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Faculdade de Direito – Fundamentos do Direito Público I

O ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO

(Carlos Ari Sundfeld)

O afamado Carlos Ari Sundfeld intitula um Estado de Direito como aquele cujo se
sujeita às normas jurídicas, refletindo a esperta conjugação do âmbito político ao conjunto
normativo. O Estado de Direito Público moderno é o próprio Estado de Direito – revelando
noção essencial e primária. Dispondo das normas jurídicas como intermediária, a importância
do predecessor Estado revela-se como o respeito à esfera da liberdade individual, harmônico
ao impedimento do exercício arbitrário e ilegítimo do poder. Firma, ainda, o Estado de Direito,
a supremacia da Constituição, a tripartição dos Poderes, a superioridade da lei e garantia dos
direitos individuais.

O primordial atributo do Estado de Direito é a supremacia da Constituição. É elaborada


pelo Poder Constituinte, exercido por quem detém de força para fazer valer o concedido
conjunto de regras, que conduziriam a organização do Estado. O Estado é fruto da Constituição,
é pessoa jurídica, criada e regida pelo direito constitucional (SUNDFELD, p.41, 2017).

A Constituição institucionaliza os Direitos Naturais, transformando-os em direitos


juridicamente protegidos. É norma jurídica fundamental e superior, que determina termos
essenciais do relacionamento entre autoridades e indivíduos. Diante da pirâmide hierárquica de
Hans Kelsen, a Constituição está no topo, e fundamenta todo o ordenamento jurídico – as leis
menores são validadas pelas leis constitucionais. Como censura às leis inconstitucionais, isto é,
desvirtuadoras dos direitos individuais, o Poder Judiciário atua o controle da
constitucionalidade das leis.

Outra essencialidade do Estado de Direito é a divisão do Poder político entre órgãos


distintos, cada qual competindo certa função com independência. O Poder Legislativo edita as
leis, ao Executivo cabe a função administrativa – cobrança de tributos, prestação de serviços
(tal como a geração de energia elétrica) e o ordenamento da vida privada (multando indústrias
poluidoras, autorizando a construção de edifícios, etc.). Ao Poder Judiciário cabe a função
jurisdicional, ao julgar e resolver conflitos entre indivíduos, e indivíduos e Estado.

Giorgio Palieri insiste que um Estado de Direito é identificado por um Estado submetido
à jurisdição, de modo que a última aplique a lei preexistente e seja exercida por magistratura
imparcial. Não deve haver respeito hierárquico entre os Poderes, todavia o poder freia o poder,
evitando a tirania (SUNDFELD, p.43, 2017). Montesquieu, em Do Espírito das Leis, reitera
que todo detentor do poder é tentado a abusar dele. Desse modo, ressalta que tudo estaria
perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais exercesse três poderes.

A tripartição dos Poderes é acessório da superioridade da lei, e vice versa. A


superioridade da lei não pode funcionar onde é inexistente a separação dos Poderes – Rousseau
é insuficiente por si e só ao lado de Montesquieu seu pensamento adquire relevância [...]
(SUNDFELD, p.45, 2017). Com o Estado de Direito, a lei passa a ser a expressão da vontade
geral, sendo o povo seu autor. Além de bilateral, geral, abstrata e impositiva, a lei é também
superior, dado que condiciona atos administrativos (Executivo) e sentenças (Judiciário).

Só a lei pode definir e limitar o exercício dos direitos individuais, perante a tese de que
“tudo o que não está proibido pela lei, não pode ser impedido”. Para construção do Direito
Público moderno, Norberto Bobbio em O Futuro da Democracia – Uma defesa das Regras do
Jogo, diferencia um par de concepções. Bobbio aborda que é diferente o governo exercer o
poder segundo leis e mediante leis.

O Estado de Direito deve garantir os direitos individuais, são Cláusulas Pétreas da


Constituição. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão expunha que o desprezo aos
referidos direitos são as únicas causas da infelicidade pública e da corrupção dos governantes.
O respeito aos direitos individuais torna-se de interesse público, com a noção de direito
subjetivo público. Assim sendo, o Estado haverá de acatar e garantir os direitos individuais.

Foram incorporados ao Estado de Direito instrumentos democráticos, sintetizados pela


ideia de República, a fim de adotar a participação (indireta) do povo no exercício do poder. O
governo popular foi o primeiro estágio para controle do Estado – os cidadãos podem agora,
como “políticos”, opor-se a ele. Para além da participação no poder, o Estado democrático
carrega consigo os direitos à liberdade de expressão do pensamento, de imprensa, e outros mais.
Não há democracia sem normas jurídicas, isto posto, o Estado Democrático de Direito é
regulado por uma Constituição

O ideal republicano surgiu para firmar os agentes públicos eleitos pela vontade geral
como representantes diretos do povo, mediante mandatos renováveis. Contudo, o Estado
Democrático não se limita a República, foram agregados instrumentos de participação popular
direta (como o plebiscito – art. 14). O poder político é exercido em parte diretamente pelo
povo, em parte por órgãos estatais independentes [...] (SUNDFELD, p.54, 2017). O Estado
Democrático de Direito soma ainda a separação de Poderes e direitos individuais e políticos.
As Constituições modernas – como a do México, de 1917, estrearam preocupações com
o desenvolvimento da sociedade, e propuseram a valorização dos indivíduos socialmente
inferiorizados. Logo, em oposição ao Estado Mínimo Liberal, o Estado goza, no Estado Social,
de papel ativo – tanto econômico, quanto como agente do desenvolvimento e da justiça social.
O precitado Estado de Bem-Estar adota relação estreita com o Estado de Direito, dado que
agrega finalidades, tarefas e direitos sociais. Atenta-se a respeitar os direitos individuais.

Os mecanismos do Estado de Direito e do Estado Democrático constituem o Estado


Social e Democrático de Direito, cujo entrelaça: constitucionalismo, república, participação
popular direta (e indireta), separação de Poderes, legalidade, direitos (individuais, políticos e
sociais), desenvolvimento e justiça social.

Conclusão:

1. O indivíduo é protegido contra as injustiças do poder público sob a guarda do


Estado de Direito e devido à sua sistematização. Suas normas são o quadro de
atividade do Estado (SUNDFELD, p.37, 2017).
2. O Estado Democrático zela pela participação popular direta e indireta.
3. Dedica-se o Estado de Bem-Estar (ou Social) ao intervencionismo do Estado nas
questões de desenvolvimento e justiça social.
4. O Estado Social e Democrático de Direito é a sincronia do Estado de Direito e
Democrático para atingir seus objetivos. Os três Estados são interdependentes e
coexistentes.

Bibliografia: SUNDFELD, Carlos Ari. Fundamentos de Direito Público; capítulo III:


“O Estado Social e Democrático de Direito”. 5º Edição. Editora Malheiros Editores, São Paulo,
2017. Págs. 37 a 59.