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A reforma do contencioso administrativo constitui uma reforma essencial à garantia dos direitos
fundamentais dos cidadãos, pois incide sobre o principal instrumento de garantia desses
direitos perante a Administraç Púb. Trata-se, por isso, de uma reforma indispensável à plena
consagração, no nosso país, do Estado de Direito democrático.
Como é sabido, o contencioso administrativo português não foi objecto da reforma profunda q
há muito se exigia e q, em sucessivas revisões constitucionais, o legislador constituinte tem
vindo a reclamar. Crescentemente aguardada, mas sucessivamente adiada, a necessária
reforma foi sendo substituída por medidas de alcance mais limitado, as quais, aperfeiçoando
embora o sistema, não alteraram as suas traves mestras.
Os dados estatísticos relativos à jurisdição administrativa entre 1992 e 2001 revelam q o nume-
ro de procs instaurados, por ano, no conjunto dos tribunais administrativos de círculo, aumen-
tou para mais do dobro. Este aumento progressivo da litigiosid no âmbito de relações jurídico-
administrativas teve como resposta um acréscimo do número de tribunais e de juizes. Todavia,
essas medidas não se revelaram suficientes para uma resposta eficiente do sistema ao volume
das necessidades efectivas.
Na verdade, verificou-se ao longo deste anos que, embora o número de procs findos por ano
tenha aumentado progressivamente, ele ficou aquém do número de procs instaurados.
Consequentem, o número de procs pendentes foi aumentando sistematicamente, o q se
reflectiu numa acumulação de processos pendentes nos tribunais, bem como, num acréscimo
da duração média dos processos.
As estatísticas da justiça demonstram, efectivamente, q a morosidade processual na jurisdição
administrativa constitui uma das principais causas de ineficiência do sistema, na medida em
que revela uma tendência de aumento da faixa de processos com uma duração entre 2 e 5
anos, em prejuízo dos escalões até 2 anos. Verifica-se, portanto, neste lapso de tempo, que os
processos tendem a demorar mais.
Por outro lado, verifica-se uma elevada percentagem de procs findos sem julgamento de fundo
(61% nos tribunais administrativos de círculo, em 1999). Considerando q uma parte significativa
destes procs findos ocorre tendencialm em fases iniciais da tramitaç processual, pode deduzir-
se q os procs efectivam julgados têm, na prática, uma duração média superior à evidenciada
pela média global.
Perante este quadro de aumento global da procura da justiça administrativa e de incapacidade
do sistema para responder eficientemente a esta evolução, que se tem repercutido directa e
negativamente no plano da tutela jurisdicional da esfera jurídica dos particulares perante a
Administração, impunha-se uma profunda reforma do sistema de justiça administrativa, passan-
do pela redefinição da organização, estrutura e repartição das competência do conjunto dos
tribs administrativos, bem como, pela definição de regras para o seu funcionamento interno,
aspectos que são contemplados e desenvolvidos no novo Estatuto dos Tribunais Administra-
(*) Com a colaboração do Prof. Doutor Mário Aroso de Almeida, docente da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa
e da Dr.a Cecília Gagliardini Graça, Consultora do Gabinete de Politica Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça.
(1) Publicada no Diário da República, 1.a série-A, n.o 42, de 19 de Fevereiro de 2002, rectificada pela Declaração de Rectificação
n.o 14/2002, publicada no Diário da República, 1.a série-A, n.o 67, de 20 de Março de 2002 e pela Declaração de Rectificação
n.o 18/2002, publicada no Diário da República, 1.a série-A, n.o 86, de 12 de Abril de 2002.
tivos e Fiscais (ETAF), aprovado pela Lei n.o 13/2002, de 19 de Fev, e cuja entrada em vigor
se verifica no dia 1 de Janeiro de 2004.
Paralelamente, a reforma em curso assenta também numa completa reformulação do processo
nos tribunais administrativos, no sentido da sua aproximação ao processo civil e do reforço das
garantias de acesso à justiça e de igualdade processual „ , a qual foi efectuada no
novo CPTA, aprovado pela Lei n.o 15/2002, de 22 de Fevereiro, e cuja entrada em vigor
coincide com a do ETAF.


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O novo ETAF, aprovado pela Lei n.o 13/2002, de 19 de Fev(1), estabelece novos critérios de
delimitação do âmbito da jurisdição administrativa que alteram substancialm o regime actual.
Pretende-se, sobretudo, clarificar os critérios de delimitaç da jurisdição administrativa, tendo em
vista facilitar o efectivo acesso à tutela jurisdicional dos interessados, evitando conflitos de
competência que apenas redundam numa morosidade acrescida do funcionamento da Justiça.
O âmbito da jurisdiç administrativa vem definido pelos critérios enunciados no art 4.o do ETAF,
norma que atribui aos tribunais administrativos competência para conhecer e julgar de:

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O ETAF atribui aos tribs administrativos competência p/ julgar questões relativas à interpretaç,
validade e execução de contratos, sempre q se verifique uma das segs situações:
i) contrato de objecto passível de acto administrativo;
ii) existam normas de direito público que regulem aspectos específicos do respectivo regime
substantivo;
iii) uma das parte seja uma entidade pública ou concessionário e as partes contratuais sujeitem
o contrato a um regime de direito público;
iv)o procedimento pré-contratual que antecede a celebração do contrato seja regulado por
normas de direito público.
Mantém-se, portanto, a competência dos tribs administrativos em funç da natureza do contrato,
mas acrescenta-se o critério da natureza do procedim pré-contratual subjacente, abrangendo-
se, assim, contratos celebrados entre pessoas colectivas de dto público, entre estas e pessoas
colectivas de direito privado, ou ainda, entre diversas pessoas colectivas de direito privado.
A competênc dos tribs administrativos é ainda alargada aos procs de impugnaç de actos pré-
contratuais constantes de procedim pré-contratual regulado por normas de direito púb, salva-
guardando-se, pois, a possibilid de cumulaç entre o pedido de impugnaç de um destes actos c/
pedidos relativos ao contrato posteriorm celebrado (cfr. alín c) do n. 2 do art 47 do CPTA).

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±, deste modo, atribuída competênc aos tribs administrativos p/ julgar pedidos de indemnizaç
fundados em actos praticados no exercíc das funções jurisdicional e legislativa, embora os
mesmos não sejam competentes p/ os procs de impugnaç dos actos causadores dos danos
(cfr. alín do n. 2 do artigo 4. do ETAF).
No que se refere, ainda, à responsabilidade fundada no exercício da função jurisdicional, optou-
se por, apenas, se incluir no âmbito da jurisdição administrativa a q resulte do funcionam. da
administraç da justiça (alín do n.o 1 do art 4.o do ETAF). Assim, a responsabilid do Estado e
a correspondente acção de regresso fundadas em erro judiciário apenas se integram no âmbito
do contencioso administrativo qdo respeitem a facto resultante da activid dos tribs administrati-
vos (a alín do n.o 3 do art 4.o do ETAF).
Por outro lado, o ETAF tbém atribui competência aos tribs da jurisdiç administrativa p/ aprecia-
rem todos os pedidos indemnizatórios fundados em responsabilid extracontratual das pessoas
colectivas púbs, eliminando o actual critério delimitador da natureza púb ou privada do acto de
gestão q gera o pedido, causador de grandes incertezas na determinaç do trib competente. E
são, igualmente, da competência dos tribunais administrativos as acções de responsabilidade
civil extracontratual fundadas em actos praticados por sujeitos privados, sempre que estes
sujeitos estejam submetidos ao regime da responsabilidade civil extracontratual do Estado pelo
exercício da função administrativa, nos termos da respectiva lei substantiva.
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O ETAF prevê de forma clara e expressa a competência dos tribunais administrativos para a
resolução de litígios entre pessoas colectivas de direito público e entre órgãos públicos, no
âmbito dos interesses que lhes incumbe prosseguir. Trata-se de uma importante inovação, que
surge no seguimento de novas linhas de entendimento do relacionamento entre entidades
públicas, sendo cada vez mais frequentes os litígios entre elas pelo facto de nem sempre
prosseguirem interesses coincidentes.
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Os tribunais administrativos passam a deter a competência plena e exclusiva para execução
das suas próprias sentenças, pondo assim termo a um sistema dúbio e moroso, no q respeita
ao processo executivo de sentenças administrativas. Esta inovação pressupõe a configuração
de meios processuais verdadeiram executivos no novo modelo de contencioso administrativo.
O ETAF exclui, todavia, do âmbito da jurisdição administrativa: a apreciação de litígios
resultantes de contratos de trabalho que não confiram a qualidade de agente administrativo,
mesmo que uma das partes seja uma pessoa colectiva pública (alínea !do n.o 3 do artigo 4.o
do ETAF); a fiscalização de actos materialmente administrativos praticados pelo Presidente do
Supremo Tribunal de Justiça (alínea
do n.o 3 do artigo 4.o do ETAF); a fiscalização de actos
materialmente administrativos praticados pelo Conselho Superior da Magistratura ou pelo
respectivo Presidente (alínea do n.o 3 do artigo 4.o do ETAF).

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O novo ETAF prevê, presentem., a existência de um Supremo Tribunal Administrativo, do Trib
Central Administrativo e de tribs administrativos de círculo (arts.11.o, 31.o e 39.o ETAF).
No entanto, estando consagrado, no n. 1 do art 9. do actual ETAF, a possibilid do Tribunal
Central Administrativo ser desdobrado em tribunais administrativos regionais, optou o Governo
por proceder à criação, por DL Complementar ao Estatuto dos Tribunais Administrativos e
Fiscais, do Tribunal Central Administrativo Norte, com sede no Porto, e do Tribunal Central
Administrativo Sul, que será constituído por um juízo liquidatário ao qual competirá julgar os
processos pendentes no actual Tribunal Central Administrativo.
Tendo em vista a coerência normativa do ETAF face ao desdobramento do Tribunal Central
Administrativo, foi aprovada, recentemente, na Assembleia da Rep, a Proposta de Lei n. 102/IX
que altera aquele Estatuto.
Refira-se, ainda, neste âmbito, a possibilid dos tribunais administrativos de círculo poderem ser
agregados aos tribs tributários, tal como sucedia já qto aos tribs administrativos e tributários do
Funchal e de Ponta Delgada (n.o 2 do art 9.o do ETAF). Com base nesta previsão normativa, e
tendo em conta a transferência para o Ministério da Justiça das competências do Estado no
domínio da organização administrativa dos tribs tributários, operada pela Lei n.o 15/2001, de 5
de Jun, o Governo optou pela criaç de 14 novos tribs agregados ± q recebem a denominaç de
³tribunais administrativos e fiscais ± na fase de arranque do novo modelo de funcionam. dos
tribs da jurisdição administrativa, aos quais acrescem os tribunais administrativos e fiscais de
Funchal e de Ponta Delgada, que permanecem em funcionamento.
A reforma assenta, deste modo, em 16 tribs administrativos e fiscais de primeira instância no
continente e Regiões Autónomas, 2 tribunais centrais administrativos, um no Porto e outro em
Lisboa, e num Supremo Tribunal Adm, com sede em Lisboa. Este alargam. da rede de tribs da
jurisdição administrativa e fiscal pressupôs o recrutam. e formação de novos magistrados.
Neste sentido, iniciam funções, em 1 de Jan de 2004, cerca de 93 novos juizes, após terem
frequentado os devidos curso de formação e estágio.
Por fim, são de referir importantes alterações ao nível da informatizaç dos tribs administrativos
e tributários, q assentam na criação do i„   „ !„
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„ „(SITAF), aplicação informática q tem como principais objectivos:
i) Permitir o envio e recepç de peças processuais e docs por via electróni, a tramitaç informática
e o tratam. digital dos procs, bem como o acesso aos mesmos via Internet por qq interessado;
ii) Criar aplicações de   para a gestão dos processos;
iii) Desenvolver métodos de planeam. e previsão na gestão global do fluxo de trabalho dos
TAFs;
iv)Criação de uma página Internet.
O desenvolvimento do i„   „ !„
 „! „ „„„ „(SITAF),
projecto reconhecidam. inovador no domínio da Justiça, permitirá eliminar ³tempos mortos´ na
tramitaç dos procs, antever com maior grau de previsibilid a sua duração, bem como, fornecer
dados para a gestão de um sistema de justiça administrativa acessível, seguro, e eficiente, q, a
longo prazo, sustente uma avaliação objectiva da reforma e a adopç racional e fundamentada
das medidas que se revelem necessárias.

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No q se refere à distribuiç de competências entre os tribs superiores e os tribs inferiores, no
regime até aqui em vigor, os tribs administrativos superiores julgavam frequentem causas em
primeira instância, sendo as matérias por eles apreciadas aferidas em função do autor do acto
e não em função da sua importância ou relevância jurídica. Consequentem, o Suprem Tribunal
Administrativo e Tribunal Central Administrativo não funcionavam como verdadeiros tribs supe-
riores de recurso. Por outro lado, a necessid de recurso p/ o STA e p/ o Tribunal Central Admi-
nistrativo, ambos sediados em Lisboa, constituía uma solução pouco consentânea c/ a
necessid de assegurar a proximidade da Justiça aos cidadãos.
Para obviar a estes inconvenientes, e indo ao encontro de diversas propostas q vinham sendo
formuladas na jurisprudência e na doutrina, e q foram sendo reafirmadas no âmbit da discussão
púb sobre estes diplomas, optou-se por um modelo no qual os tribs administrativos de círculo
passam a ser tribunais de 1.ª instância para a generalid das situações (n.o 1 do art 44. do
ETAF). O STA e os Tribunais Centrais Administrativos deixam, assim, e no essencial, de funci-
onar como tribunais de primeira instância, para exercerem as competências q são próprias dos
tribunais superiores, em termos semelhantes aos das Relações na jurisdição comum. Neste
sentido, os Tribunais Centrais Administrativos passam a ser, em regra, tribs de recurso das de-
cisões dos tribs administrativos de círculo, eliminando-se as competências de primeira instância
q era atribuída ao Tribunal Central Administrativo (art 37.o do ETAF). O STA assume o papel
de regulador do sistema, competindo-lhe apreciar, em regra, questões de relevante importância
jurídica ou social, nomeadam:
i) Recursos para uniformização de jurisprudência fundados em oposição de acórdãos, cabendo
a competência ao pleno da secção (art 152.o do CPTA e 25., n. 1, alín
, do ETAF);
ii) Recursos de revista de decisões dos Tribs Centrais Administrativos proferidas em segunda
instância, qdo esteja em causa uma matéria q, pela sua relevância jurídica ou social, seja de
importância fundamental ou a admissão do recurso seja necessária para melhor aplicação do
Direito (arts 24.o, n.o 2 e 25.o, n. o 2 do ETAF);
iii) Recurso de revista  de decisões de tribs administrativos de círculo, qdo o valor da
causa seja superior a 3 milhões de euros e apenas sejam suscitadas nas alegações questões
de dto (art 151. do CPTA, e n. 2 do art 24. do ETAF);
iv)Reenvio prejudicial de casos pendentes nos tribs administrativos de círculo, qdo se coloque
perante estes tribs uma questão de dto nova, q suscite sérias dificulds e possa vir a colocar-se
noutras situações (art 93. CPTA, n. 2 do art 25. do ETAF);
v) Conflitos de competência entre tribunais administrativos e tributários ou secções de contenci-
oso administrativo ou tributário (art 135.o e segs. do CPTA, e art 29.o do ETAF), bem como os
conflitos de competência entre tribunais administrativos, (art 135.o e segs., do CPTA, e art 24.,
n. 1, alín , do ETAF).
No q se refere à instauração de procs em primeira instância, o CPTA estabelece, nos art 16.o e
segs, critérios de competência territorial q, de uma forma claro e objectiva, permitem aferir qual
o tribunal competente.
Novidades tb marcantes do novo regime são a previsão de alçadas para os tribs administrati-
vos, relevantes p/ efeitos de admissibilid de recurso jurisdicional (art 6., do ETAF e n. 1 do art
142. do CPTA), bem como, de regras para a determinaç do valor das causas (arts 31. a 34. do
CPTA). Estas regras relevam p/ efeitos de admissibilid de recurso, p/ efeitos de determinaç da
forma de proc da acção administrativa comum (proc ordinário, sumário ou sumaríssimo; cfr.
Arts 31., 35. e 43. do CPTA), mas tb, para efeitos do pagam de custas, uma vez q o novo Códi-
go das Custas Judiciais remete para os critérios de determinaç do valor da causa previstos na
lei de processo administrativo.
Estas regras são ainda relevantes p/, em acção administrativa esp, determinar se o caso é jul-
gado por juiz singular ou em formação de três (art 31.o do CPTA). Na verdade, as novas regras
de distribuiç de competências entre tribs administrativos redundaram num alargament muito si-
gnificativo das competências e poderes dos tribs administrativos de círculo, o q determinou al-
terações ao nível da formaç para julgamento destes mesmos tribs. Assim, a regra segundo a
qual as causas nos tribs administrativos de círculo são julgadas por juiz singular é alterada, no
sentido de se prever o julgamento por uma formaç de três juízes, sempre o proc consista numa
acção administrativa esp e a causa tenha valor superior à da alçada dos tribs administrativos
de círculo (alín
) do n. 2 do Art 31.o do CPTA, e n. 3 do art 40. do ETAF). Tratando-se de uma
acção administrativa comum, apenas intervém o trib colectivo qdo a forma de proc seja ordiná-
ria, as partes assim o requeiram e nenhuma requeira a gravaç da prova (art 40. do ETAF).
Acresce q, nos tribs administrativos de círculo, o julgamento pode ocorrer com a intervenç de
todos os juízes do trib qdo o respectivo presidente assim o entenda, face a uma questão de
direito nova, que possa ser colocada em futuros litígios (art 93. do CPTA).

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O novo sistema assenta na fusão, em torno de dois grandes meios processuais, de uma série
de meios processuais actualm existentes.
&Passam, assim, a existir dois meios processuais principais: a acção administrativa comum,
cujo objecto corresponde a todos os litígios do âmbito da jurisdiç administrativa q não sigam a
acção administrativa espec (art 37. e segs. do CPTA), e a acção administrativa espec, cujo ob-
jecto reside na impugnaç de actos administrativos, condenaç na prática de actos administrati-
vos devidos, e pedidos de declaraç de ilegalid de regulamentos ou da omissão de regulamen-
tos devidos (art 46. e segs. do CPTA).
A acção administrativa comum segue os termos do proc civil, c/ algumas adaptações constan-
tes do CPTA (n. 1 do art 35.o CPTA), e a acção administrativa espec segue uma tramitaç pró-
pria, estabelecida no CPTA.
Por outro lado, passa a ser admissível apresentar junto dos tribs administrativos todo o tipo de
pedidos tendentes à tutela dos dtos e interesses legalm protegidos do autor, à semelhança do
q se passa no processo civil (artigo 2.o CPTA).
A enumeraç do tipo de pedidos admissíveis na acção administrativ comum é meram. exemplifi-
cativa, dada a indispensabilid de assegurar uma tutela jurisdicional efectiva a todo o tipo de po-
sições jurídicas q não se insiram no âmbito objectivo da acção administrativa espec (n.s 1 e 2
do art 37. do CPTA).
Esta abertura e flexibilid do objecto do proc implica uma grande permeabilid entre estes dois
meios processuais. Assim, a possibilid de cumulação entre os pedidos é muito ampla, sendo
admissível a cumulaç de pedidos referentes, quer à acção administrativa comum, quer à acção
administrativa espec. Neste caso, em q os pedidos cumulados correspondem a diferentes for-
mas de proc, seguem-se os termos da acção administrativa esp (arts 4., 5. e 47.o do CPTA).
Refira-se q o regime de cumulaç de pedidos consubstancia uma alteração de grande relevância
face ao regime ainda vigente da Lei de Proc nos Tribunais Administrativos, razão pq o CPTA
optou por enumerar, de forma exemplificativa mas minuciosa, um conjunto de cumulações pos-
síveis (n. 2 do art 4. e n. 2 do art 47., do CPTA).
&Além dos dois grandes meios processuais principais, o CPTA consagra tb um rol de meios
processuais urgentes e autónomos.
Incluem-se aqui os procs relativos ao contencioso eleitoral, contencioso pré-contratual de deter-
minados tipos de contratos, intimaç para prestaç de informações, consult de docs ou passagem
de certidões, intimaç p/defesa de dtos, liberds e garantias e providêncs cautelares(art 36CPTA).
&O regime do contencioso pré-contratual, constante do art 100. e segs do CPTA, correspon-
de, essencialm, ao vertido no DL 134/98, de 15 de Maio, com as adaptações q o Dto Comuni-
tário vinha reclamando desde longa data, nomeadam, a extensão deste regime à impugnaç dos
actos pré-contratuais relativos contratos de concessã de obras púbs, (n.1 do art 100 do CPTA).
O prazo de impugnaç destes actos é alargado de 15 dias p/ um mês (art 101. do CPTA) e per-
mite-se a impugnaç por esta via, não apenas dos actos constantes do procedimento, mas tb o
programa do concurso, o caderno de encargos ou outro doc conformador do procedim relativo
a estes contratos (n. 2 do art 100 do CPTA). Finalm, possibilita-se a existênc de uma audiênc
púb, c/ alegações orais e no termo do qual é ditada a sentença (art 103. do CPTA).
&Qto às intimações, verifica-se q a intimaç para prestação de informações, consulta de procs
ou passagem de certidões é agora encarada como um meio principal, ultrapassando a sua
actual configuraç literal na ainda vigente Lei de Proc nos Tribs Administrativos, q a concebe co-
mo meio acessório. (art 104. e segs. do CPTA). Além disso, cria-se um novo meio processual
destinado a salvaguardar o exercício em tempo útil de um direito, liberd e garantia denominado
³intimação para protecção de direitos, liberdades e garantias´ (artigo 109.o do CPTA).
A intimação para protecção de direitos, liberdades e garantias pode ser utilizada para impor à
Administração ou a outros particulares uma conduta positiva ou negativa necessária p/ garantir
o exercício de um dto, liberd ou garantia (art 109 do CPTA). Reforçando-se a tutela de direitos,
liberds e garantias, determina-se q, qdo o particular solicite a emissão de uma acto administra-
tivo de conteúdo vinculado no âmbito deste meio processual, a sentença produz o efeito desse
acto (n. 3 do art 109.o do CPTA).
Note-se q a especial urgência q no caso se verifique pode determinar a adopç de medidas des-
tinadas a satisfazer essa situaç. Assim, os prazos processuais podem ser especialm encurta-
dos ou, em alternativa, realizar-se uma audiênc de julgamento no prazo de 48 horas, finda a
qual a decisão será imediatam adoptada (art 111, n. 1, do CPTA). E pode ainda efectuar-se a
audiç do requerido por qq meio de comunicaç adequado sempre q as circunstâncias o exijam
(n. 2 do art 111 do CPTA).
&Uma das matérias em q mais relevantes novids se constata, refere-se às providêncs caute-
lares (art 112.o do CPTA), q se distinguem dos demais meios urgentes visto corresponderem a
meios processuais acessórios e dependentes de uma causa principal.
Consagra-se no CPTA a possibilid de adopção de quaisquer medidas cautelares, mesmo q não
estejam especificadas na lei, podendo ser requeridas pelas partes, ou determinadas pelo trib,
quaisq medidas q se revelem adequadas a assegurar a utilid da sentenç a proferir no proc prin-
cipal. Não obstante, o CPTA enumera um conjunto exemplificativo de medidas, q em muito ul-
trapassam as actualm previstas na Lei de Proc nos Tribs Administ (n. 2 do art 112. do CPTA).
Verifica-se ainda uma extensa lista de outras inovações em matéria de providências cautelares,
sendo de destacar-se as seguintes:
i) Adopção de um meio processual único para as diversas medidas cautelares, sem prejuízo da
existência de normas disciplinadoras específicas para certos tipos de pedidos (artigo 112.o e
segs., e artigo 128.o e segs., do CPTA);
ii) Presunção de veracid dos factos invocados pelo requerente qdo o requerido não os conteste
(artigo 118.o, n.o 1, do CPTA);
iii) Os critérios essenciais para apreciação da possibilid de decretamento da providênc passam
a ser, essencialm, o  
 „„„e o „  „  , embora a prevalênc de um ou outro
na ponderaç do julgador possa variar consoante a evidênc da questão ou a natureza da medida
solicitada (artigo 120.o do CPTA);
iv)Possibilid de antecipaç do juízo da causa, a propósito da apreciaç do pedido cautelar, qdo o
trib disponha de todos os elementos necessários ao seu julgamento e se verifique uma situaç
de manifesta urgência e os interesses envolvidos assim o exijam (art 121.o do CPTA).
&Outro dos meios processuais tb disponíveis no novo contencioso administrativo diz respeito
ao proc executivo, o qual, no novo modelo, pode assumir três finalids: execuç para prestaç de
factos ou coisas (art 162 e segs. do CPTA), execuç para pagam de quantia certa (art 170 e
segs.) ou ainda, execuç de sentenças de anulaç de actos administrativos (art 173.o e segs.).
Verifica-se neste domínio uma alteraç completa do quadro normativo existente, essencialm por
se preverem, pela primeira vez, verdadeiros mecanismos de natureza executiva oponíveis
pelos tribunais a entids públicas.
O art 157.o do CPTA determina, assim, q o proc executivo não só se aplica a todas as senten-
ças proferidas em tribs administrativos, mas tb a quaisquer outros títulos executivos cuja relaç
jurídica subjacente caia no âmbito de jurisdição dos tribs administrativos.
Como tipos de providências verdadeiram executivas em sede de execuç de sentença o CPTA
prevê, nomeadam: a entrega de coisa devida, a possibilid de a prestação ser realizada por ter-
ceiro, se o facto for fungível, e a emissão pelo trib de sentença q produza os efeitos do acto,
qdo este seja de conteúdo vinculado (n.o 4 do art 164.o do CPTA).
Particularm importante em sede de execuç de   ! ! ! „ „„é a
previsão específica do conteúdo do dever de executar, qdo um funcionário haja obtido a anulaç
de um acto administrativo q prejudique a posição de terceiros, cujas situações sejam
incompatíveis com as daquele e tenham sido constituídas há mais de um ano. Trata-se de uma
situaç muito frequente no contencioso da funç púb, q ocorre qdo o particular obtém a anulaç de
um acto q, por ex, procedeu à nomeaç de um conjunto de candidatos a um concurso externo
de acesso aos quadros da Administraç Púb. Coloca-se, portanto, o problema de saber q vaga
ocupará, uma vez q estas já se encontram preenchidas pelos candidatos entretanto nomeados.
Resolvendo a questão, o CPTA dispõe q o particular q tenha obtido decisão favorável tem o dto
de ser provido em lugar de categoria igual ou equivalente àquela em q teria sido colocado ou,
não sendo isso possível, na primeira vaga que surgir, exercendo entretanto funções além do
quadro (n.o 4 do artigo 173.o do CPTA).
Como novid de relevo, refira-se a previsã da possibilid de extensão dos efeitos de uma senten-
ça a casos análogos, relativam aos quais não tenha havido julgamento, qdo a decisão se refira
à anulaç de um acto administrativo ou ao reconhecim de uma situaç jurídica (art 161 do CPTA).
Significa isto que, qquer interessado pode solicitar à Administraç a extensão dos efeitos de uma
sentença desta natureza, desde q os casos sejam perfeitam. idênticos e existam, pelo menos,
cinco decisões jurisdicionais no sentido cuja extensão se requer. Caso a Administração indefira
a pretensão dirigida à extensão dos efeitos de sentença, pode o particular solicitá-la ao trib que
haja proferido a decisão (artigo 161.o do CPTA).
± igualm digno de referência o facto de o particular poder solicitar ao trib, em sede de proc
executivo, a compensaç de um crédito q tenha sido reconhecido por sentença não executada
no prazo devido, através de dívidas q o onerem para com a mesma pessoa colectiva pública ou
ministério responsável pela inexecuç (n. 2 do art 170.o do CPTA).
7&Importantes inovações ocorrem tb no domínio das chamadas causas legítimas de inexecuç.
Tanto na acção administrativa comum, como na acção administrativa esp, se admite q, em se-
de de sentença declarativa, o trib verifique a existência de alguma situação de impossibilid ou
grave prejuízo para o interesse púb que obste à satisfação das pretensões do autor (art 45.o e
49.o do CPTA). Significa isto que as actuais ³causas legítimas de inexecução´ de sentenças
poderão, no novo regime, ser apreciadas no momento da própria sentença do proc declarativo,
evitando-se o adiamento do conhecimento de uma questão de apreciaç eminentem. declarativa
para a fase do processo executivo.
c&Por fim, refira-se ainda como meio processual previsto, a figura do recurso jurisdicional, cuja
reformulação de regime denota uma clara aproximação ao processo civil.
As alegações de recurso passam a ter de acompanhar o requerim. de interposição do mesmo,
evitando-se a ocorrência de um momento de apresentaç do requerimento e outro p/ apresentaç
das alegações (n.o 2 do artigo 144.o do CPTA).
O trib de recurso em segunda instância deve pronunciar-se sobre o objecto da causa na sua
totalid, não se limitando à manutenç ou eliminaç da decisão recorrida com a consequente baixa
do processo ao trib recorrido para reforma da sentença (art 149.o do CPTA). Evita-se, pois, a
existência deste passo processual suplementar de revisão da sentença pelo trib recorrido na
sequência de um recurso que implique a modificação da decisão.
Embora os recursos tenham, em regra, efeitos suspensivos, prevê-se a possibilid de concessão
de efeito devolutivo qdo o efeito suspensivo possa originar situações de facto consumado ou
prejuízos de difícil reparação para interesses púbs ou privados. Mesmo assim, qdo da conces-
são do efeito devolutivo possam resultar danos, o trib pode adoptar medidas destinadas a mi-
norá-los (art 143.o do CPTA).
Das inovações mais significativas em sede de recursos destacam-se a previsão de recursos de
revista e o regime do reenvio prejudicial.
O recurso de revista previsto no art 150 do CPTA destina-se a proporcionar a intervenç do STA
em casos q de outra forma não poderia apreciar, por o Trib Central Administrativo já ter julgado
em segunda instância. Trata-se, no fundo, de consagrar uma terceira instância qdo a questão
em causa mereça a ponderaç do Supremo devido à sua importânc ou relevânc para aplicaç do
Dto, à semelhança do q sucede num conjunto de outros supremos tribunais de diferentes orde-
namentos. A verificaç da admissibilid deste recurso é efectuada de forma sumária, por uma
formação de três juízes (n. 5 do art 150 do CPTA).
O recurso de revista  permite o recurso directo, em segunda instância, de decisões
do tribunal administrativo de círculo para o STA, nos casos em q o valor da causa seja de tal
forma elevado q a importância do pedido está justificada „„Assinale-se, porém, q por esta
via, apenas podem ser suscitadas questões de dto, cabendo ao relator a verificaç dos pressu-
postos do recurso. Caso não se encontrem preenchidos, o proc é remetido ao Trib Central
Administrativo, q o deverá julgar como recurso de apelaç (n. 3 do art 151 do CPTA).
O reenvio prejudicial destina-se a permitir a intervenção do STA em causas cuja situaç contro-
vertida possa, previsivelm, ser colocada em numerosos pedidos futuros, permitindo-se assim a
fixação de jurisprudênc suficientemente alicerçada o mais cedo possível (art 93.o do CPTA).
O Supremo deve julgar o reenvio em três meses.

H(+,DD #0ID ,2
As inovações processuais introduzidas pelo CPTA visam, em primeiro lugar, uma aproximaç ao
proc civil em todos os aspectos q não requeiram um tratamento processual específico q adven-
ha da natureza administrativa da causa. Por outro lado, o novo regime pretende evitar q razões
formais impeçam a efectiva apreciaç material da causa, bem como, possibilitar q num único
proc possam ser suscitadas todas as questões q o particular entenda necessárias p/ a tutela da
sua pretensão. Paralelam, estão subjacentes à reforma do contencios administrativo objectivos
de celerid, simplificaç e flexibilidade processual, bem como, de igualdade das partes em juízo.
Tais objectivos ditaram novas regras processuais e uma nova configuraç do elenco de meios
processuais ao dispor do particular, bem como, da respectiva tramitaç.
&  / 



A reforma do contencioso administrativo procede a uma profunda alteraç do regime das custas
judiciais da jurisdiç administrativa. Neste sentido, o Código de Proc nos Tribs Administrativos
consagra o princípio geral de sujeiç do Estado e das demais entids púbs ao pagam de custas
judiciais, nos termos previstos no novo Código das Custas Judiciais (art 189 do CPTA).
Esta norma, aprovada por unanimid dos votos dos partidos com assento na AR, constitui um
factor de responsabilizaç acrescida do Estado e das demais entids púbs pelas consequências
derivadas do seu comportamento processual, contribuindo para uma menor propensão p/ a
interposição desnecessária de recursos ou utilizaç de outros expedientes processuais mani-
festam infundados ou dilatórios, incentivando a obtenç de soluções extra-judiciais dos litígios.
Esta alteraç não prejudica, obviam, a actuaç do Ministério Púb, q, independentem da sujeição
ao pagam de custas por parte dos seus representados, continua a gozar de isenç nas acções e
procedims p/ os quais disponha de legitimid própria, tendo naturalm em conta os superiores
interesses em causa neste âmbito.
Assim, o regime de custas da jurisdição administrativa passa a constar do Código das Custas
Judiciais, em capítulo próprio e autónomo.

& 7


    6
As inovações em sede de legitimid passiva resultam, grande parte, do novo sistema de meios
processuais adoptados e das amplas possibilids de cumulaç de pedidos (art 10 do CPTA). Na
generalid, o CPTA permite a cumulaç de todos os pedidos q respeitem à mesma relaç material
controvertida. Ora, como é sabido, actualm, um pedido dirigido à anulaç de um acto tem, como
parte contrária, o órgão responsável por esse acto. Ao invés, p/ o pedido de indemnizaç na
dependência do pedido de anulaç do acto é parte legítima a pessoa colectiva púb onde o
mesmo órgão se insira.
Significa isto q, a partir do momento em q se admitem cumulações de pedidos desta natureza,
hoje em dia impossíveis, há q encontrar critérios coerentes p/ aferição da legitimid passiva.
Adopta-se, portanto, a regra segundo a qual, qdo o pedido tenha como objecto uma acção ou
omissão de uma entid púb, a parte demandada é a pessoa colectiva púb ou, no caso do Esta-
do, o ministério cujo órgão tenha adoptado ou deva adoptar o acto ou comportamentos em cau-
sa (n. 1 do art 10 do CPTA). Caso o autor tenha indicado como parte demandada um órgão de
uma pessoa colectiva púb ou ministério, a acção considerar-se-á proposta contra essa pessoa
ou ministério, sem possibilid de indeferim liminar ou necessid de qq correcção da petiç (n 4 do
art 10 do CPTA).
Se o pedido tiver por objecto um acto ou omissão de entid administrativa independente destituí-
da de personalid jurídica, tem legitimid passiva a pessoa colectiva púb ou ministério em q essa
entidade se insira (n.o 3 do artigo 10.o do CPTA).
Por fim, no q respeita à legitimid activa, o CPTA consagra, como princípio geral, q ß
 „!!„ !  „  „!(n. 1 do art 9.).
Não obstante a consagraç de um princípio geral de legitimid activa, q vem romper com o tradi-
cional tratamento desta matéria por referência a diversos meios processuais especialm previs-
tos, o CPTA mantém a previsão de regras específicas de legitimid para a acção administrativa
especial (art 55 CPTA). Por outro lado, salientam-se as novas regras de determinaç da legitimid
activa nos pedidos relativos a contratos, constatando-se um assinalável alargamento a quem
não seja parte na relação contratual (alíns
, , !e do n.o 1 e alíneas
, , !e do n.o 2
do artigo 40.o do CPTA).

&
 
7 6         
O CPTA acolhe soluções inovadoras, muito importantes no domínio da equiparaç entre as
partes públicas e privadas no proc. Para além da já referida sujeiç das entids púbs ao pagam
de custas judiciais, refira-se, desde logo, a previsão de aplicaç de sanções pecuniárias compul-
sorias ao titular do órgão incumbido da execuç de uma sentença ou do envio de um proc instru-
tor, qdo não cumpra essas determinações no prazo indicado (arts 44, 84, n. 4 e 169 do CPTA).
A sanç aplicada pelo juiz pode variar entre 5 a 10 % do valor do salário mínimo mais elevado
em vigor, por cada dia de atraso no cumprim da sentença ou do envio do proc (n.s 1 e 2 do art
169, do CPTA).
Não obstante este factor moralizador, prevê-se tb a possibilid de condenação do Estado e as
demais entids públicas por litigância de má-fé (artigo 6.odo CPTA).

&!
  <
O novo CPTA elimina a limitaç dos meios de prova admissíveis em contencioso administrativo,
permitindo-se agora q, nas situações em q actualm apenas se admite a prova documental, seja
possível utilizar todos os meios em proc civil admitidos (art 90, n. 1, do CPTA). Isto significa q,
em qq proc julgado em primeira instância, seja qual for o meio processual a utilizar, se admite a
produção de prova através de qualquer meio.

J( +,!,!D,01 " !""# 2
As alterações relativas à impugnaç de actos administrativos são muito profundas e relevantes.
Para além da alteraç da designação do meio processual aplicável, q deixa de se designar como
    „, passando a designar-se  ! „ „„  „(prevista e regula-
da nos arts 46 e segs do CPTA), destacam-se os segs aspectos:

&DK  
 7A?   

 
< 
O prazo geral para impugnaç de actos administrativos é aumentado p/ 3 meses (alín
do n. 2
do art 58.o do CPTA). Por outro lado, é conferida a possibilid de impugnaç após o decurso des-
te prazo, desde q não tenha expirado o prazo de um ano, em casos especiais, tais como: o au-
tor ter sido induzido em erro pela conduta das Administraç; esse erro ser desculpável em virtu-
de da ambiguid do quadro normativo aplicável; ter-se verificado uma situaç de justo impedim
(art 58, n. 4, do CPTA). Acresce q a impugnaç administrativa do acto suspende o prazo de im-
pugnaç contenciosa mas não impede o interessado de proceder a ela na pendênc da impugnaç
administrativa (n.os 4 e 5 do artigo 59.o do CPTA).
O Ministério Púb mantém a possibilid de impugnação de actos administrativos, no prazo de um
ano (alín do n. 2 do art 58.o do CPTA).

&  

6
   

 
< 
O CPTA abandona claram. o tradicional conceito de definitivid, permitindo a impugnaç de qq
acto c/ eficácia externa, independentem de se encontrar inserido num procedim administrativo
(n. 1 do art 51. do CPTA).
Não obstante, sem q exista qq exigência de recurso administrativo como condiç necessária p/ a
impugnação contenciosa, prevê-se a suspensão do prazo p/ esse efeito, qdo tenha sido inter-
posto meio de impugnaç administrativa, independentem da sua natureza, tal como já foi referi-
do (n. 4 do art 59 do CPTA). O particular terá assim vantagem em formular, em primeiro lugar,
um recurso ou reclamaç administrativa, nunca perdendo a possibilid de, posteriorm, caso a
resposta não seja favorável, impugnar contenciosamente o acto.

&67    L  A? 
Como já foi referido, o objecto do proc administrativo é perspectivado no novo CPTA como uma
realid aberta, quer por via da possibilid de cumulaç de pedidos, quer por via da possibilid da
sua ampliaç do objecto processual ao longo do proc. O alargamento do objecto da acção pode
estender-se, em acção administrativa espec de impugnaç de acto administrativo, a novos actos
praticados no âmbito do mesmo procedim, ou, tratando-se de um acto pré-contratual, ao con-
trato que venha a ser celebrado na pendência do processo (artigo 63.o do CPTA).

&   


A?  6  

Consagra-se a obrigaç de, em acção administrativa espec, a secretaria recusar oficiosam a pe-
tiç inicial qdo esta não satisfaça determinados requisitos, à semelhança do q sucede em proc
civil (art 80.o do CPTA).

&
A?  

A; 
O CPTA prevê q a citaç da entid púb demandada e dos contra-interessados na acção adminis-
trativa espec ocorre em simultâneo, sendo efectuada oficiosam pela secretaria do trib (art 81 do
CPTA). Por outro lado, prevê-se q a citaç dos contra-interessados em número superior a vinte,
seja feita mediante a publicaç de anúncio (art 82.o do CPTA).
Tbém a notificaç da entid demandada e dos contra-interessados para alegar, em acção admi-
nistrativa espec, passa a ser efectuada simultaneam (n. 4 do art 91.o do CPTA).

&D     


Inovaç de relevo reside no alargamento assinalável dos poderes jurisdicionais de cogniç e de
condenaç da Administraç pelos tribunais, aspecto q assume particulares contornos na Acção
Administrativa Espec.
Relativam aos poderes cognitivos, verifica-se q o trib passa a dispor do poder-dever de se pro-
nunciar sobre todas as concretas causas de invalid de q enferma o acto impugnado, mesmo q
estas não tenham sido expressam invocadas pelo autor (n. 2 do artigo 95.o do CPTA).
Qto aos poderes de condenaç, face a um pedido dirigido à prática do acto administrativ devido,
permite-se q o trib condene a Administraç na prática desse acto, bem como na adopç dos de-
mais comportamentos q não consubstanciem actos administrativos. Os poderes em causa não
se resumem a uma condenaç genérica na necessid de prática do acto, devendo antes o trib
pronunciar-se sobre a pretensão material do autor, podendo determinar o conteúdo concreto do
acto a praticar pela Administraç, sempre q isso seja possível. Qdo isso não seja possível por tal
tarefa implicar o exercíc da função administrativa, deve explicitar quais os aspectos vinculados
da prática do acto q devem ser observados na emissão de uma nova pronúncia administrativa.
(artigo 71.o do CPTA).

7&D
9
  A?  

 A   

O art 88 CPTA estabelece o princíp da correcç oficiosa pelo trib das deficiências de q enfer-
mem as peças processuais, apenas havendo lugar a convite p/ aperfeiçoam das mesmas qdo a
correcção oficiosa não seja possível ou não seja a solução manifestamente mais vantajosa.

c& c   
Introduz-se, p/ a acção administrativa espec, a possibilid de ser proferido um despacho sanea-
dor, nomeadam, qdo se verifiquem os fundamentos q obstam ao prosseguimento da causa ou
qdo o estado do proc permita o conhecim do mérito da causa (n. 1 do art 87 e art 89 do CPTA).
As questões q obstem ao prosseguim do proc q não sejam apreciadas no despacho saneador,
não podem ser suscitadas posteriorm (n.o 2 do artigo 89.o do CPTA).


& < A?    6 !



 3
D8 6
 
Ao Ministério Público é conferida a possibilid de intervenç processual num único momento da
acção administrativa espec, sendo-lhe reconhecidas competências para se pronunciar sobre o
mérito da causa e solicitar a realizaç de diligências instrutórias até 10 dias após a junção do
proc instrutor aos autos (art 85 do CPTA). Pretende-se q a sua pronúncia tenha como objectivo
a defesa dos dtos fundamentais dos cidadãos, de interesses púbs especialm relevantes, dos
valores constantes do n. 2 do art 9.o do CPTA, e a identificaç de vícios de inexistênc ou nulid
qto a actos q tenham sido objecto de impugnação contenciosa.
O Ministério Púb pode ainda prosseguir a acção, em caso de desistênc do autor (art 62 CPTA).

L& 
M
8 6

Não obstante as fases de produç de prova e alegações finais na acção administrativa espec
poderem ser dispensadas (n. 4 do art 78, e n. 2 do art 83 do CPTA), é concedida a possibilid de
realização de uma audiência púb de julgamento, para discussão da matéria de facto, oficiosam
ordenada pelo juiz ou a pedido de qq das partes (artigo 91 do CPTA). Quando venha a ocorrer,
as alegações finais também aqui serão produzidas, de forma oral. A audiência pública pode ser

6& 
?   
? L 
 M
 

Qdo o caso não apresente especificids em relaç a outros anteriorm apreciados ou a pretensão
se revele manifestam infundada, admite-se uma decisão sumária, designadam por remissão
para jurisprudência anterior (artigo 94.o, n.o 3, do CPTA).

O Contencioso Administrativo dos direitos, liberdades e garantias


N
 
1. Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253
2. A Reforma do Contencioso Administrativo: Breves Notas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 254
3. A Urgência no ³Novo´ Contencioso Administrativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 257
4. A intimação para a protecção de todos os direitos, liberdades e garantias:
!    „!!  ! „„259
5. A subsidiaried da tutela urgente na protecç dos dtos, liberds e garantias . . . . . . . 261
6. A articulação do artigo 109º com o mecanismo previsto no artigo 131º . . . . . . . . 263
7. Conclusões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 265

'   A? 
O presente trabalho tem por objecto uma breve incursão, porque o tempo disponível
para pesquisar e realizar o presente estudo, infelizmente, a mais não permite, sobre a
temática da intimação para protecção dos direitos, liberdades e garantias.
Porém, e porque o contencioso administrativo nos moldes actuais, ainda é ³novo´, para
quem como eu, aprendeu o direito processual administrativo ao abrigo do regime
anterior e ainda não teve oportunidade de se familiarizar com o actual regime, darei
início ao presente trabalho com um breve enquadramento geral das alterações
introduzidas com a Reforma do Código de Processo dos Tribunais Administrativos,
após o que passarei de imediato à análise do contencioso administrativo de urgência,
para chegar finalmente à intimação para protecção de direitos, liberdades e garantias
sem deixar obviamente de me debruçar sobre as questões mais relevantes relativas ao
seu âmbito e pressupostos.

*     
 

 
< 
. <  

Com a entrada em vigor do novo Estatuto dos Tribunais Administrativos e Fiscais1 e do
novo Código de Processo dos Tribunais Administrativos2 , assistiu-se finalmente à
concretização do modelo constitucional de Justiça Administrativa, há muito reclamado:
superou-se assim o modelo contencioso de raiz francesa, centrado no recurso contencioso
de anulação e fortemente limitador dos poderes de decisão do juiz3 , para passar a admitir-
se uma nova relação de poder entre o juiz administrativo e a Administração assistindo-
se ainda a um franco alargamento dos meios processuais ao alcance do particular.
Neste sentido o juiz passa agora a dispor de todos os poderes inerentes à função jurisdi-
cional, nomeadamente os poderes de reconhecer direitos, condenar a Administração a
comportamentos e prestações, adoptar medidas cautelares que considere convenientes,
executar as suas decisões, impor à administração sanções pecuniárias compulsórias e
ordenar as diligências de prova que considere necessárias para o apuramento da verdade.
Por outro lado, e não de somenos importância, veio a referida reforma asseverar que os
tribunais administrativos, são verdadeiros e próprios tribunais, cuja existência obrigatória e
autonomia se encontram plenamente justificadas. Em conformidade com este entendimen-
to o legislador procedeu pela primeira vez, à enumeração positiva de matérias que
considerou serem da competência exclusiva dos tribunais administrativos e fiscais.
De um contencioso ancorado no clássico Recurso Contencioso de Anulação e destinado à
mera defesa da legalidade, passou-se a um contencioso de plena jurisdição, estruturado
com o objectivo de proporcionar a mais efectiva tutela a quem quer que se lhe dirija, como
claramente resulta do artigo 2º4 do Código de Processo dos Tribunais Administrativos
(doravante CPTA), admitindo que não sejam só os indivíduos a poderem dirigir-se à tão
proclamada Justiça Administrativa, em defesa dos seus direitos e interesses particulares,
mas que também se lhe possam dirigir a ela o Ministério Público, as entidades públicas, as
associações cívicas e os próprios cidadãos, em defesa dos interesses públicos, colectivos
e difusos.
O novo contencioso, girando em torno do princípio da tutela jurisdicional efectiva5 , acaba
por tutelar as posições subjectivas dos interessados, fazendo por isso corresponder, a
cada direito ou interesse legalmente protegido do particular, um meio adequado de defesa
em juízo, seja uma tutela cautelar, um processo declarativo ou um processo executivo.
Acresce que a admissibilidade de todos os meios
_______________________
1 Aprovado pela Lei nº13/2004, de 19 de Fevereiro.
2 Aprovado pela Lei nº 15/2002, de 22 de Fevereiro.
3 Sobre este assunto cfr. Rui Chancerelle de Machete ³Poderes do Tribunal : O Juiz´, in ³A Nova Justiça Administrativa´, Centro de
Estudos Judiciários,
Coimbra Editora, páginas 129 e seguintes.
4 ³1 - O princípio da tutela jurisdicional efectiva compreende o direito de obter, num prazo razoável, uma decisão judicial que
aprecie, com força de caso julgado, cada pretensão regularmente deduzida em juízo, bem como a possibilidade de a fazer executar
e de obter as providências cautelares, antecipatórias ou conservatórias, destinadas a assegurar o efeito útil da decisão.
2 - A todo o direito ou interesse legalmente protegido corresponde a tutela adequada junto dos tribunais administrativos («)´
5 Crf., a propósito, iogo Freitas do Amaral e Mário Aroso de Almeida, ß  !"„ !#  !!  „! „ „„,
Almedina, pp.49-50.

probatórios ios6 no contencioso em vigor, veio possibilitar ainda, independentemente da


sua mediação pelo acto administrativo, o ³acesso directo aos factos´, representando
obviamente uma importante manifestação da passagem de um contencioso de mera
anulação para outro de plena jurisdição, eliminando-se desta forma as tradicionais
restrições quanto aos meios de prova admissíveis.
Mas as mudanças não ficam por aqui, hoje quem se dirige à jurisdição administrativa em
busca da tutela jurisdicional, pode também obter do tribunal a adopção de providências
destinadas a acautelar o efeito útil da decisão judicial durante todo o tempo em que o
processo declarativo estiver pendente ± é a chamada vertente da tutela cautelar7 .
Assim, se no anterior direito processual administrativo, a figura genérica das Providências
Cautelares era praticamente inexistente, prevendo-se apenas a possibilidade de recurso à
figura da ß ! „  „ ! ! „ „„$hoje o leque que o código prevê
relativamente a essas mesmas providências é vastíssimo, comportando para além das
providências especificadas no Código de Processo Civil (CPC), todas aquelas que se
mostrem adequadas a assegurar a utilidade da sentença a proferir no processo principal8 .
A importância desta medida legislativa, não pode deixar de ser salientada, uma vez que
sem uma tutela cautelar efectiva não podem existir uma tutela declarativa e uma tutela
executiva eficazes. Foi pois mais um passo na concretização da ³Justiça Administrativa´
dando-se assim cumprimento, de resto, ao já previsto no artigo 268º, nº4, da CRP.
Como é fácil depreender face ao que até aqui se expôs, no plano processual as alterações
dirigiram-se essencialmente por forma a dar cumprimento ao imperativo constitucional de
que os tribunais administrativos deveriam proporcionar uma tutela
jurisdicional efectiva a quem tivesse necessidade de a eles recorrer em busca de protec-
ção, procedendo o legislador, para o efeito, a um claro reforço dos poderes dos tribunais
administrativos, nos planos declarativo, executivo e cautelar em que a própria tutela se
desdobra.
Note-se neste contexto a faculdade atribuída aos Tribunais Administrativos de aplicar
sanções pecuniárias compulsórias9 à Administração, quando sejam chamados a condenar
a mesma, a fim de forçar ao cumprimento dos deveres das decisões judiciais,
designadamente as que ordenam prestações de  .
Neste sentido não podemos olvidar que se por um lado o sistema anterior, no pressuposto
de que a generalidade dos deveres e poderes a cargo das entidades públicas, não eram
fungíveis, nem sequer colocava a hipótese de dotar os tribunais administrativos de meios
destinados a promover a execução forçada desses deveres e obrigações, por outro, em
nome do „ „„!!!, o qual incluía a necessidade de preservar o
espaço próprio de intervenção da Administração contra qualquer intromissão dos tribunais,
eram pacificamente aceites nesta matéria, as limitações impostas pelo legislador.
Mas as alterações não ficam por aqui.
______________________________________________________________________
6 Todos os meios probatórios admissíveis em sede de processo civil, passam também a ser admissíveis no âmbito do processo
administrativo.
7 Crf. Diogo Freitas do Amaral e Mário Aroso de Almeida, ß  !"„ %
8 A chamada tutela cautelar não especificada. Especificamente sobre esta matéria vide Sofia Henriques, ß! 
 „ „ ! &
!  „! „ „„'(, Coimbra Editora.
9 Poder genericamente previsto no artigo 3º, nº2, do CPTA, e reafirmado nos artigos 44º, 49º, 66º (no domínio da condenação à
prática do acto devido),
84º (no caso do processo administrativo não ser tempestivamente enviado ao tribunal), 108º e 110º (no caso do incumprimento de
intimações), 127º (no domínio das providências cautelares) 168º (no âmbito do processo de execução para prestação de facto
infungível) e 179º (no âmbito do processo de execução das sentenças de anulação de actos administrativos) do mesmo diploma.

Admite-se também agora, com grande amplitude e carácter de certa forma inovador, a
cumulação de pedidos, em função da mesma relação jurídica ou da mesma matéria de
facto ou de direito (artigo 4º CPTA).
Alarga-se ainda a legitimidade processual10.
Altera-se radicalmente a definição dos meios processuais principais, acabando o legislador
administrativo por criar duas formas processuais: a acção administrativa comum11 e a
acção administrativa especial12.
Em suma a Reforma estabeleceu um modelo tendencialmente subjectivista, consagrando o
processo administrativo como um processo de partes e alargando os poderes de cognição
e de decisão do juiz perante a Administração, concretizando o que há muito o mundo do
direito ambicionava.
10 Sobre as principais alterações introduzidas: Carlos Alberto Fernandes Cadilha, ß"„„ „!! , in Cadernos de Justiça
Administrativa, nº34.
11 O CPTA não estabelece um regime próprio para a forma de  ! „ „„   , remetendo antes a sua regulação para
o processo de declaração do CPC, nas formas ordinária, sumária e sumaríssima.
12 O respectivo regime encontra-se regulado no artigo 78º e ss do CPTA, tratando-se de uma forma específica do contencioso
administrativo.

B,7M
 O < P  
 


 
<
No seguimento do enquadramento atrás descrito, o
CPTA criou a figura incontornável dos novos processos urgentes13 autónomos.
Foram efectivamente as exigências do direito à tutela judicial efectiva que levaram o le-
gislador a reforçar a justiça urgente, instituindo por um lado mecanismos de resolução
célere e flexível dos conflitos e alargando por outro a tutela cautelar através das provi-
dências cautelares não especificadas e da consagração de novas providências cautelares
típicas.
Sensível à demora dos litígios da justiça administrativa, que em muito excedia o tempo
razoável, levando a que muitas pretensões jurídico-administrativas perdessem a sua razão
de ser, o seu efeito útil, com o decurso do tempo14, veio o actual contencioso administrativo
urgente, desdobrar-se em processos principais e em providências cautelares.
Os processos urgentes principais, são assim processos autónomos, caracterizados por
uma tramitação acelerada ou simplificada, considerando que estão em jogo questões/situ-
ações cuja resolução à partida deve ocorrer num ß  15 , não compatível com o
tempo considerado normal para a generalidade dos processos. Estes processos, ao
contrário dos cautelares, decidem definitivamente o mérito da causa, „, desembocam em
decisões judiciais definitivas quanto ao seu mérito, dada obviamente a celeridade com que
no caso, se impõe alcançar a justa composição de todos os interesses envolvidos.
A tutela cautelar16 , é caracterizada pela sua acessoriedade ou instrumentalidade face ao
processo principal, pretendendo-se que através de medidas conservatórias ou
antecipatórias, seja „„  )*regulada a situação em termos de se poder
assegurar a utilidade da sentença em tempo dito normal.
Neste contexto e apesar do legislador ter intencionalmente arrumado os processos atrás
referidos (urgentes e cautelares) em títulos separados, deveria o mesmo ter considerado a
sua integração numa categoria de processos urgentes mais ampla18, pois a „ da
tramitação ³especial19´ de ambos os processos, prende-se precisamente com o facto de
estarmos perante situações de carácter urgente, que exigem a tomada de medidas,
definitivas ou provisórios, por forma a garantir a utilidade da decisão judicial, ainda que os
respectivos pressupostos de aplicação sejam diferentes. Incontornável é pois, que os
processos cautelares também são urgentes, ainda que não sejam processos principais.
Aliás o próprio artigo 36º do CPTA, não foi alheio ao carácter urgente destes processos,
sendo que surpreendentemente o legislador acabou por separar
mais à frente, o que inicialmente neste artigo tinha arrumado em conjunto sob a epígrafe de
³' + ´.
_______________________________________________________
13Cfr. artigo 36º do CPTA.
14Retratando essa situação refere de forma elucidativa Isabel Celeste M.Fonseca: ³«o tempo da administração não é o tempo dos
particulares e o tempo destes não é o do juiz administrativo.´, in ³,&' +  !  „! „ „„$
2004.
15 Sobre a noção de ³tempo curto´, ³tempo médio´ e ³tempo longo´, v., Isabel Fonseca, ,&' +  
!  „! „ „„$-../$)0
16 Regulada no Titulo V, a que correspondem os artigos 112º a 134º
17 Porém, hoje o juiz cautelar, pode decidir antecipadamente o mérito da causa principal, transformando um processo cautelar num
processo principal, através do recurso à figura da convolação (artigos 121º e 137º, nº 7) é pois, como refere Vieira de Andrade, a
criação ! de um processo urgente (v. Viera de Andrade ³ 1„! „ „„´, 2006, p. 257).
18 Neste sentido ! !  , ³2!+„3 
  !4„ ! „ „„´, in
Cadernos de Justiça Administrativa, nº 39.
19 Em contraposição com a tramitação dita normal...

Posto isto e de acordo com o CPTA são assim processos principais cessos urgentes
autónomos ou principais20, as impugnações urgentes21 e as intimações urgentes22.
± pois neste último género de processos urgentes, caracterizado por um processo expedito
de condenação23, que vamos encontrar sedeada a ߄ „   !!„„$

!! „
Em face das considerações precedentes, o que se pretende com este novo meio
processual é salvaguardar o exercício de um direito, liberdade ou garantia em tempo útil e
de forma definitiva, fazendo-lhe corresponder uma forma de processo especial, que se
caracteriza, como já se referiu supra, por um modelo de tramitação simplificada ou no
mínimo acelerado, em razão da sua urgência.
Dito de outra forma, estamos perante situações em que é necessário obter, em tempo útil,
logo com carácter de urgência, uma decisão definitiva sobre a questão de fundo, sob pena
de nos deparamos com uma situação de intolerável denegação de justiça.
Sendo uma novidade absoluta do CPTA, esta intimação é em suma um meio processual
urgente para defesa de direitos fundamentais, apto a dar resposta a situações de urgência,
em que esteja em causa a lesão ou eminência de lesão de direitos, liberdades e garantias,
que se pretendem desta forma acautelar, podendo ser dirigida quer contra uma
entidade pública, quer contra um particular.
________________________________________________________________
20 O CPTA autonomizou no Titulo IV, como processos principais urgentes, quatro espécies de processos. Note-se porém que esta
enumeração não exclui
a possibilidade de outros processos revestirem carácter urgente.
21 Nas impugnações urgentes incluem-se: as impugnações de actos administrativos em matéria eleitoral (artigo 97º do CPTA), bem
como o contencioso
pré-contratual (artigo 100º e ss).
22 As intimações, que mais não são do que processos urgentes de imposição, podem resultar em dois tipos de condenações
urgentes: para prestação de
informações, consulta de processos ou passagem de certidões (artº104º ss) e para protecção de direitos, liberdades e garantias
(artº 109º e ss).
23 Ainda que o nº3 do artigo 109ºpreveja um caso em que a sentença pode efectivamente não ser condenatória mas antes uma
sentença constitutiva.

:

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56
  7

‘ mOmO‘‘  
A revisão constitucional de 199724, veio trazer alterações significativas à Lei Fundamental
portuguesa, introduzindo, no que à matéria dos direitos fundamentais diz respeito,
inovações relevantes, as quais obviamente não puderam deixar de influenciar o legislador
administrativo ordinário.
Em conformidade com o exposto, este novo meio processual, mais não veio do que
concretizar a exigência do nº5 do artigo 20º25 da Constituição Portuguesa, nascendo não só
do direito interno constitucional, mas também do direito internacional26 que vincula o Estado
português.
Neste sentido e como bem assinala27 Ana Sofia Firmino 4„!( „!„
 
! ,„„!5  
 !  $ 
  ! 
 „ $6„    !       !
„7!( „
Ora, é evidente que os Estados só podem cumprir a obrigação de julgar, num prazo
razoável, se no regime processual de cada Estado, existirem instrumentos aceleradores
que proporcionem uma protecção adequada e eficaz para determinados casos urgentes.
A verdade é que a tão proclamada tutela judicial efectiva,
não passa apenas por procedimentos cautelares, mas também e necessariamente, por
processos que decidam de forma célere e definitiva, sobre certas questões de carácter
excepcional, que assumem uma maior relevância para o particular.
O que essencialmente se pretende, quer em termos constitucionais, quer em termos do
direito internacional, é que a justiça administrativa tenha sempre resposta, em termos
procedimentais, à solicitação de tutela de direitos ou interesses. Trata-se pois de
fazer corresponder a todo o direito uma acção adequada a fazê-lo exercitar e reconhecer
em juízo28.
Neste contexto, é inelutável que a tutela cautelar, por não ser definitiva, não conseguiria
sozinha dar uma resposta eficaz a todo o tipo de situações de urgência.
As intimações, como processos urgentes, vieram pois tentar corresponder a essa
necessidade.
Diga-se porém, em abono da verdade, que através da instituição deste tipo de intimação, o
propósito primordial do legislador, foi efectivamente o de dar cumprimento à imposição
constitucional que apenas se reporta a direitos, liberdades e garantias pessoais29, e não a
quaisquer outros.
Mas será que apenas por esta razão devemos limitar a possibilidade de utilização deste
meio processual, apenas para a protecção de direitos, liberdades e garantias de natureza
pessoal30 ?

_____________________________
24 A Lei Constitucional nº1/97 (4ª Revisão Constitucional).
25 O qual estatui que ³'! !!„„$„
!! „„$„ „!! !„  
4!„ „„  „8! „!!„„!!$! !
  „  9„   
„7!!„„.´
26 Neste sentido veja-se o estatuído na ³Convenção Europeia dos Direitos do Homem´ relativamente ao direito a que uma causa
seja resolvida num prazo razoável, bem como a abundante jurisprudência dos órgãos da convenção e actualmente do ³Tribunal
Europeu dos Direitos do Homem´ sobre a matéria.
27 Ir ³&: ! !!  „! „ „„; !
#  !' ! „ „„, Processos
Urgentes, aafdl, 2005, pp. 363 e ss.
28 Crf. Artigo 2, nº 2 do CPTA.
29 De acordo com o artigo 20º da CRP.

Perfilhando o entendimento da maioria dos autores31 sobre esta matéria, parece evidente
que a resposta a esta questão não pode deixar de ser negativa32
.
Em conformidade com o referido, a verdade é que não se verifica qualquer restrição por
parte do legislador administrativo em nenhum dos artigos que integram a Secção II do
CPTA, nem tão pouco no próprio Título da Secção. Parece assim evidente que o legislador
ordinário foi deliberadamente para além da já mencionada concretização Constitucional,
estendendo o âmbito de intervenção deste novo meio processual a todos os direitos,
liberdades e garantias pessoais e não pessoais.
Parece pois manifesto, como assinala de forma clara e concisa, Carla Amado Gomes33
comentando um Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo que ß 
<
„8  „ „ $!  ! „
!!!! „ „ ! 
„! !  „   „„ !$para fundamentar uma interpretação restritiva dos
direitos liberdades e garantias abrangidos pela intimação ora em análise, isto é, com base
de que esta corresponde à concretização do ditame veiculado no nº 5 do artigo 20º da
CRP, o qual apenas menciona direitos, liberdades e garantias pessoais, esquecendo por
completo os artigos antecedentes, nomeadamente a clausula de extensão contida no artigo
17º«
Certo é, que  !!'„ „!=
„!„ $  

„  
„  8(;34.
Por outro lado, e considerando que a direitos de estrutura análoga, deve caber um regime
idêntico e análogo, a própria Constituição no seu artigo 17º, prevê que o regime de direitos,
liberdades e garantias seja aplicado aos direitos enunciados no Titulo II e aos direitos
fundamentais de natureza análoga, pelo que não se vislumbra qualquer fundamento válido
para excluir estes direitos de natureza análoga do âmbito de protecção da acção sumária
consagrada no artigo 109º35 do CPTA.
Com efeito, se a natureza dos direitos em causa é análoga, nos termos já atrás referidos,
justifica-se plenamente que sejam abrangidos pela intimação os direitos fundamentais de
natureza análoga aos direitos fundamentais36.
Por último, importa referir que se devem ainda considerar abarcados no seu âmbito, quer
os direitos de natureza análoga dispersos na CRP, quer ainda aqueles que se encontrem
fora do catálogo.
_____________________________
30 Entendidos como aqueles que protegem, directa e essencialmente, o individuo, como p.ex. o direito à vida, o direito à integração
física«
31 Maria Fernanda Maças, Vieria de Andrade, Mário Aroso de Almeida, Carla Amado Gomes, Isabel Celeste Fonseca«
32 Ainda que o STA, já tenha assumido uma interpretação restritiva, quanto aos direitos, liberdades e garantias abrangidos pela
intimação regulada nos artigos 109º a 111º do CPTA, através da posição do seu Acórdão (1ª Secção) de 18.11.2004, P.978/04,
33 ³ „  !!„„$„
!! „>, in Cadernos de Justiça Administrativa, nº 50
34 Cfr. Ana Sofia Firmino, ³&: ! %
35 A letra deste artigo, afigura-se clara, porquanto apenas refere ³direitos, liberdades e garantias´ sem determinar quaisquer
limitações.
36 Como por exemplo o direito ao ambiente, o direito de asilo, etc.

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56
  7

Esclarecido que está o âmbito de aplicação deste meio processual, ou seja que direitos,
liberdades e garantias são através de si protegidos, cabe avaliar os pressupostos de
admissibilidade deste processo urgente, ou seja responder à seguinte pergunta ß !
!   !„ „ ! !!„„$„
!!  „>
Da leitura do artigo 109º parece ficar clara a natureza subsidiária da intimação, pois dali se
retira que a necessidade da intimação urgente, sob forma de decisão definitiva, afere-se
pela impossibilidade ou insuficiência da intimação urgentíssima provisória,
regulada no artigo 131º, sob a forma de decisão cautelar.
Assim e ao contrário do que poderíamos ser inicialmente levados a pensar face ao que até
aqui se expôs sobre o presente processo, a intimação para protecção de direitos,
liberdades e garantias não é a via normal de reacção a utilizar em situações de lesão ou
ameaça de lesão de direitos, liberdades e garantias.
O meio normal de defesa dos direitos fundamentais são precisamente as acções adminis-
trativas comuns ou especiais, associadas eventualmente à dedução de um pedido de
decretamento de providências cautelares, destinadas a assegurar a utilidade da sentença.
O CPTA exige desde logo, como pressuposto do recurso à intimação, a urgência da
decisão para evitar a lesão ou inutilização do direito e sem a qual apenas poderia haver
lugar às acções administrativas referidas no parágrafo anterior. Mas exige também, que no
caso concreto, não seja de facto possível ou suficiente para assegurar o exercício desses
direitos, o decretamento provisório de uma providência cautelar, segundo o disposto no
artigo 131º37.
Note-se contudo, que sempre que seja indispensável, para evitar a lesão de direitos
fundamentais, uma decisão de mérito urgente, fica automaticamente excluída a hipótese de
recurso à figura prevista no artigo 131º do Código, por esta providenciar uma tutela
meramente cautelar.
Parece pois evidente, que sendo as providências cautelares por definição instrumentais e
provisórias, não podem ser utilizadas para obter decisões de mérito, não se devendo
recorrer as estas quando a decisão do tribunal sobre a providência acabe por resolver
definitivamente a questão, esvaziando o objecto da causa principal38.
O último segmento do nº1 do artigo 109º, presta-se pois, a alguns equívocos.
Em suma, afirmando a lei o carácter excepcional da intimação, deve ser sempre atribuída
prioridade aos processos não urgentes39, ainda que complementados pelo decretamento,
mesmo que provisório, de providências cautelares, porquanto aquelas beneficiando de uma
tramitação mais
______________________
37 Artigo este que se destina a permitir o decretamento provisório de uma providência cautelar numa situação de risco de lesão
iminente e irreversível de um direito, liberdade ou garantia ou outra situação de especial urgência.
38 Neste sentido vide J.C.Vieira de Andrade, ³1„! „ „„´, Almedina, 8ª Edição, 2006, pp.277 e ss.
39 Daí que não obstante o legislador ter alargado o âmbito de intervenção da intimação urgente em análise, nunca se verificará,
fase aos requisitos de procedência a verificar pelo juiz, a banalização da utilização deste instrumento por parte dos cidadãos.

simplificada, e em certos casos, muito ligeira e sumária, não podem constituir a regra, uma
vez que todos os processos devem seguir, sempre que possível, uma tramitação temporal
mais adequada ao cabal esclarecimento das questões, à produção de prova e ao exercício
do contraditório entre as partes.
Em conformidade com o exposto Mário Aroso de Almeida e Carlos Alberto Fernandes
Cadilha40 não se coíbem em afirmar que ³&$„   
!
  $  „!!  „  
„!! „  „$
  „   $!$$ ! ! 87!( „
6„4 $ !  !
Mas qual a extensão da subsidiariedade definida no artigo 109º?
± a intimação para a protecção de direitos, liberdades e garantias, apenas subsidiária
relativamente às providências cautelares de carácter genérico, segundo o disposto no
artigo 131º ou será ela também subsidiária relativamente a toda e qualquer providência
cautelar especificamente orientada para a defesa de certos direitos, liberdades e
garantias?
A doutrina41 tem entendido que o nexo de subsidiariedade42 estabelecido entre a intimação
e o decretamento provisório de qualquer providência cautelar de natureza genérica não
pode deixar de se estender às providências cautelares específicas de protecção de
direitos, liberdades e garantias.
O nº1 do artigo 109º prevê pois, uma subsidiariedade mais ampla, do que a estipulada na
própria norma, uma vez que faz todo o sentido que o recurso à intimação tenha também
como pressuposto a inexistência de qualquer outro meio processual especial de defesa de
direitos, liberdades e garantias.
Para além da questão da subsidariedade, cabe ainda referir, que o requerente da intimação
terá que alegar e provar (ainda que de forma sumária) que só a procedência do pedido de
intimação lhe proporcionará a plenitude do exercício do seu direito, demonstrando
assim a indispensabilidade da intimação, face ao caso concreto.
______________________________
40 In ³!  „!?!„!' !„
 „! „ „„´, Almedina, 2005, pag.539.
41 Entre outros, Isabel Fonseca, Ana Sofia Firmino, Carla Amado Gomes.
42 Neste sentido, Ana Sofia Firmino in ³&: ! % „$/-)

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7 'QRS   
 
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Conforme se alcança da exposição precedente, a intimação para protecção de direitos
liberdades e garantias prevista no artigo 109º, não é mais do que um processo urgente43 e
principal, caracterizado por uma tramitação sumária e dirigido à produção de uma sentença
de mérito e, portanto, definitiva.
Este processo, como refere Fernanda Maças44 , deve ser ß„„8! ! „ !„ ;
$   9„$6  „! !„„$„
!!  „ 
4 „ „ !    „?„! „!( „ 
± pois um processo que se revela muito útil para ocorrer a situações em que seja urgente a
obtenção de uma pronúncia definitiva sobre o mérito da causa.
Acontece que as situações de urgência que reclamam uma decisão de fundo e uma
composição definitiva do litígio são precisamente aquelas em que o factor tempo obriga à
emissão de uma decisão que interfere com o objecto de um eventual processo principal.
Assim se o particular não puder aguardar que o juiz de uma eventual causa principal se
pronuncie sobre a situação requerida, sob, pena de ver os seus direitos fundamentais
lesados, então deverá lançar mão da intimação urgente.
Por conseguinte, não faz sentido recorrer-se ao decretamento provisório de providências
cautelares, quando o mérito da causa deva ser resolvido de forma imediata e definitiva, isto
é quando a própria 8 ! „não se compadece com uma definição cautelar.
Aliás, como já atrás se mencionou, o processo principal urgente foi de certa forma
concebido, para suprir as insuficiências inerentes a um processo cautelar, que resultam
precisamente de ele ser cautelar, provisório e instrumental45 .
No que concerne ao decretamento provisório da providência cautelar que se destina a
tutelar direitos, liberdades e garantias do artigo 131º, estamos perante uma decisão
urgente, mas que se satisfaz com uma decisão provisória, até que no âmbito do processo
principal se decida definitivamente a questão de fundo.
Trata-se de uma composição provisória e instrumental do litígio, que é suficiente para
proteger o direito, liberdade ou garantia em causa, desde que a providência seja decretada
com a máxima urgência, após o momento da sua solicitação.
Ao contrário da intimação urgente, é um processo que se caracteriza essencialmente pela
sua provisoriedade e instrumentalidade. No âmbito deste processo, o juiz verifica a
possibilidade de decretar uma providência a título provisório, que vigorará durante a própria
pendência do processo cautelar, isto é durante o tempo normal que este processo leva
a decorrer. Trata-se de situações urgentes em que não se pode aguardar pela sentença
cautelar, tornando-se necessário antecipá-la.
________________________
43 Podendo em certas circunstâncias ser mesmo urgentíssimo cfr. artigo 111º do CPTA.
44 ß„+ !;'6„!!  „!  !   „ !+ , A
Nova Justiça Administrativa, Centro de Estudos Judiciários, Coimbra Editora, 2006, pp 94.
45 Cfr. Mário Aroso de Almeida e Carlos Alberto Cadilha, ³Comentários ao Código de Processo dos Tribunais Administrativos´
Concluído o processo cautelar, o juiz decidirá se a providência se deve manter durante
toda a pendência do processo principal, se deve ser alterada ou se deve pura e
simplesmente ser levantada.
Com efeito, estamos perante um processo cautelar urgente, caracterizado pela sua relação
de instrumentalidade e provisoriedade, relativamente ao processo principal, que „  , é
também ele um processo cautelar.
Não obstante as diferenças salientadas do ponto de vista estrutural46, importa referir um
elemento comum aos dois instrumentos processuais, uma vez que em ambos os casos se
permite assegurar em 48 horas o exercício útil de um direito, liberdade ou garantia, de
forma a prevenir situações de lesão irreversíveis.
Pelo exposto, é coerente afirmar que a problemática da subsidiariedade da intimação para
protecção de direitos, liberdades e garantias, em última análise, acaba por se reconduzir
em saber no caso concreto, quando é que as pronúncias de mérito são necessárias para
acautelar a causa, em confronto com uma mera pronúncia provisória e instrumental,
providenciada pela tutela cautelar urgente.
Com interesse ainda para a temática em análise, cabe referir, embora alguns autores
assim não o entendam, que no caso do juiz ser chamado a proferir uma intimação para
protecção de direitos, liberdades e garantias, e verifique não se encontrarem preenchidos
os pressupostos de que depende este meio processual, por ß „ „ $ 
„  = „ ! $!   „?„! „!( „ $ !
!„ „)0)@/*, ele deve proceder à convolação oficiosa do processo num
processo cautelar para efeitos do disposto no artigo 131º.
Tal actuação deverá ser compreendida à luz do princípio a tutela judicial efectiva e do
imperativo constitucional relativo à efectividade dos direitos, liberdades e garantias.
________________________________________
46 Enquanto a intimação urgente permite regular de forma definitiva e imediata a situação, o mecanismo consagrado no artigo 131º
limita-se a oferecer uma forma de tutela provisória e não definitiva.
47 Artigo 109º, nº1 do CPTA.

J 6 ; 


1. O actual contencioso administrativo, inovou, ao prever um meio processual urgente
principal, que tem como objectivo, obter dentro de um prazo curto, uma intimação que se
destina a salvaguardar o exercício de direitos, liberdades e garantias e que pode ser
dirigida tanto contra uma entidade pública, como contra um particular;
2. Ao introduzir esta nova forma de processo, o legislador ordinário, pretendeu dar
cumprimento ao disposto no nº5, do artigo 20º da CRP, o qual apenas se reporta aos
direitos, liberdades e garantias pessoais;
3. Não obstante o exposto e não tendo o legislador restringido de alguma forma o âmbito
de intervenção deste processo de intimação, o mesmo deve ser aplicado à protecção dos
direitos, liberdades e garantias pessoais e não pessoais;
4. Acresce que como o regime dos direitos liberdades e garantias se aplica aos direitos
fundamentais de natureza análoga, por força do disposto no artigo 17º da CRP, também
estes últimos não devem ser excluídos no âmbito de intervenção deste processo;
5. Por outro lado, devem ainda ser considerados, não só os direitos fundamentais do
catálogo, mas todos os outros;
6. O processo de intimação previsto no artigo 109º, não é contudo a via normal para utilizar
em situações de lesão ou ameaça de lesão de direitos, liberdades ou garantias;
7. A via normal para protecção dos direitos fundamentais é a acção administrativa comum
ou a acção administrativa especial, ou seja a propositura de uma acção não urgente, ainda
que eventualmente associada ao decretamento provisório de providências cautelares;
8. A intimação para protecção de direitos, liberdades e garantias, assume assim uma
natureza subsidiária;
9. Neste contexto, subjacente à necessidade de intimação urgente definitiva, tem que
existir uma situação de urgência, para a qual não servem os meios processuais comuns,
porque são lentos de mais, nem tão pouco se presta a medida cautelar urgentíssima,
porque sendo provisória, não satisfaz no caso concreto, revelando-se impossível ou
insuficiente;
10. Sendo possível e suficiente para impedir a lesão do direito, liberdade ou garantia em
causa, o recurso às vias normais, fica automaticamente vedada a possibilidade de se
lançar mão da intimação urgente;
11. Para além da subsidiariedade, este meio processual exige ainda, para proceder, que
seja demonstrada a sua indispensabilidade face às circunstâncias do caso concreto;
12. A intimação urgente definitiva, permite assim ao juiz, no domínio dos direitos,
liberdades e garantias, decidir legitimamente a questão de fundo de modo definitivo, nos
casos em que as situações concretas de urgência assim o exigem.

.
6
7

ALMEIDA, Mário Aroso de
± ß2&#„ !' !„
 „! „ „„,
Almedina, 2005;
± ß6 „! „    „! „ „„,
Cadernos de Justiça Administrativa, nº 16;
± ß „ 7!!„„
 „!  !
  „! „ „„, Cadernos de Justiça
Administrativa, nº 34;
± ß# 5„„ $  „  ! <
„ ! !„!$anotação ao Ac.do STA de
24.11.2004, Cadernos de Justiça Administrativa, nº 53;
ALMEIDA, Mário Aroso de/CADILHA, Carlos
Alberto Fernandes
± ß!  „!?!„!' !„
 „
! „ „„, Almedina, 2005;
ALMEIDA, Mário Aroso de/AMARAL, Diogo
Freitas do
± ß  !"„ !#  !!  „! „ „„,
Almedina, 2002;
AMARAL, Diogo Freitas do
± ß! „!7„
  !
  „, Cadernos de Justiça Administrativa, nº 22;
± ß!!,„„! „ „„$:II,
Almedina, 2001;
ANDRADE, José Carlos Vieira de
± ß1„! „ „„, 8ª edição, Almedina, 2006;
± ß
„„ „!4„!„! „ „„$
Cadernos de Justiça Administrativa, nº 22;
± ß!$Cadernos de Justiça Administrativa, nº 34;
± ß„+ !Ai9 !
 !1!:„„! !!$
A Nova Justiça Administrativa, Centro de Estudos
Judiciários, Coimbra Editora, 200BC
ANTUNES, Luís Filipe Colaça
± ß' ,„„! „ „„!  „!
!„!!!! „ „, Almedina, 2000;
CORREIA, José Manuel Sérvulo
± ß  ! ! „ „„$Cadernos
de Justiça Administrativa, nº 16;
± 2„  „  !!!! „!„$Cadernos
de Justiça Administrativa, nº 54;
FIRMINO, Ana Sofia
± ' + $Novas e Velhas Andanças do
Contencioso Administrativo ± Estudos Sobre a
Reforma do Processo Administrativo$,"$-..DC
FONSECA, Isabel Celeste
± ß,&' +  !  „! „ „„
E  $Lex, 2004C
GOMES, Carla Amado
± ß2#!+„3 
  !
4„ ! „ „„$Cadernos de Justiça
Administrativa, nº 39;
± ß„ „  !!„„$„
!!
 „$Cadernos de Justiça Administrativa, nº 50;
MAÇAS, Fernanda
± ß„+ !;'6„!!
  „!  !   „ 
!+ $A Nova Justiça Administrativa,
Centro de Estudos Judiciários, Coimbra Editora, 200BC
MACHETE, Rui Chancerelle de
± ß 6 !  ! „ „„, Cadernos
de Justiça Administrativa, nº 34;
SILVA, Vasco Pereira da
± ß!   „! „ „„ ! 
1„!„, Cadernos de Justiça Administrativa, nº 34;
± ß2   „A   ! !
   !   „! „ „„$
Cadernos de Justiça Administrativa, nº 22;
± ß: !!  !  „! „ „„,
Almedina, 2000;
± ß2!  „! „ „„ ,„!'„  „´,
Almedina, 2005;