Boa noite. Eu vim esta noite para contar a minha história. A sete anos atrás, eu faleci.
Meu nome é
Madeline Usher. Passei minha vida toda com meu amado irmão, Roderick Usher, apenas nós dois
em uma antiga mansão, uma herança de família.
Nossa família sempre se destacou por uma sensibilidade peculiar de temperamentos, o que, no
curso do tempo, se revelou em muitas obras de arte de inspiração exaltada, em inúmeras ações de
extraordinária (porém discreta) caridade. Nós sempre fomos devotos apaixonadamente da ciência
musical. Também era notável nossa linhagem, antiga e gloriosa. Nossa familia sempre se
perpetuou em linha direta, raríssimas as exceções.
Enquanto era repassada a perfeita comformidade que havia entre nosso caráter daquelas premissas
de temperamento forte atribuído à nossa família, seria muito possível afirmar que, no decorrer dos
séculos, um de nossos ramos tenha pesado sobre outro... Em nossa família havia uma deficiência
de linhagem por transmissão direta, de pai para filho, que ia passando de uns para os outros, como
a casa que habitávamos.
Dizendo isso, fica fácil de resumir. A família Usher é muito abastada, entretanto sofre de uma
doença incurável. Por mais que tratamentos sejam feitos, é uma doença presente no sangue, que
definha minha vida, empalidece minha pele, torna meus cabelos ralos, deteriora minha saúde
física e mental.
Voltando a nossa casa, várias vezes os visitantes chegavam a afirmar que era um lugar que parecia
ter uma atmosfera própria, que não vinha do ar dos céus, mas sim das árvores apodrecidas, das
paredes cinzentas, do lago silencioso... Ora, nossa casa era bastante antiga. O descoramento de
suas paredes provinha da ação do tempo. Por todo o exterior estendiam-se pequenos cogumelos,
caindo dos beirais em formações emaranhadas e finas. Apesar disso, não havia nenhum estrago
extraordinário. Nenhuma parte de sua alvenaria ruíra, parecendo haver uma intensa cooperação
entre o estado das pedras desgastadas e aquela até então perfeita adaptação das partes.
Além desse visível ar de decadência, não havia nenhum sinal de instabilidade. Quem sabe, porém,
um observador mais atento pudesse ter notado que uma fissura quase imperceptível estendia-se
desde o telhado da fachada, descendo em ziguezague até sumir nas sombrias águas do lado...
Quem dera ter descoberto antes essa fissura...
Eu estava de cama há meses quando um amigo de infância de meu querido irmão veio nos visitar.
Meu irmão, à época, estava com ares de terror, estava quase insano. Dizia a todo tempo que iria
morrer. Estava aprisionado poe certas impressões supersticiosas ligados à mansão que
habitávamos, da qual, por muitos anos, jamais nos atrevíamos a sair. Relacionava-se a uma
influência cuja suposta força foi por ele aludida em termos tão sombrios, que não me atrevo a
repetir aqui; uma influência que certas peculiaridades que existiam na forma e na matéria da
mansão lograram, à custa de prolongado sofrimento exercer sobre ele um efeito que o físico das
paredes, das torres cinzas, e do sombrio lago onde tudo refletia, terminara por fazer pesar sobre o
moral de sua existência.
Eu mesma já estava alheia a quase tudo e todos. Quase nem percebi a presença do amigo de meu
irmão na casa. Apenas queria estar fechada em meu quarto. Por anos a minha própria doença
desafiou a ciência dos médicos. Sentia uma contínua apatia, um gradual esgotamento, vários e
transitórios ataques epiléticos. Esses eram os sintomas que compunham meu diagnóstico. Até
aquele dia, suportei com firmeza minha doença, sem aceitar ficar de cama. Mas, ao cair da tarde
daquele dia, me senti abatida pelo poder do mal.
Meu irmão ficou entregue à insanidade e à loucura, dizendo versos obscuros que traziam a morte
para nossa porta. Logo foi noticiada a notícia de que eu estava morta. Meu irmão quis conservar
meu corpo por quinze dias antes do sepultamento final, em uma das muitas criptas que existiam
no interior das paredes principais do edifício. A razão para isso teria sido o modo singular como
morri, assim como a curiosidade inoportuna e indiscreta manifestada pelos médicos da época. Fui
provisoriamente sepultada em uma dessas criptas. Ela era localizada em grande profundidade,
precisamente na parte da casa que ficava embaixo dos aposentos do amigo de meu irmão.
Transcorridos alguns dias de amargo sofrimento, ocorreu uma visível transformação de sintomas
da enfermidade mental de meu irmão. Suas maneiras habituais haviam desaparecido. Suas
ocupações comuns foram nengligenciadas ou esquecidas. Andava apressado pelos cômodos da
casa, sem objetivo. Seu rosto ficou cadavérico e a luminosidade de seus olhos se apagou
inteiramente. Sua voz agora era apenas um balbucio trêmulo, com extremo terror.
Numa noite, no sétimo ou oitavo dia depois de meu sepultamento, o ar na mansão estava inquieto.
Ninguém conseguia dormir e parecia que a casa estava tomada por uma influência sombria e
perturbadora. Meu irmão perambulava mais uma vez. Seu rosto era de uma palidez espectral, mas
ainda parecia estar histérico. Sua aparência era aterrorizadora. Ele dizia palavras que, para seu
amigo, pareciam ser loucas e sem sentido, e sua última frase foi “Digo-lhe que ela está agora atrás
da porta!”.
Como se suas palavras fossem mágicas, naquele momento a porta se fechou e eu, sim, eu estava
do outro lado, com vestes alvas manchadas com este sangue e com sinais de luta violenta. Dei um
grito abafado e queixoso e caí sobre meu irmão, que padecera naquele instante, vítima dos
horrores que previra em sua loucura e da qual seu amigo não havia acreditado.
Quando o amigo de meu irmão fugiu de nossos corpos sem vida e de toda a insanidade
presenciada, correu para fora da casa, que imediatamente ruiu sobre nós. Estamos juntos até hoje
em nossa casa. Para sempre.