Ética e Deontologia

Introdução
A Ética e a Deontologia face ao interesse público e aos interesses do público na actualidade
Uma das questões mais pertinentes da actualidade é: quem são os responsáveis pela invasão e exploração comercial da privacidade alheia? Serão os meios de comunicação social (se é que tal designação podem receber aqueles que, indiscriminadamente, procuram o escândalo e o sensacionalismo) ou dos milhões de leitores que, pelo mundo fora, folheiam as revistas e jornais em busca de um relance da vida privada dos vips (se bem que esta sigla de "very important person" tenha sido já adulterada, sendo agora associada ao autodenominado "jet set" mais do que às pessoas verdadeiramente importantes). A quem é mais imputável a culpa deste comportamento tão reprovável? Àqueles que pretendem ter lucro através da exploração ilimitada da vida alheia ou ao público que procura no "conto de fadas" que parece ser o dia-a-dia da realeza e das estrelas de cinema e TV, um complemento quase onírico para a modorra da sua vida quotidiana? A resposta estará, provavelmente, algures entre estas duas interpretações. É impossível fugir ao bombardeamento de informação a que estamos sujeitos diariamente. Pelo meio, entre notícias e reportagens mais ou menos relevantes, surgem os fait-divers, factos aparentemente irrelevantes que fazem, contudo, as delícias de incontáveis leitores de jornais e espectadores de rádio e televisão. Constantemente a vida de principes, princesas, actores e actrizes é esquadrinhada ao milímetro para que o público conheça todos os seus movimentos, mesmo os menos interessantes. Já não chegam os divórcios das estrelas ou os casamentos mais escandalosos. Chegou-se a um ponto em que não há um limite visível, uma barreira explícita que impeça a progressão das objectivas das máquinas fotográficas e das câmaras de filmar na privacidade dos cidadãos. A exploração "noticiosa" dos factos mais escabrosos, dos acontecimentos, aparentemente, mais irrelevantes está na origem da actividade jornalística. Os primeiros jornais estavam pejados de informações de pouco ou nenhum interesse público mas que, no fundo, eram do interesse do público. Aqui reside uma das

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ir contra os interesses financeiros das empresas e grupos económicos que gerem esses media. como por vezes ocorre. fazer parte das convicções mais profundas de um jornalista. visto que inclui os interesses e gostos pessoais dos diversos públicos que compõem a massa de leitores e espectadores de uma sociedade. quando age. à luz da convicção de que o jornalista. Há então um conflito permanente entre a superficialidade retórica dos códigos deontológicos do jornalista. jornais e revistas ir contra aquilo que o público quer e. mais correcto para a notícia que serve de mote para este Comunicação Social 4º ano . A deontologia e o seu código existem para que a sobrevivência do jornalismo seja garantida. procurará seguir um esquema simples onde. pelo menos. De entre a entropia de interesses que é o jornalismo na actualidade. cabe ao jornalista ter a presença de espírito suficiente para evitar a vitória dos interesses particulares sobre os interesses gerais da sociedade. pretendemos. finalmente. por definição. tais como a meteorologia ou o roteiro cultural de uma cidade. Isto é. Este trabalho. se procederá à abordagem de alguns dos pontos mais importantes do código deontológico do jornalista português. São também do interesse público todas as informações úteis que possam ajudar o cidadão. política ou economia que possam influenciar. seguida da análise de uma notícia que não seguiu correctamente esse código e. a proposta para um tratamento diferente e. compete aos meios de comunicação social dar ao público as informações que eles devem receber e não aquelas que eles querem receber. por isso. O interesse do público é. não deve agredir os valores fundamentais da sociedade humana. da economia e da notoriedade necessária à sobrevivência de um meio de comunicação social na actualidade. devem reger. segundo muitas cadeias de TV.Ética e Deontologia distinções mais importantes a fazer ao falarmos de jornalismo e das regras que o regem ou. dos seus valores éticos e morais e os interesses do mercado. constituir uma lei seguida por medo face a uma possível acção judicial. No fundo. contudo. A deontologia deve. numa primeira fase. excepto quando isso signifique um ganho importante para o aperfeiçoamento da cultura e da vida. sendo seguida constantemente no decorrer da sua actividade e não. a vida quotidiana das pessoas. positiva ou negativamente. tais como o da privacidade e o do acesso à informação. algo mais difícil de definir. inserindo-se no âmbito da disciplina de Ética e Deontologia. Aquilo que é do interesse público são as informações mais relevantes acerca da sociedade.

teremos de contornar para defender os interesses do público e não o interesse público. serão a comunidade jornalística portuguesa. no futuro. no seguimento do que atrás foi desenvolvido.Ética e Deontologia trabalho. dar um pequeno contributo para que nós. um ponto de partida para o nosso trabalho e não um obstáculo que. como alunos do curso de Comunicação Social. Comunicação Social 4º ano . O nosso objectivo é. tenhamos no código deontológico uma base. No fundo. propor uma maior consciencialização daqueles que. habilmente.

O que para determinadas civilizações é eticamente correcto para outras pode não o ser. geralmente. podes mas não deves. Utiliza-se frequentemente a palavra ética para descrever o que determinadas pessoas consideram correcto ou incorrecto. É óbvio que também a palavra moral se associa aos códigos de conduta profissionais.Ética e Deontologia Noções de Ética A palavra ética serve. tem. como temática ensinada nos departamentos de filosofia das escolas e universidades. No entanto. sejam elas quais Comunicação Social 4º ano . geralmente. de certa forma. daí que esta definição seja diversas vezes confundida com a moral. quantas vezes ouvimos dizer “ podes tomar uma determinada atitude. A pesar de existirem pontos de vista éticos a ética pode ser abordada. A moral subjaz um conjunto de deveres. dependendo. do contexto em que se encontra inserida. que estar necessariamente relacionada com normas ou regras a seguir. não é moralmente correcto”. O nosso objectivo é tratar a ética de acordo com as regras deontológicas que regem determinadas profissões. A palavra pode ser entendida de diversas formas. claro está. que pode requerer que subordinemos os nossos desejos naturais de forma a obedecer à lei (moral). neste caso o jornalismo. pode designar também o estudo sistemático do raciocínio sobre o modo como devemos agir. no entanto. por vezes severos. regras ou formas de pensar que têm como objectivo orientar as acções de um determinado grupo. esta presente em grande parte das sociedades mesmo que os seus princípios não sejam universais. em muitos outros aspectos do quotidiano forem. para referir um conjunto de princípios. E por vezes aquilo que deontologicamente falando não é moralmente correcto não se deve fazer em prejuízo de quebrar as regras mais primordiais do código deontológico. isto é. O que significa que não se faz uso da palavra apenas nos dois exemplos atrás referidos. e não são aplicadas ao exemplo do presente trabalho. O primeiro exemplo refere-se ás normas profissionais o segundo serve. mas de uma forma mais ou menos linear a sua presença nunca passa despercebida. A ética faz parte da nossa herança humana comum e . estas conotações de moral fazem parte de uma concepção mais particular da ética.

existindo mesmo casos em que deveriam ser proibidos.) Assim.. a possibilidade de uma filosofia que. Todas as dúvidas que ainda hoje persistem têm uma razão de ser lógica e a questão mais colocada relativamente a esta temática é a seguinte: a ética é objectiva ou subjectiva? Podemos dizer que em Portugal ela existe com teor objectivo porque os códigos deontológicos e livros de estilo ou manuais existem. Este exemplo vem provar que a questão ética não funciona apenas em termos profissionais. Vários pensadores se debruçaram sobre esta questão e dos debates entre uns e outros. ora noutras sociedades esta questão é perfeitamente absurda. (. O facto de existirem universais éticos não significa que alguns deles não sejam questionáveis. ela acompanha-nos ao longo da nossa vida nas mais variadas situações. pp. nas nossas emoções. Kant. a terceira está intimamente ligada á tradição. permita estabelecer racionalmente o princípio supremo de toda a moralidade.Ética e Deontologia diferentes. ao invés.10) Por seu turno. Deste pequeno exemplo retiram-se várias conclusões. Só poderemos perceber a ética se compreendermos a sua origem e ao mesmo tempo os seus graus de diversidade e uniformidade nas diferentes sociedades. Tomemos como exemplo o casamento: em determinadas sociedades a mulher deve obedecer ao marido. há ainda determinadas povoações onde as mulheres apenas existem como submissas ao homem ao ponto de andarem cobertas para que não as cobicem. como um saber puro.. a segunda prende-se com o facto de diferentes civilizações ostentarem diferentes costumes e “morais”. resultam várias concepções e teorias. ou que sejam uma máxima a percorrer . na obra Fundamentação da Metafísica dos costumes. assim como existem sociedades distintas quase todas elas estão de acordo. Comunicação Social 4º ano . David Hume resume que a base da ética não se encontra na razão pura mas. quando ainda se tentava compreender as suas origens e intenções. O filósofo de Konisberg. busca a determinação de um ideal ético e nessa busca “ a filosofia moral revelou-se sempre como um esforço de reunir um conjunto de normas de forma a produzir um modelo que orientasse o agir humano em direcção do bem.” (Kant. A questão da ética já foi mais polémica em tempos passados. constitui o cerne do pensamento ético de Kant e o tema central desta obra. das diferentes obras publicadas. A primeira refere-se á diversidade ética.

Ao longo dos tempos as dúvidas foram-se dissipando e foram surgindo formas de convergência. isto é. Existem inúmeros desacordos éticos porque não existe um padrão universal instituído que permita julgar qual a melhor forma de agir perante determinada situação. ao contrário do passado. Existem questões que não são lineares daí a dificuldade que por vezes os jornalistas encontram na tentativa de não quebrar regras susceptíveis de alterarem o sentido dos factos.Ética e Deontologia têm leis pré-definidas que à partida são cumpridas (salvo algumas excepções). já existem leis que têm necessariamente que ser cumpridas. De onde derivam os nossos juízos éticos. o que vem contrariar a opinião de Kant que afirmava que a moralidade nos diz que devemos fazer o que está certo. na realidade. Outro problema colocado pelos estudiosos e filósofos dos tempos passados baseia-se na divisão do ser humano. O que acontece. um ser racional guiado pela sua intelectualidade. da razão ou da emoção? Quando fazemos a nós próprios a pergunta “ O que devo fazer?” não pensamos totalmente de forma imediata. daí que as normas variem de país para país. hoje. e ao mesmo tempo movido pelos seus desejos e emoções. Comunicação Social 4º ano . Quantas vezes um profissional acha que deve tomar determinada atitude e não a toma porque pode mas não deve! Isto significa que conhecer o que é correcto não implica fazer o que é correcto. como por exemplo nos raciocínios matemáticos. é que o que para uns é norma para outros pode não o ser . independentemente dos nossos desejos e convicções. O importante na actualidade é saber impor limites aos nossos desejos porque. e caso não sejam a justiça pode actuar e punir aqueles que a contrariam.

A questão pertinente que se tem vindo a colocar é a seguinte: Afinal é ou não o público que dita as regras? O que é o interesse público? Para responder a esta questão é necessário incluir a informação nas actuais economias de mercado. no fundo. ouvir e/ou ver. na restante imprensa nacional. Não serão os grandes empresários e “patrões” da comunicação os responsáveis pela forma como se produz a informação na Comunicação Social 4º ano . a intromissão no sofrimento alheio. ou a isenção dos factos sem distorção. Até que ponto esta ciência continua a ser respeitada numa actualidade cada vez mais preocupada com as vendas e consequentemente com o interesse do público? Importa saber até onde irá o prazo de validade das práticas deontológicas sendo que. a exploração de casos difíceis para os intervenientes. especulativa e que quebra de forma irrisória aspectos graves como por exemplo a identificação de vítimas de abuso. os jornais que maior tiragem têm são aqueles que pelo seu conteúdo mais se assemelham às normas ditadas pelo código ético. a sociedade actual e todos os valores que lhe são inerentes têm vindo a sofrer profundas transformações. manipulação ou sensacionalismo? De facto o essencial da deontologia continua enraizado nos hábitos e tradições de alguns jornais e jornalistas. a fuga cada vez maior em relação às regras base. mas é cada vez mais notório.Ética e Deontologia Conseguirá a deontologia resistir à transformação de valores? A definição de deontologia acarreta determinados preceitos. entre outros. Felizmente. agem como um elemento de regulação. isto não significa que muitos outros jornais primem por uma informação irreal. conselhos. O que antes era seguido por convicção hoje restringe-se ao medo que o jornalista tem da sua notícia ser ou não aceite por um público cada vez mais exigente. O que é primordial então? A quilo que o público quer ler. A verdadeira transformação operada no seio da informação prende-se com o facto de esta se ter tornado num bem transaccional de inegável valor para aqueles que a controlam. em Portugal. Mas. regras que geralmente são relegadas para segundo plano. normas de regência e conduta que. distorcida.

são importantes exigências. tanto antes como agora. Assim. não se cruzam informações e abundam as aspas por falta de declarações de fontes não identificadas (é comum ler ou ouvir o termo “fontes não confirmadas”) O mais preocupante dentro desta concorrência prende-se com o facto de geralmente só serem publicadas notícias que não apelam à reflexão. os aspectos mais importantes e os factos mais relevantes são descurados. esta passa a ser gerida como um negócio.” – quando isto não acontece compromete-se o rigor. aspectos como a imparcialidade. uma máxima a percorrer e. Se determinado jornal sabe que tem um público vasto se introduzir no mercado notícias sensacionalistas. Com a globalização da informação. deveriam manter-se imutáveis mesmo que tudo o resto se alterasse a uma velocidade vertiginosa. Comunicação Social 4º ano . o respeito pela confidencialidade das fontes ou a vida privada. que sejam sórdidas ou inexplicáveis. mas a que se dá melhor. é mais que óbvio que não vão pensar duas vezes. Outro factor importante que convém referir é o facto de a concorrência se mostrar cada vez mais feroz e mais alargada. ficando para trás talvez as matérias mais sensíveis que fazem parte do quotidiano real e que deveriam ser impostas pelo próprio jornalista. É a prova cabal de que onde quer que se introduza a palavra economia. a recusa de manipulações. que. A notícia em primeira mão torna-se.Ética e Deontologia actualidade? É lógico que sim. por vezes. Os jornais dão ao público aquilo que este quer ver e vice-versa. É uma questão puramente cíclica. O mais grave no meio de toda esta polémica é o privilégio que se dá a matérias artificiais e acessórias em detrimento de questões profundas que são determinantes nas mudanças perpetradas na nossa vida colectiva. Gabriel Garcia Marquez afirma que : “ Muitas vezes a melhor notícia não é a que se dá primeiro. E é aqui que começa o chamado interesse do público. nem sempre se respeitam valores imutáveis de referência social. então. onde se luta pela notícia mais capaz de despertar e manter as audiências. primordiais num modelo de democracia parlamentar. que invadam a privacidade das “estrelas” por exemplo.

com elas. a rádio ou os jornais são. o poder manipulador dos media. existem inúmeros métodos para alterar a informação. um conjunto de comportamentos. não raro. Para esse efeito. Não pensemos que esta é uma visão empolada dos factos porque não o é. a fabricação de factos e acontecimentos. simultaneamente. Consciente ou inconscientemente. mas também para a sua formação. normas e ideias que o levam a agir de determinado modo). especialmente no campo político (os media expressam. portanto. a já clássica apresentação de sondagem e previsões antes da realização dos actos eleitorais e. os media têm um papel de organização e modelização da sociedade moderna. condicionando as nossas opiniões. contribuindo não só para a informação do público. Não deixa. sempre de forma a que o público não dê por isso: o enfoque de determinadas opiniões e ideias em detrimento de outras. como já foi atrás referido. o público. permitindo que os meios de comunicação social sejam hoje um dos sectores mais poderosos da nossa sociedade. A televisão. ou para a fatia da população em que nos inserimos. mesmo sem termos consciência disso. promovendo ou subvalorizando o papel deste ou daquele partido) e no campo ideológico (os media inculcam nas pessoas um certo modus vivendi. é verdadeira. a ser levados numa direcção específica que esse meio de comunicação social definiu para nós. não executando uma Comunicação Social 4º ano . um meio de dominação da população. muitas vezes.Ética e Deontologia Informar sem manipular Os media e a sua actividade jornalística e informativa são um fenómeno social. já que a maior parte das pessoas tem total confiança naquilo que os media lhes transmite. A sua relevância e influência são enormes. comportamentos e valores. por isso. mais grave ainda. Este domínio é. graças aos cada vez mais sofisticados meios tecnológicos de transmissão de informação. Infelizmente. Torna-se necessário criar normas reguladoras para que se evite esta manipulação das audiências. de ser assustadora. um poder quase ilimitado nas mãos dos que criam e emitem a notícia. já que reflectem sobre a actualidade de uma ou mais sociedades interferindo. criando uma realidade falsa mas que. é imenso permitindo que nós. a orientação política da sua direcção. a descontextualização da notícia. aos olhos do público. estejamos. a incidência sobre o secundário em vez do essencial e primário.

dentro das suas possibilidades. É para evitar. extremamente perigoso quando mal utilizado. pressões exteriores e uma manipulação da informação fruto de qualquer conveniência económica. já que é completamente irreal e corresponde a uma habilidosa escolha e construção de factos? O poder dos media é. Pode-se dizer que o jornalismo deixou a adolescência e entrou na sua fase adulta. É nele que reside. o aumento da quantidade de informação emitida não tem correspondido a um acréscimo da qualidade dessa informação. não deve ceder a outros interesses que não o interesse público. por outro lado. de todas as pressões exteriores ao acto de informar.Ética e Deontologia filtragem conveniente da informação. ou pelo menos tentar evitar. ouve e lê. O jornalista. hoje em dia. sempre que possível. algo que já é extremamente difícil. dá sempre o seu próprio ângulo dos factos. hoje em dia. mesmo que inconscientemente. As pressões são imensas. a maioria dos media a nível mundial) e por partidos políticos (há sempre uma ideologia política por detrás de um meio de comunicação social) é um facto consumado. deixando para trás um conjunto de limitações e tabus. Informar sem manipular é. em última análise. evitando. O público quer cada vez mais e melhor informação. quase impossível. Contudo. inerente à informação? O jornalista. Nós pagamos para ver informação nos canais de televisão. a deontologia deve ser parte integrante da formação cultural e pessoal do jornalista. Mas o que podemos nós fazer quando a informação não é sequer filtrável. política ou de outra espécie. existia entre os media e o mundo de interesses que os rodeia esbateu-se de modo dramático. mas tem ainda que se esquivar. Mais do que uma simples enumeração de direitos e deveres. O jornalista tem a seu cargo a selecção e concepção da informação. Não será isto um desvirtuamento definitivo do nobre acto de informar. mas também a Comunicação Social 4º ano . o poder de seleccionar o que o público vê. E não será isso manipulação? Torna-se cada vez mais difícil saber distinguir o essencial do acessório. E não estará a manipulação. outrora. num certo grau. a informação é um bem precioso que se paga caro. Vendese e compra-se informação a um ritmo diabólico. para além de imenso. isso é já do conhecimento geral. nas estações de rádio e nas páginas dos jornais. que esta manipulação aconteça que existe o Código Deontológico do Jornalista. Nos dias que correm. Que a manipulação da informação feita por grupos económicos (que gerem. A barreira que.

Comunicação Social 4º ano . Cabe ao jornalista lutar por um mundo informativo melhor e tentar recuperar a dignidade da actividade que desempenha.Ética e Deontologia inocência que o caracterizava.

Este é um caso flagrante de fuga ao rigor informativo. Aos ventos de mudança gerados pelo novo patrão junta-se o terror dos que temem o dia de amanhã” Detecta-se já um modo de tratamento dos factos um pouco empolado e demasiado espectacular (talvez seja esse mesmo o intuito do jornalista). caracterizado por expressões como “poder rangeliano” e “o terror dos que temem”. Evidencia-se um teor opinativo numa notícia que deveria primar pelo rigor. que rege a actividade jornalística. já que ela não se insere sequer numa secção de Opinião que o jornal tenha. do dia 16 de Novembro de 2001. Na página sete do referido jornal. como veremos mais adiante. uma notícia onde factos e opiniões pessoais surgem mescladas sem qualquer distinção entre os seus limites entre outras falhas graves.Ética e Deontologia Critério de abordagem – A notícia: falhas e fuga aos estatutos ético-deontológicos Anteriormente tecemos considerações gerais sobre noções de Ética e os temas que lhe estão subjacentes. mais precisamente do seu código. muito menos a forma como está redigida. Nesta segunda parte do trabalho. apresentar uma proposta para um tratamento diferente dos mesmos factos. se Comunicação Social 4º ano . julgamos. mas também sobre a importância da Deontologia. No caso que a seguir apresentamos. não corresponder às normas da actividade jornalística portuguesa e. a “violação” do Código deu-se em três pontos específicos e muito distintos entre si. surge a notícia intitulada “Pânico instalado no Telejornal – Mão de ferro na RTP” seguida de um pequeno lead referindo o que a seguir se transcreve: “Continua a tomada do poder rangeliano na RTP. mas constituindo uma notícia fundamentada. à luz dos preceitos do Código Deontológico do Jornalista Português. imparcial e clara. procuraremos analisar escrupulosamente uma notícia que. A notícia escrita pelo jornalista Miguel Pais Nunes foi publicada no jornal semanário “Tal & Qual”. tal como é propósito da cadeira de Ética e Deontologia. numa segunda abordagem.

. Segundo o primeiro ponto do Código Deontológico do Jornalista Português: “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade.. acaba por ser uma forma de influência patética para mentes menos informadas...Ética e Deontologia aproxima da seriedade necessária e do background cultural que o jornalismo de opinião exige.” .José Rodrigues dos Santos. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público. esta última referida em tom pejorativo.. a frase “Tenho que os pôr a andar.” Tal como atrás foi referido. a parte dos jornalista. A não comprovação dos factos apenas significa que. para além de infringirem o código deontológico. E o seu rosto diz tudo – motivada.” ou “ Será hoje que vamos para a prateleira?”. com a sua imagem desgastada. Execrável este ensemble de erros jornalísticos muito graves que. no cúmulo da inconsciência jornalística. à falta de melhor palavra. opinativas. nem se comprova a veracidade das Comunicação Social 4º ano . cuja prestação revela também quando lhe andam ou não a atenazar o juízo. o artigo de Miguel Pais Nunes não faz uma distinção clara entre notícia e opinião.) com a simplicidade da sua graciosa presença. deparamo-nos desde logo com expressões risíveis como “Alberta Marques Fernandes (. isto é.é a pundonorosa Fátima Campos Ferreira que.”. mostram o total desprezo deste jornalista pela sua actividade e pelos seus pares..... sublinha-se de maneira irremediável. ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. Os factos devem ser comprovados.. ela apresenta um serviço noticioso de razoável qualidade. como comprovado nas seguintes afirmações. procurando ser polémico. utilizadas pelo jornalista que.. “.. por isso..vejam-se os juízos de valor e as expressões qualificativas sublinhadas e.Emídio Rangel abre as trincheiras da intranquilidade. ao ler a notícia. meninos. o que não é apanágio de uma atitude jornalística dita profissional.” ou. E as incorrecções continuam: “.”. ao longo de toda a notícia: “. ainda é o melhor pivô feminino de que a RTP dispõe. atormentada pelo pavor da prateleira a sua tendência para o monocordismo. Percorrendo as palavras desta notícia.. as entidades envolvidas não foram ouvidas.

por entrar no campo da ficção e da especulação. as suas fontes confidenciais de informação. excepto se tentarem usar para canalizar informações falsas. “atropelando” mais uma vez o código deontológico. especialmente de um tipo de “imprensa cor-de-rosa” e de um conjunto de jornais e revistas da nossa praça que procuram.” A intenção sensacionalista do autor desta peça está plasmada nas seguintes expressões que servem de legenda às fotografia que acompanham o artigo: “ Emídio Rangel lançou a perturbação na RTP. critério constante no ponto sexto do Código Deontológico: “O jornalista deve usar como critério fundamental a identificação das fontes. uma tendência nítida do jornalismo moderno.” Comunicação Social 4º ano . para além de ser demasiado informal. incessantemente. Este artigo contém ainda mais uma falha grave no que respeita à não identificação das fontes. supostamente.” ou “E quando Alberta Marques Fernandes aparece. Esta é. nem desrespeitar os compromissos assumidos..Fátima Campos Ferreira até treme!”. O jornalista não pode. infelizmente.. proferidas. Torna-se óbvio que o jornalista foge ao rigor e acaba. denota uma preocupação com o escândalo e com o sensacionalismo. surpreendentemente. Esta linguagem.. O jornalista não deve revelar. o escândalo e o sucesso fácil entre o público. nem deve. As falhasjornalísticas prosseguem artigo fora. As opiniões devem ser atribuídas. neste caso o seu segundo ponto: “O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.. mesmo em juízo. mais do que com a atenção que é necessário dar aos factos. ceder à tentação da vulgaridade da crónica mundana mais ou menos frívola e bisbilhoteira.Ética e Deontologia afirmações por estes.

As afirmações acima referidas vêm mostrar que o autor da notícia não dá a conhecer aos leitores a identidade daqueles que proferiram tais frases. prende-se com uma releitura dos mesmos factos. até porque ele não é nenhuma lei judicial. de facto. o total desrespeito por um código que ele conhece mas não segue. Comunicação Social 4º ano . Deste modo.Ética e Deontologia Neste caso específico. nunca se compreende verdadeiramente se estas afirmações são reais ou mera ficção criada pelo jornalista que. é exigível que ele. apresentando-os de uma forma diferente e. No conjunto. sem nada para fazer. e agora vem mais uma amiga do Rangel fazer um trabalho tão simples”. ou deveria ser. pretendemos. É triste verificar a falta de coerência e de pejo que o jornal “Tal & Qual” apresenta no panorama dos media portugueses. as infracções graves perpetradas pelo profissional de comunicação social que este jornalista é. o jornalista Miguel Pais Nunes não identifica as fontes de afirmações como: “Vai pensando nos canais temáticos!. disse-lhe o magnânimo «boss»” ou “Temos para aqui economistas às carradas. siga uma conduta de trabalho que se coadune com um mínimo de respeito pelas pessoas e instituições que representa e pelas outras às quais se refere nas suas peças. ao contrário do que aqui é feito. Essa foi. como profissional. a razão principal para a escolha deste artigo. Não se pede aos jornalistas que sigam à risca o Código Deontológico. Por isso achamos importante referir estes três pontos do Código Deontológico do Jornalista Português que são desrespeitados nesta notícia. deve informar e não desinformar. mais provavelmente e mais gravoso ainda. mais condizente com as normas deontológicas do jornalismo. Contudo. o que vem comprovar o “atropelo” em relação ao sexto ponto do Código. mostrando que os interesses da economia e do lucro fácil se sobrepõem muitas vezes a uma informação factual e digna de uma actividade profissional tão importante na sociedade contemporânea. A seguinte tarefa que nos compete realizar. mostram o seu total desconhecimento das normas da sua profissão ou.

As pressões recaem sobre alguns dos profissionais que. por oposição ao sensacionalismo. Título Problemas no Telejornal Convulsões internas na RTP Lead Desde a chegada de Rangel à RTP como Director Geral de Antena. Os jornalistas questionam agora o seu futuro na televisão pública. pretendemos apresentar uma versão diferente dos mesmos factos. É claro que a nossa versão da notícia não será a mais correcta. Deste modo. vamos de seguida proceder à redacção de um texto jornalístico alternativo àquele que serve de base para a nossa análise. a nova aquisição da RTP Alberta Marques Fernandes lançou a dúvida entre as hostes do canal da “5 de Outubro”. Entre eles encontra-se Fátima Campos Comunicação Social 4º ano . marcaram a imagem dos dois canais da RTP. existem alguns pontos que vamos tentar focar: o contexto dos factos.. situações. onde se denote a imparcialidade da atitude jornalística. mas no entanto. personagens ou objectos descritos.. a correcção. Corpo da notícia Com o terminus das férias de Verão. a clareza e concisão da escrita. fazer uma distinção clara entre notícia e opinião. uma identificação correcta dos intervenientes. Ninguém está seguro. a televisão pública assiste a profundas mudanças no quadro de pessoal. até agora. o rigor de uma informação que se pretende completa e fundamentada – baseada em factos e não em rumores -.Ética e Deontologia A notícia: regras técnicas e deontológicas – a perspectiva correcta e rigorosa Como é propósito deste trabalho. isto é. visto que não temos acesso directo às fontes humanas e documentais que lhe deram origem. respeitando o Código Deontológico do Jornalista Português. uma visão o mais factual possível.

Na mesma linha de acção. no que se refere a audiências. José Alberto Carvalho) ainda não foi inserida no quadro de pessoal. Com as fracas audiências do Telejornal. A nova direcção da RTP criou. avolumando as conturbações internas na estação pública. Supostamente. Até José Rodrigues dos Santos. Comunicação Social 4º ano . surpreendentemente.. apresentador do programa. O afastamento de Afonso Rato da direcção da RTP Internacional. “flutuando” ao sabor das necessidades programáticas da estação. cargo que Emídio Rangel também acumulou. justificando o descontentamento de Manuel Luís Goucha. A polémica estende-se ainda às opções de programação tomadas pelo novo director durante o curto período de férias. a telenovela que custou cerca de 1 milhão de contos aos cofres da RTP foi passando a horas cada vez mais tardias. vem demonstrar o descontentamento crescente no seio das esferas directivas do canal. visto que nenhum dos gestores do canal confirma o sucedido. terá sido dito a Rato que esperasse pela criação dos canais temáticos. reduzindo-se o tempo de emissão do programa “Praça da Alegria”. Prolongou-se o espaço destinado aos mais novos. Rangel poderá encontrar aqui a razão para operar uma mudança profunda no staff do noticiário. cuja audiência se conta entre as mais elevadas de entre a programação do canal público. um clima de indecisão e de alguma instabilidade. ao que se pôde apurar. se sente ameaçado com as mudanças que se antevêem. veio da estação de Carnaxide.Ética e Deontologia Ferreira que se tem revelado como uma das personalidades mais relevantes da estação mas. a nova produção “A Senhora das Águas” não obteve os resultados esperados. a face mais emblemática do Telejornal do Canal 1. ultimamente. deixando de ser transmitida num horário fixo. Esta aquisição foi posta em dúvida por alguns membros do quadro da RTP. visto que a equipa de técnicos e jornalistas que trouxe consigo (entre os quais se incluem a já referida Alberta Marques Fernandes e o antigo pivô da SIC. juntamente com Rangel. foi contratada Isabel Carvalho para fazer um controlo de custos das produções.. por contraste com as telenovelas da TVI que. continuam a conquistar o afecto do público. Como resultado. enfrenta o problema da concorrência que. Por outro lado. Por isso. o share médio desceu cerca de sete pontos percentuais.

Comunicação Social 4º ano . 2.Emídio Rangel provoca reacções adversas no seio da RTP.Alberta Marques Fernandes e Fátima Campos Ferreira: uma concorrência forte que se antevê.Ética e Deontologia Legendas para as imagens 1.