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HUMANAS

Revista

de

Ciências

Revista filiada à:

H UMANAS Revista de Ciências Revista filiada à: Editora da UFSC

Editora da UFSC

UNIVERSIDADE FEDERALDE SANTACATARINA

Reitor

Lúcio José Botelho

Vice-Reitor

Ariovaldo Bolzan

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

Diretor

Maria Juracy Filgueiras Toneli

Vice-Diretor

Roselane Neckel

EDITORA DA UFSC

Diretor-Executivo Alcides Buss Conselho Editorial Eunice Sueli Nodari (Presidente), Cornélio Celso de Brasil Camargo, João Hernesto Weber, Luiz Henrique de Araújo Dutra, Nilcéa Lemos Pelandré, Regina Carvalho, Sérgio Fernando Torres de Freitas.

REVISTA DE CIÊNCIAS HUMANAS

Editor José Gonçalves Medeiros Comissão Editorial Andréa Vieira Zanella, Carlos José Espíndola, Cyntia Machado Campos, Héctor Ricardo Leis, José Gonçalves Medeiros (presidente), Marco Antonio Franciotti, Sônia Weidner Maluf, Tamara Benakouche.

Conselho Científico Alcir Pécora (UNICAMP); Artur Cesar Isaia (UFSC); Car- men Silvia Rial (UFSC); Cecile Helene Jeanne Raud Mattedi (UFSC); Cleci Maraschin (UFRGS); Darlei Dall’Agnoll (UFSC); Edmilson Lopes Junior (UFRN); Erly Euzébio dos Anjos (UFES); Fernando Ponte de Souza (UFSC); Franz Josef Brüseke (UFSC); Grauben Assis (UFPA); Héctor Ricardo Leis (UFSC); Jane Russo (UERJ); João Cleps Junior (UFU); José Carlos Zanelli (UFSC); Leila Christina D.Dias (UFSC); Luis Hen- rique Araújo Dutra (UFSC); Magda Ricci (UFPa); Márcio Lopes da Silva (UFV); Maria Angélica Motta-Maués (UFPa); Maria Bernardete Ramos (UFSC); Maria Cecilia Maringoni de Carvalho (UNICAMP); Maria Cristina Alves Maneschy (UFPa); Maria Teresa Santos Cunha (UDESC); Mauricio Roque Serva de Oliveira (PUC-PR); Mauro Pereira Porto (UNB); Olga Lucia Castreghini de Freitas Firkowski (UFPR); Oscar Calavia Sáez (UFSC); Pedro Paulo da Costa Coroa (UFPa); Rafael Raffaelli (UFSC); Saint-Clair C. da Trindade Júnior (UFPa); Silvio Paulo Botomé (UFSC); Walquiria Krüger Corrêa (UFSC).

Organização Geral

Luiz Carlos Cardoso

Tiragem

500 exemplares

Periodicidade

Semestral

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

HUMANAS

Revista

de

Ciências

ISSN 0101-9589

Revista de Ciências Humanas

Florianópolis

EDUFSC

n.

37

p . 0 1 - 2 1 4

Abr.

2005

A Revista de Ciências Humanas é uma publicação semestral do Centro de Filoso- fia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina. Lançou, em 1982, o seu primeiro número e tem sido um importante veículo na disseminação do conhecimento interdisciplinar nas diferentes áreas das humanidades. Publica com regularidade dois números por ano com uma tiragem de 500 exemplares por volu- me, além de números temáticos anuais. Os artigos são revisados por três relatores ad hoc, preferencialmente vinculados a instituições nacionais.

Editoração eletrônica Allysson Sérgio Vieira

Revisão geral José Gonçalves Medeiros Vera Vasilavski

Criação da Capa Ana Lúcia Gomes Medeiros

Aldemir Martins nasceu no Ceará, em 1922. A sua obra carrega a marca da pai- sagem e do homem do nordeste. A RCH homenageia o artista falecido no último dia 5 publicando, como capa, sua tela Paisagem.

Ilustração da Capa

Revista indexada por:

Sociological Abstracts - SA;

Linguistics & Language Behavior Abstracts - LLBA;

Social Planning / Policy & Development Abstracts - PODA;

Public Affairs Information Service, Inc. - PAIS;

Nisc Pensylvania Abstracts, inc. - NISC.

Qualis/CAPES

(Catalogação na fonte pela Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina)

Revista de Ciências Humanas (Temas de Nosso Século) / Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Filosofia e Ciências Humanas.- v.1, n.1 (jan. 1982) - Florianópolis :

Editora da UFSC, 1982- v.; 21cm

Semestral

ISSN 0101-9589

I. Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Filosofia e Ciências Humanas.

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Universidade Federal de Santa Catarina Editora da UFSC Campus Universitário - Trindade Caixa Postal 476 88040-900 - Florianópolis - SC / Brasil

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Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Filosofia e Ciências Humanas Revista de Ciências Humanas 88040-900 - Florianópolis - SC / Brasil

Revista de Ciências HUMANAS (Florianópolis)

número 37

abril

2005

Sumário

Apresentação

07

Questões de gênero na obra Cem anos de solidão de García

Márquez

 

Michelle Domit Gugik

11

A

constituição do espaço político em Hannah Arendt Rafael Vicente de Moraes

29

Movimentos de massa e movimentos sociais: aspectos psicopolíticos das ações coletivas Marco Aurélio Máximo Prado 47

A

escola e a rua: interação possível? Solange Cristina da Silva

67

No salão vermelho: políticas para passageiros especiais Katiuci Pavei

89

Reflexões sobre as representações sociais da AIDS e do câncer

e as interações entre pacientes, famílias e profissionais de saúde Ângela Hering de Queiroz Elisângela Böing Maria Aparecida Crepaldi

105

Naiane Carvalho Wendt

Processo de intervenção visando à construção de equipe em duas unidades de trabalho de uma universidade pública brasileira Gisele Sabrina Warmling Marcelo Richar Arua Piovanotti Narbal Silva

121

Nivaldo Campana

A

psicanálise na universidade belga: a experiência de Louvain

Fernando Aguiar Brito de Sousa

149

O

anticlericalismo na cultura brasileira: da colônia à república

Ricardo Luiz de Souza

175

Relação dos Consultores ad hoc

201

Normas para publicação

203

Apresentação

O número 37 da Revista de Ciências Humanas (RCH) da UFSC chega a seus leitores com nove artigos que dialogam no campo do

político, do psicológico e do social. Os autores, profissionais das universidades brasileiras, atuam em diferentes áreas de conhecimento das ciências humanas, o que con- tribui para o fortalecimento da pluralidade de cada edição e do seu caráter interdisciplinar. O artigo “Questões de gênero na obra ‘Cem anos de solidão’ de Gabriel Garcia Márquez”, apresenta uma importante contribuição ao trabalhar com a questão de gênero. Sua leitura enseja o leitor a refle- tir também, por exemplo, acerca da política de cotas que atualmente está na pauta das universidades brasileiras e da sociedade como um todo. A admissão desta política com proposições afirmativas são instrumentos de qualidade na consolidação democrática. No caso das cotas por gênero, estas ações geram polêmicas. São percebidas, por um lado, favorecendo as mulheres em amplos aspectos da vida social e política e, por outro lado, sofrem críticas por serem consideradas um instrumento não democrático.

O debate mesmo que polêmico é parte fundamental do tecido social;

neste sentido, o artigo “A constituição do espaço político em Hannah Arendt” não poderia estar mais bem situado no conjunto dos artigos escolhidos para compor esse número, induzindo as ciências sociais a participar deste debate. No artigo “Movimento de massa e movimentos sociais: aspecto psicopolítico das ações coletivas”, o autor trabalha a partir do que ele nomeia como uma categoria psicopolítica – a identidade coletiva polí- tica, propondo ao leitor uma reflexão sobre o debatido conceito de iden-

tidade coletiva. O artigo nos convida para o debate quer para analisar as implicações de sua aplicação, quer para melhor estuda-lo; entretanto, não se pode deixar de reconhecer que as sociedades modernas estão diante de novas relações de poder. Assim, os artigos “A escola e a rua:

uma interação possível” e “No salão vermelho: políticas para pas- sageiros especiais” aprofundam a reflexão sobre esse tema. Em am- bos os artigos a inclusão social aparece para evidenciar nossa responsa- bilidade para com aqueles que, de uma ou de outra maneira, ainda não tem reconhecida sua participação no corpo social. Compreender os sig- nificados existentes em espaços onde ocorre uma produção simbólica não organizada e trazer para dentro das instituições estas produções é reconhecer a existência destes sujeitos e tornar visíveis suas necessida- des; chamo atenção aqui para o artigo que examina as políticas públicas implementadas em Porto Alegre em benefício dos passageiros especiais

no uso do transporte coletivo. O artigo “Reflexões sobre as representações sociais da AIDS e do câncer e as interações entre pacientes, famílias e profissionais de saúde” ocupa, nesta edição, um lugar importante por seu papel cons- cientizador frente à doença e ao sujeito portador, propiciando mudanças de conduta e, com isso, promovendo melhoras nas relações entre os envolvidos – sujeito portador da doença, agente de saúde e família. Ainda na esteira das contribuições para a melhoria das relações sociais, o artigo “Processo de intervenção visando a construção de equipe em duas unidades de trabalho de uma universidade pública brasileira” descreve o processo de implementação de um projeto de intervenção com o intuito de promover mudanças nas relações interpes- soais e de trabalho de funcionários e docentes do Departamento e da Coordenadoria de Psicologia da UFSC.

Os dois últimos artigos: “A psicanálise na universidade belga: a experiência de Louvain” e “Anticlericalismo na cultura brasileira – da colônia à república” trazem contribuições pertinentes para os leitores. O primeiro artigo retoma reflexões e pontos de vista do colóquio realizado em Louvain no ano 2000 quando se discutiu o papel da psica- nálise no ensino e pesquisa e suas relações com a sociedade. O outro artigo e último desse número traz para a pauta uma questão sempre atual: a que trata da relações da igreja com a cultura brasileira, portanto, com a crítica que ela suscita.

José Gonçalves Medeiros Editor

Questões de gênero na obra Cem anos de solidão de García Márquez *

Resumo

Artigo que elabora conside- rações sobre as questões de gêne- ro, ao analisar a obra Cem anos de solidão, de Gabriel García Már- quez, enfatizando a conexão entre os elementos afetivos inerentes a suas personagens e a cultura lati- no-americana, entrelaçando a reali- dade e a fantasia, além de pontuar aspectos psicológicos individuais e coletivos, especialmente no que se refere à construção dos papéis so- ciais ao longo da história. Faz-se um apanhado geral sobre o enredo,

Michelle Domit Gugik 1

Secretaria de Estado da Educação

Abstract

This paper presents conside- rations about questions of gender in Gabriel García Márquez’s A hundred years of solitude. The connection between affective as- pects of the characters and Latin American culture are emphasized, interchanging reality and fantasy. Individual and collective psycholo- gical aspects are also pointed out, especially as regards the construc- tion of social roles during the nar- rative. An abstract of the main the- me is also presented, with special

* Gender questions inside García Márquez’s book A hundred years of solitude 1 Endereço para correspondências: Caixa postal 21613, Florianópolis, SC, CEP 88058-970 (mdomitv@yahoo.com.br).

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detendo-se nas relações desenvol- vidas pelas gerações descritas na obra, de modo a estabelecer-se uma linha condutora, que passa pelos mistérios, rituais, tabus sexuais e os enlaces psicológicos. Com brevida- de, verifica-se, ainda, a alegoria da história latino-americana nas entre- linhas da obra, a partir da influência política desempenhada pelas perso- nagens na comunidade. No decor- rer de tais deliberações, a relação dialética entre indivíduo e coletivi- dade evidencia-se, à luz da psicolo- gia social e da sociologia, destacan- do-se a cristalização cultural das valorações morais na sociedade la- tino-americana.

Palavras-chave: Questões de gêne- ro; cultura latino-americana; literatura.

attention to the relations developed by the generations portrayed by the book, in order to establish a sequen- ce passing by mysteries, rituals, se- xual taboos and psychological inter- relations. A brief comment is added about the allegorical reference of the book to Latin American history, es- pecially as to the political influence played by some characters belon- ging to that community. All along these discussions, a dialectical rela- tionship between the individual and the collectivity is evidenced, by me- ans of social psychology and socio- logy, especially as to a sort of social crystallization of moral values in Latin American society.

Keywords: Gender questions; La- tin American culture; literature.

A obra de Gabriel García Márquez é conhecida pelo recurso estilístico denominado realismo fantástico, que demonstrou ter grande apelo

popular e cuja riqueza de símbolos foi plenamente identificada por leito- res de origens diversas. Nela, desfilam dramas e tramas que consistem na personificação cotidiana dos menos favorecidos. Partindo-se dessas características, neste artigo, discutem-se elementos vitais presentes numa das obras mais aclamadas de Márquez: Cem anos de solidão, tecendo- se conexão entre a biografia do autor e as influências que ele recebeu, além de se abordar os papéis masculinos e femininos condensados no reflexo da família latino-americana, que é retratada pelo autor. Tal como as manchas de Rorscharch, o livro de Márquez abarca um leque de configurações que despertam as mais amplas conjecturas. O sucesso das obras que se valem do realismo fantástico está na riqueza simbó- lica, que evoca variadas reações perceptivas dos leitores, os quais reconstroem mentalmente o argumento mediante sua própria compreensão do mundo.

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Cem anos de solidão apresenta, além do realismo fantástico, uma gama de valores e questões a serem debatidos, originados dos conflitos que

constituem a relação entre o indivíduo e a sociedade, entre o espaço privado e o público e a construção dos gêneros masculino e feminino, por meio dessas relações.

A mitologia concede à obra caráter universal e paradoxalmente

regionalista – devido ao manejo tempo-espaço da condição humana, em que o tempo funciona como máquina fotográfica, retratando a humani- dade em diferentes épocas, sociedades e culturas, condensando-a em descontínuo relevo. Cem anos, portanto, não condizem com a contagem

cronológica do tempo, o que leva a considerar que, antes de ser um romance fantasioso, ele mergulha na obscuridade emocional do ser hu- mano, em sua natureza mais primitiva, independentemente de mudanças

e avanços tecnológicos e sociais.

O autor

A ironia e a mitologia popular são características inconfundíveis

dos livros de Márquez, e culminam em um estilo literário original, norte- ado pelo realismo fantástico 2 .

De acordo com o prefácio anônimo da 30ª edição de Cem anos de solidão” (1984) - Gabo, como era chamado pelos amigos, nasceu em 6 de

março de 1928, na aldeia de Arataca (a Macondo de seus livros), situada na Colômbia. Proveniente de família modesta e numerosa, entrou em con- tato desde cedo com lendas e fábulas transmitidas oralmente de geração para geração, o que influenciou profundamente sua criação literária.

O pai de Gabo levava uma vida pacata, como proprietário de uma pe-

quena farmácia homeopática. O avô era veterano da Guerra dos Mil Dias, e encantava o pequeno neto com suas histórias. Costumava levá-lo a passear e, às vezes, quando sentia súbitas pontadas – que o obrigavam a parar no meio da rua – dizia ao garoto: Ay, no sabes cuánto pesa un muerto! 3 . As informa-

ções prefaciais (1984) sugerem que a relação entre avô e neto alicerçou a

compreensão fantástica do mundo, por parte do escritor. Conseqüentemente,

o paradoxo entre a realidade da guerra e a idealização da morte como inexo-

rável mistério constituiriam o eixo norteador primitivo de toda sua inspiração.

2 Expressão mais autêntica da literatura hispano-americana do século XX. (Nota da autora) 3 Tradução: “Não sabes o quanto pesa um morto!”. O avô fazia referência ao homem que matou, durante a guerra.

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A família de Gabo partiu de Arataca, por causa da crise na planta- ção bananeira. Ele iniciou os estudos na cidade de Barranquilla e fre- qüentou o Liceu Nacional de Zipaquirá. Estudou direito e jornalismo nas universidades de Bogotá e Cartagena. Posteriormente, trabalhou como correspondente para o jornal de Bogotá, El espectador, no qual ficou conhecido por reportagens e críticas sobre cinema. Por meio de sua bibliografia, verifica-se como a cultura latino-ame- ricana é caracterizada por fortes emoções e conflitos provocados por valores sacros e profanos, exacerbando-se a cristalização dos papéis masculinos e femininos na família latina, marcas indeléveis na maioria das obras dos grandes autores latino-americanos. A carreira literária de Márquez iniciou-se com o romance O enter-

ro do diabo (1955), quando a aldeia de Macondo apareceu pela primei- ra vez 4 . Em 1961, publicou Ninguém escreve ao coronel. Em seguida, lançou uma coletânea de contos, intitulada Los funerales de Mamá Grande (1962). Publicado no mesmo ano, O veneno da madrugada ganhou o Prêmio Nacional de Literatura da Colômbia. Nessa obra, Gabo

abordou pela primeira vez os temas repressão política e tirania nos me- andros do poder. Outras obras suas que se destacaram são: La novela in América Latina (1968) – a qual ele escreveu em colaboração com o peruano Mário Vargas Llosa; A incrível e triste história de Cândida Erêndida e sua avó desalmada, coletânea de contos; Olhos de cão azul (1972);

O outono do patriarca (1975); Crônica de uma morte anunciada

(1981); O amor nos tempos de cólera (1982), que lhe valeu o Prêmio

Nobel de Literatura, por narrar os sentimentos profundos e primitivos que atormentam os indivíduos acorrentados a seus pesadelos pessoais;

O general em seu labirinto (1989), romance sobre os últimos dias do

libertador Simon Bolívar; e Del amor y otros demônios (1994). Sua consagração veio, no entanto, com o romance Cem anos de solidão (1967), em que narra a história do povo de Macondo e seus fundadores: a família Buendía. De forma alegórica, a obra reconta a história da Colômbia e privilegia a crueza e a truculência dos relaciona- mentos afetivos na cultura latino-americana, de acordo com Georges Sion, o qual se encarregou da tradução da obra para o francês (1984); e James R. Frakes, crítico do The New York Times.

4 Trata-se do povoado imaginário onde são ambientados quase todos seus romances.

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Em Cem anos de solidão, são delineados os espaços limítrofes entre o homem e a mulher em sociedade, no tocante às esferas pública e privada, conseqüentemente, remetendo os indivíduos a frustrações e anseios de fugir à ordem social imposta. As personagens são espicaça- das por desejos proibidos e inconfessáveis. Um dos aspectos mais im- portantes do livro é o distanciamento prudente que o narrador faz em relação à realidade, a fim de mais bem esmiuçar as atitudes humanas no campo das impressões e dos sentimentos.

Cem anos de solidão

Macondo era uma pequena vila isolada do resto do mundo. A maioria dos moradores desconhecia os avanços e acontecimentos de outras re- giões, bitolando-se nos modos e meios de produção aprendidos de gera- ção para geração e rejeitando situações que escapavam da realidade conhecida. As atividades cotidianas transcorriam calma e satisfatoria- mente, pois eles compartilhavam do mesmo nível de saber. A descrição não foge da realidade atual de muitas comunidades latino-americanas, mas representa, em suas entrelinhas, a trajetória da civilização analoga- mente à bíblia, berço mítico do cristianismo. O desenvolvimento de Macondo acompanhou a ambição de seu fundador, José Arcádio Buendía. O destino da família Buendía foi traça- do por um segredo previsto com cem anos de antecedência pelo cigano e alquimista Melquíades. A primeira geração carregou a maldição da consangüinidade: José Arcádio e Úrsula, sua esposa, eram primos. As famílias de origem do casal foram contra a união. A mãe de Úrsula procurou persuadi-la a não consumar o casamento, alegando que os ne- tos teriam um futuro sinistro, pois acreditava, devido a comprovado pre- cedente nas duas famílias, que os futuros filhos de Úrsula nasceriam com rabos de porco ou iguanas. Para evitar o destino, Úrsula passou a usar um cinto de castidade que vestia à noite, com medo de que o marido se aproveitasse dela sexualmente, durante o sono. Crendices populares permeiam a conduta das personagens. Até hoje, é possível encontrar, nas mais variadas comunidades, cujo meio de subsistência é agrícola ou pesqueiro e cuja cultura cristalizou-se no fazer cotidiano, crenças que se sobrepõem à realida- de e conduzem a vida da comunidade, como ocorre com as histórias sobre bruxas contadas pelos pescadores da Ilha de Santa Catarina.

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O autor, contudo, permite a malícia de refletir sobre o fundo de verdade que todo mito aparentemente tem, verdades essas que ganham caráter atemporal e são produzidas por ações individuais e coletivas, orientadas por profecias e mitos. No enredo, percebe-se a importância atribuída ao destino e às ações dos antepassados, que repercutem na vida de seus sucessores, ou seja, acontecimentos que guiam o grupo familiar para o erro e a desgraça e, conseqüentemente, favorecem a confirmação do mito e das profecias. Passou-se um ano sem que Úrsula e José tivessem relações sexuais, e a fofoca já agitava o povoado. As pessoas especulavam que Úrsula continuava virgem por causa da impotência do marido. A mulher perma- necia em casa, afastada dos olhares de todos, enquanto o marido partici- pava da vida social, embora fosse ridicularizado pelas costas. Aqui, evi- denciam-se claramente questões históricas dos gêneros 5 : o papel do ho- mem costumava ser o de procriador e provedor, ao passo que à mulher competia cuidar dos filhos e do marido. Por essa razão, o espaço desti- nado ao homem era público, e ele tomava para si as rédeas das mudan- ças sociais que envolviam a comunidade, já a mulher ocupava o espaço privado, ou seja, o lar, o seio da família.

A não-realização do principal objetivo de todo o casal cristão – a

procriação – provocou grave crise matrimonial. Houve desvalorização

pública do papel de chefe familiar, ocupado por José, quando sua mascu- linidade foi contestada pela comunidade. Para recuperar o status patriar- cal perante os demais homens, ele cometeu o assassinato de um velho conhecido, Prudêncio Aguilar, o qual teria feito comentários maldosos sobre a virilidade de José. O crime concedeu ao homem desmoralizado certo respeito por parte dos demais. Como se tivesse extravasado a raiva e criado novo vigor varonil, Arcádio deu ultimato à esposa, a quem atribuiu a culpa do episódio: “Se você tiver que parir iguanas, criaremos iguanas, mas não haverá mais mortos neste povoado por culpa sua” (MÁRQUEZ, 1984, p.26).

O autor ressalta, intencionalmente ou não, o controle exercido

pela sociedade sobre a vida sexual do casal. Ocorre a invasão do

5 Questões de gênero consistem em estudos empreendidos pela psicologia, sociologia, antro- pologia, história, e educação, em que se privilegia a construção dos papéis familiares, sociais, políticos e sexuais, atribuídos historicamente aos homens e às mulheres, bem como a formação psicológica decorrente da interação masculino e feminino, nas trocas entre o indivíduo e a coletividade. (Nota da autora)

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espaço público no privado, dada a ansiedade coletiva provocada pelo tabu que representa a sexualidade, que funciona como mecanismo de controle por parte da igreja, desde a época medieval, em que predomina- va o catolicismo. Esses resquícios continuam presentes e atuantes nos países de cultura latina, os quais se mantêm fervorosamente católicos nos dias atuais. Havia a norma social que ditava a função específica do sexo no casamento. Para que tal controle fosse eficiente, considerava-se que o homem não deveria ser privado do sexo, por causa das exigências de sua natureza. Qualquer problema conjugal, certamente, deveria ser solu-

cionado ou relevado pela esposa. O sexo, portanto, ocupava o papel de resolver os problemas inerentes à dinâmica doméstica, por meio do nas- cimento dos filhos. Se um casal constituía sua prole, o pilar de sustenta- ção da família era, supostamente, sólido. Quaisquer questões outras – como traição, falta de comunicação ou discrepância afetiva e intelectual

– seriam relegadas para segundo plano: um pano de fundo corrosivo, que

destruiria aos poucos a precária, ou falsa, harmonia familiar estabelecida diante da comunidade e da igreja. Depois da resolução de José Arcádio, não houve mais mortos, entretanto, o assassinato desencadeou-lhe grave crise de consciência.

O fantasma de Prudêncio Aguilar zanzava pela casa dos Buendía, sem

lhes dar sossego. Cada vez mais, José sentia a necessidade de partir, levando a esposa e alguns amigos, em busca de novos horizontes e paz

de espírito. Desejava se livrar do fantasma, que representava a constan-

te lembrança de seu crime.

Sem itinerário previamente definido, atravessaram a serra numa viagem que duraria dois anos. Enfim, decidiram se instalar em uma re- gião pantanosa - orientados por um sonho premonitório, de teor sobrena- tural, que indicou a José o lugar certo para começar a nova comunidade. Ali, fundaram Macondo, onde os Buendía criariam os três filhos: José Arcádio, Aureliano e Amaranta. Qualquer semelhança com a trajetória de Moisés e o povo hebreu não será mera coincidência? O autor (re)incorpora ideações de ordem religiosa e política, presentes no berço do cristianismo, embora em nenhum momento mencione explicitamente

o papel da igreja no enredo. A partir daí, desenvolve-se uma teia de relacionamentos marcados por desentendimentos, amores a que não se correspondeu, tragédias e tirania.

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O crime original dos pais perseguiria os descendentes e os descendentes

de seus descendentes. A família, na obra de Márquez, é produto típico do

patriarcalismo 6 , já que remete constantemente ao status da mãe como

reguladora da educação filial, doutrinada pelo domínio masculino, e ao pai como chefe e defensor do grupo familiar. Os papéis parentais exercidos pelos gêneros, para Scott (1995), inscrevem-se em um campo simbólico e não como condição natural e inerente à biologia humana. Neste campo, as diferenças entre feminino

e masculino “são construídas e representadas ao longo da história da

sociedade” (MALUF, 1993, p.13). Tais aspectos – à luz dos estudos de gênero - revelam, em relação às personagens, a cristalização das atribui- ções do casal, provocando deficiência na troca de experiências vivenci- adas pelo marido e pela esposa, algo que se agrava, entre José e Úrsula, com a chegada dos ciganos. Os ciganos tentaram os moradores de Macondo com toda sorte de coisas consideradas profanas e místicas, o que representa o lado livre e “primitivo” do ser humano, doutrinado e reprimido pela ordem. Quanto aos “bons cristãos”, não deveriam se interessar por conhecer as coisas oferecidas pelos ciganos, e sim realizar o que lhes foi destinado, propa- gando às gerações futuras os ideais preestabelecidos. Ao chegar na re- cém-formada Macondo trazendo bugigangas exóticas e extraordinárias, os ciganos mostraram aos moradores que existia muito mais além da vila, como culturas diferentes e valores divergentes daqueles impostos, e apresentaram-lhes apetrechos cujo funcionamento consistia numa ver- dadeira incógnita. Tudo que era desconhecido, para os tementes a Deus, pertencia ao plano herege, ou melhor, demoníaco. Por isso, os ciganos deveriam ser temidos. Apesar de despertar medo em Úrsula, as bugigangas atiçaram a sede de saber e as ambições de José Arcádio. Ao conhecer o cigano Melquíades, ele passou a acalentar idéias grandiosas e transformou-se em um pesquisador obcecado por descobrir a dinâmica dos fenômenos naturais.

6 Patriarcalismo: Base da sociedade ocidental e oriental, que se (re)constrói ao longo da história, por meio da liderança do patriarca. O sistema social do patriarcado constitui-se pela autoridade masculina absoluta em relação aos demais membros da família. A dignidade do patriarcado está na lei social de estabelecer a linha de descendência pelo pai, e não pela mãe. No patriarcado, a cultura e a educação exaltam a escala de valores patriarcais e o status dos papéis destinados aos homens. A mulher apresenta condição inferior à do ho- mem, em contrapartida, ocupa papel de destaque na reafirmação familiar do poder mascu- lino. Os valores patriarcalistas, no entanto, passaram a ser alvo de revisão e contestação, nos últimos cem anos, nos estudos feministas de gênero. (Nota da autora)

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Tornou-se, portanto, um ser alienado da família. A esposa atribuiu as atitu- des desatinadas do marido à maldição da consangüinidade e assumiu as rédeas da família. De seu reino doméstico, defendeu o patrimônio que foi negligenciado e até dilapidado por José, já delirante na busca pelo saber. Pode-se traçar a similaridade de suas ações com as da personagem ho- mônima do clássico Fausto, a qual vive em função do saber absoluto, só que, nesse caso, José não incorporou a grandiloqüência do primeiro. Arcádio tornou-se melancólico, frustrado e amargurado, com o pas- sar do tempo. Suas tentativas de descobrir as maravilhas e verdades do mundo foram totalmente infrutíferas. Afinal, como conhecer o mundo se está eternamente preso em um laboratório? Seria uma crítica à ciência positivista? Mais uma vez, o autor joga com o universo simbólico, levan- do o leitor à maliciosa reflexão. O distanciamento do cotidiano familiar e a diligência de Úrsula para manter a organização do espaço doméstico demonstram o real poder da mulher no seio da família e, por conseqüência, na comunidade. Histori- camente, no decorrer da ascensão burguesa, o saber doméstico tornou- se exclusividade feminina, um poder que não se reconhecia explicita- mente no fazer e no discurso formal da sociedade. Propagava-se a auto- ridade masculina e se delimitavam rigidamente os lugares pertinentes aos homens e às mulheres, o que é demonstrado na obra, quando José enfurna-se em seu laboratório, espaço proibido para a esposa, assim como a sala de costura era proibida ao marido. Desde a Idade Média, o papel feminino foi depreciado no espaço públi- co, porém, representava o laço que mantinha e fazia prosperar a família, a força motriz que conduzia a estrutura social primária. Se a honra da mulher era manchada perante a comunidade, a família ficava comprometida. Por essa razão, os homens da família tinham a obrigação de guardar e proteger suas mulheres. Nas culturas que ainda mantêm padrões de comportamento tradici- onais, especificamente na latino-americana, a mulher ainda desempenha o pilar de sustentação do reino doméstico, no sentido de arcar com a responsa- bilidade de educar os filhos e transmitir a eles o código de valores aprovados pela coletividade. Se os filhos não aprendem adequadamente as normas de conduta, a responsabilidade é da mãe. Assim, nas raízes latino-americanas, devido à construção histórica da vida privada, ainda não há meio-termo em determinados segmentos sociais: a mulher pode desempenhar o papel de “san- ta” mãe, esposa e trabalhadora ou de depravada, vulgar e “destruidora de lares” (esses últimos sendo conceitos atribuídos à mulher livre).

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Sabe-se que a mulher depravada era assim denominada até há pouco tempo, não somente quando exercia a prostituição. Assim eram todas aquelas que se rebelavam contra as normas infligidas às mulheres, tais como almejar ler e escrever, exercer uma profissão, recusar preten- dentes ao casamento, relacionar-se com mais de um homem, por vez ou ao mesmo tempo, freqüentar lugares públicos desacompanhadas e exer- cer qualquer tipo de atividade remunerada, exceto as funções relaciona- das à educação e à família (governanta, dama de companhia, tutora, professora, ama-seca, babá etc.). Ainda hoje, vê-se essa distribuição de papéis, decorrente de com- portamentos familiares tradicionais mesclados a comportamentos consi- derados contemporâneos, numa mesma área urbana ou rural. Tendo em vista a constante migração entre ambas, torna-se possível visualizar a influência comunitária de famílias com valores mais ou menos liberais – especialmente no que se refere à sexualidade –, coexistindo com outras, extremamente conservadoras. Os papéis tradicionais familiares, conquan- to, continuam marcantes na cultura latino-americana. Na visão de Úrsula, os inventos de José Arcádio eram coisas do demônio. Ela agarrava-se em suas crenças, fazendo-se de surda às elo- qüentes explicações do marido. Vivendo em mundos diferentes – o ho- mem para a ciência e a mulher, para a natureza –, ambos se foram distanciando cada vez mais. Aproximavam-se apenas quando havia a necessidade de desempenhar o papel de casal perante a prole, na toma- da de decisões frente ao futuro e à educação. Parafraseando Giddens (1992, p.54), para os filhos, José Arcádio “governava pela lei e Úrsula, pela persuasão”. Na sociedade patriarca- lista, especialmente a latino-americana, o homem representa a norma formal ditada pelo poder coletivo e conferida a seu domínio público, en- quanto a mulher representa a norma informal, ditada pelo poder conquis- tado por ela no domínio privado, o lar, e aceito pela coletividade. As relações estabelecidas pelos filhos dos Buendía careciam de intimidade 7 . Os membros da família conviviam separados por um abismo de comunicação, cada qual isolando-se e buscando preen- cher o vazio interior mediante a sublimação ou não de seus desejos.

7 Definida por Giddens (1992, p.291), teórico da sociologia, como parceria em busca da verdade, que possibilita à pessoa ver o mundo duas vezes: pelos olhos do parceiro e pelos próprios olhos.

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Tampouco o diálogo 8 fluía livremente. Pelas mãos do autor, ocorre a predo- minância de uma narração-descritiva em relação ao “fazer” familiar, que se direciona para um diálogo pobre e truncado, repleto de sentenças definitivas. José Arcádio e Úrsula não compreendiam – além dos limites da sexualidade imposta pela sociedade – os anseios mais profundos dos filhos, quando estes atingiram a adolescência. Seus desejos e impulsos sexuais foram reprimidos pela ordem e eles chocaram-se com a censura internalizada, o que provocou graves sintomatologias de comportamento e conduta, que afetaram o corpo, como castigo irracional e defensivo, empregado por eles mesmos contra os pensamentos pecaminosos. Afi- nal, esperava-se das mulheres preservação da virtude e da pureza. As personagens empenham-se em manter a ordem, valendo-se de autofla- gelos. A avó de Úrsula queimava a área genital no fogão, a fim de casti- gar os próprios impulsos sexuais, e isolava-se do resto da comunidade. Ela sentia que aquela parte de seu corpo exalava cheiro desagradável, e isso simboliza, de maneira alegórica, a impureza do sexo. Já Úrsula fe- chava-se em um cinto de castidade. Rebeca, a filha adotiva, comia terra compulsivamente, dando vazão defensiva à frustração sexual. Ainda, Amaranta queimava espontaneamente as mãos no forno. Ao longo da história da humanidade (BORDO, 1997), o corpo da mulher teve destaque como “lugar” por excelência onde se demarcou o discurso de controle social, muito mais do que no corpo do homem. O corpo da mulher é castigado pelo pecado original. O controle social sobre ele revela-se nas doenças tipicamente femininas, como a buli- mia, a anorexia, a histeria (a última muito comum nos tempos de Freud 9 ),

8 Segundo Zeldin (1993, p.33-40), teórico da sociologia, trata-se de troca de experiências, pela qual se procura cultivar sentimentos e desenvolver a empatia. A empatia, para a psicologia, representa o “saber se colocar no lugar do outro” sem esquecer a sua individua- lidade e suas próprias opiniões. 9 Freud, como médico, empreendeu estudos psiquiátricos no início do século XX, enquanto concebia a base da sua psicanálise. Sua preocupação inicial incidiu sobre pacientes do sexo feminino, portadoras de histeria de conversão. Seu caso mais famoso foi o de Ana O. (FREUD, 1980). A histeria de conversão era uma doença mental que atacava especialmente as mulheres. Nos dias de hoje, a literatura comprova o aumento – não que antes não existisse – de casos de histeria entre os homens, considerando-se a constante revisão da nomenclatura em psicopatologia. A mudança dos papéis desempenhados por homens e mulheres representa influência significativa no processo. Um exemplo disso é o delinea- mento epidemiológico do enfarte, doença orgânica anteriormente típica dos homens. Com a mudança na divisão do trabalho, as mulheres passaram a ter grau maior de incidência da mesma doença, o que comprova que a incidência das doenças modifica-se, de acordo com as mudanças sociais.

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cuja incidência se modifica de acordo com as mudanças sociais. Hoje em dia, a anorexia, a histeria e a bulimia alcançam crescentes registros de afetação sobre o sexo masculino, e têm repercussão histórica inédita em outros tempos, à medida que os papéis sociais ganham novas dimen- sões de atuação quanto à feminilidade e masculinidade. Os gêneros (re)constroem novos significados para homens e mulheres em socieda- de, ao mesmo passo em que são (re)construídos por estes. Cem anos de solidão revela, ainda, que o corpo feminino está longe de ser dócil. Encontrando concordância nas obras de Giddens (1992) e Santana (1995), verifica-se que ele reage por meio de uma série de sintomas que vieram, ao mesmo tempo, rendê-lo à obediência e fazê-lo rebelar-se silenciosamente contra esta. A palavra que não foi dita pas- sou a ser representada de forma simbólica, a doença representa a rebel- dia psicossomatizada. Por outro lado, os homens Buendía também sofreram a coerção social, pois constantes provas de virilidade foram-lhes cobradas, especial- mente no que diz respeito ao tamanho do órgão sexual. O poder estava no falo, para a sociedade patriarcalista de Macondo, mas esse poder não aplacou a angústia que consumia as personagens. Enquanto Aureliano, filho de José, alienou-se do mundo em seus trabalhos de ourivesaria, o irmão resolveu fugir da vila, em parte, pelo impulso de conhecer novas e inebriantes sensações e, por outro lado, por ter engravidado uma mulher em sua primeira relação sexual. Ela, Pilar Terneira, era considerada se- dutora, de riso exuberante, bem como todas outras que são as responsá- veis pela afirmação da identidade masculina dos homens Buendía. As mulheres livres representam ameaça ao domínio doméstico, à medida que ousam exceder seus papéis de “iniciadoras da virilidade”. Apesar de desagradáveis e ameaçadoras para as mulheres “di- reitas”, a presença das mulheres ditas “vulgares” tinha função deter- minada pela coletividade. Com elas, aplacava-se o “desejo animal” que assolava os homens. Por isso, havia uma certa permissividade ao pecado da carne, quando cometido pelo homem, um canal de escape para a repressão sexual imposta no lar e na sociedade, já que, desde os primórdios do cristianismo, havia certa condescendência conquistada, tendo em vista sua condição (o ser perfeito criado por Deus e desvirtua- do pelo ser imperfeito, que era a mulher). Conseqüentemente, a presença das mulheres livres regulava o controle coletivo de maneira satisfatória.

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Tal permissividade, no Brasil, encontrou seu ápice na colonização, segundo Luciano Figueiredo (1997, p.157). Durante o século XVIII,

proliferaram os prostíbulos ou casas de alcouce, na colônia. Isso gerou certo lucro que, muitas vezes, não era controlado pela igreja

e pelo governo. Além do mais, o aliciamento de escravas por parte

dos senhores tornou-se prática comum. A igreja combatia ferre- nhamente a miscigenação racial com a manutenção da família bran- ca, padrão e cristã, porém, documentos da época relatam que mui- tos religiosos levavam uma vida “de pecado” com mulheres negras escravas ou forras, bem como, brancas de vida ilícita (FIGUEIRE- DO, 1997, p.171-173). Além de tudo, a população desenvolveu estratégias para burlar as determinações e punições do clero. Havia autoridades religiosas que “fe- chavam os olhos” – dependendo de quem cometia o mal da carne – já que a prostituição havia se infiltrado nas camadas sociais mais elevadas, por meio de atividades como o concubinato e a mancebias, exercidas pelos eficientes alcoviteiros (FIGUEIREDO, 1997, p. 169). Os papéis construídos ao longo da história cristalizaram-se em vá- rias comunidades brasileiras, à medida que se estabeleceu um estereóti- po feminino, na vida pouco promissora das mulheres de épocas anterio- res. Elas foram privadas de qualquer coisa que o coletivo não conside- rasse apropriado a sua condição: a mulher depravada seria sempre tra- tada como depravada, seus descendentes herdariam o “sangue ruim” e, por isso, o mesmo tratamento por parte da comunidade, situação que foi repassada de geração para geração, tanto pela educação incidental quanto sistematizada. A divisão dos papéis femininos, na obra de Márquez, traz à tona

a construção dos pólos femininos opostos, que aparecem no discurso informal da comunidade: a figura protetora, que dá à luz (mãe e espo- sa) e a figura ameaçadora da mulher livre, “que foge às convenções, mas que não foge ao papel que lhe foi destinado no jogo social” (GI- DDENS, 1992, p.52). Assim como ocorre a divisão estereotipada dos papéis femininos, os relacionamentos entre homens e mulheres, na obra de Márquez, oscilam entre dois tipos de amores estereotipados, estudados à luz da sociologia: o romântico e o apaixonado. Segundo Giddens (1992, p.54):

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O amor apaixonado é marcado por uma urgência que o coloca à parte das rotinas da vida cotidia-

na, com a qual, na verdade, ele tende a se confli- tar. O envolvimento emocional com o outro é in- vasivo – tão forte que pode levar o indivíduo ou ambos os indivíduos a ignorar as suas obriga-

Nas ligações do amor român-

tico, o elemento do amor sublime tende a predo-

minar sobre aquele do ardor sexual [

rompe com a sexualidade, embora a abarque

ções habituais [

]

] O amor

Os centros de conflito que articulam toda a trama, em termos de idealizações do amor e seus estereótipos, estão representados pelos triân- gulos amorosos formados nas sucessivas gerações Buendía: Amaranta, Pietro e Rebeca; Petra, Aureliano Segundo e Fernanda; Amaranta Úrsula, Gastón e Aureliano. Amaranta e Rebeca – amigas de infância – tornaram-se rivais pelo amor idealizado que nutriam pelo sensível músico italiano, Pietro. Rebeca saiu vencedora na preferência do rapaz, que a pediu em casa- mento, entretanto, essa união sofreu toda a sorte de adiamentos, por causa das artimanhas de Amaranta. Rebeca sentiu-se cada vez mais frustrada e inquieta. Sua inquietação, contudo, provinha da insatisfação sexual que o adiamento do casamento provocava. A essa altura, José Arcádio Filho retorna a Macondo, transforma- do num “protomacho” todo tatuado, como descreve o próprio autor. Ele seduziu Rebeca, ou ela o seduziu, entregando-lhe sua virgindade. Ambos se casaram e foram expulsos de casa – como Adão e Eva do paraíso – , pois, por ceder aos impulsos sexuais, Rebeca pagou com o isolamento social. Futuramente ela matou o próprio marido, revelando uma parado- xal relação de desejo e ódio pelo poder patriarcal. Amaranta ficou feliz com a desistência da rival de se casar com Pietro, mas tampouco ela se casou com ele. Após conquistá-lo, rejei- tou-o. Para ela, a dignidade e a virtude do amor romântico foram mais fortes do que a coragem de assumir seu desejo carnal. Desesperado, Pietro cometeu suicídio. Aureliano Segundo ficou dividido entre o ideal da mulher pura (Fer- nanda, a esposa) e da mulher mundana (Petra, a amante). Sem dúvida, Fernanda foi criada para ser rainha do lar. Proveniente de uma lúgubre cidade,

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ela introduziu costumes e etiquetas rígidas de comportamento social no seio da família Buendía, tolhendo a espontaneidade – já escassa – das

atividades cotidianas familiares. Petra, ao contrário, exercia condição de mulher livre, alegre e independente. Mais velha e experiente do que Au- reliano, encarregou-se de iniciá-lo no caminho dos prazeres carnais e das farras, contribuindo para que ele se tornasse um homem, segundo a compreensão latino-americana de masculinidade. Mesmo depois de casado, Aureliano Segundo não abandonou a amante, e passou a vida se dividindo entre as duas. A esposa fingia não saber da existência da outra, entretanto, obrigou-o a prometer que não morreria na cama da amante, quando chegasse a hora. Aureliano cum- priu o prometido. Quando Petra foi ao velório e percebeu a hostilidade da esposa, reclamou da humilhação à qual foi submetida, ao que Fernan- da simplesmente replicou: “Não há humilhação que uma concubina não mereça” (MÁRQUEZ, 1984, p.310).

É interessante verificar o padrão de comportamento típico de de-

terminadas comunidades latino-americanas, inclusive a brasileira. A es- posa costuma hostilizar a amante, mas é condescendente com o marido. As mulheres são educadas para acreditar que o comportamento do ho- mem é normal, pois é parte de sua natureza. A mulher livre torna-se a culpada por desencaminhá-lo. Apesar de os homens e as mulheres, hoje em dia, equivalerem-se em termos de traições conjugais, o crime da mulher não merece a mesma condescendência que freqüentemente re- cebe o homem.

O triângulo que envolveu Amaranta Úrsula, Gastón (o marido) e

Aureliano (o sobrinho) - revelou a situação inversa, que normalmente não é aceita pela sociedade, a não ser que implique fatores atenuantes, tal como a posição privilegiada, intelectual e financeira, ocupada pela mulher. Após ter sido educada em escola particular e viajado para o exte- rior, o que lhe propiciou maior conhecimento das coisas e maior liberda- de de ação, Amaranta Úrsula regressou a Macondo casada com Gastón, que se interessou pelos projetos desenvolvidos no laboratório de José Arcádio e acabou negligenciando a esposa. Percebe-se que o comporta- mento das personagens vai-se amoldando aos costumes e padrões da comunidade onde eles se encontram, sendo influenciados na forma de agir e pensar. O casal buscou a aceitação do grupo que os acolheu e entrou no ritmo de vida local.

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Aureliano era filho ilegítimo de Meme, irmã de Amaranta Úrsula. Por isso, foi isolado da comunidade por Fernanda, a avó. A questão do filho bastardo ressalta o estigma de que as crianças de fora do casamen- to ainda sofrem, em certas comunidades. Novamente, a representação do pecado fez-se presente, no nível simbólico, devido à aparência do órgão sexual do neto, que despertou a agressividade da avó. Amaranta Úrsula apelidou-o de antropófago, por causa do tamanho de seu pênis. Aureliano, ao reencontrar a tia, descobriu-se profundamente apaixonado por ela. Impôs sua presença, mas não foi rejeitado com vigor. Tia e sobrinho tornaram-se amantes. Amaranta Úrsula, então, abandonou o marido. Dessa relação consangüínea nasceu um filho, o último da estirpe. Amaranta Úrsula morreu no parto devido a hemorragia. O fato trágico selou o fim da família e da comunidade, que cresceu em torno dela. Aureliano, angustiado, vagou por uma Macondo deserta e desolada, não reencontrou os amigos, nem reconheceu mais os lugares por onde pas- sou, por causa de sua desvairada paixão.

Considerações finais

Macondo passa da inocência ao esquecimento, da busca frenética à solidão implacável. Os caminhos da comunidade coincidem com a tirania representada pela ordem implícita, presente nas memórias do Coronel Aureliano. Trata-se de uma tirania impulsionada por ideologias que, no final das contas, confundem-se com a prática coerciva familiar e coletiva. A família inicialmente pobre representada pelos Buendía conquista poder e espaço significativo na comunidade. A casa de chão batido acom- panha o progresso familiar, sendo substituída pela mansão, porém, a de- sestruturação familiar progride inversamente à conquista do poder e da propriedade material. Os Buendía, durante a luta pela sobrevivência, construíram monumentos invisíveis, cujas fundações foram rachando, dado o esquecimento das origens e a incerteza do futuro. Macondo já cheirava à morte, estava impregnada pelo pó e foi, finalmente, vencida pelas formigas, quando as profecias de Melquíades concretizaram-se. Será esse o destino da civilização contemporânea? Valores institucionalizados e profundamente arraigados no cotidiano per- passam as relações entre os gêneros retratados na obra. A subjeti- vidade das personagens entra em conflito com os valores sociais,

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mas não escapa do jogo de poder que a constitui e por ela é constituí- do. As personagens atuam num abandono pungente que somente é descoberto em um lampejo de lucidez, às portas da morte.

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(Recebido em setembro de 2004 e aceito para publicação em maio de 2005)

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A constituição do espaço político em Hannah Arendt *

Resumo

Ao examinar a atividade de pensamento, HannahArendt (1906- 1975) enfoca-o como atitude pas- siva submetida a critérios univer- sais e abstratos preestabelecidos, por meio dos quais se reduz a di- versidade das experiências e ações humanas. Para a autora, a ação e o discurso são mecanismos capa- zes de criar o espaço político (der Politik), em que cada um dos ato- res projeta suas necessidades, ex- pectativas e interesses entre pares. Nas relações entre os homens, não

Rafael Vicente de Moraes 1

Universidade Estadual Paulista

Abstract

As Hannah Arendt (1906– 1975) considers the activity of thinking, she depicts it as a passi- ve attitude submitted to pre-esta- blished universal, abstract criteria by means of which the diversity of human experience is reduced. For her, action and talk are me- chanisms capable of creating the political space (der Politik), in whi- ch each actor projects his needs, expectations and interests, among peers. In the relations between human people, one does not seek

* The constitution of politician space in Hannah Arendt 1 Endereço para correspondências: R. Dr. Rodrigo Argolo Ferrão, 250, Jd. Morumbi, casa 03, Marília, SP, CEP 17526-040 (ravimo@marilia.unesp.br).

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se busca estar submetido a uma entidade ou instância externa, já que isso eliminaria a participação livre e espontânea do sujeito. O espaço político somente é res- guardado, quando existe a plura- lidade inerente à realidade dos negócios humanos.

Palavras-chave: Ação; espaço político; Hannah Arendt.

to be submitted to an external en- tity or agency, since this would eli- minate the subject’s free, sponta- neous participation, leading one to submission. The political space is protected when there is a certain plurality inherent to the reality of human affairs.

Keywords: Action; politician space; Hannah Arendt.

Vemos o pensamento dar-se por tarefa julgar a ida, de lhe opor saberes pretensamente superiores, de a medir com seus valores e de a limitar, a condenar.

Deleuze

A obra de Hannah Arendt tem ocupado um campo teórico-reflexivo cada vez maior, no que se refere à filosofia da ação e ao pensa-

mento político moderno, abrindo veios para pensá-los sob outras pers- pectivas. Há grande esforço para desvelar a multiplicidade e a com- plexidade como bases constitutivas da ação humana. Antes de adentrar, entretanto, ao debate proposto por Arendt, cabe breve digressão acer- ca de sua condição, que guarda fortes vínculos com a construção de seu quadro teórico. Hannah Arendt nasceu em 1906, na Alemanha. Por ser de ori- gem judaica, foi forçada a abandonar sua terra, em virtude da ascen- são nazista em 1933. No ano seguinte, refugiou-se em Paris. Nos Es- tados Unidos, em 1941, tomou conhecimento do extermínio sistemático dos judeus nos campos de concentração e nas câmaras de gás. Desde então, na condição de apátrida, passou a se debruçar sobre o fenôme- no do nazismo, considerando insuficientes todas as teorias gestadas no Ocidente para compreendê-lo. Em A dignidade da política (1993a), Arendt estranhara o fato de nenhum filósofo deitar atenção às expe- riências do terror. A tradição ocidental mostrou debilidade grande por não dispor de categorias analíticas capazes de elucidar tal fenômeno.

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Sob formas de governo baseadas no terror, o isolamento e a solidão

transformaram os homens em seres extremamente vulneráveis, sujeitos

a obediência passiva e absoluta, não havendo espaço para o exercício político. A partir daí sua obra ganha densidade.

A concepção de filosofia em Hannah Arendt

Parte substancial da reflexão de Arendt é tomada pela relação en-

tre filosofia e política ou entre a atividade do pensamento e a ação. Ao exercício de filosofar designava como atividade de natureza solitária, que exige do filósofo um distanciamento, uma espécie de retirada da realidade, dos sentidos e das coisas, com o fito de buscar verdades, num

diálogo circunscrito em si mesmo. O filósofo, “[

do das aparências, mas se retira do envolvimento ativo nesse mundo para uma posição privilegiada, que tem como finalidade contemplar o todo”. (ARENDT, 1993b, p.73). Quanto à ação, entendia que a capaci- dade de pensar dispensada à política não é a mesma e tampouco depen-

de do pensamento filosófico. A filosofia não poderia reconciliar-se intei- ramente com a política. É um modus imposto pela atividade de pensa- mento escolhida. Por isso mesmo, o filósofo torna-se motivo de riso para

a multidão, “que o vê na aparente inutilidade das questões de que ele se

ocupa” (ARENDT, 1983, p.64). Essa forma de pensamento dá-se na mais absoluta solidão. A con- templação confere a poucos o privilégio de entender a realidade do ser – objeto de enfoque científico –, mediante o distanciamento de questões terrenas, bem como dos demais homens que se encontram imersos no mundo aparente e ocupados com os assuntos humanos. Implica, portan- to, o adestramento da mente – condição que a maioria dos homens não preenche –, para alcançar a essência da realidade. O filósofo tradicional busca ancoragem num fundamento externo, pelo qual é possível forjar um sistema de representação abstrato-categorial para compreensão da realidade e, ao mesmo tempo, resolver todos os conflitos e as contradi- ções inerentes ao mundo dos negócios humanos. A tradição filosófica ocidental reduziu a aparência em sua com- plexidade e diversidade fenomênica a uma base de entendimento única, visando a determinar o agir e o pensar humanos (MORAES, 1993; ROVIELLO, 1992). Com efeito, Arendt (1993b, p.159) ressalta:

não abandona o mun-

]

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juntei-me claramente às fileiras daqueles que,

já há algum tempo, vêm tentando desmontar a metafísica e a filosofia, com todas as suas catego- rias, do modo como as conhecemos, desde o seu começo, na Grécia, até hoje.

] [

As atividades espirituais fundamentais – o pensar, o querer e o julgar – não florescem no mundo das aparências. As atividades espirituais significam retirada do mundo comum, como é dado aos sentidos, a fim de refletir acer- ca da experiência, criando um quadro de generalizações imprescindíveis ao entendimento do senso comum. Para Arendt (1983, p.59-60):

uma vez que as atividades do espírito, por

definição não-aparentes, ocorrem em um mundo de aparências e em um ser que participa dessas aparências através de seus órgãos sensoriais per- ceptivos, bem como através de sua própria capa- cidade e de sua necessidade de aparecer aos ou- tros, elas só podem existir por meio de uma retira- da deliberada da esfera das aparências.

] [

A questão da retirada dos filósofos do mundo das aparências este-

ve presente no pensamento filosófico de Arendt (BOELLA, 1990; TA- MINIAUX, 1992). “A experiência do eterno tal como a tem o filósofo

só pode ocorrer fora dos negócios humanos e fora da pluralidade

Politicamente falando, se morrer é o mesmo que ‘dei-

xar de estar entre os homens’, a experiência do eterno é uma espécie de morte” (ARENDT, 1983, p.29). Quando ocorriam injustiças praticadas por governos tirânicos, os filósofos indignavam-se e buscavam o distan- ciamento, mas não se desvinculavam da realidade. Não obstante, Arendt volta-se contra essa postura, no exato momento em que os filósofos anelam o retorno ao mundo, transfigurando-o à imagem de seu próprio pensamento. Essa é a atitude de Platão, ao opor o autogoverno dos cida- dãos atenienses, em especial, à verdade erigida pelo filósofo, ou seja, ao “governo de poucos” (ARENDT, 1988, p.294). Pela atitude contempla- tiva, pois se retira da polis, o filósofo é capaz de apreender a origem de tudo, os nexos e as leis causais existentes no mundo real e responsáveis pela ação humana. Desse modo, a filosofia, para a autora, não deveria tratar de questões políticas e públicas.

] [

dos homens [

]

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Rafael Vicente de Moraes — 33

A tradição filosófica ocidental, que abriga seu nascimento em Pla-

tão, e, a partir daí, o desenvolvimento de escolas e correntes teóricas, apresenta como maior desígnio a fundamentação, seja de si mesma, seja de todas as atividades humanas (OLIVEIRA, 1993; TUGENHAT, 1992). O campo reflexivo-teórico logrou, para se constituir como tal,

a busca e o entendimento da unidade do real e de seus princípios

norteadores. O conhecimento e a ação humana balizados na razão universal levam a cabo os procedimentos da ciência para se chegar à essência das coisas. É esse o caminho que a atividade do pensamento

deve trilhar, e, de algum modo, assinala a singularidade do pensar filo- sófico. Segundo Aguiar (2001, p.16), “Os critérios da validação para o pensar e agir humanos não provêm de acordos deliberadamente firma- dos pelo homem, mas estão relacionados a princípios universais, cuja tematização cabe à filosofia”.

O empreendimento filosófico, ao dirimir a dimensão individualiza-

dora do homem naquilo que lhe interessa, que ele pensa ou busca, levou Arendt a conceber a filosofia como inapropriada ao trato das questões públicas. Evidentemente, essa idéia está vinculada a tudo que vinha acon- tecendo nos governos totalitários, especialmente o nazismo, e na tradi- ção político-filosófica ocidental.

A constituição do espaço político (der Politik)

A princípio, Arendt admite o embate entre filosofia e política. O

embrião desse conflito reside na morte de Sócrates, em 399 a.C., pois, desde então, o filósofo subtrai-se da cidade, não só por necessidade de pensar, mas por escolha, a fim de contemplar as coisas eternas. A filosofia é abarcada como contemplação. Para a autora, o julgamento

e a morte de Sócrates expressam a cisão entre pensamento e ação,

filosofia e política. (ARENDT, 1993a; ARENDT, 1983). Sócrates vi- via, diferentemente dos filósofos vindouros, entre os cidadãos da po- lis. Nesse meio, questionava, mediante diálogos, o senso comum dos homens. Ainda que tenha utilizado a dialética socrática diante do tribu- nal e de seus juízes, isso não foi capaz de salvá-lo da acusação a ele endereçada – subverter a ordem da polis – e, conseqüentemente, de sua condenação.

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34 — A constituição do espaço político em Hannah Arendt

O espetáculo de Sócrates submetendo sua própria

doxa às opiniões irresponsáveis dos atenienses e sendo suplantado por uma maioria de votos, fez com que Platão desprezasse as opiniões e ansiasse por

padrões absolutos. Tais padrões, pelos quais os atos humanos poderiam ser julgados e o pensamento poderia atingir alguma medida de confiabilidade, tornaram-se, daí em diante, o impulso primordial de

sua filosofia política [

]

(ARENDT, 1993a, p.92).

O resultado da condenação de Sócrates suscitou entre os filósofos socráticos a retirada das praças e dos lugares públicos. Para Arendt, o efeito da dicotomia entre a vida na polis e a vida do filósofo figurou-se na alegoria da caverna de Platão. O abandono da caverna expressou a busca da verda- de que somente cabia ao filósofo, por meio da solidão, distante das contin- gências presentes nos negócios humanos. O retorno à caverna conferiu ao filósofo que, de posse da verdade, voltasse à polis, a fim de trazer luz para a política. Destarte, o filósofo volta-se às questões transcendentes – justiça, verdade, ser –, buscando nelas leis universais, e para a essência das coisas presentes no movimento do real e nos assuntos humanos, porém, inaces- síveis ao senso comum. Funda-se a postura contemplativa, em detrimen- to da ação propriamente humana. Por esse motivo, a política, na tradição ocidental, fora subtraída do pensamento crítico-conceitual.

O início deu-se quando, na alegoria da caverna,

em A República, Platão descreveu a esfera dos assuntos humanos, tudo aquilo que pertence ao convívio de homens em um mundo comum, em ter- mos de trevas, confusão e ilusão, que aqueles que aspirassem ao ser verdadeiro deveriam repudiar e abandonar, caso quisessem descobrir o céu lím- pido das idéias eternas (ARENDT, 1988, p.43).

A idéia platônica de fundamentação do campo político, calcada no princípio da razão, no controle dos negócios humanos, fez com que experiências políticas originais, como a Polis, a República romana, os Conselhos, a Comuna de Paris etc., apesar de estar inscritas no direito, na literatura e na história, se encontrassem ausentes da filosofia con- templativa (ARENDT, 1990).

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Rafael Vicente de Moraes — 35

A obra The human condition (1958) é o resultado de uma série de conferências feitas por Arendt em 1956, na Universidade de Chicago,

intitulada Vita activa. Nela, a autora volta suas análises para a situação do pensamento no mundo moderno, num contexto marcado por alto grau de desenvolvimento científico-tecnológico e pela valorização do agir em detrimento do pensar, que adquire aparência cientificista. Ao examinar a atividade de pensamento, enfoca-o como atitude passiva submetida a critérios universais e abstratos preestabelecidos, por meio dos quais se reduz a diversidade das experiências e ações humanas. Tal é o legado da tradição contemplativa (PEETERS, 1992). Essas são as bases para abarcar a concepção tradicional de filosofia

e de política no Ocidente. Nos dias atuais, a política desconsidera a ação,

o discurso, a divergência, a participação efetiva do homem, emergindo assim um comportamento político estruturado em consensos e acordos. Para Disch (1996, p.208, tradução nossa): “Embora Arendt rechace a ra- zão prática kantiana como modelo de racionalidade política, não considera

a política como uma luta antagônica pelo poder cujos resultados sejam

eticamente arbitrários”. Tal concepção política não deu conta, segundo Arendt, de compreender a pluralidade humana presente e manifesta no espaço público. A filosofia política acabou forjando um mecanismo equali- zador de todos os conflitos. No espaço político, o sentido da participação concreta do cidadão esvaziou-se, por não fazer mais sentido. Em Platão, por exemplo, o governo da cidade cabia ao filósofo, porque ele tinha a faculdade do conhecimento das coisas e leis transcendentais e eternas, das quais as ações da maioria dos cidadãos poderiam ser geridas. A con- seqüência natural foi a transfiguração do poder em dominação:

a noção de que os homens só podem viver

juntos, de maneira legítima e política, quando alguns têm o direito de comandar e os demais são forçados a obedecer. A noção vulgar que já en- contramos em Platão e Aristóteles, de que toda comunidade política consiste em governantes e governados (ARENDT, 1983, p.234).

] [

As relações entre homens não são naturais. Para Arendt, o ho- mem, embora seja social, reúne-se em virtude das necessidades e não em função de uma substância política que lhe é inerente. A política faz- se no exato instante em que as necessidades vitais estão ausentes.

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36 — A constituição do espaço político em Hannah Arendt

a política tem sua gênese num espaço-entre-

os-homens (Zwischen-den-Menschen), em qual- quer coisa de terminantemente exterior ao homem. Não há, desse modo, uma substância verdadeira- mente política. A política tem sua gênese num es- paço intermediário e se constitui como relação (ARENDT, 1995, p.11, tradução nossa).

] [

Assim sendo, a esfera das relações políticas é habitada por poucos, com requisitos – a instrução – para governar e pelos demais capazes de obedecer, destituídos da possibilidade da ação e do discurso, pois: “a ação e o discurso são os meios pelos quais os seres humanos se mani- festam uns aos outros, não como meros objetos físicos, mas enquanto homens” (ARENDT, 1983, p.189). O axial nas formações políticas não se figura somente na preocupação vital, mas na esfera de uma convi- vência entre homens iguais, livres e independentes, que transpõem a necessidade imediata da vida onde se ergue o espaço político e o espaço da liberdade: “ser livre significava ao mesmo tempo não estar sujeito às necessidades da vida nem ao comando de outro e também não coman- dar ninguém. Não significava domínio como também não significava sub- missão” (Ibid., p.41). A expressão maior da ação e do discurso reporta-se à idéia de pluralidade política, ou seja, a gestação da comunidade política traz em seu bojo necessariamente a presença ativa do cidadão vinculada a seus interesses e motivações, e não a instâncias externas, como a vontade geral, o Estado, contrato social etc. Nesse último, a subordinação dos homens destitui o valor de qualquer ação política. Para Arendt, a política não prescinde da atuação livre e espontânea do cidadão. Justamente esse ponto a tradição não enfocou, ao esboroar a participação efetiva do homem como fonte legitimadora da política.

A pluralidade humana, condição básica da ação e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e diferença. Se não fossem iguais, os homens seriam

incapazes de compreender-se entre si e aos seus an-

Se não fossem diferentes, se cada ser

cestrais. [

humano não diferisse de todos os que existiram, exis- tem ou virão a existir, os homens não precisariam do

discurso e da ação para se fazerem (Ibid

]

, p.188).

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Rafael Vicente de Moraes — 37

A pluralidade política é o dispositivo pelo qual o cidadão se prote- ge da tirania. Nem por isso a autora escorrega para um igualitarismo ou liberalismo. Em ambos, dilui-se o poder do cidadão. Segundo Aren- dt, nenhuma entidade pode anular ou sobrepor-se às ações do cidadão, já que elas somente se dão em comum, na presença de outros. A con- dição do poder dá-se no fato de a possibilidade concreta do cidadão se mostrar e de fazer-se compreender mediante a prática discursiva tes- temunhada pelos demais. A faculdade do cidadão de falar, agir e optar por conta própria é sempre mantida, porque nenhuma instância pode substituí-lo no espaço público.

Público é, assim, antes de mais nada a interposi- ção que os homens fazem entre si através da lin- guagem. Através da fala, cria-se um espaço co- mum da linguagem, não possuído e independen- te de cada um (inbetween). A linguagem, que é a mediação fundamental das ações humanas, im- pede tanto o isolamento como a colisão ou a fu- são dos homens, o que pode ocorrer ao se des- truir o espaço público na qual ela se realiza (AGUIAR, 2001, p.82).

A legitimidade da política está calcada na participação e no

juízo. Já fora frisado o aspecto contingente e espontâneo da ação que em política visa à deliberação entre os homens. Com efeito, o poder abriga a legitimidade em si mesmo, sem estar subordinado a um critério absoluto. Ao tematizar o juízo, Arendt (1993b, p.162)

] os

juízos não são alcançados por dedução ou por indução, em suma, eles não têm nada em comum com as operações lógicas”. Afigu- rando-se o juízo no campo da ação – espaço no qual o homem se individualiza e dialoga na convivência com seus pares – aquele se contrapõe ao pensamento filosófico contemplativo que, pautado numa razão universal, submete as experiências e os comportamentos hu- manos. O juízo como constituinte da vida política opõe-se ao impe- rativo arbitrário de um organismo exterior – o Estado, por exemplo

– que acaba levando a termo o debate e a deliberação eminente- mente livres entre os homens.

acredita ser ele o elemento consentâneo à decisão política: “[

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38 — A constituição do espaço político em Hannah Arendt

Cabe ressaltar que o pensamento de Arendt acerca do juízo está intimamente relacionado ao problema da banalidade do mal como fenômeno presente na sociedade moderna, com mais intensi- dade nos regimes totalitários, especificamente o nazista. Como in- teresse reflexivo, o tema do julgar na autora eclodiu pela primeira vez num ensaio intitulado Compreensão e política, publicado em 1953, em que ela assevera que a gênese do movimento totalitário expressa o “fato de termos perdido nossos instrumentos para com- preender” (ARENDT, 1993a, p.45). O julgar não deve ser concebi- do apenas como faculdade cognitiva, pois é a atividade mental res- ponsável por atribuir inúmeros sentidos ao mundo das aparências, onde se realiza o pensamento, portanto. A autora está preocupada com compreender a capacidade de julgar desvinculada de imperati- vos externos que a condicionam. A real condição de julgar as coi- sas humanas somente é possível no espaço político e no espaço público, por meio dos quais se tem contato com pontos de vista distintos. Arendt denomina esse processo de mentalidade alargada, que é a base do pensamento político:

Formo uma opinião considerando um dado tema

de diferentes pontos de vista, fazendo presentes em minha mente as posições dos que estão ausen-

tes; isto é, eu os represento. [

sições de pessoas eu tiver presente em minha men- te ao ponderar um dado problema, e quanto me- lhor puder imaginar como eu me sentiria se esti- vesse em seu lugar, mais forte será minha capaci- dade de pensamento representativo e mais váli- das minhas conclusões finais, minha opinião (ARENDT, 1988, p.299).

] Quanto mais po-

O juízo representa a união dos interesses individuais aos assuntos coletivos, sem se submeter às instâncias universais. O que está em pauta é o “julgamento e decisão, a judiciosa troca de opiniões sobre a esfera da vida pública” (Ibid., p.277), em que o juízo de um homem sempre se relaciona ao juízo dos demais, levando-se em conta os sen- timentos, o senso de comunidade, não se prendendo ao isolamento de suas próprias experiências.

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Rafael Vicente de Moraes — 39

Feito o parêntese, Arendt (1990, p.103) refere-se à opinião e ao

mais importantes do ponto de vista político

mas que “haviam sido quase totalmente negligenciadas pelas tradi-

ções do pensamento político e filosófico”. Por seu turno, a opinião é marcada pela possibilidade concreta do homem de mostrar-se, ser visto e ouvido pelos demais (ARENDT, 1995), o que não significa compactu- ar com valores dogmáticos. Seu alcance e validade dependem direta- mente da presença dos demais. O agir político está embasado na opinião que conserva a identidade do homem, sendo capaz ainda de conter uma pretensa opinião de outrem, mas não a suprime, já que exige para sua legitimidade o consentimento do outro. Com efeito, o espaço público é conditio sine qua non para o homem se manifestar em sua individuali- dade e na presença de todos, em que a inexistência deste conduz o cida- dão apenas a acatar a imperativos externos e obedecer-lhes. É o que ocorre nos governos totalitários explicitamente. Sobre o político, ressalta:

julgamento como sendo “[

]

]” [

empregar o termo “político” no sentido da

polis não é nem arbitrário nem descabido. Não é apenas etimologicamente nem para os eruditos que o próprio termo deriva da organização histo- ricamente ímpar da cidade-estado grega, evoca as experiências da comunidade que pela primei- ra vez descobriu a essência e a esfera do político (ARENDT, 1988, p.201).

] [

Na democracia grega, o reconhecimento do cidadão materializa- va-se no âmbito público, na preocupação com questões da cidade. Esse espaço plural e intersubjetivo representou a busca pela glória mortal (ARENDT, 1983; RIBEIRO, 1984; LEFORT, 1991). Cada homem de- veria mostrar, por meio da ação e do discurso, suas realizações que o distinguiriam dos demais, não com vistas ao sucesso imediato, mas no intento de permanecer na memória daqueles com os quais convivia como também na dos homens que viriam. Assim, esse quadro elucida o fato de os gregos se interessarem sobremaneira pela política na polis. Os ho- mens não poderão ser soberanos frente aos demais, porque: “a impossi- bilidade de permanecerem como senhores únicos do que fazem, de co- nhecerem as conseqüências de seus atos e de confiarem no futuro é o preço que pagam pela pluralidade e realidade” (ARENDT, 1983, p.256).

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40 — A constituição do espaço político em Hannah Arendt

Evidentemente, a ação e o discurso que se concretizam num espaço de aparição – o político e, portanto, criador de relações intersubjetivas – implicam dois aspectos inextricavelmente ligados. Primeiro, o caráter imprevisível da ação realizada, pois, se o contrário fosse possível, a teia das relações perderia seu sentido verdadeiramente político, ou seja, de revelação identitária do agente em suas múltiplas dimensões: social, sub- jetiva, filosófica etc. Esse ponto é iluminado por Aguiar (2001, p.110):

Não há sujeitos em política, há agentes que ini- ciam uma série de ações cujas condições não fo- ram escolhidas e cujos fins e realizações, no seu todo, lhes escapam completamente do controle. Assim sendo, a indeterminação teórica da ação, a impossibilidade de lhe impor uma medida ab- soluta, pode ser compreendida como a primeira da sua autonomia ontológica, de reconhecimen- to de sua dimensão contingencial.

Em segundo, em razão da complexidade dos vínculos que se es-

tabelecem abrigando interesses e objetivos conflitantes, a ação pode deixar de alcançar aquilo a que se propõe e ser frustrante. Daí, o mes- mo homem ser receptivo e ativo na impossibilidade de controlar total- mente os processos da ação nos diversos ângulos: seja a ação e seus desdobramentos do próprio ato, sejam as condutas dos outros homens.

A ação tem caráter indeterminado, sendo, por isso mesmo, frágil.

Em Arendt, essa mesma ação – livre e contingente – é responsável

pela formação da realidade e dos processos históricos que em absolu- tamente nada são universalizantes. A tradição moderna ocidental fundamentada em Kant procurou anular do fluxo contínuo da história a debilidade da ação há pouco referida, em que: “processos invisíveis engolfaram todas as coisas tangíveis e todas as entidades individuais visíveis por nós, degradan- do-as a funções de um processo geral” (ARENDT, 1988, p.95-96).

A humanidade faz a história, e é em nome da primeira que a atividade

política deve se orientar e realizar, a partir da qual terá significado. Sob um denominador abstrato, a humanidade é reunida como se ti- vesse anseios e necessidades comuns, o que acabou eliminando na- turalmente o espaço da individualidade, da isonomia (ARENDT, 1995)

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Rafael Vicente de Moraes — 41

e da deliberação humanas, em nome de um acordo, pacto ou uma

vontade geral (ABRANCHES, 1990). Forja-se uma uniformidade de

interesses e condutas do homem que lhes são externos, e a política é

o meio para organizar tal processo.

Uma vez que o mais importante é o funciona-

mento, a produtividade e a expansão da socie- dade, o governo é assumido pelos experts, pe- los detentores do saber a respeito do funcio- namento da economia. Numa situação como essa tornam-se supérfluos quaisquer ações e

discursos. [

de qualquer poder. [

Uma vez que a pauta

os cidadãos estão destituídos

]

]

política é fundamentalmente a questão da ri- queza, não há espaço para a figura do poder,

constituído pela ação e fala em concerto, mas

apenas para [

os que sabem administrar

]

(AGUIAR, 2001, p.71).

A idéia de progresso, juntamente com o moderno conceito de sociedade – surgida durante Revolução Industrial, baseada na divisão social do trabalho, em que o homem, incorporado à lógica do processo

produtivo e ao consumo, somente passa a dispor de sua própria força de trabalho para satisfação de suas necessidades –, confiou à política

a tarefa de dinamizar o progresso suprimindo as carências vitais do

gênero humano. A política é submetida e confundida com o econômi- co. Com efeito, o emprego da racionalidade econômica passou a ser entendido como o instrumento de resolução de todos os problemas materiais do homem, além de administrar o progresso e interesses co- muns. O envolvimento nos negócios econômicos demanda do homem um grau sofisticado de especialização, que acaba cerceando sua parti- cipação concreta nessa esfera. O conteúdo das decisões políticas que dizem respeito às questões militares, técnicas e científicas fica cir- cunscrito a poucos homens, permanecendo intraduzível para a grande maioria dos cidadãos. O governo, na verdade, é confiado aos adminis- tradores e boa gestão das coisas figura-se como capacidade de resol- ver problemas relativos às necessidades imediatas.

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42 — A constituição do espaço político em Hannah Arendt

Considerações finais

Mediante o escorço dado, as reflexões arendtianas abrem matizes para se pensar a política no mundo contemporâneo como “exercícios de pensamento”. Segundo a autora, toda comunidade

política democrática constitui-se por meio da participação livre do cidadão. O espaço político marcado pela opinião e pelo julgamen- to é a exacerbação da individualidade, não na acepção egoísta (liberal), até porque uma série de elementos se interpõem. Além disso, exige a presença efetiva dos homens, para se pôr em movi- mento, ao contrário do pensamento filosófico tradicional de raiz platônica, que é um diálogo do eu consigo mesmo. Convém frisar que Platão, assim como Kant, concorda com que o pensar é um diálogo solitário do eu consigo mesmo. Não obstante, o pensa- mento desaparecerá, se não for expresso, se não se abrir para a comunicação com os demais. Portanto, a presença de seus pares

é imprescindível ao pensar. A criação de entidades transcendentes e externas travestidas

em Estados, partidos, ideologias, teorias, hierarquias, na idéia de so- berania etc., conduz à submissão, invalidando a participação livre, espontânea e contingente, além de uniformizar as relações e deci- sões humanas e tornar aptos para o governo poucos homens. É o que ocorre nos governos totalitários, em que inexiste o espaço de apari- ção. Ao contrário, há controle ideológico substancial da vida do cida- dão. A lógica intrínseca à sociedade totalitária adquire sua expressão máxima e inédita no campo de concentração. O totalitarismo – de- signação de certos períodos do stalinismo e nazismo – dispõe de meios que esboroam a individualidade, significando necessariamente perda total de liberdade de ação humana. O medo, o terror, o domínio sobre os indivíduos, o controle ideológico, a organização burocrática são as armas eficazes dessa forma de governo radical. Para Arendt, o fenômeno da sociedade de massa gerou a supres- são do espaço político e público compartilhado por todos, no qual o mundo adquire múltiplos significados impedindo o exercício da facul- dade humana de julgar e pensar livremente. Desse modo, a ação e o discurso foram inscritos na esfera do privado. Na intersecção do agir

e da política, cria-se uma esfera intersubjetiva de atividade humana.

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Rafael Vicente de Moraes — 43

O esvaziamento do discurso e da ação, “a mais antiga preocupação da

teoria política” (ARENDT, 1993b, p.7), e de seu caráter deliberativo –

bastante presente na cena política hodierna – faz dessa esfera o locus privilegiado de dominação. Motivações, diferenças e anseios são elimi- nados em nome de um interesse comum, representado por essa abstra- ção intitulada humanidade ou gênero humano. “Graças à representação

de uma história mundial, a multiplicidade dos homens é fundida em um

indivíduo humano que a gente nomeia humanidade” (ARENDT, 1995, p.12, tradução nossa). A política, então, passa a tratar o problema da sobrevivência imediata e todo o debate gravita nessa ordem. Em face de tais questões, a autora resgata a experiência da polis como mecanismo capaz de forjar um espaço concreto da vida cotidiana, onde todos possam falar, ouvir e agir, e não vigore o con- trole e a submissão entre os pares. Esse é o sentido da isonomia – igualdade – empregado por Arendt, que difere naturalmente do senti- do dos tempos modernos. A política, seguindo seu raciocínio, teve sua gênese e seguiu a tradição filosófica ocidental ancorada basicamente no pensamento platônico, na busca de uma identidade fundadora ca- paz de erigir consensos, anulando a pluralidade inerente ao mundo dos negócios humanos. Estando o governo confiado a poucos, o raio de “disputa do poder” é reduzido, senão eliminado, restando à maio- ria dos homens obedecer às normas práticas. De passagem, ressal- te-se que o espaço político concebido por Arendt dá visibilidade ao homem, garantindo poder efetivo aos atores em cena, na qual os pac- tos e acordos são deliberadamente firmados, sem buscar-se parâme- tros universais de legitimidade.

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Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.37, p.29-45, abril de 2005

Movimentos de massa e movimentos sociais: as- pectos psicopolíticos das ações coletivas *

Resumo

O texto discute, a partir de categorias psicopolíticas como a identidade coletiva política, as for- mas de compreensão das ações co- letivas nas sociedades contemporâ- neas. Objetiva ir além da tradicio- nal divisão entre movimentos de massa e movimentos sociais, para distinguir movimentos de caráter particularista e movimentos eman- cipatórios. Para tal, trabalha com aspectos psicossociais da participa- ção política, tomando a identidade política e seus processos como ele-

Marco Aurélio Máximo Prado 1

Universidade Federal de Minas Gerais

Abstract

Considering psycho-political categories, such as collective politi- cal identity, this paper discusses the understanding of collective actions in contemporary societies. Its aim is to go beyond the traditional demarcati- on between mass movements and social movements, in order to distin- guish movements having a particular objective and movements of eman- cipation. In order to accomplish this task, psychosocial elements of politi- cal participation are dealt with, taking political identity and its processes as

* Mass movements and social movements: psychopolitics aspects of collective action 1 Endereço para correspondências: Av. Antonio Carlos, 6627, sala 4020, Pampulha, Belo Horizonte, MG, CEP 31275-901 (mamprado@ufmg.br). Apoio: FAPEMIG.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.37, p.47-65, abril de 2005

48 — Movimentos de massa e movimentos sociais: aspectos psicopolíticos das ações coletivas

mentos fundamentais de análise das ações coletivas contemporâneas.

Palavras-chave: Massa; movi- mentos sociais; identidade coletiva; identidade política.

O debate

fundamental notions to analyze con- temporary collective actions.

Keywords: Mass movement; so- cial movements; collective identity; political identity.

A bordar as formas de inserção no espaço público e as (in)diferenciações identitárias sugeridas na complexidade das sociedades contem-

porâneas é tarefa árdua. Assim, neste texto, limita-se o debate às clas- sificações que têm servido como divisores de água na configuração e definição dos fenômenos coletivos das massas e dos movimentos sociais como formas e estratégias de inserção, ocupação e constituição dos es- paços públicos contemporâneos. Vale dizer que o objetivo principal é interpelar as categorias ana- líticas que foram (e têm sido) utilizadas para compreensão das identi- dades coletivas no espaço público, ou seja, a caracterização dos movi- mentos de massa e dos movimentos sociais. Desse modo, a partir de dois conceitos nodais – o político e a identidade coletiva – apresentam- se algumas reflexões, no intuito de problematizar o campo de tensão presente na compreensão dos fenômenos da ação coletiva no campo do político na contemporaneidade, o que traz como conseqüência obri- gatória pensar sobre as possibilidades de reinvenção e sobrevivência da democracia nos dias atuais. Enfrenta-se, portanto, a temática a partir de dois pontos que se consideram premissas para entrar com alguma precisão no debate so- bre a diferenciação e a indiferenciação identitária na configuração do espaço público nas sociedades atuais. Essas duas premissas – a da expansão ou redimensionamento do campo do político e a da constitui- ção dinâmica e psicossocial das identidades coletivas – são importan- tes, pois permitirão uma abordagem crítica à tradicional divisão das formas de inserção no espaço público entre os chamados fenômenos de massa e os movimentos sociais. Para cumprir tal tarefa, a reflexão está estruturada em dois mo- mentos. O primeiro é mediante o qual se aponta, a partir de autores localizados nas teorias pluralistas de democracia, para a emergência do

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Marco Aurélio Máximo Prado — 49

político como espaço de antagonização social e a questão da identi- dade coletiva como construção dinâmica, negociada e processual de práticas coletivas, significados, formas de pertença, compartilhamento de valores, crenças e lógicas de reciprocidades. Num segundo mo- mento, utilizam-se essas premissas para debater a insuficiência dos parâmetros tradicionais de compreensão dos antagonismos sociais, como a idéia de arcaico e pré-político para os movimentos de mas- sa e a noção de emancipação política para os movimentos sociais e, considerando-se esse debate, discute-se se é possível, nos dia de hoje, pensar nessas formas de inserção no espaço público, sem to- mar como base os divisores e marcadores até então utilizados, mas a partir deles pensar a lógica da diferenciação e indiferenciação identi- tária na configuração, ocupação e definição do espaço público, ten- do-se como novo definidor a criação de antagonismos políticos na lógica dos reconhecimentos sociais das relações intergrupais aliados

à redistribuição social. Com essa tarefa, corrobora-se a conclusão com diversos autores contemporâneos, que apontam para a importância do estudo das formas coletivas de antagonismos políticos, a partir de análise psicossocial da construção das identidades políticas.

A expansão do político e a dinâmica das formações identitárias coletivas

A primeira premissa anunciada diz respeito a uma consideração sobre a expansão ou o redimensionamento do espaço do político nas sociedades atuais. Em verdade, propõe-se essa consideração, tomando- se como referência principal o trabalho da filósofa política Chantal Mou- ffe (1993; 1999; 2000). Assim, tenta-se redimensionar e conceituar o

que se intitula como sendo “o” político. Isso se torna importante, já que é

a partir de uma concepção menos liberal de democracia, não individuali-

zante dos fenômenos políticos e não racionalista de sujeito político (MOU- FFE, 1999) que se tratarão as formações identitárias e as formas de inserção no espaço público, entendendo que o espaço público não so- mente se configura a partir da dimensão da política, do institucionalizado, do regulatório, da organização institucional da política, mas também do político, do ainda “laboratorial”, do espaço de onde antagonismos emer- gem, do espaço onde a emergência, a interação e a participação social dos atores coletivos são primordiais.

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A própria emergência de novos antagonismos sociais, ou seja, an- tagonismos que não estavam e não estão calçados sobre relações de opressão já nomeadas, resulta, por exemplo, da emergência de uma di- versidade de sujeitos coletivos (SANTOS e NUNES, 2003), que tem redefinido as fronteiras do político, a partir de questionamentos da legiti- midade das instituições políticas ocidentais e do reconhecimento dos con- flitos antagonísticos em esferas da vida social, ainda não democratiza- das. Logicamente, esses dois fatores determinaram a emergência e a interação de sujeitos coletivos muito mais plurais do que aqueles escolhi- dos pela excelência da determinação de um conflito único e central, como queriam algumas análises ortodoxas do capitalismo (SANTOS e NU- NES, 2003). Essa reconsideração do campo do político não implica, de forma alguma, deixar de reconhecer o político como esfera institucional direta- mente vinculada ao Estado, à sociedade civil e ao mercado, como esfera organizativa e regulatória da ação pública dos atores e das instituições sociais. No entanto, reduzi-lo a sua institucionalidade seria manter uma miopia que não possibilitou considerar o pluralismo e a diversidade das manifestações políticas em suas variadas formas, na configuração do espaço público moderno (SANTOS e NUNES, 2003). Ressalta-se isso, sobretudo, se se considerar que essa miopia favoreceu muito uma visão liberal de política e de democracia 2 . Segundo Mouffe (1993), o desafio é articular, no espaço políti- co, tanto a lógica da identidade como a lógica da diferença, de tal maneira que se garanta a sobrevivência da tensão entre elas. Nas palavras da autora:

é esta tensão, de fato, que também aparece

com a tensão entre nossas identidades como indi- víduos e como cidadãos ou entre os princípios da liberdade e igualdade, que constituem a melhor garantia de que o projeto da democracia moder- na está vivo e habitado pelo pluralismo. O desejo de resolver esta tensão poderá favorecer somente a eliminação do político e a destruição da demo- cracia (Idem, p.133).

] [

2 Para esse debate ver Mouffe (2000).

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Desse modo, o que se busca com um redimensionamento do cam- po do político é enfrentar questões como a que Sousa e Nunes (2003, p.25) levantam: “Como é possível, ao mesmo tempo, exigir que seja re- conhecida a diferença, tal como ela se constituiu através da história, e exigir que os ‘outros’ nos olhem como iguais e reconheçam em nós os mesmos direitos de que são titulares?” Mouffe (1993; 1995; 1999) tem desenvolvido uma concepção do político criticamente baseada na abordagem amigo-adversário 3 . Há preocupação com uma concepção que não seja essencialista e represente a pluralidade e a diversidade das relações antagônicas e dos sujeitos políticos, nas sociedades contemporâneas. Dessa forma, a autora busca retomar as críticas de Schmitt (1995) ao pensamento liberal, porém, refuta o que em Schmitt parece ser, de fato, a princi- pal hostilidade entre os grupos sociais, a qual não tem limites para sua expressão. Assim, Mouffe (1999) afirma que pensar com Sch- mitt também é pensar contra ele, já que, para a filósofa, a relação amigo-inimigo, em sua denominação amigo-adversário, estaria sem- pre limitada pelos valores de liberdade e da igualdade. Nesse sentido, o político pode ser pensado como espaço onde con- flitos e antagonismos buscam realizar-se, havendo como conseqüência a

impossibilidade do consenso, assim se considerando que o político “[

] é

uma contraditória combinação de princípios inconciliáveis” (MOUFFE, 1993, p.133). Aqui tanto a lógica da identidade como a da diferença são fundamentais. Pensar nesses termos é, em verdade, reconhecer o cará- ter antagônico do político, ou seja, reconhecer que o político se estrutura para além da lógica da contradição 4 . A relação antagônica não apresenta como possibilidade final o consenso, pois, como ele somente poderá se dar ao excluir um ELES da constituição de um NÓS, o antagonismo é permanente, alimenta, dessa maneira, uma tensão necessária para o espaço democrático e

3 É importante esclarecer que essa lógica se dá por meio de uma leitura crítica da crítica ao liberalismo desenvolvida por Carl Schmitt (1995). O autor foi responsável pela noção do político balizado como a relação entre amigo e inimigo, de maneira que a política se realizaria mediante o antagonismo da relação entre a associação de amigos que se defendem de inimigos. Bobbio e colaboradores (1993, p.959) precisam que: “Para dar mais força a sua definição, baseada numa oposição fundamental, amigo-inimigo, Schmitt a compara às definições de moral, de arte, etc., fundadas também em oposições fundamentais, como bom-mau, belo-feio, etc.”.

4 Ver para essa discussão Laclau (1990).

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evita assim um sujeito coletivo totalizado (NÓS), fechado sobre si mesmo,

e um constitutivo externo (ELES), como impossibilitado de constituir-se

como um possível NÓS. A idéia central é entender que a possibilidade de formar uma identidade coletiva (NÓS) está em sua relação permanente com um constitutivo externo (ELES), que, como possibilidade, também é a

impossibilidade da totalização dessa identidade sobre si mesma. Logo, os processos de articulação, interação e participação social são elementos constantes da instalação das identidades coletivas e políticas.

A negação dessas fronteiras seria, para Mouffe (1993), um dos

maiores perigos para o aprofundamento dos valores democráticos sobre

a vida social, já que negá-las seria afiliar-se a uma concepção de demo-

cracia – a liberal –, na qual a ilusão do consenso razoável e racional parece não excluir ninguém, mas, como se tem visto, exclui tão-somente pela noção de racionalidade política “superior” ou “emancipatória”. “A exclusão do diferente, portanto, é baseada na lógica do exercício livre da prática da razão” (MOUFFE, 1993, p.142). Também, por outro lado, isso seria abraçar um NÓS que, sem a fronteira, ou seja, indiferenciado de um ELES, corre o risco de negar as práticas plurais e reduzir as múlti- plas formas de luta democrática, sejam as de gênero, de raça, sexual, ecológica, de classe e outras, a uma definição de “vida decente” única, baseada em valores morais, definidos por grupos estratégicos.

É vital reconhecer que, para a construção de um NÓS é necessário distingui-lo de um ELES e que todas as formas de consenso estão baseadas em atos de exclusão, a condição de possibilidade de uma comunidade política é ao mesmo tempo a condição de impossibilidade de sua inteira reali- zação (MOUFFE, 1996, p.36).

A expansão e o redimensionamento do político sobre as esferas da

vida social são vistos então como a possibilidade de radicalização da democracia, dada tanto pelo reconhecimento do princípio de equivalên- cia, portanto, do reconhecimento das demandas por igualdade entre os grupos e segmentos sociais, como do princípio da diferença, ou seja, o reconhecimento de que particularidades podem, muitas vezes, revelar formas desconhecidas e múltiplas de opressão na constituição de ações contra-hegemônicas.

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Esse redimensionamento do político, dentre outras questões, deve-se à crise do modelo de ator único (TOURAINE, 1995) e às crises da instituciona- lidade do político, decorrentes de inúmeros fatores que não cabe neste mo- mento discutir 5 , como a crise da Modernidade (TOURAINE, 1995), a crise do Estado-nação, a expansão dos meios de comunicação de massa, que trouxe maior homogeneização da cultura (MOUFFE, 1988) e a mercadorização (com- modification), para usar a expressão de Claus Offe (1989), de inúmeras es- feras da vida social. Dessa forma, o político tem sido revisitado. Até aqui se viu a primeira premissa. Passa-se então à segunda, que convoca para discussão a noção de identidade coletiva. Cabe compreen- der a emergência dos fenômenos identitários coletivos para o estudo dos antagonismos sociais e como, a partir do lugar em que se propõe pensar a questão das formas de inserção no espaço público e as (in)diferenciações identitárias, podem-se entender os processos de identificação coletiva como constituintes de atores coletivos no espaço público. Entende-se por identidade coletiva um processo dinâmico de cons- trução de práticas coletivas que criam um conjunto de significações inter- pretativas da estrutura e da hierarquia societal. Além de, nesse processo dinâmico, estruturar relações que dão formas e que criam o sentimento de pertenças grupais, compartilham crenças e valores societais responsáveis pela criação de uma unidade grupal que se sustenta sobre a dinâmica da negociação, da comparação entre grupos (TAJFEL, 1982) e de categorias sociais, por meio das relações de reciprocidades e de reconhecimento. Nesse sentido, as identidades coletivas não são formas, mas sim proces- sos psicossociais e políticos que se dão nas relações intra e intergrupos, redefinindo lógicas de pertença e de diferenciação e indiferenciação gru- pal. Assim, a constituição das identidades coletivas não se dá fora das relações de poder, ou seja, não se entende que as relações de poder se dão a partir de identidades pré-constituídas, mas sim como formadoras das próprias identidades (MELUCCI, 1996; MOUFFE, 1999). As identidades coletivas revelam possibilidades articulatórias e não-lugares definidores, pois elas podem indicar apenas uma lógica de indiferenciação, ou seja, de homogeneização dos sujeitos, o que pode ser entendido como uma política identitária 6 (PRADO, 2002).

5 Para essa discussão ver Alvarez et al. (1998).

6 As políticas de identidade se diferenciam por criar uma formação hegemônica que, além de nós mesmos, define, condensa, cria um jeito de sermos nós. As políticas de identidade, nesse sentido, não constroem um espaço político de antagonismos sociais, e, sim, passam a significar política como a lógica do homogêneo, por meio do apelo à diferenciação sem antagonismos políticos (PRADO, 2002).

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Podem também indicar uma lógica de diferenciação, ou seja, de o que pode ser entendido como uma identidade politizada. Aí, ter-se-ia um ele- mento importante para pensar tanto as identidades coletivas como o po- lítico, que é o reconhecimento do caráter opressivo das subordinações sociais, de forma que a diferenciação identitária pode ser vista como lógica de subversão das relações de subordinação, quando estas passam

a ser reconhecidas como plasmadas por antagonismos sociais (LACLAU

e MOUFFE, 1985). Logo, essas práticas articulatórias 7 precisam ser compreendidas, para que as questões relativas à diferenciação e indiferenciação pos- sam ser debatidas, especialmente, quando se trata de pensar as inser- ções e a participação social no espaço público como constituintes da esfera do político. Essas práticas articulatórias formadoras do proces- so de identificação política podem ser definidas a partir de três ele- mentos importantes: a formação da identidade coletiva grupal, que en- contra nas práticas coletivas e na criação do sentimento de pertença grupal seu conteúdo, a subversão das relações de subordinação em relações de opressão, ou seja, na conscientização do caráter político das posições diferenciais dos agentes sociais e a delimitação das fron- teiras políticas mediante as relações intergrupais nos vínculos de reci- procidade. Ver-se-á então como esses elementos, em separado, po- dem ser entendidos na constituição das identidades coletivas, no espa- ço do político contemporâneo.

a) As práticas coletivas e o sentimento de pertença grupal na iden- tificação social

É importante destacar que esses três elementos se dão em pro-

cesso e estão implicados pelas práticas sociais e pelos cenários políti- cos em que determinado grupo se desenvolve. A identidade coletiva garante continuidade da experiência nomeada como um NÓS e revela

a pertença a determinado grupo. Nesse sentido, o sentimento de pertença é um dos importan- tes sentimentos que um processo mobilizatório precisa desenvolver.

7 As práticas articulatórias são definidas como práticas sociais que estabelecem uma relação entre os inúmeros significados de elementos disponíveis em dada realidade social, de modo a transformar a identidade desses elementos como resultado do próprio processo articula- tório. Para tal discussão, ver Howarth, Norval e Stravrakakis (2000).

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Esse sentimento pode aparecer de formas variadas, como formas de interpretação da história conjunta, como formas de identidades sociais, portanto, de pertença a determinadas categorias sociais, como expecta- tivas de projetos de futuro coletivamente traçados, como elaborações de elementos do passado para a demarcação de posições identitárias etc. Algumas práticas sociais são iniciadas com o intuito de materializar o sentimento de pertença a um conjunto de valores, crenças, interesses que definem a identidade coletiva de determinado grupo. Há, paulatina- mente, a criação de algumas regras da própria pertença ao grupo e a definição de relações intra e intergrupos (REBOREDO, 1995). Esse processo implica a definição de estratégias para mobilizar recursos materiais e simbólicos, que garantam continuidade da experiên- cia coletiva, como necessários para a mobilização social. Para tal, a iden- tidade coletiva define também possíveis práticas cotidianas do grupo na constituição de redes sociais, onde há localização e uso das instituições políticas, religiosas, públicas e privadas, que se colocam como colabora- doras ou adversárias da demanda grupal. No entanto, o mais importante da identidade coletiva é o compartilhamento de valores e crenças que definem uma cultura política do próprio grupo, colaborando na configu- ração e mediação da relação entre diferentes grupos. É importante notar que, nesse momento, desenvolve-se uma série de habilidades que podem favorecer práticas cooperativas entre os membros do grupo. Não por outro motivo, vários teóricos, como é o caso de Klan- dermans (1997), têm identificado a importância das práticas de solidarie- dade para o desenvolvimento das mobilizações sociais. Percebe-se, então, que essas práticas coletivas elaboram, estruturam e redefinem práticas sociais grupais, que materializam em ritos, rituais e códigos a pertença grupal, e para tal mobilizam recursos pessoais, familiares, institucionais e outros, com o objetivo de construir uma rede social capaz de definir um conjunto de valores e crenças relativos à solidariedade intragrupal.

b) O reconhecimento das equivalências e do caráter político das relações sociais

Outro aspecto a ser considerado como sendo um dos elemen- tos relevantes para o processo de formação da identidade coletiva politizada é o que se chamará, a partir de Laclau e Mouffe (1985), reconhecimento do caráter opressivo de algumas relações sociais.

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Com base na proposta desses autores de conceituação do pluralismo democrático, compreende-se que há uma diferença importante entre as relações de subordinação e as relações de opressão. A despeito de mui- tas polêmicas 8 , essa diferença precisa ser demarcada: um primeiro as- pecto diferencial é que as relações de subordinação são relações que estão baseadas nas positividades das posições identitárias, ou seja, não há, ainda, reconhecimento das negatividades que sustentam as posições diferenciais vistas como imutáveis (LACLAU e MOUFFE, 1985). Na subordinação, as relações são vistas como funcionais. Assim, por exemplo, na relação entre dois cargos institucionais, a hierarquia desigual entre ambos é tomada como necessária para o funcionamento da instituição. Ainda, não são reconhecidas como opressivas, pois, para tal, faz-se necessária a relação com uma exterioridade, com uma cor- rente de equivalências historicamente construída (MOUFFE, 1999; SAN- TOS e NUNES, 2003), que permita o reconhecimento de que, nas rela- ções de subordinação, há um impedimento (NORVAL, 1994). Pode ser

notado que, enquanto as relações entre “superiores” e “inferiores” estão sendo vistas como relações de dependências e hierarquia, não é ainda possível o reconhecimento da privação e do impedimento que aí estão embutidos. Isso quer dizer que, quando um agente está sujeito às deci-

sões de outro, instauram-se relações que “[

mente, um conjunto de posições diferenciais entre os agentes sociais

(LACLAU e MOUFFE, 1985, p.154). Não são relações que se

estabelecem, simples-

]

]” [

antagonizam, a partir de uma corrente de equivalências, ao contrário, são relações que se baseiam na lógica da imutabilidade diferencial. Elas definem, portanto, identidades sociais, mas não políticas (PRADO, 2002). Outra importante diferença é que, nas relações de subordinação, os agentes envolvidos não percebem o elemento da continuidade perti- nente à historicidade da dependência entre suas posições identitárias, ou seja, não há consciência de que a inferiorização seja algo corresponden- te às posições historicamente construídas, logo, temporalmente mutá- veis. Já, nas relações de opressão, ao contrário de o que ocorre com as relações de subordinação, pode-se dizer que há antagonização dos agen- tes: agora, o impedimento passa a ser a possibilidade da constituição do político e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de homogeneizar alguma das posições identitárias em jogo.

8 Para aprofundamento nesse debate, ver Laclau (1990).

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Acompanhando o pensamento de Laclau e Mouffe (1985), pode- se dizer que as relações de opressão são aquelas de subordinação, que se transformaram em lugares privilegiados de antagonismos. Nesse sen- tido, há o reconhecimento e a comparação com um discurso exterior, a partir de uma corrente de equivalências que, historicamente, vem sendo conquistada e produzida pelas lutas sociais. Nesse aspecto do processo

de mobilização social, é fundamental o surgimento de duas lógicas: a da equivalência e a da diferença, as quais permitem conscientizar-se das formas de opressão.

A lógica da equivalência é aquela que considera, nas palavras de

Barret (1999), os posicionamentos diferenciados entre os agentes sociais como objeto de luta e a lógica da diferença interpela a lógica de equivalên- cia, a partir das posições e dos contextos próprios historicamente distintos dos agentes. Dessa forma, a igualdade não é pensada como homogenei- dade, mas sim como equivalência/diferença. Note-se que, a partir desse elemento da conscientização, o processo de mobilização busca articular- se com a produção da identidade coletiva, demarcando fronteiras políticas entre o NÓS e o ELES, de forma que a identidade coletiva pode ser pro- duzida como política, já que favorece uma (des)naturalização das relações inigualitárias entre os grupos sociais.

c) A delimitação de fronteiras entre adversários e aliados e a lógica da reciprocidade

O terceiro elemento articulatório é considerado aqui aquele que

cria reciprocidade e reconhecimento entre os agentes sociais. A de- marcação de fronteiras implica o reconhecimento de que o ELES e o NÓS são irreconciliáveis (MOUFFE, 2000), porém, têm o mesmo di- reito de transformar espaços sociais em espaços de lutas políticas. No estabelecimento das relações de reciprocidade (MELUCCI, 1996), sejam elas de reconhecimento hostil ou não, há a sustentação da ne- cessidade de definir o consenso do NÓS, o que significa redefinir o conjunto de valores, crenças, interesses e significados de que esse NÓS é portador. Há, também, a necessidade de reconhecer o caráter precário desse consenso, desde que o ELES é constitutivo exterior internalizado pelo NÓS, e garante a continuidade de suas relações de pertença, fazen- do com que a identidade coletiva não seja meramente a adesão grupal,

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mas sim a forma de negociação da existência de um conjunto de posi- ções subjetivas, um conjunto de valores societais e a continuidade de práticas políticas capazes de recriar as formas de organização dos gru- pos sociais. Esse é o paradoxo identitário em questão nas relações entre os grupos (MELUCCI, 1996). Considerando-se o conjunto desses três elementos que podem ca- racterizar a constituição da identidade coletiva política, argumenta-se que as formas de inserção no espaço público, entendidas aqui como for- mas coletivas de ocupação, constituição e uso desse espaço, dão-se a partir da mobilização social de agentes sociais que buscam politizar as legitimações das desigualdades sociais. Como o próprio processo revela, mediante os elementos caracterizados anteriormente, não se pode reco- nhecer a finalidade ética dos processos de mobilização a priori, pois é exatamente por via das práticas articulatórias que essas questões serão configuradas, tendo-se em mente a relação intra e intergrupos, como adversários e aliados, e as oportunidades políticas em determinados con- textos sócio-históricos.

Fenômenos coletivos de inserção do espaço público: massas e movimentos sociais

Historicamente, alguns marcos para discriminação e para defini-

ção dos fenômenos coletivos foram estabelecidos por diferentes teorias

e ideologias sociais (MOSCOVICI, 1985). Não se podem, neste mo-

mento, debater todas elas, pois isso seria trabalho demasiado árduo para uma reflexão delimitada como esta. No entanto, aqui, argumenta-se que, com as mudanças na configuração das sociedades atuais, esses marcos de discriminação e definição dos fenômenos coletivos são reconsidera- dos. Isso se deve, especialmente, às novas formas de configuração do espaço do político nas sociedades contemporâneas que, sem dúvida, di- ferem muito das conhecidas sociedades industriais (TOURAINE, 1995). Em se tratando de categorias analíticas diferenciadas, tanto as mas- sas como os movimentos sociais ajudaram, até então, a compreender as formas de inserção diferenciadas no espaço público das sociedades da era moderna. Algumas foram tidas como “emancipatórias” ou “políticas”, ou-

tras como “arcaicas”, “pré-políticas” ou mesmo “primitivas”, como ilustra

o importante trabalho de Neves (2000) sobre os saques e a multidão, como

elementos políticos da ação coletiva dos camponeses do Estado do Ceará.

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Ao debater o conteúdo qualitativo da organização das massas e dos movimentos sociais, as teorias apoiaram-se, quase sempre, em uma perspectiva de apreensão do indivíduo, não podendo assim compreender o aspecto coletivo e político do fenômeno da massa. Ao centrar suas análises no indivíduo, muitas teorias desconsideraram a pluralidade das manifestações das identidades coletivas e, por muitas vezes, institucio- nalizaram ou patologizaram o fenômeno político (PRADO, 2001).

Isto é particularmente evidente na incompreensão dos movimentos políticos, que são vistos como a expressão das chamadas massas. Como não podem ser apreendidos em termos individuais, estes movi- mentos são normalmente relegados para a catego- ria do patológico ou considerados como expres- são de forças irracionais (MOUFFE, 1996, p.13).

A diferenciação entre o arcaico e pré-político e o racional e político ancorou esses limites de compreensão por muito tempo, pois o que os sustentava era a recorrência ao indivíduo e a um modelo bastante liberal de racionalidade. Mesmo em muitas correntes marxistas, viu-se impos- sibilidade de compreensão da pluralidade dos movimentos sociais e da passagem do individual para o coletivo (MELUCCI, 1996). Essa delimitação, que serviu por tanto tempo, estava implicada por uma noção de emancipação (qualificada como racionalidade crítica) ver- sus forças irracionais (qualificada como irracionalidade acrítica) e por uma noção de racionalidade universal versus uma racionalidade particu- larista. Logo, dentre esses parâmetros, os fenômenos coletivos chama- dos movimentos sociais caracterizavam-se a partir da lógica emancipa- tória, e os fenômenos caracterizados como de massa apregoavam-se de pensamentos particularistas e de pouca racionalidade crítica, como vári- as análises do populismo e do fascismo revelaram (LACLAU, 1979). Essa tradição que constituiu esses divisores teve sua representação no fim do século XIX e início do século XX, com trabalhos intitulados Psicologia das massas, como é o caso do tratado do médico Gustav Le Bon (1995). A partir da idéia de massa psicológica, de estudos da neurolo- gia da época e da nefrologia, Le Bon inaugurou um campo analítico sobre o comportamento coletivo, trazendo no crivo desse debate a linha tênue da racionalidade versus irracionalidade, como marco fundante da divisão dos comportamentos coletivos pré-políticos ou políticos.

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Os fatores psicológicos são tomados, nessas perspectivas, como inde- pendentes e suficientes para explicar o comportamento coletivo de fenôme- nos políticos, como a Comuna de Paris, a Revolução Soviética e outros. Nesta visão, por meio de uma transmutação das categorias políticas em

características psicológicas, como afirma o historiador Richard Sennet, se procede a uma privatização de demandas sociais que passam a ser psicoló-

gicas. O autor discute a crença de que os “[

qualquer tipo são reais, críveis e autênticos quanto mais próximos estiverem

das preocupações interiores psicológicas de cada pessoa. Essa ideologia transmuta categorias políticas em categorias psicológicas” (SENNET, 1993, p.317). Assim, essas duas posições merecem algumas considerações, espe- cialmente, tomando-se as premissas desenvolvidas anteriormente e as con- ceituações redefinidoras do político e das identidades coletivas. Ver-se-ão, dessa maneira, que todos os fenômenos de hostilidade, em suas múltiplas formas, foram tomados como fenômenos de massa, como conseqüência de uma irracionalidade moral, psicológica e, não ra- ras vezes, patológica. Quase todas as análises, das psicológicas às soci- ológicas, consideraram a massa o caminho da destruição dos valores universais das democracias ocidentais. O legado psicologizante e o lega- do do pensamento liberal sobre o político instalaram a impossibilidade de pensar os antagonismos sociais fora do âmbito de o que se definiu como emancipatório e de o que se denominou racionalidade universal. Lógica diferente foi instalada na compreensão dos movimentos so- ciais. A literatura bastante diversa evidencia todo o debate em torno desses divisores de águas. Isso fica mais claro se tomada a noção de emancipação, como foi sendo consubstanciada, a partir da revolução democrática e da noção de racionalidade superior. Os movimentos sociais foram vistos, mesmo se considerada a lógi- ca da constituição dos atores coletivos, como fenômenos políticos carre- gados de valores universais, capazes, portanto, de racionalidade própria de ocupação da arena política, racionalidade essa que se diferenciava da suposta irracionalidade da massa, pois o universal ocupava o lugar de- sejado. Com base nesses termos, chega-se a considerar, ao fim do sécu- lo XX, que a democracia liberal tinha vencido todas as barreiras, mas o que se viu, a despeito da negação de muitos pensadores, foi a explosão de movimentos e antagonismos particulares, religiosos, étnicos e raciais. Será que esses antagonismos não indicam algumas mudanças do fenô- meno coletivo nas sociedades atuais?

relacionamentos sociais de

]

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Considerações finais

Tomando-se as referências do debate anterior, resta considerar a dinâmica da formação da identidade coletiva como a possibilidade de compreensão desses divisores de água no campo do político revisitado. Para tal, é necessário que o olhar atento à dinâmica das formações iden-

titárias revele o processo de instalação das práticas articulatórias nos antagonismos políticos. A compreensão dos antagonismos atuais, nessa perspectiva de análise, aponta para uma possibilidade de entendimento nova, pois con- cebe o antagonismo como relação social politizada pelo estabelecimento de uma relação de reconhecimento do caráter opressivo que sustenta desigualdades sociais e pela demarcação das fronteiras políticas que garantem o pluralismo democrático, pois essa demarcação impõe o paradoxo do fenômeno identitário: a lógica da identidade e a lógica da diferenciação. Além disso, o olhar sobre a dinâmica de constituição das identidades coletivas, como visto, pode facilitar uma compreensão menos individualizante e menos essencialista dos fenômenos coletivos

e, sem dúvida, coloca questões sobre as práticas articulatórias que in-

cidem sobre a formação do sujeito coletivo, para serem consideradas.

A identidade coletiva passa a ser compreendida como processo objeti-

vo-subjetivo de negociação constante, que redefine as práticas e pos- turas grupais pela partilha de um conjunto de significados. Pode-se então buscar outros divisores de água para a compreen- são dos fenômenos coletivos nas sociedades contemporâneas, e esses novos marcadores podem sustentar uma interpretação que valorize o que é impar nas democracias: a emergência de novos sujeitos políticos, pois denunciam novas formas de opressão e novos projetos emancipa- tórios que não sejam mais aqueles que buscam romper totalmente com as sociedades presentes, como se o rompimento fosse a liberação do reprimido (LACLAU, 1996), mas sim que promovam a ampliação dos círculos de reciprocidade e desenvolvam formas de identificação cole- tiva entre a exigência do reconhecimento e o imperativo da distribui- ção (SANTOS e NEVES, 2003). Esses marcadores, coerentes com as explanações anteriores, po- dem estar presentes na diferenciação identitária que somente acontece a partir da possível constituição da identidade política, que se dá no esta- belecimento de três pontos definidores da relação de reconhecimento do

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caráter opressivo das desigualdades: a identificação dos recursos, sim- bólicos ou materiais, a serem disputados; o estabelecimento de um cam- po de ação; e de um sistema de referência comum, capazes de criar a dinâmica da relação de reciprocidade, que se caracteriza, muitas vezes, por relações hostis no campo do político (MELUCCI, 1996). Esses pontos podem evidenciar o reconhecimento do caráter opressivo de uma relação social, já que o estabelecimento da disputa pelos recursos valorizados e a configuração de um campo e de um sistema de referência comuns de disputa faz emergir uma relação en- tre os agentes, não mais baseada somente na positividade, como é típi- co das relações de subordinação, como nas relações hierárquicas en- tre cargos e funções, mas sim uma relação baseada na negatividade (LACLAU e MOUFFE, 1985), pois a identificação de um impedimen- to (NORVAL, 1994) emergente com o sentimento de injustiça social ou de privação social (KLANDERMANS, 1997) desperta os agentes para a deslegitimação dos sustentáculos da pretensa imutabilidade das diferentes posições construídas historicamente entre eles. Dessa maneira, supõe-se que movimentos sociais ou movimen- tos de massa podem estabelecer diferenciações identitárias e indife- renciações, mas, de fato, o que definiria essa diferença seria a con- cepção de que um ou outro, para além de uma forma empírica unitá- ria, é uma estrutura de relação, ou seja, uma forma de vivenciar o conflito social pelo qual algumas relações poderão experimentar a passagem das relações de subordinação para as relações de opres- são, e outras, indiferenciadas na formação identitária, atenderão muito mais a uma política de identidade que busca, em verdade, criar posi- ções homogêneas, a partir do pretenso discurso da reivindicação da diferença absolutizada. As questões aqui levantadas sugerem menos uma reclassifica- ção de fenômenos e mais um questionamento das formas tradicionais de compreensão, que incidem sobre as teorias científicas na análise da participação social na esfera pública. A preocupação com as me- diações psicossociais pode favorecer uma compreensão menos tau- tológica dos fenômenos e mais realista crítica, já que o estudo dessas mediações sugere amplo campo de análise das formas de construção social da realidade e da importância dos processos subjetivos na par- ticipação social.

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Concebe-se, portanto, que esse campo de análise poderá imple- mentar o desenvolvimento de metodologias de investigação e interven- ção, na apreensão das mediações psicopolíticas para análise dos proces- sos de constituição das mobilizações sociais que podem articular proces- sos de democratização.

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A escola e a rua: interação possível? *

Resumo

Solange Cristina da Silva 1

Universidade do Estado de Santa Catarina

Abstract

Este artigo discute a relação entre o “mundo da rua” e o “mun- do da escola”, fomentada a partir de uma pesquisa qualitativa, mais especificamente, um estudo de caso, realizado com adolescentes abrigados com passagem pela rua, visando a compreender os signifi- cados construídos por eles com re- lação à escola e à rua. Ficou evi- dente que é preciso alterar a orga- nização da escola, sua estrutura e suas relações, de modo a criar mecanismos que não somente

* School and street: possible interaction? 1 Endereço para correspondências: Rua Delminda Silveira, 729, ap.202, Bloco B, Agronômi- ca, Florianópolis, SC, CEP 88025-500 (psolange@virtual.udesc.br). Agradecimento à CA- PES e ao CNPQ.

This paper discusses the re- lation between the “world of the streets” and the “world of the scho- ol”. Such a discussion stems from a qualitative research, specifically, a case study of teenagers living in col- lective homes, who lived before in the streets. This paper aims at unders- tanding their view of the school and of the streets. Such a research made clear that it is necessary to change the organization of schools, their struc- ture and internal relations in order to create mechanisms that guarantee

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garantam o acesso dessas crian- ças e adolescentes das classes populares à escola e a permanên- cia deles nela, mas que principal- mente assegurem a eles partici- pação efetiva e contemplem as- pectos da vivência de rua, valori- zando a criatividade, a cultura e as necessidades deles, tornando possível assim a interação entre a escola e a rua.

Palavras-chave: Educação; rua; escola; meninos de rua; exclusão.

that children and teenagers from the poor classes have access to schools and continue there. More importan- tly, however, it is necessary to make sure that such individuals play an active role and understand aspects of their previous life in the streets, that they appreciate creativity, cul- ture and their needs. This can make possible integrations between the school and the streets.

Keywords: Education; street; school; street boys; exclusion.

E ste artigo traz reflexões acerca da relação do “mundo da rua” com o “mundo da escola”, fomentadas na pesquisa de mestrado intitu-

lada A rua da escola: estudos de significados construídos por ado- lescentes abrigados (SILVA, 1999), que busca compreender que signi- ficados os adolescentes de 12 a 18 anos abrigados e com passagem pela rua atribuem à escola. Essa pesquisa de caráter qualitativo encontrou no estudo de caso elementos para sua realização, possibilitando que esses adolescentes tivessem voz e vez e falassem sobre suas vivências na família, na rua, na Casa Lar 2 e na escola, de forma a trazer dados signi- ficativos, que mostrassem a contribuição que a convivência nesses es- paços trouxe com relação a sua trajetória escolar e elucidar os limites e as contradições do espaço escolar, permitindo, assim, repensar alguns aspectos da educação a que os alunos são submetidos. Entrevistas nor- tearam a pesquisa e vários autores que investigam as principais caracte- rísticas das crianças e dos adolescentes de rua, como Santos (2004), Neiva-Silva (2003) e Lima (1997), contribuíram, por meio de seus traba- lhos, para ampliar esta discussão. Na primeira parte deste artigo, apresentam-se o “mundo da rua” e seus diversos protagonistas. Na segunda parte, mostra-se como a estru- tura e o funcionamento da instituição escolar colaboram, muitas vezes,

2 Casa-Lar é um programa de atendimento à criança e ao adolescente, em regime de abrigo, em cujas dependências se fez a pesquisa.

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para agravar a exclusão social desses adolescentes. Nas considerações finais, firma-se a necessidade de alterar esses mecanismos escolares que contribuem para a exclusão das crianças e dos adolescentes, como forma de garantir seu direito à educação.

O “mundo da rua”

Dizer que a rua é: “qualquer logradouro público ou outro lugar que não seja casa de residência, local de trabalho etc.” (FERREI- RA, 1988, p.1261) basta para identificá-la, quando isso se refere à maioria das pessoas que a têm como espaço para compras e lazer, dentre outras coisas. Entretanto, para pessoas que não têm casa para morar ou vivem do trabalho informal e fazem da rua um espa- ço de trabalho e moradia, o significado explicitado acima não refle- te o que ela representa em seu fazer cotidiano. Para seus morado- res, a rua é o espaço que lhes cabe, nela, inventam e reinventam formas de sobreviver, construindo assim outros significados e outro modo de ver o mundo. Dessa forma, sobreviver na rua implica cons- truir regras e conceitos diferentes dos estabelecidos e aceitos nor- malmente na sociedade. Construir outra forma de ver o mundo im- plica se relacionar de outra maneira com as coisas, com o espaço, com o tempo. Assim, a rua, apesar de ser constitutiva da cidade, constitui um mundo à parte, “com um jeito próprio de viver e ser” (GUSMÃO e MARQUES, 1996, p.03). Para quem mora na rua, o espaço que para a maioria é conside- rado público adquire sentido privado: a casa de alguns, figurativa- mente, a casa retratada na música A casa de Vinícius de Moraes:

“Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada [ Do ponto de vista de Da Matta (1991, p.61), “a rua pode ter locais ocupados permanentemente por categorias sociais que ali ‘vivem’ como ‘se estivessem em casa’”. Assim, o público e o privado entre- cruzam-se, misturam-se, e desses espaços apropriam-se momenta- neamente. Como é o caso dos sujeitos que moram na rua e nela tomam banho no chafariz, namoram (incluindo aqui atos sexuais), entre outras coisas, fazendo assim, desse espaço que é público – a rua -, um espaço privado, na medida em que têm ações que geral- mente são permitidas somente em lugares reservados .

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Diferentemente de o que se costuma vivenciar no cotidiano, no qual se identificam pessoas pelo nome que, acompanhado de um número (CIC, RG etc.), dá uma identidade civil, reivindicada a todo momento nos estabelecimentos comerciais, na hora de votar etc., os moradores da rua vivem no anonimato. Pode-se dizer que quem mora na rua não tem endereço certo, vive um pouco aqui, um pouco acolá. Essa transitorieda-

de está nas falas dos adolescentes entrevistados: “Eu não tinha lugar, por

Eu dormia em qualquer lugar.

]” [

A rua tem dimensões abrangentes que permitem movimentação ampla, e cujos moradores passam a ocupar espaços diversos em deter- minados momentos, vivendo as coisas de forma transitória, tornando-se, assim, nômades e anônimos. Esses anonimato e transitoriedade propor- cionados pela vivência na rua possibilitam que as pessoas se soltem mais, pratiquem ações que não realizariam num outro espaço. Tais ações ser- vem também como estratégia de defesa ou forma de proteção, seja da polícia, das gangues ou de quem quer que as ameace.

isso que eu conheço todo mundo [

].

(Marcelo, nov./97, apud SILVA, 1999).

Quem vive na rua precisa de agilidade, flexibilida- de e muito movimento corporal para sustentá-la. Daí precisar mudar sempre de espaço e procurar outro território. A rua constitui-se em transitorie- dade permanente, dada a insegurança total. Não é possível prever o que vai acontecer na próxima hora, no próximo dia (GRACIANI, 1997, p.131).

A rua faz-se neste movimento constante dos sujeitos: ir e vir, estar

e passar. Os que vivem na rua não conseguem fugir da trama das rela-

ções em que ela os envolve e, nesse fazer cotidiano, permeados por essas relações, são necessários muita agilidade e muito movimento. As- sim, tanto a espacialidade como a temporalidade são vividas por essas pessoas, que delas se apropriam, diferentemente da formalização típica da sociedade em se que vive. Num contexto social capitalista, em que a produção é fundamental,

o tempo faz-se importante, ou seja, é preciso economizar tempo e, con-

seqüentemente, produzir mais. A lógica capitalista faz com que essa cor- rida em função do tempo torne-se parte do dia-a-dia, o que constrói um processo de naturalização da demarcação do tempo.

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Apesar disso, dessa naturalização do tempo padronizado, geralmen- te, o grupo da rua não se apropria, pois ele vive de acordo com lógica diferente daquela dominante na sociedade. Sendo assim, pode-se dizer que o tempo, para as crianças e os adolescentes que vivem na rua, tem

significado específico: cada minuto é único, como se fosse uma conquista constante. Não há demarcação de tempo socialmente sancionada e utili-

– que representa o momento específico para realizar tal

ação: hora do almoço, hora da janta, hora de dormir etc. Encontram-se, sim, momentos determinados pelas necessidades orgânicas, fisiológicas e pelos desejos. Há o momento em que se está com fome e se vai “batalhar um rango” 3 , o momento em que se está com sono e se deita numa pedra, num banco ou qualquer outro lugar e se dorme, e assim por diante. A inconstância, provisoriedade e as rudezas da vida na rua leva quem a habita a viver o momento presente, “o agora”, até porque “o depois” pode não existir. A rua é comumente considerada um espaço não-institucionalizado e, portanto, para viver nela, o controle do tempo não é necessário. O tempo padronizado usa-se somente quando, na rela- ção estabelecida com pessoas fora do grupo social da rua, é preciso vol- tar-se para essa questão. Mesmo assim, não é fácil marcar com adoles- centes de rua encontros e compromissos para dias posteriores. Viver na rua, então, significa aprender essa outra lógica construída no dia-a-dia da rua, visto que os conhecimentos nela construídos diferem dos conheci- mentos construídos em outros espaços, como, por exemplo, a escola. No entanto, Neiva-Silva (2003, p.16) alerta para o fato de que, mesmo havendo “preocupação inicial com resoluções de questões como ‘o que co- mer’, ‘o que vestir’, ‘onde dormir’, [isso] não implica a exclusão de um pensar sobre o amanhã, em seus diferentes aspectos”. Nessa perspectiva, apesar de os adolescentes em situação de rua estarem presos a soluções imediatas de sobrevivência e segurança, eles têm expectativas futuras. Os adolescentes pesquisados concebem a rua como espaço de maior “liberdade”, no sentido de poder ir e voltar a qualquer hora, a qualquer lugar, e também como espaço onde se estabelecem relações de aprendizagem, que podem possibilitar saberes específicos necessários a sua sobrevivência, diferentes formas de se relacionar com as coisas, com as pessoas, com o mundo. Tomar banho no chafariz, drogar-se, pedir, pegar ônibus e tantos outros fazeres na rua implicam aprender.

zada – hora de

3 “Batalhar um rango” é uma expressão usada pelos meninos em situação de rua, que significa conseguir alimento.

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O aprender da rua possibilita poderes, saberes e sobrevivência. Visando

a sua sobrevivência, as pessoas que moram ou se inserem na rua cons- truíram um “mundo à parte”, um “mundo marginal”, contudo, não se pode deixar de considerar, ao conceber a sociedade em sua totalidade, que esse mundo interage com tantos outros mundos que possam existir, de forma a constituírem uma unidade social. Nessa perspectiva, consi-

dera-se que a existência ou não dessa marginalidade acontece em rela- ção a alguma coisa, ou seja, deve-se relativizar o sentido de marginalida- de, considerando-se que há uma relação dialética entre os diversos gru- pos ou “mundos” e que nessas relações vão-se construindo modos pecu- liares de integração, exclusão, participação.

A exclusão existe, mas é relativa. O sistema capitalista tem em sua

lógica uma conduta de exclusão, contudo, a parte considerada marginal estabelece relações de diferentes formas com esse sistema, tornando-se parte dele. Esse fazer excludente tem como elemento intrínseco a vio- lência, que marca física e psicologicamente os sujeitos envolvidos e pa-

rece ser constante nos vários espaços sociais existentes entre eles a rua. Quando, andando pelas ruas do centro da cidade, vêem-se crian- ças e adolescentes pedindo esmolas, dormindo em qualquer lugar, chei- rando cola, constata-se a violência explícita na forma desumana de vida

a que são submetidos esses adolescentes, como se pode observar na

fala Guilherme (nov./97, apud SILVA, 1999): “A gente dormia em qual-

quer lugar

comecinho da Beira-mar”.

A violência na rua é algo cotidiano, tanto a violência que é fruto das

precárias condições de vida, como a violência moral de um simples xin- gamento, quanto a violência física, inclusive o extermínio, como o mas-

sacre da Candelária (FOLHA DE SÃO PAULO, 20 jun. 1997) e tantos outros, dos quais nem se sabe. Vivenciando situações de violência física no confronto com a polí- cia, esses adolescentes sentem medo e ódio. Os policiais, que têm como tarefa preservar a ordem e garantir a segurança pública, entram em constantes conflitos com o grupo da rua. Dessa forma, para tais adoles- centes, a polícia não significa simplesmente proteção, como parece ser para a maioria das pessoas, mas também e de forma mais intensa, uma ameaça. Aos olhos dos policiais, dos comerciantes que se sentem ame- açados por esses adolescentes e da sociedade em geral, eles são os marginais, os bandidos e, por isso, devem ser banidos, não protegidos.

na rua. Ali no Centro tem uma pedra direto no sol, ali no

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Não se pode deixar de considerar que esses adolescentes, em determinadas situações, ameaçam a segurança das pessoas, como

quando roubam para comer, comprar drogas etc., pondo, algumas vezes, a vida dos outros em perigo, entretanto, em outras situações, suas vidas são ameaçadas, ao terem de viver na rua, à mercê dos grupos de extermínio, de agressões de policiais e de comerciantes.

A violência entre os próprios integrantes do grupo da rua tam-

bém é significativa. Ao mesmo tempo em que estabelecem relações fortes de amizade, ela pode se transformar em ódio, ao sentirem-se traídos ou desrespeitados. A disputa pela liderança do grupo é co-

mum na vivência cotidiana, pois, para exercê-la, é necessário ser o melhor, e isso implica ter mais conhecimento da rua, ser o mais cora- joso e esperto. Essa competição, muitas vezes, gera a violência.

É importante remarcar que a rua está longe de ser o único es-

paço ocupado por esses adolescentes no qual vivenciam relações de violência. Em vários outros espaços, como, por exemplo, na família, no programa de atendimento e na escola, encontram-se relações de violência, explícitas ou implícitas. Outros elementos citados como presentes no cotidiano da rua são a droga e o roubo. Para resistir às mazelas que esse contexto traz, a grande maioria que mora nesse espaço utiliza a droga como solução provisória. É provado que a droga (álcool, maconha, cola etc.) traz conseqüências desastrosas à saúde de quem a usa, além da possibilidade de dependência química (ROSA, 1996). Todavia, isso parece não ser preocupação para esses adolescentes, uma vez que ela tem papel importante para sua resistência nesse espaço, pois as

alterações biológicas facilitam a convivência com as rudezas propor- cionadas pela vida na rua. Com droga no corpo, mesmo que seja por minutos, é possível que o frio diminua, a fome se acalme e as agres- sões não doam tanto.

O roubo acaba sendo também alternativa para quem tem de

sobreviver sem dinheiro, para satisfazer o desejo de consumo de todos os adolescentes, independentemente de sua classe social. Além disso, há o prazer que muitos sentem na aventura, no perigo e no conhecimento proporcionado pelo ato de roubar. Conforme Yunes e Szimans (s.d.):

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dependendo da percepção que o indivíduo

tem da situação, da sua interpretação do evento estressor e do sentido a ele atribuído, teremos ou não a condição de estresse. Por exemplo, a mesma situação de vida pode ser experienciada por um indivíduo como perigo, enquanto outro a perce- be como um grande desafio.

] [

Contribuindo, ainda, para a reflexão sobre a relação que os adoles- centes estabelecem com o roubo, Valla (apud FLEURI, 1998, p.197- 198) alerta para o fato de que há tendência dos que se dedicam ao tema “movimentos sociais e educação popular” de “fazer uma leitura das fa- las e ações dos populares pelo viés da categoria ‘carência’”, mas que há intelectuais que consideram que essa leitura pode enfraquecer as análi- ses e propõem outra categoria: “intensidade”, que “traz dentro de si a idéia de ‘iniciativa’, de ‘lúdico’, de ‘autonomia’”. Desse modo, seria ingênuo considerar que esses adolescentes com passagem pela rua realizam ações somente movidos por necessidade financeira. O prazer também faz parte desse contexto, e a procura por ele mediante ações de perigo é fato em suas vidas. Pode-se supor que se entregam à emoção proporcionada pelo perigo, talvez, porque sintam que não têm muito ou nada a perder, todavia, não são somente essas ações que dão prazer, pois o pagode no Mercado Público, a capoeira, os jogos e as brincadeiras na rua também são prazerosos e têm a participa- ção efetiva desse grupo. Outro aspecto significativo constatado na análise dos dados coleta- dos nas entrevistas com os adolescentes foi com relação à “circulação” desses meninos (FONSECA, 1990). Constatou-se que quem vive na rua acaba interagindo em diversos espaços: família, programas de atendi- mento à criança e ao adolescente etc., mas essas relações são passagei- ras. Com relação aos programas de atendimento, por exemplo, fica difí- cil permanecer neles se o controle é rígido, a disciplina norteia todas as ações e o atendimento nem sempre é dos mais agradáveis, posto que se usa, em alguns casos, inclusive violência física contra os atendidos. Há muitas instituições ainda que concebem seus atendidos como marginais em potencial, sendo o dever da instituição regenerá-los, nem que para isso tenha de usar certa violência. As falhas nas insti- tuições existem e não é propósito escondê-las, mas, por outro lado,

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não se pode desconsiderar que há vários educadores que entendem criança e adolescente como sujeitos de direitos e tentam, com propos- tas alternativas, superar esses problemas no atendimento. No que se refere à circulação dos meninos, constatou-se durante a pesquisa que, apesar de circularem por diversos espaços, formais e in- formais, no período em que se encontravam na rua, a escola não consti-

tuiu espaço em que eles passaram ou se inseriram. A escola torna-se tão distante e inacessível diante das condições e do ritmo de vida desses adolescentes, que não aparece como espaço de trânsito, no momento em que estão na rua. Como visto, pelo fato de a rua constituir uma organização que dife- re da forma organizativa da sociedade dominante, é compreendida pela maioria das pessoas como espaço da desordem, o caos. Desse modo, quem vive na rua é considerado ladrão, pivete, vaga- bundo, enfim, é estigmatizado com muitos nomes depreciativos, como mostra Bruno (fev./98, apud SILVA, 1999): Na rua, eles pensam que a

Esse entendimento imprime nos moradores da rua

e nos que nela se inserem a marca da bandidagem, de forma que são submetidos a olhares tortos e preconceituosos.

Baseadas no senso comum, as pessoas das mais diversas classes sociais acreditam na equivalência que supostamente existe entre pobre- za e marginalidade. Nessa perspectiva, comungam a idéia de que todo pobre (miserável) é marginal ou que todo marginal é pobre. É claro que

a miséria pode levar as pessoas a buscar a sobrevivência por meios

ilícitos, porém, isso não é regra, nem é determinante. As pessoas, sejam crianças, adolescentes ou adultos, cuja existên- cia é marcada por preconceitos e estigmas, são vistas somente pelo viés dessas referências, posto que se desconsideram quaisquer outras carac- terísticas que tenham. Esse olhar estigmatizante faz com que as pessoas concebam os da rua como determinados, tendo assim visão embasada na concepção de causa e efeito: são da rua, então, são marginais. Desconsideram elas, dessa forma, o fato de que esses adolescentes também são sujeitos e, à medida que são construídos pelo espaço em que vivem, eles também o constroem por meio das relações que estabelecem. É fato que pessoas que moram na rua ou simplesmente se inserem nela por períodos curtos têm como referencial seu modo de viver, podendo,

gente é ladrão [

]”.

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inclusive, estabelecer relações mediadas por esses significados existen- tes no “mundo da rua”, mas isso não significa que são determinadas por esse contexto social. Não se pode esquecer que esses meninos e meni- nas são simplesmente crianças e adolescentes como quaisquer outros, que, por diversos fatores, estão nessas condições de vida, agem e rea- gem de diversas formas diante de sua realidade e, com isso, algumas vezes, vão ao encontro de o que é permitido pela sociedade ou não. O tempo e a intensidade da vivência na rua fazem diferença ao se considerar padrões de comportamentos socialmente aceitos. Percebe- se que, quanto mais tempo a criança ou o adolescente permanece convi- vendo na rua ou quanto mais intensa for essa vivência, mais ele vai construindo os significados e valores que fazem parte desse “mundo” e se apropriando deles. Esse tempo de vivência faz com que tenham mais experiências, tanto de transgressões ao que é socialmente aceito como de amizade, solidariedade etc. Os adolescentes pesquisados demonstram ser pessoas que, medi- ante problemas familiares e precárias condições de vida, saíram de casa

e foram viver na rua. Depois de algum tempo, voltavam para casa, e

retornaram para a rua, até serem postos na Casa-Lar. A maioria deles passou por outras instituições antes de ser inseridos nesse programa de atendimento, em cujo local moravam na época da pesquisa. Todavia, nessa ocasião, já não viam mais a rua como alternativa de vida, preferin- do continuar morando na Casa-Lar, onde tinham assegurados alguns di- reitos básicos (alimentação, moradia, saúde etc.), até conseguirem vol-

tar para sua família ou fazer parte de uma nova família. A vivência nesse programa de atendimento possibilitava que a escola fosse ressignificada

e adquirisse outro sentido, que diferia da vivência na rua, à medida que

ela se tornava mais possível e acessível, mediante as condições de vida

proporcionadas por esse programa. A seguir, procura-se compreender a relação da rua com a escola, tendo como foco os sujeitos pesquisados.

A rua e a escola

A escolarização de todas as crianças e adolescentes, um dos direitos conquistados na luta da sociedade civil e dos órgãos governamentais neste País, apesar de alguns avanços, ainda não é prática efetiva, principalmente,

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no que se refere às classes populares. A escola não faz parte do cotidi- ano de muitos dos meninos e meninas pobres, e não é difícil de entender que, para os que moram na rua ou se inserem nela temporariamente, nem sempre a escolarização é possível. A escola, da forma como ela estrutura-se e organiza-se, reproduz as desigualdades e injustiças de uma sociedade de classes, por intermé- dio de seus mecanismos de seriação, seletividade e avaliação, visando sempre a um padrão de aluno. Todo o trabalho nela realizado está volta- do a um aluno médio. Desse modo, quem não está nessa média esperada fica à margem desse processo educativo, no qual não são consideradas e muito menos trabalhadas as diferenças pessoais, de vivências, as his- tórias de vida etc. Isso evidencia que a escola reforça a discriminação, rotula e exclui. Sabe-se que a exclusão não é inerente apenas ao espaço escolar, é de toda sociedade que seleciona, discrimina pobres, negros etc. Todavia, não se pode desresponsabilizar a escola dessa parte que lhe cabe, uma vez que ela é espaço de socialização que, ao mesmo tempo em que os aceita, à medida que abre suas portas às crianças e aos adolescentes, rejeita-os, ao submetê-los a seu processo excludente (avaliação etc.). Do mesmo modo, os profissionais da educação são submetidos ao de- sempenho de um papel subordinado às normas e ao regimento da escola que, de antemão, está organizada e estruturada dentro dos ditames da sociedade capitalista, desafiando os profissionais insatisfeitos e que que- rem mudanças. Assim, repensar e refazer a escola para que ela não mais seja excludente implica alterar uma dinâmica de sociedade, uma vez que ela é parte desta e reflete seus avanços e recuos, e, também, mudança de postura, pois, como alerta Freire (2000, p.12): “ensinar exi- ge respeito aos saberes dos educandos”. Diante do processo excludente, em que não são consideradas as diferenças existentes entre os alunos, ao ingressarem na escola, eles são concebidos por ela como se não conhecessem nada e somente ali fossem adquirir todos os conhecimentos necessários para sua vida e seu sucesso profissional. Patto (1983, p.224) afirma que “ignoramos o que a criança sabe e conhece, suas capacidades e habilidades, que devem ser muitas, pois, afinal, a mantém viva num contexto social que lhe é extremamente adverso. Exigimos, além disso, que ela deixe na porta da escola suas vivências, sob pena de ser considerada inapta”.

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Desse modo, não se trabalha com as particularidades da criança, nem com o conhecimento que ela traz, como é o caso dos meninos em situa- ção de rua, por exemplo, que sabem pegar o ônibus certo, porque traba- lham com símbolos que criam, mesmo não sabendo ler e escrever. Freitas (1989, p.87) reforça esse pensamento, quando argumenta que:

por mais pobre que seja o ambiente da crian-

ça, sempre haverá algum estímulo gráfico: propa- ganda, rótulo de embalagens, televisão etc. As-

sim, ao entrar para a escola, a maioria das crian-

ças conhece, pelo menos, algumas letras. [

] No

] [

entanto, a escola não admite que essas crianças possam aprender também no meio extra-escolar.

Do mesmo modo em que não é considerada a aprendizagem extra- escolar da criança e do adolescente, não são consideradas também sua história e cultura. Na escola, não são ou são pouco trabalhadas as dife- renças de cultura, de linguagem, de aprendizagem etc. Um equívoco comum da escola, no que se refere à diferença, é que ela é tratada como deficiência. Não se considera que há processos de aprendizagem diferenciados e formas diferenciadas de aprender, li- mites e possibilidades diferentes entre as crianças e os adolescentes, que não os fazem deficientes. Nessa ótica, em vez de trabalhar os pre- conceitos 4 , na maioria das vezes, eles são criados ou reforçados: aquele que não fala certo, aquele que é burro etc. Do mesmo modo que não considera a diferença, a escola prioriza a dimensão pedagógica e desconsidera, ou pouco considera, outras dimen- sões do sujeito: cultural, econômica, psicológica etc. Principalmente no que diz respeito às crianças e aos adolescentes em situação de rua, sua história, cultura e relações não são consideradas no espaço escolar e, quando o são, fazem-no como forma de negá-las, desqualificá-las, tendo em vista que a rua não poderia lhes trazer nada do que a escola conside- ra bom para o aluno. A escola é um espaço em que possivelmente convivem crianças e adolescentes de diversos grupos sociais, que têm, dentre outras coisas, uma organização, religião, níveis socioeconômicos diferentes. Nesse es- paço, também se ensinam aspectos da realidade de um país tão plural,

4 Sobre o termo preconceito ver Heller (1972, p.43) e Collares e Moysés (1996, p.23).

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o Brasil, entretanto, conviver e trabalhar com essa diversidade étni- co-cultural ainda é problema a ser enfrentado pela escola. Ao traba- lhar a diversidade cultural de forma a entendê-la e valorizá-la, atua- se também na superação da discriminação, que acontece dentro de um contexto social. Além da diversidade cultural, outro aspecto importante que se deve considerar no tocante à escolarização dos adolescentes em si- tuação de rua é a organização do tempo na escola. O tempo da esco- la é o do amanhã, no sentido de que há preocupação com a seqüência dos conteúdos, de forma que o que é aprendido no momento serve de base para o que será ensinado no ano seguinte. Isso provoca, muitas vezes, desinteresse nos alunos que não conseguem vislumbrar o uso desse conteúdo, até porque há vários conhecimentos que fazem par- te do conteúdo pedagógico da escola, mas não fazem parte do cotidia- no dos alunos e não são usados no decorrer da vida deles. Por mais distante que esteja esse conteúdo da realidade e da possibilidade de uso do aluno, a justificativa é que um dia o aluno poderá precisar desse conhecimento. Frente à realidade, essa justificativa torna-se inacei- tável e o aluno perde o interesse pela escola. Apesar disso, ele tem a compreensão de que o estudo lhe proporcionará um futuro melhor. Como diz Guilherme (nov./97, apud SILVA, 1999): “Sem estudo não dá pra vencer na vida”. Principalmente para quem vive na rua, onde a organização do tem- po baseia-se no presente, devido à provisoriedade das relações, aos es- paços e rudezas de vida, ficar oito anos na escola (tempo necessário para efetuar o Ensino Fundamental) é inimaginável. Se considerado ain- da que são oito anos sentados, aprendendo conteúdos distantes de sua realidade cotidiana, com pouco movimento, num espaço fechado, isso se torna mais inaceitável ainda para esses meninos que, vivendo num espa- ço amplo de circulação, estão em constante movimento e sua aprendiza- gem (da vivência na rua) se dá pela experiência, pelo fazer. É importante ressaltar que, para o adolescente, há distinção na orga- nização do tempo na escola e do tempo na rua, e isso interfere na relação que ele estabelece com a escola. Além disso, a escola exige certas atitu- des dos alunos, as quais se traduzem numa tarefa extremamente difícil para quem vive no “mundo da rua”. Com a proposta de igualdade de oportunidade a todos, tanto no que se oferece quanto no que se exige, a escola acaba desconsiderando as diferenças e particularidades dos alunos.

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Dessa forma, para quem não tem moradia fixa, muitas vezes, tem de tomar banho no chafariz e usar a mesma roupa até ter de jogá-la fora, cumprir a exigência de ir limpo, uniformizado (de preferência impecá- vel), levar feitos os deveres escolares etc. é, diante das condições reais de vida, tarefa impossível. Essas características de estrutura e funcionamento que constituem o mundo escolar dificultam o processo de inclusão participativa dos alu- nos nele e sua construção coletiva, porque a escola não abre espaço para a participação ativa dos alunos, considerando-os indivíduos que es- tão ali para obedecer, silenciando-os em muitos momentos pelo discipli- namento, por punições e controle constante. Assim, ela proporciona o individualismo e a pouca troca entre as crianças e os adolescentes: não podem conversar com o outro na sala de aula, os trabalhos são, na maioria das vezes, individuais, cada um com seu material, não se deve emprestar o material para o colega etc. Considerando-se esse aspecto, pode-se dizer que, apesar de a es- cola ser espaço de socialização, sua estrutura e seu funcionamento não possibilitam uma forma coletiva de relação. Como afirma Dolzan (1998, p.32) “o espaço da sala de aula é quase sempre organizado para que professores e alunos trabalhem interagindo o mínimo possível, favore- cendo o individualismo”. É importante demarcar que há exceções, escolas onde professores com propostas alternativas realizam trabalhos diferenciados, buscam par- ticipação maior dos alunos, fazendo trabalho em grupos e incentivando a construção coletiva. Considerando essas propostas alternativas desen- volvidas dentro de várias escolas, pode-se dizer que a escola também é espaço de resistência, tanto no que se refere ao movimento dos profes- sores para alterar os processos antidemocráticos quanto à resistência por parte dos alunos, mediante contravenções à estrutura imposta e às relações autoritárias. Se, como visto, a rua é um mundo à parte, a escola torna-se para essas crianças e adolescentes outro mundo, muito distante do da rua, por- que essas condições subumanas de vida e a forma de viver que se constrói na rua os afastam cada vez mais da escola. Desse modo, essas crianças e adolescentes que moram na rua ou permanecem nela por certo período ficam à margem do espaço educativo a que têm direito. Assim, oposta- mente ao que preconizam as leis (Estatuto da Criança e do Adolescente, LDB etc.): “Escola, direito de todos”, na prática, escola é direito de alguns.

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Além desses aspectos, é importante marcar que, para viver na rua, não são necessários conhecimentos que a escola proporciona. Na rua, aprende-se o necessário para viver nela: aprende-se a dar troco, a loco- mover-se, criam-se símbolos que facilitam a identificação de nomes, pla- cas etc. O aprender na rua é constante, e faz parte do cotidiano desses jovens. Por essa dinâmica, a rua é mais interessante. Em contrapartida, a escola aparece como enfadonha, entretanto, para esses meninos, ela tem sua importância, pois eles querem aprender a ler e a escrever, co- nhecimentos que a escola possibilita. Assim, o adolescente em situação de rua vive uma contradição: quer aprender os conhecimentos proporci- onados pela escola, mas ela é ruim. Com relação aos conhecimentos construídos na rua, Santos (2004, p.36) esclarece que:

Aptekar (1996) sugere que a vida na rua pode até facilitar e promover o desenvolvimento cognitivo em alguns aspectos, como, por exemplo, a aprendi-

zagem natural de habilidades matemáticas, a partir de uma necessidade prática na venda de pequenos

objetos e outras negociações. [

dicam que as crianças em situação de rua mantêm o mesmo padrão de desenvolvimento das outras cri- anças ou que a aprendizagem escolar pode ser subs- tituída. O próprio Aptekar (1996) alerta para o fato de que podem ocorrer mudanças nos períodos de desenvolvimento destas crianças, mas não podem ser classificadas como melhores ou piores.

] Tais fatos não in-

A escola, por ser inacessível diante das condições e das possibili- dades vividas no “mundo da rua” e por estar dissociada da forma de aprender e do conhecimento adquirido nesse espaço, somente se con- cretiza na vida desses adolescentes quando eles inserem-se num progra- ma de atendimento à criança e ao adolescente, que os matricula e os obriga a freqüentá-la ou, em alguns casos, quando buscam sair da rua e procurar um emprego formal, acreditando que a escolarização possibili- tará consegui-lo. A escola aparece para esses meninos como algo que se contra- põe à rua. Independentemente do tempo de vivência que tiveram na rua, tomam a rua como espaço de liberdade, onde se pode brincar de tudo,

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e a escola, como espaço onde não podem brincar de muitas das brinca-

deiras que fazem parte de seu cotidiano. Como disse um dos adolescen- tes entrevistados: “Na rua, brincar em todo lugar pode, mas, na escola na escola não pode brincar de lutinha, não pode andar de bicicleta” (Gui- lherme, nov./97, apud SILVA, 1999). Outras pesquisas com crianças em situação de rua, realizadas em Porto Alegre, apontadas por Santos (Ibid., p.73), reforçam a brincadeira como atividade prazerosa, “não somente pela realização da atividade, mas por proporcionar à criança a oportunidade de se sentir ativa e cria- tiva, ou seja, sujeito da própria ação que lhe dá prazer”, e a rua “como um espaço mais amplo para brincar, o que pode proporcionar liberdade de escolha de locais ou a realização de atividades motoras mais amplas” Fortuna (2003, apud SANTOS, 2004, p.92) argumenta que “a escola está tradicionalmente organizada centrando-se no adulto. Nessa organiza- ção, a interação criança-criança fica em segundo plano e o brincar, de forma prazerosa, torna-se distante dos objetivos pedagógicos da escola”. Apesar de a rua aparecer para esses adolescentes entrevistados como espaço de maior liberdade, onde se pode brincar, e a escola, como repressora dessa atividade prazerosa, por outro lado, a rua apa- rece também como espaço de “malandragem”, da “droga”, e a escola, como corretiva desses comportamentos.

Na rua a gente só ia aprender a usar droga, essas coisas. E na escola a gente ia aprender a não usar (Bruno, nov./97, apud SILVA, 1999).

Na rua, a gente aprende só malandragem, só bes- teira, e na escola aprende a viver, a ter educação, a conversar com as pessoas direito (Marcelo, nov./ 97, apud SILVA, 1999).

Para esses adolescentes, quando estão longe da convivência com

a rua, “aprender a viver” é aprender a não usar droga, “ter educação” é

aprender “a conversar com as pessoas direito”, é aprender a usar uma linguagem mais voltada à cultura da sociedade dominante, que difere da linguagem que usavam na rua (gírias, códigos etc.). Desse modo, a cultura escolar nega a cultura da rua e vice-versa, pela incompatibilidade existente entre esses dois mundos. A organiza- ção desses adolescentes, quando estão inseridos na rua, conflita com a organização escolar.

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Lima (1997, p.67), a partir de sua pesquisa com meninos e meninas que vivem nas ruas de Florianópolis, afirma:

Vários são os elementos que influenciam a des- qualificação da escola sobre o saber da rua: as mais diversas expressões populares não são valo- rizadas pelas escolas, os hábitos daqueles que vi- venciam a rua não são adequadas à disciplina imposta, as crianças e adolescentes que vivem nas ruas são estigmatizados, vistos como perigosos, violentos, ladrões, mau exemplo etc.

Do mesmo modo, Santana, Doninelli, Frosi e Koller (2003, p.6) trazem contribuições importantes, em seus estudos, para entender mais a relação desses adolescentes com a escola:

A principal fonte de rompimento dos vínculos com

a escola deve-se à sucessão de fracassos a que a

criança e/ou o adolescente são submetidos (Fors-

ter e Cols., 1992; Koller, 1994; Vasconcelos, 1996). O alto grau de repetência, as impossibilidades de conciliar a necessidade de trabalhar com a fre- qüência na escola e a própria falta de atratividade da escola, com seus conteúdos tão distantes da re- alidade vivida por estes jovens, também são razões que promovem o abandono da instituição escolar. Contudo, é importante ressaltar a importância que

a escola desempenha na vida e no imaginário des-

tas crianças, que a consideram como uma das for- mas possíveis de mudança de status social (Koller, 1994; Kuschick e Cols, 1996).

Por todos os motivos levantados anteriormente, a escola e a rua aparecem para esses adolescentes como sendo tão diferentes, que se tornam distantes uma da outra. Ao serem questionados sobre a escola no período em que viviam na rua, os adolescentes pesquisados foram unânimes em expor que, no momento em que estavam na rua, não esta- vam na escola e que na rua nem se comentava sobre a escola. Repre- sentativa dessa colocação é a fala de um dos adolescentes pesquisados:

“O pessoal da rua não falava da escola, muitos nem conheciam a esco- la” (André, nov./97, apud SILVA, 1999).

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A negação da escola não se dá apenas pela não-inserção nela, mas

pelo desinteresse de conversar sobre ela, pelo fato de a escola aparecer para esses adolescentes como inacessível, distante da sua realidade e ne- gando sua cultura. Desse modo, para esses adolescentes, a rua aparece como rompimento na trajetória a caminho da escola. Para que esse cami- nho não seja interrompido, é preciso transformar a escola, de maneira que “a rua” faça parte dela. Para que isso aconteça, são necessários mudança de postura e de visão de homem e de mundo, quebra de preconceitos e o exercício permanente de construir uma educação com todos e para todos.

Considerações finais

A rua, em seu contexto, é espaço de vivência que traz precarieda-

des que põem os sujeitos envolvidos em situações de perigo constante, como vítimas de sua própria condição. Por outro lado, possibilita-lhes construir sua própria organização e seu modo de viver nesse “mundo”, que se constitui no resultado da trama de relações múltiplas, complexas e variáveis de diversos sujeitos, com história e contexto diferenciados (policiais, comerciantes, crianças e adolescentes que vivem na rua, tran-

seuntes etc.) e com interesses e valores distintos, que interagem entre si.

A escola e a rua são contextos diferentes e propiciam condições e

possibilidades, valores e significados diferenciados. Se, na rua, vivem sem condições de vida regular, num espaço aberto com possibilidade ampla de circulação, sob regras criadas por eles mesmos e organização própria (não-disciplinar) que escapa ao processo de vigilância constante dos policiais, em contrapartida, na escola, o disciplinamento pressupõe fechar-se num espaço, cumprir horários, seguir ritmo predeterminado e estar em permanente vigilância. Assim sendo, é fundamental entender que os entraves existentes na relação desses dois espaços, onde a escola é constituída por uma lógica oposta à lógica vivida na rua, fazem com que a escola não apareça como possibilidade para esses adolescentes de rua. Assim, diante da organiza- ção, da estrutura e das relações estabelecidas na maioria das escolas bra- sileiras atualmente e da falta de condições e possibilidades proporcionadas pela vivência na rua, os direitos desses adolescentes não são garantidos. O direito à educação prescrito por diversos dispositivos legais (ECA, LDB) é privilégio de alguns, os quais podem ser parte considerável da população infanto-juvenil, mas não de “todos”, como defendem as leis.

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Essa população excluída somente consegue se inserir na escola mediante a boa ação de alguém ou quando participa de um programa de

atendimento que a obriga a freqüentá-la. Mesmo os que conseguem se inserir na escola evadem-se dela, por causa dos mecanismos de exclu- são existentes no processo escolar. Concorda-se com Freire (apud VALE, 1992, p.59), quando ele

é possível se fazer educação popular na escola pública e

não só é possível, mas deve-se”. Para que isso aconteça, além de ou- tras coisas, é preciso alterar a organização e a estrutura escolar e suas relações, de modo a criar mecanismos que não só garantam o acesso dessas crianças e adolescentes das classes populares à escola e sua permanência nela, mas principalmente mecanismos de participação efetiva deles, em que se contemplem aspectos da vivência de rua, va- lorize-se sua criatividade, cultura e suas necessidades. Desenvolver- se-ão, dessa forma, processos eficazes, participativos e emancipatóri- os no interior da escola, de modo que sua permanência nela possa ser vivência de mediação para o “pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho” (art. 53, ECA, 1994). Somente com escolas “dignas de gente”, como aponta Arroyo (1995, p.4), nas quais esses adolescentes sejam tratados como sujeitos de direitos e considerados em sua especificidade, e que lhes proporci- onem condição social mais humana, “a rua” poderá interagir efetiva- mente com “a escola” e essas crianças e adolescentes terão direito à educação garantido de fato.

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diz que “[

]

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(Recebido em maio de 2004 e aceito para publicação em dezembro de 2005)

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No salão vermelho: políticas para passageiros especiais *

Katiuci Pavei 1

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Resumo

Este artigo examina as políti- cas públicas implementadas em Por- to Alegre, relacionadas à utilização do transporte coletivo (ônibus), que pretendem beneficiar alguns passa- geiros considerados especiais. En- tende-se que essas iniciativas com- preendem a ação sobre a estrutura física do espaço e seu uso, e refle- te sobre os corpos dos passagei- ros, apresentando segregação físi- ca e simbólica entre eles.

Palavras-chave: Corpo, estigma, ônibus, políticas públicas, segregação.

Abstract

This article examines public po- licies implemented in 2003 in Porto Alegre, which was related to the use of public transportation (buses), and which aimed at benefiting some su- pposed special passengers. Such ini- tiatives were supposed to comprehend actions over the physical structure of space and its use, and they have con- sequences over the passengers’ bo- dies, leading to physical and symbo- lic segregation among them.

Keywords: Body, stigma, bus, public politics, segregation.

* In the red living room: politics for special passengers 1 Endereço para correspondências: Av. Paulo Gama, 110, prédio 12201, Porto Alegre, RS, CEP 90046-900 (katiucipavei@uol.com.br).

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90 — No salão vermelho: políticas para passageiros especiais

O ônibus é um meio de transporte muito utilizado por mim, cotidianamente, assim como por milhões de brasileiros 2 . Foi a partir de leituras em

antropologia do corpo, que passei a observar esse meio de forma dife- renciada e, assim, emergiram diversas questões socioantropológicas. Então, propus-me a analisar algumas dinâmicas que se realizavam nesse espaço e envolviam o aparente “simples” andar de ônibus na cidade de Porto Alegre, no ano de 2003 3 . Desse modo, neste artigo, discute-se a distribuição espacial dos passageiros como ocupação simbólica, uma vez que a estrutura física do ônibus é administrada por diversos atores soci- ais e pensada a partir de concepções socialmente elaboradas. Na metodologia, foram empregadas três técnicas: observação par- ticipante, análise de documentos e entrevistas semi-estruturadas. Reali- zaram-se as observações participantes dentro dos ônibus das quatro empresas operadoras da cidade em suas diversas linhas, com tempo de aproximadamente trinta horas. Os registros das observações foram fei- tos em diário de campo. Analisaram-se documentos oficiais, como legis- lação municipal, além de jornais e materiais, como encartes e cartazes, fornecidos pelos informantes. Já as entrevistas foram feitas com alguns atores envolvidos na re- alização do serviço de transporte coletivo: assessores da Empresa Públi- ca de Transporte e Circulação (EPTC 4 ), motoristas, cobradores e pas- sageiros. Para tanto, elaboraram-se roteiros de entrevista semi-estrutu- rada específicos para cada grupo de informantes. O grau de formalidade das entrevistas, os locais de realização, a duração delas e os meios utili- zados variaram de acordo com a disponibilidade dos informantes. A amos- tra compôs-se de forma semi-aleatória, sendo entrevistados: dois asses- sores da EPTC, responsáveis pelo setor de Atendimento ao Cidadão, no prédio da empresa, com uso de gravador (os consentimentos orais fo- ram gravados) e aproximadamente duas horas de duração; quinze motoristas e cobradores de ônibus, a maioria com conversas de curta duração, devido às circunstâncias em que ocorreram, dentro dos coletivos,

2 No ano de 2002, houve queda no número de passageiros transportados diariamente por ônibus em nível nacional de cerca de 75 milhões para 59 milhões de pessoas (O Estado de São Paulo, 03 jul. 2002).

3 A pesquisa ampliada constituiu minha monografia de conclusão de curso, defendida em janeiro de 2004 (PAVEI, 2004).

4 A EPTC é uma sociedade anônima, composta por capital 100% público, que tem a tarefa de atuar como braço operacional da administração municipal de Porto Alegre, no gerencia- mento do sistema de transporte e trânsito (EPTC, 2004b).

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Katiuci Pavei — 91

durante o horário de trabalho dos informantes e entre paradas de ônibus, com uso do diário de campo; cinco passageiros, em suas residências, com visitas agendadas (a partir de rede de relações) e entrevistas grava- das (com os consentimentos orais gravados), cada uma com aproxima- damente duas horas de duração. 5 O nome dos entrevistados foi substitu- ído por outro fictício no texto, visando a resguardar a privacidade deles.

Ônibus: corpos, espaços e noções em movimento

O ônibus caracteriza-se pela peculiaridade de ser um espaço em movimento e os corpos que nele ingressam ficam em trânsito, em rela- ção a certos referenciais. As pessoas que o utilizam estão em condição de passagem de um local para outro, permanecendo por esse tempo identificadas como passageiros. Por ser espaço compartilhado por seus passageiros, o ônibus é espaço social e marcado pelas dinâmicas das relações ali estabelecidas. Não são raras as disputas entre os corpos dos passageiros, pois eles têm de ocupar um local fisicamente limitado. Conforme os dizeres de uma passageira:

Depende do horário, num ônibus vazio, não tem problema, mas eu acho muito complicado andar

] Só

que tudo que for de tu ficar junto com um monte de gente, é uma convivência forçada horrível, porque as pessoas não se conhecem e tu tá ali. O espaço é

de ônibus. Isso porque às vezes é muito bom. [

aquele e seja o que Deus quiser e tem situações que

] (Milena, 25 anos).

tu é obrigado andar naquele [

Da Matta (1983, p.163 e 189) aplica a noção de espaço liminar de Turner (1974) aos meios de transporte coletivos e afirma que nes-

ses espaços “temos [

as”, porque é “justamente quando a massa não está nem em casa (onde se está integrado como pessoa numa família ou numa vizinhança),

5 Salienta-se que, na monografia, o tema estudado focalizava políticas públicas voltadas para passageiros especiais considerados obesos, nesse sentido, buscou-se não realizar entrevistas com eles dentro dos ônibus, pois não se pretendia gerar constrangimento a essas pessoas, devido ao tema estudado e à peculiaridade de esse local estar geralmente ocupado por vários passageiros. Manteve-se certa “delicadeza”, tanto nas observações quanto nas entrevistas, para não estigmatizar ainda mais as pessoas pertencentes a esse grupo.

o nível mais alto da liminaridade das pesso-

]

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nem no trabalho (quando a situação de estar e pertencer a algum lugar é mais forte)”. As pessoas estão desgarradas e individualizadas do grupo primário, permanecendo em posição de anonimato, atuando por meio de uma “identida- de geral” e com as conotações de usuários, passageiros ou transeuntes. Apesar de a categoria passageiros ter pretensões de ser homogê- nea e universal, a heterogeneidade que compõe a sociedade tem como local privilegiado de expressão os usuários desse tipo de transporte. Como espaço físico e social predominantemente coletivo, no ônibus, desenvol- vem-se dinâmicas próprias, que reproduzem noções da sociedade mais ampla, construídas a partir de disputas pelo poder. Nesse sentido, partindo-se do pressuposto de que os corpos podem ser entendidos como meio de expressão do sistema social, figurativa- mente representados como “um microcosmos da sociedade” (DOUGLAS, 1978, p.97), percebe-se que a coexistência de inúmeras pessoas no es- paço do ônibus possibilita que nele se expresse também a tensão entre as demais diferenciações sociais existentes, como idade, cor, raça, gêne- ro, classe social, ocupação, além de outras diferenças relacionadas à corporeidade e às noções acerca do corpo. Em relação à estrutura física, os requisitos de medidas em nível nacional para a carroçaria de ônibus urbanos são estabelecidas pelo Ins- tituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (IN- METRO), sob a responsabilidade do Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (CONMETRO, 1993). As medidas de referência e suas margens de tolerância padronizam o espaço, base- adas em valores médios da população, sendo que a estrutura física deve fornecer aos usuários as condições mínimas de conforto e segurança durante a trajetória. No entanto, vale lembrar que as noções de conforto, segurança e tamanho são elaboradas socialmente e dentro de contextos. Por se tratar de referências, as medidas físicas podem sofrer alte- rações a partir de novas demandas e de acordos estabelecidos entre representantes do setor público, como legisladores e administradores, e do setor privado, como as empresas fabricantes. Por exemplo, com o passar dos anos, houve modificação nos bancos, marcada pela substitui- ção da estrutura inteira por modelos que têm os assentos individualiza- dos, lado a lado. Tal mudança é percebida como positiva pela EPTC para os passageiros, pois, assim, evita-se que as pessoas encostem-se umas nas outras, o que pode diminuir o conforto individual.

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Além da estrutura física propriamente dita, também seu uso é con- vencionado por disputas de argumentos entre os atores sociais envolvi- dos na realização do serviço público de transporte coletivo, tais como:

prefeitura municipal, vereadores, empresas fabricantes, empresas per- missionárias 6 e seus empregados (motoristas, cobradores, fiscais etc.), além, é claro, dos passageiros. No entanto, por se tratar de serviço públi- co, a esfera estatal tem a maior autoridade decisória, assim, cada unida- de federativa elabora normas específicas em seus respectivos territóri- os. No caso do município de Porto Alegre, tais normas aparecem na forma de leis elaboradas pela Câmara Municipal de Vereadores e na forma de atos normativos infralegais (decretos, portarias, resoluções e instruções normativas), feitos pela administração, por meio da EPTC.

Políticas para ir e vir

Segundo a Constituição Brasileira de 1988, no art. 30 (BRASIL, 2003), e as normas do Direito Administrativo Brasileiro, o ônibus é um tipo de serviço público de caráter essencial. Todos os brasileiros têm direito à acessibilidade ao transporte público, mediante algumas contra- prestações, como pagamento de tarifas e respeito às normas de circula- ção. Assim, é efetivado o exercício do direito de ir e vir, que é direito civil conquistado, expresso na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no art. XIII (ONU, 1948), e garantido pela Constituição Federal Brasi- leira (1988), no art. 5º, inciso XV, como liberdade de locomoção. Como forma de ampliar a cidadania e promover os direitos de certos grupos, por exemplo, são criadas políticas públicas de inclusão, o que demons- tra que a cidadania não é intrínseca aos seres humanos, nem plena a todos. Em Porto Alegre, cidade que é (re)conhecida por seu caráter democrático 7 , foram elaboradas e aplicadas políticas públicas voltadas a determinados usuários do transporte coletivo, no que diz respeito à utilização dos ônibus.

6 Segundo as normas do Direito Administrativo Brasileiro, o ônibus é um tipo de serviço de transporte público concedido pelo Estado, na figura de suas unidades federativas (União, Estados e Municípios), às empresas operadoras ou permissionárias, que podem ser tanto públicas quanto privadas, via licitação ou concorrência pública. O regime de concessão e permissão da prestação de serviços públicos é previsto no art. 175 da Constituição Federal de 1988, e é regulado pela Lei 8.987/1995 (BRASIL, 1995). 7 Porto Alegre é conhecida nacionalmente e internacionalmente por suas iniciativas políti- cas, sociais e culturais, e tem o título de Cidade Cidadã. Exemplos disso são o Orçamento Participativo (forma de gerência das decisões orçamentárias com participação dos habi- tantes) e o fato de que ela foi sede de quatro Fóruns Sociais Mundiais.

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A EPTC (2004) considera esses passageiros de tratamento especial, de atenção especial ou, simplesmente, especiais. Eles são conhecidos por meio de cartazes colados nos ônibus e na pági- na na Internet da EPTC. No período de realização da pesquisa,

foram identificados nesse grupo: idosos com idade acima de 60 anos, pessoas portadoras de deficiência, gestantes, obesos, portadores de AIDS/HIV (em tratamento), ostomizados, menores vinculados à FASC (Fundação de Assistência Social e Cidadania) e FEBEM (Fun- dação Estadual do Bem-Estar do Menor) e acompanhantes de al- guns beneficiados, além de profissionais, no exercício da sua fun- ção, como os oficiais da Justiça Federal ou do Trabalho, fiscais do Ministério do Trabalho, carteiros, Brigada Militar, agentes da EPTC

e rodoviários. Cada grupo de usuários tem benefícios específicos e deve obe- decer a alguns procedimentos para que eles sejam efetivados. 8 Se-

gundo o Manual do cobrador da empresa pública operadora, os idosos, as pessoas portadoras de deficiência auditiva, visual, física

e mental, os carentes e os doentes isentos, além dos obesos e dos

ostomizados devem apresentar no ônibus, ao motorista ou ao co- brador, uma carteira que os identifique, para usufruir o beneficio. As carteiras são confeccionadas na EPTC, a partir do cadastra- mento do usuário, realizado mediante apresentação de alguns docu- mentos que comprovem que o solicitante realmente se encaixa em uma das categorias de beneficiados. Assim, a instituição mantém controle sobre esses usuários, evitando que outros se beneficiem diretamente nos ônibus. Todas as carteiras têm foto e prazo de validade, havendo a ne- cessidade de recadastramento para renovar o benefício. É interessan- te pensar o porquê da validade. Controle de beneficiários é o argumen- to da EPTC, mas há possibilidade de se pensar em outro aspecto, o entendimento da condição de beneficiado como transitória em alguns casos. Por exemplo, a carteira de obeso é válida por três anos, o que remete à idéia de que, nesse período, a pessoa faça tratamento que a cure da doença obesidade, diagnosticada por um médico endocrinologista.

8 Em anexo, apresenta-se um quadro, organizado a partir de dados retirados do site e de materiais informativos da EPTC, no qual consta a lista dos usuários “especiais”, seus direitos e suas obrigações.

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É como se a forma do corpo apresentada na corpulência não pudesse ser fruto de escolha pessoal, e sim um diagnóstico realizado via cálcu- los, como o índice de massa corporal (IMC) 9 , entendido como proble- ma de saúde pública, que deve ser tratado. Esse discurso atualmente está em evidência na sociedade ocidental, cunhada como “lipófoba” por Fischler (1990; 1995) devido a uma obsessão pela magreza e rejei- ção quase maníaca à gordura e à obesidade. Ainda, cada tipo de car- teira tem cor específica, que demarca o grupo de beneficiados: azul para idosos, alaranjada para pessoas portadoras de deficiência, caren- tes e doentes isentos e verde para obesos e ostomizados. Apesar das diferenças de benefícios, como a isenção de pagamen- to da tarifa apenas por alguns usuários, a isenção de passar pela roleta é beneficio comum a todos, sendo que foi implementada uma nova política pública voltada especificamente aos passageiros especiais, que visa a garantir um espaço reservado dentro dos ônibus, a Área preferencial.

Área preferencial: o salão vermelho

Em 1999, em Porto Alegre, implementou-se o processo de inver- são do fluxo de entrada e saída de passageiros dos ônibus. Hoje, en- tram todos os passageiros pela porta da frente, exceto aqueles que estão em cadeiras de rodas, que utilizam a porta lateral dos ônibus adaptados, os usuários específicos e os rodoviários uniformizados, que podem entrar pela porta traseira, mediante a presença de um fiscal da empresa ou agente da EPTC. Os motivos para a alteração do fluxo foram diversos. Segundo as falas de cobradores e materiais de divulgação das empresas operadoras, a entrada pela porta dianteira gera aumento da segurança. Nesse sentido, pode-se estender aos ônibus o entendimento de Douglas (1976) acerca dos limites externos, pois esse tipo de veículo coletivo é um meio físico constantemente exposto à exterioridade e suas margens – portas de entra- da e saída –, que constituem seus limites com o externo e permanecem abrindo-se e fechando-se para os passageiros. Desse modo, o ônibus é local considerado vulnerável aos “perigos externos”, como assaltos.

9 O cálculo do IMC relaciona dois indicadores antropométricos, o peso e a altura dos indiví- duos, sendo a fórmula IMC = Peso atual (em kg)/altura 2 (em metros). Após obter seu IMC, a pessoa é classificada de acordo com uma tabela que diagnostica se ela é saudável ou obesa (BRASIL-MS, 2004).

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Como ilustração disso, apresentam-se os dizeres do cartaz da cam- panha da operadora pública, colados nos ônibus:

Embarque Nessa: Embarcar no ônibus pela porta da frente é muito mais seguro. Evita acidentes no embarque; reduz o número de assaltos; melhora o controle de isenções e gratuidade; facilita o ato de dirigir do motorista. Faça a sua parte! Cola- bore com os cobradores passando a roleta, você garante o direito dos Idosos, Gestantes, Portado- res de Necessidades Especiais. O Transporte Co- letivo Sempre Pensando Em Você.

Com as modificações, a roleta passou a situar-se mais próxima da porta dianteira, limitando uma área com cerca de três a quatro metros, na qual há entre nove e doze bancos, dependendo da linha. Segundo a EPTC, o número de assentos dianteiros foi determinado por meio de um estudo realizado pela prefeitura, que levantou a média de quantas pesso- as ficariam antes da roleta. No entanto, não foram repassados maiores dados sobre esse estudo, nem sua localização para consulta direta. Parte desses assentos dianteiros, os vermelhos, que até meados de 2003 eram, no mínimo, cinco, estavam reservados para uso preferencial de certos passageiros, conforme apresentado em cartazes colados nos ônibus: ido- sos, portadores de deficiência (PPD) auditiva, física, mental e visual per- manente, gestantes e obesos. Ratificando essa idéia de divisão de áreas, em 30 de junho de 2003, com a iniciativa do Conselho Municipal do Idoso de Porto Ale- gre, que acionou o Ministério Público, a Secretaria Municipal de Trans- portes lançou uma nova resolução (Res. n.06/2003). De acordo com o ato normativo, todas as empresas operadoras do Sistema de Transpor- te Coletivo de Porto Alegre são obrigadas a disponibilizar em todos os veículos da frota, no mínimo, nove lugares na parte dianteira, que são destinados a uso preferencial de pessoas portadoras de deficiência, idosos, gestantes e obesos. Assim, essa área é de uso preferencial desses usuários. Ainda, há o cartaz com os dizeres: “Área e assentos preferenciais para Pessoas Portadoras de Deficiência, Idosos, Gestan- tes e Obesos”, e todos os bancos estão identificados com a cor verme- lha, além de haver faixas da mesma cor no teto e no assoalho do ônibus.

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Tal área, descrita como de preferencialidade, é chamada internamente pela EPTC como “Salão Vermelho” (Assessor 1, EPTC). A cor é ver- melha para chamar a atenção, sendo esse padrão internacional. A divulgação dessa iniciativa deu-se principalmente pela imprensa, como no jornal Correio do Povo (01 jul. 2003 e 02 jul. 2003), que trouxe as respectivas manchetes: “Medida garante espaço preferencial nos ônibus” e “Passageiros especiais ganham espaço maior” (02 jul. 2003). Também foi realizada pela EPTC uma campanha de esclarecimento, no Largo Glênio Peres (centro da cidade), com distribuição de panfletos com as seguintes chamadas “No ônibus temos lugar especial!” e “Área preferencial do ônibus: uma questão de respeito e solidariedade”, acom- panhando uma foto de quatro pessoas idosas. Uma campanha promovida por outra operadora também apelava para a solidariedade entre os passageiros, com o seguinte cartaz: “Dê a preferência a quem precisa! Algumas pessoas têm uma fragilidade mai- or e precisam de nossa solidariedade”. Nesse sentido, surge a questão:

por que esses passageiros são considerados mais frágeis? Entende-se que tal fragilidade perpassa a condição física e a social.

Área preferencial: espaço de conflito

Percebe-se que, apesar de toda mobilização governamental, algu- mas situações problemáticas emergiram em relação à existência dessa área demarcada. O primeiro problema gerado foi o congestionamento da parte dianteira, porque antes de passar pela roleta, os passageiros usuais disputam o mesmo espaço com os passageiros especiais. Visan- do a melhorar essa situação, a prefeitura municipal, no programa Conví- vio, pôs cartazes nas linhas da empresa pública, como parte da campa- nha “Um passinho à frente por favor”, com a seguinte orientação: “Se você não possui isenção de tarifa, passe a roleta e colabore com a circu- lação interna do ônibus”. Outra questão refere-se à exposição dos passageiros, devido à en- trada de todos pela porta dianteira, já que os demais observam o que está acontecendo na área preferencial. Em observação, percebeu-se que apre- sentar uma carteira e não passar a roleta, o que ocorre com a maioria dos passageiros especiais, chama a atenção das outras pessoas que estão no ônibus, não sendo raros comentários e questionamentos feitos por passa- geiros e funcionários sobre os motivos alegados para ganhar o benefício.

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Há dúvidas sobre a real necessidade de alguns usuários, como foi pre- senciado nos comentários de dois cobradores, o primeiro, sobre a carên- cia de um jovem negro, considerado por ele bem vestido, e, o segundo, sobre um homem de meia-idade com aparência saudável, que apresen- tou a carteira com a inscrição “Portador de HIV”. Também há possibilidade de conflitos entre os próprios sujeitos que têm direito de usufruir a área reservada, pois ela é, de certa forma, pe- quena em relação ao rol de beneficiados. Ilustra essa tensão a carta que um leitor enviou ao jornal Correio do Povo (23 nov. 2001):

IDOSOS “Até quando os idosos serão discriminados, fi- cando encurralados como em um brete, onde tam- bém ficam gestantes, policiais, obesos, funcioná- rios dos Correios, etc.? Os idosos, que tanto já fizeram pelo nosso país, merecem um pouco mais de dignidade ao se locomoverem pela nossa que- rida Porto Alegre”. A.M.S., Porto Alegre.

Vale destacar que reclamações semelhantes a essa e outras refe- rentes à altura dos bancos reservados, ao desconforto com a entrada de quase todos passageiros pela porta da frente e à aglomeração de pesso- as na área preferencial permanecem recorrentes nas sessões de cartas enviadas pelos leitores aos jornais gaúchos. A EPTC informou que a inversão do fluxo de entrada faz parte do processo de instalação do sistema de bilhetagem eletrônica nos ônibus. Nesse novo sistema, todos os passageiros utilizarão um cartão eletrôni- co. Esse mesmo sistema está sendo implementado na cidade do Rio de Janeiro e é considerado um avanço tecnológico, equiparado aos modelos de organização do transporte urbano mais modernos do mundo. Nos dizeres de Lélis Marcos Teixeira, presidente da Rio Ônibus, do Rio de Janeiro, “esse processo dará maior dignidade aos idosos, aos estudantes e aos deficientes físicos” (O GLOBO, 03 jun. 2003). Nesse sentido, além da parte prática da utilização do serviço, também questões que dizem respeito à própria dignidade de parte dos usuários seriam con- templadas com o sistema de bilhetagem eletrônica, pois se evitaria o que aqui se entende como segregação espacial dentro do ônibus. Então, a bilhetagem eletrônica seria a solução para essa questão?

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Para alguns passageiros, sim, mas, para outros, não. Segundo a EPTC, não haverá mudanças na estrutura e nas medidas da roleta, conseqüen- temente, restarão apenas dois bancos na área de entrada, que serão de uso preferencial para gestantes, obesos e pessoas ostomizadas, pois, nos dizeres do assessor da EPTC: “Esses três grupos não passam a roleta por questões físicas” (Assessor 1, EPTC). Percebe-se que as dificuldades enfrentadas pelos passageiros mais gordos nos ônibus são semelhantes às de outro grupo social, o de mulhe- res grávidas, porque ambos estão com as medidas do corpo acima da média instituída e por isso não passam pela roleta. No entanto, na nossa sociedade, o significado social da gravidez é mais positivo do que o da obesidade. Além disso, a gestação é um período temporário, em que o nascimento do bebê determina o fim da condição de estar grávida. Antes da alteração do fluxo, com a entrada da maioria dos passa- geiros pela porta traseira, os usuários especiais entravam pela porta da frente e tinham a sua (possível) disposição alguns assentos reservados. Mas esses usuários poderiam ocupar outro lugar no ônibus, pois a área era maior, devido à localização da roleta na parte traseira do veículo. Assim, havia a possibilidade de mais contato entre os passageiros, dife- rentemente de o que ocorre hoje em dia.

Roleta: divisor físico e simbólico

A roleta, também conhecida como catraca ou borboleta, é instru- mento de metal que passou a ser utilizado em Porto Alegre na década de 1970. Antes disso, a cobrança das tarifas era feita pelo motorista, via depósito em um aparelho chamado contador. Assim, na tentativa de ga- rantir o controle da cobrança, uma vez que o serviço é tarifado, a roleta tornou-se o marcador da divisão estrutural interna do ônibus, pois, de um lado, está a mesa do cobrador e, do outro, uma parede de metal formada por barras, sendo que, por ela, deve passar a maioria dos passageiros, salvo exceções aceitas, como isentos e crianças menores de seis anos, as ocasionalmente aceitas, como pessoas com muitas sacolas e com crianças (que pagam a tarifa e saem pela porta da frente), e as não- aceitas, como passageiros que tentam passar por cima ou por baixo da roleta sem rodá-la (não contabilizando assim a passagem). Essa última ação é cada vez mais coibida, com o aumento da altura das alças do instrumento, que ficam a aproximadamente 30cm do assoalho.

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A partir disso, com as iniciativas governamentais que geraram mu-

danças na estrutura física dos ônibus e a nomeação de uma área reser- vada a determinados grupos, a roleta ganhou papel ainda maior na se- gregação dos corpos, tornando-se barreira de integração física e simbó- lica entre os passageiros e seus corpos físico-sociais, realizando o que aqui é chamado de “Apartheid corporal”. Assim, podem passar por esse “portal” os usuários normais, e são barrados aqueles que, devido a algu- mas peculiaridades físicas ou econômicas, permeadas por conotações morais, não estão incluídos na normalidade. Remetem essa situação e as demais observadas nos ônibus à idéia de transpor algo visando a integrar-se ao grupo dos passageiros comuns, vencendo-se a diferenciação ou especialidade. Nesse sentido, a roleta – divisor físico e simbólico – precisa ser ultrapassada de qualquer forma, como esclarece o relato de cobradores sobre usuários que ficaram “pre- sos” ou se machucaram ao tentar passá-la. Em sua fala, o assessor da EPTC apresenta a situação de passa- geiros obesos que, apesar da dificuldade, passam pela roleta, o que usu- almente mais acontece: “Então, se eu vou pagar a tarifa e me acho constrangido em ficar ali na frente junto com os idosos e outros isentos, eu, se puder passar a roleta, vou passar” (Assessor 1, EPTC). Essa fala remete a pensar: Por que é constrangedor ficar na frente? Entende-se aqui que, atualmente, na nossa sociedade, ser “idosos,

portadores de deficiência (auditiva, visual, física, mental), carentes, do- entes”, como são apresentados os passageiros