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RESENHA CRÍTICA

CHUAIRI, Silva Helena. Assistência Jurídica e Serviço Social (Reflexões


interdisciplinares).”in” Serviço Social e Sociedade, nº67, ano XXII, 2001. São
Paulo. Editora Cortez.

Com os avanços científico-tecnológicos, a globalização e a diversidade midiática


mudaram-se as relações de ordem econômica, social, cultural e política. Porém
um aspecto da sociedade que não se modificou foi a desigualdade social,
acentuada pela pobreza, e a questão da justiça.

Hoje a procura por instituições de justiça é maior que há algumas década atrás,
visto que em tempos remotos os conflitos eram resolvidos intra-familiarmente ou
no interior das comunidades. Com essa crescente procura a justiça reafirma o seu
papel de garantir a efetivação dos direitos humanos, o pleno exercício da
cidadania -prioritariamente para a população historicamente desprovida desse
exercício - e o efetivo funcionamento de suas máquinas judiciárias. Porém o
número de pessoas que procuram esse serviço é muito maior do que a sua
capacidade de atendimento. Daí a importância da reestruturação da sociedade e
do enfrentamento à pobreza e desigualdade social, já que são elas que aumentam
expressivamente a procura pela assistência jurídica.

Os conceitos de cidadania, igualdade e liberdade, assim como todos os outros


conceitos, são construções sócio-históricas e por esse motivo variam de acordo
com a localização temporal, espacial e circunstancial vigente. A cidadania no
Brasil toma forma mais concisa com a Carta Magna de 1988 - também chamada
de Constituição Cidadã -, porém essa tão sonhada cidadania ainda se restringe ao
papel. Para que ela de fato se efetive é preciso que haja mudanças estruturais na
sociedade. Visto que o problema da desigualdade social não é um problema
conjuntural, infelizmente ele já faz parte da estrutura que caracteriza o país. Esta
sociedade que tanto fala em direitos ainda não os incorporou como vivência para
os cidadãos e cidadãs.

"Embora haja o decreto e/ou a lei, a justiça para ser legítima deve produzir
decisões que sejam reconhecidas, compartilhadas e institucionalizadas pela
sociedade, ele precisa ganhar dimensões que sejam reconhecidas,
compartilhadas e institucionalizadas pela sociedade, ela precisa ganhar dimensão
pública e ser capaz de enfrentar os problemas sociais" (CHUARI, Silvia Helena -
página 127). Só é efetivo o exercício da cidadania se for garantido, além dos
direitos sociais, políticos e civis, o acesso à justiça. Tal acesso tem por finalidade
garantir a equidade dos cidadãos e cidadãs e promover à eles e a elas o poder de
reivindicação de seus direitos e benefício junto ao Estado.

O acesso à justiça não deve ser restrito aos tribunais; ele deve ser antes de tudo o
direito à informação sobre as legislações e suas efetivação. Mauro Cappelletti e
Bryan Garth (1995) explanam sobre algumas dificuldades para esse acesso:
custos judiciais; possibilidades das partes; e interesses difusos. Já Boaventura
Sousa Santos caracteriza a deficiência do direito à justiça como uma disfunção
cultural e social.

A assistência jurídica não é uma criação contemporânea, desde a Grécia e Roma


antiga que ela existe; passando ainda por reformulações na Idade Média e
chegando aos dias de hoje como um direito social e um quesito para a ampliação
da cidadania. Com a Declaração do Estado de Virgínia (Estados Unidos da
América, 1776) e a Declaração dos Direitos dos Homens e do Cidadão (França,
1789) a assistência jurídica passa a ser um direito do ser humano e um dever do
Estado. No Brasil a assistência jurídica só foi constitucionalizada em 1934 e desde
então ela está presente em todas as Constituições, exceto na Constituição do
Estado Novo em 1937; mas antes disso, em 1603 com as Ordenações Filipinas, a
assistência jurídica surgiu no país.

A Constituição Federal de 1988 atribui ao Estado o dever-função de possibilitar o


acesso à justiça e permitir às pessoas carentes o pleno exercício do direito
constitucional à ampla defesa e assistência jurídica integral e gratuita aos que
comprovarem insuficiência de recursos - recursos não somente econômicos, mas
jurídicos também. Com a atual Constituição o Estado assume e responsabilidade
da criação de instituições para a prestação da assistência jurídica.

Em 1935 com a Lei nº 2497 o serviço de assistência social foi criado e prestado
pelo Departamento de Assistência Social do Estado, por meio da Procuradoria do
Serviço Social. Em 1947 com a Lei nº 17330 a assistência social passa para o
Departamento Jurídico do Estado, subordinado à Secretaria de Justiça.

Campilongo (1994) deflagra dois tipos de serviços que tangem a assistência


judiciária: modelo de cunho tradicional - assistencialista, individualista e
paternalista; com a renda como quesito não institucional - e o modelo de cunho
inovador - tem papel fundamental na informação do exercício da cidadania e seus
direitos; abrange formas alternativas de resolução de conflitos.

"A assistência jurídica tem importância fundamental, pois se constitui para as


classes subalternas da sociedade como modalidade de acesso real à justiça
reconhecendo publicamente como legítimas suas demandas, ao mesmo tempo
que resgata sua cidadania. Por outro lado, ela está vinculada com as bases de
legitimidade do Estado, de seu poder de controle social e estabilidade social, já
que é um canal de resolução de conflitos sociais pela justiça" (CHUARI, Silvia
Helena - página 132).

Os usuários e as usuárias da assistência jurídica do Estado são em geral carentes


de recursos materiais e vivenciam um sério problema de exclusão social - tanto de
direitos sociais, como civis e políticos. Eles e elas passam por uma triagem, de
acordo com critérios de elegibilidade estabelecidos previamente, e não possuem
poder de escolha sob o prestador de serviços. Um grave problema é a descrença
na eficiência da justiça, por tal motivo é grande o número de pessoas que mesmo
precisando dela não a procuram e acabam "fazendo justiça com as próprias
mãos". A maioria das pessoas só têm ciência dos seus direitos e deveres quando
se encontram em situações-problema; o que é muito ruim.

Devido o alto grau de pauperismo dessas pessoas que procuram a assistência


jurídica é normal que elas cheguem em busca de atenção, respeito e resolução de
conflitos de interesses; sem saber que aquele serviço ao qual elas estão sendo
contempladas é um 'direito a ter direitos', não é um favor do(da) profissional que
ali está. Sendo assim há uma erronia visão de que o Judiciário pode resolver os
problemas do cidadão ou da cidadã a partir de expectativas individuais; existe uma
personificação do serviço. Além disso é grande o número de profissionais que
encaram a assistência jurídica como um atendimento "para pobre" e um
assistencialismo.

Com o aumento do interesse da população pelas instituições jurídicas e pela


justiça faz-se necessário que profissionais das Ciências Humanas e Sociais
integram esse serviço junto à Ciência do Direito; dentre esses e essas
profissionais estão os (as) assistentes sociais, participando da equipe
interdisciplinar. Apesar de tudo a participação de assistentes sociais na área sócio
jurídica ainda é mínimo.

O Serviço Social na esfera jurídica constitui uma área de trabalho especializado,


que atua com as manifestações da Questão Social e a justiça na sociedade. Os e
as assistentes sociais podem trabalhar tanto junto ao Poder Judiciário -
principalmente nas Varas de Infância e Juventude e nas Varas de Família -, como
em trabalhos autônomos. Suas funções estão normalmente ligadas à prestação de
serviços, supervisão, assessoria de planejamento de programas. Além de
caracterizar a prática de operacionalização de direitos e o amplo entendimento
dos problemas sociais.

As principais atribuições e requisições dos e das assistentes sociais são:


"assessorar e prestar consultoria aos órgãos públicos judiciais, a serviços de
assistência jurídica e demais profissionais deste campo, em questões específicas
de sua profissão; realizar perícias e demais estudos sociais, bem como
informações e pareceres da área de sua competência, em consonância com os
princípos éticos de sua profissão; planejar e executar programas destinados à
prevenção e integração social de pessoas e/ou grupos envolvidos em questões
judiciais; planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a
análise social, dando subsídios para ações e programas no âmbito jurídico;
participar de programas de prevenção e informação de direitos à população
usuária dos serviços jurídicos; treinamento, supervisão e formação de
profissionais e estagiários nesta área" (CHUARI, Silvia Helena - página 138). A
assistência jurídica prevê o esclarecimento de direitos e deveres do cidadão e da
cidadã para que o exercício de sua cidadania seja pleno e sua dignidade mantida
intacta. Por isso o (a) assistente social deve ter arcabouço teórico e prático, além
de compromisso com a população-alvo.

Ainda que a Constituição Cidadã tenha avançado na legislação dos direitos, a


efetivação dos mesmo ainda é superficial. E o serviço sócio jurídico ainda tem sido
visto como uma forma de assistencialismo. Mas outro problema é o
desconhecimento dos direitos e dos serviços por parte da população, e com isso
muitas vezes vários direitos e benefícios não são acessados por eles e elas pelo
simples desconhecimentos dos mesmos. Buscando minimizar esses problemas
áreas de Ciências Humanas e Sociais se unem para formar equipes
interdisciplinares que visam a melhora do atendimento sócio jurídico e o
desenvolvimento humano e social. Além de garantir o direito à informação, que é
de vital importância para o exercício da liberdade e cidadania. Não é possível
compreender o acesso à justiça desvinculando do âmbito das políticas públicas e
do conceito atual e cidadania plena.

Para validar sua tese Sílvia Helena Chuairi faz menção a outros importantes
autores que escrevem sobre o mesmo tema e traz dados históricos e sobre as
legislações brasileiras.

É fato que com a Constituição Federal de 1988 o avanço no que diz respeito aos
direitos civis e políticos foi considerável. Apesar da não-efetivação plena dos
mesmo. Mas é ainda importante lembrar que apensar a constitucionalização
desses direitos, apesar da presença deles no papel, eles ainda assim representam
um fator de desigualdade. Visto que o texto da Constituição, e das demais
legislações, é rebuscado demais e as classes mais baixas da população - quem
deveria ser mais beneficiado por tais direitos, já que os falta mais - não
conseguem compreende-los. Sem falar do enorme número de pessoas que os
desconhece; que não se acham dignos de ler as legislações. Esses direitos de
papel, ainda que só no papel, constituem desigualdades.
Outro direito que está diretamente ligado ao direito de justiça é o direito à
comunicação - que vai muito além do simples direito à informação. Ele prevê não
só o consumo de informações, mas a produção da mesma. E hoje as pessoas que
se encontram em estado de liberdade privada, principalmente, não possuem esse
direito à comunicação. Mas infelizmente nem quem tem sua liberdade garantia
também não o tem. Porém o mais grave é a escassez de direitos àquelas pessoas
que se encontram em penitenciárias - tanto os e as adolescentes como os adultos
e adultas. Antes de elas irem para lá é claro que muitos de seus direitos
fundamentais lhe faltaram. Principalmente o direito à educação, profissionalização,
alimentação, transporte, cultura, arte, lazer, esporte, saneamento básico e muitos
outros. E ao chegarem nas penitenciárias até sua dignidade é tirada. O sistema
carcerário brasileiro é um problema de calamidade pública. E as medidas sócio-
educativas são majoritariamente inexistentes.

Outro ponto relevante a se levantar é a ineficiência do Poder Judiciário. É sabido


que ele hoje recebe uma demanda bem maior que a sua capacidade. Mas o que
não é desculpa ela sua deficiência. A enorme burocracia e a falta de
informatização generalizada são variáveis constantes desse problema. Um
problema que merece atenção especial por parte do Estado, mas infelizmente não
o tem. Pela sua ineficácia o Poder Judiciário muitas vezes deixa de ser acionado e
a população resolve fazer por si só a justiça; aplicando conceitos e normas
aleatórias e muitas vezes agravando casos de violência e desigualdade social.
Eleva-se a manifestação da questão social e ela se torna cada vez mais grave.

Apesar dos problemas e da dificuldades é de vital importância a existência de um


Poder Judiciário e do acesso à justiça, ainda que não como deveria ser. Agora que
o sistema já existe e já foram identificados alguns de seus problemas é mister a
luta pela sua resolução; e o papel dos(das) assistentes sociais nesse processo é
fundamental. Visto que a sua formação tem um viés mais humanitário que as
demais profissões que trabalham junto à assistência jurídica.