A Química dos Combustíveis Florestais

Para melhor compreender uma reacção de combustão importa conhecer a composição química dos intervenientes. Nos incêndios florestais os combustíveis são o material vegetal vivo e morto, cuja constituição se pode descrever genericamente.

Nuno Leitão

Um combustível é uma qualquer substância ou mistura composta susceptível de entrar em ignição e combustão. Para compreender a combustão nas florestas é importante conhecer a constituição química dos combustíveis existentes. Os combustíveis florestais resultam de arranjos complexos de celulose, hemiceluloses e lenhina, aos quais ainda se juntam uma série de extractivos, minerais e água. Apesar de toda a fitomassa, material vegetal vivo ou morto, ser potencialmente combustível, num incêndio florestal não é consumida na sua totalidade.

A celulose (C6H10O5)n é o principal constituinte dos combustíveis florestais, representando cerca 50 a 65% da fitomassa total de um ecossistema florestal. É um hidrato de carbono constituído por cadeias de 15000 a 20000 unidades de glucose, com peso molecular variável de 300000 a 500000. O calor de combustão da celulose é de 3850 cal/g.

As hemiceluloses (pentosanas, hexosanas, poliuronídeos) são também polissacáridos como a celulose, mas são cadeias de glucose mais curtas. As hemiceluloses constituem 15% a 30% do material lenhoso. O calor de combustão das hemiceluloses é igual ao da celulose, mas bastante menor que o da lenhina ou o dos extractivos.

A lenhina é um polímero aromático, composto por quatro ou mais monómeros de fenilpropano em cada molécula, existindo várias formas de lenhina, em que os pesos moleculares variam de 400 a 960. A lenhina é o material que confere a rigidez à madeira e possui calor de combustão de 5860 cal/g. No entanto, arde principalmente por combustão incandescente, ou seja, por combustão sem chama, e assim, pouco deste calor contribui directamente para a propagação da frente do fogo, embora contribua para a determinação da sua intensidade. A lenhina constitui cerca de 25% a 35% do peso seco do combustível nas florestas de coníferas e 16% a 25% no caso de folhosas, mas como é mais resistente do que a celulose à degradação biológica e

Arbustos de regiões áridas. álcoois gordos e fitoesteróis. em geral. solúveis em éter. O teor médio de cinza de agulhas. As resinas são substâncias químicas não-voláteis. As cascas das plantas contêm mais minerais e as folhas e as agulhas ligeiramente mais ainda. são casos excepcionais. A grande quantidade de energia térmica libertada na combustão dos gases inflamáveis produzidos pelos extractivos. sódio (Na) e fósforo (P) podem intervir activamente nas reacções de . O teor em minerais nos combustíveis naturais. varia entre 0. que explica a sua combustibilidade mesmo com teores de humidade muito elevados. Podem formar misturas voláteis inflamáveis bastante adiante da frente do fogo. Também as variações sazonais de inflamabilidade observáveis em muitas formações vegetais têm a ver com flutuações do teor de extractivos. e encontram-se especialmente em folhas e ramos finos. São emitidos sob forma gasosa logo no início da pirólise e queimados na zona de chama. excluindo a sílica. Esta proporção revela uma diferente combustão para a madeira que está em decomposição nos solos das florestas. como Atriplex e Tamorix. mais do dobro da celulose. e basta haver um dia quente para serem responsáveis pelo cheiro característico dos pinhais nestes dias. que podem atingir os 40% de minerais em peso seco (são menos combustíveis). Os minerais têm um papel importante na combustão. permite elevar o calor de combustão a níveis que induzem a pirólise da celulose e outros materiais. sobretudo o potássio (K). folhas herbáceas e de árvores e arbustos caducifólios varia entre 5 a 10%. inferior a 2%.térmica. mas sendo. dividem-se em duas classes particularmente importantes para a combustão nos incêndios florestais: os terpenos e as resinas. É a presença de extractivos. compostas principalmente por gorduras. Os terpenos são polímeros de isopreno (C6H12)n. na madeira decomposta chega a representar 75%. ácidos gordos. variando o teor de espécie para espécie. Quanto aos extractivos. embora se encontrem em pequena quantidade nos combustíveis florestais. Os minerais. Os extractivos considerados conjuntamente têm calor de combustão de 7720 cal/g. atingindo os 6% apenas em algumas espécies dos géneros Cedrus e Pinus. Têm ponto de ebulição muito baixo. em quantidades relativamente altas em agulhas e folhas vivas.1% e 3% e o teor em cinza da madeira é geralmente inferior a 2%. derivado de um pequeno “investimento” em energia de pré-aquecimento.

a sua redução implica menor intensidade do fogo. excluída a sílica. Devido ao facto de a sílica ser inerte. . Tem sido sugerido que são os fosfatos os principais responsáveis pela supressão da inflamabilidade. pelo que se usam como ingredientes activos em muitas caldas retardantes. do que o teor total em cinza das plantas. Como estes são importantes contribuintes de energia para a formação das chamas. causando um aumento da produção de resíduos carbonosos e diminuição da produção de alcatrões. a proporção de cinza.pirólise e combustão. apresenta melhor correlação – inversa – com a inflamabilidade.

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