mundial. Foram consultados cinqüenta
pesquisadores, 10% do total de ufólogos considerados ‘ativos’ no Brasil. Na
enquete, os pesquisadores deram notas de 0 a 10.

Escore de 0,00 a 1,99: casos sem nenhuma credibilidade, considerados as


grandes fraudes da ufologia mundial. Segundo a pesquisa, não existe
absolutamente nada que seja digno de confiabilidade nestes casos. Os casos que
receberam nota zero até 1,99 não são considerados sérios.

Trigueirinho afirma estar em contato com seres intraterrenos e extraterrestres


de universos paralelos. Ele teve um escore final de 1,36.

Essa enquete pode ser classificada na categoria “6.”: “Segredos: informações


destrutivas”; também pode ser classificada na categoria “6.1.”: “Indevassáveis: fatos
224

incompatíveis com a imagem que quer passar”; categoria “7.”: “Papéis discrepantes:
atores sociais com informações destruidoras e comprometedoras ao espetáculo.”

Análise

A enquete apresentada ,e que atribui à ufologia de Trigueirinho os mais


baixos escores, prende-se ao fato de a ufologia deste ser considerada mística, isto
é, não se enquadra nos parâmetros mínimos do rigor científico.

4.4.2 Conclusão

O elo entre o viés da “representação dos atores sociais” e o da “instituição


total”, no contexto da teoria do interacionismo simbólico, é que a situação da
interação, a circunstância, o espaço das controvérsias (os quais têm muita
importância para a sociologia) não deveriam dissociar os ritos de interação dos ritos
da instituição.

No caso estudado da comunidade de “Figueira”, não se observou tal


dissociação entre os ritos de interação e os da instituição. Alguns aspectos foram
apresentados separadamente apenas para fins analíticos.
Considerações Finais
CONSIDERAÇÕES FINAIS

O tema desta pesquisa é pioneiro, inédito e dessa forma esperamos que


possa servir de ponto de partida para posteriores estudos e aprofundamentos sobre
temas afins. Este estudo da comunidade “Figueira” como exemplo de uma instituição
total e, particularmente, o mundo dos atores sociais tinha como um dos seus
interesses principais apresentar uma versão sociológica do “eu” (self) em interação.

Diferentemente de alguns pontos de vista de Goffman, acentuamos o mundo


do ator social não-internado que se hospeda em “Figueira”. Estes, ao interagirem
com os internos, entram em conflito em função de diferentes condicionamentos,
criando-se, assim, um clima constante discórdia. Eles entram em divergência em
função da sujeição hierárquica do grupo de “Figueira”, por sua vez, liderado por
Trigueirinho. Elas geram uma atmosfera de divergência permanente pela
interferência ao “eu” (self) de cada um.

Portanto, há um interesse sociológico nas pesquisas sobre instituições totais,


porque nestes espaços, as regras e normas condicionam como os atores sociais
devem interagir coletivamente em virtude de pertencerem a um grupo específico.

O funcionamento de “Figueira” confirma nossa hipótese de que esta


comunidade pode ser classificada, parcialmente, em alguma medida, como uma
instituição total por possuir algumas características similares àquelas estudadas por
Goffman. Também se verificou que a forma como é administrada “Figueira”
condiciona o “eu” (self), o comportamento, o pensamento e até os sentimentos dos
que estão ligados a ela direta ou indiretamente.

As categorias definidas na “representação dos atores sociais” são


convergentes às categorias absorventes das instituições totais. As categorias das
instituições totais convergem com as das categorias da interação face a face,
sobretudo porque, as tendências absorventes destas instituições, funcionam nas
interações e anulam a intersubjetividade por processos de apartação ou
227

isoladamente principalmente. O elo entre elas é que a situação da interação(a qual


têm muita importância para a sociologia) não deveria dissociar os ritos de interação
dos ritos da instituição. No caso estudado da comunidade de “Figueira”, não se
observou tal dissociação entre os ritos de interação e os da instituição. Alguns
aspectos foram apresentados isoladamente apenas para fins analíticos. As
categorias convergentes nas interações face a face são resultantes dos processos
de interação e constituem fatos de socialização. São convergentes, porque
possibilitam aproximações. Todas as instituições tendem a atrair para si os sujeitos
por processos de socialização, apartação, inclusão, identificação e outros. Nas
instituições totais, essa absorção é mais acentuada.

Dentro desse contexto da transição do século XX para o século XXI, surgiu


Trigueirinho re-anunciando a Era de Aquário. Esta transição passoupor uma fase em
que a insegurança nas relações sociais fizeram com que alguns atores sociais
ficassem perdidos, fracassados, derrotados e suas resignações sociais podiam se
manifestar em fuga e abandono da sociedade, quando convergiam para
comunidades desviantes. Ali entravam em contato com seus semelhantes formando
uma sub-cultura. Os desviantes sociais evitavam as divergências, restringindo-se à
proteção auto-defensiva de viverem isolados numa sub-comunidade, onde não se
sentiam mais deslocados como na sociedade aberta. Sentiam-se melhor que os da
comunidade aberta, superiores, exemplos e modelos de vida, angariando
simpatizantes.

Trigueirinho anunciava em suas profecias que a transição ao milênio


aquariano seria plena de riscos para os espiritualmente despreparados. Mas, por
outro lado, os que estivessem em harmonia com a operação resgate, liderada por
ele, ingressariam numa nova era de iluminação espiritual, uma nova civilização.

Em relação à “Operação resgate”, como já dito anteriormente, tinha por


objetivo salvar o grupo de “Figueira” do fim do mundo. Porém para que cada um
deles fosse resgatável, precisaria passar por uma mudança de comportamento, isto
é, teria que se sujeitar a um condicionamento. Esse resgate e condicionamento da
personalidade teriam como finalidade torná-lo sem livre-arbítrio, para que acatassem
ordens e funções alheias à sua natureza vocacional e atendessem aos objetivos do
coletivo e não aos da sua individualidade.
228

Concluímos que Trigueirinho exerce poder, devido à sua personalidade e


carisma, o que desperta o fascínio e o deslumbre nos simpatizantes. Assim adquiriu
ascendência sobre um grupo de simpatizantes que agruparam em torno dele e
consegue com que os grupos de pessoas internas e externas de “Figueira”
trabalhem em atividades e tarefas gratuitas e voluntárias com o fim coletivo de
transformação e resgate dos seres humanos que transitam por “Figueira”.

Nessa “Operação resgate”, oss supervisores ou coordenadores são os


indivíduos mais próximos de Trigueirinho. Ajudam ativamente e em geral também
são dotados de certas virtudes carismáticas. Ministram palestras e servem de
intermediários entre Trigueirinho e o restante do grupo, portanto dispõem de certo
poder. Procuram organizar os colaboradores internos e externos, constituindo-os
numa sociedade com direitos e obrigações estabelecidos de acordo com as
instruções que condicionam a comunidade.

A quantidade de tarefas fez com que surgisse a divisão de trabalho e,


conseqüentemente, a necessidade do aparecimento de uma série de colaboradores
internos e externos. Trigueirinho não pode assumir sozinho a comunidade, por isto
divide as tarefas com os coordenadores. Assim desenvolveu-se em “Figueira uma
hierarquia, um tipo único de estrutura social, com três camadas superpostas.
Trigueirinho no topo, os externos ou redes de serviço na base, e intermediando a
ambos um grupo de coordenadores internos mais próximos: os escolhidos por
Trigueirinho. A divisão do trabalho é uma condição necessária para que a
comunidade se desenvolva e possa partir para o resgate do mundo.

Os coordenadores dos setores estão constantemente sendo mudados por


Trigueirinho. Há uma rotatividade, um rodízio de funções com o objetivo de evitar
apego às tarefas, cultivar o desapego entre os colaboradores e impedir a possível
formação de focos de rebeldia, como surgiram na Comunidade Nazaré, resultando
na exclusão de Trigueirinho.

A centralização das tomadas de decisões em Trigueirinho acarreta uma falta


de comunicação interna. Trigueirinho torna os limites de “Figueira” muito precisos
em função de experiências negativas do seu passado que o excluíram da
Comunidade Nazaré, por isso os indecisos não podem ser aceitos. Todos os
229

membros devem manifestar zelo no desempenho dos deveres. Se um membro


recusa obediência, a salvação do grupo todo é posta em perigo, em jogo. Uma das
grandes preocupações de Trigueirinho é dar ênfase aos limites do grupo,
preservando os integrantes do contato nocivo com pessoas com ideais contrários.
Isto, em parte, condiciona a segregação do grupo em relação à sociedade global.
Assim, em “Figueira”, há uma permanente divergência resultantes da interação entre
colaboradores internos e externos, porque o interesse do grupo está acima das
individualidades. O indivíduo encontra-se subordinado a uma determinação coletiva,
agindo em contrario a elas, poderia haver sanções privando sua independência,
liberdade, livre-arbítrio.

Os colaboradores são condicionados a não se comunicarem, como já foi dito


anteriormente, uma das maiores regras em “Figueira” é o silêncio interno e exterior.
Por isso, há um isolamento que priva os colaboradores de iniciativa e criatividade,
porque estão submetidos às regras, às operações e a forma de realizá-las que
condicionam o seu comportamento. Seu modo operativo único ao qual devem
condicionar-se e a ordem do seu desenvolvimento já estão especificados. Tudo está
previsto com bastante exatidão, portanto não há espaço para a iniciativa pessoal ou
para o livre-arbítrio. Para Trigueirinho, o livre-arbítrio gera um estado caótico. Os
colaboradores, para serem salvos e resgatados, devem entregar-se à sua
autoridade.

Vários trabalhos grupais realizam-se dessa maneira abnegada: oblatos são


leigos que se oferecem para servir no grupo de “Figueira” abnegadamente. Auto-
afirmação, orgulho, idiossincrasias e vaidade não devem interferir na sua tarefa,
cujas bases são o despojamento, o desapego e a prontidão ao serviço impessoal
para atender aos objetivos coletivos do grupo.

O zelador segue a via do despojamento e dedica-se a suprir tudo e todos


incondicionalmente. O zelador deve se inspirar nos que se devotam
incondicionalmente à vida de serviço.

Há, atualmente, poucos residentes em “Figueira”, porque, segundo


Trigueirinho, no atual contexto social, poucas pessoas conseguem liberar-se do
compromisso com a sociedade. A estrutura, a engrenagem da sociedade continua
230

exercendo grande atração sobre as pessoas. Alguns devem, portanto, se


despojarem de encargos e desvincularem-se da sociedade, segundo Trigueirinho,
para ajudar no que é exigido aos residentes de “Figueira”. Esta postura resultará da
renúncia a ambições, desejos e satisfações próprias em função da coletividade.

O residente deve vivenciar suas provas de renúncia, humildade, humilhação,


abnegação em silêncio, sem tagarelice, sem choro, sem emoções, sem dor. Para o
residente as provas, que advêm do cumprimento das tarefas diárias, são
oportunidades de transformação, por isso, devem cultivar a virtude ou qualidade de
desapego e renúncia em tudo o que faz, realizando as tarefas que lhe cabem com
abnegação. Um residente deve renunciar às delícias, ao conforto, aos prazeres da
vida. Deve deixar de lado a murmuração, a queixa, a lamúria, deve prescindir de
consolo.

Há em “Figueira” uma atividade chamada de abrigo que possibilita prestar


serviço livre dos apegos que limitam o trabalho em grupo. Também não se deve
buscar reconhecimento para não reforçar o egoísmo. Esta atitude torna-se um
obstáculo à vida grupal. A colaboração é necessária, pois a tarefa deverá cumprir-se
conforme planejada pelo grupo. A função do abrigo é de ajudar todos libertarem-se,
desvencilharem-se e desapegarem-se da sociedade. Muitos dos que se aproximam
do abrigo estão para se libertarem e necessitam de coragem, ajuda e reforço.

Os que aspiram à vida em “Figueira” são chamados de aspirantes e devem


ter uma disposição para seguir, sem reservas, com abnegação, com desapego, de
forma impessoal, o caminho do serviço. O aspirante deve deixar de lado o orgulho e
o preconceito para servir à humanidade. Deve aprender que a sujeição a uma
organização, a uma ordem, às regras, às normas, a determinadas condutas são
necessárias a um trabalho evolutivo e que, impostas num ambiente, servem de
exemplo aos demais. O aspirante deve reconhecer que o condicionamento a uma
disciplina hierárquica é imprescindível para a transcendência do egoísmo e das
preferências de natureza mental e emocional individuais em detrimento das coletivas
e grupais. Só quando o egoísmo é transcendido e as preferências individuais
superadas surge a disciplina grupal e coletiva. Ordem, disciplina e obediência devem
fazer parte da vida do aspirante, revelando uma maneira flexível, meiga e cordata de
viver.
231

”Figueira” como já foi dito anteriormente, é um híbrido social, uma


organização formal que administra uma comunidade alternativa. Os monges nunca
devem entrar em interação com o grupo de colaboradores itinerantes e/ou visitantes
que se hospedam em “Figueira” e, em hipótese alguma, estabelecem interação com
o restante da sociedade aberta. Há um monastério feminino e outro masculino, são
semi-reclusos. Vivem separados fisicamente sem muita interação com o grupo de
residentes. Mais afastados e sem interagir com os itinerantes ou visitantes que se
hospedam em “Figueira”. Estão sem nenhuma interação com a sociedade aberta.
Eles só têm interação com o grupo de residentes em raras reuniões,
excepcionalmente têm interação com o grupo itinerantes ou visitantes e jamais têm
interação com a sociedade aberta. Essa falta de interação só vêm ratificar o
enquadramento em parte, em alguma medida, de “Figueira” como uma instituição
total, onde quase inexiste interação.

Os atores sociais que almejam morar em “Figueira” devem viver em


comunidade, separados da família, desapegados do dinheiro, sem posses ou
propriedade privada. Devem condicionar-se à pobreza, sublimar o sexo e,
conseqüentemente, abrir mão da instituição casamento, abster-se de alimentos de
origem animal, ser obedientes aos seus superiores, observar o silêncio e restringir a
conversa ao estritamente necessário para o andamento das tarefas. Essas são
características similares às das instituições totais estudadas por Goffman.

A seguir, algumas considerações breves sobre a influência dos atores sociais


de “Figueira” no condicionamento ”eu” (self) dos simpatizantes. O efeito dá-se sobre
a reprodução dos seus valores espirituais, padronizando gestos, expressões e
linguagem.

Os valores culturais dos atores sociais de “Figueira” condicionam em detalhe


o modo como os residentes pensam, aparentemente, em relação a muitos assuntos,
até mesmo estabelecem um quadro de referências, de parâmetros, de paradigmas.

Os atores sociais estão alicerçados numa ideologia que molda o


comportamento dos que entram em contato mais diretamente com ela, tornando-os
servis. Essa marca ou estigma transparece nas atitudes dos seus atores sociais, na
sua maneira de interagir, de sentar, de andar, na sua forma de comer, de falar,
232

porque estão condicionados por uma cultura espiritual que submete o corpo à
purificação moral, cultura baseada nas virtudes do tipo ideal de caráter cristão sobre
as quais diz o filósofo Nietzsche serem virtudes do escravo.

“Figueira” tem como objetivo principal a espiritualidade e está alicerçada


numa ideologia que condiciona um comportamento servil que transparece na forma
de interagir (self-interaction), de sentar, de andar, nos gestos, nas expressões, na
linguagem e até na forma de comer dos atores sociais, os quais representam um
“eu” (self) cotidiano humilde e modesto.

Através da imposição de regras, normas e disciplinas, “Figueira” reproduz


seus valores nos mínimos gestos, expressões e linguagem de forma a padronizar e
homogeneizar os comportamentos, não permitindo que as pessoas vivam como
quiserem, com liberdade de escolha, com livre-arbítrio, etc., criando, assim, uma
comunidade de atores sociais condicionados, automatizados, fechados e
segregacionistas, tal como a ficção científica do livro “O Admirável Mundo Novo”.

“Figueira” rompeu com os princípios fundamentais da sociedade abolindo a


propriedade, o casamento e a família. Tornou-se um espaço comunitário singular,
indiferente ao Estado. É uma comunidade composta de indivíduos semelhantes que
formam uma subcultura. A comunidade evoluiu para um estado monástico com o
tempo e o aumento do número de residentes. Hoje lá se confundem submissão com
santidade. Todos devem se sujeitar à autoridade de Trigueirinho. Os que desejam
viver pelas regras de “Figueira” devem querer devotar-se inteiramente ao serviço
pela autodisciplina, oração e trabalho. Devem viver uma vida em comunhão,
desapegar-se da família, condicionar-se à pobreza, desapegar-se do dinheiro e da
propriedade privada. Devem abster-se do sexo e conseqüentemente do casamento,
devem obedecer aos superiores, devem abster-se de alimentos de origem animal,
devem restringir a conversa e observar o silêncio. A liberdade, o livre-arbítrio e a
privacidade são suprimidos em favor da coletividade.

“Figueira”, sob a égide de um novo código cultural, subverte a ordem social


estabelecida, criando normas que contrariam a sociedade aberta. Com isso, o grupo
possui idéias que conflitam com os valores da sociedade na qual se insere, gerando
uma divergência permanentes entre o grupo de externos e o dos internos.
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1974.

VELHO, Gilberto. Desvio e divergência. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

______. Desvio e divergência. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.

______. Becker, Goffman e a Antropologia no Brasil. In: GASTALDO, Édison (org).


Erving Goffman - desbravador do cotidiano. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2004.

WATSON, Rod. Lendo Goffman em interação. In: GASTALDO, Èdison (org). Erving
Goffman - desbravador do cotidiano. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2004.

WEBER, Max. Os três tipos puro de dominações legítimas. In: COHN, Gabriel (org).
Weber: sociologia. São Paulo: Ática, 1979.

WEBER, Eugene. Após o apocalipse, crenças de fim (e recomeço) de mundo. São


Paulo: Editora Mercuryo, 2000.

WINKIND, Yves.Os momentos e os seus homens. Lisboa: Editora Relógio D´água,


1999.

______. Erving Goffman: o que é uma vida? In: GASTALDO, Édison (org) Erving
Goffman - desbravador do cotidiano. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2004.
Anexos

LISTA DE ANEXOS

A. Folder “Nazaré Paulista”


B. Mantras de “Figueira”
C. Folder Coral
D. Folder de “Figueira”
E. Panfleto “A Sustentação da Central de Atendência”
F1. Opúsculo “Oblatos"
F. Opúsculo “Redes de Serviço” + Boletim de “Sinais” de nº 10 c/a programação
dos encontros das “Redes de Serviços” em 2006
G. Boletim de “Sinais” de nº 10, pg.2.
H. Mosquitinho 2006 + dois cartazes divulgando as audições de Trigueirinho em
Porto Alegre, RS
I. Folder de publicações da Editora Irdin + Catálogo da Editora Irdin
J. Panfleto do setor de “Difusão de Livros e Fitas”
K. Rádio Mundial
L. Cadernos de Sinais nº 2 (1998) e Boletim de Sinais (2003) sobre Meeiros
M.Carta Aberta(circular)dirigida aos colaboradores
N. Opúsculo “Monastérios”
F2. Opúsculo “Oblatos”
P. Opúsculo “Zeladores”
Q. Opúsculo “Sacerdotes”
R. Opúsculo “Espelhos”
S. Opúsculo “Residentes”
T. Opúsculo “Reinos”
U. Opúsculo “Colaboradores”
V. Opúsculo “Abrigo”
W. Folder “Aspirantes”
X. Opúsculo “Hierarquia”
Y. Opúsculo “Vigília”
Z. Opúsculo “Instrução”
AA.Artigo da Internet + cópias xerox de capas de alguns livros de Trigueirinho
sobre ovnis
238
Anexo A

FOLDER “NAZARÉ PAULISTA”


Anexo B

MANTRAS DE “FIGUEIRA”
Anexo C

FOLDER CORAL
Anexo D

FOLDER DE “FIGUEIRA”
Anexo E

CENTRAL DE “ATENDÊNCIA”
Anexo F1 & F2

OPÚSCULO “OBLATOS”
Anexo G

OPÚSCULO “REDES DE SERVIÇO” + BOLETIM DE SINAIS DE Nº 10 C/A


PROGRAMAÇÃO DOS ENCONTROS DAS “REDES DE SERVIÇO” EM 2006.
Anexo H

BOLETIM DE “SINAIS” DE Nº 10, PG.2, RELAÇÃO DE ENDEREÇOS NO BRASIL


E EXTERIOR DOS GRUPOS DAS “REDES DE SERVIÇO”.
Anexo I

MOSQUITINHO DE 2006 + DOIS CARTAZES DIVULGANDO AS AUDIÇÕES DE


FITAS K-7 DE TRIGUEIRINHO EM PORTO ALEGRE, RS
Anexo J

CATÁLOGO DA EDITORA IRDIN E FOLDER DA EDITORA IRDIN


Anexo K

PANFLETO DO SETOR DE “DIFUSÃO DE LIVROS E FITAS”


Anexo L

PROGRAMAÇÃO DA RÁDIO MUNDIAL


Anexo M

CADERNOS DE SINAIS DE Nº 2 (1998) + BOLETIM DE SINAIS Nº10 (2006)


SOBRE MEEIROS
Anexo N

CARTA CIRCULAR ABERTA DIRIGIDA AOS COLABORADORES


Anexo O

OPÚSCULOS “MONASTÉRIOS”
Anexo P

OPÚSCULOS “ZELADORES”
Anexo Q

OPÚSCULOS “SACERDOTES”
Anexo R

OPÚSCULO “ESPELHOS”
Anexo S

OPÚSCULO “RESIDENTES”
Anexo T

OPÚSCULO “REINOS”
Anexo U

OPÚSCULO COLABORADORES
Anexo V

OPÚSCULO “ABRIGO”
Anexo W

OPÚSCULO “ASPIRANTES”
Anexo X

OPÚSCULO “HIERARQUIAS”
Anexo Y

OPÚSCULO “VIGÍLIA”
Anexo Z

OPÚSCULO “INSTRUÇÃO”
Anexo AA

ARTIGO DA INTERNET + CÓPIAS XEROX DE ALGUMAS CAPAS DE LIVROS DE


TRIGUEIRNHO SOBRE OVNIS