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Como Se Fosse Verdade

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Clara B.

Alves
Copyright © 2020 por Clara B. Alves Todos os direitos reservados

Como se Fosse Verdade


Edição digital

Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem
autorização por escrito do autor.

Capa: Genevieve Stonewell


Revisão: Clara B. Alves
Formato: PDF

Edição Digital | Criado no Brasil


Para Iana, que sempre acreditou em mim e, sem ela, essa história não seria possível;
Para Manu, minha incentivadora fiel que sempre está lá para gritar por Kate e Ben;
Parte I

Se o meu sorriso mostrasse o fundo da minha alma, muitas pessoas, ao me verem sorrir, chorariam
comigo.

Kurt Cobain
Prólogo

10 anos antes.

- 1, 2, 3, 4....

Enquanto mamãe conta até 100, corro para me esconder no baú que fica no final do corredor no andar de cima, certo de que ela nunca me acharia lá.

Não levou nem 10 segundos para me esconder lá. Eu era muito bom em me esconder. Quando mamãe menos esperasse eu iria correr e assustá-la.

Foram poucas as vezes que ela conseguiu me pegar. Eu ficava cada vez melhor.

Papai vai chegar tarde em casa e jantamos sem ele, de novo. Ultimamente ele tem feito muito isso e mamãe e eu fazemos tudo sozinhos agora. Eu

sinto falta dele, mas entendo que ele tem que trabalhar mais por nós, para termos uma vida melhor e sairmos daqui. Então, não falo nada. Tenho 8

anos, afinal, não posso sair agindo como uma criancinha. Tenho quase certeza de que mamãe sugeriu a brincadeira para que eu não pensasse muito

nele e ficasse com saudade. Ela sempre sabia das coisas.

Os 100 segundos terminam e espero ansiosamente pela procura, ansiando pelo momento que revelarei quão esperto fui dessa vez, mas... mamãe não

vem. Fico quietinho, no entanto. Mamãe também é esperta, a pessoa mais inteligente que conheço. Mais até que a sra. Parsons, que disse que a África

era um país. Pode ser um truque. Mamãe pode estar querendo que eu saia para me pegar desprevenido. Não. Vou esperar mais um pouco. Sou

insistente. Ela sabe disso.

Mais tempo se passa e começo a ficar sonolento. Ouço a porta da frente sendo aberta. Papai deve ter chegado! Por que mamãe não veio?

- Estou em casa! - anuncia ele. Espero por uma resposta de mamãe, mas nada vem.

Junto as sobrancelhas em confusão. Ela foi se esconder também?

- Estranho. - Ouço papai dizer e então seus passos vagando pela sala. Bem, talvez eu possa surpreendê-lo. Minha animação volta e aguardo

mais um pouco.

- MAIS QUE, PORRA?! - Me assusto com seu grito. - Mia! Ah meu Deus! Mia! Essa é mais de uma de suas brincadeiras com Ben? - Meu

coração se acelera e de repente não consigo respirar dentro do baú.

- MIA, PORRA! - Papai soa desesperado. Preciso sair daqui. - O QUE VOCÊ FEZ? Porra! Porra! Porra! Porra! - ele xinga com mais

intensidade e saio correndo pelas escadas, escutando apenas meu coração nos ouvidos. Algo aconteceu a mamãe...

- Papai? - passo pela sala de estar indo em direção ao banheiro no final do corredor e então eu os vejo.

- Ben? - ele vira seus olhos arregalados em minha direção, parecendo atordoado em me ver. Está segundo o telefone no ouvido com a mão

trêmula. Eu mesmo estou trêmulo. - O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO AI?

Suas palavras e seu tom de voz teriam me feito encolher se eu não estivesse paralisado com a visão em minha frente. Um soluço me escapa. Medo

percorrendo meus ossos. Sinto que devia correr, mas meus pés estão grudados no chão. Quero perguntar o que houve, mas não confio na minha voz.

Não sei se consigo falar. Meu pai está curvado sobre minha mãe, deitada no chão do banheiro e... aquilo era sangue? Não...não poderia ser. Por que

minha mãe teria tanto sangue ao seu redor? Aquele cheiro...

- O-o que...

- Alô? Eu preciso de uma ambulância para 220 Oregon St, Charlotte, agora!

- P-pa-papai... - Aquilo era muito sangue. Muito, muito sangue.

- Minha mulher... ela... - meu pai engasga, desepero tomando conta de suas feições. - Acho que ela... que ela cometeu suicído. - sua voz é

apenas um sussurro.
Suicído. Eu nunca tinha ouvido aquela palavra. Não sei o que ela significa, mas ideias estão surgindo na minha cabeça e tudo está tão confuso. Por

que ela não acorda? Por quê?

- Por favor, vocês precisam vir. Agora! Ela... ela está morrendo, pelo amor de Deus! - ele grita mais uma vez e eu prendo a respiração. Minha mãe

estava... Não! Aquilo não podia ser, certo? Não tinha como ser! Ela estava brincando comigo há não muito tempo atrás. Ela não pode...

- AGORA! AGORA! Ela vai morrer! - ele chora ao telefone e o joga para longe. - Mia! Mia! - ele abraça minha mãe e a cabeça dela pende para trás.

Percebo como as mãos dele ficam manchadas de vermelho. Não só as mãos, mas suas calças, sua camisa que ela havia passado nesta manhã,

repreendendo-o por cogitar sair com ela amarrotada. Aquilo era muito sangue.

Eu não movi um músculo. Não pronunciei mais nada. Estou com medo de perguntar, sinto que vai te tornar real. Minha cabeça pensa em tudo e em

nada. Não sei o que falar ou fazer. Então apenas assisto. Meu pai começa a conversar com ela a acariciar seus cabelos. Não entendo o que ele diz.

Minha cabeça não processa mais nada, não sinto mais nada em meu corpo e por um segundo pensei ter morrido. A parte mais assustadora é que ela

não se move! Aquela não é a minha mãe. Não tinha como ser. Mamãe é uma pessoa cheia de vida, sempre sorri para tudo, é a que me faz feliz quando

estou triste, a que conta as piadas mais engraçadas e faz as coisas parecerem mais interessantes. Ela prometeu que jamais me deixaria. Então aquela

nos braços do meu pai, encharcada com aquele sangue tão fedorento e viçoso não poderia ser minha mãe. Não podia!

Não sei por quanto tempo fiquei naquela posição, não sei quando a ambulância chegou. De repente a vida era só flashes. Num segundo pessoas

entram, tiram minha mãe dos braços relutantes do meu pai e a levam. Alguém passa por mim e me empurra. Parece ser papai, mas não tenho certeza.

Acho que ele está gritando de novo. Percebo que estou no chão agora. Devo ter caído quando me empurraram. Pisco algumas vezes e não sei como

me levantei ou como cheguei à porta da frente, mas consigo ver meu pai entrando na ambulância também. Eu queria pedir para ir junto, queria correr

até eles e implorassem que me deixassem ir junto, mas não conseguir mover nada. Então eu assisti mais uma vez. Antes de desaparecer por detrás das

portas do veículo, meu pai olha para mim. E jamais vou esquecer o olhar gélido e cheio de acusação que ele meu deu. Tão carregado de raiva, dor,

repulsa. Então eles se foram. E eu continuei olhando. Mesmo depois da ambulância desaparecer, mesmo depois do som agoniante dela não podia mais

ser ouvido.

- Ah, querido! - sinto alguém se aproximar e me abraçar. Parece ser uma senhora com idade para ser minha vó. - Eu sinto muito! - Não sei

quem ela é, ou porque está aqui. - Que coisa horrível você passou, pobre criança!

Não reajo. Não sei como fazer meu corpo funcionar.

- Você deve estar em choque. Não devia ter visto algo assim! - sua voz é calma e quase reconfortante. Não sei como ela apareceu ou porque

está cuidando de mim. Minha mãe cuida de mim quando estou me sentido errado. Ela sabe o que fazer, ela sempre sabe como consertar. E

agora...

Então finalmente surge um novo sentimento. Um que eu sabia, dentro do meu ser, que ia me acompanhar para sempre: culpa. E eu jamais me

permitiria esquecer.

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