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Carta Caio Fernando Abreu.

Carta Caio Fernando Abreu a Hilda Hilst.
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Porto Alegre, 29 de abril de 1969.

Querida Unicórnia, acordei hoje com a mão de minha mãe me entregando a tua carta. Rasguei o
envelope, frenético, não esperava tanta coisa, fiquei surprêso com o Osmo, que não estava planejado,
decidi não ir à faculdade, ficar lendo. Afundei manhã, esqueci de tomar café, não almoçaria se a família
indignada não viesse em pêso saber os porquês do meu estúrdio procedimento, acabei de ler recém, duas
horas da tarde, de uma enfiada só, o Osmo, o Unicórnio e o Lázaro. Sei que tu não gostas do Caetano
Veloso, mas vais ter que desculpar a citação: tem uma música dele, "É proibido proibir", em que ele
aconselha a “derrubar as prateleiras, as estantes, louças, livros”, e fala que toda renovação tem que partir
de uma destruição total, não só de valores pequeno-burguêses (as louças) ou materiais (as prateleiras e as
estantes), mas também de valores abstratos (os livros), de conceituações estéticas ou artísticas que
viciaram a cuca do homem moderno — daí parte para o refrão, onde diz que é proibido proibir qualquer
tentativa de renovação, que é proibido ter limitações morais ou quaisquer outras para que se possa fazer
alguma coisa — e não sòmente em termos de arte — realmente nova. Bem, o teu Osmo é exatamente isso
(não sòmente o Osmo, mas todo o Triângulo —mas vou me deter mais nele porque ainda não tinha lido).
Você bagunça o corêto total, choca completamente a paróquia, empreende a derrubada de toda uma
estrutura já histórica de mal-entendidos literários. Você ignora a “tôrre de cristal”, o distanciamento da
obra e do leitor; você faz montes para a dignidade da linguagem, o estilo, as figuras, os ritmos. E isso é
GENIAL, muié. Comecei o Osmo rindo feito uma hiena, acho que nunca li nada tão engraçado em tôda a
minha vida, mas, você sabe, o humor em si não basta, pelo menos pra mim. Quando a coisa é pura e
simplesmente humor, fica um enorme espaço vazio entre a coisa e eu: sòmente as risadas não enchem
esse espaço. Por isso eu ria e me preocupava: meu Deus, será que ela vai conseguir?
Aí, quando a minha preocupação com o excesso de humor estava no auge, começaram a aparecer no texto
os “elementos perturbadores”: a estória do Cruzeiro do Sul (ninguém vai desconfiar jamais que você viu
MESMO aquilo), o “grande ato”, a lâmina, os pontos rosados. E imediatamente o texto sai da dimensão
puramente humorística para ganhar em angústia, desespero. A coisa cresce. O tom rosado do início passa
para um violáceo cada vez mais denso, até explodir no negror completo, no macabro.

Existem três círculos na estória, como um quadro abstrato. Assim: as gradações lentas,
imperceptíveis, até aquele centro terrível. E toda a leitura se faz no mesmo sentido com que pintaste-
escreveste o quadro-novela — de fora para dentro, atentando sem atentar propriamente para as
imperceptíveis mudanças. A chegada até o centro exige do leitor uma mudança de postura, inclusive
física. Comecei esticado na cama, despreocupado, mas aos poucos fui me inteiriçando todo, com um
pânico que nascia das pontas das unhas até “as pontas tripartidas dos cabelos”. Quando terminei, estava
todo tenso e trêmulo, dividido em dois: um não querendo admitir o macabro da situação; outro sabendo
que não podia ser de outro jeito, compreende? Acho que existe um ponto de contato entre o Osmo e o
Estrangeiro — muito mais acentuado do que entre o Osmo e o Beckett. Com Beckett, as semelhanças são
meramente de linguagem, externas, e assim mesmo Beckett não é o dono dêsse tipo de prosa, você o
encontra também em Salinger e em vários outros que no momento não lembro. Com o Estrangeiro as
semelhanças são mais íntimas: assim, num e noutro, tudo aquilo que parecia, no início, dispersão,
futilidade, vazio (se bem que gostosíssimo de ler), no final se arma bruscamente para atuar contra o
personagem. As coisas que êle conta que fez e pensa de repente dão a medida de toda a sua estrutura
interna. Exatamente como num quebra-cabeças — a imagem é batida e já virou lugar-comum, mas não
posso fazer nada se o Osmo é isso mesmo: um quebra-cabeça a que uma das partes (no caso, uma das
frases ou mesmo uma das palavras) tornaria incompreensível, por incompleto. E o completo, que é
compreensível, é o perfeito. Deus, por exemplo, é completo, mas incompreensível (pelo menos, a idéia de
Deus), daí não ser perfeito. Mas se você pega uma árvore, ela é completa e compreensível e, em
conseqüência, perfeita. Tôda essa satisfação para dizer que acho o Osmo perfeito. Mas um perfeito novo,
até agora: não aquela perfeição fria de, por exemplo, A crônica da casa assassinada, ou da Maçã no
escuro. Essa é a perfeição cronometrada, medida, sólida, inabalável. Você faz o imperfeito insólito, o
perfeito difuso. Não sei mais o que te dizer. Não conheço nada de tão novo na literatura brasileira como o
teu Triângulo. Você vê o que temos: a coisa rasa, inexpressiva e jornalística de Dalton Trevisan —
limitada; a dignidade marcial de Clarice — limitada; a impenetrabilidade e o regionalismo de (que Deus o
tenha) Guimarães Rosa — limitada; as tragédias familiares em que Lygia insiste e que Lúcio Cardoso já
havia esgotado. E de repente você escreve um negócio (três negócios, Unicórnio, Osmo e Lázaro) com-
ple-ta-men-te descontraído. Liberto da silva. Sem barreiras morais, políticas, religiosas, sem preocupação
de tempo ou espaço. A liberdade total, mas não a liberdade porra-louca que conduz, no máximo, ao vazio,
mas a liberdade que diz coisas que podem-ser, podem-não-ser, que dá ao homem a noção do seu estar-
solto no mundo. Você incomoda terrívelmente com essas três novelas. Aqueles coitados que, como eu,
têm o ritmo marcial da prosa ficam de cuca completamente fundida, neurônios arrebentados,
recalcadíssimos, frustradíssimos, confusíssimos. É uma maldade você fazer isso. Maldade porque os que
também escrevem de repente percebem que tudo que fizeram não tem sentido, porque de repente precisa
derrubar todas as prateleiras íntimas e começar uma coisa nova. Uma maldade necessária, uma maldade
astronáutica por assim dizer. Sim, porque você já pensou se, de repente, a gente tiver uma prova concreta
de que existe vida num outro planêta, uma vida diferente da nossa, com valores diversos, com liberdade
absoluta — já pensou? Nós, os terrestres, vamos morrer de inveja, vamos nos sentir completamente
primitivos, primários, estúpidos e vamos ter que renegar toda essa estrutura terrestre. Pois as tuas novelas
são isso — um mundo novo. Fascinante e frustrante.

Quanto ao Lázaro, é ótima a solução que arranjaste. E vê que estranho, inconscientemente,


retrataste no Lázaro essa coisa que falei aí em cima: Lázaro é o pasmo diante duma coisa inesperada. isso
gera a solidão mais absoluta que se possa imaginar. Das três, acho Lázaro a mais amarga; o Unicórnio, a
mais desesperada; Osmo, a mais macabra. Qualquer uma delas, um sôco. Um “pum” no nariz dos críticos
e da sociedade. Sem ser panfletária nem dogmática, você é a criatura mais subversiva do país. Porque
você não subverte, polìticamente, nem religiosamente, nem mesmo familiarmente — o que seria muito
pouco: você subverte logo o âmago do ser humano. Essas três novelas são uma verdadeira reforma de
base. Quem lê, tem duas saídas: ou recusa, por covardia e medo de destruir todo um passado literário; ou
fica frenético e põe os neurônios a funcionar, a pesquisar nesse sentido. Ficar impassível, tenho certeza
que ninguém fica.

Eu fiquei frenético, pus os neurônios a funcionar e vou começar a pesquisar nesse sentido. Desde
que cheguei, não escrevi nada. Absolutamente NADA. Estive relendo coisas minhas e de outros para
descobrir novamente aquilo que falamos uma vez: estou completamente cerceado dentro dessa
linguagem. De tudo o que escrevi, só reconheço como uma tentativa de libertação O ovo, que tem muita
coisa em comum com o Osmo. Talvez A sereia, mas acho que este ficou apenas no cômico, ao passo que
O ovo transcende essas fronteiras e vai até o absurdo. As tuas novelas me causaram pruridos. Não tenho
medo de derrubar tudo o que fiz e partir para algo na mesma linha tua, penso no teu exemplo, começando
a fazer coisas completamente opostas à tua poesia, que era tão ou mais digna que a minha prosa. Detesto
coisas dignas, impecáveis, engomadas, lavadas com anil: aceito nos outros, levando em conta, inclusive, o
tempo em que foram feitas. Mas não é mais tempo de solidez: a literatura tem que ser de transição, como
o tempo que nos cerca. Estamos (os literatos) um passo, ou muitos passos, atrás das outras artes: veja a
arte cinética, o cinema de Pasolini, de Polanski, o teatro de Beckett, de Jonesco, a música dos Mutantes.
Estou com a cabeça feito sonrisal, toda borbulhante.
[...]

São cinco horas. Está muito quente acho que vai chover. As crianças estão vendo televisão na sala,
meu irmão está estudando economia. Uma vontade louca de estar perto de vocês, uma hora que fosse.
Não há de ser nada, julho está aí mesmo. Se eu fosse bilionário, todos os fins de semana tomava meu
avião particular e ia visitar vocês. Espero que Dante tenha dado conta de seu tronco de eucalipto. Um
abraço bem grande para ele. Outro para Madame Soininem. Aninha, Dodô, Sola Macaca, Flika, Carlota,
Pépi-papéti — todos em mim. Lembranças
Caio Fernando Abreu

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