Ética e Deontologia

Introdução
A Ética e a Deontologia face ao interesse público e aos interesses do público na actualidade
Uma das questões mais pertinentes da actualidade é: quem são os responsáveis pela invasão e exploração comercial da privacidade alheia? Serão os meios de comunicação social (se é que tal designação podem receber aqueles que, indiscriminadamente, procuram o escândalo e o sensacionalismo) ou dos milhões de leitores que, pelo mundo fora, folheiam as revistas e jornais em busca de um relance da vida privada dos vips (se bem que esta sigla de "very important person" tenha sido já adulterada, sendo agora associada ao autodenominado "jet set" mais do que às pessoas verdadeiramente importantes). A quem é mais imputável a culpa deste comportamento tão reprovável? Àqueles que pretendem ter lucro através da exploração ilimitada da vida alheia ou ao público que procura no "conto de fadas" que parece ser o dia-a-dia da realeza e das estrelas de cinema e TV, um complemento quase onírico para a modorra da sua vida quotidiana? A resposta estará, provavelmente, algures entre estas duas interpretações. É impossível fugir ao bombardeamento de informação a que estamos sujeitos diariamente. Pelo meio, entre notícias e reportagens mais ou menos relevantes, surgem os fait-divers, factos aparentemente irrelevantes que fazem, contudo, as delícias de incontáveis leitores de jornais e espectadores de rádio e televisão. Constantemente a vida de principes, princesas, actores e actrizes é esquadrinhada ao milímetro para que o público conheça todos os seus movimentos, mesmo os menos interessantes. Já não chegam os divórcios das estrelas ou os casamentos mais escandalosos. Chegou-se a um ponto em que não há um limite visível, uma barreira explícita que impeça a progressão das objectivas das máquinas fotográficas e das câmaras de filmar na privacidade dos cidadãos. A exploração "noticiosa" dos factos mais escabrosos, dos acontecimentos, aparentemente, mais irrelevantes está na origem da actividade jornalística. Os primeiros jornais estavam pejados de informações de pouco ou nenhum interesse público mas que, no fundo, eram do interesse do público. Aqui reside uma das

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inserindo-se no âmbito da disciplina de Ética e Deontologia. São também do interesse público todas as informações úteis que possam ajudar o cidadão. O interesse do público é. se procederá à abordagem de alguns dos pontos mais importantes do código deontológico do jornalista português. sendo seguida constantemente no decorrer da sua actividade e não. algo mais difícil de definir. quando age. Isto é. mais correcto para a notícia que serve de mote para este Comunicação Social 4º ano . tais como a meteorologia ou o roteiro cultural de uma cidade. A deontologia e o seu código existem para que a sobrevivência do jornalismo seja garantida. visto que inclui os interesses e gostos pessoais dos diversos públicos que compõem a massa de leitores e espectadores de uma sociedade. Há então um conflito permanente entre a superficialidade retórica dos códigos deontológicos do jornalista. segundo muitas cadeias de TV. como por vezes ocorre. finalmente. a proposta para um tratamento diferente e. contudo. pelo menos.Ética e Deontologia distinções mais importantes a fazer ao falarmos de jornalismo e das regras que o regem ou. jornais e revistas ir contra aquilo que o público quer e. devem reger. A deontologia deve. seguida da análise de uma notícia que não seguiu correctamente esse código e. De entre a entropia de interesses que é o jornalismo na actualidade. a vida quotidiana das pessoas. Este trabalho. não deve agredir os valores fundamentais da sociedade humana. por isso. positiva ou negativamente. fazer parte das convicções mais profundas de um jornalista. pretendemos. por definição. excepto quando isso signifique um ganho importante para o aperfeiçoamento da cultura e da vida. política ou economia que possam influenciar. da economia e da notoriedade necessária à sobrevivência de um meio de comunicação social na actualidade. numa primeira fase. tais como o da privacidade e o do acesso à informação. cabe ao jornalista ter a presença de espírito suficiente para evitar a vitória dos interesses particulares sobre os interesses gerais da sociedade. constituir uma lei seguida por medo face a uma possível acção judicial. dos seus valores éticos e morais e os interesses do mercado. compete aos meios de comunicação social dar ao público as informações que eles devem receber e não aquelas que eles querem receber. ir contra os interesses financeiros das empresas e grupos económicos que gerem esses media. procurará seguir um esquema simples onde. No fundo. à luz da convicção de que o jornalista. Aquilo que é do interesse público são as informações mais relevantes acerca da sociedade.

serão a comunidade jornalística portuguesa. teremos de contornar para defender os interesses do público e não o interesse público. no seguimento do que atrás foi desenvolvido. no futuro. dar um pequeno contributo para que nós.Ética e Deontologia trabalho. O nosso objectivo é. um ponto de partida para o nosso trabalho e não um obstáculo que. habilmente. No fundo. Comunicação Social 4º ano . tenhamos no código deontológico uma base. propor uma maior consciencialização daqueles que. como alunos do curso de Comunicação Social.

quantas vezes ouvimos dizer “ podes tomar uma determinada atitude. claro está. O que significa que não se faz uso da palavra apenas nos dois exemplos atrás referidos. O que para determinadas civilizações é eticamente correcto para outras pode não o ser. A palavra pode ser entendida de diversas formas. daí que esta definição seja diversas vezes confundida com a moral. tem. no entanto. por vezes severos. do contexto em que se encontra inserida. Utiliza-se frequentemente a palavra ética para descrever o que determinadas pessoas consideram correcto ou incorrecto. pode designar também o estudo sistemático do raciocínio sobre o modo como devemos agir. como temática ensinada nos departamentos de filosofia das escolas e universidades.Ética e Deontologia Noções de Ética A palavra ética serve. O nosso objectivo é tratar a ética de acordo com as regras deontológicas que regem determinadas profissões. A ética faz parte da nossa herança humana comum e . de certa forma. para referir um conjunto de princípios. O primeiro exemplo refere-se ás normas profissionais o segundo serve. No entanto. sejam elas quais Comunicação Social 4º ano . geralmente. dependendo. E por vezes aquilo que deontologicamente falando não é moralmente correcto não se deve fazer em prejuízo de quebrar as regras mais primordiais do código deontológico. isto é. que estar necessariamente relacionada com normas ou regras a seguir. estas conotações de moral fazem parte de uma concepção mais particular da ética. podes mas não deves. geralmente. e não são aplicadas ao exemplo do presente trabalho. não é moralmente correcto”. neste caso o jornalismo. esta presente em grande parte das sociedades mesmo que os seus princípios não sejam universais. em muitos outros aspectos do quotidiano forem. mas de uma forma mais ou menos linear a sua presença nunca passa despercebida. A pesar de existirem pontos de vista éticos a ética pode ser abordada. que pode requerer que subordinemos os nossos desejos naturais de forma a obedecer à lei (moral). A moral subjaz um conjunto de deveres. É óbvio que também a palavra moral se associa aos códigos de conduta profissionais. regras ou formas de pensar que têm como objectivo orientar as acções de um determinado grupo.

ela acompanha-nos ao longo da nossa vida nas mais variadas situações.. como um saber puro. ora noutras sociedades esta questão é perfeitamente absurda. Deste pequeno exemplo retiram-se várias conclusões. Este exemplo vem provar que a questão ética não funciona apenas em termos profissionais. ao invés.. resultam várias concepções e teorias. O facto de existirem universais éticos não significa que alguns deles não sejam questionáveis. permita estabelecer racionalmente o princípio supremo de toda a moralidade. na obra Fundamentação da Metafísica dos costumes. Todas as dúvidas que ainda hoje persistem têm uma razão de ser lógica e a questão mais colocada relativamente a esta temática é a seguinte: a ética é objectiva ou subjectiva? Podemos dizer que em Portugal ela existe com teor objectivo porque os códigos deontológicos e livros de estilo ou manuais existem. David Hume resume que a base da ética não se encontra na razão pura mas.10) Por seu turno.Ética e Deontologia diferentes. das diferentes obras publicadas. quando ainda se tentava compreender as suas origens e intenções. Comunicação Social 4º ano . ou que sejam uma máxima a percorrer . A primeira refere-se á diversidade ética. Kant. Vários pensadores se debruçaram sobre esta questão e dos debates entre uns e outros. existindo mesmo casos em que deveriam ser proibidos. a possibilidade de uma filosofia que. há ainda determinadas povoações onde as mulheres apenas existem como submissas ao homem ao ponto de andarem cobertas para que não as cobicem. a terceira está intimamente ligada á tradição. (. O filósofo de Konisberg. a segunda prende-se com o facto de diferentes civilizações ostentarem diferentes costumes e “morais”. nas nossas emoções. A questão da ética já foi mais polémica em tempos passados. pp.) Assim. Só poderemos perceber a ética se compreendermos a sua origem e ao mesmo tempo os seus graus de diversidade e uniformidade nas diferentes sociedades. Tomemos como exemplo o casamento: em determinadas sociedades a mulher deve obedecer ao marido. busca a determinação de um ideal ético e nessa busca “ a filosofia moral revelou-se sempre como um esforço de reunir um conjunto de normas de forma a produzir um modelo que orientasse o agir humano em direcção do bem.” (Kant. assim como existem sociedades distintas quase todas elas estão de acordo. constitui o cerne do pensamento ético de Kant e o tema central desta obra.

e ao mesmo tempo movido pelos seus desejos e emoções. isto é. o que vem contrariar a opinião de Kant que afirmava que a moralidade nos diz que devemos fazer o que está certo. Existem inúmeros desacordos éticos porque não existe um padrão universal instituído que permita julgar qual a melhor forma de agir perante determinada situação. como por exemplo nos raciocínios matemáticos. Existem questões que não são lineares daí a dificuldade que por vezes os jornalistas encontram na tentativa de não quebrar regras susceptíveis de alterarem o sentido dos factos. O que acontece. De onde derivam os nossos juízos éticos. Ao longo dos tempos as dúvidas foram-se dissipando e foram surgindo formas de convergência. Comunicação Social 4º ano . e caso não sejam a justiça pode actuar e punir aqueles que a contrariam. é que o que para uns é norma para outros pode não o ser . ao contrário do passado. O importante na actualidade é saber impor limites aos nossos desejos porque. na realidade. da razão ou da emoção? Quando fazemos a nós próprios a pergunta “ O que devo fazer?” não pensamos totalmente de forma imediata. um ser racional guiado pela sua intelectualidade. Outro problema colocado pelos estudiosos e filósofos dos tempos passados baseia-se na divisão do ser humano.Ética e Deontologia têm leis pré-definidas que à partida são cumpridas (salvo algumas excepções). hoje. independentemente dos nossos desejos e convicções. Quantas vezes um profissional acha que deve tomar determinada atitude e não a toma porque pode mas não deve! Isto significa que conhecer o que é correcto não implica fazer o que é correcto. já existem leis que têm necessariamente que ser cumpridas. daí que as normas variem de país para país.

entre outros. O que é primordial então? A quilo que o público quer ler. ouvir e/ou ver. a fuga cada vez maior em relação às regras base. Até que ponto esta ciência continua a ser respeitada numa actualidade cada vez mais preocupada com as vendas e consequentemente com o interesse do público? Importa saber até onde irá o prazo de validade das práticas deontológicas sendo que. manipulação ou sensacionalismo? De facto o essencial da deontologia continua enraizado nos hábitos e tradições de alguns jornais e jornalistas. Felizmente. A verdadeira transformação operada no seio da informação prende-se com o facto de esta se ter tornado num bem transaccional de inegável valor para aqueles que a controlam. distorcida. em Portugal. na restante imprensa nacional. a sociedade actual e todos os valores que lhe são inerentes têm vindo a sofrer profundas transformações. isto não significa que muitos outros jornais primem por uma informação irreal. Não serão os grandes empresários e “patrões” da comunicação os responsáveis pela forma como se produz a informação na Comunicação Social 4º ano . normas de regência e conduta que. ou a isenção dos factos sem distorção. a exploração de casos difíceis para os intervenientes. O que antes era seguido por convicção hoje restringe-se ao medo que o jornalista tem da sua notícia ser ou não aceite por um público cada vez mais exigente. no fundo. especulativa e que quebra de forma irrisória aspectos graves como por exemplo a identificação de vítimas de abuso. Mas.Ética e Deontologia Conseguirá a deontologia resistir à transformação de valores? A definição de deontologia acarreta determinados preceitos. A questão pertinente que se tem vindo a colocar é a seguinte: Afinal é ou não o público que dita as regras? O que é o interesse público? Para responder a esta questão é necessário incluir a informação nas actuais economias de mercado. mas é cada vez mais notório. regras que geralmente são relegadas para segundo plano. os jornais que maior tiragem têm são aqueles que pelo seu conteúdo mais se assemelham às normas ditadas pelo código ético. a intromissão no sofrimento alheio. agem como um elemento de regulação. conselhos.

que. por vezes. que invadam a privacidade das “estrelas” por exemplo. não se cruzam informações e abundam as aspas por falta de declarações de fontes não identificadas (é comum ler ou ouvir o termo “fontes não confirmadas”) O mais preocupante dentro desta concorrência prende-se com o facto de geralmente só serem publicadas notícias que não apelam à reflexão. O mais grave no meio de toda esta polémica é o privilégio que se dá a matérias artificiais e acessórias em detrimento de questões profundas que são determinantes nas mudanças perpetradas na nossa vida colectiva. Os jornais dão ao público aquilo que este quer ver e vice-versa. primordiais num modelo de democracia parlamentar. então. Comunicação Social 4º ano . Com a globalização da informação. aspectos como a imparcialidade. os aspectos mais importantes e os factos mais relevantes são descurados. mas a que se dá melhor. Gabriel Garcia Marquez afirma que : “ Muitas vezes a melhor notícia não é a que se dá primeiro. Outro factor importante que convém referir é o facto de a concorrência se mostrar cada vez mais feroz e mais alargada. deveriam manter-se imutáveis mesmo que tudo o resto se alterasse a uma velocidade vertiginosa.” – quando isto não acontece compromete-se o rigor. nem sempre se respeitam valores imutáveis de referência social. tanto antes como agora.Ética e Deontologia actualidade? É lógico que sim. que sejam sórdidas ou inexplicáveis. A notícia em primeira mão torna-se. Se determinado jornal sabe que tem um público vasto se introduzir no mercado notícias sensacionalistas. é mais que óbvio que não vão pensar duas vezes. ficando para trás talvez as matérias mais sensíveis que fazem parte do quotidiano real e que deveriam ser impostas pelo próprio jornalista. onde se luta pela notícia mais capaz de despertar e manter as audiências. esta passa a ser gerida como um negócio. são importantes exigências. o respeito pela confidencialidade das fontes ou a vida privada. Assim. uma máxima a percorrer e. a recusa de manipulações. E é aqui que começa o chamado interesse do público. É uma questão puramente cíclica. É a prova cabal de que onde quer que se introduza a palavra economia.

a orientação política da sua direcção. a descontextualização da notícia. existem inúmeros métodos para alterar a informação. A televisão. mais grave ainda. Infelizmente. aos olhos do público. a ser levados numa direcção específica que esse meio de comunicação social definiu para nós. não raro. os media têm um papel de organização e modelização da sociedade moderna. a rádio ou os jornais são. Torna-se necessário criar normas reguladoras para que se evite esta manipulação das audiências. é imenso permitindo que nós. contribuindo não só para a informação do público. é verdadeira. como já foi atrás referido. Para esse efeito. ou para a fatia da população em que nos inserimos. sempre de forma a que o público não dê por isso: o enfoque de determinadas opiniões e ideias em detrimento de outras. já que reflectem sobre a actualidade de uma ou mais sociedades interferindo. promovendo ou subvalorizando o papel deste ou daquele partido) e no campo ideológico (os media inculcam nas pessoas um certo modus vivendi. muitas vezes. normas e ideias que o levam a agir de determinado modo). simultaneamente. com elas. já que a maior parte das pessoas tem total confiança naquilo que os media lhes transmite. especialmente no campo político (os media expressam.Ética e Deontologia Informar sem manipular Os media e a sua actividade jornalística e informativa são um fenómeno social. um poder quase ilimitado nas mãos dos que criam e emitem a notícia. condicionando as nossas opiniões. comportamentos e valores. um meio de dominação da população. Consciente ou inconscientemente. portanto. mesmo sem termos consciência disso. graças aos cada vez mais sofisticados meios tecnológicos de transmissão de informação. o poder manipulador dos media. a fabricação de factos e acontecimentos. criando uma realidade falsa mas que. Não deixa. um conjunto de comportamentos. mas também para a sua formação. A sua relevância e influência são enormes. o público. estejamos. permitindo que os meios de comunicação social sejam hoje um dos sectores mais poderosos da nossa sociedade. de ser assustadora. por isso. Este domínio é. Não pensemos que esta é uma visão empolada dos factos porque não o é. não executando uma Comunicação Social 4º ano . a incidência sobre o secundário em vez do essencial e primário. a já clássica apresentação de sondagem e previsões antes da realização dos actos eleitorais e.

E não será isso manipulação? Torna-se cada vez mais difícil saber distinguir o essencial do acessório. É nele que reside. Nos dias que correm. isso é já do conhecimento geral. que esta manipulação aconteça que existe o Código Deontológico do Jornalista. Contudo. em última análise. inerente à informação? O jornalista. Pode-se dizer que o jornalismo deixou a adolescência e entrou na sua fase adulta. A barreira que. E não estará a manipulação. sempre que possível. para além de imenso. evitando. Nós pagamos para ver informação nos canais de televisão. É para evitar. nas estações de rádio e nas páginas dos jornais. num certo grau. Mas o que podemos nós fazer quando a informação não é sequer filtrável. já que é completamente irreal e corresponde a uma habilidosa escolha e construção de factos? O poder dos media é. O jornalista tem a seu cargo a selecção e concepção da informação. hoje em dia. política ou de outra espécie.Ética e Deontologia filtragem conveniente da informação. a informação é um bem precioso que se paga caro. a maioria dos media a nível mundial) e por partidos políticos (há sempre uma ideologia política por detrás de um meio de comunicação social) é um facto consumado. não deve ceder a outros interesses que não o interesse público. deixando para trás um conjunto de limitações e tabus. o poder de seleccionar o que o público vê. Que a manipulação da informação feita por grupos económicos (que gerem. dentro das suas possibilidades. Mais do que uma simples enumeração de direitos e deveres. a deontologia deve ser parte integrante da formação cultural e pessoal do jornalista. Não será isto um desvirtuamento definitivo do nobre acto de informar. O público quer cada vez mais e melhor informação. pressões exteriores e uma manipulação da informação fruto de qualquer conveniência económica. mas tem ainda que se esquivar. dá sempre o seu próprio ângulo dos factos. o aumento da quantidade de informação emitida não tem correspondido a um acréscimo da qualidade dessa informação. quase impossível. As pressões são imensas. algo que já é extremamente difícil. existia entre os media e o mundo de interesses que os rodeia esbateu-se de modo dramático. ou pelo menos tentar evitar. mesmo que inconscientemente. outrora. extremamente perigoso quando mal utilizado. hoje em dia. por outro lado. Vendese e compra-se informação a um ritmo diabólico. mas também a Comunicação Social 4º ano . O jornalista. Informar sem manipular é. de todas as pressões exteriores ao acto de informar. ouve e lê.

Ética e Deontologia inocência que o caracterizava. Comunicação Social 4º ano . Cabe ao jornalista lutar por um mundo informativo melhor e tentar recuperar a dignidade da actividade que desempenha.

mas constituindo uma notícia fundamentada. Evidencia-se um teor opinativo numa notícia que deveria primar pelo rigor. não corresponder às normas da actividade jornalística portuguesa e. apresentar uma proposta para um tratamento diferente dos mesmos factos. procuraremos analisar escrupulosamente uma notícia que. a “violação” do Código deu-se em três pontos específicos e muito distintos entre si. uma notícia onde factos e opiniões pessoais surgem mescladas sem qualquer distinção entre os seus limites entre outras falhas graves. Na página sete do referido jornal. à luz dos preceitos do Código Deontológico do Jornalista Português. A notícia escrita pelo jornalista Miguel Pais Nunes foi publicada no jornal semanário “Tal & Qual”. Este é um caso flagrante de fuga ao rigor informativo.Ética e Deontologia Critério de abordagem – A notícia: falhas e fuga aos estatutos ético-deontológicos Anteriormente tecemos considerações gerais sobre noções de Ética e os temas que lhe estão subjacentes. do dia 16 de Novembro de 2001. muito menos a forma como está redigida. já que ela não se insere sequer numa secção de Opinião que o jornal tenha. que rege a actividade jornalística. como veremos mais adiante. imparcial e clara. surge a notícia intitulada “Pânico instalado no Telejornal – Mão de ferro na RTP” seguida de um pequeno lead referindo o que a seguir se transcreve: “Continua a tomada do poder rangeliano na RTP. caracterizado por expressões como “poder rangeliano” e “o terror dos que temem”. se Comunicação Social 4º ano . tal como é propósito da cadeira de Ética e Deontologia. julgamos. numa segunda abordagem. mas também sobre a importância da Deontologia. mais precisamente do seu código. No caso que a seguir apresentamos. Aos ventos de mudança gerados pelo novo patrão junta-se o terror dos que temem o dia de amanhã” Detecta-se já um modo de tratamento dos factos um pouco empolado e demasiado espectacular (talvez seja esse mesmo o intuito do jornalista). Nesta segunda parte do trabalho.

Emídio Rangel abre as trincheiras da intranquilidade. cuja prestação revela também quando lhe andam ou não a atenazar o juízo.. E as incorrecções continuam: “. meninos. opinativas. como comprovado nas seguintes afirmações. por isso..”. a frase “Tenho que os pôr a andar.) com a simplicidade da sua graciosa presença.José Rodrigues dos Santos. Percorrendo as palavras desta notícia. acaba por ser uma forma de influência patética para mentes menos informadas..vejam-se os juízos de valor e as expressões qualificativas sublinhadas e. A não comprovação dos factos apenas significa que. ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. E o seu rosto diz tudo – motivada.é a pundonorosa Fátima Campos Ferreira que. ao ler a notícia. nem se comprova a veracidade das Comunicação Social 4º ano . sublinha-se de maneira irremediável. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público. o que não é apanágio de uma atitude jornalística dita profissional. ela apresenta um serviço noticioso de razoável qualidade. Segundo o primeiro ponto do Código Deontológico do Jornalista Português: “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade.” ou. o artigo de Miguel Pais Nunes não faz uma distinção clara entre notícia e opinião.. Os factos devem ser comprovados. Execrável este ensemble de erros jornalísticos muito graves que. à falta de melhor palavra. esta última referida em tom pejorativo. para além de infringirem o código deontológico.. “.”. mostram o total desprezo deste jornalista pela sua actividade e pelos seus pares. as entidades envolvidas não foram ouvidas.. com a sua imagem desgastada. a parte dos jornalista.. isto é.Ética e Deontologia aproxima da seriedade necessária e do background cultural que o jornalismo de opinião exige. deparamo-nos desde logo com expressões risíveis como “Alberta Marques Fernandes (.” ou “ Será hoje que vamos para a prateleira?”...” Tal como atrás foi referido... ainda é o melhor pivô feminino de que a RTP dispõe.. procurando ser polémico... utilizadas pelo jornalista que. ao longo de toda a notícia: “.” . atormentada pelo pavor da prateleira a sua tendência para o monocordismo. no cúmulo da inconsciência jornalística.

. para além de ser demasiado informal. denota uma preocupação com o escândalo e com o sensacionalismo. as suas fontes confidenciais de informação. Esta é. As opiniões devem ser atribuídas. Torna-se óbvio que o jornalista foge ao rigor e acaba. mais do que com a atenção que é necessário dar aos factos. proferidas. uma tendência nítida do jornalismo moderno. surpreendentemente. critério constante no ponto sexto do Código Deontológico: “O jornalista deve usar como critério fundamental a identificação das fontes. ceder à tentação da vulgaridade da crónica mundana mais ou menos frívola e bisbilhoteira. Esta linguagem. o escândalo e o sucesso fácil entre o público.. incessantemente. por entrar no campo da ficção e da especulação. Este artigo contém ainda mais uma falha grave no que respeita à não identificação das fontes. infelizmente. “atropelando” mais uma vez o código deontológico. nem deve. nem desrespeitar os compromissos assumidos. As falhasjornalísticas prosseguem artigo fora... O jornalista não deve revelar. especialmente de um tipo de “imprensa cor-de-rosa” e de um conjunto de jornais e revistas da nossa praça que procuram. supostamente.Ética e Deontologia afirmações por estes. excepto se tentarem usar para canalizar informações falsas.Fátima Campos Ferreira até treme!”. mesmo em juízo. neste caso o seu segundo ponto: “O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.” A intenção sensacionalista do autor desta peça está plasmada nas seguintes expressões que servem de legenda às fotografia que acompanham o artigo: “ Emídio Rangel lançou a perturbação na RTP. O jornalista não pode.” Comunicação Social 4º ano .” ou “E quando Alberta Marques Fernandes aparece.

Não se pede aos jornalistas que sigam à risca o Código Deontológico. As afirmações acima referidas vêm mostrar que o autor da notícia não dá a conhecer aos leitores a identidade daqueles que proferiram tais frases. Comunicação Social 4º ano . Contudo. No conjunto. pretendemos. até porque ele não é nenhuma lei judicial. as infracções graves perpetradas pelo profissional de comunicação social que este jornalista é. o jornalista Miguel Pais Nunes não identifica as fontes de afirmações como: “Vai pensando nos canais temáticos!. é exigível que ele. a razão principal para a escolha deste artigo. nunca se compreende verdadeiramente se estas afirmações são reais ou mera ficção criada pelo jornalista que.Ética e Deontologia Neste caso específico. deve informar e não desinformar. disse-lhe o magnânimo «boss»” ou “Temos para aqui economistas às carradas. siga uma conduta de trabalho que se coadune com um mínimo de respeito pelas pessoas e instituições que representa e pelas outras às quais se refere nas suas peças. Deste modo. sem nada para fazer. mostram o seu total desconhecimento das normas da sua profissão ou. A seguinte tarefa que nos compete realizar. ao contrário do que aqui é feito. mostrando que os interesses da economia e do lucro fácil se sobrepõem muitas vezes a uma informação factual e digna de uma actividade profissional tão importante na sociedade contemporânea. prende-se com uma releitura dos mesmos factos. É triste verificar a falta de coerência e de pejo que o jornal “Tal & Qual” apresenta no panorama dos media portugueses. ou deveria ser. mais provavelmente e mais gravoso ainda. apresentando-os de uma forma diferente e. Por isso achamos importante referir estes três pontos do Código Deontológico do Jornalista Português que são desrespeitados nesta notícia. como profissional. o total desrespeito por um código que ele conhece mas não segue. de facto. Essa foi. e agora vem mais uma amiga do Rangel fazer um trabalho tão simples”. mais condizente com as normas deontológicas do jornalismo. o que vem comprovar o “atropelo” em relação ao sexto ponto do Código.

Corpo da notícia Com o terminus das férias de Verão. É claro que a nossa versão da notícia não será a mais correcta. visto que não temos acesso directo às fontes humanas e documentais que lhe deram origem. Entre eles encontra-se Fátima Campos Comunicação Social 4º ano .. marcaram a imagem dos dois canais da RTP. respeitando o Código Deontológico do Jornalista Português. Os jornalistas questionam agora o seu futuro na televisão pública. a nova aquisição da RTP Alberta Marques Fernandes lançou a dúvida entre as hostes do canal da “5 de Outubro”. fazer uma distinção clara entre notícia e opinião.Ética e Deontologia A notícia: regras técnicas e deontológicas – a perspectiva correcta e rigorosa Como é propósito deste trabalho. Deste modo. onde se denote a imparcialidade da atitude jornalística. a televisão pública assiste a profundas mudanças no quadro de pessoal. a clareza e concisão da escrita. situações. uma visão o mais factual possível. mas no entanto. por oposição ao sensacionalismo. vamos de seguida proceder à redacção de um texto jornalístico alternativo àquele que serve de base para a nossa análise. Ninguém está seguro. existem alguns pontos que vamos tentar focar: o contexto dos factos. As pressões recaem sobre alguns dos profissionais que. personagens ou objectos descritos. pretendemos apresentar uma versão diferente dos mesmos factos. isto é. a correcção. o rigor de uma informação que se pretende completa e fundamentada – baseada em factos e não em rumores -. uma identificação correcta dos intervenientes.. até agora. Título Problemas no Telejornal Convulsões internas na RTP Lead Desde a chegada de Rangel à RTP como Director Geral de Antena.

juntamente com Rangel. surpreendentemente. justificando o descontentamento de Manuel Luís Goucha. a telenovela que custou cerca de 1 milhão de contos aos cofres da RTP foi passando a horas cada vez mais tardias. no que se refere a audiências. reduzindo-se o tempo de emissão do programa “Praça da Alegria”. Por isso. apresentador do programa. cargo que Emídio Rangel também acumulou... visto que nenhum dos gestores do canal confirma o sucedido. O afastamento de Afonso Rato da direcção da RTP Internacional. Na mesma linha de acção. Rangel poderá encontrar aqui a razão para operar uma mudança profunda no staff do noticiário. continuam a conquistar o afecto do público. Prolongou-se o espaço destinado aos mais novos. ao que se pôde apurar. um clima de indecisão e de alguma instabilidade. Comunicação Social 4º ano .Ética e Deontologia Ferreira que se tem revelado como uma das personalidades mais relevantes da estação mas. A nova direcção da RTP criou. ultimamente. veio da estação de Carnaxide. vem demonstrar o descontentamento crescente no seio das esferas directivas do canal. avolumando as conturbações internas na estação pública. cuja audiência se conta entre as mais elevadas de entre a programação do canal público. enfrenta o problema da concorrência que. Como resultado. deixando de ser transmitida num horário fixo. Supostamente. Esta aquisição foi posta em dúvida por alguns membros do quadro da RTP. Com as fracas audiências do Telejornal. o share médio desceu cerca de sete pontos percentuais. Por outro lado. a face mais emblemática do Telejornal do Canal 1. A polémica estende-se ainda às opções de programação tomadas pelo novo director durante o curto período de férias. foi contratada Isabel Carvalho para fazer um controlo de custos das produções. terá sido dito a Rato que esperasse pela criação dos canais temáticos. Até José Rodrigues dos Santos. visto que a equipa de técnicos e jornalistas que trouxe consigo (entre os quais se incluem a já referida Alberta Marques Fernandes e o antigo pivô da SIC. a nova produção “A Senhora das Águas” não obteve os resultados esperados. por contraste com as telenovelas da TVI que. José Alberto Carvalho) ainda não foi inserida no quadro de pessoal. se sente ameaçado com as mudanças que se antevêem. “flutuando” ao sabor das necessidades programáticas da estação.

Emídio Rangel provoca reacções adversas no seio da RTP. 2.Alberta Marques Fernandes e Fátima Campos Ferreira: uma concorrência forte que se antevê. Comunicação Social 4º ano .Ética e Deontologia Legendas para as imagens 1.