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CAPÍTULO i

OS DIREITOS DOS POVOS SEM ESCRITA

1. O problem a das origens do direito

Não

se

pode estudar a história dp diteito senão a partir da época em

relação à

qual remontam os mais antigos documentos escritos conservados. Esta época é diferente para cada povo, para cada civilização.

Antes do período histórico, cada povo já tinha, no entanto, percorrido uma longa evolução jurídica. Esta «pré-história do direito» escapa quase inteiramente ao nosso conhecimento; pois se os vestígios deixados pelos povos pré-históricos (tais como esqueletos, armas, cerâmica, jóias, fundos de cabanas, etc.) permitem ao especialista reconstituir, é certo que de uma maneira muito aproximativa, a evolução militar, social, económica e artística dos grupos sociais antes da sua entrada na história, estes mesmos vestígios não podem de forma alguma fornecer indicações úteis para o estudo das suas instituições. Ora, no momento em que os povos entram na história, a maior parte das instituições civis existem já, nomeadamente o casamento, o poder paternal e ou maternal sobre os filhos, a propriedade (pelo menos mobiliária), a sucessão, a doação, diversos contratos tais como a troca e o empréstimo. Do mesmo modo, no domínio daquilo a que hoje chamamos direito público, uma organização relativamente desenvolvida dos grupos sociopolíticos existe já em numerosos povos sem escrita.

E

preciso portanto

distinguir a pré-história

do direito e a história

do

direito,

distinção que repousa no conhecimento ou não da escrita. O aparecimento da escrita e,

situa-se em épocas diferentes para as

diversas civilizações; assim, para os Egípcios, a transição data de cerca de 28 ou 27 séculos antes da nossa era; para os Romanos, cerca dos séculos V I ou V antes da nossa era; para os Germanos, do século V da nossa era; para certos povos da Austrália, da Amazónia, da Papuásia, da Africa Central, data do século XI X ou mesmo do século XX .

e m consequência, dos primeiros textos jurídicos

As origens do direito situam-se na época pré-histórica, o que quer dizer que delas não se sabe quase nada. O problema das origens da maior parte das instituições

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32

jurídicas é , portanto, quase insolúvel. N o entanto não se deve renunciar a estudar os diferentes aspectos, permanecendo-se todavia muito prudente nas conclusões que se podem tirar dos estudos feitos. Numerosos trabalhos foram consagrados aos aspectos mais arcaicos do sistema jurídico qu e podern ser estudados com base em documentos escritos. Foi assim que se tentou reconstituir o antigo direito germânico com auxílio em escritos posteriores às migrações dos Germanos para a Europa no século V , ou o mais antigo direito romano com auxílio dos vestígios por ele deixados nos escritos da época clássica da história

jurídica de Roma. Estas reconstituições são muito hipotéticas; é como se tentássemos reconstituir o direito dos séculos XV I e XVII , ou seja da época de Carlos V ou de Luís

XIV , com auxílio dos vestígios que dele encontramos hoje no nosso direito.

U m outro método consiste em estudar as instituições dos povos que vivem actualmente num estado arcaico de organização social e política, e que não conhecem

ainda a escrita ou que, pelo menos, não a conheciam, na época relativamente recente

em que se começou a estudar a sua estrutura social. Trata-se dos direitos arcaicos de

certas

etnias

da Austrália, da Africa,

da América do Sul e do Sudeste Asiático <»>.

O método comparativo apresenta no entanto grandes perigos; pois nada nos permite

uma evolução

jurídica similar à que se pode constatar na Austrália ou em Africa.

Além disso, os direitos arcaicos que nós podemos estudar hoje sofreram já numerosas transformações pelo contacto com os direitos europeus. E portanto quase impossível encontrar ainda um direito «primitivo», no «estado puro». Apesar destas dificuldades, o estudo dos direitos dos povos sem escrita constitui ainda o melhor meio para nos darmos conta do que pode ser o direito dos povos da Europa na sua época pré-histórica. Este estudo constitui um objecto dos trabalhos de etnologia jurídica que analisam os aspectos jurídicos das sociedades contemporâneas ou antigas que não conheciam ainda a escrita < 2i .

Durante muito tempo deu-se o nome de «direitos primitivos» aos sistemas

afirmar

que os Romanos ou os Germanos,

por exemplo,

conheceram

( 1 > A «Sociedad e Jean Bodin para a história comparativa das instituições- estudou um certo número de instituições, tanto nas sociedades sem escrita como na história do direito, pelo método comparativo; os temas assim estudados foram, nomeadamente, o estatuto do estrangeiro, da mulher, da criança, a prova, as garantias pessoais, as organizações de paz, a monarquia, governantes e

governados, as comunidades rurais, o indivíduo face ao poder e o costume (v. em notas ulteriores a correspondente bibliografia sobre a maior parte dos temas).

I

2

)

L . POSPISIL, Anthropology ofLaw. New York 1974; A . S. DIAMOND .

Primitive Uu:

pait andpresent, Londres 1971;

E . A . HOEBEL , TbeLawoj' primitive man. Cambridge (U.S.A. ) 1954; Ethmlogiegéncrale (sob a direcção de J . POIR1ER), colecção -La Pléaide- , Paris 1968 (capítulos relativos à etnologia jurídica, por J. POIRIER, H . LEVY-BRUH L e M . ALLIOT, pp. 1091-1246); H . LEVY-BRUHL , Socio/ogie du drtut, 5.* ed., Paris 1976, colecção «Que sais-je.'.; C . LEVI-STRAUSS, Us Slructures élémentaires de la parente, Paris 1949; Anibropolegie structuralt. 2 vols., Paris 1958-1973; G . P. MURDOOC , Social Strurture, Nov a Iorque 1949, trad. francesa; De la structure lociale, Paris 1972; A . R. R. BROWN , Struavre and Fvnciion m Primitive Society, Londres 1952; F. ENGELS , lorigine de la famillc, de la propriiti priva es de 1'État (escrito cerca de 1882), Paris s.d. (1972). Bibliografia para a etnologia jurídica de Angola, de Moçambique , da Guiné-Bíssa u e de Cabo Verde, nas secções respectivas da Introduaion bibliograpbique à l'histoire du droit et à l'elhnologie juridique. publicada sob a direcção dc JOH N GILISSEN (respectivamente, A . M . HESPANH A ej , N . MARCOS , E/34. Angola et tAozambtque; L. MENDONÇA . E/35. Gutnée-Bistau et Cap Verti.

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(•

jurídicos dos povos se m escrira. Esta expressão não é de modo algu m adequada, pois numeroso s povos conheceram uma longa evolução da sua vida social e jurídica sem

tere m atingid o o estado cultural da escrita; tal foi o caso, por exemplo, dos Maia s e dos Incas na América . A maio r parte dos povos cuja vida social se pode hoje observar o u se pôd e observar no decurso do século XI X já não são primitivos. Emprega-se també m a exptessão «direitos consuetudinários» (customary law) para designar estes sistemas jurídicos, porque o costume é neies a principal fonte do direito; mas veremos que o

mesm o

se passa e m certas épocas da evolução dos direitos na Europa, por exempl o dos

séculos

X a XI I da nossa era. A" expressão «direitos arcaicos» é mais vasta que «djreitos

primitivos » porque ela permite cobrir sistemas sociais e jurídicos de níveis muit o diferentes na evolução geral do direito. Embor a não a afastando de todo, preferimos-ihe a expressão «direitos dos povos sem escrita», o que acentua o que distingu e mais nitidament e este sistema jurídico de outros, ou seja, a ignorância da escrita; mas não se " ,

pod e perde r desvist a qu e o nível da evoluçã o jurídica de ceno s povos qu e se serve m d a j (L^^K 1 ^

escrit a pod e ser meno s desenvolvid o d o qu e o de certos povos sem escrita.

J

^

^°cf'

2. Actualidad e d o

Colonizaçõe s

e

estud o ao s

direito s do s

descolonizaçõe s

povo s

se m escrit a

jurídicos dos povos sem escrita não é de resto limitad o à

simple s busca das origens do direito; ele apresenta u m grande interesse actual, pois milhare s de homens vive m ainda actualmente, na segunda metade do século XX , de

acord o co m direitos a que chamamos «arcaicos» ou «primitivos». A s civilizações mais

arcaicas continua m a ser as dos aborígenes da Austrália

da Papuásia o u de Bornéu, de certos povos índios da Amazónia no Brasil. Noutto s

lugares , o direito dos povos indígenas atingi u u m certo grau de evolução que varia, de resto, de povo para povo. N a Indonésia, por exemplo, as populações autóctones,

da época da colonização holandesa u m os Holandese s chamara m de adatrecht .

sobretud o

ou da Nov a Guiné , dos povos

O

estudo

dos

sistemas

as

de Jav a e de

Bali ,

possuíam

já antes

qu e

sjsjjtmaJurídic o

(direit o adat.

relativament e

desenvolvid o

adat-law) .

O s direitos dos povos sem escrita são portanto mais ou menos «arcaicos» ou ,

mai s exactamente, mais ou menos desenvolvidos. E assim que a maior parte

dos

direito s dos povos da Africa Negr a e de Madagáscar conheceram um a longa

evolução

q u e está longe de ter sido sempre progressiva; certas etnias conheceram no

passado,

segund o parece, sistemas jurídicos mais desenvolvidos do que aqueles qu e elas conhece m actualmente. O estado de evolução dos direitos das etnias africanas, por exemplo , varia de um a etnia para outra. Certas populações, nomeadamente na Nigéria , na região dos Grande s Lagos do centro de Africa (o Buganda , por exemplo), na Zâmbi a (exemplo , os Lozi) conheceram uma organização política muit o próxima da do Estado

34

centralizad o governado por u m Re i assistido p>or funcionários e governadores locais;

noutros sítios, u m sistema de tipo feudal implantou-se

tempo , por exemplo , no Ruanda e no Burundi; noutras regiões, por fim, como seja o exemplo do Zaire e de Angola, existiam comunidades acéfalas, quer dizer, sem chefe, sem organização política e judiciária desenvolvida

muito

e permaneceu

durante

N á o existe portanto u m «direito africano» ou «direito negro», mas um número ^ muito elevado de direitos-africanos, uns mais desenvolvidos do que outros. Estes direitos africanos, como os direitos de outros povos sem escrita, sofreram

inevitavelmente contactos com direitos mais desenvolvidos, não apenas na sequência da colonização da Africa, da Ausrrália e de uma parte da Asia pelos países europeus dos

mas també m por outros colonizações, muitas vezes antigas. Assim,

o Norte e Este da Africa Negra foram mais ou menos profundamente colonizados a partir do século I X pelos Muçulmanos, cujo direito, como a língua, influenciaram o direito e a língua dos povos africanos; a Indonésia, a Malásia e as Filipinas sofreram també m a influência muçulmana e, por outro lado, a do direito chinês.

A maior par^e dos colonizadores, no entanto, deixou subsistir os sistemas

jurídico s das populações indígenas. E assim que nos países coloniais, nos fins do século X I X e até aos meados do século XX , existiam geralmente dois sistemas jurídicos, u m

d o tip o europeu (common lau- nas colónias inglesas

outras colónias) para os não indígenas e, por vezes, para os indígenas evoluídos, e outro do tipo arcaico para as populações autóctones. Este sistema de pluralismo jurídico não desapareceu inteiramente na sequência da recente descolonização. A verdade é que certos novos países, tais como a Indonésia, tentam recusar toda a influência do sistema jurídico europeu, desenvolvendo o seu próprio direito. Outros países, sobretudo na

u m

África de língua

sistema jurídico de tipo europeu a toda a população, contestando toda a autoridade dos direitos tradicionais. N o fim do período colonial (1960-1975) Portugal tinha feito das suas colónias africanas províncias e tinha tentado integrar os diversos sistemas jurídicos. Mas , apesa r deste s esforços , o pluralism o jurídic o est á long e d e ter desaparecid o d e facto **.

séculos XI X e XX ,

e americanas, direitos romanistas

nas

francesa

(nomeadamente

a

Costa

do

Marfim),

tentam

impor

(í > j . VANDERLINDEN , Afncan Lau- BMiagraphy — Bitliograpbie de droit africam/ 1947-!966i. Bruxelas 1972; African Politicai Systems, sob a direcção de M . FORTES e E. E. EVANS-PRITCHARD ; K. MBAYE , -The African Conception of Law», in International Emyclopedia of Comparam* Lau-, vol. II. 1, Tiibingen-La Haye 1975, pp. 138-158; Africar. Systems of Kinship and Mamage. sob a direcção de A . R. RADCLIFFE BROW N e D . FORDE , 2.'ed. , 1962; trad. franc: Systèmes familiaux et matrimoniam:

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Justice en Afrique noire.

sob

a direcção de J . GILISSEN,

1969; J . VANDERLINDEN ,

Essai sur les juridiaiems dt droit coutumier en

Afrique Centrale. Bruxelas 1959; A . SOHIER , Traiti clémentairc de droit coutumier du Congo belgi. 2' ed

-SMETS , «Les peuples de la Republique démocratique du Congo, du Rwanda ec du Burundi*, em Ethnologu regionaleicd. J . POIRIER),

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europeias c americanas: African Lau Stud-.cs (Los Angeles), Recueil Penant. Revue juridique et politique (Paris). Journal of African Law (Londres).

1954; A . DORSINFANG -

1966, colecção -Marabout Université». Principais revistas

<4 '

Le Pluralisme juridique. colectânea de estudos publicada sob a direcção de J . GILISSEN. Bruxelas 1971

(nomeadamente

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197

 

35

3-

Caracteres gerais dos direitos dos povos sem

escrita

 

a)

São ,

por definição, direitos não escritos,

pois trata-se do direito dos

povos

sem

escrita. O s esforços de formulação de regras jurídicas abstractas são, neste caso. necessariamente muito limitados.

b) Estes direitos são numerosos: cada comunidade tem o seu próprio costume

pois ela vive isolada, quase sem contacto com outras comunidades; e os raros contactos com os vizinhos têm por vezes como origem a vingança e levam a guerras interclânicas

ou intertribais. Cada comunidade vive dos seus próprios recursos, do que produzem os seus próprios membros, péla caça, pesca ou recolha de frutos selvagens ou naturais; o sistema de economia fechada, autárquica, quer dizer, sem trocas com outros grupos.

A extensã o

vezes um clã, mais frequentemente uma etnia.

das comunidades que tinham o seu direito próprio é muito variável: por

c)

Os

direitos

dos

povos sem

escrita são relativamente diversificados. H á

diferenças

muitas vezes importantes, por vezes mínimas de um costume para o outro. Dito de

outro modo, há numerosas dissemelhanças ao lado de numerosas mrecenças. São sobretudo

os observadores estrangeiros que sublinham as semelhanças porque eles não captam tão

facilmente como os autóctones as diversidades locais; o jgue choca o europeu ou o americano são as diferenças fundamentais entre os direitos arcaicos dos sistemas jurídico s dos povos europeus e assim põem em evidência alguns dos princípios considerados fundamentais dos direitos arcaicos: solidariedade familiar ou clãnica, ausência de propriedade imobiliária e de responsabilidade individual, etc.

d) Nas sociedades arcaicas, o direito está ainda fortemente^impregnado de

religião. A distinção entre regra religiosa e regra jurídica é aqui muitas vezes difícil, porque o homem vive no temor constante dos poderes sobrenaturais. Estes tipos de sociedade são catacterizados pelo que se chama a sua «indiferenciação», ou seja as diversa s funções sociais que nós distinguimos nas sociedades evoluídas — religião, moral, direito, etc. — estão ainda aí confundidas. A influência da religião sobre o

direit o

exemplo, nos direitos muçulmano e hindu. Mesmo na Europa Ocidental, a laicização sistemática do direito é um fenómeno relativamente recente que data sobretudo do século XVI ; bastaJembra r a concepção_,teocrática do poder, em que o rei era o representante de Deus na tejra, ou o papel do Direito Canónico no domínio do casamento e do divórcio. Restam para além disto algumas sobrevivências de elementos

manteve-se de resto em numerosos sistemas jurídicos até aos nossos dias, por

o pluralism o jurídico no direito romano, na Africa do Sul,

Iniegralion of customary tau- and rnodrrn lega! lyiiems m

na

Etiópia,

no Mali,

no direito muçulmano,

na

U.R.S.S.,

na China);

Africa, publicad o pela Faculr y o f Law,

Universit y o f Ife (Nigéria) , Nov a Iorqu e

197

1.

A revista american a African Law Studies mudou

o seu

nome pznijoumal of Legal Pturalism em

1981

(actualmente, é publicad a

em

Groningen, na Holanda).

36

religiosos nos sistemas mais evoluídos, por exemplo o juramento que em cettos países é ainda baseado na invocação da divindade Por outro lado, exagerou-se muitas vezes a importância da influência religiosa sobre as origens do direito, sobretudo na sequência dos escritos de Sumner Maine (Earlr lair and custam. 1883) que ligou o nascimento de numerosas instituições jurídicas ao culto dos antepassados. Admite-se actualmente que muito ftequentemente a evolução dos direitos arcaicos se explica por factores diferentes dos religiosos.

por

consequênci a irracionais; assim, no domínio das provas de justiça^ recorre-se muitas

Mas

não

se

pode

negar

que

estes direitos

sejam

profundamente

místicos

e

vezes

ao

ordálio,

quer

dizer

ao

«julgamento

de

Deus»

pela

água

a

ferver,

o

fogo,

o

veneno ,

ou

pelo

duelo ,

para

fazer

dizer

aos

poderes

sobrenaturais

quem

tem

razão.

e)

Os

direitos dos povos sem escrita são direitos em nascimento: distingue-se

ainda

mal o que é jurídico do que não é jurídico. Numerosos juristas contestaram mesmo que os povos sem escrita possam ter um sistema jurídico porque eles não encontram aí

instituiçõe s tais como são definidas nos sistemas romanistas ou de

exempl o a noção de justiça, de regra de direito (rufe of Iam), de lei imperativa de

por

common

law.

responsabilidade individual. Marx e Engels consideram, sob influência do pensamento

não há direito nos grupos

sociais que não atingiram o estádio de organização estatal. Mas, sob a influência dos trabalhos dos etnólogos e dos sociólogos, admite-se agora em geral que os costumes dos povos sem escrita têm um carácter jurídico porque existem aí meios de constrangimento para assegurar o respeito das regras de compor- tamento. Admite-se assim que não existe uma noção universal e eterna de justiça, podendo esta noção variar com o tempo e com o espaço. Nos sistemas arcaicos de

direito é justo tudo aquilo que interessa para a manutenção da coesão do grupo social, e não o que tende para o respeito dos direitos individuais; daí uma grai.de severidade em

relação a grupo , e,

conflito no seio do grupo; a função de julgar não consiste em resolver um litígio segundo regras pré-estabelecidas, mas em tentar obter o acordo das partes por concessões recíprocas: donde, a importância das negociações que podem durar dias, e também a ausência de qualquer noção de autoridade do caso julgado. O s etnólogos juristas distinguem no entanto uma fase de pré-direito antes da fase do nascimento ao direito. O direito não apareceria senão com a organização de um poder político diferenciado do das hierarquias ligadas ao parentesco e capaz de assegurar a regulação social por u m aparelho jurídico de normalização, de prevenção e de repressão, (J. Poirier). N a fase de pré-direito. esta regulação não resulta senão da tendência dos grupos sociais a conformarem-se com a tradição, a aderirem às maneiras de viver do grupo pelo medo da reprovação social, da censura do grupo, e sobretudo

todo o comportament o anti-social, quer dizer contrário aos interesses do pelo contrário, uma tendência a procurar a conciliação para resolver todo o

de Hegel , que o direito está ligado ao Estado e afirmam que

37

das forças sobrenaturais. A passagem do pré-direito ao direito corresponde geralmente à passagem do comportamento inconsciente puramente reflexo ao comportamento cons- ciente, reflectido, senão inteligente.

4. Fonte s de direit o

a) E m todos os direiros dos povos sem escrita, a fonte do direito é quase

exclusivamente o costume, ou seja a maneira tradicional de viver na comunidade, a conduta habitual e normal dos membros dc grupo. E por isso que se chama geralmente

a estes direitos «direitos consuetudinários», em inglês customary law. A obediência ao costume é aqui assegurada pelo temot dos poderes sobrenatutais; por isso, direito e religião se misturam aqui. Mas o costume é também respeitado, como na Idade Média e como hoje, pelo medo da opinião pública, mais especialmente do desprezo do grupo no qual se vive. E também, em numerosos casos em que o grupo

social conhece já uma certa organização, por sanções impostas por aqueles que detêm o poder ; será geralmente o chefe: chefe de família, chefe de clã', chefe de etnia; nas

ser o conjunto dos homens do grupo ou os de uma certa

classe etária, geralmente os anciãos. As penas infligidas podem ser a morte, as penas corporais , as sanções sobrenaturais; ou ainda um a das sanções mais graves nas sociedades arcaicas, o banimento,, ou seja a expulsão fora do grupo, que para o expulsado leva à perda da protecção do grupo. U m homem isolado na floresta, na savana ou no deserto, é muitas vezes u m «homem morto».

comunidade s acéfalas, pode

b) O costume não é, no entanto, a única fonte dos direitos dos povos sem

evoluídos, acontece que aqueles que detêm o

escrita. No s grupos sociais relativamente

poder impõem regras de comportamento, dando ordens de carácter geral e permanente. Tra-i-s e então de verdadeiras leis, no sentido jurídico e moderno do termo; mas são leis não escritas, pois elas são enunciadas em grupos sociais que não conhecem a escrita. Estas leis, enunciadas pelo chefe ou por grupos de chefes, os «anciãos» do clã ou da etnia , são repetidas em intervalos mais ou menos regulares para assegurar o seu conhecimento e respeito. Excepcionalmente, os chefes podem enunciá-las numa longa exposição de regras jurídicas, por exemplo os Kabary (discursos) dos soberanos do reino de I marina, em Madagáscar, entre 1787 e 1810, aproximadamente, muitas vezes retomados desde então e, finalmente, no «Código dos 305 artigos» da rainha Ranavalona II, de 1881, istoé, antes da colonização francesa.

c) O precedente judiciário pode ser também uma fonte criadora de regras jurídicas

nos direitos dos povos sem escrita; os que julgam, sejam eles o chefe ou os anciãos, têm

a tendência , voluntária ou involuntariamente, para aplicar aos litígios soluções dadas precedentemente a conflitos do mesmo tipo.

38

Por fim , os provérbios e adágios são u m modo frequente de expressão do

costume , aind a que sejam dificilment e acessíveis aos profanos. Não é todavia possível

ignorá-los nos sistemas otais em que a memória colectiva, sob esta forma ou outras (poemas, lendas, etc.) desempenha um papel primordial.

d)

5. Crítica da concepção evolucionista e progressiva

com»

estru

patri

N o decurso do século XIX , sob a influência das teorias de Auguste Comte, de

Charles Darwin, de L . H . Morgan, de F.

Engels e de outros, os etnólogos

construíram

um sistema aparentemente lógico para explicar as origens do direito por uma evolução progressiva passando necessariamente pelas uniões de grupos, o matriarcado, o patriarcado,

o clã, a tribo. Supunha-se, como ponto de partida, o nada social, ou seja uma época em que os homens não teriam vivido em sociedade e em que noções tais como família e clã não teriam sido conhecidas. Procurava-se no modo de vida de certos animais, sobretudo nos macacos, precedentes para os comportamentos sociais dos homens.

O primeiro estádio da evolução social teria sido atingido pela formação de laços

entre grupos dos dois sexos; estas «uniões de grupos» teriam sido temporárias. Pretendia-se ter encontrado vestígios delas em cerras povos da Austrália.

O segundo estádio seria o matriarcado, em que a mãe exerce um certo poder

sobre os seus filhos. O casamento não existia ainda, o pai é u m indivíduo de passagem; não existiri a outr o laço jurídico senão aquele que une a mãe aos seus filhos e, eventualmente, aos seus irmãos e irmãs uterinos.

Chegar-se-ia ao estádio do patriarcado quando apareceu um laço jurídico entre o pai, a mãe e os seus filhos. Este laço resultaria da tomada de consciência pelo pai do facto que a criança que vai nascer da sua união com uma mulher determinada é igualmente «o seu» filho. Neste estádio, a instituição do casamento julga-se adquirida ao mesmo tempo que a do poder marital e paternal; como corolário da autoridade do marido sobre a mulher, aparece o repúdio da mulher pelo seu marido, primeira forma de divórcio.

O estádio seguinte seria o do clã, constituído por um grupo de famílias que

tinham u m antepassado comum e praticavam o culto desse antepassado. Enfim, a tribo

teria nascido de um agrupamento ocasionai de clãs.

Este esquema é demasiadamente simples e demasiadamente lógico para ser verdadeiro. O s dados fornecidos peia etnologia jurídica não permitem confirmar a tese evolucionista ; não se encontraram sociedades primitivas nas quais os diversos estádios tivessem existido. Além disso, não é de modo algum certo que o patriarcado tenha sucedido ao matriarcado; a própria existência de um regime matriarcal foi posta em

dúvida.

A

existência

de

tribos é contestada;

não se fala senão em clãs

e etnias

0

1

escrita ,

^ A etnologia tende actualmente para querer explicar cudo pelo sincronismo; não haveria evolução das sociedades sem

diferentes, existindo ao mesmo tempo . A explicaçã o

nem

evoluçã o das

suas instiruições e do seu direito ,

mas estrururas

mais

socie

muit

filha

obrií

matr

endo

matr

filha

filha

sua

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39

6. Sociedades matrilineares e sociedades patrilineares

Renunciando a formular hipóteses sobre as formas mais arcaicas da vida em comunidade, a etnologia jurídica dedica-se actualmente a analisar os diferentes tipos de estrutura familiar e social que se podem reconstituir, sobretudo os tipos matrilineares e patrilineares.

a) O casamento é uma das instituições mais arcaicas e mais permanentes. É a união

mais ou menos estável de duas pessoas de sexo diferente e, geralmente no quadro da sociedade sem escrita, de famílias diferentes. A proibição do incesto é, com efeito, muit o antiga e relativamente geral; é interdito desposar a sua mãe, a sua irmã, a sua

filha: elas são tabu.

C. Levy-Strauss dirá que é, melhor que uma regra de interdição, uma regra «que obrig a a dar a mãe , a irmã e a filha»; mas isto não explica a regra nas sociedades matrilineares. H á portanto uma exogamia de família, ou de clã, mas muitas vezes uma endogamia de etnia, de raça ou de religião (6) .

famílias

matrilineares é desde logo muito complexa.

A

poligamia

é frequente;

a poliandria

é mais rara.

A estrutura

das

b) Nas sociedades matrilineares a família está centrada sobre a linhagem mãe —

filha — neta. Fazem parte da mesma família: a mãe, os seus filhos, os filhos das suas filhas, os filhos das netas das suas filhas, etc . Os homens fazem parte da família da sua mãe ; eles não entrarão, em geral, na família de sua mulher e não exercerão aí qualquer autoridade. Pelo contrário, é na família de sua mãe que um deles exercerá a autoridade de chefe; será muitas vezes o irmão da mãe, portanto o tio dos filhos da mãe. E muito raro que a mãe, ela própria, exerça qualquer autotidade; há poucos exemplos de matriarcado.

A família matrilinear é muitas vezes, mas não necessariamente, matrilocal c \ a mãe

é aí o centro do lar, ela vive «em casa dela» com os filhos e é para aí que vem habitar o seu marido; do mesmo modo, os maridos das suas filhas vêm habitar em casa dela, enquanto que os filhos casados vão habitar em casa de sua mulher ou em casa da mãe dela 18 1

estruturai domina a etnologia jurídica desde há uns vinte anos, sob a influência de C . Levi-Srrauss, em França, de G . P. Murdock c de outros nos Estados Unidos. Aí , já quase ninguém se interessa pelo problema da origem do direito, considerado como desprovido de interesse para o etnólog o que, em contrapartida, deve colocar todos os seus estudos sobre as etnias e os clãs numa dimensão cultural e actualista. O historiador do direito já quase não pode aí encontrar os elementos de comparação indispensáveis para o estudo da «pré-históri a d o direito» . Um a síntes e prudente das conclusõe s da etnologia jurídica , passada c presente, continua, no entanto, a ser útil para o estudo das origens do direito.

( 6 > M . FORTE S (ed.), Marriage m tribalStxíctia, Cambridge 1962.

f7 > O u uxorilocai, de uxor, esposa. Exemplo: os Bemba (Zâmbia), os Yao (Malaui).

< 8 ) A famíli a matrilinear pode ser virilocal; entre os Kongo (Zaire,

Angola), por exemplo, a esposa vive frequentemente no

grup o matrilinear do seu marido; entre os Léli (Kasai)e os Naembu (Zâmbia), as aldeias são compostas de homens ligados por laços d<*

parentesco pela linha materna.

40

c) O

Fazem parte

Parentesco matrilinear

(P)

Parentesco patrilinear

A - O

&

A=rO

U/U/

A

A= 0

T

-1 °

A= 0

A-.0A=O

I

I

O

: mulher

A

: homem

=

: união, casamento

%

\ÕX

J^d

%

ststema patrilinear está centrado sobre a linhagem pai — filho — neto. da família, o pai, os seus filhos, os filhos dos seus Filhos, os filhos dos

filhos dos seus filhos, etc. A s filhas e as netas fazem também parte dela enquanto não são casadas; pelo seu casamento, elas deixam (geralmente) o grupo familiar do seu pai para entrarem no do seu marido. O chefe de família é o pai; por exemplo, em direito romano , o pater famílias: ele exerce aí a autotidade, geralmente u m poder muit o extenso , ind o até ao direito de vida e de morte (cf. infra, 3. a parte, I, G : Estatuto do s filhos).

Este sistema do patriarcado (pater + ápxr,: pai + poder) é muitas vezes acom- panhado pelo patrilocalismo; a habitação do pai é o centro de vida familiar; a sua mulhe r o u as suas mulheres (há muitas vezes poligamia), vivem em casa dele, do mesm o mod o que as mulheres dos seus filhos ou mesmo dos netos.

O sistema patrilinear e patrilocal é o dos Gregos e dos Romanos; continuará a ser o dos direitos da Europa Ocidental medieval e moderna. Noutras zonas, na

41

antiguidade pré-helénica, como hoje na África e na Austrália, há tantos sistemas matrilineares como sistemas patrilineares ' 9 l . N a realidade, existe u m número infinito de combinações entre os dois sistemas: por exemplo alternância de filiação matrilinear e de filiação patrilinear, patriiocalismo nas famílias matrilineares, erc. Muitas vezes, mas sem provas suficientes, foi considerado que o sistema patrilinear patrilocal era próprio dos povos caçadores, em virtude do papel prepon- derante qu e a í desempenha o homem e e m virtude d o seu nomadismo muitas vezes

prolongado.

ou seja nos grupos que vivem em primeiro lugar da recolha, e em sesuida, depois da sedentarização parcial, dos produtos da terra; tanto a recolecção de frutos selvagens com o a cultura são efectivamente feitas mais frequentemente pelas mulheres.

O s tipos matrilineares encontrar-se-iam sobretudo nos povos agricultores,

d)

A família o u linhaptm vive geralmente

junta,

nu m conjunto de casas

muito

frequentemente

rodeado

por um a paliçada,

um a barreira, ou um a muralha de

ramos

espinhosos.

esquema

A pluricasa era o tipo de habitação

inspirado

rural

ao lado,

nos tipos de pluricasas

em Africa. N o

dos Sérèr, no Senegal, há um a

mais

frequente

dezena de casas qu e servem para o chefe, para o irmão

d o chefe, para a primeira

mulher

do

chefe,

para " segunda

mulhe. d o chefe,

para os seus filhos,

para a primeira

mulher

d

o

se u filho, etc . Há , po r outro lado, casas para as cozinhas, os armazéns, os celeiros.

E

m

numerosos casos, a pluricasa conta cerca de cinquenta a cem edifícios

'° \

EXEMPL O D E PLURICASA DOS SÉRÈR (SENEGAL)

(segundoD. PÉLISSlCR. La paymm duSrniital.

c P. GOUROU , UAfoqucV

armazém

utensilic

í 9 ) N o Zaire, a maior parte das etnias das savanas do sul sã o matrilineares: tal é o caso dos Konpc dos Pende, erc. As etnias do norte são geraimente patrilineares: Zande, Mangbetu, Aiur, Ngbaíca, etc. E m Angola e Moçambicuc. a maior parte das etnias -bancos é matrilinear, mas também poligâmica. (I0 ) K . M*BAYE <ed.), U droit de la famille en Afrique notrt ti à Madagáscar. Paris 1968; J N . D ANDERSO N (ed.), Family Law in Asta and Africa. Londres 1968.

42

7.

O clã

Qualque r que seja a estrutura da linhagem , chega-se quase sempre à formação de grupos relativamente extensos, os clãs. Com o a lei do mais forte predomina nas sociedades arcaicas, os membros do mesmo clã terão tendência a reforçar os laços que os

une m de maneira a

poderem fazer frente aos inimigo s comuns. Estes laços vão subsistir

para além da pessoa física dos indivíduos, mesmo depois da morte. Fotmam-se assim,

apó s algumas gerações, grupos nos quais o único laço é o facto de se descender de u m

unidade social é muitas vezes reforçada pelo

antepassado comum , homem ou mulher. A

factor religioso: o culto dos antepassados. O clã enconrra-se na origem da maior parte

das civilizações: yévoç grego, gens romana , sippe germâmica, douar árabe. etc.

O

clã

tem

geralmente

um

nome;

tem

mitos

e

rituais

próprios,

interdições

alimentares . A união dos membros do clã tomará muitas vezes u m carácter

simbólico:

aqueles que adoptam o mesmo «totem» (animal, vegetal, um objecto qualquer) formam o mesmo grupo social, por exemplo, certos Peles-Vermelhas da América do Norte.

O desenvolvimento e mesmo a sobrevivência do clã dependem da coesão dos seus membros? Todos estão ligados entre si por uma solidariedade tanto activa como passiva . Se se faz ma l a algu m membr o do clã , é o clã todo inteiro que o deve vingar ; se u m membr o de u m clã faz mal a algu m terceiro, é em relação a qualquer membro do clã qu e a vingança pode ser exercida. O indivíduo não tem nenhum direito; é enquanto membr o do clã que ele age, que ele existe. O clã forma uma comunidade de pessoas e també m de bens.

 

do

N o estádio clânico aparece já um grande número de instituições de direito

inte

privado : o casamento, a sucessão da função no chefe do clã, a adopção sob a forma de

nece

u m a filiação fictícia, a emancipação sob a forma da expulsão dos elementos indesejáveis

etni

para fora do clã.

htig

8. A etnia

P r 0 '

loni

A

etnologia é a ciência das etnias ou povos.

N a organização dos povos sem escrita,

a etnia constitui a estrutura sociopolítica superior, agrupando um número indeterminado de clãs. A etnia é uma comunidade que tem um nome comum, uma memória comum ,

9-

uma consciência de grupo, expressão de uma certa comunidade cultural. A etnia tem també m — muitas vezes, mas não sempre — uma língua comum, um território, costumes próprios; estes critérios objectivos da noção de etnia são no entanto menos constantes que os critérios mais subjectivos da consciência de grupo, de aspirações comuns. E deste modo muito difícil determinar o número de etnias que existiram ou que existem ainda. Os Francos, os Borgúndios, os Visigodos eram etnias germânicas; os

Kongo , os Mongo , os Zande , os Lunda , são

pode

etnias da Africa Central. Cad a um a delas

de várias etnias

pré-existentes,

constituir, num

momento

dado,

o agrupamento

sent

maior

wrriw

.

.

43

ou subdividir-se e reagrupar-se em etnias mais pequenas ou maiores; é isto que

constitui a dinâmica do grupo sociopoiítico, dito de outro modo, a história das etnias.

O númer o de etnias no mundo está neste momento avaliado em 12 000 para uns,

3000 para outtos.

A etnia identifica-se por vezes com a tribo, enquanto federação de clãs; mas a tribo é um a noção cuja existência cenos estudos etnológicos recentes contestam; ela não teria um carácter específico. Por outro lado, a etnia pode identificar-se com o Estado, quando a sua estrutura política é suficientemente desenvolvida e soberana Na realidade, a organização política das etnias vatia da sociedade acéfala ao reino centralizado. O sistema mais espalhado é um a estrutura baseada no agrupamento de clãs e colocada sob a autoridade de um chefe. A participação de ceitas pessoas — chefes

de

clã , chefes religiosos, chefes guerreiros, homens «livres», detentores de uma parte

do

solo, etc. — geralmente pouco numerosas, na gestão da comunidade quer ao lado,

quer em plano superior ou inferior ao chefe, é frequente. Encontra-se u m tal órgão de cogestão e/ou de conselho tanto em África como na Europa antiga, nomeadamente nos países nórdicos na Alta Idade Média; por exemplo, na Escandinávia e na Islândia <! -", o thing era um a «assembleia do povo», uma reunião de chefes de clã ou de chefes de

poderosas famílias desempenhando um papel na fixação das regras consuetudinárias, pois, ao dizer o que era o direito — legem dicere — , ele «escolhia» o direito (keur. willekeur, gekozen recbt, v. infra, II. 1 c. ess.).

N a estrutura polírica mais desenvolvida, a função judiciária existe quer na posse do chefe ou do seu conselho, quer enquanto instituição separada. Um a justiça interclânica torna a solidariedade activa e passiva das linhagens e dos clãs menos necessária; ela substitui-se parcialmente às vinganças ptivadas que são prejudiciais à etnia, pois elas significam o seu enfraquecimento ou mesmo a sua destruição!

Esta justiça confia frequentemente nas forças sobrenaturais para resolver os litígios , recorrendo a ordálios ou julgamentos de Deus (cf. infra, capítulo sobre a

prova);

conciliat as partes por meio de

tem

sobretudo

u m

catácter

arbitral, tentando

longas negociações em vez de decidir o litígio aplicando as regras ou princípios.

9- Modo s de detençã o dos

bens

a)

sente-se

Ta l com o o home m está

ligado do

mesmo

misticamente ligad o

De

modo a certos

objectos.

aos membros do seu clã , ele

individualidade

resto,

a

sua

O s Estados africanos actuais herdaram as fronteiras das colónias , que não correspondem aos territórios das etnias; a

maior parte dos Estados compreende dezenas ou centenas de etnias; e numerosas etnias dependem de dois ou mais Estados; assim, o tctritório dos Lunda estende-se por Angola, pelo Zaire e pela Zâmbia

gouvernés er gouvernanrs vus à la lumière de 1'histoire comparative des

institutions-. Rtaials dt la Soaílijtan

"

"

"

2

)

J .

GILISSEN .

-Les

rapporrs

entre

Bodin. t. XXII, Bruxelas 1969.

pp. 5-140. nomeadamente p. 94

ess.

44

ultrapass a o seu corpo físico; tudo o que faz parte do seu corpo e que dele foi separado fisicamente continua a identificar-se com ele; a prática mágica pode exercer-se tanto sobre cabelos cortados, unhas, excrementos, como sobre a própria pessoa.

Do mesmo modo, rudo o que se vai identificar com o corpo pertence-lhe já; por exemplo, o fruto que ele colheu para comer e, por extensão, a arma que ele fabricou para se defender, ou a canoa de que se serve para a pesca. Assim, as formas de propriedade pessoal apresentam-se como pertenças sob o

aspecto da participação mística das coisas no ser humano. Por outro lado, esta pertença

que faz parte; pois

tudo entra na comunidade de linhagem ou clinica. Esta pertença tem um carácter sagrado; ela é inviolável, sob pena de sanções sobrenaturais; os bens são em princípio inalienáveis. Basta, por vezes, marcar com um sinal exterior (por exemplo, um traço, u m pau) a sua intenção de se apropriar de uma coisa para a tornar «tabu», ou seja intetdita aos outros.

C o m a morte do chefe do clã, o que lhe pertence é muitas vezes enterrado ou incinerado com ele, em virtude da lei da participação. Mas as necessidades económicas obriga m muitas vezes a deixar subsistir ^rto s objectos (armas, reservas de alimentos, etc.) em favor dos sobreviventes, fazendo assim aparecer as primeiras formas de sucessão de bens.

O s bens de consumo corrente, sobretudo os alimentos, parece terem sido alienados relativamente cedo, mas sobtetudo sob a forma de troca, uma vez que a moeda ainda não existia. Certas formas entre as mais cutiosas são o comércio dito «mudo» e opotlatch. N o comércio mudo, u m grupo depõe num dado lugar, em que sabe que outro grup o passará, os bens que deseja trocar, e depois abandona o lugar; o outro grupo examina o que lhe é oferecido, põe outras mercadorias ao lado, e depois retira-se; o

primeiro grupo voita, examina a mercadoria oferecida er contrapartida, e, ou a leva — e a operação de troca está terminada — ou a deixa como estava; neste caso, o outro

grup o volta e, ou leva

então oferece outra coisa, e assim sucessivamente.

O potlatch. conhecido sobretudo dos índios da América, mas também dos Berberes, e sob o nome de Kula entte os Polinésios, é a dádiva pública e ostentatória de bens, de riquezas, ou até escravos, por um grupo a outro. E uma espécie de desafio, porque o outro não pode recusar; ele deve reagir aceitando, e entregando ao primeiro grupo bens do valor pelo menos igual. A operação está assim imptegnada de um certo misticismo , ligando as coisas aos homens e, ao mesmo tempo, de uma certa ostentação de poder sem obrigar ao combate. O potlach uma vez dessacralizado, parece estar na origem de relações económicas mais vastas.

o que tinha oferecido — e todo o processo está terminado — ou

não di z respeito ao indivíduo mas à linhagem , ou mesmo ao clã de

b)

A

propriedade

mobiliária precede

de longe a propriedade imobiliária;

mais

45

exacramente, as formas de participação mística de coisas mobiliárias apareceram geralmente muito antes das que dizem respeito ao solo m> .

O solo é sagrado, divinizado; ele é a sede de forças sobrenaturais. U m laço

místico, por vezes materializado por um altar, existe entre os homens e os espíritos da terra, e também com os monos, os antepassados enterrados neste solo. O mediador entre o grupo e estas forças é muitas vezes necessário; é o «chefe da terra», que pode ser O chefe do clã, mas pode também ser um outro homem que se identifique com a terra.

Assim, crê-se muitas vezes que por morte do chefe da terra, esta se torna estéril;

é preciso fazer um sacrifício para que o novo chefe seja aceite pelas divindades. O chefe, de resto, não deve ser considerado como o proprietário do solo; posse da comunidade,

as parcelas são repartidas pelo chefe entre as famílias, geralmente por um curto lapso de tempo. Nã o existe apropriação por prescrição aquisitiva; qualquer que seja a duração da detenção de uma parcela, ela deve sempre retomar à comunidade. Não há terras vagas;

o solo, cultivado ou não, pertence ao chefe da terra e, por ele, à comunidade. A terra é

evidentemente inalienável, sobretudo a estrangeiros; os Europeus colonizadores, que acreditaram poder adquirir as terras através do pagamento de uma certa soma, perturbaram gravemente as relações com as forças sobrenaturais.

Certas etnias permaneceram nómadas; outras sedentarizaram-se mais ou menos cedo na sua história. O nomadismo favorece o desenvolvimento da propriedade comum, porque o rebanho (renas, bois, cavalos, carneiros, camelos) é considerado como pertencendo a todos; do mesmo modo, os territórios em que o grupo faz pastar o seu

rebanho, e sobretudo os poços de água,

são considerados como pertença temporária do

grupo; pertença, pois o grupo defendê-los-á contra terceiros, mas temporária porque ele

os abandonará quando as pastagens se esgotarem.

Na sequência da sedentarizaçáo, a colheita dá lugar à agricultura; desde então, a

tomada de posse comum do solo generaliza-se e torna-se mais permanente. Uma vez que os clãs sedentários formam uma aldeia, a comunidade aldeã substitui a comunidade ciânica que no entanto não desaparece; a solidariedade aldeã aparece ao lado da solidariedade ciânica. Os clãs no interior das etnias, as famílias no interior dos clãs fixar-se-ão cada um às «suas» terras, dando assim nascimento à distinção entre terras comuns cujo uso pertence à comunidade ciânica ou étnica (florestas, pastos, charnecas, etc.) e às parcelas cultivadas pelas famílias. Assim aparece a noção de propriedade familiar, depois individual do solo, e ao mesmo tempo a de sucessão imobiliária e de alienabilidade dos imóveis n4) .

M .

BACHELET ,

Systèmes fonciers et reformes atraíra

tn Afrique

mire.

Paris

1968;

D .

BIEBUYC K

(ed.).

Africai

Agraria* Systems, Londres 1963; R- RAR1JAONA , Le concepi defmpnitien émit foncier à Madagáscar, Paris 1967; R. VERD1ER . Eisai dcthno-iociologie juridique des rapports fonciers dam la pensce nêgro-africaine, thèse. Paris 1960; V . GASSE, Le regime foncier à Madagáscar et en Afrique. Paris 1959; do mesmo. Les regimes fonciers africains et malgacht. íivlusvm depuis liriaepenaanct. Paris 1971. G MALENGREAU , Les

droits fonciers coutumiers cbez ia indigènes du Congo belge, Bruxelas

1947.

ÍI4 )

V . também , adiante, p. 48 (A Propriedade). Bibliografia em Lei crimmunautcs rurales, 1 . a parte: 'Sociétès sans écriture-.

46

10.

Classes sociais: ricos e pobres, livres e nã o livres

A apropriação do solo leva a desigualdades sociais e económicas. Em princípio, o regime ciânico é igualitário — igualitário sobretudo pela ausência de riquezas — mas a fixação ao solo provoca desigualdades de riqueza devidas nomeadamente às partilhas sucessórias, às diferenças de fertilidade, a acidentes meteorológicos, enfim, ao entu- siasmo no trabalho. Estas desigualdades económicas levam a diferenças mais ou menos consideráveis de produção de u m clã para outro, duma família para outra. Segue-se o aparecimento de ricos e pobres e, por consequência, de classes sociais. Estas classes vão diferenciar-se fortemente à medida que os ricos se tornam mais ricos e os pobres mais pobres; porque muito frequentemente o pobre, obrigado a procurar meios de sobrevivência, deverá pedir emprestado ao rico e pôr os seus bens e a sua pessoa em penhor, o que terá consequências graves no caso de não execução do contrato. Encontrar-nos-emos, desde então, em face de u m novo tipo de servidão, — a distinguir da servidão dos prisioneiros de guerra, — a escravatura económica, nascida da não execução de um contrato de empréstimo. Assim aparecem classes socais cada vez mais distintas e uma hierarquização da sociedade, hierarquização que se vai complicando à medida que aparecem novas classes entre a dos livres e a dos não livres. Chega-se assim a um a sociedade fortemente estruturada, geralmente de tipo feudal, piramidal, tendo à sua cabeça um chefe, abaixo do chefe os vassalos, depois os vassalos dos vassalos e assim seguidamente, finalmente os servos e os escravos. H á numerosos exemplos de sociedades de tipo feudal, nomeadamente no centro da África negra e na Indonésia, e também na história da antiguidade pré-helénica, na da índia, da China e do Japão (no século XVIII) e, enfim, na Europa do século X ao século XII m) .

11. Aparecimento de cidades e de direitos urbanos

Em certas sociedades arcaicas ou feudais aparecem cidades. Elas surgem de necessidades económicas em resultado do desenvolvimento da economia de troca, do facto de os comerciantes transportarem os géneros, abundantes numa região, para regiões onde eles são raros. Grupos de comerciantes instalam-se nos lugares em que encontram um a protecção suficiente e um a localização geográfica que favoreça a instalação de um mercado ou de um porto.

t. 40 , Paris 1985

nos Andes peruanos, no México anterior a Cones.

Rtcaeils de Ia Sociétcjcan Bodin,

(nomeadamente sobre as comunidades na África negra, em Madagáscar, na Laponia,

íi5

)

Estudos comparativos sobre estas sociedades feudais em Les liem de vassaíiii

et les immuntíès,

Bondin, t. II, 2." ed. , Bruxelas 1958; em feudalism. sob a direcção de Rushton Coulbom . Princeton (N.J.).

DES LONGRAIS , LEst et fOuest, Imsiiutiom duJapon e de 1'Occident compartes, Tóquio-Paris 1958.

tZccueils de la Sociité Jtan 1956; em F . JOÚO N

47

As cidades aparecem assim na Europa feudal dos séculos X I e XII , bem como em

Africa antes da colonização europeia e também na antiguidade. Encontramo-las no 4. °

miléni o antes de Cristo em três grandes centros geográficos, na origem das grandes

civilizações egípcia, mesopotâmica e hindu:

— o delta do Nilo, em que aparecem cidades como Busiris, Letópolis, Saís,

Bouto, e mesmo uma cidade santa, Heliópolis;

— a bacia do Tigre e do Eufrates, com Ur , Lagash, Eridu;

— a bacia do Indo, com Harappa, Amri e Mohenjo-Daro.

Estas cidades antigas são já relativamente desenvolvidas; as cidades do Indo, por

exemplo , tinha m casas e m andares, u m sistema

públicos . Elas são formadas po r um a nova classe

a entrar e m conflito co m os elementos da hierarquia feudal, sobretudo fundiária.

A velh a solidariedade étnica e ciânica desagrega-se nas cidades, ao mesmo tempo qu e a

nobreza feudal; para os comerciantes, os bens móveis substituem os imóveis na

de esgotos, estabelecimentos de banhos

social, os comerciantes, que nã o tardam

hierarquia dos

valores económicos. A propriedade imobiliária é parcelada. A s cidades

t ê m dirigentes

assistidos po r funcionários

retribuídos.

N o Egipto, certas cidades do 4. °

miléni o são dirigidas por um a autoridade que actua em colégio, o «Colégio dos dez

homens» , qu e pode ser comparado aos escabinos das cidades flamengas d a Idade Média.

A fiscalidade, a escrita e oxalendário aparecem aí, do mesmo modo que o estado civil,

nomeadamente sob a forma do «recenseamento do ouro e dos campos» (l6) .

A partir daqui já nã o existem povos sem escrita; estamos na aurora da história

dos direitos da antiguidade.

DOCUMENTO S

1. ZAIRE : Organização tradicional

A .

Rwanda et d u Burundi», Ethnologie rtgionak,

de la Plêiade,

DORSINFANG-SMETS ,

«Les peuples de Ia Republique démocratique d u Congo, d u

sob a direcção de J . POIRIER, I, Encydopédie

1972, p . 611 e ss.

Três grandes tipos de parentesco são utilizados pelas populações do Congo. N o sistema

socialmente reconhecidos, pertencem tanto à linha paterna como à linha

bilinear, os parentes,

V. nomeadamente La tritit, 3 vols., em Reaitits Jt Ia Sociétt Jean Bodin, t. 6, 7 e 8, 1954-1957. reimpressão de 1983

(artigos de J

cidades hindus).

PIRENNE, sobre as cidades egípcias, de G . CARDASCIA, sobre as cidades da Mesopotâmia, de S. ROY. sobre as