UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO-UFRJ

Vera Lúcia Caixeta

Médicos, Padres, Sertões: o Norte de Goiás no Relatório de Arthur Neiva e Belisário Penna e nas Narrativas dos Seus Interlocutores Goianos (19161959)

Rio de Janeiro Setembro/2011

Vera Lúcia Caixeta

MÉDICOS, PADRES, SERTÕES: O NORTE DE GOIÁS NO RELATÓRIO DE ARTHUR NEIVA E BELISÁRIO PENNA E NAS NARRATIVAS DOS SEUS INTERLOCUTORES GOIANOS (1916-1959)

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História Social, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutora em História, sob a orientação da Drª Jacqueline Hermann.

Rio de Janeiro Setembro/201

MÉDICOS, PADRES, SERTÕES: O NORTE DE GOIÁS NO RELATÓRIO DE ARTHUR NEIVA E BELISÁRIO PENNA E NAS NARRATIVAS DOS SEUS INTERLOCUTORES GOIANOS (1916-1959).

Vera Lúcia Caixeta Orientadora: Drª Jacqueline Hermann

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutora em História.

Banca Examinadora

Drª. Jacqueline Hermann (UFRJ) Drª. Nísia Trindade Lima (FIOCRUZ) Drª. Têmis Gomes Parente (UFT) Dr. Francisco José Silva Gomes (PPGHIS/UFRJ) Dr. André Campos (UFF/UERJ)

Rio de Janeiro Setembro de 2011

Agradecimentos

Revendo as trilhas que tornaram possível a realização desta tese só me resta uma dívida de gratidão, para com todos aqueles que ajudaram a tornar este sonho possível. De alguns recebi apoio e afeto, de outros, incentivo, fontes, indicações de leituras e correções atentas. Meus agradecimentos, pequenos, por certo, diante da grandeza do que me foi proporcionado pela família, amigos, professores e colaboradores. Agradeço a todos os professores do Colégio de História da UFRJ e em especial à Drª Jacqueline Hermann, de quem recebi preciosas orientações em cada fase da elaboração desse trabalho. Devo ressaltar seu espírito acadêmico, traduzido na sua permanente abertura ao diálogo, além da sua leitura atenta e rigorosa. A você credito os benefícios das sugestões insistentemente cobradas. Ao professor, Dr. Vasni de Almeida, a quem agradeço a solicitude e generosidade ao se dispor a ler as primeiras linhas desse texto. Virtudes presentes também na sua aceitação para compor a Banca de Qualificação. Suas preciosas sugestões ajudaram a compor essa tese. À Drª. Marieta de Moraes Ferreira que também participou da qualificação e apontou caminhos promissores para este trabalho. A vocês a minha admiração. Ao Colegiado de História do Campus de Araguaína, sob a coordenação de Vasni de Almeida, pelo apoio. Agradeço de forma especial, às colegas e amigas Mariseti Soares Lunkes e Martha Victor Vieira pelo convívio durante o ano que passamos no Rio de Janeiro. Ao Marcos Edilson Clemente e Norma Lúcia, também companheiros de trabalho e de doutorado. As experiências vivenciadas, em que realizações, frustrações, ansiedades e esperanças se inscrevem nessa trajetória que, juntos, enfrentamos. Não poderia deixar de mencionar também a amizade e solidariedade dos colegas Olívia Cormineiro e Euclides Antunes. Com vocês posso desfrutar dos debates animados, da rica biblioteca e dos projetos de pesquisa em História Regional. Com cada um de vocês foi possível compartilhar sonhos e manter o foco no objetivo perseguido, abrigada. Gostaria de agradecer também aos colegas de trabalho e amigos mineiros de longa data. A Helen Ulhôa Pimentel, Maria Célia da Silva, Ivone Caixeta e Alexandre, estivemos

ao José Roberto companheiro de longa jornada e às minhas filhas Vanessa e Amanda. para fazer o mestrado na UNB. cartas. marido e filhas pelo apoio e incentivo. os padres da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” que tanto em Tocantinópolis. mãe. Ao frei Bruno. No mais. narrativas de viagens. Por fim. irmãs. em 1997 e 1998. administrador da casa regional. A todos vocês. pela generosidade. junto com vocês. em Araguaína e ao ex-seminarita Laércio. no Rio de Janeiro disponibilizaram as fontes existentes sobre a Congregação. pelo afeto e incentivo constantes. Também não poderia deixar de agradecer a Regina. Livros. a Rosimeyre que assumiu minhas filhas adolescentes. Sebastião Nunes Caixeta que partiu antes que eu iniciasse o doutorado. nascido Edivaldo Antonio dos Santos que elaborou uma dissertação de mestrado em História sobre os Dominicanos. da Paróquia Nossa Senhora da Consolação de Tocantinópolis. gostaria de agradecer a minha família. quando vim para o Rio de Janeiro. A vocês minha gratidão e amizade. Essa tese também é de vocês. onde funciona a biblioteca do Santuário Nossa Senhora de Fátima. irmãos. no ano de 2008. uma caixa de material e deixar lá a minha disposição. muito obrigada. meu eterno agradecimento. no Rio de Janeiro. . da Ordem Dominicana. quanto em Araguaína e na paróquia de Fátima. Ele fez a gentileza de levar do Paraná para Goiás. Aos padres José Vicente.juntos na FINOM por longos anos e no projeto “Paracatu 200 Anos”. Ao meu pai. Em especial. Depois ainda tive o privilégio de enfrentar a Br 040. Uma riqueza de fontes que tornou possível o capítulo sobre os dominicanos. José Noleto de Souza que até 2010 foi pároco do Santuário Sagrado Coração de Jesus. Aos colaboradores.

construídas pelas narrativas de médicos/cientistas.RESUMO Este estudo analisa as diferentes visões dos sertões goianos. médicos e padres dos sertões. com o do Maranhão. padres e médicos locais. Eles reagiram à circulação do relatório Neiva e Penna e mostraram que estavam na disputa por uma nova caracterização dos sertões goianos. Tentamos perceber as disputas. as contestações e as apropriações das leituras dos sertões realizadas por Neiva e Penna nas narrativas dos médicos e padres locais. . A trama foi construída a partir do cruzamento das informações presentes no relatório Neiva e Penna elaborado após a expedição científica realizada ao norte do Brasil. História. Sertões. Piauí e Bahia a leste. Palavras-chaves Médicos. em 1912. por diferentes sujeitos. O cenário desta pesquisa está localizado entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins. Padres. e o segundo. com as visões dos interlocutores goianos. Narrativas. Busca perceber como o mundo dos sertões foi dado a ler. o primeiro faz divisa com o Estado do Pará a oeste. entre 1916-1959.

PRIESTS. Sertões. SERTÕES: THE NORTH OF GOIAS IN THE REPORT BY ARTHUR NEIVA AND BELISARIO PENNA IN THE NARRATIVES OF THEIR GOIANOS INTERLOCUTRS (1916 – 1959). with the goianos onterlocutrs. priests and local doctors´ narratives. doctors and priests from the sertões. KEY-WORDS Doctors. Piauí and Bahia to the east. We tried to figure out the disputes. and the second one with Maranhão. Abstract This research analyzes the different points of views of the sertões goianos. the pleas and the approaches of the sertões readings accomplished by Neiva and Penna in the local doctors´ and priests´ narratives. Priests. The trauma was created by the crossing of the current information in the reports by Neiva and Penna elaborated after the scientific expedition accomplished in the north of Brazil. Narratives. in 1912. History . the first is the division with the state of Para to the west. between the years 1916 and 1959. Seeking to find out how the world of the sertões was made available for reading by so many people. The place of the research is located between the Araguaia and Tocantins river valleys. They reacted to the Neiva and Penna report circulation and appeared to be in the dispute for a new characterization of the sertões goianos.DOCTORS. built by the medical/scientists.

..........................28 1....................... Francisco Ayres da Silva na Informação Goyana 2........p......5 O catolicismo e da “terapêutica popular” no norte de Goiás...........................................2 Os Intelectuais Goianos em Defesa de um Projeto Para os Sertões 2.....4...................................p............52 1...3 Imagens do Norte de Goiás no Relatório Neiva e Penna 1...........................20 1..1 O saneamento: um projeto “civilizatório” para os sertões goianos?.......p...............82 2..1 Imagens dos Sertões na Informação Goyana 2................63 2..................................1 A Informação Goyana em defesa do trabalhador acional...........................3...88 ....p....................p......1.........79 2...........75 2.....................2.........p......................1 Os sertões em ruínas?........................................................3...............58 Capítulo II EM DEFESA DOS SERTÕES GOIANOS: A INFORMAÇÃO GOYANA VERSUS O RELATÓRIO NEIVA E PENNA 2.....................p................................38 1..............3.......3............85 2.p....2......p......................10 Capítulo I A CIÊNCIA A CAMINHO DOS SERTÕES: O BRASIL CENTRAL NO RELATÓRIO DE ARTHUR NEIVA E BELISÁRIO PENNA 1.....................1 Trajetória de Francisco Ayres da Silva..........................1 O “ Relatório” Neiva e Penna...4 Os sertões distantes...3 Dr...............p.p...p....................45 1....................2 Os sertões em chamas.........2 Artigos do Dr.......p.............4 Um Projeto de Saneamento dos Sertões 1...........22 1...1 A Informação Goyana...............3....1........3 Porto Nacional: um oásis de “civilização” nos sertões?..2 Belisário Penna e Arthur Neiva: trajetórias.................p.................SUMÁRIO INTRODUÇÃO....3.....3.................3 A interiorização da capital federal ...........................2.................... Francisco Ayres da Silva na Informação Goyana...........2 Os intelectuais goianos versus Arthur Neiva e Belisário Penna.................................40 1...............................................p....................p...2 Os sertões como “cerne da nacionalidade brasileira”...........................................69 2..........

..1 O Extremo Norte de Goiás..........................p..p.........1 A Reforma da Igreja e a Inserção dos Dominicanos em Goiás..........................153 Capítulo IV OS MISSIONÁRIOS CATÓLICOS ITALIANOS NO EXTREMO NORTE DE GOIÁS: SEMEAR E SANEAR OS SERTÕES 4................................................p.........2 Um olhar dos dominicanos sobre o clero goiano....................................................p....................................2..............3.2 Curso de atualização para os professores..........3 Os Dominicanos no Combate ao Relatório de Neiva e Penna 3............................................138 3.............p..146 3..............194 ANEXOS..............149 3.................................2 Os sertões e os sertanejos de Audrin........1.........205 ..........................................................................3 A terapêutica popular e as práticas religiosas no norte de Goiás........166 4.1........177 CONCLUSÃO................2..3..............171 4.......2 O Projeto dos Dominicanos Para os Sertões Goianos 3............................ ........p...................p...3....3 .................p.p.............p...........................................................123 3.189 FONTES E BIBLIOGRAFIA.........2 O Projeto da “Pequena Obra da Divina Providência” Para os Sertões 4.120 3.........................................p..... p........................1 O encontro dos missionários com os médicos nos sertões ......p..........4 Em defesa do tempo sertanejo: viagens pelos sertões....................111 3...1..................p......................................1 As escolas paroquiais ................................................p.....161 4...........p...............p..........1 Ao Sertões dos “Filhos de Dom Orione”............................................................4 Os Dominicanos e a Reforma da Igreja nos Sertões...175 4..........134 3..3 Um olhar sobre fiéis .....Capítulo III A IGREJA NOS SERTÕES: O NORTE GOIANO NAS NARRATIVAS DOS PADRES DOMINICANOS 3..............1 Os dominicanos entre os fiéis.....................................103 3..............3 A formação de agentes de saúde: Os “samaritanos socorristas”..................................2.......2..........................

Havíamos iniciado a pesquisa sobre a Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. adentraram o interior brasileiro. sem ter se preocupado em dar voz aos interlocutores: médicos e padres dos sertões visitados. a partir das diversas narrativas disponíveis. Foi este o objetivo a que nos propusemos ante o desafio de buscar respostas para as inquietações colocadas por quem se inseriu numa universidade. no sentido de que existem fontes as mais variáveis possíveis. entre o litoral e os sertões. proceder a uma análise de como o mundo dos sertões de Goiás foi dado a ler. Ali percebemos que a preocupação em revelar a “realidade” dos sertões e propor alternativas para os problemas encontrados já estavam presentes nos homens que. médicos e padres no percurso goiano da expedição foi o desafio a que nos impusemos. efetivamente. na sua obra clássica. presente nos longínquos sertões. através de várias expedições científicas. no campus de Araguaína. sertões e narrativas. 3 Arthur Neiva e Belisário Penna percorreram em expedição. o Norte do Brasil. fundada por Dom Orione na Itália. particularmente instigada ante algumas questões. Para nós foi. essas. Ed. sudoeste de Pernambuco. 1999. frente às dificuldades do Estado em se fazer. XIX e que chegou ao Brasil em 1914 e no extremo norte de Goiás. Braasília: Sedado Federal. frente ao fato das ciências sociais terem se utilizado do relatório médico de Arthur Neiva e Belisário Penna como fonte documental. Arthur e PENNA. no final de 1951. a da distância. 10 . sobretudo. Belisário. finalmente. Os Sertões calculou a distância entre o litoral e os sertões em trezentos anos. Sul do Piauí e de Norte a Sul de Goiás. 4 Congregação religiosa católica. Inquietações. no passado e no presente.1 Inquietações. por conta disso. padres.2 Inquietações. Pesquisar não é apenas pensar na construção de um objeto viável. no final do séc. e dos interlocutores. entre elas.4 quando chegou às nossas mãos o relatório Neiva e Penna.INTRODUÇÃO Médicos. no final do Império e na Primeira 1 Fui aprovada no concurso da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e tomei posse para atuar no curso de História. inerentes à nossa posição diante do mundo como mulher. Viagem Científica pelo Norte da Bahia. ainda. em 1912 e fizeram publicar as narrativas dessa viagem. do Instituto Manguinhos. 2 Euclides da Cunha. 3 Recuperar as visões dos sertões dos médicos Neiva e Penna. no Rio de Janeiro que percorreram o norte do Brasil e todo o Goiás em 1912. Ver: NEIVA. em meados de novembro de 2005. Fac-similar. nos sertões. professora e historiadora e.

Vol.5. Assim. 2003. p. Rio de Janeiro: IUPERJ. ao contrário. os sertões. Nicolau. a oeste. Hist. 2 ed.9 Porém. Nísia Trindade. dos pressupostos teórico-metodológicos. suppl. Literatura como Missão: tensões sociais e Criação Cultural na Primeira República. Para possibilitar a consecução do objetivo proposto. o progresso e o cosmopolitismo propagado pela ciência e pela técnica o segundo. Nísia Trindade. 9 Em 1953. já que envolviam definições do eixo temático.17 8 Região que a partir da Constituição de 1988 passou a constituir o Estado do Tocantins.45 7 LIMA.5 Tais empreendimentos produziram um conhecimento sobre extensas áreas e colocaram. que incluía o Norte de Goiás. 1998. mais uma vez. delimitamos espacialmente o objeto de estudo no norte de Goiás. dos Cursos de História. o arcaico. do Campus de Araguaína de produzir conhecimentos científicos sobre a Amazônia Legal. dos recortes temporal e espacial. Missões Civilizatórias da República e Interpretações do Brasil. visando à demarcação do local das futuras instalações da futura capital. Ciên. dos tipos de fontes e formas de tratamento e abordagem. em confronto com o Brasil rural dos sertões. p.164-188 6 SEVCENKO. São Paulo: Cia das Letras. do Maranhão. doente e distante das políticas públicas. em 1892. apegado às tradições. como o relatório Neiva e Penna parecem indicar foi recortado geograficamente. as de Cândido Rondon na construção das linhas telegráficas em Mato Grosso. a leste. Esse recorte espacial justifica-se tendo em vista o compromisso da UFT – Universidade Federal do Tocantins e em especial. longe de serem vistos como um todo homogêneo. entre 1909-1922. Dificuldades de naturezas distintas e de diferentes níveis de complexidade. ela lembra a viagem de Euclides da Cunha à Canudos e o impacto de Os Sertões sobre os intelectuais. o Brasil urbano e republicano da capital transformada em cartão postal.6 Enquanto o primeiro representava a urbanidade.República. até hoje essa região continua pouco conhecida porque pouco pesquisada. 5 Nísia Trindade Lima encontrou 09 (nove) expedições científicas enviadas ao interior pelo Instituto Oswaldo Cruz. pelo Decreto de agosto de 1953 definiu-se a Amazônia Legal. e. 7 Nossa tentativa de “redescobrir” os sertões a partir das narrativas de Neiva e Penna e dos interlocutores goianos implicou o desafio de superar uma série de dificuldades na elaboração do presente trabalho. Além dessas expedições. as da Comissão Geológica de São Paulo. Bahia e Piauí. Eram dois “brasis” que deveriam ser integrados. Ver: LIMA. a do astrônomo Louis Cruels ao Planalto Central. foi criada a Superintendência do Plano de Valorização da Amazônia. e é banhado pelos rios Araguaia e Tocantins.8 O cenário desta pesquisa está localizado entre os Estados do Pará. 11 . p. 1999. SaúdeManguinhos [on line]. sintonizados no mesmo ritmo e tempo histórico. Amazonas e Acre. Um sertão chamado Brasil: intelectuais e representação geográfica da identidade nacional. espaço social no qual o norte de Goiás foi incorporado a partir de 1953. representava o rural.

Compreendemos por interlocução o diálogo estabelecido entre duas ou mais pessoas. Pe. Fomos atrás desses interlocutores e das suas instituições. foi o primeiro Prelado de Tocantinópolis (1956-1959) e contribui tanto para a 12 . O marco final. após sua saída do extremo norte de Goiás. Este recorte inicial se justifica porque aquele relatório foi considerado o que mais contribuiu para a redefinição dos sertões como espaço da doença e do abandono. para o encerramento da nossa análise. Orione nas matas do Norte de Goiás é revelador das expectativas dos missionários italianos. da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. Estes médicos percorreram o norte do Brasil a pedido da Inspetoria de Obras Contra a Seca e elaboraram um relatório no qual apresentaram as condições de vida. ou seja. para além do olhar dos médicos/cientistas. procuramos suas visões sobre os sertões e de como reagiram frente à circulação do relatório Neiva e Penna. Por isso. só existe diálogo se a alteridade for reconhecida. Porém. Iniciamos a análise a partir da circulação do relatório Neiva e Penna. estabelecemos também o balizamento temporal. Esse relato intitulado Dom Orione entre diamantes e cristais: cenas vividas pelos missionários de D.Após recortamos o espaço da pesquisa entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins. e mais especificamente o norte daquele estado. nos sertões do Brasil. em Porto Nacional. em 1916. Goiás. tornou-se exemplo dramático do que poderiam se transformar as sociedades sem assistência efetiva do Governo Federal. Estes médicos da capital haviam ressaltado a importância da Igreja para a “civilização” dos sertões. tanto o nome da Ordem dos dominicanos quanto o do dr. chegou aos sertões goianos no início da missão (1952). Decidimos que esse “outro” feito testemunho das péssimas condições de vida e de saúde nos sertões goianos deveria ser buscado na sua especificidade. entre 1916-1959. foi a escrita das memórias do padre Tonini. Fizemos o recorte a partir das fontes. Francisco Ayres da Silva foram inscritos no relatório. a interlocução ocorreu porque os frades e o médico da “roça” foram reconhecidos em condição de igualdade com os médicos cientistas. em 1959. um dos missionários dessa Congregação. de trabalho e de saúde das populações visitadas. Neiva e Penna durante os dias que permaneceram em Porto Nacional desfrutaram da companhia e do diálogo com os frades e com o médico local. Neiva e Penna também se surpreenderam com a presença do médico Francisco Ayres da Silva. Tonini. Através das narrativas de Neiva e Penna percebemos ainda a importância dos médicos locais e dos padres como interlocutores dos cientistas nos sertões.

Gallais veio ao Brasil em 1888.85-95 13 . Audrin viveu entre os vales do Araguaia e Tocantins entre 1904-1938. Viagem científica pelo norte da Bahia. em pleno sertão. no final do Império. um missionário dominicano. apesar da proximidade das visões dos sertões do padre Tonini com aquelas de Neiva e Penna na década de 1910 ainda tínhamos que resolver alguns problemas. O apóstolo do Araguaia: frei Gil Vilanova. Reproduzido em Memórias Goianas I. Então. como justificar a sua inclusão nessa pesquisa? Não foi sem dificuldades que enfrentamos essa questão. GALLAIS. Pe. São Paulo:EdUSP. Jacques. Fac-similar. como Visitador extraordinário da Missão dominicana e como Provincial da Província de Tolosa (1890-1894). Captar os projetos de médicos e padres para os sertões goianos. Ano 1. Ed. 14 Pois. Vol 1. 1963. é produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder”. Estevão. em 1907. Uma Viagem de Missão Pelo Interior do Brasil. Autor também do livro Os Sertanejos que eu Conheci. 2 ed.História e Memória. A Linguagem autorizada: as condições sociais da eficácia do discurso ritual. Brasília: Senado Federal.535-536 15 BOURDIEU. Pierre. 13 Ver as revistas: Memórias Goianas. Porém.14 As visões dos sertões goianos.p. foi enterrado em Formosa-GO. 11 BERTHET. Frei José Maria Entre Sertanejos e Índios do Norte. Frei Michel Laurent. França: Richaud. In: A economia das trocas lingüísticas: o que falar quer dizer. Império e Primeira República e A Informação Goyana (1917-1935). obviamente. Encontramos as experiências de médicos e padres registradas em forma de relatórios científicos. Rio de Janeiro: Agir. colocou-nos. “o documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado. presentes nas narrativas. em 1912. Fomos atrás dos documentos. J.13 As fontes foram utilizadas a partir da compreensão de que são documentos/monumentos. são o resultado do olhar da instituição à qual o narrador está vinculado e da qual é porta-voz autorizado. entre 1916 a 1959. p. Salvador: Progresso. Documento/monumento. segundo ele.15 Mas é também fruto da sua experiência nos sertões e do local ocupado por ele dentro da sua instituição. o problema das fontes.. São Paulo: UNICAMP. 1996. mar/1982. vitimado pela febre amarela.10 relatos de viagens. Porém. In: LE GOFF.1905) (1906-1907) e acabou falecendo.“dilatação da fé” quanto na fixação do estado republicano naquelas paragens. Tonini e sua Congregação. sul do Piauí e de norte a sul de Goiás. por outro lado. 1942. Belisário.ed. Foi também autor do livro Uma catequese entre os índios do Araguaia. decidimos que era necessário fechar os ciclos: o do saneamento proposto por Arthur Neiva e Belisário Penna e o da “reforma religiosa” iniciada pela Ordem dos dominicanos nos sertões goianos. 1999. como elaborado por Le Goff. Rio de Janeiro: José Olympio. não foram informantes de Neiva e Penna durante sua peregrinação por Goiás.11 literatura memorialística12 e artigos publicados em periódicos. Arthur e PENNA. 1890. 2008. 10 NEIVA. sudoeste de Pernambuco. 4 ed. p. Além dos periódicos da Congregação da “Pequena Obra da Divina Providência”: A Fátima Brasileira e a “Pequena Obra da Divina Providência”. Ver: LE GOFF. Ao manter um capítulo sobre a Congregação de Dom Orione c ampliar por demais o tempo histórico da pesquisa e de não darmos conta das várias temporalidades ali presentes. 1954. (1902.109-170 12 AUDRIN. Conceição do Araguaia: s. 1947.

a partir de alguns fios condutores. 2004. São Paulo: Perspectiva. Pierre.44 14 . A Economia das Trocas Simbólicas. Por uma sociologia clínica do campo científico. Reunimos as informações e estabelecemos as relações para “tecer a trama”. ressaltou que: “Enquanto resultado da monopolização da gestão dos bens da salvação por um corpo de especialistas religiosos. Buscamos então colocar em diálogo as visões diferentes. foi um dos fios importantes por nós identificados.18 Compreender o “campo” religioso como espaço de lutas. os médicos e padres dos sertões. como definido por Bourdieu.Enfrentamos o desafio de uma abordagem qualitativa desse material a partir de alguns referenciais teórico-metodológicos. 17 Bourdieu ao definir o campo religioso. similares ou as apropriações realizadas. p. disputas e conflitos ajudou a ler as narrativas do “corpo de especialistas religiosos” da Ordem Dominicana ou da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. p. Além disso.17 Ele ressaltou. O relatório dos médicos da capital. Neiva e Penna. São Paulo: UNESP. ou melhor. que a luta “dissimula a oposição entre diferenças de competência religiosa que estão ligadas à estrutura da distribuição de capital cultural”. Outro fio utilizado foram as narrativas dos interlocutores goianos. a constituição de um campo religioso acompanha a desapropriação objetiva daqueles que dele são excluídos e que se transformam por esta razão em leigos (ou profanos. 16 BOURDIEU. porém. no duplo sentido do termo) destituídos do capital religioso (enquanto trabalho simbólico acumulado) e reconhecendo a legitimidade desta desapropriação pelo simples fato de que a desconhecem enquanto tal” Ver: BOURDIEU.39 18 Idem.27. como “os lugares das relações de forças”. Aquele foi um momento de disputas que envolveram rejeições e apropriações dessas visões. situamos os nossos narradores e suas respectivas instituições nos seus “microcosmos” denominados de “campo”. Para “tecer a trama” foi necessário conhecer melhor as instituições. ou seja.16 O autor ao refletir sobre a gênese e estrutura do campo religioso a partir de elementos anteriormente delineados por Marx Weber ampliou sua noção compreendendo-o como espaço de luta. os sujeitos das narrativas e os problemas e desafios enfrentados pelos nortistas. Os usos sociais da ciência. p. buscando perceber quais eram os “inimigos” a serem combatidos em cada momento e as estratégias utilizadas para marcar a distinção entre eles e os “outros”. 2007. Pierre. Contrariamente ao que aparece no relatório Neiva e Penna não havia consenso sobre o que seriam os sertões e de como integrá-los à nação. suas visões sobre os sertões goianos. socialmente reconhecidos como os detentores exclusivos da competência específica necessária à produção ou à reprodução de um “corpus” deliberadamente organizado de conhecimentos secretos (e portanto raros).

“Espaço de Experiência” e “Horizonte de Expectativa”: duas categorias históricas. No capítulo II “Em defesa dos sertões goianos: a Informação Goyna versus o relatório Neiva e Penna” analisamos as tensões e conflitos com relação às visões dos sertões desencadeadas a partir do início da circulação do relatório dos médicos Neiva e Penna e aquela dos goianos presentes na revista Informação Goyana. eram extremamente ignorantes.o que emergiu foi principalmente a presença do sujeito na história. O capítulo I “A ciência a caminho dos sertões: o Brasil Central nas narrativas de Arthur Neiva e Belisário Penna” foi dedicado à apresentação das visões dos sertões presentes nas narrativas dos médicos/cientistas que percorreram o norte goiano em 1912. 15 . ao recorrermos às narrativas dos sujeitos.20 O presente seria o momento em que os narradores.19 Este autor. ao tratar do “espaço de experiência” e do “horizonte de expectativa”. In: KOSELLECK. Os sertanejos. o que a noção de campo poderia suprimir acabou sendo recuperada através das concepções de experiência e de expectativa. tratamos da recepção do relatório Neiva e Penna pelos goianos e discutimos seus argumentos em 19 KOSELLECK. desejado e projetado. no caso médicos e padres. generaliza e integra . Futuro do Passado. conformados em grande medida pelas experiências do passado e pelas expectativas do futuro. Estas visões elaboradas dentro da instituição médica da época revelaram um Brasil marcado pela doença e abandono que subsidiaram a elaboração de um projeto de saneamento dos sertões. p. situados dentro de determinado campo – o que sempre unifica. além de doentes. R. As narrativas foram analisadas considerando que expressavam a “experiência” e a “expectativa” tanto dos narradores quanto das instituições a que estavam vinculados. Reinhart.309 20 Idem. esta tese foi dividida em 4 capítulos. Rio de Janeiro: Contraponto. Assim. Aquelas imagens dos sertões romperam com as visões idílicas presentes na literatura romântica e apontaram para os desafios da construção do Brasil como nação. Para tanto. desconheciam o dinheiro e os símbolos nacionais e se apegavam a uma religiosidade e terapêutica popular de valor duvidoso. atualizam estas experiências elaborando suas visões e projetando o futuro. Contribuição à semântica dos tempos históricos. ibidem. Para discutir as questões apresentadas. 2006.Fez-se necessário também recorrer à concepção de temporalidade como pensada por Koselleck. enfim (re) arrumando o antes e o depois. Enfim. apontou para a possibilidade de pensar a temporalidade nessa tensão entre o passado vivido. experimentado e o futuro sonhado.

no relatório de 1916. No capítulo IV “Os missionários católicos italianos no extremo norte de Goiás: semear e sanear os sertões” procuramos apresentar a situação dos sertões goianos na década de 1950. o médico e deputado federal Francisco Ayres da Silva. apontando os problemas do presente e projetando o futuro para o estado mais central do Brasil. Compreendem eles 16 . à recepção do relatório por parte de um dos interlocutores de Neiva e Penna nos sertões do Brasil. dentro do projeto de reforma da Igreja. quase quatro décadas depois. De toda forma. qual o projeto de um missionário italiano que foi enviado para o extremo norte de Goiás.defesa “da sua terra e da sua gente” nas páginas da revista. atenua minha inquietude ante tais limitações constatar que esse esforço logrou sucesso no que tange à coleta e sistematização dos dados dispersos pelos múltiplos registros. aquém. através das narrativas dos médicos da capital e do interior. Nessa luta de projetos sobre nação e região. foi trabalho que possibilitou mostrar diferentes visões e apreensões desses sertões. Esta incursão pelos sertões goianos. A parte final deste capítulo foi dedicada. são visíveis suas lacunas e pontos não abordados. Ou melhor. após ainda os longos anos de investimento dos dominicanos nos sertões (1886-1944) procuramos saber que sertões os missionários da Congregação italiana “Pequena Obra da Divina Providência” encontraram. na década de 1950 – e seus pontos de intercessão com o relatório Neiva e Penna. da amplitude da análise pretendida. Apresentamos desafios impostos aos dominicanos nos sertões e sua busca pela distinção no campo religioso. apresentamos os argumentos de um missionário dominicano contrário ao relatório Neiva e Penna. Recuperamos a trajetória da inserção dos dominicanos na diocese de Goiás. portanto. Por fim. de padres que apenas percorreram a região e de outros que dedicaram os melhores anos de suas vidas a eles. durante a Primeira República (1989-1930). especificamente. da luta empreendida pelo médico e deputado federal Francisco Ayres da Silva para a melhoria dos transportes e comunicações no norte de Goiás. No capítulo III “A Igreja nos sertões: o norte goiano nas narrativas dos padres dominicanos e a reação do missionário ao relatório Neiva e Penna” analisamos a perspectiva dos dominicanos sobre os sertões. os goianos contrastaram aquelas características negativas sobre os sertões presentes no relatório Neiva e Penna apresentando o passado goiano e suas glórias. Depois da denúncia de Neiva e Penna. Contudo.

como os periódicos da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. Entretanto priorizei aqui algumas das possíveis questões articuladas ao tema escolhido e recortado. envolve outros questionamentos e outras explicações. no tempo e no espaço e algumas de suas possíveis abordagens. por certo. se partimos da perspectiva da história como campo de possibilidades. Um tema tão complexo. 17 .uma extensa e rica documentação até hoje não utilizada. Além das narrativas de viagens ou narrativas memorialistas de médicos e padres dos sertões. sobretudo dos meus limites para executá-lo. ciente da natureza lacunar do conhecimento histórico e. ou ainda pouco utilizados como a Informação Goyana (1917-1935).

em 1912. avaliaram as condições epidemiológicas e sua relação com as condições de vida e do trabalho das populações locais. para os médicos. mais especificamente sobre o norte de Goiás. 22 Idem. entre 1908 e 1922. A expedição de Neiva e Penna tinha por objetivo fazer um amplo levantamento sobre as condições do clima e da vegetação na tentativa de compreender os fenômenos das secas no norte do Brasil. teve por objetivo romper com as generalizações sobre os sertões e analisar as imagens que eles elaboraram sobre o norte goiano. Nossa proposta. 18 . sua tarefa era muito maior: tratava-se de revelar o “verdadeiro” Brasil aos brasileiros e apontar caminhos para a construção da nação. passou-se chamar Instituto Oswaldo Cruz (1908). a que se pensava como a nação brasileira. Foi desse relatório que saíram “as mais fortes imagens associadas às viagens científicas do Instituto Oswaldo Cruz”. 65. p.21 Foi nesse contexto que se inseriu a expedição comandada pelos médicos Arthur Neiva e Belisário Penna. já amplamente estudado. Neste capítulo.86-87. ao retomar o relatório de Neiva e Penna. na Primeira República (1989-1930). focalizamos as narrativas de Neiva e Penna sobre o Brasil Central. foi adquirido a partir do êxito 21 LIMA. Eles percorreram partes do Nordeste e do Centro-Oeste brasileiro a pedido da Inspetoria de Obras Contra as Secas. num total de 9 expedições. foco da nossa investigação. Ambos estavam vinculados ao Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos. as expedições científicas foram utilizadas como uma das estratégias do Estado para conhecer e integrar os sertões. Tais viagens empreendidas por cientistas brasileiros podem ser vistas à luz do debate sobre interiorização e construção da unidade territorial do país.22 O credenciamento do Instituto de Manguinhos para intensificar sua participação nas expedições científicas.Capítulo I A Ciência a Caminho dos Sertões: o Brasil Central nas Narrativas de Arthur Neiva e Belisário Penna Na Primeira República. Como médicos. especialmente sobre o norte de Goiás. Mas. Nísia Trindade. Um Sertão Chamado Brasil: intelectuais e representação geográfica da identidade nacional. Rio de Janeiro: IUPERJ. 1999. p.

foi apenas uma entre as várias empreendidas pelo Instituto Oswaldo Cruz e por outras instituições. lançada pelo Senado Federal em 1999. a peste bubônica e a varíola. suplemento. as da Comissão Geológica em São Paulo. supl1. jul. Rio de Janeiro. 24 MELLO. naquele período. Gilberto. de acordo com Herchann: vencer a tradição retórica e clínica da medicina da capital (ao vencer a epidemia da febre amarela no Rio de Janeiro tornou-se o primeiro cientista-herói do país). Minas Gerais e na Baixada Fluminense. Expedições científicas. Ver: HOCHMAN. p.53. em 1912. avaliações da Inspetoria de Obras Contra as Secas. Um sertão chamado Brasil. p. p. em São Luiz do Maranhão. Ele está organizado em duas partes: o relatório propriamente dito e o diário de viagem. p. p.24 Depois disso. no final da avenida: Os Sertões redefinidos pelo movimento sanitarista da Primeira República. foram publicadas como anexos mais de cem fotografias 23 Oswaldo Cruz conseguiu dois feitos memoráveis. Além do relatório e do diário de viagem. 28 Idem. Sul do Piauí e de Norte a Sul de Goiás. fotografia e intenção documentária: as viagens do Instituto Oswaldo Cruz (1911-1913). Hist-cien-saúdeManguinhosvol. Rio de Janeiro: IUPERJ.65. e a fundação do primeiro instituto científico de reconhecimento internacional: o Instituto Federal de Soroterapia de Manguinhos (fundado em 1901). Fernando A.das campanhas de saneamento conduzidas no Rio de Janeiro por Oswaldo Cruz. Julho 1998. Mas. “as viagens estiveram associadas a projetos modernizadores: construções de ferrovias.. Intelectuais. as atividades de “Manguinhos” não se limitaram ao Distrito Federal registrando-se. no interior do Estado de São Paulo. Ciência e Saúde: Manguinhos. A publicação de Neiva e Penna foi reproduzida em uma edição fac-similar.27 Enfim.26 Eles percorreram o interior através de expedições oficiais “como as de Cândido Rondon. O relatório e todo o material produzido durante a viagem de Neiva e Penna foi publicado com o título Viagem Científica pelo Norte da Bahia.[0nline]16.143 25 Nísia Trindade observou que desde a sua origem. 27 Idem. 1999. 217-235. 25 Nessa tarefa de conhecer e “revelar” o Brasil “real” empenharam-se várias instituições e vários profissionais. Maria Tereza Villela e Mello e PIRES-ALVES. no qual estamos nos baseando para a realização da análise proposta nesta pesquisa. Sua produção médica se concentrava principalmente sobre duas especialidades: a Saúde Pública e a Higiene. a do astrônomo Louis Cruls (. Nísia Trindade. construções de linhas telegráficas”.) e as expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz”. enviou suas expedições científicas aos vários recantos do país.p.79 26 Idem. 23 Ele tornou o Instituto parceiro da Diretoria Geral de Saúde Pública nas iniciativas do governo federal para a modernização da capital da República. sertanejos e imaginação social. Naquele período foram acentuadas as ações de combate aos surtos epidêmicos de doenças como a febre amarela. Logo ali. em 1918. grande parte da riqueza daquela viagem está no material elaborado por Neiva e Penna e na repercussão que ganhou o seu relatório. História. certamente.28 Percebe-se que a viagem de Neiva e Penna. ainda na primeira década ações sanitárias em vinte e três portos.2009. 19 .. Sudoeste de Pernambuco. Vol. Ver: LIMA. V.65-66..

Nísia Trindade. Informaram ainda sobre as condições de vida. encontram-se as biografias dos referidos cientistas. Sudoeste de Pernambuco.1 O “Relatório” de Authur Neiva e Belisário Penna A primeira parte do livro A Viagem Científica Pelo Norte da Bahia. [online].31 29 O relatório Neiva e Penna possui 150 páginas de texto. o relatório reflete o estilo de uma época. Os autores iniciaram suas análises com informes sobre as condições do clima e das águas. trata-se do relatório. No final. o fenômeno da seca e o efeito das queimadas nas regiões percorridas. Sul do Piaui e de Norte a Sul de Goiás. no qual é indicado o roteiro percorrido pela expedição. 30 Na segunda parte do livro está o diário de viagem. In: História. Era o olhar do cientista que direcionava a observação e as anotações. 2009.1. de 1916. os médicos destacaram a ampla utilização de recursos da fauna e flora. Na terapêutica popular. Naquele espaço eram feitas anotações cotidianamente. suppl. analisaram os vetores especialmente aqueles que poderiam estar associados à transmissão da malária. 30 LIMA. Ciência. sobre os quais o Instituto Oswaldo Cruz concentrava parte de seus estudos. 20 . cultural e epidemiológica das regiões percorridas. religião e trabalho dos sertanejos.p. Assim. No diário de viagem é possível acompanhar o roteiro percorrido pelos médicos e os percalços enfrentados nos caminhos de mais de sete mil quilômetros. 31 Nas localidades em que a expedição permaneceu por mais tempo como Joazeiro (17 dias). foram realizados registros com ricas informações sobre o modo de vida dos seus habitantes. e Porto Nacional (12 dias). da febre amarela e da doença de Chagas. Sauúde-Manguinhos. o diário de viagem 160 páginas e as fotografias ocupam 28 páginas. Elas fundamentariam as análises a serem realizadas posteriormente e apresentadas em forma de relatório. com um total de 116 imagens. São Raimundo Nonato (17 dias).(116 no total) e um encarte com um mapa do Brasil. 229-248. Aquele era o momento em que os autores das narrativas de viagens lutavam para serem reconhecidos como cientistas. além da recorrência dos sertanejos às rezas.29 1. Entretanto. na tentativa de afirmar essa identidade. Uma brasiliana médica: o Brasil Central na expedição científica de Arthur Neiva e Belisário Penna e na viagem ao Tocantins de Julio Paternostro.16. alimentação. saindo do Rio de Janeiro e percorrendo as regiões Nordeste e Centro-Oeste. a crença nos poderes curativos das plantas. Em seguida. vestuário. vol. eles combatiam as narrativas consideradas literárias e ufanistas. Além das detalhadas informações da vida social. crendices e abusões. a tensão dessa escrita nos ajuda a refletir sobre o estilo científico da época. Paranaguá (17 dias).

fotografia e intenção documentária: as viagens do Instituo Oswaldo Cruz (1911-1913). Num total de vinte e quatro fotografias. mostrando os portadores do bócio ou hipertireoidismo. Os médicos atravessaram o rio São Francisco. Expedições científicas. 33 BURKE.231. 35 MELLO Maria Tereza Villela Bandeira de e PIRES-ALVES. [onlaine].Os médicos utilizaram os meios de transportes então existentes. p. Eles percorreram o interior do Estado do Piauí passando por São Raimundo Nonato. Partindo de Salvador de trem. p. 2004. as fotografias estão organizadas em conjuntos de quatro imagens retangulares por folha. Brejinho e penetraram novamente na Bahia. As fotografias eram a evidência confiável da narrativa. o atraso do 32 Em geral. vol. entraram em Petrolina e subiram até São José da Canastra. Cada fotografia é acompanhada de legenda própria. foi publicada também uma série de fotografias. São Paulo e voltaram ao Rio de Janeiro. de onde se dirigiram para São José do Duro (atual Dianópolis). Saúde-Manguinhos. encaminham-se para exposição das condições de vida e trabalho dos habitantes dos sertões. encerrando-se com as denúncias feitas durante todo o relatório: indicam a imagem do Brasil „doente‟ e abandonado. 2009. em 25 de outubro. Ver no livro de Neiva e Penna o encaixe de fotografias logo após o diário de viagem. dezesseis foram tiradas individualmente ou em grupo. Temas como a influência do clima. 21 . a conformação da raça e do isolamento dessas regiões e populações explicariam. foram até Juazeiro e a partir dali. uma tentativa de controlar as interpretações dadas aos artefatos apresentados ao público alvo.35 Neiva e Penna romperam com algumas matrizes presentes nos Sertões de Euclides da Cunha.34 As fotografias iniciam-se pela apresentação do meio físico. explicações e comentários. O Testemunho Ocular: história e imagem.16. Fernando A.32 A organização e apresentação das imagens são encadeadas em seqüência do que já foi analisado no relatório e narrado no diário de viagem. Por meio de trem passaram por Minas Gerais.1. em Formosa. Peter. p. no estado de Goiás e seguiram para Porto Nacional. Paranaguá. para o célebre escritor. suppl. Além do relatório e do diário. Eles iniciaram o retorno descendo todo o estado de Goiás até sua capital. Bauru: EDUSC. geográfico e ambiental. com identificação científica. A seqüência das fotografias segue a temática tratada no relatório. depois se dirigiram para Ipameri.139-179. In: História. uma importante contribuição para a construção do “efeito de realidade” que se queria produzir.26 34 Idem.33 Todas as imagens vieram com uma legenda com identificação. publicado em 1902. Ciência. Eles saíram do Rio de Janeiro em 18 de março de 1912 e foram de vapor até o Estado da Bahia. toda a viagem “pelo sertão” foi realizada em lombo de burros. Anjico.

participou do Congresso Agrícola. 1. 22 . Em 1904 abdicou do cargo de vereador para assumir emprego público. onde se formou em 1890.68-71 38 Apud PENNA. no qual foi o relator da comissão do Comércio. 39 Idem. XLVII-LX. como o espaço da barbárie. então província de Minas Gerais. Comercial e Industrial de Belo Horizonte. Nísia Trindade. transferindo-se no último ano do curso para a de Salvador. Como já dissemos. para nós.2 Belisário Penna e Arthur Neiva: trajetórias Belisário Augusto de Oliveira Penna nasceu em Barbacena.39 Eleito vereador em Juiz de Fora.36 Essas questões foram reavaliadas pelos autores que apresentaram o interior como espaço a ser incorporado à nação por meio da ação do Estado. São Paulo: Martins Claret. como uma das razões que impossibilitou uma visão mais ampla e aprofundada da região. contudo. Centenário de nascimento de Belisário Penna. Um sertão chamado Brasil. 29-11-1868. cit. em 1903. no Rio de Janeiro. Belisário. que fracassou. João Fernandes de O. Filho do visconde de Carandaí fez o curso secundário em São João Del Rei. como já se disse. especialmente Canudos. Os Sertões (Campanha de Canudos). p. Fixou-se em Juiz de Fora em 1895. Bahia. considerado extremamente reduzido. porém seus rendimentos eram insuficientes para manter a família.interior do Brasil. cit. atuou como clínico geral na cidade. porque frutos da mestiçagem estariam condenados ao desaparecimento. 37 LIMA. em 1886. em novembro de 1868. In: NEIVA. op. É o que veremos a partir da análise das trajetórias desses dois cientistas. Os intelectuais goianos apontaram o tempo de permanência nos sertões. não foi o fato de ter sido uma viagem rápida que contribuiu para essa visão detratora. na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. mas o local de fala dos nossos médicos cientistas. foi médico da Hospedaria de Imigrantes por um ano. Junto com um amigo e o pai abriu uma firma comercial de representação e consignação. Euclides. Antonio Conselheiro seria o efeito nefasto disso. ibidem. matriculou-se. Op. eles eram homens do seu tempo e do seu “campo” e foi a partir desse tempo e lugar que eles apresentaram os sertões.38 Já casado. 2005. retornou a Barbacena onde passou a exercer a medicina. p. não se pode esquecer de que essas imagens dos sertões estão comprometidas com o lugar de fala dos nossos personagens. 36 Euclides da Cunha fundamentado nas teorias racistas de Nina Rodrigues observou o sertão da Bahia. Arthur e PENNA.37 Em que pese esse esforço de “neutralidade” e “objetividade” das narrativas de Neiva e Penna. Os sertanejos. Ver: CUNHA.

como concursado no cargo de inspetor sanitário na Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), criada e dirigida por Oswaldo Cruz, que era reconhecido internacionalmente como o mais brilhante cientista brasileiro. Oswaldo Cruz desempenhou papel importante na reforma empreendida por Pereira Passos que transformou a velha capital do Império em cartão postal do Brasil republicano, símbolo dos “novos tempos”. Foi neste contexto de modernização da cidade e de fortalecimento do Instituto de Manguinhos que Belisário Penna foi incorporado à inspetoria de Profilaxia da Febre Amarela, trabalhando ao lado de Oswaldo Cruz.40 Com o aumento da credibilidade do Instituto de Manguinhos, intensificaram-se as expedições científicas ao interior do país. Assim, em 1908 Belizário Penna foi designado por Oswaldo Cruz para, em comissão com Carlos Chagas, fazer trabalhos profiláticos contra a malária, endêmica na região e que atrapalhava os trabalhos de construção da Estrada de Ferro Central do Brasil, entre Corinto e Pirapora (MG) cuja extensão deveria alcançar Belém do Pará. Após um ano de pesquisas no interior de Minas, em Pirapora, Carlos Chagas e Belisário Penna capturam o inseto popularmente conhecido como barbeiro, o ponto inicial das pesquisas que levariam Carlos Chagas à descoberta da doença que o consagrou.41 Em 1909, Carlos Chagas comunicou ao mundo científico a descoberta de “nova entidade mórbida”, causada por um protozoário, até então, desconhecido (denominado Trypanosoma cruzi) e transmitida por inseto hematófago, popularmente conhecido como barbeiro, abundante nas casas de pau-a-pique no norte de Minas Gerais. De acordo com a pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz, Simone Petraglia Kropf, a “tripla descoberta de Chagas (vetor, patógeno e infecção humana) foi comemorada como „grande feito‟ da ciência brasileira”.42 A esta doença, Carlos Chagas associou várias manifestações mórbidas, como a cardiopatia, o cretinismo e hipertireoidismo.43

40

A “Revolta da Vacina” é tema discutido por historiadores e cientistas políticos brasileiros. A este respeito ver: SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Scpione, 1993 e CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Cia das Letras, 1987. 41 LACERDA, Aline Lopes de. Fotografia e valor documentário: o arquivo de Carlos Chagas. In: História, Ciências, Saúde-Manguinhos . Vol.16, supl 1. Rio de Janeiro, jul. 2009, p.119 42 KROPF, Simone Petraglia. Carlos Chagas e os debates e controvérsias sobre a doença do Brasil (19091923). In: História, Ciências, Saúde-Manguinhos. [versão online]. Vol 16. supl.1 Rio de janeiro, Jul/ 2009. p.205 43 Idem, ibidem.

23

Nesse primeiro „desenho clínico da doença‟, o bócio ou hipertireoidismo foi considerado o sinal primordial para o diagnóstico da doença de Chagas. Uma doença endêmica que, segundo Carlos Chagas, prejudicava seriamente o progresso nacional, por provocar decadência física e mental, como cretinismo, em gerações sucessivas de extensas áreas do interior do Brasil. Essa caracterização clínica da doença de Chagas teve enorme impacto no relatório Neiva e Penna. Em 1909, Belisário Penna viajou com Oswaldo Cruz à região amazônica do rio Madeira, com o objetivo de realizar a profilaxia da malária na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré Railway Company. Com Oswaldo Cruz, Penna participou ainda da campanha de erradicação da febre amarela em Belém do Pará. Essas viagens contribuíram para a consolidação do Instituto de Manguinhos como centro de pesquisa experimental. Conforme concluiu Maria Cristina Wissenbach, figuras de projeção do Instituto foram mobilizadas para viabilizar as construções de ferrovias no interior do país.44 Entre essas figuras encontrava-se Belisário Penna. Em 1912, Belisário Penna participou da expedição científica ao norte, nordeste e ao Centro-Oeste do Brasil. As imagens elaboradas sobre aqueles espaços projetaram Belisário Penna como um dos mais importantes sanitaristas brasileiros. O relatório, fruto dessa expedição, foi encaminhado para a gráfica do Instituto de Manguinhos, em 1915. Ao começar a ser divulgado em 1916, o relatório revelou um Brasil desconhecido, abrindo novas possibilidades de análise acerca do atraso dos sertões. 45 Quase 15 anos depois de Os Sertões, de Euclides da Cunha, a “ciência” revia seus princípios sobre a parte do país que parecia irremediavelmente condenada por suas condições naturais e sociológicas e apresentava esses elementos como primordiais na agenda política e científica do país. Em 1918, o sanitarista fundou a Liga Pró-Saneamento do Brasil. 46 Ele defendia que a construção da nação passava pelo saneamento dos sertões, título que deu à série de
44

WISSENBACH, Maria Cristina. Da escravidão à liberdade: dimensões de uma privacidade possível. In: SEVCENKO, Nicolau (Org.). História da Vida Privada no Brasil. Vol. 3. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p.62-3. “Nos inícios do século XX, cortando regiões insalubres, no geral acompanhando o curso dos rios, os trabalhos de construção das ferrovias eram constantemente ameaçados de interrupção pela ocorrência de epidemias. Para enfrentar as paralisações, os engenheiros responsáveis pelas obras tiveram que recorrer ao apoio das autoridades sanitárias, especialmente aos cientistas de Manguinhos”. 45 SÁ, Dominichi Miranda de. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina: a repercussão do relatório médico de Arthur Neiva e Belisário Penna (1917-1935).In:História,ciência,saúde-Manguinhos. Vol.16.sup.1. Rio de Janeiro, jul.2009. p.185. 46 Segundo Dominichi de Sá, a Liga Pró Saneamento foi fundada por Belisário Penna, Plínio Cavalcanti e Olímpio Barreto, sua intenção era de atingir o grande público e de conseguir a adesão de toda a elite de

24

artigos (13 no total) que foram publicados pelo Correio da Manhã e divulgados por inúmeros outros jornais, a partir de novembro de 1916.47 Na verdade, ele apresentou ali algumas conclusões presentes no relatório de viagem, porém escrita numa linguagem mais combativa, militante e apaixonada, utilizando-se de uma linguagem simples, direcionada para a compreensão do grande público, no sentido de mobilizá-lo para a aceitação do saneamento. Médicos/cientistas brasileiros se mobilizaram através da campanha pelo saneamento e revelaram suas aspirações. Eles queriam “ocupar posições no Estado, a partir das quais pudessem ditar os rumos da nação”.
48

Segundo Dominichi de Sá, a Liga Pró-

saneamento possuía uma inclinação nacionalista e lutava para levar aos sertões a profilaxia rural: “nacionalizar significava, em muito, centralizar, no Estado, a ingerência da educação higiênica da população rural e, isto, por meio de um órgão único que orientasse as diversas atividades sanitárias (...).”49 Em 1919, criou-se o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) assumido por Carlos Chagas. A Belisário Penna coube apenas um cargo de diretor de Saneamento e Profilaxia Rural. O líder máximo do movimento Pró-Saneamento do Brasil foi preterido em favor do cientista conhecido e reconhecido internacionalmente, como discípulo de Oswaldo Cruz, descobridor da doença de Chagas e diretor de Manguinhos, “a instituição científica mais famosa do país”.50 Porém, cinco decretos sucessivos em 1920 alteraram e ampliaram enormemente as funções previstas para o DNSP, reduzindo o lugar ocupado pelo saneamento rural.51 A diretoria do Departamento decidiu aplicar seus recursos nas áreas mais densamente povoadas e de maior riqueza econômica, ou seja, nas cidades. Com o saneamento rural praticamente abandonado, Belisário Penna se demitiu e voltou para suas funções, como delegado de saúde, em 1922.52 Sua renúncia foi explicada em razão das limitações
médicos, políticos e intelectuais do Rio de Janeiro alertando-os para as péssimas condições sanitárias do interior do Brasil. Esperava-se obter apoio para o saneamento dos sertões a partir das idéias e soluções políticas nativas. Ver: SÁ, Dominichi Miranda de. Idéias sem fronteira: da generalidade à especialização no pensamento intelectual do Brasil Republicano (1895-1935). Tese de Doutorado: UFRJ, 2003 .p.58. 47 Apud PENNA, João Fernandes de O. Centenário de Nascimento de Belisário Penna. In: NEIVA, Arthur e PENNA, Belisário. Op. cit. p. LI 48 KROPF, Simone Petraglia. Carlos Chagas... Op. cit. p.211 49 SÁ, Dominichi Miranda de. O Brasil “modelado” na Obra de Belisário Penna (1916-1935). Dissertação em História. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1999.p.63 50 Idem, p.83. 51 Idem, p.84. 52 Apud PENNA, João Fernandes de O. In: NEIVA, Arthur e PENNA, Belisário. Op. cit. p.L-LIII

25

impostas às suas ações e pelas disputas internas.53 Suas desavenças com Carlos Chagas chegaram ao seu limite e ele preferiu deixar o DNSP. Em 1924, Penna, trabalhando também para a iniciativa privada - como diretor de propaganda dos laboratórios Daudt, Oliveira e Cia - foi preso durante seis meses e suspenso do cargo efetivo de delegado de saúde por ter apoiado, em carta aberta, o movimento tenentista, contra Arthur Bernardes. Após esse incidente, ele foi promovido a dirigente do Serviço de Propaganda e Educação Sanitária.54 Participou ainda da Revolução de 1930 e foi nomeado por Getúlio Vargas para Diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública.55 De 1931 a 1932 assumiu, por duas vezes, interinamente, o cargo de Ministro da Educação e Saúde. Em 1932, requereu sua aposentadoria junto a DNSP, como Inspetor de Propaganda e Educação Sanitária e se filiou à Ação Integralista Brasileira. Em 1937, rompeu definitivamente com Vargas e retirou-se para um sítio no interior do Rio de Janeiro, onde faleceu em novembro de 1939. Suas obras mais importantes foram a Viagem Científica pelo Norte da Bahia, Sudoeste de Pernambuco, Sul do Piauí e de Norte a Sul de Goiás e o Saneamento do Brasil.

O outro médico que acompanhou Belisário Penna na expedição de 1912 foi Arthur Neiva. Sua biografia revela que este baiano nascido em Salvador em 1880, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Bahia em 1898, da qual, logo no segundo ano, se transferiu para o Rio de Janeiro, onde se formou em 1903. Viu-se atraído pelo ambiente de pesquisa criado por Oswaldo Cruz em Manguinhos.56 Ainda estudante, ocupou o cargo de Auxiliar Acadêmico do Serviço de Profilaxia Especial da Febre Amarela (1903-1904). Já formado, Arthur Neiva foi efetivado no cargo (1904-1905), depois incluído nos quadros dos pesquisadores de Manguinhos onde trabalhou como Auxiliar Técnico interino do Laboratório Bacteriológico (1906-1908).57 Em 1907, Neiva atuou em São Paulo, a serviço

53 54

Idem, ibidem SÁ, Dominichi Miranda de. O Brasil “modelado” na Obra de Belisário Penna. Op. cit. p.27. 55 Apud PENNA, João Fernandes de O.In: NEIVA, Arthur e PENNA, Belisário. Op. cit. p.LVI 56 LENT, Herman. In Memoriam: Arthur Neiva (1880-1943). Rev.Brasil. Biol., set, 1943. Rio de Janeiro. P.273-291. Reproduzido na edição fac-similar da Viagem Científica. Op. cit. p.XXI-XLV 57 Arthur Neiva participou ainda da campanha de profilaxia da malária em Xerém, na Baixada Fluminense, a partir da colaboração de Manguinhos com a Inspetoria Geral de Obras Públicas no serviço de captação de águas para a cidade do Rio de Janeiro. Idem, p.XXVI-XXVII

26

da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Em 1910 viajou aos Estados Unidos para completar estudos entomológicos.58 Em 1913, Neiva obteve o título de Livre Docência da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, com sua tese “Revisão do gênero Triatoma Lap.” As ações de Arthur Neiva foram marcadas pelas inúmeras pesquisas realizadas no Instituto Manguinhos, pela fundação e direção de institutos, além de ter ocupado cargos políticos (interventor da Bahia e deputado federal de 1933-1934 e 1934-1937). Nas palavras do biógrafo Herman Lente, entre as ações de Arthur Neiva destacam-se:
Profilaxia do impaludismo em Xerém e Mantiqueira, e na construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil; fundação do Instituto Borges de Medeiros, em Pelotas; criação e organização da Seção de Zoologia Médica e Parasitologia no Instituto Bacteriológico do Departamento Nacional de Higiene, em Buenos Aires; Diretor de Saúde Pública em São Paulo; Diretor do Museu Nacional no Rio de Janeiro, onde criou o “Boletim”; fundador do Instituto Biológico de São Paulo, onde publicou os “Arquivos”; Secretário de Interior de São Paulo; interventor no Estado da Bahia onde fundou o Instituto do Cacau; Diretor-Geral de Pesquisa do Ministério da Agricultura, onde criou o Instituto de Tecnologia. 59

Arthur Neiva foi cientista de laboratório e homem público. Atuou no Instituto Manguinhos e, depois, no Instituto Biológico de São Paulo. Foi interventor federal na Bahia e deputado federal, de 1933-1937. Na relação dos trabalhos publicados contam-se 187 títulos.60 Ele manteve relações de amizade com o círculo emergente da intelectualidade paulista, fato relevante de sua trajetória.61 Além de manter amizade com o “historiador Afonso de Taunay [diretor do Museu Paulista] e com o jornalista e empresário Júlio de Mesquita Filho [proprietário do jornal O Estado de São Paulo], cultivou com Monteiro Lobato longa amizade e estreita identidade intelectual”. 62 De acordo com Nicolau Sevcenko, uma das características mais marcantes da tradição intelectual brasileira, na passagem do século XIX para o XX, foi o intenso desejo de reinventar a nação. Nesse sentido, os cientistas compreendiam a atividade intelectual como missão política ou como „ação pública‟, voltada para a reforma e transformação
58

Arthur Neiva estudou temas relacionados aos mecanismos de transmissão de doenças por artrópodes, os ciclos evolutivos de parasitos no meio ambiente e no meio orgânico de sucessivos hospedeiros vertebrados ou invertebrados. Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Arthur Neiva constituíram-se nos maiores nomes envolvidos com a entomologia em Manguinhos na Primeira República. 59 Apud LENT, Herman. In Memoriam –Arthur Neiva (1880-1943). In: NEIVA, Artur e PENNA, Belisário. Op. cit. p. XXXIII 60 Idem, ibidem. 61 SOUZA, Vanderlei Sebastião de. Arthur Neiva e a „questão nacional‟ nos anos 1910 e 1920. In: História, Ciências, Saúde-Manguinhos . [versão online]. Vol.16. supl.1, Rio de Janeiro, jul-2009. p.249 62 Idem, ibidem

27

efetiva da realidade brasileira.63 Tanto Arthur Neiva quanto Belisário Penna foram bem sucedidos nesse esforço obstinado de intervenção para a construção da nação, projetando soluções próprias para os problemas nacionais, rompendo com o modismo e a imitação de idéias européias. Eles construíram imagens novas sobre os sertões brasileiros, imaginaram soluções e criaram expectativas com relação ao Brasil.64 Nesse movimento de “reinvenção da nação” os intelectuais foram construindo uma “realidade” inteligível aos próprios brasileiros. Assim, nação e cidadania entraram em foco porque “supunham que a existência de uma identidade nacional implicava na adesão dos indivíduos ao Estado”.65 Focalizaremos adiante as imagens do norte goiano, elaboradas por Neiva e Penna. Porém, convém esclarecer que nosso recorte concentra-se apenas nas imagens do norte goiano e dos homens que o habitavam. Deixamos de fora, portanto, as análises sobre o sertão nordestino, as características gerais do meio físico, como o clima, as plantas venosas, os protozoários, os insetos hematófagos seja no percurso nordestino ou goiano da viagem, por considerar desnecessárias aos objetivos propostos para esta pesquisa. 1.3 Imagens do Norte de Goiás no Relatório Neiva e Penna 1.3.1 Os sertões em ruínas? Nísia Trindade explicou a presença da “missão científica” no Centro-Oeste como parte de um projeto maior - que envolveu outros cientistas em duas outras expedições, realizadas no ano de 1912 - a pedido da Inspetoria de Obras Contra a Seca, em localidades do vale do Rio São Francisco, Nordeste e Centro-Oeste.66 De abril a julho, Adolfo Lutz e Astrogildo Machado percorreram o vale do São Francisco, de Pirapora (MG) a Juazeiro, em Pernambuco.67 No relatório de viagem dessa expedição apareceu uma região atrasada, numa combinação da raça e do meio na formação de uma gente incapaz. Estes cientistas apenas validaram as teorias sobre os sertões presentes na obra de Euclides da Cunha. A segunda expedição, a comandada por José Gomes de Faria e João Pedro de Albuquerque percorreu os Estados do Ceará e Piauí, em 1912. Dessa expedição não encontraram nenhum diário ou relatório, apenas as fotografias de viagem. Por fim, a
63

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2 ed; São Paulo: Cia das Letras, 2003. p.96-137. 64 SOUZA, Vanderlei Sebastião de. Arthur Neiva e a „questão nacional‟ nos anos 1910 e1920. Op. cit. p.250 65 SÁ, Dominichi Miranda de. O Brasil” modelado” na obra de Belisário Penna. Op. cit. p.15. 66 LIMA, Nísia Trindade. Um Sertão Chamado Brasil. Op. cit. p.84. 67 Idem, ibidem

28

terceira expedição, a comandada por Arthur Neiva e Belisário Penna reuniu um amplo registro fotográfico e apresentou um relatório de viagem que, ao ser divulgado a partir de 1916, tornou-se um marco da origem do movimento pelo saneamento dos sertões na Primeira República.68 Foram estes últimos que imprimiram uma imagem dos sertões que se transformou num quadro de referência importante para se pensar o Brasil. Os sertões da doença, do abandono e da ausência de sentimento de identidade nacional. Todavia um país viável, apesar de miscigenado, porque seria redimido pela ação da ciência. Durante a expedição científica de Neiva e Penna, eles ressaltaram que foi difícil olhar para os sertões brasileiros sem fazer referências às imagens subjetivas que elaboraram a partir das leituras prévias e acabaram se decepcionando com o que de fato encontraram. Porém, tal argumento pode ser apenas fruto de um exercício retórico uma vez que eles conheciam Os sertões de Euclides da Cunha. Flora Süssenkind sublinhou que Euclides da Cunha já havia registrado o desapontamento que teve diante do Amazonas quando o viu pela primeira vez.
69

Havia uma distância entre o Amazonas sonhado e o

encontrado. Mas Euclides adotou logo uma atitude analítica fazendo um cruzamento da velha “imagem subjetiva”, construída através das leituras prévias, com o novo olhar sobre a paisagem.70 Esta operação intelectual também foi adotada por Neiva e Penna. O mesmo procedimento de confrontação do que leram com a realidade dos sertões está presente em todo o relatório. Ao percorrer o norte do Brasil, os médicos assinalaram as dificuldades da viagem empreendida pela expedição e ao mesmo tempo, o desconforto frente ao abandono em que viviam as populações locais, suas condições “primitivas” de existência: sem escolas, sem estradas, sem polícia, sem cuidados médicos, nem higiênicos. A população sabia da existência do governo apenas pela cobrança de impostos de bezerros, bois, cavalos e burros.71 Eles alertaram sobre o retrocesso de muitas cidades, além da rotina e da ignorância generalizadas, e concluíram que o “povo é indolente, como aliás em todo o Brasil”.72 Porém, retomaram sua tese da doença e do abandono para explicar aquela situação. Afirmaram ainda que existiria ali uma “raça resistente, aproveitável, vigorosa e
68 69

Idem, ibidem. SUSSENKIND, Flora. O Brasil não é Longe Daqui. O narrador, a viagem. São Paulo: Cia das Letras, 1990. p.32 70 Idem, p.33 71 NEIVA, Arthur e PENNA, Belisário. . Op. cit. p.199. 72 Idem, p.198

29

5.. uma raça forte e destemida. desde o século XVIII. Uma trilogia onde o autor imagina uma viagem além-túmulo passando pelo inferno. 75 Neiva e Penna associaram os sertões a obra clássica de Dante Alighieri “A Divina Comédia”. Este poema denunciaria o quadro infernal. as matas infindáveis. Há algumas casas bem regulares. (.77 A vila surgiu como redução jesuítica em meados do século XVIII e teve suas minas exploradas um século depois. O “vaqueiro das caatingas”. ibidem. Rio de Janeiro. são todas caiadas e de bom aspecto. p. Arthur e PENNA. Contaria as misérias e as desgraças dos seus habitantes. habitação. p.200 Idem.. 30 . situada na meia encosta da serra do mesmo nome. a leste do Estado de Goiás. p. nem seus campos seriam cobertos de rebanhos de gado sadio. por exemplo. Eles foram encontrados. como nol‟o pintam os padres. a saúde dos sertanejos e a generosidade da natureza. seus encantos. descansamos meia hora em casa dum sitiante 73 74 Idem. Belisário. ao contrário: os “que conhecemos. para os médicos. n. de força e de resistência”. destruiria toda a poesia do viver no campo. quer os centrais quer os do norte de Minas são pedaços do purgatório. 13. quer os do extremo norte. purgatório e chegando ao céu.76 A partir dessas palavras dramáticas entremos nos sertões goianos. 76 Idem. Foi agradável nossa impressão. na divisa com a Bahia: “uma pequena vila com 60 casas e 400 moradores”. vol. dezembro de 1929.)”. 78 A INFORMAÇÃO GOYANA. pela expedição científica.207. com cerca de 60 casas e uma população de 400 almas mais ou menos. Contudo. Enfim.222 77 Idem.221-222. se fossem escrever um poema para descrever os sertões brasileiros. este seria um poema trágico. de agilidade. as inesgotáveis fontes de pedras preciosas. a partir da vila de São José do Duro.) Em uma excursão que fizemos nas cercanias da vila.78 A preocupação dos médicos em contabilizar as habitações e quantificar seus habitantes constituía uma prática presente nos relatos dos viajantes estrangeiros e administradores nacionais que visitaram o interior do Brasil. 73 Esta frase poderia ter sido dita por Euclides da Cunha ou retirada de “Os Sertões”. alimentação e higiene com as condições de saúde e de “atraso” dos sertanejos: Duro é uma vila goiana. seria “um símbolo de destreza.74 Os médicos afirmaram que. onde se purgam os pecados em vida (. que só poderia ser perfeito se descrito pelo Dante imortal. 75 Eles afirmaram que nos sertões não se encontrariam as terras férteis.. cit. a fartura do solo. op. p.. os médicos inovaram ao direcionar o olhar para as relações entre trabalho e iniciativa individual. As da praça e das três ruas que ali desembocam.37. Ano XII.digna de melhor sorte”. p. Ver: NEIVA. os sertões não seriam o paraíso.

Eles justificaram tal presença pelo fato da casa do sitiante ser apenas barreada. todos robustos. as instalações para a fabricação da farinha de mandioca. Como concluiu Wissenbach. 31 .. afásicos e paralíticos”. além de chamarem a atenção para o espírito de “trabalho e iniciativa” do sitiante dentro de um modelo de trabalho familiar que garantia boa produção. que habitavam casas rebocadas e caiadas as quais não se prestam ao hábito do barbeiro. se as casas eram rebocadas e caiadas. principalmente. Entretanto. Idem. a maioria é construída por casas de adobe não rebocadas (.. Esse sitiante tem 10 filhos. roças.100-101. fazia parte do olhar médico que naquele momento associava bócio a barbeiro e doença de Chagas. pois acreditavam na relação entre planejamento urbanístico. a presença do „papo‟ em todos os seus membros. Boa lavoura de cana. tal doença não estaria presente “nas camadas mais abastadas. p. Op. Eles observaram ainda se as ruas eram mais ou menos retas. como os “carros de boi” e os barcos encontrados ao longo da viagem foram consideradas muito rudimentares. p.208 82 Idem.relativamente abastado. Eles mostraram práticas sociais de produção e consumo.. bastante fartura enfim e sinal de trabalho e de iniciativa. Segundo os médicos.207 81 Idem.) 79 Nota-se a prática dos médicos de observar se a construção da vila seguia um mínimo de planejamento urbanístico. tais como. naquele sítio específico. e frutas. ordem social e saúde.207-208. engenho. do engenho de açúcar e de aguardente. Já a preocupação com os materiais utilizados na construção das casas e.)”. alambique. cit. de modo geral. seu acabamento. Os médicos constataram.82 As cafuas foram consideradas mais apropriadas para a moradia do barbeiro do que dos homens. no interior do Brasil 79 80 NEIVA Arthur e PENNA.80 Os nossos observadores registraram a prática econômica e de vida de uma família rural. Belisário. mas portadores todos eles do papo. Também foram consideradas precárias as residências dos sertanejos. bem como os meios de transportes de cargas. o que é raríssimo nessas alturas. localizada próximo a uma vila. mixedematosos.. (. sem qualquer outra manifestação da moléstia de Chagas. inteligentes. mas é abundante entre os habitantes pobres e entre os roceiros”. plantação de legumes. 81 Nas considerações de Neiva e Penna “quase todos os domicílios ofereciam todas as condições para permitir a reprodução das triatomas. p. p. propícia à existência do barbeiro. “cretinos. Concluíram que em outras habitações próximas da vila foram encontradas diversas modalidades graves da doença de Chagas.

cobertas de sapé ou de qualquer outra palha existente na região”. agos/1918. mais próximo à natureza. São Paulo: Cia das Letras. Entretanto. A doença de Chagas. existia uma forte idéia que identificava a existência dessa fase intermediária entre o selvagem e o civilizado: O primeiro. como por exemplo. p. das dificuldades de transportes e comunicações. 83 WISSENBAH. visível pela presença do bócio.64 84 LIMA. Belisário. vivendo ao “Deus dará”. Entre os índios que viviam em aldeias não se encontravam esses males – acreditava-se que eles possuiriam defesas naturais contra o papo . as pessoas. Porém. elas estariam largamente presentes na população que não era mais primitiva e não era ainda civilizada. o segundo. cit. no geral choças construídas de pau a pique. O parasitismo animal e social. Gazeta Clínica. ou de adobe. Isto naturalmente traria um impacto sobre a saúde desse homem que deixara a vida selvagem mas não poderia ser considerado um civilizado. In: SEVCENKO. Nicolau (org). De acordo com Nísia Trindade. Existia produção e comércio mesmo nas áreas consideradas decadentes porque as populações necessitavam de produtos que vinham de fora. República: da Bele Époque à Era do Rádio. esquecidos pelos poderes públicos. Op. cereais e aguardente. mas um doente e abandonado pelos governos.134 85 PENNA. estava localizada numa civilização intermediária. através de um trabalho familiar. revela uma relação puramente predatória com a natureza. p. Nísia Trindade. os produtos e as idéias circulavam. os pequenos lavradores. Da escravidão à liberdade: dimensões de uma privacidade possível. além de artefatos culturais e comportamentos sociais que indicariam imprevidência. Estas características de organização social e produtiva das famílias camponesas foram encontradas pelos médicos no norte de Goiás. História da Vida Privada no Brasil. garantiam o seu abastecimento vendendo o excedente da produção: frutas. nas margens da “civilização”.84 A doença de Chagas sacrificava “a inteligência.126-133. Defendia-se a necessidade de avançar com a civilização para retirar o “caboclo” daquela condição intermediária. Maria Cristina Cortez. de barro a sopapo.85 Enfim. a virilidade e a saúde de milhares de infelizes”. verduras.83 Este tipo de moradia foi vista como sinal de nomadismo. Ele estava preso na primitiva luta pela vida. o sertanejo encontrado pelos médicos não era “um forte”. o sal. Por mais que eles tenham reclamado da indolência associada à presença da doença nos sertanejos. teria uma vida mais saudável e harmoniosa.predominavam condições de vida e visões de mundo relativamente similares: “a começar pelas moradias.nem nas cidades com domicílios em boas condições. “sitiantes” ou camponeses residindo próximo aos núcleos urbanos. 1998. que identificam com freqüência ao caboclo. de precariedade da vida sertaneja e da presença do barbeiro. 32 . Um Sertão Chamado Brasil. p.

173.Saindo da vila de Duro em direção a Porto Nacional.88 O tema “cidades mortas” ou em ruínas surgiu para expressar os vestígios grandiosos do passado. Os médicos concluíram que “sua pequena e miserável população” estava atacada pela moléstia de Chagas. errantes. além de uma profunda decadência econômica. 87 Existia naquela antiga área de mineração um verdadeiro purgatório de deformidades físicas e mentais.233. O Brasil “modelado” na obra de Belisário Penna. Catolicismo e casamento civil em Goiás 1860-1920. Arthur e PENNA. cit. Luciana. moradas de almas penadas. 91 MURARI. os homens locais refletiriam as características do seu ambiente. Op. 1950. 92 SÁ. Nicolau. Para os 86 Cidades e arraiais como Almas. fundado durante o ciclo da mineração goiana.93 Casas e casarões abandonados pelos homens tornaram-se. p. “O interior goiano”[1918]. Naquele arraial habitado por cem pessoas. 87 NEIVA. 90 Idem. devem ser investigadas as possibilidades de contaminação química e carências nutricionais. normalmente atribuído a Monteiro Lobato. Ver: SILVA. Conceição. cit. Este norte de Goiás passou em 1988 a constituir-se o Estado do Tocantins. na calada dos ermos. no imaginário popular.209. era como se sobre aquele passado “vagassem. denominativo atribuído inicialmente a uma região das Minas dos Goyazes que localizavam numa seqüência dos descobrimentos auríferos ocorridos durante toda a primeira metade do século XVIII.41. começou com Euclides da Cunha “muito antes que Monteiro Lobato o transpusesse em livro”.90 Murari ressaltou que a literatura brasileira da geração de 1870 viu a tapera como um dos aspectos constitutivos e privilegiados da paisagem sertaneja.89 Para Euclides. Carmo. os únicos que nos puderam fornecer algumas informações”. 88 Maria da Conceição Silva afirma que as razões da presença expressiva de retardo físico ou mental na Cidade de Goiás entre 1860-1920 não podem ser atribuídos apenas aos casamentos endogâmicos. com as populações atacadas pela doença de Chagas em todas as suas modalidades mais graves. Maria da Conceição. estava em ruínas. além de vários contos de autores da geração de 1870. p. Natividade. sobre uma natureza em ruína”.16 33 . cit. Para Sevcenko. Belisário.92 O jovem literato goiano Hugo de Carvalho Ramos afirmou que era comum no interior considerar a “tapera” lugar mal-assombrado. do tempo como instância destruidora. p. Goiânia: UCG. mais ainda. São Paulo: Panorama. como “materialização da decadência e. 2007. Op. embora papudos. a autoria desse tema.86 O arraial de Almas. Arraias e Pilar encontravam-se no norte de Goiás. cit. p. Temis Gomes. Sobre essa questão a autora analisou Cidades Mortas de Monteiro Lobato e Canaã de Graça Aranha. ibidem. todas as sombras de um povo que morreu. Príncipe. havia “apenas dois indivíduos aparentemente sadios. 89 SEVCENKO. Op. Dominichi Miranda de.. In: Obras Completas. 93 RAMOS. Fundamentos Históricos do Estado do Tocantins. Goiânia:UCG.91 Na concepção de Neiva e Penna. p. na verdade. Literatura como missão. os médicos passaram pelo arraial de Almas e pelo município de Natividade. Hugo de Carvalho. Op. ao revés do progresso”. A respeito da mineração em Goiás ver: PARENTE. 2009.

Goiânia: UCG. durante o ciclo da mineração. em meados do século XIX. Apud SILVA. Nesse sentido. p. vilas e cidades como Almas. Otávio Barros da. a maior parte das casas abandonadas por seus habitantes se desmancham e até igrejas. extremamente negativa.. Porém. Foi possível encontrar nos relatórios dos governos da província publicados nas Memórias Goianas. Luis. Op. a começar por suas torres. Carmo e outras 94 De acordo com Cunha Matos na Chorografia História da Província de Goyás. 2003. cit. ocorreu uma inversão da imagem positiva sobre a natureza presente na literatura romântica para outra. largas praças. 95 PALACIN. 96 Devido à relação entre Igreja e Estado no Império. em meados do XIX.O Coronelismo no extremo norte de Goiás: o padre João e as três revoluções de Boa Vista. Pilar. vão caindo aos pedaços”.médicos. Natividade possuía “boas casas. belas ruas. Passado o ciclo da mineração goiano no século XVIII. a manutenção dos prédios religiosos e a compra de alfaias. várias informações sobre o abandono das igrejas matrizes da província. concluiu Palacin. passa-se a sua dispersão pelos campos.). Natividade distava do registro de Duro. 34 . os presidentes da província. o capim crescendo nas ruas. elas seriam sinal de decadência do ambiente e dos próprios homens.. O dominicano francês José Maria Audrin chegou ao norte de Goiás no início da República e afirmou que era muito comum ouvir os miseráveis habitantes das “taperas” de Pilar. arraiais. vinte e quatro léguas. no século seguinte. A presença das ruínas no antigo norte de Goiás também foi registrada pelos memorialistas que percorreram a região no século XX.94 O historiador Palacin encontrou as marcas do retrocesso e da “ruralização” da vida no norte goiano nas ruínas da arquitetura dos prédios daquele antigo centro minerador. 1990. Relatórios dos Governos do Estado de Goiás. apenas noticiavam a precariedade dos templos e reconheciam a necessidade urgente de reformas. quatro igrejas (. Ver especialmente as edições entre 1840-1870. Nem mesmos os prédios religiosos foram salvos das ruínas. e teve no seu distrito acima de quarenta mil escravos (.67. Afirmou que.45 96 MEMORIAS GOYANAS. Arraias.). Era como se os homens assim como a natureza tivessem “vocação” para regredir. aquelas antigas povoações pareciam fantasma do que foram no passado: “carcaças antigas de povoações mineiras outrora cheias de vida. Serviu de local de residência do ouvidor da comarca de 1809 até 1815”. Arraial de Bom Jesus do Pontal.95 De uma população radicada nos espaços urbanos. caberia ao Estado o pagamento dos padres. São Paulo: Loyola.. Monte do Carmo e Natividade perderam sua pujança econômica. p. Crixás.. Conceição. Foi povoada no ano de 1739. Amaro Leite.

Ele idealizou um tempo de fausto e de grande produção no passado.51.contarem aos viajantes o fausto de outrora. Inúmeros prédios subsistiram como testemunhas da opulência de um tempo distante. “Tapera.98 Natividade e Pilar também foram caracterizados como decadentes pelo inspetor agrícola de Goiás. 35 . n. 97 Naquelas cidades e vilas foram construídas igrejas servidas por numerosos padres onde ainda era possível encontrar peças sacras. etc. funcionário do serviço de febre amarela.[atual Paranã] que a cem anos possuía 255 casas.100 Lysias Rodrigues. Ano II. “Aquelas vilas caíram de seu antigo esplendor e riquezas. Veja o que ele diz: “A cidade de Palma. n. todos de pedra.164. 100 A INFORMAÇÃO GOYANA. porque a sua decadência é um fato.fev/1928..101 Assim. palacetes. p.54-55. 99 A INFORMAÇÃO GOYANA. Uma igreja que estava sendo construída há setenta anos. Júlio. com primorosas ferragens de ferro batido. n. militar enviado para demarcar os campos de pouso em Goiás na década de 1930. eram uma coisa triste de se ver. tudo importado diretamente de Lisboa. Ano XV.55. estando às igrejas. as “taperas”. p. passou pela região em 1935 e deixou registradas suas impressões sobre uma cidade em ruínas. desafiando as intempéries do tempo”. os vestígios das construções antigas. associado ao auge da mineração e radicalizou a realidade encontrada. p.. afogados na mata”. edifícios abandonados que. jul/1918. a presença da tapera denunciava o fim do fausto. A vida parou. vol 1. tudo anteriormente importado do além-mar.7. atualmente é um arraial de 120 habitações velhas ou em ruínas.12. como toscas relíquias. em cujas redondezas se encontram grande número de vestígios de propriedades abandonadas”..16. Também o médico Júlio Paternostro. Rio de Janeiro: Agir.4/5. os esforços das gerações passadas sucumbiam frente à força da natureza tropical.33 102 PATERNOSTRO. Viagem ao Tocantins. ainda não foi concluída. Para Audrin. José Maria. Editora Nacional. p. Ano XI. da fundação Rockfeller. vol 11.251. p.99 Passado o ciclo da mineração. Entre sertanejos e índios do norte. nov/dez/1931. vol. 101 A INFORMAÇÃO GOYANA. 1945. p. do Ministério da Saúde num convênio com a divisão Internacional de saúde pública. São Paulo: Cia. de portas de carvalho lavrado. porém. Idem.”102 97 98 AUDRIN. e onde se tem a sensação de se estar em escombros de uma cidade antiga. (. “a mata virgem reconquistou seus domínios. jazem adormecidos. 1947. Segundo ele. ao passar por Pilar e Matança deixou-nos um impressionado relato da decadência daquelas duas antigas povoações. grandes edifícios.) Vê-se ainda espalhado em todo o seu município.

Memória e História de Goiás. predominam nos trabalhos de alguns historiadores goianos. influenciados por Luís Palacin. 104 Idem. a partir das décadas de 1980. Usos da História: refletindo sobre identidade e sentido. apontaram novos caminhos para a interpretação desse passado. Vol. Paulo Bertran. Assim. um exercício crítico capaz de investigar as construções da memória. Nars Chaul. “pouca atenção foi dada às atividades que se desenvolveram paralelamente ao mundo do ouro e que permaneceram na obscuridade”.104 Enfim. 2002. dos médico/cientistas e dos próprios historiadores que em pleno século XX insistiam em descrever estradas abandonadas e cidades em ruínas? Manuel Salgado chamou a atenção para as intrincadas relações entre memória e História.105 De modo geral.107 Tal concepção de decadência e isolamento construiu uma “zona de sombreamento” em Goiás nos séculos XVIII e XIX. Sérgio Paulo Moreyra.(Org). a perspectiva revisionista da historiografia goiana nas últimas décadas do século XX valorizou outra leitura da região. p. ibidem. começou a relativizar o marco identitário do ciclo do ouro e no mesmo movimento romper com as imagens da decadência e isolamento.21-22. uma ênfase nos aspectos da decadência de Goiás após o ciclo da mineração. dez/2000. p. Goiânia: Oriente. Brasília: UFG. restando apenas as “„ilhas de história‟: a cidade de Goiás abrigando a administração e a formação de inúmeros arraiais que cresceram e pereceram à sombra do reluzente metal”. Memória e Região. “pretende-se uma operação intelectual.Como compreender as narrativas dos memorialistas.108 Porém. 1976. aqueles historiadores endossaram de forma acrítica um discurso identitário fundado nas imagens da crise do ouro. como as engenhocas e os inúmeros produtos oriundos das fazendas. 105 Idem. In: SANDES. Segundo Sandes (2002). entre outros. 36 . 108 Idem. In: História em Revista. retirando dos altares e trazendo para o mundo dos homens aqueles objetos sacralizados”. Luís. 6. memória e história estariam situadas em campos específicos e seria papel da História dessacralizar a memória. N.19. 107 SANDES. ibidem. Manuel. fazendo a crítica à memória da decadência. restituindo a historicidade aos sujeitos e aos acontecimentos. Goiás. Noé Freire. capaz de encontrar a 103 SALGADO.103 Enquanto a memória “situa-se nos campo dos afetos e dos sentimentos”. UFPel. a História. 106 PALACIN. ao contrário.106 Utilizando como fontes os viajantes europeus que percorreram a região nos séculos XIX e relatórios de presidente de província. a historiografia goiana. 1722-1822. ibidem.

Luciana. não é de se estranhar que em meio a tanta “decadência” aparecessem apenas dois homens “aparentemente sadios” apesar de papudos. p. Pareceu-lhes que todos os moradores teriam sucumbidos atacados pela doença de Chagas nas suas modalidades crônicas a denunciar. o aspecto físico dos homens era muito preocupante. 115 A legislação para combater a endemia do bócio iniciou-se em 1948.54 112 Idem.110 Em 1782 foi revogada a proibição da navegação e os rios foram reincorporados ao uso social através de uma navegação rudimentar feita à força bruta. ibidem. Este apresentou ao Legislativo Federal.109 Entretanto. condenou ao abandono antigas povoações ligadas à mineração”. Caminhos que andam: o rio Tocantins e a navegação fluvial nos sertões do Brasil. de quem os médicos conseguiram arrancar informações mínimas sobre o caminho a seguir. Neiva e Penna ficaram chocados com a gravidade da decadência. evidentemente. O século XIX representou a fase áurea da navegação pelo Tocantins e do comércio com o Pará. Goiânia: UCG. 111 Idem.115 109 110 Idem.79 113 MURARI. Kátia Maia. Ele possibilitou a fixação de novos moradores nas suas margens e dinamizou a economia das suas vilas e cidades. Depois de prolongada tramitação foi aprovado sob a forma do substitutivo Miguel Couto Filho. cit.112 Kátia Flores acabou justificando a “decadência” da antiga área da mineração. p.114 Assim. que a destruição operada pelo tempo havia atingido cruelmente as pessoas. Para eles. Ver: FLORES.235 114 Idem. ainda é possível encontrar parte desta “memória da decadência” em historiadores contemporâneos. pois nasce no Planalto Central de Goiás. p. 2009. Nesse sentido. apesar desse esforço. Op.28 O rio Tocantins é considerado de integração do centro-sul ao centro-norte do país. Kátia Flores (2009) investigou a navegação pelo rio Tocantins após a crise da mineração e afirmou que ela foi de fundamental importância para a recuperação econômica do norte de Goiás. a precariedade do comércio. assim como. 113 Naquele antigo local de esplendor e riquezas nada era passível de admiração porque tudo ali estava em degradação. passa pelo Maranhão e deságua no Pará.lógica de uma sociedade distante do processo de acumulação de capital e que conduziu à percepção de processos históricos diferenciados. 37 . mas principalmente. p. exemplarmente. sofrendo os efeitos destrutivos do tempo.111 Todavia. visando tornar obrigatória a iodetação do sal de cozinha. a falta de conservação dos prédios. cortando todo o norte de Goiás. Projeto de Lei. ela continua presa à concepção de decadência defendida por Palacin. a “navegação pelo rio Tocantins deu vida e movimento às novas cidades e povoados ribeirinhos. com o então deputado Café Filho.

120 Os administradores goianos também criticavam a ineficiência da agricultura praticada na região.176 120 Idem. como se pode confirmar pela seguinte citação: “apesar de ser um fato. tentaram em vários lugares do Estado após estudos prévios. como era denominado o governador dos estados da federação. pois os métodos empregados eram extremamente primitivos. o “presidente” de Goiás. em várias partes do relatório eles contestaram a existência das riquezas naturais e concluíram que naquele “purgatório”. que o Estado possui ricas minas de ouro e de outros metais preciosos. devido ao sucesso da extração aurífera aluvial. vejamos o que transformando-se na Lei de 1944. A agricultura praticada na região foi considerada pelos médicos como muito atrasada. 119 Enfim. Memórias Goianas. Em 1901. “acabaram por entrever a transmutação da natureza e de seu desenho em ruínas e desmoronamento”. querer mostrar que não devem nutrir esperança a este respeito e. ao optarem pelo relato “científico” de pretensa neutralidade e transparência em relação à “verdade”. ibidem. Dominichi Miranda. Arthur e Penna. mesmo recentemente. 1906. 118 Em Goiás.2 Os sertões em chamas Neiva e Penna contestaram uma dada concepção de natureza em nome do esforço para compreender “cientificamente” as suas manifestações mais gerais. cit.17 e 37 119 NEIVA.3.1. cit. de nada serve. A concessão de licenças foi assim justificada. Miguel da Rocha. O Brasil „ modelado‟ na obra de Belisário Penna.117 Assim. comprovadamente. p. Eles informaram que o governo de Goiás havia concedido licença a diversos técnicos para explorar a existência de ouro e metais preciosos. então. 116 De acordo com Dominichi de Sá. de todos conhecido. p. ibidem 118 LIMA. uma natureza em ruína e decadência (porque supostamente existiu o fausto de outrora) não possibilitava o surgimento de homens saudáveis e trabalhadores. hoje visivelmente esgotada. na Primeira República. Op. instalar empresas que morreram devido á escassez do ouro. Belisário. 116 SÁ. que tornou obrigatória a iodetação do sal em áreas bocígenas do país. cit. cobrou maior empenho do Legislativo nessa questão. a citação de que vários técnicos estrangeiros. Op. de 14 de agosto de 1953. é inútil a qualquer. os médicos.42. elas não existiriam mais. 117 Idem. Mensagem ao legislativo de Goyas. Op. 38 . p. que jazem esquecidos ou abandonados por falta de capitães e de braços”.

126 CUNHA. levando sua obra de destruição.. do desaparecimento dos buritizais goianos: 121 FRANAÇA. porém incessantemente”. Euclides da.123 Ela atingia proporções alarmantes em Goiás. 128 Idem. cit. estúpido. Esta foi denunciada por Euclides da Cunha como “desastroso legado indígena”. deram testemunhos da diminuição das águas dos rios. cit. de 13 de maio de 1901. criminoso e imprevidente das ações dos sertanejos: “é proverbial a abundancia dos cursos d‟ água deste Estado”. avançando pela mata. Belisário. p. 123 CUNHA.ele também perpetuava a prática das queimadas. Ele era a imagem da “insensatez do matuto que destruía e preparava a ruína das futuras gerações”.77 125 Idem. Mas. Tropas e Boiadas.89. 128 As queimadas. Op. a vida animal existe escassamente representada devido à ação do fogo”. Goiânia: ICBC. Cit. p. Hugo de Carvalho. na exigüidade de suas posses122 . Op. Além de adotar o nomadismo como modo de vida . na obra clássica da literatura goiana Tropas e Boiadas. além de provocar destruição brutal da flora e da fauna enfraqueciam as terras. Arthur e PENNA.127 Fogo que provocava a miséria..124 Após lançado. Artur e PENNA. Belisário. 127 RAMOS.125 Euclides da Cunha já havia afirmado ser o homem um agente fazedor de desertos. a agricultura não adianta um passo. cit. Luciana. diminuíam as águas e empobrecia a alimentação dos sertanejos.143. do “secamento” dos brejos. a mesma devastação das matas”. segundo os médicos.126 Hugo de Carvalho Ramos.89. 121 O homem dos sertões vivia de forma precária. p. todo o horizonte goiano é um vasto mar de chamas: fogo das queimadas que ardem. alertaram que ela “diminuiu paulatinamente. cit. p. Op. p. o fogo só era interrompido por um curso de água ou buritizal. no entanto. p. Os médicos tentaram provar o efeito devastador. Os mesmos sistemas antiquados. 2006.)”.. Valdomiro Coelho.26 122 MURARI. de 1917. 77 39 . 124 NEIVA. alastrando-se pelos Gerais dos tabuleiros e chapadões a afugentar a fauna alada daqueles campos (. num meio natural extremamente rude e relacionava-se de forma predatória com o meio. In: Memórias Goianas. cit. Op. Op. 9 ed. p.ele diz: “Assim como a indústria. seguidor das idéias do escritor Euclides da Cunha. ibidem. Op. Mensagem ao Legislativo.123 129 NEIVA. “são centenas de quilômetros por zonas parcamente habitadas. registrou que “Pelos dias de agosto. onde.na precariedade da sua moradia. na recusa à criação de animais. Euclides da.129 Os próprios moradores.

Conhecida como a capital cultural do norte de Goiás. Boa Vista era o município nortense com o maior rebanho bovino (159.Em muitos povoados goianos. 40 . assinalaram os médicos. Porto Nacional impressionou os 130 131 Idem. Tudo isso se voltava contra o próprio homem.440). 130 A luta do homem contra a natureza através do uso de práticas tão predatórias. na sua ignorância e pobreza. 132 Idem. no Descoberto. em 34 dias. p. de preferência mão-de-obra imigrante. como as queimadas. após percorrerem 66 léguas em lombo de burros.).3.164 133 O Censo de 1920. cozido simplesmente n‟água e acompanhado de arroz. tal como fazem nas zonas consideradas secas (. a zona é tão seca que há necessidade de se abrirem grandes e profundas cacimbas à procura d‟água. uma vez que as terras de Goiás foram consideradas fracas para a expansão da pecuária. A perspectiva de Neiva e Penna foi a de romper com as imagens idealizadas da natureza e das condições de vida dos homens que viveriam na sua dependência e direcioná-la com o auxílio da ciência. 1.. como as florestas. registrava o rebanho do norte goiano com quase 1 milhão de cabeças de gado. os médicos chegaram a Porto Nacional. do presente e do futuro. a escassez d‟água é verdadeiramente notável. 133 Porém. Desde Petrolina até Porto Nacional. A alimentação da maioria da população foi considerada pobre e má.. Assim. quando há. porque esse era o meio para que a natureza e os homens fossem “civilizados”. esta atividade cada vez mais se expandia. em Almas a exploração do ouro não pode ir adiante por falta deste elemento. Pedro A fonso (139.164. Idem. o cerrado e as águas. Nas imagens elaboradas pelos médicos os moradores dos sertões. com a utilização de novas técnicas e instrumentos agrícolas. ibidem. uma ameaça para a nação brasileira. procurando mel e comendo o que caça sem sal.911) e Natividade (115. aparecem como imprevidentes. o meio natural seria subjugado pelo esforço humano. resultava numa agricultura ineficiente e numa vida miserável.3 Porto Nacional: um oásis de “civilização” nos sertões? Partindo da Vila de São José do Duro e passando pela antiga área da mineração. percorreram 300 léguas ou 1. farinha e alguns cocos quando é tempo”.800 km. p.508 cabeças).132 Porém. além de não serem produtivos os homens ainda contribuíam assustadoramente para a destruição dos poucos recursos naturais que existiam. para torná-la produtiva.131 O sertanejo “vive ao Deus dará.

a cidade foi denominada de Porto Nacional. com uma população de cerca de 2.Op. Maria de Fátima. Todo o norte é despovoado”.000 134 135 PATERNOSTRO.137 Localizado na região norte de Goiás. Jul/1920. 1990. A INFORMAÇÃO GOYANA. o seu comércio com o Pará e a Bahia. Viagem ao Tocantins.médicos. Ver PALACIN. 136 OLIVEIRA.138 No início do século XX. A revista carioca Leitura Para Todos. Um Porto no Sertão: cultura e cotidiano em Porto Nacional 1880-1910. Goiânia: UFG. Um Porto no Sertão.000 habitantes. 3.139 No município de “Porto Nacional encontrava-se 5. 1945. comentou os dados do censo de 1900 ressaltando exatamente o vazio demográfico e econômico do Centro-Oeste: “Imagine-se que deserto não devem ser aqueles 700 mil e tantos quilômetros quadrados – de Goiás – povoados por 250. Odair (org). destacou sua posição geográfica estratégica à beira do rio Tocantins. p.141 Porém o jornal local reagiu questionando a forma como eram feitos tanto o censo quanto a arrecadação fiscal. uma arrecadação de fato diminuta. p. 135 A historiadora Maria de Fátima Oliveira considerou alguns elementos específicos para explicar a proeminência econômica e cultural alcançada pela cidade. 139 Apud PALACIN. pelo decreto de 7 de março de 1890.) desde o tempo da monarquia. Luís. além da presença dos dominicanos. In: GIRALDIN.238-282 137 Idem.274 138 Idem. p. cit. Luís.12 41 .011 habitantes”.138-139. p. p.140 Todo o norte apareceu no censo com reduzidíssima população e baixa arrecadação fiscal.138. p. Arthur Neiva e Belisário Penna ressaltaram as características de Porto Nacional. Com o advento da República. A (Trans) formação Histórica do Tocantins. São Paulo: Loyola. depois foi elevada à condição de cidade pela lei provincial de 1861.237-239. 12. 141 De acordo com o censo o Estado de Goiás possuía uma receita anual de mil contos e o norte do estado contribuía apenas com pouco mais de quarenta contos. no então chamado Porto Imperial”.223. que tinha sua cidade como oásis de “civilização”.12 140 OLIVEIRA. 136 Entre elas.. p. Maria de Fátima. moradores do município de Porto Nacional. cit. argumenta Palacin. Ano IV. Tal prosperidade se explicava “graças ao intercâmbio comercial que manteve ininterruptamente com os mercados paraenses (. a elite “portense”. reagiu através do periódico local Norte de Goyás quando foi chamada de sertão por uma revista do Rio de Janeiro. 134 durante o império passou a vila de Porto Real em 1831. O coronelismo no extremo norte de Goiás. p. Paternostro afirmou que Porto Nacional foi o terceiro nome recebido pela mesma aglomeração que surgiu com o nome de Arraial de Porto Real. em 1908. Uma cidade situada à margem direita do Tocantins. São Paulo: Cia Editora Nacional. O Coronelismo no Extremo Norte de Goiás: o Padre João e as três revoluções de Boa Vista. n.. vol. 2002. op. o município de Porto Nacional era um dos mais prósperos daquela área.

Op. p. Belisário.145 A economia da cidade estava baseada no comércio de gado. Arthur e PENNA. nem esgoto.146 Na época da colheita os gêneros essenciais como o arroz. edificado pelos padres dominicanos. 146 NEIVA. com grandes quintais. em estilo colonial. Ibidem 144 SOUZA FILHO. da organização espacial da cidade.149 Para espanto dos médicos. na cidade havia vendedores de água em barris. p. farinha e milho eram levados pelos produtores locais e vendidos diretamente aos habitantes da cidade ou aos comerciantes locais. uma grande construção em estilo colonial. Eduardo Henrique de. 150 Na constituição desse amplo quadro negativo foi incluído também os habitantes da cidade: “o tipo comum (. usava-se o pilão. movidos a remos e que.148 Apesar das intensas atividades comerciais realizadas pelo rio Tocantins.45. alguns sobrados.48. feijão. Na sede do município não havia serviços essenciais: “não há água canalizada.44-45.144 Enfim. p... p. p. ibidem. de estilo neo-românico. 147 SOUZA FILHO.210. da existência de um jornal local e dos dominicanos. nem iluminação pública”. Eduardo Henrique de.pessoas vivendo em 300 casas térreas.) não é de saúde. cit. Atrás da igreja encontrava-se o convento dos dominicanos. suas casas baixas. 149 NEIVA. a maioria de dois lanços. couro e cereais. cit. p. pegadas umas às outras. muitas assoalhadas e forradas. Homens de estatura média. Arthur e PENNA. Em geral de telha vã e pavimentadas de tijolos. onde se criavam porcos e galinhas. de frente para o rio. principalmente com Barreiras na Bahia – através das tropas – e com Belém do Pará – pelos batelões e iguarités (tipo de embarcações que trafegavam pelo rio Tocantins. Neiva e Penna ressaltaram as características negativas de Porto Nacional. 142 143 NEIVA. havendo algumas pintadas a cores. cit. Op. p. fumo. Op. na “sua maioria são caiadas. Belisário. As ruas são retas e obedecem a alinhamento”. 145 Idem. 142 Na praça principal da cidade. cit.210 150 Idem. ou abaixo da média. 210 Idem. a cidade de Porto Nacional tinha suas ruas traçadas em terreno plano. Belisário. eles encontraram o belo e grande edifício da igreja. transações eram feitas.143 Uma construção monumental que chamou a atenção dos médicos. Op.166 42 .147 Na falta de máquina para beneficiar o arroz. cit. normalmente gastavam um mês até Belém do Pará e cinco meses para retornar até Porto Nacional). 148 Idem. Arthur e PENNA. Op.

Anteriormente. 153 NEIVA. já que na cidade existia apenas três cisternas. Mas talvez devido à dificuldade de acesso do norte goiano à moeda nacional. São ambos de origem francesa. O surpreendente foi o fato de Neiva e Penna não terem se espantado com essa irregularidade da Igreja nos sertões. Apesar disso. no comércio local. um deles já idoso. mas residindo em Goiás.212 PATERNOSTRO. Op. talvez fossem utilizados. cit. e os frades dominicanos franceses. uma última na casa do dr. mais 25 e outro moço ainda. p. Estes “emitem vales impressos em papel. outra. Júlio. os tais “vales” dos dominicanos. Os dominicanos ali se estabeleceram em 1886. por fim. 43 . Tanto o Dr. 151 Ainda em 1935. Arthur e PENNA. no Estado da Bahia. aquele realizado com Belém do Pará e com Barreiras. População indolente. p. onde prevalecia a moeda nacional ou a permuta.212.171 154 Idem.153 Estes vales não eram utilizados no grande comércio.154 A igreja de Porto Nacional foi o que de melhor os médicos encontraram em todo o percurso sertanejo da viagem. a igreja estaria assumindo uma função exclusiva da União. Se isso de fato acontecia. Em Porto Nacional Neiva e Penna encontraram um médico formado. Francisco Ayres da Silva. Seus moradores possuíam o melhor nível cultural da região devido a presença do colégio das freiras e dos frades dominicanos. ao passar pela cidade de Porto Nacional. Arthur. Francisco Ayres da Silva. que são aceitos como moeda corrente”. uma no convento dos dominicanos. O Dr. ao penetrar em Goiás. os médicos já haviam encontrado com os dominicanos: A 25 de Julho chegaram á vila (de Duro) dois frades Dominicanos em trabalho de missões. Francisco Ayres quanto os dominicanos foram citados como autoridades que comprovaram a presença de portadores de bócio na região. A ciência via virtudes nos religiosos. O frade velho adquiriu 151 152 Idem.franzinos e pálidos. há cerca de 5 anos. Ausência de plantações de legumes e verduras nos quintais e raras as árvores frutíferas”.152 Neiva e Penna notaram que o dinheiro que circulava em Porto Nacional e proximidades era emitido pelos frades dominicanos franceses ali residentes. p. Francisco era o diretor do jornal Norte de Goyas desde 1905 e já havia atuado na campanha de profilaxia da varíola no norte de Goiás. Paternostro registrou que as marcas da arquitetura portuguesa estavam presentes nas casas e nas ruas da cidade. cit.224-225. o abastecimento de água na cidade ainda se fazia pela coleta em pequenos recipientes. o Dr. p. Op. no colégio das freiras e.

a sua ação inteligente. inclusive as regiões habitadas pelos índios. prelado de Conceição do Araguaia e futuro bispo de Porto Nacional. os dominicanos representavam “um oásis de civilização no sertão”. 158 Para os médicos. estes sim exercem o sacerdócio com toda a dignidade e. Porto Nacional ainda não era um oásis. para contraste consolador [com os redentoristas]. fizeram um enorme esforço para se adaptarem e conhecerem a região. identificou-se com eles e diz que não troca a vida dos sertões pela civilização da Europa. Os dominicanos além de serem reconhecidos por possuírem uma boa formação acadêmica e religiosa.157 Felizmente. afirmaram que ela “torna-se-á futuramente um centro de civilização em pleno coração do Brasil”. O moço é um homem culto e inteligente. Em Porto Nacional.os hábitos locais. e diz que o papo é universal em todo o Estado.208 Idem. A presença de escola confessional católica significava a possibilidade de mudanças em direção ao „progresso‟. para os médicos. a presença dos dominicanos na cidade. Deu-nos preciosas informações sobre o nosso itinerário do Duro em diante e sobre os costumes goianos. ao lado da soberba igreja de estilo romano. humanitária e civilizadora há de certamente se inscrever na historia da civilização brasileira. mas já se constituía numa promessa.) existem liceus dirigidos pelas freiras e onde se ensina artes e ofícios e a ler a grande número de crianças. entre os quais nunca se observou o bócio. os médicos viram com muita esperança. Na cidade de Porto Nacional. É ele o autor do melhor mapa do Estado de Goiás. p.168. Esse frade deu-nos uma carta de recomendação para os seus irmãos da congregação residentes em Porto Nacional. de forma a romper com o „atraso‟. existem os frades dominicanos instalados no Porto Nacional.. à „civilização‟. principalmente devido à presença dos dominicanos na cidade.212.155 O trecho citado faz referência ao encontro dos médicos de Manguinhos com os missionários dominicanos em São José de Duro (hoje Dianópolis)s. professor do Colégio em Porto Nacional e autor do mais completo mapa da região. p. exceto nos índios. 158 Idem. Já percorreu todo o Estado de Goiás. 157 Idem. 155 156 Idem.156 Ao contrário dos “portenses”. bem como as outras modalidades da moléstia.. 169 44 . O jovem missionário era frei Reginaldo Tournier. enquanto o “velho” provavelmente era frei Domingos Carrerot. p. Elogios foram destinados a estes frades considerados “dignos de todo o respeito pela grande obra de benemerência que há mais de 20 anos vêm desempenhando no Brasil Central”. p. única construção de valor encontrado em todo o trajeto. (.

„barbárie‟ e doença. “A única bandeira que conhecem é a do Divino”. Elio et al. porque educados e „civilizados‟. E. Para os de “dentro” a cidade de Porto Nacional se constituía num oásis nos sertões. era filho de uma família tradicional de Porto Nacional. dispensaram tempo. eles até ressaltaram características positivas da cidade.160 Assim. Os médicos consideraram que os dominicanos representavam “um oásis no sertão”. (Orgs. p. em longas horas de conversas. Quanto a Neiva e Penna. frente à dificuldade do Estado para se fazer presente nos sertões. identificadas com os sertões. suas ações “civilizatórias” constituíam uma promessa de oásis para a cidade e os sertões. Cultura Escolar e Identidades. a ausência 159 MUNIZ.) Escritas da História: intelectuais e poder. esta jamais deveria assumir as funções de um estado laico e republicano que naquele momento tinha sérias dificuldades para se estabelecer nos distantes rincões do país. In: SERPA. os semelhantes nos sertões. dos médicos que percorriam em expedição os sertões e as de “dentro”. 2004. Francisco. E a Igreja lutava para reafirmar sua força e conquistar um novo lugar.3. Sobre Experiências. deslocar-se por entre locais e pessoas desconhecidas.4 Os sertões distantes Neiva e Penna ressaltaram o fato do sertanejo pobre nordestino e goiano não conhecer o dinheiro do país.191 45 . de alguns frades e do médico local. Os médicos fizeram destes semelhantes mais do que simples informantes. 1. proprietário do jornal local e amplo conhecedor das mazelas e das dificuldades existentes no norte de Goiás. Os dominicanos contavam na época com uma experiência de mais de vinte anos em Porto Nacional e já haviam palmilhado os sertões goianos em todas as suas direções. Após percorrer longas distâncias. Eles encontraram. Os médicos saudaram com entusiasmo as ações da Igreja. Diva do Couto Gontijo. contudo. médico formado. os problemas existentes estariam nos sertões e não naquela cidade. desconhecer os símbolos nacionais e identificar apenas os símbolos católicos. o contato com o Dr. enfim. Goiânia: UCG. p. com estes semelhantes. Quanto ao Dr. mas testemunhos das péssimas condições de vida e saúde dos homens dos sertões. Francisco Ayres da Silva e com os dominicanos provocou um impacto positivo nos viajantes.159 Ora. Vimos que existia um conflito entre as visões “de fora”. a Igreja ocupou o seu lugar e parte de suas funções. ela e os próprios homens acabaram compondo um amplo quadro de características negativas. ou seja. mas.83-98 160 Idem .

Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas. Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas em 13 de maio de 1914. divulgando seus símbolos.163 Esta transferência de responsabilidade para os municípios não significou a melhora da instrução. na dificuldade de transportes e comunicações. o que estava em questão era uma dada concepção de nação que implicava o sentimento de integração. Dominichi Miranda de. “levando a civilização” e a ordem. o governo de Goiás alegava não ter instrumentos para fiscalizá-la e meios para sustentá-la. a instrução teria papel fundamental na unificação do país. Urbano Coelho de. tudo isso causado pelo Estado que. Olegário H. bem como na inexistência ou ineficácia das escolas públicas existentes. O Brasil “modelado” na obra de Belisário Penna. na percepção de Neiva e Penna. a educação escolar no norte de Goiás foi considerada extremamente precária. 46 .de qualquer identificação do sertanejo com a pátria se expressava na falta de circulação da moeda nacional e dos símbolos nacionais. o que foi visto como um grave problema pelos médicos. Todavia. a 13 de maio de 1911. era apenas para cobrar os impostos. a grande extensão territorial. op. Por outro lado. Distante devido à falta de uma representação cartográfica nos mapas publicados da época. Memórias Goianas. Contudo. da Silva. op. em pleno coração do Brasil estava presente a Igreja. cit. quando aparecia. as dificuldades de comunicação e escassez de população. Cit. Assim. Ele acabou transferindo a responsabilidade para os municípios mais ricos reservando para si apenas a sua fiscalização. de pertencimento a algo maior do que a própria comunidade local. o litoral. apenas desonerou o Estado.162 O argumento do Governo centrava-se na ineficiência das escolas mantidas pelo Estado. 163 PINTO. Op. p. frente aos parcos recursos orçamentários e a rarefação demográfica. nos sertões era perceptível a inexistência da conscientização generalizada de pertença à unidade nacional. Neiva e Penna presumiram uma alta taxa de analfabetos para a região: “não estará 161 162 SÁ. Memórias Goianas. os sertões seriam o espaço “distante” porque sem a presença efetiva do Estado.161 Para os médicos. garantindo a coesão social. É claro que aquela bandeira do Divino também não agradava aos frades dominicanos. p.62-63. Enfim.21 GOUVEIA. cit. Com relação à instrução pública.97. Esse “distante” seria também marcado pela diferença com relação ao centro. Nesse sentido. p. a Constituição de 1891 estabelecia o ensino primário como de responsabilidade das unidades da federação.

os serviços de higiene continuavam a cargo dos municípios. cuja ação naquele momento.longe da verdade quem o calcular pelo menos em 95% no norte do Estado. em vista do aumento da 164 165 NEIVA. como “a limpeza pública das povoações.167 Frente à presença da varíola. p.171 166 Idem. restringia-se à distribuição de vacinas para os municípios infectados. Op. cit. buscava reformar a legislação para centralizá-la. a situação continuava a mesma: “Até a presente data não tem ainda no Estado um serviço de Hygiene organizado e cuja necessidade é palpável. o serviço de abastecimento d‟água e de esgotos e todos quantos dizem respeito ao asseio necessário para evitar focos epidêmicos”. o presidente de Goiás. cit.169 Quanto à capacidade de interferência do estado. 167 LIMA. para as grandes quantidades a referência continuava sendo a arroba. ele declarou: “não temos serviço de hygiene de espécie alguma”. Para as longas distâncias era a légua.166 Nessas imagens. Miguel da Rocha.Op. côvado. Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas. como enviar as vacinas e recomendar a vacinação. porém. porém. agarrado às tradições. Memórias Goianas. Urbano Coelho de. 170 Idem. 168 Em 1914.93 47 . p. o “sertanejo” aparece como um retrógrado. Os municípios deveriam ficar apenas com medidas preventivas. Op. o governador goiano denunciou a falta de aparelhamento do estado para impedir a expansão de epidemias em Goiás. Alegava-se que os serviços de saúde deveriam ser confiados ao estado.170 Em 1917. Belisário. 165 O quilo fora popularizado. o presidente de Goiás.cit. Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas. Ibidem. contudo. Com relação ao oferecimento do serviço de saúde. p.. como eram chamados os governadores na Primeira República.32 168 GOUVEIA. afirmou que vinha tomando as medidas cabíveis. nem o sistema métrico decimal e continuava utilizando medidas antigas como o palmo. Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas. Arthur e PENNA. existia a légua grande e pequena: “a grande quase nunca ultrapassa de 4 quilômetros. p. avesso a inovações e muito distante da modernidade presente na capital da República. 1911. atrasado. cit. Memórias Goianas . Miguel da Rocha. p. Memórias Goianas.170 Idem. 1906. são às vezes das mais disparatadas”. a 13 de maio de 1914.92. em 1911. por isso as informações concernentes à distância a percorrer. p.” 164 Poucos eram os professores existentes e o método de ensino era muito tradicional.61 169 PINTO. As pessoas mais pobres não conheciam o valor monetário da moeda em réis. vara e onça. Op.

Os sertões seriam distantes devido à dificuldade de acesso a produtos essenciais e pela manutenção do arcaico.nossa população”. encontradas no percurso da viagem com o intuito de provarem que os sertanejos estavam distantes dos meios técnicos disponíveis na sociedade moderna. Op. o pão só foi encontrado em Juazeiro e em Porto Nacional. no norte de Goiás.172 O pilão ainda ocupava o lugar do moinho de café. Arthur e PENNA. Belisário. 171 Apesar das tentativas de centralização da saúde em Goiás. ibidem 178 Idem.174 175 Idem. p. Os médicos anotaram que ficaram indignados com a situação de “profunda miséria e do abandono em que jazem milhares de seres humanos”. bem como o café.165 48 .165 173 Idem p. O sertanejo não utilizava o filtro de barro para filtrar água.177 Neiva e Penna fotografaram os instrumentos utilizados na transformação dos fios em tecidos. p. durante todo o trajeto da expedição científica pelo norte do país. Após percorrer dias e meses em sofrida viagem em lombo de 171 JUBÉ. Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas. a máquina de costura era repelida ou desconhecida. p. o sal era pouco utilizado. devido aos exorbitantes preços cobrados. p. denunciavam Neiva e Penna. O uso de candeia era generalizado.175 Também o vestuário era muito rudimentar. mamona ou cera de abelha ou carnaúba. mas o pão era desconhecido fora das cidades e vilas maiores. os adultos vivem andrajosamente”.157 172 NEIVA.173 Também não utilizava tulhas para guardar milho e feijão. “As crianças de ambos os sexos das famílias mais pobres. ou seja. presos a formas de viver e sentir de “três séculos atrás”. a aguardente e o querosene.176 Os pobres usavam roupas de chitas e calças de algodão. 178 Os moradores do norte de Goiás foram caracterizados como atrasados. as rodas de fiar e os teares.174 Na verdade. antigos. A farinha de mandioca era feita em toda parte. em 13 de maio de 1917. cit.167 177 Idem. Joaquim Rufino Ramos. Uma distância entre o litoral e os sertões que Euclides da Cunha já havia estimado em três séculos. andam nuas mesmo quando já estão bem crescidas. Em geral. tecido (no tear) e costurado a máquina ou a mão. Os sertões distantes seriam também marcados pela ausência de meios de transportes e comunicações modernas. Op. feitas de argila e alimentadas com óleo de animal. os habitantes dos sertões continuavam doentes e sem assistência médica. fiado. cit. registraram os médicos.213 176 Idem.173 174 Idem. p. p. Memórias Goianas.

encontramos o relato. pelo cavalo e pelas compridas fileiras de burros cargueiros. Rio de Janeiro: Instituto Geográfico e Histórico Militar. os médicos alteraram o roteiro previamente traçado. na estação chuvosa.182 A circulação de pessoas e produtos pelo norte de Goiás só se fazia enfrentando os dificultosos caminhos dos rios Araguaia e Tocantins ou as longas jornadas no lombo dos animais.181 No livro do juiz Eduardo Henrique Reminiscências de um Juiz. Arthur e PENNA. p.burros. os goianos ainda estavam na dependência dos carros de bois. dos barcos e das próprias pernas para se locomover. Partindo de Porto Nacional. p. p. em 1932. depois. cit. dos cavalos. para ir da cidade de Goiás a Porto Nacional. pelo medo de serem abandonados pelos barqueiros durante aquela 179 PEREGRINO. Argumentamos. Belisário. montado em lombo de burros. depois embarcando para o Rio e. Imagens do Tocantins e da Amazônia. Para Neiva e Penna a expedição aos sertões mais parecia uma viagem de volta ao passado. ao ser eleito deputado estadual em 1909. 1942. Op. A ausência de estradas foi muito sentida por Neiva e Penna durante a expedição. Foi o mesmo percurso que utilizou no ano seguinte para a volta”. cit. seguir por terra até a capital de Goiás. das tropas de muares.171 181 PALACIN. ele gastou 44 dias.42. entretanto. do Rio pela estrada de ferro até Uberaba e daí a lombo de burro até Goiás. cit. p. além de ter sido considerada uma questão importante para a construção do Brasil como nação. Eduardo Henrique de. 180 NEIVA. tendo que tomar posse em Porto Nacional. chamados de trilhos transitados pelo homem. com destino à cidade de Goiás. 180 Enfim. Eles haviam planejado ir até Conceição do Araguaia. que aquela ausência não impedia a circulação de pessoas e de mercadorias. o fato de não utilizarem vapores no comércio entre Porto Nacional e Belém e a inexistência de estradas de rodagem.15 182 SOUZA FILHO.13. Neiva e Penna criticaram a inexistência de meios de transportes modernos. Trafegava-se por caminhos. Op. Op. decidiu que o caminho mais longo seria o menos difícil: foi de “bote pelo Tocantins até Belém. ainda que de forma lenta e desgastante. e daquela localidade. Humberto. Palacín narrou as peripécias de um padre – o João de Souza Lima de Boa Vista – o qual. Luís. subir o rio Araguaia até Leopoldina (atual Aruanã) e. desistiram alegando dificuldades em contratar canoeiros para conduzi-los rio Araguaia acima até Leopoldina. Porém. cidade fundada pelos dominicanos no Pará.179 O transporte de cargas se fazia por meio de muares e os animais não eram ferrados. O Coronelismo no Extremo Norte de Goiás. 49 . segundo o qual.

com o objetivo de recuperar suas próprias forças.104 50 . com apenas três núcleos de população. em região despovoada e ainda pelo risco de não conseguirem encontrar uma tropa para transportá-los a Goiás. conhecer a realidade local e contratar nova tropa que os levariam até o terminal ferroviário mais próximo. do estrangeiro. concluiu que eles poderiam ser vistos como “os etnógrafos em seu contato e observação do outro. foi encontrado inicialmente nas caatingas do nordeste. 184 No diário aparece o cansaço daquela viagem. região da seca. portador de outra cultura e identificado com outras civilizações”. Eles foram em direção a Santo Antônio do Descoberto. no retorno para a capital de Goiás. indignados com as condições primitivas de existência nos sertões. Neiva e Penna olharam com desconfiança para a população local.220 185 LIMA. Nísia Trindade. Belisário. com vocação para regredir. o sertanejo. cansados daquela longa marcha por entre raros núcleos de populações “decadentes” ou. que eles construíram certas imagens dos sertões e dos seus habitantes. impermeável ao progresso.cit. ao tentar definir os cientistas. os médicos escolheram o caminho mais curto possível. pois foi a partir dos referenciais culturais dos médicos. Eles procuraram e encontraram outro mundo. distante 80 léguas. Amaro Leite e Pilar. porque o olhar foi o do outro. não dominada pelas mãos humanas. p. Op.183 Enfim. a quantidade de léguas percorridas.subida. Nísia Trindade. nenhuma delas com mais de 400 habitantes. p. de chegada. considerado muito atrasado. da qual anotaram apenas o essencial: o horário de partida. Arthur e PENNA. na imensidão da monotonia do cerrado. p. Op. Um Sertão Chamado Brasil. a decadência geral da natureza e dos homens. casos médicos. Acrescentaram ainda o fato de dois camaradas estarem doentes e profundamente abatidos..185 Não poderia ser diferente. chegaram à cidade de Goiás. sem a mínima noção de asseio pessoal e de conforto. Cit. O outro. de sua formação e inclusão em determinado “campo” e num determinado momento. Trinta e três dias após partirem de Porto Nacional. além da tristeza de ver tantos espaços não ocupados. uma natureza ainda virgem. num percurso de 160 léguas. vivendo de forma “paupérrima”.. Os médicos ainda permaneceram na capital goiana por treze dias. quase mil quilômetros. 183 184 NEIVA.213. ponto final da viagem a cavalo. distante do mundo “civilizado” da capital da República. Idem.

Tal ausência dificultava a comercialização do excedente da sua produção.levando uma vida muito primitiva. justificaram os referidos médicos. doente e abandonado. para a “civilização” do norte de Goiás. Porém. p. o norte goiano era muito mais amplo e se espalhava para muito além da sede do município de Porto Nacional. Op. para os padrões da sociedade da época. cit. Se o sertanejo às vezes aparece na narrativa como indolente. má alimentação. para Neiva e Penna a nação brasileira seria perfeitamente viável. da doença de Chagas que fez desta região. A ausência efetiva do Estado inviabilizava o trabalho e o espírito de iniciativa do sertanejo. ao ressaltar esse 186 187 NEIVA. na visão dos médicos. Ele não poderia ficar na dependência de ações benevolentes dos homens da Igreja. Uma obra grandiosa. porque os representantes do governo só apareciam para cobrarem impostos e a educação pública não funcionava. inviabilizava a formação de uma raça forte porque o sertanejo estava dentro de um círculo vicioso de doença. apegado às tradições e refratário ao progresso é porque ele era analfabeto. Por fim. caberia ao Estado assumir o seu papel. má habitação e abandono difícil de ser rompido apenas através de iniciativas individuais e isoladas. saírem daquele purgatório. limitados em termos de recursos financeiros e humanos.187 Neiva e Penna ressaltaram a importância da Congregação dominicana francesa. Aquela igreja se tornou um dos símbolos da capacidade e da distinção dos dominicanos. Belisário.181 51 . impedia a formação do sentimento de pertencimento à nação. p.186 Esse discurso da doença e do abandono foi repetido para descrever o sertanejo do norte de Goiás. Por fim. frente a outras congregações religiosas e ao clero nacional. o purgatório de Dante Alighieri. A construção arquitetônica da igreja também chamou a atenção. abandonado de toda e qualquer assistência. eles foram categóricos ao afirmar que os sertanejos não tinham condições.181 Idem. Porto Nacional se preparava para ser futura sede da diocese (1915) e os dominicanos representavam um “oásis de civilização no sertão”. A seguir vamos recuperar as avaliações que os médicos fizeram da religião e da medicina “popular” encontrada nos sertões goianos. Acreditamos que. A especificidade encontrada estava no maior número de analfabetos e na maior presença da doença. de sozinhos. Arthur e PENNA. Porém. Missionários bem preparados intelectualmente atuavam no colégio e nas missões. principalmente.

aspecto cotidiano dos sertanejos. porém os médicos perceberam essa religiosidade como cristalização da resignação e forma de resistência frente à precariedade da vida. Afinal. entretanto. da simpatia. Op. cit. O sertanejo seria um resignado que enfrentaria suas dificuldades cotidianas através da fé. p. In: Souza.190 Ela ressaltou a mistura de raças e vivências religiosas num todo específico. multifacetado e colonial e concluiu que as assimilações e seleções não são arbitrárias. onde uma assistência paroquial era dificultada pelas distâncias e pela própria ausência dos padres. Percebe-se que em grande parte. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. Op. não era de se esperar que esses médicos fossem tolerantes para com as práticas religiosas e médicas populares. 168 190 SOUZA. 189 A mesma conclusão a que chegou Euclides da Cunha ao analisar as práticas e crenças religiosas no interior da Bahia.3. 1. nem permanentes e nem definitivas.5 O catolicismo e a “terapêutica popular” no norte de Goiás Neste item procuramos recuperar um pouco mais da imagem do sertanejo comum presente no relatório Neiva e Penna. Ao percorrer Goiás.188 Porém. Ao nos aproximarmos do norte de Goiás e dos seus “pobres habitantes” desaparece completamente qualquer imagem idílica presentes na narrativa romântica. mas.1986. cit. O Brasil “modelado” na obra de Belisário Penna. a “ignorância” e as “superstições” nos sertões brasileiros. os médicos tinham por finalidade não apenas combater aquelas práticas consideradas distantes da religião e da medicina oficial. “revelar” o quanto os sertões estavam distantes do litoral. p. p. Tal religiosidade foi compreendida como 188 189 SÁ. além do aspecto dinâmico e significativo. Belisário. Neiva e Penna perceberam a predominância da religião católica entre a população. chamou atenção para a sua especificidade. “eivada de exageros e superstições”. a religião praticada no norte do estado de Goiás não diferia daquela vivenciada no Brasil rural. A religiosidade popular na colônia. eles se colocavam na luta contra as “trevas”. 52 . o quanto o sertanejo ordinário vivia na barbárie e poderia até representar uma ameaça para a nação que se queria projetar como moderna. da reza. São Paulo: Cia das Letras. A historiadora Laura de Mello e Souza. Arthur e PENNA.33. NEIVA. fundamentalmente. ao tratar da religiosidade popular na América Portuguesa. Dominichi Miranda de. O flagelo vivido naquele purgatório estaria associado à rusticidade reinante e ao embotamento da inteligência diagnosticada na vivência religiosa e na terapêutica utilizada. L. Laura de Mello e. 98-99.

209 53 .130.168 194 Idem. p. a falta de estradas. Além do mais. Essa imagem do sertanejo peregrino. todos papudos.192 As práticas populares estariam relacionadas às diferentes formas como as pessoas externam suas crenças religiosas de matriz católica. do cumprimento de promessas [tais] festas redundavam em grandes feiras e muita jogatina. Belisário. cerca de 60 pessoas. compartilhada no cotidiano das populações e que comportaria sempre novas assimilações. para melhorar as suas próprias vidas e não permanecer em atitude passiva. a falta de iniciativa e a fé conformista 191 Assim sendo. cit. as práticas da religiosidade popular são sempre práticas e crenças autênticas. 193 NEIVA. para os médicos. onde só não compareciam os velhos impossibilitados de longas caminhadas e os inválidos. significativas para as 191 192 Idem. “a par do pretexto feticista. para participar das festas religiosas e das romarias. Os próprios médicos já haviam ressaltado. de dinheiro e da impossibilidade de armazenamento dos produtos. vivenciadas.194 Os médicos viram com desconfiança essa intensa movimentação dos sertanejos pelo espaço dos sertões. Arthur e PENNA. pessoas e comunidades. ibidem. p. Porém. arraial próximo a Natividade. Neiva e Penna se depararam com uma leva de romeiros que retornavam da Chapada. prejudiciais aos “ingênuos caboclos‟”. lembra as “populações errantes” de Euclides da Cunha e retoma a imagem dos sertões como espaço da barbárie.uma experiência vivenciada. p. Então os médicos concluíram que estas festas ocorriam sempre após as colheitas e repetiam-se em vários pontos. eles deveriam empregar suas energias e parcos recursos no trabalho sistemático. Segundo Neiva e Penna as práticas religiosas nos sertões goianos beiravam ao fanatismo e contribuíam para aumentar o marasmo.193 Segundo eles. a caminho “de um lado para o outro em contínua peregrinação” pelos sertões. mulheres e crianças. essa gente “ingênua” poderia ser facilmente enganada pelos comerciantes que se reuniam nas feiras. esperando por milagres. a vivência religiosa dos sertanejos beirava ao fanatismo. significativa. no entanto. Segundo os autores. presente no relatório. mestiços e caboclos. Op. Idem. condições elementares para a dinamização econômica da região. colocava os fiéis em movimento. Eram homens.

197 SOUZA. p. 199 NEIVA. A maioria dessas orações encerrava dizeres para combater as epidemias. As embarcações ostentavam a bandeira do Divino Espírito Santo e raras eram aquelas onde também existia a bandeira nacional. Laura de Mello e. enfim. Belisário. amuletos e bandeiras para proteção das pessoas e comunidades. Missão da Igreja no Brasil. Em Almas. a imagem da coisa figurada”.197 O texto escrito seria o sinal da mediação entre os homens e o sagrado. em Porto Nacional. já que ele “distinguia mal o natural do sobrenatural. a proteção era confiada ao Espírito Santo. mas também a alegria da festa. também eram comuns. Uma das mais comuns consistia em escrever orações e pregá-las nas paredes das casas. ibidem. o sacrifício.198 Outros sinais imagéticos encontrados no norte goiano foram a cruz e a bandeira do Divino. Para os fiéis católicos o que interessava era a promessa feita e que se queria cumprir. o visível do invisível. p. Op. A chegada. a peregrinação. Cândido et al (Orgs). Francisco Corlaxo.168 200 Idem.199 Os patuás e amuletos. cit. distante dos centros urbanos e do litoral do país.de quem tudo esperava dos “céus”. Neiva e Penna registraram as práticas devocionais enraizadas no norte de Goiás. cit. 1973. com fórmulas mágicas. Segundo os médicos.196 O enorme apego dos fiéis aos aspectos externos e imagéticos da religião podem ser explicados pela ligação do homem com o universo mágico. 198 ROLIM. São Paulo: Loyola. patuás. participar de uma romaria fazia parte de um modo de vida que valorizava o movimento. Ibidem 54 . mais quando reina epidemia.200 As práticas religiosas poderiam se constituir em orações. e uma vez colocada. não se dissociava a penitência da fé e a fé. cruzes. o contato com as novidades presentes nas feiras. O diabo e a terra de Santa Cruz . nas viagens perigosas pelo rio Tocantins. Op. capazes de proteger seu portador. Para exemplificar o quanto os princípios religiosos católicos estavam sendo colocados em riscos pelos “ignorantes e supersticiosos”. Arthur e PENNA.84. dos barcos que regressavam do Pará era motivo de uma grande festa local. como poderia ser também uma relíquia ou uma imagem. Idem. por exemplo. não é mais retirada”. da festa. as sociabilidades. a cruz estava presente em todas as residências: “a cruz é feita não por ocasião da inauguração da residência. p. Para o fiel católico.195 Percebe-se que era difícil para os médicos compreenderem a lógica de uma vivência religiosa inserida no cenário peculiar de uma região agrária.91. Religiosidade Popular. a parte do todo. a busca da proteção do sagrado 195 196 Idem. In:PADIM. p. visível na exposição de seu estandarte.

203 Idem.201 Era. Ao que parece. com funções limitadas a distribuir sais de quinino). PATERNOSTRO. Nos povoados distantes. Ele explicou tal situação apontando para a inexistência de postos médicos (no seu trajeto pelo rio Tocantins só encontrou um posto médico em. Percorrendo o norte de Goiás em 1935. uma terapêutica regida pela lógica da fé. as práticas religiosas ali vivenciadas eram antigas porque faltavam padres comprometidos com a reforma dos fiéis. Paternostro questionava a eficácia dos próprios medicamentos vendidos pelos médicos nos sertões do Brasil. crendices e abuzões”. Ela estaria associada à fauna e à flora locais. no Pará. receitas de chás para quase todos os males e rezas. 161. Op. Apesar da sua lucidez. Paternostro percebeu a permanência dessa terapêutica utilizada nos sertões.231. Para estes. Júlio. estava surdo. Para os médicos. tinha dificuldades para se atualizar e adquirir um eficiente arsenal terapêutico. No norte de Goiás ele só encontrou o médico Francisco Ayres em Porto Nacional. prevalecia a adoção de práticas de saúde rotineiras e habituais. magnésia fluída e outra droga.fosse mais conhecido do que a bandeira nacional. bem como às “rezas. da crença e da tradição.202 Paternostro também ressaltou a falta de atrativos para os médicos nos sertões. assim como os outros médicos do interior do Brasil. portanto. 55 . p. Neiva e Penna perceberam também uma proximidade entre as práticas religiosas populares e a terapêutica praticada no norte de Goiás. Quanto aos sertanejos ricos ou pobres. na cidade de Marabá.que poderia se expressar de diferentes formas como naquelas que chamaram a atenção dos médicos.229. entretanto. e sempre havia um curandeiro encarregado de indicá-las e prepará-las”. ele tinha uma experiência de mais de 40 anos de exercícios. p. o médico de Porto Nacional. p. de farmácias e apenas a venda de alguns medicamentos como sulfato de quinino. segundo Paternostro. bicarbonato de sódio. eles recorriam primeiro aos recursos da terapêutica natural. em conseqüência da quininização prolongada a que se submetera. em casos de doenças. porém. “a terapêutica se resumia nas infusões de raízes e folhas. era inconcebível que um símbolo da religiosidade popular – a bandeira do Divino . cit. Normalmente o contato com os novos medicamentos eram feitos através das revistas de laboratórios farmacêuticos que possuíam objetivos mais comerciais do que científicos. sal amargo.203 Assim. encontrados nos “armarinhos” de algumas povoações. já conhecida e testada através das gerações. 201 202 Idem.

bebendo o sangue de galinha d‟angola. Dissertação em História: UnB.209 Ao acompanhar as narrativas dos médicos estamos diante de algumas práticas curativas que foram rompidas e de outras que. Op. Porém.Alguns procuravam também aos curandeiros. Acreditava-se que a fala ou a simples presença de certos indivíduos eram atribuídos poderes malignos que podiam ser associados à morte de pessoas. adicionado de limalha de ferro e limão. após recorrer às rezas e às medicações em uso. p. elas costumavam ingerir uma beberagem para limpar o útero. 2003. 56 .91. essa associação entre “medicina.162 208 Idem. Belisário. idem. p. p. pólvora. em alguns lugares.206 Também era normal a crença no chamado “mal olhado” e na reza “braba”. nem receber visitas no sétimo dia. 207 Idem.163 206 Idem. pois. pimenta. porém. curandeiros e benzedores eram figuras respeitadas e temidas nos sertões. os sertanejos acreditavam curar-se das doenças mordendo a chave do sacrário da igreja. 161-162. ela estaria presente numa população dispersa. As mulheres grávidas eram potencialmente possuidoras desses poderes e mal vistas. já a tesoura utilizada para cortar o cordão umbilical era colocada sob a cabeça da criança com o objetivo de impedir o mal de sete dias.208 Temia-se a morte do recém-nascido e utilizava-se de uma enorme quantidade de práticas para afugentá-la. Tanto para Neiva e Penna quanto para Paternostro os “dons” dos curandeiros e feiticeiros não passavam de superstições. querosene e os resíduos de alcatrão dos cachimbos em misturas com limão. Vera Lúcia. p. Idem. estes só eram procurados em último caso.204 Estes eram homens e mulheres a quem se atribuíam poderes sobrenaturais. talvez pelo fato de serem consideradas impuras. alho. permaneceram até os 204 205 NEIVA. usando álcool.205 Mesmo em localidades onde havia médicos. Segundo Neiva e Penna. Feiticeiros. Arthur e PENNA. Parteiras em Minas Gerais no Século XIX: saberes e poderes compartilhados (1832-1850). nem farmácia e nem remédios na região? Para Neiva e Penna pareceu inútil contestar os poderes atribuídos pelas comunidades locais aos curandeiros. cit. como contestá-los se não havia médicos. As conjuntivites eram tratadas com alcatrão dos cachimbos e. sal. como a de não sair do quarto e não ver a luz do sol. magia e religião” deveria ser divulgada. com baixa instrução e sem uma presença efetiva do Estado.207 O indivíduo picado de cobra não recebia visitas para evitar mal olhado ou outro poder maléfico. Após o parto. ibidem. 209 CAIXETA. em alguma medida.

Arthur e PENNA. alertou para a não aceitação dos médicos em algumas localidades. porque eles acreditavam que a medicina aliada ao Estado e à Igreja. Mas o pior seria a guerra que faziam ao casamento civil. porque foi confundido com o anti-Cristo. foi denunciada pelos médicos porque fazia guerra ao casamento civil. principalmente no que se referiam aos registros civis. Estes substituiriam as comadres. foram elogiados por representarem a parte da Igreja que se submeteu às leis da República e recomendava os registros civis. Belisário. Por outro lado. desde que a primeira se submetesse ao Estado. Assim. naqueles rincões Igreja e ciência não estavam em campos totalmente opostos.217-218.210 Para Neiva e Penna as práticas católicas e a “terapêutica popular” não foram consideradas perigosas para a República. Para “civilizar os sertões” além da presença do Estado. Os cartórios e os funcionários eram muito poucos frente à extensão do território. a medicina era uma ciência completamente separada da magia e da religião. Para os cientistas de Manguinhos. seria necessário também a ampliação da presença dos médicos.168 57 .Ele não conseguiu colher sangue na população de Piabanhas. Júlio. representada nos sertões goianos pelos dominicanos. que.p. já que as pessoas continuavam supersticiosas e presas a um modo de vida muito particular.nossos dias. cit. os benzedores. Porém. seria perfeitamente capaz de romper com elas. por isso. passou a ser repelido pelos sertanejos. foi possível acompanhar o olhar inquiridor dos médicos no sentido de verificar se a Constituição estava sendo cumprida em Goiás. Op. NEIVA. Durante todo o relatório. funções anteriormente exercidas pela Igreja e. os curandeiros e feiticeiros. não sem resistência desta. que havia se estabelecido no sul de Goiás e enviava seus missionários para percorrer os sertões. Ao contrário. a Congregação dos Redentoristas. p. Op cit. pelas rivalidades entre Igreja/Estado e pelo 210 211 PATERNOSTRO. por cobrarem pela realização de quase todos os sacramentos e por validarem os casamentos realizados na noite de São João. Neiva e Penna eram otimistas com relação a essa atuação da medicina nos sertões. Neiva e Penna reconheciam as dificuldades enfrentadas pela República para impor uma presença mais efetiva nos sertões. assumidas pelo Estado republicano. Os dominicanos. Os redentoristas foram chamados de “vis exploradores”. o médico Júlio Paternostro 26 anos após a viagem de Neiva e Penna. ao contrário dos redentoristas. Ao contrário do que se poderia supor.211 o que só dificultava o estabelecimento da República naqueles rincões.

O saneamento foi acompanhado de uma preocupação com o controle social. Vejamos os projetos de saneamento propostos por Arthur Neiva e Belisário Penna. Esse “campo” passou a ser interlocutor desse debate. em Porto Nacional. Caberia ao Estado e à ciência assumirem seus papéis.4 Um Projeto de Saneamento dos Sertões 1. mas o espaço dos sertões ainda estava aberto tanto para as missões religiosas. Estas ações já estavam sendo colocadas em prática pela Igreja. apegados às tradições necessitavam. perigosas para a República. Neiva e Penna narraram práticas religiosas e terapêuticas populares. de “ações civilizatórias”. 1. na área de saneamento do interior.1 O saneamento: um projeto “civilizatório” para os sertões goianos? A viagem de Neiva e Penna colocou em evidência não só o estado “mais central e desconhecido do Brasil”. educação e transportes foram considerados de fundamental importância e deveriam ser assumidos pelo poder público. por isso mesmo. Concebido a partir de critérios científicos. porque elaboradas por quem de fato conhecia aquela realidade.4. Homens doentes. Ela proporcionou à Fundação Manguinhos a ampliação de seu saber.que cada um representava. a ciência chegou a reconhecer que os dominicanos representavam “as luzes” dos sertões goianos. Pensou-se ainda na instalação de postos sanitários e na inadiável necessidade de distribuição de sais de quinino para os sertanejos. de profissionais. fornecedor privilegiado de “imagens” dos sertões que se queria superar. com o objetivo de denunciar a precariedade da vida no norte de Goiás. um projeto “civilizatório” não poderia e não deveria ser conduzido pelo Estado sem a adesão aos argumentos e orientações da medicina. No relatório Neiva e Penna apareceram sugestões para a construção do “processo civilizador” dos sertões apresentadas como o único caminho possível. mas também o próprio “campo médico”. abandonados. necessária para a consecução das ações do governo. porque passou a ser detentora de uma vasta gama de conhecimentos. no início da República. diagnósticos e prognósticos específicos para a construção do “novo homem” e do “novo país”. quanto para a prática de uma religiosidade e uma terapêutica popular prejudicial ao indivíduo e à sociedade. com urgência. 58 . Políticas imigratórias deveriam ser pensadas para possibilitar a entrada de inovações técnicas na agricultura. Saúde.

o impaludismo (malária) e o terrível flagelo dos sertões. eles procuraram e encontraram o purgatório. 1923. Rio de Janeiro: Jacinto Ribeiro dos Santos.54 59 . Belisário. Enfim. com a descentralização das ações e unificá-las. a doença de Chagas (tripanosomiase americana). Tal projeto poria fim na dispersão. com o título O Saneamento dos sertões. higiene e instrução. 2 ed. O Saneamento do Brasil. pelo norte do país. onde os “pobres párias” penavam seus pecados. 212 Podemos afirmar que durante a expedição científica de Neiva e Penna. centralizando-as. As idéias sobre o saneamento presentes no relatório Neiva e Penna foram ampliadas e publicadas em linguagem mais militante e combativa por Belisário Penna. Inicialmente. é moralisal-o. no jornal Correio da Manhã. através do saneamento surgiriam “novos sertanejos” e um “novo Brasil”. 213 Idem. Entretanto. desde que saneados os sertões. enriquecel-o. como justiça. com um esboço de um plano de saneamento rural. principalmente aquelas relacionadas às aéreas essenciais. Porém. Daí a pouco todo o Centro-Oeste passou a ser “a região do barbeiro” e todos os goianos portadores da doença de Chagas em suas várias modalidades. tratamento e profilaxia das endemias que devastavam a energia das populações rurais.. em inferno. seria necessário um amplo plano ferroviário. Assim. 213 Era preciso transformar medidas sanitárias em leis e regulamentos. amarelão e mal de terra). A primeira parte.Os referidos médicos defenderam também a transferência da capital para o Planalto Central. aquela era a região mais distante e menos conhecida de toda a área por eles percorrida. durante a campanha pelo saneamento Belisário Penna transformou o norte de Goiás. O sertanejo deveria ser integrado e curado até porque dos sertões não sairiam homens “prestáveis” para ingressarem no serviço militar e defenderem o país. elas circularam entre 1916 e início de 1917. Estes artigos foram reunidos no livro O Saneamento do Brasil (1918). apresenta a realidade dos sertões marcados pela ancilostomíase (opilação. Sanear o Brasil é povoal-o. Ora. a “reconstrução”. foi dedicada à etiologia. Dos sertões purgatórios passaram ao Centro-Oeste inferno. Na segunda parte. que colocasse todos os estados em comunicação com a capital. p. denominada de “demolição”. além de possibilitar a chegada do “progresso” a novos ambientes espaciais e sociais brasileiros. era fácil fazer dela símbolo dos sertões doente e abandonado. 212 PENNA. Fazia-se necessário acabar com a dispersão. No relatório os sertões foram representados como purgatório.

não apenas através do voto. Ano II. vol. A adoção dessas novas práticas higiênicas implicaria o rompimento com antigos preceitos. 218 Importante perceber o quanto essas narrativas alarmistas sobre a doença nos sertões abriram “caminho‟ para as reformas saneadoras empreendidas pelo Brasil afora. p. segundo Penna. A incorporação da população rural à nação se faria. que ocupavam o executivo e legislativo. jul/1929. 9. O saneamento do Brasil. n.Ano II. medidas fundamentais no combate à verminose. que será a sua incorporação real à civilização. imprudentes e ignorantes. p. Belisário. pintadas ou caiadas e cobertas com telhas.215 Belisário Penna pondera que “a educação higiênica do nosso povo.. convencer os bacharéis. mas quando se convencer de que deve construir a sua habitação de acordo com os preceitos da higiene”. mas pela adoção de novas práticas higiênicas. lavar as mãos antes das refeições e depois das defecções. o sertanejo deveria aprender a viver sem contaminar o meio ambiente. em todos os níveis. Os sertanejos deveriam também construir casas higiênicas. PENNA. 218 Idem. 217 Os habitantes dos sertões deveriam aprender a alimentar-se. perceber as vantagens e necessidades do calçado. 216 PENNA.. só se fará. p. percebeu o caráter tirânico das reformas “saneadoras”.214 Necessário seria também a instituição do ensino obrigatório da higiene nas escolas e nos colégios para que as novas populações aceitassem voluntariamente tais preceitos.Tornava-se urgente. Hygia: revista popular de medicina e educação sanitária. além de abster-se de bebidas alcoólicas. porém.131.160-348. Estas seriam enfim. Ibidem. abr/1919.180 217 Idem. utilizar-se de fossas e latrina. não quando ele souber ler e escrever. qualificados de negligentes. mas saúde sim. Belisário. Plano de educação de hygene na escola e no lar. n. p.2.2. a democracia não era fundamental. iluminadas e com paredes lisas. do valor da higiene nos empreendimentos nacionais.1-4. a beber água limpa. 219 A INFORMAÇÃO GOYANA. de votar leis (. cit. a defender-se dos insetos e parasitas transmissores e causadores de doenças. que vivia em São Paulo.219 “Cuida-se aqui em São Paulo. defendeu que tal projeto deveria ser implantado em Goiás. 60 . organizadas segundo os preceitos da higiene e formar normalistas preparadas para ensinar medidas e comportamentos higiênicos. Ibidem. A poetisa goiana Cora Coralina.216 Na sua concepção. Op.) reformar e melhorar a 214 215 Idem. Para isso seria necessário criar um modelo de organização rural através de “colônias agrícolas”. Enfim.

habitação e transportes no interior do país. no intuito muito louvável de expurgá-las do terrível barbeiro”. p.254. os representantes da nação também discutiram a questão.220 Esse vil inseto caiu na boca de “sábios e saneadores”. como os goianos reagiram a ver “sua terra e sua gente” no centro daquele debate? Como eles viram à caracterização dos sertões como espaço da doença e do abandono? Para os intelectuais goianos era possível concordar com a centralidade da doença de Chagas como principal problema do CentroOeste? É o que veremos no próximo capítulo. ele será expulso da nova habitação rural: “Oxalá que os goianos saneando e embelezando a velha cidade saibam lhe negar a hospitalidade da sua casa e a refeição do seu sangue”. educação. estes. 220 221 Idem. Op. além de descobrir e divulgar uma “variedade sinistra de doenças” ligadas ao barbeiro. Neiva e Penna não só apresentaram os problemas encontrados no percurso da viagem ao norte do Brasil como também apontaram suas soluções. O relatório transformou-se numa fonte importante para todos aqueles que se propuseram a conhecer o Brasil “real”. todavia.223 No Congresso Nacional. 223 SOUZA. 61 . 222 Idem. 222 Cora Coralina podia até criticar a tirania de algumas leis e medidas executadas no interior do estado de São Paulo. sobretudo no que dizia respeito à saúde.221 Sendo assim. ibidem. Porém. lagartos e escorpiões contra sua reputação. ibidem. estava convencida da necessidade de sanear a capital do seu estado natal: a velha cidade de Goiás. cit. concluindo oficialmente que é transmissor de gravíssimas enfermidades. ibidem. “vomitam cobras. Idem.habitação rural. A imprensa brasileira foi mobilizada acerca de um país praticamente desconhecido e criticou-se a ineficiência do Estado. Vanderlei Sebastião de. estando todos em guerra contra ele”.

buscaram as razões dos problemas que enfrentavam. que teriam sido os artífices dessa empreitada. da decadência e do abandono. um dos interlocutores de Neiva e Penna durante sua viagem pelo Norte do país. Nesse processo não perdemos de vista a constituição de um grupo de intelectuais goianos que por diferentes motivos se encontravam no Rio de Janeiro e se reuniram para a defesa do seu estado natal. A circulação e a apropriação das visões de Neiva e Penna sobre os sertões como espaço da doença. que se encontravam no Rio de Janeiro. A hipótese aqui defendida é a de que a Informação Goyana surgiu como uma estratégia dos intelectuais goianos. Apresentamos os diretores da Informação Goyana e seus principais articulistas. para divulgar Goiás e contestar as idéias divulgadas a partir da leitura do relatório Neiva e Penna e defender os interesses de Goiás. Na primeira parte deste capítulo tratamos da reação dos goianos frente à circulação das idéias de Neiva e Penna. em 1912. liderada por Belisário Penna. Buscamos nas páginas da revista os argumentos que eles utilizaram para contestar o relatório Neiva e Penna e suas apropriações. Estes. mas também o contexto da época marcado pelo início da circulação das idéias de Neiva e Penna. localizado no centro geográfico do país e transformado em “imenso hospital”.Capítulo II Em Defesa de Goiás: A Informação Goyana versus o Relatório Neiva e Penna A Informação Goyana foi fundada pelo jornalista goiano e militar reformado Henrique Silva. durante os treze dias que Neiva e Penna ali permaneceram após terem percorrido Goiás. analisado no capítulo anterior. provocaram indignaçãxfdtftgfdtho nos goianos. no Congresso Nacional ou através da Informação Goyana. dentre os quais enfatizaram a ausência de transportes. O fato de todos eles se identificarem como goianos ou amantes e defensores das coisas do interior nos ajuda a 62 . Este capítulo tem por objetivo fazer o contraponto entre as idéias dos intelectuais goianos. somadas à campanha materializada na Liga Pró-Saneamento do Brasil (1918-1920). Ao pensarmos nas condições de possibilidade que levaram à fundação da revista buscamos não apenas as trajetórias individuais de seus diretores. o que os deixavam distantes do impulso modernizador do litoral e da integração nacional. O encontro ocorreu na capital de Goiás. publicadas na revista A Informação Goyana e o relatório Neiva e Penna.

p. Carlos Chagas tentava minimizar os distúrbios endócrinos – o bócio – e reforçar os aspectos cardíacos. O importante aqui é perceber que existiam disputas dentro do campo médico e que. dos artigos escritos por Francisco Ayres da Silva. Dominichi Miranda de.1 Rio de Janeiro. A doença de Chagas e o movimento sanitarista da década de 1910.225 O que teria provocado a retenção do relatório Neiva e Penna nas oficinas de Manguinhos? Devemos lembrar que após a morte do Oswaldo Cruz. Assim.br/chagas/cgi/cglua. 227 Idem. Nísia Trindade e Dominichi de Sá afirmaram que a demora na publicação do relatório estaria associada aos interesses de Chagas que.1 A Informação Goyana Para Dominichi de Sá. Neiva distribuiu-o entre diretores de importantes jornais do Rio de Janeiro e São Paulo. a diretoria do Instituto ficou nas mãos do Carlos Chagas. naquele momento. saúde-Manguinhos. especificamente. Vol16. Affonso Taunay. diretores daqueles jornais e a Revista do Brasil fundada em 1916. Na segunda parte desse capítulo tratamos. foi um dos interlocutores de Neiva e Penna nos altos sertões.1. o relatório Neiva e Penna não foi publicado em 1916. ciências. Simone Petraglia e LIMA. 2 . Nísia Trindade. porque além de médico “da roça” e deputado federal. pois referendaria os argumentos dos seus adversários. 225 Idem.2009. A fundação da Informação Goyana mostra a vontade coletiva desse grupo de formalizarem um projeto em favor da região e ao mesmo tempo. ibidem. mas em 1918. Supl. Carlos Chagas teve que elaborar uma nova 224 SÁ.227 Como já vimos. por Júlio de Mesquita e assumida por Monteiro Lobato em 1918. 226 Naquele contexto de controvérsia científica. em 1917. In: História. www.pensar sobre a especificidade desses intelectuais.htm?sid=57. p. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina: a repercussão do relatório médico de Aerhur Neiva e Belisário Penna (1917-1935). recebia sérias críticas de pesquisadores argentinos sobre o desenho clínico da doença de Chagas.axe/sys/start.1 Imagens dos Sertões na Informação Goyana 2. acessado em 20/06/2011. 226 KROPF. p.1 63 . Gil Vidal.188. Jul. como o Correio da Manhã e o Correio Paulistano. no relatório Neiva e Penna a “tireóide” foi utilizada como critério primordial para definir a presença da doença de Chagas na região percorrida.224 Entretanto.1. sua publicação poderia ser utilizada contra Carlos Chagas. de se inserirem no âmbito de uma comunidade científica. todos estes periódicos divulgaram artigos a partir da leitura do relatório Neiva e Penna.fiocruz. diante das pressões. literária e/ou no espaço político regional e nacional.

pelos intelectuais do Rio de Janeiro e São Paulo.400 km².. E dizia que as notabilidades científicas de Manguinhos acabavam de lá encontrar o paludismo. para Gil Vidal. com o título: “A eliminação do brasileiro”. em especial. ibidem.) asseverou a redação do nosso confrade que o 64 . se houvéssemos transferido a sede do governo federal para o planalto central antes de estar realizada a obra colossal do saneamento do vastíssimo sertão brasileiro”. Ele afirmou ter escrito uma carta ao Gil Vidal. Porém. no editorial provavelmente de Gil Vidal. (. Correio Paulistano e na Revista Brasil poderia ser extremamente prejudicial para Goiás. 231 Idem. porém.caracterização clínica da doença. suas idéias ganharam divulgação através da imprensa. a leishmaniose. “Em dezembro de 1916 o Correio da Manhã afirmou que estaríamos em maus lençóis se a capital do Brasil viesse um dia ser localizada na área do planalto central. O Diretor desta revista teve então oportunidade de endereçar àquele matutino uma carta. como resposta ao artigo “a eliminação do brasileiro”. ibidem. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina. Gil Vidal se negou a publicá-la.231 O que nos interessa é a reação dos goianos frente às apropriações das narrativas de Neiva e Penna que transformaram o Brasil e. Este citava sempre o relatório Neiva e Penna como “ilustração da denúncia de Miguel Pereira”. Idem.. contestando em termos serenos e dizendo que nenhum médico desses poderia ter feito pesquisa nesse local e nem tampouco na área de 14.229 Assim. antes disso. Dominichi de Sá identificou o início da circulação do relatório num artigo do Correio da Manhã na segunda feira. que havia afirmado ser o Brasil um “imenso hospital” e ressaltou que os médicos de Manguinhos revelaram o “verdadeiro” sertão brasileiro. no mesmo dia. Ele endossou o médico Miguel Pereira.232 Depois desse episódio Henrique Silva começou a se articular para fundar A Informação Goyana lançada em agosto de 1917. Henrique Silva percebeu que a leitura acrítica das idéias de Neiva e Penna. 188.)”. 230 Idem. escolhidos para a capital do Brasil... 228 229 SÁ. Dominichi Miranda de. como prova da existência do “Brasil-imenso-hospital”. Esse conflito atrasou a publicação do relatório Neiva e Penna. 23 de outubro de 1916. Goiás. diretor do Correio da Manhã. Op. principalmente quanto à transferência da capital para o Planalto Central.228 O editor afirmou: “podemos avaliar em que camisa de onze varas nos teríamos metido. p. a moléstia de Chagas e outras enfermidades perigosas. cit. em imenso hospital. ibidem. 232 Para Henrique Silva não era possível aceitar que uma missão enviada por Manguinhos que nem chegou a percorrer a área demarcada para a futura capital do país pudesse dar margem a interpretações contrárias à interiorização da capital federal. conforme deliberaram os legisladores constituintes. Miguel Pereira teria razão ao “delinear com a maior riqueza de detalhes o quadro negro do inferno brasileiro (. no Correio da Manhã.230 A repercussão do editorial abriu espaço para que o jornal passasse a publicar artigos de Belisário Penna sobre “o saneamento dos sertões”.

filho de Bartolomeu Bueno da Silva. achando-se este local no centro da aludida área geográfica?” Ver:SILVA. A verdade sempre aparece. Arthur Neiva e Belisário Penna lá estiveram em Comissão do Instituto de Manguinhos. nos sertões brasileiros. Era necessário. 235 Americano do Brasil só ficou na direção da revista entre agosto de 1917 a março de 1918. considerado o “mais central e desconhecido do Brasil”. A Informação Goyana.5. vol. p.233 Sugerimos que a revista goiana funcionou como um instrumento legítimo de divulgação do “verdadeiro” Goiás. O Correio deliberou não publicar essas provas. A Informação Goyana foi uma publicação mensal editada entre agosto de 1917 a maio de 1935 de forma ininterrupta. sobre a missivista laborava grave erro. como ele cognominado “O Anhanguera”.(.. era editada no Rio de Janeiro e pretendia divulgar o estado de Goiás.235 Henrique Silva foi militar. o grupo de intelectuais que se reuniu em torno da revista Informação Goyana defendia um conjunto de idéias e de ações.80. da grandiosidade da sua fauna.. em 1918. Ver: LATOUR.). fev/1918. Esse grupo estabelecia suas fronteiras. Anteriormente. pois. porque não lhe convinha destruir as capciosas afirmações da véspera nem tão pouco desmentir os emissários de Manguinhos. Ele deixou o cargo para assumir junto ao estado de Goiás a Secretaria do Interior e Justiça. Arthur Neiva e Belisário Penna para confirmar de vez que estes jovens cientistas na sua excursão nem sequer avistaram os lides da área de 14. 234 Henrique Silva faleceu em 1935 e após esse fato encerrou-se as atividades da revista. visando à descoberta e exploração do ouro. escritor. mas também como estratégia de construção da identidade dos intelectuais goianos. além de ter participado da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil. da necessidade de afirmar seu futuro projetado como “celeiro da nação” e local das futuras instalações da capital da República. seu editor tinha grandes dificuldades para mantê-la e nos últimos anos ela só teria sido publicada graças ao patrimônio pessoal de Henrique Silva. poderiam esses viajantes apressados fazer pesquisas científicas no local escolhido para a futura capital da União. Jorge. n. Essa comissão foi constituída em 1892. entre 1722 e 1725. Goiás: uma nova fronteira humana. Na verdade.7.. Tal empreendimento foi chefiado por Bartolomeu Bueno da Silva. Dirigida pelo Major reformado Henrique Silva (1865-1935) e pelo jovem médico Antonio Americano do Brasil (1892-1932).. que se amoitaram.ligado aos bandeirantes paulistas -. jornalista e grande responsável pela fundação e manutenção da Informação Goyana. os não goianos ou aqueles que não conheciam Goiás.400 km² demarcada pela Comissão Cruls para o futuro Distrito Federal da República! Como. p. sul do Piaui e de norte a sul de Goiás pelos Drs. flora. “fazer ver e fazer crer” que o “verdadeiro” Goiás era aquele “revelado” por um dado grupo.. Ano II. Henrique.Na disputa pela definição do que seria o Brasil Central. Rio de Janeiro: Conselho de Imigração e Colonização. 234 Foram cerca de 210 números. Essas idéias passavam pelo melhor conhecimento do interior brasileiro. 1949. sudoeste de Pernambuco. os intelectuais goianos ou amantes e conhecedores das terras goianas. 65 . portanto. pois os Drs. ele teria colaborado com inúmeros jornais no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. das suas águas e do seu passado . Mas acaba de vir a lume nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz tão sensacional Viagem Científica pelo Norte da Bahia.2. 233 É preciso lembrar que Goiás surgiu a partir de um grande movimento dos bandeirantes paulistas. Ela era considerada sua obra pessoal.

No ano seguinte. O “Art 3ª Fica pertencendo à União. Antônio Azevedo Pimentel. incumbida da missão de estudar. em 1918. reconhecer e delimitar a área do futuro Distrito Federal. diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro. ganhou fôlego ao ser incluído como dispositivo constitucional. deputados federais.9-19 238 Americano do Brasil envolveu-se em conflitos amorosos e foi assassinado aos 41 anos de idade em Santa Luzia (Luziânia) em abril de 1932. Os colaboradores da revista foram considerados “os mais competentes e conhecidos sabedores das coisas do hinterland brasileiro”. ela se tornou um dispositivo constitucional. p. O médico Americano do Brasil escreveu vários livros sobre Goiás. 2 ed. Foi assassinado pelo marido da sua amante em Goiás.237 Ele reuniu documentos oficiais em sua secretaria e redigiu para o Instituto Histórico e Geográfico um resumo da História de Goiás. 1985. quando se estabeleceu na Constituição Federal. Brasília: Senado Federal. no Planalto Central da República. O doutor Antônio Americano do Brasil. Introdução. para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”. Americano. uma esperança. no início da República. foi aluno e depois professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. na primeira Constituição Republicana. ex-aluno da Praia Vermelha e Francisco Ayres da Silva. Ver: WWW.400 quilômetros quadrados. Elegeu-se deputado federal em 1921 e em 1922 foi sancionado um projeto de lei de sua autoria. mas principalmente a Varnhagen. Em 1917. uma zona de 14. em 1932. que será oportunamente demarcada.academiagoianiense. Humberto Crispim. outro editor do periódico. Hugo de Carvalho Ramos e seu irmão Victor. médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Ver: SILVA. fundou com seu tio-avô Henrique Silva A Informação Goyana e. In: BRASIL.238 Henrique Silva e Americano do Brasil mantinham relações com um grupo de goianos que ajudaram na elaboração da revista A Informação Goyana.org. além da poetiza goiana Cora Coralina. Cursou Medicina na Faculdade da Praia Vermelha. e do escritor regionalista mineiro Afonso Arinos de Melo Franco. era sobrinho neto de Henrique Silva. 66 . Entre eles. 237 BORGES. Goiânia: UFG. retornou a Goiás para assumir a Secretaria de Estado dos Negócios do Interior e da Justiça. 1892. (Coleção Documentos Goianos).presidência do engenheiro belga Luiz Cruls. Olegário Pinto. mandando lançar no Planalto Central a pedra fundamental da futura Capital do Brasil. Brasília: um sonho. foi organizada a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil. no estado de Goiás.br. sob a direção de Luiz Cruls. Ernesto. porém. Pela História de Goiás. ambos estudantes de direito no Rio de Janeiro. uma realidade.236 Este projeto. 1980. entre outros. médico higienista que participou da “Comissão Cruls”. Devemos 236 A idéia da interiorização da Capital do Brasil foi atribuída a José Bonifácio. pensado desde a Independência do Brasil. que residia em São Paulo.

mencionar também o apoio que Henrique Silva e a revista receberam dos governadores de Goiás e do historiador Capistrano de Abreu, contrários ao relatório Neiva e Penna. No frontispício da Informação Goyana aparece a finalidade daquele periódico: “Revista mensal, ilustrada e informativa das possibilidades econômicas do Brasil Central”. O primeiro número da revista trouxe a justificativa de uma publicação que pretendia levar a informação e fazer a “propaganda das incomparáveis riquezas nativas do hinterland brasileiro”.239 Em seus inúmeros artigos a revista buscou mostrar Goiás “o que é, o que tem, o que vale, do que necessita”.240 No editorial de lançamento da revista foram definidos os seus objetivos. Ela trataria de “colocar diante dos capitalistas, dos industriais e dos comerciantes as possibilidades econômicas sem conta do Estado mais central e menos conhecido do Brasil (...)”.241 As inúmeras matérias da revista refletiam a própria identidade assumida pelos seus colaboradores. Ela se propunha a ser ao mesmo tempo científica, literária e política.242 Assim, o periódico publicava, além de artigos “científicos” sobre Goiás, poesias, folclore, lendas, literatura e história dos “pró-homens” do sertão e questões que afligiam os goianos, como as definições das suas fronteiras geográficas. Misturado a todos esses temas, estava o desejo de ver Goiás integrado ao restante do país e de demonstrar “cientificamente” que o estado mais central do Brasil estava fadado a cumprir importante papel no futuro da nação brasileira. Os editores também definiram o público alvo de sua revista.243 Seus leitores deveriam ser um público seleto, encontrado entre os homens de negócio, os políticos, a imprensa da época e os próprios goianos. Henrique Silva e Americano do Brasil esperavam que seus leitores investissem em Goiás e ajudassem a divulgar as possibilidades econômicas daquele estado. A confiança na contribuição de Goiás para o futuro da nação estava presente no final da justificativa dos editores da revista Informação Goyana: “Goiás ocupa o centro geométrico do Brasil, e não carece, pois, de razões geográficas para

239

BRASIL, Americano e SILVA, Henrique. Editorial: “A Informação Goyana”. A Informação Goiana. Ano I, vol.1. n.1, ago/1917. p.1 240 SOUZA, Alves. Conheçamo-nos! A Informação Goyana. Ano VII. vol.7. n. 2, set/1923. p.10. 241 BRASIL, Americano e SILVA, Henrique. Editorial: “A Informação Goyana”. Op. cit. p.1, 242 Idem, ibidem 243 Idem, ibidem

67

representar ainda um importante papel social e econômico na grandeza futura da nossa nacionalidade”. 244 O relatório da missão Cruls, aquela comissão incumbida de demarcar no Planalto Central a área da futura capital da República, foi amplamente utilizado em defesa de Goiás. Nele encontramos a seguinte citação: “ver-se-á que o sertão goyano não é precisamente „um vasto hospital‟, como por aí corre”.245 Para o médico sanitarista daquela comissão, Azevedo Pimentel, a área demarcada possuía um clima salubérrimo: “a infecção palustre, que na opinião de todos os médicos é a nota característica da patologia intertropical, é excepcionalmente rara em toda a área do planalto central”.246 Ele defendia a salubridade de Goiás e a viabilidade da instalação da futura capital do país no Planalto Central. Pimentel era reconhecido como pertencente ao grupo dos goianos, amante e defensor das coisas goianas, ao contrário dos “outros”, principalmente Neiva e Penna que “difamavam” os sertões brasileiros. A Informação Goyana tentou “revelar” Goiás, mostrar suas possibilidades, seus dilemas e contestar o relatório Neiva e Penna. Americano do Brasil ressaltou a variedade e opulência da flora goiana, porém ainda não classificadas.247 O goiano, militar e também exintegrante da Comissão Cruels e articulista da revista, J. Curado, argumentou que o clima de Goiás era bom, agradável e variado. 248 O estado contaria ainda com extensas florestas e pastagens, além de riquezas minerais incalculáveis. Seria necessário, porém, cuidar melhor do interior do país, uma vez que foi deixado a sua própria sorte, fascinado pelo que “é exterior e estrangeiro”.249 Enfim, o sertanejo na sua maioria seria bom, honesto e tradicionalmente hospitaleiro.250 Henrique Silva sublinhou que Goiás era o único estado que tinha ligação com os principais sistemas hidrográficos do Brasil: o amazônico, o platino e com o São Francisco, artérias fluviais fundamentais para a interligação do Brasil.
251

Victor de Carvalho Ramos

244 245

Idem, ibidem BRASIL, Americano e SILVA, Henrique. Goiás na Patologia. A Informação Goyana. Ano 2. vol.1. n.9, abr/ 1918. p.109 246 PIMENTEL, Azevedo. O Clima do Planalto de Goiás. A Informação Goyana. Ano I, vol.1, n..1,ago/1917. p.6 247 BRASIL, Americano. A vegetação e a fertilidade do solo goiano. A Informação Goyana. Ano I, vol. 1, n.1, ago/1917. p.2 248 CURADO, J. J. O clima goiano. A Informação Goiana. Ano I. vol.1. n..3, out/1917. p.33. 249 Idem, ibidem. 250 Idem, ibidem. 251 SILVA, Henrique. A riqueza ictiológica de Goiás. A Informação Goyana. Ano I. vol.1. n.1,ago/1917. p.8

68

fez questão de ressaltar a majestade do céu equatorial, a exuberância da terra virgem e suas fabulosas riquezas, além de ser cortado por artérias fluviais viáveis à navegação. Ele lembrou ainda o papel criativo dos sertanejos na fabricação de objetos e enumerou os produtos de exportação e importação de Goiás.252 Os editores do periódico argumentaram que as riquezas produzidas no estado eram desconhecidas, principalmente, devido à ausência de estatísticas oficiais e da precariedade dos recenseamentos. Segundo Americano do Brasil um dos sérios problemas de Goiás estavam na sua indefinição cartográfica. Segundo ele, por conta dos recenseamentos mal feitos e das fronteiras do estado ainda indefinidas, os goianos ignoravam ou desconheciam a totalidade dos seus moradores.253 Henrique Silva também lembrou que o estado apresentava problemas de definição na cartografia nacional.254 Outro articulista ressaltou o terror das populações rurais com relação ao recrutamento militar.255 Durante a Primeira Guerra Mundial, e “sob a liderança de Olavo Bilac e da Liga de Defesa Nacional, acentuou-se a importância do alistamento militar, considerado essencial para a soberania e afirmação da nacionalidade”.256 O fato de poucos goianos se alistarem seria uma prova, para a imprensa nacional, do deserto humano nos sertões. Porém, para os intelectuais goianos, o não alistamento seria uma forma de resistência dos sertanejos pobres frente a um Estado que não estava presente no seu cotidiano. Prevalece na Informação Goyana a concepção de que Goiás era mais rico, mais populoso, mais acolhedor e produtivo do que se divulgava. Havia uma tendência à sua idealização. Quanto aos recursos humanos, eles não seriam inaproveitáveis e inaptos para o trabalho conforme afirmaram Neiva e Penna. Enfim, Goiás possuía seus problemas principalmente relacionados às distâncias porque faltavam meios de transportes que possibilitasse a dinamização da economia local e boas estatísticas - mas também possuía enormes possibilidades.

2.1.2 Os intelectuais goianos versus Arthur Neiva e Belisário Penna

252

RAMOS, Victor de Carvalho. Um mundo desconhecido. A Informação Goyana. Ano I, vol. 1. n. 1. Ago/1917. p.9-10 253 BRASIL, Americano. .Pela história de Goiás. Goiânia: UFG,1980. p.53. 254 SILVA, Henrique. A população de Goiás. A Informação Goyana. Ano I.vol.1. n.2, set/1917. p.19. 255 R. C. A população de Goiás. A Informação Goyana. Ano IV, vol. n.7, fev/1920. p.79. 256 LIMA, Nísia Trindade. Um Sertão Chamado Brasil: intelectuais e a representação geográfica da identidade nacional. Rio de Janeiro: IUPERJ, 1999. p.105.

69

A primeira referência direta ao texto de Neiva e Penna na Informação Goyana foi feita por Henrique Silva no seu artigo “Viajores – mas superficiais observadores” em março de 1918.
257

Este afirmou terem “vindos à luz nesses últimos dias” os tão

proclamados trabalhos sobre o Brasil Central. “Temos sobre a nossa mesa de trabalhos dois desses volumes: Viagem Científica... pelos Srs. Arthur Neiva e B. Penna e „Rondônia‟ de Roquete Pinto”. Para Henrique Silva tais obras já nasceram consagradas porque seus autores eram “notáveis membros da Academia Brasileira de Ciências”.258 Ele concluiu seu artigo afirmando que a Viagem Científica Pelo Norte da Bahia, Sudoeste de Pernambuco, Sul do Piauí e de Norte a Sul de Goiás estaria cheia de “passagens contraditórias, inverossímeis”.259 Ora, para os intelectuais goianos não era possível concordar com o cenário “dantesco” descrito para o Brasil-Central. No relatório Neiva e Penna, Goiás seria, por excelência, a terra da doença de Chagas, das cafuas e dos portadores do bócio. 260 Os intelectuais goianos entraram na disputa pela definição do que seria a região e por uma caracterização positiva sobre o interior. Enfim, todos os colaboradores da Informação Goyana eram reconhecidos como “nossos” porque defendiam os interesses da terra e da gente goiana, enquanto Neiva e Penna eram os “outros” acusados de criar um “retrato” negativo de Goiás, de difamar a terra e os homens do interior. No geral, os diretores e articulistas do periódico buscaram desqualificar o relatório Neiva e Penna alegando que eles não agiram de forma científica. Através dos artigos do periódico eles expressavam suas visões sobre os sertões goianos e contestavam as conclusões dos médicos de Manguinhos. De acordo com o médico Americano do Brasil, Neiva e Penna não ousaram se distanciar das velhas trilhas “dos primitivos bandeirantes, as quais hoje ainda constituem as estradas reais, geralmente cerceando os espigões e cabaceiras e evitando as ensombradas matas percorridas pelo gentio”.261 Percorrer rapidamente os sertões pelos antigos “caminhos reais” não lhes daria o direito de tirar conclusões apressadas sobre Goiás e “despi-lo em proveito de outras regiões sem
257

SILVA, Henrique. Viajores – mas superficiais observadores. A Informação Goyana. Ano II, vol.1, n.8,mar/1918. p.91. 258 Idem, ibidem 259 Idem, ibidem 260 KROPF, Simone Petráglia. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde, nação. Tese de Doutorado em História: UFF, 2006. Acessívem em: ged.1.capes. gov.br. p.184. acessado em 20/06/2011. 261 BRASIL, Americano. A vegetação e a fertilidade do solo goiano. A Informação Goyana. Ano I. vol.1. n. 1, ago/1917, p.2.

70

265 Alguns detalhes foram citados nos artigos da Informação Goyana para provar que o estudo realizado pelos referidos médicos foi muito superficial. Suicidou-se em 1921. ele mostrou a Neiva um catálogo que publicou com material zoológico da mais completa coleção de peixes característicos das bacias do Araguaia e Tocantins.1. A. Vol 1. n. p.1. 268 EUZÉBIO. na verdade. Ano II.267 Em vários artigos da Informação Goyana o argumento era o mesmo: os “médicos de Manguinhos” erraram nas suas descrições e julgamentos porque na verdade não conheceram Goiás. da raça leiteira comum na região. 264 E por serem viajantes não acostumados com as longas marchas a cavalo. n. a ignorância generalizada sobre a região. Era esse desconhecimento que possibilitava a sua transformação em “vasto hospital de paludicos. vol 2. 269 BRASIL. Ano I. ibidem. matriculou-se na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais no Rio de Janeiro em 1916. Literato goiano. Se a vaca não foi mencionada é porque os “enviados de Manguinhos”. p. 267 SILVA.possibilidades de esforço humano.5 dez/1917. A Informação Goyana. Henrique. enfim. “compendistas” e “ensaístas” pouco ou nada conheciam além das florestas da “Gávea e Tijuca e a vegetação de climas europeus de nossas avenidas asfaltadas”. Americano do. Ano II. A Informação Goyana. A Informação Goyana. A vegetação e a fertilidade do solo goiano.1. glorificando assim a própria ignorância e insuflando uma antipática campanha contra as riquezas naturais do Alto Sertão”. Aiêtê. p. vaca normalmente sem chifres. Pela fauna do Brasil Central: retificações e refutações. A Informação Goyana. abr/1918. cafarnauns. ago/1917. povo de papudos e crioulos”.4.263 os “médicos de Manguinhos” „erraram‟ ao pretender “surpreender as complexas modalidades do habitat sertanejo numa viagem apressada. Ano II.161.266 Durante o encontro de Henrique Silva com Neiva e Penna na capital goiana.262 Para o escritor goiano. A vaca mocha de Goiás. 269 262 263 Idem.93. em 1917 publicou seu livro: Tropas e Boiadas. ibidem. Ano I. N. pouco ou nada sabiam sobre Goiás. acabaram ficando sem ânimo e “estímulo para um estudo mais detalhado e completo do que seja realmente o nosso interior”. feita toda ao longo das estradas comerciáveis”. A Informação Goyana. julho de 1918. p. p.37 265 Idem. Isto ocorria porque os enviados eram “curiosos”. Vol. out/1918. terra adversa à civilização. 268 Permanecia. “esses excursionistas de Manguinhos” não fizeram nenhuma referência à coleção vista e descreveram peixes de regiões goianas que sequer visitaram. Henrique. n.1. Hugo de Carvalho Ramos (1895-1921). Hugo de Carvalho Ramos.9. Hugo de Carvalho.106. Vol. O que mais chamou a atenção foi o fato de Neiva e Penna não mencionarem a „vaca mocha de Goiás‟.2 71 . N. 264 RAMOS. vol. em 1912. 266 SILVA.12. Porém. O interior goiano.

Igual fato se observa nas cidades das regiões infectadas‟. em artigo A Noite. porém. A favor de Goiás: assuntos sanitários. pior que o relatório Neiva e Penna. de 20 de agosto: „Na capital de Goiás não há casos de doença na zona urbana. p. uma referência ao Triponosama Cruzzi. reduzido.S. região tida como universalmente contagiada pela doença?271 Para o diretor da revista aquelas certezas propagadas por Belisário Penna não correspondiam às pesquisas 270 SILVA. Ela abunda nos bairros e é universal nos subúrbios construídos de casas apenas barreadas e inçadas de barbeiros infectados de tripanosoma Cruzi. em número. por que agora Penna dizia que todos eram “triponogoianos”. se a infestação é universal não atinamos porque S. Belizário através de dois momentos de seus inglórios escritos para o público e veremos que o afamado médico higienista está em contradição consigo mesmo.Porém. n. 1. foram as publicações de Belisário Penna. por que no relatório concluíram terem sido infrutíferas as pesquisas realizadas para encontrar um barbeiro contaminado no norte de Goiás. bastante habitada por gente sadia em sua maioria‟.4. Diz S. 270 Para Henrique Silva. de Carlos Chagas? Henrique Silva desconfiou das generalizações e questionou: se agora Penna afirma que “é absoluta a relação entre a presença da doença e a do barbeiro infectado”. Se no relatório eles afirmaram que a região sul do estado era habitada por maioria sadia. A Informação Goyana. bem construída. É o que se pode ver no artigo de Henrique Silva “Em favor de Goiás: assuntos sanitários” no qual este se propôs a mostrar as incoerências do discurso de Penna comparando seu artigo do periódico A Noite com a o relatório: Desde muito o Sr. pelo menos no que concerne a Goiás.S. ao traçar as suas apreciadas notas para as Memórias de Manguinhos tem passagens como esta: „Em toda a região (refere-se à capital e ao sul). Em outra passagem: „a região sul do Estado. sendo ainda mais reduzido o número de doentes com as modalidades mais graves da moléstia‟. ibidem 72 .3 271 Idem. encontram-se portadores de bócio. vol. Belizário Penna constituiu-se o mais infatigável arauto da difamação das nossas coisas e sob o fundamento de uma campanha patriótica de saneamento nada lhe escapou ao alfange ferino e mordaz. Belizário Penna era “o mais infatigável arauto da difamação das nossas coisas”. Mas estudemos os ditos do Sr. Ano V. Sob pretexto da publicação a que aludimos o grande arauto dos maldizeres investe novamente sobre todos os Estados do Brasil e de seus habitantes reduzidos à pestilência completa. Este conseguiu ampliar as características negativas de Goiás. além de perder qualquer relação com a cientificidade. Mas se assim é. Henrique. zona que nos propomos a estudar. ago/ 1920. na concepção dos intelectuais goianos.

anteriormente criticado por falta de cientificidade. Jun/1998. Vol. p. 275 O diretor da Informação Goyana considerou um despropósito o fato de Neiva e Penna querer destruir a idéia de comunhão nacional naquele contexto. em relação à doença de Chagas.p. caberia ao cientista respeitar os moradores dos sertões. de Goiás. ago/1920. Os Sertões redefinidos pelo movimento da Primeira República. sobretudo. Gilberto. vol.. saúde-Manguinhos. ciências.272 Para Henrique Silva havia ainda. para Neiva e Penna era “um dever de consciência e de patriotismo” denunciar a situação de doença. aquele era o contexto da Primeira Grande Guerra. saúde e nação (1909-1962). que realçava a doença de Chagas como símbolo da “doença do Brasil” e. Henrique. a consciência patriótica ordenava a não utilização política do relatório. Logo ali.274 Para Henrique Silva.199. Ora. UFF: 2006.. 73 .capes.gov. Disponível em: ged1.br. p. Tese de doutorado em História. 273 Se assim era. supl. Porém. Eles questionavam as fragilidades da teoria elaborada por Carlos Chagas em torno de certos enunciados da doença. Simone Petraglia. Ano V.V. Doença de Chagas.feitas. a relação entre bócio e doença de Chagas e a ampla contaminação dos sertanejos não seriam tão evidentes e generalizadas como ele agora queria fazer crer. ao contrário. A favor de Goiás: assuntos sanitários. p. determina e ordena não sejamos demolidores contumazes e reincidentes”. doença do Brasil: ciência. A Informação Goyana. momento de fortalecimento da idéia de um “nós” coletivo. n. O que o diretor da revista questionou foram as afirmações categóricas do líder da campanha pró-saneamento (1918-1920) que extrapolavam as conclusões presentes no relatório.4 275 HOCHMAN. “algo de incerto e impreciso (. 272 KROPF. miséria e abandono em que se encontrava o homem do interior. além disso. Henrique Silva provavelmente acompanhou as críticas feitas pelos pesquisadores argentinos à primeira caracterização clínica da doença de Chagas.228.) no tocante a esses estudos”. além da sua dimensão epidemiológica. História. no final da avenida.4. No relatório os médicos afirmaram terem encontrado uma grande quantidade de pessoas com bócio.3 274 Idem.Interessante que este documento. a boa fama de nosso país que o mais elementar senso patriótico manda. 273 SILVA. Estes não poderiam continuar sendo difamados por “estudos carentes de revisão e confirmação e. foi utilizado contra as generalizações feitas por Penna.1. principalmente com relação ao bócio e sua associação ao retardo física e mental. mas capturaram poucos protozoários responsáveis pela transmissão da doença de Chagas no percurso goiano da viagem.

vol. inclusive segundo afirmativas dos srs. ou no mínimo procuraram diminuir seus efeitos.151. Ironicamente argumentou que o governo teria várias opções.279 Para Henrique Silva. vol. não havia dúvidas de que vivíamos num país singular: Quando foi da propaganda do tão desejado Ministério de Hipócrates.130. tabagismo. 279 SILVA. Henrique. pois estados “não palmilhados pelos emissários de Manguinhos. p. romper com a resignação. Ele sugeriu também a fundação de um laboratório químico em Goiás.10.. mai/1918.276 Seria necessário. um horror. Entretanto. fundadas pelo conhecimento médico e implantadas pelas autoridades públicas”. sendo inclusive pretexto para a criação do Departamento Nacional da Saúde Pública. p.2. Eles negaram o gesto patriótico do tão “decantado saneamento dos sertões”. A Informação Goyana. desagradava enormemente os intelectuais goianos. ou ainda para a construção de estradas de rodagem e de postos zootécnicos. os nossos bons amigos Srs. jun/1919. ibidem. a motivação patriótica da campanha “pró-saneamento”. Neiva e Penna acreditavam ser possível “redimir”.1. o pretexto era que o interior do Brasil não passava de um vasto hospital. curar e salvar os habitantes dos sertões através de uma aliança entre os homens da ciência e o Estado.. A Informação Goyana. ao ampliar as características negativas de Goiás. alcoolismo. n. Henrique Silva chamou atenção para a caracterização dos sertões goianos como “o vasto hospital” que nunca era esquecido. A. “era urgente transformar esses „estranhos habitantes‟ do Brasil em brasileiros”. Aiêtê (Verdade). n. porém. Ano II. 74 . paludismo. Ano II..11. e 276 277 Idem. Arthur Neiva e Belisário Penna – a área demarcada para a futura capital da República. Ao que parece os intelectuais goianos não perceberam a gravidade da doença de Chagas para os habitantes dos sertões. Está aí na memória de toda a gente o quadro dantesco que aqueles dois aludidos emissários de Manguinhos pintaram dos sertões goianos e piauienses. Notas e Comentários. todas elas ligadas a investimentos “inadiáveis e produtivos”.278 Henrique Silva sugeriu que a possível verba destinada ao saneamento fosse transferida para o prolongamento da via férrea. a polpuda verba que o governo pediu ao Congresso Nacional para o urgente saneamento dos sertões interiores. com a condenação ao atraso e recuperá-los “através de ações de higiene e saneamento. Votada. ibidem. ou para a expansão do telégrafo. 278 EUZÉBIO. Arthur Neiva e Belisário Penna foram contemplados”. portanto. Idem. na hora de aprovar a verba para o saneamento esqueciam Goiás.277 Enfim. Entretanto.Para os cientistas de Manguinhos não bastava ter encontrado e diagnosticado um povo doente.

aquela do conto Urupês. Assim. p. estão longe disso”. In: AXT. homem baldio. a indignação e a denúncia do diretor e dos articulistas da revista. “Sem o concurso da imigração será difícil galvanizar populações rotineiras. Entretanto.2 Os Intelectuais Goianos em Defesa de um Projeto Para os Sertões 2. na verdade. Porém. utilizando-se do desconhecimento generalizado sobre o Brasil Central. cit.11 NEIVA. inadaptável à civilização e improdutivo. quando do 280 281 SILVA. Fernando Luis (Org) Intérpretes do Brasil: ensaios de cultura e identidade. seminômade. Belisário. 1. vol. Gunter e SCHULER. Tânia Regina de.quando esperávamos que de Manguinhos partissem as primeiras caravanas de Esculápios para os insalubérrimos sertões goianos. n. em 23 de dezembro de 1914. p. eí-los que partem. na sua primeira caracterização.2. o trabalhador nacional não seria o Jeca Tatu. Porto Alegre: Artes e Ofícios. ago/1918. O Jeca Tatu foi um personagem criado por Lobato e publicado no jornal O Estado de São Paulo. Notas e informações. para Henrique Silva a transformação dos sertões num “quadro dantesco” teve por objetivo a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública. não para Goiás ou Piauí. Por fim.2.139-143. funesto. Em 1918.280 Frente às incoerências do poder público restava a ironia. a propagação daquelas imagens “infernais” teve uma finalidade: a de viabilizar a criação de um órgão que coordenasse as ações voltadas para a saúde nacional. p. aos médicos e aos postos médicos como havia acenado e diagnosticado Belisário Penna. de Monteiro Lobato.281 Que posição foi assumida pelo diretor e colaboradores da Informação Goyana com relação ao homem do campo? Os médicos de Manguinhos atribuíram importante valor civilizacional à imigração. vivendo em terras lendariamente ricas mas que. Monteiro Lobato: a luta em prol da brasilidade e do progresso. a terra dos cretinos e dos “tryponogoianos” não teve acesso às verbas.1 A Informação Goyana em defesa do trabalhador nacional Neiva e Penna consideravam que sem a ação da ciência na redenção do trabalhador nacional ele continuaria como pária da civilização e o progresso da nação estaria na dependência da mão-de-obra imigrante. parasita.282 Naquele conto o caboclo foi caracterizado de forma impiedosa: piolho da terra. Ano II. 282 LUCA. Goiás foi novamente abandonado. Ora.175. Op. 2004. Henrique. 2. mas para sanear o Estado do Paraná – tido e havido como a região mais salubre do Brasil. A Informação Goyana. 75 . após conseguir o seu intento. Arthur e PENNA.

se as comunicações se fazem ainda por vias do faraônico carro de boi e às costas de bestas de cargas?” Não dava para exigir que o trabalhador resolvesse esse problema sozinho.98 287 Idem. avesso ao progresso. fev/1919.97 286 Idem. como os sertanejos de Neiva e Penna. indolente por vias da hereditariedade e despauperramento físico decorrente de endemias e inoculações varias de parasitas (. a partir do momento em que as populações rurais foram descobertas como principal fonte de riqueza pública. o mesmo apoio e assistência dada pelos governos aos imigrantes. às populações rurais faltava o essencial. Depois disso. ibidem 76 . assim. vol. p.96-99.. pois. afirmou que aquele 283 284 Idem. veríamos o quão apto para o trabalho seria também o homem do campo. ibidem.)”. através das páginas da Informação Goyana. Ano II. não era proprietário das terras. Contestando Neiva e Penna. Hugo de Carvalho Ramos recuperou o início desse debate.286 O articulista reclamou para os trabalhadores nacionais.283 O Jeca Tatu .. supersticioso.lançamento do livro. desde que o Estado centralizasse as saúde e enviasse os médicos para o interior do país. Populações rurais. 7. as boas vias de transportes. p.284 Este passou então a ser caracterizado como “fatalista. ele vivia numa economia de subsistência. Segundo ele. esse discurso vinha seduzindo a todos e a solução apresentada seria a vinda de imigrantes com seus métodos modernos de cultura. já que o trabalhador nacional seria um fator negativo de progresso. Enfim. p.287 Segundo ele.285 Eles foram ainda acusados de não possuírem espírito de concorrência nem de se adaptar ao progresso. poderia ser redimido através da ação da medicina. segundo ele. n. Nessas condições de produção pouco sobrava para comerciar. Hugo de Carvalho.288 Carvalho Ramos lembrou ainda que o trabalhador rural vivia na simplicidade e não deveria ser julgado a partir dos valores do litoral. Lobato se engajou na campanha pelo saneamento dos sertões. liderada por Belisário Penna e publicou uma série de artigos que depois foram reunidos no livro O Problema Vital. A Informação Goyana. 285 Idem. as classes parasitárias das capitais não se cansaram de afirmar a superioridade da mão de obra imigrante e a inferioridade do camponês. 2. “Como fazer chegar às chochas disseminadas as distâncias as luzes emancipadoras. segundo o articulista. nem recebia auxílio para a compra de ferramentas. ibidem 288 Idem. RAMOS.

mar/1928. havendo precedido uma laboriosa roçada. p.97. n.)”. clamou por um código florestal que impedisse a devastação da natureza. porém. Ano I. A Informção Goyana. Alguns articulistas da revista.293 Assim. Eles estariam presos a culturas tradicionais e a métodos antigos.61.modo de viver não poderia ser visto como sinal de indolência. agarrados à tradição. vol. 292 RAMOS. vol. desconfiados das inovações e com suas energias “comidas pela ancilostomose”. ao escrever sobre José Rodrigues Jardim. no artigo “A deondroclastia no Brasil”. p.55 293 COELHO. Americano do. argumentavam que sem os meios de 289 290 Idem. se surpreendeu com a atualidade das informações divulgadas por Jardim sobre a lavoura goiana: “as grandes árvores são derrubadas a golpes de machado. Aos poucos os articulistas passaram a defender a vinda de imigrantes. o fogo reduz a cinza os madeiros que os séculos criaram. a falta de inovação técnicas na agricultura em Goiás e a necessidade de incentivar a vinda de imigrantes.289 Com relação às queimadas havia um consenso.. A cultura dos campos goianos. a total falta de informações e de acesso às máquinas e equipamentos agrícolas. In: Pela História de Goiás. A agricultura em Goiás. p.. Ano 1.110. 77 . tentaram buscar explicações históricas para a permanência daquela prática secular. ibidem BRASIL. 291 SILVA. então. A Informação Goyana. que governou Goiás de 1832-1837. Estes deveriam completar a mão de obra nacional. a precariedade das estradas e ausência do poder público para fiscalizar as queimadas. vol. Op. por isso ela viveu do inveterado costume rotineiro. n.. dez/1917.290 As queimadas eram uma prática que indignava tanto no passado quando no presente. dez/1917. ausência de ambição e pobreza. Cit. Victor de Carvalho. p. Henrique. inspetor agrícola do estado.5. Henrique Silva. permanecia sem solução. 1. Todavia. Americano do Brasil. os agricultores goianos estavam muito próximos das caracterizações feitas por Neiva e Penna. 292 Para Euler Coelho. porém. 8. tanto Neiva e Penna no relatório quanto os goianos através da Informação Goyana a condenavam. comodismo. As queimadas seriam feitas em nome de uma lavoura rotineira que discriminava o cerrado (reputado como estéreo) em favor da mata a ser devastada. O governo Jardim. A Informação Goyana. 1. Ano XI.291 Para Victor de Carvalho Ramos a agricultura goiana nunca contou com auxílio público. Entre elas encontramos os “costumes em comum” dos trabalhadores nacionais.11. 5. n. ele justificava a baixa produtividade. Euler. a golpes de enxadas se abrem as covas em que são lançadas as sementes (. A deondroclastia no Brasil..

A Informação Goyana.1. n.161. n. 12. p.295 Os intelectuais goianos acabaram se apropriando da caracterização de sertão como local abandonado pelo poder público. 296 RAMOS. mas milhões de alemães para o grande Estado Central. jul/1918. e integravam-se ao mercado do centro-sul na Primeira República. Op. “os nossos votos são para que venham. Ano XIII. Ano II. Victor de Carvalho. além de diminuir o preço das terras devolutas e fiscalizar a devastação das florestas.2.)”. o sul de Goiás estaria modernizando sua agricultura e recebendo imigrantes. ibidem. Como disse Henrique Silva. vol. Quando isso acontecer Goiás estará em condições de produzir “o suficiente para abastecer todo o Brasil”. A expansão capitalista no sul goiano poderia ser explicada em função dos atrativos ali existentes. os baixos custos da terra e a melhoria dos transportes possibilitados pela expansão 294 295 RAMOS. Aiêtê. afirmava Carvalho Ramos. além de ser “um rico pedaço da terra brasileira”. A Informação Goyana. era também “um indispensável celeiro para a capital e outros grandes centros do país”. Era preciso fazer ver que a terra goiana. aumentando as culturas e adquirindo propriedades (. set/1917.. Henrique. n. p. Uma região desconhecida. máquinas agrícolas e informação aos sertanejos. 78 . Henrique. vol. no relatório Neiva e Penna. encaminham-se para o sul do Estado.297 Mais tarde o mesmo Henrique Silva afirmou que à revelia do governo da União. Os intelectuais goianos acabaram concordando com os médicos quanto à necessidade de imigrantes no estado.55.296 A própria revista se encarregou de fazer tanto a divulgação das possibilidades econômicas de Goiás quanto do incentivo à modernização da agricultura.. n. 11.10.294 Em vários outros artigos da Informação Goyana a profecia de Goiás como futuro celeiro da nação contrapõe-se às imagens negativas divulgadas sobre o estado. vol. p.81. vol. Eles esperavam que o Estado implantasse um conjunto amplo de medidas para melhorar a situação no campo. A Informação Goyana.22 297 SILVA. 299 Idem.1. p. imigrantes estrangeiros e nacionais. Ano VII. Victor de Carvalho. não milhares. cit.transportes necessários eles teriam dificuldades para escoar sua produção. EUZÉBIO. p.299 As regiões sul e sudoeste de Goiás atraíam imigrantes nacionais e estrangeiros. A Informação Goyana.82. que tanto precisa de braços”. 7.12. 1924. sobressaindo entre aqueles os japoneses e alemães. como a fertilidade do solo. A. Notas e Informações. 298 SILVA.. Ano I.298 “Atraídos pela fertilidade daquelas terras virgens. A nossa propaganda no exterior. Para Carvalho Ramos a rotina e a baixa produtividade da lavoura goiana seriam superadas quando os governos distribuíssem sementes de qualidade.

833 que entraram no Brasil. 301 Idem. Nars N. 1949. encontramos no Anuário Estatístico do Brasil. que acusaram os goianos de não 300 CHAUL. Benedict.301 Porém. p. As mil e uma noites do sertão: seus pró-homens. lutava para levar os benéficos da “civilização” aos vales dos rios Araguaia/Tocantins. 304 Eles seriam os responsáveis pelas glórias do passado. Ele acreditava na capacidade produtiva dos trabalhadores nacionais e desejava ver superadas as dificuldades para o escoamento da sua produção. num total de 1. Ano I.854. As mil e uma noites do sertão: seus pró-homens. Estes foram denominados de “pró-homens do sertão” ou. ago/1917. p.2. 1. ainda. Henrique.305 Henrique Silva e Americano do Brasil não se conformaram com as conclusões de Neiva e Penna. de 1946 o número de estrangeiros presentes em Goiás. Fayad.300 uma exigência das “mudanças econômicas brasileiras representadas pela industrialização no Centro-Sul e pela expansão da economia cafeeira”. vol. 304 SILVA. A Construção de Goiânia e a Transferência da Capital. 303 ANDERSON. p. as nações são imaginadas como comunidades. 2008. Jorge. 1988. n. Na Informação Goyana outros aspectos dos sertões também foram valorizados. Os sertões como “cerne da nacionalidade brasileira” 2.303 A partir desse momento tem-se a necessidade de construir um passado que seja significativo para aquelas populações. Francisco Ayres da Silva. p. Henrique. Estes seriam apenas de 1.da linha férrea. Goiás: uma nova fronteira humana. Ele propunha e fazia aprovar projetos para a melhoria dos meios de transportes através da dinamização da navegação naqueles rios e da construção de estradas de ferro e de rodagem. Rio de Janeiro: Conselho de Imigração e Colonização. 1. houve a necessidade de recuperar o passado goiano ligado aos bandeirantes paulistas. o dr. set/1917.vol. como o fato de os sertanejos serem descendentes dos bandeirantes paulistas. 302 Apud LATOUR. O historiador goiano Fayad Chaul lembra ainda que as levas de migrantes e imigrantes “passaram a se dirigir para as áreas periféricas da economia nacional”.22 79 .283. o médico e deputado federal de Porto Nacional.3.21. p.2 Para Benedict Anderson mais do que inventadas.302 Quanto ao norte de Goiás.25. Ano I. A Informação Goyana. os “heróicos filhos dos Campos de Piratininga”. todas essas condições favoráveis foram propagadas pela revista.117. n. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e difusão do nacionalismo.2. São Paulo: Cia das Letras. Goiânia: UFG.1. No caso de Goiás. A Informação Goyana. 305 SILVA.

A concepção de sertão de Henrique Silva parece se aproximar da visão de Capistrano de Abreu. Henrique. onde se encontravam os rios Araguaia e Tocantins. para os editores da Informação Goyana todos os goianos seriam descendentes dos bandeirantes paulistas.1. 309 No momento. n. com seus roteiros que seduziam e exaltavam o espírito aventureiro dos sertanejos. as lendas da mãe de ouro. agora transformado em “imenso hospital”. os poços encantados.2. um passado distante. presentes nas práticas cotidianas e no “folk-lore” da região. de forma a recuperar um “tempo perdido”. In: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro . jul/set. Comuns seriam também as tradições dos bandeirantes. nos “altos sertões” ainda seriam comuns os mutirões para a derrubada das matas virgens ou para fazer a “moagem” da cana de açúcar. ibidem.310 Nos “altos sertões”. Doença do Brasil. herdeiros dos gloriosos bandeirantes paulistas. p. XVI-XIX). A Informação Goyana. p. Folk-Lore do Brasil Central.67-69. à força de varejão. p. vol 148. p. estaria o brasileiro puro. set/1917.22 310 Idem.311 Não aqueles sertanejos encontrados por Euclides da Cunha “despauperado jagunço. que guardavam os enterros sob as árvores das taperas e todo um mundo estranho povoado de entes monstruosos. Belisário. que nos vae desnacionalizando pelo 306 307 NEIVA. Entretanto. abr/1924.356. Ceres Rodrigues. a presença dos tropeiros que trafegavam pelos caminhos conduzindo o gado e dos remeiros que impeliam.possuírem a idéia de nacionalidade e pela ausência de um folklore interessante entre as populações nortistas. Cit. Euclides da Cunha já havia feito a separação entre os sertanejos do norte. A Informação Goyana. nos “altos sertões” estariam preservadas as verdadeiras tradições goianas e brasileiras. Ano VII. Doença de Chagas. as almas penadas. AnoI. Ali ainda prevalecia a rotina dos tempos passados. O que faltava era escrever a epopéia dos bandeirantes paulistas no Brasil Central. Henrique. vol.308 ali estaria os verdadeiros brasileiros. as pesadas embarcações “mineiras” com destino a Belém. Para Henrique Silva.184 80 . 309 SILVA. SILVA. para quem a atividade dos vaqueiros se colocava como referência para a construção do universo sertanejo. Arthur e PENNA. adjetivação de sertão. 9..306 Para os editores da Informação Goyana. o que se via era o desaparecimento dos encantos do vasto cenário sertanista.177. 7.295-300. vol. 311 KROPF. p. n. 308 MELLO. onde se apagavam os rastros deixados pelas glórias de outrora. O Sertão Nordestino e Suas Permanências (Séc. pária da zona estreita da Bahia vizinha do litoral e em contacto com o elemento estrangeiro.cit. e os do sul. segundo Henrique Silva. As mil e uma noites do sertão: seus pró-homens. Op. 1987. Simone Petraglia. n. 307 Nos “altos sertões”. Op. miscigenados e nefastos.

ibidem 316 SILVA. Ano II. A Informação Goyana. Vol. Bartolomeu Bueno da Silva. A cruz.7.18 314 Idem. n. já que teria resguardado os costumes tradicionais. Ano VII... Folk-Lore do Brasil Central. vol. p.2. Tal narrativa tinha por finalidade.2.7. Henrique. é construção narrativa de um passado que nunca existiu. n. 2. pelos bandeirantes.55 81 .312 O goiano seria mais puro. na verdade. 314 A sessão cívica evocou um passado glorioso e rememorou “as façanhas dos bandeirantes. n. Mendes. no estado de Goiás. A bandeira do Anhanguera a Goiás em 1722: o roteiro de José Peixoto da Silva Braga.. símbolo da fé cristã e marco da chegada da civilização aos sertões goianos. porque ainda não deturpada pela onda europeizante que varria o litoral.10. A cruz do Anhanguera. De acordo com o articulista. ibidem 315 Idem.9. a formação de sua nacionalidade. Ainda naquela mesma edição e nos dois números seguintes. na cidade de Catalão. n. num dado presente.)”. em 1927.2. onde se perpetuam a energia indômita do caboclo. Henrique. p.315 Em 1918. pesquisadores e desbravadores (.cosmopolitismo crescente”.22. o próprio diretor da revista afirmou que ela.313 Por isso. a resistência e bondade do negro e as varonis qualidades da raça portuguesa (. fev/1927. vol.316 Com relação à suposta “Cruz do Anhanguera”. Ano IX. “foi 312 313 SILVA. p. p. Ele estaria mais próximo da autenticidade da qual a nação carecia. as suas lutas.)”. associada ao bandeirantismo paulista. A preocupação com a construção da identidade dos goianos e da própria nacionalidade associada à conquista do espaço. ela foi considerada a maior relíquia do estado. O artigo informava sobre uma sessão cívica realizada em 15 de novembro de 1914. o evento em torno da cruz tinha o poder de evocar “o passado do Brasil. dando conta do roteiro percorrido pelo bandeirante paulista. A. A Informação Goyana. conquistadores. a revista publicou um manuscrito encontrado no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. a cruz foi levada para a cidade de Goiás onde foi transformada em monumento numa praça pública. restaurar um passado grandioso na construção da nacionalidade. Acreditava-se que a cruz teria sido fincada em solo goiano pelo bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva. vol.67 ALMEIDA. nas primeiras décadas do século XVIII. Ano II. A Informação Goyana. as suas glórias. set/1918. fez com que a Informação Goyana publicasse o artigo “A Cruz de Anhanguera” transcrito do Jornal O Anhanguera.. Ver ainda: A Informação Goyana. intitulado “A bandeira do Anhanguera a Goyas em 1722”.

16. em 1918. a campanha pela transferência da Capital Federal foi um “resultado imprevisto do relatório”. A bandeira do Anhanguera a Goiás em 1722.. foi instalada uma réplica. Dominichi Miranda de. p.317 O missionário dominicano frei Reginaldo Tournier registrou apenas o evento da inauguração do monumento público. Vol. vol. ela foi levada para o Museu das Bandeiras e. Ver: WWW. A Informação Goyana.318 A cruz permaneceu fincada na praça pública da cidade como símbolo da epopéia bandeirante até ser arrancada pelo transbordamento do rio Vermelho em 2001 e uma réplica foi colocada em seu lugar. fev/1927. em seu lugar. 318 TOURNIER. na cidade de Goiás. 320 SILVA. vive mais na legenda do que na história. Durante a inauguração do monumento ocorreu uma bela cerimônia. fev/1927.fincada para assinalar a cova de um capitão pertencente à milícia de Minas Gerais (. Henrique. n. Paris: Missions Dominicines.. 322 Idem. Ano IX. em Goiás”.mochileiro. Rio de Janeiro. erguido em praça pública. Segundo ele.. durante as comemorações dos duzentos anos de Goiás. In: História. p.184. saúde-Manguinhos.1. a cruz feita de madeira havia sido encerrada em soberbo monumento. jul. 319 Depois da enchente do Rio Vermelho. “o nome de Bartolomeu Bueno da Silva. como afirmou o próprio Henrique Silva. n..3 A interiorização da Capital Federal De acordo com Dominichi de Sá. Ano IX. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina: a repercussão do relatório médico de Arthuir Neiva e Belisário Penna (1917-1935).321 Ela chamou a atenção para a importância da Informação Goyana ao ativar aquela pauta e para os vários projetos apresentados no Congresso Nacional. ciências.tur.10.55. Plages Lointaines de L‟Araguaya. supl. vol.55.322 Enquanto a revista defendia a transferência da Capital para o 317 SILVA.10.velho.br/goiás. que os goianos tinham motivos para se orgulharem de seu passado e projetarem um futuro não menos glorioso.httm. Pois. „o Anhanguera‟. Henrique. Frei Reginaldo.) como rezam as crônicas”. p. 2. Data de acesso 20/06/2011. ela continuou cumprindo uma função explícita: a de lembrar aos goianos que eles tiveram uma origem grandiosa porque descendentes dos antigos bandeirantes. p.7.3839.A bandeira do Anhanguera a Goiás em 1722. encontrada a Cruz de Anhanguera. 1934. A Informação Goyana.320 Pode-se dizer. ibidem 82 .319 Pertencendo ou não a Anhanguera.2009.2. 321 SÁ. em 31 de dezembro de 2001. com música e discurso.7.

Ali instalada. do Prata e do São Francisco. 2003. no Estado de Goiás. Durante a realização desses trabalhos os goianos participaram ativamente. p.. 83 . 324 SILVA. sob a liderança do Dr. Após a sua promulgação foi formada uma comissão. as fontes de energia. Relatório Cruls: relatório da comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil. e a Associação Universitária Goiana. fundada em 1921. Visconde do Porto. a abundância das águas.326 Ela tinha por objetivo fazer um amplo estudo sobre a topografia. a fertilidade do solo.400 km². Identificamos quase quarenta matérias tratando especificamente daquele projeto. 326 CRUlS. Ano IV. em seu artigo 3º. Essa expedição demarcou a área do futuro Distrito Federal. eles colaboraram com a “Missão Cruls”. História de Brasília: um sonho. uma realidade.323 Inúmeros foram os artigos elaborados pelos goianos e publicados na Informação Goyana em defesa da mudança da Capital Federal para o Planalto Central do Brasil. garantiria a segurança e a unidade do Brasil. Eles comemoram quando o relatório daquela expedição apontou os benefícios da mudança da capital para o interior como de fundamental importância para o desenvolvimento e progresso futuro do país. 10. mai/1920. A transferência da capital foi determinada pela Constituição de 1891. A esse respeito ver: SÁ. a sede do governo seria fixada nas cabeceiras dos afluentes dos rios Tocantins. criada em 1932. para fazer o levantamento e a demarcação do futuro Distrito Federal. do Amazonas. Luiz Cruls. que percorreu Goiás. o clima e a salubridade da região. Como havia sugerido Varnhagem. Luiz. entre julho de 1892 a fevereiro de 1893. ajudando nas tarefas de levantamento e reconhecimento daquela área. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina.45-61.3.121-123. que passaram defender tal projeto.325 No início da República. p.183-203. n. a geologia. diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro. os goianos comemoraram a inclusão do artigo 3º na Constituição Federal tratando especificamente da transferência da Capital para o Planalto Central. Brasília: Congresso Federal. Op. Brasília: Senado Federal. cit. Dominichi Miranda de.1985. uma esperança. ajudaria a “civilizar” todo o sertão. A questão da capital: marítima ou no interior? A Informação Goyana.324 A existência de um projeto de transferência da Capital da República para o Planalto Central alimentava as esperanças dos goianos quanto ao futuro do Centro Oeste. em 1877. Ernesto. uma área de 14. como determinava a Constituição Federal. 325 SEGURO. 323 Dominichi de Sá listou uma série de periódicos goianos e algumas associações como A Sociedade Goiana de Geografia e História. a fauna e a flora. Em seguida. p. a futura Capital favoreceria o desenvolvimento do comércio interno. vol.Planalto Central ganhava adeptos para sua causa e divulgava as riquezas e possibilidades econômicas de Goiás.

7. Assim. A. p.11. Azevedo. n. n. A Informação Goyana. A Informação Goyana. A justificativa para a mudança da Capital apontava também para o futuro. jun/1919. Normalmente. assim. e não seríamos (. Através da Informação Goyana argumentaram que se a Capital já se encontrasse no Planalto Central. PIMENTEL.10. Ano VII. médico sanitarista da comissão. Azevedo. Gomes. ele ainda insistiu na salubridade da região e na grandiosidade do futuro nacional a partir da construção na nova Capital. vol. todos os grandes rios navegáveis do Brasil estariam abertos ao comércio. Entre as causas apontadas para explicar a existência de doenças em Goiás. 329 CARMO. vol. p. como se ela fosse uma antiga aspiração nacional.. vol. “o interior do país estaria cortado de estradas. Ano VI. estaria a má alimentação dos sertanejos. Antonio Azevedo Pimentel. Mudança da Capital da República. os sertões povoados e o nome do Brasil devidamente levantado pela fama do seu clima invejável. a busca de legitimidade num passado distante é fundamental nesses momentos de disputas. especialmente aquelas associadas ao bócio. dez/1923. a falta de instrução e ausência de noções elementares de higiene e o abusos de bebidas alcoólicas. Durante o 6° Congresso Brasileiro de 327 328 PIMENTEL.33-35. no anexo IV encontramos o relatório do dr.329 A nova Capital possibilitaria a interligação do Brasil e a resolução dos problemas nacionais como a integridade e defesa do país. Entretanto.146. Afinal. em anexo. os relatórios de chefes de turmas e dos especialistas em determinadas áreas.Ano II.2.O relatório da “Missão Cruel” apresentou após a conclusão.327 Ele também afirmou a existência de temperaturas amenas na área demarcada. n. do Rio de Janeiro para o Planalto Central. A Informação Goyana. Mudança da Capital: Patologia. os goianos passaram a ver os sertões a partir da ótica do relatório da “Missão Cruls” (1892-1893).) o país da febre amarela”.79. os intelectuais goianos utilizavam o argumento da ordem estratégica. 328 Por fim. A preocupação dos intelectuais goianos em definir o que seria o “Planalto Central” e qual o local em que seria construída a capital constituía-se numa reação frente às pretensões dos mineiros de sediar o Distrito Federal.5. Eles então reativaram a pauta da transferência da Capital vista como verdadeira campanha patriótica e buscaram justificar a transferência recuperando as idéias dos estadistas do Império. com o início da circulação do relatório Neiva e Penna (1916). p.. da disseminação do „progresso‟ e da „civilização‟ que irradiaria desse novo centro para o interior do país. eles sentiram que as pretensões de Goiás para receber a futura Capital da República estavam sendo ameaçadas. 84 . Clima da área demarcada para o futuro Distrito Federal.5.

2.1 Trajetória de Francisco Ayres da Silva Tínhamos grande curiosidade com relação aos argumentos de Francisco Ayres da Silva sobre a apropriação das idéias de Neiva e Penna pelos periódicos nacionais. 85 .330 Devido à proximidade da comemoração do centenário da Independência (1922). Francisco Ayres da Silva na Informação Goyana 2. que poria fim ao sonho dos goianos.2 Dr. ao “campo” político. os representantes goianos tentavam aprovar projetos que apressassem a mudança da Capital para a área demarcada. dez/1919. como pertencente ao “campo” médico. p. eles até concordavam com os médicos de Manguinhos quanto à ausência do Estado nos sertões.Geografia (1919) realizado em Belo Horizonte. Tal curiosidade advinha do fato de que Neiva e Penna consideraram o médico de Porto Nacional como “ilustre” colaborador e amplo conhecedor das mazelas dos sertões. que nem chegaram a percorrer a área demarcada pela “Missão Cruls”. Não seria um relatório elaborado após a visita dos médicos Neiva e Penna. Naquele momento em que o relatório começava a circular eles assumiram uma posição de defesa da “sua terra e da sua gente”. integrante do grupo de intelectuais que se reuniu 330 BRASIL. Americano do. Como ele se posicionou frente ao relatório Neiva e Penna? Ele. Assim. Ele era médico e foi interlocutor de Neiva e Penna nos sertões. A Informação Goyana. Americano do Brasil conseguiu aprovar um projeto para o lançamento da pedra fundamental no local da construção da futura capital da República. inúmeros artigos foram publicados na Informação Goyana se opondo aos interesses dos mineiros.59. A mudança da capital para Goiás: um projeto apresentado no Senado. Enquanto isso. Para os intelectuais goianos era fundamental recuperar o projeto de transferência da capital para o Planalto Central e provar a sua viabilidade. vol. o tema foi amplamente discutido. 2. 3. Os “médicos de Manguinhos” fizeram-no testemunha da precariedade da vida no norte de Goiás. Em contrapartida. sua visão sobre o relatório Neiva e Penna e o movimento “Pró-saneamento dos sertões” (1918-1920) liderado por Belisário Penna. dr. n.12. porém esperavam que esse problema fosse resolvido com a transferência da capital para o Planalto Central. Tal ato simbólico foi realizado em comemoração ao centenário da independência. no Congresso Nacional. Ano II.

SILVA. defendeu a construção da estrada no trecho de Alcobaça à Praia da Rainha.333 Eleito deputado federal em 1914. morador. Desde o início da Informação Goyana Ayres da Silva participou ativamente do debate sobre o saneamento dos sertões. 333 Em 1910 Francisco Ayres da Silva “foi admitido como Sócio-Honorário com Medalha de Primeira Classe por mérito científico universitário da Academia Físico-Chímica Italiana de Palermo”. Francisco Ayres da Silva. 1999. Francisco Ayres da. sendo que. quem eram seus proprietários e diretores. que deveria chegar até Leopoldina. Dr. em 1931. Caixa: Documentos avulsos de Porto Nacional. Francisco Ayres da Silva nasceu em Porto Imperial. deputado federal (1914-1930) e jornalista. 331 Formou-se em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1899. sendo o fundador e primeiro redator-chefe do jornal o Norte de Goyás. que era um jornal político. Altamiro de Moura. In: SILVA. com 84 anos. como se colocou frente ao debate sobre o saneamento dos sertões? Estas questões orientaram as reflexões a seguir. pelo ardor e perseverança demonstrados quando empreendeu a ligação rodoviária Bahia Goiás”. principalmente. em 1924. Os fundadores e proprietários do Jornal “Viúva Ayres e filho”. cit. atual Porto Nacional. recebeu “o diploma de Sócio Correspondente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Seus argumentos ganhavam legitimidade especial porque ele se posicionava como filho. ponto terminal 331 Apud PACHECO. Ver: PACHECO.8-9 332 Sobre o Jornal Norte de Goyas encontramos uma carta ofício redigida por João Ayres Joca e enviada à Secretária do Interior e Justiça de Goiás. exerceu atividade de professor.2 ed. foi ali que ele recebeu e colaborou com Neiva e Penna e agora ele deveria se posicionar frente ao relatório e do movimento pró-saneamento dos sertões. Assim. médico da “roça” e político. Prefácio. Mais tarde. Prefácio. ao contrário de Neiva e Penna e do próprio diretor da Informação Goyana os sertões de Ayres da Silva foi onde ele nasceu. Natividade e Pedro Afonso. já que desde 1914 era deputado federal. onde definiu o jornal. empenhou-se pela concretização da estrada de ferro Central do Brasil. Francisco Ayres foi nomeado pelo governo estadual como um dos responsáveis pela vacinação contra a varíola no norte de Goiás. data de sua fundação – em períodos quinzenais (1º a 15 de cada mês). Porto Nacional: Prefeitura Municipal.em torno da Informação Goyana. p. noticioso e que defendia. sua família. p. Com o título Norte de Goyas o periódico era publicado na cidade de Porto Nacional desde 22 de setembro de 1905. Foi a partir dali que ele iniciou sua carreira política na defesa dos interesses dos goianos. Op. Além da medicina. fixou sua morada. Altamiro de Moura. principalmente de Porto Nacional. Ver: Arquivo Público de Goiás.10 86 . já havia sido condecorado com Medalha do 11º Congresso Pan-americano de Estradas de Rodagem. Alem disso.332 Em 1910. os interesses do norte goiano. Ao retornar à cidade de Porto Nacional permaneceu por vários anos como o único médico radicado em toda a imensidão do vasto norte goiano. anteriormente. Francisco Ayres. Sobre os redatores e filosofia do jornal informou que o primeiro redator chefe foi Exmo. seus negócios. Caminhos de Outrora. ligando Pirapora a Belém do Pará e pela expansão da ferrovia Goiás. em 11 de setembro de 1872 e faleceu a 24 de maio de 1957.

O importante é que após terminar o curso retornou para sua terra natal. além de ter utilizado métodos de combate às epidemias através da vacinação. Ayres da Silva era tido como uma autoridade na cidade. As narrativas dessa viagem que ocorreu entre 16 de outubro de 1928 a 16 de fevereiro de 1929 encontram-se no seu livro Caminhos de Outrora. Além de médico. contratou trabalhadores para abrir as picadas e conduziu os automóveis até Porto Nacional. Goiânia:UCG. Maria de Fátima.9 OLIVEIRA.A (Trans)Formação histórica do Tocantins. cit. Ele lutou ainda pela desobstrução dos trechos encachoeirados e pela modernização dos transportes pelos rios Araguaia e Tocantins. em 1930.156-157 87 . 337 SILVA. além de outros benefícios..337 A chegada de Francisco Ayres da Silva com seus automóveis em Porto Nacional se transformou num evento noticiado nos jornais do vale do rio Tocantins. foi o orador oficial da recepção pública organizada na cidade: “Louvado seja Deus por nos ter dado (. 338 Idem. Elaborou projetos para a construção de estradas de rodagem e conquistou para Porto Nacional. a estação climatológica e a estação rádiotelegráfica. In: Odair Giraldin (Org). um trabalhador intransigente e infatigável ao progresso do Norte de Goiás”.278. Francisco Ayres. Um Porto no Sertão: cultura e cotidiano em Porto Nacional (1880-1910). no Rio de Janeiro. Ayres da Silva foi o primeiro filho do norte de Goiás a formar-se em medicina.338 O frei continuou seu discurso de recepção: “Louvado sejais pela feliz inspiração (. principalmente a respeito do asseio do açougue público. p.336 Filho de família tradicional e único médico local.da zona encachoeirada mais perigosa do rio Tocantins.2002. O dominicano frei Reginaldo Tournier.105-160. Francisco Ayres da Silva foi o responsável pela introdução de algumas novidades tecnológicas nos sertões goianos. p. professor e deputado federal.335 Ali tratou dos doentes e divulgou medidas preventivas. Op. p. p.) uma estrada de rodagem que viesse encurtar as distâncias que nos separam dos grandes centros 334 335 Idem. jornalista. Ele também contribuiu com a vigilância da saúde pública ao orientar a elaboração do Código de Posturas Municipais.. ensinando como evitar doenças e suas contaminações.334 Segundo a historiadora Maria de Fátima Oliveira.. após comprar um automóvel Chevrolet e um caminhão Ford. amigo do deputado.278-279. da limpeza das ruas e dos lotes baldios e da manutenção das fontes limpas. 336 Idem.) um homem de altos descortínios.. Em 1928. p.

341 Ele retornou do Rio de Janeiro em automóvel e caminhão.340 O Jornal O Tocantins de Carolina também noticiou o feito: “Quebrando elos por elos.) hoje é um fato consumado.2.339 Hoje. temos caminhão em Porto! Ontem parecia-nos essa maravilha um sonho irrealizável. porém ressaltou: “Ainda é cedo demais para bem se estimar. p. acaba de entrar nesta decantada Porto Nacional.160 342 Idem. 2.. desapaixonado...2 Artigos do Dr.342 Também o jornal O Sertanejo de Carolina noticiou o acontecimento. Veremos a partir de agora as idéias de Ayres da Silva. (. Eles divulgavam as conquistas locais. p.) como um dos mais felizes acontecimentos de nossa história portense”. 88 .. 339 340 Data set/17 Idem. principalmente quando elas eram muito sonhadas e desejadas. relacionadas à circulação do relatório Neiva e Penna. o cometimento histórico. os acontecimentos e as idéias circulavam pelos vales dos rios Araguaia e Tocantins através dos seus jornais. 2001.Francisco Ayres da Silva na Informação Goyana Quadro 1 Artigos do médico Ayres da Silva na Informação Goyana Artigo A Bancarrota do Saneamento dos Sertões O Saneamento do Hinter-land: discurso pronunciado na ago/18 sessão de 26 de julho pelo deputado Ayres da Silva ago/25 Viação Fluvial a Vapor: Tocantins/Araguaia De Porto Nacional à Cidade da Barra do Rio Grande.343 Enfim. na set/26 Bahia jul/30 Um Excelente Relatório: a instrução em Goiás Emendas ao projeto do orçamento do Ministério da jul/30 Viação A INFORMAÇÃO GOYANA. publicadas na revista Informação Goyana. dos grilhões que prendiam em sono letárgico o progresso nessas paragens ignotas e esquecidas do mundo civilizado. 343 Idem. o audaz representante nortista Dr. Francisco Ayres”. em marcha vertiginosa. ibidem Idem. um sucesso notável digno de ser consignado (.civilizados e nos prostam fatalmente no desalento que produz o isolamento”. ibidem. o surto arrojado” que Francisco Ayres acaba de realizar em sua terra. Goiânia: AGEPEL [CD-ROM]. ibidem. “temos automóvel.157 341 Idem.

A bancarrota do saneamento dos sertões. o mal de Chagas.1. quando se aludia ao tipo sertanejo era para decantar sua coragem. a sífiles. sem que. enfraquecidos.. A Informação Goyana. a miserável condição vital de nossos concidadãos das regiões centrais do país.346 Uma voz autorizada. A partir dessas narrativas buscamos perceber como o médico e deputado se posicionou frete ao início da circulação das idéias de Neiva e Penna. data de setembro de 1917. p. os brasileiros. e desde logo a impressão foi dolorosa: verificou que zonas há em que 90% dos habitantes são contaminados pela tripanosomíase sul-americana. Ayres da Silva percebeu o processo de construção dos sertões como espaço da doença. médicos ilustres. as energias que os indivíduos de outros países sabem gastar em prol do progresso e bem-estar individual e coletivo”. do médico de Porto Nacional publicado na revista. Segundo ele. ibidem. a uncinariose. Ali ele noticiou a existência de debates sobre os sertões. Francisco Ayres da.Fizemos um levantamento de todos os artigos assinados por Francisco Ayres. podese dizer. onde o impaludismo. num campo completa e francamente aberto. agindo de mãos dadas. “verdadeiros homens doentes. O primeiro artigo. exatamente.. a leishmaniose. a grande miséria em que se 344 SILVA. descrevendo.345 Ironicamente argumentou que até pouco tempo.). vol. que havia comparado o interior do Brasil a “imenso hospital”. No decorrer da benéfica agitação que ecoou no Congresso Federal.2. em cores verdadeiramente negras. os poderes públicos da Nação se volvam a estender suas vistas para ponto de tão alta relevância. uma outra missão científica arriscou transpor os limiares dos centros.. ibidem. agora tudo mudava. a lepra. Ano I.14 345 Idem. vozes autorizadas. de caráter acadêmico. no Congresso Nacional. no qual seus habitantes foram caracterizados como portadores de moléstias.) Mais tarde. essa “celeuma” iniciou-se com um discurso do professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. n. porque partem de homens que conhecem. por ocasião de uma solenidade. incapazes de despender. a tuberculose e tantas outras modalidades mórbidas. de visu. 346 Idem. ameaçam aniquilar. com o artigo “A bancarrota do saneamento dos sertões”. entre 1817-1935.344 Na sua concepção “uma grande celeuma” se levantou nas principais capitais do país sobre o interior do Brasil. set/1917. despauperrados. até o presente. no segundo número da Informação Goyana. senão todo ao menos em parte do Brasil. publicados na Informação Goyana. (. em circunstâncias idênticas. que têm palmilhado crescido número de Estados da Federação e observado. força e vigor. a bouba.. de um ilustre e conceituado professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro fez-se ouvir. pela imprensa toda. regiões há em que o impaludismo e a ancilostomíase devastam endemicamente (. por inteiro. 89 .

mal e definitivamente dá para a compra do sal..encontram os habitantes do centro do país. porque a campanha não atacava o foco do problema dos sertões: a falta de transportes. partiram de homens que conheceram grande parte do Brasil. p. Em primeiro lugar. a preços reduzidos. da circulação do relatório Neiva e Penna.) A campanha que agora surge nas grandes capitais será mais uma campanha inútil (.) imagine-se que o Governo tente fazer profilaxia contra o impaludismo. concluiu seu texto premeditando o fracasso da campanha pelo saneamento.. que a grande maioria do povo estará em condições de fazer aquisição de tais coisas. “médicos ilustres”.. Como poderão alimentar-se suficientemente indivíduos que não possuem meios de transporte para se abastecer de elementos essenciais para seu nutrimento?(. que observaram a situação em que se encontravam os habitantes do centro do país. Na sua concepção. ou seja. à falta dos mesmos meios de transportes? Nessa sua primeira intervenção no debate sobre o saneamento Ayres da Silva tratou de recuperar o início da “contenda”. por uma alimentação deficiente (. pois a grande imprensa e o próprio Congresso Nacional já discutiam o Brasil como um “imenso hospital”. graças. quando o produto de seu trabalho desvalorizado pela falta de meio de transporte. ele discordou da caracterização dos sertões como “imenso hospital” e com a campanha pelo saneamento defendida por Belisário Penna. sais de quinino e telas para evitar a mordedura de mosquitos.. Para ele aquele debate era benéfico porque chamava a atenção para os problemas do interior do país. inclusive durante suas viagens 347 Idem. distribuindo. ainda. café e outros gêneros de necessidade imediata. Porém. Na leitura das memórias de Ayres da Silva percebe-se que fazia parte de sua prática médica receitar sais de quinino e recomendar o uso do mosquiteiro para as populações ribeirinhas. como ele mesmo se definia. se fosse enfrentado o seu verdadeiro problema: o da distância. e pessoalmente. Em segundo lugar. dizem que a grande razão que motiva semelhante estado de coisa é a máxima deficiência alimentar dos nossos proletários do interior.347 Enfim.).14 90 . acaso. aniquilados quase. ele era contrário a essa idéia de campanha. Enfraquecidos. a questão da doença dos sertões só seria vencida. essas imagens dos sertões ganharam repercussão porque vieram de “vozes autorizadas”. uma ação pontual sobre uma doença específica e também porque ela seria inútil uma vez que os habitantes dos sertões não teriam como comprar sais de quinino e cortinado para se proteger dos mosquitos.. O “médico da roça”.. ele não abria mão do seu uso. Pensarão. enormemente encarecidos.

idiotas. 1912. Joca. Joca Ayres. 15 de dez. principalmente da doença de Chagas nas suas modalidades mais graves. eles se sentiram na obrigação de retribuir informando ao “médico da roça” sobre a grande presença de doenças na região. do impaludismo.349 Encontramos no editorial do jornal Norte de Goyás de 15 de dezembro de 1912. p. que depois de apoderar-se do ser humano aniquilava-o rapidamente. bem como a ausência de verduras e frutas na sua alimentação diária.. “Uma doença incurável transmitida pelo barbeiro. editor do Jornal. 350 AYRES. Ele acreditava que caberia ao Estado enfrentar o problema de frente e não apenas tentar amenizar suas conseqüências.. aí está a doença de Chagas. a divulgação das primeiras informações de Neiva e Penna sobre os sertões goianos. surdos-mudos e papudos na região. Norte de Goyas. Caminhos de Outrora. “ao lado da sífiles. cit. PATERNOSTRO. era muito pouco. Júlio. Ayres da Silva preferiu mandar publicar no seu jornal aquelas informações. a desafiar a atenção dos dirigentes (. O editor concluiu que Goiás se encontrava dominado por um flagelo que conspirava contra seu progresso. Os contaminados tornavam-se verdadeiros fardos sociais. 348 349 SILVA.32. Por isso.348 Mas isso. sentiram-se na obrigação de alertar Ayres da Silva sobre a enorme contaminação dos “infelizes” goianos pela doença de Chagas.pelo rio Tocantins e no Rio de Janeiro. na época. as elites locais deveriam ser informadas sobre as novas descobertas científicas. 91 .)”. Op. pois na sua concepção. p. Op.350 Neiva e Penna após terminar a “missão científica” em Goiás. recebeu a carta das mãos de Francisco Ayres para divulgar as descobertas realizadas: metade da população do norte de Goiás estaria contaminada pela moléstia de Chagas ou trypanosomíase sul americana. da ancylostomíase etc. Ela foi escrita ainda na capital de Goiás. percorrendo-o de Porto Nacional a cidade de Goiás. principalmente quando ela atacava o sistema nervoso”. Depois das valiosas informações prestadas por Ayres da Silva aos médicos de Manguinhos.238. da tuberculose. Elas chegaram a Porto Nacional através de uma carta escrita por Belisário Penna e remetida a Francisco Ayres. em 1912. e de par com elas. após os referidos médicos terem percorrido o trajeto de Porto Nacional à cidade de Goiás. aleijados. cit. Editorial. Francisco Ayres. Ayres da Silva atribuía a presença do bócio nos nortistas devido a ausência de sais de cálcio na água. a grande presença de cretinos. como medida pública para enfrentar os graves problemas do Brasil Central.

como anteriormente fizeram Neiva e Penna. Saneamento do Hinter-land 351 Após o início da circulação do relatório Neiva e Penna.353 Paternostro encontrou famílias com bócio e conseguiu capturar um triatoma exatamente num casebre em que seus moradores não possuíam o bócio. 351 Como médico da “roça”. em 1916 e durante a campanha pelo saneamento rural (1918-1920) aquele índice chegou a quase 100% e Goiás. um médico que nasceu. papel e saliva para contestar o quadro dramático dos sertões apresentado no relatório Neiva e Penna naquilo que estava relacionado às doenças. Ayres da Silva conhecia as doenças mais freqüentes que atacavam o homem do campo. 352 353 PATERNOSTRO.principalmente porque a situação de saúde dos goianos mais pobres parecia grave.231-239. 352 Essa informação foi passada por Ayres da Silva ao também médico Júlio Paternostro que percorreu o vale do rio Tocantins em 1935.237-238.238.354 Enfim. p. Idem.e reproduzido na Informação Goyana. Júlio. além de lutar para fazê-los sair do papel. morava e clinicava no norte de Goiás. como feita por Carlos Chagas e “comprovada” no percurso goiano da expedição dos médicos de Manguinhos. dois dias depois. a principal doença que predominava nos vales dos rios Araguaia e Tocantins era a malária. p. também conhecida por impaludismo. No Congresso Nacional. os seus hábitos alimentares e a generalização do “papo” entre eles. com o título original. Op. Ayres da Silva não gastou tinta. tornou-se terra de barbeiro e símbolo da doença de Chagas. 354 Idem. 92 . p. Ele entrou no debate para tentar colocar os transportes como foco do problema do interior do Brasil. cit. ele apresentou e fez aprovar projetos para superar os dramas dos sertões. Francisco Ayres não tinha como contestar a associação do bócio à doença de Chagas. como se pode notar através da narrativa de Paternostro que percorreu a região 26 anos depois de Neiva e Penna. ou seja. Paternostro também buscou trocar informações com Ayres da Silva. A publicação daquelas informações mostra que Ayres da Silva confiava na “voz” legitimada da ciência. Porém. No discurso que pronunciou na seção do plenário da Câmara dos deputados no dia 26 de julho de 1918 publicado na íntegra no Paiz. com o título Saneamento e Viação . já que Neiva e Penna calcularam que a metade da população estaria contaminada. Ele atribuía a presença do “papo” no nortista a duas ausências: a de frutas e verduras na sua alimentação e a falta de sais de cálcio na água.

por mais de 17 anos ininterruptos” quem tentaria atenuar aqueles quadros tragicamente traçados pelos cientistas brasileiros. Porém.1. vol. que apesar das dificuldades da vida no interior. “como encarar o problema do saneamento de tais regiões?”. que o problema do interior não foi provocado pelos sertanejos. segundo ele. de fato. presente no relatório Neiva e Penna. vivendo e lidando na zona central do país. porém com aspecto saudável e perfeita robustez. n. Segundo Ayres da Silva. 355 Naquele discurso. Isso mostrava. com frutas e verduras variadas.percebe-se a intenção estratégica de Francisco Ayres para ampliar seus ganhos políticos a partir do relatório Neiva e Penna. ibidem 358 Idem. p. 357 Idem. porém.357 Neste seu discurso no parlamento Ayres da Silva buscou sustentação no relatório Neiva e Penna para defender suas idéias sobre a necessidade de melhoria dos meios de transportes no Brasil Central. raramente eram comprometidos pelo mal de Chagas.358 Sobre a notícia desoladora da contaminação da quase totalidade dos habitantes de Goiás pela doença de Chagas. naquelas condições precárias de transportes. mas sim pela ausência do poder público e principalmente pela falta de transportes. ibidem 93 .9.356 Ressaltou. ele questionou o fato de os sertanejos desconhecerem os símbolos nacionais. mas que após tantos elogios aos “ilustres cientistas de Manguinhos” feitos naquela tribuna. não seria ele. O Saneamento do Hinter-land. o dinheiro e serem anêmicos: “como não ser assim. um “humilde e despretensioso clínico da roça. Ayres da Silva afirmou que o problema do saneamento teria merecido a atenção de alguns dos deputados. é filho de uma nação civilizada. ago/1918. se para aqueles centros do nosso país existiu sempre um flagelo ainda maior que é a indiferença. aqueles que conseguiam viver com o mínimo de conforto e mantinham uma alimentação mais nutritiva. Francisco Ayres. Ayres da Silva 355 SILVA. 356 Idem. o pouco caso. com que o poder público encara a solução dos problemas referentes àquelas paragens?” Se ainda não conseguimos efetivamente fazer o homem do interior sentir que. A Informação Goyana. Para tal fez citações diretas das páginas do relatório principalmente daquelas em que os médicos afirmaram terem encontrado portadores do bócio. 9-11. p. os autores do relatório descreveram com pouco colorido a desgraça e o infortúnio dos homens do interior. Ano II. 2.

Classicamente. alguém ousasse taxar a raça ali existente de „inaproveitável‟?”.400 Km. pois por mais precária que pudesse parecer. tanto quanto possível.questionou se zonas inteiras do nosso país também não estavam contaminadas. o carro de boi. Para exemplificar Ayres da Silva transcreveu parte do relatório mostrando o preço exorbitante alcançado pelo sal e pelo café no norte de Goiás.363 Para os intelectuais goianos. a remoção dos obstáculos que dificultavam a navegação dos botes jamais foram efetivadas”. que nasce na confluência dos rios Paraná e Maranhão e vai revezando entre trechos de corredeiras e estirões. Mas.362 Segundo ela.360 Era o transporte que levaria ao desenvolvimento e este seria a pré-condição para a melhoria da saúde nos sertões e não o contrário. num total de 1. Kátia Flores ao tratar da navegação pelo rio Tocantins mostrou o vigor de um rio com 2. concluiu. 362 FlORES. Eles insistiam na navegação fluvial mesmo através de formas primitivas de navegação. sem apoio do poder público. ibidem. Rio Grande do Sul e Minas sem que. cachoeiras e pedregais e desagua no Pará.359 Enfatizou que seu discurso tinha por objetivo deixar seu protesto registrado contra esse estigma de raça “inaproveitável” presente no relatório Neiva e Penna e buscar soluções para os transportes nas áreas centrais do Brasil. como São Paulo. 120. a comunicação do centro-sul com o norte do Brasil”.600 km de extensão. canoas. cit. ela era realizada pelos naturais da terra. balsas e batelões (Rio Tocantins) e uma viação fluvial a vapor pouco utilizada. ele é dividido em três trechos: o Alto Tocantins que vai da nascente até a Cachoeira do Lajeado. A permanência dessa navegação era a prova da sua viabilidade. valorizou a navegação que ali existia. a magna questão dos transportes”. Ainda naquele discurso Ayres da Silva considerou que o relatório de Neiva e Penna apresentou uma idéia precisa do que eram os transportes no interior do Brasil: a liteira (para o transporte de senhoras). tem sua navegação dificultada por várias corredeiras. vai da Cachoeira do Lajeado a Tucuruí. p. os barcos a vela (chamados de paquetes no Rio São Francisco). o clamor que se ouviu durante todo o século XIX e princípios do XX foi o mesmo: “pela desobstrução dos rios e pelo estímulo à navegação do Tocantins e Araguaia como meio de assegurar um canal de escoamento por mar e. Por fim. ibidem Idem. Op. os cavalos e burros. o Médio Tocantins. Kátia Maria.71. 361 Segundo a historiadora Kátia Flores. assim. 94 . argumentou “ao encararmos o problema do saneamento urge resolver. a manutenção das vias de transportes e 359 360 Idem. p. todavia. 363 Idem. ibidem 361 Idem. apesar de alguns investimentos “o certo é que a navegação a vapor ficou restrita ao baixo Tocantins.

9. 95 . p. Ayres da Silva enviou novo artigo à Informação Goyana. dez/1925. ago/1925. Ano IX. Francisco Ayres. p. de Porto Nacional a Belém do Pará. 366 SILVA. Para noticiar a divulgação do decreto federal de agosto de 1925 que autorizou o auxílio para a navegação fluvial a vapor nos rios Tocantins e Araguaia. 9. “sempre conto com amargor o que aconteceu certa vez com o nosso colega de bancada. quando tínhamos encerrado a sessão!”. Uma dívida porque aquela região. O bote Cristal no qual viajava ao atravessar o funil de Itaboca bateu violentamente em uma pedra. Na viagem de regresso (subindo o rio Tocantins) seriam gastos mais de cinco meses. 364 365 SILVA. Olegário. Ayres da Silva. que não conseguiu retornar à embarcação. três homens foram lançados ao rio. O fato de Goiás se encontrar distante do litoral.5.comunicação precárias impediam o sucesso de qualquer medida de saneamento restrita ao combate a algumas doenças através de campanhas pontuais. “na vasta. Debate parlamentar. sem estradas e vias de comunicação.366 Argumentou que tal decreto. sendo convidado para uma sessão extraordinária do Congresso. sendo tragado pelo rio. p. PINTO. Os jornais locais noticiavam tais tragédias. Caminhos de Outrora. opulenta. n. Ayres da Silva deixou registrado em suas memórias as dificuldades de transportes enfrentadas pelos habitantes do norte de Goiás. com uma extensão de 280 km.365 Ao insistir nos meios de transportes por via fluvial a bancada de Goiás no Congresso Nacional vinha clamando insistentemente pelos melhoramentos nas vias Araguaia e Tocantins. o experiente piloto Casemiro. todo navegável no período das cheias. principalmente no norte. só recebeu o telegrama. em 1920.4. Foram gastos mais de um mês para descer o rio e alcançar Belém. vol. criava grandes dificuldades para os goianos. possuindo um sério obstáculo à navegação que é a corredeira de Santo Antonio. entre eles. Op. A Informação Goyana.364 Ele fez anotações de uma viagem realizada pelo rio Tocantins. abrirá para as comunidades ribeirinhas do Araguaia Tocantins uma época de animação e resgatará uma dívida ao ajudar na integração da região ao convívio da “civilização”. n. que.15-159. cit. A Informação Goyana. ocupada por uma população laboriosa foi deixada no mais cruel abandono. Viação Fluvial a Vapor. Sr.. extremamente fértil. Segundo ele. o Baixo Tocantins. fértil e riquíssima zona da alta região das duas importantes com 980 km. que vai do Tucuruí à foz. Ano IX. e por fim.1. Francisco Ayres. se efetivamente colocado em execução. dotada de imensas reservas nativas. O senador goiano Olegário Pinto ilustrou tal problema contando na tribuna o que havia ocorrido com uma convocação extraordinária do Congresso.30. vol.

Tocantins 367 368 Idem. Francisco Ayres. com seu imenso território. feijão. arroz. por causa da ausência de meios de transportes rápidos e seguros. De Porto Nacional à Cidade da Barra do Rio Grande. Por outro lado. na Bahia. Ela passava também pela construção de vias férreas e pela abertura de estradas de rodagem. todos esses produtos e muito mais poderiam ser abundantemente produzidos nas terras férteis do norte de Goiás e colocados no mercado. Ayres da Silva assim justificou a necessidade daquela construção: a) interligar as bacias Araguaia. desprovido de meios de transportes e de segurança. o deputado nortista partiu então para a elaboração de projeto de lei para a construção de uma estrada de rodagem de Porto Nacional a cidade da Barra do Rio Grande.368 Ao transformar os problemas da navegação nos rios Araguaia e Tocantins em problema nacional. a necessidade de modernização dos transportes não se restringia aos rios Araguaia e Tocantins. Idem. Ano IX. Assim. Ayres da Silva denunciou que os projetos de integração nacional. porém denunciava que seus projetos eram reiteradamente negados nas comissões do Congresso Nacional devido à baixa densidade demográfica da região. o Governo Federal encontrou dificuldades para enviar a força pública para combater os revoltosos.9. N. milho e outros. Ano IX. Ayres da Silva ressaltou a dívida da nação para com o norte de Goiás deixando ali desamparados seus filhos. Vol.2. mas que vivia importando trigo. porque ali não havia estradas de rodagem nem ferrovias.bacias”. p.371 Tal projeto foi publicado na Informação Goyana. seria absurdo pensar o Brasil como um país eminentemente agrícola. as estradas de ferro seriam fundamentais para articular o transporte fluvial com o interior. n. A Informação Goyana. ibidem. 369 Idem. ao permanecerem como letras mortas deixavam o Brasil Central. p. vol. desde que existissem os meios de transportes adequados. 370 A Informação Goyana.2. set/1926. Em 1926.370 Durante a passagem da Coluna Prestes pelos sertões de Goiás (1925).23 371 SILVA. Em suas palavras: “A conseqüência desse descaso pelos interesses de Goyas estamos vendo agora na dificuldade que tem o Governo de mandar forças para diversos pontos do norte do Estado ao encalço dos desordeiros e bandoleiros”. Porém. nov/ 1925. p.15 96 . ibidem. na Bahia. para o médico e deputado federal.10.367 Em seu argumento a plena abertura fluvial do Tocantins e Araguaia “longe de ser um problema meramente regional é um verdadeiro problema nacional”.369 Segundo ele.4.

Ayres da Silva contribuiu ativamente com a missão científica de Neiva e Penna fornecendo informações sobre as doenças e os meios de transportes no norte de Goiás.15 Idem. p. se a maioria dos habitantes do norte de Goiás não tinha acesso ao mercado? Exatamente porque a região não contava com meios de transportes modernos o tal “saneamento dos sertões” seria inviabilizado. Ele admirava os cientistas de Manguinhos e tratou de apresentar seu projeto para a integração dos sertões. teve condições de apresentar uma visão mais ampliada da questão. sua questão era a seguinte. Ele participou ativamente dele como político e como médico. Como vimos. como era o caso do norte de Goiás. não mais para melhorar a navegação no Araguaia e no Tocantins. Como fazer. aos habitantes das áreas mais ameaçadas.372 O deputado enviou novo artigo à Informação Goyana para anunciar que o ministério da agricultura havia aprovado uma verba para dar início aos estudos para a construção de uma estrada entre Porto Nacional e Barreiras. nem para a construção de estradas de ferro. na Bahia. como político. Ele foi contrário a uma concepção de saneamento restrita à distribuição de sais de quinino e de cortinado. ao compreender que no mínimo aqueles cientistas tinham colocado o Brasil Central em questão. Como “médico da roça” e conhecedor daquela realidade ele não negou a caracterização de Goiás como terra do barbeiro. Quando as idéias de Neiva e Penna começaram a circular e o movimento pelo “saneamento dos sertões” (1918-1920) ganhou as páginas da grande imprensa e chegou ao Congresso Nacional. Ayres da Silva teve que se posicionar. p. Ayres da Silva viu a abertura do debate sobre o “saneamento dos sertões” de forma positiva.24 97 . parecia que enfim. questionou Ayres da Silva. mas sim para construir as estradas trafegadas por automóveis.com a do São Francisco. Ele fez então um retrospecto da importância do rio São Francisco e do Tocantins e das várias comissões que na república estudaram as possibilidades de tal conjunção sem que efetivamente saísse do papel.373 Depois de décadas de luta em prol das melhorias dos meios de transportes e comunicações no norte de Goiás. tal projeto era compartilhado por 372 373 Idem. b) valorizar as terras do hinterland e suas inúmeras riquezas. porém. se o governo não destinava verbas para o interior. caberia então aos pobres habitantes dos sertões comprarem sais de quinino e cortinados. Porém. as idéias poderiam sair do papel.

p. de Castro. no Maranhão. que ainda não era possível vislumbrar o impacto daquele feito. viu em tal gesto. no qual seriam rompidas as grandes distâncias e como possibilidade de ligações rápidas com os centros “civilizados”.374 A professora de Porto Nacional. Op. os eventos cívicos. dos seminaristas. um ato de patriotismo e amor à terra natal. ibidem. com a presença dos padres dominicanos.Henrique Silva e Americano do Brasil. a população foi conduzida. 10. como a questão dos transportes e das comunicações em Goiás. mas demandava a resolução de problemas considerados centrais. como a doença de Chagas. dos alunos do colégio e da banda de música. 379 Os 374 375 SILVA. Dom Domingos Carrerot (1920-1936) que pronunciou um belo discurso. Generosa P. uma voz muito prudente lembrou através do jornal O Sertanejo de Carolina. Caminhos de Outrora. em forma de passeata organizada pelos frades.378 A abertura da inauguração do telégrafo foi feita na frente da residência do bispo. Francisco Ayres da. além dos inúmeros colaboradores da Informação Goyana.156 Idem. Ele não estava restrito ao controle ou erradicação das doenças da “trilogia maldita”. mai/1930. no final da década de 1920. das irmãs dominicanas. A partir dali. esta conquista faria Porto Nacional subir mais um degrau na “brilhante escada do progresso”. Ano XIV.375 Porém. 13. n. levando dois automóveis. 379 Idem. cit. p. Como concluiu o articulista. p. Op. Caminhos de Outrora. Na verdade. 376Tal fato só se concretizou na década de 1960! No final de março de 1930 foi inaugurada a estação de telégrafo de Porto Nacional. Francisco Ayres da. p.79 378 SILVA. cit.158 376 Idem. Principalmente quanto se tratava das conquistas nas áreas de transportes e comunicações. a malária e a ancilostomose ou opilação. 98 . realizados para comemorar a inauguração do telégrafo (1930) ou a chegada dos automóveis em Porto Nacional (1929) contavam com discursos de um representante da Igreja. todos os oradores foram aclamados pelo povo e pela banda musical. conforme noticiou a Informação Goyana.377 Através de tal evento foi possível perceber o quanto médicos e padres ali residentes estavam unidos em prol dos melhoramentos locais. com paradas em frente das residências das principais autoridades da cidade. onde eram feitos discursos saudando o benefício que a cidade acabou de receber do Governo Federal.159. Atento como era aos temas ligados aos transportes Ayres da Silva retornou para Porto Nacional. vol.160 377 A Informação Goyana. O frade dominicano viu tal feito como prenúncio dos novos tempos. p.

Notas e Informações. Um excelente relatório: a instrução em Goiás.89-90 383 Idem.381 Nada saiu do papel. 382 SILVA. O segundo pedia para aumentar as verbas destinadas à ampliação da Estrada de Ferro Goiás. Uma das últimas contribuições de Ayres da Silva à Informação Goyana foi o envio de um artigo comentando um relatório elaborado pelo secretário do Interior e Justiça de Goiás. A Informação Goyana: seus intelectuais. esses foram 380 Nada distante daquilo que ocorria a nível nacional.pdf. além da diversificação da rede escolar no estado que ia da pré-escola ao ensino superior. Ano XIV.br/novo/congresso/cbhe2/pdfs/tema4/0424. Quanto às dificuldades de transportes e comunicações. p. buscava aproximar a Igreja do Estado.www. Francisco Ayres. médicos e políticos estavam unidos em favor do progresso da região. tratando da instrução em Goiás. Ano XIV. Ao se confiar nas narrativas do articulista local. o bispo coadutor do Rio de Janeiro Dom Sebastião Leme (1882-1942) e futuro cardeal do Rio de Janeiro (19301942). jul/1930. uma expansão importante que conseguiu reduzir o índice de analfabetismo calculado por Neiva e Penna em 95%.12.384 A Informação Goyana e seu diretor desapareceram em 1935. Maria de Araújo. em 1930. como ressaltou a pedagoga e pesquisadora goiana Maria de Araújo Nepomuceno o que sobreviveu foram as idéias que propagou e as lutas que travou.385 Entre elas destaca-se o fato de ter colocado na ordem do dia questões importantes como a transferência da capital federal para o Planalto Central e a instalação da capital estadual em Goiânia. 382 Apesar de seus problemas de transporte e comunicação Goiás já aplicava 16% da arrecadação do estado em instrução pública. vol. dentro de uma estratégia de recuperação e consolidação de um espaço para a Igreja católica na sociedade. vol. Henrique. Devemos lembrar que desde a década de 1920. p. n. reduzido. p. 13.9 99 . O terceiro propunha o aumento da verba destinada pela União para o prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil. O primeiro deles tentava aumentar de 4 para 6 viagens mensais a linha postal da cidade de Goiás a Porto Nacional.13. em 1912. além das questões de fronteira com os estados vizinhos já plenamente solucionados. para 86. 94.eventos cívicos e religiosos ressaltavam. A Informação Goyana. nos sertões. A educação ia se expandindo. a história e a política em Goiás (1917-1935). A Informação Goyana.sbhe.380 Ainda na década de 1930. a aliança entre Estado e Igreja. 381 SILVA.383 Sem dúvidas. frades. n.org. p. ibidem 385 NEPOMUCENO. Porém. ambos. 90 384 Idem. 12. Ayres da Silva apresentou projetos de emendas orçamentárias no Congresso Nacional. Ela não sobreviveu ao seu criador. segundo informações do governo de Goiás.3%.

386 387 NEIVA. ibidem. Quantas lutas foram travadas através das páginas da Informação Goyana! Sem dúvidas.387 No início da República. uma linha aérea passou a funcionar cortando os céus goianos e descendo nas suas principais cidades. com o fim do regime de padroado e a separação do Estado da Igreja. Arthur e PENNA.169. como importante aliada do Estado para a “civilização” dos sertões. No próximo capítulo buscamos o olhar dos missionários dominicanos sobre o norte de Goiás. p. a ferrovia não chegou no século XX. a Igreja ainda foi reconhecida.386 A Ordem dos Frades Pregadores foi elogiada por se comprometer com os ideais “civilizatórios”.melhorados no sul de Goiás. Idem. No norte do estado. nem todas foram ganhas ou plenamente resolvidas naquele momento. O avião chegou antes dos automóveis e dos vagões dos trens nos sertões goianos. Todavia. além de ter projetado novas imagens de Goiás e dos goianos. Neiva e Penna deixaram registradas suas impressões positivas com relação aos dominicanos sediados no convento de Porto Nacional. Toda uma geração de intelectuais goianos se formou nessa luta em favor “da sua terra e da sua gente”. com a elevação moral. antes da década de 1960. não foram desobstruídos os canais e cachoeiras que facilitariam a navegação pelos rios Araguaia e Tocantins e nem construídas as estradas de rodagem. apesar dos projetos de Ayres da Silva. Op. cit. 100 . No final da década de 1930. Belisário. ocorreu a perda de importantes funções anteriormente assumidas pela Igreja já que o Estado se empenhou na secularização da sociedade através do controle sobre os nascimentos. os casamentos e a morte. Porém. tanto com a construção de estradas de rodagem quanto pela expansão dos trilhos da estrada de ferro. mesmo o catolicismo perdendo o status de religião oficial. espiritual e cultural do norte de Goiás. pelos cientistas. pode-se atribuir à revista o mérito de ter contribuído para tornar Goiás conhecido e valorizado.

Paris: Missions Dominicaines. e no norte de Goiás. esse projeto chegou ao Brasil na segunda metade do século XIX. Todavia.11e 12 101 . como por exemplo. 1934. Em 1912. apesar de serem elogiados pelos cientistas de Manguinhos por sua obra “civilizatória” nos sertões e por terem aderido à República. com a finalidade de adequar as práticas religiosas populares ao catolicismo oficial e aproximar o episcopado brasileiro de Roma e da Cúria Romana. a construção de igrejas e capelas e o pagamento dos padres. na diocese goiana. 388 TOURNIER. R. Formosa. Goiás. A reforma do clero e a instrução religiosa dos fiéis estiveram dentro das principais preocupações dos bispos reformadores de Goiás.388 Assim. Plages Lointaines de L‟ Araguaya. Porto Nacional e Conceição do Araguaia. uma das primeiras Ordens estrangeiras que chegaram para ajudar os bispos reformadores foi a dos dominicanos. não perdemos de vista a inserção dos dominicanos no processo de implantação do projeto de romanização ultramontana da Igreja em Goiás. Conhecido como a reforma da Igreja. No caso de Goiás. Este capítulo foi elaborado com o objetivo de estabelecer a relação entre as narrativas dos missionários dominicanos e o relatório Neiva e Penna e/ou suas apropriações. em especial no norte daquele estado. muito provavelmente pela proximidade maior dos dominicanos com o pensamento liberal do século XIX. desde 1881. já havia lhes dado uma ampla experiência de vida nos sertões. Como se verá esse processo de reforma da Igreja envolveu também a europeização da instituição eclesiástica. os frades tinham suas próprias visões sobre os sertões que poderiam coincidir ou não com as dos cientistas. p. grande parte da jurisdição religiosa era exercida pelo poder civil. eles ocupavam um vasto território que se encontrava repartido em cinco centros de apostolado: Uberaba. Todavia. o estabelecimento dos dominicanos.Capítulo III A Igreja nos Sertões: o Norte Goiano nas Narrativas dos Frades Dominicanos Os missionários dominicanos foram interlocutores de Neiva e Penna durante a viagem dos médicos pelos sertões goianos. Como o Brasil vivia no regime de padroado. desde 1886.

1905) (1906-1907) e acabou falecendo. realizar suas excursões atrás dos índios do Araguaia. Gallais veio ao Brasil em 1888. tenham sido muito mais condescendentes com eles do que o foram os cientistas. de febre amarela.Para alcançarmos nossos propósitos. Frei. os frades eram franceses e haviam recebido uma formação dentro dos novos princípios reformadores. as estratégias dos dominicanos para marcar sua distinção no “campo” religioso. também vitimado pela febre amarela. participou de sua intimidade. além do acolhimento generoso dos seus habitantes. Tornou-se mapa oficial do estado. os anos mais produtivos de suas vidas ou suas próprias vidas. p. com maior afinco. a caminho de Belém. observaram. em 1896. as narrativas de viagens e os relatos de memórias dos padres dominicanos. (1902.1996. como Visitador extraordinário da Missão dominicana no Brasil e como Provincial da Província Dominicana de Tolosa (1890-1894). Esse corpus documental apresenta variadas possibilidades de análise. autor dos livros “Entre Sertanejos e Índios do Norte” e “Os Sertanejos que eu Conheci” viveu entre os vales do Araguaia e Tocantins entre 1904-1938. da grandeza dos rios. Consideramos. talvez por isso. Pierre. das narrativas de quem conviveu com os nortistas goianos. utilizamos como fontes. não 389 Um dos mapas elaborado pelo missionário frei Reginaldo Tournier serviu para orientar o percurso goiano de Neiva e Penna e em 1920 ele foi impresso pelo governo de Goiás.389 As suas narrativas revelam entusiasmo diante da natureza. em 1905. o que ajudava a reforçar o seu papel privilegiado junto aos bispos de Goiás e projetá-los na Igreja do Brasil. 390 Frei José Maria Audrin. que chegaram ao Brasil central no final do século XIX. foi enterrado em Formosa. Frei Gil Vilanova chegou a Uberaba em fins de 1887. Sua vida e obra foi escrita pelo superior da Congregação Pe. descreveram e mapearam o estado de Goiás. até fundar a missão e a futura cidade de Conceição do Araguaia. entre outras coisas. Devemos acrescentar ainda que a maioria das narrativas dos missionários dominicanos foi elaborada por quem ali viveu. em 1907 em pleno sertão. assim não é de se estranhar o seu olhar crítico com relação ao comportamento do clero local e dos fiéis. recuaremos às narrativas dos missionários dominicanos. Trata-se. passou pelo convento de Goiás e em 1890 foi para Porto Nacional de onde pode. Campinas:Papirus. um missionário dominicano”.390 Para que tenhamos uma noção de como se estabeleceu essa relação. elaboradas entre o final do século XIX e meados do século XX. 391 BOURDIEU. Gallais “O apóstolo do Araguaia: frei Gil Vilanova. das suas dores e alegrias e. Ele faleceu. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. Porém. principalmente com relação ao clero nacional e com as congregações religiosas estrangeiras que atuavam em Goiás.21 102 . da riqueza das florestas e das terras. Os frades fizeram da região entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins sua segunda pátria e dedicaram aos homens e mulheres que viviam naquele espaço. Eles buscavam mostrar que eram possuidores de habitus e práticas distintas.391Porém. principalmente. em grande parte.

distintos entre si pela experiência vivenciada. que havia sido expulsa da França e se encontrava na Espanha. Ressaltamos também sua forte espiritualidade. quanto pelo modo do seu funcionamento. 1996.1 A Reforma da Igreja e a Inserção dos Dominicanos em Goiás A Ordem dos Frades Pregadores. A Ordo Praedicatorum (OP) chegou ao Brasil no final do segundo Império. para tal utilizamos o conceito de experiência como pensado por Kosseleck. como fruto da necessidade das dioceses no Brasil e da própria situação vivida pela Ordem. seus templos. entre elas a dos dominicanos. No final do século XIX.392 Estas passavam tanto pela sua história. Sua presença em Goiás foi uma resposta à política impulsionada pela Santa Sé de incentivar a expansão das Congregações religiosas católicas para fora da Europa. os dominicanos foram expulsos da França e acabam transferindo sua sede para Salamanca. 5 ed. voltada para a oração e a missão. Edivaldo Antonio dos. técnicas. os dominicanos faziam os estudos teológicos no convento de Salamanca (Espanha) e depois passavam pelo convento de Toulouse (França) onde se preparavam para serem enviados para a missão. O “corpo de especialistas religiosos”. devido ao nome do seu fundador Domingo de Gusmão. Dissertação de Mestrado: UFG. específicas. p. recorreram às Congregações estrangeiras. queria ser conhecido e reconhecido como portador de competências raras e. 392 393 BOURDIEU. os novos bispos do Brasil. Depois eles conseguem retornar para a França. que incluía suas regras. portanto. Com a vitória da revolução e da concepção de vida secular. O movimento revolucionário francês de 1789 perseguiu as Ordens e Congregações religiosas. Os missionários dominicanos apresentaram suas próprias visões e projetos para os sertões e nem sempre estiveram de acordo com o relatório Neiva e Penna. além dos seus conhecimentos. Para melhor compreensão das diferenças entre as visões desses religiosos e dos médicos. na França em 1216.14-32 103 . enfim. mais conhecida pelo nome de ordem dominicana. D. na Espanha. vamos recuperar um pouco da trajetória dos dominicanos e inseri-los no “campo religioso” da época em que chegaram ao Brasil. desejosos de modificar as crenças e os comportamentos do clero local e dos fiéis.393 Naquele momento. 1999. em 1881. Ver: SANTOS. A economia das trocas simbólicas. Os Dominicanos em Goiás e Tocantins (1881-1930): Fundação e Consolidação da Missão Dominicana no Brasil. Foi o que ocorreu com o bispo de Goiás. Cláudio Gonçalves Ponce de Leão (1881-1890) que convidou os dominicanos para virem ao Brasil e ajudá-lo nessa árdua tarefa. disciplina. conventos e escolas na região. São Paulo: Perspectiva. elas tiveram suas propriedades confiscadas e seus conventos fechados. 1880. hierarquia. 3. Pierre.deixamos que o “campo” apagasse a subjetividade dos sujeitos na história.

recolher os dízimos. As Ordens e as Congregações Religiosas na América Latina. parte do episcopado brasileiro passava a aderir à centralização romana e a romper os limites impostos pela legislação do Império. devido à aliança entre Estado e Igreja. História Geral da Civilização Brasileira: Sociedade e Instituições (1889-1930). criar dioceses. Essa centralização exigia a preparação de um corpo de especialistas bem qualificados e. a começar pela papa. Em 1858. Historia Liberationis: 500 anos de História da Igreja na América Latina. Durante o Império.395 A partir da segunda metade do século XIX. como ficaram hospedados com os padres lazaristas. Pio IX fundou o Colégio Pio Latino Americano em Roma. altamente hierarquizada. 396 MEIER. distintos dos fiéis. para formar os padres que. 1992. nomear os bispos. com a finalidade de implantar o projeto de Igreja denominado de romanização ultramontana. conheceram o padre Cláudio Gonçalves Ponce de Leão que. em 1878. bispos. p. publicou as encíclicas Quanta Cura e 394 395 Idem. seriam nomeados para constituir a nova elite eclesiástica. Os três primeiros missionários que aqui chegaram. A Igreja na Primeira República. São Paulo: DIFEL. que consistia basicamente na centralização do poder religioso nas mãos de uma elite eclesiástica. A partir do contato inicial do Vigário Geral com o bispo do Rio de Janeiro Dom Pedro Maria de Lacerda (1868-1890). Boris (org). a Igreja iniciou um processo de reforma que distanciaria o altar do trono. portanto. José Maria Gouvêa de. cabia ao primeiro. depois. Tomo III. Enrique.396 Ele proclamou o dogma da Imaculada Conceição (1854). no Rio de Janeiro. na pessoa do Imperador. estavam vestidos como padres seculares (sotaina preta) e perceberam as dificuldades para se estabelecerem na capital do Império. enquanto o Estado manteve-se preso aos princípios regalistas. além de decidir quais as diretrizes de Roma que poderiam ser implantadas no Brasil. Sérgio Lobo de e ALMEIDA. padres e ministros. In: Dussel.Os dominicanos anteriormente já haviam tentado se estabelecer no Brasil. p. In: FAUSTO. Ao afasta-se do Estado. foi nomeado bispo de Goiás. Johannes. este bispo conseguiu uma autorização do governo brasileiro para a vinda dos dominicanos. Era o padroado régio que garantia direito de placet governamental. 1984.394 Este bispo se empenhou para levar os dominicanos para o Brasil Central. a fama de inquisidores dos dominicanos e a presença da febre amarela. Porém. em 1879.643 104 . entre elas destacam-se: a expansão das idéias liberais. O Papa Pio IX defendia a adesão dos seus subordinados aos princípios de uma igreja fortemente centralizadora daí a necessidade de formar o clero comprometido com as novas orientações.25-28 MOURA. São Paulo: Paulinas. pagar o clero.

186-188. M. Idem. teria ocorrido uma tomada de consciência da importância da Sé pontifícia como centro da unidade e da ortodoxia. As Instituições Religiosas. Esse alinhamento dos bispos brasileiros ao papa abalou as relações entre Estado e Igreja ao radicalizar as posições ultramontanas das elites eclesiásticas. A “questão religiosa” (1872-1875) que foi um conflito entre os bispos D.”397Nesse evento o Papa deve apenas esclarecer que aquilo que proclama é “matéria obrigatória para todos os fiéis”. São Paulo: Paulinas. p195 400 FRAGOSO.13. a luta entre Igreja e o mundo liberal. Historia Liberationis: 500 Anos de História da Igreja na América Latina.400 Em primeiro lugar.182-183. In: BEOZZO. p. História da Igreja no Brasil. moral e cânones (. São Paulo: DIFEL. dele saiu boa parte daqueles que formariam a nova hierarquia eclesiástica “afinada com as diretrizes da Santa Sé (. para o Papa.o Syllabus Errorum (1864) e convocou o Concílio Vaticano I (1869-1870). 2 ed.1966. como as grandes concentrações de bispos em Roma por ocasião da proclamação do Dogma da Imaculada Conceição (1854). A Igreja frente aos Estados Liberais: 1880-1930. ele citou o impacto da invasão dos Territórios Pontifícios que teria criado um sentimento de solidariedade pelo Sumo Pontífice. 105 . In: DUSSEL. fórmula imaginada para indicar que tais declarações devem decorrer da função pontifical de ensinar a verdade.) dos seminários do continente”.. para a comemoração do décimo nono centenário da morte dos apóstolos Pedro e Paulo (1867) e o Concílio Vaticano I (1869-1870). pois serão eles os professores de teologia. ibidem. Do Pio Latino virão igualmente os formadores do novo clero. Por fim. No alto do púlpito ele proclama uma doutrina decorrente da verdade revelada e já definida pela Igreja ou por ela sempre admitida. ou seja. Porém. 399 BEOZZO. p. A Igreja na Formação do Estado Liberal (1840-1875). 1980. esse dogma ficou restrito a algumas condições: “A mais importante seria a obrigação. segundo Hugo Fragoso. Durante o Concílio foi aprovado o dogma da infabilidade Pontifícia.. Quanto ao Colégio Pio Latino-Americano.. p. 1992. as ações estratégicas do Papa Pio IX. José Oscar (Org). 401 Idem. durante o Segundo Império (1840-1889). Petrópolis: Vozes. acompanhando o movimento católico romano antiliberal. Hugo.398A revelação divina é encontrada na própria história da Igreja.399 Hugo Fragoso enumerou três razões para explicar a maior vinculação do episcopado brasileiro com Roma. José Oscar. Em segundo lugar. de falar excatedra.).. Macedo contra a maçonaria expressava. do alto do púlpito de Pedro. Enrique. Vital e D.401 Para Beozzo. o Syllabus e a experiência do Concílio Vaticano I levaram ao conflito porque a intransigência católica 397 398 PACAUT..

A Presença da Igreja no Brasil. porém. criar seminários. Igreja e Poder na Primeira República. Jorge & NEVES. Beozzo ressalta a importância do Concílio Plenário Latino-Americano convocado por Leão XIII (1878-1903). Élio Catalício. passando para o controle do governo diocesano.408 Por um lado. Canudos e Contestado. por decisão do Concílio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. o surgimento do Estado laico foi recebido “com um duplo e contraditório sentimento pelos representantes da Igreja Católica: alívio e apreensão”. Seus bens seriam incorporados ao patrimônio da Igreja. In: FERREIRA. já havia 17. para Roma. levou a Igreja a empreender uma forte clericalização de suas estruturas. Cristianismo no Brasil Central: História e Historiografia. p. 2003. em 1900. São Paulo: Giro. propugnando por uma postura europeizante da sociedade em toda sua extensão. a Igreja perdeu os privilégios de uma religião de Estado. mas por outro. Oscar de Figueiredo.198 404 Idem. p. Eduardo Gusmão de et al (Orgs). Ver: LUSTOSA. a Igreja no Brasil buscou submeter as práticas religiosas populares que. ibidem 405 SERPA. com o objetivo de adequar a realidade latino-americana ao novo perfil de Igreja centrado inteiramente em Roma. a Igreja conseguiu se livrar das ingerências do Estado e fortalecer seu aparato institucional.405 Assim. consideradas como ignorância religiosa do povo. In: QUADROS. Vaticano I (18691870).). com o fim da união Estado e Igreja teve início o processo de expansão das dioceses. em 1899. p.403 As resoluções e normas do Concílio foram fundamentadas em Trento (1543-1565). deveriam ser abolidas ou reelaboradas.404 Sob o ponto de vista jurídico os decretos de Leão XIII puseram à margem as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. 58. de 1707.402 Tal conflito encerrou-se com a proclamação da República e com a separação da Igreja do Estado. Idem. 301-304 406 Idem. trazer padres e religiosos 402 403 Idem. Goiânia: UCG.304 407 A Igreja no Brasil contava em 1891 com apenas com 12 dioceses. em 1910. e colocaram todos os países latinos sob a égide de uma única legislação.406 Com a implantação da República e o fim do padroado régio. Confrarias e Ordens Terceiras que. em Santa Catarina. 33. ganhou liberdade de ação para multiplicar suas dioceses e paróquias. Religião e Política no Alvorecer da República: os movimentos de Juazeiro. Assim. 1977. a rejeitar o passado e a tradição cultural latino-americana. o Concílio Plenário Latino Americano. nas encíclicas de Pio IX e Leão XIII. deveriam ter seus estatutos reformulados. de 1898. Enfim. afirmando a autoridade da Igreja enquanto instituição altamente hierarquizada. em 1920. 408 HERMANN.197.tornou-a “inassimilável para a ordem liberal”. Jacqueline. p. As decisões atingiram de cheio as Irmandades. p.123 106 . 2008.407 Todavia. O Tempo do Liberalismo Excludente: da Proclamação da República à Revolução de 1930. Lucília de Almeida (Orgs.

mais disciplinado.estrangeiros. Associações de São José. esses padres e frades se responsabilizaram pela formação de um novo clero.. subordinar os leigos controlando as organizações leigas e as devoções populares. Como caracterizou Riolando Azzi. José (para os operários). Ligas de Jesus. ilustrado e moralizado e pela evangelização. percebemos que ocorreu a substituição do clero secular pelo religioso. como as Filhas de Maria e Congregados Marianos. Rio de Janeiro: Bertrand. Nessa nova estrutura paroquial sobressaia a figura do padre. Confrarias e Ordens Terceiras. esse modelo de Igreja buscava afirmar a autoridade do papa. congregar-se ao culto e à santificação dos seus membros. Sérgio.201 Idem. Oscar. p. e as adultas: Apostolado da Oração. que os párocos eram instados a fundar em suas freguesias e capelas. como a Cruzada Eucarística. Nesse esforço para mudar a imagem do clero e do catolicismo praticado no Brasil. Maria. ao assumir tanto os novos campos do apostolado quanto a pastoral paroquial. p. Op. Nesse processo de reforma foi necessário trazer da Europa Ordens e Congregações religiosas comprometidas com o pensamento ultramontano.212 412 MICELLI. Foi assim que ocorreu uma “verdadeira avalanche de novas congregações tanto masculinas como femininas” para o Brasil. Enfim. p. episcopal e clerical. A Elite Eclesiástica Brasileira. 411 As novas associações estavam subordinadas ao pároco e muito distantes da autonomia leiga das Irmandades. Houve um florescimento espetacular destas associações a começar pelas infantis. além de se tornarem propagadores dos novos valores religiosos: As novas associações deveriam recolher-se ao âmbito interno da Igreja. com estatutos apenas eclesiásticos e sem personalidade civil.53 107 .. cit. 1988. O modelo mais acabado destas novas associações foi o Apostolado da Oração. A Igreja Frente aos Estados Liberais.). prosseguindo com as de jovens. Conferências Vicentinas. dedicar-se mais à oração do que à ação social (. a reforma católica no Brasil foi tridentina.410 A nova pastoral paroquial deveria preparar os leigos para se adequar a nova estrutura hierárquica da Igreja. do clero brasileiro pelo estrangeiro. O mesmo se deu com relação às imagens 409 410 BEOZZO. extremamente conservadores e hierarquicamente verticalizados. ibidem 411 Idem. das antigas devoções e associações de origem portuguesa para as de origem francesa. formar um corpo de especialistas religiosos comprometidos com os novos valores ultramontanos. romanista. 409 Foram elas que “imprimiram um rosto „moderno‟ e uma revitalização do catolicismo”. 412 No Brasil. Senhoras de Caridade e muitíssimas outras.

p. os padres e os fiéis. Os eclesiásticos goianos recorreram a Ordens religiosas estrangeiras para sua diocese e se comunicavam com o clero através de cartas pastorais. bispo da Congregação dos Lazaristas e quinto bispo da diocese de Goiás (1881-1890). 416 As cartas pastorais eram utilizadas como forma de comunicação entre o bispo. impressas em tipografias. n.203204. Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão (1841-1924). a realização das visitas pastorais. Ética da Súplica: catolicismo em Goiás no final do século XIX. distribuídas entre os fiéis e enviadas aos padres espalhados pela diocese. a realização de sínodo diocesano. também ao final da missa e antes da bênção final. Mônica Martins da. As Fronteiras da Fé nos Domínios das Festas: Sociedade. Ver histórico da diocese de Goiás em WWW. Leila Borges Dias.211-218. durante a Primeira República.413 Em Goiás. Claudio assumiu o bispado de Goiás havia cinco anos que a igreja estava em vacância. Cabia a eles a divulgação daquela mensagem. o controle e administração dos santuários. a construção de escolas. Coube a D. Op. Eduardo Duarte da Silva (1891-1909). 2008. apesar de algumas diferenciações à frente da diocese. 2001. 415 Quando D. A diocese de Goiás já existia desde o início do século XIX e no final daquele século teve início o processo de reforma. p. Ele foi o sucessor de D. mar/abr.diocesedegoiás. V. Fragmentos de Cultura. Esta adequação aos novos tempos se consolida com o seu sucessor. Eram aquelas dirigidas especificamente ao clero. lidas durante a celebração da missa.htm. Data do acesso 01/06/2011. o incentivo à imprensa católica. Joaquim Gonçalves de Azevedo (1865-1876) que fundou o seminário e iniciou na província o sistema de visitas e de cartas pastorais.2. A Prelazia foi criada em 1745 e elevada à diocese em 1824. 108 . Goiânia.11. o incentivo às missões paroquiais. o ensino do catecismo. Oscar. a introdução de novas associações leigas e novas devoções. o Senhor dos Passos e a Senhora das Dores foram substituídas pelas do Sagrado Coração de Jesus e pelas devoções marianas. cit. 416 SANTOS.414 aprofundar as reformas e por isso ele é considerado pela historiografia goiana como um dos mais importantes nesse processo de romanização ultramontana da Igreja em Goiás. normalmente tratavam-se de orientações sobre o modo de proceder durante as 413 414 BEOZZO. Existiam também as cartas pastorais reservadas.das devoções coloniais. 415 SILVA.br/sub/a_dioces/Historia. tinham como principais questões: a construção e revitalização do seminário “Santa Cruz”. Goiânia: UCG. Org. D. os bispos reformadores. o aumento do patrimônio. Elas eram escritas pelo bispo. Igreja e Romanização em Pirinópolis (1890-1950). o combate ao concubinato do clero.

banquetes. bailes e cavalhadas. Goiânia: IPEHBC. Em 1888 foi designado Visitador extraordinário da Missão Dominicano no Brasil. n. Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de. depois de D. Ver: SANTOS. (1894. Claúdio (1881-1890). N. o dever de respeitar o celibato e levar uma vida moral e social distinta do laicato.418 Segundo ele. p. Goiânia: UCG.ed. Na visão do padre Provincial Estevão Gallais. soma-se o conflito da hierarquia eclesiástica com o grupo 417 LEÃO. os dominicanos vieram para o Brasil para ajudar o bispo de Goiás na reforma da Igreja. conseguiu a ida dos dominicanos para sua diocese. 419 GALLAIS. à diocese de Goiás. visitou as paróquias em amplo trabalho pastoral. Estevão. v. mar/abr/2001.4348. O catolicismo popular em Goiás e o regulamento para festividades e funções religiosas. Eduardo e Silva (1891-1909). Igreja e romanização em Pirinópolis (1890-1950). (Orgs. fez 4 visitas canônicas ao Brasil. Conceição do Araguaia: s. através do culto mariano e de colégios femininos católicos.58-59. assumiu a diocese de Goiás D.419 Para atender a essa diocese. Op. além de ter defendido a autoridade do clero e combatido as “exterioridades” nas cerimônias religiosas. Claúdio. Carta Circular (Reservada). p. Foi eleito mais três vezes para o mesmo cargo que tinha duração de 4 anos. In: QUADROS. p.000 habitantes. Ele continuou utilizando as cartas pastorais. 417 Com a chegada de D.2 .celebrações. Também era grande a ignorância entre os fiéis e a disciplina entre o clero andava frouxa. ibidem. Missionário dominicano. 422 À reação dos fiéis a essas medidas normativas do bispo. 421 SILVA.421 Naquele momento sem apoio do Estado a Igreja precisava adquirir fundos para seus cofres vazios. com cerca de 250. bem como do dinheiro arrecadado que eram utilizados em festas. tudo estava por fazer ou refazer. chamou atenção para o problema do concubinato dos padres e exigiu a disciplina dos clérigos. na diocese de Goiás. Ao regressar à França foi eleito Provincial da Província de Tolosa em 1890. 1902 e 1906). o novo bispo encontrou-se diante de um clero disseminado no meio de populações muito espalhadas. Mônica Martins da. Edivaldo Antonio dos. voltou ao Brasil como Visitador. 422 SILVA.11. 109 . 420 Idem. da necessidade de manter atualizados os livros sob a sua responsabilidade. ele reabriu o seminário “Santa Cruz”. ordenou vários sacerdotes. In: Coleção Especial do Cônego Trindade. In: Fragmentos de Cultura. como um dos meios de comunicação com o clero e os fiéis e deu ênfase na formação feminina. O bispo implanta medidas de cerceamento das festas populares e folias. o bispo recebeu uma extensa e pobre diocese que abrangia toda a província de Goiás e o Triângulo Mineiro. Dirigida aos Parochos e aos demais Clérigos de Ordens Sacras da Diocese de Goyas.2005-206. no intervalo entre o segundo e o terceiro mandato. Enfim. quando da posse de D. 1942. 2008. As fronteiras da fé nos domínios das festas: sociedade. O apóstolo do Araguaia: Frei Gil Vilanova. Eduardo Gusmão de et al. com apenas 56 anos. Cit. Claúdio. No total. 421. 418 Estevão Gallais nasceu na França em 1851 e morreu no Brasil em 1907. Mônica Martins.420 Em 1891. p. Goyas: Typografia Perseverança de Tocantins y Aranha. na visão dos dominicanos.137.). Os Dominicanos em Goiás e Tocantins: Fundação e consolidação da missão dominicana no Brasil (1881-1930). Goiânia. Cristianismos no Brasil Central: História e historiografia.

1860-1920.. Getúlio Vargas decretou a legalidade do ensino religioso nas escolas públicas e o próprio Estado voltou a subvencionar as escolas católicas. entre outras. As fronteiras da fé nos domínios das festas. 424 Durante seu bispado ocorreu também a separação entre o norte e o sul de Goiás..74-78.político dos Bulhões que dominava a cena política em Goiás na época. ao criticar abertamente a maçonaria da qual participava os Bulhões e ao tentar impor a reforma perdeu o apoio das elites políticas e dos fiéis. do interior para as 423 424 SILVA. cit.423 Ele reabriu o Seminário Santa Cruz. Após a Revolução de 1930. SILVA. D. visitas e cartas pastorais. cit. o incentivo a novas práticas devocionais”. como Rio de Janeiro (1927). além de prédios e casas em Goiás. Dom Emanuel incentivou a fundação de escolas católicas. Eles fundaram seus Conventos em Uberaba (1882). Casamento na Cidade de Goiás. como o Apostolado da Oração. Prudente Gomes da Silva (1909-1921) deu continuidade a esse processo de “reforma” da Igreja goiana. Em 1907. a construção e reforma das capelas e matrizes e a vinda de novas congregações estrangeiras para auxiliar o clero local. em Formosa (1905). o que resultou na transferência da sede da diocese para Uberaba (1896). Depois. Medidas que visavam ampliar o patrimônio da Igreja e divulgar suas idéias. Como a primeira constituição da República havia estabelecido o Estado laico. p. Op. Op. as Filhas de Maria. separando o Triângulo Mineiro. Maria da Conceição. comprou uma tipografia. nos primeiros cinqüenta anos de atuação no Brasil. Ele utilizou ainda de práticas rotineiras como o “retiro espiritual. na cidade de Goiás (1883). as escolas católicas deixaram de ser subsidiadas pelo Estado e o ensino religioso deixou de ser obrigatório nas escolas confessionais. Essa mudança dos dominicanos. A partir de 1922 a diocese de Goiás foi assumida pelo Dom Emanuel (Manuel) Gomes de Oliveira (1922-1955). Maria da Conceição.425 Quanto aos dominicanos. 425 Idem. foi criada a Diocese de Uberaba. Porto Nacional (1886) e Conceição do Araguaia (1896). com sede novamente na cidade de Goiás.209. a Conferência e Associação São Vicente de Paulo. da Diocese de Goiás. p.207. com a criação do bispado de Porto Nacional (1915). p. Ele empreendeu inúmeras iniciativas no sentido de resolver a questão do ensino religioso na sua diocese. 110 . São Paulo (1938) e Belo Horizonte (1946) e seus Conventos em Goiás foram fechados. A Igreja. eles partiram para as grandes cidades. eles se concentraram no interior da diocese de Goiás e de Minas Gerais.

Ano I. num artigo intitulado “Uma viagem de missão pelo interior do Brasil”. Leme que pediu insistentemente aos dominicanos que marcassem sua posição nas grandes cidades brasileiras. A tropa era composta por vinte burros. 427 BERTHET. Cláudio. Enfim. três empregados (um guia e dois outros para cuidar da tropa) e dois soldados (sendo que um deles era responsável pela cozinha). SaintHilaire. recém instalada em Goiás e que nos deixou importante relato. 111 .109-170. uma visita pastoral ao norte goiano envolvia tempo na preparação e na viagem (seis meses). entre 16 de maio a 21 de novembro. dois padres (um diocesano e outro dominicano). mar/1982. por terra até Boa Vista (futura Tocantinópolis). 3. em especial. foi a maior liderança católica no Brasil entre 1921-1942.1 O olhar dos dominicanos sobre o clero goiano Em Goiás. pode ser explicada em função das novas orientações da Igreja no Brasil e suas articulações com o Estado. em seguida pelo Araguaia foi até São Vicente e dali. naquele momento em que o apostolado missionário pelos sertões constituía-se no foco das atenções e investimentos dos dominicanos franceses no Brasil. que estratégias utilizaram para implantar um projeto de Igreja reformada entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins? Até que ponto eles concordavam com as imagens dos sertões propagadas pelos médicos Neiva e Penna? É o que veremos a partir de agora. O roteiro utilizado foi previamente traçado. Ao que parece foi o próprio D. Berthet. através da ação católica e procurou consolidar o espaço ocupado pela Igreja na sociedade brasileira. 428 Michel Berthet fez questão de relatar como se organizou a caravana episcopal para percorrer o norte goiano. exatamente.1. Nesse processo dinâmico que vai do final do século XIX até meados do século XX que imagens os missionários elaboraram sobre o clero local.In: Memórias GoianasI.grandes cidades. Uma viagem de missão pelo interior do Brasil. Dom Sebastião Leme (1882-1942).1. vol.427 Este relato está informado pelo campo religioso da época e também pelas leituras dos viajantes franceses que percorreram partes do Brasil naquele século. a primeira “radiografia” feita sobre a situação do clero. De Boa Vista subiram pelo rio Tocantins até Porto Imperial (futura Porto Nacional). de toda a diocese foi realizada por D. Essa viagem foi acompanhada pelo frei Michel L. dos fiéis e enfim. Frei Michel. conseguindo aproximar a Igreja e o Estado. membro da comunidade dominicana. Organizou o movimento leigo. os fiéis católicos e as práticas religiosas vivida no norte goiano? O que eram os sertões para os dominicanos? E ainda. Em 1883.426 Nossa preocupação com as visões dos sertões goianos estão centradas. ocorreu a visita ao norte de Goiás. várias pessoas e muita disposição para viajar em lombo de burros. A caravana foi por terra até Leopoldina. Ela foi composta por oito pessoas: o bispo. entre 1881-1884. Ele foi arcebispo auxiliar na década de 1920 e cardeal do Rio de Janeiro na década de 1930 e início de 1940. p. 428 426 Sem dúvidas. durante a primeira visita pastoral realizada por toda a diocese.

Klaus van der.17. a falta de zelo das paróquias. Além de todos aqueles “desleixos” do clero com relação ao templo e ao “rebanho católico” existia algo mais grave que Berthet não registrou claramente em seu relatório: o concubinato clerical. à cidade de Goiás. além da distância das autoridades eclesiásticas. 2008. cit.429 No norte de Goiás. eclesial e sacramental” nos sertões. 432 BERTHET. na quaresma e de não cuidar sequer da limpeza e asseio dos templos. bem como da confissão e distribuição de sacramentos aos fiéis. Enfim.430 Ao contrário dos frades dominicanos. Moreira. O frade acusou o clero nacional ali existente de não pregar aos domingos. quais seriam esses supostos “erros” do clero? Berthet apontou apenas que os sacerdotes não possuíam as virtudes para exercer o magistério o que lhe foi confiado. Frei Berthet encontrou vários problemas associados aos padres nacionais. que viviam em comunidades nos Conventos. Michel. como ressalta Maria da Conceição Silva e Welhigton C. Uma Viagem de Missão pelo Interior do Brasil.117 430 Idem. Op. O comportamento desses padres foi visto como mundano e desinteressado pelo exercício da instrução moral e religiosa dos fiéis. que vive sem fé e morre sem sacramento. (1930-1964). Riolando e GRIJP. após visitar vinte e quatro paróquias assistidas por doze sacerdotes. Petrópolis: Vozes. encontra-se a ignorância mais crassa entre esta pobre gente. BERTHET. p.141 431 AZZI. Berthet encontrou apenas o clero diocesano e dois Capuchinhos. o clero secular era subordinado ao bispo e vivia nas paróquias. Op. p. Frei Michel.431 Na concepção de Berthet. por terra. p.116 429 Idem. p. Entre eles estaria a corrupção. o despreparo moral e intelectual. Esse pouco interesse de parte do clero goiano pela sua missão sacerdotal já havia sido denunciada por SaintHilaire. O olhar do dominicano sobre o clero que atuava no norte de Goiás está marcado pela perplexidade em decorrência da distância entre a realidade e a expectativa do missionário. o missionário dominicano concluiu “que estes pastores estão longe de possuir as virtudes que exigiria tal situação. Desta forma.432 Mas. aqueles padres não estavam preparados para assumir a função de “condutores do rebanho”.No relato da viagem. cit. p. bem como da necessidade de implantação do catolicismo “de inspiração romana.15 112 . sob o peso dos pecados mais monstruosos”. Até mesmo a reza do breviário parecia ser negligenciada pelo clero nativo. Todavia. História da Igreja no Brasil: Terceira Época. o concubinato era uma realidade entre os clérigos na Diocese de Goiás no século de onde retornaram.

Dom Claudio José Gonçalves Ponce de.. Além de instruído. Existiam exceções e elas chamavam a atenção dos viajantes estrangeiros. História da Igreja no Brasil.scielo. seos costumes. quaes vossas relações com ellas [. pia Baptismal. Dirigida aos Parochos e aos demais Clérigos de Ordens Sacras da Diocese de Goyas. Tem ou não vossas matrizes um patrimônio.php? Acessado em 20/06/2011. São Paulo: Salesianas.1.]. 436 LEÃO. Haverá sacrário decente. Ibidem 113 . O bispo reformador ainda exigiu detalhado relatório a ser elaborado pelo clero goiano tratando do levantamento e registro sobre a quantidade e qualidade do rebanho católico em Goiás. Carta Circular (Reservada).XIX. da preparação do pão e do vinho.br/scielo. 437 Idem. quem e de que modo são elles administrados.. 1948. N. n.436 Tal carta tratava ainda da celebração da Missa. em dia. em que estado. Disponível em http://homolog. Haverá um cemitério. Assim nos deveis declarar: quais são os sacerdotes. Wellington Coelho. produzem ou não algum rendimento para a fabrica. existem os documentos legaes d‟esses bens. pregava gratuitamente todos os domingos e confessava grande número de fiéis. Cônego Trindade da Fonseca. vol. Maria da Conceição e MOREIRA. p.437 D. tanto J. Conjugalidades Clericais na Diocese de Goiás. A Igreja na Emancipação (1808-1840). da preservação da castidade e do respeito devido no espaço sagrado das igrejas.435 Ele exigiu a observância do clero quanto à manutenção. In: Coleção Especial do Cônego Trindade. de 1885. [online] 2010. José Oscar et al (org). normatizou as obrigações do clero goiano. Goiânia: IPEHBC.103. 1824-1907. E. do lugar adequado e tempo de sua duração. O edifício material de vossas Egrejas acha-se em bom ou Mao estado. In: BEOZZO. em que estado se achão os edifícios materiais [. Pohl quanto Saint-Hilaire fizeram questão de registrar o comportamento exemplar do vigário de Santa Luzia (GO)..170-196. e porque não produzem. 433 SILVA. dos ornamentos que a constituem. Petrópolis: Vozes. 1980. Claúdio foi transcrita no livro: SILVA. através da Carta Circular Reservada. ou mais de um..] quais as confrarias e irmandades existentes em vossas freguesias. seos nomes. todas as alfaias necessárias.434 Após conhecer toda a diocese de Goiás D. observão ou não os seus respectivos compromissos. Typografia-Perseverança do Tocantins Y Aranha.29. Cláudio estava preocupado com a organização administrativa. História. 434 Apud HAUCK. p. Claúdio. casamentos e óbitos que deveriam ser preparados e redigidos para que servissem de documentos legais. Lugares e Pessoas: subsídios eclesiásticos para a história de Goiás. 435 Parte das pastorais de D. João Fagundes. Quais as capellas filiais. dos livros de assentos de batizados. com o concubinato clerical e com a submissão das confrarias e irmandades à autoridade do padre. que residem em vossas freguesias. Assim.421. 433 Podemos acrescentar também os registros de concubinato do clero goiano nos relatos dos memorialistas e nos relatórios de viajantes estrangeiros e nacionais que percorreram a região nos séculos XIX e XX. Goyas:1885. Lembrava também da necessidade de estudo rigoroso. presentes em documentos civis e eclesiásticos.

440 Idem. a um exame de teologia). no qual foram aprovados os principais pontos da reforma católica em Goiás. 19996. Maria da Conceição. cit.438 O rompimento do celibato também constituía-se um problema para os bispos reformadores goianos. 442 SILVA..441 Antecedeu o Sínodo o retiro espiritual. Os Dominicanos em Goiás e Tocantins. 2009. Porém.Op. p. p. Maria da Conceição. Edivaldo Antonio dos. Aquele foi o primeiro evento do gênero realizado no Centro-Oeste e teve por objetivo o “cumprimento de vossos deveres sacramentais”. licensiosos.442 Entre os dias 12 a 15 de agosto ocorreu propriamente o Sínodo. todos os anos. p..) cada um acha mil razões para continuar sua vida escandalosa. 441 SANTOS. 443 além do cumprimento dos votos de castidade. “As desordens. p. 114 .55.444 Esse esforço para o “enquadramento” dos sacerdotes dentro das regras disciplinares e doutrinais passou também pela reforma do Seminário “Santa Cruz”. Dissertação de mestrado em História. 444 SILVA. p. “Pelo que temos dito é manifesto: a vida de muitos Sacerdotes de nenhum modo se distingue da vida dos seculares e d‟aquelles seculares mundanos. Exemplar na resistência do clero “sertanejo” a esse 438 439 Idem.28. participando do Sínodo.440 Diante da má fama do clero goiano. cit. o seminário não provocou mudanças rápidas. o bispo procurava a unificação interna das suas condutas e conclamava todos os sacerdotes para „consolar‟ o coração de Nossa Senhora. 39 no total. os crimes dos sacerdotes são conhecidos de todos (. p. Op. Fundação e consolidação da missão dominicana no Brasil. a saber: a obrigatoriedade do uso do hábito fora de casa e de estudo (os padres com menos de 10 anos de ordenação deveriam se sujeitar. Como se pode acompanhar através das palavras de Dom Cláudio. estimada em 80. para violar cada vez mais criminosamente as leis Santas de Jesus-Chisto e de sua Igreja”.1. Este tinha por objetivo fortalecer a formação moral e intelectual dos futuros padres. pregado pelo Padre Vigário Provincial dominicano Frei Raimundo Madré e girou em torno da “santa castidade” e da importância do sacramento do matrimônio segundo as regras doutrinais. que se tem o nome de chistãos”. Goiânia: UCG. Universidade Federal de Goiás. 443 SANTOS.439 Como alerta o bispo.83. O Sínodo Diocesano ocorreu na primeira quinzena de agosto de 1887 e foi uma obra conjunta dos dominicanos e do bispo de Goiás. Edivaldo Antonio dos.12 Idem.83. p. quase a metade dos padres da diocese. O evento reuniu grande parte do clero goiano. Catolicismo e casamento.Por isso. ele convocou todo o clero para participar do Sínodo Diocesano em 1887.55. Catolicismo e casamento civil em Goiás (1860-1920).

intelectual e. Um deles era o padre João de Souza Lima de Boa Vista (1869-1947): No extremo-norte. missionário dominicano que chegou ao norte de Goiás no início da República. contudo. administrador da Mesa de Rendas entre 1920 a 1930 445 LIONARDI. de insuficiente preparo moral. p. de Boa Vista (atual Tocantinópolis). ao norte de Goiás. antes da chegada dos dominicanos existiam paróquias sem pastores. Op. cit. em 1883. Audrin. na hora da missa. padre João acabou se transformando em liderança política. a fim de garantir sua vida ameaçada. Segundo ele. p. Como pároco local. 115 . 446 AUDRIN. onde tudo se resolvia na base da invenção. Os sertões goianos seriam espaços de fronteiras entre o legal e o ilegal. entre o possível e impossível. deixaram-se contaminar pela liberdade dos sertões.“enquadramento” disciplinar foi o padre João de Souza Lima. via-se. alguns padres. ao escrever seu livro na década de 1940. deixando numerosos cristãos sem sacramentos!447 Padre João de Souza Lima aparece nessa narrativa como triste exemplar do “velho” clero. p. espiritual.309-310. Victor. e passava então „por fora‟. na triste necessidade de fazer-se acompanhar por jagunços.445 Assim. ou “entregues a sacerdotes idosos. da vastíssima diocese de Porto Nacional. 1996. Foi deputado estadual entre 1910 e 1914. Envolvido na política local. como se verá em seguida. encontrava fechadas ao seu ministério as residências dos seus „contrários‟. ocupados em política local ou em negócios temporais e cuidados de família”. Entre Sertanejos e Índios do Norte.216. detalhe mais penoso ainda. sobretudo. envolvido em política e às vezes em conflitos sangrentos. Entre Árvores e Esquecimentos: História social nos sertões do Brasil. da perseverança e do sonho.446 Audrin ressaltou que alguns daqueles padres foram contemporâneos seus nos sertões e seriam “as últimas „espécimes‟ do antigo clero sertanejo”. estudou no seminário “Santa Cruz” já dentro das novas diretrizes impostas pela reforma. José Maria.50. para se presumir contra algum ataque inimigo (como fazia certo vigário sertanejo que conhecemos). Teria recebido as ordens sacras em 1893 e assumido a paróquia de Boa Vista em 1897. a paróquia de Boa Vista era regida por um padre filho do lugar. em suas desobrigas. em conflitos sangrentos e necessitando da companhia de jagunços para garantir sua segurança durante as “desobrigas”. repetiu as narrativas dos primeiros missionários sobre o clero nacional. Ele havia sido “recrutado” durante a viagem pastoral de Dom Claúdio. de soluções novas. mesmo formados pelo seminário reformado. E. Brasília: Paralelo 15. ele não conseguia exercer condignamente a função religiosa para a qual foi preparado. Embora não chegasse ao ponto de colocar o revolver junto às galhetas. 447 Idem.

Quando faleceu. sempre garantido pelo Governo de Goiás”. 448 449 CORREA. p. p. nem o seminário diocesano “Santa Cruz”. estava em perfeito desacordo com aquilo que se esperava dos padres formados dentro dos princípios disciplinares e das novas orientações doutrinárias. p. Para tomar o poder em 1908 ele sitiou a cidade com 700 caboclos. Perpetinha: um drama nos babaçuais.451 Porém. nem o exemplo dos dominicanos que assumiram a paróquia e posteriormente a diocese de Porto Nacional conseguiram enquadrá-lo. Essa gente vivia na igreja rezando”. Goiânia: UFG. Goiânia: s.72. nem a legislação eclesiástica. nunca perdeu política. 1945. Tinha centenas de cabras que punha o nariz onde ele tirava o pé. São Paulo: Cia Editora Nacional. vários aspectos da atuação do “Padre João de Boa Vista” poderiam ser explorados por nós.453 Interessante que o mesmo padre João que usava de violência para combater seus inimigos e defender seus interesses políticos era condescendente com o modo de vida dos fiéis. Op. “Esse padre. 116 . mandou em Boa Vista. Boa Vista do “Padre João”. “A cabroeira do Padre João era desses assim [não recusavam empreita de matar homens]. Adenora Alves.ed. Claúdio.448 Enfim.31 PATERNOSTRO. Era a regra do tempo”.452 Chegou-se a afirmar que o padre de Boa Vista teve suas ordens eclesiásticas suspensas. 452 Idem. p. Não obedeceu: na casa paroquial mantinha uma viúva e sua filha. Porém. p. cit. Padre João foi censurado por celebrar casamento de pessoas já casadas ou separadas.31 451 BERNARDES. Enquanto viveu apoiou todos os governos. o padre “João de Boa Vista”. Carmo.127 450 CORREA. Tiveram que aceitar aquela presença incômoda na sua diocese e único pároco de Boa Vista até a sua morte (1947). Viagem ao Tocantins. Ele representava exatamente o tipo de sacerdote que os dominicanos queriam distância. Porém. Aldenora Alves. do Ceará.e Prefeito Municipal durante o ano de 1945. ibidem. Júlio. até hoje não se encontrou um documento que comprove tal punição. Op.450 De acordo com o romancista Carmo Bernardes. Aldenora Alves.63-64. era presidente do Diretório local do PSD. reaberto e reformado por D. era o “outro” com o qual não queriam ser confundidos e queriam ver reformados. entretanto. 1974. o que nos interessa ressaltar é apenas o fato de ele ser um exemplar desse antigo clero nacional que a reforma procurou extirpar. Ora. Padre João foi considerado a segunda edição do Padre Cícero (1884-1934). cit.449 O padre de Boa Vista “acoitava cangaceiros e praticava todos os desmandos. 453 CORREA. como era chamado. abençoando as segundas núpcias. 1991. Ele deveria ficar longe das mulheres e da política.

ao longo do rio Araguaia e ressaltou a pujança de Conceição do Araguaia.458 Para Gallais as práticas de vida nos presídios militares constituíamse num péssimo exemplo para os povos indígenas e depunha contra os capuchinhos. de sua população. De acordo com Hugo Fragoso durante o Segundo Império. principalmente. Uma catequese entre os índios do Araguaia. Uma empresa de navegação pelo rio Araguaia e alguns presídios militares. o missionário dominicano. São José e Santa Maria. 117 . Ao comparar os antigos presídios militares fundados pelo governo e atendidos pelos capuchinhos. p. com Conceição do Araguaia. A Igreja na Formação do Estado Liberal. 457 GALLAIS. defesa e produção agrícola ao longo do Rio Araguaia e Tocantins. os dominicanos também queriam se distinguir dos missionários das Congregações estrangeiras que atuaram no norte de Goiás. cit. p.455Os capuchinhos italianos encontrados no norte de Goiás por Berthet continuavam executando a política indigenista do governo. obra dos dominicanos. ibidem. Op.457 Enquanto nos “Presidios funcionários longe de toda fiscalização e soldados sem disciplina levavam freqüentemente uma vida dissoluta e davam o exemplo de todas as desordens”. frei Michel Berthet registrou o que se havia convencionado chamar de catequese dos índios. o governo autorizava a vinda de missionários da Itália. p. assim os capuchinhos italianos ocuparam um lugar de quase monopólio no trabalho missionário entre os índios. a superioridade moral de Conceição do Araguaia sobre a catequese mantida pelo Estado estaria no fato de que a primeira foi formada basicamente por “famílias honestas e laboriosas que para ali foram com o fim de viverem em paz e de gozarem as vantagens morais e religiosas que lhes faculta a vizinhança dos missionários”. p. com a presença de soldados. Eles foram encarregados pelo Imperador da catequese dos índios e atendiam também aos cristãos fixados perto dos “presídios militares”.148. BERTHET.Além do clero secular. Hugo. de 1842.139. Em meados do século XIX doze Capuchinhos chegaram à Diocese de Goiás com objetivo de evangelizar os índios do Araguaia e Tocantins. na segunda metade do século XIX. Estevão. colônias militares de povoamento. prisioneiros e um missionário. Frei Michel.79.454 Durante a visita pastoral ao norte de Goiás. pela lei n. 454 455 FRAGOSO. cit.285. em 1883. 456 Idem. Op. cit. o Provincial dominicano Frei Gallais ressaltou os aspectos decadentes dos presídios de Leopoldina. em especial dos capuchinhos.170. Op. no Pará. 458 Idem.456 Segundo ele.

Estevão. devia-se ao rígido controle da moral. além de muito próximos das tentações mundanas. Op. Estevão. José M. José Oscar. Lugares e Pessoas.51.461 Segundo Audrin “esses beneméritos apóstolos tinham já desaparecido ou envelhecido.140-143. o próprio D. cit. dos costumes e da justiça empregados pelos missionários na condução da vila. como os dominicanos se preveniram para não serem contaminados pelos maus hábitos dos sertões? Pe. com uma formação precária. 465 GALLAIS. Frei Michel.462 O Cônego Fonseca e Silva atribuiu o fracasso da obra evangelizadora dos capuchinhos ao fato de eles não estarem inseridos numa comunidade religiosa. Rio de Janeiro: AGIR. 464 BERTHET.418. 465 Temia-se a dispersão e o isolamento. Cônego Trindade. p. 459 460 Idem.O sucesso do povoamento de Conceição do Araguaia. p. (org). a morte e o seu abandono pelos missionários. As razões apontadas para esse resultado “desastroso” foram as doenças. impressiona a extensa lista de „aldeamentos‟ criados pelos capuchinhos em todo o Brasil no segundo Império. p. com pouca estrutura moral e religiosa. In: BEOZZO. História da Igreja no Brasil.460 As obras dos capuchinhos “acabaram com os que a criaram”. Entre Sertanejos e Índios do Norte.466 A essa prática dos dominicanos Fonseca e Silva atribuiu o sucesso da sua empreitada expressa no epíteto de “Beneméritos do Norte”. p. Uma catequese entre os índios do Araguaia. O. cit. 463 Frei Berthet ressaltou que os missionários capuchinhos. ibidem. ao contrário. 463 SILVA. Segundo Beozzo. e ninguém tinha vindo continuar suas heróicas empresas”. BEOZZO. Op. Ensaio de Interpretação a partir do povo. p.59-60. pois sua base de apoio era a paróquia. J. op.464 Poderíamos apontar essas mesmas razões para explicar o insucesso do clero nacional. 1980. p. cit. 466 Idem. distantes das autoridades eclesiásticas. com a mesma rapidez com que eram formados eles também se desfaziam totalmente. Nos conventos se agrupavam no mínimo de cinco a seis religiosos e estes faziam suas jornadas missionárias em dois ou três. Segunda Época. 461 GALLAIS. A Igreja e os Índios. cit. 1946.459 Assim.297. Petrópolis: Vozes. pois a experiência mostrara o quanto a dispersão se apresentava funesta. Cláudio insistiu para que os missionários observassem essas regras. Porém. na visão de Gallais o modo de vida em Conceição do Araguaia seria inspirador para os povos indígenas que viviam ao seu redor. além de serem tratados como empregados pelo governo.55 462 AUDRIN. Gallais ressaltou que o princípio que serviu de fundamento para a organização da missão dominicana no Brasil foi a comunidade. cp. as guerras. na visão dos dominicanos. ibidem 118 . De acordo com o frei. estavam isolados. Mas. O Apóstolo do Araguaia.

n. Para lembrar os desafios assumidos pelo primeiro bispo daquela diocese Audrin ressaltou que “das quatorze paróquias enumeradas pomposamente no Decreto de criação do Bispado. 3. os padres de uma Ordem conventual. estariam seus prédios. cit. em Porto Nacional. jul/1920. p. estrategicamente não divulgadas. Enquanto isso. matizadas de pedras preciosas de valor. Ano IV. Aquele grandioso prédio religioso foi elogiado por Neiva e Penna. como primeiro bispo de Porto Nacional (19201933). entre eles. vice-presidente da comissão. Outro poderoso símbolo de distinção dos dominicanos com o passado religioso do norte de Goiás foi a construção arquitetônica em estilo romano. Edivaldo Antonio dos. Um deles se encontrava em Arraias em idade muito avançada e outro em Boa Vista. mais fortes e visíveis deveriam ser os símbolos do poder religioso e. como a dos dominicanos. a paróquia de Porto Nacional foi elevada a diocese pelo Papa Bento XV. adereçado com cruzes de ouro pelo lado externo e interno. quanto mais fraco o Estado nos sertões. da Ordem dos Pregadores. p. o que não impedia que elas não fossem quebradas. J. AUDRIN.Os Conventos significavam os pontos de apoio. envolvido em política. uma Ordem conventual revelava sua força nos sertões.34 469 A INFORMAÇÃO GOYANA. um “sacrário todo de prata. Em 1920. sofrendo a ação destrutiva do tempo. como a única igreja digna que eles encontraram em todo o percurso da viagem.12. Os médicos ficaram realmente impressionados com aquela construção nos confins dos sertões goianos. cit. porém. Op. obra local. o missionário dominicano que veio para o Brasil possuía sólida formação moral e intelectual adquirida nas grandes universidades européias.140. 467 Assim. Idem.e pelo deputado federal Francisco Ayres da Silva. 470 Nesse processo. Entre Sertanejos e Índios do Norte. Numa área de 300. Além disso. p. confeccionada por um hábil ouríveres”.198 119 . em 1912. duas apenas possuíam titular em exercício”. Estas apenas recebiam a visita desses missionários periodicamente. os dominicanos deveriam viver em comunidade e seguir suas regras. foi noticiado que a igreja de Porto Nacional possuía. Op. contribuiu com D. uma comissão presidida pelo frei Reginaldo Tournier – superior do Convento dominicano de Porto Nacional . além de alfaias próprias. M.000 quilômetros. deveriam viver agregados não lhes sendo permitido assumir as diversas paróquias espalhadas pela região. porém. 468 Seja na Europa ou na América. p. Enfim. as velhas igrejas continuaram abandonadas. apenas em 20 de julho de 1920 o papa nomeou frei Domingos Carrérot. 470 A criação do bispado de Porto Nacional ocorreu em 1915. as bases físicas de onde os missionários partiam cruzando os sertões e para onde retornariam no início das chuvas. 469 Ora. vol. bispo de Goiás.87-97. Em 1915. contava a nova diocese com apenas seis missionários para 467 468 SANTOS. Prudêncio.

Cavalcante e Amaro Leite. p. ao sul. Segunda Época. Petrópolis: Vozes. a superioridade cultural de Porto Nacional e a própria distinção atribuída pelas autoridades eclesiásticas aos dominicanos. vilas e povoados. fiéis e bens materiais foram entregues aos dominicanos”. no norte de Goiás. em geral. 475 BERTHET.1. Caixa: Documentos avulsos de Porto Nacional. Frei. 1980. Existia um abismo entre o modelo de Igreja pretendido pelo missionário e aquele encontrado nos sertões.474 O dominicano centrava sua atenção no aspecto moral dos fiéis: “o estado moral deste povo é dos mais lamentáveis. 474 AUDRIN. A Igreja na formação do Estado Liberal.151-152. cit. Por fim. cit. José Maria. p. ibidem. Ao criticar os outros. Em diversas narrativas. In: BEOZZO.000 habitantes espalhados por cidades.2 Um olhar sobre os fiéis O choque entre o olhar europeu dos missionários dominicanos e a realidade vivida pelos fiéis no norte de Goiás foi enorme e inevitável.com relação ao clero nativo e com relação aos capuchinhos – os primeiros porque longe da “ortodoxia e da observância legal”. e dando continuidade a romanização da Igreja. História da Igreja no Brasil. em carta pastoral enviada ao administrador apostólico de Porto Nacional anunciando a criação da nova diocese assim justificou a necessidade da mesma: “Na falta de clérigos e religiosos nacionais.473 e. Op. Entre Sertanejos e Índios do Norte. a Diocese de Porto Nacional. cuja obra não teve continuidade. 120 . Idem.150. concluímos que o julgamento realizado pelos dominicanos sobre o clero nacional e os capuchinhos foi bem desfavorável. Hugo. 218. p. Seus limites com a diocese de Goiás eram as cidades de Flores. 471 Dom Prudente. Atente-se que ali não foi criada uma prelazia. Op. os segundos. 3. reconhecida pelo bispo e pela Igreja.65-66. mas um bispado ressaltando exatamente. e o único remédio seria enviar-lhes bons padres”. a solidez dos seus princípios e da sua obra.472 Enfim. José Oscar et al. Ensaios de interpretação a partir do povo. porque subordinados ao Estado e vivendo dispersos. fora de uma comunidade de referência.475 Ou ainda: “encontra-se a ignorância mais crassa entre 471 472 ARQUIVO PÚBLICO DE GOIÁS. Enormes distâncias entre “as condições materiais e morais dos pobres moradores privados dos mais necessários recursos da civilização”. seus índios. os dominicanos procuravam justificar a intervenção e marcar uma distinção . 473 FRAGOSO. os dominicanos ressaltavam aquilo que para eles era de fundamental importância: a vida comunitária. os dominicanos tiveram sua área de atuação.

sob o peso dos pecados mais monstruosos.477 Este estado moral estava associado. Op. o frade dominicano ressaltou que eles se mostraram dispostos a participar dos sacramentos. segundo frei Gallais. ibidem. Nessa situação. porque a maioria deles não tinha a real noção do significado dos sacramentos. a preguiça e a ignorância atrapalhavam até a confissão: Confessamos milhares e milhares de pessoas. Tal atitude era justificada pelos fiéis. a não ser a “A ignorância e a indolência” dos fiéis. o pecado capital dos fiéis goianos seria a ignorância. devido às enormes distâncias. num estado moral lamentável. é melhor dormir ao relento.esta pobre gente. ibidem 478 GALLAIS. 478 Porém. Michel. na rede suspensa em árvores ou sobre um couro de boi. Op. contando que lhes fosse permitido continuar sua vida desregrada. os casais se abrigavam por detrás “da razão de impossibilidade” e esperavam a melhor oportunidade para receber as bênçãos da Igreja. E todos querem se confessar. p.479 Segundo Berthet. como ressalta Berthet.480 Assim. 481 Idem. cit. não havia desculpas para o amancebamento. na concepção dos missionários? Para Berthet. pois eles não se acham na obrigação de responder senão ao que o padre pergunta. a demanda era tão grande que não podia ser oferecido a todos. do que ir repousar em tais moradias”. a casamentos realizados sem a presença do padre e ao amancebamento. onde se trabalhava apenas para não morrer de fome. Aceitariam as mais rudes penitências. dentre as quais não se encontrariam dez que soubessem confessar-se. Durante aquela visita pastoral ao norte de Goiás foram realizados mais de mil casamentos. que vive sem fé e morre sem sacramentos. As casas eram mal construídas e de uma sujeira pavorosa: “durante a estação da seca.107. Consideram uma felicidade quando se esquece de perguntar-lhes algo que seria ampla matéria de acusação. ibidem Idem. 479 BERTHET. p. p. como na própria cidade de Goiás. O Apóstolo do Araguaia. à ausência de padres.163 121 .” 476 Quais seriam os pecados dos fiéis. A indolência grassava pelos sertões. Estevão. É preciso perguntar-lhes tudo. a lei eclesiástica não era observada e numerosos casais viviam amancebados.482 Em Porto 476 477 Idem. porque ela se traduzia na vivência de uma religião supersticiosa. Quanto ao sacramento da confissão. sobretudo. enfim. em alguns lugares. 481 Apesar do julgamento negativo sobre os fiéis. os fiéis necessitavam ser instruídos a respeito das verdades da fé. aos custos dos casamentos. cit. ibidem 482 Idem.152 480 Idem.

Ressaltamos que as imagens elaboradas pelos missionários dominicanos sobre os fiéis no norte de Goiás compuseram um amplo quadro negativo. Era também uma religiosidade assentada sobre lideranças leigas – rezadores. Ali os homens importantes se confessaram. 122 . cit.) Uma História no Plural: 500 anos do movimento catequético brasileiro.112-113.488 Tais práticas religiosas ficavam distante dos complicados conceitos teóricos doutrinários e pouco agradavam a hierarquia que tudo fará para modificar tal situação. a população local deu grandes consolações ao bispo e ao missionário. Porém. ibidem Idem. novenas dirigidas aos santos protetores e a romarias. Op. Primórdios da Catequese: arranjos do período colonial e imperial. Estevão. Op.115. 490 Idem. como se verá em seguida. ibidem 486 GALLAIS. benzedores. ibidem 485 Idem. Frei Michel. percebeu-se uma enorme distância entre a religião oficial e aquela vivida nos sertões.Imperial. cit. Eles estariam mergulhados nas trevas da ignorância e do erro. suas intenções religiosas não seriam sinceras e o que prevalecia era a ignorância e a superstição. Mauro (Org. Os ricos negociantes pediram ao bispo que ali deixasse o missionário dominicano.152. transmitidas de pai para filho nas famílias. Petrópolis: Vozes. A Igreja na Emancipação. p.487 Essas práticas religiosas eram aprendidas nas famílias e comunidades que se reuniam para celebrar os santos de devoção. Op. nos cinco dias que ali permaneceram. 1999.484 Nas palavras do missionário.490 Afinal. 483 O vigário local. Riolando. além de imagens milagrosas e objetos protetores – onde o papel do padre era relativamente pouco importante.485 Os habitantes daquelas paragens seguiam a religião católica. eles não puderam contar com o exemplo dos padres. p. “Esta população faria os maiores sacrifícios para ter uma casa de missionários e a graça do Nosso Senhor transformaria certamente em pouco tempo estas almas tão bem dispostas”. Naquele espaço social prevaleciam as crenças tradicionais. João Fagundes.489 Não possuiriam conhecimentos sobre os sacramentos. cit. foram realizados mais de duzentos casamentos e até as mulheres públicas correram atrás de um marido e foi impossível confessar a todos que procuraram aquele sacramento. eles eram católicos e poderiam ser redimidos através da ação missionária. In: PASSOS. nem com 483 484 Idem. p. O Apóstolo do Araguaía. muito mais do que seria lícito supor.486 Tais práticas estavam associadas a promessas. porém. p. 488 AZZI. ibidem. 487 HAUCK.15-31 489 BERTHET. já idoso e quase cego pediu ao bispo sua exoneração.

cit. Assim. O curso normal era equiparado à Escola Normal e recebia subvenção do poder público. 493 INFORMAÇÃO GOIANA. Outra preocupação dos dominicanos foi com relação à formação da juventude. ele conseguiu realizar cerca de setenta uniões. 123 .138.492 Essa tentativa de sacralizar as famílias foi uma prática comum dos dominicanos nos sertões goianos. jul/1920.491 Inicialmente. chegadas da França. foram em seu auxílio as Irmãs dominicanas do Santíssimo Rosário de Monteils que. porque os padres que atuaram na região foram considerados extremamente negligentes. um esforço enorme foi feito pelos dominicanos no sentido de sacralizar as famílias. nos sacramentos e na “moralização da realização das festas religiosas mediante a sacralização dos espaços e dos eventos da Igreja”. No currículo do Colégio.2 O Projeto dos Dominicanos para os Sertões 3.493 Em 1904. 3. Inicialmente o Colégio só oferecia o ensino primário. foi criado curso normal. GALLAIS. 3. chama a atenção o estudo 491 492 SILVA. Para viabilizar o ato religioso mandou confeccionar um único vestido de noiva que passava de mão em mão.suas valiosas instruções. vol. Op. A idéia de Porto Nacional como capital cultural do norte de Goiás está também relacionada com a instalação dos dominicanos na cidade (1886). Após realizar um levantamento sobre os amancebamentos. O Apóstolo do Araguaia. p. fundaram o Colégio “Sagrado Coração de Jesus”. O catolicismo popular em Goiás. p. tornou-se conhecido na cidade de Goiás pela expressão “Larga ou casa!”. na quaresma de 1888. n. Instalado em prédio próprio desde 1906. p. Mônica Martins da.12. o Colégio funcionava como internato feminino e externato para ambos os sexos.138-139. Estevão . via instrução. ele foi de casa em casa visitando as famílias e convidou-as a se casarem na Igreja.108-109. Eles insistiam na freqüência às missas. Ano IV. cit. Op.2.1 Os dominicanos entre os fiéis Os missionários dominicanos se fixaram nos sertões goianos e passaram a disputar com os leigos a condução das práticas religiosas. Frei Gil Vilanova. no Convento “Santa Rosa de Lima”. antes de se transformar no “Apóstolo do Araguaia”. porém em 1920.

Mônica Martins. desenho. In: htpp//WWW. Dom Cláudio. mais tarde foram reconhecidas como expressão da força do catolicismo (padre Audrin). essa normativa episcopal.227 124 .8-10. os dominicanos viam as festas do Rosário e do Imperador (as mais populares em Goiás) como deformações do que outrora organizaram os jesuítas. porque qualquer protesto violento e precipitado seria contraproducente. o Colégio “Sagrado Coração de Jesus”.495 Cabia aos missionários dominicanos fazer cumprir. banquetes dos Imperadores do Divino e bailes. A Produção do Habitus cultural em Porto Nacional (Sec. culinária e música. Nesse esforço da hierarquia eclesiástica e dos próprios dominicanos na adequação da religiosidade dos fiéis de modo mais coerente com as exigências do catolicismo romanizado.496 Assim. o Colégio foi conduzido pelas Irmãs dominicanas e as meninas ficavam em regime de internato. porém. Os dominicanos tinham consciência da necessidade de incluir as meninas no seu projeto de propagação da alfabetização e da catequese no norte de Goiás. O Catolicismo popular em Goiás. José Maria. devido à preocupação das famílias com o controle da honra feminina na época. Op.ufmt. cit. latim e francesa. Op. percebe-se uma tentativa de separar o sagrado do profano. Ora.das línguas grega. 496 AUDRIN. Acessado em 16/11/2010. cumpria a função de disseminar a educação formal e os valores do catolicismo romanizado entre as elites locais e regionais. os missionários logo perceberam que não seria conveniente opor-se de uma vez às tradições antigas. o Colégio preparava as meninas para serem professoras e/ou boas esposas e mães. XIX-XX). Benvinda Barros Dourado. p. no norte de Goiás. Entre Sertanejos e Índios do Norte.494 Percebe-se que tais esforços dos dominicanos nos sertões tinham por objetivo básico diminuir ou mesmo suprimir a distância entre os ideais e as práticas dos cristãos. através das normatizações. Era costume realizarem-se ali eleições políticas. quando tomou posse da diocese de Goiás em 1881. os dominicanos participavam ativamente das festas religiosas. Assim. Segundo Audrin. Porém. cit. Enfim.228. em Porto Nacional.br/semiedu2009/gts/gt8/ComunicaçãoOral. Inicialmente elas foram consideradas sinal de decadência e de ignorância dos fiéis (padre Berthet). de forma a garantir a influência da Igreja junto à sociedade. 494 RIBEIRO. além do ensino das artes manuais. p. proibiu ao povo e aos padres de celebrar festejos dentro das igrejas. p. 495 SILVA. Aproximar os dois catolicismos praticados nos sertões – o da vida e o da teologia – implicava enfrentar os problemas do analfabetismo e do ensino da doutrina.

p. precedidos da bandeira do Divino e acompanhada por alguns músicos. Entre Sertanejos e Índios do Norte. que quer ser bem tratada.). 502 Idem.501 Entretanto. realizadas em Goiás. 1998. Frei Michel. In:DREHER. como havia normatizado D. onde a bandeira seria beijada respeitosamente pela família. Frei Michel. 503 Para Berthet. que os foliões. receberia esmolas e um pequeno refresco.226-228. indo de casa em casa pedindo esmolas. “a esmola reservada ao Divino será absorvida pela folia. Cit. Segundo ele. a festa ao Espírito Santo veio de Portugal e foi adaptada no Brasil pelos padres jesuítas.500 Berthet. assim. (Org. era revestida de grande seriedade. Op. faziam o giro pela cidade. a folia se dirigia para as roças. 497 Berthet e Audrin nos deixaram descrições da festa do Imperador do Divino. p. lembra a seguir. Cláudio. tiravam-lhes uma possível fonte de renda. Martha Abreu. O festeiro organizaria ao giro da “folia” angariando esmolas para o custeio da solenidade. A “folia” seria composta por pedintes que. despeja-se cachaça com abundância. além de levarem a bênção aos fiéis.148 499 AUDRIN. 497 498 Idem. BERTHET.149. Festa do Divino: modelo de igreja dos açorianos. ibidem. ibidem. Op.226-227 500 JACHEMET. cit.498 O personagem principal da festa seria o “Imperador do Divino” escolhido no ano anterior.504 Berthet não conseguia perceber a festa do Divino como um sinal expressivo da força do catolicismo nem como expressão da fé de um povo. Martin. chamado de imperador. p. Cit. Populações Rio-Grandenses e Modelos de Igreja. procurou compreender a dinâmica relação das festas com a experiência dos sujeitos sociais que. p. 125 . Op. tarefa destinada aos padres.502 Após ter feito o giro pela cidade.499 O fato é que a festa conseguia envolver a comunidade local e todos se empenhavam para dar-lhe brilho. “Eis que umas trinta pessoas se apresentam na casa de um pobre roceiro todo feliz por receber a visita do „Divino‟ e por vezes bastante embaraçado para poder hospedar e alimentar a folia”. a escolha do festeiro. 504 Idem. Porto Alegre : Edições EST. Eles entrariam na casa. Mata-se um boi.porém impunham restrições ao uso do espaço sagrado do templo. ao estudar sobre a Festa do Divino no Rio de Janeiro Imperial entre 1830-1900. p. ibidem. 503 Idem. Célia Silva. a “folia do Divino” também era composta pelos devotos que fizeram a promessa de acompanhar a bandeira. Berthet foi bem mais prolixo e se preocupou em descrever as várias etapas da festa considerada “a grande devoção dos brasileiros”.116 501 BERTHET. esgotam-se as provisões do pobre roceiro e: Viva o Divino”.

p. Tudo temperado com música e foguetes.505 Para ela. a cooperação” e ajuda mútua. O Império do Divino. os conflitos.. J. 1978. cit. p. prometendo-lhe muita graça”.71. encontramos o registro de um canto para tirar esmolas do Divino. (. Veja: “(.71-72. Entre Sertanejos e Índios do Norte. com a pomba no topo. 507 Porém. a pesquisa possibilitou “observar que as festas são sempre recriadas e reapropriadas. Que deu ao Divino agora. Op. Ela podia ser rezada com ou sem a presença do padre. p. elas “falavam sempre de muita alegria. que também prometiam muitas graças terrenas e o reino da glória a quem o ajudasse. Martha. contendo as paixões. Berthet parece preocupado exatamente com a ausência de separação entre o sagrado e o profano.226. Op.150 510 CORREIA. 126 .506 Riolando Azzi ressalta que “a Festa do Divino desperta também a coesão social. Michel. p. Mas é rico pra nos dar. 507 AZZI. com a falta de definição clara das funções do clero e dos leigos ou talvez com o papel menor ocupado pelos padres durante as festas.71 511 ABREU. p. p. Deus lhe pague a esmola. ibidem. prazer. 505 ABREU. na paróquia de Tocantinópolis. Ele é pobre no pedir. Martha Abreu descobriu os grandes atrativos do Divino.57. cit. cit. pandeiros. onde o dono era abençoado e dava esmolas.38 506 Idem.509 Os foliões. tornaram-nas autênticas e concorridas.510 Acompanhando os foliões. 1830-1900. a festa era antecedida pelo seu “novenário” ou. cit. p.512 Nos sertões goianos. pelo menos.122 508 CORREIA. com viola. de chapéus enfeitados com flores e fitas e a bandeira do Divino iam de casa em casa. Riolando. Martha. cit. Alcance o reino da glória”.513 A novena consistia em cantar uma antífona ao Espírito Santo ou uma ladainha e rezar uma dezena de terço. Op. 1999. nas brincadeiras da festa.. a cargo dos festeiros escolhidos no ano anterior. 512 CORREIA. cit. 513 AUDRIN. Aldenora Alves. seu “tríduo”. M. garantia do seu sucesso. as crenças. O Império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro.. Aldenora Alves. que serviria de “pau-de-sebo” posteriormente.508 A população se fazia presente para participar da cerimônia e ver se elevar nos ares a bandeira do Divino.. p.) Quem der esmola ao Divino. Deus permita que por ela.511 Para o extremo norte de Goiás. Op. as esperanças dos seus próprios agentes sociais”.) elogiavam quem contribuísse. Não se ponha duvidar. presentes nas cantigas. apresentavam o Divino como amigo dos pobres e consolador após a morte. Os preparativos para a festa do Divino iniciavam-se com grande antecedência. No sábado da Aleluia era erguido o mastro simbólico. Aldenora Alvas. comidas e bebidas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Op. 509 BRETHET.. Petrópolis: Vozes. indicando que chegara o “tempo do Divino”. O catolicismo popular no Brasil: Aspectos históricos.situados no tempo e no espaço. Op.

estavam o imperador e a imperatriz do Divino que. porque era ele que mobilizava a população da vila e do campo através do “giro da folia”. que faziam naturalmente subir em alto grau os entusiasmos e inspiravam um sem número de oradores. p. com as oferendas dos fiéis ao Espírito Santo. Depois do banquete. vestidos a caráter. colocavam a coroa na sua cabeça. com acompanhamento de ruidosa orquestra. sentados num trono. antes da missa. cantava-se a missa. regados a Vinhos e „branquinha‟. pajens e outros. 127 . mesmo de longe. as danças e a música.516 Em segundo lugar. A renda seria revestida para a festa. essas diversões barulhentas! Que noites de insônia. No dia do evento. tratava-se de uma festa religiosa que. festins pantagruélicos. cit. para os fiéis não havia a separação entre espaço sagrado e espaço profano. O comum do povo. depois das fadigas do dia. 516 JACHEMET.117. Os assistentes acompanhavam então os dignatários até suas residências. os banquetes. a negrada. saltava e sapateava tarde e noite inteiras. os assistentes.Após a novena. ao ritmo estonteante de enormes tambores de antiga importância africana. a participação na missa não passava de uma obrigação formal. Encontramos vários elementos relevantes para pensar o mundo das festas religiosas populares no norte de Goiás. ibidem. seguido de procurador. Op.227. p. todavia.514 Na igreja. cabendo aos escolhidos para organizá-las funções e títulos militarizados. como o título de Imperador (autoridade máxima). da reza 514 515 Idem. ao contrário do que pretendia a Igreja. Durante a missa havia sermão e no fim a procissão solene. A festa começava muito antes e terminava muito depois do fim do sermão com os foguetes. os bailes. precedidos pela música iam até a casa do “imperador do Divino”. Esta parte considerada “profana” da festa era apenas suportada pelo missionário e realizada fora do templo. Idem.. Em primeiro lugar. sob o pálio. o indispensável baile para a „elite‟. o padre celebrava a missa e na frente do altar. ali permaneciam durante toda a celebração. Para os fiéis. Célia Silva. porém. debaixo de imensas „latadas‟ feitas de bambus e ramos de palmeiras. os banquetes tradicionais. ao trovoar das „rouqueiras‟ e de centenas de foguetes. em presença dos festeiros coroados e assentados num trono em frente ao celebrante. noites passadas em imaginar as muitas desordens morais provocadas por tais orgias! 515 No dia da festa. a caboclada. alferes da bandeira. sempre rezada na entrada da noite. o cetro na mão e o conduziam até a igreja. nessas festas havia uma hierarquia rigorosamente obedecida. ressaltava exatamente o poder do leigo. Pobre do missionário e pobre do bispo obrigados a suportar. as bebidas. E começavam. começavam os leilões.

O missionário dominicano reconheceu a autonomia de pessoas comuns. cit. pois na sua concepção tudo aquilo precisava ser alterado. como a bandeira. Este mérito da negociação foi atribuído por Audrin a Dom Carrerot. o que exigiu permanentes e dinâmicas negociações. enquanto estava nos sertões fez enormes esforços para agüentar com paciência aquela “mistura de alegria ruidosa e profana”. numa relação sempre complexa entre o clero e os leigos. acostumado de muitos anos. Por isso. 519 Percebe-se que o ímpeto de reforma dos dominicanos foi contido pela resistência dos fiéis. transformações ou antes deformações do que outrora 518 inventaram e organizaram santos missionários. Paciência e negociação atribuída por Audrin ao bispo de Porto Nacional: Dom Domingos. Não estranhava tais abusos como aconteceria para outro Prelado pouco treinado em suportar as esquisitices do sertão. Porém. tudo tinha que ser feito muito lentamente porque esbarrava sempre na resistência dos fiéis. ela dispõe de vários recursos simbólicos. Frei Berthet fez questão de ressaltar os detalhes da festa para chamar a atenção para os abusos e as superstições dos fiéis. ibidem. a pomba que representa o Divino e. normatizar para retirar o que se considerava como excessos. Sua prudência unida a uma velha experiência impedialhe qualquer protesto violento. precipitado e contra-producente contra costumes inveterados. com relação às festas religiosas populares. na instalação do mastro da bandeira e no destino das doações. Elas pensavam e agiam sempre em consonância com sua fé e seus costumes antigos. nas suas memórias. 128 . após vários anos de experiência nos sertões compreendeu que as festas faziam parte dos costumes em comum daquelas comunidades espalhadas pelo interior e sem possibilidades de diversão. Idem.517 A estratégia dos dominicanos. era a de suportar para lentamente modificar. sabia que não podia e nem convinha opor-se de uma vez a tradições ancestrais. Por fim. acostumar o fiéis a participar das celebrações e dos sacramentos. portanto. Entre sertanejos e índios do norte. aproveitando a oportunidade para propagar a doutrina religiosa. distante do dogma. Op. p. 517 518 519 AUDRIN.das novenas. Frei Audrin. Ou seja.228. 227 Idem. Era melhor “ser condescendente” e reconhecer as práticas religiosas populares como expressões de uma fé simples e sincera do que simplesmente tudo condenar. primeiro prelado da prelazia de Conceição do Araguaia (1911-1920) e depois primeiro bispo da diocese de Porto Nacional (1920-1933).

de batismos. às tentativas teimosas dos espíritas e.. até o dia 18.Entre os atos religiosos comunitários e expressão coletiva da religiosidade no norte de Goiás. O primeiro deles foi a grande concorrência popular. Segundo ele. digamolo com franqueza. é verdade. no seu livro Imagens do Tocantins e da Amazônia publicado em 1942. Esse costume chamou a atenção também do Tenente Humberto Peregrino. 129 . no Muquém.pois as estradas existentes eram ainda os trilhos do carro de boi. “famílias inteiras se transportavam a estiradas distâncias por qualquer motivo. com sincera humildade: „Fazei o que vos pregamos e não o que nos vedes praticar‟. afim de cumprirem suas „promessas‟. a 15 de agosto.) A 14 de agosto D.. não destituídas todas porém de pitoresco. 521 Alguns dos elementos presentes na romaria chamaram a nossa atenção.. como aquele encontrado por Arthur Neiva e Belisário Penna (que retornavam daquela romaria) . chegavam a triste necessidade de dizer outrora aos fiéis. para depois cumpri-las a todo custo e sobretudo sem respeito humano. Numa região distante e considerada de difícil acesso . p. (. que resistiu aos esforços periódicos de agentes protestantes. A mais tradicional e concorrida era a romaria do Bom Jesus de Bonfim. aos maus exemplos daqueles que tendo missão de ensinar o caminho de Deus. e até de ridículo e quase supersticioso. no município de Natividade. Era preciso atender a milhares de romeiros vindos em procura de confissões. Nos alongaríamos demais si quisessemos contar apenas algumas das muitas “promessas” que o bom povo sertanejo gosta tanto de fazer.) Fé tão robusta na sua ingenuidade. 218. „a festa da Senhora da Abadia. ao Sul da Província... as missas cantadas.permanecia o costume de viajar a grandes distâncias para participar das festas religiosas. os sermões. ou ainda por grupos de pessoas a pé. por onde marchavam homens e mulheres montados em cavalos ou burros. de casamentos e sobretudo de crisma. ibidem. milhares de romeiros vindos de todo o norte de Goiás e mesmo dos vizinhos Estados da Bahia e Piauí. (.(. as rezas solenes. e outras são um pretexto para se 520 521 Idem. e lá se deteve em árduos trabalhos. as procissões. Idem. distante de Porto Nacional trinta e cinco léguas.520 Na transcrição a seguir encontram-se outra série de elementos que caracterizam a prática da festas populares naquele tempo como a de romaria (ainda hoje existente): Neste antigo santuário costumam reunir-se.. Domingos fez sua entrada solene no arraial do Bom Jesus de Bonfim. encontramos também as romarias. e inédito. Além de tudo isso. aos pés de uma vetusta imagem de Jesus Crucificado.) Muitos atos de fé e gratidão a Nosso Senhor pudemos presenciar no devoto santuário: manifestações sinceras.

fazerem viagens de 60 a 80 léguas‟”. Ao narrar o que considerou um “espetáculo variado e curioso” Audrin nos ajuda compreender esse universo religioso vivido no espaço dos sertões. Podemos até estranhar os pés descalços. Imagens do Tocantins e da Amazônia. Mesmo criticando os excessos. 526 Idem. Sobre os votos.o devoto recorre diretamente ao seu santo protetor e promete algo em troca do benefício esperado. 525 AUDRIN. Na concepção dos dominicanos. sem pronunciar uma só palavra”. como o pagamento de promessas. de missas celebradas.13 523 Idem.522 Ele ressaltou então que “a aspereza e o prazo das jornadas não impressionam nem tolhem os habitantes destes mundos”. cit. o missionário anotou que eles poderiam começar a ser pagos antes de iniciar os festejos. no qual o relacionamento com o sagrado se dá de forma direta. Op. José Maria. 220. 130 . Assim diante de uma dificuldade na vida – doença. Op.525 O voto também poderia ser pago dentro ou fora da capela.219. p. promessas feitas diretamente ao santo de sua proteção. evidenciava também a própria popularidade do catolicismo e da Igreja. Rio de Janeiro: Biblioteca Militar. era expressão da fé de um povo e de sua identidade. má colheita. três dias e mais dias. outros. falta de chuva. distribuindo água aos romeiros. no espaço dos sertões. viajam entre dois. de procissões realizadas e de sacramentos distribuídos. o missionário reconhecia que as festividades faziam parte do culto católico. p.tão profusamente demonstrada durante a festa de romaria faltava doutrina. aos fiéis do sertão não faltava fé . ao contrário. 1942.526 As promessas ou votos estão associados a práticas religiosas devocionais. “alguns começam a cumprir seus votos ao sair das casas. Humberto.146. Durante a procissão chamava a atenção mulheres carregando na cabeça pesadas pedras e outras com pote de água fresca na cabeça e vasilha na mão. p. mas com os pés descalços. filhos e tropeiros. 524 O missionário. Entre sertanejos e índios do norte. entre outras . Tem. dificuldade no parto. Durante as celebrações religiosas era possível ver alguns fiéis trajados ricamente. Ibidem. ou seja. 524 SILVA. em companhia da mulher. ao ressaltar a quantidade de pessoas. o torso nu e as mulheres carregando pedras na 522 PEREGRINO. cit.523 A romaria expressava também a vocação da Igreja para o culto das exterioridades bem como de uma identidade de um catolicismo repleto de festas. Mônica Martins da. vestidos apenas com uma calça dobrada acima dos joelhos assistiam toda a celebração de joelhos e com os braços cruzados. O catolicismo popular em Goiás.

528 Os sertões constituíam-se também em área de expansão religiosa não católica. ao contrário do relatório Penna e Neiva que condenou a participação dos sertanejos nas romarias e nas feiras como desperdício de energia e de recursos. João Fragoso. p. como nos exemplo de Audrin. no início do século.529 De acordo com João Fagundes Hauck. Op. foi trazido para o Brasil e adquiriu novo sentido a partir do trabalho dos lazaristas. Dessa forma. ibidem. para os penitentes o que interessa é a promessa feita.111. a proteção do sagrado que ele buscou e foi agraciado. p. o que era positivo. A Igreja na Emancipação. na década de 1940. Tanto nas narrativas de Gallais. Na tentativa de implantar a reforma os dominicanos. dinâmica e criativa. Idem. os pontos ou locais onde ocorreriam as “missões populares”. quanto nas do padre Audrin. ibidem. para evitar “contestações” e os leigos. por sua vez. Tudo feito dentro de uma relação complexa. 131 . O missionário compreendia que aquela fé e suas práticas poderiam constituir-se num fator de impedimento da penetração dos protestantes e espíritas nos sertões goianos. nos quais os missionários demoravam de quinze a vinte dias. Como ressaltou Audrin. de grande sucesso na França. 527 Compreende- se que combater os excessos significava direcionar a festa e a fé dentro das expectativas dos missionários. autoridades e padres locais. Porém. “O povo é prevenido e sabe em que data e onde poderá encontrar-se com os missionários”. utilizando-se das missões populares e das “desobrigas”. 529 GALLAIS.cabeça e distribuindo água por ocasião das procissões. os missionários acabaram por valorizá-las e reprovaram apenas os exageros. tanto para evitar contestações. ressaltava-se a existência do planejamento das ações dos missionários dominicanos. Estevão. ela passou a significar missão entre os fiéis.530 De catequese dos índios. cit. Op. quanto porque a religiosidade popular poderia ser útil para a própria Igreja. o modelo de missões populares. os missionários dominicanos tentaram implantar a reforma sem entrar em conflito aberto com os leigos. tudo deveria ser feito sem romper radicalmente com práticas costumeiras. Porém. 530 HAUCK.103. montavam estratégias para atingir todos os fiéis da diocese. O apóstolo do Araguaia. sediados nos seus Conventos. cit. A cada ano era demarcado um “campo de ação”. foram aderindo a ela sem romper radicalmente com as suas tradições religiosas. 527 528 Idem.

de confessar e comungar. provocar conversões e regularização 531 532 AUDRIN. em seguida celebrava a missa durante a qual eram realizados os casamentos e batizados. que se estendiam até altas horas da noite. iniciava os trabalhos com o catecismo às crianças. junto com um roteiro bem determinado. Com a mesma antecedência.com padres não dominicanos e não adequados . Havia a compreensão de que anunciar a palavra equivalia à preparação doutrinária para a recepção dos sacramentos. o missionário despedia-se com uma larga bênção e dirigia-se a outro pouso onde repetia o mesmo esquema dos trabalhos anteriores.69 132 .531 Audrin ainda se preocupou em deixar detalhado o esquema de uma “desobriga”. Aquele era o momento de rezar o terço. o missionário. previamente avisado e estando os fiéis ali reunidos. p. seguiam um roteiro pré-determinado e duravam apenas uma noite e uma manhã. Assim. ao chegar ao primeiro pouso. enquanto os Religiosos estavam esperando no convento o fim das chuvas invernais. as estradas por onde seguiria. a fim de que todos pudessem aproveitar a breve passagem e receber os sacramentos. através delas buscava-se recuperar o fervor religioso. as “santas missões” tinham por finalidade a evangelização e a catequese.Enquanto as missões eram realizadas onde existiam paróquias . Após o almoço. principalmente. publicação dos casamentos. mas. Segundo Audrin: No princípio do ano. Cada um recebia um programa de ação. elas poderiam durar entre uma e duas semanas. indicando os povoados e as zonas a visitar. O canto do bendito encerrava a reunião e o padre iniciava o atendimento às confissões. Após a refeição iniciava a reza do terço e o canto da ladainha seguido de pregação. recomeçava bem cedo a ouvir confissões. as desobrigas ocorriam por todo o interior. organizava-se o plano da campanha espiritual. através da confissão e comunhão. informações e anotações sobre casamentos.e podiam durar até 15 dias. 533 Idem. Entre sertanejos e índios do norte.68-69. cantar a ladainha. além do indispensável sermão e a distribuição da eucaristia. cit.68. Idem. Op.533 Nas “desobrigas” o missionário cumpria uma função bem clara: a de possibilitar a regularização da vida sacramental dos fiéis. p. os sítios em que deveria „pousar‟. No dia seguinte. Diferentemente das desobrigas. p. povoações e famílias eram informadas do dia da chegada do Padre e do tempo da sua permanência. avisos e convite para os sacramentos. Elas eram mais demoradas.532 Faz-se necessário esclarecer que a Igreja através dessa prática supletiva possibilitava ao fiel fazer a páscoa anual.

evitando assim os conflitos. e no final da década de 1940.144. p.112. já os dominicanos se aproveitavam da fragilidade de Estado para ampliar seus espaços. nos campos e nas matas que se estendem em direção ao Xingu”. Estevão. a Santa Sé criou em 1911 a Prelazia de Conceição do Araguaia. entre novos e velhos fiéis. 536 Idem. ambos eram otimistas com relação ao futuro dos sertões goianos. os missionários procuravam. 535 Porém. com uma população de seis mil almas. 534 535 FRAGOSO. reconciliação de ódios. 534 Com uma temática exposta em sermões doutrinários e moralizantes e farta distribuição dos sacramentos. Hugo. os missionários dominicanos. “almas a socorrer e salvar”. Em reconhecimento ao enorme esforço feito pelos dominicanos. quase completamente desaparecidos. A preocupação com a sacralização da família. além das tentativas de afastar os abusos e as superstições e estimular a volta aos sacramentos. O dominicano frei Gil Vilanova foi o principal responsável pela catequese indígena na região do AraguaiaTocantins. Os primeiros acreditavam no poder da ciência aliada ao Estado para modificar a situação de doença e abandono ali encontrados. Apesar das diferenças de projetos de médicos e padres. Op. enquanto os médicos de Manguinhos desistiram de conhecer Conceição do Araguaia e não registraram a presença de índios no norte de Goiás. cabeça de comarca. 133 . Op. p. cit. onde ficou conhecido como “o apóstolo do Araguaia”. O Apóstolo do Araguaia. A Igreja na Formação do Estado Imperial. fosse através das missões ou das desobrigas. os missionários assistiram a extinção rápida dos Caiapós estimados em cinco mil no início da missão. ao contrário. criando novas práticas religiosas e morais nos sertões. fizeram verdadeiros trabalhos etnográficos e implantaram seu projeto de catequese entre os índios nos sertões goianos e paraenses. e seu território contava com mais de quinze mil habitantes. reduzidos a dois mil e quinhentos em 1911.536 Percebemos que. Quanto aos indígenas podemos dizer rapidamente que os primeiros dominicanos que chegaram ao Brasil em 1881 planejavam catequizá-los. confiada a Dom Domingos Carrérot.209-210. cit. O pobre povoado de frei Gil não era mais o arraialzinho de outrora.da vida. p. com a formação cristã da juventude conjugadas a ações missionárias e “desobrigas” tinham por finalidade conformar as comunidades que viviam no espaço entre os rios Araguaia e Tocantins ao novo modelo de Igreja. GALLAIS. “Era já cidade. espalhados pelas beiras do rio.

539 Neiva e Penna criticaram abertamente a atuação dos redentoristas. ibidem.537 Durante as ditas “missões”. Arthur e PENNA. Neiva e Penna ao percorrerem o norte do Brasil criticaram os frades de diversas congregações religiosas que circulavam em “missão” no interior. Neiva e Penna ao encontrarem com os dominicanos em Goiás. principalmente com o médico Francisco Ayres da Silva e com os dominicanos..). Op. existem os frades dominicanos instalados no Porto Nacional.168 134 . para contraste consolador. portanto.”540 Para os médicos de Manguinhos.. p.538 Em Goiás.3. Em Porto Nacional.169 540 Idem.168. Em suas palavras: “Felizmente. O pior ainda era a guerra que esses missionários faziam ao casamento civil.. declaram guerra ao casamento civil e (. os médicos chegaram no dia 04 de agosto e permaneceram até dia 16.. os dominicanos constituíam a parte da Igreja que se submeteu ao Estado e se tornou colaboradora e propagadora da “civilização” nos sertões.) exploram vilmente a população”. Foram. já que estavam diante de uma expedição médica oficial. Idem. humanitária e civilizadora há de (. Um posto médico seria bem vindo.. esperavam que após aquela expedição que o Estado interviesse para melhorar as questões dos transportes terrestres e fluviais na região entre os rios Araguaia e 537 538 NEIVA. mas. principalmente.. os sacramentos de casamento e batizado eram cobrados.1 O Encontro dos missionários com os médicos nos sertões Como já dissemos no primeiro capítulo. exercem o sacerdócio com toda a dignidade e. a sua ação intelijente. p. não instalaram sequer uma escola. depois em Porto Nacional (Frei Audrin e outros não identificados) notaram uma diferença enorme entre os missionários franceses e os missionários de outras Ordens e Congregações que atuavam nos sertões. p. primeiro em São José do Duro (frei Domingos Carrerot e frei Reginaldo Tournier). 12 dias de pesquisas e conversas com a população local.3.3 Os Dominicanos no Combate ao Relatório Neiva e Penna 3. Belisário.) se inscrever na história (. estes sim. principalmente. porque eles não aceitaram o casamento civil. cit. É claro que esses interlocutores alimentaram expectativas com os resultados daquele encontro. os médicos encontraram-se com os padres redentoristas e reclamaram da sua atuação: “até hoje nada fizeram de útil. 539 Idem.

Foi em Uberaba que escreveu seu primeiro livro. Todavia. esse enfoque na doença que transformava os goianos numa população de ignorantes. segundo o frade. essas expectativas acabaram se frustrando e todas aquelas informações dadas pelo médico Francisco Ayres e pelos dominicanos foram apropriadas por Neiva e Penna para transformar Goiás na região da doença de Chagas. Entretanto. não só tomou conhecimento do relatório. sua pretensão era a de restabelecer a verdade. no mínimo. 1963. só publicado no início da década 1960. Porém. Permaneceu em Uberaba até 1904. diretor do seminário de Porto Nacional. Quanto ao Dom Domingos Carrerot. Muitos viajantes teriam escrito sobre “os nossos sertanejos. nem todos. porém. compartilhava com Francisco Ayres da Silva a preocupação com a melhoria dos transportes na região.Tocantins. Porém. afirma que buscou inspiração para a escrita do seu segundo livro nas diversas narrativas de viagens aos sertões. doentes e inaproveitáveis desagradou os goianos. como os dominicanos reagiram ao relatório Neiva e Penna e as suas apropriações? Não sabemos se todos os dominicanos que foram interlocutores de Neiva e Penna nos sertões goianos tiveram acesso diretamente às páginas do relatório. souberam fazê-lo com justiça”. Rio de Janeiro: José Olympio. todavia. de escritores franceses e brasileiros. a biografia de Dom Domingos Carrerot. os viajantes estrangeiros teriam sido mais leais e compreensivos com o modo de viver do homem do interior do que muitos 541 AUDRIN. acompanharam as polêmicas que o relatório suscitou. Foi contemporâneo de Frei Gil de Vilanova em Conceição do Araguaia e dirigiu o Convento de Porto Nacional de 1921 a 1928. ele deixou pouquíssimas coisas escritas e nenhuma referência ao relatório. porém. ela foi ofendida em algumas narrativas. Entre Sertanejos e Índios do Norte. Podemos dizer.541 Frei José M. Audrin nasceu no sul da França em 1879. como vimos no capítulo anterior. como escreveu um livro para contestar aquelas visões: Os Sertanejos Que Eu Conheci. Certamente. Mas. viveu em Conceição do Araguaia e na década de 1940 já havia retornado para Uberaba e Rio de Janeiro. que Frei Reginaldo Tournier. Para o frade. de lá foi enviado para os sertões entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins. frei Audrin. Na década de 1930. No ano seguinte veio para o Brasil. Frei José M. primeiro Prelado de Conceição do Araguaia e primeiro Bispo de Porto Nacional. Os Sertanejos Que Eu Conheci. 135 . Audrin. como eles eram colaboradores e provavelmente assinantes da revista Informação Goyana. uma vez que. Em seguida escreveu Os sertanejos que eu conheci. Ingressou na Ordem Dominicana em 1896 e foi ordenado sacerdote em 1902.

já que ele.) generalizaram por demais. portanto. evitando as generalizações presentes no relatório Neiva e Penna: Os sertanejos a que nos referimos e que chamamos „nossos‟ não são os sertanejos em geral. ao idealizar os valores de persistência e tenacidade.7 e 8.. pobres.544 Esses viajantes. ressalta não só o local de onde fala. além dos métodos de investigação dos viajantes estrangeiros sobre os sertões. p. porém. pelo menos.brasileiros.545 O missionário. Audrin. Eles foram mais metódicos e criteriosos nas suas observações e conclusões.. eles não teriam recuado frente às privações. chegando mesmo a ridicularizar tradições dignas. portanto.7 Idem. em nome da “verdade”. em seu próprio nome. nas narrativas 542 543 Idem. Audrin também se preocupa em delimitar os espaços e os sujeitos sobre quem fala...542 Para Audrin.”. ibidem 544 Idem. ou respostas ambíguas e talvez malévolas”. de grupos e até de comissões científicas. p. 136 .” Para o missionário. Araguaia. mesmo o das comissões científicas como a de Neiva e Penna.) [Para] prevenir os possíveis protestos daqueles que pretendem pensar e falar baseados nas descrições um tanto acerbas de Euclides da Cunha. fadigas. Além disso. (. e escutaram sem paciência (.8 545 Idem. por mais de 30 anos havia vivido como missionário entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins. de respeito”. Em suas palavras: “Falamos baseados em casos por nós presenciados. indagações apressadas. muitos “têm sido fecundos em livros. tão mal conhecidas. “vieram aos nossos recantos bravios com a evidente preocupação de atravessá-los à pressa (.. sobre os sertões e os sertanejos. aqui. p. obstáculos e perigos da viagem e permaneceram mais tempo nos sertões. em nome dessa verdade ultrajada que ele elaborou suas narrativas sobre os sertões e os sertanejos que ele conheceu. e poderíamos citar. e sim aquêles que vivem nas zonas centrais.. nomes de indivíduos. pretendeu ressaltar em contraposição às falhas das narrativas dos viajantes nacionais. de verdades”. em seus relatórios. faltou a Neiva e Penna “simpatizar com seus rudes patrícios..) olharam. porque escrita a partir da sua longa experiência nos sertões. além de terem sabido “evitar o perigo de concluir sob o impulso de primeiras impressões e de basear-se em simples probabilidades. males e defeitos.543 Foi. Xingu e seus afluentes. banhadas pelos Rios Tocantins. ricos talvez de imaginação. neles vendo apenas atrasos e misérias. sobre os sertões e os sertanejos.. uma Ordem religiosa que há mais de 50 anos atuava nos sertões e. Sua narrativa então deveria ser vista como verdadeira.

.. como ousaram fazer alguns patrícios. uma tentativa de colonização do interior do país. ele pôde acompanhar a construção e transferência da capital de Goiás para Goiânia. Estaria. Porém.548 Audrin. (. Simbolicamente.. p. Alcir. 546 A partir dessa transcrição. nos relatórios pessimistas de certas comissões oficiais. 2003. atraso para nossa marcha. se estabelecer e o progresso não chegava? Como atentou Alceu de Amoroso Lima. fazendo a associação entre Estado. é possível perceber também o presente da narrativa de Audrin... O Estado Novo: o que trouxe de novo? In: FERREIRA. Sacralização da Política. não andam esfarrapados e esfomeados. (. pois. não vegetam em recantos desolados. como a preocupação do Estado em incluir os sertanejos na nação. na verdade. Campinas: Papirus. ele então defendendo a existência de um espaço imutável. Lucília de Almeida Neves (Orgs. dignos apenas de compaixão.56. em 1942. rasga-gibões e xiquexiques. (. 137 . seria o encontro do litoral com os sertões. ao 546 547 Idem..) os sertanejos que chamamos “nossos”. p. os tenha como “os jecas-tatus” do autor de Urupês. asseados...). Pátria. Na prática.(.injustas de Monteiro Lobato. do início da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo. conhecia essas propagandas. Jorge e DELGADO. de verdes campinas e várzeas. 2.107-144. Maria Helena. prejuízo para a nossa fama. LENHARO.. portanto. ele lembra que a única “marcha para o Oeste” que chegou aos sertões que ele conheceu foi a realizada pelos próprios sertanejos. O Brasil Republicano: o tempo do nacional-estatismo.5-9. nem os trate de párias. Admiremo-los como os pioneiros silenciosos mais teimosos da verdadeira „marcha para Oeste‟. 1986. O sentimento de agregação e pertencimento foi muito valorizado através da propaganda no Estado Novo. certamente. porém. aproximando o progresso material do litoral com os valores de brasilidade presentes nos sertões. Não estão sujeitos à lamentável necessidade de disputar ao gado e outros animais a água escassa das cacimbas. onde crescem apenas mandacarus. onde o Estado não conseguia.547 Dentre as preocupações do governo no período estaria a da formação de uma identidade nacional coletiva.) São livres.). vivem e pelejam num país de florestas. que redundaria na nação unificada e integrada.p.) Tais são os sertanejos que conhecemos.) São pobres. Sabemos que durante o Estado Novo (1937-1945) foi elaborado o projeto de “Marcha para Oeste”.. Não são vítimas de secas periódicas que aniquilam criações. ed. para eliminar os “vácuos demográficos” e fazer coincidir as fronteiras econômicas com as fronteiras políticas. senão de desprezo! Não os acusemos. Que ninguém. onde correm águas permanentes. (. inutilizam lavouras e obrigamnos a expatriar-se à procura do „Inferno Verde‟. Nação e Povo. onde o solo é rico e fartas as pastagens. 548 CAPELLATO. efetivamente. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. de serem apróbio para a Nação.

Op. 3. Nos sertões não seria encontrada a opulência.3. Outro ponto importante a ser considerado nas narrativas de Audrin é com relação as experiências vividas nos sertões e as memórias sobre essas experiências. ao cabo da longa convivência com os sertões.550 Audrin também teve que deixar os sertões. porque ele se coloca no relato como testemunha dos acontecimentos vividos. frente ao relatório Neiva e Penna e suas apropriações. Audrin não gostou da saída da Ordem dos Frades Pregadores (dominicanos) do interior brasileiro. os Conventos de São Paulo (1938) e Belo Horizonte (1946). na década de 1940. Como se verá. Edivaldo Antonio. No mesmo período foram fechados os Conventos localizados no Estado de Goiás: o de Formosa em 1938. sua Ordem o enviou para Uberaba. contudo. marca o início desse processo.2 Os sertões e os sertanejos de Audrin No relatório Neiva e Penna os habitantes dos sertões apareceram como doentes e dentro de um círculo vicioso de má alimentação e desnutrição difícil de superar sem a presença ostensiva do Estado e da ciência. Alceu Amoroso. Os sertanejos que eu conheci. Op. em 1927. Audrin acabou fazendo a defesa dos sertões e dos sertanejos. mas é também uma autobiografia.XI-XIV. Audrin teria reconhecido que a marcha inexorável da Evolução já estaria chegando aos sertões.1 138 . p. p. respectivamente. Na década de trinta e quarenta foram fundados. quando começou a escrever sobre a sua experiência e a da sua Ordem nos sertões. cit. José M. Percebe-se que ao tratar das suas lembranças sobre aquele passado Audrin acaba sendo mais generoso com os sertanejos e suas práticas religiosas do que ele fora enquanto atuava nos sertões. In: AUDRIN. as modificações das conclusões sobre os sertões que o missionário antecipara na introdução ficam por conta dos misteriosos caminhos da narrativa. SANTOS. 549 550 LIMA. As narrativas de Audrin são uma tentativa de guardar a memória da atuação da Ordem dominicana nos sertões. para ambos o Estado continuava distante dos sertões e dos sertanejos. A fundação do Convento do Rio de Janeiro. Porém.prefaciar Os sertanejos que eu conheci.549 Para nós. Prefácio. o de Porto Nacional em 1944 e o da cidade de Goiás. Cit. são dois tempos históricos diferenciados e às vezes contraditórios. em 1938.

Nas palavras do dominicano. Informação Goyana. numerosas tribos selvagens a evangelizar e legião de almas a salvar”. São Paulo: Cia das Letras. Belisário. D.ajudaria na adaptação do missionário nos sertões. Entre os índios do Araguaia. quanto o missionário que encontraria “um vasto campo a cultivar. porque reconhecido nas leituras anteriormente realizadas. 552 MATOSO.558 Audrin ressaltou ainda a riqueza da fauna e da flora dos sertões. os médicos de Manguinhos ressaltaram exatamente a pobreza e a feiúra. Jacinto. Para eles esta riqueza passava pelos grandes e pequenos animais presentes nos cerrados e nas matas.já brilhantemente analisada por Laura de Mello e Souza para a América Portuguesa . e acrescentado por Morais Silva. Laura de Mello. Op. natural do Rio de Janeiro.552 Assim. p. Antonio de. In: ALENCASTRO. 554 BERTHET. Lisboa. Estevão. sublinharam suas belezas naturais. Frei Michel Laurent.554 A visão da floresta virgem e principalmente do rio Araguaia que se transformava ganhando proporções gigantescas durante a época das chuvas provocava um estado de fascinação nos frades. Os missionários sublinharam também a grande presença de riquezas minerais e a abundância de recursos naturais presentes naquela “terra virgem”. Luiz Felipe. 557 Tanto o sertanejo poderia retirar dali riquezas valiosas. 139 . Rio Araguaia. Kátia M. cit. reformado. São Paulo: Cia das Letras. „magnificência‟ e „beleza‟ significado que a palavra passou a assumir nos dicionários.553 os missionários. 556 SOUZA.84. v.compreendida como riqueza visível e “ostentatória”551 ou como „plenitude‟. A opulência na Província da Bahia. com suas praias extensas e areias alvíssimas como areias do mar” estaria contemplando os “vestígios vivos da beleza do Criador só tende a acreditar que Ele semeou com mãos cheias naquelas paragens solitárias”. 1997. 1986.14-15. p. História da Vida Privada no Brasil: Império. p. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. tanto da natureza quanto dos homens por eles encontrados. ora águas agitadas como massas oceânicas.125. Neiva e Penna ressaltaram a monotonia da natureza e dos horrores da destruição provocadas pelas queimadas. 558 Idem. 555 A associação entre beleza paradisíaca e ação divina . a partir de em 1880. 1789.556 Aquele vale distante associado ao Paraíso Terrestre ajudaria a tornar o desconhecido em conhecido. Op. 557 GALLAIS. pela 551 MORAES SILVA. Raphael Blutteau. 553 NEIVA. Arthur e PENNA. o estranho em familiar. além de reforçar a presença do Criador naquelas paragens.1-2. ago/1917. de Queiroz. ibidem. p. Ano I. 555 LACAMBE. ao contrário. Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. cit.149. Diccionário de língua portuguesa composto pelo padre. p. cit. o provincial frei Jacinto Lacombe “quem tinha o privilégio de contemplar o Araguaia com suas águas ora plácidas como lago tranqüilo. Op.5-6.

140 . Os sertanejos que eu conheci. Audrin defendia a fartura alimentícia à disposição do sertanejo. 559 Ele estaria adaptado ao meio e dali retirava o necessário para sua sobrevivência. Carmo. p.563 Aliás. os alimentos de maior sustento existentes no cerrado eram o pequi e o buriti. além dos peixes dos rios. José Maria. 564 AUDRIN. mas ainda para gozar de fartura”. cascada. p. Ao ressaltar a riqueza da fauna e da flora do norte de Goiás. Op. Em seguida.564 O missionário explicou como se processava o plantio e a transformação da mandioca em farinha seca e na farinha de “puba”. ralada em roda de ralar ou manualmente em ralos.565 Tudo era feito em longas jornadas de trabalho. A fécula era levada ao sol para secar (sobre os estaleiros feitos de madeiras estendiam-se os lençóis de algodão e sobre eles eram colocados a fécula). cit. ambos podiam ser comidos com farinha. Os sertanejos que eu conheci. cit.53. Carmo. depois de seco o produto era ensacado. beijus e biscoitos. p. p.560 Assim.10. e ainda ressaltou a arte e a técnica utilizadas pelos sertanejos nas pescarias. depois de decantado o amido. o sertão seria farto em todos os dias do ano.53. Op. a massa era comprimida e 559 560 AUDRIN. Quanto ao homem do sertão. J. Op. o sertanejo seria capaz de “encontrar sempre o necessário. 13-30 BERNARDES. 565 Idem. 562 Idem. além da fécula para a tapioca. José Maria.566 A mandioca precisava ser arrancada. cit. ele foi considerado portador de habilidades como caçador e pescador.10-11. ibidem 567 Idem. a base da alimentação do sertanejo era a mandioca. 561 AUDRIN. Em seguida ela era amassada e retirada a casca. cit. Os sertanejos que eu conheci Op.561 Naquelas paragens existia caça e pesca à disposição dos sertanejos. Audrin nomeou os maiores peixes existente no Araguaia e Tocantins.variedade e quantidade de aves e dos frutos. depois de enxuta. ibidem. Para o romancista Carmo Bernardes. M. a massa era colocada numa prensa feita de tábuas perfuradas a fim de expelir o líquido que era recolhido em vasilhas de fundo largo ou grandes gamelas para.31-42 563 BERNARDES. não só para sustentar a sua vida. era levada para a torrefação em enormes tachos de cobre. p. Quanto à massa de mandioca. Op. cit. p.562 Para Carmo Bernardes. 566 Idem. Ele caçava e pescava tanto para prover a alimentação da família quanto para se divertir em dia de folga.54.567A farinha de puba era preparada depositando as raízes de mandioca não descascadas na água até amolecer. retirar-se o finíssimo polvilho. p. de ferro ou de pedra colocado em cima de uma fornalha que era mexida com uma pá de madeira.

que dispensava os homens das cidades do trabalho na terra. ibidem. 575 Idem. Para Audrin. Chuvas demais. ele conseguia pequena área onde podiam levantar sua casa e fazer suas plantações. utensílios e vestuário. p.46. 141 . de aves. como ao juiz ou mesmo ao padre. 571 Idem.42. 570 Idem. Lavoura perdida logo no início da safra significava 568 569 Idem.570 Ele lembrou que o dinheiro. penúria e preguiça dos sertanejos e fez questão de ressaltar o quanto se trabalhava no sertão. no pirão (farinha misturada com caldo de peixe. mais tarde o feijão e a mandioca. p. sabia e queria trabalhar. Geralmente plantava-se uma vez por ano.568 Assim. estiagem prolongada. de São Pedro..574 Desprezava-se o cerrado porque era considerado estéreo. farinha ou milho pelos serviços prestados. p. Naquela época. normalmente não ostentava. porém. p. ambos aceitavam o pagamento em arroz. plantação arruinada. de carne). como se costumava dizer. plantava-se arroz e milho.55 Idem. 572 Idem.44 574 Idem.571 Ali.575 Como ressaltou o historiador goiano Teixeira Neto: A fartura da colheita dependia.torrada. armas. Com eles era possível comprar novos instrumentos de trabalho. 572 Além de contratar serviços e pagá-los. na jacuba (mistura de farinha com rapadura ralada e água) e na paçoca (mistura de farinha com carne assada e socada no pilão).43. a foice e a enxada. o sertanejo era muito produtivo e enfrentava duras jornadas de trabalho. 573 Idem. utilizando-se de primitivos instrumentos de trabalho: o machado. tanto a farinha normal quanto a de “puba” era consumida de diferentes formas. Audrin contestava a situação de pobreza.573 Assim. Ao prenúncio das primeiras chuvas. ibidem. arroz “amarelado” e chocho e feijão melado e grão mixo. não existia nos sertões. a moeda corrente eram os produtos da terra. tudo alcançava. o sertanejo que Audrin conheceu. Mesmo normalmente não sendo dono da terra. as atividades agrícolas eram realizadas quase que unicamente pelos braços humanos. Adubo? Só o da fertilidade natural do solo. derrubavam as árvores e queimava-as para depois semear as sementes. p. ibidem.569 Essa alimentação baseada na farinha de mandioca foi criticada no relatório Neiva e Penna devido à pobreza nutricional. munições. Escolhia-se um terreno próximo a um curso d‟água.

Tudo isso apenas provava. “são constantes as preocupações do roceiro para defender o seu trabalho dia e noite”. Audrin. p. José Maria. cit. p. p. Os sertanejos que eu conheci.46. José Maria. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. ou em carros-de-boi. Op. Além da plantação de legumes e frutas também eram utilizadas as vazantes para o plantio do fumo. cit.579 A ausência de plantações de verduras e legumes foi denunciada por Neiva e Penna como uma das razões de sua má alimentação e doença nos sertões. 580 AUDRIN. p.577 Depois de realizada a plantação era preciso defendê-la dos ataques de bichos domésticos e selvagens. no quintal e no canteiro. segundo Audrin.43-51. antes que a chuva fosse embora. Segundo Audrin. Antonio.50 582 Idem. mamoeiros e pés de algodão. Normalmente. Op.49. p. Pequena história da agropecuária goiana. 20. aqueles produzidos nas beiras do Tocantins tinha a fama de serem os melhores de Goiás. nas proximidades dos sítios era sinal de trabalho e previdência do sertanejo. Nos montes de carvão e cinzas se lançavam as sementes de abóboras. 581 Idem. a vazante era uma plantação de menores proporções que a “roça” e era preparada na beira de um ribeirão ou rio. o quintal além de ser indício de vida mais confortável também indicava a vontade do seu dono de permanecer fixado no lugar. Nas beiras do cercado se plantavam ananases. para onde eram transportados em bruacas penduradas em lombos de jumentos e mulas. cit. Depois de recolhidos. Os sertanejos que eu conheci.580 De acordo com ele. Antonio. Pequena história da agropecuária goiana. ressaltou a existência de plantações na vazante. quando possível de ser avistada. 578 Idem. ibidem 142 .581 Uma boa vazante. preparar a terra a tempo. iam para as tulhas e paióis. raramente eram ensacados.de novo capinar o chão. além das batatas. porque os mais pobres eram mais nômades. o arroz era cortado com facão (o cutelo só aparece certamente mais tarde) e os feixes batidos no jirau com os grãos caindo sobre couros de bois estendidos no chão.48 579 TEIXEIRA NETO. ao contrário. 2009. Naquela terra fresca e fartamente adubada. Até a colheita. na estação da seca. N. “que aos nossos sertanejos não faltam fadigas e lutas cotidianas por todo o tempo que dura sua faina agrícola”.578 Na época da colheita: O milho quebrado era debulhado à mão. pois. p. 577 AUDRIN. eles eram vendidos a granel. ele estava presente apenas entre os sertanejos mais abastados. Op.582 576 TEIXEIRA NETO. No comércio. Goiânia: Asa Editora. Nos sítios bem organizados também existiam quintais plantados de várias fruteiras.576 Audrin lembra que era necessário ainda o levantamento da cerca da “roça” feita com a madeira que escapou do fogo. eram plantados os legumes. jerimuns e melancias.48.

586 Idem. o sertanejo seria um forte e não um doente e “anemiado” conforme o caracterizaram Neiva e Penna. cajus. já o sertanejo abastado. cit. 585 AUDRIN. seja durante as caçadas. goiabas. p. por mais pobre que fosse a família.583 Em todo o seu percurso pelo norte de Goiás em 1935. pequi. Júlio. o médico Júlio Paternostro subindo de Belém até Porto Nacional pelo rio Tocantins afirmou que “A única horta que mereceu esse nome em toda aquela extensão de 2. 588 Idem. 143 . castanhas. ao contrário. cupuaçu. depois de um longo aprendizado com o 583 584 Idem.53-61. sua sobriedade e agilidade. ouvindo. As frutas mais comuns eram bananas. ele não seria ocioso. Porém. observando.586 Sendo assim. palmito. plantação suspensas por estacas e realizadas dentro de uma comprida caixa cheia de terra adubada era encontrado em todas as casas. além de plantas ou raízes medicinais. p. de Monteiro Lobato.588 Ele apresentava enorme capacidade de suportar as fadigas no trabalho diário da lavoura. Como ressaltou Carmo Bernardes. Op. moendo a cana numa engenhoca primitiva. Audrin reconheceu que as hortaliças eram pouco cultivadas porque não eram consumidas. cit.584 Quanto às frutas e legumes elas estavam presentes na dieta alimentar daquelas pessoas. o “canteiro”.52 587 Idem. Op. doente e improdutivo como era caracterizado na figura do Jeca Tatu. Ele também possuía uma pequena produção de cana para fazer a rapadura. seja ainda como exímio nadador e fino observador da natureza.51 PATERNOSTRO. Os sertanejos que eu conheci. ao contrário. jenipapos. a abóbora e a batata-doce.587 Para Audrin. do nascer ao pôr do sol. p. açaí. seja como vaqueiro. esse equilíbrio entre o homem e a natureza. inerte. ele estava envolvido com a luta cotidiana e realizava inúmeros esforços para produzir sua subsistência e da sua família. José Maria.106-113. Audrin defende esse modo de viver. bacuri. Além disso.000 quilômetros foi a dos padres dominicanos”. rastejando.225. cheirando e distinguindo as pisadas e a proximidade dos bichos perseguidos. entre outras. Ali se plantava cheiro verde. p. p. ele tinha extrema agilidade. possuía um canavial e um engenho. ibidem. pimentas. cajá. ananás. chamado de “cará”. O missionário fez questão de ressaltar sua resistência física. O sertanejo ainda consumia o mel encontrado nos campos e nas matas. manejando o machado ou a enxada. mangabas.Entretanto. Segundo Audrin.585 Eram consumidos o inhame.

65 593 Idem. Elas normalmente eram feitas com madeira. ser julgado anemiado e abatido. 594 Idem. questão central nas preocupações dos médicos. 591 Idem.591 Audrin queria fazer crer que os longos anos vividos nos sertões fez diferença. Porém. Um sério problema apontado por Neiva e Penna no norte goiano dizia respeito à habitação do sertanejo. por fim.593 O frade reconheceu a simplicidade dos materiais utilizados na construção das casas. ou recostado. Audrin ressaltou que uma das causas do equívoco estaria na fisionomia do sertanejo pobre. de ficar de cócoras. 590 Essas atitudes poderiam ser facilmente confundidas com indolência e preguiça. Op. M. mas ao lugar de fala. p. palhas de babaçu. fora das horas de trabalho. São dignos de maior consideração”.106. Audrin não fez nenhuma referência à doença de Chagas e à presença dos barbeiros nas cafuas.. Quando percebe. “sentado ou deitado na rede. ressaltou que como em todo o lugar. poderia ser que o forasteiro aprendesse coisas que “a gente ilustrada pelos livros nem sabe. com certa moleza (. entende errado e passa o equívoco pra frente”. No geral. ibidem. Op. tinham um aspecto agradável e conservavam o ambiente fresco. 144 . 594 Estas seriam. as “casas sujas. ramos de palmeiras. ao contrário dos julgamentos apressados de Neiva e Penna. ao contrário. cit. 592 não seria o comum. Carmo.. mal cobertas de palha. AUDRIN. cit. Audrin.589 Audrin contestou as visões daqueles que não conheceram e se equivocaram ao retirar conclusões apressadas sobre os sertanejos.117. 589 590 BERNARDES. já argumentamos que o problema do olhar de Neiva e Penna sobre os sertões não pode se restringir ao tempo da viagem. ibidem. elas eram “asseadas e arrumadas com gosto”. Os sertanejos que eu conheci. p.)”.18. p. nem percebe. com paredes esburacadas. Outra razão apontada por Audrin estava no costume do sertanejo conservar-se. J. A cafua foi considerada mais propícia para a morada dos barbeiros do que dos homens. pelo fato de ele não ser robusto. mal protegidas contra as chuvas”. rodeadas de mato. buritis ou piaçava. ibidem. ele havia compreendido o sertanejo e seu modo de viver. as casas dos sertanejos pobres e perfeitamente adaptadas ao clima equatorial. no geral. poderia facilmente indicar má disposição para o esforço físico e. p.sertanejo. 592 Idem. O missionário contestou a injusta e inexata caracterização dos sertanejos divulgada pelos intelectuais: “o povo dos sertões que conhecemos não merece a denominação de „jecas-tatus‟.

Com massa argilosa revestem o conjunto e tapam todos os interstícios (. normalmente. “Nessas lojas encontra-se de tudo. o purgante de rícimo. cestas e balaios. Porém. os seus rudes trabalhos e as condições especiais e exigências da região e do clima.)”.. Todos os raros móveis e utensílios eram funcionais. da mesa de madeira. ou seja.. porém preferiam ficar descalços. as gamelas de todos os tamanhos. riscados. Eram as casas barreadas.72 600 Idem. as mulheres usavam blusas e saias e os homens camisas e calças.65 Idem. A simplicidade também marcava o vestuário sertanejo no seu cotidiano. à faca.)”. a pólvora. algodão da terra. p. etc”. O calçado era o chinelo de couro ou alpercata de sola ou embira. de barro amassado em forma de tijolos. os garfos e colheres.596 No interior dessas residências. Normalmente. Ao seu redor se encontravam os currais. entretanto. portanto.599 Nem por isso eles andavam sujos. p.. depois barreadas. as balas.75 145 . p. Seus poucos móveis se constituíam de redes. nus ou maltrapilhos como havia afirmado Neiva e Penna. p.595 Eram as casas de adobes. que talham em madeiras escolhidas e lavram. calçados e chapéus. não deveria ser vista como sinal de pobreza. 598 Tal simplicidade. ibidem. Os utensílios domésticos também eram extremamente simples.597 Quanto ao mobiliário das habitações sertanejas. homens e mulheres se vestiam em “conformidade com seus limitados recursos. artisticamente”. casemiras. p.600 No cotidiano os sertanejos não sentiam necessidade de 595 596 Idem. de tamboretes de quatro pés cobertos de couro.68. a cachaça e o vinho do porto até meias e gravatas de seda. Confeccionam as suas vestes segundo métodos ancestrais. botijas e pratos. 599 Idem. Com o barro as mulheres fabricavam “panelas. caiadas e pintadas. paiol e outros depósitos.66 597 Idem.Havia também as residências dos sertanejos ricos.. mas como parte de um modo de vida sertanejo. 598 Idem. “Suas paredes externas e internas constam de varas fincadas no chão e destinadas a suportar talos de palmeiras ou de bambus estendidas em linhas horizontais. existia uma pequena loja comercial onde os vizinhos e passageiros vinham trocar seus produtos pelos vindos de fora. chiqueiros. mais seguras e mais raras. potes. ranchos para o engenho e forno. utilizando as riquezas de origem vegetal e animal (. pode-se dizer que elas se caracterizavam pela simplicidade. desde o sal. Os homens reservam para si as conchas.

tingiam os fios e teciam. Op.111.)”. O apóstolo do Araguaia. redes e tecidos lisos. gravatas.. sedas e cetins. sabonetes (.calçado. resistir e manter sua saúde. ibidem.)”.3. cit. vindos dos grandes centros.602 As mulheres apanhavam os capuchos e retiravam o caroço. 604 Idem. 604 Bom gosto e riquezas eram ostentados durante as festas religiosas. da verminose e do bócio. Estes estavam sempre presentes nas festas religiosas e missões levando infinidade de produtos. chapéus. Estevão. associada a nuances de poder e influência nos vales do Araguaia e Tocantins. prata e diamantes. pois apesar da presença da malária. colares e brincos. colchas. O produto essencial para a vestimenta sertaneja era o algodão. ibidem... sobretudo. 3. Audrin ressalta que havia também a riqueza ostentatória. brins finos. porque sabia resistir a vários ataques de malária durante sua vida. o sertanejo sabia se alimentar suficientemente e observava a higiene do corpo e da casa e. Os sertanejos que eu conheci.82. os sertanejos ricos ou pobres continuavam com seus trajes e costumes simples.73 605 Idem.605 Porém.76 603 Idem. 607 Idem. xadrez. p. calçados e meias.603 Um trabalho que envolvia arte e técnica e que não foi valorizado por Neiva e Penna. o vestuário. Ricos fazendeiros e comerciantes adquiriam vestimentas e acessórios de última moda. 601 602 GALLAIS. “cardavam”. José Maria. fiavam. AUDRIN. como nas festas religiosas e casamentos.607 Para o missionário existia uma relação entre doenças e desregramento moral e quanto ao sertanejo ele seria um forte. ela só era “fatal aos indivíduos viciados pelo álcool e pelos excessos (. De seus teares saiam toalhas. ibidem 606 Idem. listados e em cores variadas. este grande mal dos sertões. tais como: “chitas vistosas.601 Os chapéus eram de fibra de carnaúba. Segundo ele. Até mesmo os sertanejos mais pobres tinham acesso a vestimentas e calçados mais finos graças à passagem dos mascates e regatões. p. levava uma vida regrada. p. No cotidiano. cit. p. a maioria de seus habitantes sabia prevenir. além de realçar o luxo do vestuário com jóias de ouro. os acessórios e sapatos finos eram para serem usados em ocasiões especiais.3 A terapêutica e as práticas religiosas populares no norte de Goiás Para Audrin era um absurdo caracterizar os sertões como inferno ou hospital. 146 .606 Quanto à malária. Op..

162. ibidem. bem como aos agentes de cura já conhecidos. p. os sertanejos preveniam ou combatiam a malária tomando o pó da casca de quina. no trato das suas moléstias.614Mesmo tendo recebido uma instrução religiosa precária. Op.609 Assim. na flora e fauna locais. a meios de purgação dos pecados e instrumento de salvação eterna. Belisário. de laranja da terra e do limão galego. o sertanejo vivia e morria como cristão católico.cit. AUDRIN. a Igreja se preocupava mais com a salvação da alma do que em cuidar dos corpos dos fiéis. não se encontram orientações pastorais com relação aos problemas de saúde das populações rurais. 611 talvez devido à permanência de uma concepção sobrenatural da existência. Neiva e Penna condenaram o fatalismo. sempre que necessário. De acordo com Riolando Azzi. e. onde a salvação da alma teria um lugar central e a saúde do corpo estaria relegada a um plano secundário.90 611 Idem. cit. de jaborandi. p. Os sertanejos conhecidos por Audrin não se desesperavam nas adversidades. recorriam aos “curandeiros” inseridos no cotidiano dos sertões. cit. Contudo. estavam fortemente armados para a luta pela vida. também chamada de mastruz. o arsenal utilizado pelos sertanejos teria antes “grande voga pelo prestígio que lhe empresta o maravilhoso”. Contra a verminose utilizavam a raiz do maracujá e a erva de santa Maria.88 610 Idem.Marcados pela penúria. Arthur e PENNA. p. em vista disso.612 Assim. p. empregavam as receitas já legitimadas pela tradição. valorizou esses saberes criados pela experiência e preservados por gerações. Arthur e PENNA. segundo Neiva e Penna.168. José M.608 Audrin. perpetuando as tradições religiosas dos 608 609 NEIVA. ele permanecia fiel às suas crenças e preceitos da Igreja. os médicos afirmaram que a eficácia da ação terapêutica das plantas carecia de estudos mais rigorosos. Os sertanejos que eu conheci. os sertanejos procuravam auxílio. Para Neiva e Penna a vivência religiosa do sertanejo era “eivada de exageros e superstições”. Contra os acessos de febre tomavam o chá de sabugueiro.613 Para Audrin. o fiel associava doença e sofrimentos a provações. Op. durante toda a primeira metade do século XX.610 Além disso. Op.119. os sertanejos recorriam aos recursos da terapêutica natural que estavam à sua disposição.41. Belisário. recorriam aos meios que lhes proporcionavam a natureza. 147 . a apatia e a comodismo que obstavam o modo de vida do sertanejo. Por sua vez. 613 NEIVA. p. 614 Idem. p. ao contrário. no Brasil. 612 Idem. Presos a uma concepção sobrenatural da existência.

617 Idem.cit. 620 “A quinina é quase sempre inacessível à classe pobre (. ibidem. porém. Audrin justificou a existência das superstições e crendices devido à herança do atavismo indígena que transmitiu ao sertanejo exagerada propensão para tudo o que é mistério e lenda. a sua enorme falta de instrução. p.140 148 . Caminhos de Outrora. citado nos capítulos anteriores. p.120 Idem. a denominação de feiticeiro era dada indistintamente a “benzedores” que seriam aqueles que utilizavam de gestos e orações secretas para curar as pessoas e animais e “curandeiros”. não seria o caso de caracterizar os sertões. cit. Audrin afirmou pouco saber de positivo sobre indivíduos que diziam atuar por meio de intervenções extranaturais.. Francisco Ayres da. como espaço da ignorância e da tolice.antepassados. Porém. p. já havia mostrado a impossibilidade dos sertanejos de pagar pelos remédios..) isto mesmo depois que (.50 622 AUDRIN. os que acrescentavam às orações as receitas “miraculosas” elaboradas com os recursos da fauna e da flora.139 623 Idem.623 Segundo o autor. p. mantendo-se fiel às práticas do culto a Deus.. a presença dessas “figuras” entre os sertanejos ou suas crenças não poderiam ser utilizadas para ridicularizar o sertanejo porque elas estariam presentes também nas grandes cidades. José Maria. jejuavam na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira da paixão.p.618 Quanto à existência de superstições e crendices. já que o espírito que movia as ações dos fiéis era o religioso.619 O médico Francisco Ayres da Silva. pelas cruzes fixadas nas portas das casas. p. Op. o missionário estava mais inclinado para a indulgência do que para a condenação. cit. por mais que ocorressem exageros. além da falta habitual de médicos e remédios. Os sertanejos que eu conheci.621 Uma figura bastante controversa nos sertões era a do feiticeiro. entre outras.615 Essa preocupação religiosa dos sertanejos se manifestava. Op. p. em número muito menor do que era divulgado. pelos oratórios e bandeiras dos santos. 615 616 AUDRIN. p. pelos cruzeiros. da Virgem Maria e dos Santos..622 Eles existiam. como anteriormente fizeram Neiva e Penna.617 Assim.) foi oficializada”.127 619 Idem.139 620 SILVA.616 Eles suspendiam os trabalhos aos domingos e nos dias santos. Em geral. acrescentou-se a isso.121-126 618 Idem. além de participarem das romarias e das festas religiosas. Op. frei Audrin reconheceu que elas resultavam da simplicidade da alma sertaneja.30 621 Idem. Os sertanejos que eu conheci.

624 As missões científicas não se converteram em postos médicos e na presença de médicos no meio sertanejo. cit. p.248. suas “doutas informações ficaram consignadas em relatórios geralmente desoladores e. ibidem.80 PATERNOSTRO.3. que um médico aparelhado com medicamentos seria destacado para aquela área etc”. para conhecê-lo era necessário mergulhar nos sertões. como divulgaram Neiva e Penna. Op. 3.Audrin aproveitou a crítica à presença do dito “feiticeiro” nos sertões para lembrar a não efetivação das promessas dos cientistas quando de suas visitas apressadas. Júlio.628 Porém. tinham o necessário para manter sua vida e da sua família. 626 Idem. de Monteiro Lobato. p. cit. apesar de terem passado pelos sertões comissões médicas enviadas por instituições científicas e organismos federais. 627 AUDRIN. “Supunham que após a minha visita seria instalado um posto de profilaxia da malária. cit. em todo caso. 149 . Nos sertões ignoravase a pressa.626 Mas. Enfim.625 Os sertanejos que Audrin chamou de “nossos” não seriam aqueles que apareceram nas narrativas de Neiva e Penna ou na caricatura do Jeca Tatu. o médico Júlio Paternostro passou pela cidade de Palma colhendo amostras de sangue de portadores de malária para estudos patrocinados pela fundação Rockfeler. os sertões não seriam “uma sepultura viva” ou “pedaços do purgatório ou inferno”. Op. asseados. José Maria. Júlio. que acreditavam em conseqüências auspiciosas para a saúde dos habitantes do município.627 Paternostro sublinhou que “quem tem pressa não viaje ao sertão”. fazendo anotações apressadas. mas eram católicos e guardavam os dias santos. viver entre os sertanejos e possuir um sentimento de compaixão por esses brasileiros que vivam distantes da modernidade da capital da República.118. de pouca ou nenhuma utilidade para as povoações visitadas”..93 628 PATERNOSTRO. 624 625 Idem.4 Em defesa do tempo sertanejo: viagens pelos sertões Uma característica das viagens pelos sertões seria a lentidão. por isso eles continuaram utilizando os recursos que conheciam e tinham acesso. Op. Os sertanejos que eu conheci. dando consultas rápidas e distribuindo remédios. Eles seriam fisicamente resistentes e sabiam curar seus males. Eles pouco conheciam a doutrina. p. Para Audrin os sertanejos eram trabalhadores. p. Ao percorrer Goiás em 1935. Segundo ele. Ele ficou impressionado com a expectativa das autoridades locais com relação à sua missão.

Os sertanejos que eu conheci.633 Os sertanejos gostavam muito de viajar. Viagem ao Tocantins. Op. não passavam de trilhas traçadas pelo gado e pelos pés dos homens. levavam um dia inteiro.os sertanejos já estavam acostumados com a morosidade das viagens e ao despedir-se para enfrentá-las era costume declarar simplesmente: “Não me espere tão cedo! Ou “Estarei de volta no finalzinho das águas! Chegarei. os animais também”.631 O tempo das viagens terrestres aumentava na época das chuvas. Op.203 631 AUDRIN.630 Também era difícil depender das informações dadas pelos sertanejos e da boa vontade dos animais. p.33. vendas. Como não existiam estradas e nem pontes. se Deus quiser. Op. p. Tanto Audrin quanto Neiva e Penna apontaram os costumes religiosos como a principal motivação para a realização dessas viagens. Audrin explicou que essa necessidade dos sertanejos de “percorrer o mundo” estava relacionada à herança indígena. trocas. Os sertanejos que eu conheci. Eduardo Henrique de. Op.634 O frade mencionou também as migrações temporárias dos sertanejos. Acertar os roteiros e as distâncias a percorrer esbarrava na falta de mapas e na “imprecisão da linguagem” dos sertanejos. cit. a dificultar a marcha e os córregos e rios transbordavam impedindo a travessia. atrás de trabalho . ou seja. p.34 634 AUDRIN. 632 SOUZA FILHO. Os tais caminhos “reais”. etc”.91 150 .629 Uma das principais razões da morosidade das viagens por terra era a própria inexistência de estradas. dependendo da quantidade de pessoas e bagagens. iniciar ou concluir negócios: “compras. que desapareciam no cerrado e no interior da mata virgem. consulta a pedir. que ligavam as cidades. José Maria. PATERNOSTRO. no princípio do ano.cit. Júlio. Além dos motivos utilitários.95. dívidas a pagar ou receber. cit p. p.97. p. José. cit. 632 Mesmo onde existia a prestação de serviço de travessia de rio numa canoa.nos seringais e castanhais dos vales dos rios Araguaia e 629 630 AUDRIN.. Audrin anotou que um velho missionário dominicano costumava dizer “Sairemos bem cedo. José Maria. 633 Idem. perdia-se muito tempo improvisando as travessias dos rios e córregos. A viagem poderia ainda ser atrasada devido ao desaparecimento de burros e cavalos e sua demora em encontrá-los.. cit. herança a recolher. ao gosto atávico pelas migrações e para fugir à monotonia da vida. Nos caminhos formavam-se atoleiros. Os sertanejos que eu conheci. Op. tratamento a seguir. se Deus quiser e.

Entre os Índios do Araguaia. ou como se dizia na época.636 O sertanejo pobre preparava o cavalo. ferrar. Para cuidar dos animais. p. cit. 638 TOURNIER. marcar e arriar a tropa. p. p. cit.640 Neiva e Penna. trabalhadores que conheciam os caminhos e sabiam tratar os animais.24-25.635 Uma viagem por terra fosse de sertanejos pobres ou ricos. feijão preto. Op.97 151 . que se prolongava até ao meio dia. por exemplo. Op.9. arroz e farinha de mandioca. em número e quantidade proporcional aos viajantes e as cargas a serem transportadas.92. p.25 641 NEIVA.639 Era deles que dependia.25. conduzir a tropa e preparar a alimentação foram contratados oito camaradas. O sucesso da viagem dependia.643 Levantava-se bem cedinho e depois de tomado o café partia-se para aproveitar a fresca da manhã. Estevão. o cuidado das cargas e a boa escolha do pouso. José Maria.642 No geral. cit.186 642 GALLAIS. a presteza da marcha e a extensão das jornadas. p. a hora da partida. 637 Idem. tiveram que organizar sua tropa e contratar camaradas em Juazeiro. a alimentação habitual dos viajantes era bem trivial. pólvora e estopa para bucha. Op. era necessário ainda contratar bons camaradas. Arthur e PENNA.Tocantins . da escolha da tropa e dos camaradas. o facão. No verão o pouso era armado 635 636 Idem. A viagem cotidiana era dividida em duas etapas. alho e gengibre. isqueiro. Belisário. farinha e paçoca. A mais comum constituía-se em carne seca. Ao menos inicialmente. Entre os índios do Araguaia. colocava no jacá o fumo de corda. a velha espingarda. 24 eram para o transporte de cargas e o restante para o transporte do pessoal. Ao “pender do sol”. p. ibidem.638 Além de obter uma tropa com animais de sela e de carga. “as provisões”. 640 Idem. chumbo. p. rapadura. Idem.637 Também os médicos e os padres tiveram que se preparar para percorrer os sertões. horário do almoço. A tropa dos médicos foi constituída por 36 animais. cit. exigia preparação. Op. ibidem. Estevão. para os frades não era coisa fácil comprar.641 Numa viagem pelos sertões tudo deveria ser cuidadosamente previsto inclusive a alimentação. palha de milho. Reginaldo. cit. 639 GALLAIS. em grande parte. já que a partir dali não existiam mais estradas de ferro. Os sertanejos que eu conheci. 643 AUDRIN. sendo que destes. hora em que preparavam o pouso da noite e o jantar. em grande parte. santinhos. organizava a patrona (pequena mala) com moedas. Op. a marcha recomeçava até o “sol entrar”.além da atração exercida pelas jazidas diamantíferas e pelo comércio de peles e animais da região. pedra de fogo.

Op. cit. Caminhos de Outrora. Os sertanejos que eu conheci. quando volta de Belém”. principalmente nos trechos encachoeirados do rio. preferiam acampar distantes delas. 650 AUDRIN. obriga-os a gigantescos esforços. p.650 A cachoeira da Itaboca. Tese de doutorado em História: Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Goiás. 2007. como a realizada por Ayres da Silva. ibidem. dependendo ser de “descida” ou de “subida” dos rios.89. durante três semanas ao menos.98-99 648 SILVA. cit. “que os barqueiros vencem em vinte minutos. Francisco Ayres da. Caminhos de Outrora. o sertanejo estava sempre pronto a acolher os viajantes. cit.87. onde o viajante poderia abrigar-se. outros os recebiam na sala grande da casa. Os sertanejos que eu conheci. porém. Já na estação chuvosa os viajantes precisavam procurar uma casa hospitaleira. 652 SILVA.652 Ele criticou a não instalação de banheiro nas embarcações.31. um rancho coberto de palha de piaçava ou de capim. Eduardo Henrique. Maria de Fátima. Op.31 647 AUDRIN. José Maria. eram terrivelmente vagarosa e trabalhosa a navegação rio acima. A viagem num bote descendo o rio Tocantins de Porto Nacional a Belém do Pará.646 Para médicos e padres os sertanejos eram hospitaleiros porém.17-89. Também existiam no trajeto as “casas de rancharia”.97 646 SOUZA FILHO. José Maria. cit.651 Ayres da Silva chamou a atenção para a ausência de conforto no bote Cristal e em todas as embarcações que trafegavam pelos rios Tocantins e Araguaia. p. Op.644 Médicos e padres concordaram que. Cidades Ribeirinhas do Rio Tocantins: identidades e fronteiras. p. AUDRIN. Como médico Ayres da Silva reclama medidas higiênicas nas 644 645 SOUZA FILHO. 649 OLIVEIRA. José Maria. eram viagens morosas e nunca presas a horários fixos. em 1920 gastava pouco mais de um mês. Op. Os sertanejos que eu conheci. Op. cit. p. Alguns os instalavam numa das dependências do sítio. no Tocantins. Op. 648 Ao contrário.ao relento. p. dormia-se em redes suspensas nas árvores e em torno de uma fogueira. Op. é claro. cit. sem nenhuma formalidade. salvo raras exceções. p. cit. Francisco Ayres da. Eduardo Henrique de. 649 Segundo Audrin. era extremamente fétido. 152 . condições fundamentais para garantir uma boa e lenta viagem. 647 O tempo de duração das viagens poderia ser mais rápido ou mais lento. onde se guardava a carne. p. fugiam das casas. As “descidas” ocorriam nos meses das chuvas para aproveitar a força das correntezas do rio cheio. cabia ao viajante organizar sua tropa. p. Também as viagens fluviais eram freqüentes nos sertões. o mesmo barco ao retornar na época da seca gastava cinco meses. contratar seus camaradas e organizar suas provisões. Também o porão.645 Os médicos.100 651 Idem.

litúrgicos e devocionais. como escreveu o romancista goiano. Carmo. se inicialmente o espaço missionário dos dominicanos na diocese de Goiás ocupava uma 653 654 Idem. na Primeira República. os bispos reformadores puderam contar com o exemplo e dedicação dos dominicanos. interpretadas com maestria pelos sertanejos. seja nas viagens terrestres ou fluviais. Sérgio.654 Foi o que procurou fazer Audrin que por quase quarenta anos viveu nos sertões. BERNARDES. “observando e tomando aula com o sertanejo”. Este investimento lhes rendeu a Prelazia de Conceição do Araguaia (1911) e o bispado de Porto Nacional (1915). Tantas coisas só aprendidas ou talvez compreendidas por quem por um bom tempo residiu nos sertões. p. sejam pilotos ou camaradas. nem ver sua Congregação trocar os sertanejos pelos operários. como em todo o Brasil. os vales do Araguaia e Tocantins pelas grandes cidades brasileiras. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. p. direcionou o olhar e os investimentos daquela Ordem religiosa para os sertões. A Elite Eclesiástica Brasileira. disciplina e ordem daqueles homens. 3. Op. no caso da segunda. cit. romanizar os procedimentos pastorais.18.653 Enfim. Ayres da Silva ficou admirado com a capacidade de trabalho. 153 . 655 MICELLI. o controle do tempo era exercido ou pelo camarada. Em Goiás. Com relação à tripulação do bote. teve que enfrentar o desafio de sobreviver num Estado laico.4 Os dominicanos e a reforma da Igreja nos sertões A Igreja em Goiás. no caso da primeira ou pelo piloto. importaram congregações e ordens européias e produziram clérigos e leigos defensores da reforma e engajados nas causas da catolicidade. de paróquias. Eles representavam um corpo de especialistas adequadamente preparados dentro das exigências do novo modelo de catolicismo que se queria implantar no Brasil Central: o catolicismo romano e ultramontano.86. A pressa do homem “moderno” conduzida pelos ponteiros do relógio nada podiam frente às forças da natureza. Para garantir o sucesso dessas medidas os bispos goianos ampliaram o número de dioceses. 1988. fixar diretrizes e normatizar as atividades ligadas ao serviço da religião. em 1881.embarcações que trafegavam pelo Tocantins e Araguaia. Com a separação da Igreja do Estado coube aos bispos proceder à (re)construção institucional.655 A instalação dos dominicanos na diocese de Goiás. Dali ele não queria sair. Porém.

p. O apóstolo do Araguaía. o vasto território das missões dominicanas estava reduzido a 160.300.658 A divisão do território poderia apontar para o fracasso da missão dominicana nos sertões? Acreditamos que não. Os sinais de vitória da missão dominicana nos sertões estão visíveis na criação da diocese de Porto Nacional.superfície de 1. sua aliança com as oligarquias locais e sua capacidade de ocupar os espaços deixados pelo Estado. colégios e asilos em Goiás. o missionário utilizava-se das homilias para explicar o evangelho e cobrar dos fiéis um comportamento social condizente com a moral católica e a sua participação nos sacramentos. 154 .659 Se. O sucesso do projeto de reforma da Igreja nos sertões pode ser atribuído ao enorme investimento feito pelos dominicanos sobre os fiéis. Op. em 1915 e assumida pelo dominicano D. espalharam seus Conventos.656 com sede em Uberaba e Conventos na cidade de Goiás (1883). eles se preocuparam em combater a “ignorância” religiosa dos fiéis e insistiram na sua clericalização. p. no final do século XIX e início do XX aquilo 656 657 GALLAIS. mas ela aponta alguns limites na sua atuação. Assim. Estevão M.12 659 Barco movido a remo que circulava pelo Tocantins. cit. foi intensificada a administração dos sacramentos. TURNIER. seminários. Esses elementos favoreceram a consolidação do catolicismo romanizado e a criação de associações religiosas de caráter paroquial. em Porto Imperial (1886) e em Formosa (1905). criaram escolas. como as Filhas de Maria e o Apostolado da Oração. Op. Durante as santas missas. os dominicanos investiram em várias obras como seminário. de celebrações aos domingos e dias de festas. também sob a direção do padre. Em Porto Nacional. no norte de Goiás. escolas e buscaram envolver toda a comunidade para construir uma igreja monumental na cidade. além do Centro Catequético Indígena (1896). presididas também por eles. 657 aos poucos esse enorme “campo do apostolado” foi sendo dividido com outras Congregações religiosas estrangeiras. no Pará. na futura vila e cidade de Conceição do Araguaia. Os dominicanos assumiram a direção da nova diocese. Com os dominicanos.12.Plages loitaines l‟Araguaia. p. Reginaldo. cit.000 km². na década de 1920.000 km². Domingos Carrerot (1920-1933). pastorais.59. Além disso. Os redentoristas ocuparam o sul de Goiás e São José do Tocantins foi entregue sob a responsabilidade dos padres de “Coração de Maria”. 658 Idem. Um exemplo da vitória desse projeto de Igreja em Porto Nacional está na alteração da relação da população da cidade com a chegada ou saída dos batelões.

As paróquias permaneceram em vacância ou continuaram nas mãos do clero nacional e apenas periodicamente recebiam as “santas missões” dominicanas. cit.660 Os sinos deixaram de tocar para recepcionar os comerciantes e viajantes. 662 CORREIA. o que continuava era a implantação de um projeto de reforma da Igreja que separava o espaço sagrado do espaço profano. 155 . os dominicanos propagaram a figura do padre. nos sertões. ao menos no ritmo desejado pela hierarquia. Os missionários deveriam permanecer nos Conventos. como afirmou a memorialista Aldenora Alves. mas não conseguiam fazer avançar a reforma. ibidem. entre várias outras. as manifestações “efusivas do passado” deram lugar a atos mais contidos e direcionados para os ritos sacramentais. então. todo mundo corria para a beira do rio. a bandeira do Divino anteriormente visível nos batelões que circulavam pelo rio. Por isso. após ser combatida e ter sua festa regulamentada foi. Uma das devoções religiosas mais tradicionais na região. Vimos no início desse capítulo que o bispo de Goiás. por fim. novas devoções e festas – menos ruidosas – substituíram aquelas do passado. Não sem o lamento dos fiéis. mas não há mais as demonstrações efusivas do passado”. as devoções marianas e do Rosário. Júlio. Em 1946. Assim. p. terá permanecido? Segundo Paternostro. Hoje. Dom Alano Du Noday (1936-1976) proibiu a realização da “Festa do Divino” em toda sua diocese.661 Para nós. toda a vila sabe quando chega um barco. Exemplar nesse sentido. Aldenora Alves. Op.71. da vitória do projeto de reforma da Igreja no antigo norte de Goiás levada a cabo pelos dominicanos? Acreditamos que um dos limites da ação dos dominicanos nos sertões foi exatamente o fato de eles pertencerem a uma Ordem Conventual. o que continuava era o importante papel desempenhado pelos barqueiros “de ligar as aglomerações”. p. o segundo bispo dominicano de Porto Nacional. confissões e casamentos realizados na diocese de Porto Nacional. Quais os limites. proibida. Op. de reconhecimento da hierarquia 660 661 PATERNOSTRO. de Tocantinópolis. Certamente que os missionários dominicanos também conseguiram aumentar o número de batizados. cit.662 No lugar do Imperador do Divino.179 Idem. comunhões.era motivo de festa: “Pipocavam foguetes. eles não puderam assumir as diversas paróquias espalhadas pela diocese. Dom Cláudio e o superior dos dominicanos o padre Gallais insistiram para que os missionários mantivessem os seus princípios organizacionais. tangiam os sinos.

Uma Congregação religiosa não conventual e com jovens missionários dispostos a cuidar da saúde do corpo e da salvação da alma dos sertanejos. o bispo dominicano de Porto Nacional.de que havia regiões inteiras ainda não reformadas em Goiás foi o convite a uma Congregação estrangeira para assumir a paróquia de Tocantinópolis. É sobre a presença dos missionários dessa Congregação. no final do século XIX. Foram construídos os primeiros postos de saúde e hospitais. no final de 1951. Alano Du Noday convidou a Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” fundada por D. A partir da sua presença ocorreu a formação de agentes de saúde os denominados “Samaritanos socorristas”. D. sua visão dos sertões e seus projetos que trataremos no próximo capítulo. Orione. Em 1947. no início da década de 1950. no extremo norte de Goiás. no norte de Goiás. na Itália. 156 . assumiu a Paróquia de Nossa Senhora da Consolação. no extremo norte de Goiás. Com a sua instalação completa-se um ciclo de envio de Congregações religiosas européias para Goiás. ainda não “reformado”. faleceu o padre João de Souza Lima. além das escolas paroquiais e de um ginásio católico. Sua presença significou a ocupação efetiva do último espaço social.

a família e a escola direcionada para a 663 A Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” foi fundada na Itália. Este capítulo tem por objetivo apresentar as visões dos integrantes da Congregação dos “Filhos de D.664 Os missionários italianos que ali chegaram. antes da chegada da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. Os Filhos de Dom Orione no Brasil. Alano Du Noday (1936-1976).663 A paróquia de Tocantinópolis. no extremo norte de Goiás. completa um ciclo de ocupação do espaço religioso goiano. São Paulo e Santos. destinada a Nossa Senhora da Consolação no extremo norte de Goiás. imutável. utilizaram-se de uma dinâmica relação entre as associações católicas. 1986. Genésio. 40 anos antes. foi a última grande área de expansão religiosa católica. em Goiás. no final do século XIX. Não defendemos. Consideramos que o extremo norte de Goiás encontrado pelos missionários estaria com características muito próximas dos sertões visitados e analisados por Neiva e Penna.Capítulo IV Os Missionários Católicos Italianos no Extremo Norte de Goiás: Semear e Sanear nos Sertões A instalação da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” no extremo norte de Goiás na década de 1950. Em 1914 Dom Orione enviou seus primeiros sacerdotes ao Brasil. Ver: POLI. Porém. Orione” sobre os sertões e as estratégias utilizadas para incluir os fiéis no novo modelo de Igreja. 664 No extremo norte de Goiás foi destinada uma área de 42. estático uma vez que é próprio das sociedades o movimento e a mudança. procuraram cuidar do corpo e da alma dos sertanejos. Os missionários católicos.ed. pelas Congregações estrangeiras européia. contudo. dentro de um projeto de reforma da Igreja. 157 . São Paulo: s.000 km² à Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. iniciado no final do século XIX. Seus primeiros contatos com o Brasil foram feitos através de correspondências com Dom Silvério Gomes Pimenta. qualquer visão dos sertões como espaço imóvel. arcebispo de Mariana. para o interior de Minas. D. por Dom Luis Orione (1872-1940). A partir da sua fixação no interior aquela Congregação expandiu-se para o Rio de Janeiro. queremos ressaltar a lentidão nas transformações dessa região principalmente com relação ao saneamento e o movimento de reforma da Igreja. a convite do bispo dominicano de Porto Nacional.

htm. Luis Orione nasceu em Pontecurone. Bosco (1886-1889) – Congregação dos Salesianos – e. na Itália. Sérgio. Em 1895. destinada a crianças e jovens pobres. fundada por D. A economia das trocas simbólicas. In: BOURDIEU. os Estados Unidos (1934). com o apoio do bispo. os pobres e o povo à Igreja e ao Papa. passou pelo seminário de D. 668 PAPASÓGLIO. irmãos leigos e eremitas da família da Pequena Obra da Divina Providência. o Chile (1921). ibidem.pagnaorionte. 1991. Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ocorreu uma proliferação de escolas. no limiar do século XX. Ali cursou filosofia e teologia. Em decreto de 21 de março de 1903. ou casas de saúde. começou a dar aulas de catequese para as crianças e fundou um oratório festivo (1892). Pierre. os pequenos “Cotolengos”. 667 Idem. p. Luís Orione foi ordenado padre. a de 1904. pequeno município no norte da Itália.XLI.666 Na primeira Constituição da Congregação. Ele expandiu a Congregação pela Itália. na diocese de Tortona. pelo papa Pio XII. 158 . São Paulo: Perspectiva. 666 HTTP://www. colégios e colônias agrícolas. abriu uma escola em regime de internato. para o Brasil (1914).669 Dom Orione. para cuidar dos doentes pobres. para a Argentina.13.667 Também foram criadas as Congregações femininas “Pequenas Irmãs Missionárias da Caridade” (1915) e a Congregação das “Irmãs Sacramentinas Cegas” (1927). Ele iniciou sua vida religiosa no seminário dos franciscanos (1885). p. em 1889. A vida de Dom Orione. chegou ao Seminário Diocesano de Tortona. além de fundador foi o Superior Geral da Congregação até sua morte em 12 de março de 1940. o Paraguai. Ele faleceu de ataque do coração em 1940. Depois. o bispo de Tortona aprovou a criação dos “Filhos da Divina Providência” que reunia sacerdotes. por fim. 2007. no bairro São Bernardino. no dia 23 de junho de 1872. Introdução: a força do sentido. o Uruguai. 669 Idem. Ela se propunha a “trabalhar para levar os pequenos. Orione (1872-1940). mediante obras de caridade”. Entre elas. em Tortona.produção de novos habitus religiosos e sanitários.668 A aprovação pontifícia definitiva da “Pequena Obra da Divina Providência” correu em 1954. para a Polônia (1923). São Paulo: Loyola. Giorgio. para que entendamos sua introdução nos sertões é preciso recuperar a trajetória da Congregação da “Pequena Obra da Divina Providência”. foi firmado esse propósito de trabalhar junto aos mais pobres através de obras de educação e saúde. na Tortona.com/santos/crlo 1605.665 Porém. a Inglaterra e a Albânia (1936). A trajetória para a canonização de Dom Orione iniciou-se no 665 MICELI.

Ver: TONINI. Cenas vividas pelos missionários de Dom Orione nas matas do Norte de Goiás-Brasil. o mais velho e superior da missão. no trajeto Tocantinópolis-Porto Franco se dispôs a fazer a travessia dos missionários mesmo armando um forte temporal. pelo seu espírito missionário.. Diretor algumas palavras de sentimentos sinceros relativamente a morte prematura dos inesquecíveis missionários: Pe. João de Souza Lima (1897-1947). Orione serviria de exemplo por sua espiritualidade. a canoa virou e o Padre Egídio e o Irmão Serra faleceram. Op. já no meio do rio a chuva caiu. A inserção de Quinto Tonini na missão foi antecipada para o início de fevereiro de 1952. 2001. Teresinha de Jesus Nóbrega. Até aquela década a região encontrava-se sob a jurisdição religiosa dos dominicanos sediados em Porto Nacional. Ordenou-se sacerdote em 29 de junho de 1950. com especialização em assistência em cirurgia. Entrou na Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” em 1936. Quinto. afogados no Rio Tocantins.673 Padre Tonini se empenhou arduamente na luta pela reforma da Igreja no 670 671 Idem. Fortaleza: Expressão Gráfica. na cidade de Tortona. devido ao falecimento do padre Egidio e do irmão Serra. encontramos “Antes de encerrar a reunião dirigiu-nos o nosso Rvmo. Dom Orione: entre diamantes e cristais. serão os nossos 159 . cit. Em 1952. assumida por Quinto Tonini (1956). p. na Itália. principalmente. aquele espaço da paróquia pertencente anteriormente à Diocese de Goiás (1745-1915) e de Porto Nacional (1915-1954) foi entregue aos cuidados da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” e pouco depois elevada à Prelazia de Tocantinópolis (1954). p. 672 Dos três primeiros missionários. Mosaíco de uma História. os outros dois eram jovens e alegres..pontificado de Paulo VI (1963-1978). o barqueiro e seu ajudante salvaram-se agarrados nas bordas da canoa.671 Nasceu em Rimini. padre André Alice e o irmão José Serra. a vida de D. dedicação aos mais necessitados e. 673 O velho Crispim. Ver: FOLI.13-15. que o proclamou venerável (1978) e terminou no pontificado de João Paulo II (1978-2005) que o beatificou (1980) e canonizou em 16 de maio de 2004.670 Na concepção da alta hierarquia da Igreja. TONINI. Egídio e Irmão José (. Em novembro de 1951 foi enviado ao Brasil. Pe. apenas padre Egídio. estando junto de Deus.) Agora. Também na ata do Apostolado da Oração de fevereiro de 1952.93. junto com o padre Egídio Addobati. O missionário Quinto Tonini além de padre era enfermeiro formado.672 Os três últimos deveriam iniciar a missão em Tocantinópolis e Tonini teria que ficar no Rio de Janeiro até aprender a língua portuguesa. em 4 de julho de 1922. Fortaleza: Expressão Gráfica. p. O espírito missionário de Dom Orione chegou ao extremo norte do Brasil no início dos anos de 1950. A paróquia de Tocantinópolis era a única existente no extremo norte e ficou por meio século sob a direção do Pe. 1996. Fez teologia em Gênova e ao mesmo tempo cursou Enfermagem. canoeiro encarregado do transporte de passageiros.14-15. falava o português. Padre Alice. mas não falavam nossa língua. Quinto.

No Uruguai. Tonini. de Montevideu. Em 10 de outubro de 1959. p. Na época. cargo que ocupou até 1959. Em 1954. no Rio de Janeiro. Silêncio Prudente. a Paróquia de Tocantinópolis foi elevada a Prelazia. para que fosse traduzido e publicado. Quinto Tonini foi nomeado Administrador Apostólico da Prelazia em 1956. em dezembro de 1955.36 160 . certamente esteve relacionado às disputas de poder dentro da mesma. 2000. com o apoio do bispo dominicano D. quando se retirou da missão e foi para o Uruguai. em silenciar o missionário? Ao se confiar nas memórias do missionário Remígio Corazza. Tonini enviou o que chamou de “datiloscrito” ao Diretor Geral Dom Carlos Pensa. O motivo da renúncia do missionário não foi até hoje esclarecido pela Congregação. mês fevereiro. Não saiu. ele também foi retirado da missão no final dos anos de 1950. p. o padre André Alice.675 Assim como Tonini. mas. na rua Riachuelo. Diante de tantas informações importantes tanto para a Congregação quanto para os habitantes do extremo norte de Goiás nos perguntamos por que o manuscrito demorou tanto para ser publicado? Haveria o interesse da Congregação. pela Bula papal “Céu Pastor”. principalmente do Provincial Padre Giovanni Patarello que havia assumido a direção provincial. no Santuário homônimo. Alano Du Noday e do superior da missão. Remígio. 674 CORAZZA. na Congregação. 1952. após encontrálo na antiga sede da Província Nossa Senhora de Fátima. Cenas vividas pelos missionários de Dom Orione nas matas do norte do Brasil e trata das experiências missionárias no extremo norte de Goiás.61 675 Idem. Ver: ATAS DO APOSTOLADO DA ORAÇÃO DE TOCANTINÓPOLIS. na década de 1950. Fortaleza: Expressão Gráfica. no livro Silêncio Prudente foi parte da cúpula da Congregação que tramou a saída do padre Quinto Tonini da missão e de todos aqueles missionários que o apoiavam.extremo norte de Goiás.23b. Este livro só foi publicado em 1996. de Pio XII. todavia o intercessores ajudando-nos alcançar as graças das quais temos necessidades para conseguirmos a nossa eterna salvação. e em outubro tomou posse na paróquia de Filadélfia. p. em 1953. intitulado Dom Orione: Entre Diamantes e Cristais. sucessor de Dom Orione. Tonini era o prelado.674 Padre Remigio Corazza chegou ao extremo norte. Ele argumenta que o slogan paulino “é bom desejar ser bispo” era notório entre os missionários e não faltavam pretendentes. embora todos soubessem que já havia o escolhido pela cúpula à espera. Tonini organizou seus relatos sobre aquela experiência missionária no Brasil em caderno datilografado e encadernado (1959). Foi com grande emoção que folheamos o manuscrito do Pe. Pe.

Já estava tudo decretado. 161 . A tradutora é uma filha da região e exmissionária: Teresinha de Jesus Nóbrega Foli. Talvez ele mesmo tenha financiado sua publicação. também se fixou. p. na época do lançamento. Luís. Tonini percorreu a Diocese de Tocantinópolis. não representava mais nenhuma ameaça aos novos ou velhos missionários da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. p. denominada de Boa Vista. Pacífico.provincial Pe.678 676 677 Idem. Tonini. a sede da missão da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” foi a Paróquia de Tocantinópolis. Foi realizada uma tiragem de 600 exemplares e. em Araguaína representavam os missionários mais dinâmicos da missão orionita nos sertões do Brasil. Desmoronava tudo.O Coronelismo no extremo norte de Goiás: o Padre João e as três revoluções de Boa Vista. um trabalho feito com tanto amor e sacrifício”.20. Parodi tramavam sua retirada para colocar outro no cargo. Sobre a cidade de Tocantinópolis. Patarello e o Vigário Geral da Congregação. ibidem. Em 1858. Em 1840. até 1943. fez os contatos com Tonini na Itália e depois encaminhou o material para publicação. Pe. já que não há nas suas páginas nenhuma referência à Congregação ou a alguma instituição que pudesse tê-lo feito. 4. O frei promoveu melhoramentos na capela e dedicou-a a Nossa Senhora da Consolação.61 PALACIN. ela além de fazer a tradução.Tonini foi publicado em 1996. 1990. O livro do Pe.676 Pe. matando as saudades dos seus antigos paroquianos. 678 Idem. a vila fora elevada à cidade e a capela à paróquia.677 “Esta haveria de ser a única paróquia para o largo território nos próximos 90 anos”. Nas palavras de Corazza: “Acredite quem quiser. apoiado pelo padre Corazza. na paróquia de Filadélfia e pelo Pe. Eram novos tempos e ele já idoso. Em 1834. precisamos dizer que ela surgiu a partir da chegada do paraense Pedro José Cipriano. próximo a 1820. Não era possível que aquilo fosse verdade. o Frei capuchinho Francisco de Monte São Vitor ali chegou e vendo as boas relações de Pedro Cipriano com os indígenas. Boa Vista foi elevada à categoria de vila. São Paulo: Loyola. Ele ali se estabeleceu e construiu uma capela em homenagem ao Divino Espírito Santo. Mas talvez fossem considerados independentes demais pelo provincial.1 O Extremo Norte de Goiás Como já dissemos.

) e um cemitério (. Na segunda metade do século XIX. Geográfico e Descritivo de Goiás (1910) a cidade foi assim retratada: “tem mais de 300 casas das quais 100 são talvez cobertas de telhas.). o censo de 1920 deu para Boa Vista uma população de 25. situada à margem esquerda do rio Tocantins.21. A agitação política no Maranhão favorecia a emigração. Ele permaneceu no cargo até sua morte em 1947. No Anuário Histórico. um prédio religioso. Tem também cadeia e casa de câmara”. Caminhos de Outrora.872 habitantes. o médico e deputado federal Francisco Ayres da Silva. a exploração da borracha no vale amazônico também contribuiu para o aumento populacional de Boa Vista. Tem uma capela (. o padre João de Souza Lima foi nomeado pároco. p. Porto Nacional: Prefeitura Municipal. a segunda de Goiás.20 Idem. a paróquia ficou sob a responsabilidade dos dominicanos franceses de Porto Nacional. a cidade teria “pouco mais de 1. Em 1910. notou que a cidade era “formada por um agregado de quatro ruas principais. Em 1897. às quais se vem unir mais algumas secundárias e compostas de casas de palha. p. 681 No início da década de 1920. pelo censo de 1872. p. 682 SILVA.. Mesmo com a agitação política que iniciou na década de 1890 e permaneceu por três décadas.26-27. o problema da vacância. Francisco Ayres da..000 habitantes”. mas na maior parte do tempo ela ficou vazia. 2 ed. vários padres. foi descrita em estudos oficiais ou nas narrativas de viajantes e memorialistas. mas sólida”. Boa Vista era uma das fronteiras mais dinâmicas de Goiás. Na década de 1880. e resolveu-se.786 habitantes. na imigração maranhense. 1999. com excelente vista para o rio. 681 Idem.682 Havia várias casas comerciais.. apesar das condições políticas adversas. p. enfim. Para substituí-lo e acelerar as reformas da Igreja.. ao passar por Boa Vista. 679 Nas últimas décadas do século.680 A centenária cidade de Boa Vista. de diversas Congregações religiosas passaram por Boa Vista.41 162 . Boa Vista já aparecia como o sexto município em povoação de Goiás. Nas ruas principais se observam alguns prédios bem regulares e de construção antiga. O historiador Luís Palacin encontrou as razões para explicar esse crescimento populacional. o dominicano e bispo de Porto Nacional Dom Alano (1936-1974) convidou os missionários da “Pequena Obra da Divina Providência” que assumiram a Paróquia de Tocantinópolis.Após a fundação da paróquia. uma estação 679 680 Idem. com 7.

havia em Boa Vista. 686 CORREIA. 1997. ibidem. Rio de Janeiro:Bertrand Brasil. enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. LEAL. Porto Alegre: Globo. José Honório. 1949. instalados na cidade. p. Boa Vista tinha sofrido “embates formidáveis de lutas intestinas. e teria provocado emigrações que comprometiam o desenvolvimento local. 685 Idem.40-42. o conflito de 1892. dois coronéis em disputa pelo poder: o Coronel Perna e o Coronel Carlos Gomes Leitão. do padre João de Souza Lima e de um juiz de direito. FAORO. o padre João de Souza Lima era o coronel local que cuidava da proteção dos moradores.. Victor Nunes. Coronelismo. Os Donos do Poder: a formação do patronato político brasileiro.).). Ver: RODRIGUES.688 Eles armaram seus partidários e viviam em constantes lutas.) criou o tipo de revolução sertaneja e 683 684 Idem. que (. Rio de Janeiro: Forense. Conciliação e reforma no Brasil: um desafio histórico-cultural. História Geral da Civilização Brasileira: o Brasil republicano (1889-1930) 6 ed. Enfim.686 Para a memorialista Aldenora Correia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.. aos prédios públicos e aos sinais de progresso ali existentes. p. 163 . Maria Isaura Pereira. 1974. Suas marcas estariam presentes na arquitetura de Boa Vista.43. 1981.81 688 O coronelismo foi objeto de rica análise por muitos cientistas sociais brasileiros. e pode-se dizer mesmo que a cada etapa de melhoramento corresponde uma fase ulterior de lutas internas (. p.ed. entre eles estavam também maus elementos que poderiam facilmente aniquilar a iniciativa dos bons. QUIROZ. ibidem. Ayres da Silva ainda registrou a presença de uma igreja.. In: FAUSTO. Idem.685 Porém. além da arregimentação de jagunços e bandoleiros por parte desses “coronéis” impunha o terror à população que se encontrava sem proteção do Estado.153-190. a cidade estava se refazendo dos últimos embates. p. um pequeno destacamento policial. 684 As anotações no diário de Ayres da Silva chamam atenção para a violência praticada nos sertões. Segundo ele. em ruínas. entre estes coronéis iniciou a época das “revoluções” em Boa Vista. 687 No final do século XIX. Goiânia: s. duas escolas públicas para ambos os sexos. Boris (org. Boa Vista fora constituída com população oriunda principalmente dos estados nordestinos. Raimundo. não raro. Boa Vista do “Padre João”: Tocantinópolis-GO. Normalmente essas pessoas chegavam com pouco ou nenhum recurso para começar a vida. Aldenora A.683 Francisco Ayres da Silva fez referência à origem da população da cidade. 687 Idem. Era uma verdadeira “guerra civil. O coronelismo numa interpretação sociológica. 1965. O resultado de tais questões: quem não pereceu ao contato das armas foi obrigado a retirar-se”..metereológica não muito boa. a presença dos “coronéis” em disputas pelo poder local. em 1920. Segundo Palacin.

691 Na década de 1930.695 Carolina. tanto na vertente comercial. p. apesar de fronteiriças.53 691 Cf CAVA. a cidade já possuía iluminação elétrica (a motores). p.143. 689 Padre João (1897-1947) acabou disputando o poder político com o coronel Leão Leda.690 Com a Revolução de 1930. Op. no Maranhão. 692 PATERNOSTRO.41 695 Idem. 1990. O Coronelismo no Estremo Norte de Goiás: O Padre João e as três revoluções de Boa Vista. Sem dúvidas. 1976. p. p.127. pouco se comunicavam devido aos perigos da travessia das águas. cit. esse envolvimento político do Padre João o aproxima do seu contemporâneo Padre Cícero (1884-1934). na Primeira República. no Rio de Janeiro. 1945. Luiz. Estas duas cidades. porém acabou aderindo ao governo e assim permaneceu até sua morte em 1947. São Paulo: Cia Ed. Viagem ao Tocantins. p. com paredes de tijolos ou adobe e 224 palhoças de babaçu. passou pela cidade de Boa Vista no início da década de 1930. no Maranhão.128 696 Idem. Aldenora. O padre permaneceu na oposição entre 1930-1936. durante o longo período do Padre João a revolução se tornou o meio normal de solucionar as tensões políticas e sociais”. Rio de Janeiro: Paz e Terra.156. Padre João iniciou a reforma da igreja de Boa Vista. 164 . 100 cobertas de telhas. Nacional.694 Porto Franco possuía como única vantagem sobre Boa Vista a agência de Correios e Telégrafos.institucionalizou seus mecanismos de forma que. o panorama político mudou. militar do campo dos Afonsos. Milagre em Joazeiro. 690 CORREIA. quanto na militar.56 693 Idem.696 O major Lysias Rodrigues. Segundo o tenente Humberto Peregrino. nos conflitos de 1907 e passou a ser o aliado do grupo político que controlou Goiás. 693 De frente par a cidade de Boa Vista estava Porto-Franco. São Paulo: Loyola. Ele participou da expedição que percorreu Goiás procurando estabelecer as condições para a abertura de pistas de pouso. do Ceará. que se encontrava no poder em Goiás. era sede da organização religiosa protestante da região. p. p. uma novidade nos sertões. Júlio. Ele era governista e todos em Boa Vista deviam obedecê-lo na hora de votar.692 No perímetro urbano existia “324 habitações.625 habitantes”. Até 1930 o padre João recebeu o apoio do grupo político dos Caiados. 694 Idem. Goiás passou a ser governado pelo interventor o médico Pedro Ludovico. a rota do Correio Aéreo Militar (CAM) 689 PALACIN. Sua população era de 1. que viabilizasse a aviação no interior do Brasil. Ralph Della.

18. p. Rio de Janeiro: Inst. A rota comercial não foi implantada. Goiânia: sed. ibidem. os oficiais aviadores da aeronáutica tinham que conduzir um avião “com pequena autonomia de vôo. 702 Idem. para ouvir as notícias da guerra. Jorge. 165 .704 No norte de Goiás. o vaqueiro. p.699 Os aviões utilizados eram monomotores e contavam com a habilidade dos “bandeirantes do ar”. cortando ou singrando os rios.697 inicialmente o CAM era subordinado diretamente ao Exército. Humberto. sem nenhum aparelhamento moderno de navegação”. Imagens do Tocantins e da Amazônia. data de 1939”.p. normalmente em Porto Nacional e Carolina. 698 RODRIGUES.17. passando a ser chamada de Correio Áeréo Nacional (CAN). p. o pescador. 1942. Elio Catalício et al. Viviam em habitações pobres. A fronteira na formação do espaço brasileiro (1930-1980). 706 Idem. Goiás: uma nova fronteira humana. p. Júlio. (Orgs).112. no mesmo ritmo de um século atrás. separadas umas das outras por muitas léguas de distância. cit. 2004.228 705 LATOUR. ibidem. Op. ele defendeu as possibilidades econômicas da região e a viabilidade da navegação fluvial.20 700 PEREGRINO. o médico Júlio Paternostro assinalou que o sertanejo viveria uma vida primitiva. idealizado na década de 1940. p. In: SERPA..“do Tocantins é nova.1949.703 Toda a região “se encontrava fora das áreas de interesse de expansão do território do capital”. eles se hospedavam no Convento dos dominicanos. Op. 699 IPATERNOSTRO. 1978. durante o governo Vargas. Os padres tinham um rádio a bateria. periodicamente.698 Com a criação dessa rota aérea pelo Tocantins. as “instalações para a fabricação da farinha de mandioca. quase 90% da população residia na zona rural. cit.22 703 BORGES.702 No que se refere às políticas visando à integração do norte goiano à nação. Escritas da História: intelectuais e poder.115. naquele momento. Barsanufo Gomides. Roteiro do Tocantins.701 Em Porto Nacional. o norte de Goiás não foi atingido pela “Marcha para Oeste”. 225 704 Idem.. os engenhos de açúcar e aguardente são muito rudimentares”. Geo e Hisi. os aviadores “pernoitavam”. o minerador”. o paqueteiro. venha levantando os olhos para ver as assas rutilantes do avião que chega do litoral”. Militar. “embora há três anos. ao Ministério da Guerra. Goiânia: UCG. e nos anos 1940.705 Devido às dificuldades de transportes. Rio de Janeiro: Conselho de Imigração e colonização. 701 Idem.700 Como os vôos noturnos não eram possíveis. p. Lysias. p. era o “catador de babaçu. Humberto.706 No relatório. do engenheiro civil Américo de Oliveira. da 697 PEREGRINO. sem rádio.

Américo Leonides Barbosa de. 708 GASPAR. p. No início dos anos de 1950.248 166 . p. eles foram impactados negativamente. com baixa taxa demográfica. todo o norte de Goiás ainda se encontrava fora do interesse do capital.1 Os sertões dos “Filhos de Dom Orione” Distantes dos principais centros econômicos do país. doente e suja. Esse quadro desolador. 709 BORGES.708 Entretanto. “especialista”. Op.707 Devemos ressaltar que havia uma preocupação do governo com a integração nacional. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. Universidade Federal de Pernambuco. ainda não se constituía em “fronteira agrícola” do Planalto Central e da Amazônia. baixa arrecadação fiscal e sem um projeto de integração nacional o extremo norte de Goiás foi construído nas narrativas dos missionários italianos como uma região pobre. Com relação a esse primeiro ciclo de políticas regionais explícitas.1. 64. em 1953. mesmo com essa política de conquista da fronteira acionada pelo Governo Federal. O Vale Tocantins-Araguaia: possibilidades econômicas e navegação fluvial. a partir da própria especificidade da sua Congregação? Além das associações paroquiais tradicionalmente presente na Igreja. naquela época. 4. cit. naquele momento. Barsanufo G. 1941. tudo lhes parecia precário.709 Como os missionários italianos viram os sertões? Como eles foram impactos por ele? Que ações empreenderam para modificar a realidade encontrada. alguns programas de integração nacional apontaram para a necessidade de abertura de uma nova fronteira na Amazônia. além da criação do Banco de Crédito da Amazônia. Araguaína e sua região: saúde como reforço da polarização. com suas imagens negativas da região deve ser visto também de uma perspectiva da atuação daquela Congregação. Jacira Garcia. podemos enumerar a criação da Superintendência do Plano de Valorização da Amazônia – SPVEA. prova disso é a proliferação de relatórios. que definiu a chamada Amazônia Legal nela incluindo o Norte de Goiás. Saídos da Europa logo após a Segunda Guerra Mundial.construção de estradas de ferro e de rodagem. financiados por diferentes órgãos públicos. Dissertação de mestrado em Geografia. qual a novidade levada pelos missionários “Filhos de Dom Orione” para os sertões? Estas questões orientaram as reflexões a seguir. associada às medidas complementares como o Decreto lei de agosto de 1953. Ao entrarmos diretamente nas imagens dos sertões elaboradas pelos missionários italianos devemos lembrar que suas narrativas estavam ancoradas numa determinada concepção de “civilização” e moldadas por uma visão católico-eurocêntrica do mundo e 707 OLIVEIRA. 2002. na área da saúde e da educação.

estavam restritas à rua principal. ao entrar em Filadélfia. no Maranhão. As construções de tijolos... de avião. Na cidade “cerca de três mil pessoas habitavam em choupanas e casas de taipa”. Tonini relata a primeira impressão que teve dos sertões. contudo.dos homens. É claro que eles não encontraram nos sertões os sinais de riqueza e prosperidade que caracterizavam a sociedade européia. Ao chegar a Tocantinópolis. de carona no Correio Aéreo Militar e dali foram de barco até Tocantinópolis. entre diamantes e cristais.) passavam duas ou três horas ao dia. padre Tonini estimou que 25% das crianças não chegavam a nascer e outros 25% morriam nos primeiros anos de vida. o que interessa são as percepções que os missionários tiveram do extremo norte de Goiás. grandes árvores frutíferas (.). Casinhas. Quinto. Estava cheia de gente e de sol”. ao contrário dos missionários dominicanos que adentraram os sertões goianos montados em lombos de animais.21 Idem. 713 Idem. baixa. 712 Idem. Para nós. uma vila goiana situada de frente para Carolina. no Maranhão. Orione e padre Tonini foi o primeiro missionário que assumiu a recém criada paróquia da cidade. Foi também a primeira área de expansão da missão católica da Congregação de D. A igrejinha humilde.. aos missionários da Congregação de Dom Orione já foi possível viajar do Rio de Janeiro a Carolina.)”. a cidade sede da missão. ou o Rio de Janeiro.712 A professora “perdia mais tempo em pedir silêncio aos impertinentes do que em ensiná-los”... eram poucas e mal conservadas. Ambas estavam separadas apenas pelo rio Tocantins: “aos primeiros raios do sol aparecia em toda a sua majestosa pobreza.23. em fevereiro de 1952.713 Também a mortalidade infantil era alta. ibidem.. Op.) outros em pé ou agachadas (.. cabanas. pobre e úmida de fazer medo”.. Devemos lembrar ainda que. Por falta de higiene e de normas elementares da puericultura. Inclusive a casa paroquial era “escura. 711 As crianças e jovens tinham acesso a precárias escolas. sinal de riqueza e prestígio social. cit. p. velha. ibidem 167 .710 A vila de Filadélfia foi elevada à condição de cidade em 1952. em local úmido e sujo (. descascada. sem bancos. Os sobreviventes cresciam 710 711 TONINI. p. Dom Orione. Tonini foi informado de que ali não havia postos de saúde ou hospital. “grupos de crianças sentadas sobre restos de bancos (. dos seus habitantes e dos desafios imposto à Igreja para marcar sua presença naquele espaço social.

p. eram primitivos. a tecelagem e. com o gato.185. o que dificultava os casamentos religiosos.185 721 Idem. p.186 725 Idem. enfrentavam enormes sofrimentos físicos e morais.723 Os sistemas usados para trabalhar o ferro. Elas então iniciavam muito cedo a alimentação dos bebês com papas muito pesadas que.11 718 Idem..717 Elas tinham sinais de malária. O prédio religioso reformado e ampliado pelo Padre João de Souza causou uma “boa impressão”. de fígado e dos rins que levavam à morte.722 Também a economia local se ressentia dos nefastos influxos da politicagem.. Grande parte havia sido registrada em outros estados ou não tinha registros.714 Quanto às parturientes.724 Para completar esse quadro de faltas. p.718 Quanto aos adultos. a agricultura. crianças nuas e magras. principalmente.715 As condições higiênicas dos moradores da cidade também foram consideradas precárias. devido à fraca alimentação a base de arroz e mandioca. ibidem 719 Idem. nas cabanas.719 Aqueles que viviam do trabalho da terra e de pequenas ocupações encontravam-se numa pobreza impressionante. divertindo-se com o cão. amarelos e sofridos”.725 O que destoava dessa precariedade toda era a igreja de Tocantinópolis. p.720 Tonini presumiu que 80% da população não possuíam registro civil. a madeira. logo escasseava o leite.148 716 Idem.716 As crianças eram as maiores vítimas daquela falta de infraestrutura “à entrada.“fracos. sem receber o batismo. constatava-se miséria. que rolavam pela terra. 724 Idem. p. ele era pouco freqüentado por aqueles que se diziam católicos. p. p. nem fornecimento de água canalizada. de verminose e de sífilis.184 722 Idem. a ausência de estradas e a precariedade da infraestrutura da região. Tocantinópolis não possuía redes de esgotos. ibidem.106 Idem. ibidem 720 Idem. não raro.185 723 Idem. resultava em doenças intestinais. p. Entretanto. p. com o porquinho (.23 717 Idem.721 Os políticos só agiam em proveito próprio e até mesmo as escolas municipais e estaduais eram colocadas a serviço dos interesses dos políticos locais: eram eles que escolhiam o pessoal docente.)”. 168 . Boa impressão também causou a Tonini o juiz da cidade que lhe informava sobre os “usos e abusos do 714 715 Idem.

lugar” e a professora Aldenora Correia, com quem aprendeu os rudimentos da língua portuguesa, em suas palavras “a mais preparada e culta mestra da missão”. 726 Com exceção da igreja de Tocantinópolis, todos os outros prédios religiosos precisavam ser reformados ou construídos, porque estavam em ruínas ou não existiam. Nas suas leituras desse “novo mundo” os missionários notaram que o povo sertanejo era simples, bom e católico. Entretanto, professavam um catolicismo distante das normas institucionais. Tonini presumiu que os habitantes do extremo norte de Goiás, na sua grande maioria, eram católicos, porque haviam recebido o batismo, entretanto, eram indiferentes com relação à participação nos atos religiosos e na vida eucarística. Pouco participavam das missas e dos sacramentos.727 Como refletiu Cândido Silva, os sertanejos acostumaram a viver longe do padre e a prescindir-se de sua presença. Contudo, “isto não significa reconhecer-se desvinculado da hierarquia, nem muito menos mostrar-se infensa a ela”.728 Os missionários italianos logo constataram que a grande maioria da população não frequentava a igreja. Porém, o problema maior, segundo Tonini, dizia respeito à celebração das festas religiosas locais. As festas da padroeira, em Tocantinópolis, por exemplo, eram marcadas pelas exterioridades, com músicas, alto-falantes, foguetes, jogos pirotécnicos, danças, muita bebedeira e não raro, mortes.729 A festa da padroeira Nossa Senhora da Consolação, em Tocantinópolis, ocorria e ainda ocorre entre os dias 6 a 15 de agosto e atraia as populações esparsas de vastos territórios.730 De 6 a 14 ocorriam as novenas, sendo que cada noite uma categoria profissional ou grupo de interesse ficava responsável por sua organização. Na porta da matriz eram organizadas barraquinhas para a venda de comidas, bebidas e bugigangas onde também ocorriam os leilões, fruto das doações dos “noveneiros” da noite. Muitos foguetes eram estourados iluminando o céu sob o grito da meninada e do rebuliço da multidão.731 Para Tonini, a “fé goiana” poderia ser comparada com um diamante bruto que precisava ser lapidado, para expor toda a beleza dos cristãos. Esta analogia entre princípios, vivências religiosas e pedras preciosas, sobre a “fé goiana”, talvez tenha se
726 727

Idem, p.11 A PEQUENA OBRA DA DIVINA PROVIDÊNCIA. Ano VI, nº.37, jun /1962. p.4 728 SILVA, Cândido da Costa e. Roteiro de vida e morte: um estudo do catolicismo no sertão da Bahia. São Paulo: Ática, 1982, p.23. 729 Idem, ibidem. 730 CORREIA, Aldenora Alves. Op. cit. p.65. 731 Idem, p.67.

169

inspirado em D. Orione, para quem os mais miseráveis eram considerados diamantes e cristais. Uma alusão à Bíblia onde se afirma que “os pobres herdarão os céus”. Mas talvez prevalecesse no missionário e na sua Congregação uma concepção de religião primordial, de pureza religiosa que existiria abaixo da casca da cultura dos homens dos sertões. Naquele mundo em que o homem era mais simples, mais humano e talvez por isso mais naturalmente cristão, “lapidar” constituía-se no projeto católico da Igreja no extremo norte goiano. “Lapidar” era dar um novo formato, enquadrar, informar e retirar os excessos que prejudicavam a revelação do seu verdadeiro brilho. Tonini parece reconhecer que os católicos não haviam sido bem atendidos pelo padre local. Sua Congregação deveria criar mais paróquias, construir e reformar as igrejas, abrir escolas e seminários. Percebe-se uma preocupação da Congregação em se aproximar dos fiéis e cuidar melhor deles.

FOTO 1 Um missionário caminha pela Vila de Araguaína na década de 1950.

FONTE: “A PEQUENA OBRA DA DIVINA PROVIDÊNCIA”. set/out.1956.p.9 Vindos da Europa os missionários tiveram que enfrentar enormes desafios nos sertões. Estes foram desde a necessidade de adaptar-se minimamente numa outra cultura, distante dos padrões europeus, dos grandes centros e dos seus superiores hierárquicos até as privações cotidianas, sem estradas nem automóveis; tiveram que aprender a andar a cavalo e navegar em canoas. Sem camas, aprenderam a dormir em redes, sem o pão,
170

substituíram-no pelos produtos da terra e sem o frio, tiveram que adaptar-se ao sol e ao calor equatorial. Por outro lado, encontraram nos sertões um imenso campo de apostolado e grande liberdade de ação.Porém, para os missionários, viver naquela realidade não era fácil. “Quanta diferença entre os dois ambientes! Precisava mesmo morrer a todo um passado e renascer novamente com outra mentalidade, caso quisesse fazer alguma coisa naquelas terras!”.732 Em outra passagem, Tonini afirma que o missionário deveria fazer uma faxina no próprio cérebro para começar uma nova vida, entretanto, essa metamorfose seria a coisa mais difícil para um sacerdote.733 Tonini desejava adaptar-se e ao mesmo tempo tinha medo de ser contaminado pelos sertões. Ora, os sertões eram o local do erro, da violência, das doenças e da ignorância, como se precaver contra esses males? Como mergulhar nos sertões sem deixarse contaminar por ele? Enfim, seria possível não relativizar os próprios princípios tendo que conviver com os sertanejos e tão distantes dos superiores? Para Tonini, uma coisa era o que se lia nas revistas missionárias, normalmente escritas por quem jamais colocou os pés na missão; a outra era a experiência pessoal de quem tinha que fazer-se missionário.734 Estas foram algumas questões enfrentadas pelo padre Tonini frente ao desafio de viver nos sertões. 4.2 O Projeto da “Pequena Obra da Divina Providência” para os Sertões 4.2.1 As escolas paroquiais

Na conquista do espaço religioso no extremo norte goiano, os missionários católicos encontraram concorrentes, os “protestantes”. A presença dos missionários evangélicos era considerada como uma “invasão estrangeira”. Dom Domingos Carrerot (1920-1933), primeiro bispo da Diocese de Porto Nacional, após percorrer a ilha do Bananal em 1925, escreveu uma carta avisando o governador de Goiás e por seu intermédio ao Governo Federal sobre o perigo da invasão norte-americana da ilha. Ele pedia providências urgentes “para se opor à ação dos ministros protestantes, que experimentavam localizar-se, sob pretexto de evangelização, nos pontos melhores da Ilha”.735 Segundo o missionário dominicano José M. Audrin, tanto os “protestantes”
732 733

Idem, p.23. Idem, p.28. 734 Idem, p.168. 735 AUDRIN, José Maria. Entre sertanejos e índios do norte. Op. cit. p.240

171

ingleses, quanto os adventistas dos Estados Unidos tentaram converter os índios da Ilha do Bananal, mas diante do fracasso da missão, eles a abandonaram.736 Ainda faltam estudos sobre as estratégias dos “protestantes” na Ilha do Bananal e das razões do seu fracasso. Na década de 1950, Dom Alano, o segundo bispo dominicano de Porto Nacional, orientou os missionários da Congregação de Dom Orione quanto à instalação da escola paroquial para “cortar a estrada dos inimigos de Cristo” nos sertões goianos.737 Ora, construir uma rede de escolas paroquiais ia ao encontro das recomendações da Igreja que, através do sínodo diocesano de Campinas, realizado em 1938, orientava aos bispos e padres a abrir escolas católicas, farmácias e hospitais. Contudo, tais ações sociais e filantrópicas, segundo Luís Roberto Benedetti, eram compreendidas como instrumento de competição contra outras religiões, ou seja, estavam a serviço do proselitismo.738 De qualquer forma, as instruções de Dom Alano aos missionários “orionitas” estavam articuladas às orientações da Igreja no Brasil e dentro da “especialidade” daquela Congregação. Nos sertões, os “Filhos de Dom Orione” se irritaram com a presença dos “protestantes”, principalmente com os de denominação batista. Eles se consideravam “naturalmente” portadores da verdade, além de possuírem uma estrutura de prédios religiosos (em situação precária), o apoio da sociedade de maioria católica e procuraram se aliar às autoridades locais para a ampliação de suas ações no combate aos adversários batistas. Porém, os batistas também possuíam seus aliados e tinham suas estratégias para ampliar o número de fiéis. Tanto para missionários católicos quanto para os batistas existia uma estreita vinculação entre a prática religiosa e a prática escolar. Organizar igrejas e escolas não era práticas estanques porque para ambos a missão de evangelizar incluía romper com as superstições, ignorância e práticas arcaicas que se acreditavam amplamente enraizadas na sociedade sertaneja. A escola transformou-se em campo de luta em Babaçulândia, uma pequena vila banhada pelo rio Tocantins e situada no extremo norte de Goiás. Quando padre Tonini chegou a Babaçulândia, em 1952, não existia nem igreja, nem escola paroquial, mas já tinha igreja e escola batista. Em suas palavras: “a única igreja boa e bem freqüentada era aquela dos Protestantes Batistas”, ela possuía “cerca de 150
736 737

Idem, p.242. TONINI, Quinto. Op. cit. p..20. 738 Apud. AZZI, Riolando e GRIJP, Klaus van der. História da Igreja no Brasil. Op. cit. p.28.

172

743 Por fim. Tonini leu a carta ao final da missa e antes da benção final. Porém. Tonini percebeu o quanto a população local apoiava os “hereges”. ibidem. em se tratando de religião e de educação os católicos não poderiam ter nada em comum com os batistas. de tal forma que a Escola Paroquial. Enfim. tornou-se a mais freqüentada e melhor organizada da cidade”.alunos”. Na verdade. Tonini já com igreja. ele também se preocupou em organizar várias associações religiosas e fazer um trabalho de catequese de crianças e de adultos. Mas. Tonini estava cobrando fidelidade do rebanho a um só pastor e isso incluía enviar os filhos para a escola católica. Sua reserva e seriedade haviam conquistado a estima geral do povo. para que sua mensagem fosse aceita e acatada primeiro ele tratou de construir o prédio religioso. Os católicos deixaram de freqüentar os cultos batistas e seus filhos foram retirados da escola “protestante”.105 173 . percebeu que era o momento oportuno para o enfrentamento. foi necessário um amplo investimento. além da construção arquitetônica e do investimento sobre os fiéis de Babaçulândia.742 Os pais insubordinados seriam considerados pecadores públicos e como tal seriam excluídos dos sacramentos e se morressem ser-lhe-ia negado o funeral religioso. ele então justificou tal fato porque até então não tiveram um sacerdote e resolveu não partir para o confronto naquele momento. Para o missionário católico. por parte do missionário. Op. casa e escola paroquial construídos. ibidem. “Era uma belíssima mestra. Quinto. 742 Idem.159 Idem. Tonini contratou uma normalista para a escola paroquial. Além disso. das franciscanas de Carolina. o papel da escola paroquial além da transmissão cultural e da socialização das crianças e jovens.739 Os próprios católicos assistiam as pregações do pastor batista e não viam problemas em enviar seus filhos para a escola dos “protestantes”. 741 Idem. a escola paroquial e o posto médico. ao iniciar o ano letivo do ano 739 740 TONINI. Era uma professora formada na Escola Normal Nossa Senhora da Piedade. p. ibidem 743 Idem.741 Ele então redigiu e divulgou uma carta proibindo aos filhos dos católicos freqüentarem a escola batista. A carta do padre Tonini deu os resultados esperados. Segundo ele. em poucas semanas.740 Após dois anos de trabalho. cit. p. para transformar os moradores da vila em fiéis católicos.

Jorge. Goiás: uma nova fronteira humana. pelos alunos das escolas paroquiais aquela presença. freqüentava a igreja e a escola batista.seguinte. para reduzir o tamanho da igreja batista. p. de 15 Congregações religiosas. valeria à pena acrescentar os dados estatísticos da Província Eclesiástica de Goiás. Dom Alano e. em 1947. Para compreendermos a situação enfrentada por Tonini em Babaçulândia. enfim. Apud LATOUR.132. Os dados revelam a escassez do clero para dar conta de paróquias imensas. Ora. Porém. foi. mesmo que numericamente muito pequena. uma disputa por fiéis. numa região com dificuldades de transportes e rarefação demográfica. preocupava. Compreendemos. 174 . o próprio Tonini foi aconselhado pelo bispo dominicano Dom Alano e pelo superior da missão Padre Alice a fixar-se em Filadélfia. era um povo de tradição religiosa católica que participava das “desobrigas” e recebia com muito carinho o bispo dominicano de Porto Nacional. onde estavam 744 745 Idem. a Arquidiocese de Goiás. que a luta do padre Tonini. como ele havia dito.000 pessoas. não foi apenas para reduzir a escola batista “aos filhos da heresia”.747 Por mais que Tonini afirme que a penetração batista foi barrada pelas “trincheiras” humanas. ibidem.746 Para marcar a presença da Igreja naquele espaço. o pastor. possuía 360. Em 1952. aquela recémcriada cidade goiana estava situada de frente para Carolina. ou seja. 746 Idem. “a escola protestante foi reduzida exclusivamente aos filhos da heresia. p. Op. contava com 15 paróquias que eram atendidas por 7 sacerdotes (clero regular e secular). De acordo com esses dados.133. em Porto Nacional. p. com 37 paróquias e 21 sacerdotes (clero regular e secular). ao que parece.744 O que ocorreu em Babaçulândia nos pareceu muito singular porque normalmente o que vemos na História do Brasil é a chegada dos missionários católicos e depois a luta dos “protestantes” para se estabelecerem nas cidades e vilas.160-161. Quinto. 747 TONINI.165. Com cerca de 20 alunos”. construir escolas paroquiais e utilizar os alunos como “escudos” para impedir a entrada dos “protestantes”. em Babaçulândia. p. para a década de 1940. o missionário italiano teve que construir ou reformar as igrejas. em 1944.745 Devemos lembrar que o Convento dos dominicanos havia sido fechado. Já Porto Nacional. ao mesmo tempo. Em Babaçulândia. a igreja e a escola antecederam o padre. então. cit. Rio de Janeiro: Conselho de Imigração e Colonização. Mas sim. no Maranhão. a igreja e a escola paroquial. 1949.

748 Foi em Filadélfia que Tonini começou a construir o primeiro hospital da região.749 Uma fortaleza contra a entrada dos “protestantes”.2. os missionários investiram em cursos de “aperfeiçoamento de professores” e na formação da pastoral dos “Samaritanos Socorristas”. Tiveron. Martins FILADELFIA Pe.2 Curso de atualização para os professores Em 1958. que fosse organizado um curso de aperfeiçoamento para os professores municipais. 750 Idem. Tonini gostou da idéia. o Colégio Norte Goiano. Remígio Corazza BABAÇULANDIA Pe. ibidem. Genésio. em Filadélfia. Também um colégio católico foi fundado em Tocantinópolis. Pe. a sede do Hospital ainda livre. Pe. João XAMBIOA Pe. Relação dos missionários e sua colocação em agosto de 1958 TOCANTINOPOLIS Mons.ed. Pacífico ARAGUATINS Pe. além de conseguir a liberação dos prédios das escolas estaduais. o padre de Filadélfia.750 Para abrigar os 130 professores. naquela cidade foram realizados eventos importantes da Congregação.situados os “protestantes” e. Os Filhos de Dom Orione no Brasil. São Paulo:s. sugeriu a Tonini. Bruno Raffa. a casa paroquial. Ir. na época Administrador Apostólico da Prelazia. Para dar conta de tamanho empreendimento. Em cada cidade ou vila onde um missionário católico se fixava. 748 749 Idem. Vitório ITAGUATINS Pe. Quinto Tonini. a paróquia de Filadélfia colocaria à disposição a sede da escola de Artes e Ofícios. 4. dispersos em 8 municípios. Macário. p. p. Remígio Corazza. como se poderá ver nos próximos itens. que possuíam ali um seminário. Bertaina ARAGUAINA Pe. Percebe-se que enquanto Tonini esteve na missão.197 175 .174 Idem. mas resolveu ampliar o curso para todos os professores da Prelazia de Tocantinópolis. entre eles. na década de 1950. Cornélio FONTE: POLI. Pe. seu desejo foi transformar Filadélfia “numa pequena fortaleza católica”. os batistas. ele tratava de abrir uma escola paroquial e um posto médico. 1986. Além disso.

prometeu mais apoio às obras da Congregação na região. princípios religiosos e trabalhos manuais.200 755 Idem. os resultados foram animadores. Corazza controlou as finanças.755 751 752 Idem. incluindo um mimeógrafo. além de muitas autoridades de Carolina no Maranhão. O governador de Goiás e o Secretário da Educação também foram procurados e uma verba de cem mil cruzeiros foi liberada para o curso. 176 . o entusiasmo dos professores e do povo. educação sanitária. de quadro deputados estaduais e dos prefeitos de vários municípios.198 753 Idem. com uma carga horária diária de 9 horas/aulas. estabelecido em dez mil cruzeiros. Segundo Tonini.753 O curso ocorreu entre os dias 12 e 28 de julho em Filadélfia. Foram ministradas aulas de metodologia. ibidem. p.200 754 Idem. os “Samaritanos Socorristas” tomaram conta da cozinha e garantiram as refeições aos cursistas. 754 O encerramento do Curso contou com a presença do Governador. A secretaria ficou sob a supervisão de Tonini e foi assumida pelos seminaristas.752 Também foram montadas equipes de trabalho para garantir seu o pleno funcionamento. Pe. Martins. O papel dos párocos locais também foi de fundamental importância na divulgação do curso.751 Depois de fechar todos esses acordos ele voltou para o extremo norte de Goiás e começou a visitar cada uma das 8 paróquias e suas vilas para convidar e incentivar os professores a participar do curso. p.Para levantar os recursos necessários para a realização do curso. No Rio de Janeiro. além de 4 professores da Faculdade de Educação de Goiás. tendo visto a capacidade organizadora dos orionitas. Tonini conseguiu apoio de uma companhia aérea para o transporte do pessoal e materiais didáticos. ficou responsável pelo acompanhamento espiritual. p. Ibidem. didática. pedagogia. práticas agrícolas. o único padre brasileiro. de três deputados federais. Idem. Pe. no extremo norte de Goiás. Ao final do curso foram aplicados os exames e segundo Tonini. o governo de Goiás. Tonini procurou os prefeitos e cada um se comprometeu a oferecer o transporte dos professores e pagar uma quantia em dinheiro.

2.3 A formação de agentes de saúde: os “samaritanos socorristas” Os sertões dos “Filhos de Dom Orione” eram também aqueles da doença e do abandono presentes no relatório Neiva e Penna. a verminose e a sífilis. Dessa forma. os missionários foram ocupando os espaços deixados pelo Estado e conquistando o apoio da população. uma Associação Católica de assistência moral e cultural sob a direção do prelado. Interessante. fundou-se a “União dos Professores Primários Norte-Goianos”.199.cit. as condições. 177 . Municipais e privadas do extremo norte de Goiás.propagada durante o movimento pró-saneamento dos sertões (1918-1920) – eram a ancilostomíase. Dom Orione Entre Diamantes e Cristais. pelo menos no extremo norte de Goiás. a fotografia foi tirada na frente da igreja de Filadélfia. Tonini os habitantes dos sertões ainda eram atacadas pelas mesmas doenças do início do século. Ao final do curso. Op. O curso também rendeu à Congregação o controle sobre as escolas através da nomeação do padre Joaquim Martins para o cargo de Inspetor das Escolas Estaduais. No diagnóstico do Pe. Não por acaso. Quinto. Tonini identificou as doenças dos sertões. porque as doenças que formavam a chamada „trindade maldita‟ . 4. cidade onde foi realizado o curso. p.FOTO 2 Curso Para os Professores FONTE: TONINI. Tonini (no centro da foto e vestido de batina escura) e o domínio do magistério pelas mulheres. a doença de Chagas e a malária. entre elas estavam à malária. Ela também revela a alegria do Pe.

O candidato reconhece a inexistência de assistência médica-sanitária nos sertões e parece apontar para um amplo programa de ação. em 1916..757 De qualquer forma. segundo ele. a melhoria habitacional tarefa de longo prazo. a nível internacional. o combate ao barbeiro com inseticidas. a malária foi escolhida no mesmo período. Considerava. durante sua campanha presidencial. educação sanitária) a 20% da população. a malária foi considerada problema praticamente superado e por isso.[online]. No final dos anos 1950.314. 759 Idem. retirada do conjunto das doenças prioritárias. no programa de saúde pública de Juscelino Kubitschek. segundo o autor. postos. 758 Idem. as endemias rurais continuavam na agenda política da saúde pública brasileira. como a “doença econômica” por excelência e sua erradicação colocada como precondição para o desenvolvimento.759 Na década de 1950.319. Gilberto.16. continuava sem assistência”. porém. maternidades e programas de merenda escolar. 2009. seria o recurso imediato.pareciam próximas daquelas que teriam levado o médico Miguel Pereira a caracterizar o Brasil como um imenso hospital. como candidato à presidência da República para o pleito (19561961). ciências. entre 1916 a meados da década de 1950. 178 . do futuro governo.). Vol..321. 756 HOCHMAN. Embora a realidade sanitária do país tivesse se transformado. eficaz e disponível para a contenção da doença. que. Enquanto isso. p.756 Contraditoriamente. Supl. como afirma Hochman. JK mudou seu diagnóstico com relação à malária e ela voltou ao topo da agenda sanitária do governo brasileiro.758 Quanto à doença de Chagas. 1.319. Desse modo. “O Brasil não é só doença”: o programa de saúde pública de Juscelino Kubitschek. em seu programa de governo. História. com a segurança. em 1955. o conforto a higiene que elas merecem‟ (. Hochman analisou os diagnósticos e as propostas do candidato: Kubitschek reconheceu-a diretamente vinculada à precariedade das habitações do interior do país (as cafuas). afinal „não é possível dar imediatamente aos milhões de trabalhadores rurais moradias iguais às da cidade. ele reconheceu que nos sertões faltavam “assistência médico-sanitária (centros de saúde. Como médico. ex-prefeito e governador de Minas. em que se abriga o inseto transmissor (o barbeiro). p. JK retoma parte da agenda do movimento pró-saneamento dos sertões da década de 1910. p. p. saúde-Manguinhos. 757 Idem. que vinha sendo realizado desde 1950. A eliminação dessa e de outras endemias possibilitaria que populações e territórios pudessem ser incorporados ao processo de desenvolvimento e alcançassem melhores condições de vida. no qual o relatório Neiva e Penna teve papel relevante. JK exprimiu seu desejo de interiorização da saúde pública federal.

enfermeiras. Com relação à doença de Chagas. Ao que parece.760 Porém. Assim. nem mesmo as campanhas mais pontuais. Kubitschek reconhecia que não seria possível colocar em prática o seu lema “50 anos em 5” se não rompesse com a dicotomia litoral/sertão. assim como a ausência de estatísticas demográficas e sanitárias. não chegou a ser implantado. nos sertões. mediante a utilização de técnicas adequadas. além de religião. cit. Para tal. Op. ele foi ministrado em algumas paróquias com as aulas teóricas sempre à noite e no período das férias escolares.318. ele necessitava de treinar agentes de saúde que pudessem auxiliá-lo nessa árdua tarefa. sem médicos. Gilberto. sempre vista pela Igreja como prática caritativa. nem postos médicos ou hospitais. A inclusão dessas matérias de cunho moral e religioso foi 760 HOCHMAN. ao apontar para as possibilidades de desenvolvimento rápido do país ele mostrou-se preocupado com a realidade sanitária do interior e com a necessidade de formação de recursos humanos para o setor. que já tivessem concluído o 4º ano primário. Seu público alvo seriam todos os jovens. médicos. Eles deveriam passar por um curso teórico/prático e teriam uma dupla função: agentes de saúde e agentes religiosos. Tonini decidiu cuidar também dos corpos dos sertanejos. Caberia a eles enfrentar os problemas encontrados. não sabemos se ocorreu a dedetização das cafuas com inseticidas. com aulas de moral e apologética. dentistas e nutricionistas. como era o caso da malária. Tonini chegou a registrar nas suas narrativas que às vezes o governo enviava umas latas de leite em pó. vitorioso nas urnas. puericultura e higiene. “O Brasil não é só doença”. Seria este o programa de merenda escolar do Governo Federal? Ora. Todavia. técnicas de enfermagem. Para facilitar o acesso dos jovens ao curso. foram realizadas na região. De acordo com Hochman: A falta de técnicos. Diante da realidade encontrada no extremo norte de Goiás.incluindo a distribuição de merenda escolar. p. os missionários perceberam que. A formação da Associação dos “Samaritanos Socorristas” foi uma novidade nos sertões. na década de 1950. não dava para ficar esperando pelo Estado. sua concentração nas cidades e a inexistência de regime de dedicação integral aos serviços sanitários seriam obstáculos a superar. Em primeiro lugar. voltadas para o combate específico de doenças endêmicas. para garantir o fim do flagelo das doenças de massas. era preciso frequentar as aulas e estudar as matérias: anatomia. com uma forma de condução mais racionalizada. entre 15 e 30 anos. nos sertões dos missionários italianos esse programa de governo. Tonini pensou em unir a prática assistencial. 179 .

os maçons e para a investida contra a ignorância”. Não bastava apenas aprender as técnicas adequadas. no final de 1954 e início de 1955. visitariam os doentes. ao lado da igreja. ele compreendia que a saúde física estava relacionada ao bom comportamento moral e religioso. Tonini partiu do princípio de que não bastava apenas cuidar dos doentes. porque só recebiam o diploma aqueles que fossem aprovados nas provas teóricas e práticas. entre elas. O curso contou com a participação de 35 alunos. em março de 1955. dos quais 30 receberam o diploma. ensinariam noções básicas de higiene. “os samaritanos” além de cuidar dos doentes. A caridade era um componente da vida católica. tudo construído pelo padre Tonini.assim justificada pelo padre/professor: “Religião: moral e apologética. Este ritual foi realizado em 761 Idem. As aulas práticas ocorreram no prédio da escola paroquial e as teóricas no posto médico. para ser um “socorrista” era necessário ser bom cristão e exercer a caridade. os comunistas. mas na área de saúde precisava de treinamento. Tonini esperava que os jovens “Samaritanos Socorristas” se constituíssem no braço direito dos missionários nos sertões. p. O próprio Tonini se encarregou de fazer sua divulgação. aonde chegaria uma professora rural. com a celebração da missa. ocorreu a entrega do diploma. O primeiro curso proposto por Tonini ocorreu em Babaçulândia. bênção e envio dos “samaritanos”. com formação em primeiros socorros. aplicariam injeções. No final do curso. Por fim. Assim. cerimônia de diplomação. ao percorrer o interior da paróquia. Os maiores beneficiados seriam as populações espalhadas pelas florestas e beira dos rios.761 Em segundo lugar. era preciso ensinar noções mínimas de higiene para que as pessoas aprendessem cuidar dos seus corpos. para a defesa contra os protestantes. A grande procura pelo curso ocorreu entre as mulheres e. seus integrantes ajudariam a combater as epidemias. A conquista do diploma contribuiria para dar visibilidade e prestígio àqueles jovens. Ele seria realizado nos meses de dezembro. das suas casas e dos seus filhos. fariam partos. como padre e enfermeiro. estavam as professoras rurais. era preciso ser também samaritano. janeiro e fevereiro em Babaçulândia. A cerimônia foi um grandioso evento. 106. Os outros cinco ou evadiram ou foram reprovados. Para isso era necessário fundar uma Associação que poderia contar com subvenções do Governo. curativos. 180 . deveriam também ser preparados para confortá-los espiritualmente.

Na sua concepção. Tonini.762 Entre os materiais estavam livros e medicamentos para serem utilizados durante o curso.Babaçulândia e repetido em Araguaína. entre o final de 1955 e início de 1956. realizado dentro das condições específicas da região e da capacidade do padre/professor. Tonini.763 Porém. Idem. já que seis dos alunos residiam naquela vila. o fato do missionário distribuir diplomas não desagradou às autoridades locais porque elas participavam do evento de “diplomação dos alunos” e em seus discursos ressaltavam a importância daquele curso para a melhoria das condições da saúde na região. distante dali 72 km. O segundo curso foi realizado em Araguaína. Ou seja. Mecozzi. Quanto aos diplomas distribuídos pelo Pe. 131. paróquia do Pe. como em Araguaína não existia um espaço que comportasse tanta gente . Naquela vila o auto-falante anunciou a novidade: um curso para “samaritanos socorristas”. Este ocorreu nos meses de férias escolares e contou com a participação de homens e mulheres. era um curso para suprir as necessidades das populações locais. 64 jovens se inscreveram. FOTO 3 “Diploma” dos “Samaritanos Socorristas” FONTE: Arquivo da Paróquia “Sagrado Coração de Jesus” Araguaína-TO. Por outro lado. p. através de sua paróquia. O vice. legitimava a distribuição dos diplomas. Ele não possuía o carimbo de nenhuma instituição de ensino a não ser da Escola Paroquial. ele não tinha um valor legal.a própria igreja ainda 762 763 Idem.106 181 .prefeito enviou a mula para o transporte do material de Babaçulândia para Araguaína.

os doentes recém-chegados deviam passar pelos “samaritanos socorristas” para serem lavados e trocados. p. o salão foi iluminado com lampiões.estava sendo construída .o Pe. o curso acabou propiciando a “descoberta da vocação” sacerdotal e religiosa 764 765 Idem. fortificantes. davam conselhos higiênicos necessários”.765 Mas os doentes também iam atrás de tratamento.136. porém. p. lavavam os recipientes de água. Além disso. injeções. Idem. como não havia luz elétrica ou a motores.768 Às três da tarde.135 767 Idem. só que durante o dia. dos 64 inscritos.140. fizeram uma Comunhão Geral entre as lágrimas do povo”. “aplicavam injeções. cujo tema foi o combate ao alcoolismo.764 A prática era realizada no posto médico – que ainda funcionava na casa paroquial – e nas casas dos doentes. ibidem. Mecozzi mandou construir ao lado da casa paroquial um amplo salão de palha e nele foram fincados os bancos e as mesas de madeira. Em Araguaina. uma casa para abrigá-los. só depois eram examinados e medicados. limpavam e arrumavam a casa. p. A parte prática do curso ocorreu concomitante à parte teórica.133. 768 Idem. alguns doentes precisavam ser abrigados para receber boa alimentação.767 Tudo isso era tarefa para os “Samaritanos Socorristas” que deveriam encontrar na vila. 182 . As autoridades locais e dos municípios circunvizinhos participaram do evento. A parte teórica do curso foi realizada à noite. curativos. com direito a discursos das autoridades civis e religiosas da região.766 Em alguns casos. 766 Idem. Cabia. antes da primeira consulta com o padre/enfermeiro. por mais de 30 km. ao encontrá-los. Os “socorristas” foram de casa em casa procurando pelos enfermos e. higiene e conforto espiritual. que vestidos de enfermeiros. Segundo Tonini. ocorreu a cerimônia de entrega do diploma. Enfermos foram transportados em redes. curavam suas feridas.769 Como afirma Tonini. 769 Idem. pois àqueles jovens se responsabilizar pelo acompanhamento diário dos doentes mais graves até que eles estivessem plenamente recuperados e em condições de voltar para suas casas. “A Missa foi cantada pelos alunos. Filadélfia e de Carolina. 55 receberam o diploma. ibidem. vitaminas do complexo B e C. começaram a chegar pessoas à procura de curativos e remédios. p. num encerramento solene. além dos paroquianos que chegaram de Babaçulândia. À noite. os alunos apresentaram uma peça teatral. no final do curso.

p. FONTE: TONINI. questionou Tonini.770 Por fim. das doenças. Tonini cobrou das autoridades locais o fechamento das duas casas de prostituição da cidade. 773 Por fim. já como Administrador Apostólico. “Também cinco rapazinhos entraram no Seminário”. a escola paroquial e o posto médico fechados.dos jovens de Araguaína. ibidem. da miséria mais abjeta”. realizar batizados e distribuir outros sacramentos. 772 Idem. em seu discurso. Do contrário. 183 . Tonini ministrou o terceiro curso para “samaritanos socorristas” em Araguatins. ibidem.772 Tonini aproveitou a chegada de doentes do interior para realizar matrimônios. Orione. Op.141. Ao final do curso. “Para que serviria a dedicação e a caridade dos “Bons Samaritanos” se depois não se eliminavam as fontes de corrupção. p194.192 770 771 Idem. Quinto. uns vinte alunos foram diplomados. Idem. Três alunas entraram para a Congregação das Pequenas Missionárias de D.774 A ameaça rendeu os resultados esperados e as casas de prostituição foram fechadas. Durante a cerimônia de entrega dos diplomas. entre o final de 1957 e início de 1958. FOTO 4 Curso de Fomação de “Samaritanos Socorristas” em Araguatins. o padre seria retirado da cidade.191. ele deu um prazo de três meses para que as casas de “má vida” fossem fechadas. a grande maioria também era de mulheres. p. 774 Idem. 773 Idem. p. cit.771 Dos 25 jovens inscritos. Dom Orione Entre Diamantes e Cristais.

pela manhã. Klaus van der. algo muito original.144 777 Idem. Logo depois chegaram os jovens de Babaçulândia. Em 25 de julho de 1956. foram tiradas as fotografias e depois os congressistas foram encaminhados para o Colégio das Irmãs de Carolina. ao se preocupar em dar cursos para os “Samaritanos Socorristas” no extremo norte de Goiás. em comemoração aos quatro anos da presença da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. Os 775 776 AZZI. Chamamos atenção ainda para a especificidade da atuação de Tonini e da sua Congregação. porém. de Araguaína e do Pe. de Filadélfia. 776 Essa foi uma idéia de Tonini que contou com apoio do padre Mercozzi. eles entraram festivamente em Babaçulândia.Percebe-se que a maioria daqueles que realizaram o curso era constituído por mulheres. ocorreu o Congresso dos “Bons Samaritanos” em Filadélfia. em barco enviado pelo prefeito da cidade. Riolando e GRIJP. No dia marcado. 184 . Ao final do evento. A tarde. Tonini percebeu que era necessário preparar também os futuros padres para cuidar do corpo dos fiéis. repetiu-se em Filadélfia parte do programa do dia anterior. na primeira metade do século XX. que além da sua formação em enfermagem. ressaltou que a maioria desses missionários não tinha uma formação na área de saúde e atuavam sozinhos. Alguns padres faziam “partos difíceis” e pequenas intervenções cirúrgicas. ocorreu a missa cantada na igreja de Filadélfia.775 Muito distante. p. de diversas Congregações religiosas que atuavam na Amazônia. Riolando Azzi afirmou que era comum os padres.49 Idem. entre os rapazes que fizeram o curso estava também o Secretário de Saúde de Araguatins. cit. do Seminário Menor de Tocantinópolis. e a recepção recomeçou. Corazza. Os músicos eram seminaristas. depois ocorreram os discursos. p. se preocupou em dar cursos e criar a Associação dos “Bons Samaritanos”. No dia 26.777 Na tarde daquele mesmo dia teve início o “Congresso dos Samaritanos Socorristas” no Cine-Rex de Carolina no Maranhão. Op. distribuírem remédios e atuarem como médicos. A pequena orquestra regida por Tonini executou o Hino Pontifício e o Hino Nacional. músicos. entoando seus cânticos e foram recebidos com rajadas de foguetes. Contudo. da atuação do Tonini. no extremo norte de Goiás. Mas. No meio daquelas jovens estavam alguns rapazes e alguns deles. p. Eles procuram ajuda entre as autoridades locais. O prefeito de Filadélfia emprestou os dois caminhões do município para transportar os “Samaritanos Socorristas” de Araguaína.145.

A organização dos cursos de treinamento e a fundação da Associação dos “Samaritanos Socorristas” foram criações originais dos missionários católicos nos sertões. mas existiam. 185 .145. na frente do Colégio Nossa Senhora da Piedade. p. FOTO 5 Congresso dos “Samaritanos Socorristas” em Filadélfia-1956. autoridades civis. ficaram a cargo das autoridades municipais. das franciscanas. de criatividade e de resposta rápida frente aos desafios dos sertões. Os homens eram poucos. 778 Idem.778 Como explicou padre Tonini. A fotografia a seguir foi tirada em Carolina. Na fotografia identificamos os missionários. um capuchinho e dois “Filhos de Dom Orione”. quase todos. o registro fotográfico tinha por objetivo guardar a memória daquele evento para a posteridade. Percebe-se que os denominados “samaritanos socorristas” eram na sua quase totalidade mulheres. FONTE: Arquivo da Paróquia de Filadélfia-TO Não podemos perder de vista o caráter estratégico e apologético de um evento comemorativo ocorrido nas cidades de Filadélfia e Carolina. segundo Tonini o entusiasmo havia tomado conta de todos. músicos locais e talvez uns dois samaritanos.discursos. Ele era uma demonstração da capacidade de organização.

4 186 . A expectativa de Belisário Penna era de que no futuro. ao insistir no uso de calçados e de como evitar as verminoses. e o asseio com o corpo.779 Uma prática empreendida na Europa pelo Estado e transferida para o norte de Goiás por Tonini. do calçado. as novas gerações assim educadas se tornassem “operosas e trabalhadoras” graças aos conhecimentos e as novas práticas adquiridas na escola e no lar. além de mostrar os malefícios do alcoolismo e as vantagens de uma alimentação nutritiva. as jovens que fizessem apenas o curso de Educação e Propaganda Sanitária sairiam com o diploma de “Guardiãs da Saúde” e cuidariam da educação higiênica popular.780 No futuro. p. Tonini combateu as casas de prostituição. vacinação e realização de partos. Ele ensinou noções básicas de higiene e de primeiros socorros. da terra limpa. 780 Idem. Porém. o “desregramento” sexual e moral. Elas também acompanhariam os doentes. p. Nessa tarefa de educar higienicamente as novas gerações. segundo ele. durante a Primeira República. como o asseio com a casa e a influência benéfica do ar. Por isso. como as vantagens do banho diário. da lavagem das mãos. além de ensinar noções básicas de limpeza dos corpos e das casas e condenar o uso de bebidas alcoólicas. p. o médico e sanitarista Belisário Penna. através 779 A preocupação dos missionários com a saúde das populações fez com que os primeiros hospitais da Prelazia fossem fundados e mantidos pela Igreja. prevenindo o contágio e os encaminhariam aos postos médicos ou hospitais. Tanto para Belisário Penna quanto para padre Tonini a educação higiênica era indissociável da questão moral. não haveria nomeação de normalistas sem o diploma de “Bandeirante da Saúde”. Divulgou noções sobre alimentação das crianças e de como evitar infecções intestinais.781 A elas caberiam ensinar o povo a viver com saúde. etc. Tonini ao dar o curso de “Samaritanos Socorristas” trazia da Itália a preocupação com a saúde da população. como técnicas para aplicar injeções. do sol.3 782 Idem. os governos federais e estaduais tiveram dificuldades de formar normalistas para enviar aos sertões e a proposta das “guardiãs da saúde” não saiu do papel. No Brasil.2 781 Idem. da água não contaminada. Elas entrariam nos lares para ensinar a educação higiênica. da escovação diária dos dentes e de sua conservação. para que elas adquirissem novos comportamentos ele propôs que as alunas do Curso Normal fizessem um curso complementar de Educação e Propaganda Sanitária.782 Porém. acreditava que a “regeneração” do trabalhador nacional só se faria através do saneamento do homem e da terra.

5 deputados federais.12. assim pôde obter o reconhecimento e as subvenções do Governo. o próprio Governo Federal se fez representar por um funcionário da SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização da Amazônia). (1979). Além das diversas associações paroquiais existentes. Nilson Vieira da Silva (1972). Ele precisava levantar recursos para terminar a construção do Seminário Menor em Tocantinópolis e comprar a sala de cirurgia para o hospital de Filadélfia. através do casamento.143.231. Porém. apenas três padres que passaram pelo Seminário Menor Leão XIII foram ordenados. p. p. 786 CADERNO DA PRELAZIA DE TOCANTINÓPOLIS. A Congregação mandou um representante. com 16 seminaristas. diretamente do Rio de Janeiro. Tonini assumiu o cargo e já no ano seguinte viajava para a Itália atrás de doações.786 No dia da inauguração estavam presentes o Governador de Goiás.787 Como já dissemos. Depois. 787 Idem. A Santa Sé doou recursos para terminar a primeira parte do seminário. não estava presente. entre elas. Idem. Notícias do Rio de Janeiro afirmavam que ele estava doente. Josimo Tavares. Pe. p.785 O Hospital foi inaugurado em junho de 1959. a saber: Pe. Eles então procuram ajuda. Simão Loty Kossobuozki. a Associação dos “Samaritanos Socorristas” contou com verbas públicas. De qualquer forma. Tonini que havia trabalhado por quase 8 anos e sonhado com aquela obra no extremo norte de Goiás. Desde o início de suas ações os missionários sofreram com a falta de recursos. Segundo Tonini. A Congregação doou os materiais cirúrgicos e Tonini ainda conseguiu bastante material hospitalar e instrumentos musicais. Ele também preparava os jovens para assumir a vida sacerdotal e religiosa ou para a constituição de famílias católicas. 15 estaduais e uns 30 prefeitos da região.51. CADERNO DA PRELAZIA DE TOCANTINÓPOLIS – ANO JUBILAR 1954-1979. os cursos de formação de “Samaritanos Socorristas” abriram espaço para a propagação de novas concepções e práticas sanitárias e médicas como o uso de remédios alopáticos. a necessidade de médicos e hospitais para a região. 785 Em 21 anos de existência do Seminário. O primeiro médico levado para trabalhar no hospital foi Dr. p. Ivan Pinheiro (1978) e Pe. entre 1958 a 1979.da Associação dos “Samaritanos Socorristas”.”784 Em 1956. chegou a notícia de que havia renunciado ao cargo. Cit. 187 .783 Ela acabou “elevada a Ente Moral. depois de ser nomeado pela Santa Sé como administrador Apostólico da Prelazia de Tocantinópolis. internado em Belém do Pará. p. a dos “Samaritanos Socorritas”. Este foi aberto em março de 1958. este fato não foi explicado pela 783 784 Idem. Op.110.

Por fim.)”. com profissionais minimamente preparados para ajudar os missionários a enfrentar os desafios dos sertões. Veja o que disse o padre Wilson: “Monsenhor Quinto Tonini por motivos desconhecidos foi afastado do cargo e a ele sucedeu o Pe. os “orionitas” inovaram ao dar cursos para formar os “Samaritanos Socorristas”. De qualquer forma. Cornélio Chizzini (. Cit. Tonini se dispôs a dar cursos para formar “Samaritanos Socorristas”. devemos reconhecer o empenho da Congregação fundada por Dom Orione nos sertões do Brasil com relação à saúde da população. Os missionários desejavam colocar à disposição dos sertanejos conhecimentos preventivos na área da higiene. mas nunca saiu da Congregação. Como as outras Ordens e Congregações que atuaram na Amazônia Legal. com a distribuição dos sacramentos e com educação dos jovens através dos colégios católicos. Tonini. que deixou a Prelazia de Tocantinópolis.. CADERNO DA PRELAZIA DE TOCANTINÓPOLIS. Como na Prelazia não havia profissionais na área médica.. distribuir remédios e construir um hospital equipado com sala de cirurgia para atender aos doentes. que poderiam atuar como enfermeiros nos postos médicos e no futuro hospital. na primeira metade do século XX. preocupadas com a catequese.788 nem pôde ser esclarecido pelo próprio Tonini. Op. ele organizou uma rede de assistência médica. Ou ainda como professores rurais ou como pais e mães de família.12 188 .Congregação. p. 788 Nem mesmo durante as comemorações dos 25 anos da criação da Prelazia de Tocantinópolis os padres da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” se arriscaram a levantar uma hipótese para a renúncia do Pe.

atacados pela doença de Chagas. Cit. Como não impactar o leitor se a realidade social dos sertões estava marcada pela distância do modelo de civilização e modernidade? Comprometidos como estavam com os valores e os princípios de uma vida moderna que supostamente era vivida no litoral do país. p. a caça.Conclusão Nesse movimento de redefinição do Brasil Central. eles foram reinventados a partir de uma leitura da realidade social elaborada pelo campo médico. onde seriam pagas as promessas feitas (votos) e reafirmado seu compromisso de voltar no próximo ano? Como eles poderiam compreender esse universo sertanejo onde existia uma cultura da violência. a beleza. para matar índios. Eles foram constituídos como o espaço da doença e do aniquilamento físico e moral “dos pobres habitantes”. principalmente na capital da república. ou mais especificamente. como eles poderiam enxergar a arte. as narrativas dos médicos/cientistas construíram imagens novas sobre os sertões. onde as armas de fogo eram utilizadas para a defesa pessoal. malária e ancilostomose. entre outras. os sertões localizados entre os 789 SOUZA. Como vimos. Além de apresentar os problemas encontrados eles propuseram soluções e alimentaram as expectativas com relação ao Brasil. Arthur Neiva e a „questão nacional‟ nos anos 1920 e 1920. Com essas características os sertões só poderiam provocar desconforto nos cientistas e nos brasileiros.250 189 . onde moravam os referidos médicos/cientistas. Op. a técnica e a especificidade dos modos de viver e sentir dos sertanejos? Como eles poderiam compreender as práticas religiosas e curativas dos homens e mulheres dos sertões que só se dispunham a procurar remédios alopáticos e médicos (extremamente raros nos sertões) depois de fazer uso da medicação usual transmitida por gerações? Como esses homens da ciência poderiam ver algum valor nas crenças dos fiéis que caminhavam dias para alcançar um local de romaria. na verdade. as narrativas de Neiva e Penna pretendiam mesmo chocar as elites da sua época para abrir caminho ao projeto de saneamento. controlar os trabalhadores e até para saldar o missionário ou o visitante ilustre que chegava? Realmente. Vanderlei S. de redescoberta dos sertões goianos. de.789 Os sertões criados por Neiva e Penna entravam em contradição com a literatura romântica e ufanista da época. iniciamos com o relatório Neiva e Penna.

mesmo que tenha demorado a chegar aos sertões. arar e capinar a terra. seus nomes não foram registrados no relatório. fazer um voto ao santo de devoção e visitar um local de romaria. defendemos que a narrativa de Neiva e Penna tinha também por finalidade distanciar os homens do seu passado. desvalorizado e negado. se ainda hoje podemos dizer que já experimentamos algumas daquelas “esquisitices”. a leitura que os intelectuais goianos. criando a imagem do outro. esse outro deveria ser extremamente bizarro e impossível de identificação. senão de negação. a especificidade dos sertões e dos sertanejos. que foram apontadas como sinal de atraso dos sertões. então. Procuramos. Imagine a proximidade dessas experiências para os homens do início do século XX. Caberia. Porém. com arado e enxada. Nessa tentativa de “varrer” o passado e construir o futuro. agrupados em torno do periódico A Informação Goyana fizeram do relatório Neiva e Penna e dos sertões goianos. Retornando. Por isso. Como o receptor não deve querer se ver naquela situação então a narrativa deve chocar. Vimos que os goianos entraram na disputa pela definição do que seria o Brasil Central e 190 . ele foi desqualificado.vales dos rios Araguaia e Tocantins eram outro mundo. em meados do século XX. mas ao ser comparado com o modelo de sociedade ideal. Assim. correspondia a 63. instituído por Neiva e Penna. portanto. fazer farinha e polvilho utilizando ralos. provocar a repulsa e a indignação. Devemos lembrar que a população rural do Brasil em 1950. etc. porém. a eles também foi negado o direito de construírem o seu futuro. como andar em carros de bois. assim ele deve ser levado a concluir que os sertões devem ser mudados. em animais não ferrados. Belisário Penna fundou e dirigiu a liga Pró-Saneamento do Brasil (1918-1920) e a partir daí a questão do saneamento dos sertões passou a fazer parte da agenda política do país. em usar roupas de algodão. integrados e suprimidas aquelas características de viver e de pensar de “três séculos atrás”. é possível perceber que aquele mundo que brota das narrativas não é tão distante das experiências de grande parte dos brasileiros que nasceram na zona rural.8% da população total. Homens e mulheres que viviam como nossos “tataravôs” não poderiam ter direito à fala. recorrer a uma benzedeira ou mandar chamar a parteira. aos homens que viviam no mesmo tempo histórico dos narradores apontarem as soluções e criarem as possibilidades para integrar os sertões à nação. O problema é que a especificidade do “outro” é apresentada para comprovar a tese dos sertões como espaço da doença e do abandono. prensas e tachas.

Enfim. Porém. com relação às festas religiosas e as devoções foi a de suportar para lentamente modificar. seu ímpeto pelas reformas foi barrado pelo medo da reação dos sertanejos. consideradas uma tentativa de restabelecer a verdade. Francisco Ayres da Silva defendia a capacidade de trabalho dos homens dos sertões e apresentava projetos para resolver os problemas estruturais de escoamento da produção. pois eles poriam fim às distâncias. os intelectuais goianos apontaram os problemas associados à distância. Ora. Devemos ainda ressaltar a importância de um periódico que conseguiu agregar os intelectuais e direcionar o debate “em defesa da terra e da gente goiana”. a criação da revista recolocou os goianos como sujeitos da sua história. Assim. como o militar reformado Henrique Silva que provavelmente discordou de algumas conclusões dos referidos médicos. Foi interessante perceber que Neiva e Penna nomearam alguns de seus interlocutores nos sertões. como celeiro da nação e sede da futura Capital da República. a estratégia dos dominicanos. em condições de diálogo com os médicos/cientistas.apresentaram novas visões sobre os sertões. entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins. estes tiveram seus nomes registrados porque foram considerados iguais. construindo consensos. Os frades investiram na catequizando índios e educação das elites locais e regionais e. Para o grupo de intelectuais goianos não seria o saneamento que possibilitaria a desenvolvimento dos sertões. Percebemos que ela existiu e essas narrativas. presente na região e que foi tão veementemente denunciada por Neiva e Penna.associado ao bandeirantismo paulista e as suas tradições ainda presentes nos homens dos “altos sertões” – e a projeção de um também grandioso futuro para Goiás. principalmente. Porém. Os intelectuais goianos discordaram do enfoque dado aos problemas da região. Talvez sua falha tenha sido em não considerar a gravidade da doença de Chagas. como o médico Francisco Ayres da Silva e os frades dominicanos. Enquanto Neiva e Penna ressaltaram as questões das doenças. mas os transportes. que buscava adequar as crenças e comportamentos do clero e dos fiéis ao novo perfil de um catolicismo romanizado e ultramontano. Quanto aos dominicanos vimos que eles estavam inseridos dentro de um projeto conhecido como Reforma da Igreja. foi a valorização do passado goiano . A novidade contida nesse projeto. outros não foram nomeados. Procuramos nas narrativas dos frades a reação dos dominicanos ao relatório Neiva e Penna. presente no periódico. são extremamente ricas para quem pretende se aproximar dos 191 . No Congresso Nacional.

p. Entre Sertanejos e índios do Norte. Maria. cit. essa distância era a garantia da manutenção dos sertões e dos sertanejos dentro de outro ritmo de existência. tanto das narrativas de Neiva e Penna. como impossibilidade da existência de uma nação.227.. dentro da sua instituição e do seu tempo apelamos para a longa experiência de vida do missionário nos sertões. ele teve que deixar os sertões. manteve uma distância do médico e dos seus projetos. dos seus modos de viver e sentir. a coexistência de tempos históricos diferenciados. Belisário.sertanejos. com Dom Domingos Carrerot. então. não seria um problema para os sertões. ao contrário. quanto dos intelectuais goianos e dos outros frades. cit. da navegação a vapor e do Correio Aéreo Nacional. com a chegada do telégrafo. Sobre este bispo. por exemplo. ele aprendeu com Dom Domingos a se deixar moldar pelos sertões e pelos sertanejos. quanto em Porto Nacional. mas em suas memórias deixou registrada uma visão idílica dos mesmos. Nesse sentido. Para explicar essa posição tão específica de Audrin. Arthur e PENNA. contemporâneo do Audrin. 790 O próprio Audrin. Para ele. ele foi uma voz discordante. era amigo do médico Francisco Ayres e compartilhava com ele seus projetos de integração nacional. ele parece tudo querer conservar.208. Op. que não deveria ser julgado nem como melhor nem pior do que aquele modelo idealizado de civilização. defendemos que Audrin queria a permanência de sua Ordem nos sertões 790 791 NEIVA. um ritmo próprio. afirmando que Audrin não era uma exceção na sua Ordem e nos sertões. Nas memórias de Audrin percebemos que os sertões e os sertanejos foram idealizados. Na década de 1940.. identificou-se com eles e diz que não troca a vida nos sertões pela civilização da Europa”. Como vimos. Enquanto frei Reginaldo Tournier. ao escrever a biografia do referido bispo afirmou que “sua prudência unida à velha experiência impedia-lhe qualquer protesto violento (. os dominicanos trocaram o interior pelas grandes cidades brasileiras e fecharam seus Conventos nos sertões. Por fim. 192 . Mas faltou dizer que ele teve o privilégio de conviver por vários anos. Audrin. tanto em Conceição do Araguaia. Op. denunciada por Neiva e Penna no relatório. Audrin acompanhou a lenta modificação dos sertões “que ele conheceu”. específico. p. Mas ele não se deixou empolgar pela idéia do progresso. Audrin. Muito pelo contrário. Neiva e Penna disseram: “o frade velho adquiriu os hábitos locais. j.)”. através dos transportes e das comunicações. Ele também discordou da saída da sua Ordem dos sertões.791 Podemos concluir.

De qualquer forma. certamente. alguns tentaram apagar a sua humanidade ou apresentá-la como aberração. ressaltamos o importante papel desempenhado pela Igreja. ao buscar respostas para os problemas de saúde encontrados. ainda estavam na dependência das ações benevolentes da Igreja para ter direito a serviços essenciais. Assim. apenas apontados. Diferentes olhares sobre o norte de Goiás. Os sertões ainda permaneciam longe do litoral. ao mostrar que a diferença não era atraso e que a vida simples não poderia ser confundida com pobreza. a abertura de postos médicos. percebendo valores e contradições. conflitantes e confluentes. depois de tantos anos nos sertões. 193 . impossível de identificação. no início da década de 1950. acabou realizando. Visões diferentes. porém. no mais. mais compreensivos. independentemente. como havia preconizado Belisário Penna.porque acreditava naquele projeto. de escolas e hospitais nos sertões não foi obra do Estado. ele tinha visto os frutos de um investimento pessoal de vários anos nos sertões. permanece o desafio de revelar a face dos sertões e dos sertanejos aqui. entretanto. como educação e saúde. francês e frade formado dentro de uma visão de Igreja ultramontana. mas fruto da ação de um missionário estrangeiro e da sua Congregação no extremo norte de Goiás. em suas narrativas o seu olhar europeu. talvez como Jardim do Édem. Ele viu que sua Ordem fazia a diferença na região e. ele tinha uma ligação afetiva com os lugares e as pessoas. o propósito de analisar as visões dos sertões goianos presentes no relatório Neiva e Penna e nas narrativas de médicos e padres permitiu a reflexão sobre as diferentes leituras apresentadas. ignorância e superstição. entre 1916-1959. o sonho acabou e os sertões não seriam mais os mesmos. valorizando saberes mas propondo mudanças. defenderam a permanência dos sertões. Audrin que mesmo valorizando os modos de viver e pensar dos sertanejos não deixou de revelar. através da sua Congregação. Com a saída da sua Ordem de Porto Nacional. na década de 1950. O missionário Quinto Tonini. não teria concordada com as atitudes mais radicais dos missionários italianos da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” que chegaram ao extremo norte de Goiás. de longe. Em todas as narrativas. Nos confins dos sertões do Brasil os sertanejos. a tentativa de constituir os sertões e os sertanejos. da Ordem ou Congregação religiosa. outros. a formação de agentes de saúde. Finalmente. preferiram o meio termo. outros. nos sertões de Goiás. parte do sonho de Arthur Neiva e Belisário Penna: sanear os sertões.

1944. 2003. ARQUIVO PÚBLICO DE GOIÁS. Rio de Janeiro: Agir. Victor Coelho de. Goiânia: UCG. AUDRIN. 1950-1960. jul/1928. HYGIA: Revista Popular de Medicina e Educação Sanitária. Periódico Bimestral da Congregação Pequena Obra da “Divina Providência”. 2001 (CD-ROM). Ano jubilar (1954-1979). Ano 2. ago/1918. p. Goiás: usos. ARQUIVO DA CASA DE OSWALDO CRUZ E DA FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. 1947. SAÚDE. b) Arquivos ARQUIVO DO INSTITUTO DE PESQUISAS E ESTUDOS HISTORICOS DO BRASIL CENTRAL. _________. NOSSA SENHORA DA CONSOLAÇÃO DE ARQUIVO DA PARÓQUIA NOSSA SENHORA DE FÁTIMA DO RIO DE JANEIRO.2. Periódico Bimestral do Santuário Nossa Senhora de Fátima. Relatórios dos Governos do Estado de Goiás. Goiânia: AGEPEL. Rio de Janeiro. ARQUIVO DA PARÓQUIA TOCANTINÓPOLIS. CADERNO DA PRELAZIA DE TOCANTINÓPOLIS. José Maria. A “PEQUENA OBRA DA DIVINA PROVIDÊNCIA”. n. costumes. Documentos avulsos de Porto Nacional. GAZETA CLÍNICA. A INFORMAÇÃO GOYANA. riquezas naturais. Publicação Médica Paulista. Prelazia de Tocantinópolis. 1950-1962. Os Sertanejos que eu conheci. Caixa. São Paulo. 1979. MEMÓRIAS GOIANAS.126-133. c) Narrativas de Viagens e Memorialistas ALMEIDA. Entre os sertanejos e índios no norte. (Órgão Oficial da Liga Pró-Saneamento do Brasil). São Paulo: Revista dos Tribunais. Goiânia: Editora Helga Artes Gráficas. 1963. Rio de Janeiro: José Olympio. Rio de Janeiro. 194 .FONTES E BIBLIOGRAFIA a) Periódicos A FÁTIMA BRASILEIRA.

1999. set/1943. LATOUR. In Memoriam: Arthr Neiva (1880-1943). 109-170.421. TOURNIER. CORAZZA. Goiânia: UCG. 1982. Dom Claúdio José Gonçalves Ponce de. SOUZA FILHO. TONINI. PATERNOSTRO. Typografia Perseverança de Tocantins y Aranha. Eduardo Henrique de. 2001. Uma viagem de missão pelo interior do Brasil. 195 . Júlio. Viagem Científica Pelo Norte da Bahia. 1996. Porto Nacional: Prefeitura Municipal. 1942.ed.BERTHET. 1942. Belisário. Herman. 1954. GOIÁS: Uma Nova Fronteira Humana. Revista Brasil. Caminhos de Outrora. Ed. NEIVA. 1945. abril de 1949. _________. p. Remígio. Fortaleza: Expressão Gráfica. 2000. FOLI. Uma Catequese Entre os Índios do Araguaia. Francisco Ayres. Fortaleza: Expressão Gráfica. São Paulo: Revista dos Tribunais. Sudoeste de Pernambuco. SILVA. GALLAIS. Boa Vista do “Padre João”. Reginaldo.1999. Quinto. Rio de Janeiro: Biblioteca Militar. 2 ed. 1980. Estevão. Teresinha de Jesus Nóbrega. Paris: Missions Dominicaines. Fac-similar. Goiânia: s. As Reminiscências de um Juiz. Goiânia: Oriente. Goyas. Mosaico de uma história. Rio de Janeiro. Dom Orione entre diamantes e cristais: cenas vividas pelos missionários de Dom Orione nas matas do Norte de Goiás-Brasil. PEREGRINO. Fortaleza: Expressão Gráfica. Imagens do Tocantins e da Amazônia. In: Coleção Especial do Cônego Trindade. Goiânia. LENT. Dirigida aos Parochos e aos demais Clérigos de Ordens Sacras da Diocese de Goyas. In: Memórias Goianas. N. Carta Circular (Reservada). d) Carta Circular LEÃO. São Paulo: Cia Editora Nacional. O Apóstolo do Araguaia: Frei Gil Vilanova. Plages Lointaines de L‟Araguaia. Salvador: Progresso. Humberto. Brasília: Senado Federal. CORREIA. Jorge. Instituto do Patrimônio Histórico do Brasil Central -IPEHBC. Rio de Janeiro. Arthur e PENNA. Michel L. 1974. Sul do Piauí e de Norte a Sul de Goiás. Viagem ao Tocantins. Missionário Dominicano. Aldenora Alves. Silêncio Prudente. 1934. Conselho de Imigração e Colonização (Presidência).

supl. jul. São Paulo: Paulinas. A questão religiosa. leis e moral: pensamento médico e comportamento no Brasil (1870-1930). 1985 p. Uma História no Plural: 500 anos do movimento catequético brasileiro. Goiânia: Oriente. Rio de Janeiro. ________. 1984.338-365. Revista de Cultura Vozes. Carmo. Goiânia. p. Mauro (Org). jan/fev/1981.139-179. Klaus van der. p. Petrópolis: Vozes. In: PASSOS. BEOZZO. Historia Liberationis: 500 anos de História da Igreja na América Latina. 196 . 2009. 1992. Fernando A. Enrique. 2008. Revista de Cultura Vozes .39-55.15-32. fotografia e intenção documentária: as viagens do Instituo Oswaldo Cruz (1911-1913). Luiz Roberto. Petrópolis: Vozes. Martha.16. História da Igreja no Brasil: Terceira Época (1930-1964). Roque Spencer Maciel de. ALVES. Dissertação de Mestrado em História: UFG. Pires. 1999. n. São Paulo: Cia das Letras. 1985. BARROS.177-222. In: HOLANDA.BIBLIOGRAFIA ABREU. As Romarias no Brasil. José Leopoldo Ferreira. José Oscar. In: DUSSEL. 2008. São Paulo: UNESP. [online] Vol. AZZI. p. Leni Caselli. BERNARDES.1. p.4. A Igreja do Brasil e a Santa Sé. BERTRAN. 1999. ANTUNES. 1991. Goiânia: UFG. mai/1979. Perpetinha: um drama nos babaçuais. Paulo. In: Història. 4 ed. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e difusão do nacionalismo. São Paulo: DIFEL. Riolando e GRIJP. 1999. ANDERSON. AZZI. A Igreja frente aos Estados Liberais: 1880-1930. São Paulo: Paulinas. Expedições científicas. História Geral da Civilização Brasileira: o Brasil Monárquico. Ciências. Ano 75. n. Sérgio Buarque de. __________Primórdios da catequese: arranjos do período colonial e imperial. ANZAI. O Império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro (1830-1900). MELLO.1. BENEDETTI. Os santos nômades e o Deus estabelecido: um estudo sobre religião e sociedade. Maria Teresa Villela Bandeira de. Saúde-Manguinhos. Vida cotidiana na zona rural do município de Goiás 1888-1930. 16-23. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Medicina. (org). 1979. Ano 73. Formação Econômica de Goiás. Riolando. p. Benedict.

__________. Goiânia: UCG. 1980. 1987. Rio de Janeiro: Bertran Brasil. Durval Rosa. In SANCHIS. In: _____. p. In: BRASIL. Antonio. História da Igreja no Brasil: ensaios de interpretação a partir do povo. 197 . Catolicismo: unidade religiosa e pluralismo cultural.________. 2007. CAMPOS. Vera Lúcia. __________. Goiânia: UCG. BRANDÃO. 2004. Americano do. 2004. Campinas: Papirus. 1990. __________. BOFF. São Paulo:EdUSP. Os Parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e as transformações dos seus meios de vida. Introdução. Barsanufo Gomides. Cristianismo e Secularização. 1996. O Testemunho Ocular: história e imagem. Humberto Crispim. jul/ago/1978. N. A fronteira na formação do espaço brasileiro (1930-1980). Americano. Pela História de Goiás. 1992. Pierre (Org). BURKE.223-252. Parteiras em Minas Gerais no Século XIX: saberes e poderes compartilhados (1832-1850). Elício Catalício et al. Bauru: EDUSC. 2004. 2008. 2 ed. (Coleção Documentos Goianos). UnB. São Paulo: IBRASA. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. São Paulo: Loyola. BORGES. CAIXETA. Religião e Politização no Brasil: a Igreja e o regime autoritário. Peter. __________. (org). Dissertação em História. 1980. Petrópolis: Vozes. Coronelismo em Goiás. Frei Clodovis. (org). Goiânia: UFG. BORGES. (Coleção Documentos Goianos). Itami. p. 1971. BORGES. A Igreja e os índios (1875-1889). 2 ed.343-358. BOURDIEU. 2003. São Paulo: Brasiliense. Rio de Janeiro: Duas Cidades. Pela História de Goiás. Pierre. Rio Araguaia Corpo e Alma. A Economia das Trocas Linguísticas: o que falar quer dizer. campo religioso e mudança cultural. 1979. 2007. Os Usos Sociais da Ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. Convergência. In: SERPA. São Paulo Loyola. 1987. A Economia das Trocas Simbólicas. Goiânia: UFG. Tomas C. 11 ed. São Paulo: UNESP. 1980. Escritas da História: intelectuais e poder. Coisas Ditas.114. __________. O Poder Simbólico.296-307. Carlos Rodrigues. BRUNEAU. São Paulo: Perspectiva. CÂNDIDO. BRASIL. p. Crença e identidade.

2002. Goiânia: UCG. 2002. Kátia Maia. Mircea. GOMES. A Igreja na formação do Estado liberal. 1980.Goiânia: UFG. do início da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo. Goiás 1800-1850: um período de transição da mineração à agropecuária. O Processo Civilizador. Norbert. p. p. Goiânia: UFG. A (Trans)formação Histórica do Tocantins. GASPAR. In: MARTINS. FRAGOSO. Gabriela dos Reis. Universidade Federal de Pernambuco. Eurípedes A. 2003. O Estado Novo: o que trouxe de novo? In: FERREIRA. 1998. Goiânia:UCG. De súditos a cidadão: os católicos no Império e na República. Campinas: UNICAMP. GIRALDIN.107-144. CHALOUB. 2003. Goiânia: UFG.316-326. CAVALCANTI. História da Igreja no Brasil: ensaios de interpretação a partir do povo. Euclides. Odair (Org.). Maria do Espírito Santo Rosa. 1986. MARQUES. ELIADE.143-216. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Nars N. 1992. Francisco José da Silva. 1988. Jacira Garcia. Sidney. São Paulo: Martins Claret. O Discurso Autonomista do Tocantins. CHAUL. Os Sertões: (Campanha de Canudos). SAMPAIO. CARVALHO. 198 . Araguaína e sua região: saúde como reforço da polarização. ELIAS. In: BEOZZO. Jorge e DELGADO. 2009. São Paulo: Martins Fontes. Fayad. A Construção de Goiânia e a Transferência da Capital. Vera Regina Beltrão. São Paulo: Cia das Letras. 2005. Goiânia: UCG. CUNHA. Caminhos que andam: o rio Tocantins e a navegação fluvial nos sertões do Brasil. Hugo. São Paulo: ANPUH. O Brasil Republicano: o tempo do nacional-estatismo. O sagrado e o profano: a essência das religiões.2.CAPELATO. Oscar et al (orgs). Maria Helena. Carlos Roberto Galvão. FLORES. 1994. Caminhos de Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade. p. Rio de Janeiro: Zahar. ________. SOBRINHO. 1987. FUNES. Dissertação de mestrado em Geografia. 1997. História e Cidadania. V. José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. Ismênia de Lima et al (orgs). Lúcília de Almeida Neves (org). Petrópolis: Vozes. 2003. Artes e ofícios de curar no Brasil.

História. Ciências. São Paulo: Cia das Letras. Festa do Divino: modelo de Igreja dos açorianos. JACMET. Rio de Janeiro: Campus. Caminhos e fronteiras. jul. In: BEOZZO. Ciro Flamario e VAINFAS. Domínios da História: Ensaios de Teoria e Metodologia.329-354. [online]. História das religiões e religiosidades. Doença de Chagas. Contribuição à semântica dos tempos históricos. p. Populações Rio-Grandenses e Modelos de Igreja. Religião e Política no Alvorecer da República: os movimentos de Juazeiro. In: DHEHER.13-139.1. História da Igreja no Brasil: ensaios de interpretação a partir do povo. 1997.203-277. In: FERREIRA. “Espaço de Experiência” e “Horizonte de Expectativa”: duas categorias históricas. saúde. p. João Fernandes.Futuro do Passado. Jacqueline. Martin.HAUCK. Rio de Janeiro: Contraponto. Acessível em: ged. HOCHMAN. História. 1998. HERMANN. Porto Alegre: Edições EST. suplemento. Missionários do progresso. Ronaldo. Petrópolis: Vozes.. Oscar et al (orgs). Jorge e NEVES. Rio de Janeiro: Diadorim. _________. p. Médicos.305-327.gov. O Tempo do Liberalismo Excludente: da proclamação da República à Revolução de 1930. no final da avenida: Os Sertões redefinidos pelo movimento da Primeira República. doença do Brasil: ciência. KROPF. Canudos e Contestado. Gilberto. Célia Silva. p.capes. 2006.313331. In:_____. __________Raízes do Brasil. “O Brasil não é só doença”: o programa de saúde pública de Juscelino Kubstschek. Entre a insalubridade e a ignorância. 1994. Saúde-Manguinhos. supl. Saúde-Manguinhos. ________. Vol. Logo ali. 5 ed. 1980. 2006. P. Carlos Chagas e os debates e controvérsias sobre a doença do Brasil (1909-1923). Rio de Janeiro. vol.1. p.1. 2009. Sérgio Buarque de. 1996.11-67. Julho 1998. HERSCHMANN. KOSELLECK. 217-235. A construção do campo médico e do ideário moderno no Brasil. Simone Petraglia. nação (1909-1962). In: HERSCHMANN. UFF. Lucília de Almeida (Orgs). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. São Paulo: Cia das Letras. 1995. A Igreja na emancipação. NUNES. p.). Tese de doutorado em História. Micael. [online]. (Org).113-123. Reinhart. Acessado em 20/06/2011. Clarice (Orgs. In: CARDOSO. Simone. In: História. HOLANDA. 199 . 2009. 26 ed. Ciência e Saúde: Manguinhos. KROPF. _________. Micael.br. engenheiros e educadores no Rio de Janeiro 1870-1937. Supl. 2003. V. p. Vol. 16.16.Ciência.

Goiânia: UCG. MEIER. Saúde-Manguinhos. jul. 2 ed. 1999.(Orgs). 1986. V. História de Goiás: memória e poder. Rio de Janeiro. Campinas: Papirus. LE GOFF. Entre árvores e esquecimentos. 200 . Victor. MATOSO.135-154. 4 ed. MELLO. Enrique. A opulência na província da Bahia. Nísia Trindade. São Paulo: Paulinas. Brasília: Paralelo 15. Rio de Janeiro: IUPERJ. In: História. 2009. In: DUSSEL.356. Johannes. 1963. Julho 1998. Missão Cruls: o sertão e a nova capital. p. sertanejos e imaginação social. São Paulo: Giro. LIMA.229248. supl. Fernando Luis.p.164-188. In: História. In: ALENCASTRO. História e Memória. In:______. Élio Cantalício e MAGALHÃES.1. [online] Vol. Ciências. Os sertanejos que eu conheci. José M. p.89-106. 1997. 2004. Luiz Felipe. Missões civilizatórias da República e interpretações do Brasil. Saúde-Manguinhos. LENHARO. In: AUDRIN. p. Tania Regina de. A Sacralização da Política. LUSTOSA. 1992. jul/set de 1987. 2008. LIMA. In: SERPA.143-180. jul. p. Ciências.115-138. Kátia Maria de Queiroz.LACERDA. História da Vida Privada no Brasil: Império. Frei Oscar de Figueiredo. Historia Liberations: 500 anos de História da Igreja na América Latina. História. História social nos sertões do Brasil. Aline Lopes de. Rio de Janeiro. Uma brasiliana médica: o Brasil Central na expedição científica de Arthur Neiva e Belisário Penna e na viagem ao Tocantins de Júlio Paternostro. Porto Alegre: Artes e Ofícios. In: AXT. Saúde-Mnaguinhos. [online]. XVI-XIX). Ceres Rodrigues.16. Jacques. ________. 1977. O sertão nordestino e suas permanências (séc. Suplemento. p. As Ordens e as Congregações Religiosas na América Latina. Fotografia e valor documentário: o arquivo de Carlos Chagas.283-311. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. São Paulo: Cia das Letras. 1996. 1996.). Documento/monumento. Rio de Janeiro. 1. LEONARDI. n. Prefácio.[online]. MAGALHÃES. LUCA . Vol V. São Paulo: UNICAMP. Um Sertão Chamado Brasil. Alceu Amoroso. p. A Presença da Igreja no Brasil. Tese de doutorado em sociologia. Sônia Maria de. Vol 16. Monteiro Lobato: a luta em prol da brasilidade e do progresso. Rio de Janeiro: José Olympio. Intérpretes do Brasil: ensaios de cultura e identidade.151-172. p. Luiz Ricardo. Alcir. supl. p. Gunter e SCHULER. 2009. 148. (Orgs. Ciências. Intelectuais. ________.525-545.

Sérgio. São Paulo: Alameda. Tese de doutorado em História. José Maria Gouvêa de. VALLE. OLIVEIRA. A Informação Goyana: seus intelectuais. Um porto no sertão: cultura e cotidiano em Porto Nacional (1880-1910). Lisboa. MOURA. MURARI. A Igreja na Primeira República. Sérgio Lobo de e ALMEIDA. [online].). _________. Alberto. Fernando. 1990. e acrescentado por Moraes Silva. 2007. Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Goiás.16.pdf. História Geral da Civilização Brasileira: sociedade e instituições (1889-1930). 1789. _________. WWW. Luciana. Rio de Janeiro.A ilusão pedagógica (1930-1945): Estado.). Luis G. 4 ed. Goiânia: Oriente. Saúde-Manguinhos. 1988. PACHECO. Tomo III. natural do Rio de Janeiro. In: GIRALDIN. In: SERPA. Expedições científicas. Goiânia: UFG. Maria Tereza Villela e PIRES-ALVES. 2004.83-98. A Elite Eclesiástica Brasileira. Natureza e Cultura no Brasil (1870-1922).115-138. _________. 2009. Francisco Ayres da. p.2. Edênio e ANTONIAZZI. MICELLI. 1979. São Paulo: Loyola. São Paulo : DIFEL. Prefácio. 201 . PALACIN. 2002. Goiânia: UCG. Petrópolis: Vozes. v. Diva do Couto Gontijo. V. jun/2009. NEPOMUCENO. Sobre experiências. reformado. p. 1972. Evangelização e Comportamento Religioso Popular.Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil(1920-1945). Cidades ribeirinhas do Rio Tocantins: identidades e fronteiras. (orgs. Goiânia: UCG. Diário de viagens. Odair (org. Pedro Ribeiro de. Ciência.org. sociedade e educação em Goiás. MUNIZ. supl1. p. MORAES SILVA. 1994. fotografia e intenção documentária: as viagens do Instituto Oswaldo Cruz (1911-1913). Dicionário de Língua Portuguesa composto pelo padre D. Maria de Fátima. São Paulo: DIFEL.sbhe. Maria de Araújo. Rafael Blutteau. A (Trans) formação histórica do Tocantins. In: SILVA. O Coronelismo no Extremo Norte de Goiás: o padre João e as três revoluções de Boa Vista. In: FAUSTO. 1978. J. cultura escolar e identidades. 1984. Escritas da história: intelectuais e poder.MELLO. Boris (org). Altamiro de Moura. Rio de Janeiro: Bertand Brasil. História. OLIVEIRA. Antonio de. Caminhos de Outrora. a história e a política em Goiás (1917-1935).br/novo/congresso/cbhe2/pdfs/tema4/0424. Acessado em 20/06/2011. Elio et all.237-239.

Dissertação de Mestrado em História Social. In: htpp://WWW.ed. P. Goiânia: ICBC. Sertão. Francisco Corlaxo. POLI. Ed. sudoeste de Pernambuco. Cassiano. Hugo de Carvalho. Cândido et al (Org). Fac-similar. Goiânia: UCG. PAPASOGLIO. 2006. _________. História do transporte aéreo no Centro-Oeste brasileiro 1930-1960. Roteiro do Tocantins. 1722-1822. PARENTE. Temis Gomes. 1923. Rio de Janeiro: Jacinto Ribeiro dos Santos. Obras Completas. sul do Piauí e de norte a sul de Goiás. 2007. PORTO. Lugar Desertado: o cerrado na cultura de Minas Gerais. 2 ed. 2003. 1976. Goiânia:UCG. Goiânia: UCG. In: NEIVA. A produção do habitus cultural em Porto Nacional (século XIX-XX). Lysias. Arthur e PENNA. Goiás. 1999. 1950. é moralisal-o. Tese de Doutorado: UFRJ. 2008. Viagem científica pelo norte da Bahia. Sanear o Brasil é povoal-o. RICARDO. 2005. Acessado em 16/11/2010. Giorgio. Arthur. Ricardo Ferreira. São Paulo: Loyola. Genésio. ROLIM.ufmt. Goiânia: s.147-162. Fundamentos Históricos do Estado do Tocantins. Brasília: Senado Federal. Tropas & Boiadas. 9 ed. p. A Igreja da restauração católica no Brasil meridional. In: PADIM. 1978. 1973. Martin (org). Dominichi Miranda de.8-10. São Paulo: Loyola. 1991. Idéias sem Fronteira: da generalidade à especialização no pensamento intelectual do Brasil Republicano (1985-1935). In: DREHER. RIBEIRO. _________. SÁ. Belo Horizonte: Autêntica: 2006. Goiânia: Oriente. RIBEIRO.1972). 7 ed. A Vida de Dom Orione.br/seniedu2009/gt8/comunicaçãooral. 1999. RAMBO. São Paulo: Panorama. UFRJ. O Brasil “Modelado” na Obra de Belisário Penna (19161935).ed._________. São Paulo: s. Porto Alegre: EST. Belisário. Os Filhos de Dom Orione no Brasil. História de Goiás ( 1722. 1986. Uma reedição importante e necessária. é enriquecel-o. Saneamento do Brasil. Benvinda Barros Dourado. Luis e MORAES. 202 . Populações Rio-grandenses e modelos de Igreja. PALACIN. 1998. RAMOS. Maria Augusta de S. Missão da Igreja no Brasil. Belisário. PENNA. RODRIGUES. Religiosidade Popular. Newton Marcos Leone.

SaúdeManguinhos. p. Goiânia: UCG. Maria da Conceição. 2008. Manuel. In: História. dez/2000. em Santa Catarina. Ernesto. In: ______(Org). Vol. Usos da História: refletindo sobre identidade e sentido. Roteiro de vida e morte: um estudo do catolicismo no sertão da Bahia. p. Revista Brasileira de História. 1996. Universidade Federal de Goiás. Rio de Janeiro. p. In: História em Revista. SILVA. Ciência. Eduardo Gusmão de al al (orgs). p. [online]. Cônego Trindade. 16 supl. Leila Borges Dias. Tensões sociais e criação cultural na Primeira República. (orgs). Nicolau. Igreja e Poder na Primeira República. Casamento na Cidade de Goiás 1860-1920. 3. SANDES. Memória e História de Goiás. SILVA.46. 203 . Élio Catalício. Dossié: Historiografia. jul. n. 25. Edivaldo Antonio dos. V. Lugares e Pessoas: subsídios eclesiásticos para a história de Goiás. V.1.123146. In: QUADROS. 1993.21-36. Cristianismos no Brasil Central: História e Historiografia.17-36. 2002. SANTOS. vol. São Paulo: Cia das Letras. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina: a repercussão do relatório médico de Arthur Neiva e Belisário Penna (1917-1935). História da vida privada no Brasil.(org. 1948. In: _________. uma esperança. ________.71-86. 2009.7-48. 2 ed. uma realidade. SERPA. Brasília: Senado Federal.Memória e Região. Dissertação de Mestrado. _________. 2003. Brasília: Ministério da Integração Regional. Cândido da Costa e. São Paulo: Ática. Brasília: um sonho.Introdução. São Paulo: Scipione. SALGADO. 2008. Catolicismo e casamento civil na Cidade de Goiás: conflitos políticos e religiosos (1860-1920). Goiânia: UCG. SEVCENKO. Eduardo Gusmão de et al.__________. _________. Os dominicanos em Goiás e Tocantins (1881-1930): fundação e consolidação da missão dominicana no Brasil. p. p. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. Cristianismo no Brasil Central: História e Historiografia. SILVA. Pelotas: UFPel. SILVA. 2 ed. SANTOS. Ética da Súplica: catolicismo em Goiás no final do século XIX. Goiânia: UCG. 1982. In: QUADROS.6. 2003. Literatura como missão.).183-203. Prelúdio republicano. 1985. astúcias da ordem e ilusões do progresso. 2008. São Paulo: Salesianas. Noé Freire.

2010. Vanderlei Sebastião de. mar/abr. 2009. p. Igreja e romanização em Pirinópolis (1890-1950). Goiânia: UCG.br. 2 ed. Vol. Conjugalidades clericais na Diocese de Goiás. 3. Goiânia: UCG.). Dermeval et al (Org). SOUZA.11. O Brasil não é longe daqui: o narrador. Laura de Mello e. Pequena história da agropecuária goiana. WISSENBACH. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. n. 1860-1920.scielo. In: SAVIANI. Nicolau (Org. 1996. Espaço da educação e da civilização: origens dos grupos escolares no Brasil. jul. São Paulo: Cia das Letras. 2006. p. Ronaldo. Flora. N. 204 . 2009. a viagem. O catolicismo popular em Goiás e o regulamento para festividades e funções religiosas. Ciências. Saúde-Manguinhos. Catolicismo e casamento civil em Goiás. VAZ. In: SEVCENKO. Rio de Janeiro. p. n.33-84. _______ e MOREIRA.p. 1997. TEIXEIRA NETO. SILVA. Breve História do Tocantins e Sua Gente. São Paulo: Cia das Letras. Campinas: Associados. UFG. [online]. Fragmentos de Cultura. Arthur Neiva e a „questão nacional‟ nos anos 1910 e 1920. p. In: Quadros. Wellington Coelho. In: História.________. Mônica Martins. Goiânia.1. [online]. Antonio. Eduardo Gusmão et al (orgs). As fronteiras da fé nos domínios das festas: sociedade. Goiânia. V. Goiânia: Asa Editora. O legado educacional do século XIX. 2001. SILVA. Disponível em htpp://homolog. Dissertação de Mestrado em História. 1998. Otávio Barros da. Php. Maria Cristina Cortez. 2009. 2008. __________. SOUZA.scielo. São Paulo: Cia das Letras. História da Vida Privada no Brasil.170-196. 1990. Da escravidão à liberdade: dimensões de uma privacidade possível. Araguaína: FIETO.48-130. História.1 p. Da separação Igreja-Estado em Goiás à nova cristandade (1891-1955).203-228. 1824-1907. supl. 20. Uma luta secular. v.16. 1986.29. 249-264 SÜSSEKIND.2. Vol.137-160. Rosa Fátima de. Cristianismos no Brasil Central: História e Historiografia. SOUZA.

ANEXOS 205 .

1934. Plages Lointaines de L‟Araguaia. 206 . Reginaldo.CONVENTOS DOS DOMINICANOS EM GOIÁS E MINAS GERAIS FONTE: TOURNIER. Paris: Missions Dominicaines.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful