Você está na página 1de 6

O rolo de Bezerra na Sudene

O ministro compra empresa, passa oito anos recebendo milhões da Sudene, vende, e ela não funciona até hoje

Alexandre Oltramari, de Currais Novos

– Eu não sou o lixo. Sou o lixeiro.
Com essa declaração indignada, o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, deu o tom de uma longa entrevista que concedeu à imprensa há um mês. O ministro queria rechaçar o conteúdo de diálogos captados por uma escuta telefônica feita pela Polícia Federal. Numa das conversas, havia a insinuação de que ele dividia com o senador Jader Barbalho o comando das falcatruas na notória Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Bezerra reagiu à suspeita, disse que era uma leviandade e, com razão, argumentou que não podia ser responsabilizado por declarações de terceiros numa conversa telefônica. De lá para cá, apesar das notícias quase diárias de novos casos de falcatruas, não apareceu nenhum outro indício de que o ministro tenha algum envolvimento nas fraudes da Sudam. O indício que surgiu agora mostra que o problema de Bezerra, de fato, não está na Sudam. Está na Sudene, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste.

Durante nove anos, entre 1989 e 1998, o ministro foi sócio da empresa Metais do Seridó S/A, conhecida por Metasa, cuja sede está instalada em Currais Novos, a 200 quilômetros de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Em 1991, dois anos depois de Ana Araujo Bezerra se tornar sócio, a Metasa começou a receber um financiamento da Sudene. O financiamento foi concedido nos seguintes termos: a Sudene, ao longo do tempo, liberaria 6,67 milhões de reais à empresa. Com esses recursos, a Metasa se comprometia a colocar em funcionamento um projeto destinado a produzir cerca de 400 toneladas de ferro por ano e gerar 145 empregos. De 1991 até 1998, a Sudene liberou 3,9 milhões de reais – ou 59% do financiamento total. De 1998, ano em que Bezerra se Empresa que pertenceu ao ministro: desfez da empresa, até os dias de hoje, a Sudene liberou mais 2,7 galpões bonitos por fora, mas milhões – chegando a 98,9% do financiamento total. Falta só dentro só um balde de minério uma parcelazinha de 70.000 reais. A Metasa, por sua vez, deveria tirar 5 milhões de reais do próprio bolso. Nesse tipo de financiamento, os investimentos do governo e da empresa devem ocorrer, pela lei, ao mesmo tempo e na mesma proporção. Até hoje, no entanto, há um descompasso: a Metasa só justificou a aplicação de 2,2 milhões dos 5 milhões de reais que lhe cabem na empreitada. Trocando em miúdos: a companhia já recebeu 98,9% dos recursos públicos, mas investiu só 44% do que deveria.

o cenário é desolador.2 bilhões de reais dos recursos liberados pela autarquia. nem ferramentas. não conseguiu colocar de pé o projeto original. algo tem. afirmou. Há duas semanas. de 1994 em diante. mas. Ele se refere ao período em que foi sócio da Metasa. de 1989 a 1998. Francisco de Assis. mas não é sempre que tem serviço. 47 anos. VEJA levou o caso – sem informar que se tratava de uma empresa do ministro até três anos atrás – ao deputado Múcio Sá. Dois dormiam à sombra de um alpendre. Seus galpões – cuidadosamente pintados de branco – estão cercados de mato até a altura do joelho. Em média. os projetos da Sudene levam 24 meses para ser implantados. há fios desencapados e paredes em ruínas. não se recorda de quantos empregados tinha." É possível que uma indústria receba 98. se afastou da companhia para assumir sua cadeira no Senado e deixou a presidência da Metasa para um de seus filhos. subrelator da CPI da Sudene. afirma o deputado José Pimentel. Na guarita de entrada. a média pode subir para 36 meses. a matéria-prima do ferro? Assis mostra um balde. o engenheiro Hênio Bezerra. No interior dos belos galpões não há nada: nem máquinas. A Metasa fica à beira de uma rodovia em Currais Novos. quando VEJA visitou a empresa. diz o ministro Bezerra. Fotos Ana Araujo A praia que seria aterrada com os prédios de Bezerra ao fundo e a placa da empreiteira Será que houve fraude? "No meu tempo.E como vai o projeto? E as 400 toneladas? E os 145 empregos? Nada disso existe. que descobriu desvio de 2. No local onde 145 trabalhadores deveriam estar envolvidos com a produção de 400 toneladas de ferro. a gente tem sete empregados aqui. no entanto. a empresa funcionava normalmente". nem mobília ou sinal algum de que ali se trabalha. com capacidade para 5 litros. nem . Múcio Sá é amigo e aliado do ministro. apresentou-se como "encarregado de produção". Em casos de projetos mais complexos. A Metasa. o relator da CPI da Sudene. Bezerra não se lembra de quanto ferro produzia. Em 124 meses. bateu um recorde. do PT do Ceará. Um terceiro. primeiro grau incompleto. nem sabe dizer o nome de um único cliente que teve. É um indício muito forte de que houve fraude".9% dos recursos previstos no projeto original e não consiga mais do que um punhado de empregos e um balde de minério? "Não há justificativa para uma empresa receber quase 100% dos recursos e gerar meia dúzia de empregos". diz Francisco de Assis. Eis o que diz o relator: "Se a empresa recebeu 98.9% dos recursos e não implantou o projeto. Ainda que garanta que no seu tempo a empresa funcionava normalmente. Mas que produção? "A produção anda fraca". ele próprio presidia o conselho de administração. E onde estão os funcionários? "Ao todo. Nos primeiros cinco anos. como uma empresa que pretende industrializar minério. É do mesmo PMDB e do mesmo Rio Grande do Norte. E onde está o minério. havia quatro homens "trabalhando" no local.

foi de exatos 276.mesmo por quanto vendeu sua parte na companhia em 1998. a Metasa não aparece na lista das 531 empresas com irregularidades identificadas pela CPI da Sudene. relator da CPI da 2001.226 reais. entre 1991 e 1996. o sócio majoritário da Metasa. Segundo dados declarados pela Metasa à Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Norte. diz o sub-relator. deputado José Pimentel. industrializou um balde de minério por ano. quando a CPI da Sudene estava a pleno vapor. ela estava sendo implantada". o faturamento foi de 36. também há dezoito notas fiscais de venda de produtos da Metasa – mas apenas quatro delas são do período do ministro. em abril do ano passado o Ministério do Trabalho informou aos deputados que a companhia. seu faturamento. O desempenho só não foi mais dramático porque em janeiro a Metasa comercializou 4.020 reais e. São cópias de catorze contratos de trabalho de catorze funcionários – todos contratados. 5. Feita a conta. disse. a título de experiência. O que se sabe é que uma empreiteira. e nenhum deles com contrato renovado ou prorrogado. Em abril de 1995. de 1995 a 1998." Informado de que a empresa estava abandonada. a EIT foi contratada para tocar . Será que funcionou então nos anos subseqüentes? Se funcionou. em dez deles o faturamento foi de zero real.873 reais.9% dos recursos da Sudene. Sem licitação.466 reais. por exemplo. Hoje. As demais são de 1999. O INSS também avisou aos membros da CPI que a Metasa estava irregular com a Previdência Social. "Não havia força política para investigar algumas companhias nem estrutura física para fiscalizar todas as suspeitas". emendando em seguida: "Se eu soubesse que ia ficar numa situação dessas. O funcionamento que o ministro alega ter sido normal "no seu tempo" não aparece claramente em lugar nenhum. Bezerra se disse surpreso: "Só sei que. Somadas. fez vendas de 32. a vida da Metasa foi um tumulto: Em 1995.768 reais mensais ao longo desses quatro anos – uma quantia tão inexpressiva que é impensável até na contabilidade de uma padaria de esquina.544 reais.960 reais. época em que a companhia nem pertencia mais a Fernando Sudene: "Indício forte de que Bezerra. Sabe-se lá o que quer dizer "força política". Eu era o responsável. por trinta dias. quando entraram no caixa 2. Além da média raquítica. O ministro não houve fraude" explicou por que mantém em sua posse documentos das vendas que a empresa realizou num período em que já havia abandonado a sociedade. Os documentos têm 44 páginas. em média. a empresa passou dez dos doze meses com faturamento de zero real. Ainda assim. "É impossível saber isso de memória. chega-se à conclusão de que a empresa faturou. em setembro. mas a gestão da empresa não era minha. porém. a empresa faturou 3. Dos doze meses do ano. Em 1997. Isso mesmo: zero real. Por alguma razão. Na papelada. Seu melhor desempenho foi em maio. a CPI não se interessou em passar a lupa sobre a empresa. que em 1994 não houve distribuição de lucros ou dividendos "porque a empresa ainda se encontra em fase de implantação". apesar de ter recebido 98. elas chegam a 209. A pedido da própria CPI. EIT. Foram emitidas em 1996 e registram vendas no valor total de 14. A ata informa. quanto mais numa indústria de ferro.292 reais. quando saí. não tinha um único empregado registrado. pelo menos na sua época. para discutir sobre distribuição de lucros relativos ao ano anterior.272 reais. E não foi por desconhecimento. 2000 e Múcio Sá. Um dia depois de conversar com VEJA. o ministro fez questão de mandar documentos para provar que a empresa funcionou. a Metasa fez uma reunião com os sócios. De novo. dono de 74% da empresa. chama-se Luis Carlos Araújo Teixeira de Carvalho. cuja ata está registrada na Junta Comercial do Rio Grande do Norte. conseguiu um bom negócio no ano passado. nunca teria pegado o dinheiro".

5%. pouco superior à do homem no início do século XX. de 1996 para cá. ela dirigia os investimentos segundo a . foi o de maior distância entre a pobreza do Nordeste e da Amazônia e a riqueza das outras regiões do país. os governadores pudessem potencializar seu poder de barganha a fim de conseguir vantagens para o Nordeste.uma obra de 4. A Sudene era dirigida por um colegiado formado pelos governadores. a tradução dessa ciranda: a verba de 4. Assim como a Sudam. Os governadores logo preferiram abandonar o comitê e passaram a barganhar individualmente. juntamente com a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). A obra era simples: colocar um tapete de areia sobre as rochas da Praia de Areia Preta. Grande parte dos empregos disponíveis na região estava nos canaviais.000 nascimentos e a expectativa de vida era de apenas 43 anos. O que seria do Nordeste e do Norte brasileiro sem suas respectivas superintendências é uma questão que sempre provoca debates apaixonados. Mais de 60% da população era analfabeta. os espigões à beira da praia estão sendo construídos por uma outra empreiteira. no entanto. O governo de Juscelino Kubitschek decidiu atacar o problema abrindo uma agência estatal para fomentar a região. o economista Celso Furtado criou a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) – órgão que comandava a distribuição das verbas federais na região. decidia qual segmento industrial receberia incentivo e funcionava como se fosse um ministério informal. o Nordeste era um lugar assustador. Em meio a um mar de denúncias de corrupção e desvios de verbas públicas. juntos. Encarregado da tarefa. Se tivesse sido feito. Como isso pôde acontecer? Simples: a Sudene cometeu o erro original próprio da intervenção estatal na economia. tem como sócia a família do deputado Múcio Sá. Estradas. a partir de agora. Esse organismo foi extinto na semana passada. há dois fatos incontestáveis. O segundo: os números mostram que o período de maior pujança no Nordeste se concentrou nos últimos cinco anos. Sudam e Sudene são agora apenas um registro na história econômica nacional. As duas entidades foram extintas por força de uma medida provisória assinada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.2 milhões de reais foi liberada pelo ministro Fernando Bezerra e seguiu diretamente para a prefeitura de Natal. excluído o Nordeste. cresceu 13%. Elas vão ser trocadas por organismos diferentes e as verbas liberadas estarão. O primeiro: o período entre 1965 e 1975. entrando na guerra fiscal dos últimos anos. o amigo e correligionário do ministro Bezerra que trabalhou como relator da CPI da Sudene. Ninguém considera exagero dizer que faltava de tudo. o PIB nordestino aumentou 15. quando a região recebeu novas empresas ao ritmo de uma por dia. O aterramento acabou embargado pela Justiça e está paralisado até hoje. foi nessa fase que a Sudene menos aplicou dinheiro na região.2 milhões de reais. A idéia de Celso Furtado era que. E. De 1996 a 1998. O FIM DA SUDAM E DA SUDENE No começo da década de 60. fase em que a região mais cresceu. que vem a ser propriedade do ministro Fernando Bezerra. Curiosamente. A EIT. sujeitas a uma fiscalização mais rigorosa. em Natal. que ganhou a obra da prefeitura. que tinham autonomia para deliberar sobre o destino dos investimentos. Foi também o período em que os subsídios para a Sudene e para a Sudam foram maiores. os moradores dos belos espigões à beira de Areia Preta ganhariam uma praia que se poderia freqüentar – coisa hoje inviável por causa dos rochedos. a Ecocil. por fim. No total. luz e água encanada. Agora. A respeito da velha Sudene. Nessa mesma época. os primeiros anos da Sudene. o PIB do Brasil. A taxa de mortalidade infantil situava-se num patamar inaceitável de 155 mortes por 1. Era preciso fazer alguma coisa urgentemente. elas geraram mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos.

É mais que a média nacional. A lama respingou até no senador Jader Barbalho. um emprego na Sudene ou na Sudam podia ser também uma forma de enriquecer. Em muitos casos. Havia um problema adicional. que foi de 68% 8 . criação de dificuldades para depois vender facilidades e corrupção são a herança desse período enterrado na semana passada com a MP de Fernando Henrique. Com isso. Em outras palavras. Na Sudene o rombo pode chegar a 2. Aproveitavam o dinheiro para aumentar suas atividades nas regiões ricas do país. pouco competitivas e altamente dependentes do governo para sobreviver. a mesma entidade encarregada de dar o dinheiro tinha entre suas atribuições fiscalizar a boa aplicação dos recursos. foram encontrados 531 contendo irregularidades. Uma investigação realizada pela Polícia Federal revelou um rombo de 360 milhões de reais na Sudam. a Sudene e a Sudam fracassaram como fórmula de desenvolvimento regional. Esse conceito é equivocado e ineficaz. Deu dinheiro para que as companhias fossem abertas. apesar da legítima boa vontade de Celso Furtado. e muitas delas não construíam a fábrica na Amazônia nem no Nordeste.052 projetos financiados com recursos públicos no Nordeste.compreensão dos burocratas sobre o que deve ser o mercado. O governo dava isenção de impostos às grandes empresas. Quando um funcionário do governo é encarregado de dizer onde o empresário deve colocar seu dinheiro. Vícios como falta de transparência no processo de aprovação dos projetos. Não é por outra razão que o que fica são as denúncias de corrupção. presidente do Senado. tanto na Região Norte como na Região Nordeste. As empresas se mostraram necessitadas demais de recursos públicos. muitas vezes acaba indicando como destino o número de uma conta na Suíça. foi criado com recursos da Sudene. e depois para evitar que fechassem. Emprega mais de 000 pessoas e fatura 5 bilhões de dólares por ano Desde a criação da Sudene.2 bilhões de reais. Segundo o modelo desenvolvido pelo governo. na Bahia. Do total de 3. mais de 2 100 empresas instalaram-se no Nordeste e 470 000 empregos foram criados O índice de desenvolvimento humano do Nordeste cresceu 103% desde a criação da Sudene. o governo precisou agir duas vezes. Este é o lado bom da Sudene O Pólo Petroquímico de Camaçari (foto abaixo).

8 milhões de reais e a obra não foi concluída Mais de 3 000 projetos foram financiados com recursos da Sudene. O governo já liberou 10.5 milhões de reais. na Paraíba (foto abaixo). foi orçado inicialmente em 3. mais de 500 apresentaram irregularidades Estima-se que os desvios possam chegar a 2.Fernando Vivas E este é o lado ruim O Hotel Cabo Branco.2 bilhões de reais Dorival Elze .

Interesses relacionados