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Título: Flor do Lar, Flor do Claustro. Autor: Delly. Dados da edição: Livraria Figueirinhas, Porto, 1937.

Género: romance. Digitalização e correcção: Dores Cunha. Estado da obra: corrigida. Numeração de página: cabeçalho. Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente à leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos de autor, este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente. I Manuela estava agora só na capela em que flutuava ainda um leve perfume de incenso, quási desvanecido pelo das rosas e dos lírios que guarneciam o altar. Soror Maria Coletta, depois de arrumar o pequeno coro, onde, pouco antes, se tinha dado a bênção do Santíssimo Sacramento, havia desaparecido, fechando sobre ela a porta da sacristia. Por trás da grade e da cortina preta do coro das religiosas, a lenta salmodia cessara, retirando-se as piedosas reclusas. Manuela permanecia só, com a cabeça entre as mãos, tudo esquecendo no fervor da sua prece. Passando através duma vidraça, um raio de sol brincava no seu chapéu muito simples, na sua blusa de fina cambraia branca, nos seus dedos delicados, em que se apoiava a fronte, emmoldurada de bandós negros, lisos e cetinosos. 6 Ergueu, por fim, a cabeça. Os olhos escuros,- dum escuro quente e dourado, - poisaram longamente no tabernáculo. Parecia reflectir-se neles um brilho estranho, que se comunicava a toda a sua fisionomia fresca e gentil. A sua fina boca entreabriu-se, e murmurou algumas palavras, enquanto a alva tez se coloria sob a influência duma poderosa emoção. Manuela continuou assim durante alguns instantes. Flamejava no fundo das suas pupilas uma promessa ardente, apaixonada... O som duma campainha, agitada na parte exterior pela Irmã rodeira, veio subitamente chamá-la à realidade, Ergueu-se devagar, fez uma profunda genuflexão, e saiu da capela. - Esquecia-me das horas, minha Irmã, disse à rodeira, que a saudava amigavelmente. ? - É junto de Deus que se está sempre melhor, menina. O brilho que, pouco antes, iluminara o rosto de Manuela, apareceu nele de novo. - Sim, é certo. Mas não podemos, a-pesar-do conforto que sentimos junto de Ele, esquecer os deveres da terra. Minha prima já deve estar a pensar no que terá sido feito de mim. - Oh! a menina Tecla já deve calcular que 7 deixou passar o tempo a conversar com Nosso Senhor! disse a rodeira, sorrindo. Boa tarde, menina Manuela! - Boa tarde, Soror Francisca. Depois de transpor a porta, Manuela cortou à direita pela rua de pavimento pedregoso, orlada dum lado por muros floridos de rosas silvestres, e, do outro, por antigas casas veneráveis, habitações das velhas famílias da Rocalândia; depois tomou por uma rua transversal, de pavimento semelhante, que a conduziu a uma pequena praça estreita, rodeada por antigas moradias, cujo rés-do-chão era geralmente ocupado por

pequenos estabelecimentos, de aspecto arcaico e alpendre à entrada. Uma delas, contudo, tinha-se conservado casa burguesa. Na ombreira da porta, uma chapa embaciada anunciava a profissão do proprietário. Foi para ela que se dirigiu Manuela, acabando de abotoar as luvas, que tirara emquanto esteve na capela. Apoiou o dedo no botão da campainha eléctrica,- um verdadeiro luxo para a Rocalândia, cujos habitantes se incrustavam ferozmente nos costumes do passado, a despeito dos esforços de alguns novos, apaixonados pela modernidade. A colocação da campainha deu logar, na pequena cidade, a comentários sem fim, a críticas amargas. 8 Havia dois anos que o facto se dera, e muitos rocalandeses preferiam ainda servir-se da argola que ficara no seu lugar, desdenhando essa invenção moderna, que lhes parecia um ultraje aos costumes ancestrais, ciosamente conservados. Dizia-se mesmo que duas das principais famílias da povoação chegaram a pensar em retirar os seus negócios das mãos desse notário tão amigo de novidades, renunciando ao propósito apenas em atenção à antiguidade do cartório Viannes, por onde haviam passado os seus maiores, e onde se tinham sucedido titulares duma integridade absoluta. Confiar os seus interesses ao sr. Viannes fazia parte das tradições da Rocalândia, e pareceria um sacrilégio fugir à tradição. Mas os pobres rocalandeses haviam tido recentemente outros motivos de escândalo, O notário actual, homem novo e empreendedor, havia-se lembrado, alguns meses antes, de comprar uma bicicleta, e de fazer nela, não as suas voltas profissionais,- do que Deus o livrasse, porque ficaria para sempre desqualificado ! - mas alguns passeios pelos arredores. E sua esposa, uma senhora nova e muito amável, educada num convento de Annecy, imaginara, naquele verão, oferecer um chá, todas as quintas-feiras, à tarde, a alguns conhecimentos 9 Íntimos,-costume inteiramente contrário às tradições dos rocalandeses, que apenas se reuniam à noite. E não bastava ver introduzido um pouco de espírito moderno na pessoa dos funcionários impostos pelo Estado, mas fora contaminado também um filho da terra, Paulino Viannes, que vinha também concorrer, para introduzir innovações, perturbando a rotina daqueles costumes seculares. O notário e a sua mulher suportavam filosoficamente a desaprovação dos seus conterrâneos. Obrigados a viver naquela povoação atrasada, aproveitavam dela o que possuía de bom, - o seu espírito religiosO, por exemplo, ainda bem radicado, - e levavam, a despeito das recriminações, uma vida "mais aberta, mais inteligente e desprendida, ao mesmo tempo, dos entraves ridículos do meio, tanto quanto permitia a profissão do sr. Viannes. Mas eram mal vistos por esse facto. E, se não fosse a presença de sua cunhada, a sr.a Viannes, não teria mais que duas ou três pessoas nas suas reuniões. Alice Viannes era, porém, tão estimada pelas suas amigas, que estas não seriam capazes de lhe infligir o desgosto de faltar àquelas tardes de quinta-feira, para as quais as suas mãos hábeis 10 preparavam os mais saborosos acepipes da arte de pastelaria. A amável Alice, tão alegre e atraente, não admitiria nenhuma recusa que não fosse seriamente justificada. Estava naquele momento na sala de jantar, junto da mesa em que, sobre uma toalha guarnecida de renda, os pratos dos pastéis rodeavam o bule. Alta, vigorosa, feições bem acentuadas e tez muito morena, Alice Viannes

parecia a imagem da saúde, -saúde moral e também física como o testemunhava o olhar claro, recto e firme dos seus olhos pardos. Rodeavam-na algumas donzelas; e, entre elas, conservava-se um mancebo alto, magro, cujo rosto pálido terminava por uma barba loira escura. Sorria levemente ao ouvir os ditos espirituosos que se trocavam em volta dele entre Alice e as suas amigas. Mas esse mesmo sorriso era grave, um pouco triste, como o olhar que se desprendia dos seus olhos negros, poisando destraídamente sobre as donzelas que ali estavam. - Severino, toma outra chávena? ofereceu Alice, voltando-se para ele. - Obrigado, minha querida Alice. Uma chega. - O senhor gosta de chá ?preguntou uma jovem baixa, ruiva, de nariz arrebitado. 11 -Muito pouco, menina. Outrora, mesmo, não podia suportá-lo; minha mãe, que o saboreia com delícia, obrigou-me a acostumar-me, porque não gosta de o tomar só, e agora bebo de bom grado uma chávena, mas não mais. Pela fisionomia de várias jovens que ali se encontravam passou uma sombra de compaixão, e a baixinha ruiva insistiu: -Admiro a sua heroicidade, sr. Viannes, porque não seria capaz de tomar uma coisa que detestasse, e lembro-me agora de ter ouvido dizer que detestava o chá. - É verdade, menina, mas tudo se consegue quando se trata de causar prazer a outrem, e, principalmente, quando se trata da nossa mãe, disse com simplicidade Severino. Alice envolveu seu primo num olhar de profunda admiração. Sabia ela muito bem que a palavra «heroísmo» não era exagerada aplicando-se a Severino Viannes, esse filho admirável que sacrificava os menores gostos e se condenava ao celibato, para satisfazer uma mãe caprichosa, tirânica, de exigências espantosas; rodeava-a de todos os cuidados, das mais ternas afeições, e nunca deixava escapar uma queixa, uma palavra de impaciência. Nomeado professor, no ano antecedente, do liceu 12 de Lyon, consagrava a sua mãe todo o tempo, e, com o recurso dos seus vencimentos, proporcionava-lhe uma existência desafogada, confortável, como ela gostava, privando-se ele de tudo e vivendo como um anacoreta. Ninguém conhecia a fundo a extensão dos sacrifícios feitos pela afeição filial de Severino Viannes, nem a soma de esforços que empregava para suportar com fronte serena o carácter despótico injusto e atrabiliário dessa mãe, de que ele falava sempre com respeito, sem que até, os mais íntimos alguma vez conseguissem surpreender-lhe uma única palavra de censura. -Aí vem Tecla, para levar mais chá, disse novamente a ruiva, olhando para a porta aberta de par em par, e que fazia comunicar a sala de jantar com o salão. Avançava uma donzela, segurando nas mãos umabandeja cheia de chávenas várias. Severino foi ao seu encontro e cumprimentou-a efusivamente. - Menina Tecla, isto é muito pesado para si! - Oh! de modo algum! Eu não sou, afinal, tão fraca como pareço! Entreabriu-lhe um sorriso os finos lábios rosados, subindo até os olhos cor de violeta, que subitamente se iluminaram. -13 - Isto não quere dizer que não agradeça o seu cuidado, sr. Severino, acrescentou numa voz suave e bem timbrada. Alice, a sr.a Meuilles reclama uma chávena. Emquanto falava, a donzela aproximava-se da mesa. Era baixa, mas admiravelmente proporcionada. O seu rosto, embora não fosse regularmente bonito, encantava pelo contraste dos olhos azues e dos cabelos pretos, e

a-fim-de cumprimentar as outras convidadas.. Uma natureza reservada. Tecla empalideceu ligeiramente. estendendo a mão à recém-chegada. . pela irradiante. e a mesma cútis.Pode consolar-se com o casamento. . Alice. m -É para a sr. uma intensa irradiação de bondade. Tecla.. espiritual candura do olhar. esqueci-me das horas.É possível. se ela se faz religiosa. desdenhosa. -Creio que ela é já quási uma santa! declarou uma morenita. Tecla correu para a porta da sala de jantar.. é uma bela alma. Deve ser difícil. mas não se pareciam. comentou sorrindo. Pelo contrário. Ora aí tem a sua Manuela.Em todo o caso. depois voltou-se para sua prima. que lhe vinha do coração. Severino seguiu-as com o olhar. ia apertando as mãos que se lhe estendiam. Dirigiu-se para o salão vizinho. tinhas-me esquecido ? disse passando carinhosamente o braço em volta do pescoço de sua prima. .Talvez se tenha esquecido das horas na capela. muito branca. -Não me ralhes. .Então julgas que Manuela pensa em entrar para um convento.Um soberbo.talvez mais ainda pela expressão de doçura.a Meuilles.. fria como um mármore. Emquanto falava. disse Alice..Estou a ver que sua prima a abandona. .Acho isso muito provável. uma das jovens. pegando num bolo.Casar-se? volveu a ruiva com um sorriso malévolo. muito mais alta. . Parecia que tinha entrado na sala.. que pede uma segunda chávena. Mas. dirigindo-se para a mesa.Isso é avançar demais. Não sei. dum negro soberbo. querida.. e julgo que não será Gualberto quem a desminta. 14 -Grande má.. Alice? . e Tecla seguiu-a. Tecla sorriu também. . Parece-me que Manuela e Tecla nem . . dirigindo a cada uma das jovens presentes uma frase amável. porque vejo ainda Alice em atitude de se servir duma chávena. cheia de caridade e dedicação. com ela. -Oh! quem é que pode contar com a generosidade dos Harbreuze? Sempre tiveram reputação de sovinas. Parece que não venho muito atrasada. onde aparecia a esbelta figura de Manuela. a pobre Tecla fica desesperada. -Talvez que o seu primo a dote. ... É duma piedade invulgar e visita frequentes vezes a abadessa das Claristas. porque lhe falta o principal. .Acabará por se fazer religiosa.Nesse caso apresento-lhes mil desculpas. acrescentou Manuela. Luiza. As duas primas mostravam um certo ar de família. irritantemente orgulhoso da 16 sua fortuna e da posição que ocupa no nosso meio. já é muito tarde. Demorei-me na capela. em faces cor de maçã camoesa. Era como uma criança á beira de Manuela. murmurou ela. Mas não deve tardar por aí. A Severino preguntou com interesse notícias de sua mãe. Tinham apenas 15 o mesmo cabelo.. acrescentou a ruiva. amiga Manuela. disse jovialmente Manuela. Tudo virá a seu tempo. Ninguém conhece ainda bem o carácter do senhor Harbreuze. . queridinha! disse Alice com afectuosa vivacidade.Mas não vale a pena entristecer-se já. ..

Quando ides para casa dos Viannes. logo de entrada. polidos pela velha Gertrudes.Menina Manuela. Sem se apressar também. . . dir-se-ia que. que apoiava a cabeça escura contra o ombro de sua prima. ocultos sob a arcada superciliar. porque eram anteriores à casa Harbreuze. -Julgo que Gualberto não é de carácter tão áspero como o pinta. boca desdentada e olhitos duros. como diz. por sua vez duma idade respeitável. Três quartos de hora depois. emquanto esta ouvia com um sorriso abstracto a palestra das amigas de Alice de Viannes. tristes e graves. Severino. Tinham sido os antepassados dos actuais representantes dessa velha família burguesa quem dera outrora às «Senhoras Pobres o terreno e os edifícios. mas não amado. cuja cor era difícil distinguir.É que o viu com os olhos da sua antiga camaradagem de infância. e até uma simetria excessiva. contemplaram longamente Tecla. já de si escura e severa. nos últimos anos. sr. o logar habitual da reunião da família. O aparecimento de Manuela e Tecla à porta da sala de jantar veio desviar a conversa. É a 18 senhora que a tem. a casa dos Harbreuze. segura por largos pregos.. . Estes. uma desagradável impressão de frialdade. Severino olhou-a com surpresa. está lá em cima uma carta para si. por detrás das grades de ferro do rés-do-chão. e está impaciente por ter demorado tanto. Tens aqui uma carta de teu irmão. que veio abrir a porta às donzelas. Aqui.Até que enfim! Ainda bem! disse na sua voz seca. Uma senhora idosa. e. Era ela. A interpelada aproximou-se duma pequena escrivaninha colocada a um canto do aposento. E a velha Gertrudes. Manuela e Tecla 17 saíam da casa Viannes. tinha uma aparência desagradável. A habitação dos Harbreuze era contígua ao convento das Claristas. uma limpeza meticulosa. Na estreita rua dos Pelames. muito proeminente. alguns retratos dos antepassados. iam caindo em ruínas. não me pareceu muito mudado. bem legível. voltou para as recém-vindas um rosto ainda formoso. . é de natureza reservada e fria. é estimado. Atravessando o vestíbulo soturno e frio. contudo. com o seu largo rosto desabrido. desde sempre. retomando o caminho pouco antes percorrido pela primeira.. refugiou-se num dos profundos vãos da janela.sempre devem gorar momentos felizes entre ele e a velha senhora Harbreuze. firme. Certamente. que o Sol só visitava de passagem. sentada junto da janela numa confortável poltrona. Serviam-lhe de ornamento alguns velhos móveis sólidos e sem gosto. Havia ali. Luíza mordeu os beiços. que dava. a despeito das numerosas rugas que o sulcavam. como o atestava a data por cima do batente. mas era outrora um camarada prestável e bom. disse a criada. já denegridos. Ao vê-la. e daí os seus olhos pretos. ia aparecer a cara desolada de algum pobre prisioneiro. fechando a porta. menina. Severino afastou-se um pouco. pegou num canivete e abriu devagar o envelope de espesso papel género pergaminho. não se vos pode pôr mais a vista em cima. dava também a idea duma carcereira.. o que se explicava pela data da sua construção. nas raras ocasiões em que o encontrei depois. desdobrou a carta e percorreu 19 com a vista as poucas linhas duma letra cheia. tapeçarias antigas. as donzelas entraram no aposento a que chamavam «sala». uma ordem perfeita. Manuela.

. onde foste buscar esta gola? .. não era para .Sim avó.Tu és ridícula! Essa gola foi-te dada por Gualberto. . pelo menos tanto como ela.Fui eu que a emprestei a Tecla. A velha encolheu os ombros. disse a voz calma de Manuela..Tanto melhor! disse a velha senhora.É uma doida. ou antes. Era indispensável recomeçar. Tecla. avó. 21 . muito sério. essa mulher.Eu. nada. O bife de grelha estava igualmente na tradição: parecia que o jovem chefe da casa Harbreuze não poderia ser devidamente 20 acolhido. se não visse figurar na mesa esse prato que Vitorina tinha orgulho em saber preparar.. também será bom sacudir os tapetes. embora Gertrudes estivesse. porque o seu vestido já é pouco próprio para estas reuniões.. Tecla? A voz tomava um tom de maior secura quando se dirigiu à sobrinha. Também cheguei um pouco tarde. Havia-se conservado nos Harbreuze a tradição daquele direito de primogenitura. Estava lá o sr. . Severino Viannes. A donzela aproximou-se. e que sempre lhe testemunhava uma verdadeira afeição. Gertrudes dará mais uma limpadela aos móveis . nodosos pelos reumatismos. Um ligeiro tom de rosa subiu às faces brancas de Tecla. Sempre que Gualberto Harbreuze regressava das suas frequentes viagens. dobrando a folha.E tu. na verdade. se este assim o permitisse. Os dedos da senhora Harbreuze.. que se mostra muito fatigado. o fulcro em volta do qual tudo girava. Manuela nenhum desgosto manifestava por essa preferência. A neta e a sobrinha. Ora chega-te aqui. a velha senhora renovava as mesmas recomendações. Parecia-lhe também muito natural tratar com aquela deferência seu irmão.É preciso ver que não falte nada no quarto dele. . avó. cujo frio rosto se aclarou levemente. voltando a pegar no seu trabalho de malha. não deveriam passar de humildes criadas de Gualberto. à qual estava acostumada desde a infância. um ténue lampejo brilhou no fundo dos seus olhos cor de violeta. -i Então que vem a ser isto ?. porque a poeira volta com uma rapidez espantosa. . Gualberto era. avó. como era indispensável que Manuela fosse depois examinar tudo. Perpassou nas faces da velha um clarão de irritabilidade. Tecla. pois que só via no mundo seu neto. porque sua mãe se torna cada vez mais exigente. . pegaram na extremidade da gola de renda antiga que ornava o simples vestido cinzento de Tecla. nada eram a seus olhos.. por causa do bife de grelha. disse tranquilamente. ao corrente dos hábitos de seu irmão.. .. que não tinha conhecido em pequenino.Gualberto estará aqui amanhã. embora nada expansiva. minha tia. . E tu prevenirás Vitorina.. . E a velha senhora Harbreuze exagerava-o mais ainda. Pouco importava que os aposentos do mancebo tivessem sido limpos e arrumados na véspera.Eu também nada soube. Diz a senhora Viannes que ele trabalha em excesso.Soubestes alguma coisa de novo em casa dos Viannes? preguntou a senhora Harbreuze. Há-de dar cabo do filho .

subiram lentamente a larga escadaria de pedra. pelo que esta nada tem a reclamar? O olhar duro da velha poisava no rosto de Tecla. No primeiro patamar. o sentido daquela alusão! A senhora Harbreuze. Não deixará de me aprovar.Sim.. infelizmente. Além disso. . . já sei que queres ser a última a falar. 24 Porque está sempre a dizer que sou garrida ? . Os olhos escuros de Manuela rebrilharam de indignação. desposada por Florêncio num instante de desvairamento. com certeza. afectuosa. -minha Tecla: não imagines semelhante coisa. Vamos. não. Se quiseres. anime os instintos de garridice que certamente existem nessa pequena. Ela é sempre. Tecla parou repentinamente. fartara-se de dizer à sua segunda sobrinha que. poderás depois ajudar-me a acabar as camisas para a velha Armandina.disse com arrebatamento.. lançou os braços em volta do pescoço da prima e desatou em soluços. a despeito da oposição de seu tio Harbreuze. como esse pobre Florêncio.Sim. E julgo não ter cometido uma falta enfeitando um pouco a minha querida irmãzinha. que se transmitem desde séculos aos primogénitos ?. .. uma senhora elegante e frívola. -Tanto direito ?. se estiveres presente quando a tia falar . e que a tinha arruinado por completo. E olha. Conhecia bem.. os seus olhos encheram-se de lágrimas. o pai de Tecla. . esse adorno. Falarei a Gualberto.. As duas jovens saíram da sala. Esqueces-te então de que 22 só Gualberto é o herdeiro desses objectos.. . passava-a por baixo do braço. como toda a casa. jóias e outros. muito escura. como pretendes ser. a mais simples. limpa esses olhos e vai mudar de vestido. Bem sabes que também eu tenho muitas vezes de suportar os seus destemperos.Mas não é essa a minha opinião! volveu a senhora Harbreuze com sobrecenho. Entretanto. . apoderando-se da mãozinha tremente. porque é um grande inimigo do garridismo feminino.Não..Tenho a certeza de que Gualberto nada terá que dizer. . recebeu a sua parte de herança.Porque é que ela me quere assim mal? balbuciou. Tecla tem tanto direito de a usar como eu. Demais não compreendo que uma pessoa séria.enfeitares com ela Tecla. mas comigo o caso é diferente.Não. e que além disso Florêncio. Eis aí um que se não deixará apanhar.A reclamar. . ruborizado pela vergonha. mas nem por isso é menos natural que ela traga. como eu. torno a dizer. acentuou Manuela com firmeza. se estava agora pobre e obrigada a recorrer à generosidade 23 de Gualberto e Manuela.Não faças caso. que nunca pudera tolerar seu sobrinho Florêncio Lormey. e veremos o que ele pensa. em ar de protecção. Falarei a Gualberto quando ele vier. o propósito firme de me desgostar. porque essa renda vem duma avó comum.. vai examinar o quarto dele e previne Gertrudes e Vitorina. avó: Tecla não é uma garrida . Sinto que há da parte dela malevolência. era por culpa de sua mãe. . E com um gesto de maternal ternura. minha querida Tecla. Manuela passou o seu lenço sobre os belos olhos cheios de lágrimas. entre todas. e pegando na de Tecla. Ao mesmo tempo estendia a mão.Sim vou apressar-me. resmungou a velha. A pobre avó tem um génio áspero. Desta vez Tecla tornou-se muito pálida.

o recolhimento que para todo o dia ia buscar à missa matinal. . Procedendo assim. de Vitorina e de Mateus. Nenhuma explicação dava nos raros e curtos bilhetes postais que dirigia à avó e à irmã. Contentava-se certamente com a existência tranquila que lhe proporcionavam. Era. II Desde tempos imemoriais. No entanto..a Gualberto. Como devia ter o coração pouco íerno. que lhe parecia muito vagaroso. não obstante. Juntando aos seus lucros uma grande economia e uma simplicidade de vida nunca desmentida. Gualberto fizera qualquer alusão a casamento. uma inteligência notável. numa tarde de trovoada. não será por isso que ficarás a seus olhos com a reputação de frivolidade. Gualberto Harbreuze era frio. e Tecla. Nunca. a notícia do regresso do jovem dono era sempre acolhida com viva satisfação. Tranquiliza-te. da sua fortuna e da situação preponderante que esta lhe assegurava. olhando para tudo e conservando. e as suas maneiras altivas davam razão aos que afirmavam que o jovem senhor da casa Harbreuze. quando parou em frente da . Mas a frieza de Gualberto desconcertava-as. ele não ligará nenhuma importância ao caso. como já disse à avó. nas raras vezes em que o mancebo aparecia na sociedade. sem pressas. Continuava também a indústria dos antepassados e dava-lhe ainda maior desenvolvimento. mormente depois que Amadeu Harbreuze. enérgico. muito perspicaz. segundo o costume. se considerava um ser superior. Além disso. porque nunca falava a ninguém dos seus negócios. aquele magnífico partido era ambicionado por todas as donzelas da cidade e dos arredores. 26 todas as qualidades dum chefe. O humor atrabiliário da senhora Harbreuze costumava. por causa da sua velha estirpe burguesa. em sua alma. Tecla. um carácter firme. excepto a benevolência que. geralmente.Falarei com ele antes. unida à firmeza. apenas Manuela conservava a sua imperturbável serenidade. sem ruído. . só poderiam conservar alguma esperança as que possuíam bom dote. numa palavra. aplicou à sua indústria diferentes descobertas modernas e se envolveu em negócios importantes com o estrangeiro. A sua permanência no estrangeiro fora desta 27 vez mais demorada que de costume. no dizer de todos. os três criados. que se manifestavam por uma viva actividade de limpezas e polimentos por parte de Gertrudes. até ali. amansar nessa ocasião. no regresso das suas viagens de negócios. para que esteja ao corrente do que se passa. sempre tão aplicada ao que fazia. sim? Manuela sorriu ao meigo olhar suplicante. orgulhoso como todos os seus maiores. atrai e mantém as simpatias. Daquela fortuna recebera Gualberto. mas também em toda a Saboia. o pai de Gualberto. os Harbreuze tratavam da preparação de peles e couros. cuja tez se coloriu levemente. de quem era tutor. não só na Rocalândia. e justo para com aqueles que estavam ao seu serviço. a pequena prima órfã.. mesmo em sua casa. Como é natural. dir-lhe-ás que. Manuela. e encerrava-se num laconismo que tornava muito pouco animadas as reuniões de família. que foi aumentando sempre. não sou garrida. tinha algumas distracções e vigiava o andamento dos ponteiros do relógio. não saía fora dos seus hábitos vulgares. a avó. muito concentrado. Chovia torrencialmente. a mais larga parte. porém. Possuía. haviam adquirido uma grande fortuna. principalmente para a indústria de luxo. pouco acessível. e o consideravam tão interesseiro como os Harbreuze antigos.Seria para mim tão desagradável! murmurou Tecla. tratando do bem-estar de todos sem o menor esquecimento.

disse tranquilamente. disse numa voz cariciosa e um tanto velada. pegou no seu lavor e pôs-se a trabalhar. A tua viagem ? .Boa tarde. levantaram-se e dirigiram-se para a porta que dava para o vestíbulo. que havia parado.Boa tarde. que fazia sobressair o tom mate da sua epiderme.. acrescentou no tom de voz incisivo dum homem habituado a mandar. Gualberto não fez a mínima referência à sua viagem. Gualberto. 29 Passou devagar a mão pela barba preta. Qualberto não é teu irmão. . e as lágrimas orvalharam-se nos olhos. Não queria retirar os olhos daquele rosto firme e enérgico. que a senhora Harbreuze bebia as suas menores palavras. e avançou para Gualberto. e saborearei com prazer o bife de grelha da nossa Vitorina.Excelente. replicou Gualberto. balbuciou ela. Mas o seu rosto tornara-se de-repente pálido. Mas estou satisfeito por me encontrar de regresso. retiveram-me circunstâncias particulares.Boa tarde. A viagem abriu-me o apetite. . mas que nenhuma idea de semelhança evocavam entre o irmão e a .Não me encontro mal. .Muito boa.É para recear. Avançou para a senhora Harbreuze.. trocava ligeiras palavras com sua avó. De tempos a tempos.. Tecla voltou para o lugar do costume. Tecla. Dirigia-se para a porta. em casa dos Harbreuze. Depois sentou-se em frente dela e serviu-lhe a sopa. . . E tu?. Manuela 28 e Tecla. pertencia também por tradição ao chefe de família. Até já. o que. julgo eu! Tecla corou e recuou um pouco na sombra do aposento. Gualberto apareceu pouco depois. roçou com os lábios a fronte enrugada da velha dama. .vou mudar de fato. curvando a sua alta estatura. .. disse em tom breve. mas sinto hoje bastante calor..Sim. Onde estás tu. . mas o seu laconismo tornava difícil uma conversa seguida. Pareces-me com melhor cara que por ocasião da minha partida.Ainda não deste as boas-tardes a Tecla. Estou muito contente por saber que fez boa viagem. como tinha por costume. Manuela voltou logo. avançando novamente para a porta.Onde vais. no entanto. meu filho. As efusões entre Gualberto e os seus nunca eram longas. com efeito. com sua irmã. iluminado por pupilas do mesmo escuro dourado que se notava nas de Manuela. e. Ela colocou a mão tremente naquela que se lhe estendia. avó e Manuela. Parecia. mas Manuela atalhou com vivacidade: . pois Gualberto não gostava que fossem ao seu encontro. acrescentou. lançando rapidamente a vista sobre o rosto ruborizado de sua prima. sentando-se novamente e cruzando sobre a saia as pequeninas mãos trémulas.Há-de ser sempre um pelém. e conduziu. sentadas na sala. seguida do viajante. levemente frisada. austera e sombria. e depois jantaremos. na mesma.A tua ausência desta vez foi longa. . Tecla? A donzela saiu da sombra em que se refugiara. que uma paralisia imobilizava na poltrona. a poltrona rodante da avó para a sala de jantar. 30 . Ainda segundo os seus hábitos.casa a carruagem que fora buscar Gualberto à estação. .Na mesma. avó! Como vai do seu reumatismo ? . disse a voz seca da senhora Harbreuze. Tecla ? Não precisas acompanhar Manuela! gritou a voz áspera da senhora Harbreuze..

Evidentemente. que me convidou a passar alguns dias no seu 33 castelo de Rennubrunn. Gualberto? . que comia lentamente. Brilhou no olhar da velha senhora uma chama de orgulho. Cobria-lhe o olhar uma sombra de inquietação. é um bom casamento. suspendendo por momentos o bordado em que trabalhava.Parece-me que ainda temos trovoada esta noite. . que o não podia suportar. respondeu Gualberto. Na sala. O fumo não incomodava a senhora Harbreuze nem Manuela. podes dar uma satisfação ao teu amor-próprio! disse orgulhosamente a velha senhora.Acontecimento ? preguntou a senhora Harbreuze..O meu casamento. porque tinha receio de desagradar a Gualberto e de se ver excluída da sala todas as noites. em que os estranhos liam muitas vezes o desdém. Não se pode ter tudo. Mas qual ? .O teu. 32 É provável. pois não seria certamente o primo quem modificaria os seus hábitos por causa dela.Sim: pedi há quinze dias uma jovem austríaca. Levantaram-se para ele três olhares surpreendidos e vagamente inquietos. inteligente e instruída. casamento ? exclamou a velha. i Foi então por isso que demoraste a estada na Áustria. sem que seu primo desse a perceber que reparava nisso. avó. .Notavelmente bela. e a condessa Otília é uma grande dama dos pés à cabeça. Tive ocasião de prestar um pequeno serviço ao pai da menina de Walberg.. por onde entrava o ar húmido e quente. no vácuo. disse lacònicamente Gualberto. Foi assim que conheci a condessa Otília.. durante alguns momentos. -Uma condessa austríaca?!. Tinha um apetite moderado e detestava a longa permanência à mesa. . com a tua fortuna. porque as dele eram frias. Gualberto parecia um pouco preocupado. um acontecimento que vai modificar a nossa existência. piedosamente educada. enigmáticas. sob esse ponto de vista.. .Sim. . com a voz um pouco alterada pela comoção que lhe causara a notícia inesperada. . . de braços cruzados. 31 parecendo fixar os outros sempre com uma indiferença altiva. Tecla. disse com muita calma. voltara a encostar-se à janela.. emquanto ele fumava. e Tecla. tinha de engolir bocados grandes e deixava quási sempre uma parte da sobremesa no prato.irmã. e. Os Walberg pertencem à mais antiga nobreza do Império. Gualberto. .Não..Como é ela. disse com a mesma tranquilidade. foi em parte por isso.Devo dar-lhes uma novidade. O jantar nunca se prolongava quando Gualberto assistia. Afastou-se da janela e voltou para junto do grupo formado pela senhora Harbreuze. por Manuela e por Tecla. Manuela ainda não estava refeita da surpresa que lhe causara a revelação de Gualberto. E esse .. deixou errar a vista diante dele. . E afinal. a condessa Otília von Walberg. emquanto Manuela deixava escapar um movimento de assombro.E rica? Desta vez a pregunta partia da senhora Harbreuze. de família muito nobre. . Naquela noite. disse Manuela. Gualberto ? Era Manuela que o interrogava. Gualberto acendeu um charuto. nunca ousara confessá-lo quando sua prima a interrogava a esse respeito. avó.. Atirou fora o charuto meio consumido e aproximou-se da janela aberta.

Mas dize-me uma coisa: não tens uma fotografia da tua noiva ? 35 . soberanamente distinta. é porque julguei que tinha. e o rosto não podia ser observado pela senhora Harbreuze e por Gualberto. . com efeito. e que não dissera uma palavra para o impedir. Tirou do bolso interior uma pequena carteira e pegou numa fotografia.. . que meteu no bolso. nem fosse para ela de qualquer importância. 36 .Uma espécie de sorriso irónico entreabriu por momentos os lábios de Gualberto. E demais já sei que devia possuir essa qualidade para te agradar. . O seu olhar encontrou a cadeira vazia.Um irmão-apenas que ainda não conheço. Pegou na fotografia que lhe entregara a avó e estendeu-a a Manuela.olhar baixou sobre Tecla. certamente. olhando seu neto com uma evidente expressão de orgulho.Talvez se haja retirado por excesso de discrição. meu querido filho. com a maior simplicidade.Sim.. . é notavelmente bela. por forma que voltava as costas à luz. tanto direito como vós a conhecer desde já o acontecimento que se prepara.Tenho. como se. como parenta.A menina von Walberg deseja que a cerimónia demore um mês. a notícia do casamento de Gualberto lhe não causasse admiração. se assim o deseja. Realizar-seá na capela do castelo de Rennubrunn.Então boa-noite. Parece. Ele teve o rápido sobressalto dum homem arrancado a um pensamento absorvente. . Lamento que não possa assistir. avó. que apresentou à avó. . Julgo que a frivolidade lhe é desconhecida. Procura descansar bem. como eu. melancólicos e graves.Onde está Tecla? . . Ainda tem mãe? . que fora a única a notar o silencioso movimento de retirada de Tecla. inimiga do fausto e do ruído. Manuela ? . muito formosa.Não: a senhora Walberg morreu há muitos anos.Parece-me difícil formular esse juízo por uma simples fotografia. sem sombra de garridice. .Obrigada. . Tenho algumas cartas a escrever antes de me deitar. fronte altiva. boca um tanto contraída.Queres examiná-la mais de perto. numa voz de satisfação admirativa. . disse a senhora Harbreuze. Gualberto.vou dar-lhe a boa-noite. Desde que comecei a falar deante dela. com efeito. e que é oficial de lanceiros. coroada por uma vaporosa cabeleira. em que pouco antes se sentara sua prima. mas se atendermos à expressão da fisionomia. com cuidado.E quando é o casamento? interrogou a velha senhora. É. vou mostrar-lho. .Tens razão. verdadeiramente. Manuela inclinou-se por cima da senhora Harbreuze e fitou demoradamente um belo rosto de olhos soberbos. Gualberto guardou a fotografia na carteira... . Descruzou os braços e inclinou-se para a senhora Harbreuze. avó. vi-a bem.E irmãos? . o pai mandou tirar-lhe o retrato antes da minha partida. avó...Deve ser uma admirável noiva! disse a senhora Harbreuze com entusiasmo. Mas Manuela irá. E mostra também ser muito séria.Fez mal. que se havia curvado 34 novamente sobre o seu lavor e continuava a trabalhar.É com efeito extremamente séria. disse Manuela. . porque a minha noiva é. Tivera unicamente o cuidado de recuar mais um pouco. .

Não receies dizê-lo a tua prima.Agora boa-noite. Apertou a mão da irmã e saiu da sala.. esse Gualberto frio e . a alumiasse escassamente. penetrada de fervor. Mas com ele tinha de ser assim. . a pequena Tecla. fora prontamente reprimida por Marcelo Harbreuze.vou já para a cama. que tens tu ?. As lágrimas agora corriam ao longo do fino e miúdo rosto. boa noite. amava seu primo.Ainda te não deitaste. em que perpassava. juntando as mãos. e. A sua mágoa vibrava num estremecimento que a percorria toda.Fala. num meio diferente do nosso. e ajoelhou junto da sua prima. em que se encontrava o seu quarto. Também não precisava da resposta de Tecla para conhecer a causa do seu sofrimento. mas. 38 Depois que Manuela. sem pedir autorização seja a quem for. por vezes. Bem. disse Manuela. e que facilmente se tornaria semelhante a sua mãe. uma espécie de quebranto. desde que ficou chefe-de-família. Manuela. Voltou-se levemente à entrada da prima. como fazia todas as noites..É possível. queridinha. contíguo ao de Tecla. .. fêz-lhe compreender logo que também ele conservaria a independência mais completa. com o auxílio de Gertrudes despiu e deixou sua avó. Testemunhava a sua avó uma certa deferência. caindo na blusa de Manuela. Gualberto continuava a tradição. 39 . Manuela notou logo o círculo azulado que lhe orlava os olhos. sem que ninguém intervenha. olhava para fora. subiu ao primeiro andar. É um verdadeiro Harbreuze! Vibrava na inflexão da velha senhora um mixto de orgulho e de pesar.. Tecla. Parou à porta desta. mas precisava de tomar um pouco de ar. a tua irmã. notara a sua palidez e a sua tristeza durante alguns dias.Que inesperado acontecimento! murmurou a senhora Harbreuze. colocado na mesinha de cabeceira. . Deve casar-se segundo a sua idea. boa noite. sabes que não deves ficar para aí a cismar toda a noite. que só ele era ali o senhor. com a cabeça entre as mãos. Recordava. respondia num tom levemente trémulo. minha querida Tecla. Tecla. havia surpreendido lágrimas nos seus olhos. minha querida Tecla! Mas Tecla não respondia. ao levantar-se. A voz de Manuela elevou-se. Lançou os braços ao pescoço de Tecla e atraiu contra o peito a cabeça escura. seu marido. Estava muito calor na sala. mas desandou devagar o puxador e entrou. articulou o mancebo. Lábios um pouco ardentes roçaram as suas faces e viu que os olhos de Tecla estavam cheios de lágrimas. . . na noite sombria. sem dúvida. . ao amor do luxo. -Minha querida. disse em voz alterada. com a sua natureza autoritária e propensa à despesa exagerada. Tecla não passa 37 duma criança pouco inteligente. grave. Tecla. como.i Queres que façamos juntas as nossas orações? Inclinou afirmativamente a cabeça. Manuela não insistiu. por morte deste as suas veleidades de independência tinham sido rapidamente aniquiladas por seu filho Amadeu. embora o pequeno candeeiro.. à notícia da sua chegada. hesitou um momento. avó.Oh! isso não tem importância! comentou a senhora Harbreuze com desdém. tam afectuosa e sensível. Já por ocasião da última partida de Gualberto. de pé diante da janela aberta. querida? Pois bem. não tendo que dar contas a ninguém. e o regozijo que na véspera se lhe espelhara no rosto.

que ficou lá em baixo.. um dos mais tradicionalistas rocalandeses.Oh! Manuela. . compreendia que era melhor deixar cicatrizar a ferida em silêncio. Não te inquietes antecipadamente com o que poderá acontecer.De modo algum. mandarei pôr a electricidade. Manuela ? preguntou com uma inflexão de doçura na voz. Mas esqueci a chave da mala no bolso do sobretudo. minha querida. cujos sinais eram bem visíveis naquele rosto que parecia ter subitamente emmagrecido. porém. pediremos ambas.. Tecla apertou-a num movimento de ternura ardente. não poderia viver aqui!. E de-repente. tu não irás embora?. dandolhe um beijo nos cabelos negros. a alta figura de seu irmão. Por agora. trata-se apenas de ter coragem e resignação.. Trocaram pela última vez um beijo. Dize-me. na sua 40 inexperiência. minha querida Tecla. nem chegando talvez a medir. i Não estás fatigado da tua viagem. atraíu-a para ele. . murmurando: .. no mesmo convento. como coisa a que se não liga importância..Que pensas do meu casamento. em tom dolorido.indiferente. Não te farás religiosa. Pegou-lhe na mão. para que tu sejas forte. porque a tenho na fábrica.. que a tratava. onde Deus te quere ainda uma verdadeira cristã.Pede ao Senhor. . com o fino tacto que a caracterizava. E foi por isso que. para não nos separarmos. a bem dizer. Quando ia entrar no seu. lançando os braços ao pescoço de sua prima. Boa noite. minha Tecla. sem a interrogar mais. como alguns afirmam ? Manuela desviou lentamente a vista dos olhos suplicantes que se erguiam para ela. Será bom arranjar candeeiros mais fortes. com o auxílio de Deus.. disse numa voz sufocada: -£ Sabes o que nós faremos. .Mas porque não te deitaste ainda? Não é esse o teu costume. emaciado... Manuela. pois Deus há-de certamente permitir que fique junto de ti até que esteja fixado o teu futuro! . Amava-o e admirava-o timidamente. Manuela. . Manuela? Estes corredores estão muito mal iluminados. que sabe sofrer e esquecer. Manuela ficou muda de espanto. E era Gualberto. Fora necessária aquela notícia repentina do casamento de Gualberto para lhe abrir os olhos e infligir-lhe um sofrimento.Esse é o segredo de Deus. que pretendia fazer essa revolução! Sem dar a perceber que notara a surpresa provocada.Quem sabe ?. viu surgir no corredor.. quási receosamente. Gualberto? .Oh! o meu futuro! balbuciou Tecla. beijou demoradamente a fronte de Tecla. a escaldar.. A electricidade 42 numa casa de Rocalândia! Rocalândia-a-Morte. conhecendo esse coração sensível e duma altivez delicada. . o sentimento que a dominava. Manuela? Entraremos ambas no convento. Acabei de fazer a minha correspondência e vou agora descansar um pouco. . disse com suavidade. mostrando-te neste mundo.. como lhe chamavam. Mas as resoluções desse género têm de ser amadurecidas. e Manuela saiu do quarto. para onde abria o aposento de Gualberto.Demorei-me junto de Tecla. ele continuou. e isso é preferível. . ou então. felizmente posso contar contigo ! Se não fosses tu.És tu.

Penso que fazes bem.. Agora havia partido para Paris. amo-te. Ele mergulhou a vista na de sua irmã. a-fim-de comprar as jóias para a noiva. que essa união era o remate do edifício lentamente erguido. Parece-me difícil que uma mulher possa ser feliz junto de semelhante carácter. e. Manuela. e agradeço-te por o teres reconhecido.a Boutrin. não haverá quem não diga que. já é uma satisfação para os seres incapazes de experimentarem outras.Julgo. havia muitos séculos. onde geralmente se notava uma frieza desesperadora. a idea de que esse casamento podia ser o resultado duma real inclinação. procuro apenas a satisfação do meu amor-próprio. E não veio ao espírito de nenhum rocalandês. porque raras vezes o tenho demonstrado. Durante os quatro dias que esteve em Rocalândia Gualberto. Agora o seu descendente.E é evidente que essa condessa o desposa apenas por causa da sua fortuna. a bem dizer. Afastou-se. ou será apenas o seu orgulho que fala ? III Gualberto havia calculado bem qual seria a opinião dos seus concidadãos com respeito ao seu casamento. pretendia unir-se à alta nobreza. por exemplo. Estou quási certo de que. mulher do mais antigo médico de 45 Rocalândia. como diz a mamã. Mas. . pela sua fortuna e pela sua antiguidade. que tinha uma inveja surda pela posição dos Harbreuze. em toda a Rocalândia. pois julgavam Gualberto incapaz duma afeição sincera. não sabiam mais que os curiosos. declarou a gorda snr. cujos antepassados se entroncavam nas Cruzadas? E a menina Adelaide de Porbelin...Oh! com certeza. a escolha feita pelo senhor Harbreuze no alto da escala social não causava admiração a ninguém. -Julgas-me capaz de amar alguém. Quanto ao meu casamento.. concluiu numa espécie de riso sardónico. na Rocalândia. na verdade. o senhor Harbreuze. não é homem que possa inspirar afeição. concluiu num tom meio irónico.. a menina Luíza. numa espécie de gesto afectuoso. a-pesar-do receio que lhe inspirava Gualberto. respondeu ela com tranquila meiguice. terá a fortuna dele para a indemnizar. A mão de Roberto roçou-lhe o ombro. ao entrar no seu quarto. porque amas a valer tua irmã. Mas estas conseguiram furtar-se às preguntas mais ou menos discretas. . em vez de a procurar entre as donzelas de Rocalândia ou dos arredores? Se queria nobreza. . também ali a encontrava. sempre se tinham mantido no galarim. Desde sempre se dissera que ele só faria um casamento de ambição ou de dinheiro. porque. lacónico e . mais ambicioso ainda. Manuela? preguntou numa voz calma. tam glacial e desprovido de amabilidade.É verdade. não falou de sua noiva. que viu faiscarem aqueles olhos escuros. E essa. apoiou sua filha Luíza. 43 . pensava! Amá-la-á verdadeiramente ? . que possuía uma árvore genealógica soberba e cujo avô se tinha ligado à casa ducal de Saboia ? 46 Mas não.. levemente mordaz. Uma coisa apenas intrigava os seus concidadãos. E Manuela. meio zombeteiro. durante quinze dias. afinal.. se a que escolheste é digna da tua afeição. Gualberto Harbreuze tinha preferido escolher uma austríaca! Procuraram obter informações junto de Manuela e de Tecla. esses orgulhosos burgueses que. Afinal. Todos foram unânimes em declarar. que secretamente se sentia furiosa por não ter sido a eleita. pelos Harbreuze. Não havia as meninas de Greunézac. apenas um simples bilhete postal. nesta união.: Porque teria ido escolher uma estrangeira. disse gravemente.

que.. não ousou erguer a voz para protestar contra aquela profanação dos costumes ancestrais. Manuela recebeu um telegrama de Áustria anunciando a chegada de seu irmão para a tarde desse dia. As paredes foram recobertas com um estofo sedoso. E assim se soube que Gualberto. capaz de compreender uma natureza que era um enigma para a sua própria irmã. Manuela teve a impressão de que ele estava muito preocupado. que sofria silenciosamente. Os móveis chegaram por fim. Certa manhã.. no dia seguinte. do pesado relógio Império. Nada lhe escapava. depois de sua demora em Paris. já lhes não chamariam «modernos». Seria acaso essa condessa duma espécie diferente para se não contentar com o que havia bastado a tantas senhoras suas antepassadas ? Desde que soubera dos esponsais de seu irmão. sólidos e feios. A velha Harbreuze não manifestava também menor espanto. introduzido nos aposentos da noiva. que viesse a revolucionar por completo aquela pacífica habitação. mesmo distraído. suportava . passava-lhe adiante em questão de modernismo! O grande quarto do primeiro andar. móveis Luiz xv. dum cinzento-azul-pálido. 48 Era ele quem fiscalizava aquela instalação em todos os seus pormenores. Pedia também pela pequena Tecla. A chegada próxima daquela estrangeira provocava uma espectativa ansiosa em todas as pessoas da casa Harbreuze. que fora o da falecida mãe de Gualberto e Manuela. Manuela entregava-se às suas preces ainda com 49 maior fervor. escolhidos com um fino gosto. três dias antes da cerimónia. contra aquela reviravolta da velha moradia. porém.. pudesse adivinhar o que se passava naquele terno coração. Manuela não o acompanhava. acompanhando uma admirável guarnição de chaminé e diversos objectos de luxo. quando o neto não estava presente. Havia tido uma entorse e a viagem tornara-se impossível. realizavam prodígios de rapidez. Tecla desempenhava pontualmente os pequenos serviços que lhe incumbiam na casa. duma artística riqueza. punha o mesmo cuidado que antes nos trabalhos de costura. Anunciou que. receavam que ela fosse uma rabugenta. termo profundamente desprezível na boca dos rocalandeses! -Gualberto Harbreuze. chegariam estofadores de Paris para transformarem o quarto destinado à jovem senhora Harbreuze. tinha voltado para junto de sua noiva. apareceram também operários que iam fazer na casa Harbreuze a instalação da luz eléctrica. sem que ninguém.. inaudito para um Harbreuze. Gualberto partiu para a Áustria. a não ser sua prima. o que nele era realmente extraordinário. e as menos inquietas não eram as velhas criadas. ao mesmo tempo que eles. Pedia a Deus que ele encontrasse nesse estrangeiro uma esposa amorável e séria. repetia a cada passo com ar consternado: . que era uma revelação. e os operários. E.. como tinha por costume. vendo as transformações operadas por seu amo e o luxo. Os Viannes triunfavam. foi desobstruído dos seus velhos móveis de acajú maciço. o ídolo da região. chegou à casa Harbreuze.Mas que lhe passaria pela cabeça? Que loucura será esta?. quando se tratava de qualquer modificação a fazer na sua fábrica. Ah! agora. porque nunca o senhor Harbreuze o tinha manifestado até ali. 47 A senhora Harbreuze. das suas pinturas de repes granate.insignificante. Mas. entremeado com florinhas de tons menos vivos. sob aquela vigilância inflexível. Quando regressou.. Estava tudo pronto quando. e dos candelabros que o ladeavam. se isso era possível.

para fazer penetrar o sol no aposento que até ali se conservara fechado.. na verdade. que ostentava sobre uma chapa de cobre. vigiando o inevitável bife da grelha.E teria. acompanhava muitas vezes sua prima à igreja.. muito velha. Uma austríaca é quási uma alemã. Quando Gualberto partiu para a cerimónia.. muito correcta. que estava preparando. todas as quintas-feiras. a despeito dos esforços 52 empregados por Manuela para atenuar o efeito produzido. o seu sorriso era triste e forçado. mas excessivamente fria. Desceu depois e dirigiu-se à cozinha onde Vitorina esfregava a louça de cobre. No dia seguinte ao da cerimónia. ao começo da tarde. porém. chegaram as malas que continham o enxoval da noiva. fazia agora a sua viagem de núpcias pela Itália. a casa dos Viannes. iQue seria. Mas teria conservado os hábitos de outrora? Seria a mulher séria e piedosa que Manuela pedia a Deus para seu irmão? Suspirou ao pensar em Tecla. um bilhete menos estudado do que a carta dirigida a sua tia-avó. E diz ele que é séria! . essa jovem senhora? Gualberto afirmara que ela fora educada cristãmente. Porque não teria Gualberto escolhido a encantadora priminha. disse a senhora Harbreuze. julgaria que era a da criada.. e que espalhava um cheiro delicioso. -Gertrudes não está aí?. muito quente. Mas quanto não custariam estas malas! Se isto vai por semelhante caminho.. porventura? O senhor Gualberto faz mal em consentir semelhante coisa. Demorou longamente a vista no esplêndido crucifixo de marfim colocado à cabeceira da cama. Três semanas depois.com a mesma paciência resignada as palavras contundentes que nunca lhe poupara sua tia-avó e também não deixava de ir..Se não fosse esse distintivo. Eram magníficas e muito numerosas. transformado em gabinete de vestir e instalado com todo o conforto moderno. um telegrama anunciava a chegada dos jovens esposos. . acaso.. . uma coroa condal. i Não nos tinham a nós. Era um belo dia de Julho. Entre elas. abriu as duas janelas do quarto da recém-casada. Manuela.. sem se preocupar com o que 51 se pensava em sua casa a respeito dos seus actos. para que as melindrosas pinturas não perdessem a sua viveza. E agora. Mas fazia esforços para falar.. tão amorável e penetrada de sólidos princípios? Mas ele considera-a sempre como uma rapariga insignificante. a cozinheira. com certeza não fala francês. cuidadosamente polido. que se fizera conduzir até ao vestíbulo para examinar a bagagem. Mas Gualberto. como de costume. Recebeu em resposta. essa senhora necessidade duma criada de quarto só para ela ? acrescentou Vitorina. e as reflexões da avó mais o tinham fortificado nessa opinião.E depois. essa mulher há-de levar Gualberto à ruína. vinha uma pequena. Manuela entregou-lhe para a sua noiva algumas linhas em que punha todo seu coração. mas em cujas palavras 50 rebuscadas Manuela descobriu uma espécie de constrangimento. como havemos de entender-nos com essa criada de quarto? resmungou Gertrudes.. que a penalizou e inquietou. O olhar da donzela percorreu esse quarto elegante e que formava um estranho contraste com o resto da velha casa. a fogo lento com todas as regras. a quem preocupava muito a idea de ver uma estrangeira pôr os pés na cozinha. no próprio dia do casamento. A condessa Otília havia escrito à senhora Harbreuze uma carta bem redigida. Ainda não acabou a limpeza da sala de jantar ? . A donzela foi lançar também uma última vista de olhos sobre o aposento vizinho.

pegou na tesoura e no cestinho que lhe estendeu Manuela e retirou-se ao longo dos arruamentos estreitos. Parece-me que o teu bife.Ainda de lá não saiu! Eu bem lhe disse que a jovem senhora não veria à noite se aquilo brilhava mais ou menos e que teria tempo de concluir amanhã. orlados de buxo. Aquilo também não estava nos hábitos da casa Harbreuze. O jardim da casa Harbreuze era extenso e disposto à moda antiga.Gertrudes. Manuela. mais furiosamente que nunca. Quero apenas colher algumas rosas. a qual ficou rapidamente cheia. de que se orgulhara muito outrora Amadeu Harbreuze. lisonjeada pela reflexão. mas duvido. Gualberto que desdenhava as flores. colocado à sombra duma tília magnífica. e os cabelos grisalhos. . tratavam-na sempre pelo seu nome próprio.. nesse caso. Mas. eu vou buscá-las. vou descansar dentro em breve.Não ralhes. escapando-se-lhe duma touca encanudada. Manuela nunca se recordava de ter visto uma flor dentro da habitação. de espécies soberbas. sendo essa. se quiseres. estava sentada Tecla a bordar cuidadosamente. pôs-se a pulir os móveis já luzidios. Deixa agora isso e descansa um pouco. . Escolhe as que quiseres. para colocar no quarto da mulher de Gualberto. para lhe desejarem boas-vindas.interrogou Manuela. gracejou Vitorina.Descansar? Não será hoje com certeza! Quero que tudo fique a brilhar. mas não quis ouvir-me. Tinha o rosto afogueado. Ergueu a cabeça ao sentir os passos de sua prima. Gertrudes limpava os móveis com furor. eu bem sei que Gertrudes é a teimosia em pessoa. contudo. vou ver se serei mais feliz do que tu. o que era aliás costume imemorial entre as criadas da família Harbreuze. Manuela renunciou ao trabalho de convencer a obstinada criada e dirigiu-se ao jardim para colher algumas rosas. É para mostrar a essa austríaca a maneira como nós sabemos arranjar uma casa. replicou Manuela. como o fazia prever a instalação organizada por Gualberto. não substituindo.É preciso que ele faça honra à nova esposa. Manuela. a única extravagância da sua vida.Levaremos para a capela as que sobrarem. exclamou Manuela. que desejava colocar no quarto de sua cunhada. Sobre um velho banco carcomido. não vale a pena fatigares-te assim. Continha apenas roseiras.. que tinham visto nascer a jovem ama. quando Tecla reapareceu: o perfume seria demasiadamente forte no quarto. cheira melhor que de costume! 53 . Vitorina. E. devia gostar de flores e sentiria satisfação em vê-las no seu aposento. com a intuição delicada que a caracterizava. As duas velhas criadas.Isso é demais. lembrou-se 54 de que uma mulher nova. e disse em tom de censura: .i Então andas a pé. de gostos apurados. afinal. a não ser aquelas com que Tecla e ela adornavam os pequenos oratórios dos seus quartos. Após alguns esforços infrutuosos. minha querida. minha Tecla. 55 -Bem. que as fizera pagar por alto preço. colavam-se-lhe nas fontes. Sim. Senta-te aqui e continua o meu bordado. . . Levantou-se. . conservava-as e mandava-as tratar por hábito. Na sala de jantar. sorrindo. . disse Manuela em tom de censura. Foi colhendo rapidamente as mais belas rosas que lançava na cestinha. as que eram destruídas pela geada ou por qualquer outra causa. Manuela? i O doutor não recomendou que te não fatigasses? .

. e parou um instante à porta. O olhar de Tecla poisou por momentos na pequena cruz que ornava o modesto anel de prata que tinha enfiado no dedo. mas estou empenhada em levar estas rosas. ficou ainda ali alguns momentos. Não se apressou e. -Desta vez Manuela não resistiu.Meu Deus. as lágrimas saltaram-lhe dos olhos. . depois dirigiu-se para as flores que segurava Manuela. . 57 -Deixa-mas levar. reunindo as rosas escolhidas. no seu passo leve que nunca se fazia ouvir na velha casa. de feições contraídas.É verdade que tenho sentido esta tarde uma ligeira dor. O coração de Manuela apertou-se. levá-las ? Isso nunca! . irei eu levá-las. Os viajantes não deviam tardar e tinha de preparar-se para aparecer diante deles.Bem: esta amarela côr-de-enxôfre. Passou a mão pela fronte. estas rosas pálidas. sempre escuro. como se estivesse empregando um esforço prodigioso. surpreendida por tanto luxo.. Como se estas palavras lhe tivessem quebrado a coragem. farei todo o possível para a estimar! murmurou ela. disse com meiguice. que lhe era completamente desconhecido.. estendendo a mão. . .Tu. No vestíbulo. Manuela não pôde evitar um movimento de protesto. . Desceu lentamente. mas parece-me que posso subir sem inconveniente. Refugiou-se no seu quarto. Isso faz-me mal.. .Mas tens de subir outra vez. Ainda ali não tinha entrado.Deixa ver. Manuela.. de jantar.. juntando as pequenas mãos geladas. como tam rápida e dolorosamente foi cortado! cessaria também para ele o seu desabrochar ? -vou agora colocar isto no quarto. que cobria o soalho. O teu pé ainda não mostra estar completamente curado. e percorreu o quarto com um olhar. dois vasos de cristal elevavam o seu comprido colo. os seus olhos meigos e melancólicos. disse gravemente Tecla. Pobre botãozinho de rosa. exprimiam uma resolução tam firme. . Entregou as rosas a Tecla.Não gosto de cortar botões.Sim. Manuela! Afirmo-te que estás a abusar. Sobre uma elegante pequena cómoda. e. Tecla. disse Manuela. que se entreabria com timidez.. Subiu as escadas devagar e dirigiu-se para o quarto da nova senhora Harbreuze. bem sei que tens mais gosto do que eu. onde Gertrudes acabava . levantou os olhos para o crucifixo de marfim. a-fim-de as levarmos amanhã para a capela. Porás as outras 56 em água. Os dedos trémulos de Tecla colocaram neles as flores com um cuidado meticuloso e fino gosto. e 58 uma delas foi cair no espesso tapete branco de largos desenhos azulcinzento. e esta branca nacarada que é soberba. havia agora um pouco de luz que vinha da porta aberta da sala. Também podias ter cortado alguns botões.Então julgas que não sou capaz de as dispor convenientemente? Esforçava-se por sorrir e os seus olhos azues. que se afastou rapidamente. como tinha feito Manuela pouco antes. Avançou por fim. parece-me que suspendo o desabrochar duma vida. que Manuela teve um estremecimento de admiração diante da inconcebível coragem da sua amiguinha. limpou os olhos e passou-os com água fresca. depois de concluir.

pois quero apresentá-la a minha avó. dessa que seria agora a dona-de-casa. encontrava-se o logar da estrangeira. Manuela tinha-as deixado ali sem dúvida para que sua prima pusesse as flores na água.Otília. porém. parava a carruagem com os recémcasados. à porta da casa. para lhe responder. Em frente de Gualberto. e um dos soberbos serviços adamascados que tinham sido o orgulho das senhoras Harbreuzes. Àquela vaga claridade. Ofereceu a Manuela a sua mão fina. Todo o serviço de mesa era duma correcção perfeita. Manuela. Mas não respondeu que também .de pôr a mesa. dizendo com voz harmoniosa. ofereceu a face ao beijo da velha senhora. Não imagina a alegria que sinto em acolhê-la! Otília inclinou a sua bela estatura delicada. Otília cumprimentou a velha senhora. estendeu prontamente a mão para o comutador. Saiu de-repente. Otília. . Emquanto falava. disse Gualberto..Ora ainda bem!. Tecla distinguiu na banqueta de madeira encerada o cestinho em que se amontoavam as rosas colhidas a mais. O entusiasmo que arrastava Manuela para aquela mulher. e. onde. ainda não conheço essas manigâncias! respondeu Gertrudes que aparecia. mas fria.Mas então não acendem a luz? Para que serviu pôr a electricidade. . voltando-se para a jovem senhora. haviam tirado naquela noite uma parte da porcelana dos dias solenes. se não se servem dela para iluminar este vestíbulo horrivelmente escuro? disse a voz impaciente de Gualberto.. duma incontestável riqueza. Deslizou até junto da mesa. levantando o véu. pôs rapidamente diante do talher da jovem senhora um solitário com três admiráveis rosas e desapareceu tam suavemente como tinha entrado. Esta levantou-se rapidamente e dirigiu-se para o vestíbulo. Quási ao mesmo tempo. querida filha.Oh! senhor. . cerimoniosamente. e o sombrio vestíbulo ficou subitamente iluminado em toda a sua extensão. .Venha. muito espesso. mas também duma frieza não menos indiscutível. Entraram na sala. que o não deixava distinguir. que se tornara sua cunhada.. em que ela não era pródiga. Boa tarde. com uma leve acentuação: . 59 Os olhos de Tecla abaixaram-se sobre o logar da nova senhora Harbreuze e as suas mãos apertaram-se-lhe sobre o peito.Beije-me. 60 Manuela. O rosto da recém-chegada estava oculto num véu de gaze branca. acrescentou. com um elegante vestido cinzento. .. e apenas encontrou. bem como as pesadas pratas da família. Gualberto falou-me muitas vezes da menina dizendo quanto lhe era dedicada. ia avançando e estendeu a mão a sua irmã. apresento-te minha irmã. À entrada da casa apareceu Gualberto e junto dele uma senhora alta. A donzela entrou na sala de jantar e percorreu a mesa com a vista. A velha senhora Harbreuze ouviu-a na sala em que se encontrava com Manuela e ajeitou com a mão febril os folhos da touca de renda preta que lhe tinha posto sua neta. embora correctas e harmonizando-se perfeitamente com a atitude da recém-vinda. bem enluvada.Sinto o maior prazer em conhecê-la. esmoreceu rapidamente. muito esbelta. . algumas palavras sem calor. mas voltou dez minutos depois. trazendo à cinta um largo avental branco. Em sua honra. como para reprimir uma luta que se travava dentro dela. que lhe 61 estendeu as mãos com uma solicitude amável.

Minha senhora?!. que acabava de entrar. . Gualberto curvou-se para ela.se sentia satisfeita por entrar naquela casa. É ainda muito nova. disse num tom contrafeito. talvez seja um efeito do acanhamento.É a minha Tecla? .Sim.Digo que me agrada muito. . Tecla. desculpou Manuela. de friesa. onde deu algumas ordens.. deve chamar-me Otília. Otília inclinou-se para a donzela. para que o jantar não demore.. E que modos tam distintos. . encontrou-se junto de Tecla. Deves chamar-lhe Otília. Os seus olhos de azul-escuro.Talvez não esteja à vontade... sem dúvida. mas fará honra a Gualberto. sim. Mas é melhor vê-la em pessoa. . para não perturbar as expansões que supunha se iriam dar 62 entre a avó e o neto. magníficos sob a franja dos cílios doirados. Nesse movimento. Que te parece. Os lábios de Otília tiveram uma rápida contracção.. tam graciosos! Acho-a. com um movimento suave mas firme. de olhos fitos na porta por onde haviam desaparecido Otília e Gualberto. de 64 reserva.É ainda mais bela do que eu julgava! murmurou a velha.. e a todos nós. respondeu com a maior tranquilidade. Manuela. à criada de quarto de sua mulher. em que pareceu a Manuela que acabava de perpassar num sopro gelado. e preguntou com uma voz em que perpassavam inflexões carinhosas: . avó? O seu sofrimento não aumentou ?. . . . a quem dominava com a sua estatura elegante. e algo dolorosa. e vivia isolada no seu castelo.Ora deixe-me contemplá-la bem! disse a senhora Harbreuze. não é verdade ? A jovem senhora endireitou-se.Sou. A bela fisionomia fria e altiva pareceu distender-se levemente. apenas. Sem responder à pregunta de sua avó. . ela agora é tua prima.O contrário é que seria para estranhar. Verdadeiramente. disse Gualberto. 63 acrescentou Gualberto.. Gualberto passou-lhe à frente para a abrir e seguiu-a ao vestíbulo.. Gualberto ficaria muito descontente se o jantar sofresse qualquer demora.. em alemão. A sua mão pegou na de Tecla e apertou-a frouxamente. A jovem senhora inclinou afirmativamente a cabeça e dirigiu-se para a porta. minha tia. Otília precisa de se deitar cedo.. .. Otília havia recuado um pouco. vai agora ver se tudo está pronto na cozinha. minha senhora. voltou-se levemente.. a-fimde lhe dar o beijo frio que era também de tradição sempre que vinha de viagem.. conservando-a inclinada para ela. envolveram o meigo rosto empalidecido e encontraram as pupilas côr-de-violeta que a fitavam com uma espécie de admiração tímida. -Vamos para os nossos quartos Otília. depois de descer. por se encontrar no meio de pessoas estranhas. a sua fotografia estava muito parecida.. -iNão há nada de novo por aqui. acrescentou vaidosamente a velha Harbreuze. À pregunta da tia-avó. retirou a mão vagarosamente. Agora vamos subir aos nossos quartos. apertando por sua vez a pequenina mão ardente de sua prima. e. muito altiva. com um pouco menos de.Evidentemente. julgo que poderia ser verdadeiramente encantadora. Tecla ? Tecla tinha ficado imóvel.

As suas feições eram duma delicadeza rara. . Parece quási uma princesa! Quadra perfeitamente com o senhor Gualberto. Manuela. Mal a sua poltrona se instalou à direita do neto. completava harmoniosamente aquele conjunto delicioso. Porque ela era realmente bela.Mas tu serás tola? Que idea foi essa? . um átomo de afectação. minha tia..Isso não tem importância.Que lhe dizia eu Manuela? Esta criada de quarto não sabe duas palavras de francês! Deve ser muito impertinente! E. Durante o jantar. E parecia não haver nela. embora se mostrasse duma suprema elegância 67 com a sua blusa de seda azul-marinho. e contava as suas impressões numa linguagem atraente e profunda. . pela qual estou reconhecida a Tecla. embora tivesse perdido o uso das suas pernas. Manuela foi cumprir a sua missão junto de Vitorina. . conservava. guarnecida apenas com uma soberba gola de renda.Manuela saiu da sala. Tecla. cujo olhar discretamente penetrante examinava sua cunhada. não.Que vem a ser isso ? Quem pôs aí essas flores? exclamou num tom de surpresa e de descontentamento. contudo. viu desvanecer-se de 66 súbito o brilho da emoção que em seus olhos provocara a delicada lembrança de Tecla. aproveitara muito com essa viagem. muito ruborizada. Manuela. dos criados. disse a voz harmoniosa de Otília.Fui eu. não deve ter menos de sessenta anos. e a vaporosa cabeleira. mas fixou com indignação aquela pequena tola. a vista pronta e aguda.Uma linda idea. Mas Otília e Gualberto não tardaram a aparecer e dirigiram-se todos para a sala de jantar. balbuciou : . . 65 Inactiva. Possuía. . . E os seus belos olhos azues. como pouco antes o observara a velha Harbreuze. Gertrudes fiscalizava o serviço de dois homens que transportavam a mala de Gualberto. Em face da manifesta aprovação de Gualberto. . mas tem um ar!.. Tecla acrescentou Gualberto olhando sua prima com ar de aprovação. falou-se apenas da viagem que acabavam de fazer Gualberto e sua mulher. depois voltou para a sala onde retomou o trabalho interrompido com a chegada dos viajantes. Gertrudes.Não.Fizeste bem. que se atrevera a infringir os hábitos da casa. digo-lhe que isto não correrá bem com ela! A jovem senhora é realmente muito bonita. a brancura rosada da cútis podia considerar-se incomparável. a velha Harbreuze pôs termo às suas recriminações. fitaram a fisionomia confusa de Tecla.A velha Harbreuze. além disso. nem de garridismo. No vestíbulo. inteligente e artista. subitamente enternecidos. a-pesar disso. uma distinção soberana e uma graça extrema em todos os seus movimentos. penteada com muita simplicidade. Tecla sentou-se junto dela. Esta. contra o seu costume. pois não impede que seja porventura uma excelente pessoa. que a fazia temida. além disso. . Adivinhaste que Otília gostava muito de flores. descobriu logo as rosas colocadas em frente de Otília. dum loiro doirado. que também sabe conservar a gente a distância. O seu rosto animava-se por vezes e a sua beleza tornava-se ainda mais notável. A velha criada voltou para a jovem ama o seu rosto aborrecido.

sem dúvida talvez por delicadeza para com sua mulher. Otília comia lentamente. vinha do lado dos aposentos de Gualberto. Consente que sua mulher coma devagar e nem ao menos lhe diz: «Vamos um pouco mais depressa!» E sabes que nem sequer provou o teu famoso bife? Ela não gosta. Não contando ainda com a arrelia que me causa essa espécie de alemã.Quando subia. Gualberto. que. se não pudesse passar sem isso. a pressa habitual. e afastaram-se. que se sentara um pouco a distância. é um hábito de que me desfarei sem dificuldade. depois do jantar. recordou-se involuntariamente de que Gualberto havia dito num dia. depois de Gualberto haver chamado a criada de quarto. Manuela! O teu pobre pé amanhã deve estar inchado.Mas não quero que. No entanto.É impossível que o senhor Gualberto não esteja doente! disse Gertrudes a Vitorina. Tecla também estava cansada.E cheirava tam bem! suspirou Vitorina. Demais. . iria fumar para outra parte. a que não parecia fazer grande honra. esquecendo-se de comer.Tu não fumas.. mas a porta que dava para o corredor encontravase aberta.. Quanto a Tecla. Depois de fazer as suas orações e de arranjar os cabelos. e recolheu cedo. abriu a porta que dava comunicação para o quarto de Manuela.Gualberto pensava. é uma satisfação de que me custaria muito a desfazer. e ele esperava com uma paciência pouco vulgar. e o senhor Gualberto recomendou: «Não tornem a fazer este prato. depois veio sentar-se em frente da jovem senhora. 69 Tecla. parecia incomodá-la muito o calor. essa ouvia. a quem replicava com prazer Manuela. dotada duma certa soma de conhecimentos literários e artísticos. Segundo o seu hábito. Otília estava visivelmente fatigada. Gualberto? preguntou sua avó com surpresa. E o olhar desconfiado de Vitorina dirigia-se para a mulher alta e magra que estava sentada ao canto da grande mesa. Tenho de os pôr ao ar. que geralmente se conservava fechada. o gesto de se abanar.Otília não gosta do cheiro do tabaco.. naquela noite. com certeza. porque Otília não gosta dele». Não gostar do nosso bife de grelha!. O quarto estava deserto. . . Despediram-se da velha Harbreuze e das donzelas. . O senhor Gualberto não deveria ter casado com essa delambida. que devia vencer o seu laconismo habitual.Não é um prazer. vai voltar a casa do avesso. porque se mostrava muito cavaqueador. no intuito de pedir a sua prima um livro piedoso em que esta lhe falara. e Tecla descobriu Manuela. para que desapareça todo o cheiro de tabaco que poderia. embora não tivesse viajado.. não mostrava. No entanto. com certeza! Que tinhas a fazer com tanta urgência ? . incomodar sua mulher. que. Apresentou uma cadeira a sua mulher junto da avó.. Gualberto chamou-me para 70 me entregar estes fatos. falando com o sr..A caminhar ainda. disse a jovem senhora num tom calmo e frio. Gualberto reconduziu para a sala a poltrona da velha Harbreuze. se prive desse prazer. quando levava para a cozinha o famoso bife de grelha. que faltavam por completo a sua avó. . de vela na mão e um embrulho de roupa debaixo do braço. foi abrir a segunda janela. por ver Otília a fazer com o lenço. 68 Parece-me muito exquisita essa senhora!. . Os viajantes demoraram-se pouco na sala. diante duma tigela de sopa. Viannes: Não posso dispensar um charuto depois de jantar. vou estendê-los no . aproveitava todos os pretextos para deixar falar Otília. por causa de mim. .

Em nossa casa. como receava. Sim.. Além disso. ficou admirada por ver que Manuela prolongava a sua meditação depois da missa.Que ela sofria ?. só havia Josefa e um velho criado.Está quási pronta. concluiu ela num bafejo quási imperceptível. e.. disse Manuela. não hesitaria em fazê-lo. poderás ir bater-lhe á porta daqui a pouco. Que ideas são essas. Pois acredita . . mas talvez aceite o teu auxílio.Tecla encarou-a com surpresa.Muito bela.. mas muito fria. . Precisava apenas de saber onde poderei encontrar uma vassoura.Não te parece ?.. na véspera. vou para a fábrica.Fria? disse Tecla com certa admiração. e esta viagem de três semanas.Mas o que vem a ser isso? deixe ficar esse trabalho para Gertrudes. . e entrou acedendo ao convite que esta lhe fez.. para a não detestar. no entanto. Deram sete horas e meia. estou já acostumada a este género de serviço. disse Otília com a maior tranquilidade. Quando Manuela. teve uma exclamação de surpresa ao vê-la ocupada a fazer a cama. que se conservava muito penalizada diante dele.Não me parece! disse espontaneamente Manuela. .Mas consinta ao menos que a ajude! . oferecendo a mão a Manuela. e ninguém punha a mão na minha cama. ela atrai. se quiser desfazer as malas. para. talvez seja.i Poderei acaso ser-lhe útil ? disse Manuela. .Eu vou procurar uma. as demoras nos museus principalmente.. compreendera que qualquer coisa. mas Tecla aproximou-se e pôs-lhe a mão no ombro. estendendo-lhes a mão. pela primeira vez. 73 . Manuela? . Tem uma saúde muito delicada. momentos depois.. que. tinha ao menos essa perspicácia que vem do coração. 72 Voltou-se ao ouvir no lajedo os passos das donzelas e avançou. e vi também que ela sofria.Nem por isso. . minha Tecla? .Sim. notei qualquer coisa nos seus olhos. Senão possuía a observação arguta de sua prima. queria fazer o serviço. quando me fitou.. No vestíbulo. .. e Otília mandou recolher à cama a pobre mulher. . encontraram Gualberto a repreender Gertrudes. Gertrudes. É tempo de ver como as coisas por lá caminham. Não está acostumada a utilizar-se de alguém para o seu serviço pessoal. foi ela quem varreu o quarto. bateu à porta de sua cunhada. como tu e Vitorina.. Está neste momento a vestir-se... a-pezar-de tudo. . quando as duas primas voltaram para casa. Mas Josefa apareceu esta manhã com uma terrível enxaqueca. não quero incomodar ninguém . E foi por isso que imediatamente gostei dela.Que nunca se repita semelhante coisa. sem ter de fazer esforço. IV Tecla.. -i Tua mulher passou bem a noite? interrogou Manuela. fatigaram-na muito.. vi-o nos seus olhos.. . impressionara desagradàvelmente e inquietava talvez Manuela. . Compreendi então que ela era boa. . porque embora me custe muito separar-me das criadas fiéis. como lhe pedi. dizia ele em tom áspero. na jovem senhora Harbreuze. obrigada. Agora.Que tal a achas tu. se visse que Josefa tornara a ser desagradàvelmente tratada por vós. disse Tecla gravemente.Não.quarto amarelo e deixar as janelas abertas. Talvez. Precisa de se refazer na tranquilidade da nossa casa. . A despeito dos protestos de sua cunhada. Deu alguns passos.. no dia seguinte.

depois Otília passou sobre os móveis um pano de flanela com um cuidado que mostrava.Mas é muito fatigante para si. quando Manuela em cima dum escabelo a interrogava sobre a maneira de dispor nos armários as peliças magníficas.Se me permite que a ajude. Gualberto não quere que o faça sozinha.Nesse caso. Se me não tivesse ajudado. lhe pareceu a indiferença. mas essa dá-me pouco trabalho. ficaria realmente fatigada. Quando descia. E Manuela secretamente admirada. As belas pálpebras loiras franziram-se levemente. . Os meus agradecimentos. . .Oh ! nada. evidentemente. que Manuela julgou-se joguete dum sonho. para arrumar com isso de-pressa. que a original criatura nem sequer tinha curiosidade de abrir. Mais estranha. viu passar sob seus olhos todas as maravilhas dos presentes oferecidos por Gualberto à sua noiva. respondeu ela.Ele não quere? Nunca me disse semelhante coisa.E E que poderei fazer eu agora? preguntou Manuela. obrigada. junto da aliança. percorrendo o quarto com a vista. por parte dum Harbreuze.. como em seu logar o teria feito outra jovem casada. E aquele gesto meigo. que Manuela ficou visivelmente impressionada. 76 Voltaram ao quarto da jovem esposa. Otília abriu ao acaso a primeira caixa que encontrou. aceito. .Oh! não se incomode! Nada tenho agora de urgente a fazer. . . um desprendimento absoluto por todos esses objectos preciosos que as suas mãos finas e brancas. . . Manuela. Manuela. e Manuela preguntou: . as jóias e adornos que continham. Dentro encontrava-se um antigo missal cuja capa desbotada tinha impressa uma coroa de conde. com que a havia cumulado. . para mostrar a sua cunhada e contemplar mais uma vez.Emfim. Agora vou arrumar a minha mala devagar.Ponha para aí onde quiser. quando viu o fundo da derradeira mala.não poderia dizer 75 mesmo o desdém?-com que Otília tratava todos esses esplendores. De passagem.Na verdade. disse Otília dirigindo-se para o compartimento onde estavam dispostas as numerosas malas. manejavam com uma espécie de impaciência. . muito obrigada! vou começar a desfazer as malas que estão ao lado. com efeito. que seria natural reconhecer em quem usava o garboso título de condessa. Indicava a velha malinha. os cartões cheios de rendas. . a donzela encontrou no fundo das escadas Tecla. o diamante de noivado.Não desejava roubar-lhe o seu tempo. Essa prodigalidade era tão inverosímil. Otília ? . está concluído! exclamou com um suspiro de satisfação. quási respeitoso contrastava por tal forma com a sem-cerimónia que presidira à arrumação do conteúdo das outras.. Manuela viu num canto do quarto a velha malinha aberta. os escrínios. Vestia também com muita simplicidade. contudo. já não precisa mais de mim. a sua longa prática. Mas as enxaquecas da pobre mulher duram às vezes dois dias e acho preferível desembaraçar-me disto o mais de-pressa possível. todos os objectos preciosos. em que cintilava. nada fazendo supor nela o desejo de ostentação e de luxo. Manuela teve até por momentos no espírito a palavra «repulsão».Não. talvez. Aconselhou-me simplesmente que esperasse 74 o restabelecimento de Josefa. de requintado gosto. Havia nela. que levava . ao menos.

Parece-me que tem rosas muito bonitas no 78 seu jardim. . Mas porque diz «seu jardim» minha querida filha ? É « nosso » que deve dizer agora. avó. Quando Gertrudes estiver mais calma. timidamente. tam cioso da sua superioridade masculina. . colhidas de fresco. a quem positivamente havia penhorado a gentileza da sua nova prima. já de opinião antecipada. . Aparecia no limiar da porta. Mas parece-me que Gualberto devia 77 poupar um pouco essas fiéis criaturas. de passagem. aumentando os lucros todos os anos.Gualberto ainda não veio. um pouco abandonada nestes últimos dias. . . que ela lhe abandonou com um gesto ao mesmo tempo gracioso e altivo. e mostrou-se muito irritado. Aflorou aos lábios pálidos de Otília um sorriso forçado. recuou um pouco. disse a senhora Harbreuze. Era uma fantasia de meu marido.. . mostrou-se quási afectuosa para ela e conservou demoradamente entre as suas mãos a mãozinha nervosa de Tecla. da saúde de Otília. e principalmente Gertrudes. e avançou depois para a segunda janela.As nossas velhas criadas. ao mesmo tempo. minha senh .. pouco antes do almoço. que então recebia instruções da velha Harbreuze. Os lábios de Otília crisparam-se. quando pronunciava aquela palavra. Passou pelo rosto da jovem senhora uma rápida contracção... lançou-lhe um olhar ríspido. Tecla informou-se. Mas é também por isso que eles correm admiravelmente. se Gualberto der licença. também lhe direi algumas palavras a esse respeito. e nem sequer lhe deu o arrogante bom-dia que costumava dirigir a suas patroas. num tom de surpresa e ironia. de cabeça descoberta.Os negócios são a sua preocupação constante. porém. Nesse caso. acolhendo a essa estrangeira.Pareceu a Manuela.Ainda não estou habituada. com um movimento que parecia provocado por uma surda irritação. Há-de desculpar-me.Pedir-me o quê ? inquiriu a voz de Gualberto. Mas. apareceu na sala a criada. disse ela a sua prima. não vale a pena pedir-lha por coisa tam insignificante. Eram maneiras também desconhecidas na bur guesia de Rocalândia. Gertrudes.. Avançando para Otília.Ah! i é preciso pedir licença para isso a seu 79 primo? disse Otília. Esta.. inclinando-se um pouco. que entrava com Tecla. apertando afectuosamente a mão de Otília. mesmo entre casados. não era de feição a esquecer facilmente a áspera admoestação que recebera de seu amo. e procederam mal.para as águas furtadas uma cesta de folhas de tília. numa voz que vibrava uma certa impaciência. . Deve-se ter demorado na fábrica. .Sim. são muito bonitas.Terei também esta manhã rosas junto do meu talher? preguntou a jovem senhora com um sorriso. . pegou-lhe na mão. Mas tal homenagem parecia ainda mais extraordinária por partir de Gualberto. . . . e levou-a aos lábios. . Parece que ouviu a criada de quarto a queixar-se à patroa da forma desagradável como a tratavam na cozinha. que a garganta de sua cunhada se contraía. onde se beijavam sem cerimónia.Não tive coragem. E.. de bom grado as porei lá todos os dias.. quando Otília. emquanto a avó continuava. são ásperas de génio. disse ela.Gertrudes está ainda a chorar por causa da repreensão que lhe deu Gualberto.

Tecla! Então não aprovei ontem a sua lembrança? Ponha todas as flores que quiser. Otília. .. é essa a moda na sociedade em que ela tem vivido. mas provinha quási inteiramente. .Já não terão aqui o mesmo encanto que nas fachadas dos velhos palácios em que as vimos . Desviou os olhos. era Manuela quem dirigia a casa. não era motivada pela atitude de Roberto. para não dizer unicamente. que ainda encerra alguns curiosos restos de arquitectura antiga. Desde que sua avó se encontrava imobilizada pela enfermidade. disse friamente a jovem senhora. ainda assim. Sobre o rosto de Otília derramou-se uma palidez súbita. No dia em que estiver disposta. que distava da casa alguns quilómetros.Deseja sair de tarde. que envolvia todos como um manto de gelo. talvez. porque estas começam a envelhecer. olhando alternadamente para sua esposa e para Tecla. que não podia afastar. mas um prazer. -Que gracejo. éramos muito diferentes nos primeiros tempos do casamento ! Provavelmente. . se as do jardim se 80 esgotarem.. Gualberto não devia ter ido lá procurar sua mulher. Teu avô tinha um carácter semelhante ao de Gualberto. mas. Nesse caso. disse Otília com indiferença. no olhar que dirigiu para sua mulher. dessa mulher enigmática e altiva. fingindo absorver-se na contemplação do jardim inundado de sol. volto para a 81 fábrica. O tom de Gualberto era levemente mordaz. respondeu num tom calmo e cortez. terei de plantar novas roseiras no ano que vem..Gualberto é também muito reservado. Acompanhou Otília ao quarto e retirou-se logo.E Que me querem então pedir? repetiu ele. sem lhe pedir licença.Não é preciso incomodar-se por minha causa. quando sua neta veio sentar-se junto dela com o seu lavor. porque a velha Harbreuze. É preciso que os hábitos se harmonizem. na carruagem que o esperava para o conduzir à fábrica. Gualberto parecia ter readquirido a sua taciturnidade.. para que o casamento seja feliz. porque via seriamente comprometida a felicidade de seu irmão. Não podia repelir a idea de que semelhante reserva. mexeriqueira .Oh! nada de importante. Mas dizia estas coisas sem convicção.. Sua prima diziame que não poria todos os dias flores junto do meu talher. . mas simples flores burguesas. e é por isso. . disse tranquilamente. Otília? preguntou Gualberto ao levantar-se da mesa. Tarefa árdua. como aquelas que tanto admirou na Itália. mais solícito com sua mulher do que se poderia esperar dum homem do seu carácter. e mande comprá-las. . . -Como são cerimoniosos! disse a velha Harbreuze. que sua esposa 82 não sai daquela reserva cerimoniosa que nos parece muito singular. Mas. Gertrudes veio anunciar o almoço. Eu também não era muito sentimental..Não será um incómodo. e tam frio que não provoca a expansão por parte doutrem.Como quiser. aristocráticas. que decorreu silencioso. com efeito. Mas.. Também plantaremos clematites. . e Otília mostrou-se duma friesa excessiva. disse Manuela. sistemática e glacial. que lançava no coração de Manuela uma inquietação indefinível. nesse caso. . Manuela julgou surpreender uma inquietação.Já não serão.Oh! de nenhum modo! Quero descansar e tenho ainda que arrumar algumas coisas. levá-la-ei a tomar conhecimento com a Rocalândia. mostrar-lhe a nossa velha cidade.

Que compre o que houver de melhor. a jovem esposa disse em voz alterada. disse por fim Manuela. Mas.e minuciosa. antes do almoço: . que regressava da fábrica mais cedo que 85 de costume. não procure fazer economias 86 como tem por costume. e a acolheu com a delicadeza reservada que parecia constituir o fundo do seu carácter. Quando voltava daquela palestra com sua cunhada. repito.. com as feições contraídas e muito pálidas. . Manuela.. Continua. Tudo corria bem. no decorrer duma doença. Mas que idea! ela não pode invocar a sua inexperiência. Manuela. Agora porém. Que Vitorina.Não quero. porque se sente excessivamente fraca de há um ano para cá. -Eu. subiu. quando Manuela lhe indicou o fim da sua visita. manifestou uma grande surpresa e um movimento de desgosto. porque era quem dirigia todos os serviços na casa de seu pai. pois. e nunca o estarei. No dia seguinte de manhã. pois Gualberto tinha por costume impor a sua vontade e fazê-la triunfar sem dificuldade. dirigia esta casa?. com a transmissão de poderes à nova dona-de-casa. que a donzela ouviu dizer a seu irmão. pois. Hei-de falar-lhe. quando ele desceu. Um Harbreuze a queixar-se da economia de sua criada! Um Harbreuze a declarar. Manuela encontrou no vestíbulo Gualberto. Manuela. A cunhada é agora a dona-de-casa. sem mim. tinha sempre que censurar e não poupava sua neta com observações bem acrimoniosas. de-certo. mas esbarrou com uma vontade inquebrantável.Quando me lembro do que o médico ordenou que me desse um pouco de champanhe. orlava-lhe os olhos um círculo escuro e o seu apetite era dos mais caprichosos.Parece-me que Gualberto não permitirá semelhante coisa. tudo ia mudar. . Ao dar-lhe parte da reserva de Otília. Diz que esse trabalho a fatigaria muito. com viva surpresa. . Espero convencê-la. principalmente. .. Manuela. não se importando com o preço. i Porque julgaria Manuela surpreender nestas últimas palavras um travo de desdém? A donzela tentou ainda demover sua cunhada de tal resolução. que parecia interessar-se pela saúde de sua mulher. . Otília teve um arrogante movimento de cabeça. Esta não duvidou de que assim fosse. muito para estranhar numa natureza aparentemente calma. em que havia vibrações de impaciência. que poderia consagrar às obras de caridade. e teu avô mandou comprar uma tisana .Otília prefere que tu continues com a direcção da casa.É preciso deixar-lhe fazer o que for apenas do seu agrado.. Não estou ao corrente dos hábitos e usos. De modo nenhum! isso continuará a seu cargo. E foi por isso. que estava a escrever na sua pequena secretária elegante. E Manuela regozijava-se com o facto. porque lhe sobraria assim mais tempo. Otília. até aqui.Mas é impossível. Era realmente verdade que a jovem esposa apresentava um aspecto de má saúde. ao quarto de sua cunhada Otília. que o preço pouco importava ! A velha senhora estava verdadeiramente espantada e confidenciou a sua neta: . com a mais completa desenvoltura. fez um gesto impetuoso de recusa. Ia perdendo a cor pouco a pouco.Veremos. tinha dito Gualberto. disse rapidamente.

porém. Fora das refeições e duma pequena parte do serão. orgulhosa e fria. a-pesar-da curiosidade que tinham de conhecer a esposa de Gualberto. com seu vestido de crepe da China cinzento-prata. disse um dia a senhora Viannes. que fora buscar ao seu velho castelo. para não tocar nas velhas garrafas de Clicquot que possuía na sua adega e apenas reservara para o grande jantar anual! Gualberto sente-se tam orgulhoso com sua mulher. como o observou Manuela um dia em que. se a mulher do notário tivesse assistido às visitas feitas a . vestia agora com extrema correcção e até elegância. Decididamente. contudo. entrando no quarto de sua cunhada para lhe pedir uma informação. murmurou Otília. o rosto uma singular expressão de fadiga ou de aborrecimento. ao menos por emquanto. No entanto. 87 Rompendo definitivamente com as tradições de família que proscreviam a leitura como ocupação feminina. com a soberana indiferença que punha em todos os seus actos. de aspecto um pouco pesado. E. fazia trabalhos de agulha.Temos que resolver-nos esta semana. Há-de acabar por torná-la insuportável. se continua a praticar tais exageros. Gualberto mandava vir numerosas revistas e livros. antes de os entregar a Otília. os esposos Harbreuze começaram as suas visitas. arrumava. Ensombrava -lhe.. sobriamente guarnecido de renda branca.O senhor Harbreuze deve ser frio por natureza. apenas haviam conseguido vê-la à missa de domingo e durante uns três ou quatro passeios que dera com seu marido. bem como os dois belos cavalos baios que a puxavam. em meio das altas florestas que a rodeavam. desviando os olhos em que tinha perpassado um lampejo de sofrimento e de indignação. onde lia. No decorrer das suas visitas. como declarou um dia a sr. . Gualberto.Se tenho pena do meu Rennubrunn!. Os rocalandeses. bem como a seu marido..a Boutrin às suas amigas. a jovem senhora Harbreuze foi a admiração de todos. a jovem senhora Harbreuze não incomodava ninguém. depois de olhar demoradamente para a habitação senhorial. que até ali pouco se importava com a questão de vestuário e usava geralmente fatos largos e mal feitos. que Gualberto havia comprado recentemente. «onde provavelmente morria de fome». . se não está cansada. Os recém-casados ainda não tinham 88 começado as suas visitas de núpcias.Tem muitas saudades dele? preguntou Manuela. ao passo que sua esposa me parece capaz de se tornar afável. embora não pudessem deixar de reconhecer a sua distinção e beleza. o que fazia ressaltar a sua distinção natural.Estou à sua disposição. mas imponente. Mal se chegava a perceber que ela existia.por baixo preço. e o seu grande chapéu escuro ornado com uma longa pluma que condizia admiravelmente com a sua fina cabeça loira. Gualberto disse um dia: . Otília era deliciosamente linda. ele 89 metia-se em despesas por causa da bela condessa. por causa da sua beleza e alta origem. respondeu ela. a partir do dia seguinte. ela lhe mostrou uma vista do castelo de Rennubrunn. colocada sobre o fogão da sua chaminé. a-pesar-das suas ocupações. o que já não era pouco. que se dava ao cuidado de percorrer. estava continuamente encerrada no seu quarto. De facto. Achavam-na. Otília. que a trata como um objecto precioso. Mas a verdade é que. . resumindo assim um pouco a impressão geral. . e não se mostravam muito solícitos em submeter-se àquela praxe. servindo-se duma elegante vitória nova. A jovem esposa era uma excelente aguarelista.

O grande compartimento húmido e sombrio. Esfregou vigorosamente os móveis desengraçados. mesmo em casa dos Harbreuze. disse num tom de voz em que havia vibrações quási duras. Gualberto. que se encostavam às paredes guarnecidas com um horroroso papel de ramagens. Quando Otília entrou no salão pela primeira vez. diminuía de ano para ano. -Não. Otília instalou-se no seu salão para receber por sua vez. a fortuna dos Porbelin. adivinhou a sua repugnância e disse com vivacidade: . fora agora arejado e limpo de alto a baixo. que trazia naquela manhã. Teríamos sido felizes. disse ela com o maior desprendimento. Quando formos a Paris. e perseguiu encarniçadamente os últimos 91 resquícios de pó que se incrustava no pesado e feio relógio. com as quais os Harbreuze mantinham longínquas relações. . muito simples. Otília. Já sei que.Mas não é moldura própria para si! murmurou ele.Tal como está. obra feita pela velha Harbreuze na sua mocidade. Já senhora de si. Gertrudes escovou com respeito as velhas cadeiras de acaju e damasco amarelo-canário. bem felizes. e o velho castelo desfazia-se por todos os lados. porém. 92 As famílias de Rocalândia estão habituadas a este salão e não têm. .três ou quatro famílias nobres da região. Gualberto percorreu o salão com o olhar e depois fitou sua esposa. está muito bem assim. Gualberto. nas molduras desdouradas que encerravam pinturas horríveis. por que os tempos eram duros.. afastando o véu de altivez que geralmente a envolvia. Concluídas as visitas.É inútil: desde que este salão lhe agrada assim.. tam delicadamente elegante e aristocrática no seu vestido de flanela branca. composta de terras. não pôde ocultar a penalizante impressão que nela produziram todas aquelas horrorosas e feias coisas. se Gualberto Harbreuze tivesse querido unir-se à nossa família. sobre as flores artificiais colocadas numa grande jardineira de barbotina. bem sei que este mobiliário é hediondo. lançando um olhar pesaroso para a sua filha Adelaide: . parece-me suficiente. Entretanto. em cujas pupilas se notara um lampejo de admiração. É pena que esta deliciosa criatura tenha caído 90 na burguesia! suspirou a condessa Porbelin. escolheremos coisa melhor. que a seus olhos representavam o supra-sumo da magnificência.Deixe o costume em paz e faça o que lhe agradar. para mim também serve. . que não tornara a servir depois que a velha Harbreuze caíra enferma.Minha amiga. como ainda ninguém a tinha visto. que a acompanhava. mande-o transformar à sua vontade pelo estofador de Rocalândia. Na verdade. . ela respondeu com indiferença : . Até aqui. . teria compreendido que acertara ao fazer a sua reflexão. nesta casa. o costume não admite flores nos aposentos. assim é preciso às vezes!. depois da sua visita.. nunca me preocupei com o salão.Isso é absolutamente inútil. sem que ninguém pudesse pensar em fazer as necessárias reparações. Otília mostrara-se muito amável e até encantadora.Se quiser. afirmo-lhe que é inútil.Não.. e desviou os olhos.. Gualberto. portanto. vou escrever para Annecy. interrompeu Gualberto . que fazer reparos. Os lábios de Otília fecharam-se nervosamente. Os meus antepassados tinham o gosto pouco desenvolvido. O conde suspirou também de mágua e pesar.. porque não punha aqui os pés. . O marido replicou a meia-voz.Mande pôr ao menos algumas flores e plantas. transformaremos tudo isto.

no primeiro dia de recepção. e absolutamente desprovido de qualquer desejo de domínio. e. Otília disse a seu marido.. tornaria a vida bem pesada à senhora Harbreuze e às duas donzelas. será assim muito mais agradável para ela. retirava-se para um pequeno quarto contíguo aos aposentos de Otília. . muito ar. junto da senhora Harbreuze. em virtude da influência que parecia exercer sobre o orgulhoso Gualberto. e.Que estranha natureza esta! pensava muitas vezes Manuela com inquietação. não era de molde a animar expansões dum coração que fosse mesmo mais capaz de ternura que o de Gualberto. As atenções inesperadas de Gualberto para com sua mulher não revestiam o carácter duma manifestação afectuosa. Gualberto cedeu. pois que de contrário. Otília. Tem um olhar leal. 95 Sim. a julgar pela sua correcção cerimoniosa. Mas a fraqueza de Tecla não lhe permitia andar a pé. O apetite desaparecera por completo. e é boa caritativa.Mas não. mas duma homenagem prestada a uma criatura superior. . recomendara o Dr. E podem demorá-la o tempo que quiserem. 93 a jovem dona-de-casa sentou-se no velho salão desairoso e feio. ia enfraquecendo a olhos vistos. não despreza as suas práticas de piedade. tentou objectar Manuela. Gualberto. A donzela. que lhe testemunhava uma dedicação fanática.Precisa de ar. respondeu tranquilamente. poderíamos dar um passeio que permitiria a Tecla tomar um pouco de ar sem fadiga. Quanto ás relações dos dois esposos entre si.Da melhor vontade. Muito pelo contrário tudo demonstrava que tinha empenho em conservar 94 a atitude duma estranha. como se se tratasse da coisa mais natural do mundo: . . não é meu empenho modificar por forma alguma os hábitos da casa. . ocupando-se em trabalhos de costura.Ainda não conheço bem todas essas pessoas que apenas vi uma vez. é que ela não se mostrava disposta a dominar na casa. porque eu virei bem a pé. contudo. declarou com o ar autoritário e meigo que tomava. . depois de comer à pressa. Certa manhã. atacada por uma anemia profunda. não deviam ser muito íntimas. Seu irmão interrompeu-a imperativamente: .. Otília era boa como o demonstrava a sua forma de proceder com Tecla. Manuela tentou proporcionar a sua prima um passeio diário. porém.Se a carruagem que o leva à fábrica voltasse. de Manuela e de Tecla. Desde que este salão esteja arejado e limpo.. ao almoço.Otília tem razão. reservada. . Manuela convencia-se cada vez mais de que Otília tinha sempre razão e lembrava-se que era uma grande coisa ela possuir um carácter tam amoldável. quando tinha no espírito uma vontade firme.. mas há nela qualquer coisa que não posso compreender. respondeu ele sem hesitação. cansava rapidamente. Boutrin. Envolvia-se o menos possível na vida de família. servirá muito bem.com impaciência. E devia reconhecer-se que a atitude fria. A verdade. É preciso que todas três me ajudem nesta circunstância. as insónias pronunciadas encovavam-lhe o rosto fino e delicado e circundava-lhe os olhos uma orla violácea. Gertrudes e Vitorina não viram realizados os seus receios e dispunham absolutamente da cozinha. -Parece-me. consultado. tão discreto. que não dispensou junto dela. fazendo-se servir exclusivamente por Josefa. onde a austríaca aparecia apenas para as refeições. dessa mulher para com o seu próprio marido.

e Manuela era agora também da sua opinião.A que eu não tenho direito? Engana-se. Josefa desapareceu silenciosamente.Ela vai morrer: foi o que eu disse ao sr. Tinha-lhe pedido que proibisse a Josefa essa forma de tratamento. Na voz de Gualberto vibrava uma irritação surda. precisamente no momento em que o distribuidor entregava a Josefa um pequeno embrulho registado. Tecla sentia-se melhor. . Morrer porquê? iQue misterioso perigo ameaçaria a vida dessa mulher tam nova e tam formosa ? Um dia. como as arquiduquesas. mas que era a 96 aproximação silenciosa..Desde então. numa esfera diferente. ver-me-ei na contingência de a fazer voltar para Rennubrunn. Mas porque sofria ela? Era esse o mistério.. VI Estava-se em pleno outono. que não tem razão de ser desde que se tornou minha mulher. depois de olhar rapidamente o embrulho.É de minha casa. Manuela encontrou à porta de casa seu irmão. a carruagem ficou todas as tardes à disposição de Otília e de Tecla. quando os olhos azues da jovem senhora a fitaram pela primeira vez. . . porque em nossa casa as mulheres. que me custaria muito chegar a esse extremo! Mas é . Entraram todos no vestíbulo. havia na sua voz um tom áspero de altivo desafio. 99 . mostrando-se com as pobres muito bondosa. . -Permita-me apenas uma ligeira observação. que às vezes a acompanhava. intimidade que se não expandia em palavras. Porque Otília também sofria.Nesse caso.Bem sabe.. e Josefa. mas intensa. Gualberto inclinou-se um pouco e pegou-lhe na mão. pode despedi-la. Conde! murmurou tristemente e com certo rancor a dedicada serviçal. Manuela percebeu que as espessas sobrancelhas de seu irmão se franziam fortemente.. alcançou-a.É para Vossa Senhoria. respondeu lacònicamente. . Tecla havia-o adivinhado. A estas últimas palavras. O distribuidor afastou-se. quási tépidos. disse a criada de quarto. Quanto a Josefa. permitindo que Otília e Tecla continuassem os seus longos passeios.A minha velha Josefa nunca poderá deixar de ver em mim a condessa von Walberg. quando quiser. cheia de mistério.è de seu pai. . de duas almas que sofriam. Otília? preguntou a voz seca de Gualberto. num momento de expansão. Otília recuou alguns passos e Manuela viu que a sua bela cabeça loira se endireitava numa atitude de suprema altivez. apresentando-o à ama. Uns modelos de bordados que me tinham esquecido. Gualberto.. Otília. Uma espécie de intimidade foi nascendo entre elas. dando alguns passos. que voltava da fábrica.. . Mas os dias eram ainda esplêndidos de sol delicioso.. dissera a Manuela que já duas vezes havia apertado os vestidos de sua ama. Otília. pois não poderei consentir que dêem a minha mulher títulos a que ela não tem direito. quando voltava duma visita caritativa com Otília. mas Otília empalidecia mais. disse a voz calma e gelada da jovem senhora. a quem aqueles passeios faziam bem.. dirigiu-se para a escada. Nem sequer voltara a cabeça para dar aquela resposta. conservam o seu título e a sua posição mesmo que se casem. Mas notei ainda agora que ela continua a tratá-la como antes. o senhor é quem manda.

E nunca poderá pensar em casamento! .Oh! Não será esse o grande mal. Otília agradeceu acrescentando. a quem entregou o achado. encontrando no chão uma carta dobrada. diante da mulher orgulhosa que lhe resistia? . 101 . que deve ser a primeira a dar-me razão.E o carácter diabólico de sua mãe para isso concorre também. Virá jantar hoje connosco. ergueu a cabeça para seu irmão. Estaria arrependido do seu casamento. vendo uma larga ruga que lhe sulcava a alta fronte.. Esse rapaz estraga a saúde por excesso de trabalho. não se aproveitando da fortuna de Gualberto. Afastou-se e subiu rapidamente a escadaria. Afastou-se. i Envergonhar-se-ia desse nome? i Ela. Manuela. . como aliás muitos outros indícios. o qual. Otília. tam próxima da última. sobre a qual lançou um breve e instintivo olhar. Foi obrigado a voltar por causa do arrendamento da sua propriedade. . Seria possível que fosse Gualberto quem assim 100 falava naquela voz de pesar. Era da mesma natureza que um leve incidente da véspera. descobrindo esta assinatura: «Otília von Waiberg». Gualberto voltou para trás e entrou na sala de jantar. Vivia com a maior simplicidade. disse ela num tom calmo e irónico.Está. Como esperava outra dele. dsdenhava-se de ser esposa dum burguês? Nesse caso.Talvez a minha inteligência seja formada de maneira diferente. não a meti no envelope. Passados momentos.tam pouco o que eu peço. fez ver a Manuela a razão provável dessa união conjugal.? Teria Manuela. que se queixara da cabeça. E assim Otília assinava as cartas com o seu nome de solteira. na sua ansiosa ternura fraterna. utilizando apenas o indispensável à sua posição. com o acento de sardónica amargura que ele nelas tinha posto. quási de desculpa. respondeu Gualberto encolhendo os ombros. passeou algum tempo no jardim. 102 Subiu logo ao quarto de sua cunhada. porque o aceitara ela? Não parecia possível acusá-la de ambição. e por muito tempo as suas últimas palavras ficaram ressoando nos ouvidos de sua irmã. Pobre Severino. . Tem muito mau aspecto. depois subiu para o seu quarto. adivinhado ao pensar que essa união não devia ser feliz ? A curta cena de há pouco vinha em apoio dos seus receios. a patrícia..Ah! ele está na Rocalândia ? Ao pronunciar estas palavras.Encontrei Severino Viannes. e estremeceu imperceptivelmente. onde Manuela estava lendo a carta duma sua amiga do convento. sem dúvida.uma questão de interesse poderia levar sua mãe a autorizar-lhe esta viagem. não o fazendo acompanhar sequer do nome de seu marido.É uma carta que escrevi a meu pai. e deixando dormir nos armários os . desde que assim o ordena. . Só uma questão deste género . Mas. pois confesso-lhe que não compreendo a razão por que deseja fazer tal exigência a Josefa. Manuela dirigiu-se também ao jardim.. pois lembrei-me de que talvez fosse preciso darlhe alguma resposta. a-fim-de que Gualberto a leve esta noite para o correio com a sua correspondência. que existência a dele!. avisarei a minha velha criada..

Os seus olhos azues.Tenho a tarde livre. e é preciso contar com o resfriamento súbito da temperatura. . tinham agora 105 um pouco de claridade. e a sua fisionomia retomava a expressão habitual. para visitarmos as ruínas de Castebard? . Sob aquela luz suave. suportaria aquela atitude orgulhosa. como a podia ter aturado até ali. avivados por um sol tépido e acariciador. Não se tratando. que só Manuela conseguira ainda ver. ao terminar o almoço. Admiro-me de que. de facto. sobretudo. . Para lá chegar era preciso atravessar um souto de castanheiros. os pais dizem-lhes para as conter: «vou mandar chamar o senhor do Castelo». respondeu no tom de tranquila indiferença que lhe era habitual e que mais se acentuava ainda na presença de seu marido. com o génio exaltado que lhe conhecia. tantas vezes melancólicos e frios. Mas tudo aquilo se apagou subitamente. quando os passeantes pararam junto das ruínas. E Manuela preguntava por quanto tempo Gualberto. ainda talvez mais altiva. Otília encontrava-se encostada a um muro desmantelado. o seu olhar maravilhado dilatou-se sobre os primeiros planos da montanha. excepcional. a sua atitude indiferente com a família de seu marido. e. Quere que a leve de carruagem com Manuela e Tecla. numa terra tam próxima das montanhas. tam orgulhoso também.Oh! felizmente! Estas ruínas são muito pitorescas assim!. 104 As ruínas de Castebard ficavam a seis quilómetros de Rocalândia. vendo que Gualberto mostrava não ter ouvido a reflexão de sua mulher. naquele momento admiravelmente dourados pelo outono. Gualberto estremeceu levemente. disse Manuela. Gualberto disse a sua mulher: . O sol batia-lhe em cheio. a sua cútis parecia mais aveludada e as feições mais finas.E de barbárie também. ao ver a existência 103 isolada que levava a jovem senhora. manter-se absolutamente alheia. ainda ninguém pensasse em substituí-lo. a idea que se apossava cada vez mais de Manuela.Podemos demorar mais do que esperamos. encontrando-se este castelo em ruínas há tantos anos. E. elas evocam um passado de grandeza. Nesse dia. onde cachoava uma torrente. Os senhores de Castebard deixaram má reputação. com certeza. meio afogados na bruma ligeira daquela tarde. e preguntava. quando as crianças dos nossos camponeses se tornam irrequietas. mas que deixava distinguir o seu adorno florestal com tons de cobre e ouro.Esta situação é. a vontade firme de não tomar parte do governo dessa casa a que a sua aristocrática pessoa desejava. . O seu olhar desviou-se da paisagem para o rosto de sua mulher. A tarde era soberba. Em meio da nossa socidade moderna. . com efeito. fazendo brilhar a vaporosa cabeleira loira que se escapava em auréola do seu pequeno chapéu escuro. após alguns momentos de contemplação. Otília acabava de encontrar os olhos de Gualberto. disse a voz levemente mordaz de Gualberto. edificado numa posição pitoresca e dominando um barranco sombrio. . Partiram todos quatro cerca das duas horas. duma questão de casamento rico. uma espécie de alegria sonhadora. que as parietárias guarneciam de flores... mas Gualberto mandou trazer os agasalhos por Josefa. de cavalaria. porque se resolveria ela a entrar nessa família plebeia que desprezava ? Era essa. quási quente. pois. . Eram os restos dum antigo castelo feudal.Que admirável situação para aqui edificar uma casa! disse Otília.Darei esse passeio com prazer.esplêndidos presentes de noivado.

em certas épocas. . em certo ponto. É verdade que a vida material não tinha as comodidades que o progresso hoje lhe introduziu. de compaixão. Pronunciava aquelas palavras como se falasse para si mesmo. Gualberto! articulou por trás dele uma voz masculina. O bem e o mal acotovelavam-se agora. mas raras vezes as manifestava. de verdadeira caridade. Manuela e Tecla sentaram-se a pouca distância de Otília. os seus 108 instintos ferozes prestes a desencadearem-se. sob a sua aparência de progresso. tinha. em tom pensativo.i Parece-te que os tempos antigos eram piores que os de hoje? murmurou Tecla de-repente. todos os membros da aristocracia actual. como quási nunca falava das questões religiosas. também não sou daqueles que põem cega admiração diante do nosso século. numa voz abafada. porque não gostavam de estar inactivas. ficando absorvida na contemplação da paisagem. contra a honra dos indivíduos e da pátria.. que os senhores de Castebard tenham sido maus. bem melhores. e que lhes permitia tolerar corajosamente uma existência que hoje assustaria a nossa fraqueza física e também muitas vezes moral. suponho. por exemplo. disse Otília com ironia. minha querida. do outro. Manuela. que se julgassem felizes em situações que hoje aguentaríamos com grande dificuldade. e. em que se notava um ardor refreado. Eram até. Voltou-se rapidamente e viu-se em frente de Severino Viannes. e é provável. sob o ponto de vista social e político.. Gualberto. que se devam englobar 106 todos os nobres do seu tempo na mesma reprovação! Uma inflexão de desafio vibrava na voz da jovem senhora. e os costumes eram duma rudeza que nos é desconhecida.Muito bem dito. Manuela e Tecla olhavam-no com surpresa. no nosso país. opiniões elevadas e largas. Gualberto havia-se aproximado e ouvira as últimas palavras de sua irmã. as suas paixões más. os seus tesouros de bondade.. Gualberto era um crente. a humanidade é sempre a mesma. tirando do bolso o bordado. mesmo. embora cumprisse com exactidão e pontualidade os seus deveres de cristão. . contra tudo o que temos de mais sagrado. . mas os nossos antepassados não se afligiam com isso. com efeito. mas isso não quere dizer. Ninguém pode calcular o que os costumes e a mentalidade particular duma época podem fazer suportar. numa pedra caída das velhas muralhas. estendendo o braço. como se acotovelavam noutro tempo. foi sentar-se mais longe. mas. Um. Gualberto afastou-se também. .Tens razão. e respondeu tranquilamente: . que eu declarasse indignos. que subitamente se tornaram sombrios. começando a passear num espaço que ficara livre entre as ruínas. o seu orgulhoso gesto de revolta contra Deus. mais forte. que a que geralmente existe em nossos dias. Não. tendo. Os nossos antepassados tinham também uma fé mais viva. dia a dia os mais espantosos atentados contra a vida e os bens dos outros. só por que alguns deles mereceram essa qualificação. e uma impressão de audacioso orgulho brilhava no olhar que dirigiu ao marido. certamente não somos nós que podemos falar dos crimes do passado. 107 .É possível.Sem dúvida que não. cuja soberana guardiã é a religião. dum lado. Desviando os olhos. quando.Seria ridículo. colheu uma florinha silvestre que brotava num interstício do muro. prevalece mais ou menos sobre o outro. Otília teve um rubor de cólera. vemos multiplicarem-se. no fundo.

nesse Deus que permanece sempre e que nunca nos faltará. o instante supremo. . Agora a indiferença seria um crime. não será este. encarando Gualberto. embora bem compreensíveis numa alma leal. . não! Quando muito. Mas estou... junto dos quais poderias exercer uma poderosa acção social. depois de apertar a mão a Manuela e a Tecla. sentando-se junto do pequeno grupo. ainda.. os meus deveres religiosos. que acabava de descobrir.E o senhor nada pode dizer nem fazer? interrogou Manuela. E principalmente hoje em dia! Apre ! . depois de ter sofrido tantas derrotas. à sua roda. E a tua fortuna. . i Além disso. que seria uma verdadeira desgraça.Sim. depois de ter visto. se soubermos implorar o seu auxílio. visto . para nós. Interrompeu-se e inclinou-se para cumprimentar Otília.. Gualberto interrompeu-o com um gesto de desgosto. não te indicariam para representares os teus concidadãos em. Gualberto fez um rápido movimento de ombros..i Os actuais acontecimentos teriam espicaçado a tua indiferença em matéria política. pressentindo que outras se amontoarão ainda. de braços cruzados. por detrás de sua mulher que parecia esmagar com a sua alta corpulência vigorosa.Tu aqui? Mas de que buraco saíste. Gualberto? interrogou Severino meio sorridente. para contemplar o meu panorama preferido.. e espero dum dia para outro uma transferência. meu 109 amigo? disse Gualberto. a antiguidade da tua família. cujo rosto pálido e emmagrecido se cobriu duma sombra dolorosa.Infelizmente. por todos os meios ao teu alcance. bem como as firmes opiniões religiosas que possues... voltando-se para Severino. estendendo a mão ao jovem professor.Ao voltar da minha quinta de Renoire. devemos ir procurar a nossa força no céu. tantas ruínas. .Entrar na política!. a 111 tua posição. .Por isso mesmo que a indiferença os deixou 110 entrar na praça.Que faria eu ?. Apenas Gualberto ficou de pé.Ah! se eu tivesse a tua independência! murmurou ele. A sua fisionomia teve uma contracção rápida. como é natural. modestamente. passava lentamente a mão pela barba preta. Reconheço também que é doloroso continuar a luta. Não empregas tu numerosos operários. . . envolvendo com o olhar as ruínas douradas pelo sol. Gualberto apresentou-o a sua mulher. principalmente hoje em dia! É a hora dos sacrifícios.E então que farias tu. preservá-los das más doutrinas?. ao mesmo tempo. muito mal visto na Universidade. com um gesto que lhe era habitual nos momentos de reflexão.. E. murmurou involuntariamente Severino. Gualberto não se deu por entendido. . posso cumprir. erguendo os olhos para o seu amigo. os cínicos aventureiros a cujas mãos o nosso país está entregue. tentando. Severino ? . o instante glorioso de imolar as nossas repugnâncias e nos sacrificarmos sem reservas aos interesses da nossa religião e da nossa pátria. e de responder ás suas preguntas sobre o estado de saúde de sua mãe. Mas nós somos cristãos. lembrei-me de subir até aqui.. . a hora de cada um fazer calar as suas repugnâncias. uma cumplicidade com os malfeitores públicos que tiranizam a França. acedeu ao convite que lhe fizeram..Nem podia deixar de ser. sem que seja possível impedi-lo. obrigada a combater as pessoas deshonestas.

e podes facilmente fazer-te substituir. Demais. os meus negócios não me deixam tempo livre para pensar nessas coisas .É certo que não seria capaz de ter compaixão duma flor. Hoje em dia. espalhando-se-lhe uma tristeza intensa nos olhos que ele desviou. i Quem te diz que eu não desejo figurar na primeira plana dessa aristocracia? . Otília.. sem que nos possam acusar de vistas ambiciosas ou cúpidas. .E Tu gostas assim tanto do dinheiro ? Não fazia de ti esse conceito. a palidez e a tremura dos seus lábios. procurando sorrir. em tom duro. Francisco suas irmãs às humildes florinhas dos campos? . porque começa a arrefecer. Uma súbita onda de sangue ruborizou o rosto do mancebo.. e a sua conhada encontrou os seus grandes olhos azues. A vista de Severino encontrou o olhar de Tecla. mas até às vezes nas questões de simples justiça. contudo. que a tinha seguido. mais pálido ainda. Preocupa-a apenas a humanidade que sofre. e um brilho estranho ressaltava dos seus olhos negros. disse Gualberto. Baixou-se de-repente e apanhou a florinha que Gualberto pouco antes arremessara ao chão.que o faremos com todo 112 o desinteresse. cada qual procede segundo a sua consciência.. £Mas não chamava S. meio-voltada para Manuela. Ela ergueu-se silenciosamente. Veja o que fez seu irmão! Tirou-a das velhas paredes desta habitação senhorial em que ela nascera e desabrochara livremente.Não me sinto com estofo para político. homem perfeito. levantando a saia de pano azul-marinho. . E Que sabes tu a esse respeito ? Posso ter talvez colossais ambições pecuniárias.. davam àquelas palavras uma significação muito diferente da que teria um simples gracejo. o surdo rancor que vibrava na sua voz.Está muito bem. inclinando-se para tirar uma folha seca que tinha caído no chapéu de sua mulher.Mas és muito rico. fixando-os vagamente nas montanhas. e. de elementar equidade.. . porque tudo. . . cuja dolorosa ironia a chocou profundamente. depois de a ter amarfanhado entre os dedos.. Mas repito o que te dizia há pouco: desejaria ter a tua independência.. nos é recusado. a verdadeira aristocracia é a do dinheiro. disse Otília. Manuela. graves e profundos.Pobre florinha! disse ela. Enfim. é uma compensação. desde que nós queiramos conservar as nossas convicções e preservar as dos outros ? Vibrações ardentes passavam na voz habitualmente calma de Severino. para a despedaçar entre os seus dedos implacáveis. . que os negócios pessoais devem ser sacrificados aos do 113 país? acrescentou ele. entre as ervas altas. aqui e além. quando o rubor desapareceu. Gualberto desviou-se um pouco para lançar uma vista de olhos ao sol que ia declinando.. deu alguns passos 114 através das velhas pedras espalhadas. à falta de outra. . Manuela sentiu que qualquer coisa lhe angustiava o coração. O tom estranho da jovem. Vais dizer-me talvez.É tempo de voltar.. . Empalideceu fortemente ao pronunciar estas palavras. A jovem senhora endireitou a cabeça. Gualberto.. Severino olhou Gualberto com surpresa.É muito sentimental. com o sorriso sardónico que lhe era peculiar. e a sua mão direita estremeceu tanto que fez agitar a sombrinha que segurava. não só nos menores favores governamentais. Otília! disse Manuela. que o fitava com interesse e em sinal de aprovação. que se tornou.Muito rico?...

ao atravessar o souto de castanheiros. senhor ? . disse Gualberto para Severino. o tenente João de Clarande. eu sei o que ela deve sofrer! A voz de Otília estrangulou-se. . nos séculos seguintes. interrogando o jovem professor sobre a história de Castebard. cuidadosamente envolvida por seu marido numa capa. Há-de ver que caberemos muito bem. pelo contrário. Desde então. João de Clarande é não só um admirável cristão e um oficial de mérito. senhor Viannes. . que ele conhecia em todos os pormenores. como alguns? . gosto dela.è exacto. minha senhora! sob que ponto de vista ? .Quero dizer: tem simpatias por ela? Detesta-a invejando-a.Não nos incomodas nada. Durante o regresso. O seu nome encontra-se em bom lugar nos anais do clero e das Ordens religiosas. Muitos distinguiram-se no exército. uma linda criança inocente e boa. Não admitiremos a tua recusa! Não é verdade. o conde Umberto de Clarande. casando com o filho da sua protectora. preguntou à queima-roupa: . que foi tomado e desmantelado. Sabe-se que. Manuela mal conseguia dissimular a preocupação que nela provocara a atitude de sua cunhada. que avançavam ao longo do carreiro aberto entre as ruínas. Tecla e Severino. Detestá-la ? Mas. Restava uma filha. no heroísmo. Esta sofre. . E hoje. vindo juntar-se às figuras notáveis com que a Saboia se honra. a conversação decorreu pouco animada. sem sair da nossa terra de Saboia. como cúmplice dos crimes paternos.E que pensa da aristocracia. que os antigos donos de Castebard mereciam a má reputação que atravessou os séculos para chegar até nós? -Perfeitamente exacto. mostrava-se cansada e tinha os olhos semi-cerrados.Mas. Aí tem: João de Clarande. O lugar em que Deus me colocou neste mundo é o que me agrada. desde que me apareça consciente do seu papel social.Tu vais regressar connosco no carro. combatendo no Sudão onde acaba de ser ferido. que a sua graça natural atenuava. porque foi meu condiscípulo e tem-se mantido meu amigo. Colocou a flor ao peito e alcançou Gualberto. Eu vou à beira do cocheiro e tu irás dentro. . foi Tecla quem manteve a conversa 116 com Severino. Havia o costume de se dizer na Saboia: «Justo! e piedoso como um Clarande». senhor.115 E afirmo-lhe que estas pequeninas coisas têm para nós uma linguagem. não desejo outro. Jacques de Castebard sucumbiu durante o assalto. se soubermos ouvi-la e compreendê-la. .Certamente que não. Otília? . que é dar o exemplo e formar um escol na nação. meu amigo. Otília que havia momentos se interessara pela conversa. continua 117 as tradições da sua raça. fiel à sua missão. seu filho único foi feito prisioneiro e condenado à morte. que foi educada por uma dama de honor da duquesa de Saboia. continuaram a merecer essa reputação. na caridade e no domínio do pensamento. não quero incomodar-vos. poderia citar nomes de que nos orgulhamos.Não. disse Otília com a sua costumada polidez altiva. A-pesar-de pouco faladora. o seu último descendente. Sim. Castebard conheceu belos dias sobre o paternal governo dos seus novos senhores. menina. mas também um escritor que um dia dará que falar de si. A nossa França deve-lhe gloriosas ilustrações na santidade. Falo-lhe dele especialmente. Ainda hoje. bem o sinto. E a tal ponto que o duque de Saboia se viu obrigado a mandar fazer um cerco ao seu castelo. Otília.Invejá-la? Nunca me passou isso pela idea.

Que ele lho torne suave e fácil é o que eu lhe desejo!-. Mostrava-se muito correcta. e juntava-se a Manuela para cercar de cuidados a donzela. a vocação religiosa ? . Eram também olhadas com inveja as soberbas peliças que às vezes trazia a jovem senhora Harbreuze. ninguém diria que o conhece há tantos anos. porque Gualberto prosseguindo no caminho. dèbilmente. Meu primo estima-o muito. Não voltara a fazer visitas. muito friorenta. conversava com agrado. fizera instalar por alto preço o aquecimento por meio da circulação de água quente. com uma espécie de solenidade dolorosa. O caso deu muito que falar na Rocalândia.Mas pode ser obrigada a fazê-lo quando se casar. .Oh ! Nunca me casarei! murmurou Tecla. sorrindo levemente. Ouviulhe falar muitas vezes da sua inteligência e do seu amor pela nossa Saboia.Não sei. acrescentou a donzela. para que ele faça semelhantes despesas! 121 Mas Luíza Boutrin soltou uma gargalhada na cara de Alice Viannes. De-facto.118 .. porque ninguém tinha conhecido até ali semelhante sibaritismo. A atitude dela também não variava. O olhar penetrante de Severino envolveu o rosto pálido e um pouco alterado da donzela. cujo . Mas os Harbreuze não sentiam os seus efeitos na vasta habitação. Mas ia enfraquecendo cada vez mais. Gualberto ? . porventura. porque não poderia evitá-lo sem cometer uma indelicadeza. .. . num tom que conseguiu tornar jovial: 119 .. mais frio que nunca.Talvez que proceda assim. julgavam surpreender uma sombra de desdém. que também foi seu companheiro de colégio. Que idea é essa. cujos lábios tremeram. E eu compreendo-o bem.. íntimos da casa. porque gostaria igualmente muito de afastar-me. VII Começava agora o inverno. Deus lhe indicará o caminho. quando chegar o momento. onde reinava. em que os rocalandeses. por toda a parte.Conheço-o. Em compensação testemunhava a Tecla uma afeição cada vez maior. por ser muito amigo dela e procurar proporcionar-lhe todas as satisfações de que é capaz. vexados. respondeu Tecla.Ele. consentia apenas às vezes em dirigir-se às quintas-feiras aos Viannes. disse Tecla. Ou terá. E dizia-se: «Como esta mulher deve lisonjear o seu amor próprio. que abandonava sempre com tristeza. a que sua avó chamava secretamente «as suas loucuras». Gualberto mostrava-se. lançando um olhar pensativo para as montanhas já quási veladas pela bruma do crepúsculo. uma doce tepidez.. mesmo em frente de sua mulher. tinha caído a primeira neve e fazia um frio áspero na Rocalândia. Otília olhou-a. i Julga que esse mármore é capaz de amar alguém ? Minha pobre Alice. Tecla ? Agrada-lhe então o celibato?. Vinha algumas vezes visitar Gualberto. e lia-se-lhe nas pupilas azues um profundo cansaço. a não ser aos Greunézac e aos Porbelin. quando esta lhe objectava um dia: . que se mostravam muito solícitos junto dela. Otília observou: . embora gostasse apaixonadamente da sua vida militar. mas mantinha uma atitude indiferente..Tecla é ainda muito nova para pensar nessas coisas. Manuela disse de-repente.murmurou Otília.

muito empreendedor. era Manuela quem mantinha a sua bondade serena. Era uma grande satisfação para Tecla ver junto de si Otília. e em que Gualberto. . porque viria certamente contar a Gualberto. por censuras que faziam subir as lágrimas aos olhos de Tecla. Estava farta de saber. no regresso duma delas. se ia alterando sempre. o cuidado dos seus negócios no estrangeiro a um antigo empregado. mas ela teve o cuidado.i Este definhamento não terá uma causa moral? preguntou ela um dia a sua conhada. traduzindo-se por ditos agressivos. havia alguns meses. desde o dia em que a jovem tomou o partido de Tecla. porque a velha Harbreuze. depois do seu casamento. E ainda agora. Um relâmpago de alegria atravessou o rosto de Otília. ao vago receio de que Gualberto pudesse escolher sua prima para esposa. cujas faculdades havia algum tempo se deprimiam. em parte. infelizmente. que só Manuela conhecia. Havia entregue. e. temia-o muito pela rigidez do seu carácter. quando queria ferir Tecla. disse a sua mulher: .. intransigente. por deferência. A criança esforçara-se energicamente para repelir o sonho por momentos desabrochado no seu terno coração e para se afeiçoar à esposa de Gualberto. Era por este último motivo que aproveitava todos os ensejos para pôr em relevo os poucos defeitos de Tecla. e Gualberto. Ora a senhora Harbreuze. Quanto a seu irmão. No meio da família. iluminada pelo reflexo duma piedade ardente. se amava apaixonadamente o seu neto. Seu pai está bom de saúde e encarrega-me de lhe renovar os testemunhos da sua afeição. a-pesar-de não subsistir aquela inquietação. ansiedades torturantes. principalmente. primeiro à sua animosidade contra a mãe dela. Otília.Não compreendo porque ralha tanto com Tecla! De que é que a censura? A velha senhora balbuciou uma explicação vaga. No entanto. para lhe atribuir instintos 123 de garridice e de frivolidade. que se mostrava. ausentava-se menos vezes e por menos tempo. atavismo materno que devia assustar Gualberto. de carácter tam sério.. mantinha-se a hostilidade da velha senhora. fui até Rennubrunn. Gualberto.Rodolfo virá! Que notícia inesperada! . disse à avó com surpresa e descontentamento: . se alterara novamente. que a tinham feito sofrer muito com o seu feitio autoritário. vindo passá-los na sua companhia. de que a donzela só fazia confidência ao Divino Mestre.Ao passar por Viena.122 estado de saúde após umas ligeiras melhoras. que entrara de improviso. . mais tarde. não insistiu. fazia ainda algumas viagens. qual o motivo por que a saúde de Tecla. se mostrava a seu respeito cada vez mais impertinente. Mas a senhora Harbreuze reprimia o seu mau humor diante de Otília. homem zeloso e probo. herdado 124 do pai e do avô. e. tutor de Tecla. e. mas a natureza física sentia a repercussão dessa luta. de evitar que Otília e Gualberto ouvissem. A jovem senhora inspirava-lhe o mesmo receio que seu neto. espera obter dispensa de alguns dias no próximo mês. Moralmente havia vencido. que se encontrava lá com licença de vinte e quatro horas. devida em parte. já antes delicada. Ela tinha sempre testemunhado a sua sobrinha uma verdadeira hostilidade. nas suas frequentes visitas à capela das Filhas de Santa Clara. os desgostos e sofrimentos morais infligidos à donzela a quem tanto se afeiçoara e que protegia abertamente. Manuela deu uma resposta vaga. Mas essa aparência ocultava dolorosas preocupações.

rosto animado. Rodolfo von Walberg não se parecia com sua irmã. O mancebo mostrava-se muito atento em examinar todas as particularidades da velha igreja. para que ficasse mais confortável. viam-se-lhe os olhos dum azul cinzento.. não era positivamente a dum crente. próximo dela. e uma expressão contrariada substituiu aquele fugitivo contentamento. Dizendo-lhe um dia Manuela que convinha fazer uma transformação no quarto. ficam assim satisfeitos. Manuela julgou poder adivinhar que esses dois sentimentos se confundiam no seu espírito. As cartas de seu irmão eram ainda mais raras. Parecia muito mais afável que sua irmã e mostrou-se duma grande amabilidade para com a velha senhora Harbreuze e as donzelas. Por detrás das lunetas. havia algum tempo. Durante a cerimónia religiosa. beijando-o com um transporte de que ninguém a supunha capaz. enquanto Gualberto se encerrava no seu laconismo habitual. com voz enternecida: .. de tez quási lívida. Ao sair da igreja. como o eram também o seu sorriso e a própria voz. cobriu-lhe os olhos uma sombra. de mãos estendidas. procurava apenas 127 as frases que era preciso dizer quando o jovem oficial. ornado por um elegante bigode loiro. A despeito da fadiga da viagem. bem como Manuela. que dava ao tenente von Walberg cinco anos a mais que a sua verdadeira idade. embora correcta. Manuela encarregouse de lhe preparar o quarto dos hóspedes. Otília fez um movimento para tomar o braço do irmão. suaves e carinhosos. e Manuela ficou de súbito impressionada com a expressão de cepticismo e ironia que se lia naquele semblante fatigado. Ao jantar. Mas foi o de seu marido que ela encontrou. revelou-se um conversador interessante. replicou-lhe de bom grado. Otília falava raras vezes de sua família. Estatura mediana. a quem Gualberto apresentou seu 128 . Trocaram-se algumas palavras com a família Viannes. maquinalmente. tinha um rosto fino. Tradicionalmente.Os parentes e amigos. e Otília. Gualberto não mostrava prazer nem aborrecimento com a visita de seu conhado.125 Mas quási ao mesmo tempo. dizendo um dia a Manuela. sobre o conde que estava de pé. o olhar de Manuela poisou por momentos. A sua atitude. parecia amar muito um e outro. os Harbreuze assistiam a essa missa na paróquia. como prometeu! O conde Rodolfo anunciou a sua chegada para o Natal. Quanto a Otília. Escrevia a cada passo a seu pai. e Otília correu ao seu encontro. Tinha as fontes escalvadas por calvície precoce.. recebeu esta resposta dada num tom bastante sarcástico: . a-pesar-da proximidade da capela das Claristas.Estou morta por chegar à primavera próxima. apoiando sobre ele levemente a mão em que havia um estremecimento de impaciência. Suponho que o sr. mas não parecia disposto a fazer qualquer despesa nem a modificar os seus hábitos por causa dele. para que Gualberto me leve a Rennubrunn. que lhe respondia com irregularidade. que às vezes recebemos. pondo de-parte a apatia que parecia invadi-la cada vez mais. Não obstante. Rodolfo quis acompanhar toda a família à missa do galo. que o fora buscar à estação. muito magro. de Walberg não é diferente dos outros. colocado em frente dela lhe dirigia a palavra. quando o mancebo transpôs o limiar da casa Harbreuze com seu conhado. e Tecla. intimidada. era difícil saber se a vinda 126 de seu irmão lhe causava realmente satisfação ou aborrecimento.. Mas foi apenas o primeiro que se manifestou.

Abusa das bebidas alcoólicas? infelizmente. um conversador espirituoso.Oh! Obrigada. Quando íamos de Rennubrunn à missa do galo.Minha irmã é muito independente. ? exclamou num tom quási rouco. a-pesar-da sua aparência de desprendimento. que só o interesse leva a fazer essa união. Também julgavas assim.Mas é verdade. Depois. 130 . que acabava de escorregar. . esse caro Maximiliano. Mal lhe sinto a ponta dos dedos! Como quere segurar-se.Sem dúvida. ...embaixador da Alemanha. junto da qual caminhava. Sacudiu-a um leve estremecimento. notei que ele era ambicioso. Otília? . .É um homem positivo. . Otília! disse Gualberto. disse Gualberto com ironia.E ele também é rico ? interrogou Gualberto.. Rodolfo. Otília fez um movimento brusco. 131 A sua mão havia-se crispado ligeiramente no braço do marido.. diante de certos amigos. .Que lhe dizia eu ? Não receie apoiar-se. . porque a filha do barão de Gleutz não lhe agrada. disse num tom de gracejo. . Otília? disse-lhe Gualberto. que lhe era verdadeiramente útil..Mas talvez V. Só nosso primo Maximiliano conseguia às vezes obter esse favor. Gualberto envolveu num longo olhar aquele rosto alterado. . Essas confidências vêm geralmente quando o champanhe e outros excitantes lhe fazem vacilar a razão.Isto não é nada. se escorregar? Rodolfo voltou a cabeça.Oh! faz um casamento muito rico! É a filha segunda do Barão de Gleutz. sabes que Maximiliano se vai casar ? 129 com um movimento mais pronto que o pensamento. disse ela com voz trémula. em virtude duma brusca flexão dos joelhos. Mas disse-me um dia que só desposaria quem tivesse um bom dote porque não queria perturbar os seus gostos de luxo e de prazer. Otília.Sim... mas.Que significa essa insinuação? Queres dizer que Maximiliano.. respondeu numa voz hesitante. nunca aceitava o braço de ninguém. tem uma bela fortuna.. . Gualberto. porque a neve naquela noite estava muito escorregadia. num tom de cortesia cativante. Vi-a escorregar ainda há pouco.Não fazia essa idea dele.Não pregunta com quem vai casar seu primo.Poderá dar-me a honra de aceitar o apoio do meu braço. .... os Harbreuze retomaram o caminho de casa.. senhor. através das ruas cobertas duma camada de neve.a queira -aceitar. e formou-se-lhe na fronte uma ruga profunda. Ex. Parece que se assustou ? A sua mão treme e vejo-a muito pálida! acrescentou com inquietação. Isso não impede que ele seja um cavalheiro encantador. minha senhora? preguntou Rodolfo a Manuela. é inútil.Armava em gentil-homem. como ele insistisse. passados instantes. Mas agora não se oculta para confessar. Rodolfo teve um risinho irónico.Nunca poderei acreditar em semelhante coisa!... . Ela recusou a princípio.. . o antigo . Dirigia-se a Tecla. Gualberto susteve sua mulher.Apoie-se melhor a mim. murmurou Otília. aceitou esse auxílio. o facto é bem conhecido.. . não acabaste de dizer. . muito procurado nos salões. . porque estou habituada! . A propósito. .conhado. é verdade. .

os convidados masculinos retiraram-se para o escritório de Gualberto. e abriu com ar compassivo as lamúrias do rapaz... que teria preferido a magistratura. naquela noite. Gualberto afastou-se ainda antes de concluída. durante a refeição. o rosto de Otília mostrava uma extrema palidez. Terminado o jantar. guarnecido com magníficas rendas de Chantilly. precisamente quando entravam os Viannes. Naquele ano.Sim. os Harbreuze davam um grande jantar no dia de Natal. no entanto. ficavam encantados. se mostrava com ela muito solícito. realizou-se como de costume. e mostrava-se tão preocupado que Rodolfo disse depois que ele se retirou: . contudo.. depois de acender um charuto. conde. tinhas ilusões a respeito dele ? Eu também o julguei por muito tempo mais sério. e o vestíbulo mostrava-se soberbamente iluminado em todos os seus recantos. e que nenhum vestígio deixou no rosto de Otília. As criadas. conversou agradavelmente. . Viannes é um patrão bondoso que se não zanga.. como ela tinha dito. não. Isto passará de-pressa. Destinou-me desde sempre o notariado. cara de pretencioso. Chegavam naquele momento à habitação. só de a verem. num tom em que transparecia um pouco de ansiedade: . deixaram a porta aberta. . Nada tinha comido. um simples mal-estar. Gualberto. Vejo-me obrigada a deixá-los consoar sem mim... A balbúrdia e maçada dos preparativos recaíram sobre Manuela e Tecla. que trazia naquela noite. . que. O conde Rodolfo.Sente-se incomodada. . se a gente falta uma vez ou outra à hora do serviço.. sentado à direita de Manuela. i O seu cartório. Nesses belos olhos. não é verdade ? 132 A consoada durou pouco tempo. com as pessoas vizinhas.Mas foi-me impossível convencer meu pai.Sem dúvida.Deve recolher à cama. e estava tam visivelmente alterado. Viannes.Gualberto parece recear que sua mulher tenha a mais grave das doenças! Foi.. fazia ressaltar admiravelmente a sua beleza loira e a sua elegância aristocrática...Frio. e particularmente a dos Harbreuze. que Gualberto preguntou logo.Sim. Desde tempos imemoriais.Mas tem frio ? .. Ainda bem que o sr.Então eles são assim ricos? preguntou com ar indiferente von Walberg.. Pôs-se a falar de diversas coisas e aludiu às vantagens e aos desgostos da profissão escolhida por Arsénio Boutrin. estão-lhe confiadas grandes furtunas. a não ser umas leves olheiras. . ia servir de sala de fumo. Otília ? . acrescentou. . sr. dirigia-se para seu irmão que. Acolheu com 133 a sua graça altiva os convidados. É um simples mal-estar. que pode valer por muitas. contentando-se com tomar uma chávena de chá. Boutrin e segundo escrevente do sr. Manuela julgou ler um sofrimento profundo. aproximou-se dum rapaz baixo. talvez impressionada pela surda inquietação que testemunhava o olhar fito nela. Sob a intensidade da luz.. Manuela! mandarás levar-lhe chá. O vestido de seda preta. Mais uma estátua com pés de barro! acrescentou num tom de gracejo zombeteiro. que lhe fora apresentado pouco antes como filho do dr. não me sinto bem. que. visto que Otília continuava a encerrar-se no seu papel de convidada. que tinham vindo adiante. para saber como se encontrava sua mulher.. é o melhor da região ? 134 .Tem uma fisionomia muito simpática e parece muito inteligente. Apareceu no salão apenas um quarto de hora antes do jantar.. segundo julgo. Mas o seu olhar impaciente e inquieto. com todo o antigo aparato usado em tal circunstância.

.. E nós gostaríamos tanto de a ouvir! . que uma leve acentuação por forma alguma prejudicava. nessa Ordem...Ficará para a família. a conversa foi interrompida. se não casou ainda ? .Ela sabe tocar com muita agilidade.Oh! não!. embora seu irmão recebesse a maior e melhor parte. e não se cansava nunca de a ouvir nem de admirar.É exquisito! murmurou Rodolfo. .Também sabe tocar.. uma imperceptível contracção. Ela é órfã ? .Ao que parece. Mas o tenente. . . que faz da fortuna ? . não a quis reatar.Não sei nada.É verdade. Admitindo mesmo que este piano lhe parecesse 137 mau. Alice Viannes sentou-se ao piano e tocou agradavelmente dois trechos... mas não a menina Boutrin. por momentos. acompanhava muitas vezes o violino de nosso primo Maximiliano. há dois anos que pôs a música em absoluto de parte. Mas é também provável que dote 135 ricamente sua prima. seu marido não deixaria certamente de lhe dar outro. E eu que nunca a ouvi! . A menina Harbreuze deve escolher certamente as Claristas. O sr. O sr. permitem a um pobre estrangeiro que tome parte..Compreendo-a!.Essa linda moreninha de olhos de violeta ?.Se são ricos!. Outrora. Como Gualberto se aproximava naquele momento. . despojam-se de tudo antes de fazerem os votos. . minha senhora ? .. de Zetternich. por alguns momentos. Os outros jovens depois que saíram da sala de fumo.. Quando acabou o charuto. não sei porquê.. ora. Pôs-se a conversar com a maior naturalidade e gentileza. com extrema doçura e expressão. está disposta a entrar para um convento. na conversa ? preguntou num tom graciosamente cortês.inclinando-se para sacudir a cinza do charuto. a menina Lormey. É lamentável que Otília haja renunciado a tocar. inclinou-se para Tecla. tinha um grande talento musical.a Viannes. tenho. vieram juntar-se ao pequeno grupo. Ora imagine que. Corou um pouco. arrependida por ter dito aquilo.. À resposta afirmativa e amável que lhe foi dada. como é que uma donzela. depois Luíza Boutrin 136 substituíu-a e lançou-se nas dificuldades duma valsa demasiadamente brilhante.. O conde Rodolfo. . que a todos pareceu uma verdadeira cacofonia. Nunca recebi lições. . Enrugara-lhe a fronte. que deve ter gosto pela música. encantadora e com tam belo dote. Harbreuze é o seu tutor. Deve dizer-se que houve um caso de força maior. que lhe pedia sempre mais. que lhe pareceu uma falta de caridade. Um clarão rapidamente extinto chispou sob os cílios loiros do tenente. . e não tem fortuna.Apre! É realmente uma linda soma! Mas. que ela ama extraordinariamente e considera como irmã. em tal caso.Minhas senhoras. quando a donzela terminou. Mas agora poderia recomeçar. nesse caso. Num momento de dificuldades financeiras. Gosto de ouvir a sr. von Walberg sorriu. senhor.Não. num francês dos mais correctos. .E. depois que seu cunhado se afastou. um belo instrumento de que Otília gostava muito. . aproximou uma cadeira e sentou-se entre Tecla e Laura Boutrin. . meu pai viu-se obrigado a vender o piano. voltou ao salão e dirigiu-se para o grupo formado por algumas donzelas que tinham assistido ao jantar.. só à menina Harbreuze couberam perto de dois milhões.É pena! parece-me.É. .

mas a jovem encontrou muitas vezes o seu olhar muito suave. minha Tecla. com quem estava conversando.Manuela. ouvir o que vós dizíeis. . Rodolfo. disse com a maior tranquilidade. disse Otília com ironia. e Rodolfo. foi reunir-se ao grupo que rodeava seu conhado. Ainda não tinha desconfiado. Tecla. para aquele lado. que lhe causava uma impressão indefinível.Deixa lá esse estudo em descanso. . Depois da proibição de sua irmã. que eu também não 139 me demorarei para desnortear esses olhos de Argus. atraíu-a suavemente para si e disse com meiguice: . Mas são muito rigoristas na nossa pequena cidade ..Em que te posso ajudar. tens outros mais sérios a fazer. Rodolfo continuou a falar. E não seria também do meu agrado que te divertisses com o coração tam simples e tam delicado dessa pequena Tecla. retomara. VIII O sr. volvia.. Tecla fêz-se muito vermelha e olhou sua prima com ar de espanto. . Mal Tecla regressou ao salão. aquilo que não existe. Esse costume americano ainda não penetrou na Rocalândia. 138 . que sua conhada lhe deixava a seu cargo. mesmo nessa noite de recepção. que ouvia distraídamente o sr. . para que evites estas conversasinhas particulares. e procuram logo descobrir. Manuela? preguntou ela. a cada passo. onde a mesa continuava posta.Deixa-te de namoriscos. Manuela.Isto não passou dum pretexto. Agora volta lá para dentro. Por muito mundano que fosse. havia momentos. cujas sobrancelhas loiras se franziram levemente.. e Tecla escutava-o com prazer. e declarou à partida que a Rocalândia lhe agradava muito. . disse-lhe num tom baixo e imperativo..A conversa.Como pensas em semelhante coisa. Conversou com Manuela e com Tecla.. erguendo os olhos maquinalmente naquele momento. minha querida. aproximou-se da sua prima. Tecla ergueu-se logo e acompanhou-a à sala de jantar. preciso de ti. Vamos. o tom ordinário. que começara baixo. no facto mais insignificante... von Walberg. os olhos em que perpassava uma expressão de contrariedade.. mudando de direcção. saiu algumas vezes com Otília e Gualberto. preocupada com os deveres de dona-de-casa. porque conversavam diante de todos e cada um podia.. Ela afastou-se.Tecla. A sua voz suave. havia pouco tempo. queridinha: quis apenas interromper a tua conversa com o sr.. não me olhes com esse ar desolado. von Walberg tinha uma dispensa de três dias que aproveitou por completo em casa de seu conhado. Mas foi detido na passagem por sua irmã. repassado duma admiração discreta e caridosa. . Otília ? respondeu em tom de censura. . o conde Rodolfo manobrou logo para se aproximar dela. Mas preferi prevenir-te. nunca mais tentou conversar particularmente com Tecla. Aproveitando um instante de liberdade. e que voltaria. afirmo-te. acariciava agradavelmente o ouvido. cativante. Não tenho de maneira nenhuma essa idea. Mas Manuela poisou-lhe a mão na cabeleira preta.. Eu não julgava. viu a poucos passos Gualberto.Não havia nenhum inconveniente.. não se mostrou aborrecido durante aquele tempo na muito pacata casa Harbreuze. que me parece muito interessante e exquisita. querida! Isto não vale nada. Viannes. mas apenas o desejo de estudar essa natureza. se quisesse.

emquanto Gualberto. agora mais pronunciada. os ecos da velha habitação foram acordados pelos sons do piano. onde fora ouvir missa. encostado à pedra de mármore. no estio. que vibrava sob os dedos de Otília.Mas nem ao menos para me dar a mim o prazer de a ouvir? Afirmo-lhe que sei apreciar a boa música. . Otília voltava nessa ocasião da igreja. segundo me disse seu irmão. para demorar mais tempo dessa vez. um pouco contraído. Sem desviar o olhar recto e firme do de Gualberto. porque me pediu. em que havia uns laivos de ironia. se isso pode proporcionar-lhe alguma distracção. A tez pálida de Otília corou por alguns momentos e os lábios tiveram uma rápida tremura. Em pé. com prazer. Na véspera do primeiro de Janeiro. conservou o olhar fixo no belo rosto pálido. As distracções não abundam aqui. Em certos momentos. sem dizer uma palavra. esteja certa. Mas agora nenhum gosto tenho pela música e não faço tenção de me dedicar de novo a ela. . sob a vigilância de Gualberto.. e lembrou-se. e. tanto como seu primo Maximiliano. e os longos cílios loiros baixavam-se então. . . . estremecendo. de que ele formulara o projecto de voltar. de que tanto gostei. explicou Gualberto avançando para ela. a-pesar-do longo repouso.Quere dizer. Não se dando por entendida. . ela sentiu uma espécie de calafrio. Otília empregou esforços para aparentar uma certa animação. abandonei a música por completo. Um tanto pálida.Otília. sobre os olhos em que se reflectiam pensamentos dolorosos. que foi transportado para o salão. pousando-lhe levemente a mão no braço. dirigiu-se para o 143 salão.Se o sacrifício é muito duro.Depois da sua partida pareceu-lhe a casa mais triste. disse num tom grave: . como já lhe disse. e as suas ocupações não são tam numerosas que não possa encontrar 142 algum prazer na música de que tanto gosta. diante do fogão. descobriu o piano à primeira vista. Recaiu logo na sua melancolia altiva. acendeu as lâmpadas. .. replicou com frieza: . o meu dever é ir satisfazer o seu desejo. começou um nocturno de Chopin. Pela porta aberta. Gualberto havia-a seguido.Mas suponho que esse abandono nada tem de irrevogável! disse tranquilamente. não o exijo. E. que a vista penetrante de Manuela reconheceu ser fictícia. Mas. Este inclinou-se. O encanto melancólico e profundo da obra do mestre era admiravelmente exprimido por Otília.Julguei que lhe causaria algum prazer.Sim. visto que a música me incomoda agora. é apenas por dever que toca ? interrogou com tranquilidade. a jovem senhora afastou-se para recolher ao seu quarto. . depois do jantar. que não tinham perdido a flexibilidade. ao ver junto dela seu marido. replicou Gualberto numa voz calma. se tornava mais rígido e impenetrável que nunca. houve um espanto profundo em toda a casa com a chegada duma carroça donde saiu um soberbo piano de cauda. parecia que um bafejo de sofrimento e de amargura misteriosa passava através das frases melódicas. ao que me dizem. unicamente. no dia seguinte. dando-lhe um piano digno do talento que possui.Agradeço-lhe a sua intenção.com efeito. À noite. sentando-se diante do piano. por seu lado. de feições levemente contraídas. 141 Durante a permanência de seu irmão. sob os dedos da pianista. Quando a última nota se extinguia.

respondeu no mesmo tom, sem o fixar. - Nesse caso, renuncio a ouvi-la. Só voltará a tocar nesse piano, quando sentir prazer. 144 - No entanto, Gualberto, se há nisso uma satisfação para si, devo. . . Sem dar a perceber que a ouvia, baixou a tampa, colocou a música na estante, e voltando-se para sua mulher, um pouco atordoada, disse-lhe com a maior naturalidade: - Voltemos agora para a sala, Otília. O piano permaneceu fechado. Gualberto explicou em duas palavras a sua avó e à irmã: - Otília fatiga-se. A jovem senhora tinha realmente uma saúde muito precária, pois era, de facto, esse pretexto que ela invocava ao recusar todos os convites para os jantares e reuniões de Rocalândia. Gualberto nenhuma reflexão fizera a esse respeito. Como não gostava de festas mundanas, estava talvez satisfeito por se ver assim dispensado de acompanhar sua mulher. Á oito de Janeiro era o aniversário natalício da avó. Otília, sempre correcta, ofereceu-lhe uma bolsa finamente bordada e feita expressamente para ela, facto que encantou a velha senhora, a quem a mulher de Gualberto inspirava uma afeição entusiástica, misturada com admiração, e uma espécie de deferência, talvez devida ao seu ar senhoril. Depois Otília acompanhou Manuela e 145 Tecla à capela, onde foram ouvir missa dita por intenção da senhora Harbreuze. Ao sair, quási esbarrava com um mancebo que entrava. - O sr. Severino! disse Manuela, com espanto. - Sim, sou eu, menina... Venho pedir aqui, nesta pequena capela de que sempre gostei muito, a força necessária para suportar a provação por que vou passar. Tinha o rosto encovado, pálido, como se tivesse sofrido uma dolorosa enfermidade. - Uma provação?... E poderemos, sem indiscrição, saber qual é? - Recebi comunicação da minha transferência para uma cidade do Meio-Dia, doentia e quente. É um castigo, devido a que, a-pesar-de todas as advertências, continuo a cumprir os meus deveres religiosos. Se fosse só eu, compreendem, isso pouco me importava. Mas há também minha mãe... Sim, elas adivinhavam o alude de recriminações, de censuras injustas que havia desabado sobre Severino... Pressentiam mesmo que ele tinha de resistir heroicamente às imposições da mãe, que o incitavam a caminhar contra a sua consciência e a curvar a cabeça diante da vontade 146 das Lojas. Sabiam que essa mulher, preocupando-se unicamente com o seu bem-estar, desprovida de senso moral, era capaz de cometer aquela cobardia. - ou pedir a minha demissão, continuou Severino com um tom de voz que revelava uma preocupação absorvente. Minha mãe não pode acompanhar-me... de maneira que tenho de procurar outra situação. Fale a Gualberto, disse -Manuela, que se sentia, como Otília e Tecla, profundamente impressionada com aquele sofrimento silencioso e digno. - Sim, já pensei nisso. Gualberto mostrou-se sempre muito bom para comigo... Mas desculpem-me por as fazer demorar, minhas senhoras! Pedirão a Deus por mim, não é verdade ? Emquanto falava, dirigia-se a todas três, mas olhava involuntariamente para Tecla, e a donzela sentia-se enternecida até o fundo da alma pela

patética prece daqueles olhos negros. Otília e as suas companheiras atravessaram devagar o curto espaço que as separava de casa. Aproximando-se da sua conhada, e apontando Tecla que ia à frente, Otília murmurou-lhe ao ouvido: - Não acha que o sr. Viannes seria um excelente marido para ela ? 147 - Certamente, é uma alma de eleição... Mas a sua mãe! É impossível, Otília! - Ah! sim, sua mãe!... Mas é realmente pena. Tem uma fisionomia tam simpática... e parece-me que ele, Manuela, ama a nossa querida Tecla. - É possível, concordou Manuela, cobrindo com o olhar melancólico e terno aquela criança, por quem tinha a afeição duma irmã. Quando, no decorrer do almoço, Manuela contou a Gualberto a dificultosa situação de Severino Viannes, seu irmão declarou, sem um segundo de meditação: - Tenho de lhe arranjar qualquer coisa. Se não fosse a mãe, tinha para ele uma excelente posição de representante na Roménia. Mas não se pode pensar nisso, com essa desgraçada mulher. - Isso não! Mas o primo dele também se interessará, e vós ambos arranjareis certamente alguma coisa que convenha a esse pobre rapaz, tam admirável na sua paciência e amor filial. Assim o espero, pelo menos. Dizem que sua mãe gasta terrivelmente! É um verdadeiro sorvedoiro, contou-me Paulino Viannes; e seu filho, por maiores esforços que empregue, não é capaz de pôr termos a esses esbanjamentos. 148 Era o dia de recepção das senhoras Harbreuze. Otília instalou-se no velho salão, apenas em companhia de Manuela. A velha senhora fora mandada recolher à cama pelo dr. Boutrin, por se lhe ter manifestado uma bronquite, e Tecla ia assistir naquela tarde a uma reunião em casa de Alice Viannes. Cerca das seis horas, retiraram-se os últimos visitantes, e as duas conhadas ficaram sós diante do fogão, onde o lume se extinguia. Otília, inclinada para a frente, apoiava o rosto nas mãos, olhando vagamente para o lume. Sobre os seus joelhos, estava poisada uma carta que tinha chegado pouco antes. Era de seu pai, que a informava de que se encontrava um pouco incomodado naquele momento. Manuela ia e vinha, arrumando as cadeiras, desfazendo uma dobra feita no tapete pela passagem dos visitantes. Voltou depois para o fogão e abaixou-se, para espalhar os tições ainda incandescentes. O vigoroso perfil de Gualberto emmoldurou-se de-repente na abertura da porta. -Veio muita gente, Otília? Ela estremeceu e levantou a cabeça. - Bastante, Gualberto. - Os Porbelins, estiveram ? Cruzei com a sua carruagem na estrada da fábrica. - Estiveram... Pediram-me que fosse assistir à reunião que devem dar nesta quinzena. - Convite que teve naturalmente a sorte dos outros ? disse Gualberto avançando. - Esse não. Conto lá ir, se não houver qualquer inconveniente. - Que me diz?... Então já não existe a razão de saúde que tem motivado todas as outras recusas ? A voz de Gualberto havia tomado subitamente um acento de dureza, que não costumava manifestar quando falava com Otília. - Existe, mas uma vez por acaso não deve fazer mal, replicou ela

friamente. - Não é essa a minha opinião. Desde que não pode corresponder aos outros convites, não me parece conveniente abrir uma excepção, e principalmente com os Porbelins. - Que quere dizer? preguntou com altivez. - Simplesmente isto: Se for à reunião dos Porbelins, todos estão no direito de pensar que só quere relacionar-se com a aristocracia e que despreza as famílias burguesas da cidade. As longas pálpebras de Otília baixaram-se um 150 pouco, os seus dedos finos amarrotaram nervosamente a carta do pai... - Então protesta? Ela ergueu os olhos para o rosto de seu marido, impenetrável e um pouco rígido. - Não desprezo ninguém, disse com uma calma gelada. Mas é certo que acho muito naturais as relações continuadas com famílias da mesma posição social. - Da mesma posição social ?!... i Então, com o seu casamento não se considera entrada na burguesia ? Passou um relâmpago nos olhos da jovem senhora. - Certamente que não! disse num tom orgulhoso. Digam o que quiserem, serei sempre uma Walberg... Julgou acaso que, desposando-me, fazia de mim uma burguesa? - Julguei, pelo menos, que encontraria em si uma mulher consciente dos deveres que assumira ao entrar na sua nova família... Conseguiu pouco a pouco demonstrar-me que me tinha enganado, que desejava continuar a ser Otília von Walberg, e que nada queria ter de comum com os Harbreuze, com excepção do que lhe era absolutamente impossível evitar. 151 - É verdade! disse com um olhar de desafio. Uma sombra cobriu subitamente o rosto de Gualberto. - Mas porque aceitou, então, casar-se comigo ? interrogou com uma voz imperativa. - Porque meu pai me pediu... Parecia que só o senhor era capaz de conjurar a ruína, a deshonra. Ela desviava agora os olhos, e as suas mãos trémulas crispavam-se sobre a carta do conde de Walberg. -... Lutei, e só acedi quando vi meu pai completamente desesperado. Em troca do dinheiro que lhe permitiria pagar a credores inplacáveis, entregou sua filha. E assim pagou o senhor o luxo de ir buscar sua mulher à aristocracia. A única sacrificada foi Otília von Walberg. - Ah! i julga que foi um luxo que eu paguei ? disse Gualberto, num tom de ironia cáustica. Julga que a desposei para me doirar com o reflexo da sua nobreza?... Mas ignora então que sou tam orgulhoso da minha velha estirpe burguesa que remonta a uma época imemorial, como a senhora o pode ser da sua origem aristocrática?... Se a escolhi, não foi porque era condessa de Walberg, mas... 152 Interrompeu-se repentinamente, encolhendo os ombros. - De-facto, as minhas razões importam-lhe pouco. Compreendo agora muito bem a natureza dos seus sentimentos a meu respeito. Não pode perdoar-me ter sido causa para si duma união detestada e havê-la transformado em Senhora Harbreuze. Detesta, abomina esta fortuna ganha na indústria, e desdenha todas as satisfações que com ela procurei proporcionar-lhe. Abomina também e desdenha o homem que lhe deu o seu nome. - Não o abomino. Gualberto, protestou brandamente, sem o fitar.

tive por ele uma afeição profunda. pois. acredito-a. os hábitos.. . disse com uma surda violência. regularizar tudo isso o mais cedo possível. Levantou-se imediatamente. Não continuou por ver que sua mulher se levantara bruscamente.Cale-se!. julguei de meu dever escrever-lhe e restituir-lhe a promessa que nunca mais me havia recordado. de me escolher para sua companheira. O tom de desprezo com que Gualberto pronunciou estas últimas palavras fez subir um rubor de cólera ao rosto de Otília. Não proteste. quando julga estar dominado. Não foi esse um dos meus menores sofrimentos. Pode julgar acaso que ainda mantenho um átomo de simpatia por esse homem. Mas empreguei lealmente todos os meus esforços para expulsar essa lembrança que não devia subsistir mais em mim. . tanto a um como a outro. E Otília deixando cair a cabeça sobre o . a mulher dum estrangeiro.. nas suas maneiras altivas. tudo ? Sob o desdém indescritível que vibrava na voz da jovem senhora.Sim. . Sim. Interrompeu-se por momentos.. o conde Maximiliano teria ainda erguida em sua alma a sua estátua de cavaleiro sem mancha. acreditei na promessa que me fez um dia. com o rosto afogueado e brilhando-lhe nos olhos uma altivez indignada. só nos resta separar-nos.Muito bem.. nesse caso.. mas não se mexeu um único músculo no seu rosto rígido. lançando os seus olhos faiscantes sobre a fisionomia glacial e sarcástica de seu marido. aliás.Cometi o erro de não ver na sua frieza. . que...E Então o senhor acreditou que eu me tornaria de bom grado uma Harbreuze. volveu ironicamente Gualberto.Não é possível! exclamou com uma espécie de violência Acreditou acaso que aceitaria de bom grado tornar-me sua mulher? Nunca a minha atitude para consigo autorizou semelhante suposição. Mas reconhece depois que não é verdade. eu compreendo-a. mas a que eu estava presa com toda a minha alma. uma reserva excessiva. ignorava.. Muitas vezes.. do primeiro que aparece.. Vamos.. disse secamente.. . Quando meu pai me obrigou a aceitar o seu pedido.Também. senão uma timidez de donzela. Repito.. . tinha então dezasseis anos. Se assim não fosse e seu primo estivesse ainda livre. Se não fosse Rodolfo. de recorrer ao divórcio.. Desta vez saiu do salão. e do qual me separavam a categoria social. Se tivesse suspeitado da pressão exercida sobre si. retendo-a nesta habitação. neste meio em que tam pouco à vontade se encontram os seus instintos de patrícia. Mas não conseguiu realizar por completo o seu intento. de resto. disse num tom de tranquilo sarcasmo. . Desejava que acreditasse no que lhe digo. isto é. depois do que me disse Rodolfo ? .Mas agora desprezo-o. e.. Não tenho desejo nenhum de me transformar em tirano. 154 Deu alguns passos para a porta e depois voltou-se rapidamente. com a voz oprimida e as feições crispadas. Gualberto tornou-se duma palidez quási lívida. como importante personagem que é.. poderia facilmente desfazer os esponsais. . o que eu aliás. disse ele num tom gelado.. não 153 me desagradava. embora me não corra sangue azul nas veias.. 155 -. .. acrescentou ela num tom de súplica orgulhosa. na alternativa em que me punha meu pai. não me perdoa ter sido o homem a quem seu pai a obrigou a unir-se. pode acreditar que.É na verdade lamentável que os nossos princípios nos inibam.. não merece outra coisa. o coração ilude-se.. teria sido bastante pundonoroso para quebrar imediatamente esse projecto de casamento.Não brinquemos com palavras.

Otília ?. 159 Dirigiu-se logo ao quarto da enferma. tem razão. quando Gualberto reapareceu.. no quarto elegante onde nunca se quis considerar como em sua casa..Ore por mim. reunidos porventura pela última vez. voltou-se para Manuela e estendeu-lhe a mão. desviando os olhos encaminhou-se para a porta. Cinco minutos depois. Sim. A sua calma perfeita. ia partir para Rennubrunn. . Manuela. murmurou apenas. murmurou numa voz em que havia um misto de cólera e de dor: .Muito bem. conservava-se agora de joelhos. em virtude duma imprudência.. Só Manuela compreendeu o que significava aquela partida. que. é a única solução possível. da posição social de que ela não queria abdicar.Até à vista minha querida Tecla. a carruagem que conduzia os dois esposos. Otília levou apenas a sua velha malinha. Se bem que tivesse estado em delírio durante o dia. não se demore muito! .. e que ele a acompanharia até meio do caminho. quando ela murmurou em voz muito meiga: . que o médico não tinha esperanças de salvar a avó. agora. bem o pressentia. Na tarde daquele mesmo dia a bronquite da velha Harbreuze. Mas perturbou-se de novo. Tenho que fazer e não quero que me perturbem. Tudo que devia a seu marido ficava lá em cima. Manuela tinha falado num tom muito baixo em que havia uma impressão dolorosa e severa. Manuela que saíra discretamente do salão. onde Gualberto a esperava. a que tinha gravado em cobre uma prova tangível. e. aos seus odiados milhões com os quais julgou poder pagar a 156 abdicação de Otilia von Walberg. pelo menos. e fazer dela uma burguesa como ele!.Hás-de prevenir Manuela de que não janto esta noite. ao observar o grave e profundo olhar de sua conhada.. sem alarido. Rezaremos uma pela outra. Deixei-a a caminho do seu país. e afastou-se depois de ter dito a Tecla: . Ao abraçar Tecla.Sim. tomou um aspecto muito sério. No dia seguinte. a chorar. ao ver o rumo lamentável tomado pela conversa. .. a ele e aos seus milhões. não é verdade ? Tranquilizando-se imediatamente.Sinto um desgosto enorme por a ver partir! Mas. donde poderia sair o acordo. Permaneceu um momento junto da velha senhora.. IX Tudo se passou com a maior simplicidade possível. mas talvez também a desunião completa. Manuela anuncioulhe. iam ter naquela tarde uma explicação decisiva. sem choques. . detesto-o agora mais que nunca. Otília. pedirei a Deus que nunca lhe falte com a sua luz. respondeu muito lacònicamente. inquieta com a saúde de seu pai. A separação. eu detesto-o. No dia seguinte.. Ficou bem ? . no seu quarto. erguendo de coração uma prece fervorosa por aqueles dois seres.espaldar da poltrona. reconheceu-o imediatamente e preguntou-lhe com uma voz abafada pela opressão: . a atitude tranquila da jovem senhora não inspiraram suspeitas à velha nem a Tecla. Gualberto comunicou a sua avó e a sua irmã que Otília. afastou-se da velha casa.. o seu estado agravou-se mais. Otília corou e. sentiu que a sua impassibilidade 158 se ia traindo.Teve o propósito de fazer-me sofrer!..

Tecla não te disse que 160 eu não desejava ser perturbado ? disse com irritação. havia meses.. O frio.. pegou-lhe na mão e levantou para ele um olhar de que irradiava uma afectuosa compaixão.. naquela ocasião. e Manuela. havia amado apaixonadamente Otília de Walberg. Julguei. ameia loucamente. chocada até o mais íntimo da alma. Parecia-me impossível não conseguir vencer aquela indiferença.Que queres tu ?. as almas mais concentradas têm momentos de expansão em que o seu sofrimento se desafoga. -Obrigado. . profundamente encovado. Retomar os seus grilhões!. o orgulhoso Gualberto mostrava assim. em face do sofrimento daquele por quem tanto havia orado. foi bater à porta do escritório de seu irmão.. Sim. em que. sangrenta e dolorosa. que ela se tivesse apoderado em absoluto do meu coração. na verdade.Tecla foi dar o recado a sua prima. e Manuela à frouxa claridade da única lâmpada eléctrica que ele tinha acendido naquela noite. no vão duma janela.. pois não era uma loucura ir buscar minha mulher fora da esfera em que vivo e acreditar que essa grande dama.. Mas desde a primeira vez que a vi.. É para mim consoladora . impondo-lhe a minha presença! Se fosse mais corajoso.. com uma expressão de dor sombria. as rugas se iam formando pouco a pouco. cheia de arrogância nobiliária. . logo que se viu livre.. Punha naquelas palavras toda a sua ternura fraterna. . sentia estremecer as mãos que conservava entre as suas.. que estava preparando na cozinha uma tisana para a doente.. -Gualberto!. cuja dedicação discreta e silenciosa sempre o acompanhara.. Estava em pé.-em-que havia vibrações de dor profunda. amei-a. . mas agora. Nas horas dos grandes abalos.. viu o seu rosto pálido.Gualberto. Manuela não fez reparo.Sim. tudo se transformou no meu espírito.. mas o seu rosto sombreouse. sem querer ouvir os conselhos da razão. -Como pude suportar isto tam longo tempo! Era preciso. voltando o rosto para a noite profunda. abdicaria do seu orgulho por amor de mim?. em que a ferida se deixa ver por instantes.. toda a sua inquietação. Manuela. Talvez que amanhã me encontre mais forte.Voltar!. a esse pobre fidalgo que arruinou seus filhos e continua uma vida de dissipação. à irmã.. e.. Mas esperava sempre.. de braços cruzados. Indiferença! Era o desdém. que essa proibição se não entendia com tua irmã. teria provocado algumas semanas depois do casamento a separação agora levada a efeito.É que tenho necessidade de estar só. e que. desviou-se. não acreditas que ela voltará em breve por sua vontade ? Teve um movimento brusco. E.Entre! Disse a voz de Gualberto. Gualberto. o fundo do seu coração torturado. Oh! não é também essa a minha vontade! Sofri muito durante alguns meses. contraindo dívidas que seu genro tem pago até agora-por amor de sua mulher.. compreendo cada vez melhor a tortura que lhe infligia retendo-a aqui.. À entrada da irmã. desse coração que consideravam 162 de mármore. contudo. . quási o ódio! 161 Falava com uma voz abafada.. Manuela aproximou-se. no entanto. Passou a mão pela fronte. meu pobre irmão.. ela disse-mo. . resolvi pedi-la ao conde de Walberg. pela tua carinhosa solicitude.

. Tecla voltou muito impressionada de casa dos Viannes. oferecera-lhe um logar de secretário. Gualberto havia-se tornado impenetrável. perdão. .. para me refazer deste abalo. quando encontrava o de Manuela. e por ela. que era quem mais assiduamente a tratava.. algum alimento. pelo menos. e não assistirá à cerimónia. mas Gualberto atraíu-a de-repente para si e poisou-lhe os lábios na fronte. Desde o dia seguinte. Chegaram à casa Harbreuze apenas algumas palavras do pai. esse sofrimento ainda mais ardente e doloroso.. Só Lyon.Essa desgraçada mulher dá cabo dele! disse Gualberto com irritação. é impossível. bastante doente. -Amanhã. .. Havia recebido à tarde os últimos sacramentos. quando se despedia de sua irmã. o seu desaparecimento causou. como antes. cujos negócios dia a dia tomavam mais considerável expansão. eram para ela o único indício de que seu irmão encontrava um certo alívio na sua afeição discreta. 163 e iluminando-lhe sem dúvida o fundo da consciência uma luz vinda do alto. Gualberto! Depois desta viagem não é razoável. no entanto. . -Está junto de seu pai..A senhora Harbreuze extinguiu-se no dia seguinte à noite. como dissera. por se concentrar no coração daquele homem.nestas horas de profunda prostração. recebeu os cumprimentos de pêzames e respondeu tranquilamente aos que se informavam de sua mulher.Ora por mim.. ou. tanto para sua irmã como para os outros. .. quando muito uma grande cidade.. tenho necessidade de estar só. Embora o carácter da velha senhora não fosse de molde a inspirar uma grande afeição aos que a rodeavam. Otília também não escreveu. Uma tarde. Gualberto. -Não.. Em verdade. e Tecla. que lhe inspirava a desgraça de Gualberto. E essa tristeza vinha-se juntar àquela.Fui muito má. não poderia engolir nada esta noite. Tratava dos seus negócios com assiduidade e fazia frequentes viagens. Gualberto mostrava um rosto impassível.. Ela apertou-lhe silenciosamente a mão e fez um movimento para se afastar. abstinha-se de falar da jovem senhora diante de seu primo. Gualberto fechou os olhos de sua avó. um certo vácuo. querida irmã! murmurou numa voz em que Manuela julgou sentir uma espécie de soluço. e anunciou a Gualberto e a Manuela que Severino se encontrava enfermo. o trabalho retomava-o e entregava-se a ele 164 com uma espécie de áspero regozijo. nunca mais se renovara o primeiro instante de expansão. principalmente para Manuela. Nunca mais pronunciou o nome de Otília. um breve lampejo de emoção no seu olhar enigmático e frio. ninguém podia adivinhar a tortura secreta que lhe despedaçava o coração. O pobre Severino debatia-se num mar de insuperáveis dificuldades.. -Mas toma. Agora deixa-me.. dias depois do seu regresso a Rennubrunn. poderia convir-lhe. Parecia certo que a altiva fidalga desejava tornar definitivo o rompimento entre ela e todos os membros dessa família em que entrara contrariada e ferida no seu orgulho. tam profunda e ansiosa. Mas 165 sua mãe recusava em absoluto vir habitar na Rocalândia. tudo terá passado e volverei à minha vida habitual. ocupou-se de todas as particularidades do funeral. movida por um pressentimento instintivo. murmurava ao olhar de Tecla: . apertando a mão de seu neto. Uma pressão de mãos às vezes mais forte.. A não ser Manuela.

por que ele devia ignorar os seus propósitos. .. mas recta e boa. porque tem uma alta consciência do seu dever. se for preciso. mas sem incidentes. Felisberto. ele não é dos que desertam dos seus deveres. mas não 168 fez qualquer pregunta. cujo único erro fora tomar o seu frio rancor por uma excessiva reserva de donzela. lhe seria mais fácil convencer Otilia. para pôr em prática aquele projecto. Quanto a Gertrudes e a Vitorina. Tecla excessivamente discreta.Deus me guardará.com efeito. na véspera. tornava-se indispensável uma ausência de Gualberto. de sepultar no esquecimento os poucos meses que passara na velha casa de Gualberto. . de ver Otília. com uma natureza sensível como a sua. a não ser a seu irmão. e era essa a razão por que na véspera da sua ida para a Áustria. de tentar reconduzir aquela alma transviada. Mas pensou também em que. Teria ele dado parte a Otília da morte de sua avó ? A verdade é que ela não escreveu uma só palavra por essa ocasião. pela mulher a quem uma aberração orgulhosa afastara do seu dever. e Manuela compreendeu bem a sua intenção. havia dias.Se a velha Harbreuze fosse viva.. que se tinha fatigado muito ao tratar de sua tia-avó. Manuela abandonou Rocalândia por ocasião duma tormenta de neve. para que a sua tentativa fosse coroada de êxito. -Não. Mas agora. após uma viagem fatigante. e foi sem dificuldades que se preparou rapidamente para a viagem. pensava ela confiadamente. A sua vida retirada. terminada a missa. Germinara em seu cérebro uma idea. Manuela não tinha que dar conta dos seus actos a ninguém.. e. que o levará até o heroísmo. Fazia nesse dia um mês que Otília abandonara o teto conjugal. no pequeno cais da estação . Mas. a jovem ama disse-lhe apenas que ia passar alguns dias à Suíssa. fazer-lhe 167 compreender por meias palavras o mal que causava ao homem leal. pois que trabalho pelo bem de duas almas. porque era preciso comunicá-la à velha senhora. tinha-a submetido ao juízo do velho cura de S. contudo. à exacta noção das suas responsabilidades. em Friburgo. no entanto. tal deligência seria impossível. isenta de iniciativas nessa pequena cidade retrógrada. pelo irmão cujo profundo sofrimento adivinhava. a donzela desceu. mostrou uma grande admiração. Como o facto se tinha dado já dois anos antes. não quebrantara.Severino não resistirá muito. O seu receio era que os comboios estivessem bloqueados. o seu espírito empreendedor.. onde tinha uma amiga religiosa entre as Franciscanas missionárias. Manuela havia herdado o espírito de decisão que caracterizava os Harbreuze. e esse silêncio indicava nitidamente a vontade de quebrar os últimos laços que a prendiam à família Harbreuze.. seu director espiritual. acrescentou Manuela. que a aprovou em absoluto. ele ia partir para Inglaterra. quando sua prima lhe disse que partia para Rennubrunn e lhe pediu que guardasse segredo. Tudo correu bem. por uma brumosa manhã de Fevereiro. prolongada. A princípio. .. Manuela. Ora. verbalmente. Manuela orava com tanto fervor. Aquelas palavras foram murmuradas por Gualberto com um tom de indizível amargura. embora nunca tivesse ido sòsinha além de Friburgo. e. Tratava-se de ir a Rennubrunn. e à qual faria bem a mudança de ares. Na humilde capela das Claristas. as criadas nenhuma surpresa manifestaram e contentaram-se apenas em observar a Manuela que seria bom levar a pequena Tecla. Mas nada pode fazer. absorvia-se numa prece fervorosa. lembrou-se de escrever a sua conhada.

estendia-se o parque. quási de-repente. que pareceu a Manuela quási completamente desmobilado. vou prevenir Sua Senhoria. Começava ali um jardim à francesa. Nalgumas palavras.que servia o castelo de Rennubrunn.. e Manuela dirigiu-se resolutamente para as escadas. O papel das paredes encontrava-se em estado deplorável. naquele enorme aposento. daquela aristocrática pobreza.. ao rememorar a atitude tomada por ela em casa de seu marido e o seu persistente silêncio. Manuela aproximou-se duma das janelas imensas. que a preferia a todas as satisfações que poderia proporcionar-lhe a fortuna. Por quem? .Está de luto!. cobertas de neve. .Três dias depois da sua partida. damas sumptuosamente vestidas... Julguei que Josefa sonhava. Não tinha grande simpatia por ela. . a grande dama orgulhosa da sua alta origem.Foi a avó!. Encontrou-se diante de Otília que avançava com as suas maneiras elegantes e altivas. Temia uma recusa de Otília. havia um mês. naquele momento coberto por um tapete branco. uma espécie de baú velho... . Se quiser entrar. sou eu.Pobre senhora! murmurou Otilia. estenden do a mão a sua conhada. nas suas molduras desdouradas senhoras nos soberbos trajes doutrora. completamente abandonado. Mas também não é longe. cobertas de jóias. . E. haviam-se tornado violáceas com largas manchas amarelas.Manuela. Manuela começou a andar corajosamente pela estrada coberta de neve. que dava entrada para um pátio de honra. e duas ou três cadeiras já usadas. Sentia apertar-se-lhe o 169 coração de ansiedade à medida que se aproximava. Venho ver sua ama.. e sobre as paredes. ornado apenas com trofeus de caça e fê-la 170 entrar num salão imenso. Há muito? . com voz em que vibrava uma espécie de angústia: . A grade estava aberta... feito de pequenos losangos. um grande canapé coberto de damasco desbotado. Então não soube? . Na sua moldura de florestas nuas.. Manuela pôs sua conhada ao corrente da doença e dos últimos momentos da senhora Harbreuze. menina. O empregado tinha dito a verdade. quando me anunciou a sua chegada! Falava tranquilamente. Mas o soalho. Os cortinados das janelas. Mais longe. outrora cor de púrpura. subindo até o patamar. Poderá receber-me? -Julgo que sim. Uma vez só. . Havia. Meteu a direito por uma alameda que a conduzia a uma grade ferrugenta. Não há nenhuma. que surpresa me faz?. com efeito. Josefa. aparecia agora a sólida e imponente habitação que Manuela vira na aguarela que lhe mostrara sua conhada. Precedeu a donzela no grande vestíbulo sombrio. apenas uma velha mesa de acaju.Ninguém me informou.. que abriam para um largo terraço de pedra.. ostentavam-se. Manuela compreendeu melhor do que até ali tudo que separava seu irmão de Otília von Walberg. Nesse momento a porta abria-se e dava passagem a Josefa. Mas exclamou. todo branco.. .... 171 Um ruído ligeiro da porta que se abria fêz-lhe voltar a cabeça.Sim. lançou um vago olhar à sua roda.Menina Harbreuze! balbuciou ela. diante daquela desnudez majestosa.É Uma carruagem para Rennubruun? disse o empregado a quem ela se dirigiu. e terá de fazer o caminho a pé. minha senhora. estava luzidio.

Pense na responsabilidade que assumiu. mas isto não tem importância.. contudo não receou infligir-lhe a afronta e o sofrimento do seu desdém e do seu abandono. não imagina a alegria que me causa! E a ele.. as preces. visto que não quere voltar à Rocalândia.Gualberto é muito orgulhoso. . porque me testemunhava afeição.Sempre muito fraca. . Mas. tinha receio de que me não recebesse. agora me lembro. preparei as coisas para voltar à Rocalândia. . cujo olhar se iluminou por momentos.No entanto. é Deus que no-la concede. 172 Sente-se Manuela. no dia em que o padre a uniu a Gualberto.Sim.Em todo o caso. Sim. que nós enviaríamos a carruagem. mas a sua morte penaliza-me. E como vai ela. murmurou pensativamente a jovem senhora. a querida Tecla ? . meu pobre Gualberto! Nos lábios pálidos de Otilia esboçou-se um sorriso.. . E a Otilia como está? . Otilia. Manuela. disse ela. era o seu» lar. muito delicada. foi para lhe falar que fiz esta viagem sem que Gualberto soubesse. . e pegou na mão da conhada. ser-nos-à dado gozar essa felicidade? Nas pupilas azuis de Otília fulgurou uma irradiação que Manuela nunca tinha observado. foram desta forma ouvidas.i Foi por causa disso que veio ? . . Não.Manuela nunca deveria ter pensado semelhante coisa! Foi sempre muito boa para mim. visto que nem sequer teve a delicadeza de me comunicar a morte de sua avó! .. que certamente fez pelo bom êxito da sua 174 empresa.Sim. Otília havia baixado os olhos. Ergueu lentamente a cabeça e disse com tranquila gravidade: -Pensei em tudo isso..Telegrafar?. e mais que eu. parecia comprazer-se em ver despedaçados todos os laços entre nós. A jovem senhora fez um movimento de protesto. no entanto. tinha-os fitos no seu anel de casamento. porque é preciso que nosso filho venha ao mundo em casa de seu pai.. aquele de quem Deus a constituiu guardiã. 173 . a-pesar-de tudo. voltarei. Manuela inclinou-se para sua conhada e beijou-a na fronte... não lhe perdoou o facto de ter .Otilia. que brilhava no seu dedo fino..Sim.Parece-me.Otília.. fixando os seus olhos melancólicos e altivos na contristada fisionomia de Manuela: . estou resolvida a voltar. Sentou-se lentamente em face da sua conhada. . e disse. Otília corou sobre o olhar da grave censura que poisava sobre ela. por muito burguesa que seja. poderia ter telegrafado. Otília..Oh! Otília! .. o verdadeiro..Não quero voltar?.Outro o foi tanto. Otília. impossível que uma cristã assim fuja ao seu dever. em que se misturava a amargura e a ironia. . e nunca me passaria pela idea proceder assim. E agora mais do que nunca. .. Logo que receba resposta à carta que ontem escrevi a Gualberto. com o abandono do seu lar. Manuela levantou-se com uma exclamação.Bastante fatigada.porque era má para Tecla. era fácil. porque perdoe-me dizer-lho. teve de fazer o trânsito a pé? . porque a nova habitação.

. muito difícil. Esta desinteligência não podia manter-se e Otília praticou uma infantilidade. -Não. 176 reconciliação que parecia impossível. isso faz-me bem.desdenhado a nossa família. que se parecia muito com ele. a donzela teve ocasião de observar a vida mais que medíocre a que se encontravam reduzidos os Walberg. senhor. magro e calvo. . tem razão. Minha prima está só. e entendeu que devia tratá-la. Manuela ? Tinha-se levantado. Josefa e um velho criado eram os únicos que faziam o serviço da vasta habitação. Demais. é impossível. As refeições eram frugais. Era um homem baixo. enredado de dificuldades assustadoras. 175 dedicada e unida ao divino penetra em mim e me fortifica.... À noite. Testemunhou a Manuela uma grande afabilidade e insistiu com a filha para que a fizesse demorar alguns dias em Rennubrunn. resolve-se com uma facilidade incrível. Mas não é capaz de imaginar o que tenho sofrido. disse de-repente a meia voz. Manuela esteve só durante alguns 177 momentos com o senhor von Walberg. às vezes. incluindo ainda os cuidados a prestar ao velho cavalo que arrastava a carruagem empregada nas saídas de Rennubrunn. Vê que lhe falo com toda a franqueza? . de longe. para dirigir a Deus uma fervorosa acção de graças. A jovem senhora serviu-lhe. operava-se a reconciliação entre Gualberto e Otília. torne a beijar-me. . Dez minutos depois. Um filho! Deus concedia aquela bênção à casa Harbreuz! Por meio daqele pequenino ser. firmemente. Interrompendo a conversa que sustentara até ali. o primeiro movimento de Manuela foi pôr-se de joelhos. para que repousasse das fadigas da viagem.Sim. não posso prolongar a minha ausência. de maneiras insinuantes e amáveis como as de seu filho.. o mais confortável do castelo.. ...Não imagina quanto lhe estou grato por ter vindo pedir a minha filha que voltasse para junto de seu marido. tenho de partir amanhã. Logo que ficou só. o mobiliário desconjuntava-se e o próprio castelo ia caindo em ruínas necessitando de reparações imediatas. disse. Ao almoço. porque nenhum daqueles dois orgulhos queria ser o primeiro a dobrarse. Parece-me que um pouco da sua alma corajosa. como Manuela acabava de experimentar.Vamos. inclinando-se para Manuela: . mas também quási despojado dos belos móveis antigos para pagar dívidas constantemente contraídas pelo conde von Walberg. nessa circunstância. tinha confiança na rectidão de alma e no coração de Otília. ou pelo menos. café com leite. Como são doidos os pobres seres humanos por se preocuparem tanto antes do tempo! A Providência tem meios misteriosos que desembaraçam as situações mais complicadas. acompanhado de torradas com manteiga.. informou-se de tudo que poderia desejar e deixou-a em seguida. o que nos aparecia. Manuela. por suas mãos. Sou muito fraca. sem ele. Mas agora terei mais coragem. Manuela encontrava-se instalada no quarto de sua conhada. Procedi mal. e. que certamente o senhor Harbreuze esquecerá de-pressa. pondo as mãos ambas nos ombros de sua conhada. que a não podiam deixar persistir neste desvairamento..Assim o espero. Manuela foi apresentada ao conde von Walberg. como uma pessoa estranha. Durante o dia passado em Rennubrunn.

Mas. menina. Dominando. para que. um desses dois orgulhos cedesse. quando Otília se encontrava já reinstalada na velha casa que julgara. o sol aquecia agora um pouco. Otília teve um estremecimento e tornou-se muito pálida. nunca abandonava a fábrica ou o escritório da velha casa. pelo menos. um pouco intrigada. A jovem senhora mostrara-se para com ela amável e quási afectuosa. consente-me que lhe peça um pequeno serviço? Poderá ter a bondade de recordar a seu irmão que. A jovem senhora estava sentada na sala. Quanto a sua mulher. e.Sim. em certos dias. A atitude tomada naquela entrevista de regresso devia ser agora a que os dois esposos iam adoptar nas suas raras relações. Ah! a propósito. Entrara Março. Gualberto voltou dali a dois dias. no próximo mês. diz muito bem. no dia seguinte. Mas viu logo que se tinha enganado. deverá mandar proceder aqui às reparações indispensáveis ? . às preguntas que lhe fez sobre a sua viagem..Que felicidade! disse Tecla... No tom frio e tranquilo que lhe era habitual. junto de sua conhada e de Tecla. Manuela. sem a beijar como outrora. em companhia de Tecla ou de Manuela.. mas Manuela disse-lhe logo: .. talvez abandonar para sempre. mas ele só chegou três dias depois. Gualberto multiplicava as viagens. disse ela. como se o tivesse abandonado na véspera. agradáveis ou penalizantes. Gualberto era exímio em ocultar todas as emoções. i Seria essa atitud» devida à atmosfera mais favorável de Rennubrunn. e retomaria a bela patrícia a sua fria altivez ao transpor a porta da casa Harbreuze ? Tecla acolheu sua prima com manifesta alegria. XI Gualberto encontrava-se em Milão quando apareceu em Rocalândia um telegrama anunciando a chegada de sua mulher para o dia seguinte. Voltará em breve. e Otília já lhe pediu que guardasse segredo. era menos vivo. Eu vou-lhe escrever a esse respeito. não poderei falar a meu irmão desta minha viagem. muito estranhas! 178 Encolheu os ombros e desviou a conversa para outro terreno. e respondeu com uma tranquilidade e frieza. um desvairamento. Otília não quere falar-lhe no assunto. porém. 180 Manuela esperava secretamente uma aproximação entre aqueles dois corações. Manuela intensificava as súplicas e preces. quando se encontrava na Rocalândia. cujo limiar Otília nunca havia transposto. conservava-se a maior parte do tempo nos seus aposentos. a sua saúde e a de seu pai. sem haver anunciado o seu regresso. que de bom grado vinha trabalhar na sala. Manuela preveniu-o imediatamente. Não a interrogou.. Minha filha tem às vezes ideas exageradas. a sua primeira impressão. encarregou-me de te beijar. estendeu-lhe a mão que ele apertou rapidamente. O frio. foi acompanhada à estação por Otília e seu pai. anunciou à noite a sua irmã e a sua prima o regresso próximo de Otília e a sua esperança de maternidade. vendo-o apenas às horas das refeições.Otília está boa. compreendendo o sofrimento que infligia ao homem honesto cujo nome usava. quando Gualberto apareceu meia hora antes de jantar. . mesmo ao olhar afectuosamente perspicaz de sua irmã. entre sua conhada e Tecla.. logo que ele voltava. senhor. sinceramente. para que Otília reconhecesse completamente os seus erros. quando Gualberto estava ausente. . dava . e Otília. Manuela não conseguiu surpreender naquela impenetrável fisionomia a impressão produzida por esses dois acontecimentos.Ah! é verdade! Mil perdões!.

Chegou. com efeito.. quando os Harbreuze se sentavam à mesa.Sim pobre rapaz! Acho muito difícil que ele possa realmente refazer-se dessa angústia contínua . ia visitar os indigentes a quem distribuía a maior parte da importante soma que. o médico já não receia a febre cerebral que por tanto tempo o ameaçou. Ao verem-no. Julguei bem que não escapava desta! .. Um dia. No entanto. Esperam arranjar-lhe em 182 Lyon um emprego que lhe permitirá ir vivendo. Gualberto manifestava no rosto. vítima do seu dever filial... os seus pequenos sofrimentos parecer-lhes-iam bem suportáveis! No rosto de Otília houve uma ligeira contracção. Se atendessem a que há outros muito mais infelizes que eles. de três em três meses.Tem notícias mais satisfatórias do seu pobre primo? interrogou Otília com interesse. Manuela.. Era muito boa para os pobres.. E.Sim. são verdadeiros calvários!. nos primeiros dias de Abril. encontrava numa gaveta da sua secretária. vai melhor. tiveram a consolação de saber que o estado de Severino melhorara um pouco. Alguns dias depois. na Rocalândia. já quente. Essa desgraçada mulher é a desordem em pessoa. contraiu dívidas. Gualberto foi ver o seu amigo e achou-o quási livre de perigo. Os médicos têm pouca esperança de o salvar. Otília e Manuela encontraram Alice Viannes. Mais tarde. para isso. depois de se despedir de Alice. O pobre Severino sofreu tam grande abalo que se lhe manifestou imediatamente 183 a febre cerebral. comentou Manuela. Manuela e Tecla não puderam dissimular a impressão dolorosa que lhes causava a mudança nele operada pela doença e pelas atribulações. a propósito duma importância que pretendia ser por ele ocultada. Pobre Severino! . quando o sol. durante a doença de Severino. alguns dias depois. quantos se queixam amargamente. . Mas. uma profunda comoção. ordinariamente impassível. Paulino afastou os credores mais importunos. tanto que.. 181 muito paciente. teria de vender o mobiliário.Sim. pelo pobre enfermo. Naquela tarde. . Otília e Tecla começaram uma novena. e o mancebo viria instalar-se em casa do primo... quando voltavam das suas visitas caritativas.. na capela das Claristas. Mas isto não termina. e a fronte curvou-se um pouco. mas numa extrema fraqueza. O Senhor Harbreuze foi visitá-lo ultimamente e mostrou-se muito bom para com ele.Paulino acaba de dar-me uma triste notícia. O seu médico ordenava a mudança de ares. ..É espantoso!. como lhe chamavam. e os seus protegidos amavam-na quási tanto como a Manuela. se não fosse a intervenção de meu irmão. .. não possui um átomo de coração nem de senso moral. Ele notou-o e disse com um sorriso melancólico: . gastou o pouco que ele havia posto de reserva. Gertrudes veio anunciar a seu amo que o senhor Viannes desejava falar-lhes.a Viannes caiu fulminada por uma congestão. ser-lhe-ia atrozmente penoso aceitar um auxílio. fazia rebentar os renovos primaveris.alguns passeios. durante uma das suas ausências. . mesmo sem ter atravessado as privações mais difíceis. Mas Severino é orgulhoso. Ao voltar da entrevista. a sr. «a santa menina». meninas ?. Mas parece que entrou agora a miséria naquela casa! Sua mãe.Causo-lhes compaixão. que parou para lhes apertar a mão. -Como a gente encontra situações tam lamentáveis ! disse pensativamente Otília retomando o caminho. seria preciso restabelecer-se e está ainda muito fraco. No decorrer duma discussão com seu filho.

Não diga isso. no jardim da casa do notário. apoiar-se nele com toda a confiança. onde já desabrochavam as primeiras flores. sem mágoa. moral e fisicamente. . i porque não procura casar-se 187 . que ele se vira obrigado a recusar por causa de sua mãe. . mais profundamente do que o pode supor! Severino olhou-a com certa surpresa. onde os ares são bons. Gualberto propôs-lhe de novo esse lugar de representante na Roménia. mas que se desvanecerá pouco a pouco. para serem felizes.. Sabe o que eu queria? Era ter a natureza firme e tam pouco impressionável de Gualberto. muito amável. Tem razão. mais de-pressa talvez do que julga... neste momento. como se encontrasse completamente restabelecido. em compensação. discretamente. . se lhe não faltasse uma coisa: um lar. Não tenha receios. . Mas Manuela nada acrescentou. sinto-me muito abatido. cujo aspecto era agora melhor. uma posição honrosa e. no princípio de maio. porque a sua alma nobre era incapaz de tais sentimentos: mas cobria-lhe as negras pupilas uma tristeza invencível. possui o dom da palavra. fixando o olhar fatigado. menina. em breve um filho. -Não sei. disse Manuela. resolveu convidá-lo para jantar duas ou três vezes por semana. Atravessa. ocupa uma posição distinta na hierarquia social. e. Encontrará em que empregar a sua vida e a sua saúde. . para cúmulo de felicidade! Ah! se eu tivesse apenas a quarta parte de tudo isto! Severino fazia estas reflexões sem inveja. contudo. pensava com surpresa. Ele abanou a cabeça. Mas o moral retomará o seu império. Desta vez. Foram convidados apenas os Harbreuze e algumas pessoas íntimas. um período de depressão física e moral muito compreensível. através da janela. sou um homem sem coragem. -De-facto. quando afirmavam que os esposos Harbreuze viviam desunidos. senhor.Isso é efeito da sua longa doença e da fraqueza em que ficou. como Gualberto.E nada lhes falta. para o distrair e furtar às ideas negras que às vezes o perseguiam. se Deus lha conservar. Severino. sr. não prolongou a conversa. a fortuna. No entanto.Oh! Não o inveje! Essa natureza sabe sofrer também. ele também é bom. começou os seus preparativos para a partida. e o mancebo..No fim de contas. à medida que as forças físicas forem voltando. O senhor vai restabelecer-se depressa na Rocalândia. possui um carácter sério e muito leal! Embora não seja um sentimental e um expansivo. senhor! Nós sabemos o que 185 vale e demonstrou-o bem. porque hei-de ter empenho em viver? murmurou Severino.. envolvendo-a num olhar de profunda tristeza. teve ocasião de fazer algumas observações pessoais e adquiriu quási a certeza de que os rocalandeses diziam a verdade. . Ela é encantadora. deve utilizar tudo isso em serviço da boa causa. muito boa. Severino! exclamou Tecla num transporte.Tenho a certeza de que Severino se daria muito bem nessa terra. disse gravemente Manuela. . aceitou com alegria.. onde será bem tratado.Deus a ouça. O senhor é um cristão e um homem inteligente. parece.-Não diga isso.Para cumprir o que Deus espera de si. mostrou algum entusiasmo e só voltou a entristecer-se a esta reflexão da senhora Viannes: . menina. 186 sua mulher pode.. Ao lado disso. Seus primos deram um jantar em sua honra..

olhava de canto para Severino. Mas Severino era um modesto e um delicado. creio.Pois bem! Dizia cá para mim que a pequena Tecla deverá ser uma esposa encantadora !.Não sei. Severino sabe que não deve fazer cerimónias comigo. O notário meneou a cabeça com ar de quem se não dava por convencido. . -Não. por emquanto..Não me disseste que a menina Harbreuze dotava ricamente sua prima? . neste momento.. não formo tenções de me casar. murmurou Severino com uma inflexão impossível de descrever. O notário. disse Paulino. . . . Severino respondeu com um vago gesto negativo.. pobre. naquela tardia hora vespertina. Tenho cá a minha idea de que morrerei na pele dum solteirão... que Gualberto lhe daria o tempo necessário. Há dois anos que procuro repelir esse pensamento do meu espírito e do meu coração! disse com uma espécie de violência. limpando as lunetas embaciadas. sem falar 189 do seu coração tam nobre e afectuoso.. Parecia-lhe que seu primo tinha dons intelectuais e físicos. . -Queres dizer. Depois que os convidados se retiraram. a pequena Tecla lhe tivesse amor! pensou Paulino Viannes. . Tenho de preguntar a minha mulher e a minha irmã se já notaram alguma coisa a esse respeito. 188 O rosto de Severino purpureou-se. Severino teve um sorriso forçado.Se a amo!. meu caro ? disse de-repente. XII Um ardente sol de estio tinha abrazado todo o dia as ruínas de Castebard. pelo menos. peça a mão da menina Lormey ? . . Talvez que alguma coisa conseguíssemos. Apareciam duas donzelas na pequena eminência. . tenciona dar-lhe. para as alturas. porque suponho que não fizeste voto de celibato! disse rindo o notário.Cala-te. disse Severino. com naturalidade. Manuela sentou-se numa alta pedra coberta de líquenes e Tecla pôs-se a borboletear entre as flores. Paulino!. que te impede agora? . veio sentar-se junto da sua prima e começou a reunir a colheita para formar um ramo. estou arruinado. quando recolhia ao seu quarto. Manuela e Tecla aproveitaram aqueles momentos de menos calor para o seu passeio quotidiano. a-pesar-da fresca brisa que começava a soprar das montanhas.Sabes no que estou a pensar. Certamente.Mas tens uma posição.É evidente. meu caro amigo.Ora adeus! bastará encontrar alguém ateu gosto.. em tom perentório. não posso. .Como queres então que eu. que se desconhecia a si mesmo e ia caminhando sempre.Nesse caso.. para compensar o dote de Tecla Lormey. que se mantinha calado e parecia um pouco nervoso.. encolhendo os ombros.Mas é então verdade que a amas? . mas. porque minha mãe fez desaparecer as últimas parcelas do meu pequeno património.Não. meu amigo! Gualberto vai criar-te uma situação vantajosa.Se. . Depois de fazer sua escolha. os dois primos ficaram ainda na sala de jantar a fumar um charuto. Manuela.. . quinhentos mil francos.Não sei. pelo menos..antes de partir? disse Otília. . porque não ficaste para . pois. desposar uma rapariga rica. replicou Severino com voz alterada.. e as florinhas espalhadas pelas imediações pendiam ainda languidamente.Sim.

quando chego ao destino. cujo ar de satisfação notou. Mas estava inquieta por causa de Tecla. . por poder fazer um pouco de exercício ao ar livre. .Demoramo-nos um pouco. julgando encontrar-vos no caminho. Mas a tez branca ruborizou-se-lhe num momento..Viemos ao vosso encontro. Parecia-lhe que sua prima exagerava um pouco.. porém..Para reproduzir a encantadora rainha das flores. menina.. que vinha passar quinze dias na Rocalândia. A sua pequena cabeça delicada. As que ficam chegam bem. que tanto admiro neste momento. não tendo o prazer de as cumprimentar na minha chegada. disse Gualberto. muito bem!. No souto de castanheiros onde o carreiro estreitava. Se fosse apenas ele.. emergiu subitamente do ramo de flores campestres que elevava até à altura do rosto. Ela encontrou o olhar admirativo do jovem austríaco e baixou os olhos. como hoje. quando Otília lhe deu a notícia. acariciadores. murmurou a voz doce do jovem oficial.Oh! deixe ficar !.Porquê? perguntou Tecla. . ... sob a abóbada de folhagem. respondeu Manuela com um leve movimento de ombros. Rodolfo baixou-se rapidamente para as apanhar. desembocando do carreiro cuja erva lhes amortecera os passos. -Sim. Em frente dela.191 receber o sr. estava preocupada. Otília e Gualberto é que têm de o receber. emquanto o oficial se inclinava diante das donzelas. para lhes apresentar o mais cedo possível as minhas homenagens. senhor. sobretudo. Rodolfo. Sabe que nunca tive tanta pena. sem que pudesse dizer a razão porquê. ingenuamente. mal tendo chegado. E os olhos azul-cinzento. Não se dê ao incómodo. Já o viste e mostrou-se muito amável contigo. Manuela bordava com grande calma aparente. se poria logo a trepar por estes atalhos. Não devemos ir tarde para o jantar.Desde que se cansou a apanhá-las. disse Tecla. avançava ao lado de Tecla. pedi a Gualberto que me acompanhasse. mas ele não é um estranho para ti. Permita-me que as junte ao seu lindo ramo. . tiveram de seguir dois a dois. desde que Otília lhe comunicou a chegada do seu irmão.. apareciam Gualberto e o conde Rodolfo. Evidentemente. ia adiante com ela. que. Tecla baixou a cabeça sobre as flores. replicou Manuela.. Gualberto.Parece que esquecemos as horas! disse de-repente. como é com todas. Mas julguei mais acertado deixar que Gualberto e sua mulher o recebessem. -A imobilidade forçada nos caminhos de ferro torna-se-me insuportável. E não calculava. não se devem abandonar. mal seguras.Não havia razão para isso. 193 volveram-se para Tecla que baixou novamente o rosto sobre as flores.. assim. coberta com um grande chapéu guarnecido de malmequeres. que falava a sua irmã duma carta que recebera pouco antes de Severino. No fundo. Algumas flores. . corando mais ainda. como seus parentes. Tecla levantou-se com um lindo movimento 192 ágil. . Retomaram todos o caminho de regresso. passados momentos. silencioso.. não lhe daria cuidado essa impressão.. Esse mancebo desagradava-lhe. de não ser pintor ? . escaparam de-repente do ramo que trazia Tecla. von Walberg? disse ela.. através da qual o sol projectava largas manchas luminosas. hoje principalmente que temos um hóspede.. . E desta vez. e experimento sempre uma grande satisfação.

mas não podia evitar que Rodolfo a abordasse às vezes nas escadas e no vestíbulo. herança materna. Desviou os olhos e caminhou 194 mais de-pressa. E. o alvoroço tímido da alma cândida e piedosa. e procurava adaptar alguns adornos aos seus vestidos muito simples. tanto mais fácil quanto era certo haver sofrido já e só desejar entregar-se depois de ter suportado o primeiro golpe. Esses leves sintomas duma transformação na alma de Tecla não escapavam ao observador perspicaz que era o tenente von Walberg. que haviam organizado um piquenique na floresta de Qaudres.. . que Manuela saiu uma manhã com Tecla e Rodolfo. a vaidade agradavelmente adulada. o brilho dos doces olhos côr-de-violeta. dar ao seu olhar uma suavidade especial ao fitar Tecla. insignificantes. fora fácil de prender. O sr.. e pôr nas suas habituais atenções de homem bem educado para 195 com uma mulher qualquer coisa de particular.. Rodolfo encontrou-se sentado à beira de Tecla..Mais uma vez se espalhou no rosto de Tecla uma flama côr-de-rosa. de envolvente. inexperiente. que lhe fazia bater o coração com mais força. E que razão se havia de alegar? Foi nesta disposição de espírito. Mesmo quando Manuela estava presente. von Walberg. para se juntar aos Viannes. Não sei porquê. que por ninguém havia sido ainda requestada.. singularmente hábil. Falar a Gualberto ? Não pode mandar seu conhado embora. educada nos princípios sérios. Esse coração terno. por outro. cuja acariciante meiguice enleava gradualmente o coração de Tecla. quando aparecia o conde Rodolfo. parecia delicioso a essa criança. sem demonstrar que o fizera de propósito. e lhe dirigisse algumas palavras. Instalaram-se em breques e carruagens. aparentemente correctas. E não lhes escapavam igualmente as hábeis manobras do sr. von Walberg requestava-a tam discretamente que Manuela tinha mais disso a intuição que a certeza. sem que ela desconfiasse. Notava a cor rosada que se espelhava nas suas faces empalidecidas.. . para se juntar a Gualberto e Manuela. Mas para onde enviá-la?. até ali preservado pela vigilância afectuosa de Manuela e pela atmosfera severa da pequena cidade. Manuela desconfiava agora do sentimento que 196 começava a invadir sua prima. que formavam ondulações naturais.Não é esse o marido que conviria a Tecla! pensava com angústia. simples. que dormitava na alma de Tecla. O puro do seu trajo despertara também a atenção de Manuela. mas tenho a impressão de que este mancebo tem pouco de sério. e a alguns dos seus conhecimentos. o mancebo. sabia. e a observação produzia um breve lampejo de regozijo em seus olhos. frisava elegantemente os seus flexíveis cabelos pretos. A única solução seria afastar Tecla. As palavras lisonjeiras haviam produzido nela duas impressões diferentes: por um lado. a conquista de Tecla estava feita. Tecla nunca a deixava. por mais discretas e hábeis que fossem. E eram ainda essas duas impressões que deviam combater-se dentro dela nos dias seguintes. agitandose de súbito no seu coração ingénuo um fundo latente de garridice. Ao fim de oito dias. mas a que a sua voz insinuante imprimia um encanto. Sentir-se admirada por um homem tam diferente daqueles que havia encontrado até ali. quando encontravam os do jovem austríaco. Uma outra causa vinha em auxílio de Rodolfo: era o instinto de garridice. Mas que fazer? Tem de passar ainda aqui perto duma semana. Demorava-se agora mais tempo a enfeitar-se. distante uma dúzia de quilómetros. quando se dirigia à donzela. apreensivo e perplexo.

por cima dum pequeno muro de pedras soltas. comida sobre a relva. von Walberg não foi muito longe. cedendo ao impulso da sua natureza tam admiravelmente serviçal. Mas arrependeu-se quási ao mesmo tempo. Por um inaudito azar. sustentada por seu irmão e por Manuela. um minúsculo cabaz. Rodolfo não ficou perto de Tecla. E assim. E afastou-se vagamente inquieta com um olhar de afectuosa protecção cobrindo o rosto de Tecla corado pelo ar fresco da floresta. Luíza torceu um pé.Mais ou menos! volveu a mulher do médico ainda ressentida pela saudação indiferente... com o seu ar cáustico. Viannes.. com os juncos encontrados num regato que atravessava a floresta. A sr. e corou levemente ao descobrir Rodolfo. Voltando a cabeça. a boa dama. o jovem austríaco a falar com Tecla. Mas. depois de dar alguns passos. von Walberg faz a corte a sua prima! disse-lhe a sr. . emquanto os cavalheiros acendiam charutos. ocupado a falar com o sr. -Esses pequeninos dedos de fada estão sempre ocupados! disse sorrindo. visto que não queria abandonar Tecla. lhe fizera à sua chegada. respondendo: .a Viannes vigiar a juventude. no breque anterior àquele em que seguia.Parece-me que essas damas se afastaram muito. que desaparecia sob um espesso manto de heras. . E nós agora não podemos demorar-nos. Procurou sorrir-se. propôs Rodolfo. Torceu o caminho rapidamente e dirigia-se para o pequeno adro atrás da capela. . Mas. porém. Viannes. não podia recuar. 199 passeando dum lado para o outro e conversando. chegariam em mau estado. Era por isso que procurava fazer este cestinho.Vamos em sua procura. observou o sr.Decididamente.a Boutrin era dotada duma susceptibilidade aguda. trocando alegres ditos com o sr.197 O caminho pareceu longo a Manuela. e o caminho pareceu a todos mais curto até o termo do passeio. e. levou-o a espiar malignamente os actos e gestos do jovem conde. rosada e sorridente sob o seu grande chapéu de palha flexível. que porventura lhe faziam. sem dúvida destinado aos morangos que enchiam uma larga folha colocada no chão junto dela. uma pequena capela em ruínas. Os passeantes retomaram seu caminho. que tornava ainda mais miúdo o seu lindo rosto. . durante a merenda. Viannes ao fim de algum tempo. Esta ofereceu-se logo. reais ou imaginárias. Felizmente. conseguia ver. possuYdora duma gordura incómoda. estava lá sua filha. descobrira. porém. . Ergueu a cabeça. Todos aquiesceram e dispersaramse em diferentes direcções. quando os mais jovens se organizaram para dar um passeio. Feito o oferecimento. 200 . cujos olhos de Argus nada ficavam a dever aos seus.a Boutrin. indo a sr. todo o tempo que durou a excursão. e nunca perdoava as desconsiderações. e distraída que Rodolfo.. onde pouco antes. um grande chapéu guarnecido de malmequeres. As senhoras dispersaram-se para colher morangos. Rodolfo conversava espirituosamente. Mas o sr. o sr. ao bater contra a raiz duma árvore e teve que voltar para o local onde tinham ficado as senhoras. numa folha. teve de ficar 198 junto das mães de família. Tecla entretinha-se ali a tecer. emquanto lá estava Rodolfo von Walberg.Queria levar morangos para as damas.Oh! não acredito! Tem o feitio de se mostrar amável com toda a gente.

. perplexa .. 203 .É da sua boca... não é verdade. poderia dizê-lo diante de Gualberto. menina Tecla.. senhor. . tenho por si. e. subiu uma onda de orgulho.Mas.. desse fundo em que residem os maus instintos da natureza humana.Meu pai ficará encantado com uma filha tam linda. envolvendo-a num olhar suplicante. ao menos.. sentia que se desvaneciam as suas veleidades de resistência. não se ponha a rebuscar na pequenina cabeça todas as objecções possíveis.. alvoroçada. ..Tenho de dizer-lhe o que me enche o coração.. tornava-se mais instante.. Tecla..Prove-os. disse com voz abafada pela comoção que a .. Há alguma coisa de mais simples ?.. Do fundo da alma de Tecla.Seu pai ?. A pequena Tecla viria a ser uma grande dama..... seria festejada. sem te aconselhares com aquela que tem sido para ti uma terna irmã mais velha!» Mas Rodolfo. . admirada . emocionado.. Ergueu os olhos e viu-o inclinado diante dela. replicando: -Embora nenhum perfume tivessem. Em seus olhos transparecia o sobressalto e a timidez da sua alma terna. desde que a conheço! Amo-a. desde que são oferecidos pelas suas mãos delicadas.Porque não há-de querer? Ele desposou minha irmã.Mas Gualberto. menina! o que tenho a dizer-lhe. balbuciou ela. de rosto grave. Tecla!.. 201 Ele pegou-lhe nas mãos. De resto. primeiro. Tecla ? Perpassou no olhar de Tecla uma hesitação cheia de angústia. Vamos.. serei sua mulher!.. Condessa von Walberg!.Menina Tecla. Têm um perfume delicioso..Mas não posso. .. de Manuela. Porque a menina vai dizer que sim. como ave fascinada pela pupila do felino. suplico-lhe que consinta em ser minha mulher.Diga-me. eu não devo. peco-lhe. Tirou um morango. Levantou-se repentinamente.E Então os cavalheiros não terão direito a esses lindos frutos. e diga-me de-pressa que consente em tornar-se a condessa von Walberg. Tecla ruborizou-se e baixou os olhos sobre o cabaz.. diante do horizonte súbitamente rasgado na sua frente. Olhou-o um pouco estonteada.. Rodolfo escalou o muro e ficou em frente dela.. Inclinou-se. apresentou-a a Rodolfo. disse ainda. . eu me encarregarei de lhe comunicar os nossos esponsais.. Subiu-lhe maquinalmente aos lábios uma última objecção: . eu havia de senti-lo.. preciso falar-lhe.. E a pequena Tecla. Um sorriso entreabriu os lábios rosados da donzela.. pegando na folha com precaução..Pode ouvir-me. não seja implacável ! Havia qualquer coisa na alma de Tecla que protestava: «tu não deves fazer isso! Tu não deves comprometer-te. Não é a mim que me deve pedir.Sim.. quererá ? . que pretendo ouvir a minha sentença! Tecla. diga-me que não recusa! .. ... não ousando acreditar na realidade das suas palavras... . adivinhando o que se passava nela. 202 os seus olhos acariciadores suplicavam. a imagem dos meus sonhos. . duma doçura irresistível. Tecla. eu desposo sua prima.. que devem ser deliciosos? preguntou Rodolfo encostando-se ao muro que o separava de Tecla. com um salto ágil. A sua voz tinha inflexões enternecedoras.

Fora. Uma brisa fresca. Mas não porei essa submissão à prova. Ouviam-se vozes que se aproximavam. com ansiedade.É uma coisa bem inocente!. Saíram ambos do adro e juntaram-se aos outros passeantes. Tecla! Não. Não fale disto a ninguém. nem mesmo a Manuela.Mas não fica bem ocultar isto a Manuela. um pouco perturbada. até ali tam confiada e sincera. . quando ali chegou Manuela depois do jantar.. o ruído dos passos de Gualberto e Rodolfo. porém. aquelas palavras. . no atordoamento de todo o seu ser moral. XIII O crepúsculo invadia o quarto de Otília. 204 pareceu-lhe que em sua alma. Oh ! isso não é possível! . Encontrava-se agora sob a sua completa influência. . irei ter com ela para saber o que se passou. notou imediatamente qualquer coisa de extraordinário na fisionomia de Tecla. . tinha cessado havia alguns instantes. Ouvia-se agora apenas o murmúrio alternado das suas vozes.Obrigado!. Havia pegado. estonteado.Não direi nada a Manuela. dizendo que lhe doia muito a cabeça. Não pode recusar-me o que lhe peço.. e amanhã seremos oficialmente noivos.estrangulava. . vinda das montanhas. o que era verdade. ela não podia recusar. Pobre Tecla. se elevava num grande grito de reprovação.. .. desejo-o! Esse silêncio não será longo..É muito razoável e há-de ser uma mulherzinha muito dócil.Sim. Parecia absorvida. Essa impressão aumentou ao ver que sua prima evitava o seu olhar e se mantinha quási sempre em silêncio. quando praticava alguma tolice. deixando escapar um movimento de protesto. .. mas Rodolfo inclinando-se de novo para ela. tanto na volta como durante a refeição. e o coração batia-lhe descompassadamente. E sou eu que trago a sua colheita. Mas calaram-se de-pressa e os passos ressoaram novamente no terreiro. disse Rodolfo. com efeito na folha coberta de morangos de que Tecla se tinha esquecido. .. dirigido pela Senhora Viannes. antes de eu dizer que o faça. a quem a fadiga impedira de sair. para trabalhar junto de sua conhada.. Ao pronunciar. roçava os cabelos loiros de Otília e acariciava a fronte apreensiva de Manuela. que passeavam no jardim.Ter-lhe-ia ele dito qualquer coisa? pensava Manuela. sabia ela porventura onde tinha a cabeça! O seu tenro cérebro. Subira para o seu quarto logo depois de jantar. Quando o grupo de jovens.. os seus olhos tinham essa leve expressão 206 de desvairamento que Manuela lhe conhecia desde criança... Emfim! emfim! exclamou Rodolfo. . inclinada sobre a pequenina touca que guarnecia de renda. Tecla procurou afastar-se instintivamente.. que não tinha abandonado. estava incapaz de reflectir.Então quere que..Descobri a menina Lormey sozinha no adro da capela. disse Rodolfo alegremente. Daqui a pouco. Falarei a Gualberto ainda esta noite. de felicidade ou de misteriosa angústia-ela não o saberia dizer. tranquilize-se. . a fumar. chegou naquela tarde ao local em que ficaram as mães de família. Sentia-se profundamente inquieta. porque a comoção e um vago remorso lhe ocasionavam nas fontes palpitações dolorosas. sorrindo. inclinando-se para beijar a pequena mão. já não sentia a força moral necessária para resistir à fascinação sobre ela exercida por aquele estrangeiro.. Olhou-o estupefacta. murmurou.Uma palavra apenas.

. extremamente agitada.Um pedido?.. .O jogo! interrompeu Otília. se entende que seu irmão pode vir a ser um bom marido! O rosto de Otília contraíu-se. e que o senhor pagou ? .Em primeiro logar. Rodolfo mostrou-se sempre comigo um excelente irmão. e só poderá prejudicar a sua carreira. que lhe sulcava a fronte. sem dúvida.. disse por fim. . acrescentou ele visivelmente contrariado. Otília. terá chegado a contrair dívidas? preguntou com voz abafada... Era Gualberto. Além disso é excessivamente gastador.... preguntou ela.Mas ignora então que o dote que Manuela vai 208 dar a Tecla constituirá uma larga compensação ? A jovem senhora empalideceu. visto que nada possui.... .. e no olhar reflectiu-se por momentos uma espécie de hesitação penosa.. e o jogo rapidamente .. sinal de irritação.Nesse caso. . bateram à porta do quarto de Otília. . Momentos depois.com efeito.Duas ou três vezes.Mas queria que me dissesse..É também essa a minha opinião.. i Que dizes tu a isto.. Morreu nos lábios de Manuela uma exclamação de angústia. Manuela ? . desconhece em absoluto a sociedade em que ele vive. Mas não é motivo para se inquietar.Também assim desejaria pensar. mas devo lealmente confessar que ele não é sério..Não tanto como se poderia parecer a princípio .Não a incomodo.Encontrou qualquer meio. . quem as pagou? .. Otilia?.. num tom de espanto. . lamento não a haver deixado na ignorância. porque não pertence ao mesmo meio. E Manuela ficou logo surpreendida com a ruga profunda. Mas está doido!. sob nenhum ponto de vista..Quer dizer que lhe pediu?.Ouviu-se o ranger e o choque duma porta que se fechava e alguémM subir as escadas. . empalidecendo.Ignora essa paixão de seu irmão ? .Ele quere desposar Tecla ?.Mas... Tecla não é. -E.. Ela ergueu para ele um olhar de desafio. Acaba de pedir-me Tecla em casamento. não o creio. a mulher que convém a Rodolfo. 209 . .Sim. respondeu Gualberto.. emquanto Otília balbuciava: .Não podia ser doutra forma. desviando o olhar dos olhos angustiados que o interrogavam. absolutamente impossível! disse Otilia. ....Calculo que Rodolfo se não deixará arrastar por um motivo desse género! disse ela num acento de altivo protesto.. .Digo que esse casamento é impossível! respondeu com voz trémula. literalmente doido! Entreabriu os lábios de Gualberto um sorriso desdenhoso. . nunca meu pai me falou nisso. Queria dar-lhe parte dum pedido que acaba de me fazer seu irmão. . ....Não. ao ver ruborizar-se o rosto de sua mulher. 207 . posta de lado a questão de categoria social. . . Havia na voz de Gualberto uma inflexão sarcástica. ..Sim.. e que uma criaturinha sensível e amorável como Tecla poderia sofrer junto dele.Pode ter a bondade de me explicar a razão ? disse Gualberto com uma tranquila frieza. com efeito.... .

Para ela. porque a vejo muito mudada.. principalmente há uns dias para cá.Seu irmão. disse Gualberto. .desculpe-me dizer-lho. .Mas então ?.. Agora. era fazer a desgraça dessa pobre criança. .. consentiu em deitar-se. de que ela tem por ele alguma afeição? -Assim o creio. von Walberg ali estivesse.. Em tais circunstâncias.Pobre pequena!.Mas porquê? interrogou Otília com vivacidade. Não se 212 mexia. a sua visível agitação preocupavam Manuela.. Manuela? .Sim.. . O pior é se essa pequena Tecla sofre. Na passagem. E essas dívidas de jogo! Não quis falar-me por saber que me oporia com todas as minhas forças a que se dirigisse a Gualberto!.. impressionável. Como proceder ? ..Falar-lhe do pedido do Conde Rodolfo. com um doloroso suspiro.Manuela. . murmurando: . a donzela entreabriu devagar a porta de sua prima e lançou uma vista de olhos para o interior. Manuela fechou a porta. Amanhã comunicar-lhe-ei esse pedido.. Quando a porta se fechou atrás dele.é excessivamente hábil e dotado dum encanto insinuante. Otília comprimiu a fronte nas mãos. muito sensível às atenções de que pode ser objecto.. Tecla também não tinha dormido naquela noite. Fora da presença de .. a conquista não devia ser difícil. e o brilho febril dos seus olhos. Gualberto. Sobreveio um acidente na fábrica. esclarecendo-a o melhor possível sobre as consequências duma união desse género.É odioso! murmurou ela. Otília.. A instâncias suas. Oh! principalmente a ele! Estava rubra de indignação. Procuraremos resolver o caso. Mas em todo o caso. Há tam pouco tempo! . Parece que não és desta opinião. Tecla é uma pequenina alma ingénua.Porque tenho razões para pensar que ela ama o sr... . pelo menos. não ocultei a Rodolfo a minha absoluta desaprovação e fiz-lhe compreender que nunca daria o meu consentimento.. mas a criança sofreria.. e admitindo que fique lisonjeada a 210 princípio. Ela é séria. acrescentando todas as informações necessárias.Oh! julga isso.. essa noite foi uma longa insónia que somente tornava mais suportável a prece que subia constantemente do seu coração pela sua querida Tecla. Gualberto impediria esse casamento.Amanhã. crispando os dedos nas roupas de criança em que trabalhava pouco antes. Censurava-se por não ter sabido guardá-la. Walberg. é preciso evitar que ele despose Tecla.Era preciso que Rodolfo aqui viesse para me causar desgostos desta natureza! É impossível que esse casamento se faça!... calculando qual seria a minha atitude!. De resto. Amanhã hei-de pedir-lhe contas dando-lhe a perceber que só lhe resta tomar o comboio. Evitou falar-me nisso. A projectada entrevista com Tecla não se realizou na manhã do dia seguinte.. e sua conhada só a abandonou depois de a ver mais calma. Está verdadeiramente convencida. e Gualberto teve de dirigir-se lá à pressa. . e... virás com ela ao meu escritório. . emquanto o sr.. por não ter cedido ao seu impulso de afastar sua prima da Rocalândia. Manuela!.Não: receio que a resposta de Tecla não seja bem a que tu imaginas. Falarei dessa proeza a Rodolfo!. Tecla parecia dormir.. . compreenderá de-pressa que essa união não podia convir-lhe. 211 Deu as boas-noites à mulher e à irmã e afastou-se.

. Gostaria de lá ir. mas os seus pensamentos estavam em desordem. ao pensamento de que tinha de evitar agora as preguntas e até o claro olhar de Manuela. por ter encontrado uma truta soberba. que talvez impedisse Manuela de notar a sua perturbação.Minha querida noiva. Mas. .. ia precisamente dizer a Manuela que me dispensasse. . Mas parece-me que a minha querida Tecla gosta das distracções mais do que antes! Falando assim. . se não fosse.. não é verdade? continuou em voz baixa...Irei apenas para te acompanhar. Tenho muito empenho nisso. que era logo perturbado pelo grito da consciência.Não vejo impedimento. E foi com toda a sua alma que abençoou Vitorina que voltava radiante do mercado. que fazia nesse dia uma pequena festa no jardim.Pelo contrário. vinha saber se tencionas ir esta tarde a casa dos Viannes. Vá. Experimentou orar. «uma truta como se não via há muito tempo!» acrescentou ela. desceu para avisar sua prima a-fim-de enviar Gertrudes a casa da senhora Viannes. cercando-lhe os olhos uma orla escura. . disse com a voz um pouco alterada. onde permanecia um ponto doloroso.Hoje estou melhor. . de coração pesado. foi-se ver ao espelho e notou que tinha o rosto fatigado e pálido.. menina Tecla. exibindo gloriosamente o peixe em questão..... . . Manuela. .. Manuela avançava e colocava a mão sobre o braço de Tecla.Irei. tinha dito. e aparecia-lhe constantemente diante dos olhos a fisionomia atraente de Rodolfo. Direi a Manuela que me dói a cabeça.Mas não. . seria talvez preferível absteres-te dessa reunião. peço-lhe eu. Sentia-se perturbada pelo penetrante olhar de sua prima.. ei-la emfim! Pegou-lhe na mão que. com esse pensamento. sentia-se arrebatada num sonho de felicidade.Que fazes tu aí. por esse tom de voz ao mesmo tempo imperioso e suplicante. e Rodolfo desapareceu deixando-a assombrada por aquela brusca mudança imposta à resolução que tomara pouco antes.. plantada em meio do vestíbulo.. porque... em seu alvoroço. ouvia a sua voz aveludada murmurando frases delicadamente lisonjeiras. como estavas ontem fatigada. . com um sorriso 215 forçado. E então. e Rodolfo avançou rapidamente para ela. nem pensara em estender-lhe. Talvez lhe não tivesse sido ainda possível encontrar seu conhado.. isso deve fazer-lhe bem . Tecla estremeceu e espalhou-se-lhe no rosto uma tinta cor de púrpura. É que Alice ficaria contrariada se lá não fosse. por momentos. por causa da minha dor de cabeça. Tecla esquivou-se..Mas não.Rodolfo. abriu-se uma porta. 213 Depois de se levantar. essa reunião seria para mim tam insípida! 214 Vencida por esse olhar. e roçou-a com os lábios. .. Felicitou-se pela obscuridade do vestíbulo.Eu.. Quando passava no vestíbulo. Irá esta tarde a casa da senhora Viannes.E se não fosse nessa tarde a casa dos Viannes? pensou ela passando a mão pela fronte. Porque lhe imporia Rodolfo aquele segredo? Queria falar antes a Gualberto. Tecla? disse de-repente a voz de Manuela. Tecla murmurou: .. o que é muito exacto. sentira o seu coração mordido pelo remorso do silêncio que prometera ter para com Manuela e pelo compromisso tomado tam levianamente. Ouviu murmurar «Como é boa!» com uma inflexão de ardente reconhecimento..

Tecla descobriu uma de-repente. O ar estava aromatizado pelo perfume das rosas. respondeu ele. que mantinha a sua inalterável amabilidade. e lamentava não poder ficar ali sozinha. mas que se harmonizava deliciosamente com o seu lindo rosto.. pensativa. A quadrilha seguinte foi dançada também por Tecla. dum vermelho carregado. muito simples. que ele sentia agora sob o seu domínio. e Manuela não quis fazer a sua prima uma observação desse género em presença de estranhos. Isso bastava para que violentasse a sua real fadiga e a angústia vaga que lhe ennublava o cérebro e apertava estranhamente o coração.. A reUnião estava já bastante adiantada. quando o tenente von Walberg apareceu no jardim da senhora Viannes. Rodolfo ? Preciso de te falar. a-fim-de a convidar para a próxima dança. Manuela mandara-lhe fazer um vestido branco. o seu cavalheiro não deixou de lhe falar. tirando dum cofre um broche de pérolas finas. Tecla teve um sorriso de contentamento. conduzindo Tecla para o espaço em que se dançava: e que deliciosa idea haver escolhido essa rosa vermelha. Sentia-se muito cansada. Seus pequeninos dedos quebraram a haste e colocaram a flor na cinta. Cochichava-se já. que descera naquela manhã. . Tecla dirigiu-se ao seu quarto para mudar de vestuário. . Manuela. Mas o conde Rodolfo desejava que ela fosse. porque se encontraram com uma família do seu conhecimento que também ia para casa dos Viannes.Tecla. que pertencera a sua mãe. ocupada em dar instruções a Gertrudes. e que. Trocadas algumas palavras com os donos da casa e outras pessoas mais conhecidas dele. nesse ano 217 muito numerosas e soberbas. A um quarto convite. Tecla dirigiuse para ali maquinalmente. anda daí! disse-lhe a prima. Foi ter rapidamente com Manuela ao vestíbulo. von Walberg convida muitas vezes .. durante toda a polca.Podes subir um momento comigo. Esta. e duma estranha frieza para com o sr von Walberg. principalmente onde estavam as senhoras Boutrin. que põe nesse vestido uma nota quente e animada! Vendo que um clarão de prazer incendiava o olhar de Tecla. notou que Gualberto se mostrava preocupado e apreensivo. Depois veio tirar a jovem para uma mazurca. apagando logo o vestígio de contrariedade que se lhe manifestara no olhar. só fora de casa deu pela flor que se ostentava no vestido branco de Tecla. foi convidar Alice Viannes. o jovem austríaco avançou para Tecla. com um gesto de instintiva garridice. . tinha uma atitude idêntica em face de seu irmão. depois. ao levantar-se da mesa: . Todos notaram que o rosto da donzela se purpureava.Fica-lhe muito bem esse vestido branco! 218 declarou primeiro Rodolfo. Mas não teve tempo de lhe exprimir a sua surpresa.. Depois de ter reconduzido Tecla ao seu logar. continuou no mesmo tom. e não estava ainda pronta quando ela desceu. ajeitou os bandós escuros do cabelo. Errou alguns instantes. dizendo-lhe em tom glacial. prendeu-o no vestido. estonteando com as suas gentilezas essa alma ingénua. ao longo dos estreitos arruamentos.Estou à tua disposição. Na espectativa de algumas pequenas festas de verão. moral e fisicamente.Quere-me parecer. Otília. admiravelmente aveludada. em volta dos canteiros.Durante o almoço. Vendo-se ao espelho. Manuela tinha-se demorado por causa duma pobre mulher. 216 . Vendo a porta do jardim aberta. aqui e além. todos ficaram espantados. que o sr.

.Verá como venceremos a inexplicável resistência de Otília e de Gualberto. ele murmurou: .. dizia a voz cariciosa do jovem conde. replicou friamente a donzela. a dor imensa que lhe torturava o coração! Tecla! a sua querida Tecla!.Mas se.Nós ambos alcançaremos a vitória. que me parece um pouco fatigada. . Oh! como desejaria correr para ela.. os dois jovens afastaram-se dos pares remoínhantes 219 e passeavam agora num arruamento próximo.. é a si que eu quero. Ah! a sua rosa! A flor acabava de cair por terra..Talvez que estejam noivos! arriscou uma excelente pessoa que procurava sempre encontrar o lado bom de todas as coisas. Quando a jovem ia a colocá-la outra vez na cinta. repelir para longe esse homem. Depois de ter dado alguns passos-de dança. Aquilo transformava-se num pequeno escândalo.. Era mais um rasgão no código das conveniências de Rocalândia. -Reconduzo-lhe a menina Tecla. por ... Tecla. não obstante. mas forçando um sorriso nos seus lábios pálidos. Já está a dar muito nas vistas. Uma garrida. Pobre Manuela. que se sentava junto dela com ar cansado.É o que falta saber. não tardaremos a retirar-nos. afinal. mas embora. . porque a sua mão.Dê-me essa flor. testemunhas daquela rápida cena ou informados pelos que a tinham visto.A Senhora viu ? cochichou com espanto uma dama gorda ao ouvido da sr. era a palavra que circulava entre os convidados. que se mostrava extremamente preocupada.Nesse caso. vendo-os avançar: Rodolfo sorridente e conversando com alegria.Tecla! veio murmurar Alice ao ouvido de sua amiga. nada receie!.. baixando-se rapidamente. que tinha necessidade de recorrer a toda a sua energia para furtar àqueles olhares curiosos. 220 que se apoderou dela e a colocou na botoeira. principalmente por se tratar duma donzela que fora até ali um modelo de modéstia. e queria que eu desposasse uma pessoa aristocrática... Mas Rodolfo não se importava com o caso e Tecla não se encontrava em estado de reflectir. em lembrança dos nossos esponsais! Ela contemplou-o com ar hesitante.. mais oo menos 221 malévolos. não sei que idea é a dele! respondeu Manuela. Quando Tecla voltar. Mas não. um pouco tremente. de olhos baixos.Será um grande desgosto para nós todos! Mas não ouso insistir.a Boutrin. . . eles recusarem ?. . de rosto impassível. apanhou-a e estendeu-a à donzela. é inaudito! Uma rapariga que parecia tam simples.. Rodolfo. de Walberg a convidar de novo. murmurou Tecla.. dir-lhe-ei que recuse em absoluto..Sim. . é a si que eu amo! . disse o conde Rodolfo.Vi!. esse estrangeiro de olhar enfeitiçante que se havia apoderado do coração da criança! Tinha de se conservar ali. graciosamente inclinado diante de Manuela. a mais elementar conveniência indicava que não se exibissem por esta forma. Otília está enfatuada . tam séria! É uma garrida.. como sua mãe. se o sr. de orgulho nobiliário.. E Manuela?. Tecla quási da brancura do seu vestido. . por qualquer motivo. sem olhar para ele nem para Tecla. sua vizinha. Mas aqueles olhos que suplicavam carinhosamente possuíam um poder irresistível. os esponsais se conservem secretos. de seriedade e devoção. Tecla. . estendeu a flor a Rodolfo.

saber que a saúde da menina Tecla precisa de cuidados. Inclinou-se novamente, afastando-se. Mas quando tentou arranjar novos pares, esbarrou por toda a parte com uma recusa. As mães haviam passado rapidamente palavra a suas filhas. Eram muito rigorosos no capítulo das conveniências, na Rocalândia. O namoro por mera distracção ainda não tinha direitos de cidade, e, quem tentasse a experiência, seria posto de lado, como acontecia agora ao jovem austríaco. Não se mostrou, contudo, incomodado, e foi fumar para o meio dum grupo de homens sisudos, que mostraram muito interesse pela sua conversa. Manuela demorou-se apenas o tempo necessário para não demonstrar que levava Tecla como uma culpada. Abandonaram ambas a casa Viannes e fizeram o trajecto que as separava da sua habitação sem pronunciar uma palavra. No vestíbulo, separaram-se também silenciosamente. Tecla, um tanto angustiada, subiu para o seu quarto e Manuela dirigiu-se para o quarto do irmão. Gualberto estava respondendo a uma carta de Severino, que tratava de negócios. Levantou os olhos para sua irmã e preguntou logo: - Que aconteceu, Manuela? Parece que vens perturbada! - Aconteceu que não podemos já impedir o casamento de Tecla com o sr. von Walberg. Em poucas palavras contou-lhe a atitude tomada pelo jovem oficial e a cena que se passara entre Tecla e ele. 223 Dos olhos escuros de Gualberto dardejou uma chama de irritação. - Esse caçador de dotes tinha de conseguir os seus fins! Miserável comediante !... Ah! Tecla há-de ser feliz com ele, não há dúvida! Mas ela assim o quere... - Não digas isso. Gualberto. A pobre criança é inexperiente! Deixou-se prender nas lisonjas, nas palavras enfeitiçadoras desse jovem como uma avezinha cai na armadilha... Minha pobre Tecla! E eu que tanto a desejei confiar a um homem sério, que soubesse compreender essa natureza delicada, tam sensível e afectuosa! A fisionomia de Gualberto exprimia um pouco de comoção ao ver as lágrimas que enchiam os olhos de sua irmã! - Sim, é um grande desgosto para ti, Manuela... E, se não considerasse Tecla tam ingénua, tam facilmente impressionável, bastante fraca de carácter, acusá-la-ia de espantosa ingratidão para contigo. Mas o grande culpado é esse Rodolfo... Estava então escrito que essa família nos havia de causar tantos sofrimentos?... Passava-lhe na voz uma irritação áspera, e ficou silencioso por alguns momentos, de fronte apoiada nas mãos. 224 - Mas, evidentemente, não podemos agora opor-nos a esse casamento, disse por fim, levantando a cabeça. Rodolfo procedeu com tanta habilidade que torna impossível uma recusa da minha parte, sob pena de haver um escândalo na nossa cidade, tam severa nas suas relações sociais. Queres chamar Tecla? Vamos dar-lhe parte do pedido do sr. von Walberg. Tecla ia muito pálida, quando penetrou, atrás de sua prima, no escritório de Gualberto. Mas, às primeiras palavras deste, o seu rosto ruborizou-se e os dedos crisparam-se-lhe sobre a saia branca, que não tivera tempo de tirar. - Tenho de comunicar-te um pedido de casamento, disse friamente Gualberto. Sabes já com certeza de quem ele parte! Tecla era muito sincera e não se atrevia, por isso, a fingir ignorância. Murmurou dèbilmente: - Sei, meu primo. - O que quere dizer que o sr. von Walberg te falou antes?

Fez um sinal afirmativo com a cabeça. - Talvez mesmo te hajas comprometido com ele! - Sim, salvo o seu consentimento... - Ah! ainda bem que houve uma restrição!... 225 Não me alongarei em notar a inconveniência do teu procedimento, não só para comigo, que sou o teu tutor, mas para com Manuela, que se mostrou para contigo sempre uma irmã terna e dedicada. Era principalmente a ela que devias ter confiado o que se permitiu dizer-te o sr. von Walberg; era a ela que devias ter pedido conselho nesta ocorrência. Mas emfim... adiante. Isso é contigo, e com a tua consciência. Voltemos ao pedido de meu conhado. Se, como era minha intenção, te houvesse podido falar esta manhã, seria uma recusa categórica que tinhas ouvido da minha boca. O sr. von Walberg não me parece, de nenhum modo, o marido que te convém, e, nova e criança, como és ainda, não quereria tomar nunca a responsabilidade de autorizar esse casamento. Mas depois do que se passou esta tarde, em que, ao que me dizem, vos apresentastes como noivos, é-me impossível agora opor-me. Tecla permanecia imóvel, de olhos no chão, feições abatidas, duma brancura de cal. Um leve estremecimento agitava-lhe as mãos e os lábios. Em pé, atrás da poltrona de seu irmão, Manuela envolvia-a num olhar de ternura dolorosa. Quanto daria ela por apertá-la ao peito e levá-la 226 para longe, para muito longe da desgraça que a espreitava, à sua pequena e querida Tecla! - vou pois levar a resposta ao sr. von Walberg, continuou a voz gelada de Gualberto. A minha, porque a tua já lhe foi dada. Amanhã anunciaremos oficialmente os vossos esponsais... Podes retirar-te agora, Tecla. Retirou-se a cambalear. Tudo girava em volta dela... De-repente caiu sobre o soalho antes que Gualberto ou Manuela pudessem ampará-la. XIV Foi apenas uma ligeira síncope, mas a febre apoderou-se da donzela e só a abandonou no dia seguinte de manhã. Manuela tratou-a com a terna solicitude de sempre, como se nada se houvesse passado entre elas... Tecla chorara em seus braços, pedindo-lhe perdão. Mas, fosse por timidez ou com receio de não ser compreendida, manteve-se impenetrável, e Manuela não conseguiu decifrar o lugar exacto que em seu coração ocupava o sr. von Walberg. À tarde Tecla desceu com sua prima para a sala. Como os esponsais eram tacitamente um facto consumado, Manuela deixou-a conversar a um canto com o conde Rodolfo que se apressara a correr ao seu encontro, por ter adivinhado, disse graciosamente, a presença de sua noiva. Mas era um verdadeiro sofrimento para Manuela ouvir 228 aquela voz suave, de timbre acariciante, embriagar Tecla com subtis adulações, ou então formular maravilhosos, projectos de futuro, a que a donzela aquiescia cegamente. E assim aconteceu ainda nos dias seguintes... E agora, que Rodolfo gozava dos previlégios dum noivo, cada vez mais aumentava o seu império sobre essa criaturinha meiga e amorável, completamente fascinada. A notícia dos esponsais do seu irmão e de Tecla impressionou Otília tam profundamente, que a jovem senhora ficou enferma e teve de recolher ao leito. Não queria ver Rodolfo nem Tecla. - A ele não poderia deixar de dizer tudo que penso a respeito do seu procedimento, declarou a Manuela. A ela não poderia ocultar o meu desgosto por esse casamento e os receios que ele me

inspira. Mais vale, pois, deixar que tudo sossegue antes de nos tornarmos a ver. Quatro dias depois da reunião dos Viannes houve, na capela das Claristas, uma festa franciscana. Rodolfo acompanhou Manuela e Tecla e ouviu atentamente o sermão, mantendo uma atitude recolhida, que encheu de alegria o coração de sua noiva. Tinha229 que seu irmão era um indiferente e que só por hábito se entregava a algumas práticas de religião. Que felicidade se ele voltasse à fé!... se ela tivesse bastante influência para o reconduzir a Deus. Embebida nesse doce devaneio, saiu da capela atrás da sua prima. Cá fora, Rodolfo pegou-lhe na mão e passou-a por baixo do braço. - Em que vai a pensar a minha santinha ? preguntou em tom chocarreiro. Está ainda mergulhada nas suas preces? Tecla ergueu para ele o seu olhar tímido, mas brilhante. - Não ... vou a pensar em que me julgaria muito feliz, se o pudesse ver sempre junto de mim, na igreja. Pôs-se a rir e replicou: - Nesse caso, ser-me-á fácil contentá-la! Demais, é já minha intenção abandoná-la o menos possível, minha querida Tecla. Fitou-o um olhar de reconhecimento... e Manuela, que o ouvia, reteve a custo as palavras que lhe acudiam aos lábios. - Velhaco! hipócrita! Gualberto havia recebido naquela manhã informações suplementares sobre seu conhado, e 230 eram de tal ordem, e representavam Rodolfo von Walberg como tam desprovido de valor moral, tam aferrado aos prazeres e ao luxo, que discutiu com sua Irmã a oportunidade de romper os esponsais de Tecla. É melhor que essa criança nunca se case, do que ter de encontrar a infelicidade certa numa união desse género! Que dizes tu, Manuela ? - Sou da tua opinião. Falarão a princípio muito, depois tudo se acalmará... O pior será o sofrimento de Tecla. Mas que importância pode ter ao lado do que a espera nesse casamento! - Vamos pensar no caso. Tenho de retirar-me esta tarde, para só voltar amanhã. Resolveremos então o que convirá fazer. Manuela havia orado ardentemente, pouco antes, na sua querida capela, oferecendo todos os seus sofrimentos para evitar aquela desgraça à sua querida Tecla. Ficara-lhe uma profunda impressão de esperança, parecendolhe agora que as suas preces iam ser ouvidas. - Ah! aí vem o distribuidor! disse Rodolfo, quando chegaram a casa. Virá alguma carta de meu pai ?... Não é que tenha dúvidas sobre o seu consentimento; tranquilize-se, menina Tecla! 231 acrescentou, ao ver o olhar inquieto que se volvia para ele. Ficará encantado em a ter por nora, principalmente depois do retrato que lhe fiz da minha noiva. Havia duas cartas para o sr. von Walberg. Rodolfo lançou a vista para uma delas, dizendo: É de meu pai... Mas tornou-se muito pálido ao ver a direcção da outra. Ao entrar no seu quarto, abriu precipitadamente a última, e escapou-lhe dos lábios uma praga. - O miserável!... Quarenta mil francos!... Onde quere ele que os vá buscar? Gualberto já se me negou categoricamente, e não se mostrará mais acessível agora que está furioso por causa de Tecla... Ainda se esse Wernez quizesse esperar até depois do meu casamento! Mas não, é imediatamente, sob pena de fazer um escândalo... Também há já muito tempo que o iludo com promessas! Desta vez, sinto que me põe um ultimato...

.Está bem. Consentir que se faça esse casamento é mergulhar .. O conde afastou-se logo. Contando que Gualberto não tenha a idea de fazer um contrato estúpido.. O único meio é tentar escrever-lhe. na sala. em que o conde mostrava a sua satisfação por ter uma nora tam encantadora. há poucos momentos. Fêz-se silêncio na sala. E.. . Tecla teria a sorte da falecida condessa de Walberg. nenhuma atenção ligava à conversa. porque prevê de-certo que me não embaraçarei muitas vezes com minha mulher e que ela estará mais tempo em Rennubrunn que junto de mim..O sr. será mais prudente retirar-se. Tenho essa soma no cofre do meu escritório. esse querido pai compreende-me! Ora! Não há como um lindo dote para resolver as coisas. . para poderes comer com descanso. nenhum obstáculo subsiste agora diante de nós. não se deve zangar por ter uma gentil nora para cuidar dos seus reumatismos.Não sente frescura nos ombros.. 234 de lábios cerrados. 232 . de coração dilatado por aquela afectuosa solicitude. Comunicou-me algumas passagens da carta de seu pai. Manuela abafou um suspiro. deixamos correr as coisas! Vejamos agora a carta de meu pai. como lha descrevia seu filho..Estava. Ouvi dizer. Entretanto. a voz de Gualberto ressoou de-repente. os mesmos defeitos e os mesmos vícios. Rodolfo tinha a mesma natureza que seu pai. Mas a palavra do cofre? É. tudo se aplana. estou bem. não se põe em altos gritos. Rodolfo veio sentar-se junto dela e leu-lhe uma passagem 233 da carta de seu pai. a qual de-certo.. como Otília. como é muito delicada. . Rosard deve vir amanhã buscar cinquenta mil francos para umas compras que tem de fazer na Inglaterra.Como vê.Começa a arrefecer.Ora ainda bem. menina Tecla? disse passados alguns momentos. no velho banco que ficava por baixo das janelas da sala. . . No outro dia chegou a irritar-me. e ficou longo tempo imóvel.Mas não. contudo. Ela ergueu-se docilmente. Emfim.Manuela.Não encontro solução. Tecla trabalhava no jardim.Quarenta mil francos! Ninguém mos emprestaria.Bem. . Mas já deve ser tempo de ir ter com essa pombinha. na posição precária em que nos encontramos! Além disso. Não se impressiona.Gualberto tem razão. cofiava o bigode com mão nervosa.Certamente. pedindo-lhe que espere até o meu casamento. .. e seguiu para a sala onde trabalhava Manuela. . Tecla. Todos sabem que estou carregado de dívidas! Deixou-se cair numa cadeira. morta pelos desgostos que lhe causou seu marido..... desenhava-se-lhe acentuadamente nos lábios um sorriso escarninho. Gualberto baixou a voz por tal forma que só chegou um murmúrio aos ouvidos de Tecla. . O conde Rodolfo. Queres encarregar-te de lhos entregar? . . sob pretexto de escrever a seu pai. para me impedir de tocar no dote de minha mulher!.. fica descansado Gualberto. . de cabeça entre as mãos. a mesma língua melíflua. havemos de ser muito felizes! Por cima deles. muito amáveis para comigo. que ela consentira em casar com seu marido apenas por causa do dinheiro dele. von Walberg estava junto de ti? preguntou Manuela a sua prima..... À medida que ia lendo. vou despedir-me de Otília. Agora vou ver se o teu jantar está pronto.

de que nessa tarde o tinha deixado na sala.. . vou prevenir Mateus. ofegantes. inclinaram-se sobre o corrimão. abriu a porta e entrou. nesse momento retinidas no coro da capela. quando.. depois de deitada. 236 . dirigiu-se para o fundo do vestíbulo. Ao atingir o primeiro andar. Os seus dedos cravaram-se no braço de Manuela com tal força... envergou um roupão e foi buscar o seu breviário.. Nada estava fora dos seus logares. muito perturbada.. que era inútil insistir para que mudasse de resolução.Rodolfo! balbuciou a jovem senhora. as piedosas Claristas.... Otília e Manuela reconheceram-no imediatamente.. procurando observar já nalguns pontos a regra austera da Ordem em que desejava entrar. para recitar o ofício divino em união de espírito com suas vizinhas. . que devia ir descalço. Mas interrompeu-se. todas as noites. No emtanto. Sobre a escrivaninha. vou prevenir Mateus. Devagarinho.Não podia dormir. Otília dirigiu-se para o escritório. Porque Manuela. Ergueu-se.Manuela. onde se encontrava o seu quarto. O olhar de Otilia dirigiu-se para o cofre. apareceu no corredor uma sombra esbelta.. ali? preguntou com a voz subitamente velada.. procurava conciliar o sono.... Vem do escritório de Gualberto ? . descobri luz nas janelas do escritório.. parou bruscamente. Subiu outra vez com toda a cautela. . encontravam-se em boa ordem todos os papéis de Gualberto. de-repente. O mancebo. . mas está lá alguém. Chegava do rés-do-chão um leve ruído de porta que se abria. quando bateram horas de matinas. .Havia dinheiro. e levantei-me para me chegar à janela. E . pois os seus passos eram quási imperceptíveis.Não venho. . Mas como ela deve sofrer com o rompimento ! Estes pensamentos ansiosos não abandonavam a donzela. que lhe fugia obstinadamente. que lhe fora destinado desta vez. erguia-se. Otília avançou para as escadas. Manuela compreendeu. Saía um homem do escritório de Gualberto. não vá! Arrisca-se a sofrer algum desgosto! murmurou Manuela..conscientemente essa criança na infelicidade. e apertou nervosamente o braço de sua conhada. que esta sufocou um grito de dor.. vestida de branco. Mal a porta se fechou vagarosamente sobre ele.. Será um ladrão? pensou ela com terror. cuja luz tinha baixado. donde podiam ver uma parte do vestíbulo.ainda não tinha fechado os olhos. e desceu com toda a precaução. abriu a porta do quarto. . Uma réstia de luz passava por baixo da porta do escritório de Gualberto... percorrendo-o todo com a vista. contudo. Mas como se levantou?. e vinha ver o que era. pensava Manuela com 235 mágoa. Segurava na mão um pequeno candeeiro. pelo seu olhar. havia tempos.Está ali alguém!. Desceu atrás dela. . .o antigo quarto da velha Harbreuze. estava muito agitada.Otília. Mas lembrouse. As duas mulheres..Quero saber a razão porque estava ali! Todo o seu corpo era uma tremura.. Encostando-me casualmente. Vá depressa chamar Mateus! Que pegue no revólver de Gualberto. é a menina? disse a voz de Otília um pouco trémula. Quando chegava ao fundo das escadas.Ouça! murmurou ela..

Gualberto não perseguirá o irmão de sua mulher.. Sentindo um movimento insólito na casa. tornando-se lívida.. além disso. talvez não deixasse de o tratar como merece.. XV Manuela devia conservar longo tempo a impressão das angústias dessa noite. abra-o. em Turim.Vejo que conhece o segredo!. .. Otília inclinou-se avidamente... Aberto o cofre. que quere dizer! . pois.. num desvairamento. Oh! então não compreende que mais vale saber? insistiu ela. só lhe resta sair imediatamente desta casa. agarrou-lhe as mãos entre as suas. o que. por todos os motivos. . O conde tornou-se lívido e balbuciou: .Talvez que Gualberto se esquecesse de deixar esse dinheiro.. À porta. e gemeu. que Manuela não percebeu. que o seu caminho único é desaparecer. . Abra-o!. com uma impaciência cheia de dolorosa ansiedade. grave e indignada. voltou-se e desceu as escadas com um passo pesado. . que estendia a cabeça por trás dela. se Manuela a não amparasse logo com um braço. As senhoras Viannes não tinham abandonado a casa Harbreuze. Já vê... cujas consequências lhe podem ser fatais. e tam habituada a prestar-lhe os seus serviços.Gualberto havia metido ali esta manhã cinquenta mil francos. não se aflija.. . mas se o encontrasse aqui ao chegar. À tarde.Não compreendo. assim o quero.Que lhe importa isso. Boutrin tinha poucas esperanças de salvar a mãe. 240 Manuela foi obrigada a ter. Otília. Eram dum inapreciável auxílio para Manuela. que sua irmã sofreu esse terrível abalo. pois sabia que a triste notícia ia chocá-lo profundamente... 241 dirigiu se para o comboio sem tornar a ver Tecla. puxando com a mão livre uma cadeira que. o austríaco saiu do quarto para se informar. e o dr. E foi ao observar a falta do dinheiro guardado por Gualberto no cofre. Havia ido um telegrama ao encontro de Gualberto. e cairia pesadamente no chão. viu aprumar-se diante dele Manuela. algumas palavras em alemão. Mas a pobre senhora. sucumbiu.. uma explicação com Rodolfo. que o interior estava vazio. a qual se encontrava de cama com febre... Rodolfo baixou os olhos diante daquele olhar leal e severo. Manuela! Diante da sua exaltação dolorosa.Depois do que se passou há pouco no escritório de meu irmão. geladas como dois pedaços de mármore. Compreendendo que mais valia esclarecer logo a pobre criança. a donzela compreendeu que tinha de ceder. quebrada física e moralmente. Otilia levou a mão ao peito. observou com terror. num abrir e fechar de olhos. desde que a donzela as mandara chamar. e do dia que se lhe seguiu. A criança viera prematuramente ao mundo. pois não poderia evitar-lhe a dolorosa revelação da indignidade desse homem a quem . porém.. apaixonadamente dedicada à sua jovem patroa. por acaso. e Manuela aguardava a chegada de seu irmão. é melhor evitar.É inútil disfarçar. senhor. torcendo as mãos. Depois dirigiu-se para os aposentos de sua irmã. Manuela. se encontrava ao seu alcance. bem como Josefa. Otilia? Não pense mais no caso! 238 -Diga-me!. Sem dizer uma palavra. Otília e eu vimos tudo. depois de arranjar as malas à pressa. murmurou ela em voz baixa.Pode abri-lo? Vendo a hesitação angustiada que transparecia no rosto de Manuela.

agora sulcada de rugas. eu tinha-lhe anunciado a tua chegada. Consegui ainda. Sem dizer uma palavra. Mas não consentirei que esteja mais um momento debaixo do meu teto! . já nesse momento.E a criança? preguntou com voz abafada.. Manuela deu-lhe conta de tudo. A febre declarou-se logo. que o acto de seu irmão não a atinge por maneira alguma. . .Que foi então ? 243 .Não me atreverei a voltar para junto dela. Era uma inquietação a mais. Manuela. com a sua alta estatura um pouco vergada.. . -Não pôde sobreviver. . que julguei mais prudente retirar-me. felizmente. Gualberto passou a mão pela fronte. disse levantando a cabeça. pobre Otília! Compreendo agora a sua atitude de há pouco. . porque Tecla tinha uma constituição delicada. mostrou uma grande excitação. com muitos cuidados.Oh! naturalmente!. que contínuos estremecimentos agitavam. se fosse conhecida.Anda comigo. Sua irmã contou-lhe então todos os pormenores da cena nocturna que tivera tam terríveis consequências. de fronte encostada às mãos. . com receio de lhe fazer mal. não é verdade ? murmurou ternamente sua prima.. é uma humilhação sem nome.Não está pior. e Manuela obrigou sua prima a recolher à cama.tinha chamado seu noivo. Dirigiu-se para o quarto de Otília e Manuela esperou-o no corredor. É verdade que. não te posso dizer isso aqui. muito forte. Estendeu as mãos para me afastar e havia nos seus olhos uma expressão de tal terror.No entanto.. Gualberto ficou alguns momentos silencioso. Gualberto só apareceu na manhã do dia seguinte. passou-lhe na cabeça uma tontura e caiu nos braços que lhe estendia Manuela.. em cujos olhos flamejava um surdo furor. mas também não está melhor. . Ele saiu quási logo. foi ter com ele ao vestíbulo. e dirigiu-se para as escadas. 244 Procura fazer-lhe compreender suavemente.Como vai ela ? interrogou com voz oprimida. como se aguentasse um fardo pesado.. Calculei que lhe abandonarias o produto do seu roubo. Tecla fêz-se muito pálida. com a fisionomia alterada.. Para ela tam altiva.Parece que a minha presença a agitou profundamente . será ele quem a mata. Receio incomodá-la.Já partiu. que deshonraria o seu nome. . diante de ti principalmente. Gualberto subiu a escadaria. mas isso é horroroso! balbuciou numa voz débil e repassada de mágoa. hás-de ter coragem. O doutor não se atreve ainda a pronunciar-se. Por causa dela. 242 Estava extremamente pálido. voltando-se para a irmã que o seguia. é uma horrorosa tortura para ela. . baptizá-la. . Mas não te admirarás quando souberes o que se passou. .Miserável! exclamou Gualberto.. para evitar o escândalo! . e estes rudes golpes tornavam-se deploráveis para a sua saúde. que não lhe ligo a importância que . logo que teve um momento livre para fazer essa confidência. antes de ir ter com os anjos. Se sua irmã morrer. Manuela. Gualberto. que ansiava pela sua vinda.Sim.Minha querida Tecla. Seguiu-a ao seu quarto e sentou-se maquinalmente em frente dela. e o seu rosto revelava uma angústia profunda.Sim. uma confusão inexprimível saber seu irmão culpado dessa acção vergonhosa.

No aposento vizinho.Otília. Os belos olhos de Otília encheram-se de lágrimas. peço-lhe que nunca mais se fale entre nós de tal assunto! Não pode ser responsável pelos actos de seu irmão. O dr. Otília.Fica descansado. Gualberto.Meu filhinho! murmurou ela. Queria dizer-lhe quanto lamento o que se passou. como ele seria feliz! Brilhava na casa Harbreuze. . desviaram-se dos de Gualberto.. .Maior desgraça ? A jovem senhora pronunciava aquelas palavras 247 em voz baixa. . Diz-lhe também que teria grande prazer em beijar-lhe as mãos. . notava que o estado da enferma ia seguindo bom caminho. essa culpa de Rodolfo.. As palaVras mal haviam aflorado aos lábios. Mas endireitou-se. envolvendo com o seu doce olhar de terna compaixão aquele rosto alterado em que se lia a profunda comoção que o dominava. não deixarei de dar graças a Deus! Não podendo conter um soluço. no meio das finas roupas e rendas do berço que lhe estava preparado.Otília pede-te que subas. que deslizaram lentamente pelas suas faces lívidas. cujo rosto. disse Manuela. contendo-se com apertar mais fortemente a pequena mão que conservava entre as suas. transtornado pela inquietação. Não se aflija: o que se passou ficará entre nós. pedirlhe perdão por. . e já o teria esquecido se não a visse sofrer tam cruelmente as suas consequências. . uma chama de esperança.Gualberto. contanto que «ela» viva. mas. num impulso instintivo. a não ser por causa do mal que ele lhe causou. Gualberto ergueu-se e dirigiu-se para a porta..i Onde está a criança ? preguntou num tom de melancolia.Como ele a ama! pensou Manuela comovida por aquela dor. . visto que é apenas uma vítima. em que ele poisou os lábios.. e os grandes olhos azues. fez um movimento para se inclinar sobre ela e atrair contra o seu peito a loira cabeça enfraquecida.Parece-me que a salvaremos. disse a Gualberto.Foi Deus que nos enviou essa provação. depois roçou com os lábios o minúsculo rosto enregelado.. onde procurava trabalhar. Boutrin. . O rosto pálido de Otília ruborizou-se ao vê-lo entrar. Gualberto aproximouse. -se iluminou um pouco a essas palavras de esperança. com uma inflexão de cansaço e amargura.. reconsiderando: .Seria bem feliz se tivesse vivido..ela julga. voltou-se rapidamente e saiu do aposento. Naquele mesmo dia.. com gesto hesitante estendeu-lhe a mão.. Se ela tivesse querido. impregnados duma 246 confusão e duma dor inenarráveis.. de súbito. mas devemos estar-lhe gratos por nos poupar maior desgraça ainda! disse gravemente. . saiu do gabinete e galgou as escadas. Gualberto.. e não lhe reconheço o direito de me pedir perdão. contemplou-o demoradamente. Falei-lhe como tu desejavas. Manuela foi ter com seu irmão ao escritório. 245 . embora não pudesse pronunciar-se ainda. desaparecia o pequenino cadáver. Manuela encaminhou-se para uma porta que abriu... . .. Ergueu-se dum salto.Sem lhe responder. Mas.

Sê forte. como te é lícito ainda ter..Melhor um pouco.Tratar-me ?. obrigada. disse ele. minha querida Tecla. Fugia a todas as distracções e não queria sair. as visitas eram ainda mais curtas. O negro peso de inquietação que oprimia todos. No corredor. Pois por quê ? Por haveres sido enganada por um miserável hipócrita. dizendo-lhe com meiguice e ternura: «Minha querida Tecla».. de fronte enrugada. à medida que as melhoras se acentuavam. XVI Otília estava agora livre de perigo. Mas tinha uma forma especial de lhe apertar a mão. e cuja verdadeira razão não se podia explicar.Que quer ele dizer? Haveria de julgar que era dele que falava. Gualberto disse um dia a sua irmã: 251 . . Para quê ? murmurou ela. . i No emtanto. na velha casa. que saía do quarto pela primeira vez. e Otília testemunhavalhe delicadamente o seu reconhecimento. Tecla passava a maior parte do tempo junto de Otília. em virtude do brusco rompimento dos seus esponsais.bom dia Tecla. Nunca o nome de Rodolfo chegou a ser pronunciado. e os seus olhos tomavam uma expressão de afectuoso carinho. ao poisarem naquele rosto macilento. porque não quero fatigá-la. Tens de tratar-te com cuidado. e lembra-te de que outros sofrem tanto como tu. Tecla seguiu-o com a vista. Tinha mais coração do que Manuela o julgara a princípio. porque afinal. murmurando pensativamente : . .. E. se o consentir. Vinha regularmente duas 250 vezes por dia informar-se da saúde de sua mulher. Manuela inquietava-se com a saúde de sua prima. . Ela fez dèbilmente com a mão um sinal afirmativo. Em fins de Setembro. cuja afeição por ela era cada vez maior.O teu aspecto ainda não é bom. Então não és uma cristã!. olhando compadecidamente aquele rosto. sem procurar reagir. minha 248 Tecla. . envolvido numa dolorosa mágoa. Até Gertrudes e Vitorina tinham um ar mais alegre. desesperas de tudo e aborreces a vida que Deus te deu para empregares em seu serviço ?. talvez mais do que tu. Manuela tratara sua conhada com a maior dedicação.. Voltou-se rapidamente e desapareceu nas escadas. Já te sentes melhor? preguntou Gualberto estendendolhe a mão. trocava com ela algumas palavras insignificantes. Tecla definhava lentamente... quási esbarrou com Tecla. que parecia acentuarse ainda mais agora? Gualberto mantinha também uma atitude inteiramente semelhante..Mas é a ti que eu ouço falar assim ? preguntou num tom de severa censura.Vou-me embora. porque não têm a esperança de novos sonhos. cujos olhos fatigados estavam cercados por uma orla negra. não favorecendo Josefa para as prejudicar e censurando-a sempre que ela o merecia. encovado e sem cor. tornar a ver as pessoas que certamente não fariam uma idea lisonjeira a seu respeito.Gualberto empalideceu e deixou retirar a mão de Otília. fazer visitas. desaparecia por fim. em que o sorriso era agora muito raro. depois retirava-se. Voltarei mais tarde. que singular aberração a levava a manter com Gualberto essa atitude de fria reserva. nunca também a jovem senhora aludiu aos tristes esponsais de Tecla. após alguns dias de febre e de extrema fraqueza. . e Gualberto afastou-se.. a jovem senhora tinhase mostrado sempre muito boa para com elas.

. As duas conhadas bordavam uma toalha para a 253 capela das Claristas. Gualberto. muito embora. Encontra-se agora restabelecida. A força moral que a tinha abandonado voltava. muito debilitada. Tinha receios de que. Não teria coragem de o ver.. Fêz-se novamente o silêncio. estar eu ou ninguém. .. -Não. que a parede de gelo se mantinha sempre. só Ele poderia estabelecer a união entre aqueles dois seres ligados um ao outro por um laço indissolúvel.. onde. Otília pôs-se outra vez a bordar. porque Tecla.... e como.Otília ergueu de-repente a cabeça. Só voltou a falar quinze dias antes do Natal. uma noite em que se encontrava na sala com Manuela e Gualberto..Não vejo inconveniente nenhum. sua prima parou muitas vezes no percurso para lhe mostrar uma ou outra cidade. não iria lá. Reinava o silêncio na grande sala tépida. Encontraram Otília relativamente boa. Otília prolongasse indefinidamente ... Talvez que uma distracção forçada lhe fosse favorável. recolhera mais cedo.. que Manuela confiava.. que lhe indicou Manuela... Voltaram interiormente fortificadas e Tecla com melhor aspecto. a levantála de novo a cima dos desgostos. E vieram-lhe receios de que a jovem senhora tentasse abandonar novamente a Rocalândia. emquanto Gualberto percorria os jornais. Tecla não pôs objecções a uma viagem a Lourdes. e os lábios tremeram-lhe. Encolheu levemente os ombros e retirou-se visivelmente triste. Gualberto.Já pensava nisso. incomodada com uma enxaqueca. Mas Otília não falava em Rennubrunn.Haverá algum inconveniente. Mas que importa? Deus via o fundo das almas. havia lá longe. Otília. para a distrair. e com uma profunda melancolia.tempo. em que eu vá ver meu pai pelo Natal ? Ele interrompeu a leitura e respondeu com frieza: . Se assim não fosse. uma vez em Rennubrunn. . após a morte da velha Harbreuze. e essa viagem só pode fazer-lhe bem.. porque Otília sofria também como o tinha compreendido Manuela. Esse projecto de viagem renovava as apreensões de Manuela.. nem a sua verdadeira causa. Seis dias passados junto da gruta santa. que haviam mortificado o seu terno coração. que para o rosto pálido de sua mulher. desagradável ? Ela empalideceu.Deverias fazer com Tecla uma pequena viagem. e disse com grande tranquilidade: . Manuela notou. Manuela.. . Só não conseguira definir a natureza daquele sofrimento. que tinha confiado em que na sua ausência se fizesse uma aproximação entre os dois esposos notou. A atmosfera de graças que respirava agora ia actuando pouco a pouco sobre ela. mas queria que Otília estivesse completamente restabelecida. lentamente. meu pai escreveu-me. Mas não receia um encontro.Foi ela que me falou. ele não aparece. das angústias e desilusões. foram para Manuela uma oração contínua. porém. que ele olhava menos para o jornal. por isso.. dois seres profundamente infelizes. já não existia tam rigorosa e fria simetria. na velha casa.. com tristeza.. e era só em Deus.. Tinha tanto 252 que pedir! Não falando daquela por quem fazia esta viagem. Os preparativos da partida sacudiram um pouco o seu abatimento. encontrava-se já menos melancólica ao pôr os pés no solo abençoado de Lourdes. Gualberto recomeçou a sua leitura. Disporei as coisas para não me ausentar durante esse ..

porque acabou todo o pano. e sei que ele está fatigado. E abandonaria seu marido sem remorsos? 256 -Não era eu que o abandonava.254 a sua estada. . foi ele que se desligou daquela que o havia desdenhado e feito sofrer. despedacei esse coração leal. . encontrou Otília na sala a vestir umas bonecas destinadas à árvore do Natal. Otilia.Não devo ocultar-lhe que tenho de-facto esse receio. Havia colocado sobre os joelhos a pequena Piemontesa e alisava maquinalmente entre os seus finos dedos brancos a saia de lã escura.É uma amabilidade da sua parte.Otília. e tam paciente..Tem receio de que eu não volte. que ele tanto desejava. . pois que só tinha para com ele frieza e ressentimento. repeli sem compaixão esse amor. . Mas agora tudo acabou... E visto que Gualberto me não ama já. cujo vestido havia terminado..Mas a ausência será longa. que se poderia transformar por fim numa separação definitiva. Otília ? . Manuela. Mas é pena que não esteja lá para observar a alegria das criancinhas! Este Natal vai ser para nós muito triste. naturalmente. parto com intenção de voltar. a despeito da minha glacial indiferença. nunca pensou no que era para ele ? A jovem senhora empalideceu e as mãos tiveram um longo estremecimento. me der a perceber que prefere a separação.. em vez de levar o meu pequenino anjo.Naturalmente!. pois de que serve uma existência como a que nós levamos? Somos um pesadelo um para o outro. a-pesar-de. 255 Otília sorriu levemente.. de tudo que nos separa. Levantou subitamente a cabeça e encarou sua conhada de frente. ele amava-me. sabe qual é o meu desgosto de todos os dias? É que Deus não me deixasse morrer. Agora. Manuela ? . 257 . tentar saber o verdadeiro motivo dessa ausência ? A conjuntura era delicada e Manuela sentia-se muito perplexa. Evidentemente seria essa a melhor solução... porém.Se Gualberto. Também gostaria de passar aqui essa festa.Ajuda.Encantadora! Tem muita habilidade. e a árvore do Natal vai dever-lhe o seu maior atractivo. . quando. sentando-se junto da sua conhada.. que se mostrara tam delicado para comigo.. ao voltar das suas visitas de caridade. desta vez. mas há muito tempo que não vejo meu pai. Ora veja esta. Mas deveria falar a sua conhada.É conforme... ficando satisfeito por conservar o filho. velando-lhe por momentos os belos olhos. murmurou ela....... Lágrimas ardentes deslizavam pelas faces de Otília.. Que tal lhe parece? Apresentava a Manuela uma pequena Piemontesa.. . . Foi às águas-furtadas ver se encontrava nas velhas malhas com que vestir esta última boneca. . . o meu dever. . doente. Amava-me como eu não merecia. não sofreria com o meu desaparecimento. e deseja a minha visita. . Manuela.No emtanto. ficarei. Estava ainda indecisa no dia seguinte. no fim de contas. sem a sua presença. murmurou ela. Os seus lábios tremeram e os longos cílios baixaram-se. sim.Sim. cuja voz se velava pouco a pouco. ele é que me afastaria. Levada pelo meu louco orgulho de raça.. que as Viannes preparavam para as crianças pobres. mas ausentou-se há poucos momentos.Tecla não a ajuda hoje ? preguntou a donzela. É esse.

«Seria bem feliz se tivesses vivido.Reconciliou-se com a música. e de fronte pensativa. que trabalhavam silenciosamente. a luz eléctrica iluminou repentinamente o velho salão. Fê-lo sofrer muito... Otília. mas pode reparar o mal. não deixarei de dar graças a Deus». Otília não deu pela sua entrada. presente de Gualberto. . visto que tanto aprecia a música. sinto-me tam cruelmente humilhada diante deste homem íntegro. Uma pequena mão branca fez girar o comutador. Otília? Já encontra nela novamente prazer? . polvilhado de neve. vestida de negro. Faziam-se ouvir os passos leves de Tecla. nunca mais a jovem senhora se servira dele.... junto da porta. quando estava em tam grande perigo.. .Deve lembrar-se. sem dúvida hesitante. 260 Cinco minutos depois. depois do que fez esse.Prazer. Ele avançou. Veja agora onde está o seu dever. acabava de passar uma forma delicada. A jovem senhora avançou para o piano. Coloriamse-lhe de rosas as faces pálidas em que roçavam frementes as compridas pestanas doiradas. Manuela. Desde o dia em que ali chegara o piano. se . em pé. ouvindo a deliciosa harmonia que vinha do salão. Sob as lágrimas brilhou uma chama de alegria nos olhos que se voltaram para Manuela.. dirigindo-se para uma porta que abriu com gesto resoluto. tornando-o feliz. a jovem senhora levantou os olhos. conhecendo os seus antigos sentimentos para com ele. que deve experimentar uma vergonha tam grande de ser conhada dum. o que disse Gualberto diante do filhinho morto. As notas do último compasso extinguiram-se com um longo murmúrio.Ele disse essas palavras? Nesse caso.É verdade. murmurando: . e além disso. em toda a sua frieza e monotonia. e abriu-o. XVII No vestíbulo todo iluminado. e depois da forma como acolheu outrora a afeição que lhe dedicou. preguntando num tom calmo: . Mas porque se mostra tam frio comigo ? Porque me evita sempre ?! disse com voz anelante. Sentia-me tam infeliz por lhe notar essa atitude!. de que. existia agora para ele uma questão de dignidade.Manuela inclinou-se. lançou-lhe os braços ao pescoço e murmurou-lhe ao ouvido.. amava-me ainda um pouco!. Deu alguns passos e parou novamente em meio do vestíbulo.. detinha-se bruscamente no limiar. 258 A palavra não lhe passou dos lábios descoloridos .Obrigada. que interpretava como verdadeira artista. parecendo absorvida na sublime beleza do adágio de Beethoven. Manuela e Tecla... tiveram um sobressalto de surpresa ao ouvir os sons que chegavam até elas. alguém que entrava. Otília.Otília. e o rosto afogueou-se-lhe à vista de Gualberto..mas.É Otília que toca!murmurou Tecla. um pouco abafados. que o doutor desesperava de a salvar?. minha irmã. e começou a tocar.. Otília depôs um beijo de reconhecimento na fronte de Manuela. contanto que «ela» viva. desgraçado. as mãos poisaram no teclado. . Sentou-se.. minha querida irmã: todos os outros sentimentos se apagam no coração de Gualberto diante do amor que nunca deixou de ter por si. . impeliua e entrou devagarinho.. ... sim. Depois avançando para a porta que ficara entreaberta... Mas serei feliz.. . Na sala.Quere que lhe repita. Não tinha pensado nisso.

Gualberto.. que tinha um encanto particular na boca desse homem frio e impenetrável. meu primo Maximiliano... acusava-o de ter procurado apenas. com a ajuda de Deus.. sê-lo-há agora muito mais por ter dissipado as nuvens pesadas que se elevavam entre nós. o seu primeiro beijo de verdadeiro amor. Mas agora não se trata de sacrifício. para com a ingrata e miserável criatura que eu era.. . Gualberto. Certamente eu não mereço que me tenha amor. Otilia partiu por ocasião do Natal mas não partiu só.. principalmente por orgulho... tam paciente.Feliz. por orgulho!... ao acto degradante do roubo. E a si. Voltaram ambos. nunca o será bastante... um conde de Walberg descer. Era agitada por uma viva emoção. deu um passo para ela.Cale-se. Seria uma felicidade para mim.. muito pálido. cheios duma felicidade ainda um tanto incrédula.. Oh! Gualberto! não compreende que o meu coração lhe pertence agora em absoluto ? O rosto de Gualberto. e Gualberto nunca a abandonou durante a sua permanência em Rennubrunn. oh! duma generosidade que me acabrunha! exclamou ela num soluço. em minha opinião. Sentiu-se agarrada derepente por braços vigorosos e transportada para o canapé. Sentia-me tam altiva do meu nome.. quantas o senhor quiser. tantas vezes. .. um outro. e mal podendo aguentar-se em pé segurava-se ao piano. Os grandes olhos azues levantaram-se para ele. e perder a saúde e a razão num vício horroroso. inclinando um pouco a fronte.Tem o direito de recordar os meus erros. meu. sempre que seja possível.puder tocar muitas vezes . adorado marido! disse com um delicioso sorriso de alegria..Um pouco!. Ela ergueu-se repentinamente. £ quere tornar-me feliz a esse ponto? preguntou numa voz abafada pelo assombro.Mas será possível ?... tímidos e suplicantes. Otilia. . . minha querida e bem amada mulherzinha! disse num tom meigo e enternecido. ao desposar-me. radiantes como dois noivos. Otília? Fêz-me compreender tantas vezes que eu lhe era não só indiferente. Tentará dar-me um pouco de amor. na qual Gualberto depositou um longo beijo. A sua voz tremia ao pronunciar estas palavras.. A jovem senhora teve um estremecimento e empalideceu de novo.. E vi. pelo contrário. atraindo para si aquela formosa cabeça. encontrei-o sempre tam bom. juntando as mãos trémulas: .Como é amável! Mas julgo ter-lhe dado a perceber um dia que não queria aceitar o que considerava um rude sacrifício.. e.Que significa isso.Peço-lhe que seja bom. Todos os seus membros tremiam.. e 264 . Sim.. Esqueçamos o passado que nos fez sofrer. 262 uma aliança destinada a lisonjear o seu amor próprio de plebeu rico. Falava num tom tranquilo e gelado.. no emtanto.. e seus olhos. mas consinta ao menos que lhe testemunhe... mergulharam nos olhos de Otilia.. tam leal e generoso. Nunca deixou de 263 me ser muito cara. . onde Gualberto se sentou junto dela. caminhemos para o futuro.. para pagar as suas dívidas instantes. desposar pela sua fortuna uma mulher que declarou nunca poder amar. mas até odioso. proporcionar-lhe um pouco de satisfação.. brilhou subitamente. 261 . . o meu culpado procedimento! É verdade que fui má para si. que não me recorde a minha loucura. o meu pesar e o meu arrependimento. da velha nobreza da minha família! Desprezava a sua origem burguesa.. tanto quanto estiver em meu poder.

em distraí-la.Oh! não o duvido. nunca falando dela. Gualberto. julgo não ser necessário.Manuela apressou-se a entregar nas mãos de sua conhada o governo da casa. e estimava a fortuna de seu marido principalmente pelo prazer que ela lhe proporcionava de fazer bem aos outros. estava ardentemente apaixonado por sua esposa. procurava também reparar o . como sempre. se ela quisesse poderia gastar sem conta os vastos rendimentos outrora cuidadosamente capitalizados pelos seus predecessores. não queria 266 que por minha causa. cuja frieza altiva se atenuava diante dos seus empregados. que sempre quisera ignorar. Otília. traçou o plano da nova vivenda. sob a influência da felicidade familiar que o transfigurava por completo. A opinião de Otília prevaleceu. Além disso é muito acanhada. que era Gualberto. estabeleceram o plano duma habitação ao mesmo tempo simples e confortável. 265 . bem organizada para os frios rigorosos da estação. ficando ambos de acordo. quando descobria de longe os edifícios detestados. naturalmente. . as quais Gualberto acompanhava a cada passo. te julgasses obrigado a abandonar esta habitação em que tantas gerações dos vossos viveram e à qual certamente estás apegado. trabalhava junto dele no vasto escritório. com Manuela. sempre que podia. Simplesmente. o projecto que lhe submeteu Gualberto. Otília queria agora cumprir todos os deveres. o ar e o sol não entram aqui livremente. Ficaremos deliciosamente lá em cima. queria fazer as coisas muito luxuosamente. pelo único prazer de habitar onde viveram meus antepassados. privar-nos de ar e de luz. e que. . passar por ali na carruagem em que dava os seus passeios. Acompanhava seu marido. que visitava em companhia de Manuela e de Tecla. verás. fonte dessa fortuna que fora causa do seu casamento com Gualberto Harbreuze. desviando os olhos com uma espécie de cólera surda. de comprar a pequena eminência em que se elevavam as ruínas de Castebard e o souto que as precedia. Todos sabiam que esse bloco de gelo. Manuela e Tecla. muito triste para ti. essa fábrica que tanto fizera revoltar a sua arrogância aristocrática. . quando lhe era intolerável ser considerada senhora Harbreuze. Além de atraída pela 267 simpatia que sempre lhe inspirara a boa Tecla. Preocupava-se com muitas coisas. e. interessava-se pelos operários e pelas suas famílias. ou até de Gualberto. é muito escura. No emtanto. porque Gualberto que tudo achava pouco para sua mulher. Otília testemunhava a mais terna solicitude à sua jovem prima e empenhava-se. Os trabalhos começaram naquele mesmo estio. entre elas a própria fábrica. que desta vez não foi recusado. evitando. No emtanto.É certo. e. Houve uma discussão amigável entre os dois esposos. e. mas conservá-la-ei como uma recordação do passado de minha família. dizia-se na Rocalândia. acolheu com viva satisfação. Mas a jovem senhora mantinha-se muito simples.O senhor Harbreuze nunca pareceu tam novo como agora. em rodeá-la dos mais afectuosos cuidados. a meio desta. A datar desse momento via-se muitas vezes na fábrica a jovem esposa de Gualberto. declarou ele. lhe eram estranhas . a propósito daquela transformação e sobre a união perfeita que existia agora entre os dois esposos. outrora orgulhosamente repelidos. por sua vontade. para fazer construir. procurando satisfazer os seus menores desejos. Foi um pretexto frequente de passeios para Otília. esses dois elementos tam necessários à vida...Esta velha casa. Tinha-se discutido muito. Sem mais delongas. que até ali. uma vila espaçosa.

a cor perdera a palidez antiga. O mancebo já não tinha o aspecto triste doutros tempos. afastava-se até das pequenas reuniões do sr. as suas qualidades morais e intelectuais muito acima do vulgar. Pobre Tecla! . mas não é isso que lhe convém. Mas continuava sempre triste. e que uma 270 . reteve um movimento de surpresa à vista da jovem senhora radiante de frescura. Mateus. não sabem distinguir entre uma precipitação de donzela. iluminar o sombrio e vasto aposento e 269 até o altivo rosto de Gualberto. conservavam uma expressão de melancolia grave. algumas preguntas cheias de interesse pela sua existência em Bucarest e sobre os resultados do seu trabalho. sob o ponto de vista de seriedade e de coração. que parecia. proporcionar-lhe um casamento que ofereça todas as garantias de honradez e gravidade.Constou-me que também tinhas relações doutro género. muito simpática. e de beleza. que os pais e mães-defamília não desejariam ter por nora.Sou da tua opinião. com o seu amplo vestido caseiro. não vejo por aqui rapariga que se lhe assemelhe. inebriada por alguns cumprimentos. Após o seu regresso de Lourdes. A pobre Tecla não passa. . a jovem senhora afastou-se depois de ter convidado Severino para jantar. acrescentou sorrindo: . 268 . e tam bondosa! A não ser Alice Viannes. Era Mateus. e. Viannes. tornavam-no verdadeiramente apreciado na sociedade romena e entre os seus compatriotas ali estabelecidos. dizia Otília a Gualberto.É verdade. esquecerá de-pressa aquela penalizante desilusão. Severino.. Além disso. depois de o ter felicitado pelo êxito dos seus negócios.sofrimento de que seu irmão fora causa. Mas uma simples aparência basta para fazer julgar alguém pelos nossos concidadãos. meigos e profundos sempre. A sua magreza -transformara-se num garbo elegante. a seus olhos. Nas doçuras e responsabilidades dum lar. nos seus olhos côr-de-violeta. Mas não devemos esquecer que ela deve ser difícil de casar. havia ainda uma expressão longínqua de desiludida: tornara-se retraída. o velho criado. todo branco. Severino Viannes.Sim. Severino saía-se admiravelmente da tarefa que lhe confiara Gualberto e realizava já excelentes proventos sobre negócios por ele tratados. Interrompeu-se ao ouvir bater à porta do escritório em que se passava este diálogo. . e Otília mostrou-se muito amável. pois que. minha querida Otília. Apenas os olhos. .. creio eu. por isso.Também assim o penso.Mas é tam encantadora. mais alegria. meu caro amigo. com o dote que lhe dá Manuela. a sua distinção.. . preguntando se o senhor Gualberto podia receber o sr. tinha-me anunciado a sua chegada num dos dias desta semana! Mande-o entrar. é evidente que lhe não faltarão partidos. que tanto lhe agradavam noutro tempo. os movimentos tinham mais vivacidade. Repito. Gualberto. Após alguns momentos de conversa. duma estouvada. o que ele aceitou sem hesitação.. duma jovem frívola e leviana. ao penetrar no escritório.Temos de procurar-lhe um bom marido. Tecla havia recuperado um pouco de energia e o seu definhamento parecia haver sofrido também uma pausa. deve ser difícil casar aqui essa querida Tecla. Essa dolorosa história transtornou-lhe por completo a vida. pouco sociável. isto é. Os rocalandeses são muito rígidos. Este acolheu o seu amigo com maior efusão que de costume. e uma garridice premeditada.

Gualberto envolveu num rápido e perspicaz olhar a fisionomia de Severino. tu és destinado para fundar um lar. às primeiras palavras que sua conhada lhe disse. levavam-me a supor que esse nobre coração estava preso dos encantos da nossa querida Tecla. E com Tecla poderia sêlo.Oh! não penso nisso! disse com uma espécie de impaciência. .. replicou logo: . durante a refeição.. quando se encontrava só com ela. Manuela. o segredo que Severino sempre se empenhara ocultar.Quási tam bom como o meu! disse Otília. à vista do pálido rosto de Tecla. .Agradeço a tua excelente opinião. . .. ... como por um íman. um nada. que seja tam feliz como eu!.. porque a não pediu?. Desejolhe.. A fronte de Severino teve uma leve contracção. À noite. às vistas perspicazes. na fisionomia.Oh! de certo! disse a donzela sorrindo.. disse Severino com um riso forçado. . levando muito longe a sua delicadeza. reprimiu a custo um movimento de surpresa. .. dos seus olhos apagados e tristes. houvesse recuado diante do dote de Tecla.interessante romena muito desejaria tornar-se senhora Severino Viannes..Também me parece. e serás um marido ideal. . Paulino ? . . revelava.. O seu olhar toma uma infinita doçura quando a encontra. Tecla seria para ele uma admirável mulherzinha. completamente livre.Querida aduladora! volveu ele com um sorriso de felicidade.Ou eu me engano muito. .. A não ser que. de tempos a tempos. recebeu uma boa educação cristã e a provação sofrida tornou-a reflectida. E. e ela teria um bom marido !. cujo olhar. Viannes por Tecla. 272 A donzela. Mas se fosse necessário para o contentar. .. porque Gualberto trocou uma vista de olhos com sua mulher. disse Gualberto a Otília..i Julga então que Gualberto pode entender-se nesse sentido com o sr.. . no emtanto. Mas tenho a impressão de que morrerei na pele dum celibatário. 273 . Digam o que quiserem os rocalandeses. Procurou sempre ocultá-la. falaremos disso a Manuela.Assim o creio. . seja dito sem lisonja. da lassidão que toda ela testemunhava. quando Severino. durante a palestra que se lhe seguiu na sala. mas... . encostando carinhosamente a cabeça ao ombro de Gualberto.. Mas depois ?. sem dúvida. . Tanto quanto ele quiser! Não é de dinheiro que Tecla precisa para ser feliz. uma leve emoção na sua presença. ou esse bom Severino ama a nossa pobre Tecla.Há muito que desconfio dessa afeição do sr. atraído constantemente para 271 Tecla. . entrou na sala com o seu amigo..Nesse caso. mas do apoio e afeição firme dum nobre coração.No emtanto. pouco antes do jantar. e parecia que lhe custava dissimular a sua emoção ao vê-la tam mudada.Muito bem. essa pequena é muito séria. Mas sabe o que me assusta.. não cessaram de observar discretamente o mancebo.É verdade!. Gualberto.Esquece-se de que tinha então sua mãe.Eis o que não compreendo. um pouco mais de brilho no olhar quando a encontrava. Depois mudou de conversa. diminuiria esse dote.Era muito capaz disso!. do seu penoso alvoroço interior se lhe reflectiu. Qualquer coisa da sua impressão.Mas isso era uma solução! Severino é órfão.

Depois. nada tem de extraordinário..Deixemos esse assunto. volveu Severino entre dentes.Mas porque não queres desposar uma herdeira? 275 Não era para estranhar.. disse em um tom seco: . Fiquei radiante quando Gualberto Harbreuze me disse. Severino consiga curá-la. perto dele. talvez que seja essa a solução providencial que todos os dias peço a Deus.. . que mordia nervosamente o charuto. -Parece que te perturbaste!... agora que tens uma posição já bonita e que pode tornar-se soberba.Meu caro Severino..Que me importa! murmurou impacientemente Severino.. XVIII . com estas coisas não brinco..Gualberto ?.Quis simplesmente fazer-me compreender que ficaria contentíssimo. tratando-se dum caso desta natureza.. i Se ela não quer? . Otília.. se quisesse ser seu primo.. -Mas ela?. e.. Mas parece que sua mulher. diga-se entre parêntesis. reduzindo-a ao que te disse. vem fumar um charuto para o jardim. voltando-se para seu primo: . meu caro amigo..Em verdade? É já uma opinião assente ?.A pobre criança foi bem tristemente iludida! murmurou Otília com voz tremente. conde de Walberg. de fronte levemente contraída. Mas é a ti. que compete agora fazeres-te amar.. Mas emfim. diminuíram a importância do dote. Juraste acaso ficar celibatário? . Severino. i Que tem Gualberto que ver com essa história? . meu amigo. para conversar contigo. Está provavelmente desiludida.. Severino pegou na mão do notário. Mas quem sabe! Talvez que o sr.Se falo a sério ?. Severino pousou o livro que percorria distraídamente e levantou-se para corresponder ao chamamento de seu primo.. Bastante pálido.Talvez. . . Gualberto disse-me que te esperava esta tarde. .Em todo o caso. às cinco horas. apertando-lha fortemente... E então... . desanimada.Paulino. como sabem apreciar o teu valor. Tenho de falarte em coisas muito sérias.. que sempre me pareceu um intriguista da pior espécie..Otília ? É que Tecla recusa obstinadamente casar-se. Demais. Paulino..Então do que se trata ? preguntou o mancebo... O casamento que te proponho não te trará um dote superior a cem mil francos-verba que. falas a sério? 276 . Severino deu alguns passos maquinalmente. Deves supor-me incapaz de brincar. ele e até Manuela adivinharam que tu amavas Tecla.. Severino teve um sobressalto brusco. Penetraram também a razão que te forçava ao silêncio. meu caro! A pobre pequena sofreu muito com o que lhe sucedeu com esse sr.E eu que julgava dar-te uma grande satisfação!. pegando no charuto que lhe estendia Paulino. As sobrancelhas de Severino franziram-se levemente.. cujo rosto jovial se emmoldurava na janela aberta. não poderíamos desejar melhor marido para Tecla! Experimentemos. com uma tam grande elevação de carácter e de pensamentos! .Isso agora é contigo. . . . em nossa época. Ele é tam bom e parece tam delicado..Certamente. . vamos adiante!. i E sem saber de quem te vou falar? . porque não tenho idea nenhuma de casarme.De casamento. não devem exercer a menor pressão sobre ela.

a alta estatura esbelta de Severino Viannes. que é preciso vê-lo muitas vezes para notar as suas qualidades. contudo. e 277 há-de amar-te mais de-pressa.Ela. Mas a pobre criança tem sofrido com essa desilusão.Naquela noite Gualberto anunciou despreocupadamente..com que calor a defendes! Bem se vê que 278 estás apaixonado. à hora de jantar. da parte de Tecla.. e.. Ele não é daqueles que podem despertar um profundo afecto.. E sua mulher e ele procediam de forma a discretamente pôr em relevo os nobres predicados de Severino. disse Severino com vivacidade. rompimento que ele provocaria.Não creio que. em virtude das más informações que tinha a respeito do conde.O Sr. Gualberto. meu amigo. Mas os rocalandeses exageram ridiculamente. e Tecla via-os muitas vezes fitos nela. e com o desgosto de haver confiado o seu coração a quem dele não era digno. ainda que pareces sempre duvidoso do teu valor! Foi uma conversa demorada e íntima a que nessa mesma tarde se realizou entre Gualberto e Severino. um pouco de emoção foi penetrando nesse coração terno. todas as qualidades de Severino Viannes. É preciso reconhecer. . -Então atrevem-se a supor semelhante coisa? exclamou Severino. .. e deve desculpar-se uma ligeira leviandade de rapariga ingénua e inexperiente. para tomar chá. testemunhando ao mancebo a delicadeza melancólica mas quási despida de interesse.. acrescentou Gualberto.. que o foi um pouco nessa circunstância. E considero a menina Tecla muito acima da maior parte das donzelas de Rocalândia!. Gualberto não pode evitar um sorriso.Oh! nenhum dos Harbreuze é capaz de praticar um acto desse género! Bastará que Tecla te veja mais vezes. Aí vem minha mulher. Tecla mostrava-se indiferente. o tacto. Além disso. Ele. .. sabe que os rocalandeses a consideram agora uma estouvada. que Severino ficava na Rocalândia mais tempo do que julgava. . Tecla é muito séria. a quem não faltava inteligência. mesmo sem que esse caso se desse. Oficialmente.. que. Mas este levava-o a cada passo à sala.. Gualberto contou-lhe o verdadeiro motivo do rompimento dos esponsais. começasse a apreciar o valor de Severino. gradualmente. A princípio.. no fundo. £Mas como acolherá ela o meu pedido ? É preciso manobrar diplomaticamente com essas cabecinhas de raparigas. com a frequência de relações. na abertura da porta. o mancebo apareceu muitas vezes na casa Harbreuze. tam profundos. ia conhecendo melhor a sua elevação moral e a nobreza daquele coração de homem. E não tardou que Tecla. houvesse outra coisa que não fosse uma espécie de embriagamento produzido pelas maneiras insinuantes e palavras embaladoras desse homem.. apreciar-te-á de-pressa. E aproveitou o ensejo para louvar a inteligência. respeitosos e suaves. chegando a tomar um vivo interesse pela sua conversação.. a ponto de sentir agora um leve estremecimento de prazer quando aparecia. . ela vai explicar-te o nosso bem simples plano de campanha destinado a fazer a felicidade dessa boa Tecla.. precisava do seu amigo para tratar de diversos negócios. estouvada!. vinha trabalhar 279 com Gualberto. . emfim. intelectuais e morais. e. Desde esse dia. a princípio. Viannes é tam modesto.. Mas os olhos negros de Severino possuíam grande sedução. Confiando na absoluta discrição do seu amigo.. com verdadeira indignação.Por mim está desculpada há muito. observou ela um dia a Otília.. . meu pobre Severino.

quando ali fossem passar as tardes. disse Otília. . que não perdia nenhum daqueles sintomas de emoção. sorria às vezes quando ele estava presente . o amor não estará longe.. . que havia corado de contentamento. Os castanheiros. do fidalgo indigno. que Gualberto mandara construir para se abrigarem.Bem.ensinar primeiro. Sem dúvida. Naquela noite.. . onde me esperam os negócios! Tecla baixou os olhos sobre o seu lavor. mas o sol atenuava-lhe a frescura. isso depende de várias coisas. Mas tinha ainda momentos de profunda melancolia. bem como Severino. Tecla via-o chegar já com certo contentamento. disse-lhe Alice. menina. verdadeiramente. o ar era cortante. O animal parou de-repente. . Ao vê-la no dia seguinte de manhã mais pálida. menina. cujo coração vibrava de esperança. disse Manuela sorrindo. Desejaria contá-la na língua do país. depois que ele cumprimentou as duas donzelas. 281 . não estará muito tempo sem voltar! insistiu Manuela. conversando. Naquela tarde. erravam por um país muito distant .. que tam habilmente fascinara o seu coração ingénuo.. A côr-de-rosa tinha-lhe abandonado as faces e agitava-lhe os dedos uma leve tremura. côr-de-violeta. talvez pelo país do «outro». para poderem apreciar todo o seu valor. Severino.com a maior satisfação o faria. porém.Isso.pensa então em deixar-nos de-pressa? . de que ontem gostámos tanto. muito brevemente. Vais contar-nos aquela encantadora lenda romena.Sim. A construção da vila avançava. Otília e Tecla instalaram-se num pequeno coberto. Severino é que não estava tam tranquilo. que não haverá tempo. Otília disse-lhe: 282 . quando o apreciar como ele merece.com todo o prazer. dali a pouco ficaria interrompida pelos primeiros frios. Aparecia alguém no caminho que atravessava o souto. Senta-te junto de nós. a minha demora é tam curta. emquanto à volta delas folgava o belo cão inglês que Gualberto recentemente oferecera a sua mulher.280 Â jovem senhora repetiu aquelas palavras a seu marido. a pequena Tecla voltou a cair na tristeza dos meses antecedentes. Partiram de carruagem depois do almoço. Mas ninguém se incomodou em casa dos Harbreuzes. O seu olhar um tanto malicioso envolveu Tecla. certamente.. Puseramse a trabalhar. Gualberto e Manuela iriam mais tarde ter com elas. quási despidos. havia algum tempo menos pálida.Ah! é o sr. anunciavam já o inverno próximo. disse o mancebo com a voz um pouco alvoroçada.. teve um frémito de felicidade ao notar o tom côr-de-rosa que se espalhou no rosto de Tecla. Severino.. sim.Esta tarde há-de acompanhar-me a Castebard. minha querida Tecla. parecendo que não notavam as suas distracções contínuas e o seu aspecto melancolicamente pensativo. que declarou com satisfação: .Mas tinha que no-la . . em que parecia que os seus meigos olhos. Os bons ares lá de cima devem fazer-lhe bem.Mas. depende. mas. onde Tecla e Manuela trabalhavam junto de Alice. . . soltando um ladrido sonoro. Um dia em que chegou inopinadamente ao jardim de seu primo. Tenho de voltar para Bucarest. Infelizmente..

com gesto gracioso. Os doces olhos côr-de-violeta. olhava os cumes azulados. Severino. indicou ao mancebo um banco em frente dela. interrogadores e um pouco assustados. Gualberto vem mais tarde. tam sério e leal. Loby.. E ele conservava-se também silencioso. com a amabilidade que lhe era peculiar. minha senhora. e.Mas também poderia ficar mais tempo. pôs-se a conversar. Basta subir às ruínas. disse com uma voz que deixava transparecer toda a ansiedade do seu coração.. No carreiro. em virtude do que me disse de manhã. -Para onde iria esse maluco do Loby! disse de-repente volvendo o olhar em roda. os olhos brilharam de surpresa e . A pequena mão de Tecla despegava maquinalmente 285 os líquenes do velho muro e esmigalhava-os entre os dedos. . Quer ser minha mulher. e ao pronunciar aquelas palavras. .. experimentava por ele. von Walberg.. . o cãozito inglês. e ele ouvirá bem se o chamar. Severino inspirava-lhe uma confiança absoluta. Depois. caminhava ao lado de Severino. Correu para junto dos jovens. junto da qual a de Tecla parecia ainda mais pequena. E Severino inclinou-se para ela. abafado por uma ansiedade. durante alguns momentos. de lá descobrirá todo o terreno à roda. por fim. isso depende. sr. pois é tam bonito que pode tentar as pessoas pouco honestas. Severino ? Um pouco de exercício fazia-lhe bem.Sim.. disse com vivacidade Severino. e vai ser obrigado a esperá-lo em nossa companhia. E a sua felicidade faz os pobres celibatários sentirem pena de não ter um lar.. que não tinha nada de impressão perturbadora produzida pela presença do sr. porque é um presente de seu marido. As pálpebras de Tecla agitaram-se e os seus pequeninos lábios rosados estremeceram. Ele tinha parado junto dum muro derruído. pela rara modéstia desse homem. Houve um silêncio.Então volta em breve para Bucarest ? preguntou.Manuela e Gualberto autorizaram-me a fazer directamente o pedido que vai decidir da minha felicidade. ao mesmo tempo.vou ver se o descubro. replicou Otília. replicou ele.. disse Tecla. levantando-se. são dois esposos ideais. uma espécie de admiração respeitosa. por detrás dos quais o sol começava a ocultarse. latindo alegremente. . Tecla. -Otilia vai ficar já socegada... encontrar 283 aqui Gualberto. sentia-se atraída pela bondade simples. tãopenetrado de nobres pensamentos. Gosta muito deste cão. . Julgava. Não gosto que ele se afaste. 284 Tecla sentia-se invadida por uma emoção imprecisa. no momento em que a sua sorte ia decidir-se. se a menina quisesse...Não.. com voz um pouco trémula. .Mas não queria incomodá-lo. levantaram-se para ele. dominando-a com a sua alta estatura. sem lhe falar.. .Como ontem disse. i se fosse dar uma volta com o sr.. saltitava por entre as ruínas. Poderei partir até amanhã. estamos nós apenas.Severino aproximou-se e cumprimentou as duas senhoras. . que só conhecia verdadeiramente havia algum tempo. numa voz que procurava tornar firme. menina Tecla? O rosto de Tecla purpureou-se. Tecla ergueu-se docilmente. Tecla ergueu os olhos para Severino. fingindo que não reparava no mutismo de Tecla e no constrangimento de Severino.

não! respondeu com um olhar de enternecida confiança. 286 Era o grito espontâneo daquela pobre alma sensível.felicidade.. Tecla.Obrigado.Tenho a certeza de que foi pelas suas preces que Deus me concedeu a graça de compreender o meu dever. Dignai-vos abrir-lhe as portas do vosso santuário privilegiado. e ao sofrimento de Gualberto. . um instante desviada. Otília havia repudiado completamente o seu orgulho de raça.. a vossa serva cumpriu a tarefa que lhe designastes na casa da família. Tecla ? Mas não terá pena de deixar a sua terra e acompanhar-me lá para longe.. Atribui-lhe demasiado poder. Roguemos a Deus que também conserve assim as nossas almas constantemente elevadas para ele e embebidas na sua divina luz. cheia de solicitude e de enternecidas atenções.. . e os seus doces olhos cor de folha seca. mostrava-se a mais carinhosa das esposas. por me ter falado neste logar que tanto amo. respondeu a donzela. Gualberto sentia-se também feliz agora. . deixando falar unicamente a embriagadora felicidade que radiava em seus olhares.Consigo. sorrindo. disse um dia Otília a Manuela. tal como sempre a desejara e pedira Manuela. Ficaram alguns momentos silenciosos.. Deus atendeu mais à rectidão da sua alma. o coração sensível. poisando os lábios nas pequeninas mãos delicadas que se abandonavam nas suas. como as montanhas estão luminosas.. olhando numa expressão de elevada ventura a paisagem iluminada por uma luz esmaiecida. . Severino saberia dirigir suavemente e com carinho a sua jovem mulher. querida Otília.. compreendia pouco a pouco os deveres que lhe criavam a situação actual da França.Sim! de todo o meu coração!.. estendeu as mãos ambas a Severino. não é verdade. Este. para reviver estes instantes. amorável e delicado de Tecla. ao ver Tecla trocar com Severino Viannes o anel de casamento. séria e segura. 288 e apreciaria também. erguidos para eles. Será para nós uma romagem extremamente 287 agradável voltar aqui. ao porto duma união cristã.E eu também o amei sempre!. pelo qual suspira desde a sua infância. E que belo fim de tarde! Olhe. como ela o merecia. . e que apenas havia inebriado por algum tempo a sua imaginação de donzela. . Sua prima. . Tenho tanta confiança em si!. que era para ele outrora objecto de desdém. e pondo fim aos seus longos esponsais. Nenhuma sombra viria mais empanar a união que se fizera entre sua mulher e ele. e muito orgulhosa das altas qualidades morais e da vasta inteligência de seu marido. e resolvera entrar na luta social pela porta da política. para o estrangeiro ? . Senhor. Loby havia-se deitado a seus pés.Agora.. o seu papel de chefe duma grande indústria. apesar-da sua tam pequena diferença de idade. mostravam compreender a empolgante alegria daquele minuto supremamente venturoso. que conhecia os lados fracos e as qualidades encantadoras dessa alma delicada.. enganada pelas maneiras mentirosas e pelas palavras melífluas do homem que julgara amar. aceitai-a por vossa esposa! Tal foi a prece que subiu do coração de Manuela.. que fez estremecer de felicidade o coração de Severino. Tecla! disse com voz palpitante de emoção.. Num gesto impulsivo. a sua grande fortuna e a sua posição preponderante na terra.Como é agradável estar aqui! murmurou Tecla. . cedendo à sua doce influência. emfim. tinha chegado. a criança a quem sempre rodeara de maternal solicitude. Estou muito contente.Oh! as minhas pobres preces..

. desde este mundo. que só a veriam agora de longe a longe.Não nos abandones. na terna afeição por aqueles que ficavam no mundo. lhe diz ao ouvido: . unidos pelo amor mais profundo.. Morta para o mundo. a amiga preferida. Atraíram-na a seus braços e conservaram-na longo tempo enlaçada. para as alegrias lícitas da existência. .. no zelo ardente pelas almas. Morta! Sim estava morta com efeito. que se entregava por completo. A porta da clausura está aberta.. Severino e Tecla. sem reservas..Oh!. É para isso que Deus 289 me envia para o claustro. pelas rudes mortificações 291 da carne e do espírito.Não a disputemos a Deus. minha amiga! Mas a mão de seu marido segura-a brandamente. verdadeiramente feliz.. que Manuela abandonou uma manhã a velha casa de família e transpôs a porta do convento das Filhas de Santa Clara.Otília abanou suavemente a cabeça.... Muito pálida.. minha irmã... esperam a vítima voluntária. contendo as lágrimas. para os seus. bem viva no amor de Cristo. Morta ainda péla obediência absoluta. Pela última vez abraçou-os a todos. minha querida. chegados na véspera duma curta viagem de núpcias. minha irmã e meu irmão.. A porta fechou-se lentamente. minha irmã bem-amada! disse a voz enrouquecida de Gualberto. seu Esposo.. com passo firme Manuela avança. e o meu primeiro dever é pensar em vós. Tecla. era ela. .. e a donzela que sacrificava todas as venturas da terra para se encerrar num austero claustro. Tanto como Gualberto e Tecla não duvidava da influência poderosa e discreta que haviam tido sobre o seu destino as preces e os sacrifícios ocultos da noiva do Senhor. murmurou Otilia a chorar.. Mas viva também. porque são as almas como ela que desviam do mundo culpado tantas punições merecidas. ao menos aparentemente.. Acompanhavam-na todos aqueles que ela tinha amado: Gualberto e Otilia. para os deveres da vida de família. e Alice Viannes. Um último beijo. a que não sabe resistir. Morta. que soluça. tenta precipitar-se para ela.. mas com um sorriso de comoção nos lábios. emquanto a voz terna.Obrigado.Ore por nós.. por detrás duma grade espessa em companhia doutras religiosas. sem 289 replicar. . É a sua felicidade e é também a nossa.. E entre esses jovens esposos. parecendo aos que estavam ali que a tampa dum caixão caía sobre Manuela Harbreuze.. a-fimde lhe gritar: .. sim! orarei!. querida Manuela e pelo pequenino ser que esperamos. um último aperto de mãos que tremem. Àquele que é o nosso fim e -a nossa eterna felicidade. Foi com o coração dilacerado por a separação dos seus e com a alma radiante de felicidade por se entregar toda a Deus. dirigiu-se em último logar a Gualberto e a Otilia. FIM .