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JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS

1. Antecedentes

Verifica-se no mundo todo, nos dias de hoje, uma preocupação grande com os
problemas decorrentes da ineficiência do sistema penal (abrangendo tanto o Direito Penal
como o Direito Processual Penal) para o combate à crescente criminalidade.

Aspecto importante dessa ineficiência é a demora na reposta penal, por força de


uma justiça penal anacrônica.

Daí a procura por alternativas, com destaque para o chamado “direito penal
mínimo”, ou seja, da idéia de que o direito penal deve ser reservado somente para a punição
de fatos de maior gravidade, que atingem bens jurídicos de maior relevo para a sociedade,
deixando-se fora de seus domínios aqueles fatos de menor importância.

Realmente, como observa Márcio Franklin Nogueira, “o ordenamento jurídico


dispõe de inúmeras opções para fazer valer seus preceitos. Há as sanções civis, as
administrativas e as criminais. Estas sanções, outrossim, devem ser aplicadas conforme a
maior ou menor gravidade da conduta lesiva. A pena criminal, como se sabe, importa
sacrifício e importantes restrições aos direitos do autor do fato – direitos, estes, cujo
respeito e garantia é função do Estado; conseqüentemente, só se justifica tal sacrifício
quando necessário à paz e à conservação sociais, ou seja, à própria defesa dos direitos e
garantias individuais, que constituem a base de todo regime democrático”1.

Por força desse princípio, desenvolve-se, no campo penal, uma moderna tendência
descriminalizadora/despenalizadora no campo da criminalidade de pequena e média
gravidade. Segundo Luiz Flávio Gomes, descriminalizar “significa retirar o caráter de
ilícito ou de ilícito penal do fato”, e despenalizar “adotar processos substitutivos ou
alternativos, de natureza penal ou processual, que visam, sem rejeitar o caráter ilícito do
fato, a dificultar, evitar, substituir ou restringir a aplicação da pena de prisão ou sua
execução, ou, ainda, pelo menos, sua redução”2.

1
Transação Penal, Malheiros Editores, 2.003, p. 38
2
Suspensão Condicional do Processo, Saraiva, 2ª ed., p. 111

1
Assim, quando o legislador deixa de considerar crime fato que anteriormente estava
tipificado na lei penal (“abolitio criminis”), temos uma descriminalização. Quando o
legislador altera a lei penal, criando alternativas à pena de prisão, temos uma medida
despenalizadora.

A lei n. 9.099, que instituiu entre nós o Juizado Especial Criminal, se insere nesse
conceito de medida despenalizadora, como veremos a seguir.

2. A lei 9.099/95 e suas medidas despenalizadoras

Com a edição da lei 9.099/95, salienta Márcio Franklin Nogueira, “o sistema


jurídico brasileiro abriu-se às posições e tendências contemporâneas por uma concreta
efetivação da norma penal. Embora mantendo o princípio da legalidade como norte do
sistema processual penal, abriu-se espaço ao princípio da oportunidade e ao consenso”3.

Pode-se dizer que com a lei em questão passamos a ter dois tipos de justiça
criminal: a justiça penal de consenso; a justiça penal de conflito.

É preciso lembrar que nosso sistema processual penal consagra, como um de seus
pilares, o princípio da obrigatoriedade. Segundo ele, o Ministério Público, uma vez formada
a “opinio delicti”, é obrigado a exercitar a ação penal. Não pode deixar de fazê-lo por
razões de conveniência ou oportunidade.

Outros sistemas processuais penais, como o norte-americano, por exemplo,


consagram o princípio inverso, ou seja, o princípio da oportunidade. O acusador público,
como regra geral, não está obrigado a dar início à ação penal, podendo deixar de fazê-lo por
razões de oportunidade ou conveniência.

Pois bem, como dito anteriormente, a lei 9.099/95 fez algumas concessões ao
princípio da obrigatoriedade, como ocorre com a transação penal.

Essa lei 9.099/95, além de criar os Juizados Especiais Criminais, trouxe quatro
importantes medidas despenalizadoras: a) permite a composição civil, com extinção da
punibilidade, quando se tratar de crimes de ação penal privada ou pública dependente de
representação (art. 74, parágrafo único); b) permite a transação penal, através da qual se
3
op. Cit., p. 113

2
aplica, desde logo, em havendo acordo entre Ministério Público e autor do fato, pena
restritiva de direitos ou multa; c) No crime de lesão corporal leve, ou quando culposa a
lesão corporal, a ação penal deixa de ser pública incondicionada para se transformar em
pública condicionada à representação; d) permite a suspensão condicional do processo.

Como assinala Márcio Franklin Nogueira, “transparece clara a preocupação de


evitar os males do processo criminal, que também estigmatiza a pessoa, como ocorre com a
pena criminal, como de reverter a onda de descrédito na Justiça Criminal, dando-se uma
resposta pronta, útil e adequada à pequena criminalidade, que, por ser dotada de menor
reprovabilidade social, merece tratamento diverso daquele dispensado à criminalidade de
maior gravidade, com o estabelecimento de um procedimento sumaríssimo4.

3. Os Juizados Especiais Criminais

3.1. Juizes togados e leigos

O art. 60 da lei 9.099, em sua parte inicial, aponta a composição dos Juizados
Especiais Criminais, aludindo a juizes togados e leigos. Mais adiante, no art. 73, faz
referência aos conciliadores.

Percebe-se, pois, que nos Juizados Especiais Criminais são admitidos tanto juizes
leigos como conciliadores, tidos como auxiliares da justiça.

É bom salientar, no entanto, que o juiz leigo e o conciliador atuam apenas como
conciliadores, sem qualquer função de julgar, e sempre sob a orientação de um juiz togado.

Assim, somente o juiz togado, regularmente investido na função jurisdicional, pode


proferir julgamentos.

Outrossim, como visto, o juiz leigo e o conciliador têm a mesma função: conciliar
as partes. A diferença entre ambos é apenas de formação: os juizes leigos precisam ser
advogados com mais de cinco anos de experiência; conciliadores, de preferência bacharéis
em Direito.

4
op. Cit., p. 113

3
3.2. Competência

A parte final do art. 60 trata da competência dos Juizados Especiais Criminais, a


saber, a conciliação, o julgamento e a execução das infrações penais de menor potencial
ofensivo.

3.3. Conceito de infrações penais de menor potencial ofensivo

Nos termos do art. 61 da lei 9.099/95, “consideram-se infrações de menor potencial


ofensivo, para os efeitos desta lei, as contravenções penais e os crimes a que a lei comine
pena máxima não superior a 1 (um) ano, excetuados os casos em que a lei preveja
procedimento especial”.

Assim, num primeiro momento, por força desse dispositivo legal, consideravam-se
infrações de menor potencial ofensivo: a) as contravenções penais (todas elas); e b) os
crimes cuja pena máxima cominada não ultrapassasse um ano, exceto aqueles para os quais
a lei prevê procedimento especial. Essa a orientação que predominou na doutrina5.

Ocorre, no entanto, que a edição da lei n. 10.259/01 – que criou os Juizados


Especiais Criminais Federais – trouxe novo conceito de infração de menor potencial
ofensivo, no parágrafo único de seu art. 2º, nos seguintes termos: “consideram-se infrações
de menor potencial ofensivo, para os efeitos desta lei, os crimes a que a lei comine pena
máxima não superior a dois anos, ou multa”.

A polêmica gerada por esse dispositivo legal foi grande. Uma parte da doutrina
sustentava que esse conceito seria específico para os chamados delitos federais, inseridos
na competência da Justiça Federal. Para a justiça estadual continuava valendo aquele
conceito da lei 9.099/95. Teríamos, pois, dois conceitos de infração de menor potencial
ofensivo, um para crimes comuns, da competência da justiça estadual, e outro para os
crimes federais.

Acabou por prevalecer, tanto na doutrina como na jurisprudência – embora o tema


ainda não tenha se pacificado completamente -, a orientação unificadora, ou seja, o

5
cf. Márcio Franklin Nogueira, op. Cit., p. 149

4
parágrafo único do art. 2º da lei 10.259/01 derrogou aquele conceito constante da lei
9.099/95.

Essa a orientação professada por Márcio Franklin Nogueira: “Por força dos
princípios da igualdade e da proporcionalidade, não se pode deixar de ampliar aquele
conceito de infração de menor potencial ofensivo. Tais princípios representam uma
limitação ao Poder Público, em especial ao Poder Legislativo, devendo nortear a
elaboração das leis, que não se podem ressentir da falta de razoabilidade. Assim, a norma
do art. 61 da lei 9.099/95 foi ab-rogada pelo art. 2º, parágrafo único, da lei 10.259/2001”6.

Recentemente tivemos a solução com a edição da lei nº 11.313/2006 que alterou o


artigo 61 que dispõe ser competência dos juizados especiais criminais o processamento e
julgamento de todos os crimes e contravenção cuja pena não seja superior a 2 anos, ou seja,
são consideradas infrações de menor potencial ofensivo todos os ilícitos cuja pena não seja
superior a dois anos.

3.4. Princípios que regem o processo perante o Juizado Especial Criminal

O art. 62, ao se referir aos princípios da oralidade, informalidade, economia


processual e celeridade, que devem orientar o processo, bem assim à preocupação com a
reparação dos danos sofridos pela vítima, e a aplicação de pena não privativa de liberdade,
está traçando diretrizes e orientações para serem seguidos na instituição dos Juizados
Especiais Criminais. Está o legislador firmando ai a base desse novo modelo de justiça
criminal, e obedecendo à diretriz constitucional, pois o art. 98, I, da Constituição Federal,
alude a um “procedimento oral e sumário”.

Outrossim, além desses princípio elencado no art. 62, há outros que também se
podem dizer específicos dos Juizados Especiais Criminais: princípio da legalidade
mitigada; princípio da autonomia da vontade; princípio da desnecessidade da pena privativa
de liberdade.

3.4.1. A oralidade

6
op. Cit., p. 154

5
Por força desse princípio, os atos processuais, nos Juizados Especiais Criminais,
devem ser praticados oralmente, embora devam ser documentados de forma sucinta.

3.4.2. A informalidade

Esse princípio relaciona-se com a ausência de preocupação com a forma dos atos
processuais. Isso não significa, no entanto, ausência total de formas. A regulamentação das
formas dos atos processuais é uma garantia para as partes. O que não pode prevalecer é o
excesso de formalismo.

Veja-se que o art. 65 e seus §§ estabelecem que os atos processuais que


preencherem as finalidades para os quais foram realizados não devem ser declarados nulos.
A nulidade pressupõe efetivo prejuízo. Por outro lado, somente os atos havidos como
essenciais serão objeto de registro escrito (art. 65, § 3º); a sentença não precisa ter relatório
(art. 81, § 3º).

3.4.3. A economia processual

Esse princípio se relaciona como máximo de resultado como o mínimo de encargos.


É o que ocorre, por exemplo, com a concentração de atos processuais numa mesma
oportunidade (audiência unificada), e com a supressão do inquérito policial.

3.4.4. A celeridade processual

Intimamente relacionado com os outros princípios, busca a rápida solução dos casos
penais, mas sem comprometer a segurança.

3.4.5. Princípio da legalidade mitigada

Um dos característicos do novo sistema é a mitigação do princípio da legalidade.


Assim é que, em casos excepcionais previstos em lei, e sob estrito controle judicial, pode o

6
Ministério Público dispor da persecução penal, propondo ao autor do fato medida penal
alternativa, ao invés de dar início a ação penal.

O sistema da lei 9.099/95 não implicou na adoção do princípio da oportunidade em


sua forma pura. Até porque a atuação do Ministério Público está regulamentada e
controlada judicialmente. A intenção do legislador é que nos crimes de menor potencial
ofensivo não se instaure o processo penal condenatório, o processo penal clássico, de
conflito. Na esteira de uma tendência mundial.

3.4.6.Princípio da autonomia da vontade

Esse novo modelo de justiça criminal funda-se essencialmente no consenso, sendo


necessário que o autor do fato renuncie àquele processo penal clássico (de conflito) e aceite
a proposta do Ministério Público de submeter-se a uma pena restritiva de direitos ou de
multa, permitindo o encerramento do processo com a transação penal.

Nisso consiste exatamente o princípio da autonomia da vontade: sem que o autor do


fato consinta, não há solução conciliatória.

A lei 9099/95 privilegia a vontade do autor do fato, valorizando sua intenção de


assumir as conseqüências do ilícito penal e remir o débito social.

3.4.7. Princípio da desnecessidade da pena privativa de liberdade

Norte da lei 9099/95 é a não imposição de pena privativa de liberdade. Veja-se que o
art. 62, em sua parte final, diz: “objetivando, sempre que possível, a reparação dos danos
sofridos pela vítima e a aplicação de pena não privativa de liberdade”.

Nisso consiste o princípio da desnecessidade da pena privativa de liberdade, em se


tratando de infração penal de menor potencial ofensivo.

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3.5. A competência e os atos processuais

A competência do Juizado será determinada pelo lugar em que foi praticada a


infração penal, diz o art. 63.

Por outro lado, os atos processuais devem ser públicos, podendo ser realizados à
noite, e em qualquer dia da semana (art. 64)

Como já se disse anteriormente, para a validade dos atos processuais é importante


que preencham as finalidades para os quais são realizados, não se decretando nulidade sem
que tenha havido prejuízo (art. 65 e §§).

A citação deve ser pessoal, no próprio Juizado, quando possível, ou por mandado.
Não há citação por edital, nem citação por carta precatória.

Não sendo encontrado o acusado para ser citado, o juiz encaminhará as peças ao
juízo comum, onde prosseguirá o feito.

3.6. A fase preliminar

Na sistemática da lei 9099/95, a autoridade policial quando toma conhecimento da


prática de infração penal de menor potencial ofensivo deve lavrar termo circunstanciado
(TC), encaminhando-o imediatamente ao Juizado (ou ao Juiz Criminal enquanto não
instalado o Juizado), juntamente com o autor do fato e a vítima (art. 69).

Somente a autoridade policial poderá presidir a lavratura do auto de prisão em


flagrante.

O parágrafo único, art. 60 diz: “Ao autor do fato que, após a lavratura, do termo, for
imediatamente encaminhado ao Juizado ou assumir o compromisso de a ele comparecer,
não se imporá prisão em flagrante, nem se exigirá fiança. (grifo nosso). Como se
percebe, em se tratando de infração de menor potencial ofensivo não se há falar em
lavratura de auto de prisão em flagrante, nem em fiança.

Isso não significa impedimento ao ato de prender ou capturar quem esteja em


situação de flagrância. A autoridade policial poderá efetuar sim a prisão exigindo a fiança,
se cabível, caso o autor do fato não preste o compromisso de comparecimento. O que a lei

8
dispensa é a documentação da prisão em flagrante, a lavratura do auto de prisão em
flagrante, que é substituído pelo auto circunstanciado7.

A intenção do legislador quando da fiança é a vinculação do autor do fato ao


procedimento ou processo. O benefício de responder ao processo em liberdade constitui,
então, um incentivo conferido pela lei ao autor, para que este comparece a todos os atos do
Juizado.

Em ocorrendo o descumprimento pelo autor, de comparecimento a todos os atos,


poderá ter decretada a sua prisão preventiva decretada, se presente todos os requisitos dos
arts. 312 e 313, incisos II e III, do Código de Processo Penal.

Conforme ensina Júlio Fabrini Mirabete “a dispensa da lavratura do auto de prisão


em flagrante é um direito público subjetivo, que não se pode recusar ao autor do fato, ainda
que detido em flagrante delito. Há, em verdade, uma suspensão dos efeitos da prisão em
flagrante, com implícita concessão de liberdade provisória sem fiança.”8

No entanto, é bom considerar que o parágrafo único do art. 69 estabelece que “ao
autor do fato que, após a lavratura do termo, for imediatamente encaminhado ao juizado
ou assumir o compromisso de a ele comparecer, não se imporá prisão em flagrante, nem se
exigirá fiança. Em caso de violência doméstica, o juiz poderá determinar, como medida de
cautela, seu afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a vítima”.

Esse parágrafo único teve sua redação alterada pela lei n. 10.455/02, que cuida da
violência doméstica.

O termo circunstanciado deve conter outros elementos além daqueles próprios do


boletim de ocorrência, pois servirá para a conciliação, para a transação e até eventualmente
para denúncia.

Comparecendo o autor do fato e a vítima (juntamente com o termo circunstanciado),


duas poderão ser as situações: a) realização, desde logo, da audiência; b) designação de data
próxima para a realização da audiência, saindo autor do fato e vítima devidamente cientes.

7
cf. Márcio Franklin Nogueira, op. Cit., p. 175
8
Mirabete, Julio Fabrini, JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS: COMENTÁRIOS,
JURISPRUDÊNCIA, LEGISLAÇÃO – 3 ed.- São Paulo:Atlas, 1998.

9
Se as partes não comparecerem, chegando ao juiz apenas o termo circunstanciado, a
Secretaria do Juizado deve providenciar a intimação das partes (art. 71).

3.7. A audiência preliminar

Estando presentes o Promotor de Justiça, o autor do fato, a vítima e, se possível, o


responsável civil, o juiz deve esclarecer as partes sobre a possibilidade de composição dos
danos e da aceitação, pelo autor do fato, da proposta de aplicação imediata de pena
restritiva de direitos ou multa.

A conciliação poderá ser conduzida pelo próprio juiz, ou por conciliador sob sua
orientação.

Se o autor do fato concordar em ressarcir os danos suportados pela vítima, o acordo


será reduzido a escrito, e homologado pelo juiz (togado), mediante sentença irrecorrível,
que terá eficácia de título executivo no cível.

Se o crime for de ação penal privada, ou de ação penal pública dependente de


representação, o acordo devidamente homologado implica em renúncia ao direito de queixa
ou representação.

Não sendo possível a conciliação, ainda na hipótese de se tratar de ação penal


pública dependente de representação, será dada oportunidade ao ofendido de representação
verbal, que será reduzida a termo. Mas o não oferecimento de representação, pelo ofendido,
nesse momento processual, não implica em decadência do direito, que poderá ser exercido
no prazo previsto em lei.

3.7. A transação penal

É preciso salientar, de início, o importantíssimo papel do juiz criminal para o


sucesso desse novo modelo de justiça criminal consensuada. Sem prejulgar o caso, o juiz
deve funcionar como um autêntico conciliador, procurando compor as partes. Deve dialogar
com as partes, permitindo amplo debate entre elas a respeito do acordo civil e da transação
penal. Deve empenhar-se com afinco para obter a composição entre as partes.

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Não sendo possível o acordo civil, ofertadas a representação (na ação penal pública
condicionada) ou a queixa (na ação penal privada), ou em se tratando de ação penal pública
incondicionada, passa-se à segunda fase da audiência, a da transação penal.

Assim, não sendo caso de arquivamento do TC, o Ministério Público poderá propor
a aplicação de pena restritiva de direitos ou de multa (art. 76).

Discute-se quanto a se tratar de faculdade ou dever do Ministério Público o


oferecimento da transação penal.

Uma corrente sustenta tratar-se de ato discricionário do Ministério Público, a quem


compete analisar a conveniência de propor ou não a aplicação da pena restritiva de direitos
ou de multa.

Tem prevalecido, no entanto, tanto na doutrina como na jurisprudência, a posição


contrária, ou seja, o Ministério Público, uma vez presentes os requisitos legais, não pode
deixar de apresentar aquela proposta.

Há decisões, inclusive, admitindo que o juiz, na omissão do Ministério Público,


apresente a proposta de transação penal ao autor do fato.

A proposta de transação penal deve limitar-se às penas restritivas de direitos ou


multa, e deve ser clara, precisa, de forma a permitir que o autor do fato e ao seu defensor
uma apreciação segura da de sua conveniência. O espaço de atuação do Ministério Público
é limitado, ao contrário do que ocorre no sistema legal norte-americano.

Apresentada a proposta, cumpre ao autor do fato analisá-la com cuidado. Estando


seguro de sua inocência, deve recusá-la, optando pelo processo penal condenatório. Porém,
desejando evitar os males do processo penal, poderá concordar com a proposta.

Tem-se admitido que o autor do fato, ou seu advogado, formulem uma contra-
proposta.

Uma vez aceita a proposta, deve o acordo ser homologado pelo juiz (togado). É
indispensável a presença do advogado no ato. Dessa sentença cabe apelação.

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A imposição da pena restritiva de direitos, decorrente da transação penal, não deverá
constar de certidão de antecedentes criminais, salvo para os fins de obtenção futura de novo
benefício de transação penal (art. 76, § 4º). Também não implicará em reincidência.

Essa sentença homologatória não tem eficácia de sentença condenatória criminal


nem absolutória, sua natureza jurídica é puramente de sentença homologatória de transação
penal.

E se houver conflito, quanto à aceitação da proposta, entre o autor do fato e seu


advogado ?

Penso que deve prevalecer a vontade do autor do fato, desde que perfeitamente
esclarecido das conseqüências de seu ato. A ele deve mesmo caber a última palavra, pois a
ele caberá cumprir a pena restritiva de direitos ou de multa. Esta a orientação prevalente
tanto na doutrina como na jurisprudência.

Qual a conseqüência do descumprimento do acordo, relativamente à pena restritiva


de direitos ?

A questão é objeto de acesas controvérsias.

Uma corrente sustenta que não cumprida a pena consensuada deve ela ser
convertida em pena privativa de liberdade. Essa orientação choca-se frontalmente com os
fins da lei 9.099/95, que é justamente afastar a imposição de pena privativa de liberdade.

Outra corrente bate-se pela apresentação, nessa hipótese, de denúncia, dando-se


início à ação penal tradicional, desconsiderando-se a transação penal homologada. Esse
posicionamento viola, no entanto, a coisa julgada, representada pela sentença
homologatória da transação penal.

Uma terceira corrente diz que não pode haver, nesse caso, nem conversão da pena
restritiva de direitos em pena privativa de liberdade, nem apresentação de denúncia. Isso,
no entanto, torna inócua a transação penal e foge dos objetivos da lei.

Por último, sustenta-se que a solução é a execução da sentença. Execução, na forma


da lei processual civil, como de obrigação de fazer.

Parece-nos ser essa a melhor solução para a hipótese.

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Quando se tratar de pena de multa, a solução é mesmo a sua execução, com a
cobrança na ação de execução fiscal (trata-se de débito tributário).

3.8. Causas impeditivas da transação

Não será admitida a transação penal quando: a) tiver sido o autor da infração
condenado, pela prática de crime, à pena privativa de liberdade, por sentença definitiva; b)
tiver sido o agente beneficiado anteriormente, no prazo de cinco anos, pela aplicação de
pena restritiva de direitos ou multa; c) não indicarem os antecedentes, a conduta social e a
personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias, ser necessária e
suficiente a adoção da medida (art. 76, § 2º).

3.8. O procedimento sumaríssimo

Não se logrando a transação (ou pela ausência do autor do fato, ou pela não
aceitação da proposta formulada), é preciso distinguir: a) sendo crime de ação penal
privada, o ofendido poderá oferecer queixa oral (art. 77, § 3º); b) sendo crime de ação penal
pública, o Ministério Público oferecerá denúncia oral, se não houver necessidade de
diligências imprescindíveis (art. 77, “caput”).

Quando se tratar de crime que deixa vestígios, a materialidade do crime deverá estar
demonstrada ou por boletim médico ou prova equivalente (art. 77, § 1º).

Quando o caso se revestir de complexidade, ou não propiciar ao Ministério Público


o oferecimento de denúncia, o juiz poderá encaminhar as peças ao juízo comum (art. 66). O
art. 66 da Lei 9.099/95 constitui uma hipótese de deslocamento para a justiça comum.

Uma vez oferecida a denúncia ou a queixa, será ela reduzida a termo, entregando-se
cópia ao acusado, que ficará citado e cientificado da designação de dia e hora para a
audiência de instrução e julgamento. Também deverão tomar ciência da designação, o MP,
o ofendido, o responsável civil e seus advogados (art. 78).

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Se o acusado não estiver presente, será citado na forma dos arts. 66 e 68, devendo
trazer à audiência de instrução e julgamento suas testemunhas, ou apresentar requerimento
para sua intimação como no mínimo cinco (5) dias de antecedência.

Quanto ao número de testemunhas, em razão do silêncio da lei, nesse sentido,


aplica-se analogicamente o disposto para o procedimento sumário (crimes apenados com
detenção e contravenções penais), que é de três testemunhas.

No dia da audiência de instrução e julgamento, o juiz deverá renovar a tentativa de


conciliação, tanto para a reparação dos danos como para a transação penal.

Em seguida, será dada a palavra ao defensor para responder à acusação, após o que
o juiz receberá ou não a denúncia ou queixa. Sendo recebida a peça inicial, devem ser
ouvidas as vítimas e testemunhas de acusação e defesa, interrogando-se o acusado em
seguida. Após, as partes debatem a causa e juiz sentencia.

Nenhum ato deve ser adiado, determinando o juiz, se o caso, a condução coercitiva
de quem deva comparecer (art. 80).

Todas as provas serão produzidas na audiência, podendo o juiz limitar ou excluir as


que considerar excessivas, impertinentes ou protelatórias (art. 81, § 1º).

Da audiência de instrução e julgamento deve lavrar-se termo reduzido, contendo


breve resumo dos fatos relevantes ocorridos e a sentença, da qual se dispensa o relatório
(art. 81, §§ 2º e 3º).

Das decisões que rejeitam a denúncia ou queixa, ou decidem a demanda, cabe


apelação, que poderá ser julgada por turma composta de três juízes em exercício no
primeiro grau de jurisdição, reunidos na sede do juizado (art. 82).

O prazo para interpor apelação escrita é de dez dias. Igual o prazo para contra-
razões.

Da sentença ou acórdão cabem embargos de declaração (art. 83).

3. 9. A suspensão condicional do processo.

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Outra medida despenalizadora prevista na lei 9.099/95 é a suspensão condicional do
processo, inserida no seu art. 89.

São requisitos para a suspensão condicional do processo: a) crime com pena mínima
cominada igual ou inferior a 1 (um) ano, abrangidas ou não pela lei 9.099/95; b) não estar
o acusado sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime; c) estarem
presentes os requisitos autorizadores da suspensão condicional da pena (art. 77 do Código
Penal).

Veja-se que a suspensão condicional do processo não é instituto típico dos Juizados
Especiais Criminais. Tanto que o art. 89 se refere a crimes abrangidos ou não pela lei
9.099/95.

Preenchidos esses requisitos, o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, poderá


propor a suspensão condicional do processo, por dois a quatro anos.

Se o acusado aceitar, o juiz, recebendo a denúncia, suspende o processo,


submetendo o acusado a período de prova, sob as condições previstas nos incisos I a IV do
§ 1º do art. 89, podendo especificar outras, desde que adequadas ao fato e à situação pessoal
do acusado (§ 2º).

Se no curso do prazo da suspensão o beneficiado vier a ser processado por outro


crime, ou não efetuar, sem motivo justificado, a reparação do dano, o benefício será
obrigatoriamente revogado (§ 3º).

O § 4º prevê causa de revogação facultativa da suspensão do processo: vir o acusado


a ser processado, no curso do prazo, por contravenção, ou descumprir qualquer outra
condição imposta.

Expirado o prazo da suspensão, sem que ela tenha sido revogada, o magistrado
declarará extinta a punibilidade.

Finalmente, se o acusado não aceitar a proposta do MP, para suspensão condicional


do processo, esse prossegue normalmente em seus ulteriores termos (§ 7º).

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4. Recursos - Execução, despesas Processuais e disposições finais.

4.1 Dos Recursos

Das decisões que rejeitam a denúncia ou queixa, ou decidem a demanda, cabe


apelação, que poderá ser julgada por turma composta de três juízes em exercício no
primeiro grau de jurisdição, reunidos na sede do juizado (art. 82).

O prazo para interpor apelação escrita é de dez dias. Igual o prazo para contra-
razões.

Da sentença ou acórdão cabem embargos de declaração (art. 83).

Conforme disposto no art. 84 da lei, aplicada exclusivamente a pena de multa, seu


cumprimento far-se-á mediante pagamentos na Secretaria do Juizado. Cumprida a
obrigação, ou seja, feito o pagamento o juiz declara extinta a punibilidade, determinado que
a condenação não conste dos registros criminais, ou seja, eventuais certidões não deverão
mencionar.

A questão de maior indagação, no que se refere á lei 9.099/95 foi o art. 85 que diz
“Não efetuado o pagamento de multa, será feita a conversão em pena privativa de
liberdade, ou restritiva de direitos, nos termos previstos em lei” (grifo nosso). Essa
previsão legal refere-se a Lei de Execuções Penais. Mas é de salutar importância destacar
que essa conversão não é mais possível face o advento da Lei 9.268/96 que baniu do nosso
sistema essa possibilidade e deu nova redação ao art. 51 do Código Penal determinado que
toda multa será considerada dívida de valor, portanto, só poderá ser cobrada em sede de
execução, no juízo cível.

Não poderia ser outra a providência quanto ao inadimplemento da pena de multa, já


que o objetivo da lei dos juizados especiais criminais é evitar o encarceramento, não teria

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sentido a possibilidade da conversão. Diferente também não era a intenção do legislador
quando da lei edição da 9.268/96.

No entanto, a lei de execuções penais e nem o Código penal não prevêem a


conversão da pena de multa em restritiva o que torna impossível a sua aplicação. Quanto a
esse problema se posiciona Ada Pelegrine Grinover et al “mas, como a lei admite a
transação sobre a pena restritiva e prevê a conversão de pena restritiva, pode o promotor de
Justiça propor ao autor do fato a aplicação imediata de multa e, se não for paga, a
conversão em restritiva, por ele já especificada.”9

Quanto à conversão em pena privativa de liberdade, sua execução nos Juizados é


impossível só sendo efetivamente realizada segundo as normas da Lei de Execução Penal.

4.2. Despesas processuais

Dispõe o art. 87 que nos casos de homologação de acordo civil e aplicação da pena
restritiva de direitos ou multa, as despesas processuais serão reduzidas, conforme dispuser a
lei estadual. “A lei manda reduzir, mas nada impede que o Estado não cobre absolutamente
nada, tal como já faz, na atualidade, o Estado de São Paulo, no que concerne ao juízo
comum criminal”.10

4.3. Disposições Finais

Primeiramente se faz necessário esclarecer a razão de duas disposições finais, na


parte cível e na parte criminal. Para tanto é fundamental falarmos da origem dos projetos
que deram origem à lei 9.099. Dois projetos foram apresentados, um deles de autoria do
Deputado Nelson Jobim e outro de um grupo de juristas formado por Marco Antonio
Marques, Luiz Ricardo Gagliardi, Antonio Magalhães Gomes Filho, Antonio Scarance
Fernandes e Ada Pelegrine Grinover.

No âmbito civil o projeto que prevaleceu foi o de Nelson Jobim e na parte criminal
o dos juristas e professores já citados.

A parte das disposições finais traz a medida despenalizadora considerada


revolucionária da suspensão condicional do processo. Trata-se de medida inovadora no

9
Op.cit. Grinover, Ada Pelegrine et al, pág. 204
10
Op, cit. Pág. 210.

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nosso ordenamento jurídico penal, inclusive abarcando todas as infrações em que a pena
mínima cominada for igual ou inferior a um ano, abrangidas ou não pela Lei 9.099/95.

O art. 88 da lei que prevê a necessidade de representação nos casos de lesão


corporal leve e lesão corporal culposa. Tornar o delito de lesões corporais em delitos de
ação penal condicionada à respresentação da vítima já era idéia advogada a muito tempo
pelos nossos doutrinadores, o que já ocorria no Código Penal de 1969 de Nelson Hungria
que sequer chegou a viger.

É importante frisar que tal providência não retirou o caráter ilícito do fato, tão
somente ocorre a despenalização e não descriminalização.

Outro aspecto importante a ser abordado quando estudamos as disposições finais da


lei dos juizados especiais criminais é quanto a inaplicabilidade do art. 90 que prevê a
impossibilidade da lei 9.099 às instruções já em curso. È patente a desnecessidade desse
artigo já que só alcança, evidentemente, normas exclusivamente processuais, e para o
processo vige o princípio do tempo rege o ato.

Dispõe o artigo 91 da lei in verbis: “Nos casos em que a lei passa a exigir
representação para a propositura da ação penal pública, o ofendido ou seu representante
legal será intimado para oferecê-la no prazo de 30 (trinta) dias., sob pena de decadência.”
Para que se opere a decadência é importante que a intimação da vítima ou seu representante
legal seja efetiva e válida, sempre pessoal, senão não se há falar em decadência e o
processo deverá ficar paralisado até que se opere a prescrição.

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