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PerCeBer Mulher

Partido Comunista Brasileiro www.pcb.org.br

N° 244 – 26 .01.2012

.

para.

Esquema de poder fortalece capitalismo

Atenção O PCB do Paraná convocou reuni- ão estadual a se realizar em Curiti- ba na tarde do dia 11. Por conta disso, a reunião administrativa do Comitê Municipal de Cascavel será antecipada para o dia 4

Em plena crise, uma economia frágil sob a ameaça de dívidas

crise, uma economia frágil sob a ameaça de dívidas Classe C: endividamento e desaceleração do crescimento

Classe C:

endividamento e desaceleração do crescimento

Venâncio de Oliveira*

Inadimplência é o crime que está freando o milagre econômico da era lulista: pessoas com dívidas não podem mais consumir para salvar a economia como fizeram em 2009. De acordo com dados do Serasa Experian (1), a ina- dimplência é a maior em nove anos (2). Pesquisas do IPEA (3) já vinham indicando a percepção das famílias sobre seu alto endi- vidamento. Talvez, em um futuro próximo, ter nome sujo vai deixar de ser uma desonra pessoal e pas- sar a versar em todas as famílias brasileiras.

E agora? O que significa exatamente esta rela- ção entre endividamento e crise? Para tentar aproximar-se dos meandros da arquitetura eco- nômica, sem cair em sua naturalização – vê-la como uma mecânica de ciclos – devemos partir

da política efetiva que para nós foi dos grandes

trunfos do tal deslocamento dos emergentes em relação à crise mundial. Um dos eixos da estra- tégia do governo do PT foi a inserção pelo mer- cado. A esquerda escolheu desenvolver e hu- manizar o modelo atual do capitalismo brasilei-

ro, sem rupturas, nem reformas estruturais (tan- to à esquerda como à direita).

O governo de coalizão trabalhou na linha de

programas que geraram um aumento do consu- mo e deslocou os dois extremos da escala de classes sociais, classificadas por orçamento fa-

miliares. O estrato social médio, entre R$ 1200,00 a R$ 2.400,00 (4) passou a ser mais representativo, isto é, a Classe C ganhou corpo e passou a ser 30% da população brasileira. Na outra escala, conforme a Forbes (5), também

aumentou o número de super-ricos no Brasil. Neste caso, é só observar as riquezas de figuras como Blairo Maggi e Eike Batista para ter-se uma dimensão deste crescimento, invisível nas estatísticas, em que os orçamentos milionários aparecem em meio aos da escala superior da classe média (6). Diversos programas de assistência social e tam- bém o aparecimento com força de massas e massas de crédito foram algumas das táticas desta estratégia. O consignado cobrado na folha de pagamentos de aposentados e funcionários públicos aqueceu mercados pequenos, gerou emprego e renda. Os bancos também liberaram recursos. O Plano Minha Casa Minha Vida aju- dou no endividamento. Isto gerou por um lado uma demanda efetiva, por outro, uma dívida que deveria ser paga, como já afirmamos outro- ra (7). Se não for, quem vai financiar o novo emprego e renda? Pois é da dívida do funcioná- rio que sai o dinheiro da quitanda que paga os atendentes contratados.

emprego e renda? Pois é da dívida do funcioná- rio que sai o dinheiro da quitanda
A grande questão desta estratégia de inserção pelo mercado é a manutenção do modelo gerado

A grande questão desta estratégia de inserção pelo mercado é a manutenção do modelo gerado anteriormen- te. Crescer num mercado em que os eixos de acumulação se dão principalmente por:

1) Agronegócio, monopólio da terra e exporta- ção de alimentos; 2) Especulação imobiliária e má distribuição da infraestrutura urbana; 3) Concentração bancária e imposição de altas ta- xas de juros, que ultrapassam o 100% ao ano para cheque especial e crédito, e mais de 200% ao ano no cartão de crédito; 4) Financeirização da economia e acumulação mundializada, pois uma disputa em nível internacional e um aque- cimento do mercado local geram, obviamente, chuva de capitais internacionais, sendo que a desnacionalização da economia já foi feita faz tempo, nem o capital brasileiro é nacio- nal; 5) mercado de trabalho instável e flexível. Estes fatores criam uma fórmula mágica de crescimento inconsistente. A demanda pela ex- portação de soja e o aquecimento da demanda popular geram inflação. Pois, se alimentos são exportados, casas são valorizadas por meio da especulação e os empréstimos são supervalori- zados pelos juros, o que podemos esperar desta nova classe C? Um sinal positivo gera valoriza- ção da economia brasileira e invasão de impor- tados. Bem como, com um mercado flexível, qualquer sinal negativo de concorrência

maior e inadimplência gera desemprego e desaceleração da economia. Já dissemos em outra ocasião (8) que seriam quatro fatores os embriões da crise no Brasil: 1) inflação, principalmente por conta da crise de alimentos, vindo a somar-se a valorização do preço de aluguéis e casas; 2) alto endividamen- to privado; 3) choques negativos da Europa e dos Estados Unidos; 4) possível choque de de- saceleração da economia chinesa. Somado a eles, o que vemos é uma retirada pontual do governo da economia, a velha política moneta- rista da qual não se retirou, mesmo depois de sua senilidade na análise da crise imobiliária, diagnóstico: inflação é aumento da demanda, principalmente pelos gastos públicos.

O que percebemos é que os dois primeiros pro-

cessos estão se desenvolvendo rapidamente, e foram influentes no ano, numa inflação de 6,5%, principalmente no item alimentação e bebidas - de 7,18%, medido pelo IPCA do IBGE (2012). O alto endividamento privado está em escalas históricas e podemos esperar

seu crescimento, depois da nova onda de flexi- bilização promovida pelo Banco Central.

O terceiro elemento mantém sua história de so-

lavancos pontuais, ameaça de calotes, tanto dos

Estados Unidos como dos europeus. O quarto elemento ainda é uma incógnita, mas cremos que depende muito do anterior, isto é, a caída de demanda dos países do centro capitalista (EUA, Japão e Europa) parece ter impacto so- bre a economia chinesa, e apresenta sintoma de crise de superprodução. Devemos estar atentos para os sinais vindos de fora, que podem gerar mais sobressaltos. As eleições de 2012 podem frear a desacelera- ção, sem, contudo, conter a inflação. Obras pú- blicas são de praxe para ganhar eleitorado, ge- rando demanda e emprego. Podemos esperar crescimento um pouco maior para este ano. Po- rém, até quando a estratégia de inserção de mercado, sem mudanças profundas, gerará seus frutos? Notas:

1) http://www.serasaexperian.com.br/index- novos-visitantes.html 2) Maior endividamento deve contribuir para desaceleração. Folha de S. Paulo – Poder – Eri- ca Fraga.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/19313-

maior-endividamento-deve-contribuir-para-

desaceleracao.shtml

3)

http://ipea.gov.br/portal/index.php?option=com

_content&view=article&id=3233&Itemid=33

4)

http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/orcfam/defaul

t.asp?z=t&o=23&i=P

5) Crescimento da economia do país cria 19 milionários por dia, diz "Forbes". Do UOL E- conomia, em São Paulo. 29/11/2011.

http://economia.uol.com.br/ultimas-

noticias/redacao/2011/11/29/crescimento-da-

economia-do-pais-cria-19-milionarios-por-dia-

diz-forbes.jhtm

6) Acima de R$ 10.000,00. 7) O Ajuste Fiscal não resolverá a inflação. Ve- nâncio de Oliveira, 27/01/1. http://www.correiocidadania.com.br/index.php?

opti-

on=com_content&view=article&id=5433:econo

mia280111&catid=26:economia&Itemid=58

8) A Economia Política Brasileira do Lulismo sem Lula. Venâncio de Oliveira, 21/12/2010. http://www.correiocidadania.com.br/index.php?

opti-

on=com_content&view=article&id=5323:econo

mia211210&catid=26:economia&Itemid=58

*Venâncio de Oliveira – Economista, trabalha no Ceicom (Centro de Investigación sobre In- versión y Comercio) – http://www.ceicom.org. Contato:venancio.comuna@hotmail.com

Morre a última

sobrevivente da cela 4

Luiz Antonio Riff*

Morre a última sobrevivente da cela 4 Luiz Antonio Riff* Beatriz Bandeira Ryff, aos 35 anos,

Beatriz Bandeira Ryff, aos 35 anos, com seus filhos gêmeos (1945)

Morreu, aos 102 anos, Beatriz Bandeira, a última sobrevivente da famosa cela 4 – onde foram presas, na Casa de Detenção, no Rio de Janeiro, en- tão Distrito Federal, as poucas mulheres que participaram da revolta comunista de 1935 no Brasil.

Foi na cela 4 que ficaram con- finadas Olga Benário (esposa do líder da intentona, Luiz Carlos Prestes), a psiquiatra Nise da Silveira, a advogada Maria Werneck de Castro e as jornalistas Eneida de Moraes e Eugênia Álvaro Moreyra. Por conta dessa passagem, Beatriz virou personagem de livros como “Memórias do Cárcere”, o relato biográfico de Gracili- ano Ramos, que também este- ve preso por causa da revolta.

Pouco antes, como militante comunista e da Aliança Nacio- nal Libertadora (ANL), Beatriz conheceu seu marido, Raul, que viria a ser jornalista e se-

cretário de Imprensa do gover- no João Goulart (1961-1964). Com ele se casou três vezes. Os dois foram exilados duas vezes. Em 1936, depois da li- bertação, foram expulsos para o Uruguai. Em 1964, após o golpe militar, receberam abri- go na Iugoslávia e, posterior- mente, na França.

Ao regressar ao Brasil, Beatriz continuou a militância política nos anos 70 e 80. Foi uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia e Liber- dades Democráticas, que lutou pelo fim da ditadura no País.

Beatriz nasceu em uma família positivista. Seu pai, o coronel do Exército Alípio Bandeira, foi abolicionista. Como mili- tar, trabalhou no Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e aju- dou o Marechal Cândido Ron- don na instalação de linhas te- legráficas no interior do País e no contato com tribos isoladas – Alípio liderou o encontro com os Waimiri Atroari em 1911, por exemplo.

o encontro com os Waimiri Atroari em 1911, por exemplo. Beatriz Bandeira Ryff, aos 90 anos

Beatriz Bandeira Ryff, aos 90 anos

Além de militante política, Be- atriz foi poeta (publicou “Ro- teiro” e “Profissão de Fé”) e professora (foi demitida pelo regime militar da cadeira de Técnica Vocal do Conservató- rio Nacional de Teatro). Tam- bém escreveu crônicas e cola- borou para o jornal A Manhã e as revistas Leitura e Momento

Feminino. Há dez anos ela contou um pouco de sua histó- ria em uma entrevista à TV Câmara. Beatriz morreu na noite de se- gunda, dia 2, após um AVC. Foi enterrada no final da tarde do dia 3 no Cemitério São Jo- ão Batista, em Botafogo.

Uma nota pessoal Beatriz Bandeira Ryff era mi- nha avó. Nos últimos anos de sua vida centenária a senilida- de tinha lhe tirado totalmente a visão. Ela quase não falava e mal se comunicava com o mundo.

Há uns dez dias, fui visitá-la levado pelo meu filho de 8 a- nos que queria dar um beijo na “bisa”. Encontramos ela mais presente do que em todas as visitas nos anos anteriores. Chegou a cantarolar algumas músicas que costumava emba- lar o sono dos netos quando pequenos, como os hinos revo- lucionários “Internacional”, “A Marselhesa” (embora ela tam- bém cantasse obras não políti- cas, entre elas a “Berceuse”, de Brahms).

Ao me despedir, perguntei-lhe se lembrava o trecho do poema “Canção do Tamoio”, de Gon- çalves Dias, que ela costumava recitar. Ela assentiu levemente com a cabeça e começou, pu- xando do fundo da memó- ria. Foram suas últimas pala- vras para mim.

“Não chores, meu filho; Não chores, que a vida

É luta renhida:

Viver é lutar.

A vida é combate

Que os fracos abate, Que os fortes, os bravos,

Só pode exaltar.” (“Canção do Tamoio”, Gonçalves Dias)

Cidade, emprego, ambiente, juventude: por um programa revolucionário Nenhum direito a menos, só direitos a
Cidade, emprego, ambiente, juventude:
por um programa revolucionário
Nenhum direito a menos,
só direitos a mais
Ajude um desempregado: reduza a
jornada de trabalho para 40 horas
Nenhum direito a menos, só direitos a mais Ajude um desempregado: reduza a jornada de trabalho

LUGAR DE MULHER É NA REVOLUÇÃO:

CONFISSÕES DE UMA CLANDESTINA

Resumo

Prof. Dr. Flávio José Gomes Cabral 1 Profª MS. Maria da Glória Dias Medeiros 2

Antônio Henrique da Silva Araújo 3

Este trabalho tem como objetivo pesquisar a vida de Alexina Lins Crêspo de Paula – ou simplesmente Alexina Crêspo – durante o período de 1964 até sua volta do exílio, em janeiro de 1980. Mulher que, em meados do século XX, desempenhou um importante papel no

cenário político do Nordeste brasileiro, principalmente no estado de Pernambuco, foi militante

do Partido Comunista do Brasil (PCB), e participou ativamente da estruturação do movimento

das Ligas Camponesas, desde o início, em 1955, vindo a se tornar diretora de Relações Internacionais da organização. Alexina recebeu treinamento de guerrilha em Cuba, participou

de reuniões com Fidel Castro, Che Guevara e outros dirigentes cubanos, bem como, na China,

com Mao Tsé-tung, Shou En-lai, entre outros membros do governo daquele país. Esposa e

companheira de militância política do deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) Francisco Julião, a principal liderança das Ligas Camponesas no estado de Pernambuco

e no Brasil. Mãe de quatro filhos, Alexina Crêspo, contrapondo-se ativamente ao

conservadorismo da época, desempenhou papel destacado na luta pelos direitos e a emancipação das mulheres, secularmente marginalizadas do cenário político do Brasil, tornando-se assim uma das principais referências femininas desse processo no país.

Palavras chave: Mulher, Humanista, Revolucionária.

Resumen

El objetivo de este trabajo es investigar la vida de Alexina Lins Crêspo de Paula – o sencillamente Alexina Crêspo – a lo largo del período desde 1964 hasta su regreso del exilio,

1 Professor do Departamento de História da Universidade Católica de Pernambuco. Doutor pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). gomescabral@uol.com.br

2 Professora do Departamento de História da Universidade Católica de Pernambuco. Mestra pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). gloria@unicap.br

3 Graduado em História pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap); pós–graduando em História do Nordeste do Brasil pela mesma Universidade antoniohenriques.a@hotmail.com

en enero de 1980. Mujer que, a mediados del siglo XX, jugó un importante papel en el escenario político del Noreste brasileño, sobre todo en el estado de Pernambuco, fue militante del Partido Comunista Brasileño (PCB) y participó activamente en la estructuración del movimiento de las Ligas Campesinas, desde su comienzo, el año 1955, llegando a la función de directora de Relaciones Internacionales de la organización. Alexina recibió entrenamiento de guerrilla en Cuba, participó en reuniones con Fidel Castro, Che Guevara y otros dirigentes cubanos, y asimismo, en China, con Mao Tse-tung, Chou En-lai, entre otros miembros del gobierno de aquel país. Esposa y compañera de militancia política del diputado federal por el Partido Socialista Brasileño (PSB) Francisco Julião, el principal liderazgo de las Ligas Campesinas en el estado de Pernambuco y en Brasil. Madre de cuatro hijos, Alexina Crêspo, contraponiéndose activamente a los valores conservadores de entonces, se destacó en la lucha por los derechos y la emancipación de las mujeres, secularmente puestas al margen del escenario político de Brasil, convirtiéndose así en una de las principales referencias femeninas de ese proceso en el país.

Palabras clave: Mujer, Humanista, Revolucionaria.

Este trabalho tem como objetivo analisar os desdobramentos relacionados à mulher, humanista e revolucionária Alexina Crêspo, como é por muitos chamada e cujo nome completo (por casamento com Francisco Julião Arruda de Paula) é Alexina Lins Crêspo de Paula. Uma mulher de convicções bem definidas, desde sempre forte, seja em seu papel como mãe, seja nos estudos, nas tarefas políticas, no trabalho. Rompendo a barreira do preconceito em uma época predominantemente machista e conservadora de nossa sociedade, em que a mulher era considerada um mero instrumento, um objeto do homem, destinada apenas à procriação e ao cuidado do marido, dos filhos e do lar, é principalmente na atividade político- ideológica que ela desempenha um papel importantíssimo ao liderar – articulada inicialmente com pouquíssimas pessoas – um grupo clandestino que se preparava para a luta armada em busca de mudanças essenciais para o povo brasileiro, a partir do trabalho de base das Ligas Camponesas nascidas no Nordeste do país. Na iconografia abaixo o casamento de Alexina Crêspo com Francisco Julia, 1º de Abril de 1943.

(Fig. 01 Alexina Crêspo e Francisco Julião 4 ) No início da atuação das Ligas,

(Fig. 01 Alexina Crêspo e Francisco Julião 4 )

No início da atuação das Ligas, os camponeses procuravam a casa da família, no bairro da Caxangá, em busca do apoio jurídico do advogado Francisco Julião ou de ajuda para a compra de um remédio, de alimentos, passagens de ônibus, entre outros motivos. Alguns chegavam feridos, com marcas de açoites nas costas, outros com ferimentos de certa gravidade, casos sempre relacionados à ação de jagunços contratados pelos “coronéis” que dominavam o interior daquela região do Brasil. Alexina não tinha formação médica, mas seu conteúdo humano sempre falava mais alto do que qualquer ciência, de modo que ela não hesitava em tratar daqueles camponeses, ou costurar uma roupa ou mesmo conversar com eles, esclarecendo quanto à reivindicação dos seus direitos. Revolucionária à frente de seu tempo, acreditou na causa: o socialismo, a liberdade do ser humano com dignidade. Tudo isso movida por um forte sentimento de genuína indignação diante das injustiças às quais o camponês era obrigado a se submeter a fim de conseguir o mínimo para alimentar sua família. Ao se referir àqueles tempos, Alexina Crêspo, modestamente, diz: “minha vida não era muito monótona 5 ”. As chagas dessa família resultaram do propósito de levar um pouco de esperança para centenas de seres humanos que ficaram à margem da sociedade, como ainda ocorre em nossos dias. Por essas e muitas outras razões, a história do engenho Galiléia –

4 Fonte: www.alepe.pe.gov.br/sistemas/perfil/parlamentares/FranciscoJuliao 05.09.2011 5 Entrevista concedida ao pesquisador Antonio Henrique da S. Araujo. Novembro de 2010.

página heróica da História do Brasil – não pode ser apagada como soe acontecer com as revoluções e os levantes populares em nossas “democracias”. Sobre o avanço das Ligas comenta Leonilde Medeiros

“O reforço das ligas com a vitória obtida provocou ampliação de sua base de organização, expandindo-se não só para outros municípios de Pernambuco, como também para outros estados. Em 1961 ela já tinha dez mil associados e cerca de quarenta sedes municipais 6 .”

As Ligas Camponesas constituem um verdadeiro exemplo de que com organização popular, ficam mais próximas do povo a esperança e a utopia (no real sentido do termo) que o impulsionam a seguir adiante, sabendo que um dia é possível enfraquecer e livrar o campo da mão esmagadora do latifúndio.

Em momentos de grande efervescência política no Brasil, principalmente do Nordeste do país, verificamos nas ações de Alexina Crêspo a preocupação essencial de organizar a classe trabalhadora no campo, onde contavam também com a cumplicidade (em seu significado positivo) do advogado Francisco Julião e do sociólogo Clodomir Moraes. É a própria Alexina Crêspo quem relata: “enquanto Francisco Julião cuidava da parte legal e institucional das Ligas Camponesas, eu e Clodomir Moraes cuidávamos da parte clandestina 7 . Foi a convite de Fidel Castro que Alexina Crêspo foi a Cuba, representando a mulher pernambucana. Tiveram passagens rápidas por outros países socialistas, URSS, Coréia do Norte, Tchecoslováquia e na China. Mas onde a família encontrou condições de adaptação foi em Cuba por ter condições climáticas e culturais parecida com o Brasil. A relação da família com Comandante Fidel Castro, era bem próxima como mostra a iconografia onde o casal Alexina Crêspo e Francisco Julião, encontra-se ao lado de Fidel Castro, aplaude a exibição do circo de Moscou, em Havana, em 1961.

6 MEDEIROS, Leonilde Sérvolo de. História dos movimentos sociais no campo. Rio de janeiro: FASE, 1989. P

45.

7 Documentário. Memórias Clandestinas, da cineasta Maria Thereza Azevedo.

(Fig. 02 Francisco Julião, Fidel Castro e Alexina Crêspo 8 ) O trabalho de Alexina

(Fig. 02 Francisco Julião, Fidel Castro e Alexina Crêspo 8 )

O trabalho de Alexina Crêspo é de fundamental importância, para a vida do movimento das ligas, principalmente sua ala clandestina. A preparação dos camponeses para uma possível luta armada foi intenso. Era quase inevitável que não acontecesse à luta armada no campo, por isso o preparo era necessário. Mas o golpe civil militar foi mais rápido, prendendo seus principais lideres, não dando tempo para uma possível reação. O golpe era esperado, mas os lideres das ligas camponesas não esperavam que ele viesse tão breve e arrasador para os movimentos no campo e na cidade. Sobre a organização das Ligas Camponesas no estado de Pernambuco. Comenta Vandeck Santiago sobre as ligas

“O início da década de 1960 encontrou as Ligas Camponesas em fase de acelerada expansão. Atingiram, praticamente, todo o Estado, embora suas lutas mais intensas fossem na Zona da Mata. Em determinado momento de

1961, chegaram a ter 10 mil associados e 40 sedes municipais, das quais as mais fortes eram as de Água Preta, Bom Jardim, Cabo, Escada, Goiana, Igarassu, Jaboatão, São Bento do Una e Vitória de Santo Antão. De 1960 a 1962 as Ligas estavam presentes em 13 dos 22 Estados brasileiros. Tornara- se o maior movimento agrário da História do País 9 ”.

No momento de deflagração do movimento golpista em Pernambuco, Alexina Crêspo

e sua família (filhos) encontravam-se em Cuba. Com o golpe de 64, a família foi impedida de voltar a Pernambuco. Ao deixar Cuba com a intenção de, no Chile, regressar para o Brasil.

Tiveram o pedido negado pela embaixada brasileira em Santiago. No Chile entraram em contato com o Partido Comunista Chileno, para articular um movimento de resistência com outros brasileiros que se encontravam em Santiago. O Chile que vivia um momento de grade euforia, com a subida do primeiro presidente socialista eleito através do voto, e que logo seria derrubado por uma ditadura do General Augusto Pinochet com o apoio da CIA (Agência Central de Inteligência Americana), massacre esse que entrou para História como 11 de setembro de 1973, com o assassinato do presidente Salvador Allender, no palácio presidencial. A família iria buscar refúgio nas embaixadas. Seu filho Anatólio, que era casado com uma mexicana, foi para a embaixada do México, onde foi morar logo depois. Alexina Crêspo

e seu outro filho Anacleto conseguem áxilo na embaixada do Panamá. Sua filha Anatailde foi

capturada na porta de sua residência em Santiago e levada para o Estádio Nacional, onde estavam vários outros presos políticos de varias outras nacionalidades, muito desses presos seriam torturados e mortos nos dias seguintes. Foi devido à ação do embaixador da Suécia, Harold Edelstam. Que travou uma verdadeira odisséia em busca de informações para encontrar Anatailde e resgatá-la com vida. A família voltaria a reencontra na Suécia, logo depois.

No Chile, Alexina Crêspo tenta montar uma frente para resistir ao golpe no Brasil, mas com a derrubada do presidente eleito democraticamente no Chile. Será na Suécia que Alexina Crêspo participará na associação de exilados, para da assistência aos que participaram da disporá provocada pela ditadura no Brasil. Voltaria com a família ao Brasil só no inicio da década de 80, beneficiados pela lei da anistia. Com o desmantelamento da Ligas Camponesas, Francisco Julião é capturado pela ditadura, o mesmo não defendia o enfrentamento armado contra a ditadura. Sua prisão foi em

9 SANTIAGO, Vandeck. Francisco Julião Perfil Parlamentar, Cape: Pernambuco 2001.p

1964 e libertado em seguida 1965, foi exilado no México onde ficou até 1979, quando foi decretado à lei da anistia. Ao retornar filia-se ao PDT onde tentaria uma cadeira na câmara federal em 1986, mas foi derrotado nas urnas.

A Liga Camponesa (SAPPP):

Os agricultores do Engenho Galileia, no município de Vitória de Santo Antão, estado de Pernambuco, fundaram, em 1955, a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco (SAPPP), uma entidade beneficente, assistencialista, para ajudar quem ali trabalhava como despesas com funerais, por exemplo, ademais de vislumbrar a melhoria da qualidade de vida e de trabalho na propriedade, lutando sempre contra a miséria, a fome, o analfabetismo, o cambão, o “engano” do lápis, o “pulo” da vara e outras armadilhas que o latifúndio usa desde sempre contra quem derrama o suor – e não raro o sangue – sobre a terra que deveria servir para o sustento e a dignidade de quem ali deixa a vida aos poucos. Segundo o autor Leonilde Medeiros ele comenta assim o surgimento das ligas

“A partir da década de 50, verificaram-se no nordeste profundas transformações nas relações de trabalho tradicionais, caracterizadas pela morada e pelo aforamento de terras. O rompimento dessas relações, com a negação da concessão de terras para o plantio próprio do trabalhador (sítio), ou por um aumento considerado abusivo do foro, criou condições para a emergência de conflito na região 10 .”

Com o avanço do processo de organização e conscientização dos (as) agricultores (as), o que não é tema deste artigo, passou-se a conhecer não apenas a SAPPP, mas qualquer núcleo de camponeses (as), como Liga Camponesa. Segundo o próprio Francisco Julião, o intuito da criação das ligas camponesas a principio “era fundar uma escola primária e formarem

um fundo para adquirir pequenos caixões de madeira destinados às crianças que, naquela região, morriam em proporções assustadoras 11 ”.

No engenho Galiléia, de 503 hectares, viviam em torno de 140 famílias em condições muito simples. Seus principais meios de vida eram a agricultura de subsistência e a criação de alguns animais para consumo, seja como alimento ou meio de transporte. Fundada a

10 MEDEIROS, Leonilde Sérvolo de. História dos movimentos sociais no campo. Rio de janeiro: FASE, 1989.p

46.

11 JULIÃO, Francisco. Que são as ligas camponesas?(coleção “Cadernos do Povo Brasileiro”) Rio de Janeiro:

Civilização Brasileira, 1962. p32.

Sociedade, foi convidado o dono do Engenho – o latifundiário Oscar de Arruda Beltrão – para ser seu Presidente de Honra, o que ele aceitou sem problema algum, até a chegada de seu filho, um odontologista que trabalhava no Recife, que disse ao pai que não aceitasse, pois os sócios da SAPPP eram, na verdade, um grupo de comunistas, e aconselhou-o a acabar com aquela entidade subversiva antes que seus integrantes lhe tomassem as terras. Os “galileus”, como são chamados até o presente, não desistiram da idéia, e continuaram com as reuniões até que o Coronel Oscar Beltrão passasse a expulsar dali quem continuasse a participar dessa sociedade. Ocorreu, então, que um de seus organizadores, chamado José dos Prazeres, saiu à procura de um advogado, chegando até o deputado Francisco Julião Arruda de Paula, que assume a causa apesar de enfrentar momentos críticos, como ameaças de morte contra ele e sua família, sendo que os quatro filhos seriam enforcados nas árvores do quintal; emboscadas; perseguição; seqüestro; prisão; difamação e calúnia. Mas nem o advogado nem os (as) camponeses (as) recuaram. Já em 1959, o Juiz Nelson Arruda decretou a reintegração de posse em favor do Coronel - Oscar Beltrão. Depois desse acontecimento, os galileus, junto com deputado Francisco Julião, iniciaram uma verdadeira odisséia para conquistar as terras subtraídas pelo latifundiário. Todos os que puderam seguiram para a Assembléia Legislativa de Pernambuco, ficando ali vários dias e noites a pão e água. Esse movimento tinha o intuito de pressionar os deputados a votarem o projeto de desapropriação da terra, de autoria do deputado socialista Carlos Luiz de Andrade. A expressiva maioria dos deputados sendo, portanto integrantes da bancada ruralista, de modo que não votaram a favor da desapropriação, entre outras razões óbvias, pelo medo de que se a desapropriação acontecesse, iria incentivar outros de rebeldia semelhantes no estado de Pernambuco. Francisco Julião lidera uma passeata até o Palácio do Governador, à época, Cid Sampaio, a quem o deputado Julião disse:

“Ou Vossa Excelência desapropria hoje ou manda os carros fúnebres buscar o meu cadáver junto com os dos camponeses da Galileia 12 ” O governador respondeu:

“Volte à Assembléia Legislativa e peça a aprovação do projeto, que eu vou desapropriar o engenho 13 ” Na Assembléia, o resultado da votação do Projeto foi de 13 votos a favor e sete contra. Esse acontecimento histórico foi o primeiro ato de desapropriação de terras destinadas à

12 Documentário A liga que ligou o Nordeste.

13 Idem.

reforma agrária no Brasil. O autor Leonilde Medeiros revelar segundo ele o que marcou a ação das Ligas foi

O fato de os camponeses irem às ruas, realizando marchas, comícios,

congressos, procurando não só reforçar sua organização interna como ampliar sua base de apoio nas cidades, e, dessa forma, coloca-se ao abrigo da repressão dos proprietários. Ao mesmo tempo, lutavam pela desapropriação do engenho Galiléia, o que conseguiram do governo estadual em 1959. Tais ações projetaram as Ligas nacionalmente, alimentando o debate sobre a natureza da propriedade da terra e a necessidade de reforma agrária 14 ”.

“(

)

Novas lideranças surgiram, mas o deputado Francisco Julião seguia como a principal referência das ligas em todo o Brasil. Outra grande conquista dos trabalhadores rurais da indústria canavieira foi o estatuto da Terra, que regulamentava e estabelecia valores justos para as tarefas executadas, e obtiveram um reajuste de 80% de aumento salarial. Conquistas significantes para a classe camponesa na época. Levando em consideração o pouco tempo de vida que tinha o movimento das ligas no Nordeste brasileiro. Essas movimentações criarão profundas marcas no cenário político de Pernambuco e no Brasil.

A LUTA ARMADA

Essa organização seria, por muito tempo, a principal referência para muitos homens e mulheres do campo no Nordeste brasileiro, pois inspirou vários aglutinamentos de trabalhadores e trabalhadoras tanto no campo como nas principais cidades da Região Nordeste, conforme relata Alexina Crêspo em entrevista

“Eu conversava com ele (Julião), e dizia o que nós estávamos pretendendo. Houve inclusive uma ocasião em que havia duas correntes nas Ligas, do pessoal favorável à luta armada. Uma queria dividir o Brasil assim, horizontalmente (faz o gesto com a mão, mostrando). Entre Norte e Sul. Outra que queria dividir assim, verticalmente. Esta era a que o padre Alípio (de Freitas, integrante das Ligas na época; vive hoje em Portugal) queria. A proposta dele era que assim seria possível tomar as fábricas, as montadoras de automóvel, para fazer armas. Era um negócio meio absurdo, meio utópico. Justamente onde tinha mais mata para a gente fazer a guerrilha,

14 MEDEIROS, Leonilde Sérvolo de. História dos movimentos sociais no campo. Rio de Janeiro: FASE, 1989.p

46.

mais rios, essa coisa toda, ficava isolada. E a gente ficava com a fronteira do lado de cá, toda a costa, era super perigoso. A corrente que eu defendia preferia o corte horizontal. Assim a gente ficava com diversas fronteiras, que poderiam nos ajudar. Com as Guianas, de onde poderia vir ajuda de Cuba. E com mais um pedaço aqui no Nordeste. Mas minha proposta foi derrotada. Tudo isso eu levei para Fidel. E ele disse: "Essa aqui tem mais lógica". Era a

proposta que eu defendia. Porque você pegava as fronteiras

Inclusive da

África, que fica pertinho daqui. Naquela época a Argélia estava muito ligada a Cuba, poderia vir ajudar também por aí 15 ”.

As Ligas foram à primeira organização brasileira a partir para a luta armada. Porém, tiveram apoio de Cuba com armamentos e treinamentos para os guerrilheiros. Por outro lado, essa movimentação atraía a atenção das classes dominantes, principalmente dos ricos latifundiários, que não viam com bons olhos certas organizações. Associações e sindicatos representavam uma verdadeira ameaça ao poder exercido pelo latifundiário, o chamado “coroné”, “majó”, “sinhô”, “patrão” etc. Todos esses mantinham poderes plenos nas respectivas regiões.

As Ligas possuíam pelo menos oito dispositivos, como eram chamados os seus campos de treinamento de guerrilha, situados em estados diferentes. Quando o dispositivo de Dianópolis (estado de Goiás) foi desmontado pelas Forças Armadas, parou de vez a ação guerrilheira das Ligas? Parou, parou. Ali, em Goiás, foi uma traição danada. Um agente da polícia nos denunciou. Nós tínhamos uma maneira de nos aproximarmos dos dispositivos. A gente se aproximava cantando ou assoviando o hino de Cuba porque ninguém conhecia. Era a senha. Essa pessoa foi lá e denunciou tudo 16 .

A operação foi desbaratada quando o dispositivo de Dianópolis, no norte de Goiás, foi invadido pelas Forças Armadas. No exílio, Alexina Crespo continuou a ter uma importância fundamental, representando o Brasil em reuniões com líderes dos principais países socialistas:

Cuba, Vietnã, União Soviética, China, Coréia do Norte, Chile (governo de Salvador Allende), na incumbência de arrecadar recursos e apoio para a revolução no Brasil 17 .

15 SANTIAGO, Vandeck. Especial golpe de 64. Diário de Pernambuco, 31 mar. 2004. Caderno especial, p. 06.

16 Idem.

17 BARRETO. Túlio, Velho e Ferreira. Laurindo. Na trilha do golpe (1964 revisitado). Recife; Editora Massangana, 2004. P 162.

Na iconografia Alexina Crêspo com o marido e os filhos, em Havana, em fevereiro de 1964. Na foto aparecem, ainda, Luiz Albino da Silva e Isaac Pedro Teixeira, filho do líder camponês paraibano João Pedro Teixeira, assassinado em 1962 no município de Sapé na Paraíba.

assassinado em 1962 no município de Sapé na Paraíba. (Fig.03 Alexina Crêspo e família em Cuba

(Fig.03 Alexina Crêspo e família em Cuba 18 )

Em entrevista a um jornal da capital pernambucana, ela relata um desses momentos em que estava reunida com dirigentes e traçavam planos sobre as distintas possibilidades de se desenvolver o projeto de revolução no Brasil. Alexina Crêspo

“É, eu me lembro que estavam Fidel, o comandante “Barba Roja” (como era conhecido o comandante Manuel Piñeiro, um dos combatentes da Revolução Cubana), que era o encarregado de todos esses movimentos na América Latina. Aí, eu botei o mapa assim, no chão, e comecei a explicar. E Fidel

olhou assim, eu explicando, e ele disse: 'Pero qué pasa con tu español? ' E eu disse: 'O mesmo que se passa com o seu português. Eu entendo espanhol mas não falo. E você entende português mas não fala'. O comandante ficou

olhando assim

(faz um ar sorridente) 19 ”.

18 Fonte: www.alepe.pe.gov.br/sistemas/perfil/parlamentares/FranciscoJuliao 05.09.2011 19 SANTIAGO, Vandeck. Especial golpe de 64. Diário de Pernambuco, Pernambuco, 31 mar. 2004. Caderno especial, p. 06.

Cada vez que esteve à frente de missões, delicadas ou não, para as quais estava

designada, sempre as exercia com firmeza, cumprindo o que fora acordado, tornando-se dessa

forma referência para vários (as) outros (as) militantes. Realizou treinamento guerrilheiro em

Cuba, chegando a tornar-se instrutora em campos de treinamento para revolucionários. Conta

Alexina Crêspo:

Tivemos aula

também sobre curva de nível, quando se aprende a atirar com morteiro. Você tem que colocar no chão e calcular a curva que a bala tem que fazer para

atingir o alvo. Estávamos com um grupo de pessoas que fomos conhecendo em Cuba. Mas não foi uma coisa assim, oficial, do tipo "Fidel mandou

Fomos, nos conhecendo, e aí,

buscar e colocou num lugar especial"

“Foi num campo de tiro ao alvo. Com armas, metralhadora

formou-se o grupo. Não era só gente das Ligas; havia pessoas de outros países 20 ”.

Conciliava as tarefas políticas a ela delegadas com a rotina de mãe, já que no exílio

encarregou-se de criar praticamente sozinha seus quatro filhos, educando-os com muita

dificuldade. Mas formaram-se todos. Como mãe que sempre se encontra ao lado de seus

filhos, podemos dizer que cada camponês/camponesa pode se sentir um pouco filho (a) de

Alexina Crêspo, porque ela nunca os (as) abandonou em suas metas para a luta pela Reforma

Agrária, assim como em seu pensamento e sua angústia por não poder fazer mais por

eles/elas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Eu só fiz o que tinha que fazerAlexina Crêspo.

Em uma época de grandes agitações políticas e ideológicas o Nordeste

especificamente Pernambuco, havia um clima de tensão muito forte, seja no campo ou na

cidade. Um sopro de conspiração pairava em cada rua em cada esquina. Porém, com o

surgimento da frente do Recife, primeiramente com vitória de Pelópidas Silveira, prefeito do

20 Idem.

Recife e logo em seguida a chegada Miguel Arraes ao palácio do campo das princesas como Governado do Estado. E as atuações do Partido Comunista do Brasil o (PCB), que neste momento vai gozar de certa “liberdade” política. O Partido Comunista vai dar prioridade aos trabalhos de bases nos bairros, em associações, em ligas de dominó no interior do estado e nas varias esferas tanto municipal quanto estadual. O MCP importante movimento que aglutinou diversas forças políticas do estado, em torno de um objetivo, desenvolver a educação no estado e difundir a cultura. Com projeto voltado para a população mais carente do estado. Serão no campo as principais atuações das Ligas Camponesas, orientando os trabalhadores e trabalhadoras para melhor organizarem-se. Pernambuco parecia respirar um ar de “liberdade democrática” lampejos de um incipiente progresso, que logo seria ceifado em março de 1964, com o golpe civil militar. É nesse contexto que surgirá Alexina Lins de Crêspo Paula, simplesmente Alexina Crêspo ou como era conhecida por seus camaradas com seu codinome “Maria”. Casou com Francisco Julião em 1° de Abril de 1943, aquele que logo seria um dos principais organizadores do momento das ligas camponesas e deputado. Não deixo ofusca-se pela figura de Francisco Julião, buscou seu espaço. Estudou a noite, rompendo com o conservadorismo e o machismo da época. Pertenceram as fileiras do Partido Comunista do Brasil, o (PCB). Junto com outras companheiras inseridas na luta dos trabalhadores e pela emancipação da mulher. Organizou a ala clandestina das ligas camponesas, representando a mesma em diversos países, com os governos das principais nações socialistas em busca de apoio para a revolução no Nordeste. No exílio, longe de seu povo do seu lugar, vai sofre por não esta no país quando as trevas, travestido de um golpe civil militar tomarem conta do Brasil. O tempo será agora adversário, a lembrança companheira e quase sempre amiga. Porém, essas adversidades não foram suficientes para conter com a vontade de lutar, por um país livre, socialista e soberano. Mulher, humanista e revolucionária! Com certeza essas três palavras podem caracterizar muito bem Alexina Lins de Paula Crêspo.

Referências:

ANDRADE, Manuel Correia de. Lutas camponesas no Nordeste. Ática. 1989.

, A Terra e o Homem no Nordeste. São Paulo: Atlas, 1986.

, Abolição e reforma agrária. São Paulo: Atlas, 1986.

AZEVEDO, Fernando de. As Ligas Camponesas. São Paulo: Paz e Terra, 1982.

BASTOS,Elide Rugai. As Ligas Camponesas. Petrópolis (RJ): Vozes, 1984.

BANDECHI, Brasil. Origem do Latifúndio no Brasil. São Paulo: Fulgor, 1963.

BARRETO, Túlio Velho e Ferreira, Laurindo. Na trilha do golpe (1964 revisitado). Recife:

Massangana, 2004.

BEZERRA, Gregório. Livro de Memórias de 1946-1969. Civilização Brasileira. 1979.

CAVALCANTI, Paulo. O caso eu conto, como o caso foi: da coluna Preste à queda de Arraes. Alfa Omega. São Paulo, 1978.

JULIÃO, Francisco. Que são as ligas camponesas? (coleção “Cadernos do Povo Brasileiro”)

Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1962.

MEDEIROS, Leonilde Sérvolo de. História dos movimentos sociais no campo. Rio de janeiro: FASE, 1989.

MARTINS, José de Souza. Os camponeses e a política no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1981

SANTIAGO, Vandeck. Francisco Julião Perfil Parlamentar. Cape, Pernambuco 2001.

2004.

Outras fontes:

,Francisco

Julião, as ligas e o golpe militar de 64. Recife: Comunigraf,

Documentário Memórias Clandestinas, da cineasta Maria Thereza Azevedo, 2004.

Documentário A liga que ligou o Nordeste, dirigido por Zito da Galileia.

Entrevista:

Entrevista com Alexina Crêspo. Ao Pesquisador: Antônio Henrique da S. Araújo, Novembro de 2010.

SANTIAGO, Vandeck. Especial golpe de 64. Diário de Pernambuco, Pernambuco, 31 mar. 2004. Caderno especial, p. 06.

Agradecimentos:

Andréa Corao – Consulado Geral da República Bolivariana da Venezuela em Recife.

Anatailde de Paula Crêspo – Revisão.

Governo tucano: igual a Requião, igual a Lerner

O jornal Cascavel em Órbita fez uma série de comparações para comprovar que o governo tucano apenas repete o modelo seguido na gestão Requião, que, por sua vez, repetia os esquemas de Lerner: con-

centrar os recursos governamentais na Região Metropolitana de Curiti- ba e no Norte do Paraná. Os números são arrasadores. Mas isso não ocorre, como as elites cos- tumam repetir, por falta de “repre- sentatividade política” regional. Há deputados estaduais e federais das regiões Oeste e Sudoeste, mas eles

estão majoritariamente submetidos aos interesses que controlam as ré- deas do poder no Estado. Apesar da troca de nomes na hierar- quia estadual, as verbas do Estado vão para onde interessa às oligar- quias que há séculos dominam o Estado.

às oligar- quias que há séculos dominam o Estado. AMP=ampliação Enquanto isso, em São Paulo e

AMP=ampliação

quias que há séculos dominam o Estado. AMP=ampliação Enquanto isso, em São Paulo e Brasília, Dilma,
quias que há séculos dominam o Estado. AMP=ampliação Enquanto isso, em São Paulo e Brasília, Dilma,

Enquanto isso, em São Paulo e Brasília, Dilma, tucanos, FHC

isso, em São Paulo e Brasília, Dilma, tucanos, FHC O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD) en- tregou na quarta-feira à presidente Dilma Rousseff a Medalha 25 de Janeiro, favorecendo o encontro en- tre ela e o ex-presidente FHC, do qual ela é admira- dora. Dilma subiu ao palco para receber a homenagem acompanhada pelo governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, com quem conversou ao pé do ouvido durante todo o tempo. Antes de iniciar o dis-

curso ela fez uma saudação especial ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e não poupou elogios ao prefeito de São Paulo. Ela convidou FHC a com- parecer a Brasília, onde ofereceu ontem no Palácio da Alvorada, onde reside, um jantar a veteranos ex- governantes, dentre os quais o ex-presidente norte- americano Jimmy Carter. Poucos e envergonhados líderes petistas compareceram. A maioria evitou a companhia de FHC, Alckmin e Kassab.

O que há por trás da desocupação

O que há por trás da desocupação O governador tucano Geraldo Alckmin preten- de ser o

O governador tucano Geraldo Alckmin preten-

de ser o ultra-conservador que “garante a or-

dem”, investe contra os pobres insubmissos e

confirma subordinação do Estado aos interesses

da oligarquia. Será preciso, nas próximas horas,

processar todos os dados. Mas ao que tudo indi-

ca, acaba de ocorrer, em São José dos Campos, um massacre e algo mais. O desalojamento de

centenas de famílias, que constituíram um bair-

ro vivo, num latifúndio urbano (1 milhão de m²)

antes reduzido à especulação imobiliária. seria, por si mesmo, um escândalo. Mas há agravan- tes. Naji Nahas, que reivindica a “propriedade” do latifúndio, é um especulador condenado, num país em que a justiça tradicionalmente fe- cha os olhos (e a política institucional corte- ja…) os corruptores e criminosos de colarinho branco. Mais: havia uma trégua em curso, acer-

tada por todas as partes, e uma decisão da Justi-

ça Federal mandando suspender a mal-chamada

“reintegração de posse”. O caso ganhou notori- edade nacional e internacional há pouca sema- nas. Cansados de tantas arbitrariedades, alguns

membros da ocupação vestiram-se de uniformes de resistência improvisados, numa encenação artística do que pode vir ser o contra-poder po- pular.

O governo de Geraldo Alckmin, ligado ao fun-

damentalismo “cristão” de direita e o Tribunal de Justiça de São Paulo, conhecido por seus la- ços com o que há de mais feudal e escravocrata na oligarquia paulista, não toleraram a hipótese

de diálogo, muito menos a irreverência das i- magens. Num país em que a oposição tradicio- nal parece paralisada, Alckmin pretende, ao que tudo indica, ocupar o espaço da violência contra

os pobres insubmissos e da submissão do Esta-

do aos interesses do capital que se liga a oligar- quia.É provável que tenha se mobilizado por

isso. Certamente, não ignorava o acordo firma- do, há poucos dias, entre os movimentos de sem-teto e a Justiça Federal. Quis mostrar que não o respeita; que seu projeto político inclui até mesmo passar por cima das negociações que buscam a conciliação social, quando esta não serve à oligarquia financeira. Não se sabe quan- tas foram as vítimas pessoais desta deriva ultra-

conservadora do governador de São Paulo. Mas já é possível enxergar que entre as vítimas está a democracia. (Antônio Martins, jornalista)

Escombros do Pinheirinho contam histórias de vidas

Escombros do Pinheirinho contam histórias de vidas Estivemos no terreno do Pinheirinho, em São José dos

Estivemos no terreno do Pinheirinho, em São José dos Campos, ontem, e o que foi encontra- do não é diferente dos escombros que podem ser vistos após terremotos ou furacões. Restos de sofás, máquinas de lavar e brinquedos estão por todos os lados. Muitos animais, como gali- nhas, passeiam tranquilamente no meio dos des- troços. O acesso ao local está interditado pela Polícia Militar. Só é possível entrar no Pinhei- rinho se os jornalistas estiverem acompanhados de um policial. Tranquilo, o oficial de polícia que nos acompanhou não restringiu nenhum tipo de fotografia ou filmagem, além de ter a- firmado que o acesso na segunda (22) estava mais restrito à imprensa para sua própria segu- rança. Tentamos conversar com a assessoria de imprensa da PM, mas a sala da mesma em uma escola próxima ao bairro já estava fechada quando chegamos. O cenário no terreno de- monstra que muitos moradores tiveram um grande prejuízo, sem terem tido tempo para reti- rar dali seus pertences. Foram encontrados no- tebooks muito antigos quebrados, vitrolas, car- tões de banco, sofás e outros objetos. Chama a atenção um sofá, com dois grandes ursos de pe- lúcia. Seus donos, provavelmente crianças, es- tão em algum abrigo da prefeitura, bem distan- tes de seus antigos brinquedos. Também se des- taca o fato de que grande parte dos aparelhos eletroeletrônicos destruídos no local são mode- los bastante antigos, sem luxo. Nenhum ex-morador do Pinheirinho estava próximo ao antigo local do acampamento. Não adiantaria muito, já que a maior parte das casas já está no chão e já não há quase nenhum per- tence que não esteja destruído, que possa ser recolhido pelos antigos proprietários. (Aurélio Moraes, jornalista)

Manifestação em Cascavel: PCB, PSOL e PSTU mostram a unidade em torno das lutas populares.

Manifestação em Cascavel: PCB, PSOL e PSTU mostram a unidade em torno das lutas populares.

É uma nova Cascavel que surge dessa ação conjunta:

a Cascavel do Poder Popular

surge dessa ação conjunta: a Cascavel do Poder Popular Lembre-se: em Cascavel, nós somos a Revolução!

Lembre-se: em Cascavel, nós somos a Revolução!

Popular Lembre-se: em Cascavel, nós somos a Revolução! Este espaço está sempre aberto para artigos e
Popular Lembre-se: em Cascavel, nós somos a Revolução! Este espaço está sempre aberto para artigos e

Este espaço está sempre aberto para artigos e manifestações da comunidade

Na Internet, acompanhe o blog do PCB de Cascavel:

http://pcbcascavel.wordpress.com

Veja também o blog da Juventude Comunista de Cascavel:

http://ujccascavel.blogspot.com

Twitter:

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http://twitter.com/pcbparana

Juventude Comunista de Cascavel:

http://twitter.com/#!/j_comunista

A seguir, um dos capítulos da cartilha de Marxismo e uma página colecionável de O Capital em quadrinhos

1

Curso Básico de Marxismo

O trabalho no comunismo primitivo

5

Básico de Marxismo O trabalho no comunismo primitivo 5 O marxismo é o sucessor legítimo do

O marxismo é o sucessor legítimo do que de melhor criou a humanidade no século XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês – Lênin

Trabalho rural

A soma dos meios de produção com os produtores de bens compõe as forças produtivas da sociedade. O grau de desenvolvimento delas indica o grau em que o homem conseguiu dominar a natureza. Os meios de trabalho, a experiência de produção e o produto do trabalho são o resultado da atividade conjunta dos homens, no decurso do qual eles contraem relações de produção. Na Antiguidade, a relação de produção era a obtenção dos meios imprescindíveis para a subsistência da comunidade: todos se ajudavam mutuamente, produziam e consumiam em conjunto. Era o comunismo primitivo. Nas sociedades que vieram depois, a escravagista, a feudal e a capitalista, as relações de produção são bens diferentes: muitos trabalham e alguns poucos exploram. É o que ainda hoje ocorre no mundo, submetido ao capitalismo. Mas ao passar para o Socialismo, o quadro das relações entre os homens voltará a se modificar: vão se estabelecer entre eles relações de colaboração e os bens materiais são distribuídos de acordo com o trabalho realizado. Isto será assim porque, no Socialismo, os meios de produção pertencem à sociedade.

2

Nota-se que as relações de produção dependem de em que mãos estão as propriedades. Por isso, as relações de produção também são relações de propriedade.

Os homens não podem viver sem se apropriarem de bens materiais por eles criados. Ao fazê-lo, estabelecem entre si relações de propriedade.

A produção é impossível sem uma ou outra forma de propriedade como

forma historicamente determinada de apropriação dos bens.

A propriedade privada sobre os meios de produção gera relações de

exploração. A propriedade social determina relações de colaboração no trabalho.

Do sistema primitivo à exploração No princípio, a produção era muito baixa. Os instrumentos de trabalho principais eram o machado de pedra, a lança e mais tarde o arco-e-flecha. Agindo associadamente, conseguia-se satisfazer um mínimo de necessidades. O produto do trabalho pertencia a todos. Era o Comunismo Primitivo, que, ao contrário do novo Comunismo proposto por Marx, baseava-se na escassez: no futuro, o Comunismo se implantará pela abundância da produção altamente desenvolvida.

O Comunismo Primitivo (antiguidade) desapareceu justamente devido à

sua base nas privações. Logo os instrumentos de produção se aperfeiçoariam,

surgindo as ferramentas metálicas. Dá-se, então, a divisão social do trabalho: uns cultivam a terra, outros cuidam de animais ou se dedicam ao artesanato. Com a divisão do trabalho, dá-se a necessidade da troca de produtos.

O lavrador precisa de carne, o pecuarista precisa de artigos manufaturados,

o artesão precisa de produtos agrícolas e assim por diante. Só a troca é capaz de satisfazer essas necessidades. Com o desenvolvimento dessas relações de produção e as trocas, surge a propriedade privada, que vai gerar a desigualdade econômica. Essa desigualdade permite que os anciãos e chefes das tribos enriqueçam. Com a evolução dos instrumentos de trabalho, portanto, o homem começa

a produzir mais do que precisa para sobreviver. Com o aparecimento de produção excedente – sobra – aparece pela primeira a exploração do homem: os ricos subjugam os pobres e fazem escravos os prisioneiros de guerra (a guerra é uma forma de obter propriedade privada). A seguir: Surge o Escravismo

Lições de Comunismo número 37

A cada nova edição do P er CeB er você receberá mais uma página de O Capital em quadrinhos