Dos Delitos e Das Penas – Cesare Beccaria, Uma Obra Contextualizada

Mauricio Krzesinski Júnior. Universidade Estadual de Ponta Grossa Inicialmente se faz importante destacar a época em que Beccaria escreveu sua obra. Escrito na segunda metade do século XVII, Dos delitos e Das Penas mostra um sóbrio caráter filosófico, mais voltado às sensibilidades humanas e fazendo severa crítica às penas com caráter cruel, muito superior ao delito em si. Beccaria trata do início da sociedade e da origem do direito de punir. Em sua visão estritamente contratualista, o pacto social que ligou os homens entre si, lhes garantido segurança em troca de suas liberdades, detém o direito de punir, fundamentado sob todas essas liberdades parceladas. Ainda nessa linha, a obra indica que os crimes devem ser punidos na medida em que estejam previstos na legislação, e que seu peso não extrapole o tamanho do delito. Tal exagero ocasionaria uma injustiça e um rompimento do contrato social. Se os crimes devem ser julgados e punidos na medida da lei, não deve o magistrado deliberar sobre a mesma, uma vez que essa é a função do legislador. Ao juiz cabe apenas fazer o silogismo entre as leis e o ato praticado contra as mesmas, sendo que qualquer raciocino que exceda tal prerrogativa tornará a conclusão incerta. É certo afirmar que a visão positivada e forma dispositiva de comportamento que o autor delega ao magistrado pareçam deveras deslocadas nos dias atuais, porém, levando em conta o contexto absolutista e tirano em que a obra foi concebida tal raciocínio me parece muito conveniente, uma vez que uma lei bem escrita e justa se mostre como ferramenta confiável a favor do povo e útil na tentativa de refrear as ações criminosas e déspotas de quem detém o poder. Assim como a deliberação sobre as leis causam o mal, sua obscuridade e falta de clareza se apresenta igualmente prejudicial. Na visão de Beccaria isso impõe ao juiz a necessidade de interpretar o dispositivo. Também deve ser levada em conta a forma como são redigidas as normas

Os primeiros gozam de confiabilidade a medida que não tenham interesse algum na causa. Muito comum na época eram as torturas aplicadas previamente ao julgamento em busca de informações e confições. Para isso deve-se utiliza vernáculo comum. Nada delibera o autor sobre torturas como forma de castigo em um condenado. sempre possibilitada por consenso unânime. As testemunhas. Em outro pólo avistam-se também indícios que são as provas imperfeitas. A obra defende também a possibilidade da evolução da norma em paralelo com a evolução da sociedade. não restando ao inocente aprisionado qualquer forma de injúria e contando para o condenado como tempo de pena já cumprida. . Existem para Beccaria duas formas de provas: a prova perfeita. A condenação de um réu deve basear-se em provas do delito. Os juramentos. capaz de suportar a tortura e assim ser absolvido. os interrogatórios sugestivos e os juramentos mereceram pouca credibilidade por parte da obra. uma vez que por medo da dor corporal ou pelo cansaço da mesma. pois não foi julgado nem condenado ainda. A forma que a mesma é utilizada deve ser baseada em critérios objetivos. um homem inocente pode facilmente admitir culpa ou participação em crime nunca por ele sabido. Dois problemas advêm de tal pratica: Em primeiro lugar temos a tortura de um homem talvez inocente.positivadas. cuja mesma é suficiente em si para a condenação do suspeito. as acusações secretas. caem em descrença pela máxima de que o ser humano tem em si o impulso natural da alta preservação e vai contra as leis naturais que ele cumpra um juramento que vá contra a sua própria vida. Relacionado às prisões. Dos Delitos e Das Penas. 25). p.” (BECCARIA. por sua vez. Em segundo abre-se a discutição sobre a utilidade de tal pratica. a mesma é tida na obra como uma forma de pena imposta anteriormente ao julgamento. as instruções contidas no código “Felizes as nações entre as quais o conhecimento das leis não é uma ciência. Na face oposta do mesmo problema tem-se um criminoso fisicamente forte. é certa e irrefutável. Para ele. umas vez que deveriam ser de alcance de todos. As acusações secretas revelam um abuso protegido por uma constituição fraca assim como os interrogatórios sugestivos revelam uma inconstitucionalidade. as junções de várias provas imperfeitas formam uma prova perfeita e um indício em contrario não desmerece os demais que apontaram em outra direção.

A obra relata como eficaz e justa a pena proporcional ao delito. Violado o contrato social se perde o sentido da colocação “sociedade”. e os menos hediondos. Para o condenado. ele acredita que homem algum se privaria de sua liberdade enquanto ainda corresse risco de vida.Sobre o processo e sua duração. uma vez que se colocados em igualdade cúmplices e autores não haveria temeridade entre comparsas para se definir quem seria o autor principal do crime. a pena pode ser um alivio maior do que qualquer outra forma de condenação. Em segundo plano têm-se os olhos da sociedade sobre o crime. abaixo disso. Qualquer excesso de severidade torna a pena déspota e extrapola o entendimento do homem. Beccaria leva em conta a maior probabilidade de inocência do acusado para acelerar a instrução do processo. A inocência do réu é menos provável e a impunidade menos prejudicial à sociedade. Quando discorreu sobre os cúmplices. É justa pra com o punido e também útil como exemplo para a sociedade. Para ele sua utilidade é contestável e sua constitucionalidade duvidosa. Beccaria é claro que o andamento do mesmo deve ser o mais breve possível por duas razões: A primeira dirige-se a figura do réu. mas prolongado o tempo de prescrição. Para o segundo tipo invertem-se a ordem. Como contratualista. sucinto foi o autor em defender uma pena mais branda sobre os mesmos. maior tempo de instrução processual e rápida prescrição. É notório que uma impressão causada pelo castigo que possa ser forte e diretamente ligada ao crime deve ocorrer com o Maximo de proximidade temporal do ato. o texto trás dois tipos de crime descritos: os horrendos. A pena de morte é fortemente criticada por Beccaria. A impressão certa causada pela punibilidade é arma poderosa no refreamento de crimes do mesmo gênero. mais ligados aos bens sociais. uma vez que se mostram mais temidos os males que o homem conhece de própria experiência. Relacionado à prescrição do processo. que uma vez estando sendo investigado pode ser inocente e por isso a brevidade de seu suplício ser algo plausível. uma vez que provar tal tipo de crime é mais complicado e o interesse social em sua solução é maior. Para a primeira espécie. como o homicídio. uma vez que seu tormento duraria muito pouco e ainda existe a chance do mesmo ver na . aplicada em conformidade com as leis e após um processo justo. A demora processual e conseguinte condenação do réu nada mais são do que um espetáculo aos olhos do povo. Havendo tal separação muito mais difícil seria tal decisão e isso certamente é um modo de coibir certas ações por parte de almas fracas.

54). a pena de morte não passa de um espetáculo de carnificina de impacto momentâneo e pouco eficiente. preferiu o autor não expor opinião tácita. Quando ao uso de por cabeças a premio o texto é claro: Trata-se de uma prática amoral. Muito já se discutiu aqui sobre a proporção das penas. o que certamente fere todos os princípios do Direito de Punir. que é a maior interessada no delito. são crimes graves. Segundo ele o asilo se mostra como uma forma de não punir o crime e incitar sua prática. A fim de combater o despotismo. Sobre os asilos. porém é perceptível certa aversão ao costume. os crimes lesa-majestade são crimes que afetam a sociedade. tal pratica é vista como utilidade de nações fracas e com leis ineficientes. portanto inexoráveis. 65). uma vez que o Estado está delegando sua função punitiva.” (BECCARIA. Com uma impressão breve. mas. é também estabelecida certa divisão para os delitos. que devem ser espelhadas no próprio delito. que sejam os seus executores inflexíveis. Para a sociedade.” (BECCARIA. Porem não foge à legislação. p. o que tornaria a pena um ganho. Dos Delitos e Das Penas... que o legislador seja indulgente e humano. Na visão de Beccaria a certeza da punição é o que realmente previne os delitos “Que as leis sejam. é necessário que os homens tenham sempre sob os olhos os efeitos do poder das leis. p. Mesmo vendo a sociedade como um todo no pólo passivo do crime. Dos Delitos e Das Penas. Completando. Mas como ocorreria tal comparação? Para Beccaria a medida exata do tamanho do delito é o tamanho do prejuízo que este causou a sociedade. rapidamente a população esquece-se da força da força da pena e os crimes passiveis de tal condenação voltam rapidamente a serem praticados Uma alternativa bastante lógica e bem discorrida por Beccaria à pena de morte é a prisão e escravidão perpétua. A infalibilidade das leis é pregada como uma forma justa e eficaz de combater os delitos. Há também a categoria dos crimes lesa-majestade. ou seja. Muito comum era o engano da sociedade absolutista da época que via no rigor da pena a solução para os crimes. Estes estão divididos em delitos que destroem a sociedade e delitos que afetam diretamente a terceiro. Mais uma vez o autor relata a observância das leis positivadas. Quanto . acima mesmo da vítima. que além de não retirar a vida de nenhum cidadão ligado ao pacto social ainda tem um exemplo eterno para ser observado pela sociedade “.morte uma forma de solução e liberdade.

Quando por outro lado a falência é declarada de forma duvidosa e possivelmente não exprime a realidade. Visto dessa maneira é proposta como única pena justa uma espécie de escravidão e quando o crime acompanha violência. Se a falência aberta for honesta não caberá pena ao falido a não ser a possível compensação de seus credores. mas sim um desejo do devedor de não pagar seus débitos. Para ele os roubos praticados sem violência devem ser punidos de forma mais branda.aos outros tipos de crime. Segundo ele o homem tem dificuldade em assimilar as infrações que não o afligem diretamente. o texto alerta para o risco das penas tornarem-se meros negócios civis. Parece-me que a idéia era demais avançada para a época e ainda se fazia sombria. este responderá por seu crime. O livro trás também reflexões sobre os crimes de cunho material. é visto o contrabando. comuns na época. Ainda nesse tema a pena proposta é a apreensão das mercadorias encontradas. Beccaria se intercala de mais ao esbarrar na sua afirmação anterior de que as opiniões não são passiveis de culpabilidade e o texto não consegue abordar com clareza a distinção entre “opinião” e “calunias”. Ainda contra as penas pecuniárias. O capítulo trás clara distinção entre roubo e furto. Para ele isso é inválido. a pena acompanhará castigos corporais. devendo a medida da pena ser unicamente o reflexo do prejuízo causado pelo delito. Levantando o caso de pobres que roubam para não morrer de fome. Já os crimes de roubo utilizando-se de violência merecem pena mais severa. As falências seguem o principio da honestidade. Em caso . As injúrias pertencem aos crimes que afetam a moral do sujeito. Ainda na espécie de crimes de cunho material. que consistem em crime contra o soberano. uma idéia inovadora para a época. A observação feita por Beccaria a cerca do mesmo pode ser tranquilamente transposta para os tempos atuais. o autor reflete sobre a possibilidade de a pena gerar novo delito. visto que o ladrão no possuirá como arcar com a pena. O texto não faz clara exposição da tendência do autor. É o caso do contrabando. Beccaria propõem a distinção de punição entre ambos. É notória uma tendência a justiça como vemos hoje. a justiça cega. ou seja. tão enaltecida e glorificada doutrinamente. Beccaria atenta para as penas aplicadas por casta social. Com uma sucinta apresentação o ato foi mais exposto que criticado ou contestado. apenas com a aplicação de uma multa pecuniária. Tal capítulo foi seguido pelo assunto dos duelos. mas nem tão utilizada nos tribunais. Na visão limitada dos homens esse crime não os aflige e por isso poucas revoltas causam.

O autor considera indispensável que as pessoas tenham conhecimento das leis a que estão submetidas. pois para Beccaria é muito mais custoso para a sociedade punir um inocente a absolver um culpado. Uma terceira espécie de crime observada são aqueles que perturbam a tranqüilidade pública onde o autor é direto ao indicar a aplicação das normas vigentes. o criminalista desaprova a condenação por crime moral baseada em outras verdades que não as exploradas pela filosofia. Enquanto a tutela de um filho.de duvida será inocentado o réu. Apesar de não nominar a instituição ou suas atividades. evitando assim a tirania. mas destaca como crime aquilo que muito tempo vigorou em nossa legislação como crime de “vadiagem”. Uma alusão às leis que prendem os cidadãos em seus países é utilizada como comparação para demonstrar a inutilidade de se punir o suicídio. quando o homem pássara a ser um cidadão igualmente ao seu pai. A ociosidade aparece como crime difícil de ser definido e consequentemente punido. para o poder patriarcal. Outra instituição muito poderosa da época eram as famílias e o poder patriarcal. Sua eficácia seria de mais valia. dura a vida toda. uma vez que suas formas são tão distintas. Muito astuto foi Beccaria ao tratar dos crimes cometidos pela Inquisição do Santo Ofício. O suicídio é tido como crime na época. o poder patriarcal fazia um paralelo juntamente com o ordenamento vigente. Beccaria faz alusão à “boa ociosidade” que produz conhecimento. Sua praticamente impossível prevenção torna o crime impunível. como o adultério. uma vez que castigar um corpo morto também afligiria o povo e não serviria como exemplo duradouro. essa tutela dura até certa idade. com pouco apego a sua vida. não deve dar maior valor a vida de seus familiares. para a República. mais uma vez sem deliberação do magistrado. Para o autor. Castigar seus familiares também aparece como uma alternativa sem sentido e abusiva. Para ele as duas coisas não podem coexistir. uma vez que os mesmo não são os causadores do delito e certamente um suicida. devem ser prevenidos pelo legislador e não reprimidos. que para ele também merecia punição. Ainda vale ressaltar que a utilização de modelos patriarcais . Tal crime será punido apenas por Deus após a morte. Crimes difíceis de serem constatados.

Mesmo assim é importante dar destaque a tal obra. como se a república fosse formada por várias monarquias. A obra em si comporta uma evolução para o padrão da época. Vendo dessa forma é importante refletirmos sobre o nosso sistema penal. Porem é fato que hoje seus princípios não mais se aplicariam na sociedade em que vivemos. que mostra uma voz se revelando em nome da humanidade contra as injustiças. que foram importante passo para chegar ao patamar atual. como destacado anteriormente. que mesmo evoluído se mostra precário e incompleto. Inspiremo-nos em sua obra para buscar soluções que trascedam nosso tempo e assim rumar ao futuro.ocasiona certo desmembramento de poderes. Muitas coisas podem ser vistas ainda nos dias atuais. Sua obra ainda foi decisiva para a reforma das legislações vigentes da época. . Uma sociedade caminhando para o esclarecimento também é vista por Beccaria como parte da prevenção. Dos delitos e Das Penas destaca em sua conclusão a importância da clareza das leis para a prevenção de crimes aliada à pronta punição para quem não as respeitar.

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