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OUTUBRO

entrevistas
FABIO TOMBINI
“(...) Usando drogas eu
me sentia extremamente
feliz, criava-se uma
felicidade imediata que
era proporcional a todas
as outras pessoas que
estavam junto comigo
e que eram usuárias de
drogas como eu.”

u PÁG 9 e 10

José Vargas
“A gente misturava
esterco de cavalo com
pimenta, só de sacanagem,
O maior entre todos os pra zoar com os caras.
Eles compravam. A gente
festivais musicais fincou fechava, enrolava como
os pés na história mundial um baseadinho: colocava
fumo, a pimenta preta e
deixando marcas nos o esterco de cavalo. Eles
sonhos da juventude que pensavam que aquilo era
droga.”
se seguiu aos pedidos de

Mateus Rodighero
u PÁG 11
paz e amor.
música
Miles Davis
A profusão de
improvisos que mudou
o curso do Jazz
completa cinquenta
anos

+ +
u PÁG 19
+++ crônicas +++ MAIS
Felizes para quando Sinal de tempo bom Mapa da Mídia
Faro
“Agora ela vive rodeada de unguentos Renovare, poções “Pequenas coisas” simplesmente surgem a nossa frente, Fotojornalismo
Avonus, olhos de lagartixa, pelo de camelo, intestinos de carregando em si a possibilidade de levar boas novas
rato e outros ingredientes estranhos (...)” aos corações, apenas por sua bela existência.”

...e outras
PRALER
página2
FALE COM O PRALER Críticas ou Sugestões: agenciaj@upf.br Mande seu texto: agenciaj@upf.br Telefone: (54) 3316.8489

agenda editorial
Grande Prêmio Ayrton Senna de
Jornalismo
Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo
Mudança de pauta
O Instituto Ayrton Senna promove o 10º GP
Ayrton Senna de Jornalismo. A iniciativa, em estes marcos de uma (r)evolução pauta, lançamentos e oportunidades
parceria com a Maxpress e a TV1 Comunicação
O primeiro PraLer/Zer que deixa
e Marketing, tem como objetivo reconhecer e a gráfica neste segundo semestre de cujos respingos ainda resvalam na para estudantes.
estimular jornalistas e veículos de comunicação 2009 traz como principal ingrediente atualidade, propondo, justamente, Completam este periódico da
que desenvolvem produtos jornalísticos que de seu recheio a profusão de sons, realizar um paralelo entre passado e Faculdade de Artes e Comunicação
evidenciam a importância da educação na cores, formas e personalidades em presente. Conservando as evidentes suas já tradicionais e plurais
construção da sociedade. congregação que compôs o maior diferenças, a juventude ainda mantém crônicas e duas entrevistas: uma
De abrangência nacional, a premiação entre todos os festivais musicais: os mesmos interesses dessa geração revela o perfil de um ex-hippie que na
contempla trabalhos que: Woodstock. que já foi para os anais da história lucidez do amadurecimento defende
- colocam em evidência os problemas e a busca pela abertura das portas da
desafios da educação;
Marcando com um imenso ponto e hoje rememora seus belos tempos
- descrevem experiências e iniciativas bem de exclamação aquele 1969 – e por de rebeldia juvenil do conforto do percepção sem o uso de drogas, a
sucedidas no campo da educação; que não as revolucionárias décadas sofá da sala de estar decorada com outra paradoxalmente desvenda a
- demonstram o impacto, a longo prazo, da de 50 e 60, que numa convergência os proventos de trabalhador da submersão nesse universo das drogas
educação em áreas como política, economia, de amadurecimento social e revolta, sociedade de classes? sem censura ou exacerbação de
saúde, cultura, meio ambiente e cidadania. desbravaram os caminhos para a Música, liberdade, igualdade, seus efeitos encantatórios, através
Nesta edição, o GP de Jornalismo distribuirá oposição aos dogmas tradicionais; amor, paz, sexo e transgressão ainda do relato literalmente ácido de uma
prêmios no valor total bruto de cem mil reais para igualdade civil perante a povoam o imaginário. O sonho juventude transviada.
(dividido em cinco) categorias Jornal, Revista, Agradecemos a todos os alunos
Televisão, Rádio e Internet. lei; para a arte marginal; para o não acabou, mesmo assim, pode
Poderão ser submetidos ao Grande Prêmio antibelicismo; para a liberação ser relembrado – até mesmo por e ex-alunos que colaboraram com
trabalhos realizados por jornalistas. Nas sexual; para a expansão da aqueles que não o viveram. Adentre suas produções textuais, sugestões,
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categorias Jornal, Revista, Televisão e Rádio consciência;... que culminariam com a um fantástico mundo de tons dicas, críticas e elogios. Aguardamos
a reunião pacífica de meio milhão psicodélicos vibrantes num Especial esperançosamente sua colaboração,
OUTUBRO 2009 Nº20

só serão aceitos trabalhos publicados e/ou


transmitidos por veículos afiliados às entidades nas pastagens da fazenda de Max realmente especial, com o perdão da através do e-mail agenciaj@upf.br!
representantes destas categorias. Yasgur, em Bethel, Nova York –, o redundância, sobre estes três dias de O PraLer/Zer está de páginas
As inscrições podem ser realizadas paz e música. abertas - para aqueles ávidos por
até 31 de dezembro de 2009. Para mais
festival seria o maior ícone de uma
informações, acesse: http://senna.globo.com/ juventude libertariamente sonhadora, Ainda complementam o PraLer/Zer histórias e para receber em tinta mais
institutoayrtonsenna/br/default.asp transviada aos acordes do rock’n’roll, 20 um Faro caprichado, com dicas de histórias.
instigada pelas palavras de ordem/ livros capazes de tirar o fôlego a cada
protesto dos astros folk, maravilhada novo vocábulo desvendado; filmes
Prêmio Unimed – Edição Especial Boa Leitura
pela beleza poética das ruas, imperdíveis e discos de extremo bom
Federação PR entorpecida pelas cores cintilantes gosto. Além disso, para os futuros e Equipe AgexJ
O Prêmio Unimed de Jornalismo tem dos alucinógenos. jornalistas de plantão, as páginas 02 e
como propósito estimular profissionais 03 reservam espaço para informações
e acadêmicos a produzirem reportagens
Nesta 20ª edição do PraLer/
sobre a saúde pública. Serão premiados Zer celebramos estes jovens, sobre o mundo midiático, questões em
os primeiros lugares nas categorias:
profissional (R$ 4 mil) e acadêmico (R$ 1
mil) - nas subcategorias TV, Rádio e Jornal/
nestaedição
Falando de Woodstock: 40
Revista. As inscrições vão até 1º de novembro.
Mais informações em http://www.unimed.
Entrevista
jornalismo anos depois
com.br/premiounimeddejornalismopr ou

09 e 10
pelo telefone 41 3219-1488.

Prêmio financia pauta proposta 02 a 03 Especial comemora


os 40 anos do maior
por estudantes Música
Crônicas festival de rock.
19 e 20
O “Prêmio Jovem Jornalista Fernando
Pacheco Jordão”, promovido pelo Instituto
Vladimir Herzog, está selecionando a 04 a 08 12 a 18
Faro
melhor pauta acerca do tema “Garantir o
Direito à Justiça e o Direito à Vida”.
Remontando os anos
21 e 23
A proposta selecionada terá sua execução
custeada pelo instituto, além de receber a
indicação de um profissional como tutor 60 sob as lentes da
e ser veiculada em veículos apoiadores do
projeto. experiência... Fotojornalismo
O período de inscrições vai até o dia Entrevista com
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02/10, através do site: http://www.
vladimirherzog.org/Instituto_Vladimir_ José Vargas
Herzog/jovemjornalista.html
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Pra Ler/Zer é uma publicação mensal do curso de Jornalismo da FAC


Editor: João Carlos Tiburski (RP 662628-36), Editor Gráfico: Luis A. Hofmann, Conselho Editorial: João Carlos Tiburski, César A.A. dos Santos, Luis A. Hofmann, Cassiano
Del Ré, Sônia Bertol, Olmiro Cristiano Lara Schaeffer, Bibiana de Paula Friderichs, Otávio Klein, Fábio Rockenbach, Cássia Paula Colla, Maria Teresa Weidlich, Júlia Fedrigo de Albu-
querque, Pablo Tavares e Renato Brito. Projeto gráfico-editorial: João Carlos Tiburski, Luis Hofmann e Fábio Rockenbach. Editoração gráfica/Agência Experimental de
Jornalismo: Fábio Rockenbach / Cássia Paula Colla Revisão: Sabino Gallon
Universidade de Passo Fundo: Reitor: Rui Getúlio Soares; vice-reitora de Graduação: Eliane Colussi; vice-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação: Hugo Tourinho Filho; vice-reito-
ra de Extensão e Assuntos Comunitários: Adil de Oliveira Pacheco; vice-reitor administrativo: Nelson Germano Beck, diretor da FAC: César A.A. dos Santos, coordenadora do curso de
jornalismo: Sônia Bertol.
Agência Experimental de Jornalismo, Faculdade de Artes e Comunicação, Campus I, Bairro São José, Fone (54) 33168489, CEP 99001-970, Passo Fundo, RS, Brasil. Colabora-
ções pelo e-mail agenciaj@upf.br. Somente publicamos trabalhos inéditos. Os conteúdos dos textos publicados são de inteira responsabilidade dos autores.
JORNALISMO

mapadamídia
COLABORE Na TV, no rádio, jornal ou revista: fique de olho na mídia e envie sua colaboração para agenciaj@upf.br

daredação
Religião é discussão: a opinião de uma leitora à
Censura no Estadão crônica “Deus do Nada” (PraLer 19)
Prezados membros do Conselho Editorial voz, não responde, não aparece.
e Sr. Gilberto Bernardi Jr.! Por isso sugiro que não espere por Deus
O conceito geral de censura remete para que as coias boas aconteçam no nosso
à ditadura, tempos sombrios onde o Há um mês, aproximadamente, recebi a mundo. Elas dependem infinitamente mais
AI-5 prendia e fechava redações por edição de junho do jornal PRALER. Como de nós do que Dele.
todo território nacional. Acreditamos faço todos os meses, fiz a leitura quase
que ela não irá voltar, certo? Errado. integral da edição, motivo pelo qual quero Não acho que as pessoas devem ser
parabenizá-los pelo trabalho feito, não reprimidas do seu direito de se manifestar,
Infelizmente a censura ainda dá sinais só neste mês como nos anteriores. Desde de reclamar, de criticar. Mas vejo que o alvo,
de vida e assombra a liberdade de que conheço o jornal, foram muitos os dessa vez, foi o errado. Há muito que se
expressão, tão exaltada e ardorosamente momentos de agradável leitura, absorção de questionar sobre as igrejas, as instituições,
defendida há poucas semanas pelos conhecimentos, opiniões, entretenimento e suas histórias, algumas de suas invenções e
magistrados que votaram contra a reflexões que experimentei. Meus parabéns ritos e, principalmente, os homens que delas
e continuem com esse trabalho. Com certeza fazem parte e que, por vezes, as manipulam ao
exigência de diploma ao jornalismo. eu deveria ter escrito antes, mas temos o seu bel prazer. Criticar a Deus, levianamente
No mês de julho, o jornal Estado de mau hábito de nos manifestarmos apenas e com aparente desconhecimento, não
São Paulo foi proibido, conforme ordem quando algo não nos agrada, ao invés de constrói nada de positivo, ao meu ver, pois
judicial impelida pelo desembargador valorizarmos e elogiarmos as experiências o que ganharemos com um povo descrente,
Dácio Vieira, de transcrever qualquer positivas que os outros nos proporcionam. desesperançoso e sem fé?
Eu não sou diferente! Me perdoem por isso. Uma boa semana a todos e obrigado por
trecho das gravações da Operação Resolvi escrever justamente porque, esse espaço para que eu, leitor assíduo do
Boi Barrica. Orquestrada pela Polícia acontecimento de oportunismo político, pessoalmente (e é importante que isso fique PRALER, possa me manifestar.
Federal, ela investiga as contas e um claro caso de protecionismo. bem claro), considerei muito equivocada Um abraço,

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negócios de Fernando Sarney, filho de Quais são os critérios? Se a Polícia a inclusão da crônica O DEUS DO NADA Giezi Schneider
José Sarney, sob a alegação de que o Federal liberou trechos das gravações à na edição do mês de junho. Desde que a li,

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imprensa, por que a Justiça não liberou fiquei me questionando: Respondemos na ocasião à Giezi
processo corre em segredo da justiça. A - isso é liberdade de expressão? Se eu disser salientando que liberdade de expressão podia
decisão não afeta somente ao Estadão, que publicassem? Será que os culpados que achei absurda a forma como o autor se ser reconhecida, justamente pelo fato de o
estende-se a qualquer veículo que serão realmente julgados? Será que refere à Deus, estarei indo contra esse direito sr. Gilberto Bernardi poder se pronunciar,
publicar as conversas obtidas nas escutas realmente irá valer a imparcialidade (de se expressar livremente)? independentemente de suas crenças ou das
telefônicas, instalando dessa forma uma dos puros e idôneos responsáveis pela - por que tanta agressividade com as outras de outrem - e, igualmente, pelo poder dela
punição? pessoas? Afinal, o texto não está agredindo própria de poder manfiestar sua opinião.
censura prévia. a Deus e, sim, os milhões de indivíduos Giezi Schneider faz o certo: contesta e pede
Bem, vou exercitar o meu pleno Mesmo que deva valer a Constituição, espalhados pelo mundo e que acreditam pelo espaço para ser lida. No fundo, todo
direito de liberdade de expressão e listar que a democracia esteja instalada há em Deus, seja ele quem for e de que origem texto publicado em meio impresso parece
alguns fatos. Primeiro: essa “chuva” de anos no país, a impressão é de que tudo for... ser uma voz sem oposição, porque não
denúncias aos Sarneys instalou uma irá acabar em pizza novamente. Mas O Sr. Gilberto Bernardi Jr, ao escrever, permite réplica imediata e isso nos frustra.
não podemos parar de lutar. A função critica tanto a Deus por sua imponência, Nós também já nos frustramos quando o
crise, não somente no Senado como em imposição, despreocupação com os homens, sr. Gilmar Mendes afirmou que jornalista e
todo cenário político nacional. Segundo: primordial do jornalismo é mostrar os incapacidade de fazer as coisas boas (para chefe de cozinha não tinham muita diferença,
a inusitada candidatura de José Sarney fatos à opinião pública, sem que nada ele, Deus só fala e obriga-nos a obedecer) e que não era preciso formação para ser
para a presidência do Senado, já seja censurado. Não podemos deixar e, surpreendentemente, o próprio Gilberto jornalista porque é uma profissão que não
prevendo a “tempestade”, facilitaria o que eles, no alto de suas prepotências e assume a mesma postura, investido do poder provoca celeumas na estrutura social. Que
blindados por suas togas e demagogias, que o meio de comunicação lhe proporciona. grande falta de conhecimento da história do
encobrimento dos negócios do filho. O seu texto, Sr Gilberto Bernardi Jr., é a país achar que o jornalismo não influencia
Terceiro: sabe-se que o desembargador abalem com nossa crença. Se isso prova de que nós decidimos por nossa na sociedade, ou de outro lado, que grande
Vieira era consultor jurídico do Senado não aconteceu nos sombrios anos da própria consciência, que nós agimos por hipocrisia...
e teve sua nomeação para o Tribunal de ditadura, não será agora. nossa própria cabeça, mãos e braços. E o que É da troca de opiniões que é feita a formação
Justiça do Distrito Federal pleiteada com fazemos pode atingir, para o bem ou para de ideias baseada em argumentos e posições
o mal, muitas pessoas que estão ao nosso de lados contrários. Pretendo dar voz a
o apoio de vários senadores e políticos. redor. ambos os lados, antes de querer convencer
Esse episódio chega a ser uma afronta uMarcus Vinícius Freitas Mas, ao invés de assumirmos essa condição este ou aquele de que seu ponto de vista é
à inteligência de toda a nação, mais um Acadêmico de Jornalismo II Nível e essa responsabilidade, é mais simples correto. Essa atitude, nós já aprendemos,
terceirizarmos para outros, principalmente não rende frutos numa discussão envolvendo
para Deus, que, como você disse, não tem crenças pessoais.

"70 Lições de Jornalismo" Apesar de decisão do STF, concursos públicos exigem


do ex-ombudsman da Folha da Tarde
diploma
Roberto Hirao, ombuds- tetracampeonato mundial da
man do periódico Folha da seleção brasileira de futebol, O fim da exigência do diploma de Trabalho da 7ª Região, no Ceará. Para o
Tarde entre os anos de 1992 entre outros. jornalismo para o exercício da profissão cargo de Analista Judiciário, especializado
e 1994, está lançando o livro Ilustrada com manchetes ainda não atingiu a maioria dos órgãos em Comunicação Social, o salário é de R$
e charges que ocuparam as públicos. Dos oito concursos abertos 6.611,39.
70 Lições de Jornalismo:
atualmente, todos exigem graduação Em julho, logo após a decisão do
Colunas do ombudsman da páginas da publicação, a obra específica. Supremo Tribunal Federal (STF), o edital
Folha da Tarde, pela editora do experiente jornalista, cuja Os valores pagos estão entre R$ da Financiadora de Estudos e Projetos
Publifolha. carreira foi iniciada no jornal 1.090,46 e R$ 6.611,39. Os órgãos (FINEP), empresa vinculada ao Ministério
A coletânea de textos, Última Hora e se consolidou com inscrições abertas são: Tribunal da Ciência e Tecnologia, foi alterado e
publicados durante esses nos diversos veículos da Folha, Regional do Trabalho da 7ª Região (CE), passou a não exigir diploma para o cargo
recorre ao panorama histórico Prefeitura de Caucaia (CE), Agência de analista em Comunicação Social.
dois anos de trabalho no
de Fomento do Estado do Amazonas, Iniciativa contrária à da FINEP foi
jornal vespertino do Grupo para reafirmar a importância Câmara de Vereadores de Lajes (SC), adotada pela Câmara Municipal de
Folha, com observações da atividade do ombudsman Conselho Regional de Nutricionistas – Maceió. No início desta semana, a Casa
críticas e rigorosas sobre o seu conteúdo para a boa informação. 1ª Região, Companhia Pernambucana aprovou a obrigatoriedade da graduação
jornalístico, registra episódios marcantes da uLivro: 70 Lições de Jornalismo: de Saneamento, Prefeitura de Santo em Jornalismo para a contratação de
recente história nacional: o impeachment Colunas do Ombudsman da Folha da Tarde Antônio do Monte, Conselho Regional de servidores pelos poderes Executivo e
Autor: Roberto Hirao Engenharia, Arquitetura e Agronomia. No Legislativo da cidade. A lei se aplica
do ex-presidente Fernando Collor de
total os concursos oferecem 20 vagas, oito aos cargos de comissão, jornalismo,
Mello, o caso da Escola Base, a morte Nº de páginas: 216 efetivas e 12 para cadastro de reserva. publicidade e relações públicas, e espera
do piloto Ayrton Senna e a campanha do Editora: Publifolha O concurso que oferece a maior apenas a sanção do prefeito para entrar
remuneração é o do Tribunal Regional do em vigor.
CRÔNICA

Felizes para quando?


O que não se publica nos contos de fada
Bruno Philipsen que agora trocava mensalmente e
u Acadêmico de Jornalismo II Nível não era capaz nem de recolher do
chão, ou os fêmures humanos com
que ele vivia no canto da boca e

F
usava para palitar os dentes e fazer
oi lentamente que os estalos desagradáveis - decidiu
dois se transformaram. mudar-se para a torre mais alta do
Uma risadinha maligna castelo. O dragão procurou, então,
dela aqui, uma respiração mais o calabouço mais profundo e lá se
quente dele ali; uma verruguinha aninhou.
que surgiu no nariz dela, umas Agora ela vive rodeada de
escaminhas nos braços dele; um unguentos Renovare, poções
gosto exagerado por vassouras Avonus, olhos de lagartixa, pelo
que ela começou a desenvolver, de camelo, intestinos de rato e
um gosto exagerado por espadas outros ingredientes estranhos,
que ele começou a perder; um como máscaras faciais de pepino,
vestido que já não mais entrava cremes redutores de expressão
4

nela, uma armadura que já estava de babosa, ou contra celulite com


pequena para ele; a transformação
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cafeína, etc., sonhando com a


dos lindos passarinhos dela em princesa que fora, enquanto trama
macacos alados, a transformação planos malignos envolvendo
do nobre cavalo dele em almoço, e maçãs, rocas e venenos.
assim por diante. Dessa maneira, Ele amontoou seu tesouro no
anos depois do início da felicidade, calabouço e dorme rodeado
a princesa acordou em um belo de ouro, com a grande barriga
dia e teve de pedir a um espelho para cima, sonhando com
se ela ainda era a mais bela do cavaleiros bem passados e cavalos
reino e o príncipe, depois de muita torradinhos, nem ligando para
dificuldade para sair do quarto, o seu colesterol alto, que já lhe
queimou toda a mobília com um rendeu cinco pontes de safena.
simples bocejo. Mas essas informações não
Ao mesmo tempo em que iam estão nos contos de fada, devido
se tornando bruxa e dragão, os a uma política editorial muito
desentendimentos aumentavam. conservadora nesse gênero. Está
Desde que ele devorou as criadas, tudo na Condigo! do mês de
o castelo tornou-se obscuro e agosto, onde você pode conferir
sujo. A bruxa, cansada de ter de também o escândalo envolvendo o
fazer todo o serviço do castelo


Lobo-Mau e vídeos pornográficos
- incluindo recolher a pele dele infantis encontrados em sua toca.

“Agora ela vive rodeada de unguentos Renovare,


poções Avonus, olhos de lagartixa, pelo de camelo,
intestinos de rato e outros ingredientes estranhos
(...). Ele amontoou seu tesouro no calabouço e dorme
rodeado de ouro, com a grande barriga para cima,
sonhando com cavaleiros bem passados e cavalos
torradinhos” “
CRÔNICA

Sinal de tempo bom!


A beleza da vida trazida pelo ar
Júlia Fedrigo de Albuquerque
‘pequenas coisas’ Ela está na menina que


u Acadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da com sorriso indiscretamente
AgexJ

simplesmente surgem a encantador se senta ao lado


num velho ônibus para o

N nossa frente, carregando em


o torpor de uma manhã, destino habitual e lhe pergunta
que há pouco iniciava com qual o seu nome, elogiando-o
o abrir dos olhos relutantes
em encontrar a luz, a preguiça si a possibilidade de levar na sua simplicidade pueril e
emendando o seu a espera de
tomava conta. Todo o ambiente
estimulava uma nova acolhida ao boas novas aos corações, um “mas que nome lindo!”. Está
nos malabares que cortam o céu
travesseiro. Entretanto, por um
instante de lucidez responsável
apenas por sua bela existência “ negro com sua chama inabalável
apesar das gotículas de chuva
a ecoar na cabeça um reticente que caem durante os poucos
‘acorde, levante, vá fazer algo segundos do sinal vermelho.
de útil!’, todo o peso do corpo Está no carinho espontâneo de
dormente é jogado para fora do um abraço apertado. Está no
aconchego dos lençóis para o novo olhar revelador que precede o

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dia. beijo.
Nesse momento, em que

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Porém, existem barreiras. E,
a incapacidade de raciocinar também, criam-se barreiras.
domina, algo como a sensação Há as que não limitam. E,
do corpo desligado da também, aquelas que o fazem.
mente, enquanto um executa Naquela manhã, o vidro pelo
movimentos aprendidos com o qual olhava para o pássaro não
exercício diário e mecanicamente limitava em nada a percepção
repetidos, o outro aguarda a, da beleza daquele momento,
por vezes dolorosa, sensação nem seus efeitos sobre a
dos raios luminosos encontrando privilegiada espectadora. Talvez
diretamente o olhar, sem pálpebras, até lhe conferisse ainda mais
cortinas ou persianas para evitá- especialidade, afinal sua presença
los, para definitivamente soar o dava ao serzinho um valor
despertador interior. sagrado, era algo intocável.
Nesta manhã, essa sensação Transpor esta barreira era fácil,
era ainda mais pungente que o mas isso denotaria um fim
comum, um provável fruto de uma prematuro, pois o faria bater
noite insone que despejou sobre as asas tão logo percebesse a
o amanhecer a responsabilidade movimentação.
de embalar os sonhos. Um misto Já, as barreiras que impomos
de mau humor, sono e preguiça no nosso vai-e-vem atribulado
dominam. são muralhas que bloqueiam
Abro a persiana, enquanto o a visão, tornando o mundo
barulho parece ensurdecedor, o uma sucessão de microcosmos
sol se revela aos poucos. Brilhava impenetráveis de “eus”, das
magistral em um tom dourado no preocupações, dos problemas, das
límpido céu azul, como havia dias dúvidas, das dores, das aflições.
que não fazia. Nunca se pode saber quando
O cansaço me arremessa ou onde algo vai aparecer
contra o colchão novamente. para tirar a sisudez do rosto e
Sinto o aquecimento do rosto, raminho no bico. Estava a poucos reiniciei o dia com espantosa emprestar a ele um sorriso. Logo,
fecho os olhos e tons avermelhados centímetros. Caminhava de um alegria. Mas não sem pensar estes limites criados tornam o
dão lugar à escuridão habitual lado para o outro numa paz sem acerca de quantas vezes essas ato de viver uma experiência
provocada por este ato. Permaneço igual. Não se incomodava com “pequenas coisas” simplesmente menos repleta de cores, sons,
ali, inerte. Não mais que de repente, a intrusa que o admirava sem surgem à nossa frente, carregando carinhos, amores,... enfim, de
ouço o canto de um pássaro. Mas cerimônias. Apenas continuava a em si a possibilidade de levar boas BELEZA pura e genuína!
este tinha algo de especial. Soava dar seus passinhos saltitantes. novas aos corações, apenas por Cabe a cada um, na ânsia por
mais nítido, mais alto, enfim, mais Definitivamente, sinal de sua bela existência, e não somos mais ALEGRIA, AVENTURAR-
próximo. tempo bom! capazes de enxergá-las, passamos SE mais, ABRIR-SE mais,
Ele me tira da viagem pelo nada É clichê, mas, realmente, é por elas egoístas, imersos em SENTIR mais, ARRISCAR-SE
e me traz de volta para o aqui, para preciso valorizar as pequenas nossos mundos, às vezes nem tão mais, INSPIRAR-SE mais,...
o agora. coisas. Aquele momento “grande coisa” assim. enfim, PERMITIR-SE mais!
Olho, através da janela, o singelo, aquela “pequena coisa” Essa beleza nos rodeia, e Permitir-se enxergar os
pequeno ser de penas marrom- aproveitada em sua beleza me deu percebê-la nos faz bem, mas clichês “pequenas e valiosas
acinzentadas que carregava um ânimo. De modo entusiasmado quão difícil não é fazê-lo? coisas da vida”!
CRÔNICA

Não há lugar para todos


Por que algumas profissões são de sucesso e outras não?

Bruno Philipsen estar feitos na vida e fizessem


u Acadêmico de Jornalismo II Nível
faculdade para se tornarem
médicos, advogados, engenheiros,

O
que você pensa quando administradores; ou fizessem
ouve alguém dizer que concurso público? Quem iria
fulano está feito na vida? empilhar tijolos, recolher o lixo
Você imagina que o tal fulano faz das ruas, empacotar compras no
o quê? Seja franco. Provavelmente mercado, organizar depósitos,
ele passou em um concurso entregar frutas? Não é maldade,
público daqueles em que o que mas é evidente que não há lugar
se trabalha é inversamente para todos. É simples: alguém
proporcional ao que se ganha tem de estar nessas funções,
e o salário é alto, não é? Ou assim os que as exercem (maioria
ele é um médico, engenheiro, esmagadora no país) necessitam
administrador, etc. Por que será mais do que urgentemente de
que dificilmente se dirá a um melhor remuneração.
pedreiro que ele está feito na Concordo que pelo tempo de
6

vida? Ou a um policial militar, a estudo, um médico deve ser mais


OUTUBRO 2009 Nº20

um professor, a um jornalista? valorizado do que alguém que


Outro exemplo simples e bem não tem preparo nenhum. Mas
visual. Imagine uma propaganda e quanto às outras atividades de
de banco, de seguro de vida nível superior? Um jornalista
ou de marca automotiva. Um não estudou tanto quanto um
homem sai do trabalho, pega o engenheiro? Mas qual ganha
carro e vai buscar seu filhinho mais?
em uma escola. Enredo simples. O ponto central de todo o
Seja franco novamente. Você problema de distribuição de
imaginou um bonito homem, renda no Brasil é este: a super e a
de terno, saindo do escritório, infravalorização de atividades. Se
pegando seu carro do ano e indo um trabalhador braçal ganhasse
a uma escola particular, pegando um salário realmente "capaz de
seu igualmente bonito filho, não atender às suas necessidades vitais
é? Por que você não imaginou um básicas e às de sua família com
pedreiro saindo da construção? moradia, alimentação, educação,
Ou um policial saindo de seu saúde, lazer, vestuário, higiene,
plantão para pegar seu filho? transporte e previdência social",
Você evocou a imagem como diz a Constituição Brasileira
bem fresquinha que a mídia de 1988, provavelmente o crime
produziu, depois de milhares não seria uma profissão de tanto
(ou milhões) de propagandas sucesso quanto atualmente é.
assistidas, em seu inconsciente
do trabalhador de sucesso. Por


que algumas profissões são de
sucesso e outras não? Ser um
profissional da construção civil,
por exemplo, é inferior a ser, por
exemplo novamente, um gerente
administrativo? Observe que Todos desenvolvem através de suas íntimas
fato curioso: as profissões com
maior remuneração são as com
maior tradição política no Brasil.
peculiaridades uma pequena importância,
Médicos, engenheiros, advogados,
administradores e concursados
extremamente significativa, nesse imenso planeta
(são exemplos), desde o império
ocupam cargos legislativos, que comprimido pelo desejo do ter e do poder. Sempre
entre outras coisas definem
remunerações, como o salário
mínimo, e quais profissões
devem ganhá-lo. Estranho que
nenhuma dessas profissões ganha

procuramos um lugar de destaque, mas encontrá-
lo está sendo uma tarefa árdua e escassa.
o mínimo...
Pense comigo: e se todos
os jovens no Brasil quisessem
CRÔNICA

La Dolce Vita!
Pensa-se, de uma forma simples, o cotidiano aqui pincelado com gotículas minuciosas

Maria Teresa Weidlich


u Acadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da simplesmente apreciando um
AgexJ belo momento em uma conversa
casual brindando La dolce vita!
Pois bem, dentro desses baús

A
ndar pelas ruas hoje em dia cobertos de colagens, pôsteres,
significa perambular numa recordações, fotografias reais de
profusão de ofertas e cores pessoas vivas, podemos constatar
que desnorteiam a caminhada... que apesar das décadas trocarem
Certa manhã, o vento gritante no calendário muita coisa passa
dos pampas ecoava na face um pelas ruas e, ao contrário da
som estridente que balançava informação que a gente vê com
até mesmo os galhos maciços das os olhos invisíveis e escuta com
árvores na praça do outro lado os ouvidos do inconsciente,
da rua, bagunçando os cabelos, elas ficam, permanecem nos
jogando-os para trás. modismos das pessoas que
Pessoas caminham apressadas transitam, no supermercado, na
nas primeiras horas da manhã padaria, no posto de gasolina,

7
ao tempo que se abrem as portas dentro dos carros, nas “baladas”,

OUTUBRO 2009 Nº20


de correr das lojas revelando as no burburinho onde as coisas
vitrines polvilhadas de artigos acontecem...
mil. O fim do mês de julho significa
O homem de terno, a o prenúncio do fim do inverno,
empregada doméstica, a jovem igualmente as lojas liquidam seus
estudante, o papeleiro, a estoques na disputa acirrada do
senhora que passeia com seu quem vende mais, as pessoas
cão e o motorista que esbraveja contam os dias para adentrarem à


sozinho, estático no sinal. nova estação com cortes de cabelos
Ambos contracenam em um novos, roupas novas, espírito
cenário habitual que pode ser
contemplado em qualquer cidade,
Inspirar-se é como abrir renovado e, quem dera, as contas
pagas e, até mesmo, os bichos
ou especificamente nesta que
estou a retratar.
uma janela, abrir os aclimatizam-se ao ambiente que
deixa de lado o cinza-azulado dos
Estão por demais preocupados
com suas tarefas diárias que,
compartimentos de si mesmo dias de inverno para dourar-se
com o sol em temperaturas um
inevitavelmente, não param para
pensar, ou apenas observar o
e deixar com que as coisas pouco mais elevadas. Torna-se
mais compreensível a ideia dos
fluxo sutil de informações a que
estão expostos. A rota para o
ao nosso redor entrem por povos celtas de criarem a roda do
ano e comemorarem o Sabatt, o
trabalho é interceptada por uma
visita à revendedora de celulares,
entre os orifícios da nossa ano novo no início de uma nova
estação. Pois visualmente tudo
passando pela boutique e, enfim,
chega-se ao destino.
pele, invadam a corrente se renova, se reinventa, o que
está em falta no mercado, diga-
Há um homem pintado de
colorido enfeitando o trânsito. E
sanguínea e provoquem um “ se de passagem, é a ousadia. E
esses transeuntes insones, que
ele não é sinaleira, nem mesmo
outdoor, não é panfleto, nem
estrondo dentro de si... não se cansam de perambular
todo dia pela cidade, estão muito
placa de sinalização, mas, sim, preocupados em combinar o
um palhaço malabarista, um sapato com a bolsa e vice versa e
guerreiro preso ao divã do capital, realidade remete a imaginação a é tratado como objeto de coleção, não percebem que isto está fora de
que cedo inventa uma maneira uma rua qualquer, inundada de ou simplesmente velharia, coisas moda. Deveriam procurar um meio de
de sobreviver a mais um dia e, pessoas muito preocupadas com o que por um período curto de inspirarem-se. Inspirar-se é como abrir
como os personagens anteriores, seu ir e vir. tempo ficaram para trás e agora uma janela, abrir os compartimentos
atua como se estivesse vendado, Não muito distante dali, um são resgatadas com unhas e dentes de si mesmo e deixar com que as coisas
balançando sobre a corda bamba grupo de pessoas é facilmente para profanar em altos brados um ao nosso redor entrem por entre os
do asfalto, onde pode a qualquer identificado entre a passagem elo entre os mortos e os vivos, os orifícios da nossa pele, invadam a
momento deslizar e cair. habitual diária, uma comunidade, objetos motumbos ressuscitam! corrente sanguínea e provoquem um
Pensa-se, de uma forma simples, uma junção de amigos, uma tribo... Ao revirar um destes baús estrondo dentro de si, pelos se arrepiam,
o cotidiano aqui pincelado com Como um lastro de bala que deixa urbanos, um lugar específico, coração bate em ritmo acelerado, boca
gotículas minuciosas de tinta fagulhas no caminho o tempo um ponto de encontro onde quase sem ar, como apaixonar-se por si,
fresca antes que ela seque e se encarrega de resgatar para a amigos sentam e tomam cerveja dentro de si e, então, refletir no espelho
vire uma moldura bonita para atualidade aquilo que outrora era trocando farpas sobre os times do mundo todas essas sensações que
uma parede destemperada. Esta chamado de moderno e que hoje de futebol para que torcem ou respingam um alívio estarrecedor.
CRÔNICA

Curta-metragem
Maria Teresa Weidlich
uAcadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da AgexJ
Porquês surgem a cada
acordadas
segundo
Demitem-se
Espelhos estilhaçam- Casam-se
Correm as se em pedaços Separam-se
estações;... Belezas são
Flores murcham, Rompem-se
construídas preconceitos
pessoas nascem
Marcas são consagradas
Alguns partem para jamais voltar...
Criam-se conceitos
Carros são vendidos Reatam-se relações...
Outros voltam de viagem
Cidades são Perde-se
Festeja-se assaltadas
Chora-se
Lembra-se
Lixo é produzido
Brinca-se E a natureza devastada
Esquece-se
Abusa-se
8

Soam barulhos na rua


Coração Inunda-se
OUTUBRO 2009 Nº20

Fotografias isoladas e Caminho


Cometem excessos...
guardadas em uma caixa no Sorriso amigos onde Não mais mandam cartas,
tempo eles estão?
Corações se partem telefonam
Não há mapa para Viaja-se
Pessoas se encontram
achá-los
Aviões caem Não há cifras para tocá-los
Abriga-se
Cria-se e então
Pestes se dissipam
Tempo.
Crianças nascem Evolui-se

novamente,
Se esvai
Constrói,
Jornais são jogados no lixo desconstrói...
Sem pais, com pais, Ou servem de adorno Fala, mente
Sem registro ou em algum canil
documento Pensa, dissimula
Pacifistas são Aprende...
Com casa, comida, mortos
amor... Incoerente
Ditadores constroem
Idealiza-se nações
Descontente

Um mundo onde E o homem da rua


Infeliz

não haja fatalidade Sobrevive...


Intransigente

Tristeza, dor ou opressão


Amigo, aonde você
Empunha nas mãos tochas
quer chegar?
Grandes morrem
de fogo
Fracos passam pelos dias
Que dançam ao vento
A televisão é no frio gelado
ligada E não se apagam
O rádio é sintonizado Caem no chão
O ouvido é surdo
Trabalho, meio de
O cavalo é manco sobrevivência
A moça é ingênua
Bancos quebram
O velho sonhador...
Vencem as hipotecas
Quando ousei Pessoas dormem
falar de amor Em camas, no chão, em
Perdi-me por entre as carros
linhas... Sonham
ENTREVISTA

Uma mente sem limites...


...O “felizes para sempre“, dura o tempo necessário para o efeito da droga se esvair...

u Maria Teresa Weidlich de Florianópolis para Camboriu.


Acadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da Pegamos um ônibus, loucos, logo
AgexJ
que chegamos fomos direto para
um hotel e a primeira pergunta que
fazíamos na recepção era o quarto

A
s paredes listradas expressam tinha som? O recepcionista disse
o colorido moderno e que não, e assim foi sucessivamente.
antenado, que divide o espaço Saímos à procura de um hotel que
com móveis estrategicamente tivesse som no quarto. Rodamos
posicionados numa pequena sala. A a cidade inteira e nenhum tinha.
tarde lá fora está daquelas em que Então, resolvemos pagar um motel,
os dias de inverno dizem adeus. porque sempre que eu usava drogas
Muita luz irradiando na cidade. O a primeira reação que eu tinha era
presságio de uma nova estação é ir direto para perto de um som.
o tema perfeito para uma imersão Chegamos no motel, usamos, e eu
num universo igualmente vivo. passei a noite inteira fora do quarto,
Entretanto, povoado por uma olhando para o telhado achando que

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química, neste mundo, denominada alguém iria chegar lá e nos pegar de
“droga” e alucinado com doses

OUTUBRO 2009 Nº20


surpresa. Enquanto meu amigo se
excessivas a serem saciadas por um injetava no quarto, eu estava lá fora,
desejo sombrio. Como a decoração paralisado. Só entrava para usar
do ambiente, o ar vanguardista novamente e logo voltava pra fora
convivendo com móveis retro, a tentando achar alguém em cima
história que ouço oscila entre o do telhado. Eu via vultos verdes de
velho e o novo, entre o ontem e o pessoas e fantasmas... Uma vez eu
agora e revela uma corda bamba estava sentado na cama e quando eu
entre a vida e a morte, fazendo a olhei para a porta vi uma multidão
imaginação povoar lugares escuros, de fantasmas, e na frente liderando,
onde a consciência se dissolve nas uma criança. Todos eles vinham ao
batidas eloquentes da caixa de som e meu encontro dançando. E então,
os impulsos nervosos de um coração, eu comecei a dançar e pular junto
que bate uma marcha arrítmica, com eles.
se desvanecem transfigurando-se Eu passei quatro meses vendo
na pauta perfeita para descrever fantasmas. Quando passava o


uma viagem ao submundo de um efeito da droga, eu lembrava deles,
inconsciente, onde um transe na vida mas sabia diferenciar o que era
pode ser facilmente um mote para alucinação e o que era realidade.
o além. Nosso entrevistado, Fábio
Tem coisas que eu realmente
Eu sempre levava um ursinho Puff
Tombini, tem 27 anos, dos quais dez junto comigo. Um dia eu resolvi
viveu sob o efeito das drogas. ser o ursinho Puff. Nós estávamos
A linha tênue que se apresenta
entre o mundo real e o imaginário não sei explicar são umas numa reuniãozinha na casa de uns
amigos, eu fui para o banheiro do
de uma mente deturpada pelo
uso de substâncias químicas pode viagens muito loucas. quarto e utilizei a droga. Quando
voltei para a sala, eu estava vestido


ser apresentada como parte de de Puff, a camiseta que eu usava
uma narrativa que perpassa a era vermelha, fiz dela uma regata
história das fugas da humanidade. e escrevi Puff com canetinha,
Fugas estas que não se trata de de si mesmo compõem um quebra- outra atmosfera, como se fôssemos arranquei a cabeça do urso que
estratégias engendradas por cabeça entrecortado por memórias superiores ao resto do mundo. eu tinha, tirei toda a espuma de
exércitos de batalha, mas que se provindas de experiências que Tudo realmente virava uma festa. dentro e fiz uma máscara. Eu era
baseiam na própria necessidade marcam, desgastam, expandem ou Nós frequentávamos lugares onde o Puff mais esquelético que todo
humana de adentrar em universos detonam uma mente sem limites, as pessoas iam para usar drogas, mundo já viu na vida. Quando eu
perceptivos que a razão desconhece que aos poucos junta cada peça para principalmente o ecstasy, dançar e cheguei na sala, o pessoal se jogou
ou, simplesmente, fantasiar uma tentar se reconstruir. se divertir. Eu não conseguia ficar 15 no chão. Algumas vezes eu me
realidade mais cômoda e alegre, minutos em casa de tanta paranoia vestia de Amy Whinehouse, com
como aquela apresentada no seriado (...) Usando drogas eu me sentia decorrente do uso de cocaína peruca e tudo. O dia mais feliz da
da televisão. Onde um “felizes para extremamente feliz, criava-se injetável. A primeira dosagem eu minha vida foi quando chegou de
sempre” dura o tempo necessário uma felicidade imediata que era já ficava paranóico, achando que Londres o irmão de uma amiga
para o efeito da droga se esvair e proporcional a todas as outras meus amigos iam chegar e me ver, que morava comigo. E ele trouxe
deixar o corpo como numa casa pessoas que estavam junto comigo e pois eu usava escondido. Eles não MDMA, e nós tomamos. Eram oito
onde acontece uma festa, quando que eram usuárias de drogas como aceitavam, achavam muito punk. horas, eu a namorada dele, que era
todos vão embora restam o lixo e a eu. Sentíamos vontade de nos tocar Um dia eu e um amigo estávamos inglesa, e ele. Passamos a noite
bagunça. Fragmentos de uma ruína e éramos transportados para uma usando e resolvemos na loucura ir inteira conversando, eu não falava
ENTREVISTA


inglês e ela não falava português, uma pessoa muito especial por
mas a gente super se entendia. Às ter conhecido o lado ruim e agora
9 horas da manhã do outro dia lá ter a possibilidade de enxergar o
estava eu na beira da praia. Acordei Quando passava o efeito da droga eu caminho certo a seguir.
todo mundo para ir pra lá.
Com ácido, teve uma vez que lembrava deles mas sabia diferenciar o “ PraLer:Você imagina sua vida
nós tomamos um doce inteiro. sem a experiência com as
Estávamos em umas seis pessoas e que era alucinação e o que era realidade. drogas?
fomos para o melhor lugar para se F.T: Eu imagino que eu não
dançar house, em Floripa. Todos teria toda essa quantidade de
nós viajamos na mesma coisa, que informações e de experiências.
era a maldade. Nós vimos toda Não me arrependo hoje em
podridão do lugar, enxergávamos nenhum momento, apenas de ter
todas as pessoas completamente machucado algumas pessoas. Mas
diferentes. Víamos que elas não foi uma época incrível e de grandes
estavam ali para se divertir, todos experiências pessoais.
pareciam demoníacos. Tinha um
menino de olhos azuis que eu PraLer: Atualmente, você acredita
sentia muita vontade de queimar que as drogas tenham poder sobre
os olhos dele de tão demoníacos os jovens a ponto de roubar-lhes a
que me pareciam. Foi uma energia individualidade?
completamente ruim. Depois F.T: Com certeza. Mais ou menos
disso eu nunca mais voltei lá. como eu coloquei no início, aquela
Nós ficamos a noite inteira nessa história de perder o controle da
viagem. Depois que voltamos vida. É a questão da cultura de
ao normal, comentamos sobre e que temos que estar no meio de
realmente todo mundo viajava algo, temos que fazer parte de
na mesma coisa. Uma hora eu algo; então, alguns jovens acabam
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estava na pista de dança e tinha fazendo o uso de determinadas


uma menina que conversava substâncias porque o grupo em
OUTUBRO 2009 Nº20

comigo, mas eu não conseguia que se identificam usa.


enxergar o rosto dela só o corpo,
era macabro. PraLer:Percebe-se que ao longo
Tem coisas que eu realmente da história as drogas sempre
não sei explicar, são umas viagens estiveram presentes. Nos
muito loucas. Uma vez, eu entrei anos 70 os jovens utilizavam
no banheiro desse mesmo lugar, buscando abrir as portas da


eu tinha tomado bala, essa viagem dos meus olhos extremamente percepção, e hoje?
é bem transpotting. Fechei a porta alucinados... F.T: O uso de substâncias desse
Quando tu começa a usar
do mictório e fui me alongar, Desde meu primeiro tempo pra cá cresceu e muito. Acho
drogas, tu cria um mundo à parte,
alongava as pernas, e enquanto eu contato com as drogas se passaram que também isso está relacionado
então tu perde a confiança da
olhava para baixo e não as tinha, 13 anos. Eu cheguei ao ponto em à ansiedade. As pessoas estão
família, a confiança dos amigos
no lugar das pernas aparecia um que nada mais me satisfazia. ansiosas, a sociedade está doente.
e principalmente da sociedade.
relógio azul em forma de alga Abusava das drogas, e comecei Tem que se ter tudo agora, inclusive
Perde completamente a autoestima
marinha. Eu tenho a impressão a utilizá-las juntas. Misturava a felicidade, esta encontrada
e a vontade de viver por causa das
que eu fiquei ali paralisado horas cocaína, ecstasy, maconha e LSD. (falsamente) nas drogas.
depressões frequentes causadas
olhando aquele relógio no lugar A certa altura minha vida girava
após o uso, sem falar na perda de
das minhas pernas. Não tenho em torno da droga. Eu trabalhava PraLer: Qual a sua opinião a
controle total da vida, que não é
ideia de quanto tempo foi. para gastar o dinheiro em festas respeito dos eventos que permeiam
mais você quem manda na droga, a
Toda vez que eu voltava das e abusar delas, ocasionando até a história das drogas como o
droga manda em você.”
festas, meu quarto era nos fundos mesmo a venda de bens familiares Woodstock. Você vê alguma relação
da casa, perto da lavanderia,
eu e meu amigo nós sempre
escutávamos um som e ficávamos
para o uso. Então, eu passei a
esquematizar meu suicídio, pois
a droga se tornou uma obsessão.

hoje em função dessa globalização
com as RAVES atuais?
F.T: Woodstock é um grande
marco histórico da juventude.
balançando a cabeça. Um dia, nós Perdi o controle de tudo na minha e dessa pressa, todas as pessoas Foi um evento que as pessoas
fomos descobrir que era a máquina vida. Graças a Deus esse suicídio veem no uso de drogas uma saída estavam em busca dessa felicidade
de lavar roupa que estava sempre não deu certo e, então, eu resolvi para os problemas do cotidiado. e estavam dispostas conquistá-
ligada. pedir ajuda à minha família que Uma fuga, uma válvula de escape la a qualquer custo. A diferença
No pós-festa, quando eu comecei até então não sabia de nada, e para as cobranças normais que para as RAVES de hoje é que as
a me injetar, eu ficava três dias também contei com a assistência todo mundo tem que enfrentar. pessoas frequentam estas festas
virado. Eu ia fazer alguma coisa, profissional. em que a felicidade termina ao
automaticamente eu ligava o som, PraLer: Quais são seus amanhecer. Em Woodstock os
eu não conseguia ficar parado, principais ícones musicais. jovens realmente tinham o firme
sempre arrumava algo pra fazer. PraLer: Qual é a relação que Eles usam drogas? propósito de se criar um mundo
Eu também tinha a ideia fixa você faz das drogas com a F.T: Sim, um dos exemplos mais mais feliz e melhor para se viver,
na cabeça de que tinha perdido sociedade. Na sua opinião, recentes é a Amy Whinehouse. e compartilhavam ideais comuns.
algo e precisava encontrar. Aí que papel elas possuem neste Geralmente quem usa droga é uma Atualmente as pessoas vão nas
eu bagunçava tudo pra achar cenário? pessoa muito inteligente, que não RAVES em busca de uma satisfação
algo que eu nem sabia o que era. F.T: Eu acho que é cultural. sabe aproveitar o seu potencial e momentânea e individualista,
Também adorava ficar na janela Ensinam às pessoas a beberem geralmente não consegue lidar a felicidade dos outros é
observando o ir e vir das pessoas comemorações e fora delas com isso, seja ela estrela ou pessoa consequência. Não existem ideais
na rua, assim a convenção do também. E o álcool nada mais é que que vive no anonimato, acabando, comuns, nem mesmo experiências
tempo se misturava ao movimento um gatilho para todo o resto das assim, se boicotando com o uso que buscam mudar o mundo.
ininterrupto que eu via através drogas. E a sociedade que temos de drogas. Hoje eu me sinto Apenas a satisfação individual.
ENTREVISTA

Sob as lentes da experiência...


“...A gente fechava, enrolava como um baseadinho: colocava fumo, a pimenta preta e
o esterco de cavalo. Eles pensavam que aquilo era droga.”
Maria Teresa Weidlich como um ato de protesto contra os
u Acadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da
AgexJ
próprios pais que queriam botar
cabresto - “Ah, meu filho vai ser
isso, meu filho vai ser aquilo...”, eles
fugiam e saíam para o mundo.

U
m dia de sol primaveril,
brisa leve e folhas caídas na PraLer: Nesta época, tu te
estrada, campos coloridos recordas qual era o principal
de um verde intenso sob a luz das meio de comunicação utilizado
primeiras horas da tarde. Uma para atingir o público jovem?
travessia aos recantos longínquos Quais eram as formas de
do mundo em meio a pensamentos entretenimento disponíveis?
acelerados, pauta, tempo, pressa, J.V: O meio de comunicação era
quilômetros rodados e trilha sonora o rádio. Mas não existia rádio FM,
impecável: alegre e um tanto por exemplo. Naquela época eu já
histérica. Clima ideal para fazer trabalhava em rádio, comecei com
nascer, a partir dali, uma entrevista. 16 anos. O boom da televisão aqui

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Estou a caminho da cidade onde as no interior se deu mais na década
pessoas não são tocadas... colocava fumo, a pimenta preta e grupos que consumiam mais

OUTUBRO 2009 Nº20


de 70.
Imagine uma história sendo o esterco de cavalo. Eles pensavam variedade. O buraco era mais em
contada por alguém que viveu no que aquilo era droga.” baixo. PraLer: Existia um padrão
auge da cultura hippie. Que viu global a ser seguido tratando-
seus amigos serem tragados pelo PraLer:Em meio ao turbilhão PraLer: Qual é a sua opinião se de estilo?
repuxo impiedoso da adicção, sendo da contracultura, era quase pessoal sobre o contexto social J.V: Não existia uma uniformidade
que alguns deles passaram pelo impossível ser jovem e não que o mundo presenciava na de atitudes. Via-se em revistas ou
mundo como os flashes luminosos se influenciar de certa forma época? jornais: “O hippie se veste assim,
disparados por uma câmera e hoje pelos conceitos ovacionados J.V: O mundo estava em um então vou me vestir assim...”
são criaturas que navegam na pelo movimento. Você passou processo de aceleração de cultura.
correnteza dos dias desconhecendo pelos anos 60 sem consumir Aqui no Brasil era período de PraLer: Qual é a lembrança
o norte de suas vidas, pois estão drogas? ditadura militar, repressão. mais impactante dessa época?
sedados demais para encontrar a J.V:Droga, assim, eu nunca O movimento hippie era um J.V: Eu lembro de um rapaz que
direção. experimentei. As pessoas até me movimento que desejava a liberdade, estava no meu apartamento em
Sentado no sofá da sala de ofereciam, tentavam me forçar a mas por muitas pessoas ele não era Carazinho com uma seringa de
seu apartamento, José Vargas, consumir e eu dizia que não. Se bem visto, diziam: “Ah, esses caras vidro. E ele queria se picar, mas
jornalista e radialista há mais de 40 eu já sou louco ao natural, pra que não cortam o cabelo, não tomam estava tão mal, tão fraco, que nem
anos, remonta pedaços da juventude preciso de drogas? Quando nós banho, são sujos...”. Em 1967 eu apareciam as veias dele. Ele picou
com uma pitada de humor e íamos jogar futebol de salão, muitos tinha o cabelo comprido e quando os dois braços e não conseguiu
reflexão, buscando no armário fotos se drogavam pra ficar mais fortes e vinha para o interior todo mundo acertaR as veias, picou a perna
amareladas na tentativa, falha, de ágeis, mas eu nunca fiz. se apavorava. Mas assumir uma atrás e também não conseguiu. Aí
remontar as imagens que vinham atitude de vida hippie nunca passou ele ficou tão fissurado que apertou a
à cabeça durante a narrativa. PraLer: Atualmente percebe-se pela minha cabeça. Eu gostava das seringa com tanta força que quebrou
Infelizmente, não haviam fotos uma banalização no universo músicas da Janis Joplin, do Bob e cortou toda a mão. Ele entrou
mas a imagem dos personagens era das drogas, existe muita Dylan, Creedence e todo esse pessoal em estado de choque por causa
revelada aos poucos... facilidade de acesso. Naquela que tocou em Woodstock. O evento daquela vontade desenfreada de se
Para ele a juventude sempre será época o consumo privilegiava não teve muita repercussão aqui drogar. Ele usava um comprimido
motivo de boas recordações, porém os grandes centros? porque pouca gente tinha televisão, comprado na farmácia que eles
algumas, aquelas relembradas com J.V: Era mais nos grandes centros, as novidades vinham através do esmagavam, diluíam e colocavam
um certo pesar, são provas vivas de mas em Carazinho, por exemplo, rádio. na seringa, chamado Desbutal.
que as drogas sobrevivem através tinha gente lá colegas, amigos antigos
do tempo e as pessoas não. Os olhos – que curtia maconha. Naquela PraLer: Então o estilo hippie PraLer: 40 anos depois, como
lúcidos do entrevistado escondidos época era escondido e a polícia não não pegou no Brasil? você avalia essa vivência?
atrás de uma armação de óculos estava muito preocupada com isso. J.V: Pegou, mas nas grandes J.V: Em relação às drogas, a minha
de metal, que lhe concedem um ar Foi na década de 70 que começaram cidades. Um hippie aqui na região cabeça mudou um pouco, até em
intelectualizado, comprovam que a dar mais atenção ao assunto. Aqui era motivo de admiração e o pessoal função da religião, de estudar a
se trata de “um sobrevivente”, que em Não-Me-Toque era muito forte também aliava muito ao andarilho. Bíblia. Eu sempre tive vontade de
pode afirmar, em outras palavras, o consumo de maconha. Mas não Naquela época surgiu uma onda ser uma pessoa da religião. Eu fui
que as drogas passaram por ele, existia tanta variedade de drogas. O de comunidades: eles iam para o seminarista e agora que abracei
mas ele não passou pelas drogas: acesso à cocaína, por exemplo, era interior, compravam uma área, a Igreja Adventista eu me sinto
“A gente misturava esterco muito difícil. Era mais o pessoal de tinha até médicos e advogados melhor. A gente fez muita coisa
de cavalo com pimenta, só de posses que conseguia, mas o povão, que abandonavam a cidade e iam errada, e não quero que ninguém
sacanagem, pra zoar com os caras. a rapaziada em geral consumia viver no isolamento, plantando o repita o que fizemos. Eu sinto
Eles compravam. A gente fechava, maconha. Em Porto Alegre, onde que eles consumiam e vivendo em saudade daquele tempo, não sei se é
enrolava como um baseadinho: morei por um tempo, existiam comunidade. Muitos viravam hippie porque as coisas eram mais calmas.
ESPECIAL

“A paz guiara os planetas e o amor governará as estrelas...


Harmonia e compreensão, solidariedade e confiança, sem
falsidade e preconceito, sonhos de visões. Revelações místicas e
liberação da mente...”
Age of Aquarius- Musical HAIR
12
OUTUBRO 2009 Nº20

uma premissa sensual e ousada, nosso estado de consciência.


mistério, aventura, futebol, Marco da contracultura, o
cerveja e mulher, coisas que muito Woodstock trouxe à tona esta
identificam os leitores com o autor, relação. Enquanto a sociedade
citou em uma de suas crônicas americana avançava em termos
o filósofo Charles Baudelaire, de força e tecnologia, enquanto
um teórico boêmio francês que Neil Armstrong punha seus pés
destilava na inspiração de seus na lua, e enquanto as frentes de
poemas doses elevadas de álcool combate no Vietnã permaneciam
a um protótipo comum no decorrer em estado febril. Na tentativa de atacando, as drogas, religiões
Texto:
Júlia Fedrigo de Albuquerque das décadas. Anteriormente, os relacionar Baudelaire, criar uma exóticas, o amor livre, a música
Maria Teresa Weidlich jovens buscavam abrir as portas da ponte entre ele e o leitor atual, e a dança eram o estopim do
Arte:
percepção através de experiências o cronista deixa transparecer maior festival de música de
Cássia Paula Colla com drogas, como LSD e MDMA. nas entrelinhas sua afeição todos os tempos. A mídia por
u Estagiárias da AgexJ Atualmente, os mesmos são para com o consumo de álcool. sua vez, não poderia
embalados pelo ECXTASY em Coincidentemente Baudelaire é deixar de contracenar

D
esfilando pelas ruas, festas que duram até 24 horas. um dos primeiros nomes que nos neste cenário, e nele
zapeando na TV, Qual é a relação deles com as vem à mente quando trata-se do eis que se desenrola
ilustrando os espaços drogas? Por que elas insistem em uso de drogas, a prova viva disto
nobres dos portais na internet, se fazerem presentes em quase é seu livro Paraísos Artificiais.
nos bares, nos pubs, nos todas as manifestações culturais Trata-se de uma relação paradoxal
parques, na moda, no cinema e e de expressão da juventude esta das drogas com a sociedade,
também na música que toca no ontem, hoje e provavelmente no a comprovação é de que
mp3. Onde estão os expoentes futuro? Estes dias David Coimbra, muitas pessoas não se dão
da nossa geração? Vemos que cronista da Zero Hora, que conta que remédios, por
com o passar dos anos, com muito faz sucesso com o pessoal exemplo, álcool e cigarros,
as mudanças socioculturais e mais jovem, por conduzir na são drogas poderosíssimas
econômicas, nos condicionamos narrativa de seus textos além de capazes de alterar
ESPECIAL

13
uma trama de como o LSD se tornou uma um círculo de relações e influências nunca antes vendada, não sendo capaz de questionar de que
droga patenteada por Timothy Leary. Uma visto. Na pós-modernidade não apenas os sentidos forma as drogas tomaram uma proporção tão

OUTUBRO 2009 Nº20


receita que se valia de um ingrediente perfeito se ampliam, como também a capacidade de grande em nossas vidas, impregnando desde
para criar uma fusão poderosa que mudaria perceber o mundo envolto em diferentes formas os leitos de hospitais psiquiátricos às salas de
os contornos da sociedade americana. Leary de comunicação. Mídias ressurgem e insurgem cinemas que exibem filmes abordando o tema, de
se valeu daqueles anos rebeldes, daquela no cotidiano de cada um de nós, agrupando forma que, incrivelmente, os ambientes de lazer
juventude cheia de desejos e aspirações e pessoas, questionando valores, derrubando mitos associam-se diretamente ao consumo de drogas.
principalmente contagiada pela contestação e criando conceitos que se refletem nas ruas, nas Mesmo há quarenta anos, quando o panorama
dos valores, do consumo e enlouquecidamente roupas, nos cabelos, nos rostos que estampam sociocultural dos indivíduos era visivelmente
curiosa por experimentar novas maneiras sorrisos diferentes, mas que explicitam, acima de diferente, os jovens buscavam um mundo
de perceber o mundo, para fazer do LSD um tudo, um sentimento único, proveniente de uma novo, mergulhados em realidades psicodélicas
dos principais agentes da contracultura. Ao experiência igualmente única, que bem ou mal, remetidas ao consumo da maconha e do LSD. É
formular uma estratégia de comunicação pode mudar o mundo, para daqui décadas ou inquestionável o poder de influência da mídia e
a fim de fisgar seu público, impulsionou a para a eternidade, a juventude! do mercado nesta relação que figura no decorrer
Indústria Cultural a vender produtos para dos anos influenciando dezenas de jovens por
os jovens e fazer da contracultura um evento “Quando as portas da percepção se abrirem, meio da literatura, da moda, da música, enfim, da
além de histórico, midiático. Transpondo essa tudo aparecerá como realmente é, infinito!” cultura. Constatar que muitos dos ícones musicais
realidade novamente para os dias atuais, é clara (Willian Blake) da chamada pós-modernidade, assim como os da
a influência das diferentes vertentes culturais geração beat e hippie, possuem problemas com as
no comportamento dos jovens, como se estes Atualmente, para se alcançar o êxtase, drogas e inserem em seu profile artístico uma série
estivessem envolvidos em uma teia que interliga presume-se o uso do ECSTASY. A droga de experiências com substâncias químicas. Trata-
todas as formas de pensamento e possibilita sintetizada em laboratório trata-se de um se de uma verdade da qual não podemos fugir e
que cada um possa se adequar ao espaço que composto poderoso a base de MDMA que nos faz pensar que as coisas não mudaram,
melhor lhe agrada, formando (metilenodioximetanfetamina), que apenas tomaram formas e proporções distintas.
age alterando a função das substâncias Os movimentos se repetem ao longo
que ligam as células nervosas aos da história, apenas invertem-se o cenário e os
neurotransmissores. O resultado disso, personagens, e conseqüentemente o modo como
é um corpo em estado de ebulição, estes se configuram em dada época. A produção
os órgãos “fritam”, literalmente, cultural inspirada em tudo menos lucidez, atrai
relacionando a expressão àqueles que apreciadores de diferentes gerações, jovens e
utilizam a droga frequentemente nas velhos dialogam tranquilamente no fluxo de
pistas de dança em busca da euforia e informação disponibilizado pelo acesso fácil aos
do aumento da percepção. meios de comunicação atuais. Experiências são
O imediatismo das sensações relatadas como um despejo de um grande balde
proporcionadas pelas drogas de água fria naqueles que permanecem ilesos a
é igualmente proporcional à essas vertentes de conhecimento alternativas. A
necessidade de doses cada vez mais própria música quebrou paradigmas e reinventou
fortes do usuário. Embaralham- conceitos trocando as velhas guitarras por
se as personalidades e, como em samplers, as notas dão lugar aos bits e mais uma
um jogo de cartas, as faces se ocultam atrás do revolução está feita, mesmo para aqueles que
baralho. Não existem guias para esta desenfreada insistem em ignorar que os movimentos culturais
rota em busca de satisfação. Ao pensarmos o dos jovens continuam os mesmos, resta saber
problema das drogas atualmente, dificilmente se estes ainda são capazes de mudar o mundo.
as relacionamos ao passado, botamos a culpa Pelo menos no que se referem às músicas, estes,
no sistema, nos políticos, nos pais, nas escolas, móveis e quentes como uma criança em estado
na marginalização, na periferia, nos transtornos febril continuam dançando freneticamente,
psicológicos e, assim, a sociedade encontra-se idealizando a PAZ e o AMOR.
ESPECIAL

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crítica a

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14

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OUTUBRO 2009 Nº20

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The expression of the Young generation!


E
m meio à atmosfera de com a mistura sinérgica do folk, colorida iluminando um parque couro com franjas, eram a deixa
contestação, os meios de do rock e do blues no Woodstock. de diversão à noite, o estilo hippie para que os jovens criassem suas
comunicação de massa, Os ruidosos anos 60 se despediam se tornou o predileto dos jovens próprias fantasias ao invés de
como o rádio e a TV foram a válvula nos formatos psicodélicos da época. As ideologias anticapital copiá-las de um padrão imposto.
propulsora para a disseminação de tons estroboscópicos que nunca tiveram tanto respaldo e o Transpirava-se criatividade!
dos movimentos e possibilitaram transbordavam das mentes mundo das drogas era como uma A sinceridade, acima de tudo,
uma mobilização em larga escala alucinadas para as ruas que porta para um jardim repleto de deixava transparecer o cuidado
de jovens que batiam de frente fervilhavam em manifestações flores que se multiplicavam num que tinham uns com os outros.
com os padrões sociais. A música de paz. Do som encantatório de caleidoscópio multicolorido à Era o momento propício para
“Imagine”, de John Lennon, mantras e do rock psicodélico medida que os artistas recriavam as pessoas se reinventarem,
traduz bem o alvoroço que a vinha à inspiração para uma nova suas experiências com as drogas romperem consigo mesmas.
contracultura causou no mundo: forma de vida em comunidade, na música. Embalada por músicas Não pertencerem a nenhum
numa perfeita integração com como “Like a Rolling Stone” uma herói e, sim, serem o herói, pois
Imagine não existir países, o outro e com a natureza. Das atmosfera surreal e divertida era o sonho americano que antes
não é difícil de fazê-lo. Nada pelo canções folk saía a motivação para criada. Ela se refletia nas formas e parecia intocável acabava de ser
que lutar ou morrer, e nenhuma contestar, para se rebelar contra o cores das roupas que possuíam um questionado ou, de certa forma,
religião também. Imagine todas sistema prosaico e conservador. tom delicado e também artesanal. destruído, pois nenhum conto
as pessoas vivendo a vida em paz. Um movimento cedeu espaço ao As vestimentas repletas de de fadas continua eterno a partir
Talvez você diga que eu sou um outro à medida que o termo hippie acessórios orgânicos, como peles, do momento em que surgem
sonhador, mas não sou o único. se popularizava, incorporava colares de sementes e bolsas de dúvidas.
Desejo que um dia você se junte algumas características e
a nós e o mundo então será como ideais do Beat e ao mesmo
um só. tempo rompia com tudo
que já fora visto até então.
O local, antes centrado na Se o “American Way
tradição religiosa e familiar, of Life” já era chato na
se expande, tomando conta da década anterior, a aversão
juventude de todo o globo e se amplificava à medida
proporcionando uma integração que se introduziam a
universal. liberação sexual e as
A forma como a música dos drogas psicodélicas na
Beatles soava nos ouvidos dos contracultura, quebrando
beatniks com certeza não é a mesma alguns paradigmas.
que embalou os hippies, extasiados Como uma roda gigante
ESPECIAL

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15
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OUTUBRO 2009 Nº20


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A revolução psicodélic
para a mídia a se tornou especial

As drogas se espalharam
na cultura americana ma
o movimento hippie. A is do que
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psicodélicos através de mú tia os valores
sicas, filmes, revistas de mo
publicitários. Enfim, todas da e anúncios
as mídias traduziram o esp
60, e nelas as drogas estav írito dos anos
am presentes, de forma qu
invadiu até mesmo as casas e o movimento
dos mais conservadores. De
mídia descobriu um bom filã finitivamente a
o de mercado para vender
prova disso são os ícones seus produtos,
cinematográficos dessa époc
rider” e o musical “Hair”. a, como “Easy
Tempos de flower-power.
Tempos em que as balas da
flores. Tempos em que o am vam lugar às
or às causas perdidas fazia
Tempos de união. Tempos de va ler o perigo.
igualdade. Tempos de comu
de amor livre. Tempos de nhão. Tempos
prazer. Tempos de liberd
revolução. Tempos de ard ad e. Tempos de
or nos vasos sanguíneos. Te
Tempos de criatividade pu mpos de torpor.
lsante. Tempos de rebelião
Tempos de música. Temp . Tempos de arte.
os de poesia. Tempos de
amor. Tempos de Paz e Am paz. Tempos de
or. Tempos que se foram.
ser o hoje. Te mpo que pode
ESPECIAL

WOODSTOCK 40 anos depois O mais famoso evento da história do rock, a “Feira de Arte e Música
de Woodstock”, representa mais do que a pacífica reunião de cerca
de 500.000 pessoas para prestigiar 32 inebriantes performanc
es
musicais. Woodstock se tornou um ideal que permeia nossa cultur
a,
política e socialmente, além de, é claro, musicalmente.
O ápice dos revolucionários anos 60 foi uma faísca de incomparável
beleza da consciência de se fazer parte de um imenso organismo
pulsante. Esse é, talvez, o maior significado do festival: o sentimento
de união com o próximo sentido por cada um que esteve direta
ou
indiretamente envolvido com ele: idealizadores, trabalhador
es,
público e todos os demais que apesar de não estarem reunidos
em
Bethel, puderam ser tocados pela atmosfera de paz, solidariedad
e,
cooperação e amor!
Toda a vibração de Aquário que emanava de Woodstock exprim
ia
a atualidade da América repugnada por uma guerra insensata,
pela
discriminação que ainda permeava seu território e profundam
ente
inspirada pela não-violência. Aqueles três dias de paz, amor e músic
a
se tornaram um adjetivo imediato que denota o poder dos joven
s
sessentistas.
16

Mas nem tudo são flores...


OUTUBRO 2009 Nº20

Sob o mote de ser “Uma livre. muitas pessoas, o cabelo longo e as Casualmente, Elliot Tiber, dono
Exposição Aquariana”, o evento, Juntos, eles fundaram a roupas descuidadas de quem iria a de um hotel em White Lake, o El
ocorrido entre 15 e 18 de agosto Woodstock Ventures, realizadora Woodstock eram associados com a Monaco, que tinha 80 quartos -
de 1969, foi iniciado através dos do evento. Rastreando a zona política de esquerda e o consumo de quase todos eles vazios, procurou
esforços de Michael Lang, John rural para encontrar o espaço que drogas. os empreendedores. Tiber possuía
Roberts, Joel Rosenman e Artie acolheria o mais famoso festival de Woodstock foi oficialmente algo de imensa valia: uma permissão
Kornfeld. todos os tempos, encontraram o banido de Walkill em 15 de julho de da cidade de Bethel para fazer um
Roberts e Rosenman eram Mills Industrial Park, em Wallkill. 1969. Sob o aplauso de residentes, festival musical. Já o local...
“jovens com capital ilimitado Os 300 acres do local tinham um membros do conselho municipal A área oferecida por Tiber
a procura de interessantes acesso perfeito: a menos de 2 km da disseram que os planos dos para Woodstock eram 15 acres
oportunidades de investimento Rota 17 que dava na autoestrada do organizadores eram incompletos; pantanosos atrás do hotel. Isso
e propostas de negócios”, como estado de Nova Iorque e saía direto que banheiros ao ar livre, como os não era, nem de longe, o suficiente
dizia o anúncio publicado por da Rota 211, uma estrada principal. que seriam usados no concerto, eram para o público até então esperado –
eles no The New York Times e Além disso, o local tinha o essencial: ilegais em Wallkill. Duas semanas cerca de 50.000 pessoas.
Wall Street Journal. eletricidade e água encanada. Mas as antes, o conselho da cidade já Elliot indicou a propriedade do
Lang e Kornfeld responderam a vibrações do parque industrial não tinha aprovado uma lei requerendo seu amigo Max Yasgur. O lugar
este com a proposta de instalação eram as desejadas, estava faltando licença para qualquer ajuntamento era mágico, perfeito! O campo em
de um estúdio de gravação na o ambiente de “volta à terra” que se de mais de 5.000 pessoas. forma de bacia se inclinando, uma
cidade de Woodstock, terra que pretendia. Esta decisão do conselho, apesar pequena subida para o palco, um
acolhia astros, como Bob Dylan, Uma grande oposição ao de seu lado trágico, fez um favor à lago ao fundo. O negócio foi fechado
Janis Joplin e Jimi Hendrix. Woodstock foi feita pelos Woodstock Ventures. As notícias ali mesmo sobre as pastagens que
Porém, a ideia evoluiu para um conservadores residentes da sobre o que tinha acontecido fez em breve abrigariam uma multidão
festival musical e artístico ao ar pequena cidade. Nas mentes de chover interesse sobre o festival. em comunhão.
ESPECIAL

WOODSTOCK
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OUTUBRO 2009 Nº20


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É hora de música…
Trinta e dois dos mais conhecidos opções para a abertura: Hardin, Grateful Dead e Santana. Eram quase 9 horas de segunda-
músicos da época, entre eles Jimi que já perambulava alterado pelos O sol surgia da escuridão feira quando Jimi Hendrix, a
Hendrix, Janis Joplin, Jefferson bastidores, e Richie Havens, que num amanhecer não dormido maior entre todas as estrelas
Airplane, The Who, Creedence parecia pronto. A escolha era de domingo, enquanto a voz de de Woodstock, fez soar o hino
Clearwater Revival e Greatful Dead, evidente. Grace Slick, vocalista do Jefferson norte-americano distorcido pelo
se apresentaram em frente àquela Toda vez que Havens tentava Airplane, propagava no ar as inigualável encontro dos seus
massa amorfa vibrando na mesma parar de tocar, como as outras palavras: “uma pílula o faz maior, dedos à guitarra. A execução durou
sintonia. atrações ainda não tinham chegado, e uma pílula o faz pequeno…” Era apenas três minutos: três minutos
Os três dias de música começaram ele prosseguia. Finalmente, depois mais um dia de veneração ao rock. suficientes para entrar de sola
precisamente às 17:07, do dia 15 de quase três horas de show, The Band, Joe Cocker, Crosby, na eternidade; três minutos que
de agosto de 1969, uma sexta- soavam seus acordes derradeiros, Stills & Nash, Ten Years After, resumem o espírito do maior evento
feira dedicada ao folk. Entre as os improvisados de Freedom, a Johnny Winter e Jimi Hendrix musical do mundo: a desconstrução
atrações do primeiro daqueles dias lendária música que repercutia ainda subiriam ao palco. de paradigmas!
de celebração ao espírito hippie os anseios e a realidade
estavam Tim Hardin, Arlo Guthrie, vislumbrada ao vivo e a
The Incredible String Band e a cores – e que cores -, de
grande estrela Joan Baez. quinhentos mil jovens.
A largada para Woodstock No sábado, a lama
estava planejada para acontecer produzida pelo contato da
uma hora antes, mas como os água que despencava do
artistas estavam espalhados pelos céu com a terra pisoteada
hotéis da região – a quilômetros por aquela multidão
da propriedade de Yasgur e o desprendida de “valores”
engarrafamento não permitia sua moralistas cheirava a
chegada ao ambiente daquela haxixe, enquanto o palco
congregação -, os promotores vibrava com rock’n’roll
estavam contratando helicópteros de explodir os tímpanos
para trazer os artistas e materiais, de gigantes, como The
contudo, o primeiro chegou Who, Jefferson Airplane,
atrasado e só pôde trazer poucas Janis Joplin, Creedence
pessoas, não bandas – haviam duas Clearwater Revival,
ESPECIAL

WOODSTOCK
40 anos depois
Nada é tão diferente
quando tudo pode se ao mesmo tempo volta
recriado. Trata-se apen r
presente...

as de olhar o que já no tempo para resgatar


feito sob uma perspect fo i qu e hoje são vistos como valores
iva ambígua, consideran monumentos que sobr
Um olhar

todos os vértices. A do à ação do tempo contan evivem


forma de linkarmos do história e também na
contracultura - referent a o pr esente. rrando
e exponencial dos jove
de outras décadas - co ns Os acordes não são
m os movimentos cultu mais os mesmos, ga
atuais, é vermos aque ra is no va s releituras. O estilo hi nham
la como uma árvore pp ie de se r e ve sti r torna-
se ramificou e gerou que se chique ou bohemia
frutos distintos, uns bo m, estampa as roupas
outros nem tanto. ns , fa m osas, acompanha as te de grifes
ndências de moda e re
A contracultura fora o a era nos aquários de vive
solo onde germinaram vidro onde as lojas expõ
diferentes vertentes da pr od utos. em se us
quilo que podemos cham
de tribos, foram lá qu ar Mesmo nos festivais
e as expressões dos jo de música eletrônica
ganharam um amplifi ve ns on de im en sa s ca ix atuais,
cador para suas voze as de som e luzes estro
isso ecoa em forma de s, e acoplados a grandes es bo sc ópicas
música, arte e ideologi truturas de ferro que
em pleno século XXI. a da pa isagem natural, própria de stoam
estes eventos, ainda po do lu ga r on de ac on tecem
18

Muitos são os movim de-se perceber vestígios


entos contracultura que outro de uma
organizados com o in ra era sinônimo de lib
tuito de Eles estão na psicode ertação.
OUTUBRO 2009 Nº20

juntar multidões em lia da s co re s impressas na


torno de decoração, nas camise
eventos musicais atua tas dos jovens estam
lmente, deuses indianos que pando
a diferença gritante remetem às religiões
é que nos acessórios orgânico orientais,
hoje em dia as facilid s feitos de materiais ec
ades de peles, couros e sem ológicos,
comunicação se to entes presentes tam
rnaram roupas dos frequenta bém nas
muito maiores, a inform dores deste tipo de
ação que invariavelmente evento,
que antes era restrita buscam acima de tudo
a um mesmice do cotidiano fugir da
determinado público , abrir a veneziana da
que diária e dar de cara co janela
era ouvinte de rádio m um paraíso artificia
ganha raras vezes, ganha fo l que, não
uma conotação unive rmato graças ao cons
rsal drogas sintéticas. Trat umo de
nos dias atuais. Po a-se de um paradoxo,
de-se de inferno, um pouco um pouco
estar ligado a tudo de céu.
e ao Nitidamente conceitos
mesmo tempo, de e valores sobrevivem at
certa da ação do tempo pelo ravés
forma aquele espí simples fato de sermos
rito humanos. Seremos se se mpre
revolucionário da déca mpre jovens ou sempr
da que na tentativa de cria e velhos,
de 60 e 70, está presen r uma realidade remon
te outra, buscando re taremos
na forma de influên fe renciais já existen
cia inventando-os. Cultuan tes ou
(nas formas) como do e reverenciando di
os deuses, que acabam fe rentes
jovens veem e sentem sendo sempre os mes
o acreditamos em utopia mos, pois
mundo atualmente. s.
As rupturas do human
A premissa do faça o ao longo da história
ao mesmo tempo um são
você mesmo ganh rompimento consigo
a com partes reaprove m esmo,
contornos modernos itáveis de um corpo
e que agora toma forma, universal,
possui cara, gesticula
e expressa gestos, qu palavras
e mesmo invisíveis, po
agem através de nós di is agora
gitais, podem mudar
não por inteiro, mas o mundo
por partes, justamente
não somos omnividen porque
tes.
MÚSICA

De 1959 para a eternidade


A profusão de improvisos que mudou o curso do Jazz completa cinquenta anos

Júlia Fedrigo de Albuquerque


u Acadêmica de Jornalismo VIII Nível e estagiária da AgexJ

O
virtuoso experimento de Miles Davis e seu
sexteto dos sonhos composto por Julian
“Cannonball” Adderley, no sax alto; John ‘Em poucos takes o maior álbum da
Coltrane no sax tenor; Bill Evans e Wynton Kelly, história deste ritmo instigante e envolvente
nos pianos, Paul Chambers, no contrabaixo e
Jimmy Cobb, na bateria Kind of Blue, o álbum
era gravado no acetato que permitiria
mais vendido na história do charmoso estilo, há sua reprodução e apreciação por amantes
meio século encanta pela irretocável beleza de do estilo musical da época, do presente e,


suas composições. certamente, do futuro’
Este revolucionário exemplar de êxtase
musical, lançado originalmente em 17 de agosto
de 1959, consolida a modalidade como modelo

19
de compor Jazz. Em contraste com o estilo hard
bop, explorado até então por Davis, nesta que
é considerada por muitos a sua obra-prima,

OUTUBRO 2009 Nº20


o trompetista especialista em retirar de seu
instrumento um som delicado, que já flertava com mudanças rítmicas e pode-se lapidar
combinações harmônicas mais livres desde o ano mais a linha melódica. Segundo o genial
anterior, em faixas de Milestones e ’58 Sessions, se Miles, “se torna um desafio ver o quão
dedica completamente aos acordes improvisados melodicamente inovador você pode ser”.
da progressão modal. Entusiasmado com o resultado
O sonho musical de Miles começa a se configurar satisfatório de suas primeiras composições
ainda em 1958, quando ele emprega uma das em modalidade, Miles dedicou-se à
melhores bandas de hard bop como apoio fixo. preparação de um álbum completamente
O grupo, formado por “Cannonball”, Coltrane, destinado ao conceito: o memorável Kind of
Evans, Kelly, Chambers e Cobb, costumava tocar Blue.
um misto de pop e bebop de nomes como Charlie Gravado inteiramente em duas sessões, no 30th
Parker, Dizzy Gillespie e Thelonious Monk. Street Studio de Nova Iorque, em 2 de março e 22
Entretanto, seguindo a tendência de outros tantos de abril, o maior disco de Jazz de todos os tempos,
grupos de jazz, eles costumavam improvisar foi concebido em clima de reunião de virtuos.
mudanças de acordes nas canções. Seguindo o desejo do trompetista de quase
Além do ímpeto criativo da banda, um Davis nenhum ensaio, poucas instruções sobre o que “Flamenco Sketches”, além de uma segunda versão
insatisfeito com o bebop – que considerava sua seria executado foram dadas ao sexteto. Pouco desta última como faixa bônus. Composições que
complexa técnica como um empecilho para a a pouco, a fusão de harmonias improvisadas demarcaram um padrão de excelência no Modal
inventividade musical – e influenciado pelas ideias tornava-se impressionante. Em poucos takes, Jazz, com suas concepções apenas horas antes
e conceitos do pianista George Russel que oferecia com exceção da faixa Flamenco Sketches a única das sessões de gravação, fator que justifica o
uma alternativa ao improviso baseado em acordes, que dá razão à lenda do disco ter sido gravado elevadíssimo nível de virtuosismo instrumental.
com uma nova fórmula que usava escalas em seu apenas em primeiras tentativas – o maior álbum Não há melhor definição para esta apoteose
lugar – fizeram soar algumas das primeiras notas da história deste ritmo instigante e envolvente era sonora eterna que a de Ashley Kahn, autor de
de um novo Jazz: o modal, ainda em 58. gravado no acetato que permitiria sua reprodução Kind of Blue: The Making of the Miles Davis
A liberdade criativa da modalidade foi e apreciação por amantes do estilo musical da Masterpiece: “Kind of Blue” é uma verdadeira
considerada por Davis “um retorno à melodia” época, do presente e, certamente, do futuro. declaração criativa”. Um novo sopro de vida
(como declarou em entrevista a Nat Hentoff São apenas cinco as canções que integram o dado ao estilo por um jazzista já agraciado pelo
para The Jazz Review, em 1958), pois com álbum definitivo do Jazz: “So What”, “Freddie reconhecimento que, ao invés do conforto, optou
ela não são necessárias preocupações com as Freeloader”, “Blue in Green”, “All Blues” e pelo risco da inovação.
MÚSICA

A Bela e a Tristeza
Falando sobre amor, Rachael comove o coroção de quem ouve.

N
ão é música para quem se sente bem. em 2004, “Happenstance” contém entre suas
Não é uma música para ficar legal faixas verdadeiras obras da dor-de-amor,
ou colocar numa festa com amigos. porém tem coisa mais animada. Seu hit foi “Be
Definitivamente não é um tipo de música alegre. Be Your Love”, que deu maior reconhecimento
Muito longe disso. Apesar de uma agradável e à cantora e serviu de trilha para vários seriados
suave voz, Rachael Yamagata faz um som para e filmes, como “The OC” e “Quatro Amigas
se acabar, bem de fossa mesmo. A cantora e um Jeans Viajante”. “Worn me Down”,
americana com descendências japonesa, alemã que tem um estiloso clipe, “1963”, “Letter
e italiana faz músicas para pessoas que estão Read” possuem ritmos mais entusiasmados,
vivendo um amor complicado ou para aqueles devidamente acompanhadas de uma batida
que ainda não conseguiram esquecer alguém pop. Mas a principal característica da nossa
e, consequentemente, estão com o coração querida Rachael é saber ser triste, o que faz
em pedaços. Mas como uma hora ou outra de uma maneira esplendorosa. Músicas
todos nós passamos por situação semelhante, depressivas e tristonhas como “I’ll Find a
aí está o motivo de suas canções tocarem tão Way”, “Quiet” e Even So’ fecham o setlist.
profundamente quem escuta. Mas música, assim como qualquer
20

Sua introdução no mundo da música foi no outra forma de expressão artística, é algo
mínimo inusitada, se comparada com o restante extremamente relacionado com o lado
OUTUBRO 2009 Nº20

de sua carreira. Em Chicago ela participou como pessoal, cada um interpreta o que vê ou ouve
backing vocal da banda Bumpus, que tocava de acordo com os seus sentimentos. Por isso
um misto de funk, soul e hip-hop. Mas antes não seria precipitado dizer que “Reason Why”
disso ela aprendeu sozinha a tocar piano e não é a música mais forte e a mais visceral de todas
demorou muito para perceber que iria trilhar as faixas do álbum. Sua letra fala sobre
um caminho bem diferente do Bumpus. querer ficar com alguém e não poder, de
Cresceu ouvindo James Taylor, Cat Stevens, procurar seu rosto em todos os lugares,
Stevie Nicks e Simon & Garfunkel no rádio de exaltar como o amor nunca morre explicados, mesmo ainda gostando dela. Fora
de casa. Outra grande e até óbvia influência até terminar de modo perfeito com lançada no EP “Live at the Loft” em 2005, mas
foi Joni Mitchell, a qual se assemelha muito o singelo e certeiro verso: “but you somente anos depois foi lançada oficialmente
na temática melancólica. and I know the reason why”. em um álbum de estúdio. “Duet” e “Over and
E nesse contexto seu primeiro álbum Já no seu último trabalho Over” são canções que merecem destaque pelos
até que não pega tão pesado. Lançado lançado, o furo foi muito mais mesmos motivos.
embaixo. O álbum, que saiu em Em “Teeth Sinking Into Heart” é onde estão
outubro de 2008, se divide em as mais pauleiras. Essa é a diferença básica
duas partes: “Elephants” e “Teeth entre os dois CD’s. Enquanto o primeiro é triste,
Sinking Into Heart”. O primeiro arrastado e melancólico, o segundo é quase que
segmento começa com música de uma espécie de redenção disso tudo. Passado
título homônimo. Lentos acordes o choro você se recupera do processo todo, saí
do piano acompanhados de violinos e quebrando tudo e mandando o universo inteiro
versos como “você está me forçando a a merda. Todas as músicas são mais rápidas
lembrar quando tudo que eu quero é pesando bastante para o lado do pop rock
te esquecer” já dão uma mostra do (exceto “Don’t”) e com letras mais irônicas,
clima para todo o resto. E é este deixando meio de fora o sentimentalismo.
álbum que tem, provavelmente, Mas não se engane, isto é somente um
sua faixa mais bonita e depressiva: pequeno estalo se comparado ao geral. Rachael
“Sunday Afternoon”. Certamente Yamagata é a tristeza amorosa na sua essência,
biográfica, ela abandona uma acompanhada de uma doçura melódica que
pessoa por motivos não faz sua música ser obrigatória para todos os
apaixonados, desapaixonados e também para os
que apenas pretendem ouvir um bom som. Vale
a pena ouvir essa bela morena e sua visão poética
do sentimento mais necessário, imprevisível,
sofrido e nobre que um ser humano pode ter em
sua vida, também conhecido como amor.

Marcus Vinícius Freitas

u DISCOGRAFIA
- Happenstance (2004)
- Live at the Loft & More (2005)
- Loose Ends (2008)
- Elephants… Teeth Sinking Into Heart (2008)
FARO

Lirismo, trangressão, libertação... a poesia de Allen Ginsberg

A
s bombas estrondosas que que os corpos se movimentassem no revelar uma experiência tensa, difícil
incandesciam os céus já ritmo de uma sexualidade até então e por vezes traumática, torturante,
não eram mais lançadas. A comportadamente adormecida, extasiante, nauseante, cínica..., mas
crueldade que exterminava seres fosse na literatura Beat de sempre esperançosa. Uma incursão
humanos em série já era apenas personagens rotos e esfarrapados, por este mundo de sensações é
uma dolorosa lembrança na liberais, que não negariam uma oferecido por “O Uivo, Kaddish e
memória. As paisagens devastadas dose de qualquer coisa que os fizesse Outros Poemas”, uma compilação
pelo horror já estavam sendo transcender o corpo e/ou a mente de obras-primas do autor.
substituídas por novas construções num bar aos acordes virtuosos do Desde os primeiros versos de “O
erguidas em cimento e tijolos... Jazz. Uivo”:
Enquanto isso, a nação que Inspirada nos rostos pouco
mudara o curso do segundo heróicos de desconhecidos que Eu vi os expoentes da minha
conflito bélico em escala mundial vagam na escuridão, faces, por geração destruídos pela loucura, de alucinógenos ou na loucura,
vivia a aparente tranquilidade muitas vezes, vistas no espelho, morrendo de fome, histéricos, nus, de fantasmas às margens de sua
oferecida pelo bem-estar da o movimento literário sacudiu a arrastando-se pelas ruas do bairro sociedade, a leitura da poesia
sociedade de consumo, às sombras poeira da quadrada literatura norte- negro de madrugada em busca uma ginsbergiana é surpreendente e
do preconceito excludente americana ao adicionar a ela a força dose violenta de qualquer coisa plural: passando do inferno familiar
que relegava aos negros a do improviso jazzístico, criando “hipsters” com cabeça de anjo assombrado pela insanidade
subserviência; do inconformismo obras-símbolo da liberdade, com ansiando pelo antigo contato materna em Kaddish; pelo sarcasmo
com o moralista e hipócrita furor, radicalismo e ousadia criativa celestial com o dínamo estrelado crítico de “América”, ao lirismo de
conservadorismo puritano que e existencial. da maquinaria da noite, que

21
“Transcrição de Música de Órgão”.
cerceava a cultura e a conduta Na poesia beat, o nome de Allen pobres, esfarrapados e olheiras Ao fim, este experimentalismo
social; e da caça às bruxas vestidas Ginsberg ressoa misticamente. fundas, viajaram fumando sentados

OUTUBRO 2009 Nº20


sensorial promovido pela leitura de
de vermelho que enfeitiçavam com O maior dos poetas-anarquistas na sobrenatural escuridão dos “O Uivo, Kaddish e Outros Poemas”
foice e martelo. contemporâneos testemunhou o seu miseráveis apartamentos sem água reitera o amor como o princípio e o
No coração desta nação de próprio tempo: tempo de ruptura, quente, flutuando sobre os tetos das fim de tudo. Apesar do horror e da
filhos sorridentes o anseio calado de evolução, de revolução! De cidades contemplando jazz (...), dor que transbordam de algumas de
de libertação. modo feroz e verborrágico, revelou suas páginas, o sentimento impera
Na década de 50, ele se deixaria a obscuridade do desencanto com como o redentor do males, uma
expressar, fosse nos compassos do o sonho americano, com pitadas de Longa poesia que abre as portas inegável e incontrolável procura de
Rock’n’roll que rompia barreiras lirismo surreal. para essa América dos que se todos.
entre negros e brancos e fazia com A leitura de Ginsberg pode-se “perderam do caminho” em doses Júlia Fedrigo de Albuquerque

“A Sangue Frio” - o relato perfeito de um crime

T
ruman Capote inaugura o A narrativa inicia ambientando guarda elementos como. Como o crime e trabalhou em diversos ramos. No
gênero literário “Romance de o leitor à típica pequena cidade de foi executado, qual a razão que levou entanto, a infância traumática já havia
não-ficção” com A sangue frio. O interior, onde a paz, a amizade e a os bandidos a executarem uma família lhe causado sérios danos psicológicos
livro narra um fato real que chocou os fraternidade reinam soberanas. Neste inteira,... para contá-los no decorrer da que foram agravados por um acidente,
Estados Unidos, o brutal assassinato lugar vive a família de um próspero narrativa. que deixou como cicatriz uma pequena
de quatro membros da família Clutter, fazendeiro, Herb Clutter, membro da Outra grande particularidade do deficiência motora, mas que lhe
em uma pequena cidade do Kansas, e Igreja Metodista local, muito respeitado texto de Truman Capote é o seu poder deixava envergonhado, pois pensava
dá uma lição de jornalismo ao fazer e querido pelos munícipes. Todas as de descrição, por exemplo, a descoberta que as pessoas sentiam asco ao vê-lo.
uma análise completa da chacina e atividades dos membros da família, da chacina é descrita de tal maneira que A narração segue contando as
da vida dos “personagens” envolvidos Bonnie (Sra. Clutter), Nancy e Kennon o leitor é capaz de “sentir” a tristeza e peripécias de Perry e Dick após o
na trama, através de depoimentos (filhos do casal) e do próprio Sr. Clutter indignação presentes em cada um dos crime, uma mal fadada viagem para o
coletados pelo escritor em seu árduo no dia 14 de novembro (dia anterior moradores da pequena cidade. Esta México, o paraíso por eles imaginado,
trabalho de pesquisa. ao crime) são relatas com riqueza de riqueza de detalhes também permite o retorno aos E.U.A... E descreve as
detalhes, o que faz com que o leitor se percebermos uma certa dose de investigações, o abalo que a falta de
sinta próximo, como um conhecido, arrependimento, culpa e apreensão nos provas e de suspeitos causou nos
dos bondosos personagens. pensamentos de Perry. policiais destinados a averiguar o caso
O livro apresenta uma característica Outra descrição impecável feita por e os meios pelos quais conseguiram
muito marcante, a narrativa não linear. Truman Capote é a de Perry Smith, ela chegar aos assassinos.
Ao mesmo tempo em que conta como faz com que sintamos pena de um dos Obviamente, não vou contar o
as vítimas viviam seus derradeiros responsáveis por este crime bárbaro. desfecho desta incrível narrativa de
momentos, narra o tenso dia dos Perry tem uma trajetória de vida difícil, Truman Capote. Fica a dica para todos
assassinos, Perry e Dick, e a frieza com ainda criança foi separado do pai, a mãe aqueles que apreciam a boa literatura.
que acertavam os últimos detalhes para era alcoólatra, começou a apresentar A sangue frio, o perfeito relato de um
“o crime perfeito”. características agressivas, era mandado crime com todas as suas nuances e
Capote poderia ter narrado para reformatórios onde apanhava versões.
detalhado e cruamente o assassinato. quase diariamente. Algum tempo
Mas em prol do suspense, e com a depois, o pai retomou a sua guarda e
finalidade de atrair a atenção do leitor, com o pai viveu em inúmeros lugares Júlia Fedrigo de Albuquerque
FARO

sangrentas disputas com outros


ERA UMA VEZ NA AMÉRICA mafiosos, desaguando nos anos
60, quando Max e Noodles se

P
arecia, no início, um perspectiva de vida, vivendo numa reencontram, depois de tomarem
projeto ousado demais: comunidade de imigrantes do rumos diferentes.
fazer um filme épico leste europeu em Nova Iorque. Ao A música de Ennio Morricone é
sobre gangsteres judeus em encontrar Max (James Woods), praticamente um personagem do
Nova Iorque. Com quatro horas outro judeu, igualmente sem futuro, filme. A fotografia é outro ponto
de duração então, era algo que formam a espinha dorsal de um alto de Era Uma Vez na América,
certamente seria recusado bando tão violento quanto arrivista, além dos atores secundários como
pelos grandes estúdios. Assim, que usará de todos os meios para Tuesday Weld e Treat Williams.
o longa-metragem foi realizado conseguir dinheiro, belas roupas Leone criou o seu estilo de narrar,
com pouco mais de duas horas e belas mulheres. A inteligência que exige grande preocupação com
de duração. O diretor, Sérgio de Noodles, aliada à total falta de a imagem, sempre forte, sempre
Leone, fez de Era Uma Vez na caráter de Max, trarão sucesso ao épica.
América, uma das grandes obras pequeno grupo, apesar da oposição O cineasta, que dirigiu westerns
primas do cinema. Com cenários de outros criminosos do bairro. Até spaghettis, entre os quais se
e figurinos de três épocas e com aí, pode-se classificar como clichê destaca Era Uma Vez no Oeste, e
Robert De Niro e James Woods de filme de máfia. sempre ficava insatisfeito com seus
nos papéis principais, o filme O que Sérgio Leone oferece de filmes, deve ter sofrido muito com
não teve sucesso de bilheteria diferente nesta obra é o elemento a mutilação e o fracasso iniciais
nos EUA. Em compensação humano. Os personagens, quando de seu último filme. Mas, quando
teve sucesso consagrador na adolescentes, crescendo no uma obra tem tantas qualidades,
Europa. A trama está centrada submundo nova-iorquino, têm sempre acaba vencendo. Foi o que
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em Noodles (Robert De Niro nas aventuras amorosas e lutas com aconteceu para o épico monumental
versões “adulto” e “velho”). No grupos rivais. Uma vez adultos, deste diretor criativo e inovador.
OUTUBRO 2009 Nº20

início cronológico da história, ele envolvem-se em chantagens


é um menino judeu sem qualquer durante a Lei Seca, além de
Jean Dutra Berthier - Jornalista

MISTÉRIOS E PAIXÕES

C omo seria interessante um


filme que lembrasse Franz
Kafka escrevendo um livro
sobre Salvador Dali e este pintar um
quadro retratando Kafka. Mistérios e
praticamente faz saltar aos olhos do
espectador mais atento.
A trilha sonora jazzística, a
indumentária e os cenários muitas
vezes remetem aos anos 40; a atmosfera
seja autoral, baseado nas experiências
do autor com drogas alucinógenas.
Realmente, o filme é recheado de
situações inverossímeis e surreais,
o diretor ilumina o livro ao invés de
simplesmente adaptá-lo. De lamentar
é o título que foi dado no Brasil para
Naked Lunch.
fruto da mente criativa de Burroughs.
Paixões é tudo isso e não é nada disso de mistério e exotismo reforça ainda Jean Dutra Berthier - Jornalista
David Cronenberg conseguiu filmar
ao mesmo tempo. É Dali porque é mais a impressão de distanciamento da o infilmável romance de William
surrealismo nato. E é Kafka porque atualidade, enquanto o uso de drogas, Burroughs, O almoço nu (Naked
o enredo com os insetos remete administradas à granel, se encarrega Lunch), transplantando-o para um
quase que diretamente à obra A de ser o elemento responsável contexto biográfico. O texto, um dos
metamorfose. O que chama a atenção pela certeza de distanciamento da marcos literários do século XX, é
no filme é a quantidade de citações realidade. Conhecendo a vida de tratado como tal e o que vemos é a
no decorrer da história que o diretor Burroughs, intui-se que o roteiro própria vida do escritor, partindo do
período narrado no anterior Junky, o
assassinato à la Guilherme Tell de sua
esposa, a vida toxicômana em Tanger e,
para os iniciados em literatura beat, seu
relacionamento congelado com colegas
escritores como Allen Ginsberg, Jack
Kerouac e Paul e Jane Bowles.
Nada disso suaviza o teor
de Burroughs, muito pelo contrário.
Traduzindo o delírio do livro em
imagens, Cronenberg nos mergulha
visceralmente na conexão entre
drogas, paranoia e criatividade. Os
diálogos entre o autor (Peter Weller, de
Robocop) e máquina de escrever estão u MISTÉRIOS E PAIXÕES
(Naked Lunch) Direção: David Cronenberg
entre os grandes momentos da crítica Elenco: Peter Weller, Judy Davis, Ian Holm, Roy
literária, e, talvez, só quem tenha lido Scheider.
O almoço nu possa perceber o quanto Duração: 111 minutos
FARO

O Homem-Urso

Na selvagem natureza
V
ocê que está lendo esse os animais do que
texto: “Até aonde iria por qualquer outra coisa.
uma causa?” Timothy Na verdade era uma
Treadwell foi até o fim, as últimas relação recíproca, pois
e extremas consequências. No da mesma forma que
documentário “O Homem-Urso” Treadwell protegia
o diretor alemão Werner Herzog os ursos, os mesmos
presta um tributo à vida e morte lhe deram um abrigo
do ecologista que dedicou sua vida da humanidade que
aos ursos. tanto abalou sua fé.
Treadwell passou 13 anos Encontrou neles uma
acampando durante os verões saída para sua vida
numa reserva florestal do Alasca, desregrada e sem
estudando, protegendo e lutando rumo. Encontrou,
em prol dos ursos pardos. Mas enfim, uma razão de
veio a falecer, juntamente com a viver.
namorada, devorado por um dos Alguns indagam se

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animais, em outubro de 2003. era necessário proteger
Ele praticamente largou tudo, os ursos, afinal eles

OUTUBRO 2009 Nº20


incluindo o alcoolismo e uma vida estavam dentro de uma reserva ursos filmados por Treadwell, eu
problemática na adolescência protegida pelo governo. Mas se os não descobri nenhuma simpatia,
para poder ficar perto dos bichos caçadores respeitassem as leis de compreensão ou piedade. Vi apenas
e da natureza, sua verdadeira proteção várias carcaças de ursos a impressionante indiferença da
paixão. Um ato nobre, mas não apareceriam nela, fato omitido Natureza. Este olhar vazio revela
também uma fuga da realidade, no filme e mostrado apenas no apenas um interesse entediado por
uma fuga da civilização a qual não making of. comida”.
se encaixava e tanto repudiava. O próprio diretor faz o contra- Herzog não compartilha da
Por outro lado, sua tristeza era ponto do protagonista. Numa mesma visão romântica sobre a
mais que evidente cada vez que passagem de sua narração ele diz: natureza de Treadwell e deixa isso cinegrafista Timothy, visto que
ele precisava sair da reserva, “Ele parece ignorar que na natureza bem claro. Os depoimentos do ele deixou centenas de horas de
abandonando temporariamente há predadores. Eu acredito que médico-legista, da ex-namorada, vídeo com imagens, tomadas e
seus “vizinhos”. Com intensidade os denominadores comuns do de amigos e de pessoas que sequências deslumbrantes (uma
que lhe era característica, entrou universo são: o caos, a hostilidade acharam que “ele teve o que briga de ursos, por exemplo),
de corpo e alma e foi a fundo na e o assassinato”. Em outra diz o merecia”, completam as opiniões. esquecendo momentaneamente
causa, passava mais tempo com seguinte: “O que me assombra é Outra coisa que fica clara é sua justificativa ecológica.
que, em todas as caras de todos os a admiração de Herzog pelo Talvez tenha faltado prudência,
mas são ações dedicadas como a
sua que transformam o mundo
em um lugar melhor. Timothy
Treadwell dedicou grande parte
de sua vida a proteger os ursos,
quando na realidade foram eles que
o salvaram. Por ironia do destino
veio a ser morto por um deles.
Um trabalho com o olhar
dedicado, obsessivo e delicado,
Herzog, ao mesmo tempo em
que explora a forte e instável
personalidade do ecólogo,
questiona a relação entre o ser
humano e a natureza, sendo a
última tão importante quanto
impiedosa.
Marcus Vinícius Freitas

u O Homem urso
(Grizzly Man) Direção: Werner Herzog
Elenco: Werner Herzog, Larry Van Dale,
Warren Queeney, Katheleen Parker
Duração: 103 minutos
FOTOGRAFIA

O momento decisivo
“Tirar uma foto é como reconhecer um evento. Naquele exato momento e numa fração de segundo, você organiza
as formas que vê para expressar e dar sentido ao evento. Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o
olho e o coração. É uma forma de viver.” HCB
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Hyères, França, 1932


u Aqui a simetria entre as linhas dos elementos, o
OUTUBRO 2009 Nº20

enquadramento perfeito e o momento decisivo com a bicicleta


passando.

Behind the Gare St. Lazare, 1932 On the Banks of the Marne, França, 1938
u O homem pulando sobre a água há poucos centímetros da uUm dos assuntos favoritos do Bresson eram os acontecimentos
superfície é o perfeito exemplo do “momento decisivo”. Detalhe simples do cotidiano. No caso, uma família almoça
para a analogia com o cartaz da bailarina ao fundo. tranquilamente à beira de um rio.

U
m dos maiores mestres Viajou pelo mundo munido estabelece uma ponte entre o ser antes de completar 90 anos,
da fotografia, o francês de uma discreta Leica captando humano e o mundo. Jamais utilizou mas sua obra ficou eternizada.
Henri Cartier-Bresson grandes momentos da história qualquer forma ou ferramentas Quem deu a melhor definição
revolucionou o fotojornalismo como a morte de Gandhi, o começo para alterações em suas fotos, para o que ele representou no
moderno. Seu conceito era que da era Mao Tse Tung e a Guerra incluindo o flash, além de ser mundo do fotojornalismo e das
deveria esperar o “momento Civil Espanhola. Trabalhou para totalmente contra as montagens artes foi seu amigo e biógrafo,
decisivo” para tirar uma foto, revistas como “Vogue” e “Life”, com atores. Costumava dizer que a Pierre Assouline: “Se o século
isto é, o segundo exato entre fundou a agência de fotojornalismo fotografia era um presente do acaso XX foi o século da imagem,
o acontecimento e o apertar “Magnum” e fotografou nomes e que devíamos tirar proveito disso, Cartier-Bresson foi o olho desse
do disparador. Ele tinha como Albert Camus, Coco Chanel, visto que o ofício é uma constante século.”
sensibilidade e talento de sobra William Faulkner, entre outros. briga contra o tempo.
para saber distinguir esta fração Porém seu tema preferido era Bresson faleceu no dia 3 de agosto Marcus Vinícius Freitas -
de tempo. a reportagem fotográfica, que de 2004 em Provence, poucos dias Jornalismo do II nível